JOÃO PAULO II
Vaticano, 9 de abril de 1986.
Joannes Paulus PP II
SENHORES CARDEAIS E QUERIDOS IRMÃOS NO
EPISCOPADO:
Pax vobis, alleluial
1. Com esta simples e
sugestiva saudação, familiar a Jesus Ressuscitado (cf. Jo 20,19.21.26; Lc
24,16), e com o augúrio nela contido, quero abrir esta mensagem dirigida aos
Senhores e, por seu intermédio, a toda a Igreja no Brasil.
Após os encontros individuais e coletivos de todos, e após o Encontro de um
grupo representativo do Episcopado comigo e com os meus colaboradores na Cúria
Romana, esta afirmação de presença quer ser a terceira etapa e o coroamento da
Visita "ad limina",
acontecimento eclesial que, por catorze meses, marcou a vida do Episcopado e da
Igreja no Brasil. Nos moldes em que foi realizada, por iniciativa comum dos
Senhores e minha, esta Visita "ad
limina" foi um exercício altamente expressivo de autêntica
colegialidade afetiva e efetiva, harmoniosamente conjugada com o correlativo
exercício do ministerium Petri. A caridade fraterna que nela reinou,
unidade busca incessante da verdade,
inspirou um diálogo não superficial mas profundo e coerente, diálogo que
desejou ser, o tempo todo, instrumento daquela comunhão que, desde os
primórdios da Igreja e ao longo de toda a sua história, mas de modo especial
nos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano N, aparece como elemento
essencial na mesma Igreja de Jesus Cristo. Certamente útil a cada um
dos Senhores e a Conferência Episcopal que juntos constituem, a Visita "ad limina" assim realizada foi e
continuar a ser um inestimável serviço à Igreja no Brasil e, por
extensão, às outras Igrejas e à Igreja Universal; um serviço, ainda que
indireto, à sociedade brasileira e, por extensão, a toda a família humana.
2. Seria supérfulo
sublinhar que, pelos seus destinatários, pelo contexto em que se inscreve e
pela sua temática, esta mensagem tem um cunho marcadamente eclesial: ela
conclui um ato eclesial, como é a Visita "ad limina"; dirige-se a homens consagrados à Igreja como seus
ministros e Pastores; e tocar pontos de considerável interesse para a
vida e a missão da mesma Igreja. Ela parte, portanto, do uma precisa
percepção eclesiológica - a do Concílio Vaticano N - e, já por esta razão,
responde a necessidades e anseios claramente sentidos. Pois não foram os
Senhores mesmos que, nas diferentes etapas da Visita "ad limina", deram forte ênfase à eclesiológia, afirmando
explicitamente que no anuncio dos problemas mais sérios, que enfrentam como
Bispos, está uma questão eclesiológica e que a solução dos mesmos
problemas passa forçosamente por uma justa e bem fundada concepção da Igreja?
Consciente disso, senti-me
no dever de acentuar, em todos os nossos encontros, os traços fundamentais da
verdadeira Igreja de Jesus Cristo, traços afirmados com a necessária clareza
pelo Magistério ordinário e extraordinário da mesma Igreja - particularmente
pelos documentos do Vaticano N - e pelo "sensus fidelium". A Igreja é, antes de tudo, um
mistério – este é o primeiro traço -, resposta a um Desígnio amoroso e
salvífico do Pai, prolongamento da missão do Verbo Encarnado, fruto da ação
criadora do Espírito Santo. Por isso, não pode ser definida e interpretada a
partir de categorias puramente racionais (sócio-políticas ou outras), produto
de um saber meramente humano. Faz parte do seu mistério ser: santa, embora
feita de pecadores; peregrina, contemplativa na ação e ativa na contemplação;
escatológica, primícias do Reino embora não sua plenitude e consumação; mutável
nos seus acidentes e imutável no seu ser e na sua missão. Tal missão
- e é o segundo traço a frisar - é a de
evangelizar, isto é, de prestar ao mundo o ministério da Salvação, mediante
o dialogus salutis instaurado com ele
(cf. Encíclica Ecclesiam Suam, do
Papa Paulo VI). Essencialmente religioso, porque nasce de uma iniciativa de
Deus e se finaliza no Absoluto de Deus, o ministerium
salutis ‚ ao mesmo tempo serviço ao homem - pessoa e sociedade - às suas
necessidades espirituais e temporais, aos seus direitos fundamentais, à sua
convivência humana e civil. Por isso mesmo faz parte da missão da
Igreja preocupar-se, de certo modo, das
questões que envolvem o homem do berço ao túmulo, como são as sociais e
sócio-políticas. Condições de justeza no exercício desta parte delicada da sua
missão evangelizadora, são, entre outras: uma nítida distinção entre o que é
função dos leigos, comprometidos por especifica vocação e carisma nas tarefas
temporais, e o que é função dos Pastores, formadores dos leigos para as suas
tarefas; a consciência de que não cabe à Igreja como tal indicar soluções
técnicas para os problemas temporais, mas iluminar a busca dessas soluções à
luz da fé; uma práxis no campo sócio-político deve manter-se em indefectível
coerência com o ensinamento constante do Magistério.
3. Neste sentido, a Igreja
se encontra, no Brasil como em outras regiões, sobretudo na América Latina,
diante de formidáveis desafios. Ela
tem consciência de suas limitações e carências para enfrentá-los; mas não cessa
de acreditar que, para isso, conta com a assistência do Espírito do Pai e de
Jesus Cristo. Razão porque não perde jamais a Esperança teologal. Alguns desses desafios são de ordem
eclesial e de vários deles tratei, com a mais fraterna confiança, em minhas
alocuções aos vários grupos dos Senhores vindos "ad limina Apostolorum", encorajando-os a não perdê-los de
vista e a procurar, com decisão e paciência, as possíveis soluções. Refiro-me à
escassez de sacerdotes, religiosos e agentes pastorais, à adequada formação dos
futuros ministros ordenados, à ameaça à fé por parte de seitas fundamentalistas
ou não-cristãs, à catequese, nos problemas que se abatem sobre a família e a
juventude, ao perigo de eclesiologias distanciadas daquela que ensina o Concílio
Vaticano N etc. Volto a encoraja-los, queridos irmãos Bispos, com renovada
segurança, apoiado em algumas convicções já antigas no meu ânimo,
reforçadas agora pela mesma "Visita ad limina": convicção
de que este povo confiado por Deus ao pastoreio dos Senhores é habitado por uma
autêntica fome e sede de Deus, da Sua palavra, dos seus mistérios sacramentais,
das verdades essenciais da fé, realidades que ele exprime, a seu modo, em sua
piedade popular; nem faltam ao seu espírito visceralmente cristão e católico um
profundo sentido do mistério da Cruz, uma grande devoção à Eucaristia, um
grande amor filial à Mãe de Jesus, um sentimento de reverência para com o
Sucessor de Pedro, qualquer que seja a sua pessoa e o seu nome; isso é, como
não me cansei de observar ao longo da minha peregrinação por este País, a
grande força da Igreja, fonte de conforto para os que a governam como Pastores;
tal força ser ainda maior, se essas riquezas forem continuamente
consolidadas por uma Liturgia viva e bem ordenada, por uma prática sacramental
bem orientada, por uma acurada catequese, por uma imensa atenção às vocações,
que certamente hão de surgir; - a convicção de que, apesar das mencionadas
carências, este povo conserva, por graça de Deus, as sementes do Evangelho,
lançadas desde os primórdios da evangelização por devotados e denodados
missionários; a obra desses apóstolos não se eclipsa nem mesmo no momento em
que a Igreja neste País prossegue no afã de ter sua fisionomia própria, de
contar com seus próprios recursos e até de estender a mão a Igrejas mais
necessitadas. - convicção de que os Senhores e seus
colaboradores natos no serviço pastoral dão, aos olhos da Igreja Universal e do
mundo, o testemunho de serem Pastores extraordinariamente próximos à sua gente,
solidários na alegria e na dor, prontos a educar na fé e a aprimorar sua vida
cristã, como a socorrer nas necessidades e a compartilhar suas aflições e
esforços, a infundir esperança. Neste terreno, é mais do que justo
exprimir gratidão sincera a inúmeros Bispos e sacerdotes, religiosos e
religiosas, pessoas consagradas e leigos engajados que, em toda a história
desta Igreja - mas refiro-me de modo especial aos tempos mais recentes - deram
prova de admirável zelo apostólico, de abnegação e espírito de sacrifício, de
extremado amor à sua gente, de incomparável capacidade de servir
desinteressadamente. Que continuem numerosos, e que aumentem ainda esses
ministros segundo o coração de Cristo sacerdote e Bom Pastor, e esses
colaboradores - é a graça maior que Deus pode conceder a uma Igreja. E que,
para isso, se aprimore constantemente a formação permanente dos ministros
ordenados; a. cuidadosa preparação, nos seminários, dos candidatos ao
presbiterato; o tirocínio dos diáconos permanentes; a formação dos jovens
candidatos e candidatas à vida consagrada à luz da visão proposta pela Igreja;
a formação humana, espiritual e apostólica dos leigos dispostos a servir ao
Evangelho. Outros desafios são de natureza cultural, sócio-política
ou econômica e se revelam particular, inerte interpeladores e estimulantes no
momento histórico que o País está vivendo. É, globalmente falando, o desafio do
contraste entre dois Brasis: um, altamente desenvolvido, pujante, lançado rumo
ao progresso e à opulência; outro, que se reflete em desmesuradas zonas de
pobreza, de doenças, de analfabetismo, de marginalização. Ora, este contraste
penaliza com seus tremendos desequilíbrios e desigualdades grandes massas
populares condenadas a toda sorte de misérias. Problemas graves como
estes não podem ser estranhos à Igreja, ao menos pelos aspectos éticos que eles
comportam, como causa ou como efeito das situações materiais. Mas, também neste
terrenos, a Igreja conduzida pelos Senhores, Bispos no Brasil, dá mostra de
estar com este povo, especialmente com os pobres e sofredores, com os pequenas
e os desassistidos, a quem ela consagra um amor, não exclusivo nem excludente,
mas preferencial. Porque ela não hesita em diferenciar com intrepidez a justa e
nobre causa dos direitos humanos e em apoiar reformas corajosas, em vista da
melhor distribuição dos bens, inclusive da terra, em vista da educação, da
saúde, da habitação etc., ela goza da estima e da confiança de amplos setores
da sociedade brasileira. Bem conscientes de que não podem abdicar de
sua específica missão episcopal para assumir tarefas temporais, os Senhores
lamentam, por outro lado, a inquietante escassez dos leigos devidamente
preparados para assumir esses últimos desafios. Mas sei que posso manter vivo o
apelo que tive ocasião de reiterar no correr da Visita "ad limina", para que uma prioridade
importante e inadiável na ação dos Senhores seja a de formar leigos, quer entre
os "construtores da sociedade pluralista" (cf. Documento de Puebla,
IV parte, capítulo NI), quer entre as massas populares, quer nos ambientes
operários e rurais, quer entre os jovens, sempre em vista da sua presença
atuante nas tarefas temporais. Formar leigos significa favorecer-lhes a
aquisição de verdadeira competência e habilitação no campo em que devem atuar;
mas significa, sobretudo, educa-los na fé e no conhecimento da doutrina da
Igreja naquele mesmo campo.
4. É no contexto dessa
realidade humana e eclesial, com seus desafios, que os Senhores são chamados a
ser Pastores no Brasil, hoje. Tarefa imensa. Tarefa provocadora e fascinante.
