Vita Consecrata
PÓS SINODAL VITA CONSECRATA DO SANTO
PADRE JOAO PAULO II AO EPISCOPADO E AO CLERO, ÀS ORDENS E CONGREGAÇÕES
RELIGIOSAS, ÀS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA, AOS INSTITUTOS SECULARES E A
TODOS OS FIÉIS SOBRE A VIDA CONSAGRADA E A SUA MISSÃO NA IGREJA E NO MUNDO
(Esta transcrição é feito do Jornal L-Osservatore
Romano, do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras
são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)
INTRODUÇÃO
1. A vida consagrada,
profundamente arreigada nos exemplos e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom
de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito. Através da profissão dos
conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus — virgem, pobre e obediente
— adquirem uma típica e permanente « visibilidade » no meio do mundo, e o olhar
dos fiéis é atraído para aquele mistério do Reino de Deus que já actua na
história, mas aguarda a sua plena realização nos céus. Ao longo dos séculos,
nunca faltaram homens e mulheres que, dóceis ao chamamento do Pai e à moção do
Espírito, escolheram este caminho de especial seguimento de Cristo, para se
dedicarem a Ele de coração « indiviso » (cf. 1 Cor 7,34). Também eles deixaram
tudo, como os Apóstolos, para estar com Cristo e colocar-se, como Ele, ao
serviço de Deus e dos irmãos. Contribuíram assim para manifestar o mistério e a
missão da Igreja, graças aos múltiplos carismas de vida espiritual e apostólica
que o Espírito Santo lhes distribuía, e deste modo concorreram também para
renovar a sociedade.
Acção de graças pela vida
consagrada
2. O papel da vida
consagrada na Igreja é tão notável que decidi convocar um Sínodo para
aprofundar o seu significado e as suas perspectivas em ordem ao novo milénio,
já iminente. Na Assembleia sinodal, quis que, ao lado dos Padres, estivesse
também presente um número considerável de pessoas consagradas, a fim de não
faltar a sua contribuição para a reflexão comum.Cientes, como estamos todos, da
riqueza que constitui, para a comunidade eclesial, o dom da vida consagrada na
variedade dos seus carismas e das suas instituições, juntos damos graças a Deus
pelas Ordens e Institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de
apostolado, pelas Sociedades de Vida Apostólica, pelos Institutos seculares, e
pelos outros grupos de consagrados, como também por todos aqueles que, no
segredo do seu coração, se dedicam a Deus por uma especial consagração.No
Sínodo, pôde-se constatar a expansão universal da vida consagrada, achando-se
presente nas Igrejas de toda a terra. Ela estimula e acompanha o avanço da
evangelização nas diversas regiões do mundo, onde não apenas são acolhidos com
gratidão os Institutos vindos de fora, mas constituem-se também novos e com
grande variedade de formas e expressões.E se os Institutos de vida consagrada,
nalgumas regiões da terra, parecem atravessar momentos de dificuldade, noutras
prosperam com um vigor surpreendente, demonstrando que a opção de total doação
a Deus em Cristo não é de forma alguma incompatível com a cultura e a história
de cada povo. E não prospera só dentro da Igreja católica; na verdade, a vida
consagrada acha-se particularmente viva no monaquismo das Igrejas ortodoxas,
como rasgo essencial da sua fisionomia, e está a começar ou a ressurgir nas
Igrejas e Comunidades eclesiais nascidas da Reforma, como sinal de uma graça
comum dos discípulos de Cristo. Uma tal constatação serve de estímulo ao
ecumenismo, que alimenta o desejo de uma comunhão cada vez mais plena entre os
cristãos, « para que o mundo creia » (Jo 17,21).
A vida consagrada, dom à
Igreja
3. A presença universal
da vida consagrada e o carácter evangélico do seu testemunho provam, com toda a
evidência — caso isso fosse ainda necessário —, que ela não é uma realidade
isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja. No Sínodo, os Bispos
confirmaram-no por diversas vezes: « de re nostra agitur », « é algo que nos
diz respeito ».Na verdade, a vida consagrada está colocada mesmo no coração da
Igreja , como elemento decisivo para a sua missão, visto que « exprime a íntima
natureza da vocação cristã »e a tensão da Igreja-Esposa para a união com o
único Esposo.Diversas vezes se afirmou, no Sínodo, que a função de ajuda e
apoio exercida pela vida consagrada à Igreja não se restringe aos tempos
passados, mas continua a ser um dom precioso e necessário também no presente e
para o futuro do Povo de Deus, porque pertence intimamente à sua vida,
santidade e missão.As dificuldades actuais, que vários Institutos encontram
nalgumas regiões do mundo, não devem induzir a pôr em dúvida o facto de que a
profissão dos conselhos evangélicos é parte integrante da vida da Igreja, à
qual presta um impulso precioso em ordem a uma coerência evangélica cada vez
maior.Historicamente poderá haver uma sucessiva variedade de formas, mas não
mudará a substância de uma opção que se exprime na radicalidade do dom de si
mesmo por amor do Senhor Jesus e, n-Ele, por amor de cada membro da família
humana. Sobre esta certeza que animou inúmeras pessoas ao longo dos séculos, o
povo cristão continua a esperar , sabendo bem que, da ajuda destas almas
generosas, pode receber um apoio muito válido no seu caminho para a pátria
celestial.
Recolhendo os frutos do
Sínodo
4. Acedendo ao desejo
manifestado pela Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, reunida para
reflectir sobre o tema « A vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo
», é meu intuito propor, nesta Exortação Apostólica, os frutos do itinerário
sinodale manifestar a todos os fiéis — Bispos, presbíteros, diáconos, pessoas
consagradas e leigos —, e ainda a quantos quiserem prestar atenção, as
maravilhas que o Senhor deseja realizar, hoje também, através da vida
consagrada. Este Sínodo, realizado depois dos que foram dedicados aos leigos e
aos presbíteros, completa a exposição das peculiaridades características dos
vários estados de vida, que o Senhor Jesus quis na sua Igreja. Na verdade, se
no Concílio Vaticano II foi sublinhada a grande realidade da comunhão eclesial,
que faz convergir todos os dons e carismas para a construção do Corpo de Cristo
e para a missão da Igreja no mundo, nestes últimos anos sentiu-se a necessidade
de explicitar melhor a identidade dos vários estados de vida, a sua vocação e
missão específica na Igreja.A comunhão na Igreja não é, de facto, uniformidade,
mas dom do Espírito que passa também através da variedade dos carismas e dos
estados de vida. Estes serão tanto mais úteis à Igreja e à sua missão, quanto
maior for o respeito pela sua identidade. Com efeito, todo o dom do Espírito é
concedido a fim de frutificar para o Senhor,no crescimento da fraternidade e da
missão.
A obra do Espírito, nas
várias formas de vida consagrada
5. Como não recordar,
cheios de gratidão ao Espírito, a abundância das formas históricas de vida
consagrada, por Ele suscitadas e continuamente mantidas no tecido eclesial?
Assemelham-se a uma planta com muitos ramos,que assenta as suas raízes no
Evangelho e produz frutos abundantes em cada estação da Igreja. Que riqueza
extraordinária! Eu mesmo, no final do Sínodo, senti a necessidade de sublinhar
este elemento constante na história da Igreja: a multidão de fundadores e
fundadoras, de santos e santas, que escolheram seguir Cristo na radicalidade do
Evangelho e no serviço fraterno, especialmente a favor dos pobres e dos
abandonados.Precisamente neste serviço resulta, com particular evidência, como
a vida consagrada manifesta o carácter unitário do mandamento do amor, na sua
conexão indivisível entre o amor de Deus e o amor do próximo. O Sínodo recordou
esta obra incessante do Espírito Santo, que vai explanando, ao longo dos
séculos, as riquezas da prática dos conselhos evangélicos através dos múltiplos
carismas, e que, também por este caminho, torna o mistério de Cristo
perenemente presente na Igreja e no mundo, no tempo e no espaço.
Vida monástica no Oriente
e no Ocidente
6. Os Padres sinodais das
Igrejas católicas orientais e os representantes das outras Igrejas do Oriente
puseram em destaque, nas suas intervenções, os valores evangélicos da vida
monástica,que aparecera já nos primórdios do cristianismo e continua ainda
florescente nos seus territórios, especialmente nas Igrejas ortodoxas. Desde os
primeiros séculos da Igreja, houve homens e mulheres que se sentiram chamados a
imitar a condição de servo abraçada pelo Verbo encarnado, e puseram-se a segui-Lo
vivendo de um modo específico e radical, na profissão monástica, as exigências
derivadas da participação baptismal no mistério pascal da sua morte e
ressurreição. Deste modo, fazendo-se portadores da Cruz (staurophóroi),
comprometeram-se a tornar-se portadores do Espírito (pneumatophóroi), homens e
mulheres autenticamente espirituais, capazes de em segredo fecundar a história,
com o louvor e a intercessão contínua, com os conselhos ascéticos e as obras de
caridade.Com a intenção de transfigurar o mundo e a vida enquanto se aguarda a
visão definitiva do rosto de Deus, o monaquismo oriental privilegia a
conversão, a renúncia a si próprio e a contrição do coração, a procura da
esichia, isto é, da paz interior, e a prece incessante, o jejum e as vigílias,
a luta espiritual e o silêncio, a alegria pascal pela presença do Senhor e pela
expectativa da sua vinda definitiva, a oferta de si mesmo e dos próprios bens,
vivida na santa comunhão do mosteiro ou na solidão eremítica.ambém o Ocidente
praticou, desde os primeiros séculos da Igreja, a vida monástica, registando
uma grande variedade de expressões tanto no âmbito comunitário como no
eremítico. Na sua forma actual, inspirada especialmente em S. Bento, o monaquismo
ocidental recolhe a herança de tantos homens e mulheres que, renunciando à vida
levada no mundo, procuraram a Deus e a Ele se dedicaram, « sem nada antepor ao
amor de Cristo ».Também os monges de hoje se esforçam por conciliar
harmoniosamente a vida interior e o trabalho , no compromisso evangélico da
conversão dos costumes, da obediência, da clausura, e na dedicação assídua à
meditação da Palavra (lectio divina), à celebração da liturgia, à oração. Os
mosteiros foram e continuam a ser, no coração da Igreja e do mundo, um sinal
eloquente de comunhão, um lugar acolhedor para aqueles que buscam Deus e as
coisas do espírito, escolas de fé e verdadeiros centros de estudo, diálogo e
cultura para a edificação da vida eclesial e também da cidade terrena, à espera
da celeste.
A Ordem das virgens, os
eremitas, as viúvas
7. Um motivo de alegria e
esperança é ver que hoje volta a florescer a antiga Ordem das virgens, cuja
presença nas comunidades cristãs é testemunhada desde os tempos
apostólicos.Consagradas pelo Bispo diocesano, elas contraem um vínculo
particular com a Igreja, a cujo serviço se dedicam, mesmo permanecendo no
mundo. Sozinhas ou associadas, constituem uma imagem escatológica especial da
Esposa celeste e da vida futura, quando, finalmente, a Igreja viverá em
plenitude o seu amor por Cristo Esposo. Os homens e as mulheres eremitas,
ligados a Ordens antigas ou a novos Institutos ou então dependentes
directamente do Bispo, testemunham através da separação interior e exterior do
mundo o carácter provisório do tempo presente, e pelo jejum e pela penitência
atestam que o homem não vive só de pão, mas da Palavra de Deus (cf. Mt 4,4).
Uma vida assim « no deserto » é um convite aos indivíduos e à própria
comunidade eclesial para nunca perderem de vista a vocação suprema, que é estar
sempre com o Senhor.Hoje voltou a ser praticada também a consagração tanto das
viúvas ,conhecida desde os tempos apostólicos (cf. 1 Tim 5,5.9-10; 1 Cor 7,8),
como dos viúvos. Estas pessoas, mediante o voto de castidade perpétua como sinal
do Reino de Deus, consagram a sua condição para se dedicarem à oração e ao
serviço da Igreja.
Institutos inteiramente
dedicados à contemplação
8. Os Institutos
orientados completamente à contemplação, formados por mulheres ou por homens,
constituem um motivo de glória e uma fonte de graças celestes para a Igreja.
Com a sua vida e missão, as pessoas que deles fazem parte imitam Cristo em
oração no cimo do monte, testemunham o domínio de Deus sobre a história,
antecipam a glória futura. Na solidão e no silêncio, mediante a escuta da
Palavra de Deus, a realização do culto divino, a ascese pessoal, a oração, a
mortificação e a comunhão do amor fraterno, orientam toda a sua vida e
actividade para a contemplação de Deus. Oferecem assim à comunidade eclesial um
testemunho singular do amor da Igreja pelo seu Senhor, e contribuem, com uma
misteriosa fecundidade apostólica, para o crescimento do Povo de Deus. É justo,
portanto, desejar que as várias formas de vida contemplativa conheçam uma
difusão crescente nas jovens Igrejas, enquanto expressão de pleno enraizamento
do Evangelho, sobretudo naquelas regiões do mundo onde predominam outras
religiões. Isto permitirá testemunhar o vigor das tradições cristãs de ascese e
mística, e favorecerá também o diálogo inter-religioso.
A vida religiosa
apostólica
9. No Ocidente,
floresceram ao longo dos séculos muitas outras expressões de vida religiosa,
nas quais inúmeras pessoas, renunciando ao mundo, se consagraram a Deus,
através da profissão pública dos conselhos evangélicos segundo um carisma
específico e numa forma estável de vida comum, para um serviço apostólico
pluriforme ao Povo de Deus. Temos, assim, as diversas famílias de Cónegos
regulares, as Ordens mendicantes, os Clérigos regulares, e as Congregações religiosas
masculinas e femininas, em geral, dedicadas à actividade apostólica e
missionária e às múltiplas obras que a caridade cristã suscitou. É um
testemunho esplêndido e variegado, onde se reflecte a multiplicidade dos dons
dispensados por Deus aos fundadores e fundadoras que, abertos à acção do
Espírito Santo, souberam interpretar os sinais dos tempos e responder, de forma
esclarecida, às exigências que sucessivamente iam aparecendo. Seguindo os seus
passos, muitas outras pessoas procuraram, com a palavra e a acção, encarnar o
Evangelho na própria existência, para apresentar aos seus contemporâneos a
presença viva de Jesus, o Consagrado por excelência e o Apóstolo do Pai. É em
Cristo Senhor que se devem continuar a rever os religiosos e religiosas de cada
época, alimentando na oração uma profunda comunhão de sentimentos com Ele (cf.
Fil 2,5-11), para que toda a sua vida seja permeada de espírito apostólico, e
toda a acção apostólica seja repassada de contemplação.
Os Institutos seculares
10. O Espírito Santo,
artífice admirável da diversidade de carismas, suscitou no nosso tempo novas
expressões de vida consagrada, como que desejando corresponder, segundo um
desígnio providencial, às novas necessidades que a Igreja encontra hoje no
cumprimento da sua missão no mundo. Vêm ao pensamento, antes de mais, os
Institutos seculares, cujos membros pretendem viver a consagração a Deus no
mundo, através da profissão dos conselhos evangélicos no contexto das
estruturas temporais, para serem assim fermento de sabedoria e testemunhas da
graça no ambito da vida cultural, económica e política. Através da síntese de
secularidade e consagração, que os caracteriza, eles querem infundir na
sociedade as energias novas do Reino de Cristo, procurando transfigurar o mundo
a partir de dentro com a força das bem-aventuranças. Desta forma, ao mesmo
tempo que a pertença total a Deus os torna plenamente consagrados ao seu
serviço, a sua actividade nas condições normais dos leigos contribui, sob a
acção do Espírito, para a animação evangélica das realidades seculares. Os
Institutos seculares contribuem assim para garantir à Igreja, segundo a índole
específica de cada um, uma presença incisiva na sociedade.ambém realizam uma
função preciosa os Institutos seculares clericais, onde sacerdotes pertencentes
ao presbitério diocesano — mesmo quando lhes é reconhecida a incardinação no
próprio Instituto — se consagram a Cristo através da prática dos conselhos
evangélicos segundo um específico carisma. Eles encontram, nas riquezas
espirituais do próprio Instituto a que pertencem, uma grande ajuda para viver
intensamente a espiritualidade própria do sacerdócio e ser assim fermento de
comunhão e generosidade apostólica entre os seus irmãos.
As Sociedades de Vida
Apostólica
11. Merecem, depois, uma
especial menção as Sociedades de Vida Apostólica ou de vida comum, masculinas e
femininas, que perseguem, com seu estilo próprio, um específico fim apostólico
e missionário. Em muitas delas, assumem-se expressamente os conselhos
evangélicos, com vínculos sagrados reconhecidos oficialmente pela Igreja. Mesmo
neste caso, todavia, a peculiaridade da sua consagração distingue-as dos
Institutos religiosos e dos Institutos seculares. Há que salvaguardar e
promover a especificidade desta forma de vida, que, ao longo dos últimos
séculos, produziu tantos frutos de santidade e de apostolado, especialmente no
campo da caridade e na difusão missionária do Evangelho.
Novas expressões de vida
consagrada
12. A perene juventude da
Igreja continua a manifestar-se também hoje: nos últimos decénios, depois do
Concílio Ecuménico Vaticano II, apareceram formas novas ou renovadas de vida
consagrada . Em muitos casos, trata-se de Institutos semelhantes aos que já
existem, mas nascidos de novos estímulos espirituais e apostólicos. A sua
vitalidade deve ser ponderada pela autoridade da Igreja, a quem compete
proceder aos devidos exames, quer para comprovar a autenticidade da sua
finalidade inspiradora, quer para evitar a excessiva multiplicação de
instituições análogas entre si, com o consequente risco de uma nociva
fragmentação em grupos demasiadamente pequenos. Noutros casos, trata-se de
experiências originais, que estão à procura da sua própria identidade na Igreja
e esperam ser reconhecidas oficialmente pela Sé Apostólica, a única a quem
compete o juízo definitivo.Estas novas formas de vida consagrada, que se vêm
juntar às antigas, testemunham a constante atracção que a doação total ao
Senhor, o ideal da comunidade apostólica, os carismas de fundação continuam a
exercer mesmo sobre a geração actual, e são sinal também da complementaridade
dos dons do Espírito Santo.Mas o Espírito não Se contradiz na inovação. Prova-o
o facto de que as novas formas de vida consagrada não substituíram as antigas.
Numa variedade tão grande de formas, pôde-se conservar a unidade de fundo
graças ao chamamento sempre idêntico a seguir, na busca da perfeita caridade,
Jesus virgem, pobre e obediente. Este chamamento, tal como se encontra em todas
as formas já existentes, assim é requerido naquelas que se propõem como novas.
Finalidade da Exortação
Apostólica
13. Com esta Exortação
Apostólica, que recolhe os frutos dos trabalhos sinodais, pretendo dirigir-me a
toda a Igreja, para oferecer não só às pessoas consagradas, mas também aos
Pastores e aos fiéis, os resultados de um sugestivo confronto, sobre cujo
desenvolvimento o Espírito Santo não cessou de velar com os seus dons de
verdade e de amor. Nestes anos de renovação, a vida consagrada atravessou, como
de resto outras formas de vida na Igreja, um período delicado e árduo. Foi um
período rico de esperanças, de tentativas e propostas inovadoras, visando
revigorar a profissão dos conselhos evangélicos. Mas foi também um tempo com as
suas tensões e angústias, ao longo do qual experiências até generosas nem
sempre foram coroadas de resultados positivos.As dificuldades, porém, não devem
levar ao desânimo. Pelo contrário, é preciso empenhar-se com novo ardor, porque
a Igreja necessita da contribuição espiritual e apostólica de uma vida
consagrada renovada e vigorosa. Através da presente Exortação pós-sinodal,
desejo dirigir-me às comunidades religiosas e às pessoas consagradas, com o
mesmo espírito que animava a carta enviada pelo Concílio de Jerusalém aos
cristãos de Antioquia, e nutro a esperança de que se possa repetir, hoje
também, a mesma experiência de outrora: « Depois de a lerem, todos ficaram
satisfeitos com o encorajamento que lhes trazia » (Act 15,31). Mais: nutro
ainda a esperança de fazer crescer a alegria de todo o Povo de Deus, que,
conhecendo melhor a vida consagrada, poderá mais conscientemente dar graças ao
Omnipotente por este grande dom.Em atitude de cordial sintonia com os Padres
sinodais, recolhi como um tesouro as preciosas contribuições surgidas durante
os intensos trabalhos da Assembleia, nos quais quis estar sempre presente.
Naquela época, tive o cuidado também de oferecer a todo o Povo de Deus algumas
catequeses sistemáticas sobre a vida consagrada na Igreja. Nelas propus
novamente os ensinamentos presentes nos textos do Concílio Vaticano II, tendo
este sido um luminoso ponto de referência para os sucessivos desenvolvimentos
doutrinais e para a própria reflexão realizada pelo Sínodo durante as semanas
intensas dos seus trabalhos.om a confiança de que os filhos da Igreja, de modo
particular as pessoas consagradas, vão também acolher com cordial adesão esta
Exortação, faço votos por que a reflexão prossiga em ordem ao aprofundamento do
grande dom da vida consagrada na tríplice dimensão da consagração, da comunhão
e da missão, e que os consagrados e as consagradas, em plena sintonia com a
Igreja e o seu Magistério, encontrem deste modo novos estímulos para enfrentar
espiritual e apostolicamente os desafios que forem surgindo.
CAPÍTULO I
CONFESSIO TRINITATIS
NAS FONTES CRISTOLÓGICO-TRINITÁRIAS
DA VIDA CONSAGRADA
O ícone de Cristo
transfigurado
14. O fundamento
evangélico da vida consagrada há-de ser procurado naquela relação especial que
Jesus, durante a sua existência terrena, estabeleceu com alguns dos seus
discípulos, convidando-os não só a acolherem o Reino de Deus na sua vida, mas
também a colocarem a própria existência ao serviço desta causa, deixando tudo e
imitando mais de perto a sua forma de vida. Esta existência « cristiforme »,
proposta a tantos baptizados ao longo da história, só é possível com base numa
vocação especial e por um dom peculiar do Espírito. De facto, numa tal
existência, a consagração baptismal é levada a uma resposta radical no
seguimento de Cristo pela assunção dos conselhos evangélicos, sendo o vínculo sagrado
da castidade pelo Reino dos Céus o primeiro e mais essencial deles.Assim, este
especial « seguimento de Cristo », em cuja origem está sempre a iniciativa do
Pai, reveste uma conotação essencialmente cristológica e pneumatológica,
exprimindo de forma muito viva o carácter trinitário da vida cristã, da qual
antecipa de algum modo a realização escatológica, para onde tende a Igreja
inteira.o Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o
sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão de
conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar o
olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. A este
« ícone » faz referência toda a tradição espiritual antiga, quando relaciona a
vida contemplativa com a oração de Jesus « no monte ».ab ipso Domino
familiarissime celebrata, ab eius discipulis ipso praesente concupita: cuius
transfigurationis gloriam cum vidissent qui cum eo in monte sancto erant,
continuo Petrus (...) optimum sibi iudicavit in hoc semper esse » (Ad fratres
de Monte Dei I,1: PL 184, 310).] Mas de algum modo podem-se espelhar lá também
as dimensões « activas » da vida consagrada, visto que a Transfiguração não é
só revelação da glória de Cristo, mas também preparação para enfrentar a cruz.
Implica um « subir ao monte » e um « descer do monte »: os discípulos que
gozaram da intimidade do Mestre, envolvidos durante alguns momentos pelo
esplendor da vida trinitária e da comunhão dos santos, como que arrebatados até
ao limiar da eternidade, são reconduzidos logo a seguir à realidade quotidiana,
onde vêem « apenas Jesus » na humildade da sua natureza humana, e são
convidados a regressar ao vale para partilharem com Ele o peso do desígnio de
Deus e empreender corajosamente o caminho da cruz.
« Transfigurou-Se diante
deles »
15. Seis dias depois,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular,
a um alto monte. Transfigurou-Se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o
sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés
e Elias a conversar com Ele. Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus:« Senhor,
é bom [nós] estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti,
uma para Moisés e outra para Elias ».Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem
luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem:« Este é o meu
Filho muito amado, no qual pus todo o meu enlevo; escutai-O ».Ao ouvirem isto,
os discípulos caíram por terra, muito assustados.Aproximando-Se deles, Jesus
tocou-lhes, dizendo:« Levantai-vos e não tenhais medo ».E, erguendo os olhos,
apenas viram Jesus e mais ninguém.Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes:«
Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite
dos mortos » ( Mt 17,1-9).O episódio da Transfiguração assinala um momento
decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no
coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da
ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja,
povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três
apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para
se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto
desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo,
que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz.Esta luz atinge todos os
seus filhos, todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n-Ele o sentido
último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: « Para mim, o viver é
Cristo » (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo
encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na
verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia
para a comunidade dos irmãos e para o mundo. Por isso, não podem deixar de
encontrar neles um eco particular as palavras extasiadas de Pedro: « Senhor, é
bom estarmos aqui! » (Mt 17,4). Estas palavras manifestam a tensão
cristocêntrica de toda a vida cristã, mas exprimem também, com particular
eloquência, o carácter totalizante que constitui o dinamismo profundo da
vocação à vida consagrada: « Como é bom estarmos contigo, dedicarmo-nos a Ti,
concentrar a nossa existência exclusivamente em Ti! ». De facto, quem recebeu a
graça desta especial comunhão de amor com Cristo, sente-se de certa forma
arrebatado pelo seu fulgor: Ele é o « mais belo entre os filhos do homem » (Sal
4544,3), o Incomparável.
« Este é o meu Filho
muito amado: escutai-O! »
16. Aos três discípulos
extasiados chega o apelo do Pai a que se ponham à escuta de Cristo, depositem n-Ele
toda a confiança, façam d-Ele o centro da vida. À luz desta palavra que vem do
alto, adquire nova profundidade aquele convite que lhes fizera Jesus, ao início
da sua vida pública, quando os chamara a segui-Lo, arrancando-os à sua vida
normal e acolhendo-os na sua intimidade. É precisamente desta graça especial de
intimidade que brota, na vida consagrada, a possibilidade e a exigência do dom
total de si mesmo na profissão dos conselhos evangélicos. Estes, antes e mais
do que renúncia, são um acolhimento específico do mistério de Cristo, vivido no
seio da Igreja. De facto, na unidade da vida cristã, as diversas vocações são
comparáveis a raios da única luz de Cristo, « que resplandece no rosto da
Igreja ».Os leigos, em virtude da índole secular da sua vocação, reflectem o
mistério do Verbo encarnado sobretudo enquanto Ele é Alfa e Ómega do mundo, fundamento
e medida do valor de todas as coisas criadas. Os ministros sagrados, por sua
vez, são imagens vivas de Cristo, Cabeça e Pastor, que guia o seu povo neste
tempo do « já e ainda não », na expectativa da sua vinda gloriosa. À vida
consagrada está confiada a missão de indicar o Filho de Deus feito homem como a
meta escatológica para onde tudo tende , o esplendor perante o qual qualquer
outra luz empalidece, a beleza infinita, a única que pode saciar totalmente o
coração do homem. É que na vida consagrada não se trata apenas de seguir Cristo
de todo o coração, amando-O « mais do que o pai ou a mãe, mais do que o filho
ou a filha » (cf. Mt 10,37), como é pedido a todo o discípulo, mas trata-se de
viver e exprimir isso mesmo com uma adesão « conformativa » a Cristo da
existência inteira, numa tensão totalizante que antecipa, por quanto possível
no tempo e aos vários carismas, a perfeição escatológica.Na verdade, pela
profissão dos conselhos, o consagrado não só faz de Cristo o sentido da própria
vida, mas preocupa-se por reproduzir em si mesmo, na medida do possível, «
aquela forma de vida que o Filho de Deus assumiu ao entrar no mundo ».Abraçando
a virgindade, ele assume o amor virginal de Cristo e confessa-O ao mundo como
Filho unigénito, um só com o Pai (cf. Jo 10,30; 14,11); imitando a sua pobreza,
confessa-O como Filho que tudo recebe do Pai e no amor tudo Lhe devolve (cf. Jo
17,7.10); aderindo, com o sacrifício da própria liberdade, ao mistério da sua
obediência filial, confessa-O infinitamente amado e amante, como Aquele que Se
compraz somente na vontade do Pai (cf. Jo 4,34), ao qual está perfeitamente
unido e do qual depende em tudo.Com tal identificação « conformativa » ao
mistério de Cristo, a vida consagrada realiza a título especial aquela confessio
Trinitatis, que caracteriza toda a vida cristã, reconhecendo extasiada a beleza
sublime de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e testemunhando com alegria a sua
amorosa magnanimidade com todo o ser humano.
I. EM LOUVOR DA TRINDADE
A Patre ad Patrem: a iniciativa
de Deus
17. A contemplação da
glória do Senhor Jesus no ícone da Transfiguração revela às pessoas
consagradas, antes de mais, o Pai, criador e dador de todo o bem, que atrai a
Si (cf. Jo 6,44) uma criatura sua, por um amor de predilecção e em ordem a uma
missão especial. « Este é o meu Filho muito amado: escutai-O! » (Mt 17,5).
Correspondendo a este apelo acompanhado por uma atracção interior, a pessoa
chamada entrega-se ao amor de Deus, que a quer exclusivamente ao seu serviço, e
consagra-se totalmente a Ele e ao seu desígnio de salvação (cf. 1 Cor 7,32-34).Está
aqui o sentido da vocação à vida consagrada: uma iniciativa total do Pai (cf.
Jo 15,16), que requer daqueles que escolhe uma resposta de dedicação plena e
exclusiva.A experiência deste amor gratuito de Deus é tão íntima e forte que a
pessoa sente que deve responder com a dedicação incondicional da sua vida,
consagrando tudo, presente e futuro, nas suas mãos. Por isso mesmo, como ensina
S. Tomás, a identidade da pessoa consagrada pode-se compreender a partir da
totalidade da sua oferta, comparável a um autêntico holocausto.
