SANTO DOMINGO

 

IV CONFERÊNCIA DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO

 

NOVA EVANGELIZAÇÃO, PROMOÇÃO HUMANA E CULTURA CRISTÃ

 

“Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8)

 

 

7ª Edição

 

Tradução oficial da CNBB

 

 

 

DISCURSO DE ABERTURA DO PAPA JOÃO PAULO II À IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO EM SANTO DOMINGO

 

Queridos Irmãos no Episcopado,

 

Amados Sacerdotes, Religiosos, Religiosas e Leigos

l. Sob a guia do Espírito Santo, a quem acabamos de invocar fervorosamente para que ilumine os trabalhos desta importante Assembléia eclesial, inauguramos esta IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, pondo nossos olhos e nosso co­ração em Jesus Cristo, "o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade" (Hb 13,8). Ele é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega (Ap 21,6; cf. 1,8; 22,13), a plenitude da Evangelização, "o primeiro e o maior dos evangelizadores. Ele foi isso mesmo até o fim, até a perfeição, até ao sacrifício da sua vida terrena" (Evangelii nuntiandi, 7).

Sentimos muito viva nesta celebração a presença de Jesus Cristo, Senhor da História. Em seu nome se reuniram os Bispos da América Latina nas Assembléias anteriores - Rio de Janeiro em 1955; Me­dellín em 1968; Puebla em 1979 -, e em Seu mesmo nome nos reunimos agora em Santo Domingo, para tratar o tema "Nova Evangelização, Promoção humana, Cultura cristã", que engloba as grandes questões que, de aqui para o futuro, deve enfrentar a Igreja diante das novas situações que emergem na América Latina e no mundo.

Esta, queridos Irmãos, é uma hora de graça para todos nós e para a Igreja que peregrina na América. Na verdade, para a Igreja universal que nos acompanha com sua oração, com essa comunhão profunda de corações que o Espírito Santo gera em todos os mem­bros do único Corpo de Cristo. Hora de graça e também de grande responsabilidade. Diante dos nossos olhos já se vislumbra o terceiro milênio. E se a Providência divina nos convocou para Lhe dar graças pelos quinhentos anos de fé e de vida crista no Continente america­no, com maior razão podemos dizer que nos convocou também para renovar-nos interiormente, e para "distinguir os sinais dos tempos" (cf. Ml 16,3). Na verdade, a chamada à nova evangelização é antes de tudo uma chamada à conversão. De fato, mediante o testemunho de uma Igreja cada vez mais fiel à sua identidade e mais viva em todas as suas manifestações, os homens e os povos poderão conti­nuar a encontrar Jesus Cristo e, n'Ele, a verdade da sua vocação e da sua esperança, o caminho em direção a uma humanidade melhor.

Olhando para Cristo, "com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus" (Hb 12,2), seguimos a senda percorrida pelo Concílio Vaticano II, cujo XXX aniversário da sua inauguração foi ontem lembrado. Daí que, ao inaugurar esta magna Assembléia, desejo recordar aquelas expressivas palavras pronunciadas pelo meu venerável predecessor, o Papa Paulo VI, na abertura da segun­da sessão conciliar:

"Cristo! Cristo, nosso princípio,

Cristo, nossa vida e nosso guia. Cristo, nossa esperança e nosso fim...

Que não desça sobre esta Assembléia outra luz, a não ser a luz de Cristo, luz do mundo.

Que nenhuma outra verdade atraia a nossa mente, fora das palavras do Senhor, único Mestre.

Que não tenhamos outra aspiração, que não seja o desejo de Lhe sermos absolutamente fiéis.

Que nenhuma outra esperança nos sustente, a não ser aquela que, mediante a Sua palavra, conforta a nossa debilidade...".

I. JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE

2. Esta Conferência reúne-se para celebrar Jesus Cristo, para dar graças a Deus por Sua presença nestas terras americanas, donde, faz hoje 500 anos, começou a difundir-se a mensagem da salvação; reúne-se para celebrar a implantação da Igreja que, durante estes cinco séculos, tão abundantes frutos de santidade e de amor deu ao Novo Mundo.

Jesus Cristo é a verdade eterna que se manifestou na plenitude dos tempos. E precisamente, para transmitir a Boa-Nova a todos os povos, fundou a Sua Igreja com a missão específica de evangelizar: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16,15). Pode-se dizer que nestas palavras está contida a solene proclamação da evangelização. Assim, pois, desde ò dia em que os Apóstolos receberam o Espírito Santo, a Igreja recebeu a tarefa da Evangelização. São Paulo o exprime numa &ase lapidar e emblemá­tica: "Evangelizarelesum Christum'; "Evangelizar a Jesus Cristo" (G1 1,16). Foi o que fizeram os discípulos do Senhor, em todos os tempos e em todas as latitudes do mundo.

3. Neste singular processo, o ano de 1492 encerra uma data chave. Com efeito, no dia 12 de outubro - faz hoje exatamente cinco séculos Almirante Cristóvão Colombo com suas três caravelas procedentes da Espanha, chegou a estas terras e nelas fincou a cruz de Cristo. No entanto, a evangelização propriamente dita começou com a segunda viagem dos descobridores, que vieram acompanhados dos primeiros missionários. Iniciava-se assim a semeadura do dom precioso da fé. E como não dar graças a Deus por ela, junto convosco, queridos Irmãos Bispos, que hoje tornais presentes aqui em Santo Domingo todas as Igrejas particulares da América Latina? Como não dar graças pela semente plantada ao longo destes cinco séculos por tantos e tão intrépidos missio­nários!

Com a chegada do Evangelho à América, a história da salvação se expande, cresce a família de Deus, multiplica-se "para a glória de Deus o número dos que Lhe dão graças" (2Cor 4,15). Os povos do Novo Mundo eram "povos novos...totalmente desconhecidos para o Velho Mundo até ao ano de 1492", porém, "eram conhecidos desde toda a eternidade por Deus, e por ele sempre abraçados com a paternidade que o Filho revelou na plenitude dos tempos" (G1 4,4) (Homilia, 1 de janeiro de 1992). Nos povos da América, Deus escolheu para Si um novo povo, incorporou-o ao Seu desígnio redentor, fazendo-o participar do Seu Espírito. Mediante a evange­lização e a fé em Cristo, Deus renovou Sua aliança com a América Latina.

Demos, pois, graças a Deus pela plêiade de evangelizadores que deixaram sua pátria e deram sua vida para semear no Novo Mundo a vida nova da fé, da esperança e do amor. O seu móbil não era a lenda do "Eldorado", nem mesmo interesses pessoais, mas a cha­mada urgente a evangelizar irmãos que não conheciam a Jesus Cristo. Eles anunciaram "a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens" (Tf 3,4), a povos que ofereciam aos seus deuses inclusive sacrifícios humanos. Eles testemunharam, com a sua vida e com a sua palavra, a humanidade que brota do encontro com Cristo. Pelo seu testemunho e sua pregação, o número de homens e mulheres, que se abriam à graça de Cristo, multiplicou-se "como as estrelas do céu e inumerável como as areias das praias" (Hb 11,12). 4. Desde os primeiros passos da evangelização, a Igreja Católica, movida pela fidelidade ao Espírito de Cristo, foi defensora infa­tigável dos índios, protetora dos valores que havia em suas cultu­ras, promotora de humanidade diante dos abusos de colonizadores, às vezes sem escrúpulos. A denúncia das injusti­ças e das violações feita por Montesinos, Las Casas, Córdoba, Frei Juan dal Valle e muitos outros, foi como um clamor que propiciou uma legislação inspirada no reconhecimento do valor sagrado da pessoa. A consciência cristã aflorava com valentia profética nessa cátedra de dignidade e de liberdade que foi, na Universidade de Salamanca, a Escola de Vitória (c£ Discurso, 14 de maio de 1991), e em tantos outros exímios defensores dos nativos, na Espanha e na América Latina. Nomes que são bem conhecidos e que, por ocasião do V Centenário, foram lembrados com admiração e gratidão. De minha parte, e para precisar os perfis da verdade histórica pondo em relevo as raízes cristãs e a identidade católica do Continente, sugeri que se celebrasse um Simpósio Internacional sobre a História da Evangelização da América, organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina. Os dados históricos mostram que foi levada a cabo uma válida, fecunda e admirável obra evangelizadora e que, através dela, ganhou de tal modo espaço na América a verdade sobre Deus e sobre o homem que, de fato, ela mesma constitui uma espécie de tribunal de acusação dos responsáveis daqueles abu­sos.

Da fecundidade da semente evangélica depositada nestas terras abençoadas, pude ser testemunha durante as viagens apostólicas, que o Senhor me permitiu realizar nas vossas Igrejas particulares. Como não manifestar abertamente minha ardente gratidão a Deus, por ter-me concedido conhecer a realidade viva da Igreja na Amé­rica Latina! Nas minhas viagens ao Continente, assim como durante as vossas visitas "ad Limina", e em outros diversos encontros - que fortaleceram os vínculos da colegialidade episcopal e a co-respon­sabilidade na solicitude pastoral por toda a Igreja - pude comprovar repetidamente o vigor da fé das vossas comunidades eclesiais e também medir a dimensão dos desafios para a Igreja, ligada indis­soluvelmente à mesma sorte dos povos do Continente.

5. Esta Conferência Geral reúne-se para preparar as linhas mestras de uma ação evangelizadora, que ponha Cristo no coração e nos lábios de todos os latino-americanos. Esta é a nossa tarefa: fazer que a verdade sobre Cristo e a verdade sobre o homem penetrem ainda mais profundamente em todos os segmentos da sociedade e a transformem (cf. Discurso à Pontifícia Comissão para a América Latina, 14 de junho de 1991). Nas suas deliberações e conclusões, esta Conferência deverá saber conjugar os três ele­mentos doutrinais e pastorais, que constituem como as três coor­denadas da nova evangelização: Cristologia, Eclesiologia e Antropologia. Contando com uma profunda e adequada Cristo­logia (cf. Discurso à II Assembléia Plenária da Pontifícia Comis­são para América Latina, 3), e baseados numa sadia antropologia e com uma clara e reta visão eclesiológica, deveis enfrentar os desafios que se apresentam hoje à ação evangelizadora da Igreja na América.

Em continuação, desejo compartilhar convosco algumas reflexões que, seguindo a pauta do tema da Conferência e como sinal de profunda comunhão e co-responsabilidade eclesial, vos ajudem na vossa solicitude de Pastores, dedicados generosamente ao serviço do rebanho que o Senhor vos confiou. Trata-se de apresentar algu­mas prioridades, a partir da perspectiva da nova evangelização.

II. NOVA EVANGELIZAÇÃO

6. A nova evangelização é a idéia central de toda a temática desta Conferência.

Desde o meu encontro, no Haiti, com os Bispos do CELAM em 1983, venho pondo uma particular ênfase nesta expressão, para das errar assim um novo ardor e novos esforços evangelizadores na "América e no mundo inteiro; ou seja, para dar à ação pastoral um novo impulso, capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais arraigada na força e na potência imorredouras do Pentecostes, tempos novos de evangelização" (Evangeii nuntiandi, 2).

A nova evangelização não consiste num "novo evangelho", que surgiria sempre de nós mesmos, da nossa cultura ou da nossa análise, sobre as necessidades do homem. Por isso, nâo seria "evangelho" mas pura invenção humana, e a salvação não se encontraria nele. Nem mesmo consiste em retirar do Evangelho tudo aquilo que parece dificilmente assimilável. Não é a cultura a medida do Evan­gelho, mas Jesus Cristo é a medida de toda a cultura e de toda obra humana. Não, a nova evangelização não nasce do desejo de "agradar aos homens" ou de "procurar o seu favor" (cf GI 1,10), mas da responsabilidade pelo dom que Deus nos fez em Cristo, pelo qual temos acesso à verdade sobre Deus e sobre o homem, e à possibi­lidade da vida verdadeira.

A nova evangelização tem, como ponto de partida, a certeza de que em Cristo há uma "riqueza insondável" (Et 3,8), que não extingue nenhuma cultura de qualquer época, e à qual nós homens sempre poderemos recorrer para enriquecer-nos (c£ Assembléia especial do Sínodo dos Bispos da Europa, Declaração final, 3). Essa riqueza é, antes de tudo, o próprio Cristo, sua pessoa, porque Ele mesmo é a nossa salvação. Nós homens de qualquer época e de qualquer cultura, aproximando-nos d'Ele mediante a fé e a incorporação ao seu Corpo, que é a Igreja, podemos encontrar a resposta àquelas perguntas, sempre antigas e sempre novas, que se nos apresentam, no mistério da nossa existência, e que de modo indelé­vel levamos gravadas em nosso coração desde a criação e desde a ferida do pecado.

7. A novidade não afeta o conteúdo da mensagem evangélica que não muda, pois Cristo é "sempre o mesmo: ontem, hoje e sem­pre". Por isso, o Evangelho há de ser proclamado em total fidelidade e pureza, assim como foi conservado e transmitido pela Tradição da Igreja. Evangelizar é anunciar uma pessoa, que é Cristo. De fato, "não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus, não forem anunciados" (Evangelii nuntiandi, 22). Por isso, as cristologias redutivas, cujos desvios assinalei em diversas ocasiões (cf. Discurso inaugural da Confe­rência de Puebla, 28 de janeiro de 1979, I,4), não podem aceitar-se como instrumentos da nova evangelização. Ao evangelizar, a unidade da fé da Igreja tem que resplandecer não somente no magistério autêntico dos Bispos, mas também no serviço à ver­dade por parte dos pastores de almas, dos teólogos, dos catequis­tas, e de todos os que estão comprometidos na proclamação e pregação da fé.

A este respeito, a Igreja estimula, admira e respeita a vocação do teólogo, cuja "função é adquirir uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus, contida na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva da Igreja" (Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo, n. 6). Esta vocação, nobre e necessária, surge no interior da Igreja e pressupõe a condição de crente no próprio teólogo, com uma atitude de fé que ele mesmo deve testemunhar na comunidade. "A reta consciência do teólogo católico supõe, portan­to, a fé na Palavra de Deus (...), o amor à Igreja, da qual ele recebe a sua missão, e o respeito pelo Magistério divinamente assistido" (Ibid, 38). A teologia está chamada a prestar um grande serviço à nova evangelização.

8. Certamente é a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). Existem, porém, posições inaceitáveis sobre o que é a verdade, a Liberdade, a consciência. Chega-se, inclusive, a justificar a dissensão recor­rendo "ao pluralismo teológico, levado às vezes até a um relati­vismo, que põe em perigo a integridade da fé". Não faltam os que pensam que "os documentos do Magistério não seriam nada mais que o reflexo de uma teologia opinável" (Ibid, 34); e "surge assim uma espécie de `magistério paralelo' dos teólogos, em oposição e em concorrência com o Magistério autêntico" (ibid. ). Por outro lado, não podemos minimizar o fato de que "os comportamentos de oposição sistemática à Igreja, que chegam até mesmo a cons­tituir-se em grupos organizados", a contestação e a discórdia, da mesma forma que "causam graves inconvenientes para a comu­nhão da Igreja", são também um obstáculo para a evangelização (cf.Ibid., 32).

A confissão da fé - "Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre" (Hb 13,8) - que é como o pano de fundo do tema desta IV Conferência, nos leva a recordar o seguinte versículo: "Não vos deixeis seduzir pela diversidade de doutrinas estranhas" (Hb 13,9). Vós, amados Pastores, deveis zelar sobretudo pela fé da gente simples que, em caso contrário, se veria desorientada e confundida. 9. Todos os evangelizadores deverão dar também uma especial

atenção à catequese. No início do meu Pontificado quis dar um novo impulso a esta tarefa pastoral, mediante a Exortação Apos­tólica Catechesi tradendae, e recentemente aprovei o Catecismo da Igreja Católica, que recomendo como o melhor dom que a Igreja pode fazer aos seus Bispos e ao Povo de Deus. Trata-se de um valioso instrumento para a nova evangelização, onde se com­pendia toda a doutrina que a Igreja deve ensinar.

Confio igualmente que o Movimento Biônico continue desenvol­vendo sua benéfica tarefa na América Latina, e que as Sagradas Escrituras nutram cada vez mais a vida dos fiéis, para o qual faz-se imprescindível que os agentes da pastoral aprofundem incansavel­mente na Palavra de Deus, vivendo-a e transmitindo-a aos demais com fidelidade, ou seja, "tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé" (Dei herbum, 12). Da mesma forma, o Movimento litúrgico deverá dar um renovado impulso à vivência íntima dos mistérios da nossa fé, levando ao encontro de Cristo Ressuscitado na liturgia da Igreja. É na celebração da Palavra e dos Sacramentos, mas sobretudo na celebração da Eucaristia, fonte e coroa da vida da Igreja e de toda a Evangelização, que se realiza nosso encontro salvífico com Cristo, a quem nos unimos mistica­mente formando a sua Igreja (cf. Lumen gentium, 7). Por isso, exorto-vos a dar um novo impulso à celebração digna, viva e parti­cipada das assembléias litúrgicas, com esse profundo sentido da fé e da contemplação dos mistérios da salvação, tão enraizado em vossos povos.

10. A "novidade" da ação evangelizadora a que temos convocado afeta a atitude, o estilo, o esforço e a programação ou, como 0 propus em Haiti, o ardor, os métodos e a expressão (cf.Discurso aos Bispos do CELAM, 9 de março de 1983). Uma evangelização nova no seu ardor supõe uma fé sólida, uma caridade pastoral intensa e uma fidelidade a toda prova que, sob o influxo do Espírito, gerem uma mística, um incontido entusiasmo na tarefa de anunciar o Evangelho. Na linguagem neotestamentária é a "parresia" que inflama o coração do apóstolo (cf. At 5,28-29; cf. Redemptoris missio, 45). Esta "parresia" há de ser também o selo do vosso apostolado na América. Nada vos pode fazer calar. Sois arautos da verdade. A verdade de Cristo há de iluminar as mentes e os corações com a ativa, incansável e pública proclamação dos valores cristãos.

Por outra parte, os novos tempos exigem que a mensagem crista chegue ao homem de hoje, mediante novos métodos de apostolado, e que seja expressada numa linguagem e forma acessíveis ao homem latino-americano, necessitado de Cristo e sedento do Evangelho: como tornar acessível, penetrante, válida e profunda a resposta ao homem de hoje, sem alterar ou modificar em nada o conteúdo da mensagem evangélica? Como chegar ao coração da cultura que queremos evangelizar? Como falar de Deus num mundo em que está presente um processo crescente de secularização?

11. Como o manifestastes nos encontros e nos colóquios que man­tivemos ao longo destes anos, tanto em Roma como nas minhas visitas às vossas Igrejas particulares, hoje a fé simples da vossa gente sofre a inves6da da secularização, com o conseqüente

enfraquecimento dos valores religiosos e morais. Nos ambientes urbanos cresce uma modalidade cultural que, confiando somente na ciência e nos adiantamentos da técnica, se apresenta como hostil à fé. Transmitem-se uns "modelos" de vida, em contraste com os valores do Evangelho. Sob a pressão do secularismo, chega-se a apresentar a fé como se fosse uma ameaça à liberdade e à autonomia do homem.

No entanto, não podemos esquecer que a história recente mos­trou que quando, ao amparo de certas ideologias, se negam a verdade sobre Deus e a verdade sobre o homem, é impossível construir uma sociedade de rosto humano. Com a queda dos regi­mes do chamado "socialismo real" na Europa oriental, é de se esperar que também neste Continente se tirem as conclusões perti­nentes em relação ao valor efêmero de tais ideologias. A crise do coletivismo marxista não teve somente raízes econômicas, como salientei na Encíclica Centesimus annus (n. 41), visto que a verdade sobre o homem está íntima e necessariamente ligada à verdade sobre Deus.

A nova evangelização há de dar assim uma resposta integral, pronta, ágil, que fortaleça a fé católica, nas suas verdades fundamen­tais, nas suas dimensões individuais, familiares e sociais.

12. A exemplo do Bom Pastor, deveis apascentar o rebanho que vos foi confiado e defendê-1o dos lobos vorazes. As seitas e os movi­mentos "pseudo-espirituais" de que fala o Documento de Puebla (n. 628) são causa de divisão e de discórdia nas vossas comuni­dades eclesiais, e cuja expansão e agressividade urge enfrentar. Como muitos de vós tiveram ocasião de assinalar, o avanço das seitas põe em evidência um vazio pastoral, que tem freqüentemente sua causa na falta de formação, que dissolve a identidade cristã, fazendo que grandes massas de católicos sem uma adequada atenção religiosa - entre outras razões por falta de sacerdotes - fiquem à mercê de campanhas de proselitismo sectário muito ativas. Mas, pode também acontecer que os fiéis não encontrem entre os agentes da pastoral aquele forte sentido de Deus, que eles deveriam trans­mitir em suas vidas. "Tais situações podem ser ocasião para que muitas pessoas, pobres e simples - como infelizmente está ocorren­do - se convertam em fácil presa das seitas, nas quais buscam um sentido religioso da vida que, talvez, não encontrem naqueles que lho deveriam oferecer a mãos cheias" (Os Caminhos do Evangelho, 20).

Por outra parte, não se pode menosprezar uma certa estratégia, cujo objetivo é enfraquecer os fatores que unem os Países da América Latina, desenvolvendo assim as forças que nascem da unidade. Com este objetivo, se destinam importantes recursos eco­nômicos para subvencionar campanhas proselitistas, que buscam desestruturar esta unidade católica.

Ao preocupante fenômeno das seitas, deve-se responder com uma ação pastoral que ponha no centro de toda a pessoa a sua dimensão comunitária e o seu anseio de uma relação pessoal com Deus. É um fato que ali onde a presença da Igreja é dinâmica, como no caso das paróquias em que se promove uma assídua formação na Palavra de Deus, onde existe uma liturgia ativa e participada, uma sólida piedade mariana, uma efetiva solidariedade no campo social, uma marcada solicitude pastoral pela família, pelos jovens e pelos doentes, as seitas ou os movimentos para-religiosos não conseguem se instalar ou progredir.

A forte religiosidade popular de vossos fiéis, com seus extraor­dinários valores de fé e de piedade, de sacrifício e de solidariedade, convenientemente evangelizada e alegremente celebrada, orientada em torno dos mistérios de Cristo e da Virgem Maria, pode ser, pelas suas raízes eminentemente católicas, um antídoto contra as seitas e uma garantia de fidelidade à mensagem da salvação.

III. PROMOÇÃO HUMANA

13. Levando-se em conta que a Igreja está consciente de que o homem - não o homem abstrato, mas o homem concreto e histórico - "é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão" (Redemptorhominis, 14), a promoção humana há de ser conseqüência lógica da evangelização, para a qual tende a libertação integral da pessoa (cf. Evangelii nuntiandi, n. 29-39).

Olhando para este homem concreto, vós, Pastores da Igreja, constatais a difícil e delicada realidade social pela qual atravessa hoje a América Latina, onde contemplas camadas de população na pobreza e na marginalização. Por isso, solidários com o clamor dos pobres, vos sentis chamados a assumir o papel do bom samari­tano (cf. Lc 10,25-37), onde o amor a Deus se demonstra no amor à pessoa humana. É o que nos lembra o Apóstolo Tiago com aquelas sérias palavras: "Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisa­rem do alimento cotidiano, e alguém de vós lhes disser: `Ide em paz,

aquecei-vos e saciai-vos', porém não lhes der as coisas necessárias ao corpo, de que lhe aproveitará?" (Tg 2,15-16).

A preocupação pelo social "faz parte da missão evangelizadora da Igreja" (Sollicitudo rei socialis, 41). "Efetivamente, para a Igreja, ensinar e difundir a doutrina social pertence à sua missão evangeli­zadora e faz parte essencial da mensagem cristã, porque essa dou­trina propõe as suas conseqüências diretas na vida da sociedade e enquadra o trabalho diário e as lutas pela justiça no testemunho de Cristo Salvador" (Centesimus annus, 5).

Como afirma o Concilio Vaticano II na Constituição pastoral Gaudium et spes, o problema da promoção humana não pode ser posto à margem da relação do homem com Deus (cf. n. 43 e 45). De fato, contrapor a promoção humana e o projeto de Deus sobre a humanidade, é uma grave distorção, fruto de uma certa mentalidade de inspiração secularista. A genuína promoção humana há de res­peitar sempre a verdade sobre Deus e a verdade sobre o homem, os direitos de Deus e os direitos do homem.

14. Vós, amados Pastores, tocais de perto a situação angustiosa de tantos irmãos que carecem do mais necessário para uma vida autenticamente humana. Apesar do progresso registrado em alguns campos, persiste e inclusive cresce o fenômeno da pobre­za. Os problemas agravam-se com a perda do poder aquisitivo da moeda, devido à inflação, às vezes descontrolada, e da dete­rioração das relações de intercâmbio, com a conseqüente diminuição dos preços de certas matérias-primas e com o peso insuportável da dívida externa, da qual derivam desastrosas con­seqüências sociais. A situação faz-se ainda mais dolorosa com o grave problema do crescente desemprego, que não permite levar o pão para o lar e impede o acesso a outros bens fundamentais (c£ Laborem exercens, 18).

Sentindo vivamente a gravidade desta situação, não deixei de dirigir instantes apelos a favor de uma ativa, justa e urgente solida­riedade internacional. É um dever de justiça que afeta toda a huma­nidade, mas sobretudo os países ricos que não podem eximir-se da sua responsabilidade para com os países em vias de desenvolvimen­to. Esta solidariedade é uma exigência do bem comum universal, que deve ser respeitado por todos os integrantes da família humana (c£ Gaudium et spes, 26).

15. O mundo não pode ficar tranqüilo e satisfeito diante da situação caótica e desconcertante que se apresenta diante dos nossos olhos: nações, setores da populaçâo, famMias e indivíduos cada vez mais ricos e privilegiados diante de povos, famílias e multi­dões de pessoas submergidas na pobreza, vítimas da fome e das doenças, carentes de moradias dignas, de assistência sanitária, de acesso à cultura. Tudo isso é testemunho eloqüente de uma desordem real e de uma injustiça institucionalizada, à qual se somam, às vezes, o atraso em tomar medidas necessárias, a passividade e a imprudência, bem como a falta de uma séria moral administrativa. Diante de tudo isso, impõe-se uma "mu­dança de mentalidade, de comportamento e de estruturas" (Cen­tesimus annus, 60), a fim de superar o abismo existente entre os países ricos e os países pobres (cf. Laborem exemens, 16; Cente­simus annus, 14), bem como as profundas diferenças existentes entre cidadãos de um mesmo país. Numa palavra: é preciso fazer valer o novo ideal de solidariedade diante da falaz vontade de dominar.

Por outra parte, é desumana e falaz a solução que propõe a redução do crescimento demográfico, sem se importar com a mo­ralidade dos meios usados para o conseguir. Não se trata de reduzir a todo o custo o número de convidados ao banquete da vida; o que é preciso é aumentar os meios e distribuir com maior justiça a riqueza, para que todos possam participar eqüitativamente dos bens da criação.

São necessárias soluções em nível mundial, instaurando uma verdadeira economia de comunhão e participação de bens, tanto na ordem internacional como nacional. A este respeito, um fato que pode contribuir notavelmente para superar os problemas urgentes que afetam hoje este Continente é a integração latino-americana. É grave responsabilidade dos governantes favorecer o já iniciado processo de integração de alguns povos cuja mesma geografia, a fé crista, a língua e a cultura uniram definitivamente no caminho da história.

16. Em continuidade com as Conferências de Medellín e de Puebla, a Igreja reafirma a opção preferencial pelos pobres. Uma opção não exclusiva nem excludente, pois a mensagem da salvação está destinada a todos. "Uma opção, além disso, baseada especial­mente na Palavra de Deus e não em critérios retirados das ciências humanas ou de ideologias contrárias entre si, que fre­qüentemente reduzem os pobres em categorias sócio-politicas e conômicas abstratas. Mas uma opção firme e irrevogável" (Discurso aos Cardeais e Prelados da Cúria Romang 21 de de­zembro de 1984, 9).

Como afirma o Documento de Puebla, "ao aproximar-nos do pobre para acompanhá-1o e servi-1o, fazemos o que Cristo nos ensinou, quando se fez irmão nosso, pobre como nós. Por isso 0 serviço dos pobres é medida privilegiada, embora não exclusiva, de nosso seguimento de Cristo. O melhor serviço ao irmão é a evange­lização, que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente" (Puebla, 1145). Tais critérios evangélicos de serviço ao necessitado evitarão qualquer tentação de convivência com os responsáveis das causas da pobreza, ou perigo­sos desvios ideológicos, incompatíveis com a doutrina e a missão da Igreja.