Tarefa possível, com a ajuda de Deus. Inspirando-me no rico e fecundo ensinamento do Concílio Vaticano N,
mais de uma vez procurei definir essa tarefa. Eu o fiz, de modo especial, no
discurso que lhes dirigi em Fortaleza, no momento culminante da minha
inolvidável viagem ao Brasil, Quis fazê-lo também, em momentos sucessivos, nos nove discursos dirigidos aos
grupos regionais vindos em Visita "ad
limina". Nessa tarefa - que deriva de um misterioso chamado de Deus, responde a uma missão dada por Deus e se apóia sobre a graça de Deus conferida pelo sacramento
da Ordem - não podem faltar, devidamente aplicados às condições concretas da
realidade humana e eclesial brasileira, alguns aspectos essenciais. Deus
nosso Pai e Jesus Cristo nosso Senhor esperam, espera a Igreja no Brasil com
seus presbitérios, seus religiosos e religiosas e pessoas consagradas, e seus
leigos de todas as condições, espera, em certa medida, todo o povo brasileiro
que cada um dos seus Bispos seja: - convicto e
convincente proclamador da Palavra de Deus e, por isso mesmo, educador na fé,
servo e mestre na Verdade revelada, especialmente da verdade sobre Cristo,
sobre a Igreja e sobre o homem; - edificador da Comunidade eclesial e ao mesmo
tempo sinal e princípio visível da continuada comunhão que deve ser a alma
dessa Comunidade, sobretudo em meio a fermentos de divisão e perigos de
ruptura, conflitos e ameaças de dilacerações; - exemplo de
verdadeira unidade com seus irmãos sacerdotes e com seus fiéis no seio da
Igreja Particular; com seus irmãos Bispos no seio da conferência Episcopal e na
Igreja Universal; com o Sucessor do Apóstolo Pedro e com seu ministério a
serviço da catolicidade; - "perfector" de seus sacerdotes e pessoas consagradas, pelo seu
ensinamento e pelo testemunho da sua vida, e dispensador dos mistérios de
santificação, através dos sacramentos, para todos os fiéis, sem discriminação;
- pastor e guia do povo a ele confiado, pelos caminhos da vida e em meio
às realidades deste mundo, rumo à Salvação; - pai espiritual pra
todos, especialmente para os mais necessitados de orientação e ajuda, de defesa
e proteção.
5. Tendo diante dos olhos
essas indeclináveis exigências do seu serviço episcopal, os Senhores têm-se
esforçado, sobretudo nos últimos anos, por encontrar respostas justas aos desafios
acima referidos, sempre presentes, eles também, no seu espírito. A Santa Sé não
tem deixado de acompanha-los nestes esforços, como faz com todas as Igrejas.
Manifestação e prova da atenção com que compartilha esses esforços, são os
numerosos documentos publicados ultimamente, entre os quais as duas recentes
Instruções emanadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, com a minha
explícita aprovação: uma, sobre alguns aspectos da teologia libertação
(Libertatis nuntius, de 6 de agosto de 1984); outra, sobre a liberdade cristã e
a libertação (Libertatis conscientia, de 22 de março de 1986). Estas últimas,
endereçadas à Igreja Universal, têm, para o Brasil, uma inegável relevância
pastoral. a medida em que se empenha por encontrar aquelas respostas justas - penetradas de compreensão para com a rica experiência da
Igreja neste País, tão eficazes e construtivas quanto possível e ao mesmo tempo
consonantes e coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da Tradição viva e do
perene Magistério da Igreja – estamos convencidos, nós e os Senhores, de que a
teologia da libertação é não só oportuna mais útil e necessária. Ela deve
constituir uma nova etapa - em estreita conexão com as anteriores – daquela
reflexão teológica iniciada corri a Tradição apostólica e continuada com os
grandes Padres e Doutores, com o Magistério ordinário e extraordinário e, na
época mais recente, com o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja,
expressa em documentos que vão da Rerum
novarum à Laborem exercens. Penso que, neste campo, a Igreja no
Brasil possa desempenhar um papel importante e delicado ao mesmo tempo: o de
criar espaço e condições para que se desenvolva, em perfeita sintonia com a
fecunda doutrina contida nas duas citadas Instruções, uma reflexão teológico
plenamente aderente ao constante ensinamento da Igreja em matéria social e, ao
mesmo tempo, apta a inspirar uma práxis eficaz em favor da justiça social e da
equidade, da salvaguarda dos direitos humanos, da construção de uma sociedade
humana baseada na fraternidade e na concórdia, na verdade e na caridade. Deste
modo se poderia romper a pretensa fatalidade dos sistemas - incapazes, um e
outra, de assegurar a libertação trazida por Jesus Cristo - o capitalismo
desenfreado e o coletivismo ou capitalismo de Estado (cf. Libertatis conscientia, n. l0 e 13). Tal papel, se cumprido,
ser certamente um serviço que a Igreja pude prestar ao País e ao
quase-Continente latino-americano, como também a muitas outras regiões do mundo
onde os mesmos desafios se apresentar com análoga gravidade. Para
cumprir esse papel ‚ insubstituível a ação sábia e corajosa dos pastores, isto
é, dos Senhores. Deus os ajude a velar incessantemente para que aquela correta
e necessária teologia da libertação se desenvolva no Brasil e na América
Latina, de modo homogêneo e não
heterogêneo com relação à teologia de todos os tempos, em plena fidelidade
à doutrina da Igreja, atenta a um amor preferencial não excludente nem
exclusivo para com os pobres.
6. Neste ponto é
indispensável ter presente a importante reflexão da Instrução Libertatis conscientia (n. 23 e 71)
sobre as duas dimensões constitutivas da libertação na sua concepção cristã:
quer no nível da reflexão quer na sua práxis, a libertação é, antes de tudo, soteriológica (um aspecto da Salvação
realizada por Jesus Cristo, Filho de Deus) e depois ‚ético-social (ou ético-política),
Reduzir uma dimensão à outra - suprimindo-as praticamente a ambas - ou antepor
a segunda à primeira ‚ subverter e desnaturar a verdadeira libertação cristã.
O dever dos Pastores,
portanto, anunciar a todos os homens, sem ambigüidades, o mistério da
libertação que se encerra na Cruz e na Ressurreição de Cristo. A Igreja de
Jesus, nos nossos dias como em todos os tempos, no Brasil como em qualquer
parte do inundo, conhece uma só sabedoria e uma só potência: a da Cruz que leva
à Ressurreição (cf. l Cor 2,1-5; Gl 6,14). Os pobres deste País, que têm nos
Senhores os seus Pastores, os pobres deste Continente são os primeiros a sentir
urgente necessidade deste evangelho da
libertação radical e integral. Sonegá-lo seria defraudá-los e desiludi-los.
Por outro lado, os Senhores - e com os Senhores toda a Igreja no Brasil -
mostram-se prontos à empreender, em seu setor próprio e na linha do próprio
carisma, tudo aquilo que deriva, como conseqüência, da libertação soteriológica. É, aliás, o que a Igreja, desde os seus
albores, sempre procurou fazer por meio de seus santos, seus mestres e seus
pastores e por meio de seus fiéis engajados nas realidades temporais. Permitam-me,
Irmãos no episcopado, que, com plena confiança, os convide a uma tarefa menos
visível mas de alta relevância, além de profundamente conexa com nossa função
episcopal: a de educar para a libertação, educando para a liberdade (cf. Libertatis conscicntia, n. 80, 81 e 94),
Educar para a liberdade ‚ infundir os critérios sem os quais essa liberdade se
tornaria uma quimera, se não uma perigosa contratação. É ajudar a reconquistar
a liberdade perdida ou a curar a liberdade, quando adulterada ou corrompida.
Educadores na fé, como nos chama o Concílio Vaticano II, nossa tarefa
consistir também em educar para a liberdade. Entrego agora
esta mensagem às mãos do meu estimado irmão Cardeal Bernardin Gantin, Prefeito
da Congregação que, na Cúria Romana, se dedica, com exemplar disponibilidade, a
assistir todos os Bispos em seu ministério às Igrejas e a colaborar com o Bispo
de Roma na sua função de "confirmar os irmãos". Convidado pelos
Senhores a animar um dia de retiro espiritual, no quadro da Asseinbléia Geral
desta Conferência Episcopal, ele terá a bondade de dizer-lhes, de viva voz e
com o calor da sua presença, com que sentimentos de sincero apreço e
fraternidade foi escrita esta mensagem; aqueles mesmos sentimentos que, de minha
parte, inspiraram e animaram os encontros havidos durante a visita "ad limina". Evocando
ainda, em meu ânimo, aqueles encontros, de modo especial o Encontro de 13 a l5
de março p.p., com alguns dos Senhores, vem-me espontâneo o sentimento de ter
com os Senhores uma nova e mais profunda forma de colegialidade: após esta
Visita "ad limina", o Papa
e seus colaboradores certamente conhecem melhor estas realidades que são a
Igreja no Brasil e seu episcopado. Eles esperam terem-se tornado também mais e
melhor conhecidos. Desejo permanecer em constante contato com os
Senhores e participar, "in vinculo
fraternitatis", de todas as importantes e exigentes tarefas do seu
pastoreio; em contato, especia1nlente, quando essas tarefas pesarem um pouco
mais sobre os seus ombros. Rogo, por minha vez, sua oração por mim,
especialmente na Eucaristia, para que o nome de "servus servorum Dei", dado por São Gregório Magno à missão
pontifical, seja em mim uma verdade. Na pessoa do mesmo Cardeal
Gantin quero estar reunido com os Senhores aos pés de Nossa Senhora Aparecida.
Sejamos todos juntos, em torno da Mãe do Sumo Sacerdote Jesus Cristo, a imagem
dos Apóstolos, dos quais somos Sucessores, congregados com Maria na expectativa
do Dom do Espírito da verdade e da caridade. Que este Espírito os faça
vigilantes Pastores das queridas Comunidades eclesiais do Brasil e ministros de
Salvação para toda a comunidade humana brasileira. Ao termo desta
mensagem e em conclusão da memorável Visita "ad limina", resta-me, diletos irmãos Bispos, transmitir-lhes,
como com prazer o faço a Bênção Apostólica, penhor das bênçãos divinas que
imploro para suas pessoas e seu ministério episcopal. Queiram, por sua vez,
comunicá-la a toda a Igreja no Brasil, destinatária também desta mensagem: aos
sacerdotes, cooperadores da ordem episcopal; aos diáconos permanentes,
numerosos, dedicados, atuantes em várias das dioceses dos Senhores; aos
seminaristas no momento decisivo de seu itinerário rumo ao presbiterato; a
todas as pessoas consagradas, sejam essas entregues à oração, ao silêncio e à
penitência, ou dedicadas à educação, ao serviço dos doentes e dos pobres ou à
multiforme obra de evangelização; aos leigos engajados nos movimentos e
associações, nas comunidades eclesiais de base, nos ministérios extraordinários
e nos mais diversificados serviços à Igreja; aos leigos engajados, como filhos
da Igreja e em nome da sua fé, nas tarefas temporais; aos leigos que, por algum
motivo, estão pouco empenhados, para que se sintam estimulados em tomar seu
lugar na Igreja e no mundo; nos afastados, para que voltem à prática da sua
vida cristã e católica; nos que duvidam e procuram o caminho, para que não lhes
faltem a luz e a força aos jovens e às crianças, tão numerosos em seu País e
tão merecedores de solicitude, porque são a esperança e o futuro desta Nação e
da Igreja e porque se defrontam com tantos problemas e ameaças; a todos, enfim,
especialmente aos pobres, aos que sofrera e choram, para que Deus seja tudo em
todos.
Vaticano, 9 de abril de 1986.
