Veneração de Imagens
CARTA APOSTÓLICA DUODECIM SAECULUM DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II AO EPISCOPADO DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A VENERAÇÃO DAS IMAGENS POR OCASIÃO DO XII CENTENÁRIO DO II CONCÍLIO DE NICÉIA
(Esta transcrição é feito do Jornal L-Osservatore
Romano, do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras
são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)
Veneráveis Irmãos, saúde
e Bênção Apostólica!
1. O décimo segundo
centenário do II Concilio de Nicéia (a. 787) foi objeto de numerosas
comemorações eclesiais e acadêmicas, as quais também esta Sé Apostólica se
associou (1). O acontecimento foi celebrado igualmente com a publicação de uma
Encíclica de Sua Santidade o Patriarca de Constantinopla e do Santo Sínodo (2),
iniciativa que evidencia a importância teológica e o alcance ecumênico, ainda
atuais, do sétimo e último Concílio plenamente reconhecido pela Igreja católica
e pela Igreja ortodoxa. A doutrina definida por este Concílio quanto a
legitimidade da veneração dos ícones (imagens) na Igreja merece também ela uma
atenção especial, não só pela riqueza das suas implicações espirituais, mas
também pelas exigências que ela impõe em todo o âmbito da arte sacra. O relevo
dado pelo II Concílio de Nicéia ao assunto da Tradição, e mais precisamente da
tradição não-escrita, constitui para nós católicos, assim como para os nossos
irmãos ortodoxos, um convite a percorrermos de novo juntos o caminho da
Tradição da Igreja não dividida, para reexaminar à sua luz as divergências, que
os longos séculos de separação acentuaram entre nós, e para reencontrar;
conforme o que Jesus pediu ao Pai (cf. Jo 17,11.20-21), a comunhão plena na
unidade visível.
2. O Patriarca de
Constantinopla São Tarásio, moderador do II Concílio Niceno, ao apresentar ao
Papa Adriano I o relatório do desenrolar do Concílio, escrevia: -Depois de
termos todos ocupado o próprio lugar, nós estabelecemos ter Cristo como (nosso)
chefe. Com efeito, o Santo Evangelho foi colocado em cima dum trono, como convite
a todos os presentes a julgarem segundo a justiça- (3).O fato de se ter
constituído Cristo como presidente da assembléia conciliar, que se reunia no
seu nome e sob a sua autoridade, foi um gesto eloquente para afirmar que a
unidade da Igreja não pode realizar-se a não ser na obediência ao seu único
Senhor.
3. Os imperadores que
tinham convocado o Concílio, Irene e Constantino VI, tinham convidado o meu
Predecessor Adriano I, -enquanto verdadeiro primeiro Pontífice, que preside no
lugar e na sede do santo e muito venerável Apóstolo Pedro- (4). Ele fez-se
representar pelo Arcebispo da Igreja romana e pelo Hegúmeno (Abade) do mosteiro
grego de São Sabas em Roma. Para assegurar a representatividade universal da
Igreja, era requerida também a presença dos Patriarcas orientais (5). Uma vez
que os seus territórios se encontravam já sob o domínio muçulmano, os
Patriarcas de Alexandria e de Antioquia enviaram conjuntamente uma carta comum
a São Tarásio; e o Patriarca de Jerusalém enviou uma carta sinodal. Uma e outra
foram lidas no Concílio (6). Admitia-se então comumente que as decisões de um
Concílio ecumênico eram válidas somente se o Bispo de Roma nelas tivesse
colaborado e se os Patriarcas orientais tivessem manifestado o seu acordo (7).
Neste processo o papel da Igreja de Roma era reconhecido como insubstituível
(8). Assim o II Concílio Niceno aprovou a explicação do Diácono João, segundo a
qual a assembléia dos iconoclastas, realizada em Hiéria em 754, não era
legítima, porque -o Papa de Roma e os Bispos que estão à sua volta não tinham
colaborado nela, nem através de legados, nem mediante uma carta encíclica,
segundo a lei dos Concílios-; e -os Patriarcas do Oriente... e os Bispos que
estão com eles não lhe tinham dado o seu consenso- (9). Por outro lado os Padres
do II Concílio Niceno declararam que -acolhiam, acatavam e seguiam- a Carta
enviada pelo Papa Adriano aos imperadores (10) assim como a dirigida ao
Patriarca. Estas Cartas foram lidas, em latim e na sua tradução grega, e todos
foram convidados a dar-lhes individualmente o próprio assenso (11).