Per Filium: seguindo os
passos de Cristo
18. O Filho, caminho que
conduz ao Pai (cf. Jo 14,6), chama todos aqueles que o Pai Lhe deu (cf. Jo
17,9) a um seguimento que dá orientação à sua existência. A alguns porém —
concretamente às pessoas de vida consagrada —, Cristo pede uma adesão total,
que implica o abandono de tudo (cf. Mt 19,27) para viver na intimidade com Elee
segui-Lo para onde quer que vá (cf. Ap 14,4). No olhar de Jesus (cf. Mc 10,21),
« imagem do Deus invisível » (Col 1,15), resplendor da glória do Pai (cf. Heb
1,3), constata-se a profundidade de um amor eterno e infinito que atinge as
raízes do ser.A pessoa que se deixa seduzir, não pode deixar de abandonar tudo
e segui-Lo (cf. Mc 1,16-20; 2,14; 10,21.28). A semelhança de Paulo, considera
tudo o resto como « perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus »,
não hesitando em reputar tudo o mais como « lixo, a fim de ganhar Cristo » (cf.
Fil 3,8). A sua aspiração é identificar-se com Ele, assumindo os seus
sentimentos e forma de vida. O deixar tudo e seguir o Senhor (cf. Lc 18,28)
constitui um programa válido para todas as pessoas chamadas e para todos os
tempos.Os conselhos evangélicos, pelos quais Cristo convida alguns a
partilharem a sua experiência de pessoa virgem, pobre e obediente, requerem e
manifestam, em quem acolhe o convite, o desejo explícito de conformação total
com Ele. Vivendo « na obediência, sem nada de seu e na castidade »,os consagrados
confessam que Jesus é o Modelo no qual toda a virtude alcança a perfeição. Na
verdade, a sua forma de vida casta, pobre e obediente apresenta-se como a
maneira mais radical de viver o Evangelho sobre esta terra, um modo — pode-se
dizer — divino, porque abraçado por Ele, Homem-Deus, como expressão da sua
relação de Filho Unigénito com o Pai e com o Espírito Santo. Este é o motivo
por que, na tradição cristã, sempre se falou da objectiva excelência da vida
consagrada.Inegável é, ainda, que a prática dos conselhos constitui também uma
forma particularmente íntima e fecunda de tomar parte na missão de Cristo
seguindo o exemplo de Maria de Nazaré, primeira discípula, que aceitou colocar-se
ao serviço do desígnio divino com o dom total de si mesma. Toda a missão inicia
com a mesma atitude expressa por Maria, na Anunciação: « Eis a escrava do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra » (Lc 1,38).
In Spiritu: consagrados
pelo Espírito Santo
19. « Uma nuvem luminosa
os cobriu com a sua sombra » (Mt 17,5). Uma significativa interpretação
espiritual da Transfiguração vê nesta nuvem a imagem do Espírito Santo.Como
toda a existência cristã, também a vocação à vida consagrada está intimamente
relacionada com a obra do Espírito Santo. É Ele que, pelos milénios fora,
sempre induz novas pessoas a sentirem atracção por uma opção tão
comprometedora. Sob a sua acção, elas revivem, de certo modo, a experiência do
profeta Jeremias: « Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir » (20,7).
É o Espírito que suscita o desejo de uma resposta cabal; é Ele que guia o
crescimento desse anseio, fazendo amadurecer a resposta positiva e sustentando,
depois, a sua fiel realização; é Ele que forma e plasma o espírito dos que são
chamados, configurando-os a Cristo casto, pobre e obediente, e impelindo-os a
assumirem a sua missão. Deixando-se guiar pelo Espírito num caminho
ininterrupto de purificação, tornam-se, dia após dia, pessoas cristiformes,
prolongamento na história de uma especial presença do Senhor ressuscitado.Com
profunda intuição, os Padres da Igreja qualificaram este caminho espiritual
como filocalia, ou seja, amor pela beleza divina, que é irradiação da bondade
de Deus. A pessoa que é progressivamente conduzida pelo poder do Espírito Santo
até à plena configuração com Cristo, reflecte em si mesma um raio da luz
inacessível, e na sua peregrinação terrena caminha até à Fonte inexaurível da
luz. Deste modo, a vida consagrada torna-se uma expressão particularmente
profunda da Igreja Esposa que, movida pelo Espírito a reproduzir em si mesma os
traços do Esposo, aparece na presença d-Ele « gloriosa sem mancha nem ruga, nem
qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada » (Ef 5,27).E o Espírito,
longe de afastar da história dos homens as pessoas que o Pai chamou, coloca-as
ao serviço dos irmãos, segundo as modalidades próprias do seu estado de vida, e
encaminha-as para a realização de tarefas específicas, de acordo com as
necessidades da Igreja e do mundo, através dos carismas próprios dos vários
Institutos. Daí a aparição de múltiplas formas de vida consagrada, através das
quais a Igreja é « embelezada com a variedade dos dons dos seus filhos, (...)
como esposa adornada para o seu esposo (cf. Ap 21,2) »,e fica enriquecida de
todos os meios para cumprir a sua missão no mundo.
Os conselhos evangélicos,
dom da Trindade
20. Assim os conselhos
evangélicos são, primariamente, um dom da Santíssima Trindade. A vida
consagrada é anúncio daquilo que o Pai, pelo Filho no Espírito, realiza com o
seu amor, a sua bondade, a sua beleza. De facto, « o estado religioso patenteia
(...) a elevação do Reino de Deus sobre tudo o que é terreno e as suas relações
transcendentes; e revela aos homens a grandeza do poder de Cristo Rei e a
potência infinita com que o Espírito Santo maravilhosamente actua na Igreja ».A
primeira tarefa da vida consagrada é tornar visíveis as maravilhas que Deus
realiza na frágil humanidade das pessoas chamadas. Mais do que com as palavras,
elas testemunham essas maravilhas com a linguagem eloquente de uma existência
transfigurada, capaz de suscitar a admiração do mundo. À admiração dos homens
respondem com o anúncio dos prodígios da graça que o Senhor realiza naqueles
que ama. Na medida em que a pessoa consagrada se deixa conduzir pelo Espírito
até aos cumes da perfeição, pode exclamar: « Contemplo a beleza da vossa graça,
vejo seu brilho, irradio sua luz; fico cativado pelo seu inefável esplendor;
acabo arrebatado longe de mim, sempre que penso ao meu próprio ser; vejo como
era e no que me tornei. Ó maravilha! Presto toda a minha atenção, fico cheio de
respeito por mim mesmo, de reverência e de temor como se estivesse diante de
Vós mesmo; não sei o que fazer, porque a timidez se apoderou de mim; não sei
onde sentar-me, donde me aproximar, onde repousar estes membros que Vos
pertencem; em que iniciativa, em que obra empregá-las, estas encantadoras
maravilhas divinas ».Deste modo, a vida consagrada torna-se um dos rastos
concretos que a Trindade deixa na história, para que os homens possam sentir o
encanto e a saudade da beleza divina.
Nos conselhos, o reflexo
da vida trinitária
21. A relação dos
conselhos evangélicos com a Trindade santa e santificadora revela o sentido
mais profundo deles. Na verdade, são expressão do amor que o Filho nutre pelo
Pai na unidade do Espírito Santo. Praticando-os, a pessoa consagrada vive, com
particular intensidade, o carácter trinitário e cristológico que caracteriza
toda a vida cristã. A castidade dos celibatários e das virgens, enquanto
manifestação da entrega a Deus com um coração indiviso (cf. 1 Cor 7,32-34),
constitui um reflexo do amor infinito que une as três Pessoas divinas na
profundidade misteriosa da vida trinitária; amor testemunhado pelo Verbo
encarnado até ao dom da própria vida; amor « derramado em nossos corações pelo
Espírito Santo » (Rm 5,5), que incita a uma resposta de amor total a Deus e aos
irmãos.A pobreza confessa que Deus é a única verdadeira riqueza do homem.
Vivida segundo o exemplo de Cristo que, « sendo rico, Se fez pobre » ( 2 Cor
8,9), torna-se expressão do dom total de Si que as três Pessoas divinas
reciprocamente se fazem. É dom que transborda para a criação e se manifesta
plenamente na Encarnação do Verbo e na sua morte redentora.A obediência,
praticada à imitação de Cristo cujo alimento era fazer a vontade do Pai (cf. Jo
4,34), manifesta a graça libertadora de uma dependência filial e não servil,
rica de sentido de responsabilidade e animada pela confiança recíproca, que é
reflexo, na história, da amorosa correspondência das três Pessoas
divinas.Assim, a vida consagrada é chamada a aprofundar continuamente o dom dos
conselhos evangélicos com um amor cada vez mais sincero e forte na sua dimensão
trinitária: amor a Cristo, que chama à sua intimidade; ao Espírito Santo, que
predispõe o espírito para acolher as suas inspirações; ao Pai, origem primeira
e fim supremo da vida consagrada.Esta torna-se, assim, confissão e sinal da
Trindade, cujo mistério é indicado à Igreja como modelo e fonte de toda a forma
de vida cristã.Também a vida fraterna, em virtude da qual as pessoas
consagradas se esforçam por viver em Cristo com « um só coração e uma só alma »
(Act 4,32), se apresenta como uma eloquente confissão trinitária. Confessa o
Pai, que quer fazer de todos os homens uma só família; confessa o Filho
encarnado, que congrega os redimidos na unidade, apontando o caminho com o seu
exemplo, a sua oração, as suas palavras e, sobretudo, com a sua morte, fonte de
reconciliação para os homens divididos e dispersos; confessa o Espírito Santo,
como princípio de unidade na Igreja, onde não cessa de suscitar famílias
espirituais e comunidades fraternas.
Consagrados, como Cristo,
para o Reino de Deus
22. Sob o impulso do
Espírito Santo, a vida consagrada « imita mais de perto, e perpetuamente
representa na Igreja »a forma de vida que Jesus, supremo consagrado e
missionário do Pai para o seu Reino, abraçou e propôs aos discípulos que O
seguiam (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,10-11; Jo 15,16). À luz da
consagração de Jesus, é possível descobrir na iniciativa do Pai, fonte de toda
a santidade, a nascente originária da vida consagrada. Na verdade, Jesus é
aquele que « Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder » (Act 10,38), «
aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo » (Jo 10,36). Recebendo a
consagração do Pai, o Filho consagra-Se por sua vez ao Pai pela humanidade (cf.
Jo 17,19): a sua vida de virgindade, obediência e pobreza exprime a adesão
filial e plena ao desígnio do Pai (cf. Jo 10,30; 14,11). A sua oblação perfeita
confere um sentido de consagração a todos os acontecimentos da sua existência
terrena. Jesus é o obediente por excelência, descido do céu não para fazer a
sua vontade, mas a d-Aquele que O enviou (cf. Jo 6,38; Heb 10,5.7). Entrega o
seu modo de ser e de agir nas mãos do Pai (cf. Lc 2,49). Por obediência filial,
assume a forma de servo: « Despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo
(...), feito obediente até à morte e morte de cruz » (Fil 2,7-8). É também
nesta atitude de docilidade ao Pai que Cristo, embora aprovando e defendendo a
dignidade e a santidade da vida matrimonial, assume a forma de vida virginal, e
revela assim o valor sublime e a misteriosa fecundidade espiritual da
virgindade . A sua plena adesão ao desígnio do Pai manifesta-se ainda no
desapego dos bens terrenos: « Sendo rico, fez-Se pobre por vós, a fim de vos
enriquecer pela sua pobreza » (2 Cor 8,9). A profundidade da sua pobreza revela-se
na perfeita oblação de tudo o que é seu ao Pai.Verdadeiramente a vida
consagrada constitui memória viva da forma de existir e actuar de Jesus, como
Verbo encarnado face ao Pai e aos irmãos. Aquela é tradição vivente da vida e
da mensagem do Salvador.
II. DA PÁSCOA AO
CUMPRIMENTO DEFINITIVO
Do Tabor ao Calvário
23. O acontecimento
deslumbrante da Transfiguração prepara um outro, trágico mas não menos glorioso,
que é o do Calvário. Pedro, Tiago e João contemplam o Senhor Jesus, acompanhado
por Moisés e Elias, com os quais — segundo o evangelista Lucas — Ele fala « da
sua partida que iria consumar-se em Jerusalém » (9,31). Assim os olhos dos
apóstolos fixam-se em Jesus, que pensa na Cruz (cf. Lc 9,43-45). Nesta, o seu
amor virginal pelo Pai e por todos os homens atingirá a máxima expressão; a sua
pobreza chegará ao despojamento total; a sua obediência irá até ao dom da vida.
Os discípulos e discípulas são convidados a contemplar Jesus exaltado na Cruz,
a partir da qual « o Verbo saído do silêncio »,no seu silêncio e solidão,
proclama profeticamente a transcendência absoluta de Deus sobre todos os bens
criados, vence na sua carne o nosso pecado, e atrai a Si todo o homem e mulher,
dando a cada um a nova vida da ressurreição (cf. Jo 12,32; 19, 34.37). Da
contemplação de Cristo crucificado, recebem inspiração todas as vocações; da
Cruz, com o dom fundamental do Espírito têm origem todos os dons, e em particular
o dom da vida consagrada.Depois de Maria, Mãe de Jesus, recebe este dom o
discípulo que Jesus amava, João, a testemunha que se encontrava, com Maria, aos
pés da Cruz (cf. Jo 19,26-27). A sua decisão de consagração total é fruto do
amor divino que o envolve, sustenta e lhe enche o coração. João, ao lado de
Maria, conta-se entre os primeiros dessa longa série de homens e mulheres que,
desde o início da Igreja até ao fim, tocados pelo amor de Deus, se sentem
chamados a seguir o Cordeiro imolado e redivivo, para onde quer que Ele vá (cf.
Ap 14,1-5).
Dimensão pascal da vida
consagrada
24. A pessoa consagrada,
nas várias formas de vida suscitadas pelo Espírito ao longo da história,
experimenta a verdade de Deus-Amor de modo tanto mais imediato e profundo quanto
mais se aproxima da Cruz de Cristo. Na verdade, Aquele que, na sua morte,
aparece aos olhos humanos desfigurado e sem beleza, a ponto de obrigar os
espectadores a desviar o rosto (cf. Is 53,2-3), manifesta plenamente a beleza e
a força do amor de Deus, precisamente na Cruz. Assim o contempla S. Agostinho:
« Admirável é Deus, o Verbo junto de Deus. [...] É admirável no céu, admirável
na terra; admirável no seio, admirável nos braços dos pais, admirável nos
milagres, admirável nos suplícios; admirável quando convida à vida, admirável
quando não se preocupa com a morte, admirável ao deixar a vida e admirável ao
retomá-la; admirável na Cruz, admirável no sepulcro, admirável no céu. Escutai
o cântico com a inteligência, e que a fragilidade da carne não afaste os vossos
olhos do esplendor da sua beleza ».A vida consagrada reflecte este esplendor do
amor, porque confessa, com a sua fidelidade ao mistério da Cruz, que crê e vive
do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deste modo, ela contribui para
manter viva na Igreja a consciência de que a Cruz é a superabundância do amor
de Deus que transborda sobre este mundo, ela é o grande sinal da presença
salvífica de Cristo. E isto, especialmente nas dificuldades e nas provações. É
o que testemunha, continuamente e com uma coragem digna de profunda admiração,
um grande número de pessoas consagradas que vivem em situações difíceis, por
vezes mesmo de perseguição e martírio. A sua fidelidade ao único Amor revela-se
e aperfeiçoa-se na humildade de uma vida escondida, na aceitação dos
sofrimentos para « completar na própria carne o que falta aos sofrimentos de
Cristo » (cf. Col 1,24), no sacrifício silencioso, no abandono à vontade santa
de Deus, na serena fidelidade mesmo face ao declínio das próprias forças e
importância. Da fidelidade a Deus, brota também a dedicação ao próximo, que as
pessoas consagradas vivem, não sem sacrifício, na constante intercessão pelas
necessidades dos irmãos, no generoso serviço aos pobres e aos enfermos, na
partilha das dificuldades alheias, na solícita participação das preocupações e
provas da Igreja.
Testemunhas de Cristo no
mundo
25. Do mistério pascal,
brota também a missionariedade, que é dimensão qualificativa de toda a vida
eclesial; mas encontra uma realização específica na vida consagrada. Para não
falar já nos carismas próprios daqueles Institutos que se consagram à missão ad
gentes ou se empenham em actividades justamente de tipo apostólico, há que
afirmar que a missionariedade está inscrita no coração mesmo de toda a forma de
vida consagrada. Na medida em que o consagrado vive uma vida dedicada
exclusivamente ao Pai (cf. Lc 2,49; Jo 4,34), cativada por Cristo (cf. Jo
15,16; Gal 1,15-16), animada pelo Espírito Santo (cf. Lc 24,49; Act 1,8; 2,4),
ele coopera eficazmente para a missão do Senhor Jesus (cf. Jo 20,21),
contribuindo de modo particularmente profundo para a renovação do mundo. O
dever missionário das pessoas consagradas tem a ver primeiro com elas próprias,
e cumprem-no abrindo o seu coração à acção do Espírito de Cristo. O seu
testemunho ajuda a Igreja inteira a lembrar-se de que em primeiro lugar está o
serviço gratuito de Deus, tornado possível pela graça de Cristo, comunicada ao
crente pelo dom do Espírito. Deste modo, é anunciada ao mundo a paz que desce
do Pai, a dedicação que é testemunhada pelo Filho, a alegria que é fruto do
Espírito Santo.As pessoas consagradas serão missionárias, antes de mais,
aprofundando continuamente a consciência de terem sido chamadas e escolhidas
por Deus, para quem devem, por isso mesmo, orientar toda a sua vida e oferecer
tudo o que são e possuem, libertando-se dos obstáculos que poderiam retardar a
resposta total de amor. Desta forma, poderão tornar-se um verdadeiro sinal de
Cristo no mundo. Também o seu estilo de vida deve fazer transparecer o ideal
que professam, propondo-se como sinal vivo de Deus e como persuasiva pregação,
ainda que muitas vezes silenciosa, do Evangelho.Sempre, mas especialmente na
cultura contemporânea muitas vezes tão secularizada e apesar disso sensível à
linguagem dos sinais, a Igreja deve-se preocupar por tornar visível a sua
presença na vida quotidiana. Uma contribuição significativa neste sentido, ela
tem direito de esperá-la das pessoas consagradas, chamadas a prestar, em cada
situação, um testemunho concreto da sua pertença a Cristo. Visto que o hábito é
sinal de consagração, de pobreza e de pertença a uma determinada família
religiosa, unindo-me aos Padres do Sínodo recomendo vivamente aos religiosos e
religiosas que usem o seu hábito, adaptado convenientemente às circunstâncias
dos tempos e lugares.Onde válidas exigências apostólicas o aconselharem,
poderão, em conformidade com as normas do próprio Instituto, usar um vestuário
simples mas digno, com um símbolo apropriado, de modo que seja reconhecível a
sua consagração.Os Institutos que, já desde a origem ou por disposição das suas
constituições, não prevêem um hábito próprio, cuidem de que o vestuário dos
seus membros corresponda, em dignidade e simplicidade, à natureza da sua
vocação.
Dimensão escatológica da
vida consagrada
26. Dado que hoje as
preocupações apostólicas se fazem sentir sempre com maior urgência e o
empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais
absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza
escatológica da vida consagrada. « Onde estiver o teu tesouro, aí estará também
o teu coração » (Mt 6,21): esse tesouro único, que é o Reino, suscita desejo,
expectativa, compromisso e testemunho. Na Igreja primitiva, a expectativa da
vinda do Senhor era vivida de modo particularmente intenso. A Igreja não cessou
de alimentar esta atitude de esperança, ao longo dos séculos: continuou a
convidar os fiéis a levantarem os seus olhos para a salvação pronta a revelar-se,
« porque a figura deste mundo passa » (1 Cor 7,31; cf. 1 Ped 1,3-6).(__ste
horizonte que melhor se compreende a função de sinal escatológico, própria da
vida consagrada. De facto, é constante a doutrina que a apresenta como
antecipação do Reino futuro. O Concílio Vaticano II reitera este ensinamento,
quando afirma que a consagração « preanuncia a ressurreição futura e a glória
do Reino celeste ».Fá-lo, antes de mais, pela opção virginal, concebida sempre
pela tradição como uma antecipação do mundo definitivo, que já desde agora
actua e transforma o homem na sua globalidade.As pessoas que dedicaram a sua
vida a Cristo, não podem deixar de viver no desejo de O encontrar, para estarem
finalmente e para sempre com Ele. Daí a esperança ardente, daí o desejo de «
entrarem na Fornalha de amor que nelas arde, e que outra coisa não é que o
Espírito Santo »:esperança e desejo amparados pelos dons que o Senhor
livremente concede a quantos aspiram às coisas do alto (cf. Col 3,1).Com o
olhar fixo nas coisas do Senhor, a pessoa consagrada lembra que « não temos
aqui cidade permanente » (Heb 13,14), porque « somos cidadãos do Céu » (Fil
3,20). A única coisa necessária é buscar « o Reino de Deus e a sua justiça »
(Mt 6,33), implorando sem cessar a vinda do Senhor.
Uma esperança activa:
compromisso e vigilância
27. « Vem, Senhor Jesus!
» (Ap 22,20). Esta esperança está bem longe de ser passiva: apesar de apontar
para o Reino futuro, ela exprime-se em trabalho e missão, para que o Reino se
torne presente já desde agora, através da instauração do espírito das bem-aventuranças,
capaz de suscitar anseios eficazes de justiça, paz, solidariedade e perdão,
mesmo na sociedade humana. Isto está amplamente demonstrado na história da vida
consagrada, que sempre produziu frutos abundantes mesmo em favor da sociedade.
Pelos seus carismas, as pessoas consagradas tornam-se um sinal do Espírito em
ordem a um futuro novo, iluminado pela fé e pela esperança cristã. A tensão
escatológica transforma-se em missão, para que o Reino se afirme de modo
crescente, aqui e agora. À súplica « Vem, Senhor Jesus! », une-se a outra
invocação: « Venha a nós o teu Reino! » (cf. Mt 6,10).Aquele que espera,
vigilante, o cumprimento das promessas de Cristo, é capaz de infundir também
esperança nos seus irmãos e irmãs, frequentemente desanimados e pessimistas
relativamente ao futuro. A sua esperança está fundada na promessa de Deus,
contida na Palavra revelada: a história dos homens caminha para o novo céu e a
nova terra (cf. Ap 21,1), onde o Senhor « enxugará as lágrimas dos seus olhos;
não haverá mais morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, porque as primeiras
coisas passaram » (Ap 21,4).A vida consagrada está ao serviço desta irradiação
definitiva da glória divina, quando toda a criatura vir a salvação de Deus (cf.
Lc 3,6; Is 40,5). O Oriente cristão sublinha esta dimensão, ao considerar os
monges como anjos de Deus sobre a terra, que anunciam a renovação do mundo em
Cristo. No Ocidente, o monaquismo é celebração feita de memória e vigília:
memória das maravilhas realizadas por Deus, vigília do cumprimento definitivo
da esperança. A mensagem do monaquismo e da vida contemplativa repete, sem
cessar, que o primado de Deus é plenitude de sentido e de alegria para a vida
humana, pois o homem está feito para Deus e vive inquieto até encontrar n-Ele a
paz.
A Virgem Maria, modelo de
consagração e seguimento
28. Maria é aquela que,
desde a sua imaculada conceição, reflecte mais perfeitamente a beleza divina. «
Toda sois formosa »: com estas palavras, A invoca a Igreja. « A relação com
Maria Santíssima, que todo o fiel tem em consequência da sua união com Cristo,
resulta ainda mais acentuada na vida das pessoas consagradas.(...) Em todos [os
Institutos de vida consagrada], existe a convicção de que a presença de Maria
tem uma importância fundamental, quer para a vida espiritual de cada uma das
almas consagradas, quer para a consistência, unidade e progresso da inteira
comunidade ».Maria é, de facto, exemplo sublime de perfeita consagração, pela
sua pertença plena e dedicação total a Deus. Escolhida pelo Senhor, que n-Ela
quis cumprir o mistério da Encarnação, lembra aos consagrados o primado da
iniciativa de Deus. Ao mesmo tempo, dando o seu consentimento à Palavra divina
que n-Ela Se fez carne, Maria aparece como modelo de acolhimento da graça por
parte da criatura humana.Unida a Cristo, juntamente com José, na vida escondida
de Nazaré, presente junto do Filho em momentos cruciais da sua vida pública, a
Virgem é mestra de seguimento incondicional e de assíduo serviço. Assim n-Ela,
« templo do Espírito Santo »,brilha todo o esplendor da nova criatura. A vida
consagrada contempla-A como modelo sublime de consagração ao Pai, de união com
o Filho e de docilidade ao Espírito, na certeza de que aderir « ao género de
vida virginal e pobre »de Cristo significa assumir também o género de vida de
Maria.Mas na Virgem, a pessoa consagrada encontra ainda uma Mãe por um título
absolutamente especial. De facto, se a nova maternidade conferida a Maria no
Calvário é um dom feito a todos os cristãos, tem um valor específico para quem
consagrou plenamente a própria vida a Cristo. « Eis aí a tua Mãe » (Jo 19,27):
estas palavras de Jesus, dirigidas ao discípulo « que Ele amava » (Jo 19,26),
assumem uma profundidade particular na vida da pessoa consagrada. De facto,
esta é chamada, como João, a tomar consigo Maria Santíssima (cf. Jo 19,27),
amando-A e imitando-A com a radicalidade própria da sua vocação, e
experimentando da parte d-Ela, em contrapartida, uma especial ternura materna.
A Virgem comunica-lhe aquele amor que lhe permite oferecer todos os dias a vida
por Cristo, cooperando com Ele na salvação do mundo. Por isso, a relação filial
com Maria constitui o caminho privilegiado para a fidelidade à vocação recebida
e uma ajuda muito eficaz para nela progredir e vivê-la em plenitude.
III. NA IGREJA E PARA A
IGREJA
« É bom estarmos aqui »:
a vida consagrada no mistério da Igreja
29. Na cena da
Transfiguração, Pedro fala em nome dos outros apóstolos: « É bom [nós] estarmos
aqui » (Mt 17,4). A experiência da glória de Cristo, apesar de lhe inebriar a
mente e o coração, não o isola, antes pelo contrário liga-o mais profundamente
ao « nós » que sao os discípulos. Esta dimensão do « nós » leva-nos a
considerar o lugar que a vida consagrada ocupa no mistério da Igreja. Nestes
anos, a reflexão teológica acerca da natureza da vida consagrada aprofundou as
novas perspectivas derivadas da doutrina do Concílio Vaticano II. À sua luz,
constatou-se que a profissão dos conselhos evangélicos pertence
indiscutivelmente à vida e à santidade da Igreja.Isto significa que a vida
consagrada, presente na Igreja desde os primeiros tempos, nunca poderá faltar
nela, enquanto seu elemento imprescindível e qualificativo, expressão da sua
própria natureza.Isto resulta evidente do facto de a profissão dos conselhos
evangélicos estar intimamente ligada com o mistério de Cristo, já que tem a
função de tornar de algum modo presente a forma de vida que Ele escolheu,
apontando-a como valor absoluto e escatológico. O próprio Jesus, ao chamar
algumas pessoas a deixarem tudo para O seguirem, inaugurou este género de vida
que, sob a acção do Espírito, se desenvolverá gradualmente, ao longo dos
séculos, nas várias formas de vida consagrada. Portanto, a concepção de uma
Igreja composta unicamente por ministros sagrados e por leigos não corresponde
às intenções do seu divino Fundador, tais como no-las apresentam os Evangelhos
e outros escritos neo-testamentários.
A nova e especial
consagração
30. Na tradição da
Igreja, a profissão religiosa é considerada como um singular e fecundo
aprofundamento da consagração baptismal, visto que nela a união íntima com
Cristo, já inaugurada no Baptismo, evolui para o dom de uma conformação
expressa e realizada mais perfeitamente, através da profissão dos conselhos
evangélicos.Todavia esta nova consagração reveste uma sua peculiaridade
relativamente à primeira, da qual não é uma consequência necessária.Na verdade,
todo aquele que foi regenerado em Cristo é chamado a viver, pela força que lhe
vem do dom do Espírito, a castidade própria do seu estado de vida, a obediência
a Deus e à Igreja, e um razoável desapego dos bens materiais, porque todos são
chamados à santidade, que consiste na perfeição da caridade.Mas o Baptismo, por
si mesmo, não comporta o chamamento ao celibato ou à virgindade, a renúncia à
posse dos bens, e a obediência a um superior, na forma exigida pelos conselhos
evangélicos. Portanto, a profissão destes últimos supõe um dom particular de
Deus não concedido a todos, como Jesus mesmo sublinha no caso do celibato
voluntário (cf. Mt 19, 10-12). A este chamamento especial corresponde, de
resto, um dom específico do Espírito Santo, para que a pessoa consagrada possa
responder à sua vocação e missão. Por isso, como testemunham as liturgias do
Oriente e do Ocidente no rito da profissão monástica ou religiosa e na
consagração das virgens, a Igreja invoca sobre as pessoas escolhidas o dom do
Espírito Santo, e associa a sua oblação ao sacrifício de Cristo. profissão dos
conselhos evangélicos é um desenvolvimento também da graça do sacramento da
Confirmação, mas ultrapassa as exigências normais da consagração crismal em
virtude de um dom particular do Espírito, que predispõe para novas
possibilidades e novos frutos de santidade e de apostolado, como demonstra a
história da vida consagrada.Quanto aos sacerdotes que fazem a profissão dos
conselhos evangélicos, a experiência demonstra que o sacramento da Ordem
encontra uma fecundidade peculiar em tal consagração, visto que esta requer e
favorece a exigência de uma pertença mais íntima ao Senhor. O sacerdote que faz
a profissão dos conselhos evangélicos fica particularmente habilitado para
reviver em si próprio a plenitude do mistério de Cristo, graças inclusivamente
à espiritualidade peculiar do próprio Instituto e à dimensão apostólica do
respectivo carisma. No presbítero, com efeito, a vocação ao sacerdócio e à vida
consagrada convergem numa unidade profunda e dinâmica.Valor incalculável tem
também a contribuição dada à vida da Igreja pelos religiosos sacerdotes,
dedicados integralmente à contemplação. Especialmente na Celebração
Eucarística, eles cumprem um acto da Igreja e para a Igreja, ao qual unem a
oferta de si próprios, em comunhão com Cristo que Se oferece ao Pai pela
salvação de todo o mundo.