Joannes Paulus PP II
VERDADES, ERROS E PERIGOS
NA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
CARDEAL AGNELO ROSSI
(19/03/1985)
INTRODUÇÃO
A
pavorosa miséria de irmãos nossos na América Latina, suscitou o nascimento (1960-1970)
e o desenvolvimento da Teologia da Libertação, entre nós, uma espécie de
"teologia política", recebida com muito entusiasmo, paixão e até
fanatismo por pessoas de boa vontade que julgam ter descoberto a verdadeira
face do cristianismo, com o caminho da verdadeira redenção da humanidade. Se
a causa é justa, necessária e urgente, a estrada escolhida por muitos
liberacionistas é perigosa e errada e até pode ser fatal para a fé cristã e a
humanidade: é o teor do recente documento da Sagrada Congregação da Doutrina da
Fé sobre a Teologia da Libertação ( 06/08/1984 ) . Na verdade, a paixão é freqüentemente
má conselheira. Não Bastante a reta intenção e a boa vontade empregadas na
difusão e implantação da Teologia da Libertação radical e de verdades que
contem e propugna, peca gravemente por um unilateralismo radical, tomando
apenas uma dimensão do problema humano - o social e político - como a teologia
do homem e da religião, o que não só se opõe à realidade e à verdade e,
consequentemente à justiça, mas prejudica a solução do mesmo objetivo desejado,
de conseguir a plena libertação dos pobres e da pobreza e pagando o alto preço
de uma distorção fatal da fé cristã. Para esclarecer quanto dissemos, basta compulsar a história,
mestra da vida. Ela registra numerosas religiões, denominações e seitas que
fixando-se numa dimensão ou aspecto verdadeiro mas não único, da realidade ou,
então, fixando-se numa aparente verdade, forjada. na ambigüidade, obtiveram,
graças a. um proselitismo bem organizado, porém, em campo de deficiente
formação teológica, a adesão e o apoio de muitos, inclusive de bons católicos
que, honestamente, depois, confessam não mais pertencer à Igreja Católica,
porque renegaram a sua doutrina e autoridade, como pode suceder com alguns que
sofreram a lavagem cerebral liberacionista. Mas tomemos os fatos da história. Mesmo antes do
cristianismo, o judaísmo professava verdades, como o puro monoteísmo (um só
Deus), o livro sagrado (a Bíblia do Antigo Testamento), a esperança do Messias
e da salvação. Mas apegou-se de tal forma ao Antigo Testamento e ao pacto de
Deus com o povo de Israel, que não reconheceu Cristo como o Messias e o Novo
Testamento, a ser pregado a todos os povos, como Aperfeiçoamento do Antigo
Testamento. Nós católicos aceitamos o Antigo Testamento e a escolha do povo de
Israel, como fatos verdadeiros, mas não únicos, porque foram uma preparação
para a completa e mais perfeita revelação do Filho de Deus, feito homem. É
verdade, repetimos, que o Antigo Testamento é um livro sagrado, mas não é
verdade que seja o único livro sagrado. É verdade que Israel foi o povo de Deus
mas, depois de Cristo, Salvador da humanidade, não é mais o único povo de Deus.
É preciso portanto, não converter em verdade absoluta, aquilo que só o é
parcialmente, porque nenhuma realidade puramente humana realiza o absoluto, que
é Deus. Exemplifiquemos. Se digo: "Antônio é um bom
estudante" afirmo algo que pode ser verdadeiro. Quando, porém, avanço e
digo: "Só Antônio é um bom estudante" faço uma restrição e excluo
outros, o que pode ser falso. No
caso: a opção pelos pobres e mesmo a opção preferencial pelos pobres é uma
afirmação verdadeira. Só a opção pelos pobres já é uma restrição ou exclusão. Prossigamos
na história. Os ortodoxos conservam doutrinas genuinamente cristãs mas as
cristalizam de tal forma nos seus ritos e tradições que reduzem a Igreja às
dimensões nacionais (restrição da catolicidade) e, consequentemente, assumem
também uma coloração política. As idéias da "fé" em
Lutero, de "predestinação" para Calvino, tomadas em sentido diverso
daquele da Bíblia, graças ao livre exame (releitura da Bíblia e restrição de
conceito), fizeram nascer as denominações protestantes dos luteranos e
calvinistas, com seus diversos matizes, introduzidos pelos seus sucessores.
O mesmo se diga das seitas. Tomam uma base bíblica, como "o batismo
dos adultos" para os batistas, o "sábado" para os adventistas do
sétimo dia, "o juízo final" para os testemunhas de Jeová e sobre essa
base única constróem depois, até com uma regular lógica, os seus sistemas e
crenças. Mas todos eles não se julgam católicos. Ao contrário, se
dizem anti-papistas, anti-católicos. Não sucede o mesmo, porém, com
os Teólogos da Libertação, mesmo daqueles que empregam os mesmos métodos de
subversão das verdades reveladas. Primam em ser católicos, dos mais genuínos, e
querem continuar a ser considerados católicos, filhos da verdadeira Igreja de
Cristo.
Faz-se
mister distinguir. Como os cogumelos, uns são bons e outros venenosos.
Quando
defendem a libertação integral, colocando a raiz de todo o mal no pecado e
exigem a conversão do coração para a edificação da sociedade justa, empregando
o legítimo pluralismo teológico e baseando e na opção pelos pobres, mantém-se
totalmente no campo católico. Pena quando, por razão de moda, empregam
ambíguas, que seria melhor evitar. São perigosos os que, mesmo
propugnando uma justa libertação sócio-política da miséria e uma mais honrada
pobreza, jogam toda a culpa do mal em algumas estruturas sociais e políticas e
descarregam suas iras sobre o negregando pecado social dos outros. Recorrem a
estratagemas e práticas ambíguas para justificar biblicamente sua tese que, na
prática, para ser mais eficaz, descamba na análise marxista, que envenena toda
a pretensa libertação. Para tanto, a Teologia da Libertação faz mais
sociologia e política do que teologia. A semelhança dos marxistas, erigem a
economia como a norma suprema da humanidade e, assim, sacrificam na área da
economia a teologia, que se despoja as sua veste espiritual para vestir o
macacão proletário. Deve lutar, então, contra o capitalismo e deixando as armas
da fé, assume aquelas do marxismo, que lhe quer tomar o lugar para erigir, em
última análise, o capitalismo de Estado, ou melhor, da classe dominante,
camuflada nas famosas e ilusórias "democracias populares " . Nosso
grande jurista Sobral Pinto, que estudou, com seriedade, por mais de 50 anos, o
marxismo, sentiu-se obrigado, em consciência, de levantar seu brado de fiel
católico, impelido pelo canon 212 § 3 do Código de Direito Canônico (que vale,
com maior razão para mim), para advertir que a Teologia da Libertação, que
vigora entre nós, pretende desastrosamente enxertar o materialismo marxista na
teologia espiritualista. Pareceu-me,
entretanto, útil para ajudar a discernir melhor a Teologia da Libertação
redigir, em forma simples, concisa e popular, as verdades, os erros e os
perigos da Teologia da Libertação, como a análise marxista, de que faia o já
citado documento da Santa Sé. Advertimos
que não se pode deixar de reconhecer o vivo e sincero desejo de muitos
liberacionistas de resolver o problema da miséria na América Latina, de uma
forma atual e eficiente, quanto dizem, de acordo com o Concílio e a Conferência
de Puebla. Mas não bastam a boa vontade e a reta intenção, principalmente
quando aliadas à ingenuidade, para enfrentar e resolver todos os aspectos de
uma realidade complexa. Por
isso mesmo o Concílio Vaticano II requer a interpretação dos "sinais dos
tempos", à luz do Evangelho. Porque o Evangelho é a revelação de Deus
trazida à terra por Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem e transmitida à sua
Igreja. Os problemas
do homem, a sua dignidade, o seu destino, estão nas mãos de Deus, que criou o
homem livre, para, da liberdade, fazer bom o meritório uso. Veremos como para a Teologia da
Libertação, em geral, não bastam a revelação de Deus e a experiência milenar da
Igreja. Em virtude de um "aggiornamento" (atualização) mal
compreendido, porque exagerado e exclusivo, quer inovar, trilhar novos
caminhos, encontrar novas fontes de verdade, pois, em última análise, a
experiência da Igreja, segundo os Teólogos da Libertação, teria fracassado na
América Latina, por não ter resolvido o problema da miséria. É necessário,
portanto, barganhar o Evangelho, ou melhor, seus métodos ou espírito, a luz do
Palavra de Deus pelas ciências humanas Parece até que exageramos e pintamos um
monstro para o combater mais facilmente. Oxalá estivéssemos sonhando e para
melhor despertar à realidade, nesta exposição sumário, que não abrange nem
aprofunda todos os aspectos da questão, vamos tratar dos seguintes pontos:
I – VERDADES:
1. Situação de miséria da
América Latina e, concretamente, no Brasil.
2. A necessidade de uma
teologia atualizada e correspondente à índole e cultura do povo.
3. Frutos da Teologia da
Libertação.
4. Ambigüidades na Teologia
da Libertação.
5. A
instrução da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé sobre "Alguns
aspectos da Teologia da Libertação".
II - ERROS:
1. Pluralismo
liberacionista e releitura da "opção pelos pobres" do Evangelho e de
Puebla.
2. A polinização partidária
das comunidades eclesiais de base.
3. A interpretação marxista
da história e da religião.
4. A libertação no paraíso
socialista.
III – PERIGOS:
1. Lavagem cerebral.
2. Abusos de linha pastoral
muito difundida no Brasil.
3. Igreja Popular.
l -
VERDADES
1. Situação de miséria na América Latina e,
concretamente no Brasil
É
um espetáculo desolador e inquietante a miséria e à fome num continente
superdotado de possibilidades e recursos naturais, como é a América Latina. Em
se tratando, então, do Brasil, país privilegiado, com terras férteis e
abundantes, a miséria e a fome não deviam existir. Faltam homens dirigentes que, bem
formados, saibam desfrutar dos recursos naturais em favor do bem comum,
enquanto outros governantes ou elementos à eles associados se locupletam à
forra, espezinhando direitos e aspirações legítimas dos subalternos e
subordinados. Há, portanto, sem nenhuma divida, estruturas injustas
que devem ser reparadas, tanto no campo nacional como no internacional de
relações com nações mais desenvolvidas economicamente e ricas e que fazem
sentir o peso do capitalismo desenfreado na sociedade latino-americana. Vê-se
logo que é mais uma questão de educação, que para nós é evangelização (no qual
se deve empenhar seriamente a Igreja ), do que de guerrilhas ou revolução.
Para a evangelização são eloqüentes os ensinamentos e orientações da
Doutrina Social da Igreja, que tem por finalidade a implantação da justiça
social, da liberdade e dignidade da pessoa humana, por meios evangélicos.
Insistentemente os Papas clamam em favor dos oprimidos e reclamam uma ordem
mais justa e estabeleceram e aprovaram não só inúmeras obras de beneficência,
mais um dicastério dedicado à "Justiça e Paz". Francamente não agrada aos liberacionistas
essa doutrina, que apodam de reformismo. Fixam seus objetivos de luta e
reivindicações contra o detestável "pecado social" que oprime os mais
pobres e deserdados. Não insistem na atuação decisiva do pecado pessoal, que
existe tanto nos dirigentes que abusam do seu poder mas também nos subalternos,
quando com saúde e trabalhando, não produzem mais e melhor e não sabem ou não
procuram economizar. Evidentemente
condições climatéricas (muito calor) podem não estimular o trabalho e esses
fatores se verificam em todas as nações, embora o elemento local esteja mais
habilitado a vencer esses rigores da região. É impressionante, porém, examinar a história dos imigrantes em
nossos países e reigões. Cheganram quase todos em situação de miséria e se
deram generosa e heroicamente ao trabalho, fazendo também não pequenas
economias ... e hoje é quase impossível encontrar um descendente de imigrantes
na miséria ... Nem tudo, portanto, depende unicamente das estruturas públicas.