4. O Concílio saudou
unanimemente nas pessoas dos legados pontifícios -a santíssíma Igreja de Roma,
ou seja, do Apóstolo São Pedro- (12) e da -Cátedra apostólica- (13), adotando a
fórmula romana (14); e o Patriarca Tarásio, escrevendo ao meu predessor em nome
do Concílio, reconhecia nele aquele que -herdou a Cátedra do Apóstolo São Pedro-,
e que, -revestido do Sumo Pontificado, tem a subida honra de presidir,
legitimamente e por vontade de Deus, à sagrada Hierarquia- (15). Um dos
momentos decisivos no decorrer do Concílio parece ter sido aquele em que ele se
pronunciou a favor do restabelecimento do culto das imagens, quando os
participantes acolheram, em unanimidade, a proposta dos legados romanos de
fazer colocar no meio da assembléia um venerável ícone, para que os Padres
pudessem prestar-lhes a sua veneração (16). O último Concílio ecumênico
reconhecido quer pela Igreja católica quer pela Igreja ortodoxa é um exemplo
notável de -sinergia- entre a sede de Roma e uma assembléia conciliar. Ele
inscreve-se na perspectiva da eclesiologia patrística de comuhão, fundamentada
na Tradição, como o Concílio Ecumênico Vaticano II, justamente, uma vez mais
pôs em evidência
5. O Concílio Niceno II
afirmou solenemente a existência da -tradição eclesiástica escrita e não-escrita-
(17), como referência normativa para a fé e para a disciplina da Igreja. Os
Padres manifestaram o seu desejo de -conservar intactas todas as tradições da
Igreja, que lhes foram confiadas, sejam elas escritas ou não-escritas. Uma
delas consiste precisamente na pintura dos icones, em conformidade com a carta
da pregação apostólica- (18). Contra a corrente iconoclasta, que também tinha
apelado para a Escritura e para a Tradição dos Padres, especialmente para o
pseudo-sínodo de Hiéria de 754, o II Concílio de Nicéía sanciona a legitimidade
da veneração das imagens, confirmando -o ensino divinamente inspirado dos
santos Padres e da Tradição da Igreja católica- (19). Os Padres do II Concílio
Niceno entendiam a -tradição eclesiástica- como tradição dos seis Concílios
ecumênicos precedentes e dos Padres ortodoxos, cujo ensino era acolhido
comumente na Igreja. O Concílio, deste modo, definiu como sendo de fé aquela
verdade essencial, segundo a qual a mensagem cristã é -tradição-, paràdosis. A
medida que a Igreja se foi desenvolvendo, no tempo e no espaço, a sua
inteligência da Tradição, da qual é portadora, conheceu também ela as fases de
um desenvolvimento, cuja investigação constitui, para o diálogo ecumênico e
para toda a reflexão teológica autêntica, um percurso obrigatório.
6. Já São Paulo nos
ensina que, para a primeira geração cristã, a paràdosis consiste na proclamação
do Acontecimento de Cristo e do seu significado atual, que realiza a Salvação
mediante a ação do Espírito Santo (cf. 1Cor 15,3-8; 11,2). A tradição das
palavras e dos atos do Senhor foi recolhida nos quatro Evangelhos, mas sem se
exaurir neles (cf. Lc 1,1; Jo 20,30; 21,25). Esta tradição primigênia é
tradição -apostólica- (cf. 2Ts 2,14-15; Jd 17; 2Pd 3,2). Ela diz respeito não
apenas ao -depósito- da -sã doutrina- (cf. 2Tm 1,6-12; Tt 1,9), mas também às
normas de comportamento e às regras da vida comunitária (cf. lTs 4,1-7; 1Cor
4,17; 7,17; 11,16; 14,33). A Igreja lê a Escritura à luz da -regra da fé- (20),
quer dizer, da sua fé viva mantida coerente com o ensino dos Apóstolos. Aquilo
que a Igreja sempre acreditou e praticou, ela considera-o justamente como -Tradição
apostólica-. Santo Agostinho dizia: -Uma observância mantida pela Igreja inteira
e conservada sempre, que não tenha sido instituída pelos Concílios, acaba por
não ser outra coisa, com pleno direito, senão uma tradição que emana da
autoridade dos Apóstolos- (21). De fato, as tomadas de posição dos Padres no
decorrer dos grandes debates teológicos dos séculos IV e V, a importância
crescente da instituição sinodal a nível regional e universal, fizeram com que,
pouco a pouco, a tradição se tornasse a -tradição dos Padres- ou -tradição
eclesiástica-, entendida como desenvolvimento homogêneo da Tradição apostólica.