As relações entre os
vários estados de vida do cristão
31. As diversas formas de
vida, em que, segundo o desígnio de Cristo Senhor, se articula a vida eclesial,
apresentam recíprocas relações, sobre as quais convém deter-se. Todos os fiéis,
em virtude da sua regeneração em Cristo, compartilham a mesma dignidade; todos
são chamados à santidade; todos cooperam para a edificação do único Corpo de
Cristo, cada qual segundo a própria vocação e o dom recebido do Espírito (cf.
Rm 12,3-8).A dignidade igual entre todos os membros da Igreja é obra do
Espírito, está fundada no Baptismo e na Confirmação, e é corroborada pela
Eucaristia. Mas é também obra do Espírito a multiplicidade de formas. É Ele que
faz da Igreja uma comunhão orgânica na sua diversidade de vocações, carismas e
ministérios.s vocações à vida laical, ao ministério ordenado e à vida
consagrada podem-se considerar paradigmáticas, uma vez que todas as vocações
particulares, sob um aspecto ou outro, se inspiram ou conduzem àquelas,
assumidas separada ou conjuntamente, segundo a riqueza do dom de Deus. Além
disso, elas estão ao serviço umas das outras, em ordem ao crescimento do Corpo
de Cristo na história e à sua missão no mundo. Todos, na Igreja, são
consagrados no Baptismo e na Confirmação, mas o ministério ordenado e a vida
consagrada supõem, cada qual, uma distinta vocação e uma forma específica de
consagração, com vista a uma missão peculiar.Para a missão dos leigos — aos
quais compete « procurar o Reino de Deus, tratando das realidades temporais e
ordenando-as segundo Deus »—, é fundamento adequado a consagração baptismal e
crismal, comum a todos os membros do Povo de Deus. Os ministros ordenados, além
dessa consagração fundamental, recebem também a da Ordenação, para continuar no
tempo o ministério apostólico. As pessoas consagradas , que abraçam os
conselhos evangélicos, recebem uma nova e especial consagração que, apesar de
não ser sacramental, as compromete a assumirem — no celibato, na pobreza e na
obediência — a forma de vida praticada pessoalmente por Jesus, e por Ele
proposta aos discípulos. Embora estas diversas categorias sejam manifestaçao do
único mistério de Cristo, os leigos têm como característica peculiar, embora
não exclusiva, a secularidade, os pastores a « ministerialidade », os
consagrados a conformação especial a Cristo virgem, pobre e obediente.
O valor especial da vida
consagrada
32. Neste conjunto
harmonioso de dons, está confiado a cada um dos estados de vida fundamentais o
encargo de exprimir, ao próprio nível, ora uma ora outra das dimensões do único
mistério de Cristo. Se, para fazer ressoar o anúncio evangélico no âmbito das
realidades temporais, tem uma missão particular a vida laical, no âmbito da
comunhão eclesial um ministério insubstituível é desempenhado por aqueles que
estão constituídos na Ordem sagrada, de modo especial pelos Bispos. Estes têm a
tarefa de guiar o Povo de Deus, mediante o ensinamento da Palavra, a
administração dos Sacramentos e o exercício do poder sagrado ao serviço da
comunhão eclesial, que é comunhão orgânica e hierarquicamente ordenada.Na
manifestação da santidade da Igreja, há que reconhecer uma objectiva primazia à
vida consagrada , que reflecte o próprio modo de viver de Cristo. Por isso
mesmo, nela se encontra uma manifestação particularmente rica dos valores
evangélicos e uma actuação mais completa do objectivo da Igreja que é a
santificação da humanidade. A vida consagrada anuncia e de certo modo antecipa
o tempo futuro, quando, alcançada a plenitude daquele Reino dos céus que agora
está presente apenas em gérmen e no mistério,os filhos da ressurreição não
tomarão esposa nem marido, mas serão como anjos de Deus (cf. Mt 22,30).De
facto, a primazia da castidade perfeita pelo Reino,justamente considerada a «
porta » de toda a vida consagrada,é objecto do ensinamento constante da Igreja.
De resto, esta tributa grande estima também à vocação para o matrimónio, que
torna os esposos « testemunhas e cooperadores da fecundidade da Igreja, nossa
mãe, em sinal e participação daquele amor, com que Cristo amou a sua Esposa e
por ela Se entregou ».este horizonte comum a toda a vida consagrada, articulam-se
caminhos distintos entre si, mas complementares. Os religiosos e religiosas
dedicados integralmente à contemplação são, de modo especial, imagem de Cristo
em oração sobre o monte.As pessoas consagradas de vida activa manifestam Jesus
« anunciando às multidões o Reino de Deus, curando os doentes e feridos,
trazendo os pecadores à conversão, abençoando as criancinhas e fazendo bem a
todos ».Um particular serviço ao advento do Reino de Deus, prestam-no as
pessoas consagradas nos Institutos Seculares, que unem, numa síntese
específica, o valor da consagração com o da secularidade. Vivendo a sua
consagração no século e a partir do século,elas « esforçam-se, à maneira de
fermento, por impregnar todas as coisas do espírito do Evangelho para
robustecimento e incremento do Corpo de Cristo ».Com vista a tal fim,
participam na função evangelizadora da Igreja, mediante o testemunho pessoal de
vida cristã, o empenho de que as realidades temporais sejam ordenadas segundo
Deus, a colaboração no serviço da comunidade eclesial, segundo o estilo de vida
secular que lhes é próprio.
Testemunhar o Evangelho
das bem-aventuranças
33. Missão peculiar da
vida consagrada é manter viva nos baptizados a consciência dos valores
fundamentais do Evangelho, graças ao seu « magnífico e privilegiado testemunho
de que não se pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das
bem-aventuranças ».Deste modo, a vida consagrada suscita continuamente, na
consciência do Povo de Deus, a exigência de responder com a santidade de vida
ao amor de Deus derramado nos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5),
reflectindo na conduta a consagração sacramental realizada por acção de Deus no
Baptismo, na Confirmação, ou na Ordem. Na verdade, é preciso que da santidade
comunicada nos sacramentos se passe à santidade da vida quotidiana. A vida
consagrada existe na Igreja precisamente para se pôr ao serviço da consagração
da vida de todo o fiel, leigo ou clérigo. Por outro lado, não se deve esquecer
que também os consagrados recebem, do testemunho próprio das outras vocações,
uma ajuda para viver integralmente a adesão ao mistério de Cristo e da Igreja,
nas suas múltiplas dimensões. Graças a este enriquecimento recíproco, torna-se
mais eloquente e eficaz a missão da vida consagrada: mantendo fixo o seu olhar
na paz futura, indica como meta aos irmãos e irmãs a Bem-aventurança definitiva
junto de Deus.
Imagem viva da Igreja-Esposa
34. Particular relevo tem
o significado esponsal da vida consagrada, que reflecte a exigência de a Igreja
viver em doação plena e exclusiva para seu Esposo, do qual recebe todo o bem.
Nesta dimensão esponsal característica de toda a vida consagrada, é sobretudo a
mulher que se reconhece de modo singular em sua própria identidade, de certa
forma descobrindo aí a índole especial do seu relacionamento com o Senhor. A
tal propósito, é sugestivo o texto neo-testamentário que apresenta Maria
reunida com os Apóstolos, no Cenáculo, aguardando em oração a vinda do Espírito
Santo (cf. Act 1,13-14). Pode-se ver aqui uma expressiva imagem da Igreja-Esposa,
atenta aos sinais do Esposo e pronta a acolher o seu dom. Na figura de Pedro e
demais apóstolos, ressalta sobretudo a dimensão da fecundidade operada pelo
ministério eclesial, que se faz instrumento do Espírito para a geração de novos
filhos através da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos e pela
solicitude pastoral. Já em Maria, é particularmente viva a dimensão do
acolhimento esponsal com que a Igreja faz frutificar em si mesma a vida divina,
através da totalidade do seu amor virginal.A vida consagrada sempre foi
identificada prevalentemente com esta parte de Maria, a Virgem Esposa. Deste
amor virginal, provém uma particular fecundidade que contribui para o
nascimento e crescimento da vida divina nos corações. A pessoa consagrada,
seguindo o exemplo de Maria, nova Eva, exprime a sua fecundidade espiritual,
tornando-se acolhedora da Palavra, para colaborar na construção da nova
humanidade com a sua dedicação incondicional e o seu testemunho vivo. Desta
forma, a Igreja manifesta plenamente a sua maternidade, quer mediante a
comunicação da acção divina confiada a Pedro, quer através do acolhimento
responsável do dom divino, típico de Maria.O povo cristão, por seu lado,
encontra no ministério ordenado os meios de salvação, e na vida consagrada o
estímulo para uma resposta cabal de amor em cada uma das várias formas de
diaconia.
I. GUIADOS PELO ESPÍRITO
DE SANTIDADE
Existência «
transfigurada »: a vocação à santidade
35. « Ao ouvirem isto, os
discípulos caíram por terra, muito assustados » (Mt 17,6). No episódio da
Transfiguração, os sinópticos põem em evidência, embora com acentuações
diferentes, a sensação de temor que se apodera dos discípulos. O fascínio do
rosto transfigurado de Cristo não os impede de se sentirem assustados diante da
Majestade divina que os ultrapassa. Sempre que o homem vislumbra a glória de
Deus, faz também a experiência da sua pequenez, provocando nele uma sensação de
medo. Este temor é salutar. Recorda ao homem a perfeição divina, e ao mesmo
tempo incita-o com um premente apelo à « santidade ». Todos os filhos da
Igreja, chamados pelo Pai a « escutar » Cristo, não podem deixar de sentir uma
profunda exigência de conversão e de santidade. Mas, como se salientou no
Sínodo, esta exigência chama em causa, em primeiro lugar, a vida consagrada. Na
verdade, a vocação recebida pelas pessoas consagradas para procurarem acima de
tudo o Reino de Deus é, antes de mais nada, um chamamento à conversão plena,
renunciando a si próprias para viverem totalmente do Senhor, a fim de que Deus
seja tudo em todos. Chamados a contemplar e a testemunhar o rosto «
transfigurado » de Cristo, os consagrados são chamados também a uma existência
transfigurada.A respeito disto, é significativo o que se diz na Relação final
da II Assembleia Extraordinária do Sínodo: « Os santos e as santas sempre foram
fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis, ao longo de toda
a história da Igreja. Hoje, temos muita necessidade de santos, graça esta que
devemos implorar continuamente a Deus. Os Institutos de vida consagrada,
mediante a profissão dos conselhos evangélicos, devem estar conscientes da sua
especial missão na Igreja de hoje, e nós devemos encorajá-los nessa sua missão
».Estas considerações encontraram eco nos Padres desta IX Assembleia sinodal,
quando afirmam: « A vida consagrada foi, através da história da Igreja, uma
presença viva desta acção do Espírito, como um espaço privilegiado de amor
absoluto a Deus e ao próximo, testemunho do projecto divino de fazer de toda a
humanidade, dentro da civilização do amor, a grande família dos filhos de Deus
». Igreja sempre viu na profissão dos conselhos evangélicos um caminho
privilegiado para a santidade. As próprias expressões com que é designada —
escola do serviço do Senhor, escola de amor e de santidade, caminho ou estado
de perfeição — já manifestam quer a eficácia e a riqueza dos meios próprios
desta forma de vida evangélica, quer o especial empenho requerido àqueles que a
abraçam.Não foi por acaso que, no decorrer dos séculos, tantos consagrados
deixaram eloquentes testemunhos de santidade e realizaram façanhas de
evangelização e de serviço, particularmente generosas e árduas.
Fidelidade ao carisma
36. No seguimento de
Cristo e no amor pela sua Pessoa, existem alguns pontos referentes ao
crescimento da santidade na vida consagrada, que actualmente merecem ser
colocados em particular evidência. Antes de mais, exige-se a fidelidade ao
carisma de fundação e sucessivo património espiritual de cada Instituto.
Precisamente nessa fidelidade à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do
Espírito Santo, se descobrem mais facilmente e se revivem com maior fervor os
elementos essenciais da vida consagrada.Na verdade, cada carisma tem, na sua
origem, um tríplice encaminhamento: primeiro, encaminhamento para o Pai , no
desejo de procurar filialmente a sua vontade através de um processo contínuo de
conversão, no qual a obediência é fonte de verdadeira liberdade, a castidade
exprime a tensão de um coração insatisfeito com todo o amor finito, a pobreza
alimenta aquela fome e sede de justiça que Deus prometeu saciar (cf. Mt 5,6).
Nesta perspectiva, o carisma de cada Instituto impelirá a pessoa consagrada a
ser toda de Deus, a falar com Deus ou de Deus — como se diz de S. Domingos—,
para saborear como o Senhor é bom (cf. Sal 3433,9), em todas as situações.Os
carismas de vida consagrada implicam também um encaminhamento para o Filho, com
quem induzem a cultivar uma íntima e feliz comunhão de vida, na escola do seu
serviço generoso a Deus e aos irmãos. Deste modo, « o olhar, progressivamente
cristificado, aprende a separar-se da exterioridade, do turbilhão dos sentidos,
isto é, de tudo aquilo que impede ao homem aquela suave disponibilidade a
deixar-se agarrar pelo Espírito »,e permite assim partir em missão com Cristo,
trabalhando e sofrendo com Ele na difusão do seu Reino.Todo o carisma comporta,
enfim, um encaminhamento para o Espírito Santo, enquanto dispõe a pessoa a
deixar-se guiar e sustentar por Ele, tanto no próprio caminho espiritual como
na vida de comunhão e na acção apostólica, para viver naquela atitude de
serviço que deve inspirar toda a opção de um autêntico cristão.Com efeito, é
sempre esta tríplice relação que transparece em cada carisma de fundação,
naturalmente com os traços específicos dos vários modelos de vida, precisamente
pelo facto de predominar naquele « um profundo ardor do espírito de se
configurar com Cristo, para testemunhar algum aspecto do seu mistério »,aspecto
esse que se há-de encarnar e desenvolver na mais genuína tradição do Instituto,
segundo as Regras, as Constituições e os Estatutos.
Fidelidade criativa
37. Deste modo, os
Institutos são convidados a repropor corajosamente o espírito de iniciativa, a
criatividade e a santidade dos fundadores e fundadoras, como resposta aos
sinais dos tempos visíveis no mundo de hoje.Este convite é, primariamente, um
apelo à perseverança no caminho da santidade, através das dificuldades
materiais e espirituais que marcam as vicissitudes diárias. Mas é, também, um
apelo a conseguir a competência no próprio trabalho e a cultivar uma fidelidade
dinâmica à própria missão, adaptando, quando for necessário, as suas formas às
novas situações e às várias necessidades, com plena docilidade à inspiração
divina e ao discernimento eclesial. Contudo, há que manter viva a convicção de
que a garantia de toda a renovação, que pretenda permanecer fiel à inspiração
originária, está na busca de uma conformidade cada vez mais plena com o
Senhor.Neste espírito, torna-se hoje premente em cada Instituto a necessidade
de um renovado referimento à Regra, pois, nela e nas Constituições, se encerra
um itinerário de seguimento, qualificado por um carisma específico e
autenticado pela Igreja. Uma maior consideração pela Regra não deixará de
proporcionar às pessoas consagradas um critério seguro para procurar as formas
adequadas para um testemunho capaz de responder às exigências actuais, sem se
afastar da inspiração inicial.
Oração e ascese: o
combate espiritual
38. A vocação à santidade
só pode ser acolhida e cultivada no silêncio da adoração na presença da
transcendência infinita de Deus: « Devemos confessar que todos precisamos deste
silêncio repleto de presença adoradora: a teologia, para poder valorizar
plenamente a própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que nunca
esqueça que ver Deus significa descer do monte com um rosto tão radiante ao
ponto de sermos obrigados a cobri-lo com um véu (cf. Ex 34,33) [...]; o
compromisso, para renunciar a fechar-se numa luta sem amor e perdão. [...]
Todos, crentes e não crentes, precisam de aprender um silêncio que permita ao
Outro falar, quando e como quiser, e a nós compreender esta palavra ».Isto
exige, concretamente, uma grande fidelidade à oração litúrgica e pessoal, aos
tempos dedicados à oração mental e à contemplação, à adoração eucarística, às
recolecções mensais e aos retiros espirituais. É preciso redescobrir também os
meios ascéticos , típicos da tradição espiritual da Igreja e do próprio
Instituto. Eles foram, e continuam a sêlo, um auxílio poderoso para um
autêntico caminho de santidade. Ajudando a dominar e a corrigir as tendências
da natureza humana ferida pelo pecado, a ascese é verdadeiramente indispensável
para a pessoa consagrada permanecer fiel à própria vocação e seguir Jesus pelo
caminho da Cruz.Também se torna necessário identificar e vencer algumas
tentações que às vezes se apresentam, por insídia diabólica, sob a falsa
aparência de bem. Assim, por exemplo, a exigência legítima de conhecer a
sociedade actual, para responder aos seus desafios, pode induzir a ceder a
modas efémeras, com a diminuição do fervor espiritual ou com atitudes de
desânimo. A possibilidade de uma formação espiritual mais elevada poderá levar
as pessoas consagradas a um certo sentimento de superioridade relativamente aos
outros fiéis, enquanto a urgência de uma legítima e indispensável habilitação
se pode transformar numa busca exacerbada de eficiência como se o serviço
apostólico dependesse prevalentemente dos meios humanos, e não de Deus. O
desejo louvável de solidarizar-se com os homens e mulheres do nosso tempo,
crentes e não crentes, pobres e ricos, pode levar à adopção de um estilo de
vida secularizado ou a uma promoção dos valores humanos em sentido puramente
horizontal. A partilha das instâncias legítimas da própria nação ou cultura
poderá induzir a abraçar formas de nacionalismo ou a acolher elementos da
tradição, que, ao contrário, precisam de ser purificados e elevados à luz do
Evangelho.O caminho que conduz à santidade comporta, pois, a adopção do combate
espiritual. É um dado exigente, ao qual hoje nem sempre se dedica a necessária
atenção. Muitas vezes a tradição viu representado este combate espiritual na
luta de Jacob a contas com o mistério de Deus, que ele afronta para ter acesso
à sua bênção e à sua visão (cf. Gn 32,23-31). Neste episódio dos primórdios da
história bíblica, as pessoas consagradas podem ler o símbolo do empenhamento
ascético de que têm necessidade para dilatar o coração e abri-lo ao acolhimento
do Senhor e dos irmãos.
Promover a santidade
39. Um renovado empenho
de santidade das pessoas consagradas é hoje mais necessário do que nunca para
favorecer e apoiar a tensão de todo o cristão para a perfeição . « É necessário,
por conseguinte, suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um
forte desejo de conversão e renovamento pessoal num clima de oração cada vez
mais intensa e de solidário acolhimento do próximo, especialmente do mais
necessitado ».As pessoas consagradas, na medida em que aprofundam a sua própria
amizade com Deus, ficam em condições de ajudar os irmãos e irmãs com válidas
iniciativas espirituais, como escolas de oração, retiros e recolecções
espirituais, jornadas de deserto, escuta e direcção espiritual. Deste modo, é
facilitado o progresso na oração a pessoas que poderão, depois, realizar um
melhor discernimento da vontade de Deus sobre elas próprias, e decidir-se por
opções corajosas, às vezes heróicas, exigidas pela fé. De facto, as pessoas
consagradas, « pelo mais profundo do seu ser, situam-se no dinamismo da Igreja,
sequiosa do Absoluto, que é Deus, e chamada à santidade. É desta santidade que
dão testemunho ».O facto de todos serem chamados a tornar-se santos, não pode
senão estimular ainda mais aqueles que, pela própria opção de vida que fizeram,
têm a missão de o recordar aos outros.
« Levantai-vos e não
tenhais medo »: uma renovada confiança
40. « Aproximando-Se
deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: “Levantai-vos e não tenhais medo” » (Mt
17,7). Como os três apóstolos no episódio da Transfiguração, as pessoas
consagradas sabem por experiência que a sua vida nem sempre é iluminada por
aquele fervor sensível que faz exclamar: « É bom estarmos aqui » (Mt 17,4).
Porém, é sempre uma vida « tocada » pela mão de Cristo, abrangida pela sua voz,
sustentada pela sua graça. « Levantai-vos e não tenhais medo ». Este
encorajamento do Mestre é dirigido obviamente a todo o cristão. Mas, por maior
força de razão, vale para quem foi chamado a « deixar tudo » e, portanto, a «
arriscar tudo » por Cristo. Isto vale, de modo particular, quando, com o
Mestre, se desce do « monte » para tomar a estrada que do Tabor leva ao
Calvário.Ao referir que Moisés e Elias falavam com Cristo do seu mistério
pascal, Lucas significativamente usa o termo « partida » [éxodos ]: « falavam
da sua partida que iria consumar-se em Jerusalém » (Lc 9,31). « Êxodo »:
palavra fundamental da revelação à qual toda a história da salvação faz
referência e que exprime o sentido profundo do mistério pascal. Tema
particularmente grato à espiritualidade da vida consagrada e que manifesta bem
o seu significado. Nele, está inevitavelmente incluído o que pertence ao
mysterium Crucis. Mas este difícil « caminho exodal », visto da perspectiva do Tabor,
aparece colocado entre duas luzes: a luz preanunciadora da Transfiguração e a
luz definitiva da Ressurreição.A vocação à vida consagrada — no horizonte de
toda a vida cristã —, não obstante as suas renúncias e provas, antes em virtude
delas, é um caminho « de luz », sobre o qual vela o olhar do Redentor: «
Levantai-vos e não tenhais medo ».
CAPÍTULO II SIGNUM
FRATERNITATIS
A VIDA CONSAGRADA, SINAL
DE COMUNHÃO NA IGREJA
I. VALORES PERMANENTES
À imagem da Trindade
41. Durante a sua vida
terrena, o Senhor Jesus chamou aqueles que quis, para andarem com Ele e ensiná-los
a viver, segundo o seu exemplo, para o Pai e para a missão d-Ele recebida (cf.
Mc 3,13-15). Inaugurava assim aquela nova família da qual haveriam de fazer
parte, ao longo dos séculos, quantos estivessem prontos a « cumprir a vontade
de Deus » (cf. Mc 3,32-35). Depois da Ascensão, mercê do dom do Espírito,
constituiu-se ao redor dos Apóstolos uma comunidade fraterna, unida no louvor
de Deus e por uma concreta experiência de comunhão (cf. Act 2,42-47; 4,32-35).
A vida dessa comunidade e mais ainda a experiência de plena partilha com
Cristo, vivida pelos Doze, foram constantemente o modelo em que a Igreja se
inspirou, quando quis reviver o fervor das origens e retomar, com novo vigor evangélico,
o seu caminho na história.Na realidade, a Igreja é essencialmente um mistério
de comunhão , « um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito
Santo ».A vida fraterna intenta reflectir a profundidade e a riqueza desse
mistério, apresentando-se como um espaço humano habitado pela Trindade, que
difunde assim na história os dons da comunhão próprios das três Pessoas
divinas. Na vida eclesial, são muitos os âmbitos e as modalidades em que se
exprime a comunhão fraterna. À vida consagrada pertence seguramente o mérito de
ter contribuído eficazmente para manter viva na Igreja a exigência da
fraternidade como confissão da Trindade. Com a incessante promoção do amor
fraterno, mesmo sob a forma de vida comum, a vida consagrada revelou que a participação
na comunhão trinitária pode mudar as relações humanas , criando um novo tipo de
solidariedade. Deste modo, ela aponta aos homens quer a sublimidade da comunhão
fraterna, quer os caminhos concretos que a esta conduzem. De facto, as pessoas
consagradas vivem « para » Deus e « de » Deus, e por isso mesmo podem confessar
a força da acção reconciliadora da graça, que abate os dinamismos
desagregadores presentes no coração do homem e nas relações sociais.
Vida fraterna no amor
42. A vida fraterna, concebida
como vida partilhada no amor, é sinal eloquente da comunhão eclesial. Com
particular cuidado, é cultivada pelos Institutos religiosos e pelas Sociedades
de Vida Apostólica, onde adquire especial significado a vida em comunidade.Mas
a dimensão da comunhão fraterna está presente também nos Institutos seculares e
mesmo nas formas individuais de vida consagrada. Os eremitas, na profundidade
da sua solidão, não se subtraem à comunhão eclesial, antes pelo contrário
servem-na com o seu específico carisma contemplativo; as virgens consagradas,
no século, realizam a sua consagração numa especial relação de comunhão com a
Igreja particular e universal. E de modo semelhante, as viúvas e os viúvos
consagrados. Todas estas pessoas, no cumprimento do discipulado evangélico, se
empenham a viver o « mandamento novo » do Senhor, amando-se umas às outras como
Ele nos amou (cf. Jo 13,34). O amor levou Cristo a fazer-Se dom até ao
sacrifício supremo da Cruz. Também entre os seus discípulos não há unidade
verdadeira sem este amor recíproco e incondicional, que exige disponibilidade
para o serviço sem regatear energias, prontidão no acolhimento do outro tal
como é, sem « o julgar » (cf. Mt 7,1-2), capacidade de perdoar inclusive «
setenta vezes sete » (Mt 18,22). Para as pessoas consagradas, feitas « um só
coração e uma só alma » (Act 4,32) por este amor derramado nos corações pelo
Espírito Santo (cf. Rm 5,5), torna-se uma exigência interior o colocar tudo em
comum: bens materiais e experiências espirituais, talentos e inspirações, como
também ideais apostólicos e serviço caritativo: « Na vida comunitária, a
energia do Espírito que existe numa pessoa, passa contemporaneamente a todos.
Nela, não só se usufrui do dom próprio, mas este é multiplicado quando se
participa aos outros, e goza-se tanto do fruto do dom alheio como do próprio
».a vida de comunidade, também se deve tornar de algum modo palpável que a
comunhão fraterna, antes de ser instrumento para uma determinada missão, é
espaço teologal, onde se pode experimentar a presença mística do Senhor
ressuscitado (cf. Mt 18,20).Isto verifica-se graças ao amor recíproco de
quantos compõem a comunidade: um amor alimentado pela Palavra e pela
Eucaristia, purificado no sacramento da Reconciliação, sustentado pela
invocação da unidade, especial dom do Espírito para aqueles que se colocam numa
escuta obediente do Evangelho. É precisamente Ele, o Espírito, que introduz a
alma na comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo (cf. 1 Jo 1,3),
comunhão essa que é a fonte da vida fraterna. É pelo Espírito que as
comunidades de vida consagrada são guiadas no cumprimento da sua missão ao
serviço da Igreja e da humanidade inteira, segundo a respectiva inspiração
originária.Nesta perspectiva, assumem particular importância os « Capítulos »
(ou reuniões análogas), tanto particulares como gerais, onde cada Instituto é
chamado a eleger os Superiores ou Superioras, segundo as normas estabelecidas
pelas respectivas Constituições, e a discernir, à luz do Espírito, as
modalidades adequadas para proteger e renovar, nas diversas situações
históricas e culturais, o próprio carisma e património espiritual.
A funçao da autoridade
43. Na vida consagrada, a
função dos Superiores e Superioras, mesmo locais, teve sempre uma grande
importância quer para a vida espiritual quer para a missão. Nestes anos de
experiências e mudanças, sentiu-se por vezes a necessidade de uma revisão de
tal múnus. Contudo importa reconhecer que quem exerce a autoridade não pode
abdicar da sua missão de primeiro responsável da comunidade, qual guia dos
irmãos e irmãs no caminho espiritual e apostólico. Não é fácil, em ambientes
fortemente marcados pelo individualismo, fazer compreender e aceitar a função
que a autoridade desempenha em proveito de todos. Mas deve-se confirmar a
importância desta tarefa, que se revela necessária exactamente para consolidar
a comunhão fraterna e não tornar vã a obediência professada. Se a autoridade
deve ser, em primeiro lugar, fraterna e espiritual e, por conseguinte, quem
dela está revestido há-de saber associar, pelo diálogo, os irmãos e as irmãs ao
processo decisório, convém todavia recordar que cabe à autoridade a última
palavra, como lhe compete depois fazer respeitar as decisões tomadas.
O papel das pessoas
idosas
44. O cuidado dos idosos
e dos doentes tem uma parte relevante na vida fraterna, especialmente num tempo
como o nosso em que aumenta, nalgumas regiões do mundo, o número de pessoas
consagradas em idade avançada. A atenção carinhosa que elas merecem não resulta
só de um preciso dever de caridade e gratidão, mas é também expressão da
consciência de que o seu testemunho é de grande proveito para a Igreja e para
os Institutos, e de que a sua missão permanece válida e meritória, mesmo
quando, por motivos de idade ou de enfermidade, tiveram de abandonar a sua
actividade específica. Elas têm certamente muito que dar em sabedoria e
experiência à comunidade, se esta souber estar a seu lado com atenção e
capacidade de escuta. Na realidade, mais do que na acção, a missão apostólica
consiste no testemunho da própria dedicação plena à vontade salvífica do
Senhor, dedicação essa que se alimenta nas fontes da oração e da penitência.
Muitos são, por isso, os modos pelos quais os idosos são chamados a viver a sua
vocação: a oração assídua, a paciente aceitação da própria condição, a
disponibilidade para o serviço de director espiritual, de confessor, de guia na
oração.
À imagem da comunidade
apostólica
45. A vida fraterna
desempenha um papel fundamental no caminho espiritual das pessoas consagradas,
tanto para a sua constante renovação como para o pleno cumprimento da sua
missão no mundo: conclui-se isso das motivações teológicas que estão na sua
base, e recebe larga confirmação da própria experiência. Exorto, por isso, os
consagrados e consagradas a cultivá-la com ardor, seguindo o exemplo dos
primeiros cristãos de Jerusalém, que eram assíduos na escuta do ensinamento dos
Apóstolos, na oração comum, na participação da Eucaristia, na partilha dos bens
materiais e espirituais (cf. Act 2,42-47). Exorto sobretudo os religiosos, as
religiosas e os membros das Sociedades de Vida Apostólica a viverem sem
reservas o amor recíproco, exprimindo-o nas modalidades mais apropriadas à
natureza de cada Instituto, para que cada comunidade se manifeste como sinal
luminoso da nova Jerusalém, « morada de Deus com os homens » (Ap 21,3). Com
efeito, toda a Igreja espera muito do testemunho de comunidades ricas « de
alegria e de Espírito Santo » (Act 13,52). Ela deseja oferecer ao mundo o
exemplo de comunidades onde a recíproca atenção ajuda a superar a solidão, e a
comunicação impele a todos a sentirem-se corresponsáveis, o perdão cicatriza as
feridas, reforçando em cada um o propósito da comunhão. Numa comunidade deste
tipo, a natureza do carisma dirige as energias, sustenta a fidelidade e orienta
o trabalho apostólico de todos para a única missão. Para apresentar à
humanidade de hoje o seu verdadeiro rosto, a Igreja tem urgente necessidade de
tais comunidades fraternas, cuja própria existência já constitui uma
contribuição para a nova evangelização, porque mostram de modo concreto os
frutos do « mandamento novo ».