A genuína praxes de libertação há de estar sempre inspirada pela doutrina da Igreja, como se explica nas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé (Libertatis nuntius, 1984, Libertatis cons­cientia, 1986), que conservam todo o seu valor e devem ser tidas em conta quando se trata do tema das teologias de libertação. Por outro lado, a Igreja não pode de maneira nenhuma deixar que lhe seja arrebatada, por qualquer ideologia ou corrente política, a bandeira da justiça, que é uma das primeiras exigências do Evangelho e, ao mesmo tempo, fruto da chegada do Reino de Deus.

17. Como já assinalou a Conferência de Puebla, existem grupos humanos particularmente submergidos na pobreza: é o caso dos índios (c£ 1265). A eles, e também aos afro-americanos, quis dirigir uma mensagem especial de solidariedade e de simpatia, que entregarei amanhã a um grupo de representantes de suas respectivas comunidades. Como gesto de solidariedade, a Santa Sé criou recentemente a Fundação Populorum Progressio, que dispõe de um fundo de ajuda a favor dos camponeses, dos índios e demais grupos humanos do setor rural, particularmente des­protegidos na América Latina.

Nesta mesma linha de solicitude pastoral pela situação das cate­gorias sociais mais carentes, esta Conferência Geral poderia consi­derar a oportunidade de que, num futuro não remoto, possa realizar-se um Encontro de representantes dos Episcopados de todo o Continente americano - que poderia ter também caráter sinodal -, visando incrementar a cooperação entre as diversas Igrejas par­ticulares nos distintos campos da ação pastoral, e no qual, no âmbito da nova evangelização e como expressão da comunhão episcopal, se enfrentem também os problemas relativos à justiça e à solidarie­dade entre todas as nações da América. A Igreja, no limiar já do terceiro milênio da era cristã e numa época em que caíram muitas barreiras e fronteiras ideológicas, sente como um dever iniludível unir espiritualmente ainda mais todos os povos que formam este grande Continente e, ao mesmo tempo, a partir da missão religiosa que lhe é própria, incentivar um espírito solidário entre todos eles, que permita encontrar vias de solução para as dramáticas situações de amplos setores de populações, que aspiram a um legítimo pro­gresso integral e a condições de vida mais justas e mais dignas.

18. Não existe autêntica promoção humana, nem verdadeira liber­tação, nem opção preferencial pelos pobres, se não se parte dos mesmos fundamentos da dignidade da pessoa e do ambiente em que ela deve desenvolver-se, de acordo com o projeto do Criador. Por isso, não posso não recordar, entre os temas e as opções que requerem toda atenção da Igreja, o da família e da vida: duas realidades que vão estreitamente unidas, dado que "a família é como o santuário da vida" (Centesimus annus, 39). Com efeito, "o futuro da humanidade passa pela família! É pois indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família" (Familiaris consonio, 86).

Apesar dos problemas que afligem atualmente o matrimônio e a instituição familiar, esta, como "célula primeira e vital da socieda­de" (Apostolicam actuositatem, 11), pode gerar energias formidá­veis (c£ n. 43), necessárias para o bem da humanidade. Por isso, é preciso "anunciar com alegria e convicção a `boa-nova' acerca da família" (cf. Familiaris consortio, 86). É preciso anunciá-1a aqui, na América Latina, onde, junto ao apreço que se tem pela família, alicerçada no matrimônio, proliferam, infelizmente, as uniões livres. Diante desse fenômeno e das crescentes pressões divorcistas, é urgente promover medidas adequadas a favor do núcleo familiar, em primeiro lugar para garantir a união de vida e de amor estável dentro do matrimônio, conforme o plano de Deus, bem como a serena educação dos filhos.

Em estreita conexão com os problemas apontados, está o grave problema das crianças que vivem permanentemente nas ruas das grandes cidades latino-americanas, extenuadas pela fome e pelas doenças, sem qualquer proteção, sujeitas a tantos perigos, não excluída a droga e a prostituição. Eis aqui outra questão que deve fazer urgir vossa solicitude pastoral, lembrando as palavras de Jesus: "Deixai que as crianças venham a Mim" (Ml 19,14).

A vida desde a sua concepção no seio materno até à sua natural conclusão deve ser defendida com decisão e valentia. É necessário criar na América uma cultura da vida que frete a cultura da morte que, através do aborto, da eutanásia, da guerra, da guerrilha, do

seqüestro, do terrorismo e de outras formas de violência ou exploração, pretende dominar em algumas nações. Neste espectro de atentados à vida, ocupa um lugar de destaque o tráfico de entorpe­centes, que há de ser reprimido com todos os meios licitas à dispo­sição.

19. Quem nos libertará destes sinais de morte? A experiência do mundo contemporâneo tem mostrado, cada vez mais, que as ideologias são incapazes de derrotar aquele mal que escraviza o homem. O único que pode libertar deste mal é Cristo. Ao cele­brar o V Centenário da Evangelização, dirigimos, comovidos, nossos olhares para aquele momento de graça em que Cristo nos foi dado de uma vez para sempre. A dolorosa situação de tantas irmãs e irmãos latino-americanos não nos leva ao desespero. Pelo contrário, torna mais urgente a tarefa que a Igreja tem diante de si: reavivar no coração de cada batizado a graça recebida. "Re­comendo-te - escrevia São Paulo a Timóteo - que reanimes a graça de Deus, que está em ti" (2Tm 1,6).

Como da acolhida do Espírito no Pentecostes nasceu o povo da Nova Aliança, somente esta acolhida fará surgir um povo capaz de gerar homens renovados e livres, conscientes da sua dignidade. Não podemos esquecer que a promoção integral do homem é de impor­tância capital para o desenvolvimento dos povos da América Latina. Pois "o progresso de um povo não deriva primariamente do dinhei­ro, nem dos auxílios materiais, nem das estruturas técnicas, mas sobretudo da formação das consciências, do amadurecimento das mentalidades e dos costumes. O homem é que é o protagonista do desenvolvimento, não o dinheiro ou a técnica" (Redemptoris missio, 58). A maior riqueza da América Latina são suas gentes. A Igreja, "despertando as consciências com o Evangelho", contribui para despertar as energias adormecidas, a fim de as dispor a trabalhar na construção de uma nova civilização (cf. Ibid).

IV. CULTURA CRISTA

20. Embora o Evangelho não se identifique com nenhuma cultura em particular, deve sim inspirá-las para, desta maneira, as trans­formar a partir de dentro, enriquecendo-as com aqueles valores cristãos que derivam da fé. Na verdade, a evangelização das culturas representa a forma mais profunda e global de evangeli­zar uma sociedade, porque, através dela, a mensagem de Cristo penetra nas consciências das pessoas e se projeta no "ethos" de um povo, nas suas atitudes vitais, nas suas instituições e em todas as estruturas (cf. Discurso aos intelectuais e ao mundo universitá­rio, Medellín, 5 de julho de 1986, 2).

O tema "cultura" foi objeto de particular estudo e reflexão por parte do CELAM, nos últimos anos. Também a Igreja inteira con­centra a sua atenção sobre esta importante matéria, "já que a nova evangelização deverá projetar-se sobre a cultura `emergente', sobre todas as culturas, inclusive as culturas indígenas" (cf. Angelus, 28 de junho de 1992). Anunciar Jesus Cristo a todas as culturas é a preocupação central da Igreja e objeto da sua missão. Nos nossos dias, isto exige, em primeiro lugar, o discernimento das culturas como realidade humana a evangelizar e, conseqüentemente, a ur­gência de um novo tipo e alto nível de colaboração entre todos os responsáveis pela obra evangelizadora.

21. Hoje em dia percebe-se uma crise cultural de proporções inima­gináveis. Certo é que o substrato cultural atual apresenta um bom número de valores positivos, muitos deles fruto da evangelização e que são perfeitamente compatíveis com o Evangelho; ao mesmo tempo, porém, foram eliminados valores religiosos fundamentais e introduzidas concepções insidiosas, que são inaceitáveis sob o ponto de vista cristão.

A ausência desses valores fundamentais cristãos na cultura mo­derna não apenas tem ofuscado a dimensão transcendente, arras­tando muitas pessoas para a indiferença religiosa - também na América Latina -, mas é ainda causa determinante do desencanto social, no qual se gerou a crise desta cultura. Após a autonomia introduzida pelo racionalismo, tende-se hoje a assentar os valores, sobretudo, em consensos sociais subjetivos que, não raro, conduzem a posições contrárias inclusive à própria ética natural. Pense-se no drama do aborto, nos abusos no âmbito da engenharia genética, nos atentados à vida e à dignidade da pessoa.

Face à pluralidade de opções que hoje se oferecem, requer-se uma profunda renovação pastoral, mediante o discernimento evan­gélico sobre os valores dominantes, as atitudes, os comportamentos coletivos, que seqüentemente representam um fato decisivo para optar tanto pelo bem como pelo mal. Nos nossos dias, torna-se necessário um esforço e um tato especial para inculturar a mensa­gem de Jesus, de tal modo que os valores cristãos possam trans­formar os diversos núcleos culturais, purificando-os, se necessário for, e possibilitando a consolidação de uma cultura cristã que renove, amplie e unifique os valores históricos, passados e presentes, para assim responder de modo adequado aos desafios do nosso tempo (cf. Redemptoris missio, 52). Um destes desafios à evangelização é intensificar o diálogo entre as ciências e a fé, em ordem a criar um verdadeiro humanismo cristão. Trata-se de mostrar que as ciências e a técnica contribuem para a civilização e a humanização do mundo, na medida em que estão penetradas pela sabedoria de Deus. A este propósito, desejo encorajar vivamente as Universidades e Centros de estudos superiores, especialmente os que dependem da Igreja, a renovar o seu empenhamento no diálogo entre fé e ciência. 22. A Igreja vê com preocupação a ruptura existente entre os valores evangélicos e as culturas modernas, pois estas correm o risco de fechar-se dentro de si mesmas, numa espécie de involução agnós­tica e sem referência à dimensão moral (cf. Discurso ao Pontifício Conselho para a Cultura, 18 de janeiro de 1983). A este respeito, conservam pleno vigor as palavras do Papa Paulo VI: "A ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi também de outras épocas. Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa evangeli­zação da cultura, ou mais exatamente das culturas. Estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa-Nova" (Evangelü nuntiandi, 20).

A Igreja, que considera o homem como seu "caminho" (c£ Redemptor hominis, 14), há de dar uma resposta adequada à atual crise da cultura. Frente ao complexo fenômeno da modernidade, é necessário dar vida a uma alternativa cultural plenamente cristã. Se a verdadeira cultura é a que exprime os valores universais da pessoa, quem pode projetar mais luz sobre a realidade do homem, sobre a sua dignidade e razão de ser, sobre a sua liberdade e destino do que o Evangelho de Cristo?

Neste marco histórico do meio milênio da evangelização dos vossos povos, convido-vos, pois, queridos Irmãos, a que, com o ardor da nova evangelização, animados pelo Espírito do Senhor Jesus, torneis a Igreja presente na encruzilhada cultural do nosso tempo, para impregnar com os valores cristãos as próprias raízes da cultura emergente e de todas as culturas já existentes. Particular atenção haveis de prestar às culturas indígenas e afro-americanas, assimilan­do e pondo em relevo tudo o que nelas há de profundamente humano e humanizador. A sua visão da vida, que reconhece a sacralidade do ser humano e do mundo, o seu respeito profundo pela natureza, a humildade, a simplicidade, a solidariedade são valores que hão de estimular o esforço, por levar a cabo uma autêntica evangelização inculturada, que seja também promotora de progresso e conduza sempre à adoração de Deus "em espírito e verdade" (Jo 4,23). Mas o reconhecimento dos ditos valores não vos exime de proclamar em todo o momento que "Cristo é o único salvador de todos, o único capaz de revelar e de conduzir a Deus" (Redemptoris missio, 5).

"A evangelização da cultura é um esforço por compreender as mentalidades e as atitudes do mundo atual e iluminá-las a partir do Evangelho. É a vontade de chegar a todos os níveis da vida humana, para a tornar mais digna" (Discurso ao mundo da cultura, Lima, 15 de maio de 1988, 5). Porém este esforço de compreensão e ilumina­ção deve ser sempre acompanhado pelo anúncio da Boa-Nova (cf. Redemptoris missio, 46), de tal maneira que a penetração do Evan­gelho nas culturas não seja uma simples adaptação externa, mas um processo profundo e abrangente que englobe tanto a mensagem cristã como a reflexão e a práxis da Igreja, respeitando sempre as carac­terísticas e a integridade da fé (Cf. Ibid., 52).

23. Sendo a comunicação entre as pessoas um admirável elemento gerador de cultura, os modernos meios de comunicação social revestem neste campo uma importância de primeira grandeza. Intensificar a presença da Igreja no mundo da comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades. Vêm-me à mente as graves palavras do meu venerado predecessor, o Papa Paulo VI: "A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não lançasse mão destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados" (Evangelii nuntiandi, 45).

Por outro lado, ocorre também vigiar sobre o uso dos meios de comunicação social na educação da fé e na difusão da cultura religiosa. Uma responsabilidade que compete sobretudo às casas editoriais, dependentes de Instituições Católicas, que devem "ser objeto de particular solicitude por parte dos Ordinários locais, para que as suas publicações sejam sempre conformes à doutrina da Igreja e contribuam eficazmente para o bem das almas" (Instrução sobre alguns aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social na promoção da doutrina da fé, 15,2).

São exemplos de inculturação do Evangelho também certas ma­nifestações sócio-culturais, que se estão levantando em defesa do homem e do seu ambiente, e que têm de ser iluminadas pela luz da fé. É o caso do movimento ecológico a favor do respeito devido à natureza e contra a exploração desordenada dos seus recursos, com a conseqüente deterioração da qualidade de vida. A convicção de que "Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos" (Gaudium et spes, 69), há de inspirar um sistema de gestão dos recursos mais justo e melhor coordenado a nível mundial. A Igreja faz sua a preocupação pelo meio ambiente e convida os governos a protegerem este patrimônio, segundo os critérios do bem comum (c£ Mensagem para a XXV Jornada Mun­dial da Paz, 1º de janeiro de 1992).

24. O desafio que representa a cultura "emergente", não enfraque­ce, no entanto, nossa esperança, e damos graças a Deus porque na América Latina o dom da fé católica penetrou no âmago dos seus povos, conformando nestes quinhentos anos a alma cristã do Continente e inspirando muitas das suas instituições. De fato, a Igreja na América Latina conseguiu impregnar a cultura do povo, soube situar a mensagem evangélica na base do seu pensa­mento, nos seus princípios fundamentais de vida, nos seus crité­rios de juízo, nas suas normas de ação.

Agora, é-nos apresentado o desafio formidável da contínua in­culturação do Evangelho nos vossos povos, tema que tereis de abordar com clarividência e profundidade, durante os próximos dias. A América Latina, em Santa Maria de Guadalupe, oferece um grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada. De fato, na figura de Mana - desde os começos da cristianização do Novo Mundo, e à luz do Evangelho de Jesus - encarnaram-se autênticos valores culturais indígenas. No rosto mestiço da Virgem de Tepeyac se resume o grande princípio da inculturação: a íntima transformação dos autênticos valores culturais, mediante a integra­ção no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas (cf. Redemptoris missio, 52)

V. UMA NOVA ERA SOB O SIGNO DA ESPERANÇA

25. Eis aqui, queridos irmãos e irmãs, alguns dos desafios que se apresentam à Igreja nesta hora da nova evangelização. Diante deste panorama, cheio de interrogações, mas também repleto de promessas, devemos perguntar-nos qual é o caminho que deve seguir a Igreja na América Latina, para que a sua missão dê, na próxima etapa da sua história, os frutos que espera o Dono da messe (cf. Lc 10,2; Mc 4,20). Vossa Assembléia deverá delinear a fisionomia de uma Igreja viva e dinâmica que cresce na fé, se santifica, ama, sofre, se compromete e espera em seu Senhor, como nos lembra o Conc7io Ecumênico Vaticano II, ponto de referência obrigatório na vida e na missão de todo o Pastor (cf. Gaudium et spes, 2).

A tarefa que vos espera nos próximos dias é árdua, mas está marcada pelo signo da esperança que vem de Cristo Ressuscitado. Vossa missão é a de serdes arautos da esperança, de que nos fala o Apóstolo Pedro (cf. 1Pd 3,15): esperança que se apoia nas promes­sas de Deus, na fidelidade à sua palavra e que tem como certeza inquebrantável a ressurreição de Cristo, sua vitória definitiva sobre o pecado e a morte, primeiro anúncio e raiz de toda a evangelização, fundamento de toda a promoção humana, princípio de toda a autêntica cultura cristã, que não pode deixar de ser a cultura da ressurreição e da vida, vivificada pelo sopro do Espírito de Pente­costes.

Amados Irmãos no Episcopado, na unidade da Igreja local, que tem origem na Eucaristia, encontra-se todo o Colégio Episcopal com o Sucessor de Pedro à frente, como pertencendo à própria essência da Igreja particular (cf. Carta da Congregação para a Dou­trina da Fé sobre alguns aspectos da Igreja entendida como Comu­nhão, 14). Em torno do Bispo e em perfeita comunhão com ele, devem florescer as paróquias e as comunidades cristãs, como células vivas e pujantes de vida eclesial. Por isso, a nova evangelização requer uma vigorosa renovação de toda a vida diocesana. As paró­quias, os movimentos apostólicos e associações laicais, e todas as comunidades eclesiais em geral, hão de ser sempre evangelizadas e evangelizadoras. De modo particular, as Comunidades eclesiais de base devem se caracterizar por uma decidida projeção universalista e missionária, que lhes infunda um renovado dinamismo apostólico (cf. Evangelii nuntiandi, 58; Puebla 640-642). Elas, que devem estar sempre marcadas por uma clara identidade eclesial, hão de ter na Eucaristia, a que preside o Sacerdote, o centro da vida e da comu­nhão dos seus membros, em estreita união com seus pastores e em plena sintonia com o Magistério da Igreja

26. Condição indispensável para a nova evangelização é poder contar com evangelizadores numerosos e qualificados. Por isso, a promoção das vocações sacerdotais e religiosas, bem como de outros agentes de pastoral, há de ser uma prioridade dos Bispos e um compromisso de todo o Povo de Deus. É preciso dar, em toda a América Latina, um impulso decisivo à Pastoral vocacio­nal e enfrentar, com critérios acertados e com esperança, o que se relacionar com os Seminários e Centros de formação dos religiosos e religiosas, bem como com o problema da formação permanente do Clero e de uma melhor distribuição dos sacerdo­tes entre as diversas Igrejas locais, em que se deve ter em conta também o apreciável trabalho dos diáconos permanentes. Para tudo isto, existem orientações apropriadas na Exortação Apos­tólica pós-sinodal Pastores dobo vobis.

No que diz respeito aos religiosos e às religiosas, que na América Latina levam o peso de uma parte considerável da ação pastoral, desejo mencionar a Carta Apostólica Os Caminhos do Evangelho, que lhes dirigi com data de 29 de junho de 1990. Também quero lembrar aqui os Institutos Seculares, com sua pujante vitalidade no meio do mundo, e os membros das Sociedades de Vida Apostólica que desenvolvem uma grande atividade missionária.

Na hora presente, os membros dos Institutos de Vida Consagra­da e das Sociedades de Vida Apostólica, tanto masculinos como femininos, devem concentrar-se mais na tarefa especificamente evangelizadora, desenvolvendo toda a riqueza de iniciativas e tare­fas pastorais que brotam de seus diversos carismas. Fiéis ao espírito dos seus Fundadores, devem caraterizar-se por um profundo senti­do de Igreja e pelo testemunho de uma estreita colaboração e submissão na pastoral, cuja direção compete aos Ordinários das dioceses e, a nível nacional, às Conferências Episcopais.

Como recordei na minha Carta às contemplativas da América Latina (12 de dezembro de 1989), a ação evangelizadora da Igreja está sustentada por esses santuários da vida contemplativa, tão numerosos em toda a América, que constituem um testemunho da radicalidade da consagração a Deus, que tem de ocupar sempre o primeiro lugar em nossas opções.

27. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici sobre "vocação e missão dos leigos na Igreja", quis pôr em particular evidência que na "grande, comprometedora e magnífica empre­sa" da nova evangelização é indispensável o trabalho dos leigos, especialmente dos catequistas e "delegados da Palavra". A Igreja espera muito de todos aqueles leigos que, com entusiasmo e eficácia evangélica, agem através dos novos movimentos apostólicos, que hão de estar coordenados na pastoral de conjunto e que respondem à necessidade de uma maior presença da fé na vida social. Nesta hora em que convoquei todos para trabalhar com ardor apostólico na vinha do Senhor, sem que ninguém ficasse excluído, "os fiéis Ieigos devem sentir-se parte viva e responsável desta tarefa, chamados como são a anunciar e a viver o Evangelho ao serviço dos valores e das exigências das pessoas e da sociedade" (n. 64). Digna de todo elogio, como transmissora da fé, é a mulher Iatino-americana, cujo papel na Igreja e na sociedade deve ser posto na devida evidência (cf. Carta Apostó­lica Mulieris dignitatem). Particular solicitude pastoral deve-se prestar aos doentes, tendo em vista também a força evangeliza­dora do sofrimento (cf. Carta Apostólica Salvifici doloris, sobre o sentido cristão do sofrimento humano, 11 de fevereiro de 1984). Lanço um apelo especial aos jovens da América Latina. Por um lado, eles - tão numerosos num Continente jovem - são os sujeitos da nova evangelização, mas deverão ser, além disso, os protagonistas do anúncio no novo milênio, já à porta. Eles são os jovens a quem temos de apresentar Jesus Cristo e a beleza da vocação cristã, mas são também aqueles a quem há que libertar das ilusões do consu­mismo e sobretudo oferecer-lhes ideais altos e nobres, que os apóiem nas suas aspirações de uma sociedade mais justa e fraterna. 28. Todos são chamados a construir a civilização do amor neste

Continente da esperança. Mais ainda, a América Latina, que recebeu a fé transmitida pelas Igrejas do Velho Mundo, tem de preparar-se para difundir a mensagem de Cristo pelo mundo inteiro, dando "da sua pobreza" (cf. Mensagem aos III e IV Congressos Missionários Latino-Americanos, Santa Fé de Bogotá, 1987, e Lima, 1991). "Chegou o momento de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na missão ad gentes. Nenhum crente em Cristo, nenhuma instituição da Igreja se pode esquivar deste dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos" (Redemptoris missio, 3). Este momento chegou também para a América Latina. "É dando a fé que ela se fortalece! A nova evangelização dos povos cristãos, também nas Igrejas da Améri­ca, encontrará inspiração e apoio no empenho pela missão uni­versal" (ibid., 2). Para a América Latina, que recebeu Cristo há já quinhentos anos, o maior sinal de agradecimento pelo dom recebido, e da sua vitalidade crista, é empenhar-se ela mesma na missão.

29. Amados Irmãos no Episcopado, como sucessores dos Apósto­los, deveis dedicar todo o desvelo à vossa grei, "no meio da qual vos colocou o Espírito Santo para apascentardes a Igreja de Deus" (At 20,28). Por outro lado, como membros do Colégio Episcopal, em estreita unidade afetiva e efetiva com o Sucessor de Pedro, sois chamados a conservar a comunhão e a solicitude por toda a Igreja. E, nesta circunstância, como membros da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, incumbe-vos uma responsabilidade histórica.

Em virtude da mesma fé, da Palavra revelada, da ação do Espírito e por meio da Eucaristia à qual preside o Bispo, a Igreja particular mantém com a Igreja Universal uma peculiar relação de mútua interioridade, porque nela se encontra e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo que é Una, Santa, Católica e Apostólica (cf. Christus Dominus, 11). Nela deve resplandecer a santidade de vida, a que todo o evangelizador é chamado, dando testemunho de uma intensa vivência do mistério de Jesus Cristo, sentido e experimentado for­temente na Eucaristia, na escuta assídua da Palavra, na oração, no sacrifício, na entrega generosa ao Senhor, que nos Sacerdotes e demais pessoas consagradas se exprime de modo especial pelo celibato.

Não se pode esquecer que a primeira forma de evangelização é o testemunho (cf. Redemptoris missio, 42-43), isto é, a proclamação da mensagem da salvação através das obras e da coerência de vida, levando assim a cabo a sua encarnação na história quotidiana dos homens. A Igreja, desde o princípio da sua história, fez-se presente e operante não apenas mediante o anúncio explicito do Evangelho de Cristo, mas também, e sobretudo, através da irradiação da vida cristã. Por isso, a nova evangelização exige coerência de vida, teste­munho sólido e unitário de caridade, sob o signo da unidade, para que o mundo creia (cf. Jo 17,23).

30. Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Pastor dos pastores, está no vosso meio, pois vos reunistes em Seu nome (cf. Ml 18,20). Convosco está o Espírito do Senhor que guia a Igreja para a plenitude da verdade e a rejuvenesce com a Palavra do Evange­lho, como em novo Pentecostes.

Na comunhão dos Santos, vela sobre vossos trabalhos uma plêia­de de Santos e Santas latino-americanos, que evangelizaram este Continente com sua palavra e suas virtudes, e muitos deles o fecun­daram com seu sangue. Eles são os frutos mais excelsos da Evange­lização.

Como no Cenáculo do Pentecostes, acompanha-vos a Mãe de Jesus, a Mãe da Igreja. Sua presença entranhável em todos os rincões da América Latina e nos corações de seus filhos é garantia do sentido profético e do ardor evangélico que deve acompanhar vossos trabalhos.

31. "Bem-aventurada és tu que acreditaste, porque se hão de cum­prir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas" (Lc 1,45). Estas palavras, que Isabel dirige a Maria, portadora de Cristo, são aplicáveis à Igreja, da qual a Mãe do Redentor é tipo e modelo. Feliz és tu, América, Igreja da América, portadora de Cristo também, que recebeste o anúncio da salvação e creste "nas coisas que te foram ditas da parte do Senhor"! A fé é a tua ventura, a fonte da tua alegria. Felizes vós, homens e mulheres da América Latina, adultos e jovens, que conhecestes o Reden­tor! Junto com toda a Igreja, e com Maria, podeis dizer que o Senhor "pôs os olhos na humildade de sua serva" (Lc 1,48). Felizes vós, os pobres da terra, porque chegou para vós o Reino de Deus!

"O que o Senhor te disse, se cumprirá". Sê fiel ao teu batismo reaviva neste Centenário a imensa graça recebida, dirige teu cora­ção e teu olhar ao centro, à origem, Àquele que é o fundamento de toda a felicidade, a plenitude de tudo! Abre-te a Cristo, acolhe o Espírito, para que em todas as tuas comunidades tenha lugar um novo Pentecostes! E surgirá de ti uma humanidade nova, bem-aven­turada; e experimentarás de novo o braço poderoso do Senhor, e "o que o Senhor te disse se cumprirá". O que te disse, América, é Seu amor por ti, é Seu amor pelos teus homens, por tuas famílias, pelos teus povos. E esse amor se cumprirá em ti, e te encontrarás de novo a ti mesma, encontrarás teu rosto, "te proclamarão bem-aventurada todas as gerações" (Lc 1,48).

Igreja da América, o Senhor passa hoje ao teu lado. Chama-te. Nesta hora de graça, pronuncia de novo teu nome, renova sua aliança contigo. Oxalá ouças hoje sua voz, para que conheças a verdadeira e plena felicidade, e entres em seu descanso! (cf. SI 94,7.11).

Terminemos invocando Maria, a Estrela da primeira e da nova evangelização. A Ela, que sempre esperou, confiamos nossa espe­rança. Em suas mãos, colocamos nossos cuidados pastorais e todos os trabalhos desta Conferência, encomendando a seu coração de Mãe o êxito e a projeção da mesma sobre o futuro do Continente. Que Ela nos ajude a anunciar Seu Filho:

"Jesus Cristo ontem, hoje e sempre!". Amém.

DOCUMENTO DE SANTO DOMINGO

Primeira Parte

JESUS CRISTO, EVANGELHO DO PAI

1. Convocados pelo Papa João Paulo II e impulsionados pelo Espí­rito de Deus, nosso Pai, os Bispos participantes da IV Confe­rência Geral do Episcopado Latino-americano, reunido em Santo Domingo, em continuidade às precedentes do Rio de Janeiro, Medellín e Puebla, proclamamos nossa fé e nosso amor a Jesus Cristo. Ele é o mesmo "ontem, hoje e sempre" (cf. Hb 13,8).

Reunidos como num novo cenáculo, em torno de Maria, a Mãe de Jesus, damos graças a Deus pelo dom inestimável da fé e pelos incontáveis dons de sua misericórdia. Pedimos perdão pelas infidelidades à sua bondade. Animados pelo Espírito Santo, dispomo-nos a impulsionar, com novo ardor, uma Nova Evange­lização que se projete num maior compromisso pela promoção integral do homem e impregne com a luz do Evangelho as culturas dos povos latino-americanos. É o Espírito quem nos deve dar a sabedoria para encontrar os novos métodos e as novas expressões que tornem o único Evangelho de Jesus Cristo mais compreensível hoje a nossos irmãos, para assim responder aos novos desafios.