Foi por isto que São Basílio Magno fez apelo às -tradições não-escritas-, que
são as -tradições dos Padres- (22), para fundamentar a sua teologia trinitária,
e sublinha a proveniência dupla da doutrina da Igreja -do ensino escrito, bem
como da tradição apostólica- (23). O próprio Concilio Niceno II, que cita
oportunamente São Basílio a propósito da teologia das imagens (24), invocou
também a autoridade dos grandes doutores ortodoxos, como São Gregório
Nazianzeno, São Gregório de Nissa, São Cirilo de Alexandria. São João Damasceno
pôs também ele em relevo a importância para a fé das -tradições não escritas-,
isto é, não contidas na Escritura, ao declarar: -Se alguém se apresentar com um
Evangelho diferente daquele que a Igreja católica recebeu dos Santos Apóstolos,
dos Padres e dos Concílios e que ela conservou até aos nossos dias, não o
escuteis- (25).
7. Mais próximo de nós, o
Concílio Vaticano II apresentou novamente em plena luz a importância da -tradição
que provém dos Apóstolos-. De fato, -a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus,
enquanto consignada por escrito sob a inspiração do Espírito divino; a Sagrada
Tradição, por seu lado, é portadora da Palavra de Deus, confiada por Cristo
Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente aos
seus sucessores- (26). -Ora, aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos
compreende tudo quanto contribui para que o Povo de Deus viva santamente e para
o aumento da sua fé- (27). Juntamente com a Sagrada Escritura, a Sagrada
Tradição constitui -um único depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à
Igreja-. A interpretação autêntica -da Palavra de Deus escrita ou contida na
Tradição foi confiada unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade
é exercida em nome de Jesus Cristo- (28). É mediante uma fidelidade igual ao
tesouro comum da Tradição que remonta aos Apóstolos, que as Igrejas se esforçam
hoje por aprofundar os motivos das suas divergências e as razões que há para as
superar.
8. A terrível -controvérsia
sobre as imagens-, que dilacerou o império bizantino sob os imperadores
isáuricos Leão III e Constantino V, entre os anos de 730 e 780, e de novo sob
Leão V, de 814 a 843, explica-se principalmente pelo debate teológico que,
desde o início, foi o seu fulcro. Sem ignorar o perigo de um ressurgimento
sempre possível das praticas idolátricas do paganismo, a Igreja admitia que o
Senhor, a Bem-aventurada Virgem Maria, os Mártires e os Santos fossem
representados em formas pictóricas ou plásticas para favorecer a oração e a
devoção dos fiéis. Era claro para todos, segundo a fórmula de São Basílio,
recordada pelo Concílio Niceno II, que -a honra prestada ao ícone é dirigida ao
protótipo- (29). No Ocidente, o Papa São Gregório Magno tinha insistido no
caráter didático das pinturas nas igrejas, úteis para que os analfabetos, -ao
contemplá-las, possam ler, pelo menos nas paredes, aquilo que não são capazes
de ler nos livros-, e acentuava que esta contemplação devia levar à adoração da
-única e onipotente Trindade Santíssima- (30). Foi neste contexto que se
desenvolveu, de maneira particular em Roma durante o século VIII, o culto das
imagens dos Santos, dando lugar a uma produção artística admirável. O movimento
iconoclasta, rompendo com a tradição autêntica da Igreja, considerava a
veneração das imagens como um retorno à idolatria. Não sem contradição e
ambiguidade, ele proibia a representação de Cristo e as imagens religiosas em
geral, enquanto continuava a admitir as imagens profanas, em particular as
imagens do imperador, com os sinais de reverência que a elas andavam ligados. A
base da argumentação dos iconoclastas era de natureza cristológica. Como pintar
Cristo que unia na sua Pessoa, sem as confundir nem as separar, a natureza
divina e a natureza humana? Por outro lado, seria impossível representar a sua
divindade inapreensível; por outro, representá-l-O na sua humanidade somente
seria dívidi-l-O separando n-Ele a divindade da humanidade. Escolher uma ou
outra destas duas vias levaria às duas heresias cristológicas opostas do
monofisismo e do nestorianismo. Com efeito, quem pretendesse representar Cristo
na sua divindade condenar-se-ia a absorver nessa representação a sua
humanidade; e quem mostrasse apenas um retrato de homem, acabaria por ocultar
que ele é também Deus.