Sentire cum Ecclesia
46. À vida consagrada
está confiada outra grande tarefa, à luz da doutrina sobre a Igreja-comunhão
proposta com grande vigor pelo Concílio Vaticano II: pede-se às pessoas
consagradas para serem verdadeiramente peritas em comunhão e praticarem a sua
espiritualidade,como « testemunhas e artífices daquele “projecto de comunhão”
que está no vértice da história do homem segundo Deus ».O sentido da comunhão
eclesial, desabrochando em espiritualidade de comunhão , promove um modo de
pensar, falar e agir que faz crescer em profundidade e extensão a Igreja. Na
realidade, a vida de comunhão « torna-se um sinal para o mundo e uma força de
atracção que leva à fé em Cristo. (...) Dessa maneira, a comunhão abre-se para
a missão e converte-se ela própria em missão », melhor, « a comunhão gera
comunhão e reveste essencialmente a forma de comunhão missionária ».
Nos fundadores e
fundadoras, aparece sempre vivo o sentido da Igreja, que se manifesta na sua
participação plena da vida eclesial em todas as suas dimensões e na pronta
obediência aos Pastores, especialmente ao Romano Pontífice. Neste horizonte de
amor pela Santa Igreja, « coluna e sustentáculo da verdade » ( 1 Tm 3,15),
compreende-se bem a veneração de Francisco de Assis pelo « senhor Papa » a
ousadia filial de Catarina de Sena para com aquele que ela chama « doce Cristo
na terra »,a obediência apostólica e o sentire cum Ecclesiade Inácio de Loiola,
a jubilosa profissão de fé de Teresa de Jesus: « Sou filha da Igreja
».Compreende-se também o anseio de Teresa de Lisieux: « No coração da Igreja,
minha mãe, eu serei o amor ».Tais testemunhos são representativos da plena
comunhão eclesial, que santos e santas, fundadores e fundadoras compartilharam
entre si, em épocas e circunstâncias diversas e frequentemente muito difíceis.
São exemplos a que as pessoas consagradas devem constantemente fazer
referência, para resistirem aos impulsos centrífugos e desagregadores, hoje
particularmente activos.Um aspecto qualificativo desta comunhão eclesial é a
adesão da mente e do coração ao magistério dos Bispos, que há-de ser vivida com
lealdade e testemunhada claramente diante do Povo de Deus por todas as pessoas
consagradas, e de modo especial pelas que estão empenhadas na investigação
teológica e no ensino, nas publicações, na catequese, no uso dos meios de
comunicação social.Visto que as pessoas consagradas ocupam um lugar especial na
Igreja, o seu comportamento a tal respeito tem grande importância para todo o
Povo de Deus. Do seu testemunho de amor filial recebe força e incidência a sua
acção apostólica, que, no quadro da missão profética de todos os baptizados, se
caracteriza geralmente por tarefas de especial colaboração com a ordem
hierárquica.Desta forma, com a riqueza dos seus carismas, dão uma contribuição
específica, para a Igreja realizar cada vez mais profundamente a sua natureza
de sacramento da « íntima uniao com Deus e da unidade de todo o género humano
».
A fraternidade na Igreja
universal
47. As pessoas
consagradas estão chamadas a ser fermento de comunhão missionária na Igreja
universal, pelo facto mesmo de os múltiplos carismas dos respectivos Institutos
serem concedidos pelo Espírito Santo para o bem de todo o Corpo Místico, a cuja
edificação devem servir (cf. 1 Cor 12,4-11). Significativamente « o caminho
melhor » (1 Cor 12,31), a « maior de todas » as virtudes (1 Cor 13,13), segundo
a palavra do Apóstolo, é a caridade, que harmoniza as várias diferenças e a
todos comunica a força da mútua ajuda no ímpeto apostólico. Isto mesmo tem em
vista o peculiar vínculo de comunhão, que as várias formas de vida consagrada e
as Sociedades de Vida Apostólica têm com o Sucessor de Pedro em seu ministério
de unidade e de universalidade missionária. A história da espiritualidade
ilustra amplamente este vínculo, mostrando a sua função providencial de
garantia tanto da identidade própria da vida consagrada como da expansão
missionária do Evangelho. A vigorosa difusão do anúncio evangélico, a salda
radicação da Igreja em muitas regiões do mundo, e a primavera cristã que hoje
se regista nas jovens Igrejas seriam impensáveis — como observaram os Padres
sinodais — sem o contributo de tantos Institutos de vida consagrada e Sociedades
de Vida Apostólica. Ao longo dos séculos, mantiveram firmemente a comunhão com
os Sucessores de Pedro, que neles encontraram generosa prontidão para se
dedicarem à missão com uma disponibilidade tal que, em caso de necessidade,
soube guindar-se até ao heroísmo.
Sobressai assim o
carácter de universalidade e comunhão , que é próprio dos Institutos de vida
consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica. Pela conotação supradiocesana
radicada na sua especial relação com o ministério petrino, eles estão também ao
serviço da colaboração entre as diversas Igrejas particulares,entre as quais
podem promover eficazmente a « permuta de dons », contribuindo para uma
inculturação do Evangelho que purifique, valorize e assuma as riquezas das
culturas de todos os povos.Também o actual florescimento, nas jovens Igrejas,
de vocações para a vida consagrada manifesta a capacidade que esta possui de
exprimir na unidade católica as solicitações dos vários povos e culturas.
A vida consagrada e a
Igreja particular
48. Às pessoas
consagradas cabe uma função significativa, também no seio das Igrejas
particulares. Este é um aspecto que — partindo da doutrina conciliar sobre a
Igreja, enquanto comunhão e mistério, e sobre as Igrejas particulares, como
porção do Povo de Deus na qual « está verdadeiramente presente e opera a Igreja
de Cristo, una, santa, católica e apostólica »— foi aprofundado e regulado em
vários documentos posteriores. À luz destes textos, aparece em toda a sua
evidência a importância fundamental que reveste a colaboração das pessoas
consagradas com os Bispos, para o desenvolvimento harmonioso da pastoral
diocesana. Muito podem contribuir os carismas da vida consagrada para a
edificação da caridade na Igreja particular.De facto, as várias formas em que
se vivem os conselhos evangélicos são expressão e fruto de dons espirituais
recebidos por fundadores e fundadoras e, como tais, constituem uma «
experiência do Espírito, transmitida aos próprios discípulos a fim de ser por
eles vivida, conservada, aprofundada e constantemente desenvolvida em sintonia
com o Corpo de Cristo em perene crescimento ».A índole própria de cada
Instituto comporta um peculiar estilo de santificação e apostolado, que tende a
consolidar-se numa determinada tradição, caracterizada por elementos
objectivos.Por isso, a Igreja tem cuidado de que os Institutos cresçam e se
desenvolvam segundo o espírito dos fundadores e fundadoras, e as suas sãs
tradições.m consequência, é reconhecida aos vários Institutos uma justa
autonomia, em virtude da qual podem valer-se de uma disciplina própria e
guardar íntegro o seu património espiritual e apostólico. É tarefa dos
Ordinários do lugar conservar e tutelar essa autonomia.Por isso, é pedido aos
Bispos que acolham e estimem os carismas da vida consagrada, dando-lhes espaço
nos planos da pastoral diocesana. Uma particular solicitude, devem ter pelos
Institutos de direito diocesano, que estão confiados ao cuidado especial do
Bispo do lugar. Uma diocese que ficasse sem vida consagrada, para além de
perder tantos dons espirituais, lugares privilegiados da busca de Deus,
actividades apostólicas e metodologias pastorais específicas, arriscar-se-ia a
ficar enormemente enfraquecida naquele espírito missionário que é próprio da
maioria dos Institutos.Forçoso é, pois, corresponder ao dom da vida consagrada,
que o Espírito suscita na Igreja particular, acolhendo-o generosamente com
acções de graças.
Uma comunhão eclesial
fecunda e ordenada
49. O Bispo é pai e
pastor da Igreja particular inteira. Compete-lhe reconhecer e respeitar,
promover e coordenar os vários carismas. Na sua caridade pastoral, portanto,
acolherá o carisma da vida consagrada como graça que não diz respeito apenas a
um Instituto, mas reverte em favor de toda a Igreja. Procurará, pois, apoiar e
ajudar as pessoas consagradas, para que, em comunhão com a Igreja, se abram a
perspectivas espirituais e pastorais que correspondam às exigências do nosso
tempo, na fidelidade à inspiração originária. Por sua vez, as pessoas de vida
consagrada não deixarão de oferecer generosamente a sua colaboração à Igreja
particular, segundo as próprias forças e no respeito do próprio carisma,
actuando em plena comunhão com o Bispo no âmbito da evangelização, da
catequese, da vida das paróquias.Importa recordar que, ao coordenarem o serviço
da Igreja universal com o da Igreja particular, os Institutos não podem invocar
a justa autonomia e a própria isenção, de que muitos deles gozam,para
justificar opções que estão, de facto, em contraste com as exigências de
comunhão orgânica requeridas por uma vida eclesial salutar. Ao contrário, é
preciso que as iniciativas pastorais das pessoas consagradas sejam decididas e
actuadas com base num diálogo cordial e aberto entre Bispos e Superiores dos
vários Institutos. A atenção especial da parte dos Bispos pela vocação e missão
dos Institutos e, da parte destes, o respeito pelo ministério dos Bispos,
através do solícito acolhimento das suas indicações pastorais concretas para a
vida diocesana, representam duas formas intimamente conexas daquela única
caridade eclesial que a todos obriga ao serviço da comunhão orgânica —
carismática e ao mesmo tempo hierarquicamente estruturada — de todo o Povo de
Deus.
Um diálogo constante,
animado pela caridade
50. Para promover o
conhecimento recíproco, pressuposto necessário para uma efectiva cooperação
sobretudo no âmbito pastoral, é muito vantajoso um diálogo constante de
Superiores e Superioras dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de
Vida Apostólica com os Bispos. Mercê destes contactos habituais, Superiores e
Superioras poderão informar os Bispos acerca das iniciativas apostólicas que
pensam encetar nas suas dioceses, para se chegar aos necessários ajustamentos
práticos. Da mesma forma, é conveniente que pessoas delegadas pelas Conferências
dos Superiores e Superioras Gerais sejam convidadas a assistir às assembleias
das Conferências dos Bispos e, vice-versa, delegados das Conferências
Episcopais sejam convidados às Conferências dos Superiores e Superioras Gerais,
segundo modalidades a determinar. Nesta perspectiva, será de grande utilidade
que se constituam, onde ainda não existirem, e se tornem operativas, a nível
nacional, comissões mistas de Bispos e Superiores e Superioras Maiores,que
examinem em conjunto os problemas de interesse comum. Para melhor conhecimento
recíproco, contribuirá também a inserção da teologia e espiritualidade da vida
consagrada no plano de estudos teológicos dos presbíteros diocesanos, assim
como prever, na formação das pessoas consagradas, uma exposição adequada da
teologia da Igreja particular e da espiritualidade do clero diocesano.É co
nsolador, enfim, recordar que, no Sínodo, não só houve numerosas intervenções
acerca da doutrina da comunhão, mas foi grande também a satisfação pela
experiência de diálogo, vivida num clima de confiança e abertura recíproca
entre os Bispos e os religiosos e religiosas presentes. Isto suscitou o desejo
de que « tal experiência espiritual de comunhão e colaboração se estenda a toda
a Igreja », depois do Sínodo É um voto, que faço meu, pelo crescimento em todos
da mentalidade e da espiritualidade de comunhão.
A fraternidade num mundo
dividido e injusto
51. A Igreja confia às
comunidades de vida consagrada a missão particular de fazerem crescer a
espiritualidade da comunhão, primeiro no seu seio e depois na própria
comunidade eclesial e para além dos seus confins, iniciando ou retomando
incessantemente o diálogo da caridade, sobretudo nos lugares onde o mundo de
hoje aparece dilacerado pelo ódio étnico ou por loucuras homicidas. Situadas
nas várias sociedades do nosso planeta — sociedades tantas vezes abaladas por
paixões e interesses contraditórios, desejosas de unidade mas incertas sobre os
caminhos a seguir —, as comunidades de vida consagrada, nas quais se encontram
como irmãos e irmãs pessoas de diversas idades, línguas e culturas, aparecem
como sinal de um diálogo sempre possível e de uma comunhão capaz de harmonizar
as diferenças.
As comunidades de vida
consagrada são enviadas a anunciar, pelo testemunho da sua vida, o valor da
fraternidade cristã e a força transformadora da Boa Nova,que faz reconhecer a
todos como filhos de Deus e leva ao amor oblativo para com todos, especialmente
para com os últimos. Estas comunidades são lugares de esperança e de descoberta
das bem-aventuranças, lugares onde o amor, haurido na fonte da comunhão que é a
oração, é chamado a tornar-se lógica de vida e fonte de alegria.Os Institutos
internacionais, nesta época caracterizada pela repercussão universal dos
problemas e simultaneamente pelo regresso dos ídolos do nacionalismo, sobretudo
eles têm a missão de manter vivo e testemunhar o sentido da comunhão entre os
povos, as raças, as culturas. Num clima de fraternidade, a abertura à dimensão
mundial dos problemas não sufocará as riquezas particulares, nem a afirmação de
uma particularidade gerará contrastes com as outras ou com o todo. Os
Institutos internacionais podem realizar isso eficazmente, já que eles próprios
devem enfrentar criativamente o desafio da inculturação e conservar ao mesmo
tempo a sua identidade.
Comunhão entre os
diversos Institutos
52. O fraterno
relacionamento espiritual e a mútua colaboração entre os diversos Institutos de
vida consagrada e Sociedades de Vida Apostólica são sustentados e fortalecidos
pelo sentido eclesial de comunhão. Pessoas que estão unidas entre si pelo
compromisso comum de seguir Cristo e animadas pelo mesmo Espírito, não podem
deixar de manifestar visivelmente, como ramos da única Videira, a plenitude do
Evangelho do amor. Lembradas da amizade espiritual que muitas vezes ligou na
terra os diversos fundadores e fundadoras, tais pessoas, permanecendo fiéis à
índole do próprio Instituto, são chamadas a exprimir uma fraternidade exemplar,
que sirva de estímulo aos outros corpos eclesiais no empenho quotidiano de dar
testemunho do Evangelho.Permanecem sempre actuais as palavras de S. Bernardo, a
propósito das várias Ordens religiosas: « Eu admiro-as todas. Pela observância
sou membro de uma delas, mas pela caridade pertenço a todas. Todos temos
necessidade uns dos outros: o bem espiritual que não tenho nem possuo, recebo-o
dos outros (...). Neste exílio, a Igreja está ainda a caminho e é, se assim
posso dizer, plural: é uma pluralidade una e uma unidade plural. E todas as
nossas diversidades, que manifestam a riqueza dos dons de Deus, subsistirão na
única casa do Pai, que tem muitas moradas. Agora, existe divisão de graças;
naquele dia, haverá distinção de glórias. A unidade, tanto aqui como além,
consiste numa mesma caridade ».
Organismos de coordenação
53. Um notável contributo
para a comunhão pode ser dado pelas Conferências dos Superiores e das
Superioras Maiores e pelos Conselhos dos Institutos Seculares. Encorajados e
regulamentados pelo Concílio Vaticano IIe por documentos posteriores,estes
organismos têm como principal finalidade a promoção da vida consagrada
integrada no conjunto da missão eclesial.Através deles, os Institutos exprimem
a comunhão entre si e procuram os meios para a reforçar, no respeito e
valorização das especificidades dos vários carismas em que se reflecte o
mistério da Igreja e a multiforme sabedoria de Deus.Encorajo os Institutos de
vida consagrada a colaborarem uns com os outros, especialmente naqueles países
onde, por particulares dificuldades, pode ser forte a tentação de se fecharem
em si mesmos, com prejuízo para a própria vida consagrada e para a Igreja.
Importa, ao contrário, que se ajudem mutuamente a procurar compreender o
desígnio de Deus no actual transe da história, para melhor lhe responder com
iniciativas apostólicas adequadas.Neste horizonte de comunhão aberto aos
desafios do nosso tempo, os Superiores e as Superioras, « actuando em sintonia
com o Episcopado », procurem « aproveitar do trabalho dos melhores
colaboradores de cada Instituto e, correlativamente, prestar serviços que não
só ajudem a superar eventuais limitações, mas criem um estilo válido de
formação para a vida consagrada ».xorto as Conferências dos Superiores e das
Superioras Maiores e as Conferências dos Institutos Seculares a cultivarem
frequentes e regulares contactos também com a Congregação para os Institutos de
Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, como manifestação da sua
comunhão com a Santa Sé. Um relacionamento activo e confiante deverá ser
mantido ainda com as Conferências Episcopais dos vários países. Segundo o
espírito do documento Mutuae relationes, será conveniente que tal
relacionamento assuma uma forma estável, de modo que se torne possível a
coordenação constante e atempada das iniciativas que progressivamente vão
surgindo. Se tudo isto for realizado com perseverança e espírito de fiel adesão
às directrizes do Magistério, os organismos de ligação e comunhão revelar-se-ão
particularmente úteis para encontrar soluções que evitem incompreensões e
conflitos, quer no plano dos princípios quer no campo prático;deste modo,
servirão de apoio não só ao crescimento da comunhão entre os Institutos de vida
consagrada e os Bispos, mas também à realização da própria missão das Igrejas
particulares.
Comunhão e colaboração
com os leigos
54. Um dos frutos da
doutrina da Igreja como comunhão, nestes anos, foi a tomada de consciência de
que os seus vários membros podem e devem unir as forças, numa atitude de
colaboração e permuta de dons, para participar mais eficazmente na missão
eclesial. Isto concorre para dar uma imagem mais articulada e completa da
própria Igreja, para além de tornar mais eficiente a resposta aos grandes
desafios do nosso tempo, graças ao concurso harmonioso dos diversos dons.
Os contactos com os
leigos, no caso de Institutos monásticos e contemplativos, apresentam-se
prevalentemente como uma relação espiritual, enquanto que, para os Institutos
empenhados na vertente do apostolado, se traduzem em formas de colaboração
pastoral. Os membros dos Institutos seculares, leigos ou clérigos, relacionam-se
com os outros fiéis nos moldes ordinários da vida quotidiana. Hoje alguns
Institutos, frequentemente por imposição das novas situações, chegaram à
convicção de que o seu carisma pode ser partilhado com os leigos. E assim estes
são convidados a participar mais intensamente na espiritualidade e missão do
próprio Instituto. Pode-se dizer que, no rasto de experiências históricas como
a das diversas Ordens seculares ou Ordens Terceiras, se iniciou um novo
capítulo, rico de esperanças, na história das relações entre as pessoas
consagradas e o laicado.
Para um renovado
dinamismo espiritual e apostólico
55. Estes novos percursos
de comunhão e colaboração merecem ser encorajados, por diversos motivos. Daí
poderá resultar, antes de mais, a irradiação de frutuosa espiritualidade para
além das fronteiras do Instituto, que assim poderá contar com novas energias
até para assegurar à Igreja a continuação de determinadas formas de serviço
típicas dele. Outra consequência positiva poderá ser a de propiciar uma
sinergia mais intensa entre pessoas consagradas e leigos em ordem à missão:
estes, movidos pelos exemplos de santidade das pessoas consagradas, serão
introduzidos na experiência directa do espírito dos conselhos evangélicos e,
dessa forma, encorajados a viver e testemunhar o espírito das bem-aventuranças,
tendo em vista a transformação do mundo segundo o coração de Deus.ão raras
vezes, a participação dos leigos traz inesperados e fecundos aprofundamentos de
alguns aspectos do carisma, reavivando uma interpretação mais espiritual do
mesmo e levando a tirar daí indicações para novos dinamismos apostólicos. Em
qualquer actividade ou ministério que estejam empenhadas, as pessoas
consagradas lembrem-se de que hão-de ser primariamente guias especializados de
vida espiritual, e, nesta perspectiva, cultivem « o talento mais precioso: o
espírito ».Os leigos, por sua vez, ofereçam às famílias religiosas a ajuda
preciosa da sua secularidade e do seu serviço específico.
Leigos voluntários e
associados
56. Uma expressao
significativa de participaçao laical nas riquezas da vida consagrada é a adesao
de fiéis leigos aos diversos Institutos, na nova forma dos chamados membros
associados ou, segundo as exigências de alguns contextos culturais, de pessoas
que partilham, por um certo período de tempo, a vida comunitária e a específica
consagração contemplativa ou apostólica do Instituto, sempre com a condição,
obviamente, de que a identidade da sua vida interna não sofra dano.É justo
rodear de grande estima o voluntariado que vai beber às riquezas da vida
consagrada; importa, porém, cuidar da sua formação, para que os voluntários,
além da competência, tenham sempre profundas motivações sobrenaturais nos seus
propósitos, e vivo sentido comunitário e eclesial nos seus projectos. Há que
ter em conta ainda que as iniciativas, onde estejam envolvidos leigos ao nível
mesmo de decisão, para serem consideradas obra de determinado Instituto, devem
propor-se os fins deste e serem concretizadas sob a sua responsabilidade. Por
isso, se os leigos assumirem a direcção de tais iniciativas, da mesma terão de
responder perante os Superiores e Superioras competentes. É conveniente que
tudo isto seja contemplado e regulado por específicas directrizes dos diversos
Institutos, aprovadas pela Autoridade Superior, nas quais estejam previstas as
respectivas competências do próprio Instituto, das comunidades, dos membros
associados ou dos voluntários.As pessoas consagradas, enviadas pelos seus
Superiores e Superioras e sempre na dependência dos mesmos, podem estar
presentes, com formas específicas de colaboração, em iniciativas laicais, e de
modo particular em organizações e instituições que se interessam dos
marginalizados e têm por objectivo aliviar o sofrimento humano. Se tal
colaboração é animada e mantida por uma clara e forte identidade cristã e
respeita a índole própria da vida consagrada, pode fazer brilhar a força
luminosa do Evangelho nas situações mais obscuras da existência humana.Nestes
anos, bastantes pessoas consagradas entraram em movimentos eclesiais, surgidos
no nosso tempo. Os directos interessados geralmente tiram proveito de tais
experiências, especialmente ao nível da renovação espiritual. Todavia não se
pode negar que, nalguns casos, isso tenha gerado mal-estar e desorientação a
nível pessoal e comunitário, de forma especial quando estas experiências entram
em conflito com as exigências da vida em comum e da espiritualidade do
Instituto. Será necessário, pois, cuidar de que a adesão aos movimentos
eclesiais se realize no respeito do carisma e disciplina do próprio
Instituto,com o consentimento dos Superiores e das Superioras e na plena
disponibilidade de acolher as suas decisões.
A dignidade e o papel da
mulher consagrada
57. A Igreja manifesta
plenamente a sua multiforme riqueza espiritual, quando, superadas as
discriminações, acolhe como uma verdadeira bênção os dons infundidos por Deus
tanto nos homens como nas mulheres, valorizando a todos em sua igual dignidade.
As mulheres consagradas estão chamadas de modo absolutamente especial a serem,
através da sua dedicação vivida em plenitude e com alegria, um sinal da ternura
de Deus para com o género humano e um testemunho particular do mistério da
Igreja que é virgem, esposa e mãe.Tal missão não deixou de sobressair no Sínodo,
onde um bom número delas tomou parte, podendo fazer ouvir a sua voz que foi
escutada e apreciada por todos. Graças também às suas contribuições, surgiram
úteis indicações para a vida da Igreja e para a sua missão evangelizadora. Por
certo, não se pode deixar de reconhecer o fundamento de muitas reivindicações
relativas à posição da mulher nos diversos âmbitos sociais e eclesiais. Do
mesmo modo, é forçoso assinalar que a nova consciência feminina ajuda também os
homens a reverem os seus esquemas mentais, o modo de se autocompreenderem, de
se colocarem na história e de a interpretarem, de organizarem a vida social,
política, económica, religiosa, eclesial.A Igreja, que recebeu de Cristo uma
mensagem de libertação, tem a missão de a difundir profeticamente, promovendo
mentalidades e comportamentos conformes às intenções do Senhor. Neste contexto,
a mulher consagrada pode, a partir da sua experiência de Igreja e de mulher na
Igreja, contribuir para eliminar certas visões unilaterais, que não manifestam
o reconhecimento pleno da sua dignidade, da sua contribuição específica para a
vida e para a acção pastoral e missionária da Igreja. Assim, é legítimo que a
mulher consagrada aspire a ver reconhecida mais claramente a sua identidade, a
sua capacidade, a sua missão, a sua responsabilidade, quer na consciência
eclesial quer na vida de todos os dias.Também o futuro da nova evangelização,
como aliás de todas as outras formas de acção missionária, é impensável sem uma
renovada contribuição das mulheres, especialmente das mulheres consagradas.
Novas perspectivas de
presença e acção
58. Por isso, é urgente
realizar alguns passos concretos, começando pela abertura às mulheres de
espaços de participação nos vários sectores e a todos os níveis, mesmo nos
processos de elaboração das decisões, sobretudo naquilo que lhes diz
respeito.Necessário é também que a formação das mulheres consagradas, da mesma
forma que a dos homens, seja adequada às novas urgências e preveja tempo
suficiente e oportunidades institucionais válidas para uma educação
sistemática, alargada a todos os campos, desde o teológico-pastoral até ao
profissional. A formação pastoral e catequética, sempre importante, assume um
relevo particular na perspectiva da nova evangelização, que requer, também das
mulheres, novas formas de participação.É previsível que o aprofundamento da
formação, ao mesmo tempo que irá ajudar a mulher consagrada a compreender
melhor os próprios dons, não deixará de estimular a necessária reciprocidade no
seio da Igreja. Na verdade, no campo da reflexão teológica, cultural e
espiritual, muito se espera do « génio » da mulher no que diz respeito não só à
especificidade da vida consagrada feminina, mas também à inteligência da fé em
todas as suas expressões. A propósito disto, pense-se quanto deve a história da
espiritualidade a santas como Teresa de Jesus e Catarina de Sena, as duas
primeiras mulheres honradas com o título de Doutoras da Igreja, e a tantas
outras místicas no que respeita à perscrutação do mistério de Deus e à análise
da sua acção no crente! A Igreja conta muito com as mulheres consagradas para
uma contribuição original na promoção da doutrina, dos costumes, da própria
vida familiar e social, especialmente no que toca à dignidade da mulher e ao
respeito da vida humana.De facto, « as mulheres têm um espaço de pensamento e
acção singular e talvez determinante: compete a elas fazerem-se promotoras de
um “novo feminismo” que, sem cair na tentação de seguir modelos
“masculinizados”, saiba reconhecer e exprimir o verdadeiro génio feminino em
todas as manifestações da convivência civil, trabalhando pela superação de toda
a forma de discriminação, violência e exploração ».á motivos para esperar que,
de um reconhecimento mais profundo da missão da mulher, resulte para a vida
consagrada feminina uma consciência sempre maior da sua própria função e um
crescimento da sua dedicação à causa do Reino de Deus. Isso poder-se-á traduzir
numa multiplicidade de obras, tais como o empenhamento a favor da
evangelização, a actividade educativa, a participação na formação dos futuros
sacerdotes e das pessoas consagradas, a animação da comunidade cristã, o
acompanhamento espiritual, a promoção de bens fundamentais como a vida e a paz.
Às mulheres consagradas e à sua extraordinária capacidade de dedicação, exprimo
uma vez mais o apreço e a gratidão da Igreja inteira, que as apoia para que
vivam em plenitude e alegria a sua vocação e se sintam interpeladas pela alta
missão de ajudar a formar a mulher de hoje.
II. CONTINUIDADE NA OBRA
DO ESPIRITO: FIDELIDADE NA NOVIDADE
As monjas de clausura
59. Merecem particular
atenção a vida monástica feminina e a clausura das monjas, devido à imensa
estima que a comunidade cristã nutre por este género de vida, sinal da união
exclusiva da Igreja-Esposa com o seu Senhor , sumamente amado. Com efeito, a
vida das monjas de clausura, empenhadas de modo determinante na oração, na
ascese e no diligente progresso da vida espiritual, « não é senão uma tensão
para a Jerusalém celeste, uma antecipação da Igreja escatológica, fixa na posse
e na contemplação de Deus ».À luz desta vocação e missão eclesial, a clausura
corresponde à exigência, sentida como prioritária, de estar com o Senhor.
Escolhendo um espaço delimitado como lugar de vida, as claustrais participam no
aniquilamento de Cristo, através de uma pobreza radical que se exprime na
renúncia não só às coisas, mas também ao « espaço », aos contactos, a tantos
bens da criação. Este modo particular de dar o « corpo » insere-as mais
sensivelmente no mistério eucarístico. Oferecem-se com Jesus pela salvação do
mundo. A sua oferta, para além do aspecto de sacrifício e expiação, adquire
também o de agradecimento ao Pai, participando na acção de graças do Filho
dilecto.
Radicada nesta tensão
espiritual, a clausura não é apenas um meio ascético de imenso valor, mas um
modo de viver a Páscoa de Cristo.De experiência de « morte », torna-se
superabundância de vida, apresentando-se como jubiloso anúncio e antecipação
profética da possibilidade oferecida a cada pessoa e a toda a humanidade de
viver unicamente para Deus, em Cristo Jesus (cf. Rm 6,11). A clausura evoca,
assim, aquela cela do coração, onde cada um é chamado a viver a união com o
Senhor. Acolhida como dom e escolhida como livre resposta de amor, aquela é o
lugar da comunhão espiritual com Deus e com os irmãos e irmãs, onde a limitação
dos espaços e dos contactos ajuda à interiorização dos valores evangélicos (cf.