2. Ao contemplar, com um olhar de fé, a implantação da Cruz de Cristo neste continente, ocorrida há cinco séculos, compreende­mos que foi Ele, Senhor da história, quem estendeu o anúncio da salvação a dimensões insuspeitadas. Cresceu assim a famílias de Deus e se multiplicou para a glória de Deus o número dos que dão graças (cf. 2Cor 4,15; c£ João Paulo II, Discurso inaugural, 3). Deus escolheu um novo povo entre os habitantes destas terras que, mesmo desconhecidos para o Velho Mundo, eram "bem conhecidos por Deus desde toda a eternidade e por Ele sempre abraçados com a paternidade que o Filho revelou na plenitude dos tempos" (DI 3). p

3. Jesus Cristo é, na verdade, o centro do desígnio amoroso de Deus. Por isso repetimos com a epístola aos Efésios:

"Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus em Cristo; n'Ele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para ser 'seus filhos adotivos por Jesus Cristo" (Et 1,3-5).

Celebramos Jesus Cristo, morto por nossos pecados e ressusci­tado para nossa justificação (cf. Rm 4,25), que vive entre nós e é nossa "esperança da glória" (Cl 1,27). Ele é a imagem de Deus invisível, primogênito de toda criatura em quem foram criadas todas as coisas. Ele mantém a criação, para Ele convergem todos os caminhos do homem, é o Senhor dos tempos. Em meio às dificuldades e às cruzes, queremos continuar a ser em nosso continente testemunhas do amor de Deus e profetas da esperan­ça que não falha. Queremos iniciar "uma nova era sob o signo da esperança" (DI V).

1. PROFISSÃO DE FÉ

4. Bendizemos a Deus que, em seu amor misericordioso, "enviou seu Filho, nascido de mulher" (G1 4,4) para salvar a todos os homens. Assim Jesus Cristo se fez um de nós (Hb 2,17). Ungido pelo Espírito Santo (Lc 1,15) proclama na plenitude dos tempos a Boa Nova dizendo: "Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). Este Reino inaugurado por Jesus nos revela primeira­mente o próprio Deus como "um Pai amoroso e cheio de compaixão" (RMi 13), que chama a todos, homens e mulheres a nele ingressar.

Para ressaltar esse aspecto, Jesus se aproximou sobretudo daqueles que, por suas misérias, estavam à margem da sociedade, anunciando-lhes a Boa Nova. No início de seu ministério procla­ma ter sido enviado para "anunciar aos pobres a Boa Nova" (Lc 4,18). A todas as vítimas da rejeição e do desprezo, conscientes de suas carências, Jesus lhes disse: "Bem-aventurados os pobres" (Lc 6,10; cf. RMi 14). Assim, pois, os necessitados e pecadores podem sentir-se amados por Deus, e objeto de sua imensa ternu­ra (cf. Lc 15,1-32).

5. A entrada no Reino de Deus se realiza mediante a fé na Palavra de Jesus, selada pelo batismo, testemunhada no seguimento, no compartilhar sua vida, morte e ressurreição (cf. Rm 6,9). Isto exige uma profunda conversão (cf. Mc 1,15; Mt 4,17), uma rup­tura com toda forma de egoísmo num mundo marcado pelo pecado (cf Mt 7,21; Jo 14,15; RMi 13), ou seja, uma adesão ao anúncio das bem-aventuranças (Mt 5,1-10).

O mistério do Reino, oculto durante séculos e gerações em Deus (cf. Cl 1,2b) e presente na vida e nas palavras de Jesus, identi­ficado com sua pessoa, é dom do Pai (cf. I,c 12,32; Mt 20,23) e consiste na comunhão, gratuitamente oferecida, do ser humano com Deus (cf. EN 9; cf. Jo 14,23), começando nesta vida e alcançando plena realização na eternidade (EN 27).

Do amor de Deus dá-se testemunho no amor fraterno (cf. 1Jo 4,20) do qual não pode separar-se: "Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor em nós é levado à perfeição" (1Jo 4,12). "Portanto, a natureza do Reino é a comu­nhão de todos os seres entre si e com Deus" (RMi 15).

6. Para a realização do Reino, "Jesus instituiu Doze, para que ficassem com Ele, para enviá-los a pregar" (Mc 3,18), aos quais revelou os "mistérios" do Pai fazendo deles seus amigos (cf. Jo 15,15) e continuadores da mesma missão que Ele recebera de seu Pai (cf. Jo 20,21), e estabelecendo Pedro como fundamento da nova comunidade (cf. Ml 16,18).

Antes de sua ida ao Pai, Jesus instituiu o sacramento do seu amor, a Eucaristia (cf. Mc 14,22), memorial do seu sacrifício. Assim o Senhor permanece no meio do seu povo para alimentá-1o com seu Corpo e com seu Sangue, fortalecendo e expressando a comunhão e a solidariedade que deve reinar entre os cristãos, enquanto peregrinam pelos caminhos da terra na esperança do encontro pleno com Ele. Vítima sem mancha oferecida a Deus (H6 9,24), Jesus é igualmente o sacerdote que tira o pecado com uma única oferenda (H6 10,14).

Ele, e somente Ele, é nossa salvação, nossa justiça, nossa paz e nossa reconciliação. Nele fomos reconciliados com Deus e por

Ele nos foi confiado o "Ministério da Reconciliação" (2Cor 5,19). Ele derruba todo o muro que separa os homens e os povos (cf. Et 2,14). Por isso hoje, nesse tempo de Nova Evangelização, queremos repetir com o apóstolo São Paulo: "Reconciliai-vos com Deus" (2Cor 5,20).

7. Confessamos que Jesus, verdadeiramente ressuscitado e elevado ao céu, é Senhor, consubstanciai ao Pai, "nele reside toda a plenitude da divindade" (Cl 2,9), sentado a sua direita, merece o tributo de nossa adoração. "A ressurreição confere um alcance universal à mensagem de Cristo, a sua ação e a toda a sua missão" (RMi 16). Cristo ressuscitou para nos comunicar a sua vida. De sua plenitude todos recebemos a graça (cf. Jo 1,16). Jesus Cristo, que morreu para nos libertar do pecado e da morte, ressuscitou para, em Si, fazer-nos filhos de Deus. Se não tivesse ressuscitado, vã seria nossa pregação e vazia seria nossa fé (lCor 15,14). Ele é nossa esperança (cf. 1Tm 1,l; 3,14-16), uma vez que pode salvar os que se aproximam de Deus e vive para sempre, para interceder a nosso favor (cf. Hb 7,25).

Conforme a promessa de Jesus, o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos reunidos com Maria no cenáculo (c£ At 1,12-14; 2,1). Com a doação do Espírito em Pentecostes, a Igreja foi enviada para anunciar o Evangelho. A partir desse dia, ela, novo povo de Deus (1Pd 2,9-10) e corpo de Cristo (cf. lCor 12,27; Ef 4,12), está ordenada ao Reino, do qual é germe, sinal e instrumento (cf. RMi 18) até o fim dos tempos. A Igreja, desde então e até os nossos dias, gera, pela pregação e pelo batismo, novos filhos de Deus, concebidos pelo Espírito Santo e nascidos de Deus (LG 64).

8. Na comunhão da fé apostólica, que pela boca de Pedro confessou na Palestina: "Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo" (Ml 16,16), hoje fazemos nossas as palavras de Paulo VI que, ao começar nossos trabalhos, João Paulo II nos recordava: "Cristo! Cristo, nosso princípio. Cristo, nossa vida e nosso guia. Cristo, nossa esperança e nosso fim... Que não desça sobre esta assembléia outra luz a não ser a luz de Cristo, luz do mundo. Que nenhuma outra verdade atraia a nossa mente fora das palavras do Senhor, único Mestre. Que não tenhamos outra aspiração que não seja o desejo de lhe ser absolutamente fiéis. Que nenhuma outra esperança nos sustente, a não ser aquela que, mediante a Sua palavra, conforta a nossa debilidade..” (DI 1).

Sim, confessamos que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verda­deiro homem. Ele é o Filho único do Pai feito homem no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo, que veio ao mundo para nos livrar de toda escravidão do pecado, dar-nos a graça da adoção filial e reconciliar-nos com Deus e com os homens. Ele é o Evangelho vivo do amor do Pai. Nele a humanidade tem a medida de sua dignidade e o sentido do seu desenvolvimento.

9. Reconhecemos a dramática situação a que o pecado leva o homem. Porque o homem criado bom, à imagem do próprio Deus, senhor responsável da criação, ao pecar, caiu em inimizade com Ele. Dividido em si mesmo, rompeu a solidariedade com o próximo e destruiu a harmonia da natureza. Nisso reconhecemos a origem dos males individuais e coletivos que lamentamos na América Latina: as guerras, o terrorismo, a droga, a miséria, as opressões e injustiças, a mentira institucionalizada, a marginalizado de grupos étnicos, a corrupção, os ataques à família, o abandono de crianças e idosos, as campanhas contra a vida, o aborto, a instrumentalização da mulher, a depredação do meio ambiente, enfim, tudo o que caracteriza uma cultura de morte. Quem nos livrará dessas forças de morte? (cf.. Rm 7,24). Só a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, oferecida uma vez mais aos homens e mulheres da América Latina, como chamado à conver­são do coração. A renovada evangelização que agora empreen­demos deve ser, pois, um convite a converter, ao mesmo tempo, a consciência pessoal e coletiva dos homens (DI 18), para que nós, cristãos, sejamos como que a alma em todos os ambientes da vida social (carta a Diogneto 6).

10. Identificados com Cristo que vive em cada um (cf.Gl 2,20) e conduzidos pelo Espírito Santo, os filhos de Deus recebem em seu coração a lei do amor. Desta maneira podem responder à exigência de serem perfeitos como o Pai que está no céu (cf. Ml 5,48), seguindo a Jesus Cristo e carregando a própria cruz, a cada dia, até dar a vida por Ele (cf. Mc 8,34-36).

11. Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica e a amamos. Fundada por Jesus Cristo "sobre o fundamento dos Apóstolos" (cf. Ef 2,20), cujos sucessores, os bispos, presidem as distintas Igrejas particulares. Em comunhão entre si e presididos na cari­dade pelo Bispo de Roma, servem a suas Igrejas particulares, de modo que em cada uma delas se torne viva e atuante a Igreja de Cristo. Ela é a primeira beneficiária da Salvação. Cristo a adqui­riu com seu sangue (At 20,28), dela fazendo sua colaboradora na obra da salvação universal" (cf. RMi 9).

Peregrina neste continente, está presente e se realiza como co­munidade de irmãos sob a condução dos bispos. Fiéis e pastores, congregados pelo Espírito Santo (c£ CD 11) em torno à Palavra de Deus e à mesa da Eucaristia, são, por sua vez, enviados a proclamar o Evangelho, anuuciando Jesus Cristo e dando teste­munho de amor fraterno.

12. "A Igreja peregrina é missionária por natureza, uma vez que procede da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai" (AG 2). A evangelização é a sua razão de ser; ela existe para evangelizar (cf. EN 15). Para a América Latina, providencialmente animada com um novo ardor evangélico, chegou a hora de levar a sua fé aos povos que ainda não conhecem Cristo, na certeza convicta de que "a fé se forta­lece, doando-a" (DI 28).

A Igreja quer realizar nestes tempos uma Nova Evangelização que transmita, consolide e amadureça, em nossos povos, a fé em `Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta evangelização deve conter sempre - como base, centro e, mesmo tempo, cume do seu dinamismo - uma clara proclamação de que em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus" (EN 27).

13. O anúncio cristão, por seu próprio vigor, tende a curar, firmar e promover o homem, para constituir uma comunidade fraterna, renovando a própria humanidade e dando-lhe sua plena digni­dade humana, com a novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho (cf. EN 18). A Evangelização promove o desenvolvi­mento integral, exigindo de todos e de cada um o pleno respeito a seios direitos e a plena observância de seus deveres, a fim de criar uma sociedade justa e solidária, a caminho de sua plenitude no Reino definitivo. O homem é chamado a colaborar e ser instrumento com Jesus Cristo na Evangelização. Na América Latina, continente religioso e sofrido, urge uma Nova Evangeli­zação que proclame inequivocamente o Evangelho da justiça, do amor e da misericórdia.

Sabemos que, em virtude da encarnação, Cristo se uniu de certo modo a todo homem (cf. GS 22). Ele é a perfeita revelação do homem ao próprio homem e revela a sublimidade de sua vocação (GS 22). Jesus Cristo se insere no coração da humanidade e convida todas as culturas a se deixar levar por seu espírito à plenitude, elevando nelas o que é bom e purificando o que se encontra marcado pelo pecado. Toda evangelização há de ser, portanto, inculturação do Evangelho. Assim toda cultura pode chegar a ser cristã, ou seja, a fazer referência a Cristo e inspirar-se nele e em sua mensagem (João Paulo II, Discurso à II Assembléia da Pontifícia Comissão para a América Latina, de junho de 1991, 4). Jesus Cristo é, com efeito, a medida de toda cultura e de toda obra humana. A inculturação do Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar o rosto desfi­gurado do mundo (LG 8). Trabalho que se realiza no projeto de cada povo, fortalecendo sua identidade e libertando-o dos pode­res da morte. Por isso podemos anunciar com confiança: homens e mulheres da América Latina, abri os corações a Jesus Cristo. Ele é o caminho, a verdade e a vida, quem o segue não anda nas trevas (cf. Jo 14,6; 8,12).

14. Cremos que Cristo, o Senhor, há de voltar para levar à plenitude o Reino de Deus e entregá-1o ao Pai (cf. lCor 15,24), trans­formada então a criação inteira em "novos céus e nova terra onde habita a justiça" (2Pd 3,13). Lá alcançaremos a comunhão per­feita do céu, no gozo da visão eterna da Trindade. Homens e mulheres que se tenham mantido fiéis ao Senhor, vencidos final­mente o pecado, o diabo e a morte, chegarão a sua plenitude humana, participando da própria natureza divina (2Pd 1,4). Então Cristo recapitulará e reconciliará plenamente a criação, tudo será dele e Deus será tudo em todos (cf. lCor 15,28).

15. Confirmando a fé de nosso povo, queremos proclamar que a Virgem Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, é a primeira redimida e a primeira crente. Maria, mulher de fé, foi plenamente evange­lizada, é a mais perfeita discípula e evangelizadora (cf. Jo 2,1-12). É o modelo de todos os discípulos e evangelizadores por seu testemunho de oração, de escuta da Palavra de Deus e de pronta e fiel disponibilidade ao serviço do Reino até a cruz. Sua figura materna foi decisiva para que os homens e mulheres da América Latina se reconhecessem em sua dignidade de filhos de Deus. Maria é o selo distintivo da cultura do nosso continente. Mãe e educadora do nascente povo latino-americano, em Santa Maria de Guadalupe, através do Beato Juan Diego, "é oferecido um grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada" (DI 24). Ela nos precedeu na peregrinação da fé e no caminho da glória, e acompanha os nossos povos que a invocam com amor até que nos encontremos definitivamente com seu Filho. Com alegria e gratidão acolhemos o dom imenso de sua maternidade, ternura e proteção, e aspiramos a amá-1a do mesmo modo como Jesus a amou. Por isso a invocamos como estrela da Primeira e da Nova Evangelização.

2. NOS 500 ANOS DA PRIMEIRA EVANGELIZAÇÃO

16. "Nos povos da América, Deus escolheu para Si um novo povo, fazendo-o participar do seu Espírito. Mediante a Evangelização e a fé em Cristo, Deus renovou sua aliança com a América latina" (DI 3).

O ano de 1492 foi um ano-chave no processo de pregação da Boa Nova. Com efeito, "o que a Igreja celebra nessa comemoração não são acontecimentos históricos mais ou menos discutíveis, mas uma realidade esplêndida e permanente cujo valor não se pode subestimar: a chegada da fé, a proclamação e difusão da mensagem evangélica no continente (americano). E o celebra no sentido mais profundo e teológico do termo: como se celebra Jesus Cristo, Senhor da história e dos destinos da humanidade" (João Paulo II, Alocução dominical, 5 de janeiro de 1992, 2).

17. A presença criadora, providente e salvadora de Deus, já acom­panhava a vida desses povos. As "sementes do Verbo", presentes no profundo sentido religioso das culturas pré-colombianas, es­peravam o orvalho fecundante do Espírito. Tais culturas ofere­ciam em sua base, junto a outros aspectos necessitados de purificação, aspectos positivos como a abertura à ação de Deus, o sentido da gratidão pelos frutos da terra, caráter sagrado da vida humana e valorização da família, o sentido da solidariedade e a co-responsabilidade no trabalho comum, a importância do culto, a crença em uma vida ultraterrena e tantos outros valores que enriquecem a alma latino-americana (cf. João Paulo II, Mensagem aos indígenas, 13.10.92, n.1). Esta religiosidade natu­ral predispunha os indígenas americanos a uma mais pronta recepção do Evangelho, mesmo que tenha havido evangelizado­res nem sempre em condições de reconhecer esses valores.

18. Como conseqüência, o encontro do catolicismo ibérico com as culturas americanas deu lugar a um processo peculiar de mesti­çagem que, embora tenha tido aspectos conflituosos, pôs em relevo as raízes católicas, assim como a singular identidade do continente. Tal processo de mestiçagem, também perceptível nas múltiplas formas de religiosidade popular e da arte mestiça, é conjunção do elemento perene cristão com o próprio da Améri­ca, e desde a primeira hora se estendeu de um lado a outro do continente.

A história nos mostra "que foi levada a cabo uma válida, fecunda e admirável obra evangelizadora e que, através dela, ganhou de tal modo espaço na América a verdade sobre Deus e sobre o homem que, de fato, ela mesma constitui uma espécie de tribunal de acusação dos responsáveis daqueles abusos (de colonizado­res, às vezes, sem escrúpulos)" (DI 4).

19. A obra evangelizadora, inspirada pelo Espírito Santo, que no começo teve como generosos protagonistas sobretudo membros de ordens religiosas, foi uma obra conjunta de todo o povo de Deus, dos Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos. Entre estes últimos, é importante assinalar também a colabora­ção dos próprios indígenas batizados, aos quais se somaram, no correr do tempo, catequistas latino-americanos.

Aquela primeira evangelização teve como instrumentos privile­giados homens e mulheres de vida santa. Os meios pastorais foram uma incansável pregação da Palavra, a celebração dos sacramentos, a catequese, o culto mariano, a prática das obras de misericórdia, a denúncia das injustiças, a defesa dos pobres e a especial solicitude pela educação e promoção humana.

20. Os grandes evangelizadores defenderam os direitos e a dignida­de dos aborígenes, e censuraram "os atropelos cometidos contra os índios na época da conquista" (João Paulo II, Mensagem aos indígenas, 2). Os Bispos, por sua vez, em seus concílios e outras reuniões, em cartas aos Reis da Espanha e Portugal e nos decre­tos de visita pastoral, revelam também essa atitude profética de denúncia, unida ao anúncio do Evangelho.

Assim pois, "a Igreja, que com os seus religiosos, sacerdotes e bispos, esteve sempre ao lado dos indígenas, como poderia es­quecer neste V Centenário os enormes sofrimentos infligidos às populações deste continente durante a época da conquista e colonização? Deve-se reconhecer, com toda a verdade, os abusos cometidos devido à falta de amor das pessoas que não souberam ver nos indígenas irmãos e filhos do mesmo Deus Pai" (João Paulo II, Mensagem aos indígenas, 2). Lamentavelmente estas dores se prolongaram, em algumas formas, até os nossos dias. Um dos episódios mais tristes da história latino-americana e caribenha foi o translado forçado, como escravos, de um enorme número de africanos. Do tráfico de negros participaram entida­des governamentais e particulares de quase todos os países da Europa atlântica e das Américas. O desumano tráfico escravista, a falta de respeito à vida, à identidade pessoal e familiar e às etnias são uma ofensa escandalosa para a história da humani­dade. Queremos, com João Paulo II, pedir perdão a Deus por este "holocausto desconhecido" do qual "participaram batizados que não viveram sua fé" (Homilia na Ilha de Goreia, Senegal, 21.2.92; Mensagem aos afro-americanos, Santo Domingo, 12.10.92 2). '

21. Olhando a época histórica mais recente continuamos a nos encontrar com pegadas vivas de uma cultura de séculos, em cujo núcleo está presente o Evangelho. Esta vida é testemunhada particularmente pela vida dos santos americanos, os quais, ao viver em plenitude o Evangelho, têm sido as testemunhas mais autênticas, fidedignas e qualificadas de Jesus Cristo. A Igreja proclamou as virtudes heróicas de muitos deles, desde o beato índio Juan Diego, Santa Rosa de Lima e São Martim de Porres até Santo Ezequiel Moreno em nossos dias.

Neste V Centenário, queremos agradecer aos inumeráveis mis­sionários, agentes de pastoral e leigos anônimos, muitos dos quais têm atuado em silêncio, e especialmente àqueles que chegaram até ao testemunho do sangue, por amor de Jesus.

Segunda Parte

JESUS CRISTO EVANGELIZADOR VIVO EM SUA IGREJA

22. "Ide, pois, e fazei discípulos a todas as gentes..., batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-lhes a guardar tudo o que eu vos tenho mandado. Eis que estou convos­co todos os dias até o fim do mundo" (Ml 28, 19-20). "Nesta palavras está contida a solene proclamação da evangelização" (DI 2).

O Santo Padre nos convocou para comprometer a Igreja da América latina e do Caribe numa Nova Evangelização e "traçar agora, para os próximos anos, uma nova estratégia evangelizado­ra, um plano global de evangelização" (DCAL, nº 4). Queremos apresentar alguns elementos que nos servirão de base para concretizar estas orientações nas Igrejas locais do Continen­te.

A partir da Nova Evangelização, "o elemento englobante" ou "idéia central" que iluminou nossa Conferência, entenderemos, em sua verdadeira dimensão, a Promoção Humana, resposta à "delicada e difícil situação em que se encontram os países latino-americanos" (Carta do Cardeal Gantin, 12-12-90) e enfocaremos o desafio do diálogo entre o Evangelho e os distintos elementos que conformam nossas culturas para purificá-las e aperfeiçoá-las desde dentro, com o ensinamento e o exemplo de Jesus, até chegar a uma cultura crista.

CAPITULO I

A NOVA EVANGELIZAÇÃO

23. Toda evangelização parte do mandato de Cristo a seus apóstolos e sucessores, desenvolve-se na comunidade dos batizados, no seio de comunidades vivas que compartilham a sua fé e se orienta ao fortalecimento da vida de adoção filial em Cristo, que se expressa principalmente no amor fraterno.

Depois de nos perguntarmos o que é a Nova Evangelização, podemos compreender melhor que ela tem seu ponto de partida na Igreja, na força do Espírito, em contínuo p acesso de conver­são, que busca testemunhar a unidade dentro da diversidade de ministérios e carismas e que vive intensamente seu compromisso missionário. Só uma Igreja evangelizada é capaz de evangelizar. As trágicas situações de injustiça e sofrimento de nossa América, que se tornaram mais agudas depois de Puebla, pedem respostas que só uma Igreja sinal de reconciliação e portadora de vida e de esperança que brotam do Evangelho poderá dar.

24. O que é Nova Evangelização?

"A Nova Evangelização tem, como ponto de partida, a certeza de que em Cristo há uma riqueza insondável' (Et 3,8) que nenhuma cultura, de qualquer época, extingue, e à qual nós homens sempre poderemos recorrer para enriquecer-nos" (DI 6). Falar de Nova Evangelização é reconhecer que existiu uma antiga ou primeira. Sena impróprio falar de Nova Evangelização de tribos ou povos que nunca receberam o Evangelho. Na Amé­rica Latina pode-se falar assim, porque aqui se realizou uma primeira evangelização nos últimos 500 anos.

Falar de Nova Evangelização não significa que a anterior tenha sido inválida, infrutuosa ou de curta duração. Significa que hoje novos desafios, novas interpelações se fazem aos cristãos e aos quais é urgente responder.

Falar de Nova Evangelização, como advertiu o Papa no Discurso inaugural desta IV Conferência, não significa propor um novo Evangelho diferente do primeiro: há um só e único Evangelho do qual se podem tirar luzes novas para problemas novos.

Falar de Nova Evangelização não quer dizer reevangelizar. Na América Latina, não se trata de prescindir da primeira evangeli­zação, mas partir dos ricos e abundantes valores que ela deixou para aprofundá-los e complementa-los, corrigindo as deficiên­cias anteriores. A Nova Evangelização surge na América Latina como resposta aos problemas apresentados pela realidade de um Continente no qual se dá um divórcio entre fé e vida ao ponto de produzir clamorosas situações de injustiça, desigualdade social e violência. Implica enfrentar a grandiosa tarefa de infundir energias ao cristianismo da América latina.

Para João Paulo II, a Nova Evangelização é algo atuante, dinâ­mico. É, antes de tudo, chamado à conversão (cf. DI 1) e à esperança que se apóia nas promessas de Deus e que tem como certeza inquebrantável a Ressurreição de Cristo, primeiro anún­cio e raiz de toda a evangelização, fundamento de toda promoção humana, princípio de toda autêntica cultura crista (cf. ibid., 25). É também um novo, âmbito vital, um novo Petencostes (c£ ibidem, 30-31) em que o acolhimento do Espírito Santo fará surgir um povo renovado, constituído de homens livres, cons­cientes de sua dignidade (cf. ibid.,l9) e capazes de forjar uma história verdadeiramente humana. É o conjunto de meios, ações e atitudes aptos para pôr o Evangelho em diálogo ativo com a modernidade e o pós-moderno, seja para interpreta-los, seja para deixar-se interpelar por eles. Também é o esforço por inculturar o Evangelho na situação atual das culturas de nosso Continente.

25. O sujeito da Nova Evangelização é toda a comunidade eclesial segundo sua própria natureza: nós, os Bispos, em comunhão com o Papa, nossos presbíteros e diáconos, os religiosos e religiosas, e todos os homens e mulheres que constituímos o Povo de Deus.

26. A Nova Evangelização tem como finalidade formar pessoas e comunidades maduras na fé e dar respostas à nova situação que vivemos, provocada pelas mudanças sociais e culturais da moder­nidade. Há de ter em conta a urbanização, a pobreza e a margi­nalização. Nossa situação está marcada pelo materialismo, a cultura da morte, a invasão das seitas e propostas religiosas de diversas origens.

Esta situação nova traz consigo também novos valores, a ânsia da solidariedade, de justiça, a busca religiosa e a superação de ideologias totalizantes.

Destinatários da Nova Evangelização são também as classes médias, os grupos, as populações, os ambientes de vida e de trabalho, marcados pela ciência, pela técnica e pelos meios de comunicação social.

A Nova Evangelização tem a tarefa de suscitar a adesão pessoal a Jesus Cristo e à Igreja de tantos homens e mulheres batizados que vivem sem energia o cristianismo, "tendo perdido o sentido vivo da fé, inclusive já não se reconhecendo como membros da Igreja e levando uma existência distanciada de Cristo e de seu Evangelho" (RMi, 33).

27. O conteúdo da Nova Evangelização é Jesus Cristo, Evangelho do Pai, que anunciou com gestos e palavras que Deus é miseri­cordioso para com todas as suas criaturas, que ama o homem com um amor sem limites e que quis entrar na sua história por meio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, para libertar-nos do pecado e de todas as suas conseqüências e para fazer-nos participar de sua vida divina (c£ João Paulo II, Homilia em Veracruz, México, 7.5.90). Em Cristo tudo adquire sentido. Ele rompe o horizonte estreito em que o secularismo encerra o homem, devolve-lhe a verdade e dignidade de Filho de Deus e não permite que nenhuma realidade temporal, nem os estados nem a economia nem a técnica se convertam para os homens na realidade última a que devam submeter-se. Nas palavras de Paulo VI, evangelizar é anunciar  "o nome, a doutrina, a vida, as pro­messas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus" (EN 22).

Esta Evangelização terá força renovadora na fidelidade à Palavra de Deus, seu lugar de acolhida na comunidade eclesial, seu alento criador no Espírito Santo, que cria a unidade na diversidade, alimenta a riqueza carismática e ministerial, e se projeta ao mundo mediante o compromisso missionário.

28. Como deve ser esta Nova Evangelização? O Papa nos respon­deu: nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão. Nova em seu ardor. Jesus Cristo nos chama a renovar nosso ardor apostólico. Para isso envia o seu Espírito que inflama hoje o coração da Igreja. O ardor apostólico da Nova Evangelização brota de uma radical conformação com Jesus Cristo, o primeiro evangelizador. Assim o melhor evangelizador é o santo, o homem das bem-aventuranças (RMi 90-91). Uma evangelização nova em seu ardor supõe uma fé sólida, uma caridade pastoral intensa e uma forte fidelidade que, sob a ação do Espírito, gere uma mística, um entusiasmo incontido na tarefa de anunciar o Evan­gelho e capaz de despertar a credibilidade para acolher a Boa Nova da Salvação.