Há situações extraordinárias de seca, inundações ou de outras calamidades
(guerrilha) que podem favorecer a miséria ou a fome. Doloroso é o desemprego,
hoje tão grave problema para todos os povos, principalmente quando se abandonam
os campos pela cidade. Mas
também existem, é mister dizê-lo, em alguns a indolência, o abandono das
terras, o alcoolismo, gastos imprevidentes e exagerados, como de moradores de
favelas que dispendem fartamente no Carnaval. É fácil atribuir a
culpa de todo o mal às estruturas
injustas e pecaminosas. Também lá, como na vida individual, a raiz de todos os
males é o pecado. O pecado
introduziu o mal no mundo e o mantém. Atacar essa raiz, com a formação e a
prática da vida cristã e favorecer a virtude, é o objetivo de uma teologia da
Libertação ideal ( possível e legítima), inspirada nos Evangelhos e digna de
aplausos. Assim mesmo, tal Teologia seria apenas uma parte da Doutrina Social
da Igreja e não, como é concebida em nosso meio, como a Teologia que abarca e
interpreta toda a religião. O discurso de João Paulo II, em Puebla,
traçou as coordenadas da Teologia da Libertação autêntica: verdade sobre a
igreja, verdade sobre Jesus Cristo e verdade sobre o homem. Nessa perspectiva a
opção preferencial pelos pobres recebe seu verdadeiro significado, que é
evangélico e se mostra plenamente justificado. Implantar a "civilização do
amor", tão reclamada por Paulo VI e João Paulo II, é a única Teologia de
Libertação louvável. Infelizmente
não é esse, porém, o tipo de Teologia de Libertação comumente difundido na
América Latina e no Brasil. Rejeita,
em ultima análise, a Doutrina Social da Igreja porque a julga teórética
ideologicamente (teologicamente contra o capitalismo, mas na prática, reforça o
sistema dominante) e praticamente não eficiente e por isso, mesmo quando alguém
não a considera erronea, é insuficiente e deve ser enriquecida pela Teologia da
Libertação, com métodos mais modernos, eficazes e científicos, que são os da
análise marxista. É justa,
repetimos, necessária e louvável a defesa dos pobres, não só sociologicamente
como religiosamente, mas o modo de agir da Teologia da Libertação não é
evangélico, porque o amor ao próximo é a suprema norma social do Evangelho, que
se aceita por convicção e não por imposição. O processo evangélico será muito
mais lento, mas é mais humano e definitivo; como o operado no mundo pagão e
bárbaro.
2. A necessidade de uma teologia atualizada
e correspondente à índole e cultura do povo
O Concílio Vaticano II foi desejado por João
XXIII e confirmado por Paulo VI, mantendo a fidelidade ao sacro patrimônio da
verdade revelada, para enfrentar as novas condições e formas de vida,
introduzidas no mundo hodierno. Era o famoso
"aggiornamento" (atualização), querido por João XXIII e a
"inculturação", auspiciada por Paulo VI, afim de apresentar aos povos
de uma forma acentuadamente pastoral a doutrina da Igreja. Fazia-se também um apelo à iniciativa dos
teólogos para encontrar expressões mais adequadas para a vivência cristã nos
nossos dias. Respondeu séria e
corajosamente a esse desafio o Conselho Episcopal Latino-Americano na
Conferência Geral do Episcopado em Puebla, no México, tendo baseado seus estudos
numa ampla rede de consultas e estudos de toda a Igreja na América Latina.
É curioso como os Teólogos
da Libertação procuraram boicotar Puebla. Diziam que Puebla não era "el
puebio". Mas realmente, em Puebla, falava "el pueblo de Dios".
Organizaram, durante a Assembléia, uma Conferência paralela
(anti-Puebla), da qual participaram alguns membros também do Episcopado e,
curiosamente, agora, fundamentando-se em apenas algumas expressões da
Conferência de Puebla, em releitura pré-fabricada, se julgam os verdadeiros
protagonistas e executores de Puebla. Para gáudio dos
libertacionistas, puderam depois cantar vitória da aplicação concreta de suas
idéias em Nicarágua, com os sandinistas e ministros sacerdotes e a Igreja
Popular. "Aggiornamento" da Igreja não significa uma
mudança radical, mas o viver o dia atual da Igreja, fundada por Jesus Cristo e
que deve atravessar os séculos, imutável na doutrina revelada, assistida pelo
Espírito Santo, mas com os pés na terra, tanto quando caminha na praia, como nas
montanhas ou no asfalto. É a mesma Igreja, peregrina neste mundo, que se faz
viva e salvífica, adaptando-se, sem deixar de ser o que é, às circunstâncias do
tempo. e do lugar. Atualização,
portanto, deve ser também inculturação, isto é, com capacidade de transmitir a
- mensagem salvadora de Cristo aos diversos povos, encontrando as expressões
mais adequadas para ser compreendida melhor pelos homens, que vivem em
situações e ambientes os mais diversos. Atualização e inculturação da Igreja foram interpretadas por alguns
teólogos, como uma libertação da teologia tradicional para adotar, sem
restrições, fórmulas novas de maior abertura cristã para o mundo e seu empenho
sobre as realidades terrestres com uso das ciências humanas (psicologia,
pedagogia, interpretação marxista da história etc. Assim promoveram uma
revolução destruindo o passado, considerado superado, e fabricando formas
modernas, alheias à teologia, e, portanto, reclamam uma nova interpretação do
Evangelho de Cristo, Nós
católicos, porém, cremos na divindade de Cristo, na sua verdadeira e definitiva
revelação pública, e não podemos, por conseguinte, aceitar nem as
interpretações do Alcorão nem as de Marx, embora se apresentem como as mais
eficazes e atualizadas, Mesmo
quando não se rejeita o passado e se julga aperfeiçoar o patrimônio cultural e
artístico, é de mal gosto, fazê-lo, desfigurando suas mais belas expressões,
como se para melhorar uma pintura clássica se usassem rabiscos e borrões de
arte moderna. Se esta
aplicação de atualização e inculturação é errônea e desastrada para uma arte,
com maior razão o será para a Igreja, que não é invenção nem obra de homens,
mas de Deus, criador e Redentor,
3. Frutos de Teologia da Libertação
Não sei como se possa, honestamente, negar a
existência da árvore da Teologia da Libertação, na sua espécie mais agreste,
rude, azeda e radical, quando seus frutos aparecem já abundantes aos nossos
olhos, ao menos no Brasil. Acenamos aqui apenas a alguns desses
produtos, pois haveria muitos outros em relação à liturgia, à vida religiosa,
etc. A decadência da teologia, depreciada em sociologia e política,
o vazio da espiritualidade e a militância social e política, os anseios dos
futuros sacerdotes manifestados agressivamente tanto nas universidades como até
nos convites para a ordenação, a indisponibilidade para o apostolado cultural e
das elites, a verdadeira lavagem cerebral de seminaristas (não todos
felizmente, pois seus bispos sabem preservá-los) em certos Seminários ou
comunidades do Brasil, saltam à vista de quem quer ver. O que se pode esperar
desses futuros e pobres sacerdotes, munidos apenas com essa "teologia da
enxada", que não tem nem sequer a exposição sistemática e orgânica da
nossa fé? Pregações sólidas e doutrinárias? Já escasseiam tais práticas em
igreja onde a constante é a reivindicação amarga e irritante da ordem e justiça
social em moldes socialistas, como se nosso povo não tivesse o direito de
saciar sua "fome e sede de Deus" com a Palavra de Deus no culto
sagrado, que não se deve confundir e conculcar com comícios despropositados e
impertinentes. E depois, esses que negam o pão do Evangelho aos fiéis, não
reconhecendo sua falta de responsabilidade, vão acusar outros organismos ou
países como responsáveis e promotores da invasão e crescimento assustador das
seitas e de outras formas de religião. Frutos da Teologia da
Libertação, são os jornais, revistas e editoras católicas, que só martelam
monotonamente a mesma tecla reivindicativa, com satisfação de políticos
esquerdizantes e silenciam até a palavra do Papa, quando esclarece os desvios e
erros da Teologia da Libertação. Está igualmente em marcha o
processo de burla, descrédito, marginalização de elementos respeitáveis do
clero, fiéis à Igreja e ao Santo Padre, julgando-os conservadores, retrógrados
e superados. Cresce o sentimento anti-romano, anti-papal,
anti-Igreja institucional, de rebeldia à autoridade constituída, quando segue
outra linha pastoral. É óbvio, portanto, que tais frutos denunciam a
existência da Teologia da Libertação radical no Brasil. Um fruto
genuíno da Teologia da Libertação é a publicação da História da Igreja na
América Latina pela CEHILA (Comissão de História Eclesiástica para a América
Latina), dirigida por Henrique Dussel. Não é história mas hipótese de história,
pré-fabricada no materialismo histórico, nos moldes "acríticos e
acientíficos" da luta de classe. Faz pena ver como essa história destrói a
própria história, como o demonstrou exuberantemente Américo Jacobina Lecombe em
"A Obra Histórica do Pe. Hoornaert", no que se refere ao Brasil. Também
muitos liberacionistas, em nome da teologia., destróem a teologia. Em última
análise, para muitos, Teologia da Libertação é a libertação da teologia. Podem
responder-me que realmente é a libertação da teologia tradicional. Eles, na
verdade, têm um conceito próprio da teologia, que seria a reflexão crítica da
práxis (modo de proceder), porque, no dizer de Marx, "O fundamento da
crítica religiosa é este: o homem faz a religião, não é a religião que faz o
homem" e a Teologia da Libertação oferece às comunidades eclesiais de base
este poder criador de religião e de Igreja.
4. Ambigüidades da Teologia da Libertação
Pescar
em águas turvas é tática da Teologia da Libertação, graças às ambigüidades
empregadas tanto na "opção pelos pobres" como nas "comunidades
eclesiais de base". A
genuína "opção pelos pobres" e as verdadeiras "comunidades
eclesiais de base" estão no coração da Igreja, mas de forma muito diversa
daquela empregada pela Teologia da Libertação. Por isso, quando se rejeita essa releitura
facciosa, os liberacionistas nos apodam de inimigos dos pobres, da democracia e
do povo oprimido, quando não nos apontam como fautores e aliados dos
capitalistas e dos Estados Unidos. A
ambigüidade é útil para os prestidigitadores e exploradores, não, porém, para
os doutrinadores, que, como ensina o Evangelho, devem evitar a confusão,
afirmando, negando ou distinguindo. O
ataque feito à Escolástica de Santo Tomás de Aquino, começa porque o Santo
Doutor da Igreja exigia, antes de tratar qualquer questão, a definição dos
termos, sua delimitação e clareza e em que sentido eram tomados. Nunca a clareza e exatidão das
expressões fizeram mal aos bons e são exigidas para a promoção da justiça.
Usar de ambigüidades e subterfúgios e, por vezes, até de mentiras, não
oferece nenhuma garantia de credibilidade. O homem honesto não as aceita.
5. A instrução da Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé
Quem conhece a paciência, discreção e modo
de proceder da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (inglória tarefa de
alguns, que por isso mesmo se identificam, tem sido difundir dela uma
caricatura) dirá que não agiu em vão, mal informada ou desatentamente com sua
intervenção sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação. Como é usual na Sagrada Congregação
para a Doutrina da Fé, o documento foi precedido por um estudo sério, sereno,
prolongado, com assessoria de peritos de diversas partes do mundo. Se uma
crítica se pode fazer ao documento é que tal esclarecimento dado, há anos
atrás, teria nos aliviado de não poucas calamidades. Não é possível,
portanto, conceber razoavelmente tal documento sem provas abundantes da
existência de uma Teologia da Libertação radical, existente na América Latina,
incluindo naturalmente o Brasil, não obstante declarações em contrário de alguns prelados locais, que se confessam
testemunhas oculares autênticas, sempre atentos sobre os acontecimentos
religiosos. O autorizado
documento da Sagrada Congregação, para a Doutrina da Fé, é muito claro e
explicito e é uma séria advertência para toda a Igreja na América Latina. Foi
acompanhado de um resumo para ser divulgado, para que também a imprensa leiga
tivesse dele uma idéia geral. Com o pretexto de que o documento era muito
longo, não teve divulgação na imprensa católica e se omitiu de dar maior
publicidade ao resumo, justamente porque a tal Teologia da Libertação,
recriminada não existiria simplesmente no Brasil. Bastaria dizer ao povo que
aguardava o pronunciamento da Santa Sé, que depois de todo o reboliço, o
documento apoiava a "opção pelos pobres" e, portanto, não atingia a
Teologia difundida, entre nós, porque não precisamos dessa análise marxista
(moinho de vento sonhado pelo Cardeal Ratzinger e o Papa iria corrigir a
"gaffe" feita pelo antigo Santo Ofício. Em todo o caso, o Papa seria
liberacionista (aprendendo, como aluno, dos nossos mestres liberacionistas) e o
Cardeal Ratzinger um conservador intransigente, desde que veio para Roma.