Jo 13,34; Mt 5,3.8).As comunidades claustrais, postas como cidades no cimo do
monte ou como candeias em cima do velador (cf. Mt 5,14-15), mesmo na
simplicidade da sua vida, representam visivelmente a meta para a qual caminha a
comunidade eclesial inteira que, « empenhada na acção e dada à contemplação
»,avança pelas estradas do tempo com o olhar fixo na futura recapitulação de
tudo em Cristo, quando a Igreja « aparecer com seu Esposo na glória (cf. Col
3,1-4) »,e Cristo « entregar o Reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo o
Principado, toda a Dominação e Potestade (...), a fim de que Deus seja tudo em
todos » (1 Cor 15,24.28).A estas Irmãs muito amadas, exprimo a minha gratidão,
encorajando-as a manterem-se fiéis à vida claustral segundo o próprio carisma.
Graças ao seu exemplo, este género de vida continua a registar numerosas
vocações, atraídas pela radicalidade de uma existência « esponsal », totalmente
dedicada a Deus na contemplação. Como expressão de puro amor que vale mais do
que todas as obras, a vida contemplativa produz uma eficácia apostólica e
missionária extraordinária.s Padres sinodais manifestaram grande apreço pelo
valor da clausura, ao mesmo tempo que tomavam em consideração os pedidos,
recebidos de vários lados, relativos à disciplina concreta da mesma. As
indicações do Sínodo sobre o assunto e, de modo particular, o voto formulado de
uma maior responsabilização das Superioras Maiores em matéria de derrogações à
clausura por justa e grave causaserão objecto de uma orgânica consideração, na
linha do caminho de renovação já encetado a partir do Concílio Vaticano
II.Deste modo, a clausura, nas suas diversas formas e graus — desde a clausura
papal e constitucional até à clausura monástica —, corresponderá melhor à
variedade dos Institutos contemplativos e das tradições dos mosteiros.Além
disso, como o próprio Sínodo sublinhou, são de favorecer as Associações e
Federações entre mosteiros, já recomendadas por Pio XII e pelo Concílio
Ecuménico Vaticano II,especialmente onde não haja outras formas eficazes de
coordenação e ajuda. Tais organismos, no respeito sempre da legítima autonomia
dos mosteiros, podem, de facto, prestar uma válida colaboraçao para resolver
adequadamente problemas comuns, tais como a devida renovação, a formação tanto
inicial como permanente, o mútuo apoio económico e ainda a reorganização dos
próprios mosteiros.
Os religiosos irmãos
60. Segundo a doutrina
tradicional da Igreja, a vida consagrada, por sua natureza, não é laical nem
clerical,e portanto a « consagração laical », tanto masculina como feminina,
constitui por si mesma um estado completo de profissão dos conselhos evangélicos.Por
isso mesmo, ela tem um valor próprio, independentemente do ministério sagrado,
tanto para o indivíduo como para a Igreja.
Na linha do ensinamento
do Concílio Vaticano II,o Sínodo exprimiu grande estima por este tipo de vida
consagrada que é o dos religiosos irmãos, os quais desempenham, dentro e fora
da comunidade, diversos e preciosos serviços, participando assim na missão de
proclamar o Evangelho e testemunhá-lo pela caridade na vida de cada dia. Com
efeito, alguns desses serviços podem-se considerar ministérios eclesiais,
confiados pela legítima autoridade. Isto exige uma formação apropriada e
integral: humana, espiritual, teológica, pastoral e profissional.Segundo a
terminologia vigente, os Institutos que, por determinação do fundador ou em virtude
de uma legítima tradição, têm carácter e finalidade que não comportam o
exercício da Ordem sacra, são chamados « Institutos laicais ».Contudo, no
Sínodo, foi observado que esta terminologia não exprime adequadamente a índole
peculiar da vocação dos membros de tais Institutos religiosos. De facto, eles,
apesar de desempenharem muitos serviços que são comuns também aos fiéis leigos,
fazem-no com a sua identidade de consagrados, exprimindo assim o espírito de
dom total a Cristo e à Igreja, segundo o seu carisma específico.Por esta razão,
os Padres sinodais, a fim de se evitar toda a ambiguidade e confusão com a
índole secular dos fiéis leigos,houveram por bem propor a designação de
Institutos religiosos de Irmãos .A proposta é significativa, sobretudo se se
considera que a qualificação de irmãos evoca uma rica espiritualidade. « Estes
religiosos são chamados a ser irmãos de Cristo, profundamente unidos a Ele,
“primogénito de muitos irmãos” (Rm 8,29); irmãos entre si, no amor recíproco e
na cooperação para o mesmo serviço de bem-fazer na Igreja; irmãos de todos os
homens, no testemunho da caridade de Cristo para com todos, especialmente os
mais pequeninos, os mais necessitados; irmãos para uma maior fraternidade na
Igreja ».Vivendo de modo especial este aspecto próprio simultaneamente da vida
cristã e consagrada, os « religiosos irmãos » lembram eficazmente aos próprios
religiosos sacerdotes a dimensão fundamental da fraternidade em Cristo, que hão-de
viver entre eles e com todo o homem e mulher, e a todos proclamam a palavra do
Senhor: « E vós sois todos irmãos » (Mt 23,8).Nestes Institutos religiosos de
Irmãos, quando o Capítulo Geral assim o tiver estabelecido, nada impede que
alguns membros assumam as Ordens sacras para o serviço sacerdotal da comunidade
religiosa.Todavia o Concílio Vaticano II não dá qualquer encorajamento
explícito nesse sentido, precisamente porque deseja que os Institutos de Irmãos
permaneçam fiéis à sua vocação e missão. O mesmo vale quanto ao tema do acesso
ao cargo de Superior, considerando que esse reflecte de modo especial a
natureza do próprio Instituto.Distinta é a vocação dos irmãos naqueles
Institutos que são designados « clericais », porque, segundo o projecto do
fundador ou então em virtude de uma legítima tradição, prevêem o exercício da
Ordem sacra, são governados por clérigos, e são reconhecidos como tais pela
autoridade da Igreja.Nestes Institutos, o ministério sagrado é constitutivo do
próprio carisma e determina-lhes a índole, o fim, o espírito. A presença de
irmãos constitui uma participação diferenciada na missão do Instituto, com
serviços realizados tanto no seio das comunidades como nas obras apostólicas,
em colaboração com aqueles que exercem o ministério sacerdotal.
Institutos mistos
61. Alguns Institutos
religiosos, que, no projecto originário do fundador, se apresentavam como
fraternidades, onde todos os membros — sacerdotes e não sacerdotes — eram
considerados iguais entre si, com o passar do tempo adquiriram uma fisionomia
diversa. Importa que estes Institutos chamados « mistos » ponderem, na base de
um aprofundamento do próprio carisma de fundação, se seria oportuno e possível
voltar à inspiração original.
Os Padres sinodais
formularam o voto de que, em tais Institutos, seja reconhecida a todos os
religiosos igualdade de direitos e deveres, excepto os que derivam da Ordem
sacra.Para examinar e resolver os problemas conexos com esta matéria, foi
instituída uma específica comissão, cujas conclusões convém esperar para se
fazerem depois as opções convenientes segundo aquilo que for autenticamente
estabelecido.
Novas formas de vida
evangélica
62. O Espírito, que, ao
longo dos tempos, suscitou numerosas formas de vida consagrada, não cessa de
assistir a Igreja, quer alimentando nos Institutos já existentes o esforço de
renovação na fidelidade ao carisma original, quer distribuindo novos carismas a
homens e mulheres do nosso tempo, para que dêem vida a instituições adequadas
aos desafios de hoje. Sinal desta intervenção divina são as chamadas novas
Fundações, com características de algum modo originais relativamente às
tradicionais.
A originalidade destas
novas comunidades consiste frequentemente no facto de se tratar de grupos
compostos de homens e mulheres, de clérigos e leigos, de casados e solteiros,
que seguem um estilo particular de vida, inspirado às vezes numa ou noutra
forma tradicional ou adaptado às exigências da sociedade actual. Também o seu
compromisso de vida evangélica se exprime em formas diversas, manifestando-se,
como tendência geral, uma intensa aspiração à vida comunitária, à pobreza e à
oração. No governo, participam clérigos e leigos, segundo as respectivas
competências, e o fim apostólico vai ao encontro das solicitações da nova
evangelização.Se, por um lado, há que alegrar-se perante a acção do Espírito,
por outro, é necessário proceder ao discernimento dos carismas . Princípio
fundamental para se poder falar de vida consagrada é que os traços específicos
das novas comunidades e formas de vida se apresentem fundados sobre os
elementos essenciais, teológicos e canónicos, que são próprios da vida
consagrada.Este discernimento torna-se necessário tanto a nível local como
universal, com o fim de se prestar uma obediência comum ao único Espírito. Nas
dioceses, o Bispo examine o testemunho de vida e a ortodoxia dos fundadores e
fundadoras dessas comunidades, a sua espiritualidade, a sensibilidade eclesial
manifestada no desempenho da sua missão, os métodos de formação e os modos de
incorporação na comunidade; avalie com prudência eventuais pontos fracos,
aguardando com paciência a prova dos frutos (cf. Mt 7,16), para poder
reconhecer a autenticidade do carisma.De modo especial, é-lhe pedido que
estabeleça, com base em critérios claros, a idoneidade daqueles que, nessas
comunidades, pedem para ter acesso às Ordens sacras.m virtude do referido
princípio de discernimento, não podem ser incluídas na categoria específica da
vida consagrada, aquelas formas de compromisso, se bem que louváveis, que
alguns esposos cristãos assumem em associações ou movimentos eclesiais, quando,
com a intenção de levarem à perfeição da caridade o seu amor, « como que
consagrado » já no sacramento do matrimónio,confirmam com um voto o dever de
castidade próprio da vida conjugal e, sem transcurar os seus deveres para com
os filhos, professam a pobreza e a obediência.A necessária especificação acerca
da natureza desta experiência não quer subestimar este particular caminho de
santificação, ao qual não é certamente alheia a acção do Espírito Santo,
infinitamente rico nos seus dons e inspirações.Face a tanta riqueza de dons e
impulsos inovadores, parece oportuno criar uma Comissão para as questões
referentes às novas formas de vida consagrada, com o objectivo de estabelecer
critérios de autenticidade, que sirvam de ajuda no discernimento e nas
decisões.Entre outras tarefas, deverá essa Comissão avaliar, à luz da
experiência destes últimos decénios, as novas formas de consagração que a
autoridade eclesiástica pode, com prudência pastoral e proveito comum,
reconhecer oficialmente e propor aos fiéis desejosos de uma vida cristã mais
perfeita.Estas novas associações de vida evangélica não são uma alternativa às
anteriores instituições, que continuam a ocupar o lugar insigne que a tradição
lhes conferiu. Também as novas formas são um dom do Espírito, para que a Igreja
siga o seu Senhor, num ímpeto perene de generosidade, atenta aos apelos de Deus
que se revelam através dos sinais dos tempos. Assim ela apresenta-se ao mundo,
diversificada nas suas formas de santidade e de serviços, como « sinal e
instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano ».Os
antigos Institutos, muitos deles acrisolados por provas duríssimas suportadas
com fortaleza ao longo dos séculos, podem enriquecer-se entrando em diálogo e
troca de dons com as fundações que surgem no nosso tempo.
Desse modo, o vigor das
várias instituições de vida consagrada, desde as mais antigas até às mais
recentes, e ainda a vivacidade das novas comunidades alimentarão a fidelidade
ao Espírito Santo, que é princípio de comunhão e de novidade perene de vida.
III. OLHANDO PARA O
FUTURO
Dificuldades e
perspectivas
63. As mudanças em curso
na sociedade e a diminuição do número das vocações fazem-se sentir sobre a vida
consagrada, em algumas regiões do mundo. As obras apostólicas de muitos
Institutos e a sua presença mesma em certas Igrejas locais encontram-se em
perigo. Como sucedeu já outras vezes na história, há até Institutos que correm
o risco de desaparecer. A Igreja universal sente-se sumamente grata pela grande
contribuição oferecida por eles para a sua edificação, com o testemunho e o
serviço.A aflição actual não anula os seus méritos nem os frutos amadurecidos
mercê das suas canseiras.
Para outros Institutos,
coloca-se mais o problema da reorganização das obras. Esta tarefa, não fácil e
não raro dolorosa, exige estudo e discernimento, à luz de alguns critérios.
Importa, por exemplo, salvaguardar o sentido do próprio carisma, promover a
vida fraterna, estar atentos às necessidades da Igreja tanto universal como
particular, ocupar-se daquilo que o mundo transcura, responder generosamente e
com audácia — embora com intervenções forçosamente exíguas — às novas pobrezas,
sobretudo nos lugares mais abandonados.s várias dificuldades, nascidas da
diminuição de pessoal e de iniciativas, não devem de modo algum fazer perder a
confiança na força evangélica da vida consagrada, que permanecerá sempre actual
e operante na Igreja. Se os Institutos em si mesmos não têm a prerrogativa da
perenidade, a vida consagrada continuará a alimentar, nos fiéis, a resposta de
amor para com Deus e para com os irmãos. Por isso, é necessário distinguir a
existência histórica de determinado Instituto ou de uma forma de vida
consagrada, da missão eclesial da vida consagrada enquanto tal. A primeira pode
mudar com a alteração das situações, a segunda é destinada a não definhar.Isto
é verdade tanto para a vida consagrada de tipo contemplativo, como para a
devotada às obras de apostolado. No seu conjunto, sob a acção renovadora do
Espírito, está destinada a continuar como luminoso testemunho da unidade
indissolúvel entre o amor de Deus e o amor do próximo, como memória viva da
fecundidade, mesmo humana e social, do amor de Deus. Por isso, as novas
situações de penúria hão-de ser enfrentadas com a serenidade de quem sabe que a
cada um é pedido não tanto o sucesso, como sobretudo o compromisso da
fidelidade. O que se deve absolutamente evitar é a verdadeira derrota da vida
consagrada, que não está no declínio numérico, mas no desfalecimento da adesão
espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão. Ao contrário, perseverando
fielmente nela, confessa-se, com grande eficácia mesmo perante o mundo, a firme
confiança no Senhor da história, em cujas mãos estão os tempos e os destinos
das pessoas, das instituições, dos povos, e, portanto, também as realizações
históricas dos seus dons. As dolorosas situações de crise impelem as pessoas
consagradas a proclamarem, com fortaleza, a sua fé na morte e ressurreição de
Cristo, para se tornarem sinal visível da passagem da morte à vida.
Novo ardor da pastoral
vocacional
64. A missão da vida
consagrada e a vitalidade dos Institutos dependem, sem dúvida, do empenho de
fidelidade com que os consagrados responderem à sua vocação, mas têm futuro na
medida em que outros homens e mulheres generosamente acolherem o chamamento do
Senhor. O problema das vocações é um verdadeiro desafio que directamente
interpela os Institutos, mas tem a ver com toda a Igreja. Gastam-se grandes
energias espirituais e materiais no campo da pastoral vocacional, mas nem
sempre os resultados correspondem às expectativas e esforços. Sucede que,
enquanto florescem as vocações à vida consagrada nas jovens Igrejas e nas que
sofreram perseguição da parte de regimes totalitários, escasseiam nos países tradicionalmente
ricos de vocações, mesmo missionárias.
Esta situação de
dificuldade põe à prova as pessoas consagradas que às vezes se interrogam:
perdemos porventura a capacidade de atrair novas vocações? É necessário ter
confiança no Senhor Jesus, que continua a chamar para O seguir, e abandonar-se
ao Espírito Santo, autor e inspirador dos carismas da vida consagrada. Deste
modo, enquanto nos alegramos pela acção do Espírito Santo, que rejuvenesce a
Esposa de Cristo, fazendo florir a vida consagrada em muitas nações, devemos
elevar insistentemente súplicas ao Senhor da messe para que mande operários
para a sua Igreja, a fim de enfrentar as urgências da nova evangelização (cf.
Mt 9,37-38). Além de promover a oração pelas vocações, é urgente empenhar-se, através
de um anúncio explícito e uma catequese adequada, por favorecer nos chamados à
vida consagrada aquela resposta livre, pronta e generosa, que torna operante a
graça da vocação.O convite de Jesus: « Vinde ver » (Jo 1,39) permanece, ainda
hoje, a regra de ouro da pastoral vocacional. Esta visa apresentar, seguindo o
exemplo dos fundadores e fundadoras, o fascínio da pessoa do Senhor Jesus e a
beleza do dom total de si à causa do Evangelho. Portanto, a tarefa primária de
todos os consagrados e consagradas é propor corajosamente, pela palavra e pelo
exemplo, o ideal do seguimento de Cristo, amparando depois a resposta aos
impulsos do Espírito no coração dos chamados.Ao entusiasmo do primeiro encontro
com Cristo, deverá seguir-se, obviamente, o paciente esforço daquela
correspondência diária que faz da vocação uma história de amizade com o Senhor.
Para tal objectivo, a pastoral vocacional sirva-se de meios adequados, como a
direcção espiritual, para alimentar aquela resposta de amor pessoal ao Senhor,
que é condição essencial para se tornar discípulos e apóstolos do seu Reino.
Entretanto, se a pujança vocacional que se manifesta em várias partes do mundo
justifica optimismo e esperança, a escassez noutras regiões não deve induzir ao
desânimo nem à tentação de recrutamentos fáceis e imponderados. Importa que a
tarefa de promover as vocações seja cumprida de modo tal que se manifeste cada
vez mais como um empenho unânime de toda a Igreja. Ora isto exige a activa
colaboração de pastores, religiosos, famílias e educadores, como convém a um
serviço que é parte integrante da pastoral de conjunto de cada Igreja
particular. Exista, portanto, em cada diocese este serviço comum, que coordene
e multiplique as forças, sem contudo prejudicar — mas antes favoreça — a actividade
vocacional de cada Instituto.sta colaboração activa de todo o Povo de Deus,
sustentada pela Providência, não poderá deixar de apressar a abundância dos
dons divinos. A solidariedade cristã venha generosamente ao encontro das
necessidades da formação vocacional, nos países economicamente mais pobres. A
promoção das vocações nestas nações seja efectuada pelos vários Institutos em
plena harmonia com as Igrejas particulares, na base de uma activa e prolongada
inserção na sua pastoral.O modo mais autêntico para secundar a acção do
Espírito há-de ser o de investir generosamente as melhores energias na
actividade vocacional, especialmente por uma adequada dedicação à pastoral
juvenil.
O dever da formação
inicial
65. A Assembleia sinodal
prestou particular atenção à formação de quem deseja consagrar-se ao
Senhor,reconhecendo a sua importância decisiva. Objectivo central do caminho de
formação é a preparação da pessoa para a consagração total de si mesma a Deus
no seguimento de Cristo, ao serviço da missão. Responder « sim » ao chamamento
de Deus, assumindo pessoalmente o dinamismo do crescimento vocacional, é
responsabilidade inalienável de cada chamado, que deve abrir o espaço da
própria vida à acção do Espírito Santo; é percorrer com generosidade o caminho de
formação, acolhendo com fé as mediações que o Senhor e a Igreja lhe oferecem.
formação deverá, pois, atingir em profundidade a própria pessoa, de tal modo
que cada uma das suas atitudes ou gestos, tanto nos momentos importantes como
nas circunstâncias ordinárias da vida, possa revelar a sua pertença total e
feliz a Deus.Uma vez que o fim da vida consagrada consiste na configuração com
o Senhor Jesus e com a sua oblação total,para isso sobretudo é que deve apontar
a formação. Trata-se de um itinerário de progressiva assimilação dos
sentimentos de Cristo para com o Pai.Se esta é a finalidade da vida consagrada,
o método que prepara para ela deverá assumir e manifestar a característica da
totalidade . Deverá ser formação da pessoa toda,nos vários aspectos da sua
individualidade, tanto nos comportamentos como nas intenções. Exactamente
porque tende à transformação da pessoa toda, está claro que o dever da formação
nunca termina. Importa, de facto, que às pessoas consagradas sejam oferecidas,
até ao fim, oportunidades de crescimento na adesão ao carisma e à missão do
próprio Instituto.A formação, por ser total, compreenderá todos os campos da
vida cristã e da vida consagrada. Assim, há-de estar prevista uma preparação
humana, cultural, espiritual e pastoral, colocando todo o cuidado por que seja
favorecida a integração harmónica dos diversos aspectos. À formação inicial,
entendida como processo evolutivo que passa por cada grau do amadurecimento
pessoal — desde o psicológico e espiritual até ao teológico e pastoral —, deve-se
reservar um período de tempo suficientemente amplo. No caso das vocações para o
presbiterado, acaba por coincidir e harmonizar-se com um programa específico de
estudos que faz parte de um percurso formativo bem mais amplo.
A tarefa dos formadores e
formadoras
66. Deus Pai, pelo dom
contínuo de Cristo e do Espírito, é o formador por excelência de quem a Ele se
consagra. Mas nesta obra, Ele serve-Se da mediação humana, colocando ao lado
dos que chama alguns irmãos e irmãs mais velhos. A formação é, portanto,
participação na acção do Pai que, através do Espírito, plasma no coração dos
jovens e das jovens os sentimentos do Filho. Assim, os formadores e formadoras
devem ser especialistas no caminho da procura de Deus, para serem capazes de
acompanhar também outros neste itinerário. Atentos à acção da graça, saberão
apontar os obstáculos, mesmo os menos visíveis, mas sobretudo hão-de mostrar a
beleza do seguimento do Senhor e o valor do carisma em que isso se concretiza.
Às luzes da sabedoria espiritual unirão a iluminação oferecida pelos
instrumentos humanos, que possam servir de ajuda tanto no discernimento
vocacional, como na formação do homem novo, para que se torne autenticamente
livre. Instrumento essencial de formação é o colóquio pessoal, que há-de
verificar-se regularmente com uma certa frequência, como tradição de
insubstituível e comprovada eficácia.
Perante tarefas tão
delicadas, resulta verdadeiramente importante a preparação de formadores
idóneos, que, no seu serviço, assegurem uma grande sintonia com o caminho de
toda a Igreja. Será oportuno criar estruturas adequadas para a preparação dos
formadores, se possível em lugares onde seja proporcionado o contacto com a
cultura em que há-de ser, depois, exercido o serviço pastoral. Nesta obra de
formação, os Institutos que já se encontrem melhor radicados dêem uma mão aos
Institutos de fundação mais recente, graças à ajuda de alguns dos seus melhores
membros.
Uma formação comunitária
e apostólica
67. Visto que a formação
deve ser também comunitária, o seu lugar privilegiado no caso dos Institutos de
vida religiosa e das Sociedades de Vida Apostólica é a comunidade. Nesta, tem
lugar a iniciação à dificuldade e à alegria de viverem juntos. Aí cada um
aprende a viver em fraternidade com aquele que Deus pôs ao seu lado, aceitando
as suas características positivas juntamente com as suas diferenças e
limitações. De modo particular, aprende a partilhar os dons recebidos para a
edificação de todos, visto que « a manifestação do Espírito é dada a cada um
para proveito comum » (1 Cor 12,7).Ao mesmo tempo, a vida comunitária deve
mostrar, desde a formação inicial, a dimensão missionária intrínseca à
consagraçao. Por isso nos Institutos de vida consagrada, durante o período da
formação inicial, será útil realizar experiências concretas, prudentemente
acompanhadas pelo formador ou formadora, para exercitar, no diálogo com a
cultura circundante, as atitudes apostólicas, a capacidade de adaptação, o
espírito de iniciativa.
Se, por um lado, é
importante que a pessoa consagrada vá adquirindo progressivamente uma
consciência evangelicamente crítica face aos valores e contra-valores tanto da
cultura própria como daquela que encontrará no futuro campo de trabalho, por
outro, ela deve exercitar-se na difícil arte da unidade de vida, da mútua
compenetração da caridade para com Deus e para com os irmãos e irmãs,
experimentando que a oração é a alma do apostolado, mas que também o apostolado
vivifica e estimula a oração.
Necessidade de uma ratio
completa e actualizada
68. Um período explícito
de formação, que se estenda até à profissão perpétua, é recomendado também para
os religiosos irmãos, tanto dos Institutos femininos como dos masculinos. O
mesmo vale substancialmente também para as comunidades claustrais, que terão o
cuidado de elaborar um programa adequado, tendo em vista uma autêntica formação
para a vida contemplativa e para a sua missão peculiar na Igreja.
Os Padres sinodais
solicitaram vivamente a todos os Institutos de vida consagrada e Sociedades de
Vida Apostólica que elaborassem, quanto antes, uma ratio institutionis, isto é,
um projecto de formação inspirado no carisma institucional, no qual se
apresente, de forma clara e dinâmica, o caminho a seguir para se assimilar
plenamente a espiritualidade do próprio Instituto. A ratio dá resposta a uma
verdadeira urgência de hoje: por um lado, indica o modo de transmitir o
espírito do Instituto, a fim de ser vivido em toda a sua genuinidade pelas
novas gerações, na diversidade das culturas e das situações geográficas, e, por
outro, ilustra às pessoas consagradas os meios para viverem o mesmo espírito
nas várias fases da existência, avançando para a plena maturidade da fé em
Cristo Jesus.Portanto, se é verdade que a renovação da vida consagrada depende
principalmente da formação, é igualmente certo que esta, por sua vez, está
ligada à capacidade de propor um método rico de sabedoria espiritual e
pedagógica, que leve progressivamente a assumir os sentimentos de Cristo Senhor
quem aspira a consagrar-se. A formação é um processo vital, através do qual a
pessoa se converte ao Verbo de Deus até às profundezas do seu ser e, ao mesmo
tempo, aprende a arte de procurar os sinais de Deus nas realidades do mundo.
Numa época de crescente marginalização dos valores religiosos da cultura, este
caminho de formação é duplamente importante: graças a ele, a pessoa consagrada
não só pode continuar a « ver » Deus com os olhos da fé, num mundo que ignora a
sua presença, mas consegue também de algum modo tornar « sensível » a presença
d-Ele, por meio do testemunho do próprio carisma.
A formação permanente
69. A formação
permanente, tanto para os Institutos de vida apostólica como para os de vida
contemplativa, constitui uma exigência intrínseca à consagração religiosa. Como
se disse, o processo de formação não se reduz à sua fase inicial, visto que a
pessoa consagrada, pelas suas limitações humanas, não poderá mais pensar ter
completado a gestação daquele homem novo que experimenta dentro de si, em cada
circunstância da vida, os mesmos sentimentos de Cristo. A formação inicial
deve, portanto, consolidar-se com a formação permanente , criando no sujeito a
disponibilidade para se deixar formar em cada dia da sua vida.Por conseguinte,
será muito importante que cada Instituto preveja, como parte da ratio
institutionis, a definição, o mais possível precisa e sistemática, de um
projecto de formação permanente, cujo objectivo primário seja o de acompanhar
cada pessoa consagrada com um programa aberto à existência inteira. Ninguém se
pode eximir de se aplicar ao próprio crescimento humano e religioso; tal como
ninguém pode presumir de si mesmo, gerindo a própria vida com auto-suficiência.
Nenhuma fase da vida se pode considerar tão segura e fervorosa que exclua a
conveniência de cuidados específicos para garantir a perseverança na
fidelidade, tal como não existe idade que chegue ver consumada a maturação da
pessoa.
Num dinamismo de
fidelidade
70. Há uma juventude do
espírito que permanece
independentemente do
tempo: está relacionada com o facto de o indivíduo procurar e encontrar, em
cada fase da vida, uma tarefa diversa a cumprir, um modo específico de ser, de
servir e de amar.Na vida consagrada, os primeiros anos da inserção plena na
actividade apostólica representam uma fase crítica por natureza, porque marcada
pela passagem de uma vida guiada a uma situação de plena responsabilidade
operante. Será importante que as pessoas recém-consagradas sejam sustentadas e
acompanhadas por um irmão ou uma irmã que as ajude a viver plenamente a juventude
do seu amor e do seu entusiasmo por Cristo.A fase sucessiva pode apresentar o
risco da habituação e a consequente tentação da desilusão pela escassez dos
resultados. Neste caso, é necessário ajudar as pessoas consagradas de meia
idade a reverem, à luz do Evangelho e da inspiração carismática, a sua opção
originária sem confundir a totalidade da dedicação com a totalidade do
resultado. Isto permitirá dar renovado impulso e novas motivações à própria
escolha. É a estação da busca do essencial.A fase da idade madura ,
contemporânea ao crescimento pessoal, pode comportar o perigo de um certo
individualismo, acompanhado quer pelo temor de já não estar adaptado aos
tempos, quer por fenómenos de endurecimento, insensibilidade e relaxamento.
Aqui a formação permanente tem a finalidade de ajudar não só a recuperar um
grau mais alto de vida espiritual e apostólica, mas ainda a descobrir a
peculiaridade desta fase da existência. De facto, uma vez purificados nela
alguns aspectos da personalidade, a oferta de si mesmo sobe a Deus com maior
pureza e generosidade, refluindo depois sobre os irmãos e irmãs mais serena e
discreta, mas também mais transparente e rica de graças. É o dom e a
experiência da paternidade e maternidade espiritual.A idade avançada coloca novos
problemas, que hão-de ser previamente enfrentados com um ponderado programa de
apoio espiritual. O afastamento progressivo da actividade e, em alguns casos, a
doença e a forçada inactividade constituem uma experiência que se pode tornar
altamente formativa. Momento este muitas vezes doloroso, oferece, no entanto, à
pessoa consagrada idosa a oportunidade de se deixar plasmar pela experiência
pascal,configurando-se com Cristo crucificado que cumpre em tudo a vontade do
Pai e Se abandona nas suas mãos até Lhe entregar o espírito. Esta configuração
é um modo novo de viver a consagração, que não está ligada à eficiência de uma
tarefa de governo ou de um trabalho apostólico.Quando, depois, chega o momento
de unir-se à hora suprema da Paixão do Senhor, a pessoa consagrada sabe que o
Pai está finalmente levando a cumprimento nela aquele misterioso processo de
formação, há tempos iniciado. A morte será, então, esperada e preparada como o
acto supremo de amor e de entrega de si mesma.É necessário acrescentar que, independentemente
das várias fases da vida, cada idade pode conhecer situações críticas devido à
interven- ção de factores externos — mudança de lugar ou de serviço,
dificuldades no trabalho ou insucesso apostólico, incompreensão ou
marginalização, etc. — ou devido a factores mais estritamente pessoais — doença
física ou psíquica, aridez espiritual, lutos, problemas de relacionamento
interpessoal, fortes tentações, crises de fé ou de identidade, sensação de
inutilidade, e outros semelhantes —. Quando a fidelidade se torna mais difícil,
é preciso oferecer à pessoa o apoio de uma maior confiança e de um amor mais
intenso, a nível pessoal e comunitário. Nessas ocasiões sobretudo, é necessária
a solidariedade afectuosa do Superior; grande conforto virá ainda da ajuda
qualificada de um irmão ou de uma irmã, cuja presença carinhosa e disponível
poderá levar a redescobrir o sentido da aliança que Deus tomou a iniciativa de
estabelecer e não a entende desdizer. A pessoa provada chegará, deste modo, a
acolher a purificação e o despojamento como actos essenciais de seguimento de
Cristo crucificado. A prova mesma será vista como instrumento providencial de
formação nas mãos do Pai, como luta não apenas psicológica , conduzida pelo
sujeito relativamente a si próprio e às suas fraquezas, mas também religiosa,
marcada cada dia pela presença de Deus e pelo poder da Cruz!