29. Nova em seus métodos. Novas situações exigem novos caminhos para a evangelização. O testemunho e o encontro pessoal, a presença do cristão em todo o humano, assim como a confiança no anúncio salvador de Jesus (querigma) e na atividade do Espírito Santo, não podem faltar.

F necessário empregar, sob a ação do Espírito criador, a imagi­nação e a criatividade para que, de maneira pedagógica e con­vincente, o Evangelho chegue a todos. Já que vivemos numa cultura da imagem, devemos ser audazes para utilizar os meios que a técnica e a ciência nos proporcionam, sem jamais depositar neles toda a nossa confiança.

Por outro lado, é necessário utilizar aqueles meios que façam chegar o Evangelho ao centro da pessoa e da sociedade, às raízes mesmas da cultura, "não de uma maneira decorativa, como um verniz superficial" (EN 20).

30. Nova em sua expressão. Jesus Cristo nos pede proclamar a Boa Nova com uma linguagem que torne o Evangelho de sempre mais próximo das novas realidades culturais de hoje. A partir da riqueza inesgotável de Cristo, se hão de buscar as novas expres­sões que permitam evangelizar os ambientes marcados pela cul­tura urbana e inculturar o Evangelho nas formas de cultura adveniente. A Nova Evangelização tem que inculturar-se mais no modo de ser e de viver de nossas culturas, levando em conta as particularidades das diversas culturas, especialmente as indíge­nas e afro-americanas. (Urge aprender a falar segundo a menta­lidade e cultura dos ouvintes, de acordo com suas formas de comunicação e os meios em uso). Assim a Nova Evangelização continuará na linha da encarnação do Verbo. A Nova Evangeli­zação exige a conversão pastoral da Igreja. Tal conversão deve ser coerente com o concílio. Ela diz respeito a tudo e a todos: na consciência e na práxis pessoal e comunitária, nas rela es de igualdade e de autoridade; com estruturas e dinamismo que tornem a Igreja presente com cada vez mais clareza, enquanto sinal eficaz, sacramento de salvação universal.

1.l. A Igreja convocada à santidade

Iluminação doutrinal

31. Durante nossa IV Conferência estivemos, como Maria, à escuta da Palavra, para comunicá-1a a nossos povos. Sentimos que o Senhor Jesus repetia o chamamento a uma vida santa (c£ Ef l, fundamento de toda nossa ação missionária.

A Igreja, como mistério de unidade, encontra sua fonte em Jesus Cristo. Só n'Ele pode dar os frutos de santidade que Deus espera dela. Só participando de seu Espírito pode transmitir aos homens a autêntica Palavra de Deus. Somente a santidade de vida alimen­ta e orienta uma verdadeira promoção humana e cultura cristã. Só com Ele, por Ele e n'Ele se pode dar a Deus, Pai onipotente, a honra e a glória pelos séculos dos séculos.

Chamado à santidade

32. A Igreja é comunidade santa (cf. 1Pd 2,9), em primeiro lugar, pela presença nela do Cordeiro que a santifica por seu Espírito (cf. Ap 21,22s; 22,1-5; Ef 1,18; lCor 3,16; 6,19; LG 4). Por isso, seus membros devem esforçar-se cada dia por viver, no segui­mento de Jesus e em obediência ao Espírito, "como santos e imaculados em sua presença pelo amor" (Et 1,4). Estes são os homens e mulheres novos de que a América Latina e o Caribe necessitam: os que escutaram com coração bom e reto (cf. Lc 8, 15) o chamado à conversão (cf. Mc 1,15) e renasceram pelo Espírito Santo segundo a imagem perfeita de Deus (cf. Cl 1,15; Rm 8,29), chamam a Deus "Pai" e expressam seu amor a Ele no reconhecimento de seus irmãos (cf. P 32'. São bem-aventurados porque participam da alegria do Reino dos céus. São livres com a liberdade que dá a Verdade e solidários com todos os homens, especialmente com os que mais sofrem. A Igreja alcançou na Santíssima Virgem a perfeição em virtude da qual não tem mancha nem ruga. A santidade "é a chave do ardor renovado da

Nova Evangelização" (João Paulo II, Homilia em Salto, Uruguai, 09-OS-88, 4).

Convocada pela Palavra

33. A Igreja, comunidade santa, convocada pela Palavra, tem como uma de suas principais tarefas a de pregar o Evangelho (cf. LG 25). Os Bispos das Igrejas particulares que peregrinam na Amé­rica Latina e no Caribe e todos os participantes reunidos em Santo Domingo, queremos assumir com o renovado ardor que os tempos exigem, o chamado que o Papa, sucessor de Pedro, nos tem feito para empreender uma Nova Evangelização, muito conscientes de que evangelizar é necessariamente anunciar com alegria o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino e o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus (cf. EN 22). Querigma e catequese. A partir da situação generalizada de muitos batizados na América Latina, que não deram sua adesão pessoal a Jesus Cristo pela conversão primeira, se impõe, no ministério profético da Igreja, de modo prioritário e fundamen­tal, a proclamação vigorosa do anúncio de Jesus morto e ressus­citado (querigma, cf. RMi 44), "raiz de toda a Evangelização, fundamento de toda promoção humana e princípio de toda autêntica cultura crista" (DI 25).

Este ministério profético da Igreja compreende também a cate­quese que, atualizando incessantemente a revelação amorosa de Deus manifestada em Jesus Cristo, leva a fé inicial à sua maturi­dade e educa o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo (c£ CT 19). Ela deve nutrir-se da Palavra de Deus, lida e interpretada na Igreja e celebrada na comunidade, para que, ao esquadrinhar o mistério de Cristo, ajude a apresentá-1o como Boa Nova nas situações históricas de nossos povos.

Igualmente pertence ao ministério profético da Igreja o serviço que os teólogos prestam ao povo de Deus (cf. DI 7). Sua tarefa, enraizada na Palavra de Deus, realizada no diálogo aberto com os pastores, em plena fidelidade ao magistério, é nobre e neces­sária. Seu trabalho, assim realizado, pode contribuir para a inculturação da fé e a evangelização das culturas, como também para nutrir uma teologia que impulsione a pastoral, que promova a vida cristã integral, até a busca da santidade. Um trabalho teoló­gico assim compreendido impulsiona a ação em favor da justiça social, dos direitos humanos e da solidariedade com os mais pobres. Não esquecemos, sem embargo, que a função profética de Cristo é participada por todo o "povo santo de Deus" e que este a exerce, em primeiro lugar, "difundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de fé e caridade" (LG 12). O testemunho doe vida crista é a primeira e insubstituível forma de evange­lização, como o fez presente vigorosamente Jesus em várias ocasiões (cf. Mt 7, 21-23; 25, 31-46; Lc 10, 37; 19, 1-10) e o ensinaram também os apóstolos (c£ Tg 2, 14-18).

Celebração litúrgica

34. A Igreja santa encontra o sentido último de sua convocação na vida de oração, louvor e ação de graças que o céu e a terra dirigem a Deus por "suas obras grandes e maravilhosas" (Ap 15,3s; 7, 9-17). Esta é a razão pela qual a liturgia "é o cume ao qual tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte de onde emana a sua força" (SC 10). A liturgia é a ação do Cristo total, Cabeça e membros, e, como tal, deve expressar o sentido mais profundo de sua oblação ao Pai pelos homens. Assim como a celebração da Última Ceia está essencialmente unida à vida e ao sacrifício de Cristo na Cruz e o faz cotidianamente presente pela salvação de todos os homens, assim também, os que louvam a Deus reunidos em torno do Cordeiro, são os que mostram em suas vidas os sinais testemunhais da entrega de Jesus (cf. Ap 7,13s . Por isso, o culto cristão deve expressar a dupla vertente da obediência ao Pai (glorificação) e da caridade com os irmãos (redenção), pois a glória de Deus é que o homem viva. Com o qual longe de alienar aos homens, os liberta e os faz irmãos.

35. O serviço litúrgico, assim realizado na Igreja, tem, por si mesmo, um valor evangelizador que a Nova Evangelização deve situar em lugar de grande destaque. Na liturgia se faz presente hoje Cristo Salvador. A liturgia é o anúncio e realização (cf. SC 6) dos feitos salvíficos que nos chegam a tocar sacramentalmente; por isso, convoca, celebra e envia. É exercício da fé, útil tanto para quem tem uma fé robusta como para j em tem fé débil, e inclusive ara o não-crente (cf. lCor 14,24-25). Sustenta o compromisso com a promoção humana, enquanto orienta os fiéis a assumir sua res­ponsabilidade na construção do Reino, "para que se ponha de manifesto que os fiéis cristãos, sem ser deste mundo, são a luz do mundo" (SC 9). A celebração não pode ser algo separado ou paralelo à vida (c£ 1Pd 1,15). por último, é especialmente pela liturgia que o Evangelho penetra no coração mesmo das culturas. Toda a cerimônia litúrgica de cada sacramento tem também um valor pedagógico; a linguagem dos signos é o melhor veículo para que "a mensagem de Cristo penetre nas consciências das pessoas e (daí) se projete no ethos de um povo, em suas atitudes vitais, em suas instituições e em todas as suas estruturas" (DI 20 e; cf. João Paulo II, Disc. aos intelectuais, Medellín, OS-07-86, 2). Por isto as formas da celebração litúrgica devem ser aptas para expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, ser claras e inteligíveis para os homens e mulheres ( João Paulo II, Discurso à UNESCO, 02-06-80, 6).

Religiosidade popular

36. A religiosidade popular é uma expressão privilegiada da incul­turação da fé. Não se trata só de expressões religiosas mas também de valores, critérios, condutas e atitudes que nascem do dogma católico e constituem a sabedoria de nosso povo, forman­do-lhe a matriz cultural. Esta celebração da fé, tão importante na vida da Igreja da América Latina e do Caribe, está presente em nossa preocupação pastoral. As palavras de Paulo VI (EN 48), recebidas e desenvolvidas pela Conferência de Puebla, em pro­postas claras, são ainda hoje válidas (cf. Puebla, nº 444s). É necessário que reafirmemos nosso propósito de continuar os esforços por compreender cada vez melhor e acompanhar com atitudes pastorais, as maneiras de sentir e viver, compreender e expressar o mistério de Deus e de Cristo por parte de nossos povos, para que purificadas de suas possíveis limitações e desvios cheguem a encontrar seu lugar próprio em nossas Igrejas locais e em sua ação pastoral.

Contemplação e compromisso

37. Queremos concluir estas palavras acerca da Igreja como mistério de comunhão que se realiza plenamente na santidade de seus membros, recordando e agradecendo a Deus a vida contem­plativa e monástica presente hoje na América Latina. A santida­de, que é desenvolvimento da vida de fé, de esperança e de caridade, recebida no batismo, busca a contemplação do Deus que ama e de Jesus Cristo, seu Filho. A oração profética não se entende, nem é verdadeira e autêntica, senão a partir de um real e amoroso encontro com Deus que atrai irresistivelmente (cf. Am 3,8; Jr 20,7-9; Os 2,16s). Sem uma capacidade de contemplação, a liturgia, que é acesso a Deus através de sinais, se converte em ação carente de profundidade. Agradecemos a Deus a presença de homens e mulheres consagrados à contemplação em uma vida segundo os conselhos evangélicos. São um sinal vivo da santidade de todo o povo de Deus e um chamado poderoso a todos os cristãos a crescer na oração, como expressão de fé ardente e comprometida, de amor fiel que contempla a Deus em sua vida íntima Trinitária e em sua ação salvífica na história, e de inque­brantável esperança naquele que há de voltar para introduzir-nos na glória de seu Pai, que é também nosso Pai (cf. Jo 20,17).

Desafios pastorais

38. As considerações acima acerca da santidade da Igreja, de seu caráter profético e de sua vocação celebrativa, levam-nos a reco­nhecer alguns desafios que nos parecem fundamentais, aos quais é preciso responder para que a Igreja seja na América Latina e no Caribe plenamente o mistério da comunhão dos homens com Deus e entre si.

Na Igreja se multiplicam os grupos de oração, os movimentos apostólicos, formas novas de vida e de espiritualidade contem­plativa, além de diversas expressões da religiosidade popular. Muitos leigos tomam consciência de sua responsabilidade pasto­ral em suas diversas formas. Cresce o interesse pela Bíblia, que exige uma pastoral bíblica adequada que dê aos fiéis leigos critérios para responder às insinuações de uma interpretação fundamentalista ou a um afastamento da vida na Igreja para refugiar-se nas seitas.

39. Entre nós, católicos, o desconhecimento da verdade sobre Jesus Cristo e das verdades fundamentais da fé é um fato muito freqüente e, em alguns casos, essa ignorância está vinculada a uma perda do sentido do pecado. Freqüentemente a religiosidade popular, apesar de seus imensos valores, não está purificada de elementos alheios à autêntica fé cristã, nem leva sempre à adesão pessoal a Cristo morto e ressuscitado.

40. Pregamos pouco a respeito do Espírito que atua nos corações e os converte, fazendo assim possível a santidade, o desenvolvi­mento das virtudes e o vigor para tomar, a cada dia, a cruz de Cristo (cf. Ml 10,38; 16,24).

41. Tudo isto nos obriga a insistir na importância do primeiro anúncio (querigma) e na catequese. Damos graças a Deus pelos esforços de tantas e tantos catequistas que cumprem seu serviço eclesial com sacrifício, selado, às vezes, com suas vidas. Contudo, devemos reconhecer como pastores que ainda há muito por fazer. Existe ainda muita ignorância religiosa, a catequese não chega a todos e muitas vezes chega em forma superficial, incom­pleta quanto a seus conteúdos, ou puramente intelectual, sem força para transformar a vida das pessoas e de seus ambientes.

42. É notória a perda da prática da "direção espiritual", que seria muito necessária para a formação dos leigos mais comprometi­dos, além de ser condição para que amadureçam vocações sacer­dotais e religiosas.

43. Quanto à liturgia muito resta a ser feito tanto para assimilar em nossas celebrações a renovação litúrgica desencadeada pelo Concílio Vaticano II, como para ajudar os fiéis a fazer da cele­bração eucarística a expressão de seu compromisso pessoal e comunitário com o Senhor. Ainda não se alcançou plena consci­ência do que significa a centralidade da liturgia como fonte e cume da vida eclesial. Perdeu-se para muitos o sentido do "dia do senhor" e da conseqüente exigência eucarística. Persiste a pouca participação da comunidade cristã, e surge quem queira se apropriar da liturgia sem considerar seu verdadeiro sentido eclesial. Descuidou-se da séria e permanente formação litúrgica segundo as instruções e documentos do magistério (cf. Carta apostólica Vicesimus quintos annus, 4), em todos os níveis. Ainda não se dá atenção ao processo de uma sã inculturação da liturgia. Isto faz com que as celebrações sejam ainda, para muitos, algo ritualista e privado a ponto de não se fazerem conscientes da presença transformadora de Cristo e de seu Espírito nem de traduzirem-na em um compromisso solidário para a trans­formação do mundo.

44. A conseqüência de tudo isto é uma falta de coerência entre a fé e a vida em muitos católicos, incluídos, às vezes, nós mesmos ou alguns de nossos agentes pastorais. A falta de formação doutrinal e de profundidade na vida de fé faz de muitos católicos presa fácil do secularismo, do hedonismo e do consumismo que invadem a cultura moderna e, em todo caso, os incapacita de evangelizá-1a.

Linhas pastorais

45. A Nova Evangelização exige uma renovada espiritualidade que, iluminada pela fé que se proclama, anime, com a sabedoria de Deus, a autêntica promoção humana e seja o fermento de uma cultura cristã. Pensamos que é preciso continuar a acentuar a formação doutrinal e espiritual dos fiéis cristãos, e, em primeiro lugar, do clero, religiosos e religiosas, catequistas e agentes pastorais, destacando claramente a primazia da graça de Deus que salva por Jesus Cristo na Igreja, por meio da caridade vivida e através da eficácia dos sacramentos.

46. É preciso anunciar de tal maneira a Jesus que o encontro com Ele leve ao reconhecimento do pecado na própria vida e à conversão, em uma experiência profunda da graça do Espírito recebido no batismo e na confirmação. Isto supõe uma revalorização do sacramento da penitência, cuja pastoral deveria prolon­gar-se na direção espiritual de quem mostra maturidade sufuciente para aproveitá-la.

47. Devemos zelar para que todos os membros do povo de Deus assumam a dimensão contemplativa de sua consagração batismal e "aprendam a orar", imitando o exemplo de Jesus Cristo (c£ Lc 11,1), de maneira que a oração esteja sempre integrada com a missão apostólica da comunidade cristã e do mundo. Diante de muitos - inclusive cristãos - que buscam, em práticas alheias ao cristianismo, respostas às suas ânsias de vida interior, devemos saber oferecer a rica doutrina e a larga experiência que tem a Igreja.

48. Uma tal evangelização de Cristo e de sua vida divina em nós deve mostrar a exigência iniludível de acomodar a conduta ao modelo que Ele nos oferece. A coerência da vida dos cristãos com sua fé é condição da eficácia da Nova Evangelização. Para isso é neces­sário conhecer bem as situações concretas vividas pelo homem contemporâneo para oferecer-lhe a fé como elemento ilumina­dor. Isto supõe também uma clara pregação da moral crista que abrange tanto a conduta pessoal e familiar quanto a social. A prática de pequenas comunidades pastoralmente bem assistidas constitui um bom meio para aprender a viver a fé em estreita comunhão com a vida e com a perspectiva missionária. Neste campo é muito significativamente, também, a contribuição dos movi­mentos apostólicos.

49. A Nova Evangelização deve acentuar uma catequese querigmá­tica e missionária. Requerem-se, para a vitalidade da comuni­dade eclesial, mais catequistas e agentes pastorais, dotados de sólido conhecimento da Bíblia, que os capacite para lê-1a, à luz da Tradição e de Magistério da Igreja e para iluminar, a partir da Palavra de Deus, sua própria realidade pessoal, comunitária e social. Eles serão instrumentos especialmente eficazes da inculturação do Evangelho. Nossa catequese tem de ter um itinerário contínuo que vá desde a infância até à idade adulta, utili­zando os meios mais adequados para cada idade e situação. Os catecismos são subsídios muito importantes para a catequese. São, ao mesmo tempo, caminho e fruto de um processo de inculturação da fé. O Catecismo da Igreja católica, já anunciado pelo Papa João Paulo II, orientará a elaboração de nossos futuros catecismos.

50. A função profética da Igreja, que anuncia Jesus Cristo, deve mostrar sempre os sinais da verdadeira "valentia" (parresía: cf. At 4,13; 1Ts 2,2) em total liberdade diante de qualquer poder deste mundo. Parte necessária de toda pregação e de toda cate­quese deve ser a Doutrina Social da Igreja, que constitui a base e o estímulo da autêntica opção preferencial pelos pobres.

51. Nossas Igrejas locais, que se expressam plenamente na liturgia e em primeiro lugar na Eucaristia, devem promover uma séria e permanente formação litúrgica do povo de Deus em todos os seus níveis, a fim de ele que possa viver a liturgia espiritual, consciente e ativamente. Esta formação deverá ter em conta a presença viva de Cristo na celebração, seu valor pascal e festivo, o papel ativo que cabe à Assembléia e seu dinamismo missionário. Uma preo­cupação especial deve ser promover e dar uma séria formação a quem esteja encarregado de dirigir a oração e a celebração da Palavra na ausência do sacerdote. Parece-nos, enfim, que é urgente dar ao domingo, aos tempos litúrgicos e à celebração da Liturgia das Horas todo seu sentido e força evangelizadora.

52. A celebração comunitária deve ajudar a integrar em Cristo e em seu mistério os acontecimentos da própria vida, deve fazer cres­cer na fraternidade e na solidariedade, deve atrair a todos.

53. Temos de promover uma liturgia, que em total fidelidade ao espírito que o Concílio Vaticano II quis recuperar em toda sua pureza, busque, dentro das normas dadas pela Igreja, a adoção das formas, sinais e ações próprios das culturas da América Latina e Caribe. Nesta tarefa dever-se-á dar uma especial atenção à valorização da piedade popular, que encontra sua expressão especialmente na devoção à Santíssima Virgem, nas peregrinações aos santuários e nas festas religiosas, iluminadas pela Palavra de Deus. Se nós, os pastores, não nos empenhamos a fundo em acompanhar as expressões de nossa religiosidade popular, purificando-as e abrindo-as a novas situações, o secu1arismo impor-se-á mais fortemente em nosso povo latino-americano e a inculturação do Evangelho será mais difícil.

1.2. Comunidades aclesiais vivas e dinâmicas

54. "Que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, que eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17,21). Esta é ai oração de Jesus Cristo por sua Igreja. Ele pediu pra ela que viva a unidade, segundo o modelo da unidade trinitária (cf. GS 24). Assim procuraram viver os primeiros cristãos em Jerusalém.

Conscientes de que o momento histórico que vivemos exige que delineemos "o rosto de uma Igreja viva e dinâmica que cresce na fé, se santifica, ama, sofre, se compromete e espera em seu Senhor" (João Paulo II, DI 25), queremos voltar a descobrir o Senhor Ressuscitado que hoje vive em sua Igreja, se entrega a ela, santifica-a (cf, Ef 5,25-26) e a faz sinal da união de todos os homens entre si e destes com Deus (cf. LG 1).

Queremos refletir este "rosto" em nossas Igrejas particulares, paróquias e demais comunidades cristas. Buscamos dar impulso evangelizador a nossa Igreja a partir de uma vivência de comu­nhão e participação que já se experimenta em diversas formas de comunidades existentes em nosso continente.

1.2.1. A Igreja particular

55. As Igrejas particulares têm como missão prolongar para as diversas comunidades "a presença e a ação evangelizadora de Cristo (P 224) já que estão "formadas à imagem da Igreja universal nas quais e, a partir das quais, existe uma só e única Igreja Católica (LG23).

A Igreja particular e chamada a viver o dinamismo de comunhão missão, "a comun5ão e a missão estão profundamente unidas entre si; se compenetram e se implicam mutuamente, ao ponto de a comunhão representar, ao mesmo tempo, a fonte e o fruto da missão... sempre o único e idêntico Espírito o que convoca e une a Igreja e o que a envia a pregar o Evangelho até os confins da terra ChL 32),

A Igreja particular igualmente "comunhão orgânica.,. caracte­rizada pela simultânea presença da diversidade e da complemen­taridade das vocações e condições de vida, dos mistérios, dos carismas e das responsabilidades" (Ch L 20).

"Na unidade da Igreja local, que tem origem na Eucaristia, se encontra todo o Colégio episcopal com o Sucessor de Pedro à frente, como pertencendo à própria essência da Igreja particular. Em torno do Bispo e em perfeita comunhão com ele, devem florescer as paróquias e as comunidades cristãs como células vivas e pujantes de vida eclesial" (João Paulo II, DI 25).

A Igreja particular, conforme o seu ser e a sua missão, por congregar o povo de Deus de um lugar ou região, conhece de perto a vida, cultura, os problemas de seus integrantes e é cha­mada a gerar ali com todas as forças, sob a ação do Espírito, a Nova Evangelização, a promoção humana, a inculturação da fé (cf. RMi 54).

56. Em geral, nossas dioceses carecem de suficientes e qualificados agentes de pastoral. Muitas delas ainda não possuem um claro e verdadeiro planejamento pastoral. É urgente avançar no cami­nho da comunhão e participação, que, muitas vezes, é dificultado pela falta do sentido de Igreja e do autêntico espírito missionário. 57. Por isso é indispensável:

- Promover o aumento e a adequada formação dos agentes para os diversos campos da ação pastoral, conforme a eclesiologia do Vaticano II e o Magistério posterior.

- Impulsionar processos globais, orgânicos e planificados que facilitem e promovam a integração de todos os membros do povo de Deus, das comunidades e dos diversos carismas, e os oriente à Nova Evangelização, inclusive a missão ad gentes.

1.2.2. A paróquia

58. A paróquia, comunidade de comunidades e movimentos, acolhe as angústias e esperanças dos homens, anima e orienta a comunhão, participação e missão. "Não é principalmente uma estru­tura, um território, nem edifício, é a família de Deus, como uma fraternidade animada pelo Espírito de unidade"... "A paróquia se funda sobre uma realidade teológica porque ela é uma comu­nidade eucarística"... "A paróquia é comunidade de fé e uma comunidade orgânica... na qual o pároco, que representa o bispo diocesano, é o vínculo hierárquico com toda a Igreja particular" (ChL 26).

Se a paróquia é a Igreja que se encontra entre as casas dos homens, então ela vive e trabalha profundamente inserida na sociedade humana e intimamente solidária com suas as ira es e dificuldades.

A paróquia tem a missão de evangelizar, de celebrar a liturgia, de fomentar a promoção humana, de fazer progredir a incultu­ração da fé nas famílias, nas CEBs, nos grupos e movimentos apostólicos, e através deles em toda a sociedade.

A paróquia, comunhão orgânica e missionária, é assim uma rede de comunidades.

59. Mas ainda é lento o processo de renovação da paróquia em seus agentes de pastoral e na participação dos fiéis leigo .

É urgente e indispensável dar solução às interrogações que apresentam às paróquias urbanas, para que estas possam respon­der aos desafios da Nova Evangelização. Há defasagem entre o ritmo da vida moderna e os critérios que ordinariamente animam 60. Temos que pôr em prática estas grandes linhas:

- Renovar as paróquias a partir de estruturas que permitam setorial a pastoral, mediante pequenas comunidades eclesiais nas quais apareça a responsabilidade dos fiéis leigos.

- Qualifica a formação e participa dos leigos, capacitando-os alho nas situações específicas onde vivem ou atuam.

- Nas Paróquias urbanas, se devem privilegiar planos de conjunto em zonas homogêneas para organizar serviços ágeis que facilitem a Nova Evangelização.

- Renovar sua capacidade de acolhida e seu dinamismo missio­nário com os fiéis marginalizados e multiplicar a presença física da paróquia mediante a criação de capelas e pequenas comuni­dades.

1.2.3. As Comunidades Eclesiais de Base

61. A Comunidade Eclesial de Base é célula viva da paróquia entendida esta como comunhão orgânica e missionária.

CEB, em si mesma, ordinariamente integrada por nucas amplias, é chamada a viver como comunidade de fé, de culto e de amor, será animada por leigos, homens e mulheres adequa­damente preparados no mesmo processo comunitário; os anima­dores estarão em comunhão com o pároco respectivo e o bispo. "As Comunidades Eclesiais de Base devem caracterizar-se, sem­pre, por uma decidida projeção universal e missionária que lhes inspire um renovado dinamismo apostólico" (João Paulo II, DI 25). "São sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e de evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade fundada sobre a civilização do amor" (RM 51).

62. Quando não existe uma clara fundamentação eclesiológica e uma busca sincera de comunhão, estas comunidades deixam de ser eclesiais e podem ser vítimas de manipulação ideológica e política.

63. Consideramos necessário:

- Ratificar a validade das Comunidades Eclesiais de Base, fo­mentando nelas um espírito missionário e solidário, e buscando sua integração com a paróquia, com a diocese e com a Igreja universal, em conformidade com os ensinamentos da Evangelii Nuntiandi (58).

- Elaborar planos de ação pastoral que assegurem a preparação dos animadores leigos que assistem a estas comunidades, em íntima comunhão com o pároco e o bispo.

1.2.4. A família cristã

64. A família cristã é a "igreja doméstica", primeira comunidade evangelizadora. "Apesar do problemas que em nossos dias afligem o matrimônio e a instituição familiar, esta, como célula primeira e vital da sociedade, pode gerar grandes energias que são necessárias para o bem da humanidade" (DI 18). É necessá­rio fazer da pastoral familiar uma prioridade básica, sentida, real e atuante. Básica, como fronteira da Nova Evangelização. Senti­da, isto é, acolhida e assumida por toda a comunidade diocesana. Real, porque será respaldada, concreta e decididamente no acompanhamento do bispo diocesano e seus párocos. Atuante significa que deve estar inserida numa pastoral orgânica. Esta pastoral deve estar em sincronia com instrumentos pastorais e científicos. Necessita ser acolhida a partir de seus próprios caris­mas pelas comunidades religiosas e os movimentos em geral.

1.3. Na unidade do Espírito e com diversidade de ministérios e carismas

65. O batismo nos constitui povo de Deus, membros vivos da Igreja. Pela ação do Espírito Santo participamos de todas as riquezas da graça que o Ressuscitado nos doa.