Seria, portanto, melhor não tomar conhecimento desse documento e esperar o
outro prometido, verdadeiramente positivo, sem a malfadada crítica de
"alguns aspectos da Teologia da Libertação". Hoje esta explicação (escapatória
de quem ignora a possibilidade de uma publicação da Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé sem explícita aprovação ao Santo Padre) não tem mais sentido
algum, após os pronunciamentos explícitos do Santo Padre, tanto em Roma
(alocução aos cardeais no fim de 1984 e aos bispos do Peru) como em suas
recentes viagens a países da América Latina ... que, porém, são censurados não
pelo Governo mas por liberacionistas da Igreja. Apesar de negado o valor do documento,
já produziu alguns frutos como a declaração dos bispos do Peru e a atenção que
lhe deve dar a próxima Plenária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Mas já é algo a recomendação do Presidente da CNBB de deixar aos leigos o campo
político e cuidar o clero da formação religiosa integral dos mesmos leigos.
Será útil recordar algumas orientações
finais do documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no Capítulo
XI. Faz um apelo à fidelidade na tarefa primordial da Igreja, à
evangelização e conseqüente promoção humana, a ser realizada em comunhão com os
Bispos e a Igreja. Convida os teólogos a colaborarem lealmente com espirito de
diálogo com o Magistério da Igreja e recebam sua palavra com respeito. A promoção humana e a autêntica
libertação devem ser compreendidas a partir de uma evangelização integral, em
uma Igreja dos pobres, num sentido universal e não de uma classe ou casta. A
verdade sobre o homem, a luta pelos direitos humanos deve ser realizada com
meios adequados à dignidade humana, rejeitando toda e qualquer espécie de
violência e tendo em conta que a injustiça tem sua raiz no coração dos homens.
Então se deve recorrer às capacidades éticas da pessoa para a sua conversão. É
ilusão mortal aceitar que o "homem novo" nasça com a mudança de
estrutura, pior ainda quando feita pela violência revolucionária, pois são
conhecidas as escravidões gerais dos regimes totalitários.
Deve-se libertar do mito da luta de classes
como salvadora.
O
resumo da instrução distingue entre a legítima aspiração dos povos pobres a
condições de vida econômica, social e política, que estejam conformes à
dignidade humana (sinal dos tempos característicos de nossa época) que envolve
uma grave responsabilidade de todos para esta conquista da justiça social. As
expressões dadas a essa aspiração, são legítimas àquelas que rejeitam a
pecaminosa indiferença diante dos dramáticos problemas da pobreza, miséria e
injustiça de que são vítimas Nossos irmãos e que reprovam quantos contribuem
para a manutenção da miséria dos povos. Tal foi, em última análise, a posição
de Puebla. Outras
expressões são ambíguas, enquanto outras representam um grave perigo para a fé,
à vida teologal e a moral dos cristãos. A Teologia da Libertação abrange todas estas formas
diversas e é apresentada em livros, folhetos, artigos e pregações e, por isso,
a Sagrada Congregação para a Defesa da Fé não cita nenhum nome de
liberacionista para que os outros não citados tenham o pretexto de afirmar que
o documento não lhes diz respeito. Após a exposição bíblica do tema
da libertação e da genuína Teologia da Libertação, o documento afronta a
questão dos que apresentam uma forma de Teologia da Libertação gravemente
desviada, com erros prejudiciais à fé. É sobre esta específica Teologia da
Libertação que o documento da Santa Sé adverte alguns aspectos, sobretudo o
emprego da "análise marxista" mesmo com as diversas tendências atuais
do marxismo, como totalmente contrária aos princípios evangélicos.
II - ERROS
1. Pluralismo liberacionista e releitura da
"opção pelos pobres" do Evangelho e de Puebla
O
pluralismo teológico e a releitura bíblica e dos pronunciamentos do Magistério
são exigências liberacionistas. O
pluralismo serve de passaporte para entrar no campo teológico (é sinal verde
que estimula a pesquisa teológica) e a releitura o redimensiona, na medida dos
olhos e dos desejos do "teólogo". O pluralismo teológico teria sido ensinado pelo Concílio e a
releitura ou reintegração parece mais uma reedição do livre exame protestante.
Mas a alfândega
pluralista. liberacionista não só é contraditória, mas dura e totalitária com o
parceiro adversário, impedindo-lhe, em nome do mesmo pluralismo, de divulgar
seus escritos, fechando-lhe até as portas das editoras católicas afim de que a
Teologia da Libertação possa tranqüilamente e exclusivamente dominar o campo
reservado às discussões teológicas. Algo semelhante ocorre com os comunistas,
os mestres da análise marxista: antes de assumir o poder exaltam e exasperam a
oposição ao Governo, mas, quando no poder, fazem silenciar as oposições ao
Governo, até com processos dignos da máfia. Com o campo livre, será
fácil ao liberacionista impingir sua leitura da Sagrada Escritura e dos
documentos do Magistério e impor a sua "linha pastoral", que deve ser
seguida. O Concílio trata do pluralismo político que a filosofia
social e a sociologia indicam como multíplice e livre expressão de formas
sociais, às quais o Estado reconhece uma autonomia em ordem a uma contribuição
para o bem comum. Os direitos e deveres das pessoas, família e grupos devem ser
reconhecidos, respeitados e promovidos. Numa sociedade pluralista se deve garantir a liberdade da Igreja na
comunidade política, distinguindo-se sempre as ações dos fiéis, indivíduos ou
grupos, como cidadãos, guiados pela consciência cristã as suas ações em nome da
Igreja. Em última
análise, nem o Estado nem a Igreja podem ser supremos, pois só Deus o é, mas os
seus membros são criaturas e podem contribuir para melhorar a situação da
comunidade, respeitando sempre os direitos inalienáveis e supremos de Deus.
Um exemplo banal pode facilitar
a compreensão desse pluralismo. Diz o provérbio popular: "Todos os
caminhos conduzem à Roma". Outrora, chegava-se à Roma a pé, a cavalo, em
carruagem e até de barco. Mas normalmente não se vinha de muito longe. Com o
progresso de comunicações, hoje, pode-se chegar de distantes regiões, de carro,
de trem ou de avião. Seria inconcebível e injusto limitar a liberdade de
locomoção, da escolha de estradas e meios disponíveis para se chegar a Roma.
Mas a finalidade deve ser respeitada por todos: chegar a Roma e não a
Washington ou Moscou. Quem, devendo acompanhar alguém a Roma e o conduz a outra
parte, errou o caminho, ou por incompetência ou por maldade. O
pluralismo das escolas teológicas pode tomar diversos caminhos mas deve
conduzir à reafirmação da fé católica, O ponto de partida liberacionista, afirma-se
solenemente, é a "opção preferencial pelos pobres". Desde seu
nascedouro é a opção pelos pobres tradicional na Igreja e, para a América
Latina, foi reafirmada por Puebla, que lhe dá prioridade na ação pastoral na América
Latina, juntamente com o problema da juventude. Essa opção preferencial pelos
pobres é absolutamente normal, de sentido evangélico e eclesial, reclama um
maior empenho conjunto do Episcopado latino-americano para uma educação e
orientação dos fiéis para com os irmãos não só menos favorecidos
economicamente, como os mais necessitados espiritualmente. "Pobre em espírito" ou
"pobre no coração" proclamado bem-aventurado pelo Senhor é aquela
pessoa desapegada dos bens materiais, tanto seja sociologicamente pobre como
rica dos bens materiais, ainda que, normalmente será mais fácil ao pobre
conformar-se com seu pouco que ao rico desapegar-se do seu muito. Como o Senhor
é Salvador de todos os homens - pobres e ricos - quer velos unidos no seu amor
e entre si, como irmãos, filhos do mesmo Pai celestial. Por isso amou pobres e
ricos. Então, nunca a
"opção preferencial pelos pobres" pode tornar-se "opção
exclusiva pelos pobres". A primeira é afirmação verdadeira, a segunda é
exclusão injusta e falsa. Os liberacionistas tomam, porém, os pobres
no sentido classista, como os oprimidos que, segundo Marx, formariam o
proletariado. Tomam um avião seqüestrado. Segundo a tese marxista (e
assim entramos ,já na análise marxista) a história se reduz à luta de classes:
dos opressores contra os oprimidos. E chegou a hora dos oprimidos proclamar a
sua libertação donde o grito de combate: "Proletárias de tudo o mundo,
uni-vos!". É, sem dúvida, fascinante aos olhos de jovens
inexperientes, impetuosos, desejosos de realizar a justiça social, entrar nessa
luta, ao lado dos oprimidos. Respeitemos e apreciemos o seu entusiasmo pelo
ideal da justiça social, mas peçamos que empreguem sua inteligência e espírito
crítico para não embarcar numa empresa ilusória e falsa. Sirva-lhes de aviso, o
sinal que estão deixando o caminho de Cristo, que é de amor, compreensão
fraterna, caminho mais longo, mas baseado na persuasão, no diálogo, no respeito
à dignidade humana. Não foi com violência, não foi distilando
aversão, luta ou ódio entre as classes, não foi com revolução, que Cristo, seus
Apóstolos e a sua Igreja, lograram a abolição da escravidão, mostrando como o
escravo é nosso irmão em Cristo. Embarcando num avião seqüestrado
pela análise marxista, há o perigo comprovado pela história repetidamente,
apesar de todas as promessas de libertação, de aterrissar numa ditadura do
proletariado que é realmente ditadura sobre o proletariado, ou como está em
voga agora, numa "democracia popular", paraíso terrestre, onde os
liberacionistas preferem não viver. Em todo o caso, a base bíblica
da "opção pelos pobres", encarecida por Puebla, na releitura
liberacionista, de cunho marxista, é areia movediça sobre a qual não se pode
construir sólida e tranqüilamente, o edifício de uma Sociedade justa e feliz.
2. A polinização partidária das comunidades
eclesiais de base
As
comunidades eclesiais de base que atuam nos diversos ambientes e lugares, com
espírito de evangelização e, portanto, em união com os seus legítimos pastores,
são uma bênção extraordinária para a Igreja em regiões, como a nossa do Brasil,
ou em especiais circunstâncias para atender religiosa e espiritualmente o povo
de Deus. Mesmo, antes do Concílio Vaticano II fui um dos pioneiros,
em âmbito diocesano, na Diocese de Barra do Piraí, a introduzir essas comunidades,
ainda muito rudimentares mas ricas de religiosidade e de catequese popular,
deixando organizadas cerca de 570 desses núcleos, com grande eficiência
pastoral. O erro começa quando se faz política partidária nessas
comunidades eclesiais de base. A formação política dos leigos é necessária,
segundo a fórmula "política do bem comum, fora e acima das competições
partidárias" e, nesse sentido foram impressas Cartilhas Políticas. Mas.
algumas delas pretendem formar uma classe social em luta contra as instituições
civis e até eclesiásticas. Suscita a base, a rebelar-se contra a cúpula,
apoiando partidos que endossam a luta de classes. Passam assim as comunidades
eclesiais de base a ser uma mina prolífera de ação partidária, representando
"o povo" no engajamento sócio-político. São tão exaltadas
algumas comunidades eclesiais de base que se julgam novas fontes de revelação e
de inspiração, como as mais genuínas para mostrar concretamente a encarnação da
Igreja na realidade do povo sofrido e angustiado. Dentro do clima de luta, não
admira que lhes falem homens sem fé e até contra ela, em nome da Igreja, como
lobos em pele de ovelhas. É de admirar, porém, o açanhamento de clérigos nessa
tarefa. Em torno deste tema toma pé a "Igreja Popular",
criada pelo "povo" ou comunidades eclesiais de base, contaminadas
pela luta de classes, em oposição à Igreja da cúpula dominante, a tradicional
Igreja. Conseqüência lógica é o ataque e o combate à autoridade,
como opressora ou aliada à opressão, opondo-se assim contra a Cúria Romana e ao
mesmo Papa. Amanhã a oposição será contra o Bispo e o Pároco. Segundo os
liberacionistas, as comunidades eclesiais de base são a fonte da democracia,
pois tudo ali se procede democraticamente. Assim o pensam e o dizem, mas na
realidade, nela atuam os líderes e os meios de desinformação.