Dimensões da formação
permanente
71. Se o sujeito da
formação é a pessoa nas diversas fases da sua vida, o termo último da formação
é a totalidade do ser humano, chamado a procurar e a amar a Deus, « com todo o
coração, com toda a alma e com todas as forças » (cf. Dt 6,5), e ao próximo
como a si mesmo (cf. Lv 19,18; Mt 22,37-39). O amor a Deus e aos irmãos é um
dinamismo poderoso, que pode inspirar constantemente o caminho de crescimento e
de fidelidade.
A vida no Espírito tem
obviamente o primado. Nela, a pessoa consagrada readquire a própria identidade
e uma serenidade profunda, cresce na atenção aos desafios quotidianos da
Palavra de Deus, e deixa-se guiar pela inspiração original do próprio
Instituto. Sob a acção do Espírito, são tenazmente defendidos os tempos de
oração, de silêncio, de solidão, e implora-se do Alto, com insistência, o dom
da sabedoria para as canseiras de cada dia (cf. Sab 9,10).A dimensão humana e
fraterna requer o conhecimento de si mesmo e dos próprios limites, para daí
tirar o devido estímulo e apoio no caminho para a plena libertação.
Particularmente importantes, no contexto moderno, são a liberdade interior da
pessoa consagrada, a maturidade afectiva, a capacidade de comunicar com todos,
especialmente na própria comunidade, a serenidade do espírito e a sensibilidade
por quem sofre, o amor à verdade, uma coerência linear entre as palavras e as
obras.A dimensão apostólica abre a mente e o coração da pessoa consagrada, e
predispõe-na para um contínuo esforço no serviço, como sinal do amor de Cristo
que a impele (cf. 2 Cor 5,14). Isto significará, na prática, uma actualização
de métodos e objectivos das actividades apostólicas, na fidelidade ao espírito
e finalidade do fundador ou fundadora e às tradições posteriormente maturadas,
com uma atenção constante às alterações verificadas nas condições históricas e
culturais, gerais e locais, do ambiente onde se trabalha.A dimensão cultural e
profissional, tendo por base uma sólida formação teológica que consinta o
discernimento, implica uma actualização permanente e uma atenção particular aos
vários campos que cada carisma privilegia. Por isso, é necessário permanecer
mentalmente o mais possível abertos e dóceis, para que o serviço seja concebido
e prestado segundo as exigências do respectivo tempo, valendo-se dos
instrumentos fornecidos pelo progresso cultural.Na dimensão do carisma, por
último, encontram-se recolhidas todas as outras exigências, como numa síntese
que exige um aprofundamento contínuo da própria consagração especial em suas
várias componentes, não só na apostólica, mas também nas componentes ascética e
mística. Isto comporta para cada um dos membros um estudo assíduo do espírito do
Instituto a que pertence, da sua história e missão, para melhorar a sua
assimilação pessoal e comunitária.
CAPÍTULO III
SERVITIUM CARITATIS
A VIDA CONSAGRADA,
EPIFANIA DO AMOR DE DEUS NO MUNDO
Consagrados para a missão
72. À imagem de Jesus,
dilecto Filho « a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo » (Jo 10,36), também
aqueles que Deus chama a seguir Cristo são consagrados e enviados ao mundo para
imitar o seu exemplo e continuar a sua missão. Valendo fundamentalmente para
todo o discípulo, isto aplica-se de modo especial àqueles que são chamados, na
característica forma da vida consagrada, a seguir Cristo « mais de perto » e a
fazer d-Ele o « tudo » da sua existência. Na sua vocação, portanto, está
incluído o dever de se dedicarem totalmente à missão; mais, a própria vida
consagrada, sob a acção do Espírito Santo que está na origem de toda a vocação
e carisma, torna-se missão, tal como o foi toda a vida de Jesus. A profissão
dos conselhos evangélicos, que torna a pessoa totalmente livre para a causa do
Evangelho, revela a sua importância também desde este ponto de vista. Assim há
que afirmar que a missão é essencial para cada Instituto, não só nos de vida
apostólica activa, mas também de vida contemplativa.
Na realidade, a missão,
antes de ser caracterizada pelas obras externas, define-se pelo tornar presente
o próprio Cristo no mundo, através do testemunho pessoal. Este é o desafio, a
tarefa primária da vida consagrada! Quanto mais se deixa conformar com Cristo,
tanto mais O torna presente no mundo e operante para a salvação dos
homens.Assim, pode-se afirmar que a pessoa consagrada está « em missão » por
força da sua própria consagração, testemunhada segundo o projecto do respectivo
Instituto. Quando o carisma de fundação prevê actividades pastorais, é óbvio
que o testemunho de vida e as obras de apostolado e promoção humana são
igualmente necessários: ambos representam Cristo, que é simultaneamente o
consagrado à glória do Pai e o enviado ao mundo para a salvação dos irmãos e
irmãs.lém disso, a vida religiosa participa na missão de Cristo por outro
elemento peculiar que lhe é próprio: a vida fraterna em comunidade para a
missão. Por isso, a vida religiosa será tanto mais apostólica quanto mais
íntima for a sua dedicação ao Senhor Jesus, quanto mais fraterna for a sua
forma comunitária de existência, quanto mais ardoroso for o seu empenhamento na
missão específica do Instituto.
Ao serviço de Deus e do
homem
73. A vida consagrada tem
a função profética de recordar e servir o desígnio de Deus sobre os homens, tal
como esse desígnio é anunciado pela Escritura e resulta também da leitura
atenta dos sinais da acção providente de Deus na história. É projecto de uma
humanidade salva e reconciliada (cf. Col 2,20-22). Para cumprirem
convenientemente tal serviço, as pessoas consagradas devem ter uma profunda
experiência de Deus e tomar consciência dos desafios do seu tempo,
identificando o sentido teológico profundo deles por meio do discernimento
realizado com a ajuda do Espírito. É que, nos acontecimentos históricos,
encerra-se frequentemente o apelo de Deus para trabalharmos segundo os seus
planos com uma inserção activa e fecunda nos acontecimentos do nosso tempo.O
discernimento dos sinais dos tempos, como afirma o Concílio, deve ser feito à
luz do Evangelho, para que se « possa responder (...) às eternas perguntas dos
homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas
».É necessário, portanto, abrir o coraçao às sugestões interiores do Espírito,
que convida a ler em profundidade os desígnios da Providência. Ele chama a vida
consagrada a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo actual.
São solicitações divinas, que só almas habituadas a procurar em tudo a vontade
de Deus conseguem captar fielmente e, depois, traduzi-las corajosamente em
opções coerentes seja com o carisma originário, seja com as exigências da
situação histórica concreta.Perante os numerosos problemas e urgências que
parecem às vezes comprometer e até mesmo transtornar a vida consagrada, os
chamados não podem deixar de sentir o compromisso de conservarem no coração e
levarem à oração as inúmeras necessidades do mundo inteiro, ao mesmo tempo que
trabalham vigorosamente nos campos ligados ao carisma de fundação. A sua
dedicação deverá, obviamente, ser guiada pelo discernimento sobrenatural, que
sabe distinguir o que vem do Espírito daquilo que Lhe é contrário (cf. Gal 5,16-17.22;
1 Jo 4,6). Mediante a fidelidade à Regra e às Constituições, tal discernimento
conserva a plena comunhão com a Igreja.ssim, a vida consagrada não se limitará
a ler os sinais dos tempos, mas há-de contribuir também para elaborar e actuar
novos projectos de evangelização para as situações actuais. E tudo isto, na
certeza derivada da fé de que o Espírito sabe dar as respostas apropriadas
mesmo às questões mais difíceis. A este respeito, será bom redescobrir aquilo
que sempre ensinaram os grandes protagonistas da acção apostólica: é preciso
confiar em Deus como se tudo dependesse d-Ele e, ao mesmo tempo, empenhar-se
generosamente como se tudo dependesse de nós.
Colaboração eclesial e
espiritualidade apostólica
74. Tudo deve ser feito
em comunhão e diálogo com as outras componentes eclesiais. Os desafios da
missão são tais que não podem ser eficazmente enfrentados, tanto no discernimento
como na acção, sem a colaboração de todos os membros da Igreja. Dificilmente o
indivíduo isoladamente possui a resposta decisiva: esta, ao contrário, pode
brotar da confrontação e do diálogo. De modo particular, a comunhão de acção
entre os vários carismas não deixará de garantir, para além do enriquecimento
recíproco, uma eficácia mais incisiva na missão. A experiência destes anos
confirma largamente que « o diálogo é o novo nome da caridade »,especialmente
da caridade eclesial; aquele ajuda a ver os problemas nas suas reais dimensões,
e permite enfrentá-los com melhores esperanças de sucesso. A vida consagrada,
pelo facto mesmo de cultivar o valor da vida fraterna, apresenta-se como uma
experiência privilegiada de diálogo. Deste modo, ela pode contribuir para criar
um clima de aceitação recíproca, no qual os vários sujeitos eclesiais, sentindo-se
valorizados por aquilo que são, concorrem de maneira mais convicta para a
comunhão eclesial, orientada para a grande missão universal.Os Institutos
empenhados nas várias formas de serviço apostólico devem, enfim, cultivar uma
sólida espiritualidade da acção, vendo Deus em todas as coisas e todas as
coisas em Deus. De facto, « é preciso saber que como uma vida bem ordenada
tende a passar da vida activa à contemplativa, também a maior parte das vezes o
espírito regressa com proveito da vida contemplativa à activa, para conservar
mais perfeitamente a vida activa para aquilo que a vida contemplativa lhe
acendeu na mente. Portanto a vida activa deve transferir-nos à vida
contemplativa, e algumas vezes a contemplação, por aquilo que vimos
interiormente, há-de chamar-nos a uma melhor acção ».O próprio Jesus nos deu o
exemplo perfeito de como é possível unir a comunhão com o Pai e uma vida
intensamente activa. Sem a tensão constante para tal unidade, o perigo de
colapso interior, desorientação e desânimo está continuamente à espreita. A
união íntima entre a contemplação e a acção permitirá, hoje como ontem,
enfrentar as missões mais difíceis.
I. O AMOR ATÉ AO FIM
Amar com o coração de
Cristo
75. « Ele que amara os
seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. E, no decorrer da ceia, (...)
levantou-Se da mesa (...) e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los
com a toalha que pusera à cinta » (Jo 13,1-2.4-5).
Ao lavar os pés, Jesus
revela a profundidade do amor de Deus pelo homem: n-Ele, o próprio Deus põe-Se
ao serviço dos homens! Mas revela ao mesmo tempo o sentido da vida cristã e,
com maior razão, da vida consagrada, que é vida de amor oblativo , de serviço
concreto e generoso. No seguimento do Filho do homem que « não veio ao mundo
para ser servido, mas para servir » (Mt 20,28), a vida consagrada, pelo menos
nos períodos melhores da sua longa história, caracterizou-se por este « lavar
os pés », ou seja, pelo serviço sobretudo aos mais pobres e necessitados. Se,
por um lado, aquela contempla o mistério sublime do Verbo no seio do Pai (cf.
Jo 1,1), por outro, segue o Verbo que Se faz carne (cf. Jo 1,14), aniquila,
humilha para servir os homens. As pessoas que seguem Cristo pelo caminho dos
conselhos evangélicos também hoje se propõem ir até onde Cristo foi e fazer o
que Ele fez.Continuamente Jesus chama a Si novos discípulos, homens e mulheres,
para lhes comunicar, mediante a efusão do Espírito (cf. Rm 5,5), a agape
divina, o seu modo de amar, estimulan- do-os assim a servirem os outros, no
humilde dom de si próprios, sem cálculos interesseiros. A Pedro que, extasiado
pelo resplendor da Transfiguração, exclama: « Senhor, é bom estarmos aqui » (Mt
17,4), é dirigido o convite a regressar às estradas do mundo, para continuar a
servir o Reino de Deus: « Desce, Pedro! Desejavas repousar no monte. Desce!
Prega a Palavra de Deus, insiste a todo o momento, oportuna e inoportunamente,
repreende, exorta, encoraja com toda a paciência e doutrina. Trabalha, não
olhes a canseiras, nem rejeites dores ou suplícios, a fim de que, pela candura
e beleza das boas obras, tu possuas na caridade aquilo que está simbolizado nas
vestes brancas do Senhor ».O olhar fixo no rosto do Senhor não diminui no
apóstolo o empenho a favor do homem; pelo contrário, reforça-o, dotando-o de
uma nova capacidade de influir na história, para a libertar de tudo quanto a
deforma.A busca da beleza divina impele as pessoas consagradas a cuidarem da imagem
divina deformada nos rostos de irmãos e irmãs: rostos desfigurados pela fome,
rostos desiludidos pelas promessas políticas, rostos humilhados de quem vê
desprezada a própria cultura, rostos assustados pela violência quotidiana e
indiscriminada, rostos angustiados de menores, rostos de mulheres ofendidas e
humilhadas, rostos cansados de migrantes sem um digno acolhimento, rostos de
idosos sem as mínimas condições para uma vida digna.A vida consagrada prova
assim, com a eloquên- cia das obras, que a caridade divina é fundamento e
estímulo do amor gratuito e operoso. Bem convencido disto estava S. Vicente de
Paulo, quando indicava às Filhas da Caridade este programa de vida: « O
espírito da Companhia consiste em dar-se a Deus para amar Nosso Senhor e servi-Lo
na pessoa dos pobres material e espiritualmente, nas suas casas e noutros
lugares, para instruir as meninas pobres, as crianças, e em geral todos aqueles
que a divina Providência vos manda ».ntre os possíveis âmbitos da caridade,
certamente aquele que, a título especial, manifesta ao mundo o amor « até ao
fim » é, hoje, o anúncio apaixonado de Jesus Cristo àqueles que ainda não O
conhecem, aos que O esqueceram, e de modo preferencial aos pobres.
Contribuição específica
da vida consagrada para a evangelização
76. A contribuição
específica dos consagrados e consagradas para a evangelização consiste,
primariamente, no testemunho de uma vida totalmente entregue a Deus e aos
irmãos, à imitação do Salvador que Se fez servo, por amor do homem. Na obra da
salvação, de facto, tudo provém da participação na agape divina. As pessoas
consagradas, na sua consagração e total doação, tornam visível a presença
amorosa e salvadora de Cristo, o consagrado do Pai, enviado em missão.Deixando-se
conquistar por Ele (cf. Fil 3,12), aquelas dispõem-se a ser, de certo modo, um
prolongamento da sua humanidade.A vida consagrada mostra eloquentemente que
quanto mais se vive de Cristo, tanto melhor se pode servi-Lo nos outros,
aventurando-se até aos postos de vanguarda da missão, e abraçando os maiores
riscos.
A primeira evangelização:
anunciar Cristo aos povos
77. Quem ama a Deus, Pai
de todos, não pode deixar de amar os seus semelhantes, nos quais reconhece
igualmente seus irmãos e irmãs. Por isso mesmo, não pode ficar indiferente face
à constatação de que muitos deles não conhecem a plena manifestação do amor de
Deus em Cristo. Daqui nasce, por obediência ao mandato de Cristo, o ardor
missionário ad gentes , que todo o cristão consciente partilha com a Igreja,
missionária por natureza. É um ardor sentido sobretudo pelos membros dos
Institutos, tanto de vida contemplativa como activa.De facto, as pessoas
consagradas têm o dever de tornar presente, mesmo entre os não cristãos,Jesus
Cristo casto, pobre, obediente, orante e missionário.Permanecendo dinamicamente
fiéis ao próprio carisma, elas, por força da sua consagração mais íntima a
Deus,não podem deixar de se sentirem comprometidas numa especial colaboração
com a actividade missionária da Igreja. Aquele desejo tantas vezes manifestado
por Teresa de Lisieux: « amar-Te e fazer-Te amar »; o ardente anseio de S.
Francisco Xavier de que « muitos daqueles que estudam as ciências, se
meditassem nas contas que Deus nosso Senhor lhes há-de pedir delas e do talento
que lhes deu, decidir-se-iam a procurar meios e Exercícios espirituais para
conhecer e ouvir dentro da própria alma a vontade divina, e, conformando-se
mais com ela do que com as próprias inclinações, diriam: “Senhor, eis-me aqui;
que quereis que eu faça? Mandai-me onde quiserdes” »,e outros testemunhos
semelhantes de inumeráveis almas santas manifestam a irreprimível tensão
missionária que determina e qualifica a vida consagrada.
Presentes em todos os
cantos da terra
78. « O amor de Cristo nos impele » (2 Cor 5,14): os membros de cada Instituto deveriam poder repetir isto com o Apóstolo, porque é tarefa da vida consagrada trabalhar em todos os cantos da terra para consolidar e dilatar o Reino de Cristo, levando o anúncio do Evangelho a todo o lado, mesmo às regiões mais longínquas.Na verdade, a história missionária testemunha a grande contribuição que eles deram para a evangelização dos povos: desde as antigas Famílias monásticas até às Fundações mais recentes empenhadas de maneira exclusiva na missão ad gentes, desde os Institutos de vida activa até aos que se dedicam à contemplação,inúmeras pessoas consumaram as próprias energias nesta « actividade primária e essencial da Igreja, jamais concluída »,porque dirigida à multidão, sempre maior, daqueles que não conhecem Cristo.
Ainda hoje, este dever
continua a interpelar urgentemente os Institutos de vida consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica: o anúncio do Evangelho de Cristo espera deles a
máxima contribuição possível. Mesmo os Institutos que surgem ou trabalham nas jovens
Igrejas são convidados a abrirem-se à missão junto dos não cristãos, dentro e
fora da sua pátria. Apesar das compreensíveis dificuldades que alguns deles
possam atravessar, é bom que todos se lembrem que da mesma forma que « é dando
a fé que ela se fortalece »,assim também a missão reforça a vida consagrada, dá-lhe
novo entusiasmo e novas motivações, estimula a sua fidelidade; e a actividade
missionária, por sua vez, oferece amplos espaços para acolher as mais variadas
formas de vida consagrada.A missão ad gentes oferece oportunidades
extraordinárias e especiais às mulheres consagradas, aos religiosos irmãos e
aos membros dos Institutos seculares, para uma acção particularmente incisiva.
Os últimos referidos podem, com a sua presença nos vários âmbitos típicos da
vocação laical, desempenhar uma preciosa obra de evangelização dos ambientes,
das estruturas e mesmo das leis que regulam a convivência social. Além disso,
podem testemunhar os valores evangélicos junto das pessoas que ainda não
conhecem Jesus, dando assim uma específica contribuição para a missão.Há que
sublinhar ainda que, nos países onde estão radicadas religiões não cristãs,
assume enorme importância a presença da vida consagrada, tanto por meio das
actividades educativas, assistênciais e culturais, como através da figura da
vida contemplativa. Por isso, deve-se encorajar nas novas Igrejas, de modo
particular, a fundação de comunidades dedicadas à contemplação, uma vez que « a
vida contemplativa pertence à plenitude da presença da Igreja ».É necessário,
enfim, promover com meios adequados uma equitativa distribuição da vida
consagrada em suas várias formas, para suscitar um novo impulso evangelizador,
quer pelo envio de missionários e missionárias, quer com a devida ajuda dos
Institutos de vida consagrada às dioceses mais pobres.
Anúncio de Cristo e
inculturação
79. O anúncio de Cristo «
tem a prioridade permanente, na missão »da Igreja, e visa a conversão, isto é,
a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho.No quadro da actividade missionária,
entram também o processo de inculturação e o diálogo inter-religioso. O desafio
da inculturação há-de ser acolhido pelas pessoas consagradas como apelo a uma
fecunda cooperação com a graça na aproximação às diversas culturas. Isto supõe
séria preparação pessoal, dotes maturos de discernimento, fiel adesão aos
critérios indispensáveis de ortodoxia doutrinal, autenticidade e comunhão
eclesial.Com o apoio do carisma dos fundadores e fundadoras, muitas pessoas
consagradas souberam aproximar-se das diversas culturas, com a atitude de Jesus
que « Se despojou a Si mesmo tomando a condição de servo » (Fil 2,7), e, com um
paciente e audaz esforço de diálogo, estabeleceram contactos proveitosos com os
povos mais diversos, a todos anunciando o caminho da salvação. Também hoje,
muitas delas sabem procurar e encontrar, na história dos indivíduos e de povos
inteiros, vestígios da presença de Deus, que guia toda a humanidade para o
discernimento dos sinais da sua vontade redentora. E tal investigação revela-se
vantajosa também para as próprias pessoas consagradas: na verdade, os valores
descobertos nas diversas civilizações podem levá-las a aumentar o seu empenho
de contemplação e oração, a praticar mais intensamente a partilha comunitária e
a hospitalidade, a cultivar com maior diligência a atenção à pessoa e o
respeito pela natureza.Para uma autêntica inculturação, são necessárias
atitudes semelhantes às do Senhor, quando, com amor e humildade, encarnou e
veio habitar entre nós. Neste sentido, a vida consagrada torna as pessoas
particularmente preparadas para enfrentar o processo complexo da inculturação,
visto que as habitua ao desprendimento das coisas e até mesmo de muitos
aspectos da própria cultura. Aplicando-se com estas atitudes ao estudo e à
compreensão das culturas, os consagrados podem discernir melhor nelas os
valores autênticos e o modo como acolhê-los e aperfeiçoá-los com o auxílio do
próprio carisma.No entanto, convém não esquecer que, em muitas culturas
antigas, a expressão religiosa está tão profundamente arreigada que a religião
representa muitas vezes a dimensão transcendente da cultura. Neste caso, uma
verdadeira inculturação comporta necessariamente um sério e franco diálogo
inter-religioso, que « não está em contraposição com a missão ad gentes », nem
« dispensa a evangelização ».
A inculturação da vida
consagrada
80 A vida consagrada,
portadora por natureza de valores evangélicos, pode por sua vez oferecer, nos
lugares onde é vivida com autenticidade, uma contribuição original para os
desafios da inculturação. De facto, sendo um sinal do primado de Deus e do seu
Reino, ela torna-se uma provocação que, no diálogo, pode despertar as
consciências dos homens. Se a vida consagrada mantiver a força profética que
lhe é própria, torna-se fermento evangélico dentro de uma cultura, capaz de a
purificar e elevar. Isto mesmo o demonstra a história de numerosos santos e
santas, que, em épocas diversas, souberam inserir-se no seu tempo, sem se
deixar submergir, mas antes conseguindo apontar novos caminhos à sua geração. O
estilo de vida evangélico é uma fonte importante para a proposta de um novo
modelo cultural. Quantos fundadores e fundadoras, tendo individuado algumas
exigências do seu tempo, procuraram, com todas as limitações por eles mesmos
reconhecidas, dar-lhes remédio com uma resposta que se tornou proposta cultural
inovadora!
As comunidades dos
Institutos religiosos e das Sociedades de Vida Apostólica podem, de facto,
oferecer concretas e significativas propostas culturais, quando testemunham o modo
evangélico de viver o acolhimento recíproco na diversidade e de exercer a
autoridade, quando testemunham a partilha dos bens tanto materiais como
espirituais, a universalidade, a colaboração intercongregacional, a escuta dos
homens e mulheres do nosso tempo. Na verdade, o modo de pensar e agir de quem
segue Cristo mais de perto dá origem a uma verdadeira e própria cultura de
referência, faz evidenciar aquilo que é desumano, testemunha que só Deus dá aos
valores vigor e plenitude. Uma autêntica inculturação ajudará, por sua vez, as
pessoas consagradas a viverem o radicalismo evangélico, segundo o carisma do
próprio Instituto e a índole do povo com que entram em contacto. Deste fecundo
relacionamento, brotam estilos de vida e métodos pastorais que poderão revelar-se
uma autêntica riqueza para o Instituto inteiro, se forem coerentes com o
carisma de fundação e com a acção unificadora do Espírito Santo. Uma garantia
de recto caminho, neste processo feito de discernimento e audácia, de diálogo e
provocação evangélica, é oferecida pela Santa Sé, à qual compete encorajar a
evangelização das culturas, bem como autenticar os seus progressos e sancionar
os seus êxitos em ordem à inculturação,tarefa esta « delicada e difícil, porque
está em causa a fidelidade da Igreja ao Evangelho e à Tradição Apostólica, na
evolução constante das culturas ».
A nova evangelização
81. Para enfrentar
adequadamente os grandes desafios que a história actual coloca à nova
evangelização, faz falta, antes de mais, uma vida consagrada que se deixe
interpelar continuamente pela Palavra revelada e pelos sinais dos tempos.A
recordação das grandes evangelizadoras e evangelizadores — antes tinham sido
grandes evangelizados — revela que, para enfrentar o mundo de hoje, são
necessárias pessoas dedicadas amorosamente ao Senhor e ao seu Evangelho. « As
pessoas consagradas, pela sua vocação específica, são chamadas a fazer emergir
a unidade entre auto-evangelização e testemunho, entre renovação interior e
ardor apostólico, entre ser e agir, evidenciando que o dinamismo provém sempre
do primeiro elemento do binómio ».A nova evangelização, como a evangelização de
sempre, será eficaz se souber proclamar sobre os tectos aquilo que antes viveu
na intimidade com o Senhor. Para tal, requerem-se personalidades sólidas,
animadas pelo fervor dos santos. A nova evangelização exige nos consagrados e
consagradas plena consciência do sentido teológico dos desafios do nosso tempo.
Estes desafios hão-de ser examinados, com discernimento atento e concorde, em
ordem à renovação da missão. A coragem do anúncio do Senhor Jesus deve ser
acompanhada pela confiança na acção da Providência que opera no mundo de tal
modo que « tudo, mesmo as adversidades humanas, converge para o bem da Igreja
».lementos importantes para uma útil inserção dos Institutos no processo da
nova evangelização são a fidelidade ao carisma de fundação, a comunhão com
quantos na Igreja estão empenhados no mesmo empreendimento, especialmente com
os Pastores, e a cooperação com todos os homens de boa vontade. Isto exige um
sério discernimento dos apelos que o Espírito dirige a cada Instituto, tanto
nas regiões onde não se prevêem a curto prazo grandes progressos, como nas
outras onde já se anuncia uma consoladora revitalização. Em cada lugar e
situação, as pessoas consagradas sejam ardorosos anunciadores do Senhor Jesus,
prontas a responder com a sabedoria evangélica às interpelações feitas hoje
pela inquietude do coração humano e pelas suas urgentes necessidades.
A predilecção pelos
pobres e a promoção da justiça
82. Ao início do seu
ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus proclama que o Espírito O consagrou
para levar aos pobres uma boa nova, para anunciar a libertação aos cativos,
devolver a vista aos cegos, libertar os oprimidos e proclamar um ano de graça
do Senhor (cf. Lc 4,16-19). A Igreja, assumindo como própria a missão do
Senhor, anuncia o Evangelho a todo o homem e mulher, preocupando-se pela sua
salvação integral. Mas, com uma atenção especial, uma verdadeira « opção
preferencial », ela dirige-se a quantos se encontram em situação de maior
debilidade e, consequentemente, de maior necessidade. « Pobres », nas várias
acepções da pobreza, são os oprimidos, os marginalizados, os idosos, os
doentes, as crianças, todos aqueles que são considerados e tratados como «
últimos » na sociedade.
A opção pelos pobres
inscreve-se na própria dinâmica do amor, vivido segundo Jesus Cristo. Assim
estão obrigados a ela todos os seus discípulos; mas aqueles que querem seguir o
Senhor mais de perto, imitando as suas atitudes, não podem deixar de se
sentirem implicados de modo absolutamente particular em tal opção. A
sinceridade da sua resposta ao amor de Cristo leva-os a viver como pobres e a
abraçar a causa dos pobres. Isto comporta para cada Instituto, de acordo com o
seu carisma específico, a adopção de um estilo de vida, tanto pessoal como
comunitário, humilde e austero. Apoiadas pela vivência deste testemunho, as
pessoas consagradas poderão, nos modos adequados à sua opção de vida e
permanecendo livres relativamente às ideologias políticas, denunciar as
injustiças que são perpetradas contra tantos filhos e filhas de Deus, e
empenhar-se na promoção da justiça no ambiente social onde actuam.Deste modo,
renovar-se-á também nas situações actuais, graças ao testemunho de inúmeras
pessoas consagradas, aquela dedicação própria dos fundadores e fundadoras, que
gastaram a sua vida a servir o Senhor, presente nos pobres. Na verdade, Cristo
« encontra-se, na terra, na pessoa dos seus pobres (...). Enquanto Deus, é
rico; enquanto homem, pobre. Com efeito, o próprio homem já rico subiu ao céu,
está sentado à direita do Pai, mas aqui em baixo, pobre ainda agora, sofre a
fome, a sede, a nudez ». Evangelho torna-se efectivo através da caridade, que é
glória da Igreja e sinal da sua fidelidade ao Senhor. Demonstra-o toda a
história da vida consagrada, que pode ser considerada como uma exegese viva da
palavra de Jesus: « Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais
pequeninos, a Mim mesmo o fizestes » (Mt 25,40). Muitos Institutos,
especialmente na idade moderna, nasceram precisamente para ir ao encontro das
diversas necessidades dos pobres. Mas, mesmo quando tal finalidade não foi
determinante, a atenção e a solicitude pelos indigentes, expressas mediante a
oração, o acolhimento e a hospitalidade, sempre acompanharam naturalmente as
várias formas de vida consagrada, inclusive a vida contemplativa. E como
poderia ser de outra maneira, uma vez que o Senhor encontrado na contemplação é
o mesmo que vive e sofre nos pobres? A história da vida consagrada é rica,
neste sentido, de exemplos maravilhosos, por vezes geniais. S. Paulino de Nola,
depois de ter distribuído os seus bens aos pobres para se consagrar a Deus,
levantou as celas do seu mosteiro sobre um albergue destinado precisamente aos
indigentes. Ele rejubilava ao pensar nesta singular « permuta de dons »: os
pobres por ele assistidos consolidavam, com a sua oração, os próprios «
alicerces » da sua casa, toda ela dedicada ao louvor de Deus.S. Vicente de
Paulo, por seu lado, gostava de dizer que, quando se tem de deixar a oração
para ir prestar assistência a um pobre em necessidade, na realidade a oração
não é interrompida, porque « se deixa Deus para ir estar com Deus ».ervir os
pobres é acto de evangelização e, ao mesmo tempo, selo de fidelidade ao
Evangelho e estímulo de conversão permanente para a vida consagrada, porque —
como diz S. Gregório Magno — « quando a caridade se debruça amorosamente a
prover mesmo às ínfimas necessidades do próximo, então é que se alteia até aos
cumes mais elevados. E quando benignamente se inclina sobre as necessidades
extremas, então mais vigorosamente retoma o voo para as alturas ».