9. O dilema posto pelos
iconoclastas envolvia algo que ia muito além da questão da possibilidade de uma
arte cristã; punha em causa toda a visão cristã da realidade da Encarnação e,
portanto, das relações de Deus com o mundo, e da graça com a natureza, numa
palavra, a especificidade da -Nova Aliança-, que Deus concluiu com os homens em
Jesus Cristo. Os defensores das imagens advertiram muito bem isso: segundo uma
expressão do Patriarca de Constantinopla São Germano, ilustre vítima da heresia
iconoclasta, era toda -a economia divina segundo a carne- (31) que era posta de
novo em questão. Com efeito, ver representado o rosto humano do Filho de Deus, -imagem
de Deus invisível- (Cl 1,15), é ver o Verbo feito carne (cf. Jo 1,14), o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29). Portanto, a arte
pode representar a forma, a efígie do rosto humano de Deus e levar aquele que o
contempla ao mistério inefável do mesmo Deus feito homem para a nossa salvação.
Assim, o Papa Adriano pôde escrever: -Graças a um rosto visível, o nosso
espírito será transportado, por um atrativo espiritual, até à majestade
invisível da divindade, através da contemplação da imagem em que está
representada a carne, que o Filho de Deus se dignou assumir para a nossa
salvação. E, sendo assim, nós adoramos e conjuntamente louvamos, glorifificando-o
em espírito, este mesmo Redentor, porque, como está escrito, -Deus éEspírito- e
é por isso que nós adoramos espiritualmente a sua divindade- (32). O Concílio
Niceno II, portanto, reafirmou solenemente a distinção tradicional entre -a
verdadeira adoração (latria)- que, -segundo a nossa fé, é devida somente à
natureza divina- e -a prosternação de honra- (timetiké proskynesis), que é
prestada aos icones, porque -aquele que se prostra diante do icone, prostra-se
diante da pessoa (a hipóstase) daquele que na figuração é representado- (33). A
iconografia de Cristo implica, portanto, toda a fé na realidade da Encarnação e
no seu significado inexaurível para a Igreja e para o mundo. Se a Igreja costuma
pô-la em prática, fá-lo porque está convencida que o Deus revelado em Jesus
Cristo resgatou realmente e santificou a carne e o inteiro mundo sensível, ou
seja, o homem com os seus cinco sentidos, a fim de lhe permitir renovar-se
constantemente --a imagem d-Aquele que o criou- (Cl 3,10).
10. O Concílio Niceno II,
por conseguinte, sancionou a tradição segundo a qual -devem expor-se as
venerandas imagens sacras, manufaturadas com tintas, com mosaico e com outras
matérias idôneas, nas igrejas consagradas a Deus, nos vasos e paramentos
sagrados, nas paredes e nos retábulos, nas casas e nas ruas; e isto aplica-se
tanto à imagem de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo e à de Nossa
Senhora Imaculada, a santa Theotokos, como às imagens dos veneráveis anjos e de
todos os homens santos e piedosos- (34). A doutrina deste Concilio sustentou a
arte da Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente, inspirando-lhe obras de uma
beleza e de uma profundidade sublimes. Em particular, a Igreja grega e as
Igrejas eslavas, apoiando-se nas obras dos grandes teólogos São Nicéforo de
Constantinopla e São Teodoro Studita, apologistas do culto das imagens,
consideraram a veneração do ícone como parte integrante da Liturgia, à
semelhança da celebração da Palavra. Como a leitura dos livros materiais
permite a audição da Palavra viva do Senhor, assim a exposição de um ícone
figurativo permite àqueles que o contemplam ter acesso aos mistérios da
Salvação mediante a vista. -Aquilo que por um lado é manifestado pela tinta e
pelo papel, por outro, no ícone, é manifestado pelas várias cores e pelos
outros materiais- (35). No Ocidente, a Igreja de Roma destinguiu-se, numa
continuidade sem interrupção, pela sua ação a favor das imagens (36), sobretudo
no momento crítico em que, entre os anos de 825 e 843, os impérios bizantino e
franco se demonstraram ambos hostis ao Concílio Niceno II. No Concílio de
Trento, a Igreja católica reafirmou a doutrina tradicional, contra uma nova
forma de iconoclastia que então se manifestava. Mais recentemente, o Concílio
Vaticano II recordou com sobriedade a posição constante da Igreja a respeito
das imagens (37) e da arte sacra em geral (38).