É o espírito que nos dá a possibilidade de reconhecer Jesus como Senhor e nos leva a construir a unidade da Igreja, a partir de distintos carismas que Ele nos confia para "proveito comum" (cf. lCor 12,3-11). Eis nossa grandeza e nossa responsabilidade. Ser portadores da mensagem salvadora para os demais.

66. Assim, o ministério salvífico de Cristo (cf. Ml 20,28; Jo 10,10) se atualiza através do serviço de cada um de nós. Existimos e servimos a uma Igreja rica em ministérios.

1.3.1. Os ministérios ordenados

67. O ministério dos bispos, em comunhão com o sucessor de Pedro, e o dos presbíteros e diáconos é essencial para que a Igreja responda ao desígnio salvífico de Deus pelo anúncio da palavra, pela celebração dos sacramentos e pela guia pastoral. O minis­tério ordenado é sempre um serviço à humanidade com vistas ao Reino. Recebemos "a força do Espírito Santo" (c£ At 1,8) para sermos testemunhas de Cristo e instrumentos de vida nova. Voltemos a escutar hoje a voz do Senhor que, com os desafios do momento atual, nos chama e envia; queremos permanecer fiéis ao Senhor e aos homens e mulheres, sobretudo os mais pobres, para cujo serviço fomos consagrados.

a) O desafio da unidade

68. O Concílio nos recordou a dimensão comunitária de nosso ministério: colegialidade episcopal, comunhão presbiteral, uni­dade entre os diáconos. A nível continental e em cada uma de nossas Igrejas particulares, já existem organismos de integração e coordenação. É notório o esforço de unidade com os religiosos que partilham os esforços pastorais em cada diocese. Reconhecemos, sem dúvida, causas de preocupação em nossas Igrejas particulares: divisões e conflitos que nem sempre refletem a unidade querida pelo Senhor.

Por outro lado, a escassez de ministros e a sobrecarga de trabalho que o exercício do ministério impõe a alguns fazem com que muitos permaneçam isolados.

Faz-se portanto necessário viver a reconciliação na Igreja, per­correr ainda o caminho de unidade e de comunhão de nós, os pastores, entre nós e com as pessoas e comunidades a nós con­fiadas.

69. Por isso nos propomos:

- Manter as estruturas a serviço da comunhão entre os ministros ordenados, prestando especial atenção aos respectivos papéis subsidiários, sem detrimento das competência próprias, em conformidade com o direito da Igreja. Segundo as necessidades e o que ensina a experiência, tais estruturas podem ser revistas e redimensionadas pelo esclarecimento de sua competência e na­tureza. Entre estas instâncias estão as conferências episcopais, as províncias e regiões eclesiásticas, os conselhos presbiterais e, em nível continental, o CELAM.

- Na formação inicial dos futuros pastores e na formação perma­nente dos bispos, presbíteros e diáconos queremos impulsionar, muito especialmente, o espírito de unidade e comunhão.

b) A exigência de uma vida espiritual profunda

70. O sacerdócio procede da profundidade do inefável mistério de Deus. Nossa existência sacerdotal nasce do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e da ação santificadora e unificante do Espírito Santo; esta mesma existência se vai realizando para o serviço de uma comunidade, a fim de que todos se façam dóceis à ação salvadora de Cristo (cf. Ml 20,28, PDV 12).

O Sínodo Episcopal de 1990 e a exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis, delinearam claramente as notas características de uma espiritualidade sacerdotal, insistindo profundamente sobre na caridade pastoral (cf. PDV, cap 3).

71. Por estas razões nos propomos:

- Buscar em nossa oração litúrgica e particular e em nosso ministério uma permanente e profunda renovação espiritual para que nos lábios, no coração e na vida de cada um de nós Jesus Cristo esteja sempre presente.

- Crescer no testemunho de santidade de vida a que somos chamados com a ajuda dos meios que já temos em nossas mãos:

"Os encontros de espiritualidade sacerdotal, como os exercícios espirituais, os dias de retiro ou de espiritualidade" (PDV 80) e outros recursos assinalados no Documento Pontifício pós-sino­dal.

c) A urgência da formação permanente

72. São Paulo recomenda a seu discípulo que reavive o dom que recebeu pela imposição das mãos (c£ 2Tm 1,6). João Paulo II nos lembrou que a Igreja necessita apresentar modelos fidedignos de sacerdotes que sejam ministros convencidos e fervorosos da Nova Evangelização (cf. PDV 8 e cop. 6).

Há uma consciência crescente de necessidade e integralidade da formação permanente, entendida e aceita como caminho de conversão e meio para a fidelidade. As implicações concretas desta formação para o compromisso do sacerdote com a Nova Evangelização exigem criar laços concretos que a possam asse­gurar. Cada vez aparece com mais clareza a necessidade de acompanhar o processo de crescimento, tentando fazer com que os desafios, que o secularismo e a injustiça suscitam possam ser assimilados e respondidos a partir da caridade pastoral. Igual atenção temos de prestar aos sacerdotes idosos ou enfermos.

73. Consideramos importante:

- Elaborar projetos e programas de formação permanente para bispos, sacerdotes e diáconos, as comissões nacionais do clero e os conselhos presbiterais.

- Motivar e apoiar todos os ministros ordenados para uma formação permanente estruturada conforme as orientações do magistério pontifício.

d) A indispensável aproximação a nossas comunidades

74. O Bom Pastor conhece suas ovelhas e por elas é conhecido (cf. Jo 10,14). Servos da comunhão, queremos velar por nossas co­munidades com entrega generosa, sendo modelos para o rebanho (cf. 1Pd 5,1-5). Queremos que nosso serviço humilde faça sentir a todos que fazemos presente a Cristo Cabeça, Bom Pastor e Esposo da Igreja (cf. PDV 10).

A aproximação com cada uma das pessoas permite aos pastores partilhar com elas as situações de dor e ignorância, de pobreza e marginalização, as aspirações de justiça e libertação. É todo um programa para viver melhor nossa condição de ministros da reconciliação (cf. 2Cor 5,18), dando a cada um motivos de espe­rança (cf. 1Pd 3,15), pelo anúncio salvador de Jesus Cristo (cf. G1 5,1).

75. - Nós, bispos, nos propomos organizar melhor uma pastoral de acompanhamento de nossos presbíteros e diáconos, para apoiar os que se encontram em ambientes especialmente difíceis. Todos os ministros queremos conservar uma presença humilde e acessível no meio de nossas comunidades, para que todos possam sentir a misericórdia de Deus. Queremos ser testemu­nhas de solidariedade com nossos irmãos.

e) A atenção aos diáconos permanentes

76. O ministério dos diáconos é de importância para o serviço de comunhão na América Latina. Eles são, de forma muito privilegiada, sinais do Senhor Jesus "que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Ml 20,28). Seu serviço será o testemunho evangélico diante de uma história em que a iniqüidade se faz presente cada vez mais e se esfria a caridade (cf. Ml 24,12).

    Para uma Nova Evangelização que, pelo serviço da Palavra e a           Doutrina Social da Igreja, responda às necessidades de promoção humana e vá gerando uma cultura de solidariedade, o diácono permanente, por sua condição de ministro ordenado e inserido nas complexas situações humanas, tem um amplo campo de serviço em nosso Continente.

77. - Queremos reconhecer nossos diáconos mais pelo que são do que pelo que fazem.

- Queremos acompanhar a nossos diáconos no discernimento para que tenham uma formação inicial e permanente, adequada a sua condição.

- Continuaremos nossa reflexão sobre a espiritualidade própria dos diáconos, fundamentada em Cristo servo, para que vivam com profundo sentido de fé sua entrega à Igreja e sua integração com o presbitério diocesano.

- Queremos ajudar aos diáconos casados para que sejam fiéis a sua dupla sacramentalidade: a do matrimônio e a da ordem e para que suas esposas e filhos vivam e participem com eles na diaconia. A experiência de trabalho e seu papel de pais e esposos, constituem-nos colaboradores muito qualificados para abordar diversas realidades urgentes em nossas Igrejas particulares.

- Propomo-nos criar os espaços necessários para que os diáconos colaborem na cação dos serviços na Igreja, detectando e promovendo lideres, estimulando a corresponsabilidade de to­dos para uma cultura da reconciliação e solidariedade. Há situa­ções e lugres, principalmente nas zonas rurais distantes, e nas grandes áreas urbanas densamente povoadas, onde só através do diácono  o ordenado se faz presente.

1.3.2. As vocações ao ministério presbiteral e os seminários

78. "Naqueles dias, ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos” (Lc 6,12-13;Mc 3,13-14).

"Ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor" (Ml 9,36-38).

No marco de uma Igreja "comunhão para a missão", o Senhor, que nos chia todos à santidade, chama todos à santidade, chama alguns para o serviço sacerdotal.

a) A pastoral vocacional uma prioridade

79. Estamos diante de fatos inegáveis: há um aumento das vocações sacerdotais, cresceu o interesse por uma pastoral que apresente aos jovens, m clareza, a possibilidade de um chamado do Senhor.

Mas os jovens chamados não podem escapar às mudanças fami­liares, culturais, econômicos e  sociais do momento. A desintegra­ção familiar pode impedir uma experiência de amor que prepara para a entrega generosa de toda a vida. O contágio de uma sociedade lesiva" e consumiste não favorece uma vida de austeridade e sacrifício. Pode acontecer que a motivação voca­cional esteja, sem que o candidato o queira, viciada por razões não evangélicas.

88- Por isso apoderamos muito importante:

- Estruturar uma pastoral vocacional inserida na pastoral orgâ­nica da diocese, em estreita vinculação com a pastoral familiar e a da juventude. É agente preparar agentes e encontrar recursos para este campo de pastoral e apoiar o compromisso dos leigos na promoção de vocações consoada

- Fundamentar a pastoral vocacional na oração, na freqüência dos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, na catequese da confirmação, na devoção mariana no acompanhamento com a direção espiritual e num compromisso missionário concreto: estes são os principais meios que auxiliarão os jovens em seu discernimento.

- Procurar estimular as vocações provenientes de todas as cultu­ras presentes em nossas Igrejas particulares. O Papa nos convi­dou a prestar atenção de vocações indígenas (Mensagem aos indígenas, 6) e (Mensagem aos afro-americanos, 5).

81. Mantêm sua validade os seminários menores e centros afins devidamente adaptados às condições da época atual para os jovens dos últimos anos do curso médio, nos quais começa a manifestar-se um forte desejo de optar pelo sacerdócio. Em alguns países e em ambientes familiares deteriorados, são neces­sárias estas instituições para que os jovens cresçam em sua vivência cristã e possam fazer uma opção vocacional mais dura­doura.

82. Ante o ressurgimento de vocações entre os adolescentes, é tarefa nossa uma adequada promoção, discernimento e formação.

- Em nossa pastoral vocacional teremos muito em conta as palavras do Santo Padre: "Condição indispensável para a Nova Evangelização é poder contar' com evangelizadores numerosos e qualificados. Por isso, a promoção das vocações sacerdotais e religiosas... há de ser uma prioridade dos bispos e um compro­misso de todo o povo de Deus" (DI 26).

b) Os seminários

83. Sinal de alegria e de esperança é o nascimento de seminários maiores em nosso continente e o aumento do número de alunos neles.

Em geral, trabalha-se por um ambiente favorável à direção espi­ritual e procura-se atualizar a formação, especialmente pastoral, dos futuros sacerdotes.

Preocupa, no entanto, a dificuldade para reunir a equipe de formadores adequada às necessidades de cada seminário, em detrimento da qualidade da formação.

Em muitos casos, o meio social do qual provêm os candidatos "os marca" com modos de vida muito secularizados ou os faz chegar ao seminário com limitações em sua formação humana ou inte­lectual quando não nos fundamentos de sua fé cristã.

84. Diante destas realidades nos propomos:

- Assumir plenamente as diretrizes da exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis e rever, a partir dela, nossas "Normas básicas para a formação sacerdotal" (Ratio fundamentalis) em cada país. - Selecionar e preparar formadores, aproveitando os cursos oferecidos pelo CELAM e outras instituições. Antes de abrir um seminário é necessário assegurar a presença da equipe de forma­dores.

- Rever a orientação da formação oferecida em cada um dos nossos seminários para que corresponda às exigências da Nova Evangelização, com suas conseqüências para a promoção huma­na e a inculturação do Evangelho. Sem atenuar as exigências de uma séria formação integral, dispensar particular interesse ao desafio representado pela formação sacerdotal daqueles candi­datos provindos de culturas indígenas e afro-americanas.

- Procurar uma formação integral que desde o seminário dispo­nha para a formação permanente do sacerdote.

1.3.3. A vida consagrada

85. A vida consagrada, que como dom do Espírito Santo, pertence à vida íntima e santa da Igreja (LG 44; EN 69), é manifestada pelo testemunho heróico de muitos religiosos e religiosas que a partir de sua singular aliança com Deus fazem presente, em todas as situações, até as mais difíceis, a força do Evangelho.

Pela vivência fiel dos conselhos evangélicos, participam do mis­tério e da missão de Cristo, irradiam os valores do Reino, glori­ficam a Deus, animam a própria comunidade eclesial e interpelam à sociedade (cf. Lc 4,14-21; 9,1-6). Os conselhos evangélicos têm uma profunda dimensão pascal, já que supõem uma identificação com Cristo, em sua morte e ressurreição (João Paulo II, Os caminhos do Evangelho, n. 7).

Por sua experiência testemunhal, a vida religiosa "há de ser sempre evangelizadora para que os necessitados da luz da fé acolham com alegria a Palavra da Salvação; para que os pobres e mais desprezados sintam a proximidade da solidariedade fra­terna; para que os marginalizados e abandonados experimentem o clamor de Cristo; para que os sem voz se sintam escutados; para que os tratados injustamente encontrem defesa e ajuda" (João Paulo II, Homilia na Catedral de Santo Domingo, 10.10.92, n. 8). A Virgem Maria, que pertence tão profundamente à identidade cristã de nossos povos latino-americanos (cf. Puebla 283), é modelo de vida para os consagrados e apoio seguro de sua fidelidade.

Na base do Concílio Vaticano II e sob o impulso de Medellín e Puebla, houve um esforço de renovação dos religiosos, uma "volta às fontes" e à primitiva inspiração dos institutos (cf. Per fectae Caritatis, n. 2). As conferências de Superiores Maiores desempenham importante papel para a vida consagrada; respei­tando o fim e o espírito de cada instituto, tratam de assuntos comuns e estabelecem a conveniente cooperação com os pasto­res da Igreja (cf. CIC 708).

A vida consagrada, dom peculiar de Deus à sua Igreja, é neces­sariamente eclesial e enriquece as Igrejas particulares. Os reli­giosos da América Latina renovam sua adesão ao Papa. A partir das disposições de Mutuae relationes, é preciso um esforço de maior conhecimento recíproco entre as diversas formas de vida consagrada nas Igrejas particulares.

86. De singular fecundidade evangelizadora e missionária é a vida contemplativa; ela dá testemunho com toda a sua vida da prima­zia do absoluto de Deus. Com alegria constatamos o aumento de suas vocações e o envio a outros países.

87. A experiência dos institutos seculares é significativa e eles estão em crescimento. Por sua consagração buscam harmonizar os valores autênticos do mundo contemporâneo com o seguimento de Jesus vivido a partir da secularidade; hão de ocupar, pois, um lugar de destaque no trabalho da Nova Evangelização para a promoção humana e a inculturação do Evangelho.

88. As sociedades de vida apostólica também contribuem generosa­mente com esta tarefa de evangelização e são chamadas a manter suas características específicas de vida apostólica.

89. Outra forma de consagração é a das virgens consagradas a Deus pelo bispo diocesano, esposas místicas de Jesus Cristo, que se entregam ao serviço da Igreja (cf. CIC 604,1).

90. A mulher consagrada contribui para impregnar de Evangelho nossos processos de promoção humana integral e dinamiza a pastoral da Igreja. Ela é freqüentemente encontrada nos lugares de missão que oferecem maior dificuldade e é especialmente sensível ao clamor dos pobres. Por isto é necessário dar-lhe mais responsabilidade na programação da ação pastoral e caritativa.

91. "A obra de evangelização (disse o Papa) na América Latina tem sido, em grande parte, fruto do vosso serviço missionário... Tam­bém em nossos dias, os religiosos e religiosas representam uma força evangelizadora e apostólica primordial no continente lati­no-americano" (João Paulo II, Os caminhos do Evangelho, 29.6.90, n. 2.3).

Em sua carta aos religiosos da América Latina (29.6.9(j), o Santo Padre lhes apresenta os seguintes pontos: seguir "na vanguarda da pregação, dando sempre testemunho do Evangelho da Salva­ção" (n. 24). "Evangelizar a partir de uma profunda experiência de Deus " (n. 25). "Manter vivos os carismas dos fundadores" (n. 26). "Evangelizar em estreita colaboração com os bispos, com os sacerdotes e com os leigos, dando exemplo de renovada comu­nhão" (n. 27). Estar na vanguarda da evangelização das culturas (n. 28). Responder à necessidade de evangelizar para além de nossas fronteiras.

Linhas pastorais

92. A respeito da vida consagrada, esta IV Conferência assinala os seguintes compromissos e linhas de ação pastoral:

- Reconhecer a vida consagrada como um dom para nossas Igrejas particulares.

- Fomentar a vocação à santidade nas religiosas e religiosos, valorizando sua vida por sua própria existência e testemunho. Por isso queremos respeitar e fomentar a fidelidade a cada carisma fundacional como contribuição à Igreja.

- Dialogar nas comissões mistas e em outros organismos previs­tos no Documento da Santa Sé Mutuae relationes para responder às diversas tensões e conflitos a partir da comunhão eclesial. Queremos que em nossos seminários se fomente o conhecimento da teologia da vida religiosa e que, nas casas de formação dos religiosos, se dê especial importância à teologia da Igreja parti­cular presidida pelo bispo e, além disso, o conhecimento da espiritualidade específica do sacerdote diocesano.

- Queremos apoiar as iniciativas dos Superiores Maiores em favor de uma formação inicial e permanente e de um acompa­nhamento espiritual dos religiosos e religiosas para que estes possam responder aos desafios da Nova Evangelização. Tratare­mos de estimular um espírito missionário que desperte nos reli­giosos o desejo de servir para além de "nossas fronteiras."

- Apoiar e assumir o ser e a presença missionária dos religiosos na Igreja particular sobretudo quando sua opção pelos pobres os leva a postos de vanguarda de maior dificuldade ou de inserção mais comprometida.

93. Procurar que os religiosos e religiosas que se encontram traba­lhando pastoralmente na Igreja particular o façam sempre em perfeita comunhão com o bispo e os presbíteros.

1.3.4. Os fiéis leigos na Igreja e no mundo

94. O Povo de Deus está constituído em sua maioria por fiéis leigos. Eles são chamados por Cristo como Igreja, agentes e destinatá­rios da Boa Nova da Salvação, a exercer no mundo, vinha de Deus, uma tarefa evangelizadora indispensável. A eles se dirigem hoje as palavras do Senhor "Ide também vós para a vinha" (Ml 20, 3-4) e estas outras: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura"(Mc 16,15; tf ChL33).

Como conseqüência do batismo os fiéis estão inseridos em Cristo e são chamados a viver o tríplice ministério sacerdotal, profético e real. Esta vocação deve ser fomentada constan­temente pelos pastores das Igrejas particulares.

a) Os leigos hoje em nossas Igrejas

95. Hoje, como sinal dos tempos, vemos um grande número de leigos comprometidos com a Igreja que exercem diversos ministérios, serviços e funções nas comunidades eclesiais de base ou ativida­des nos movimentos eclesiais. Cresce sempre mais a consciência de sua responsabilidade no mundo e na missão ad gentes. Os pobres evangelizam os pobres.

Os fiéis leigos comprometidos manifestam uma sentida necessi­dade de formação e de espiritualidade.

%. Comprova-se, porém, que a maior parte dos batizados ainda não tomou plena consciência de sua pertença à Igreja. Sentem-se católicos, mas não Igreja. Poucos assumem os valores cristãos cromo elemento de sua identidade cultural, não sentindo a neces­sidade de um compromisso eclesial e evangelizador. Como con­seqüência disto, o mundo do trabalho, da política, da economia, d.e ciência, da arte, da literatura e dos meios de comunicação social não são guiados por critérios evangélicos. Assim se explica a incoerência entre a fé que dizem professar e o compromisso real na vida (cf. Puebla 783).

Também se comprova que os leigos nem sempre são adequa­damente acompanhados pelos Pastores no descobrimento e amadurecimento de sua própria vocação.

A persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla 784), a dedicação preferencial de muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e -uma deficiente formação, privam-nos de dar respostas eficazes aos desafios atuais da sociedade.

b) Os desafios para os leigos

97. As urgências do momento presente na América Latina e no Caribe reclamam:

Que todos os leigos sejam protagonistas da Nova Evangelização, da Promoção Humana e da Cultura Cristã. É necessária a cons­tante promoção do laicado, livre de todo clericalismo e sem te dação ao intra-eclesial.

Que os batizados não evangelizados sejam os principais destina­tários da Nova Evangelização. Esta só será efetivamente levada a cabo se os leigos, conscientes de seu batismo, responderem ao chamado de Cristo a que se convertam em protagonistas da Nova Evangelização.

No marco da comunhão eclesial, urge um esforço de favorecer, a busca de Santidade dos leigos e o exercício de sua missão.

c) Principais linhas pastorais

98. Incrementar uma vivência da Igreja-comunhão, que nos leve à co-responsabilidade na ação da Igreja. Fomentar a participação dos leigos nos Conselhos Pastorais, nos diversos níveis da estru­tura eclesial. Evitar que os leigos reduzam sua ação ao âmbito intra-eclesial, impulsionando-os a penetrar os ambientes sócio­ culturais e a serem eles os protagonistas da transformação da sociedade à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Promover os conselhos de leigos, em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de encontro, diá­logo e serviço, que contribuam ao fortalecimento da unidade, da espiritualidade e da organização do laicato. Estes conselhos de leigos também são espaços de formação e podem estabelecer-se em cada diocese na Igreja de cada pais e abarcar tanto os movimentos de apostolado como os leigos que, estando compro­metidos com a Evangelização, não estão integrados em grupos apostólicos.

99. Incentivar uma formação integral, gradual e permanente dos leigos mediante organismos que facilitem "a formação de forma­dores" e programem cursos e escolas diocesanas e nacionais, dispensando particular atenção à formação dos pobres (cf. ChL 63).

Os pastores procuraremos, como objetivo pastoral imediato, fomentar a preparação de leigos que se sobressaiam no campo da educação, da política, dos meios de comunicação social, da cultura e do trabalho. Estimularemos uma pastoral específica para cada um destes campos, de maneira que os que nelas estiverem presentes sintam todo o respaldo de seus pastores. Estarão incluídos também os militares a quem corresponde sem­pre estar a serviço da liberdade, da democracia e da paz dos povos (cf. GS 79).

Tendo presente que a santidade é um chamado a todos os cristãos, os pastores procurarão os meios adequados que favore­çam aos leigos uma autêntica experiência de Deus. Incentivarão também publicações específicas de espiritualidde laical.

100. Favorecer a organização dos leigos em todos os níveis da estrutura pastoral, baseada nos critérios de comunhão e partici­pação, respeitando "a liberdade de associação dos fiéis leigos na Igreja" cf. ChL 29-30)

d) Ministérios conferidos aos leigos

101· O documento de Puebla recolheu a experiência do Continente no que diz respeito aos ministérios conferidos aos leigos e deu orientações claras para que, de acordo com os carismas de cada pessoa e as necessidades de cada comunidade, se fomentasse "uma especial criatividade no estabelecimento de ministérios e serviços que possam ser exercidos por leigos, de acordo com as necessidades da evangelização" (P 833; c£ 804-805; 811-817).

O Sínodo dos Bispos em 1987 e a Exortação apostólica Christifi­deles laici têm insistido na importância de mostrar que estes ministérios "têm seu fundamento sacramental no batismo e na confirmação" (ChL 23).

Fiéis às orientações do Santo Padre, queremos continuar fomen­tando estas experiências que dão ampla margem de participação aos leigos (cf. ChL 21-23) e respondem às necessidades de muitas comunidades que, sem esta valiosa colaboração, careceriam de todo acompanhamento na catequese, na oração e na animação de seus compromissos sociais e caritativos.

Consideramos que "novas expressões e novos métodos" para nossa missão evangelizadora encontram amplos campos de rea­lização em "ministérios, oficias e funções" (ChL 23) que possam desempenhar alguns leigos cuidadosamente escolhidos e prepa­rados. Uma forma adequada poderia ser que a uma família completa se entregasse à tarefa pastoral de animar outras famí­lias, preparando-se devidamente para este ofício.

e) Os movimentos e associações de Igreja

102. Como resposta às situações de secularismo, ateísmo, indife­rença religiosa e como fruto da aspiração e necessidade do religioso (cf. ChL 4), o Espírito Santo tem impulsionado o nasci­mento de movimentos e associações de leigos que já têm produ­zido muitos frutos em nossas Igrejas.

Os movimentos dão importância fundamental à Palavra de Deus, à oração em comum e atenção especial à ação do Espírito. Há casos também em que a experiência de uma fé compartilhada segue sempre como uma necessidade de comunhão cristã de bens como primeiro passo para uma economia de solidariedade.

As associações de apostolado são legítimas e necessárias (cf. AA 18); seguindo a orientação do Concílio, confere-se um lugar especial para a ação católica por sua vinculação profunda à Igreja particular (cf. AA 20; ChL 31).

Ante os riscos de alguns movimentos e associações que possam chegar a fecharem-se sobre si mesmos, é particularmente urgente ter em conta os "critérios de eclesialidade" indicados na exorta­ção pós-sinodal Christifideles Iaici n.30. É necessário acompa­nhar os movimentos em um processo de inculturação mais defi­nido e alentar a formação de movimentos com perfil mais latino-americano.

"A Igreja espera muito de todos os leigos que com entusiasmo e eficácia evangélica agem através dos novos movimentos apostó­licos, que estejam sendo coordenados na pastoral de conjunto e que respondam "à necessidade de uma maior presença da fé na vida social" (João Paulo II, DI 27).

f) Leigos, Linha pastoral prioritária

103. A importância da presença dos leigos na tarefa da Nova Evan­gelização que conduz à promoção humana e chega a informar todo o âmbito da cultura com a força do Ressuscitado, nos permite afirmar que uma linha prioritária de nossa pastoral, fruto desta IV Conferência, há de ser a de uma Igreja na qual os fiéis cristãos leigos sejam protagonistas. Um laicato, bem estruturado com uma formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas particulares que têm tomado muito a sério 0 compromisso da Nova Evangelização

1.3.5. As mulheres

104. Em Cristo, plenitude dos tempos, a igualdade e complementa­ridade com que o homem e a mulher foram criados (cf. Gn 1,27) se faz possível, já que "não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus"(Gl 3, 26-29). Jesus acolheu as mulheres, lhes devolveu a dignidade e lhes confiou, depois de sua ressurreição, a missão de anunciá-1o. (cf. MD 16). Cristo, "nas­cido de mulher" (G1 4,4) nos dá Maria que "precede a Igreja mostrando em forma eminente e singular o modelo de virgem e de mãe" (LG 63). Ela é protagonista da história por sua coope­ração livre, levada à máxima participação com Cristo (cf. P 283). Maria tem representado um papel muito importante na evange­lização das mulheres latino-americanas e tem feito delas evange­lizadoras eficazes, como esposas, mães, religiosas, trabalhadoras, camponesas, profissionais. Continuamente lhes inspira a fortale­za para dar a vida, debruçar-se ante a dor, resistir e dar esperança quando a vida está mais ameaçada, encontrar alternativas quan­do os caminhos se fecham, como companheira ativa, livre e animadora da sociedade.

I. Situação

105. Em nosso tempo, a sociedade e a Igreja têm crescido em consciência da igual dignidade e missão da mulher e do homem. Ainda que teoricamente se reconheça esta igualdade, na prática freqüentemente é ela desconhecida. A Nova Evangelização deve ser promotora decidida e ativa da dignidade da mulher. Isto supõe aprofundar o papel da mulher na Igreja e na Pastoral. Hoje se difundem diversas posições reducionistas sobre a natu­reza e missão da mulher: nega-se sua específica dimensão femi­nina, reduz-se a mulher em sua dignidade e direitos, converte-se a mulher em objeto de prazer, com um papel secundário na vida social. Ante isto queremos propor a doutrina evangélica sobre a dignidade e vocação da mulher, sublinhando seu papel "como mãe, defensora da vida e educadora do lar" (cf. P 846).

106. Na família e na construção do mundo, hoje, ganha terreno uma maior solidariedade entre homens e mulheres, mas fazem falta passos mais concretos rumo à igualdade real e à descoberta de que ambos se realizam na reciprocidade.