O cuidado dos doentes
83. Seguindo uma gloriosa
tradição, um grande número de pessoas consagradas, sobretudo mulheres, exercem
o seu apostolado nos meios hospitalares, segundo o carisma do respectivo
Instituto. Ao longo dos séculos, muitas foram as pessoas consagradas que
sacrificaram a sua vida ao serviço das vítimas de doenças contagiosas,
mostrando que pertence à índole profética da vida consagrada a dedicação até ao
heroísmo.
A Igreja olha com
admiração e reconhecimento para tantas pessoas consagradas que, assistindo os
doentes e atribulados, contribuem de modo significativo para a sua missão. Elas
continuam o ministério de misericórdia de Cristo, que « passou (..) fazendo o
bem e curando a todos » (Act 10,38). Seguindo os passos d-Ele, divino
Samaritano, médico das almas e dos corpos,e a exemplo dos respectivos
fundadores e fundadoras, as pessoas consagradas, que a tal são encaminhadas
pelo carisma do próprio Instituto, perseverem no seu testemunho de amor pelos
enfermos, dedicando-se a eles com profunda compreensão e solidariedade. Nas
suas opções, privilegiem os doentes mais pobres e abandonados, bem como os
idosos, os inválidos, os marginalizados, os doentes em fase terminal, as
vítimas da droga e das novas doenças contagiosas. Encorajem aos enfermos a
oferta do próprio sofrimento em comunhão com Cristo crucificado e glorioso para
a salvação de todos;mais ainda, alimentem neles a consciência de serem, por
meio da oração e do testemunho da palavra e da vida, sujeitos activos de
pastoral através do peculiar carisma da cruz.lém disso, a Igreja lembra aos
consagrados e consagradas que faz parte da sua missão evangelizar os meios
hospitalares onde trabalham, procurando iluminar, através da comunicação dos
valores evangélicos, o modo de viver, sofrer e morrer dos homens do nosso
tempo. É compromisso seu dedicarem-se à humanização da medicina e ao
aprofundamento da bioética, ao serviço do Evangelho da vida. Por isso, promovam
sobretudo o respeito pela pessoa e pela vida humana desde a concepção até ao
seu termo natural, em plena conformidade com o ensinamento moral da
Igreja,instituindo também centros de formação para tal fime colaborando
fraternalmente com os organismos eclesiais da pastoral no campo da saúde.
II. UM TESTEMUNHO
PROFÉTICO FACE AOS GRANDES DESAFIOS
O profetismo da vida
consagrada
84. O carácter profético
da vida consagrada foi posto em grande relevo pelos Padres sinodais. Apresenta-se
como uma forma especial de participação na função profética de Cristo,
comunicada pelo Espírito a todo o Povo de Deus. De facto, o profetismo é
inerente à vida consagrada enquanto tal, devido ao radicalismo do seguimento de
Cristo e da consequente dedicação à missão que o caracteriza. A função de
sinal, que o Concílio Vaticano II atribui à vida consagrada, expri-me-se no
testemunho profético da primazia que Deus e os valores do Evangelho têm na vida
cristã. Em virtude desta primazia, nada pode ser preferido ao amor pessoal por
Cristo e pelos pobres, nos quais Ele vive.A tradição patrística viu um modelo
da vida religiosa monástica em Elias, profeta audaz e amigo de Deus.Vivia na
sua presença e contemplava no silêncio a sua passagem, intercedia pelo povo e
proclamava com coragem a sua vontade, defendia os direitos de Deus e levantava-se
em defesa dos pobres contra os poderosos do mundo (cf. 1 Rs 18-19; 21). Na
história da Igreja, juntamente com outros cristãos, não faltaram homens e
mulheres consagrados a Deus que exerceram, por dom particular do Espírito, um
autêntico ministério profético, falando em nome de Deus a todos, também aos
Pastores da Igreja. A verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da
escuta diligente da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história. O
profeta sente arder no coração a paixão pela santidade de Deus e, depois de ter
acolhido a palavra no diálogo da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e
com os gestos, fazendo-se porta-voz de Deus contra o mal e o pecado. O
testemunho profético requer a busca constante e apaixonada da vontade de Deus,
uma comunhão eclesial generosa e imprescindível, o exercício do discernimento
espiritual, o amor pela verdade. O referido testemunho exprime-se ainda
mediante a denúncia do que é contrário à vontade divina e a busca de novos
caminhos para actuar o Evangelho na história, na perspectiva do Reino de Deus.
A sua importância para o
mundo contemporâneo
85. No nosso mundo, onde
frequentemente parecem ter-se perdido os vestígios de Deus, torna-se urgente um
vigoroso testemunho profético por parte das pessoas consagradas. Tal testemunho
versará, primariamente, sobre a afirmação da primazia de Deus e dos bens
futuros, como transparece do seguimento e imitação de Cristo casto, pobre e
obediente, votado completamente à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs. A
própria vida fraterna é já profecia em acto, numa sociedade que, às vezes sem
se dar conta, anela profundamente por uma fraternidade sem fronteiras. Às
pessoas consagradas é pedido que ofereçam o seu testemunho, com a ousadia do
profeta que não tem medo de arriscar a própria vida.
Uma íntima força
persuasiva da profecia vem-lhe da coerência entre o anúncio e a vida. As
pessoas consagradas serão fiéis à sua missão na Igreja e no mundo, se forem
capazes de se reverem continuamente a si próprias à luz da Palavra de
Deus.Poderão assim enriquecer os outros fiéis com os dons carismáticos
recebidos, deixando-se por sua vez interpelar pelas provocações proféticas
vindas dos outros elementos eclesiais. Nesta permuta de dons, garantida por uma
plena sintonia com o Magistério e a disciplina da Igreja, resplandecerá a acção
do Espírito, que « conduz [a Igreja] à verdade total e unifica-a na comunhão e
no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e
carismáticos ».
Uma fidelidade até ao
martírio
86. Neste século, como
noutras épocas da história, homens e mulheres consagrados testemunharam Cristo
Senhor, com o dom da própria vida. Contam-se aos milhares aqueles que,
escorraçados para as catacumbas pela perseguição de regimes totalitários ou de
grupos violentos, hostilizados na actividade missionária, na acção em favor dos
pobres, na assistência aos doentes e marginalizados, viveram, e vivem, a sua
consagração num sofrimento prolongado e heróico, chegando muitas vezes até ao
derramamento do próprio sangue, plenamente configurados com o Senhor
crucificado. A alguns deles, a Igreja já reconheceu oficialmente a sua
santidade, honrando-os como mártires de Cristo. Eles iluminam-nos com o seu
exemplo, intercedem pela nossa fidelidade, esperam-nos na glória.
Deseja-se vivamente que a
memória de tantas testemunhas da fé perdure na consciência da Igreja, como
incentivo à sua celebração e imitação. Os Institutos de vida consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica contribuam para esta obra, recolhendo os nomes e
os testemunhos de todas as pessoas consagradas que possam ser escritas no
Martirológio do século XX.
Os grandes desafios da
vida consagrada
87. A missão profética da
vida consagrada ve-se provocada por três desafios principais, lançados à
própria Igreja: são desafios de sempre, colocados sob formas novas e talvez
mais radicais pela sociedade contemporânea, pelo menos nalgumas partes do
mundo. Tocam directamente os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e
obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular as pessoas consagradas,
a pôr em evidência e testemunhar o seu significado antropológico profundo. Na
verdade, a opção por estes conselhos, longe de constituir um empobrecimento de
valores autenticamente humanos, revela-se antes como uma transfiguração dos
mesmos. Os conselhos evangélicos não hão-de ser considerados como uma negação
dos valores inerentes à sexualidade, ao legítimo desejo de usufruir de bens
materiais, e de decidir autonomamente sobre si próprio. Estas inclinações,
enquanto fundadas na natureza, são boas em si mesmas; mas a criatura humana,
enfraquecida como está pelo pecado original, corre o risco de as exercitar de
modo transgressivo. A profissão de castidade, pobreza e obediência torna-se uma
admoestação a que não se subestimem as feridas causadas pelo pecado original,
e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples facto
de apontar Deus como o bem absoluto. Desta forma, aqueles que seguem os
conselhos evangélicos, ao mesmo tempo que procuram a santidade para si mesmos,
propõem, por assim dizer, uma « terapia espiritual » para a humanidade, porque
recusam a idolatria da criatura e tornam de algum modo visível o Deus vivo. A
vida consagrada, especialmente em tempos difíceis, é uma bênção para a vida
humana e para a própria vida eclesial.
O desafio da castidade
consagrada
88. A primeira provocação
provém de uma cultura hedonista que separa a sexualidade de qualquer norma
moral objectiva, reduzindo-a frequentemente ao nível de objecto de diversao e
consumo, e favorecendo, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, uma
espécie de idolatria do instinto. As consequências disto estão à vista de
todos: prevaricações de todo o género, geradoras de inúmeros sofrimentos
psíquicos e morais para os indivíduos e as famílias. A resposta da vida
consagrada está, antes de mais, na prática alegre da castidade perfeita, como
testemunho da força do amor de Deus na fragilidade da condição humana. A pessoa
consagrada atesta que aquilo que é visto como impossível pela maioria da gente,
torna-se, com a graça do Senhor Jesus, possível e verdadeiramente libertador.
Sim, em Cristo é possível amar a Deus com todo o coração, pondo-O acima de
qualquer outro amor, e amar assim, com a liberdade de Deus, toda a criatura!
Este testemunho é hoje mais necessário que nunca, exactamente por ser tão pouco
compreendido pelo nosso mundo. Ele é oferecido a toda a gente — aos jovens, aos
noivos, aos cônjuges, às famílias cristãs — para mostrar a todos que a força do
amor de Deus pode operar grandes coisas, mesmo no âmbito das vicissitudes do
amor humano. É um testemunho que vai de encontro também a uma necessidade crescente
de transparencia interior nas relações humanas.
É preciso que a vida
consagrada apresente ao mundo de hoje exemplos de uma castidade vivida por
homens e mulheres que demonstram equilíbrio, domínio de si, espírito de
iniciativa, maturidade psicológica e afectiva.Graças a este testemunho, é
oferecido ao amor humano um ponto de referência seguro, que a pessoa consagrada
encontra na contemplação do amor trinitário, que nos foi revelado em Cristo.
Precisamente porque imersa neste mistério, ela sente-se capaz de um amor
radical e universal, que lhe dá a força para o domínio de si e a disciplina
necessária para não cair na escravidão dos sentidos e dos instintos. A
castidade consagrada apresenta-se assim como experiência de alegria e de
liberdade. Iluminada pela fé no Senhor ressuscitado e pela esperança dos novos
céus e da nova terra (cf. Ap 21,1), ela oferece também preciosos estímulos para
a educação da castidade obrigatória nos outros estados de vida.
O desafio da pobreza
89. Outra provocação vem,
hoje, de um materialismo ávido de riqueza, sem qualquer atenção pelas
exigências e sofrimentos dos mais débeis, nem consideração pelo próprio
equilíbrio dos recursos naturais. A resposta da vida consagrada é dada pela
profissão da pobreza evangélica, vivida sob diversas formas e acompanhada
muitas vezes por um empenhamento activo na promoção da solidariedade e da
caridade.
Quantos Institutos se
dedicam à educação, à instrução e à formação profissional, habilitando jovens e
menos jovens a tornarem-se protagonistas do seu futuro! Quantas pessoas
consagradas gastam todas as suas energias em favor dos últimos da terra!
Quantas delas se dedicam à formação de futuros educadores e responsáveis da
vida social, capazes de se empenharem, por sua vez, para eliminar as estruturas
opressoras e promover projectos de solidariedade em benefício dos pobres! Elas
lutam para debelar a fome e as suas causas, animam as actividades do
voluntariado e as organizações humanitárias, sensibilizam organismos públicos e
privados para favorecerem uma equitativa distribuição das ajudas
internacionais. As nações devem verdadeiramente muito a estes dinâmicos agentes
da caridade, que, pela sua incansável generosidade, deram e continuam a dar uma
sensível contribuição para a humanização do mundo.
A pobreza evangélica ao
serviço dos pobres
90. Na verdade, a pobreza
evangélica, ainda antes de ser um serviço em favor dos pobres, é um valor em si
mesma , enquanto faz lembrar a primeira das bem-aventuranças na imitação de
Cristo pobre.Com efeito, o seu primeiro significado é testemunhar Deus como
verdadeira riqueza do coração humano. Mas, por isso mesmo, ela contesta
vigorosamente a idolatria do dinheiro, propondo-se como apelo profético lançado
a uma sociedade que, em tantos lugares do mundo abastado, se arrisca a perder o
sentido da medida e o próprio significado das coisas. Por isso hoje, mais do
que noutras épocas, a sua solicitação é escutada com favor inclusive por
aqueles que, cientes do carácter limitado dos recursos da terra, pedem o respeito
e a salvaguarda da criação, mediante a redução do consumo, a sobriedade, a
imposição de um freio obrigatório aos próprios desejos.
Deste modo, às pessoas
consagradas é pedido um renovado e vigoroso testemunho evangélico de abnegação
e sobriedade, num estilo de vida fraterna inspirada por critérios de
simplicidade e de hospitalidade, como exemplo mesmo para quantos permanecem
indiferentes perante as necessidades do próximo. Tal testemunho há-de ser
naturalmente acompanhado pelo amor preferencial pelos pobres e manifestar-se-á,
de modo especial, na partilha das condições de vida dos mais desfavorecidos.
Diversas são as comunidades que vivem e operam entre os pobres e
marginalizados, abraçam a sua condição e partilham os seus sofrimentos,
problemas e perigos.Exímias páginas de história de solidariedade evangélica e
de dedicação heróica foram escritas por pessoas consagradas, nestes anos de
profundas mudanças e de grandes injustiças, de esperanças e desilusões, de
importantes conquistas mas também de amargas derrotas. E páginas igualmente
significativas foram e continuam a ser ainda escritas por muitas outras pessoas
consagradas, que vivem em plenitude a sua vida « escondida com Cristo em Deus »
(Col 3,3) pela salvação do mundo, sob o lema da gratuidade, do investimento da
própria vida em causas pouco reconhecidas e menos ainda aplaudidas. Através
destas formas diversas e complementares, a vida consagrada participa da pobreza
extrema abraçada pelo Senhor e vive a sua função específica no mistério
salvífico da sua encarnação e da sua morte redentora.
O desafio da liberdade na
obediência
91. A terceira provocação
provém daquelas concepções da liberdade que subtraem esta fundamental
prerrogativa humana à sua relação constitutiva com a verdade e com a norma moral.Na
realidade, a cultura da liberdade é um valor autêntico, ligado intimamente ao
respeito da pessoa humana. Mas quem não vê as consequências monstruosas de
injustiça e mesmo de violência, geradas na vida dos indivíduos e dos povos pelo
uso deturpado da liberdade?
Uma resposta eficaz a tal
situação é a obediência que caracteriza a vida consagrada. Esta apresenta de
modo particularmente vivo a obediência de Cristo ao Pai e, partindo exactamente
do seu mistério, testemunha que não há contradição entre obediência e liberdade
. Com efeito, o comportamento do Filho desvenda o mistério da liberdade humana,
como um caminho de obediência à vontade do Pai, e o mistério da obediência,
como um caminho de progressiva conquista da verdadeira liberdade. É precisamente
este mistério que a pessoa consagrada quer exprimir com este voto concreto. Com
ele, deseja dar testemunho da sua consciência de um relacionamento de filiação,
em virtude do qual assume a vontade paterna como alimento diário (cf. Jo 4,34),
como sua rocha, alegria, escudo e baluarte (cf. Sal 1817,3). Demonstra assim
que cresce na verdade plena de si mesma, quando permanece ligada à fonte da sua
existência, e deste modo oferece uma mensagem repleta de consolação: « Gozam de
grande paz os que amam a vossa lei, para eles não existe perturbação » (Sal
119118,165).
Cumprir juntos a vontade
do Pai
92. Este testemunho das
pessoas consagradas assume, na vida religiosa, um significado particular também
por causa da dimensão comunitária que a caracteriza. A vida fraterna é o lugar
privilegiado para discernir e acolher a vontade de Deus e caminhar juntos em
união de mente e coração. A obediência, vivificada pela caridade, unifica os
membros de um Instituto no mesmo testemunho e na mesma missão, embora na
diversidade dos dons e no respeito da individualidade própria de cada um. Na
fraternidade animada pelo Espírito Santo, cada qual estabelece com o outro um
diálogo precioso para descobrir a vontade do Pai, e todos reconhecem em quem
preside a expressão da paternidade divina e o exercício da autoridade recebida
de Deus ao serviço do discernimento e da comunhão.De modo particular, a vida de
comunidade é o sinal, para a Igreja e para a sociedade, daquele laço que provém
de um chamamento igual e da vontade comum de lhe obedecer, para além de
qualquer diversidade de raça e de origem, de língua e de cultura. Contra o
espírito de discórdia e de divisão, a autoridade e a obediência resplandecem
como um sinal daquela única paternidade que vem de Deus, da fraternidade
nascida do Espírito, da liberdade interior de quem se fia de Deus, não obstante
os limites humanos daqueles que O representam. Através desta obediência, por
alguns assumida como regra de vida, é experimentada e anunciada, em benefício
de todos, a bem-aventurança prometida por Jesus a quantos « escutam a Palavra
de Deus e a põem em prática » (Lc 11,28). Além disso, quem obedece tem a
garantia de estar verdadeiramente em missão no seguimento do Senhor, e não ao
sabor dos desejos pessoais ou das próprias aspirações. E, assim, é possível
considerar-se guiado pelo Espírito do Senhor e sustentado, mesmo no meio de
grandes dificuldades, pela sua mão segura (cf. Act 20,22s).
Um compromisso decidido
de vida espiritual
93. Uma das preocupações
mais vezes manifestada no Sínodo foi a de uma vida consagrada que se alimente
nas fontes de uma espiritualidade sólida e profunda. Trata-se de uma exigência
prioritária, inscrita na própria essência da vida consagrada, uma vez que, como
qualquer outro baptizado, antes por motivos ainda mais prementes, quem professa
os conselhos evangélicos é obrigado a tender com todas as suas forças à
perfeição da caridade.Este é um compromisso intensamente lembrado pelos
inumeráveis exemplos de santos fundadores e fundadoras e de tantas pessoas
consagradas, que testemunharam a sua fidelidade a Cristo até ao martírio.
Tender à santidade: eis
em síntese o programa de cada vida consagrada, na perspectiva nomeadamente da
sua renovação às portas do terceiro milénio. O ponto de partida do programa
está no deixar tudo por Cristo (cf. Mt 4,18-22; 19,21.27; Lc 5,1), preferindo a
sua Pessoa a tudo mais, para poder participar plenamente no mistério pascal.Bem
o compreendera S. Paulo que exclamava: « Tudo eu considero perda, pela
excelência do conhecimento de Cristo Jesus (...). Assim poderei conhecê-Lo, a
Ele, e conhecer o poder da sua ressurreição » (Fil 3,8.10). É a estrada
indicada desde o início pelos Apóstolos, como recorda a tradição cristã tanto
do Oriente como do Ocidente: « Aqueles que actualmente seguem Jesus,
abandonando tudo por Ele, evocam os Apóstolos que, respondendo ao seu convite,
renunciaram a tudo o resto. Por isso, tradicionalmente é costume designá-la
como apostolica vivendi forma ».A tradição pôs também em evidência, na vida
consagrada, a dimensão da sua peculiar aliança com Deus, melhor, da aliança
esponsal com Cristo, de que foi mestre S. Paulo, com o seu exemplo (cf. 1 Cor
7,7) e com o seu ensinamento, proposto sob a guia do Espírito (cf. 1 Cor 7,40).
Podemos dizer que a vida espiritual, considerada como vida em Cristo, vida
segundo o Espírito, se apresenta como um itinerário de crescente fidelidade,
onde a pessoa consagrada é guiada pelo Espírito e por Ele configurada com
Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço na Igreja.Todos estes elementos,
inseridos nas várias formas de vida consagrada, geram uma espiritualidade
peculiar, isto é, um projecto concreto de relacionamento com Deus e com o meio
circundante, caracterizado por modulações espirituais particulares e opções de
acção que colocam em evidência e repropõem ora um aspecto ora outro do único
mistério de Cristo. Quando a Igreja reconhece uma forma de vida consagrada ou
um Instituto, garante que, no seu carisma espiritual e apostólico, se encontram
todos os requisitos objectivos para alcançar a perfeição evangélica pessoal e
comunitária.Portanto, a vida espiritual deve ocupar o primeiro lugar no
programa das Famílias de vida consagrada, de tal modo que cada Instituto e cada
comunidade se apresentem como escolas de verdadeira espiritualidade evangélica.
Desta opção prioritária, desenvolvida no compromisso pessoal e comunitário,
depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor pelos pobres, a
própria atracção vocacional sobre as novas gerações. É precisamente a qualidade
espiritual da vida consagrada que pode interpelar as pessoas do nosso tempo,
também elas sequiosas de valores infinitos, transformando-se assim num
testemunho fascinante.
À escuta da Palavra de
Deus
94. A Palavra de Deus é a
primeira fonte de toda a vida espiritual cristã. Ela sustenta um relacionamento
pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade salvífica e santificadora. Por isso
é que a lectio divina, desde o nascimento dos Institutos de vida consagrada, de
modo particular no monaquismo, foi tida na mais alta consideração. Por meio
dela, a Palavra de Deus é transferida para a vida, projectando sobre esta a luz
da sapiência, que é dom do Espírito. Embora toda a Sagrada Escritura seja «
útil para ensinar » (2 Tm 3,16) e « fonte pura e perene da vida espiritual »,merecem
particular veneração os escritos do Novo Testamento, sobretudo os Evangelhos,
que são « o coração de todas as Escrituras ».Por isso, será de grande proveito
para as pessoas consagradas fazerem objecto de assídua meditação os textos
evangélicos e os outros escritos neo-testamentários, que ilustram as palavras e
os exemplos de Cristo e da Virgem Maria, e a apostolica vivendi forma. A eles
se referiram constantemente os fundadores e fundadoras, no acolhimento da
vocação e no discernimento do carisma e da missão do próprio Instituto.
De grande valor é a
meditação comunitária da Bíblia. Realizada na medida das possibilidades e
circunstâncias da vida de comunidade, ela leva à partilha feliz das riquezas
encontradas na Palavra de Deus, mercê das quais irmãos e irmãs crescem juntos e
se ajudam a progredir na vida espiritual. Convém mesmo que tal prática seja
proposta aos outros membros do Povo de Deus, sacerdotes e leigos, promovendo,
nos moldes adequados ao próprio carisma, escolas de oração, de espiritualidade
e de leitura orante da Escritura, na qual Deus « fala aos homens como amigos
(cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Bar 3,38), para os convidar
e admitir à comunhão com Ele ».omo ensina a tradição espiritual, da meditação
da Palavra de Deus e, em particular, dos mistérios de Cristo nasce a
intensidade da contemplação e o ardor da acção apostólica. Quer na vida
religiosa contemplativa quer na apostólica, sempre foram homens e mulheres de
oração que realizaram, como intérpretes e executores da vontade de Deus,
grandes obras. Da sua convivência com a Palavra de Deus, obtiveram a luz
necessária para aquele discernimento individual e comunitário que os ajudou a
procurar, nos sinais dos tempos, os caminhos do Senhor. Adquiriram assim uma
espécie de instinto sobrenatural, que lhes permitiu não se conformarem com a
mentalidade deste mundo, mas renovarem a própria mente para poder discernir a
vontade de Deus, aquilo que é bom, o que Lhe é agradável e perfeito (cf. Rm
12,2).
Em comunhão com Cristo
95. Meio fundamental para
alimentar eficazmente a comunhão com o Senhor é, sem dúvida, a liturgia sagrada
, de modo especial a Celebração Eucarística e a Liturgia das Horas.
Em primeiro lugar, a
Eucaristia, onde « está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o
próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a
sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo ».Coração da vida
eclesial, a Eucaristia é-o também da vida consagrada. A pessoa chamada, pela profissão
dos conselhos evangélicos, a escolher Cristo como sentido único da sua
existência, como poderia não desejar instaurar com Ele uma comunhão cada vez
mais profunda por meio da participação diária no Sacramento que O torna
presente, no sacrifício que actualiza o seu dom de amor do Gólgota, no banquete
que alimenta e sustenta o Povo de Deus peregrino? A Eucaristia, por sua
natureza, está no centro da vida consagrada, pessoal e comunitária. É viático
quotidiano e fonte da espiritualidade do indivíduo e do Instituto. Nela, cada
consagrado é chamado a viver o mistério pascal de Cristo, unindo-se com Ele na
oferta da própria vida ao Pai, por meio do Espírito. A adoração assídua e
prolongada de Cristo presente na Eucaristia permite, de algum modo, reviver a experiência
de Pedro na Transfiguração: « É bom estarmos aqui! ». E na celebração do
mistério do Corpo e do Sangue do Senhor se consolida e incrementa a unidade e a
caridade daqueles que consagraram a Deus a sua existência.A par da Eucaristia e
em íntima relação com ela, a Liturgia das Horas, celebrada comunitária ou
pessoalmente segundo a índole de cada Instituto, em comunhão com a oração da
Igreja, exprime a vocação ao louvor e à intercessão, que é própria das pessoas
consagradas.Também tem uma relação profunda com a Eucaristia o esforço de
conversão contínua e de necessária purificação que as pessoas consagradas
realizam no sacramento da Reconciliação. Por meio do encontro frequente com a
misericórdia de Deus, elas purificam e renovam o seu coração e, através do
humilde reconhecimento dos pecados, tornam transparente a própria ligação com
Ele; a experiência feliz do perdão sacramental, no caminho partilhado com os
irmãos e as irmãs, torna o coração dócil e estimula o empenho por uma crescente
fidelidade.Serve de grande apoio para progredir no caminho evangélico,
especialmente no período de formação e em certos momentos da vida, o recurso
confiante e humilde à direcção espiritual, graças à qual a pessoa é ajudada a
responder às moções do Espírito com generosidade e a orientar-se decididamente
para a santidade.Exorto, enfim, todas as pessoas consagradas, segundo as
próprias tradições, a renovarem diariamente a sua união espiritual com a Virgem
Maria, repassando com Ela os mistérios do Filho, particularmente pela oração do
Terço.
III. ALGUNS AREÓPAGOS DA
MISSÃO
Presença no mundo da
educação
96. A Igreja sempre
sentiu que a educação é um elemento essencial da sua missão . O seu Mestre
interior é o Espírito Santo, que penetra as profundidades mais reconditas do
coração de cada homem e conhece o dinamismo secreto da história. Toda a Igreja
é animada pelo Espírito e com Ele desempenha a sua acção educativa. No âmbito
da Igreja, todavia, uma tarefa específica neste campo compete às pessoas
consagradas, que são chamadas a introduzir no horizonte educacional o
testemunho radical dos bens do Reino, propostos a todo o homem enquanto aguarda
o encontro definitivo com o Senhor da história. Pela sua especial consagração,
pela peculiar experiência dos dons do Espírito, pela escuta assídua da Palavra
e o exercício do discernimento, pelo rico património de tradições educativas
acumulado ao longo da história pelo próprio Instituto, pelo conhecimento
profundo da verdade espiritual (cf. Ef 1,17), as pessoas consagradas são capazes
de desenvolver uma acção educativa particularmente eficaz, oferecendo uma
contribuição específica para as iniciativas dos outros educadores e educadoras.
Dotadas deste carisma,
elas podem dar vida a ambientes educativos permeados pelo espírito evangélico
de liberdade e de caridade, onde os jovens sejam ajudados a crescer em
humanidade, sob a guia do Espírito.Deste modo, a comunidade educativa torna-se
experiência de comunhão e lugar de graça, onde o projecto pedagógico contribui
para unir, numa síntese harmoniosa, o divino e o humano, o Evangelho e a
cultura, a fé e a vida.A história da Igreja, desde a antiguidade até aos nossos
dias, é rica de exemplos admiráveis de pessoas consagradas que viveram e vivem
a tensão para a santidade através do empenho pedagógico, propondo
contemporaneamente a santidade como meta educativa. De facto, muitas delas,
educando, realizaram a perfeição da caridade. Este é um dos dons mais preciosos
que as pessoas consagradas podem oferecer também hoje à juventude, fazendo-a
objecto de um serviço pedagógico rico de amor, segundo a sábia advertência de
S. João Bosco: « Não basta aos jovens serem amados, precisam também de
reconhecer que o são ».