3. A interpretação marxista da história e da
religião
Procuremos
explicar brevemente o que significa a análise marxista, exatamente condenada
pelo documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, indicando como
atua na história e na religião. Os liberacionistas nos dizem que
tomam elementos da análise marxista como um método, sem endossar a ideologia
marxista. Não podemos acreditar na sinceridade de seus propósitos, quando não
dispõem de capacidade intelectual para avaliar as conseqüências dessa análise,
trinada acriticamente como " científica " . A análise marxista reduz toda a história à
luta de classe. Os liberacionistas, baseados no valor "científico" da
análise marxista, sustentam que ela tem os elementos úteis e eficazes para
eliminar a injustiça social e que o uso desses elementos é uma conquista do
progresso e, repetimos, não implica necessariamente na aceitação da ideologia
marxista, que eles mesmos condenam, porque visceralmente atéia. Outros
negam simplesmente o uso da analise marxista, pois dela não temos necessidade,
os católicos, que podem usar o método jocista de Cardjin: "ver, julgar,
agir", esquecendo-se que esses três momentos na Ação Católica se faziam à
luz do Evangelho. Segundo
a análise marxista, a dialética da história da humanidade, essencialmente luta
de classes, conduz à vitória do socialismo: a ordem ideal da sociedade e da
economia. A Teologia da Libertação crê efetivamente numa perfeita sociedade,
para o futuro, mas é muito vaga sobre essa futura sociedade socialista, pois
não pode ignorar o fato evidente que o marxismo, por toda a parte onde lutou e
conseguiu o poder, não conduziu à libertação do homem, mas sim à supressão de
sua liberdade. O Papa, na sua encíclica sobre o trabalho humano,
afirma que um capitalismo primitivo que maneja o homem como instrumento do
capital, é contrário à dignidade humana, mas também o coletivismo marxista, que
tem a totalidade da economia, controla o poder político, militar, cultural e
propagandístico. A liberdade dos homens de trabalho está melhor garantida em
uma ordem econômica com milhões de patrões e sindicatos livres do que num
sistema em que o Estado é o único patrão e os sindicatos são instrumentos do
Estado.
Interessa-nos mais mostrar os efeitos da
análise marxista na religião .
A Teologia da Libertação dando à economia um
caráter decisivo na sociedade, trilhando a análise marxista, ameaça limitar
unilateralmente, com a dimensão econômica, a história e a atividade da Igreja,
como uma opção política, errada no passado e no presente, que estaria sempre ao
lado dos opressores mas deve redimir-se e assumir, quando necessário, a mesma
revolução na luta pela libertação da opressão, pois aí se encama o "amor universal".
Teria sido revolucionária
a Igreja, já no seu fundador, Jesus Cristo, considerado perigoso e subversivo
por Pôncio Pilatos, mas, desde o período constantiniano, unindo-se ao poder e
aos poderosos, tornou-se cúmplice da exploração. Só com a reforma das estruturas e o
engajamento sócio-político, a Igreja se tornará libertadora. As violências não
são ideais, mas se for preciso "matar por amor", devemos recorrer à
força quando nos falta outro caminho. Exatamente aqui está um grande erro: o caminho
da violência, da luta, do ódio não é, nem pode ser, o caminho de Cristo: único
caminho, verdade e vida. Para
justificar suas posições, a Teologia da Libertação precisa reformar o
cristianismo. As conseqüências normais da Teologia da Libertação no
cristianismo são principalmente as seguintes:
1.
Parte-se da suposição, admitida sem nenhum espírito crítico de conformidade ou
não com a realidade, como verdade científica que toda à história da humanidade
deve ser interpretada como luta de classe, dos opressores contra os oprimidos.
E que os oprimidos, despertados e sacudidos por esta injustiça social, se devem
libertar. É
evidentemente um exagero: a economia fortemente influi na história, mas não a
decide. O cristianismo não pregou a luta de classes, mas Cristo encareceu a
fraternidade e o amor entre os homens. A maior transformação social, operada na
humanidade, se deve exatamente ao cristianismo. Cristo, em outras palavras, não
foi um revolucionário libertador dos pobres e escravos, mas o Salvador de todos
os homens, de qualquer situação social ou econômica. Não armou os escravos
contra os senhores, mas ensinou que o escravo é nosso irmão, não só com a
dignidade humana mas até mesmo como filho adotivo de Deus. Um
exemplo desastroso dessa análise marxista da história da Igreja nos é dado pela
CEHILA, na História da Igreja na América Latina, como já nos referimos. Há
evidente má vontade em distorcer os latos e as personalidades e ignorância
supina de nossas tradições religiosas. Assim a Igreja no Brasil teria
sido a opressora dos pobres, enquanto, em homenagem ao ecumenismo, os invasores
protestantes holandeses e franceses teriam sido os heróis da libertação da
nossa Pátria. Recordemos ainda que a pessoa de Cristo liberacionista
lhe tira a auréola de Filho de Deus feito homem e o considera um simples homem, como o "tal Jesus",
fabricado nos moldes secularizantes da Teologia da Libertação. Quando denunciei
este programa radiofônico, endereçado às comunidades eclesiais de base, fui
taxado de exagerado e até de visionário.
2. Claramente essa
concepção da história e da realidade presente se projeta não só em Cristo mas
também na própria Igreja, dividindo-a em Igreja dos pobres (Igreja Popular,
tipicamente classista) e Igreja dos ricos (a Igreja institucional que se
compromete com os ricos para exercer um paternalismo com os pobres). Leva à divisão na Igreja, exigindo uma nova
linha pastoral que combate não só os ricos, inimigos da classe proletária, mas
se opõe às próprias exigências da autoridade eclesiástica que não concorda com
a tese liberacionista. Vale,
assim, a palavra do Papa, quando fala de "opção preferencial dos
pobres", não vale, porém, e deve ser boicotada quando não valoriza o
"pecado social" das estruturas, quando denuncia erros e abusos da
Teologia da Libertação radical,
3. A Igreja
dos pobres é tipicamente classista: é a Igreja Popular, baseada nas comunidades
de base, que representam o povo oprimido, que por ser eficiente instrumento de
libertação, deve ser a voz da justiça e da verdade, interpretando desta forma
nova e "científica" a Cristologia e a Eclesiologia tradicional da
Igreja Católica. Será, portanto, a práxis revolucionária o modo de agir, neste
movimento de libertação, a fonte da verdade e do bem.
4.
Assim, deixando de lado a Doutrina Social da Igreja, se deve fazer a leitura
política da Sagrada Escritura, sobretudo do Êxodo e do Magnficat, a
secularização do Reino de Deus, as interpretações do Magistério e da Tradição. É por isso que o documento da Sagrada
Congregação para a Doutrina da Fé afirma que tal falsa interpretação da
Teologia da Libertação, abarca todo o conjunto da doutrina cristã. Por exemplo:
a Missa é oportunidade, em uma reunião social, de tratar e discutir os
problemas da libertação e não admira que a procissão de Corpus Christi não seja
para os liberacionistas o louvor a Cristo presente na Eucaristia, mas excelente
ocasião de um comício político e liberacionista.
4. A Libertação no Paraíso Socialista
Os
teólogos da Libertação pouco falam da sociedade futura, mas repõem suas esperanças
em um socialismo democrático, que se quiséssemos saber qual é o seu figurino,
nos responderiam: Nicarágua. É verdade que não diriam Rússia e seus satélites,
embora tenham embarcado na libertação de análise marxista, esperando, talvez,
descer do bonde ainda em movimento, antes de chegar ao ponto final. Assim
pensava um prelado vietnamita, ilustre mas ingênuo, mas que foi tragado pelos
trágicos acontecimentos de seu país e hoje deve lamentar-se da escravidão e do
inferno, em que se encontram ele e os seus libertados, Mas na
Nicarágua, a situação é diferente, dirão alguns que para lá viajam
freqüentemente, suponho às custas da "opção pelos pobres". Outros
chegaram a endossar, com alegria, as divisas militares sandinistas (eles que
demonstram horror pelos militares!). Nicarágua é proposta como uma nova e feliz
mensagem de libertação para toda a América Latina. Entre o Papa e os
sandinistas, preferem naturalmente estes últimos e demonstram sua solidariedade
aos sacerdotes envolvidos no Governo Sandinista, mesmo quando em flagrante
desobediência às leis canônicas. Que elementos da hierarquia
católica tenham apoiado o sandinismo, em tempos difíceis de ilusória esperança
liberacionista de um regime injusto, se entende. Mas que ainda hoje, caída a
máscara do sandinismo, e em face de sua oposição à Roma, ao Papa, com uma
Igreja Popular, haja prelados a fazer a opção sandinista, assumem uma
gravíssima responsabilidade contra o povo fiel, que devem guiar para o bom
caminho! Diante do histórico e patente mito da libertação marxista e
do paraíso proletário (não precisaria, então, ser cercado como é ainda que em
um campo de concentração!), vê-se que esses clássicos lutadores pela libertação
dos pobres, não são amigos da liberdade dos indivíduos. Os seus direitos pessoais,
a começar da liberdade religiosa, não têm vigência nos países dominados pelo
marxismo, ponto final da análise marxista. É uma séria advertência
aos liberacionistas de não destruírem com seus métodos, tomados ao marxismo,
aquele conjunto de verdadeiras e justas aspirações que animaram suas intenções
e sua luta. Na verdade, defender a ortodoxia, é defender os pobres,
com a força cristã do amor.
.
III - PERIGOS
1. Lavagem cerebral
Imagino
a tristeza de uma mãe que formou carinhosamente seu filho, na sólida doutrina
cristã e nas virtudes, ouvi-lo depois de um período no Seminário, agressivo e
rebelado contra tudo e contra todos que lhe haviam ensinado um cristianismo,
julgado agora, depois de sua deformação pessoal, como superado e viciado. E tal
lavagem cerebral foi realizada não num campo de concentração nazista ou
comunista, mas numa instituição, mantida pela caridade cristã, até com
sacrifícios dos fiéis. Formou-se um alguém, podendo ter como modelos Camilo
Torres ou Che Guevara. A pretexto da libertação da classe oprimida, silenciará
sua língua a mensagem evangélica do amor cristão, do coração aberto a todos os
homens, enquanto crescem nele a aversão, o espírito de luta, exatamente o
contrário de quanto se deve esperar de um ministro do Senhor, como traço de
união entre pobres e ricos. O pobre jovem contraiu a doença da
revolta contra as estruturas e os demais, que não julgam como ele, pois estão
do outro lado, naturalmente junto aos opressores. A doença, ainda quando não é
mortal, debilita seu apostolado, podendo até mesmo levá-lo ao abandono do
ministério sacerdotal, como já ocorreu com outros. Quando a doença
se propaga podemos chegar à epidemia. Então até o ambiente fica empestado e,
para o bem da saúde pública é melhor eliminar o mal, os focos de infecção, como
faz o cirurgião. Francamente preferia estar enganado, bastando
admitir apenas uma póda em alguns institutos ou comunidades seminarísticas do
Brasil, para que a árvore da formação sacerdotal, possa produzir abundantes
frutos, onde quer que se prepare um futuro sacerdote.