Tanto na família como nas comunidades eclesiais e nas diversas organizações de um país, as mulheres são quem mais se comuni­cam, sustentam e promovem a vida, a fé e os valores. Elas têm sido durante séculos "o anjo da guarda da alma cristã do conti­nente" (João Paulo II, Homilia em S. Domingo, 11.10.92 n.9). Este reconhecimento se choca escandalosamente com a freqüente realidade de sua marginalização, dos perigos aos quais se submete sua dignidade, da violência da qual muitas vezes é objeto. Àquela que dá e defende a vida é negada uma vida digna. A Igreja se sente chamada a estar do lado da vida e defendê-1a na mulher.

2. Compromissos pastorais

107. Consideramos urgentes estas linhas de ação:

Denunciar abertamente as violações às mulheres latino-america­nas e caribenhas, sobretudo as camponesas, indígenas, afro-ame­ncanas, migrantes e operárias, inclusive as violências que se cometem pelos meios de comunicação social contra sua dignida­de. Promover a formação integral para que haja verdadeira conscientização da dignidade comum do homem e da mulher. Anunciar profeticamente o ser verdadeiro da mulher, retirando do Evangelho a luz e a esperança do que ela é em plenitude, sem reduzi-1a a modalidades culturais transitórias. Criar espaços para que a mulher possa descobrir seus próprios valores, apreciá-los e oferecê-los abertamente à sociedade e à Igreja.

108. Desenvolver a consciência dos sacerdotes e dirigentes leigos para que aceitem e valorizem a mulher na comunidade eclesial e na sociedade, não só pelo que elas fazem, mas, sobretudo, pelo que elas são. Fomentar uma atitude de análise crítica ante as mensagens dos meios de comunicação sobre os estereótipos que tais meios apresentam sobre a feminilidade. Discernir à luz do Evangelho de Jesus os movimentos que lutam pela mulher par­tindo de distintas perspectivas, para potenciar seus valores, ilu­minar o que pode parecer confuso e denunciar o que resulta contrário à dignidade humana. Ao ler as escrituras, anunciar com força o que o Evangelho significa para a mulher e desenvolver uma leitura da Palavra de Deus que descubra os traços que a vocação feminina confere ao plano da salvação.

109. Criar na educação novos símbolos e linguagens que não redu­zam ninguém à categoria de objeto, mas que resgatem o valor de cada um como pessoa, e evitar nos programas educativos conteú­dos que discriminem a mulher, reduzindo sua dignidade e iden­tidade. É importante pôr em prática programas de educação para o amor e educação sexual na perspectiva cristã, buscar caminhos para que se dêem entre o homem e a mulher relações interpessoais baseadas no mútuo respeito e apreço, o reconhe­cimento das diferenças, o diálogo e a reciprocidade. É preciso incorporar as mulheres no processo de decisões responsáveis em todos os âmbitos: na fama e na sociedade. Urge contar com a liderança feminina e promover a presença da mulher na organi­zação e animação da Nova Evangelização da América Latina e do Caribe. É necessário estimular uma pastoral que promova as mulheres indígenas no campo social, educativo e político.

110. Denunciar tudo aquilo que atentando contra a vida afete a dignidade da mulher como o aborto, a esterilização, os progra­mas antinatalistas, a violência nas relações sexuais; favorecer os meios que garantam uma vida digna para as mulheres mais expostas: empregadas domésticas, migrantes, camponesas, indí­genas, afro-americanas, trabalhadoras humildes e exploradas; intensificar e renovar o acompanhamento pastoral a mulheres em situações difíceis: separadas, divorciadas, mães solteiras, meni­nas e mulheres prostituídas por causa da fome, do engano e do abandono.

1.3.6. Os adolescentes e os jovens

111. Jesus percorreu as etapas da vida de toda pessoa humana: infância, adolescência, juventude, idade adulta. Ele se revela como o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,S). Ao nascer assumiu a condição de menino pobre e submisso a seus pais, recém-nas­cido foi perseguido (Ml 2,13). Jesus, revelação do Pai que quer a vida em abundância (cf. Jo 10,10), devolve a vida a seu amigo Lázaro (Jo 11), ao jovem filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,17) e à jovem filha de Jairo (cf. Mc 5,21-43). Ele continua hoje chamando os jovens para dar sentido a suas vidas.

A missão dos adolescentes e jovens na América Latina "que caminham para o terceiro milênio cristão é preparar-se para ser os homens e mulheres do futuro, responsáveis e ativos nas estru­turas sociais, culturais e eclesiais, para que incorporados pelo Espírito de Cristo e por seu talento em conseguir soluções origi­nais, contribuam para a conquista de um desenvolvimento cada vez mais humano e mais cristão" (c£ Discurso do Papa em Higuey, 4).

1. Situação

112. Muitos jovens são vítimas do empobrecimento e da margina­lização social, do desemprego e do subemprego, de uma educa­ção que não responde às exigências de suas vidas, do narcotráfico, da guerrilha, das gangues, da prostituição, do al­coolismo, de abusos sexuais. Muitos vivem adormecidos pela propaganda dos meios de comunicação social e alienados por imposições culturais, e pelo pragmatismo imediatista que tem gerado novos problemas no processo de amadurecimento afetivo dos adolescentes e dos jovens.

Por outro lado, constatamos que há adolescentes e jovens que reagem ao consumismo imperante e se sensibilizam com as fra­quezas das pessoas e com a dor dos mais pobres. Buscam inse­rir-se na sociedade, repudiando a corrupção e gerando espaços de participação genuinamente democráticos. Cada vez são mais os que se reúnem em grupos, movimentos e comunidades ecle­siais para orar e realizar distintos serviços de ação missionária e apostólica. Os adolescentes e os jovens estão povoados de inter­rogações vitais e representam o desafio de montar um projeto de vida pessoal comunitário que dê sentido a suas vidas, para assim

lograr a realização de suas capacidades. Encarnam o desafio de ser acompanhados em seus caminhos de crescimento na fé e trabalho eclesial e preocupações de transformação necessária da sociedade por meio de uma pastoral orgânica.

113. Na Igreja da América Latina, os jovens católicos organizados em grupos, pedem aos pastores acompanhamento espiritual e apoio em suas atividades, mas necessitam sobretudo em cada país de linhas pastorais claras que contribuam para uma pastoral juvenil orgânica.

2. Compromissos pastorais

114. Nós nos propomos executar as seguintes ações pastorais:

- Reafirmar a "opção preferencial" pelos jovens proclamada em Puebla, não só de modo afetivo mas também efetivamente; isto deve significar uma opção concreta por uma pastoral juvenil orgânica, onde haja um acompanhamento e apoio real com diálogo mútuo entre jovens, pastores e comunidades. A efetiva opção pelos jovens exige maiores recursos pessoais e materiais por p3rte das paróquias e das dioceses. Esta pastoral juvenil deve ter sempre uma dimensão vocacional.

115. Para cumpri-1a propomos uma ação pastoral:

- Que responda às necessidades de amadurecimento afetivo e à necessidade de acompanhar os adolescentes e jovens em todo 0 processo de formação humana e crescimento da fé. Será preciso dar especial importância ao sacramento da Confirmação, para que sua celebração leve os jovens ao compromisso apostólico e a ser evangelizadores de outros jovens.

- Que capacite para conhecer e responder criticamente aos impactos culturais, sociais que recebem e os ajude a comprome­ter-se na pastoral da Igreja, nas necessárias transformações da sociedade.

116. - Que dinamize uma espiritualidade do seguimento de Jesus que propicie o encontro entre a fé e a vida, que seja promotora da justiça, da solidariedade e que anime um projeto promissor e gerador de uma nova cultura de vida.

117. - Que assuma as novas formas celebrativas da fé, próprias da cultura dos jovens; fomente a criatividade e a pedagogia dos sinais, respeitando sempre os elementos essenciais da liturgia.

118. - Que anuncie nos compromissos assumidos e na vida cotidiano que o Deus da vida ama aos jovens e quer para eles um futuro diferente sem frustrações nem marginalizações, onde a vida plena seja fruto acessível a todos.

119. - Que abra aos adolescentes e jovens espaços da participação na Igreja. Que o processo educativo se realize através de uma pedagogia experiencial, participativa e transformadora. Que promova o protagonismo através da metodologia do ver, julgar, agir, revisar e celebrar. Tal pedagogia tem de integrar o cresci­mento da fé no processo de crescimento humano, tendo em conta os diversos elementos, como o esporte, a festa, a música, o teatro. - Esta pastoral deve pretender fortalecer todos os processos orgânicos válidos e definidamente analisados pela Igreja, desde Puebla até hoje. Cuidará especialmente de dar relevância à pastoral juvenil de meios específicos, onde vivem e atuam os adolescentes e os jovens: camponeses, indígenas, afro-america­nos, trabalhadores, estudantes, habitantes de periferias urbanas marginalizados, militares e jovens em situações críticas.

- A Igreja, com sua palavra e seu testemunho, deve antes de tudo apresentar Jesus Cristo aos adolescentes e aos jovens de modo atrativo e motivador, de modo que seja para eles o caminho, a verdade e a vida que responda a seus anseios de realização pessoal e a suas necessidades de encontrar sentido na mesma vida.

120. Para responder à realidade cultural atual, a pastoral juvenil deverá apresentar, com força e de um modo atraente e acessível à vida dos jovens, os ideais evangélicos. Deverá favorecer a criação e animação de grupos, comunidades juvenis vigorosas e evangélicas, que assegurem a continuidade e perseverança dos processos educativos dos adolescentes e jovens, e os sensibilizem e comprometam a responder aos desafios da promoção humana, da solidariedade e da construção da civilização do amor.

1.4. Para anunciar o Reino a todos os povos

121. Cristo nos revela o Pai e nos introduz no Mistério da vida trinitária pelo Espírito. Tudo passa por Cristo, que se faz cami­nho, verdade e vida. Pelo batismo recebemos a filiação divina. Tendo sido feitos filhos de Deus, todos os povos da América Latina fomos feitos também irmãos entres nós.

Fomos introduzidos no Mistério da comunhão trinitária, porque Cristo se fez um de nós, assumindo a condição de servo e tudo o que a nossa condição humana implica, menos o pecado, para transformá-1a, vivificá-1a, fazê-la cada vez mais humana e divina. Desta maneira, Cristo agora entra no coração de nossos povos, assume-os e transforma-os.

Ao incorporar-nos a Ele, comunica-nos sua vida amorosa, como a videira aos ramos, infundindo-nos seu Espírito, que nos faz capazes de perdoar, de amar a Deus sobre todas as coisas e a todos os irmãos sem distinção de raça, nação ou situação econômica. Jesus Cristo é assim a semente de uma nova humanidade reconciliada.

122. Na América Latina, são muitos os que vivem na pobreza, que com frequência desce a níveis escandalosos. Entretanto, inseridos em situações-limite, somos capazes de amar-nos, de viver unidos apesar de nossas diferenças e de comunicar ao mundo inteiro nossa acendrada experiência de fraternidade.

123. Com alegria testemunhamos que em Jesus Cristo temos a libertação integral para cada um de nós e para nossos povos; libertação do pecado, da morte e da escravidão feita de perdão e reconciliação. 

Jesus Cristo nos convoca em sua Igreja, que é sacramento de comunhão evangelizadora. Nela devemos viver a unidade de nossas Igrejas na caridade, comunicando e anunciando essa comunhão a todo o mundo com a Palavra, com a Eucaristia e com  os demais sacramentos. A Igreja vive para evangelizar, sua vida e vocação se realizam quando se faz testemunho, quando provoca a conversão e conduz os homens e as mulheres à salvação (cf. EN 15). "Assim, pois, desde o dia em que os Apóstolos receberam o Espírito Santo, a Igreja recebeu a tarefa de evangelização (DI2).

124. Jesus Cristo nos dá a vida para comunicá-1a a todos. Nossa missão exige de nós, que, unidos a nossos povos, estejamos abertos para receber esta vida em plenitude, para comunicá-la abundantemente às Igrejas a nós encomendadas, e também além de nossas fronteiras. Pedimos perdão por nossas fragilidades e imploramos a graça do Senhor, para cumprir, mais eficazmente, a missão que recebemos. Convidamos a todos para que, renovados no Espírito, anunciem também a Jesus Cristo e se convertam em missionários da vida e da esperança para todos nossos irmãos.

A Nova Evangelização tem que ser capaz de despertar um novo fervor missionário em uma Igreja cada vez mais arraigada "na força e no poder perene de Pentencostes" (cf. EN 41).

1.4.1. Que se lance à missão "ad gentes"

125. Nascida do amor salvífico do Pai, a missão do Filho com a força do Espírito Santo (cf. Lc 4,18), essência da Igreja (cf. AG 2) e objeto fundamental desta IV Conferência, é para nós nosso principal objetivo.

João Paulo II, em sua encíclica missionária, levou-nos a discernir três modos de realizar essa missão: a atenção pastoral em situa­ções de fé viva, a Nova Evangelização e a ação missionária "ad gentes" (cf. RMi 33).

Renovamos este último sentido da missão, sabendo que não pode haver Nova Evangelização sem projeção para o mundo não cristão, pois, como nota o Papa: "A Nova Evangelização dos povos cristãos encontrará inspiração e apoio no compromisso pela missão universal" (RMi 2).

Podemos dizer com satisfação que o desafio da missão "ad gentes", proposta por Puebla, foi assumido a partir de nossa pobreza, compartilhando a riqueza da fé com que o Senhor nos tem abençoado. Reconhecemos, porém, que a consciência mis­sionária "ad gentes" ainda é insuficiente ou &ágil.

Os Congressos Missionários Latino-americanos (COMLAS), os Congressos missionários nacionais, os grupos e movimentos mis­sionários e a ajuda de Igrejas irmãs, têm sido um incentivo para tomar consciência desta exigência evangélica.

Desafios pastorais

126. - Não se tem insistido o suficiente em que sejamos melhores evangelizadores.

- Nós nos fechamos em nossos próprios problemas locais, esque­cendo nosso compromisso apostólico com o mundo não cristão. - Descarregamos nosso compromisso missionário em alguns de nossos irmãos e irmãs, que os cumprem por nós.

127. Causa do que se descreveu é a carência de um explicito progra­ma de formação missionária na maioria dos seminários e casas de formação.

Linhas pastorais

128. Convidamos cada Igreja particular do continente latino-ameri­cano para que:

- Introduza em sua pastoral ordinária a animação missionária, apoiada em um centro missionário diocesano, sustentado por uma equipe missionária, movido por uma espiritualidade viva para uma ação missionária, criativa e generosa.

- Estabeleça uma relação positiva com as Obras Missionárias Pontifícias, que devem ter um responsável eficaz e o apoio da Igreja particular.

- Promova a cooperação missionária de todo o Povo de Deus, traduzida em oração, sacrifício, testemunho de vida cristã e ajuda econômica.

- Integre nos programas de formação sacerdotal e religiosa cursos específicos de missiologia e instrua os candidatos ao sacerdócio sobre a importância da inculturação do Evangelho. - Forme agentes de pastoral autóctones, com espírito missio­nário na linha assinalada pela Encíclica Redemptoris Missio.

- Assuma com valentia o envio missionário, tanto de sacerdotes como de religiosos e leigos. Coordene os recursos humanos e materiais que fortaleçam os processos de formação, envio, acom­panhamento e reinserção dos missionários.

1.4.2. Que vivifique a fé dos batizados afastados

129. Nosso Deus é o Pai rico em misericórdia. Ele respeita a liberdade de seus filhos e filhas e espera o tempo do retorno saindo ao encontro daqueles que se afastaram de sua casa (cf. Lc 15).

Desafios pastorais

130. Na América Latina e no Caribe, numerosos batizados não orientam sua vida segundo o Evangelho.

Muitos deles se afastam da Igreja, ou não se identificam com ela. Entre esses, ainda que não exclusivamente, há muitos jovens e pessoas mais críticas da ação da Igreja. Há outros que, tendo imigrado de suas regiões de origem, se desenraízam de seu ambiente religioso.

Linhas pastorais

131. Como pastores da Igreja isto nos preocupa. Ao mesmo tempo nos dói ver como muitos de nossos fiéis não são capazes de comunicar aos demais a alegria de sua fé. Jesus Cristo nos pede que sejamos o sal da terra , o fermento na massa. Por isso, a Igreja, pastores e fiéis, sem descuidar da atenção aos mais próxi­mos, deve sair ao encontro dos que estão afastados.

Muitas portas destes irmãos afastados esperam o chamado do Senhor (cf. Ap 3,20) através dos cristãos que, assumindo missio­nariamente seu batismo e confirmação, saem ao encontro daqueles que se afastaram da casa do Pai. Por isso sugerimos:

- Promover um novo impulso missionário em direção a estes fiéis, indo-lhes ao encontro. A Igreja não deve ficar tranqüila com os que a aceitam e a seguem com maior facilidade.

- Pregar-lhes o querigma de uma forma viva e alegre.

- Organizar campanhas missionárias que descubram a novidade sempre atual de Jesus Cristo, dentre as quais podem-se destacar as visitas domiciliares e as missões populares.

- Aproveitar os momentos de contato que os batizados mantêm com a Igreja, tais como o batismo de seus filhos, a primeira comunhão, a confirmação, a enfermidade, o matrimônio, as exé­quias, para manifestar-lhes a novidade sempre atual de Jesus Cristo.

- Buscar através dos meios de comunicação social proximidade com aqueles que não podem ser alcançados diretamente.

- Motivar e animar as comunidades e movimentos eclesiais para que redobrem seu serviço evangelizador dentro da orientação pastoral da Igreja local.

1.4.3. Que reúne a todos os irmãos em Cristo

132. "Pai, que todos sejam um como Tu e eu somos um, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17,21). Esta súplica de Cristo justifica a denúncia do concílio Vaticano II, ao apontar o escândalo da divisão dos cristãos (cf. UR 1), e exige que encon­tremos os caminhos mais eficazes para alcançar a unidade na verdade.

Desafios pastorais

133. - O grande desafio em que nos encontramos é a divisão entre os cristãos, divisão que se agravou por diversos motivos ao longo da história.

- A existência de uma confusão sobre este tema, fruto de uma deficiente formação religiosa e de outros fatores.

- O fundamentalismo proselitista de grupos cristãos sectários que dificultam o são caminho do ecumenismo.

134. Em situação similar à dos cristãos separados, podemos situar todo o povo judeu. Também com eles o diálogo é desafio para a nossa Igreja.

Linhas pastorais

135. - Por isso também nós, com o Papa João Paulo II, dizemos: "O ecumenismo é uma prioridade na pastoral da Igreja do nosso tempo". Para dar uma resposta adequada a este desafio sugeri­mos:

- Consolidar o espírito e o trabalho ecumênico na verdade, na justiça e na caridade. Aprofundar as relações de convergência e diálogo com as Igrejas que rezam conosco o Credo Niceno-Cons­tantinopolitano, partilham dos mesmos sacramentos e da veneração por Santa Maria, a Mãe de Deus, ainda que não reconheçam o primado do Romano Pontífice.

- Intensificar o diálogo teológico ecumênico.

- Avivar a oração em comum pela unidade dos cristãos e, de modo particular, a semana de oração pela unidade dos que crêem.

- Promover a formação ecumênica em cursos de formação para agentes de pastoral, principalmente nos seminários.

- Estimular o estudo da Bíblia entre os teólogos e estudiosos da Igreja e das denominações cristãs.

- Manter e reforçar programas e iniciativas de cooperação con­junta no campo social e na promoção dos valores comuns.

- valorizar a seção de Ecumenismo do CELAM (SECUM) e colaborar com suas iniciativas.

1.4.4. Diálogo com as religiões não-cristãs

136. "Deus, num diálogo que dura ao longo dos séculos, ofereceu e continua oferecendo a salvação à humanidade. Para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja deve entrar no diálogo da salvação com todos" (Diálogo e Anúncio, 38). Ao promover esse diálogo, a Igreja sabe bem que ele tem um caráter de testemunho dentro do respeito à pessoa humana e à identidade do interlocutor (cf. P 1114)).

Desafios pastorais

137. A importância de aprofundar um diálogo com as religiões não-cristãs presentes em nosso continente, particularmente as indígenas e afro-americanas, durante muito tempo ignoradas ou marginalizadas.

A existência de preconceitos e incompreensões como obstáculo para o diálogo.

Linhas pastorais

138. Para intensificar o diálogo inter-religioso consideramos impor­tante:

- Levar a cabo uma mudança de atitude de nossa parte, deixando para trás preconceitos históricos, para criar um clima de coo fian­ça e proximidade.

- Promover o diálogo com judeus e muçulmanos, em que pesem as dificuldades que sofre a Igreja nos países onde essas religiões são majoritárias.

-Aprofundar nos agentes de pastoral o conhecimento do judaís­mo e do islamismo.

- Favorecer nos agentes de pastoral o conhecimento das outras religiões e formas religiosas presentes no Continente.

- Promover ações em favor da paz, da promoção e defesa da dignidade humana, bem como a cooperação em defesa da criação e do equilíbrio ecológico, como uma forma de encontro com outras religiões.

- Buscar ocasiões de diálogo com as religiões afro-americanas e dos povos indígenas, atentos a descobrir nelas as "sementes do Verbo", com verdadeiro discernimento cristão, oferecendo-lhes o anúncio integral do Evangelho e evitando qualquer forma de sincretismo religioso.

1.4.5. As seitas fundamentalistas

139. O problema das seitas adquiriu proporções dramáticas e chega a ser verdadeiramente preocupante sobretudo pelo crescente proselitismo.

140. As seitas fundamentalistas são grupos religiosos que insistem que somente a fé em Jesus Cristo salva e que a única base da fé é a Sagrada Escritura, interpretada de modo pessoal e fundamen­talista, com exclusão da Igreja, portanto, e insistência na iminên­cia do fim do mundo e juízo próximo.

Caracterizam-se por seu afã proselitista mediante insistentes visitas domiciliares, grande difusão de Bíblias, revistas e livros; a presença e ajuda oportunista em momentos críticos da vida das pessoas ou da Família e uma grande capacidade técnica no uso dos meios de comunicação social. Contam com uma poderosa ajuda financeira proveniente do estrangeiro e do dízimo obriga­toriamente pago por todos os adeptos.

Distinguem-se por um moralismo rigoroso, por reuniões de ora­ção com um culto participativo e emotivo, baseado na Bíblia, e por sua agressividade contra a Igreja, valendo-se freqüentemente da calúnia e do suborno. Ainda que seu compromisso com o temporal seja débil, orientam-se para a participação política em vista à tomada do poder.

A presença dessas seitas religiosas fundamentalistas na América Latina aumentou de maneira extraordinária de Puebla até os nossos dias.

Desafios pastorais

141. Dar uma resposta pastoral eficaz ante o avanço das seitas, tornando mais presente a ação evangelizadora da Igreja nos setores mais vulneráveis, como migrantes, populações sem aten­ção sacerdotal e com grande ignorância religiosa, pessoas sim­ples ou com problemas materiais e familiares.

Linhas pastorais

142. Que a Igreja seja cada vez mais comunitária e participativa, e com comunidades eclesiais, grupos de famílias, círculos bíblicos, movimentos e associações eclesiais, fazendo da paróquia uma comunidade de comunidades.

- Provocar nos católicos a adesão pessoal a Cristo e à Igreja pelo anúncio do Senhor ressuscitado.

- Desenvolver uma catequese que instrua devidamente o povo, explicando o mistério da Igreja, sacramento de salvação e comu­nhão, a mediação da Virgem Maria e dos santos e a missão da hierarquia.

- Promover uma Igreja ministerial com o aumento de ministros ordenados e a promoção de ministros leigos devidamente forma­dos para impulsionar o serviço evangelizador em todos os setores do Povo de Deus.

143. - Garantir a identidade da Igreja, cultivando aspectos que lhe são característicos como:

a) A devoção ao Mistério da Eucaristia, sacrifício e banquete P;

b) A devoção à Santíssima Virgem, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja;

c) A comunhão e a obediência ao Romano Pontífice e ao próprio bispo;

d) A devoção à Palavra de Deus lida na Igreja.

144. - Procurar que em todos os planos de pastoral a dimensão contemplativa e a santidade sejam prioridade, a fim de que a Igreja possa fazer-se presença de Deus para o homem contem­porâneo que tem tanta sede dele.

145. - Criar condições para que todos os ministros do Povo de Deus dêem testemunho de vida e caridade, espírito de serviço, capaci­dade de acolhida, sobretudo em momentos de dor e de crise.

- Promover uma liturgia viva, participativa e com repercussão na vida.

146. - Instruir o povo amplamente, com serenidade e objetividade, sobre as características e diferenças das diversas seitas e sobre as respostas às injustas acusações contra a Igreja.

- Promover visitas familiares com leigos preparados e organizar a pastoral do retorno para acolher os católicos que regressam à Igreja.

1.4.6. Novos movimentos religiosos ou movimentos religiosos Livres

147. Fenomenologicamente, trata-se de fatos sócio-culturais prota­gonizados por setores marginalizados e também camadas médias e abastadas na América Latina, que através de formas religiosas geralmente sincréticas conseguem expressar sua identidade e aspirações humanas. Do ponto de vista da fé católica, esses fenômenos podem ser considerados como sinais dos tempos, e também como advertência de que existem ambientes humanos dos quais a Igreja está ausente e onde deve rearticular sua ação evangelizadora.

Cabe distinguir várias correntes ou tipos de fenômeno:

- formas paracristãs ou semicristãs, como Testemunhas de Jeová e Mórmons. Cada um destes movimentos tem suas caraterísticas, mas em comum manifestam um proselitismo, um milenarismo e traços organizativos empresariais;

- formas esotéricas que buscam uma iluminação especial e com­partilham conhecimentos secretos e um ocultismo religioso. Tal é o caso de correntes espíritas, Rosas-cruzes, gnósticos, teósofos, etc.;

- filosofias e cultos com facetas orientais mas que rapidamente estão adequando-se ao nosso continente, tais como Hare Kri­shna, a Luz Divina, Ananda Marga e outros, que trazem um misticismo e uma experiência de comunhão;

- grupos derivados das grandes religiões asiáticas, quer seja do budismo (seicho no lê, etc.), do hinduísmo (yoga, etc.) ou do islã (baha'i) que não só atingem migrantes da Ásia, mas também plantam raízes em setores de nossa sociedade;

- empresas sócio-religiosas, como a seita Moon ou a Nova Acró­polis, que têm objetivos ideológicos e políticos bem precisos, junto com suas expressões religiosas, levadas a cabo mediante meios de comunicação e campanhas proselitistas, que contam com apoio ou inspiração do primeiro mundo, e que religiosamen­te insistem na conversão imediata e na cura; é onde estão as chamadas "igrejas eletrônicas";

- uma multidão de centros de "cura divina" ou atendimento aos mal-estares espirituais e físicos de gente com problemas e de pobres. Esses cultos terapêuticos atendem individualmente a seus clientes.

148. Diante da multiplicidade de novos movimentos religiosos, com expressões muito diversas entre si, queremos centrar nossa aten­ção sobre as causas de seu crescimento (cf. P 1122) e os desafios pastorais que levantam.

149. São muitas e variadas as causas que explicam o interesse que despertam em alguns. Entre elas se devem assinalar:

- A permanente e progressiva crise social que suscita certa angústia coletiva, a perda de identidade e o desenraizamento das pessoas.

- A capacidade destes movimentos para adaptar-se às circuns­tâncias sociais e para satisfazer, momentaneamente, algumas necessidades da população. Em tudo isto não deixa de ter certa presença a curiosidade pelo inédito.

- O distanciamento da Igreja de setores-populares ou abastados - que buscam novos canais de expressão religiosa, nos quais não se deve descartar uma evasão dos compromissos da fé. Sua habilidade para oferecer aparente solução aos desejos de "cura" por parte dos atribulados.

Desafios pastorais

150. Nosso maior desafio está em avaliar a ação evangelizadora da Igreja e em determinar desse modo a quais ambientes humanos chega ou não essa ação.

- Como dar uma resposta adequada às perguntas que as pessoas se fazem sobre o sentido de sua vida, sobre o sentido da relação com Deus, em meio à permanente e progressiva crise social.

- Adquirir um maior conhecimento das identidades e culturas dos nossos povos.

Linhas pastorais

151. Diante desses desafios propomos estas linhas pastorais:

- Ajudar no discernimento dos problemas da vida à luz da fé. Nesse sentido, é preciso revalorizar o sacramento da penitência e a orientação espiritual.

- Procurar adaptar nossa evangelização e celebrações de fé às culturas e necessidades subjetivas dos fiéis, sem falsear o Evan­gelho.

- Fazer uma revisão profunda de nosso trabalho pastoral, a fim de melhorar a qualidade de nossos meios e de nosso testemunho.

- Dar um tratamento diferenciado aos movimentos religiosos, segundo sua índole e suas atitudes para com a Igreja.