11. Desde há alguns
decênios para cá nota-se um surto de interesse pela teologia e pela
espiritualidade dos ícones orientais; isso é sinal de ritual da arte
autenticamente cristã. A este propósito, não posso deixer de exortar os meus
Irmãos no Episcopado a -manterem o uso de expor imagens nas Igrejas à veneração
dos fiéis- (39) e a empenharem-se para que surjam cada vez mais obras de
qualidade verdadeiramente eclesial. O crente de hoje, como o de ontem, há de
ser ajudado na oração e na vida espiritual mediante a visão de obras que
procurem exprimir o mistério sem nunca o ocultar. É esta a razão pela qual,
hoje como no passsado, a fé é a indispensável inspiradora da arte da Igreja. A
arte pela arte, que não leve a pensar senão no seu autor, sem estabelecer uma
relação com o mundo divino, não encontra espaço na concepção cristã do ícone.
Seja qual for o estilo que adote, todo o tipo de arte sacra deve exprimir a fé
e a esperança da Igreja. A tradição das imagens mostra que o artista deve ter
consciência de cumprir uma missão a serviço da Igreja. A arte cristã autêntica
é aquela que, através da percepção sensível, leva à intuição de que o Senhor
está presente na sua Igreja, que os acontecimentos da história da Salvação dão
sentido e orientação à nossa vida e que a glória que nos está prometida começa
já a transformar a nossa existência. A arte sacra deve tender a proporcionar-nos
uma síntese visual de todas as dimensões da nossa fé. A arte da Igreja deve ter
a preocupação de falar a linguagem da Encarnação e exprimir, com os elementos
da matéria, Aquele que -se dignou habitar na matéria e realizar a nossa
salvação através da matéria-, segundo a fórmula feliz de São João Damasceno
(40). A redescoberta do ícone cristão ajudará também a tomar consciência da
urgência de reagir contra os efeitos despersonalizadores, e às vezes
degradantes, das múltiplas imagens que condicionam a nossa vida, na publicidade
e nos -mass-media-; trata-se de fato de uma imagem que faz chegar até nós o
olhar de um Outro invisível e que nos dá acesso à realidade do mundo espiritual
e escatológico.
12. Amadíssimos Irmãos:
Ao recordar a atualidade da doutrina do VII Concílio Ecumênico, parece-me que
estamos perante um chamamento à nossa tarefa primordial de evangelização. A
secularização crescente da sociedade mostra que ela está se tornando, em larga
escala, alheia aos valores espirituais, ao mistério da nossa Salvação em Jesus
Cristo e à realidade do mundo futuro. A nossa tradição mais autêntica, que
compartilhamos plenamente com os nossos irmãos ortodoxos, ensina-nos que a
linguagem da beleza, posta a serviço da fé, é capaz de atingir o coração dos
homens e de os levar a conhecer, a partir de dentro, Aquele que ousamos
representar nas imagens, Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, o mesmo,
ontem e hoje e por todos os séculos- (Hb 13,8). A todos dou, de coração, a
Bênção Apostólica. Dado em Roma, junto de São Pedro, a 4 de dezembro, memória
litúrgica de São João Damasceno, Presbítero e Doutor da Igreja, do ano de 1987,
décimo do meu Pontificado.
1. Especialmente com a
Carta de 8 de outubro de 1987, do Cardeal Secretário de Estado ao Presidente da
Sociedade Internacional para a História dos Concílios, por ocasião do Simpósio
de Istambul (L-Osservatore Romano, ed. quot. 12/13.10.87).