2. Abuso da linha pastoral muito difundida
no Brasil
Encontrei
no jornal "Arquidiocesano" de Mariana, de 21/10/84, uma síntese clara
de quatro pontos em que Dom Edvaldo Gonçalves do Amaral, Bispo de Parnaíba, no
Piauí, apresentou ao Encontro das comunidades eclesiais de base de sua diocese
e que, por precisão e simplicidade de linguagem merece ser transcrito na
íntegra: "Há uma certa linha de pastoral na Igreja, infelizmente hoje
muito difundida no Brasil, que exibe características inaceitáveis sob o ponto
de vista da autêntica doutrina cristã e da reta práxis pastoral.
São
elas:
1. Um exagerado
horizontalismo - esquecendo a dimensão sobrenatural do homem e omitindo
sistemática e propositadamente toda e qualquer referência ao destino eterno e
ao sentido escatológico da vida humana.
2. Um pronunciado
classicismo, fomentando a luta de classes, a viva oposição entre ricos e
pobres, uma exacerbada justificação do pobre (que, segundo eles, seria bom só
pelo fato de ser pobre) com a conseqüente exclusão e condenação do rico (que
seria mau só pelo fato de ser rico), chegando a uma verdadeira guerra aos
ricos: daí imaginam uma dicotomia irreconciliável dentro da própria Igreja,
dividindo-se entre Igreja hierárquica e Igreja Popular, Igreja dos opressores
versus Igreja dos oprimidos.
3. Um reducionismo na
interpretação da Palavra de Deus - selecionando só o que convém à sua ideologia
e aceitando no ensinamento do Papa João Paulo II tão somente o que corrobora
seus pontos de vista, quando não chegam ao extremo de acusar o Papa de
colaborador do imperialismo americano e ativista político contra o socialismo
soviético.
4. Um envolvimento cada vez
mais ativo em política partidária, com uma indisfarçável aspiração política e
ao exercício do poder, camuflado, às vezes, em defesa dos direitos da Igreja ou
proteção aos pobres e marginalizados. Como conseqüência disso, uma crítica
irrazoável e sistemática a todos os atos do governo civil" .
3. Igreja Popular
Já
se escreveu muito sobre este tema. Parece, porém, impossível que se
instale, no Brasil, a Igreja Popular, não só pelo respeito e fidelidade de
nosso povo ao Santo Padre, como, por causa dos minguados frutos da malfadada
Igreja Brasileira, fundada há mais de 50 anos pelo bispo de Maura, Dom Carlos
Duarte Costa, que se rebelou contra o Papa. Por isso mesmo, os
liberacionistas primam em afirmar que não pretendem estabelecer uma nova
Igreja, mas sim uma teologia nova, viva, real, aplicada ao povo oprimido, mas
sempre dentro da Igreja Católica. Será uma tática para não afugentar o povo?
Entretanto, vão minando os fundamentos da Igreja Católica e colocando
outras pedras para substituir aquelas propostas pela Igreja, fiel a Pedro e a
Cristo, seu fundador. Órfão da Igreja Católica para defender a fé, é
a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé: não ouvi-la, desprezá-la,
negar-lhe o valor e autoridade, dissociá-la do Papa, é temeridade,
agressividade, luta, que pode merecer aplausos de certa imprensa escandalistica,
mas pode terminar mal. Não queremos prosseguir em nossas
considerações. A um bom filho basta a advertência de uma mãe
amorosa, que só lhe deseja o bem e a felicidade. Outras vozes lhe aconselham
libertar-se da escravidão; como ocorreu com o filho pródigo. O
orgulho, a popularidade, o aplauso, solidariedade e ala, rido dos outros, para
não enumerar outros fatores, são vozes tentadoras e péssimas conselheiras,
enquanto a humildade dos servos de Deus, dirá com confiança, como Maria:
"Faça-se em mim segundo a vossa vontade", revelada por Deus e
transmitida pela Igreja.
Conclusão
Se a
Teologia da Libertação focaliza e jorra maior luz para compreender e resolver
uma grave e real questão social e moral, como a da injustiça social, e orienta
sua linha pastoral para uma educação de sólida formação religiosa, como base de
novas práticas do amor cristão e da. fraternidade humana, só nos podemos
alegrar com este despertar para uma mais efetiva vivência cristã. Mas, se a
Teologia da Libertação quer obter a justiça social pela luta de classes, mesmo
quando empolgada por Lima falaz "opção preferencial pelos pobres", o
espírito cristão lhe adverte que a ideológica análise marxista, considerada
"acientífica", é caminho ilusório e errado. É o ensinamento e a
advertência sábia e prudente do Magistério da Igreja, mãe e mestra autorizada e
assistida por Deus, que tem uma experiência de 20 séculos. É
prudente e cristão, ouvir docilmente sua voz e os seus conselhos, repetidos
solenemente pelo documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.
Portanto, se alguém se encontra nesse rumo errado, é melhor retroceder e, com
humildade, retornar à casa paterna, como o fez o filho pródigo, certo de obter
a reconciliação e o perdão da misericórdia divina Se, porém, quiser
prosseguir na estrada liberacionista para a libertação dos pobres, no tempo e
na eternidade, é certo que não haverá policia da Igreja para conduzi-lo ao
cárcere ou manicômio. Livremente usando e abusando da liberdade que Deus lhe
deu, se conseguir ver triunfante, por manobras de astúcia ou até mesmo pela
violência, a libertação suspirada do proletariado, desembarcará numa sociedade
completamente diversa daquele paraíso terrestre que sonhou e apregoou e
verificará, então, que foi "pior a emenda que o soneto". É o mínimo
que lhe posso dizer, com a verdadeira história dos povos nas mãos e na mente.
Lastima também que o liberacionista não quis ouvir, durante sua vida de
sacerdote ou ao menos de fiei, o Pai amoroso que veste os lírios do campo e
sustenta os pássaros dos céus e, para guiar os homens para a verdadeira
salvação, fundou a Igreja, ordenando que ouvisse-mos sua voz... Menosprezada
a advertência da Igreja, preferiu ouvir outras vozes e ensinamentos, como os
nossos primeiros pais no paraíso, para se tornarem iguais a Deus. Foram
tentados por causa do orgulho ou da ânsia de popularidade? Não o saberei dizer.
Limito-me a registrar o fato, com espírito de fé e de docilidade à cátedra de
Pedro, e a manifestar minha tristeza, vendo como homens de talento, pela
Teologia da Libertação, deram grandes passos, mas fora da estrada.
EU VOS EXPLICO A TEOLOGIA DA
LIBERTAÇÃO
Cardeal Joseph Ratzinger
Para esclarecer a minha tarefa e a alinha intenção, com relação ao tema,
parecem-me necessárias algumas observações preliminares:
1) A teologia da libertação é fenômeno extraordinariamente Complexo. É
possível formar-se um conceito da teologia da libertação segundo o qual ela vai
das posições mais radicalmente marxistas até aquelas que propõem o lugar
apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os pobres e os
oprimidos no contexto de uma carreta teologia eclesial, como fizeram os
documentos do CELAM, de Medellin a Puebla. _________________
1O presente número já estava impresso quando foi publicado o documento
da Santa Sé sabre a Teologia da Libertação.
Será objeto de estudos no próximo número.
Neste nosso texto, usaremos o conceito "teologia da
libertação" em sentido mais restrito: sentido que compreende apenas
aqueles teólogos que, de algum modo, fizeram própria a opção fundamental
marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferenças que é
impossível aprofundar nesta reflexão geral. Neste contexto posso apenas tentar
pôr em evidência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas
matrizes, são muito difundidas e exercem certa influência mesmo onde não existe
teologia da libertação em sentido estrito.
2) Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se
manifesto um perigo fundamental paro a fé da Igreja. Sem dúvida, é
preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de
verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do
núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela
parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada
ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da
demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre
acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recupera-la plenamente?
3) A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de
vista:
a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado
teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar
novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma
nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de
realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as
formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese,
as opções morais;
b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na
América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente
latino-americano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de
teólogos europeus e também norte-americanos. Além do mais, existe também na
Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África - embora nesta última
esteja em primeiro plano a busca de uma "teologia africana". A união
dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada
aos temas da teologia da libertação;
c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais
conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote
católico e ensina hoje como professor em uma Faculdade protestante, mas
continua a se apresentar com o pretensão de estar acima das fronteiras
confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas
premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas
da Igreja devem perder a sua Importância,
I. O Conceito de Teologia da Libertação e os Pressupostos de sua Gênese
Essas observações preliminares, entretanto, já nos introduziram no
núcleo do tema. Deixam aberta, porém, a questão principal: o que é propriamente
o teologia da libertação? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer:
a teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do
Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e
pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas assim como,
segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um
conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação
política.
"Nada resta fora do empenho político. Tudo existe com uma colocação
política" (Gutierrez). Uma teologia que não seja "prática (o que
significa dizer "essencialmente política") é considerada
"idealista" e condenada como irreal ou como veículo de conservação
dos opressores no poder, Para um teólogo que tenha aprendido a sua teologia na
tradição clássica e que tenha aceitado a sua vocação espiritual, é difícil
imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em
um esquema de práxis sócio-político de libertação. A coisa é, entretanto, mais
difícil, já que os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da
linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que
aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão
de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações
um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão
perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da libertação faz com que a
sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema
de heresia até hoje existente, A sua colocação, já de partida, situa-se fora
daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discussão. Por isto
tentarei abordar a orientação fundamental da teologia da libertação em duas
etapas: primeiramente é necessário dizer algo acerca dos pressupostos que a
tornaram possível; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que
permitem conhecer algo da estrutura da teologia da libertação. Como se chegou a
esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na
leolog1a da libertação? Vejo principalmente três: fatores que a tornaram
possível.
1) Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:
a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não
era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, o partir da
Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais
totalmente novas;
b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se
freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências
humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e
problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da
história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como
instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;
c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna,
especialmente o de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, instância teológica
inamovível que barrou a estrada às formas até então válidas da teologia,
encorajando assim também novas construções.
2) A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da
historia espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução
após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o
término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de
significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em
condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do
neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma
promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O
marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de
rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos
de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio
da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da
mensagem bíblica.
3) O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar,
no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até
então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que não
se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação
teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar o resposta em um
cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente
fundados cientificamente, das filosofias marxistas,
II. A Estrutura Gnoseológica Fundamental do Teologia do Libertação
Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de
teologia da libertação, teologia da evolução, teologia política, etc. Não pode,
pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos
fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes variações e exprimem
comuns intenções de fundo. Antes de passar aos conceitos fundamentais do
conteúdo, é necessário fazer uma observação a cerca dos elementos estruturais
do teologia da libertação. Paro tal, podemos retomar o que já afirmamos acerca
da situação teológica mudada após o Concilio. Como já disse, leu-se a exegese
de Bultmann e da sua escola como um enunciado da "ciência" sobre
Jesus, ciência que devia obviamente ser considerado como válida. O "Jesus
histórico" de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo
(o próprio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da fé. Segundo Bultmann,
Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo. porém,
encerrado no mundo do judaísmo. O resultado final dessa exegese consistiu em
abalar a credibilidade histórica dos Evangelhos: o Cristo da tradição eclesial
e o Jesus histórico apresentado pela ciência pertencem evidentemente a dois
mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua colocação na
tradição por ação da ciência, considerada como instância suprema; deste modo,
por um lado, a tradição pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro,
devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpretação e um novo
significado. Bultmann, portanto, adquiriu importância não tanto pelas suas
afirmações positivas quanto pelo resultado negativo da sua crítica: o núcleo da
fé, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpretações porque os seus
enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados
historicamente insustentáveis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magistério da
Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente
insustentável e, portanto, sem valor como instância cognoscitiva sobre Jesus.