152. Promover uma liturgia viva, na qual os fiéis se introduzam no mistério.

- Apresentar uma antropologia cristã que dê o sentido da poten­cialidade humana, o sentido da ressurreição e o sentido das relações com o universo (horóscopos). Não esquecer que o indiferentismo deve ser combatido através de uma apresentação adequada do sentido último do homem, ao que muito ajudará a apresentação dos novíssimos.

1.4.7 Chamado aos sem Deus e aos indiferentes

153. O fenômeno da descrença cresce na América Latina e no Caribe hoje e preocupa a Igreja sobretudo por aqueles que vivem como se não fossem batizados (cf. EN 56).

Uma modalidade é o "secularismo" que nega a Deus, ou porque sustenta que todas as realidades se explicam por si mesmas sem recorrer a Deus, ou porque se considera a Deus como inimigo, alienação do homem. Esta posição secularista deve-se distinguir do processo chamado "secularização". Este sustenta legitima­mente que as realidades materiais da natureza e do homem são em si "boas", e suas leis devem ser respeitadas, e que a liberdade é para a auto-realização humana e é respeitada por Deus (cf. GS 36).

O outro é o "indiferentismo" daqueles que ou repelem toda religião porque a consideram inútil e nociva para a vida humana e por isso não se interessam por ela, ou sustentam que todas as religiões se equivalem e, portanto, nenhuma pode apresentar-se como única e verdadeira.

Desafios pastorais

154. O secularismo é um sério desafio à Nova Evangelização por considerar a Deus incompatível com a liberdade humana (DI 11) e a religião como atitude anti-humana e alienante, porque separa o homem de sua atividade. Além disso, negando a dependência do Criador, conduz às idolatrias do ter, do poder e do prazer, e faz perder o sentido da vida, reduzindo o ser humano somente ao valor material.

- O indiferentismo oferece também um desafio à Nova Evangelização porque suprime pela raiz a relação da criatura com Deus, ou seja, nega todo o interesse pela religião e com isso o compro­misso da fé, ou porque reduz a figura de Cristo a um mestre de moral ou um fundador de religiões entre outras igualmente válidas, negando-lhe o caráter de salvador único, universal e definitivo dos homens.

- Ademais, tanto o indiferentismo como o secularismo minam a moral porque deixam o comportamento humano sem fundamen­to para seu valor ético, e, por isso, facilmente caem no relativismo e permissivismo que caracterizam a sociedade atual.

155. Muitos movimentos pseudo-religiosos de caráter orientalista e ocultista, adivinhação e espiritismo minam a fé e causam descon­certo nas mentes, dando soluções falsas para as grandes interro­gações do homem, seu destino, sua liberdade e o sentido da vida. Linhas pastorais

156. A Nova Evangelização exige de nós:

- Que nos formemos em uma fé que se faça vida, iniciando-a com o anúncio do querigma aos que estão no mundo descristianizado (cf. EN Sl e 52) e promovendo-a com o testemunho alegre de autênticas comunidades de fé, nas quais nossos leigos vivam o significado dos sacramentos.

- Que cultivemos uma sólida consciência moral para que, nas complexas circunstâncias da vida moderna, nossos fiéis saibam interpretar acertadamente a voz de Deus em matéria moral e desenvolvam um evangélico sentido do pecado.

- Que eduquemos os cristãos para ver a Deus em sua própria pessoa, na natureza, na história global, no trabalho, na cultura, em todo o secular, descobrindo a harmonia que, no plano de Deus, deve haver entre a ordem da criação e a da redenção.

- Que desenvolvamos um estilo de celebração da liturgia que integre a vida dos homens numa profunda e respeitosa experiên­cia do insondável mistério divino da riqueza inefável.

- Que impulsionemos uma pastoral adequada para evangelizar os ambientes universitários, onde se formam os que irão plasmar decisivamente a cultura.

CAPÍTULO 2

A PROMOÇÃO HUMANA

157. "Entre evangelização e promoção humana - desenvolvimento, libertação - existem de fato laços profundos: laços de ordem     antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços da ordem eminentemente evangélica, qual seja a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar       o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso do homem?" (EN 31).

O sentido último do compromisso da Igreja com a promoção humana, reiteradamente pregado em seu magistério social, está                na firme convicção de que "a verdadeira união social externa decorre da união dos espíritos e dos corações, isto é, da fé e da caridade" (G.S. 42). "Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora do desenvolvimento, exatamente porque leva à conversão do coração e da mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos" (RMi 59), "mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentais e espirituais, premissas da salvação escatológica" (RMi 20). Assim procedendo, a Igreja oferece a sua participação específica à promoção humana, dever de todos.

158. A doutrina social da Igreja é o ensinamento do Magistério em matéria social e contém princípios, critérios e orientações para a atuação do crente na tarefa de transformar o mundo segundo o projeto de Deus. O ensino do pensamento social da Igreja "faz arte da missão evangelizadora (SRS 41) e tem "o valor de um instrumento de evangelização" (CA 54), porque ilumina a vivên­cia concreta de nossa fé.

2.1. A promoção humana, dimensão privilegiada da Nova Evangelização

159. Jesus ordenou a seus discípulos que distribuíssem o pão multi­plicado à multidão necessitada, de modo que "todos comeram e ficaram saciados" (cf Mc 6,34-44). Curou ou os enfermos, passou a vida fazendo o bem (At 10,38 . No final dos tempos, nos julgará no amor (cf. Ml 25).

Jesus é o bom samaritano (Lc 10, 25-37) que encarna a caridade e não só se comove, mas se transforma em ajuda eficaz, Sua ação é motivada pela dignidade de todo homem, cujo fundamento está em Jesus Cristo como Verbo criador (Jo 1,3), encarnado (cf. Jo 1,14). Como indicava a Gaudium et Spes: "O mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encar­nado. Com efeito, Adão o primeiro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor Cristo manifesta Plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS 22).

Dignidade que não se perdeu pela ferida do pecado, mas que foi exaltada pela compaixão de Deus, que se revela no coração de Jesus Cristo (cf. Mc 6,34). A solidariedade cristã é certamente serviço aos necessitados, mas é, sobretudo, fidelidade a Deus. Isto fundamenta a relação entre a evangelização e a promoção humana (EN 31).

160. Nossa fé no Deus de Jesus Cristo e o amor aos irmãos têm de traduzir-se em obras concretas. O seguimento de Cristo significa comprometer-se a viver segundo seu estilo. Esta preocupação de coerência entre a fé e a vida sempre esteve presente nas comuni­dades cristãs. Já o apóstolo Tiago escrevia: "Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso Acaso a fé poderá salvá-1o? Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: `Ide em paz, aque­cei-vos e saciai-vos', e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento. Com efeito, como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem obras" (Tg 2,14-17.26).

161. A falta de coerência entre a fé que se professa e a vida cotidiano é uma das várias causas que geram pobreza em nossos países, porque os cristãos não souberam encontrar na fé a força neces­sária para penetrar os critérios e as decisões dos setores respon­sáveis pela liderança ideológica e pela organização da convivência social, econômica e política de nossos povos. "Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça" (P 437).

162. A promoção, como indica a Doutrina Social da Igreja, deve levar o homem e a mulher a passar de condições menos humanas para condições cada vez mais humanas, até chegar ao pleno conhecimento de Jesus Cristo (Populorum Progressio 14-L5). Em sua raiz, descobrimos, pois, que se trata de um verdadeiro canto à vida, de toda vida, desde o não-nascido até o abandonado.

163. Maria, a mulher solicita ante a necessidade surgida nas bodas de Caná, é modelo e figura da Igreja ante toda forma de neces­sidade humana (cf. Jo 2,3ss). À Igreja, assim como a Maria, Jesus lhe recomenda preocupar-se pelo cuidado maternal da humani­dade, sobretudo dos que sofrem (cf. Jo 19,26-27).

2.2. Os novos sinais dos tempos no campo da promoção humana

2.2.1. Direitos humanos

164. A igualdade entre os seres humanos em sua dignidade, por serem criados à imagem e semelhança de Deus, se afirma e aperfeiçoa em Cristo. Desde a Encarnação, ao assumir o Verbo nossa natureza e sobretudo sua ação redentora na cruz, mostra o valor de cada pessoa. Por isso mesmo Cristo, Deus e homem, é a fonte mais profunda que garante a dignidade da pessoa e de seus direitos. Toda violação dos direitos humanos contradiz o Plano de Deus e é pecado.

165. A Igreja, ao proclamar o evangelho, raiz profunda dos direitos humanos, não se arroga uma tarefa alheia à sua missão, mas, ao moral utilitarista e individualista. Postula a aceitação do princí­pio do destino universal dos bens da criação e a promoção da justiça e solidariedade como valores indispensáveis.

Linhas pastorais:

Os cristãos, como integrantes da sociedade, não estão isentos de responsabilidade em relação aos modelos de desenvolvimento, que provocaram os atuais desastres ambientais e sociais.

- Partindo das crianças e dos jovens, empreender uma tarefa de reeducarão de todos diante do valor da vida e da interde­pendência dos diversos ecossistemas.

- Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido de Deus, sempre presente na natureza. Explicitar a nova relação estabele­cida pelo mistério da encarnação, pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.

- Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou, e questionar a riqueza e o desperdício.

- Aprender dos pobres a viver com sobriedade e a partilhar e valorizar a sabedoria dos povos indígenas no tocante à preserva­ção da natureza como ambiente de vida para todos.

170. - Aprofundar as mensagens do Santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz, especialmente dentro de uma configu­ração de "ecologia humana".

- Levar os cristãos a assumir o diálogo com o Norte através dos canais da Igreja católica, assim como de outros movimentos ecológicos e ecumênicos.

- São Francisco de Assis, em seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar este caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens entre si, caminho de justiça e de paz.

2.2.3. A terra: dom de Deus

171. Os cristãos não olham o universo, somente como natureza considerada em si mesma, mas como criação e primeiro dom do amor do Senhor por nós.

"De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes" (S1 24,1) é a afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos povos de que a terra é o

primeiro sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe `alguns limites (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que Deus é o Senhor e criador, e dele é a terra e tudo que nela existe" e que ele a pode usar, não como dono absoluto, mas como adminis­trador.

Estes limites no uso da terra buscam preservar a justiça e o direito de todos de aceder aos bens da criação, que Deus destinou ao serviço de todo homem que vem a este mundo.

172. Em nosso continente deve-se considerar duas mentalidades opostas com relação à terra, ambas distintas da visão cristã:

a) A terra, dentro do conjunto de elementos que formam a comunidade indígena, é vida, é lugar sagrado, centro integrador de vida da comunidade. Nela vivem e com ela convivem, através dela se sentem em comunhão com seus antepassados e em har­monia com Deus; por isso mesmo a terra, sua terra, forma parte substancial de sua experiência religiosa de seu próprio projeto histórico. Nos indígenas existe um sentido natural de respeito pela terra; ela é a mãe terra, que alimenta a seus filhos, por isso há que cuidá-1a, pedir permissão para cultivá-1a e não matá-1a. b) A visão mercantilista: considera a terra numa relação exclusiva com a exploração e o lucro, chegando até ao desalojamento e à expulsão de seus legítimos donos.

Esse mesmo mercantilismo leva à especulação do solo urbano, tornando a terra inacessível à habitação dos pobres, cada vez mais numerosos em nossas grandes cidades.

Além dos tipos anteriores, não podemos esquecer a situação dos camponeses que trabalham sua terra e ganham o sustento de sua família com tecnologias tradicionais.

173. A mentalidade própria da visão cristã tem seu fundamento na Sagrada Escritura que considera sempre a terra e os elementos da natureza antes de tudo como aliados do povo de Deus e instrumentos de nossa salvação. A ressurreição de Jesus Cristo ressitua a humanidade, em face da missão de libertar toda a criação, que há de ser transformada em novo céu e em nova terra, onde a justiça tenha sua morada (cf. 2Pd 3,13).

Desafios pastorais:

174. - Desafia-nos a situação problemática da terra na América Latina e no Caribe, já que "cinco séculos de presença do Evan­gelho... não instauraram ainda uma eqüitativa distribui o dos bens da terra", que "infelizmente ainda está nas mãos de uma minoria". Os antigos aborígenes foram, em geral, despojados de suas terras e os afro-americanos tiveram dificuldades por causa da legislação que dá acesso à propriedade da terra. Os atuais camponeses sofrem o peso da desordem institucional e as conse­qüências das crises econômicas.

- Nos últimos anos esta crise se fez sentir com mais força onde a modernização de nossas sociedades trouxe a expansão do comér­cio agrícola internacional, a crescente integração de países, o maior uso da tecnologia e a presença transnacional. Isto, não poucas vezes, favorece os setores econômicos fortes, mas à custa dos pequenos produtores e trabalhadores.

175. A situação da apropriação, administração e utilização da terra na América Latina e no Caribe é um dos apelos mais urgentes à Promoção Humana.

Linhas pastorais:

176. - Promover transformação da mentalidade sobre o valor da terra com base na cosmovisão cristã, que se liga às tradições culturais dos setores pobres e camponeses.

- Recordar aos fiéis leigos que devem influir nas políticas agrá­rias dos governos (sobretudo nas de modernização) e nas orga­nizações de camponeses e indígenas, visando formas justas, mais comunitárias e participativas no uso da terra.

177.-Apoiar todas as pessoas e instituições que estão buscando seja                 da parte dos governos, seja dos que possuem os meios de produção, a criação de uma justa e humana reforma e política agrária, que legisle, programe e acompanhe uma distribuição mais justa da terra e sua utilização eficaz.

- Dar apoio solidário às organizações de camponeses e indígenas que lutam, por meios justos e legítimos, para conservar ou readquirir suas terras.

- Promover progressos técnicos indispensáveis para que a terra produza, tendo em conta também as condições do mercado, e para tanto, a necessidade de fomentar a consciência da impor­tância da tecnologia.

- Favorecer uma reflexão teológica em torno da problemática da terra, dando ênfase à inculturação e a uma presença efetiva dos agentes de pastoral nas comunidades de camponeses.

- Apoiar a organização de grupos intermédios, por exemplo, cooperativas, que sejam instância de defesa dos direitos huma­nos, de participação democrática e de educação comunitária.

2.2.4. Empobrecimento e solidariedade

178. Evangelizar é fazer o que Jesus Cristo fez, quando mostrou na sinagoga que veio para "evangelizar" os pobres (cf. Lc 4,18-19). Ele "se fez pobre, embora fosse rico, para nos enriquecer com sua pobreza" (2 Cor 8,9). Ele nos desafia a dar testemunho autêntico de pobreza evangélica em nosso estilo de vida e em nossas estruturas eclesiais, tal qual Ele fez.

Esta é a fundamentação que nos compromete numa opção evan­gélica e preferencial pelos pobres, firme e irrevogável, mas não exclusiva e nem excludente, tão solenemente afirmada nas Con­ferências de Medellín e Puebla. Sob a luz desta opção prefe­rencial, a exemplo de Jesus, nos inspiramos para toda ação evangelizadora comunitária e pessoal (cf. SRS 42; RM 14; João Paulo II, Santo Domingo, 16). Com o "potencial evangelizador dos pobres" (P 1147), a Igreja pobre quer impulsionar a evange­lização de nossas comunidades.

Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Ml 25,31-46) é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial. Na fé encontramos os rostos desfi­gurados pela fome, conseqüência da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não despre­zada; os rostos angustiados dos menores abandonados que cami­nham por nossas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos can­sados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente (cf. CECAM, DT 163). O amor misericordioso é também voltar-se para os que se encon­tram em carência espiritual, moral, social e cultural.

Desafios pastorais:

179.-O crescente empobrecimento a que estão submetidos milhões de irmãos nossos, que chega a intoleráveis extremos de miséria, é o mais devastador e humilhante flagelo que vive a América Latina e Caribe. Assim o denunciamos tanto em Medellín como em Puebla e hoje voltamos a fazê-1o com preocupação e angústia. - As estatísticas mostram com eloqüência que na última década as situações de pobreza cresceram tanto em números absolutos como em relativos. A nós, pastores, comove-nos até as entranhas ver continuamente a multidão de homens e mulheres, crianças e jovens e anciãos que sofrem o insuportável peso da miséria assim como diversas formas de exclusão social, étnica e cultural; são pessoas humanas concretas e irredutíveis que vêem seus horizon­tes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida.

- Vemos o empobrecimento de nosso povo não só como um fenômeno econômico e social, registrado e quantificado pelas ciências sociais. N6s o vemos dentro da experiência de muita gente com quem compartilhamos, como pastores, sua luta coti­diana pela vida.

- A política de corte neoliberal que predomina hoje na América Latina e no Caribe aprofunda ainda mais as conseqüências ne­gativas destes mecanismos. Ao desregular indiscriminadamente o mercado, eliminar partes importantes da legislação trabalhista e despedir empregados, ao reduzir os gastos sociais que prote­giam as famílias dos trabalhadores, foram aumentadas ainda mais as distâncias na sociedade.

- Temos de aumentar a lista dos rostos sofridos que já havíamos assinalado em Puebla (cf. P 31-39), todos eles desfigurados pela fome, aterrorizados pela violência, envelhecidos por condições de vida infra-humanas, angustiados pela sobrevivência familiar. O Senhor nos pede que saibamos descobrir seu próprio rosto nos rostos sofridos dos irmãos.

- Por outro lado, comprovamos com alegria os múltiplos esforços que diversos grupos e instituições da América Latina e do Caribe estão fazendo a fim de transformar esta realidade. A Igreja, chamada a ser cada vez mais fiel à sua opção preferencial pelos pobres, tem tido crescente participação nos mesmos. Damos graças a Deus por isto e convocamos a alargar o caminho já aberto, porque muito mais são os que ainda têm de caminhar por ele.

Linhas pastorais

180. - Assumir com decisão renovada a evangélica opção prefe­rencial pelos pobres, seguindo o exemplo e as palavras do Senhor Jesus, com plena confiança em Deus, austeridade de vida e partilha de bens.

- Privilegiar o serviço fraterno aos mais pobres entre os pobres e ajudar as instituições que cuidam deles: os deficientes, enfer­mos, idosos solitários, crianças abandonadas, presos, aidéticos e todos aqueles que requerem a proximidade misericordiosa do "bom samaritano".

- Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunitários, bem como as estruturas e métodos pastorais, a fim de que não afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles.

-Promover a participação social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres.

181. - Fazer de nossas paróquias um espaço para a solidariedade.

- Apoiar e estimular as organizações de economia solidária com as quais nossos povos tratam de responder às angustiantes situa­ções de pobreza.

- Urgir respostas dos Estados para as difíceis situações agrava­das pelo modelo econômico neoliberal, que afeta principalmente os mais pobres. Entre estas situações é importante destacar os milhões de latino-americanos que lutam para sobreviver na eco­nomia informal.

2.2.5. O trabalho

182. Uma das realidades que mais nos preocupa em nossa ação pastoral é o mundo do trabalho, por sua significação humaniza­dora e salvífica, que tem sua origem na vocação co-criadora do homem como "filho de Deus" (Gn 1,26) e que foi resgatado e elevado por Jesus, trabalhador e "filho de carpinteiro" (Ml 13,55 e Mc 6,3).

A Igreja como depositária e servidora da mensagem de Jesus, , sempre via o homem como sujeito que dignifica o trabalho realizando-se a si mesmo e aperfeiçoando a obra de Deus, para fazer dela um louvor ao Criador e um serviço aos irmãos.

O permanente ensino do magistério da Igreja sobre o trabalho como "chave da questão social" tem sido confirmado e desenvol­vido nas recentes encíclicas sociais de João Paulo II (LE; SRS; CA). E de modo especial sublinha "a dimensão subjetiva do trabalho" (LE 6) que é a expressão mais eloqüente da dignidade do trabalhador.

Desafios pastorais:

183. - A realidade desafia uma cultura do trabalho e da solidarie­dade, partindo da fé em Deus Pai, que nos faz irmãos em Jesus Cristo. No que se refere ao mundo dos trabalhadores, alerta-se para uma deteriorização em suas condições de vida e no respeito aos seus direitos; um escasso ou nulo cumprimento de normas estabelecidas para os setores mais débeis (p.ex. crianças, aposen­tados...); uma perda de autonomia por parte das organizações de trabalhadores devido a dependências ou autodependências de diversos gêneros; abuso do capital que desconhece ou nega a primazia do trabalho; poucas ou nulas oportunidades de trabalho para os jovens. Alerta-se para a alarmante falta de trabalho ou desemprego com toda a insegurança econômica e social que isso implica. O mundo do trabalho reclama o crescimento da econo­mia e o aumento da produtividade, de modo a tornar possível, mediante uma justa e eqüitativa distribuição, o maior bem-estar do homem e de sua família.

184. Cs direitos do trabalhador são um patrimônio moral da socie­dade que deve ser tutelado por uma adequada legislação social e sua necessária instância judicial, que assegure a continuidade confiável nas relações de trabalho.

Linhas pastorais:

185. - Impulsionar e sustentar uma pastoral do trabalho em todas as nossas dioceses, a fim de promover e defender o valor humano do trabalho.

- Apoiar as organizações próprias dos homens do trabalho para a defesa de seus legítimos direitos, em especial de um salário suficiente e de uma justa proteção social para a velhice, a doença e o desemprego (cf. CA 34 e 35).

- Favorecer a formação de trabalhadores, empresários e gover­nantes em seus direitos e em seus deveres, e propiciar espaços de encontro e mútua colaboração.

2.2.6. A mobilidade humana

186. O Verbo de Deus se faz carne para reunir em um só povo os que andavam dispersos e para fazer deles cidadãos do céu (F1 3,20; Hb 11,13-16).

Assim o Filho de Deus se faz peregrino, passa pela experiência dos que não têm lugar (cf. Ml 2,13-23), como migrante radicado numa insignificante aldeia (cf. Jo 1,46). Educa a seus discípulos para serem missionários, fazendo-os passar pela experiência do que migra a fim de confiar somente no amor de Deus, de cuja boa nova são portadores (cf. Mc 6,6b-12).

Desafios pastorais:

187. - Tem havido, nos últimos anos, um forte incremento da migração para os grandes países no Norte, e também- ainda que em menor escala - para outros países latino-americanos mais ricos. Surgem também fenômenos como a repatriação voluntária e a deportação dos que não obtêm visto de permanência. O auge das viagens e o turismo, e inclusive as peregrinações religiosas e dos que vivem do mar, interpelam a solicitude especial da Igreja. - Nos países com especiais problemas de migração por causas sócio-econômicas existe em geral ausência de medidas sociais para detê-1a; e nos países receptores, uma tendência a impedir seu ingresso. Isto traz graves conseqüências de desintegração familiar e dispersão de forças produtivas em nossos povos, junto com o desenraizamento, a insegurança, a discriminação e a de­gradação moral e religiosa dos migrantes. Não obstante, em alguns casos, conseguem inserir-se em comunidades católicas e ainda as revitalizam.

Linhas pastorais:

188.-Reforçar a pastoral da mobilidade humana reunindo esforços entre dioceses e conferências episcopais das regiões afetadas, e cuidando que, na acolhida e demais serviços em favor dos mi­grantes, se respeitem suas riquezas espirituais e religiosas.

- Conscientizar os setores públicos sobre o problema das migra­ções, tendo em vista a eqüidade das leis sobre o trabalho e a seguridade social, e o cumprimento de convênios internacionais.

189.-Oferecer aos migrantes uma catequese adaptada a sua cultura e assessoria legal para proteger seus direitos.

- Apresentar alternativas aos camponeses para que não se sintam obrigados a migrar para a cidade.

2.2.7. A ordem democrática

190. - Cristo, o Senhor, enviado pelo Pai para a redenção do mundo, veio para anunciar a boa notícia e iniciar o Reino e, mediante a conversão das pessoas, obter uma nova vida segundo Deus e um novo tipo de convivência e relação social. À Igreja, fiel à missão que lhe outorgou seu fundador, corresponde constituir a comu­nidade dos filhos de Deus e ajudar na construção de uma socie­dade onde primam os valores cristãos evangélicos.

- A Igreja respeita a legítima autonomia da ordem temporal e não tem um modelo específico de regime político. "A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, à medida que assegura a participaçâo dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de eleger e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno" (CA 46).

- Durante os últimos anos deste processo, a Igreja tem desempe­nhado na América Latina um papel de protagonista. Em muitos países sua ação assentou as bases para uma convivência baseada no diálogo e no respeito à pessoa humana. Apoiada no magistério de sua doutrina social, a Igreja vem acompanhando o povo em suas lutas e anseios de uma maior participação e pelo estado de direito.

191.-A liberdade, inerente à pessoa humana e posta em relevo pela modernidade, vem sendo conquistada pelo povo em nosso con­tinente e tem possibilitado a instauração da democracia como 0 sistema de governo mais aceito, ainda que seu exercício seja mais formal que real.

Desafios pastorais:

192. - A convivência democrática, que se afirmou depois de Puebla, em alguns países, vem-se deteriorando, entre outros fatores, pelos seguintes: corrupção administrativa, distanciamento das lideranças partidárias com relação aos interesses das bases e às reais necessidades da comunidade; vazios programáticos e desa­tenção do social e ético-cultural da parte das organizações par­tidárias; governos eleitos pelo povo que não se orientam eficaz­mente para o bem comum; muito clientelismo político e populismo, porém pouca participaçâo.

Linhas pastorais:

193.-Proclamar insistentemente à sociedade civil os valores de uma genuína democracia pluralista, justa e participativa.

- Iluminar e animar o povo para um real protagonismo.

- Criar as condições para que os leigos se formem segundo a Doutrina Social da Igreja, em ordem a uma atuação política dirigida ao saneamento e ao aperfeiçoamento da democracia, e ao serviço efetivo da comunidade.

- Orientar a família, a escola e as diversas instâncias eclesiais, para que eduquem nos valores que fundam uma autêntica demo­cracia: responsabilidade, corresponsabilidade, participação, res­peito da dignidade das pessoas, diálogo, bem comum.

2.2.8. Nova ordem econômica

194. Consciente da gestação de uma nova ordem econômica mun­dial que afeta a América Latina, a Igreja a partir de sua perspec­tiva é obrigada a fazer um sério esforço de discernimento. Temos de nos perguntar: até onde deve chegar a liberdade de mercado? Ove características deve ter para que sirva ao desenvolvimento das grandes maiorias?

195. Segundo o recente ensinamento de João Paulo II (cf. CA), é licita a livre atividade dos indivíduos no mercado. Isto não significa que o mercado possa oferecer todos os bens que requer a sociedade nem que esta possa pagar muitos bens necessários. A economia de mercado deve ter em conta estes limites.

Por isso os ensinamentos do Santo Padre assinalam a necessidade de ações concretas dos poderes públicos para que a economia de mercado não se converta em algo absoluto ao qual se sacrifique tudo, acentuando a desigualdade e a marginalizado das grandes maiorias. Não pode haver uma economia de mercado criativa e ao mesmo tempo socialmente justa, sem um sólido compromisso de toda a sociedade e seus atores com a solidariedade através de um marco jurídico que assegure o valor da pessoa, a honra, o respeito à vida e a justiça distribu6va, e a preocupação efetiva com os mais pobres.

196. Os ajustes econômicos, ainda que possam ser benéficos a longo prazo, ao frear a inflação e estabilizar a economia, costumam produzir uma grave deterioração do nível de vida dos pobres. Por isso, o Estado é obrigado, na medida do possível, porém sincera e generosamente, a compensar os custos sociais dos mais pobres.

197. O problema da dívida externa não é só, nem principalmente, econômico, mas humano, porque leva a um empobrecimento cada vez maior e impede o desenvolvimento e retarda a promo­ção dos mais pobres. Perguntamo-nos por sua validade quando por seu pagamento a sobrevivência dos povos corre sério perigo, quando a população não foi consultada antes de contrair a dívida, e quando esta foi usada para fins nem sempre licitas. Por isso

, como pastores, fazemos nossa a preocupação de João Paulo II quando afirma que "é necessário encontrar modalidades para mitigar, reescalonar ou até cancelar a dívida, compatíveis com o direito fundamental dos povos à subsistência e o progresso" (CA 35).

Desafios pastorais:

198. - Os anos oitenta se caracterizaram pelo flagelo da inflação agravado pelo déficit fiscal, pelo peso da dívida externa e pela desordem monetária, pela destruição das economias estatais em razão da perda de recursos fiscais, da inflação e da corrupção, pela queda das inversões tanto nacionais quanto estrangeiras, entre outros fenômenos.

- A relação dos preços, em nível internacional, entre as matérias-primas e os produtos manufaturados, tornou-se cada vez mais desigual e discriminatória, afetando muito desfavoravelmente a economia de nossos países. Esta situação persiste e tende a se agravar.

199. - O empobrecimento e a agudização da brecha entre ricos e pobres golpeiam de modo grave as grandes maiorias de nossos povos devido à inflação, à redução dos salários reais e à falta de acesso a serviços básicos, ao desemprego e ao aumento da eco­nomia informal e da dependência científico-tecnológica.