2. Epi te 1200 è epetèio
apo tes syncleoseos tes en Nikai Aghias z-Oikomenikes Synodoy (787-1987),
Fanar, 14 de setembro de 1987.
3. J. D. Mansi, Sacrorum
Conciliorum nova et amplissima colectio (= Mansi) XIII, 459c.
4. Mansi XII, 985.
5. Cf. Mansi XII,
1007.1086 e Monumenta Germaniae Historica (= MGH), (Epistulae Karolini Aevi, t.
3), p. 29. 30-33.
6. Cf. Mansi XII, 1127-1135
e 1135-1145.
7. Segundo o Presbítero
João, representante dos Patriarcas orientais, Mansi XII, 990A e XIII, 4A.
8. Cf. Mansi XII, 1134.
9. Mansi XIII, 208-209.
10. Mansi XI, 1085.
11. Cf. Mansi XII, 1085-1111.
12. Maisi XII, 994.1041.1114;
XIII, 157.204.366.
13. Mansi XII, 1086.
14. Cf. carta de Adriano
I a Carlos Magno, em: MGH, Epistulae III (Epistulae Merowingici et Karolini
Aevi, t. I) p. 587, 5.
15. Mansi XIII, 463BC.
16. Cf. Mansi XIII, 200.
17. Cf. Quartum anatema,
em: Mansi XIII, 400.
18. Horos, in: Mansi XIII, 377BC.
19. Ibid., 377C.
20. Cf. Santo Ireneu,
Adversus Haereses 1, 10, 1; I, 22. 1; em: Sources Chrétiennes (= SCH) 264, p.
154-158; 308-310; Tertuliano, De praescriptione 13, 16; em Corpus
Christianorum, Series Latina (= CChL), I, p. 197-198; Orígenes, Perì Archòn,
Pref. 4, 10, em SCh 252, p. 80-89. 21. De Baptismo IV, 24, 31; em: Corpus
Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (= CSEL) 51, p. 259. 22. Sobre o Espirito
Santo, VII 16, 21.32; IX 22, 3; XXIX 71, 6; XXX 79, 15; em SCh 17 bis, p.
298.300.322.500.528.
23. Ibid. XXVII 66; 1-3, p. 478-480.
24. Cf. Horos, in: Mansi XIII, 378E.
25. Discurso sobre as
imagens III, 3, em: PG 94, 1320-1321; e B. Katter, Die Schriften des Johannes
von Damaskos, vol. III (Contra imaginum calumniatores orationes tres), em: -Patristische
Texte und Studien- 17, Berlim-Nova Iorque, 1975, III, 3, p. 72-73.
26. Dei Verbum, 9.
27. Ibid., 8.
28. Ibid., l0.
29. Sobre o Espírito
Santo, XVIII 45, 19, em: SCh 17 bis, p. 496; Nicéia II, Horos, em: Mansi XIII,
377E.
30. Cartas de São
Gregório Magno ao Bispo Sereno de Marselha, em: MGH, Gregorii I Papae Registrum
Epistularum II, 1, lib. IX, 208, p. 195 e II, 2, lib. XI, 10, p 270-271; ou em:
CChL 140A, lib. IX, 209, p. 768 e lib. XI, 10, p. 874-875.
31. Cf. Teófano, Chronographia ad annum, 6221, ed. C.
de Boor I, Leipzig, 1883, p. 404; ou PG 108, 821C.
32. Carta de Adriano I
aos Imperadores, em: Mansi XII, 1062 AB.
33. Horos, em: Mansi
XIII, 377E.
34. Ibid., 377D.
35. Teodoro Studita, Antirrheticus,
1, 10, in: PG 99, 339D.
36. Cf. Carta de Adriano
a Carlos Magno, em: MGH, Epistulae V (Epistulae Karolini Aevi, t III), p. 5-57;
ou PL 98, 1248-1292.
37. Cf. Sacrosanctum
Concilium, 111, 1; 125; 128; Lumen Gentium, 51; 67; Gaudium et Spes, 62, 4-5; e
também Código de Direito Canônico, cân. 1255 e 1276.
38. Sacrosanctum
Concilium, 122-124.
39. Ibid., 125.
40. Discurso sobre as
imagens, I, 16, em: PG. 94, 1246A: e ed. Kotter 1, 16, p. 89.
Fonte:
Vaticano - Santa Sé - Papa João Paulo II
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