Os seus anunciados podiam ser considerados somente como definições frustadas de
uma posição cientificamente superada.
Além disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de
uma segunda palavra-chave. Ele trouxe à moda o antigo conceito de hermenêutica,
conferindo-lhe uma dinâmica nova. Na palavra "hermenêutica" encontra
expressão a idéia de que uma compreensão real dos textos históricos não
acontece através de uma mera interpretação histórica; mas toda interpretação
histórica inclui certas decisões preliminares. A hermenêutica tem a função de
"atualizar", em conexão com a determinação de dado histórico. Nela,
segundo o terminologia clássica, se trata de um "fusão dos
horizontes" entre "então" ["naquele tempo"] e o
"hoje". Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o
então ("naquele tempo"), nos dias de hoje? O próprio Bultmann
respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou,
deste modo, a Bíblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, não
apresenta mais algum interesse; neste sentido Bultmann foi superado pela
exegese atual. Mas permaneceu a separação entre a figura de Jesus da tradição
clássica e a idéia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente,
através de uma nova hermenêutica.
A este ponto, surge o segundo elemento, já mencionado, da nossa
situação: o novo clima filosófico dos anos sessenta. A análise marxista do
história e da sociedade foi considerada, nesse ínterim, conto a única dotada de
caráter "cientifico", isto significa que o mundo é interpretado à luz
do esquema da luta de classes e que a única escolha possível é entre capitalismo
e marxismo. Significa, além disso, que toda a realidade é política e que deve
ser justificada politicamente. O conceito bíblico do "pobre" oferece
o ponto de partida para a confusão entre a imagem bíblica da história e a
dialética marxista; esse conceito é interpretado com a idéia de proletariado em
sentido marxista e justifica também o marxismo como hermenêutica legitima para
a compreensão da Bíblia. Ora, Segundo essa compreensão, existem, e só podem
existir, duas opções; pai isso, contradizer essa interpretação da Bíblia não é
senão expressão do esforço da classe dominante para conservar o próprio poder,
Gutierrez afirma: "A luta de classes é um dado de fato e a neutralidade
acerca desse ponto é absolutamente impossível". A partir dai, torna-se
impossível até a intervenção do magistério eclesiástico: no caso em que este se
opusesse a tal interpretação do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado
dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto é, contra
o próprio Jesus, e, na dialético da história, aliar-se-ia à parte negativo.
Essa decisão, aparentemente "científica" e
"hermeneuticamente" indiscutível, determina por si o rumo da ulterior
interpretação do Cristianismo, seja quatro às instancias interpretativas, seja
quatro aos conteúdos interpretados. No que diz respeito as instâncias
interpretativas, os conceitos decisivos são: povo, comunidade, experiência,
história. Se até então a Igreja, isto é, a Igreja Católica na Sua totalidade,
que, transcendendo tempo e espaço, abrange os leigos (sensus fidei) e a
hierarquia (magistério), fora a instância hermenêutica fundamental, hoje
tornou-se a "comunidade" tal instância. A vivência e as experiências
da comunidade determinam agora a compreensão e a interpretação da Escritura. De
novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito científica, que a figura de
Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma síntese de acontecimentos e
interpretações da experiência de comunidades particulares, onde no entanto a
interpretação é muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, não é
mais determinável. Essa síntese original de acontecimento e interpretação pode
ser dissolvida e reconstruída sempre de novo: a comunidade
"interpreta" com a sua "experiência" os acontecimentos e
encontra assim sua "práxis". Esta idéia, podemos encontra-la em
modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a
acentuação conciliar da idéia de "povo de Deus" em mito marxista. As
experiências do "povo" explicam a Escritura. "Povo"
torna-se assim um conceito aposto ao de "hierarquia" e em
antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.
Afinal, é "povo" quem participa da "lula de
classes"; a "igreja popular" acontece em oposição à Igreja
hierárquica. Por fim, o conceito de "história" torna-se instância
hermenêutica decisiva. A opinião, considerada cientificamente segura e
irrefutável, de que a Bíblia raciocine em termos exclusivamente de história da
salvação, e portanto de maneira anti-metafísica. permite a fusão do horizonte
bíblico com a idéia marxista da história que procede dialeticamente como
autêntica portadora de salvação; a história é o autêntica revelação e portanto
a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica. Tal dialético é
apoiado, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, também esta última,
no magistério que insiste em verdades permanentes, vê uma instância inimiga do
progresso, dado que pensa "metafisicamente" e assim contradiz a
"história". Pode-se dizer que o conceito de história absorve o
conceito de Deus e de revelação. A "historicidade" da Bíblia deve
justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar,
ao mesmo tempo, a passagem para a filosofia materialista-marxista, na qual a
história assumiu a função de Deus.
III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Libertação
Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova
interpretação do Cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem
os diversos conceitos são diferentes, gostaria de citar alguns deles, sem a
pretensão de esquematiza-los. Comecemos pela nova interpretação da fé, da
esperança e da caridade. Com relação a fé, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a
experiência que Jesus tem de Deus é radicalmente histórica. "A sua fé
converte-se em fidelidade". Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o
fé pela "fidelidade à história" (fidelidad a la historia, 143-144).
Jesus é fiel à profunda convicção de que o mistério da vida do homem ... é
realmente o último ... (144). Aqui produz-se aquela fusão entre Deus e história
que dá a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a fórmula de
Calcedônia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os
critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis à análise dessa teologia,
Ignacio Ellacuria, na capa do livro sobre este assunto, afirma: Sobrinho
"diz de novo ... que Jesus é Deus, acrescentando, porém, imediatamente,
que o Deus verdadeiro é somente aquele que se revela historicamente em Jesus e
nos pobres, que continuam a sua presença. Somente quem mantém unidas essas duas
afirmações, é ortodoxo ...".
A esperança é interpretada como "confiança no futuro" e como
trabalho pelo futuro; com isso elo é subordinado novamente ao predomínio da
história das classes.
"Amor" consiste na "opção pelos pobres", isto é,
coincide com a opção pela luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham
com força, diante do "falso universalismo", a parcialidade e o
carater partidário da opção cristã; tomar partido é, segundo eles, requisito fundamental
de uma correta hermenêutica dos testemunhos bíblicos. Na minha opinião, aqui se
pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do
Cristianismo e uma opção fundamental não cristã, que torna o conjunto tão
sedutor: o sermão da montanha é, na verdade, a escolha por parte de Deus a
favor dos pobres. Mas a interpretação dos pobres no sentido da dialética
marxista da histórla e a interpretação da escolha partidária no sentido da lula
de classes é um salto "eis allo genos" (grego: para outro gênero), no
qual as coisas contrarias se apresentam como idênticas.
O conceito fundamental da pregação de Jesus é o de "reino de
Deus". Este conceito encontra-se também no centro das teologia da
libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo J.
Sobrinho, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem
universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser
compreendido em forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir
da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o que seria o
reino: trabalhar na realidade histórica que nos circunda para transformá-la no
reino (166). Aqui ocorre mencionar também uma idéia fundamental de certa
teologia pós-conciliar que impulsionou nessa direção. Muitos apregoaram que,
segundo o Concílio, se deveriam superar todas as formas de dualismo: o dualismo
de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de
presente e futuro. Após o desmantelamento desses duolismos, resta apenas a possibilidade
de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade
político-econômica.
Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e
se começou a destruir o presente, a favor de um futuro hipotético: assim
produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo,
Neste contexto gostaria de mencionar também a interpretação,
impressionante e definitivamente espantosa, que Sobrinho dá da morte e da
ressurreição. Antes do mais, ele estabelece, contra as concepções universalistas,
que a ressurreição é, em primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são
crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milhões aos
quais a injustiça estrutural se impõe como uma lenta crucifixão (176 e
seguintes). O crente, no entanto, participa também do senhorio de Jesus sobre a
história, através da edificação do reino, isto é, na luta pela justiça e pela
libertação integral, na transformação das estruturas injustas em estruturas
mais humanas. Esse senhorio sobre o história é exercitado ao se repetir o gesto
dê Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos crucificados da
história (181). O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transformação total da
mensagem bíblica se manifesta de maneiro quase trágica, se se pensa em como
essa tentativa de imitação de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda.
Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: o êxodo se transforma
em uma imagem central da história da salvação; o mistério pascal é entendido
como um símbolo revolucionário e, portanto, a Eucaristia é interpretada como
uma festa de libertação no sentido de uma esperança político-messiânica e da
sua práxis. A palavra redenção é substituída geralmente por libertação, a qual,
por sua vez, é compreendida, no contexto da história e da luta de Classes, como
processo de libertação que avança, por fim, é fundamental também a acentuação
da práxis: a verdade não deve ser compreendido em sentido metafísico; trata-se
de "idealismo". A verdade realiza-se na história e na práxis, A ação
é a verdade. Por conseguinte, também as idéias que se usam para ação, em
última instância são intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis. A
práxis torna-se, assim, o única .e verdadeira ortodoxia. Desta forma
justifica-se um enorme afastamento dos textos bíblicos: a crítica histórica
liberta da interpretação tradicional, que aparece como não-científica. Com
relação ó tradição, atribui-se importância ao máximo rigor cientifico na linha
de Buftmann. Mas os conteúdos da Bíblia, determinados historicamente, não
podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a
interpretação não é, em última análise, a pesquisa histórica, mas, sim, a
hermenêutica da história, experimentada na comunidade, isto é, nos grupos
políticos, sobretudo dado que a maior parte dos próprios conteúdos bíblicos
deve ser considerada como produto de tal hermenêutica comunitária.
Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando
alguém procura compreender as opções fundamentais da teologia da libertação não
pode negar que o conjunto contém uma lógica quase incontestável. Comi as
premissas da critica bíblica e da hermenêutica fundada na experiência, de um
lado, e da análise marxista da história, de outro, conseguiu-se criar uma visão
de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto às exigências
da ciência, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, impõe-se
aos homens de modo imediato o tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da
transformação concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as forças
progressistas da nossa época. Pode-se, pois, compreender como esta nova
interpretação do Cristianismo atraia sempre mais teólogos, sacerdotes e
religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo.
Subtrair-se a ela deve necessariamente aparecer aos olhos deles como uma evasão
da realidade, como uma renúncia à razão e à moral. Porém, de outra parte,
quando se pensa o quanto seja radical a interpretação do Cristianismo que dela
deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer
frente a ela.
* * *
À guisa de comentário, parece oportuno salientar os seguintes pontos:
1) A Teologia da Libertação não é um novo tratado teológico ao lado de
outros já existentes, mas é uma nova interpretação do Cristianismo, que revira
radicalmente as verdades da fé, a constituição da Igreja, a Liturgia, a
catequética e as opções morais.
2) Todos os valores e toda a realidade são considerados do ponto de
vista político. Uma teologia que não seja essencialmente política, é encarada
como fator de conservação dos apressares no poder.
3) A dificuldade de se perceber esse caráter subversiva da Teologia da
Libertação está, em grande parte, no fato de que os seus arautos continuam a
usar a linguagem ascética e dogmática da Igreja, embora em chave nova. Isto dá
aos observadores a impressão de que estão diante do patrimônio da fé acrescido
de algumas afirmações religiosas que não podem ser perigosas.
4) A gravidade da Teologia da Libertação não é suficientemente avaliada;
não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente.
5) O cristão não pode ser, de forma alguma, insensível à miséria dos
povos do Terceiro Mundo. Todavia, para acudir cristãmente a tal situação, não
lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a
Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos
Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e
penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os
homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes.
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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