Necessidade de renovado
empenho no campo educativo
97. Os consagrados e
consagradas manifestem, com delicado respeito e também com coragem missionária,
que a fé em Jesus Cristo ilumina todo o campo da educação, não prejudicando mas
antes corroborando e elevando os próprios valores humanos. Deste modo, tornam-se
testemunhas e instrumentos do poder da Encarnação e da força do Espírito. Esta
sua tarefa é uma das expressões mais significativas daquela maternidade que a
Igreja, à imagem de Maria, realiza para com todos os seus filhos.Por isso, é
que o Sínodo exortou instantemente as pessoas consagradas a retomarem com novo
empenho, nos lugares onde for possível, a missão da educação com escolas de
todo o tipo e grau, Universidades e Institutos Superiores.Assumindo esta
indicação sinodal, convido calorosamente os membros dos Institutos dedicados à
educação a serem fiéis ao seu carisma originário e às suas tradições, cientes
de que o amor preferencial pelos pobres encontra uma das suas aplicações
particulares na escolha dos meios mais aptos para libertar os homens daquela
grave forma de miséria que é a falta de formação cultural e religiosa.Dada a
importância que as Universidades e as Faculdades católicas e eclesiásticas
assumem no campo da educação e da evangelização, os Institutos que possuem a
sua direcção estejam cientes da sua responsabilidade, fazendo com que nelas, ao
mesmo tempo que se dialoga activamente com o contexto cultural actual, se
conserve a peculiar índole católica, na plena fidelidade ao Magistério da
Igreja. Além disso, conforme as circunstâncias, os membros destes Institutos e Sociedades
mostrem-se prontos a entrar nas estruturas educativas estatais. A este tipo de
intervenção, são particularmente chamados, devido à sua específica vocação, os
membros dos Institutos seculares.
Evangelizar a cultura
98. Os Institutos de vida
consagrada tiveram sempre uma grande influência na formação e na transmissão da
cultura. Aconteceu isto na Idade Média, quando os mosteiros se tornaram lugares
de acesso às riquezas culturais do passado e de elaboração de uma nova cultura
humanista e cristã. Isso verificou-se todas as vezes que a luz do Evangelho
alcançou novos povos. Muitas pessoas consagradas promoveram a cultura, e
frequentemente examinaram e defenderam as culturas autóctones. A necessidade de
contribuir para a promoção da cultura, para o diálogo entre a cultura e a fé, é
hoje sentida, na Igreja, de modo absolutamente particular.Os consagrados não
podem deixar de se sentirem interpelados por esta urgência. Também eles são
chamados, no anúncio da Palavra de Deus, a individuar métodos mais apropriados
às exigências dos diversos grupos humanos e dos vários âmbitos profissionais,
para que a luz de Cristo penetre em cada sector humano e o fermento da salvação
transforme a partir de dentro a vida social, favorecendo a consolidação de uma
cultura permeada pelos valores evangélicos.Também através de tal empenho, no
limiar do terceiro milénio cristão, a vida consagrada poderá renovar a sua
conformidade com os desígnios de Deus, que vem ao encontro de todas as pessoas
que andam, consciente ou inconscientemente, por assim dizer, tacteando à
procura da Verdade e da Vida (cf. Act 17,27).Mas para além do serviço prestado
aos outros, também no seio da vida consagrada há necessidade de um renovado
amor pelo empenho cultural , de dedicação ao estudo como meio para a formação
integral e como percurso ascético, extraordinariamente actual, frente à
diversidade das culturas. A diminuição do empenho pelo estudo pode ter pesadas
consequências mesmo no apostolado, gerando um sentido de marginalização e de
inferioridade ou favorecendo superficialidade e imprudência nas iniciativas.Na
diversidade dos carismas e das reais possibilidades dos diversos Institutos, o
empenho do estudo não se pode reduzir à formação inicial ou à consecução de
títulos académicos e de habilitações profissionais. Mas é sobretudo expressão
do desejo insaciável de conhecer mais profundamente a Deus, abismo de luz e
fonte de toda a verdade humana. Por isso, tal empenho não isola a pessoa
consagrada num intelectualismo abstracto, nem a fecha nas espirais de um
narcisismo sufocante; pelo contrário, é incitamento ao diálogo e à partilha, é
formação da capacidade de discernimento, é estímulo à contemplação e à oração,
na busca incessante de Deus e da sua acção na complexa realidade do mundo
contemporâneo.A pessoa consagrada, deixando-se transformar pelo Espírito Santo,
torna-se capaz de ampliar os horizontes dos limitados desejos humanos e, ao
mesmo tempo, captar as dimensões profundas de cada indivíduo e sua história por
detrás dos aspectos mais vistosos mas tantas vezes marginais. Inumeráveis são
hoje os campos donde emergem desafios nas várias culturas: âmbitos novos ou já
tradicionalmente palmilhados pela vida consagrada, com os quais é urgente
manter fecundas relações, numa atitude de prudente sentido crítico mas também
de atenção e confiança para com aquele que enfrenta as dificuldades típicas do
trabalho intelectual, especialmente quando, em presença de problemas inéditos
do nosso tempo, é preciso tentar análises e sínteses novas.Uma evangelização séria
e válida dos novos âmbitos, onde se elabora e transmite a cultura, não pode ser
operada sem uma activa colaboração com os leigos lá empenhados.
Presença no mundo da
comunicação social
99. Assim como no passado
as pessoas consagradas souberam, com os meios mais diversos, pôr-se ao serviço
da evangelização, enfrentando genialmente as dificuldades, também hoje são
interpeladas novamente pela exigência de testemunhar o Evangelho, através dos
meios de comunicação social. Estes meios alcançaram uma capacidade de
irradiação mundial, graças a tecnologias potentíssimas capazes de atingir
qualquer ângulo da terra. As pessoas consagradas, sobretudo quando operam neste
campo por carisma institucional, devem adquirir um conhecimento sério da
linguagem própria destes meios, para falar eficazmente de Cristo ao homem de
hoje, interpretando « as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
»dele, e contribuir assim para a edificação de uma sociedade onde todos se
sintam irmãos e irmãs a caminho de Deus.
Impõe-se, todavia, estar
vigilantes contra o uso deformado destes meios, devido ao poder extraordinário
de persuasão de que dispõem. Não se devem ignorar os problemas que daí podem
derivar para a própria vida consagrada, mas sim enfrentá-los com um lúcido discernimento.A
resposta da Igreja é sobretudo de ordem educativa: visa promover um
comportamento de justa compreensão dos dinamismos subjacentes, uma cuidadosa
avaliação ética dos programas, e ainda a adopção de hábitos sadios no seu
desfrutamento.Neste âmbito educativo tendente a formar receptores sensatos e
comunicadores especializados, as pessoas consagradas são chamadas a oferecer o
seu particular testemunho sobre a relatividade de todas as realidades visíveis,
ajudando os irmãos a valorizá-las segundo o desígnio de Deus, mas também a
libertarem-se da dependência obsessiva da figura deste mundo que passa (cf. 1
Cor 7,31).Todo o esforço neste novo e importante campo apostólico há-de ser
encorajado, para que o Evangelho de Cristo ressoe também através destes meios
modernos. Os vários Institutos estejam prontos a colaborar, com a contribuição
de forças — meios e pessoas —, para realizar projectos comuns nos vários
sectores da comunicação social. Além disso, quando surgirem oportunidades
pastorais, as pessoas consagradas, especialmente os membros dos Institutos
seculares, prestem de boa vontade o seu serviço para a formação religiosa dos
responsáveis e operadores da comunicação social, pública ou privada, a fim de
que, por um lado, se evitem os danos provocados pelo uso viciado de tais meios
e, por outro, seja promovida uma qualidade superior das transmissões, com
mensagens respeitadoras da lei moral e ricas de valores humanos e cristãos.
IV. EMPENHADOS NO DIÁLOGO
COM TODOS
Ao serviço da unidade dos
cristãos
100. A oração dirigida
por Cristo ao Pai, antes da Paixão, para que os seus discípulos permanecessem
na unidade (cf. Jo 17,21-23), perdura na oração e na acção da Igreja. Como
poderiam deixar de se sentir implicados nela os chamados à vida consagrada? A ferida
da desunião, ainda existente entre os crentes em Cristo, e a urgência de rezar
e trabalhar para promover a unidade de todos os cristãos foram particularmente
sentidas no Sínodo. A sensibilidade ecuménica dos consagrados e consagradas é
reavivada também pela certeza de que noutras Igrejas e Comunidades eclesiais se
conserva e floresce o monaquismo, como no caso das Igrejas orientais, ou se
renova a profissão dos conselhos evangélicos, como na Comunhão anglicana e nas
Comunidades da Reforma.
O Sínodo pôs em evidência
o laço profundo da vida consagrada com a causa do ecumenismo e a urgência de um
testemunho mais intenso neste campo. Na verdade, se a alma do ecumenismo é a
oração e a conversão,não há dúvida que os Institutos de vida consagrada e as Sociedades
de Vida Apostólica têm uma particular obrigação de cultivar este empenho. Por
isso, é urgente abrir, na vida das pessoas consagradas, espaços maiores à
oração ecuménica e a um testemunho autenticamente evangélico, para que se
possam abater, com a força do Espírito Santo, os muros das divisões e dos
preconceitos entre os cristãos
Formas de diálogo
ecuménico
101. A partilha da lectio
divina na busca da verdade, a participação na oração comum, na qual o Senhor
garante a sua presença (cf. Mt 18,20), o diálogo da amizade e da caridade que
faz sentir como é agradável viverem unidos os irmãos (cf. Sal 133132), a
hospitalidade cordial praticada para com os irmãos e irmãs das diversas
confissões cristãs, o conhecimento recíproco e a permuta dos dons, a colaboração
em iniciativas comuns de serviço e de testemunho, são diversas formas de
diálogo ecuménico, expressões agradáveis ao Pai comum e sinais da vontade de
caminhar juntos para a unidade perfeita, pela senda da verdade e do
amor.Igualmente o conhecimento da história, doutrina, liturgia, actividade
caritativa e apostólica dos outros cristãos, não deixará de ser útil para uma
acção ecuménica cada vez mais incisiva.Quero encorajar aqueles Institutos que,
por índole original ou por vocação sucessiva, se dedicam à promoção da unidade
dos cristãos e, para a consecução da mesma, cultivam iniciativas de estudo e de
acção concreta. Na realidade, nenhum Instituto de vida consagrada se deve
sentir dispensado de trabalhar por esta causa. Dirijo ainda o meu pensamento às
Igrejas orientais católicas, almejando que elas possam, nomeadamente através do
monaquismo masculino e feminino, cuja graça do florescimento há-de ser
implorada constantemente, colaborar para a unidade com as Igrejas ortodoxas,
mercê do diálogo da caridade e da partilha da espiritualidade comum, património
da Igreja indivisa do primeiro milénio.Confio de modo particular o ecumenismo
espiritual da oração, da conversão do coração, e da caridade aos mosteiros de
vida contemplativa. Com esta finalidade, encorajo a sua presença nos lugares
onde vivem comunidades cristãs de várias confissões, a fim de que a sua
dedicação total à « única coisa necessária » (cf. Lc 10,42), ao culto de Deus e
à intercessão pela salvação do mundo, juntamente com o seu testemunho de vida
evangélica, segundo os próprios carismas, seja para todos um estímulo a
viverem, à imagem da Trindade, naquela unidade que Jesus quis e pediu ao Pai
para todos os seus discípulos.
O diálogo inter-religioso
102. Uma vez que « o
diálogo inter-religioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja »,os
Institutos de vida consagrada não podem eximir-se de se empenharem também neste
campo, cada qual segundo o próprio carisma e seguindo as indicações da
autoridade eclesiástica. A primeira forma de evangelização junto dos irmãos e
irmãs de outra religião há-de ser o próprio testemunho de uma vida pobre,
humilde e casta, permeada de amor fraterno por todos. Ao mesmo tempo, a
liberdade de espírito que é própria da vida consagrada favorecerá aquele «
diálogo da vida »,no qual se realiza um modelo fundamental de missão e anúncio
do Evangelho de Cristo. Para propiciar o conhecimento mútuo, o respeito e a
caridade recíproca, os Institutos religiosos poderão ainda cultivar oportunas
formas de diálogo, caracterizadas por amizade cordial e recíproca sinceridade,
com os ambientes monásticos de outras religiões.
Outro âmbito de
colaboração com homens e mulheres de tradição religiosa diversa é a solicitude
pela vida humana, que se estende da compaixão pelo sofrimento físico e
espiritual até ao compromisso pela justiça, a paz e a salvaguarda da criação.
Nestes sectores, hão-de ser sobretudo os Institutos de vida activa a procurarem
o consenso com os membros de outras religiões, naquele « diálogo das obras
»,que prepara o caminho para uma partilha mais profunda.Um campo especial de
operoso encontro com pessoas de outras tradições religiosas é a procura e
promoção da dignidade da mulher. Na perspectiva da igualdade e da recta
reciprocidade entre o homem e a mulher, um precioso serviço pode ser prestado
principalmente pelas mulheres consagradas.stes e outros compromissos das
pessoas consagradas ao serviço do diálogo inter-religioso exigem uma preparação
adequada na formação inicial e na formação permanente, como também no estudo e
na pesquisa,uma vez que, neste sector não fácil, é preciso um conhecimento
profundo do cristianismo e das outras religiões, acompanhado de fé sólida e de
maturidade espiritual e humana.
Uma resposta de
espiritualidade à busca do sagrado e à nostalgia de Deus
103. Aqueles que abraçam
a vida consagrada, homens e mulheres, colocam-se, pela natureza mesma da sua
opção, como interlocutores privilegiados daquela procura de Deus que desde
sempre inquieta o coração do homem e o conduz a múltiplas formas de ascese e de
espiritualidade. Hoje, em muitas regiões, uma tal procura emerge insistente
como resposta a culturas que tendem claramente a marginalizar, se não mesmo a
negar, a dimensão religiosa da existência.
As pessoas consagradas,
vivendo com coerência e em plenitude os compromissos livremente assumidos,
podem oferecer uma resposta aos anseios dos seus contemporâneos, que por eles
são descartados com soluções a maior parte das vezes ilusórias e frequentemente
negadoras da encarnação salvadora de Cristo (cf. 1 Jo 4,2-3), como as que são
propostas, por exemplo, pelas seitas. Praticando uma ascese pessoal e
comunitária que purifica e transfigura toda a sua existência, as pessoas
consagradas testemunham, contra a tentação do egocentrismo e da sensualidade,
as características da busca autêntica de Deus, e chamam a atenção para não a
confundir com uma subtil busca de si próprios ou com a fuga para a gnose. Cada
pessoa consagrada assume a obrigação de cultivar o homem interior, que não se
alheia da história nem se fecha sobre si mesmo. Vivendo na escuta obediente da
Palavra, de que a Igreja é guardiã e intérprete, ela aponta Cristo sumamente
amado e o Mistério Trinitário como o objecto do anseio profundo do coração
humano e a meta de todo o itinerário religioso sinceramente aberto à
transcendência.Por isso, as pessoas consagradas têm o dever de oferecer
generosamente acolhimento e acompanhamento espiritual a quantos, movidos pela
sede de Deus e desejosos de viverem as exigências profundas da sua fé, se lhes
dirigem.
CONCLUSÃO
A superabundância da
gratuidade
104. Diversos são aqueles
que hoje se interrogam perplexos: Porquê a vida consagrada? Porquê abraçar este
género de vida, quando existem tantas urgências, no âmbito da assistência e
mesmo da evangelização, às quais se pode responder igualmente sem assumir os
compromissos peculiares da vida consagrada? Porventura não é a vida consagrada
uma espécie de « desperdício » de energias humanas que podiam ser utilizadas,
segundo critérios de eficiência, para um bem maior da humanidade e da Igreja?
Estas perguntas são mais
frequentes na nossa época, porque incentivadas por uma cultura utilitarista e
tecnocrática que tende a avaliar a importância das coisas e também das pessoas
sobre a base da sua « funcionalidade » imediata. Mas sempre existiram
interrogações semelhantes, como o demonstra eloquentemente o episódio
evangélico da unção de Betânia: « Maria, tomando uma libra de perfume de nardo
puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos; e a
casa encheu-se com o cheiro do perfume » (Jo 12,3). A Judas que, tomando como
pretexto as necessidades dos pobres, se lamentava por tão grande desperdício,
Jesus respondeu: « Deixa-a fazer! » (cf. Jo 12,7).Esta é a resposta, sempre
válida, à pergunta que tantos, mesmo em boa fé, colocam acerca da actualidade
da vida consagrada: não se poderia empregar a própria existência, de um modo
mais eficiente e racional, para a melhoria da sociedade? Eis a resposta de
Jesus: « Deixa-a fazer »!A quem foi concedido o dom de seguir mais de perto o
Senhor Jesus, é óbvio que Ele possa e deva ser amado com coração indiviso, que
se Lhe possa dedicar a vida toda e não apenas alguns gestos, alguns momentos ou
algumas actividades. O perfume de alto preço, derramado como puro acto de amor
e, por conseguinte, fora de qualquer consideração « utilitarista », é sinal de
uma superabundância de gratuidade, como a que transparece numa vida gasta a
amar e a servir o Senhor, a dedicar-se à sua Pessoa e ao seu Corpo Místico. Mas
é desta vida « derramada » sem reservas que se difunde um perfume que enche
toda a casa. A casa de Deus, a Igreja, é adornada e enriquecida hoje, não menos
que outrora, pela presença da vida consagrada.Aquilo que pode parecer aos olhos
dos homens um desperdício, para a pessoa fascinada no segredo do coração pela
beleza e bondade do Senhor é uma óbvia resposta de amor, é gratidão e regozijo
por ter sida admitida de modo absolutamente especial ao conhecimento do Filho e
na partilha da sua missão divina no mundo.« Se um filho de Deus conhecesse e
saboreasse o amor divino, Deus incriado, Deus encarnado, Deus apaixonado, que é
o sumo bem, dar-Lhe-ia tudo, livrar-se-ia não só das outras criaturas, mas até
de si próprio, e, com tudo o que é, amaria este Deus de amor até se transformar
todo no Deus-Homem, sumamente Amado ».
A vida consagrada ao
serviço do Reino de Deus
105. « Que seria do mundo
se não existissem os religiosos? »Deixando de lado as avaliações superficiais
de funcionalismo, sabemos que a vida consagrada é importante precisamente por
ser superabundância de gratuidade e de amor, o que se torna ainda mais
verdadeiro num mundo que se arrisca a ficar sufocado na vertigem do efémero. «
Sem este sinal concreto, a caridade que anima a Igreja inteira correria o risco
de refrear-se, o paradoxo salvífico do Evangelho de atenuar-se, o “sal” da fé
de diluir-se num mundo em fase de secularização ».A vida da Igreja e a própria
sociedade têm necessidade de pessoas capazes de se dedicarem totalmente a Deus
e aos outros por amor de Deus.
A Igreja não pode
absolutamente renunciar à vida consagrada, porque esta exprime de modo
eloquente a sua íntima essência « esponsal ». Nela encontra novo impulso e
vigor o anúncio do Evangelho a todo o mundo. Na verdade, há necessidade de quem
apresente o rosto paterno de Deus e o rosto materno da Igreja, de quem ponha em
jogo a própria vida, para que outros tenham vida e esperança. A Igreja precisa
de pessoas consagradas que, ainda antes de se empenharem nesta ou naquela causa
nobre, se deixem transformar pela graça de Deus e se conformem plenamente com o
Evangelho.A Igreja inteira encontra nas suas mãos este grande dom e, numa
atitude de gratidão, dedica-se a promovê-lo com o seu apreço, a oração, o
convite explícito a acolhê-lo. É importante que Bispos, presbíteros e diáconos,
convencidos da excelência evangélica deste género de vida, trabalhem para
descobrir e amparar os gérmens de vocação, com a pregação, o discernimento e um
sábio acompanhamento espiritual. A todos os fiéis, pede-se uma oração constante
pelas pessoas consagradas, para que o seu fervor e a sua capacidade de amar
aumentem continuamente, contribuindo para difundir, na sociedade actual, o bom
perfume de Cristo (cf. 2 Cor 2,15). Toda a Comunidade cristã — pastores, leigos
e pessoas consagradas — é responsável pela vida consagrada, pelo acolhimento e
amparo prestado às novas vocações.
À juventude
106. A vós, jovens, digo:
se sentirdes o chamamento do Senhor, não o recuseis! Entrai, antes,
corajosamente nas grandes correntes de santidade, que foram iniciadas por
santas e santos insignes no seguimento de Cristo. Cultivai os anseios típicos
da vossa idade, mas aderi prontamente ao projecto de Deus sobre vós, se Ele vos
convida a procurar a santidade na vida consagrada. Admirai todas as obras de
Deus no mundo, mas sabei fixar o olhar sobre aquelas realidades que jamais
terão ocaso.
O terceiro milénio
aguarda a contribuição da fé e da inventiva de uma multidão de jovens
consagrados, para que o mundo se torne mais sereno e capaz de acolher a Deus e,
n-Ele, todos os seus filhos e filhas.
Às famílias
107. Dirijo-me a vós,
famílias cristãs. Vós, pais, dai graças a Deus, se Ele chamou algum dos vossos
filhos à vida consagrada. Deve ser considerada — como sempre o foi — uma grande
honra que o Senhor pouse o olhar sobre uma família e escolha algum dos seus
membros, convidando-o a abraçar o caminho dos conselhos evangélicos! Cultivai o
desejo de dar ao Senhor algum dos vossos filhos para o crescimento do amor de
Deus no mundo. Que fruto do amor conjugal poderia ser mais belo do que este?
Importa recordar que, se
os pais não vivem os valores evangélicos, dificilmente o jovem e a jovem
poderão perceber o chamamento, compreender a necessidade dos sacrifícios a
enfrentar, apreciar a beleza da meta a atingir. De facto, é na família que os
jovens fazem as primeiras experiências dos valores evangélicos, do amor que se
dá a Deus e aos outros. Também é necessário que eles sejam educados para o uso
responsável da sua liberdade, para estarem dispostos a viver, segundo a própria
vocação, das mais altas realidades espirituais.Rezo por vós, famílias cristãs,
para que, unidas ao Senhor pela oração e pela vida sacramental, sejais fecundos
viveiros de vocações.
Aos homens e mulheres de
boa vontade
108. A todos os homens e
mulheres que quiserem ouvir a minha voz, desejo fazer chegar o convite a
procurarem os caminhos que conduzem ao Deus vivo e verdadeiro, mesmo nos
itinerários traçados pela vida consagrada. As pessoas consagradas testemunham
que « aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem ».Quantas
delas se debruçaram, e continuam a fazê-lo, como bons samaritanos, sobre as
inúmeras feridas dos irmãos e irmãs que encontram pela sua estrada!
Olhai para estas pessoas
fascinadas por Cristo, que, no seu autodomínio sustentado pela graça e pelo
amor de Deus, apontam o remédio contra a avidez do ter, do prazer, e do poder.
Não esqueçais os carismas que plasmaram maravilhosos « perscrutadores de Deus »
e benfeitores da humanidade, que abriram caminhos seguros para quantos procuram
Deus de coração sincero. Considerai o grande número de santos criados neste
género de vida, considerai o bem feito ao mundo, ontem e hoje, por quem se
dedicou a Deus! Porventura este nosso mundo não tem necessidade de radiosas
testemunhas e verdadeiros profetas da força benfazeja do Amor de Deus? Não tem
ele necessidade também de homens e mulheres que, com a sua vida e a sua acção,
saibam espalhar sementes de paz e de fraternidade?
Às pessoas consagradas
109. Mas é sobretudo a
vós, mulheres e homens consagrados, que no final desta Exortação dirijo o meu
apelo confiante: vivei plenamente a vossa dedicação a Deus, para não deixar
faltar a este mundo um raio da beleza divina que ilumine o caminho da
existência humana. Os cristãos, imersos nas lides e preocupações deste mundo
mas chamados eles também à santidade, têm necessidade de encontrar em vós
corações puros que, na fé, « vêem » a Deus, pessoas dóceis à acção do Espírito
Santo que caminham diligentes na fidelidade ao carisma da sua vocação e missão.
Como bem sabeis,
abraçastes um caminho de conversão contínua, de dedicação exclusiva ao amor de
Deus e dos irmãos, para testemunhar de modo cada vez mais esplendoroso a graça
que transfigura a existência cristã. O mundo e a Igreja procuram autênticas
testemunhas de Cristo. E a vida consagrada é um dom oferecido por Deus para que
seja colocada à vista de todos a « única coisa necessária » (cf. Lc 10,42). Dar
testemunho de Cristo com a vida, com as obras e com as palavras, é missão
peculiar da vida consagrada na Igreja e no mundo.Vós sabeis em quem pusestes a
vossa confiança (cf. 2 Tm 1,12): dai-Lhe tudo! Os jovens não se deixam enganar:
quando vêm ter convosco, querem ver aquilo que não vêem em mais parte nenhuma.
Tendes uma responsabilidade imensa no que diz respeito ao amanhã: especialmente
os jovens consagrados, testemunhando a sua consagração, podem induzir os da sua
idade à renovação da própria vida.O amor apaixonado por Jesus Cristo é uma
atracção poderosa sobre os outros jovens, que Ele, na sua bondade, chama a
segui-Lo de perto e para sempre. Os nossos contemporâneos querem ver, nas
pessoas consagradas, a alegria que brota do facto de estar com o Senhor.Pessoas
consagradas, idosas e jovens, vivei a fidelidade ao vosso compromisso com Deus,
na mútua edificação e apoio recíproco. Não obstante as dificuldades que às
vezes pudésseis ter encontrado e a diminuição do apreço pela vida consagrada em
certa opinião pública, vós tendes a tarefa de convidar novamente os homens e
mulheres do nosso tempo a olharem para o alto, a não se deixarem submergir
pelas coisas de cada dia, mas a deixarem-se fascinar por Deus e pelo Evangelho
do seu Filho. Não esqueçais que vós, de modo muito particular, podeis e deveis
dizer não só que sois de Cristo, mas que « vos tornastes Cristo ».
Olhar para o futuro
110. Vós não tendes
apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a
construir! Olhai o futuro, para o qual vos projecta o Espírito a fim de
realizar convosco ainda grandes coisas. Fazei da vossa vida uma ardente
expectativa de Cristo, indo ao encontro d-Ele como virgens prudentes que vão ao
encontro do Esposo. Permanecei sempre disponíveis, fiéis a Cristo, à Igreja, ao
vosso Instituto e ao homem do nosso tempo.Deste modo, sereis renovados por Ele,
dia após dia, para construir com o seu Espírito comunidades fraternas, para com
Ele lavar os pés aos pobres e dar a vossa insubstituível contribuição para a
transfiguração do mundo.Este nosso mundo confiado às mãos do homem, enquanto
vai entrando no novo milénio, possa tornar-se cada vez mais humano e justo,
sinal e antecipação do mundo futuro, onde Ele, o Senhor humilde e glorioso,
pobre e triunfante, será a alegria plena e duradoura para nós e para os nossos
irmãos e irmãs, com o Pai e o Espírito Santo.
Oração à Trindade
111. Santíssima Trindade,
beata e beatificante, tornai felizes os vossos filhos e filhas que chamastes
para confessarem a grandeza do vosso amor, da vossa bondade misericordiosa e da
vossa beleza.
Pai Santo, santificai os
filhos e filhas que se consagraram a Vós, para a glória do vosso nome.
Acompanhai-os com o vosso poder, para que possam testemunhar que Vós sois a
Origem de tudo, a única fonte do amor e da liberdade. Agradecemo-Vos o dom da
vida consagrada, que na fé Vos procura e, na sua missão universal, convida a
todos a caminharem para Vós.Jesus Salvador, Verbo Encarnado, tendo entregue a
vossa forma de vida àqueles que chamastes, continuai a atrair para Vós pessoas
que sejam, para a humanidade do nosso tempo, depositárias de misericórdia,
prenúncio do vosso regresso, sinal vivo dos bens da ressurreição futura. Que
nenhuma tribulação os separe de Vós e do vosso amor! Espírito Santo, Amor
derramado nos corações, que concedeis graça e inspiração à mente, Fonte perene
de vida, que levais a cabo a missão de Cristo com os numerosos carismas, nós
Vos pedimos por todas as pessoas consagradas. Enchei o seu coração com a
certeza íntima de terem sido escolhidas para amar, louvar e servir. Fazei-lhes
saborear a vossa amizade, cumulai-as da vossa alegria e do vosso conforto,
ajudai-as a superarem os momentos de dificuldade e a levantarem-se
confiadamente depois das quedas, tornai-as espelho da beleza divina. Dai-lhes a
coragem de enfrentar os desafios do nosso tempo e a graça de levarem aos homens
a bondade e o amor do nosso Salvador Jesus Cristo (cf. Tt 3,4).
Prece à Virgem Maria
112. Ó Maria, figura da
Igreja, Esposa sem ruga nem mancha, que imitando-Vos « conserva virginalmente
(...) uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma verdadeira caridade »,amparai
as pessoas consagradas na busca da eterna e única Bem-aventurança. Confiamo-las
a Vós, Virgem da Visitação, para que saibam correr ao encontro das necessidades
humanas, para levarem ajuda, mas sobretudo para levarem Jesus. Ensinai-lhes a
proclamar as maravilhas que o Senhor realiza no mundo, para que todos os povos
glorifiquem o seu nome. Sustentai-as na sua acção em favor dos pobres, dos
famintos, dos desesperados, dos últimos e de todos aqueles que procuram o vosso
Filho com coração sincero.A vós, Mãe, que quereis a renovação espiritual e
apostólica dos vossos filhos e filhas na resposta de amor e dedicação total a
Cristo, dirigimos confiantes a nossa oração. Vós que fizestes a vontade do Pai,
pronta na obediência, corajosa na pobreza, acolhedora na virgindade fecunda,
alcançai do vosso divino Filho que, quantos receberam o dom de O seguir na vida
consagrada, saibam testemunhá-Lo com uma existência transfigurada, caminhando
jubilosamente, com todos os outros irmãos e irmãs, para a pátria celeste e para
a luz que não conhece ocaso.Nós Vo-lo pedimos, para que, em todos e em tudo,
seja glorificado, bendito e amado o Supremo Senhor de todas as coisas que é
Pai, Filho e Espírito Santo. Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 25 de
Março, Solenidade da Anunciação do Senhor, do ano 1996, décimo oitavo de
Pontificado.
Fonte:
Vaticano - Santa Sé - Papa João Paulo II
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