- Difunde-se uma mentalidade e um estilo de vida consumiste e egoísta, amplamente divulgados pelos meios de comunicação social. Isto dificulta ou impede uma organização social mais justa e digna.

- Diante da crise de sistemas econômicos que conduziram a fracassos e frustrações, costuma apresentar-se como solução uma economia de livre mercado, assumida por não poucos sob o rótulo de neoliberalismo e com um alcance que vai além do puro campo econômico, e que parte de interpretações estreitas ou reducionistas da pessoa e da sociedade.

Linhas pastorais:

200. - Robustecer o conhecimento, difusão e prática da Doutrina Social da Igreja nos distintos ambientes.

- Impulsionar nos diversos níveis e setores da Igreja uma pastoral social que parta da opção evangélica preferencial pelos pobres, atuando nas frentes do anúncio, da denúncia e do testemunho, promovendo iniciativas de cooperação, no contexto de uma economia de mercado.

- Educar nos valores da laboriosidade e da partilha, da honestidade e da austeridade, do sentido ético-religioso da vida, para que desde a família - primeira escola - se formem homens novos para uma sociedade mais fraterna, onde se viva a destinação universal dos bens em contexto de desenvolvimento integral.

201. - Assentar as bases de uma economia solidária, real e eficiente, sem esquecer a correspondente criação de modelos sócio-econômicos em nível local e nacional.

- Fomentar a busca e implementação de modelos sócio-econômicos que conjuguem a livre iniciativa, a criatividade de pessoas e grupos, a função moderadora do Estado, sem deixar de dar atenção especial aos setores mais necessitados. Tudo isto, orientado para a realização de uma economia da solidariedade e da participação, expressa em diversas formas de propriedade.

202. - Promover relações econômicas internacionais que facilitem a transferência da tecnologia em um ambiente de reciprocidade social.

- Denunciar os mecanismos da economia de mercado que prejudicam fundamentalmente os pobres. Não podemos estar ausentes numa hora na qual não há quem vele por seus interesses.

203. - Constatar que a economia informal obedece a uma necessi­dade de sobrevivência, ainda que seja susceptível de naufrágio em caso de enfermidades, inflação, etc.

- Recordar aos fiéis leigos que devem influir para que o Estado alcance uma maior estabilidade das políticas econômicas, elimi­ne a corrupção administrativa e aumente a descentralização administrativa, econômica e educacional.

- Reconhecer o papel fundamental da empresa, do mercado, da propriedade privada e da conseqüente responsabilidade para com os meios de produção, da criatividade humana, no marco jurídico de uma justiça social (CA 42).

2.2.9. Integração latino-americana

204. A experiência nos tem mostrado que nenhuma nação pode viver e desenvolver-se com solidez de maneira isolada. Todos sentimos a urgência de integrar o disperso e de unir esforços para que a interdependência se torne solidariedade e esta possa trans­formar-se em fraternidade. Por isto destacamos estes valores ao falar da realidade econômica e social do mundo e dos anseios de humanização nelas latentes.

Os cristãos encontram motivações muito profundas para continuar este esforço. Jesus Cristo tornou presente o Reino de Deus, um reino de justiça, de amor e de paz. Realizou a fraternidade de todos fazendo-se irmão nosso e ensinando-nos a nos reconhe­cermos como filhos de um mesmo Pai (cf. Mc 14,36). Ele mesmo nos chamou à unidade: "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um" (Jo 17,21).

A Igreja tem consciência de seu singular protagonismo e de seu papel orientador quanto à formação de uma mentalidade de pertença à humanidade e ao fomento de uma cultura solidária e de reconciliação.

205. A necessária interdependência das pessoas e das nações para uma autêntica solidariedade são características humanas. Tam­bém constatamos o dinamismo mundial das nações, que se asso­ciam, como sinal dos tempos, ainda na América Latina e Caribe.

206. João Paulo II tem insistido na necessidade de transformar as estruturas que não respondem às necessidades dos ovos e antes

" P de tudo em que as nações mais fortes devem oferecer às mais

débeis oportunidade de inserção na vida internacional" (CA 35). Ante o espetáculo de países cada vez mais ricos junto a outros cada vez mais pobres, expressou: "São necessárias soluções em nível mundial, instaurando uma verdadeira economia de comu­nhão e participação de bens, tanto na ordem internacional como nacional. A este respeito, um fato que pode contribuir notavel­mente para superar os problemas angustiantes que afetam hoje este continente é a integração latino-americana. q grave respon­sabilidade dos governantes favorecer o já iniciado processo de integração de alguns povos cuja mesma geografia, a fé cristã, a língua e a cultura uniram definitivamente no caminho da história (DI 15).

Desafios pastorais:

207. - Experimentam-se um isolamento e uma fragmentação de nossas nações, ao mesmo tempo em que se incrementa uma globalização da economia planetária junto à formação e/ou re­formulação de grandes blocos.

208. - A formação de grandes blocos que ameaçam deixar isolado a todo o continente, enquanto não responde a seus interesses econômicos.

- Dá-se uma desintegração no interior de nossos países como efeito de discriminações raciais ou grupais e do predomínio econômico-politico-cultural de interesses particulares, que difi­cultam também uma abertura a espaços mais amplos.

- A própria falta de comunhão entre as Igrejas particulares de uma nação com as de outra, ou entre nações vizinhas do conti­nente, debilita a força integradora da própria Igreja.

Linhas pastorais:

209. - Fomentar e acompanhar os esforços em prol da integração

latino-americana como "pátria grande", partindo de uma perspectiva de solidariedade que exige, além disso, uma nova ordem mternacional.

- Promover a justiça e a participaçâo no interior de nossas nações, educando nestes valores, denunciando situações que os contradizem e dando testemunho de relação fraterna. Animar iniciativas e fortalecer as estruturas e organismos de colaboração intra-eclesial que sejam necessários ou úteis, respeitando as diversas competência. Assumir neste sentido a suges­tão do Santo Padre relativa a um encontro dos Episcopados de todo o continente americano.

23. A Fam7ia e a Vida: desafios de especial urgência na Promoção Humana

2.3.1. A Família santuário da vida

210. A Igreja anuncia com alegria e convicção a Boa Nova sobre a família na qual se forja o futuro da humanidade e se concretiza a fronteira decisiva da Nova Evangelização. Assim o proclamamos, aqui na América Latina e no Caribe, num momento histórico em que a família é vítima de muitas forças que buscam destruí-1a ou deformá-1a.

É certo que o lugar mais indicado para falar da família é aquele em que se trata da Igreja particular, paróquia e comunidades eclesiais, uma vez que a família é a Igreja doméstica. Porém, por causa dos tremendos problemas que hoje afetam a vida humana, incluímos este tema na parte que trata da Promoção Humana. Evidentemente reconhecemos a diversidade de famílias rurais e urbanas, cada uma dentro de seu contexto cultural; mas em todas as partes a família é fermento e sinal do amor divino e da Igreja e, portanto, deve estar aberta ao plano de Deus.

211. O matrimônio e a família no projeto original de Deus são instituições de origem divina e não produtos da vontade humana. Quando o Senhor disse "no começo não foi assim" (Ml 19,8) se refere à verdade sobre o matrimônio, que, segundo o plano de Deus, exclui o divórcio.

212. O homem e a mulher, sendo imagem e semelhança de Deus (Gn 2,16), que é amor, são chamados a viver no matrimônio, o misté­rio da comunhão e relação trinitária. "Deus inscreve na pessoa humana a vocação e conseqüentemente a capacidade e a respon­sabilidade do amor e da comunhão" (FC 11). Homem e mulher são chamados ao amor na totalidade de seu corpo e espírito.

213. Jesus Cristo é a Nova Aliança, nele o matrimônio adquire sua verdadeira dimensão. Por sua Encarnação e por sua vida em família por Maria e José no lar de Nazaré se constitui um modelo de toda família. O amor dos esposos por Cristo chega a ser como o dele: total, exclusivo, fiel e fecundo. A partir de Cristo e por sua vontade, proclamada pelo Apóstolo, o matrimônio não só volta à perfeição primeira mas se enriquece com novos conteúdos (Et 5,25-33). O matrimônio cristão é um sacramento em que o amor humano é santificante e comunica a vida divina por obra de Cristo; um sacramento em que os esposos significam e realizam o amor de Cristo e de sua Igreja, amor que passa pelo caminho da cruz, das limitações, do perdão e dos defeitos para chegar à alegria da ressurreição. É necessário ter presente que "entre batizados não pode haver contrato matrimonial válido, senão por esse mesmo sacramento" (CIC 1055,2).

214. No plano de Deus Criador e Redentor a família descobre não só sua identidade senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida, através de quatro atos fundamentais (FC 17):

a) A missão da família é viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas que se caracteriza pela unidade e indissolubilidade. A família é o lugar privilegiado para a realização pessoal junto com os seres amados.

b) Ser "como o santuário da vida" (CA 39), serva da vida, já que o direito à vida é a base de todos os direitos humanos. Este serviço não se reduz só à procriação, é antes auxilio eficaz para transmitir e educar em valores autenticamente humanos e cristãos.

c) Ser "célula primeira e vital da sociedade" (FC 42). Por sua natureza e vocação, a família deve ser promotora do desenvolvimento, protagonista de uma autêntica política familiar.

d) Ser "Igreja doméstica" que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra de Deus, é santuário onde se edifica a santidade e a partir de onde a Igreja e o mundo podem ser santificados (FC 55).

Não obstante as graves crises da família, constatamos que muitas famílias latino-americanas e do Caribe se esforçam e vivem cheias de esperança e com fidelidade o projeto de Deus Criador e  Redentor, a fidelidade, a abertura à vida, a educação cristã dos filhos e o compromisso com a Igreja e o mundo.

215. Deus é o Senhor da vida. A vida é dom seu. O homem não é, nem pode ser árbitro ou dono da vida. O filho deve ser responsavelmente acolhido na família como dom preciosíssimo e irrepetível de Deus. A criança, concebida, não nascida é o ser mais pobre, vulnerável e indefeso que se há de defender e tutelar. Vê-se hoje, com maior clareza, a relação tão estreita, subjetiva e objetiva entre anticoncepção e aborto. Separa-se de modo drástico o significado unitivo do procriativo no ato conjugal, o que vem a ser traição do próprio sentido da vida.

2.3.2 Os desafios d família e à vida hoje

216. A mudança histórico-cultural tem causado impacto na imagem tradicional da família. Cada vez são mais numerosas as uniões consensuais livres, os divórcios e os abortos. A novidade é que estes problemas familiares se tornaram um problema de ordem ético-Política, e uma mentalidade "laicizante" e os meios de comunicação social têm contribuído para isto.

217. Com demasiada freqüência, se desconhece que o matrimônio e a família são um projeto de Deus, que convida o homem e a mulher criados por amor a realizar seu projeto de amor em fidelidade até a morte, devido ao secularismo reinante, à imaturidade psicológica e a causas sócio-econônicas e políticas, que levam a quebrantar os valores morais e éticos da família. Disso resultam a dolorosa realidade de famílias incompletas, casais em situação irregular e o crescente matrimônio civil sem celebração sacramental e uniões consensuais.

218. Um número crescente de famílias da América Latina e do Caribe interpela governos, sociedade e organismos internacionais, partindo de sua situa o de miséria e fome em razão do desemprego, da carência da vida digna, de serviços educativos e sanitários, de salários baixos; a partir do abandono das idosos e do crescente número de mães solteiras.

219. A cultura da morte nos desafia. Com tristeza humana e preocupação cristã, somos testemunhas das campanhas antivida, que se difundem na América Latina e no Caribe, perturbando a mentalidade do nosso povo com uma cultura da morte. O egoísmo, o medo ao sacrifício e à cruz unidos às dificuldades da vida moderna geram uma rejeição do filho que não é responsável e alegremente acolhido na família, mas considerado como um agressor. Atemorizam-se as pessoas com um verdadeiro "terrorismo demográfico" que exagera o perigo que pode representar o crescimento da população &ente à qualidade de vida.

Existe uma distribuição massiva de anticoncepcionais, em sua grande maioria abortivos. Imensos setores de mulheres são vítimas de programas de esterilizações massivas. Também os homens sucumbem ante estas ameaças. Nosso continente sofre as causa do "imperialismo contraceptivo, que consiste em impor a povos e culturas toda forma de contracepção, esterilização e aborto, que se considera efetiva sem respeito às tradições religio­sas, étnicas e familiares de um povo ou cultura" (Carta da Santa Sé à Reunião da OMS em Bangcoc).

Cada dia é maior o massacre do aborto que produz milhões de vítimas em nossos povos latino-americanos. A mentalidade antivida, além da eutanásia pré-natal, leva à eliminação de crianças recém-nascidas e dos anciãos e enfermos estimados como inú­teis, defeituosos, ou "carga" para a sociedade. Outras expressões de anticultura da morte são a eutanásia, a guerra, a guerrilha, o seqüestro, o terrorismo, o narcotráfico.

220. Os cristãos fiéis se sentem perplexos ante as contradições e falta de coerência dos agentes de pastoral familiar, quando não se­guem o Magistério da Igreja (Humanae vitae; Familiaris consortio; Reconciliatio et poenitentia).

221. A América Latina e o Caribe têm uma população infantil crescente. As crianças, adolescentes e jovens são mais da metade da população do continente (55%). Esta "emergência silenciosa" vivida pela América Latina e Caribe é desafiante não só do ponto de vista numérico mas muito especialmente do ponto de vista humano e pastoral. Com efeito, em muitas cidades têm aumen­tado os "meninos de rua" que perambulam dia e noite sem lugar nem futuro. Em alguns países têm sido vítimas de campanhas de extermínio, realizadas por organismos policiais e privados; crian­ças sem família, sem amor, sem acesso à educação, isto é, crianças em extrema miséria física e moral, muitas vezes conseqüência da desintegração familiar. Detecta-se, inclusive, um aberrante co­mércio de meninos e meninas, tráfico de órgãos e até utilização de crianças em cultos satânicos. Do ponto de vista da educação da fé, se percebe um forte descuido quanto à recepção de sacra­mentos e à catequese.

2.3.3. Linhas pastorais

222. 1. Enfatizar a prioridade e centralidade da pastoral familiar na Igreja diocesana. Para isto é necessário capacitar agentes. Os movimentos apostólicos que têm por objetivo o matrimônio e a família podem oferecer apreciável cooperação às Igrejas parti­culares, dentro de um plano orgânico integral.

- A pastoral familiar não pode limitar-se a uma atitude meramen­te protetora, deve ser provisora, audaz e positiva. Há de discernir com sabedoria evangélica os desafios que as mudanças culturais apresentam à família. Há de denunciar as violações contra a justiça e a dignidade da família. Ha de acompanhar às famílias dos setores mais pobres, rurais e urbanos, promovendo a solidariedade.

- A pastoral familiar há de cuidar da formação dos futuros esposos e o acompanhamento dos cônjuges, sobretudo, nos pri­meiro anos de sua vida matrimonial. Como preparação imediata têm reconhecido valor os cursos para noivos antes da celebração sacramental.

223. 2. Proclamar que Deus é o único Senhor da vida, que o homem não é, nem pode ser amo ou árbitro da vida humana. Condenar e rejeitar qualquer violação exercida por autoridades em favor da anticoncepção, a eutanásia, a esterilização e o aborto provo­cado. Igualmente, as políticas de alguns governos e organismos internacionais que condicionam a ajuda econômica aos progra­mas contra a vida.

224. Buscar, seguindo o exemplo do Bom Pastor, caminhos e formas para conseguir uma pastoral orientada a casais em situações irregulares, especialmente os divorciados e pessoas que de novo se casaram civilmente.

225. Fortalecer a vida da Igreja e da sociedade a partir da família: enriquecê-1a a partir da catequese familiar, a oração no lar, a Eucaristia, a participação no sacramento da Reconciliação, o conhecimento da Palavra de Deus, para ser fermento na Igreja e na sociedade.

226. 3. Convidar os teólogos, cientistas e casais cristãos a colaborar com o magistério hierárquico para iluminar melhor os fundamen­tos bíblicos, as motivações éticas e as razões científicas para a paternidade responsável, para a decisão livre, de acordo com uma consciência bem formada, segundo os princípios da moral, q to no que tange ao número de filhos que se pode educar, quanto aos métodos segundo uma autêntica paternidade respon­sável. O fruto desses trabalhos será a promoção de programas e serviços que difundem os métodos naturais de planejamento e elaborem manuais de educação para a sexualidade e o amor, dirigidos a crianças, adolescentes e jovens.

- Ante os equívocos de alguns programas "demográficos", temos de recordar as palavras do Papa no seu Discurso inaugural dessa Conferência: "O que é preciso é aumentar os meios e distribuir com maior justiça a riqueza, para que todos possam participar eqüitativamente dos bens da criação" (n. 15).

227. 4. Exercer o ministério profético da Igreja: denunciando toda violação contra as crianças nascidas e não-nascidas. Difundir e exigir o cumprimento da "convenção dos direitos da criança" com as observações da Santa Sé, e ainda a carta da Santa Sé sobre os direitos da família. Orientar os leigos para que promovam nos diversos países legislações que tutelem os direitos das crianças e urgir seu cumprimento. Acompanhar e apoiar efetivamente os pais de família, educadores, catequistas e institutos religiosos que se dedicam à educação da infância, prestando especial atenção ao crescimento na fé. Fomentar a mística pelo trabalho a favor das crianças e promover a pastoral da infância, através de ações proféticas e caritativas que testemunhem o amor de Cristo pelas crianças mais pobres e abandonadas.

CAPÍTULO 3

A CULTURA CRISTÃ

Introdução

228. A vinda do Espírito Santo em Pentecostes (c£ At 2,1-11) põe de manifeste a universalidade do mandato evangelizador: pre­tende chegar a toda cultura. Manifesta também a diversidade cultural dos fiéis, quando ouviam falar cada um dos apóstolos na sua própria língua.

Nasce a cultura com o mandato inicial de Deus aos seres huma­nos: crescer e multiplicar-se, encher a terra e submetê-1a (Gn 1,28-30). Dessa maneira a cultura é cultivo e expressão de todo o humano em relação amorosa com a natureza e na dimensão comunitária dos povos.

Quando Jesus Cristo, na encarnação, assume e exprime todo 0 humano, exceto o pecado, então o Verbo de Deus entra na cultura. Assim, Jesus Cristo é a medida de todo o humano e portanto também da cultura. Ele, que se encarnou na cultura de seu povo, traz para cada cultura histórica o dom da purificação e da plenitude. Todos os valores e expressões culturais que possam dirigir-se a Cristo promovem o autêntico humano. O que não passa pelo Cristo não poderá ficar redimido.

229. Por nossa adesão radical a Cristo no batismo, comprometemo-nos a fazer com que a fé, plenamente anunciada, pensada e vivida, chegue a fazer-se cultura. Assim, podemos falar de uma cultura cristã quando o sentir comum da vida de um povo tem sido penetrado interiormente, até "situar a mensagem evangélica na base de seu pensamento, nos seus princípios fundamentais de vida, nos seus critérios de juízo, nas suas normas de ação" (DI 24) e dali "projeta-se no ethos de um povo... nas suas instituições e em todas as estruturas" (ibid. 19).

Esta evangelização da cultura, que a invade até seu núcleo dinâ­mico, manifesta-se no processo de inculturação, que João Paulo II chamou de "centro, meio e objetivo da Nova Evangelização" (Discurso ao Conselho Internacional de Catequese, 26.9.92). Os autênticos valores culturais, discernidos e assumidos pela fé, são necessários para encarnar nessa mesma cultura a mensagem evangélica e a reflexão e práxis da Igreja.

A Virgem Maria acompanha os apóstolos quando o Espírito de Jesus ressuscitado penetra e transforma os povos das diversas culturas. Maria, que é modelo da Igreja, também é modelo da evangelização da cultura. É a mulher judia que representa o povo da Antiga Aliança com toda sua realidade cultural. Mas abre-se à novidade do Evangelho e está presente nas nossas terras como Mãe comum, tanto dos aborígines como daqueles que para cá vieram, propiciando desde o princípio a nova síntese cultural que é a América Latina e do Caribe.

230. Inculturação do Evangelho

Posto que "hoje em dia estamos diante de uma crise cultural de proporções inimagináveis" (DI 21) na qual vão desaparecendo valores evangélicos e ainda humanos fundamentais, apresenta-se à Igreja um desafio gigantesco para uma nova evangelização, ao qual se pretende responder com o esforço da inculturação do Evangelho. É necessário inculturar o Evangelho à luz dos três grandes mistérios da salvação: a Natividade, que mostra o cami­nho da Encarnação e move o evangelizador a partilhar sua vida com o evangelizado; a Páscoa, que conduz através do sofrimento à purificação dos pecados, para que sejam redimidos; e Pente­costes, que pela força do Espírito possibilita a todos entender, na sua própria língua, as maravilhas de Deus.

A inculturação do Evangelho é um processo que supõe reconhe­cimento dos valores evangélicos que se têm mantido mais ou menos puros na atual cultura; e o reconhecimento de novos valores que coincidem com a mensagem de Cristo. Mediante a inculturação, busca-se que a sociedade descubra o caráter cristão desses valores, os aprecie e os mantenha como tais. Além disso, pretende a incorporação de valores evangélicos que estão ausen­tes da cultura, ou porque se tenham obscurecido ou porque tenham chegado a desaparecer. "Pela inculturação, a Igreja en­carna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente in­troduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, transmitindo-lhes os seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro" (RMi 52). A fé, ao se encarnar nessas culturas, deve corrigir seus erros e evitar sincretismos. A tarefa da inculturação da fé é própria das Igrejas particulares sob a direção dos seus pastores, com a par­ticipação de todo o povo de Deus. Os critérios fundamentais neste processo são a sintonia com as exigências objetivas da fé e a abertura à comunhão com a Igreja universal (cf. RMi 54).

3.1 Valores culturais: Cristo, medida de nossa conduta moral

231. - Criados à imagem de Deus, temos a medida de nossa conduta moral em Cristo, Verbo encarnado, plenitude do homem. Já a conduta ética natural, essencialmente ligada à dignidade huma­na e seus direitos, constitui a base para um diálogo com os não-crentes.

Pelo batismo nascemos a uma vida nova e recebemos a capaci­dade de nos aproximarmos do modelo que é Cristo. Caminhar em direção a Ele é a moral cristã; é a forma de vida própria do homem de fé, que com a ajuda da graça sacramental segue a Jesus Cristo, vive a alegria da salvação e abunda em frutos de caridade para a vida do mundo (c£ Jo 15; OT 16).

- Consciente da necessidade de seguir este caminho, o cristão se empenha na formação da própria consciência. Desta formação, tanto individual como coletiva, da maturidade de mentalidade, do seu sentido de responsabilidade e da pureza dos costumes depende o desenvolvimento e a riqueza dos povos (cf. DI 19). A moral cristã só se entende dentro da Igreja e se planifica na Eucaristia. Tudo o que nela podemos oferecer é vida; o que não se pode oferecer é o pecado.

Desafios pastorais

232. - Graças a Deus, na América Latina e no Caribe, há muita gente que segue com fidelidade a Jesus Cristo, mesmo em circuns­tâncias adversas. Todavia, observa-se na nossa realidade social o crescente desajuste ético-moral, em especial a deformação da consciência, a ética permissiva e uma sensível queda do sentido do pecado. Decresce o influxo da fé, perde-se o valor religioso, desconhece-se a Deus como sumo bem e último juiz. Diminui a prática do sacramento da reconciliação. É deficiente a apresen­tação do magistério moral da Igreja.

233. - A corrupção tem-se generalizado. Há um mau emprego dos recursos econômicos públicos; progridem a demagogia, o popu­lismo, a "mentira política" nas promessas eleitorais; burla-se a justiça, generaliza-se a impunidade e a comunidade se sente impotente e indefesa diante do delito. Com tudo isso, fomenta-se a insensibilidade social e o cepticismo ante a falta de aplicação da justiça, emitem-se leis contrárias aos valores humanos e cris­tãos fundamentais. Não há uma eqüitativa distribuição dos bens da terra, abusa-se da natureza e se danifica o ecossistema.

234.-Fomentam-se a mentalidade e as ações contra a vida mediante campanhas anti-natalistas, de manipulação genética, do abomi­nável crime do aborto e da eutanásia. Muda-se o sentido da vida como conquista do forte sobre o fraco, que propicia ações de ódio e destruição, e impede a construção e o crescimento do homem.

235. - Assiste-se assim à crescente deterioração da dignidade hu­mana. Crescem a cultura da morte, a violência e o terrorismo, a toxicomania e o narcotráfico. Desnaturaliza-se a dimensão inte­gral da sexualidade humana, faz-se de homens e mulheres, inclu­sive de crianças, uma indústria de pornografia e prostituição; no âmbito da permissividade e promiscuidade sexual cresce o terrível mal da AIDS e aumentam as doenças venéreas.

236.-Introduz-se como norma de moralidade a chamada "ética civil ou cidadã", na base de um consenso mínimo de todos com a cultura reinante, sem necessidade de respeitar a moral natural e as normas cristãs. Observa-se uma "moral de situação" segundo a qual algo mau em si deixaria de sê-1o segundo as pessoas, circunstâncias e interesses em jogo. Freqüentemente os meios de comunicação social se fazem eco de todos estes critérios e os difundem.

Linhas pastorais

237. - Trabalhar na formação cristã das consciências e resgatar os valores perdidos da moral cristã. Voltar a tomar consciência do pecado (do pecado original e dos pecados pessoais) e da graça de Deus como força para poder seguir nossa consciência cristã.

Despertar em todos a experiência do amor que o Espírito Santo derrama nos corações, como força de toda Moral cristã.

238. - Zelar para que os meios de comunicação social nem manipu­lem nem sejam manipulados ao transmitir, sob pretexto de plu­ralismo, o que destrói o povo latino-americano. Fortalecer a unidade da família e sua influência na formação da consciência cristã.

239. - Apresentar a vida moral como um seguimento de Cristo, frisando a vivência das Bem-aventuranças e a freqüente prática dos sacramentos. Difundir as virtudes morais e sociais que nos convertam em homens novos, criadores de uma nova humani­dade. Este anúncio tem que ser vital e querigmático, especial­mente onde mais se houver introduzido o secularismo, apresentando na catequese a conduta cristã como o autêntico seguimento de Cristo. Cuidar que, no campo moral, a justa aplicação de critérios de gradualidade não diminua as exigências peremptórias da conversão.

240. - Favorecer a formação permanente dos bispos e presbíteros, dos diáconos, dos religiosos, religiosas e leigos, especialmente dos agentes de pastoral segundo o ensinamento do Magistério. A liturgia deve expressar mais claramente os compromissos mo­rais que comporta. A religiosidade popular, especialmente nos Santuários, deve voltar-se para a conversão. É mister fomentar e facilitar o acesso ao sacramento da reconciliação.

241. - Quanto ao problema da droga, implementar ações de preven­ção na sociedade e de atenção e cura dos toxicômanos; denunciar com coragem os males que o vício e o tráfico da droga produzem em nossos povos, e o gravíssimo pecado que significa a sua produção, comercialização e consumo. Chamar especialmente a atenção sobre a responsabilidade dos poderosos mercados con­sumidores. Promover a solidariedade e a cooperação nacional e internacional no combate a este flagelo.

242. - Orientar e acompanhar pastoralmente os construtores da sociedade na formação de uma consciência moral em suas tarefas e na atuação política.

Estar sempre abertos ao diálogo com aqueles que guiam suas vidas por caminhos diferentes da ética cristã. Comprometer-nos efetivamente na consecução da justiça e da paz dos nossos povos.

3.2. Unidade e pluralidade das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças

Iluminação teológica

243. - A ação de Deus, através do seu Espírito, dá-se permanente­mente no interior de todas as culturas. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho Jesus Cristo, que assumiu as condições sociais e culturais dos povos e se fez "em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hb 4,15; cf. GS 22).

- A analogia entre a encarnação e a presença cristã no contexto sócio-cultural e histórico dos povos suscita para nós o problema teológico da inculturação. Esta inculturação é um processo que vai do Evangelho ao coração de cada povo e comunidade com a mediação da linguagem e dos símbolos compreensíveis e apro­priados segundo o juízo da Igreja.

- Uma meta da Evangelização inculturada será sempre a salva­ção e libertação integral de um determinado povo ou grupo humano, que fortaleça sua identidade e confie em seu futuro específico, contrapondo-se aos poderes da morte, adotando a perspectiva de Jesus Cristo encarnado, que salvou a vida de todos partindo da fraqueza, da pobreza e da cruz redentora. A Igreja defende os autênticos valores culturais de todos os povos, espe­cialmente dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante da força esmagadora das estruturas de pecado manifestas na socie­dade moderna.

Desafios pastorais

244. - A América Latina e o Caribe configuram um continente multiétnico e pluricultural. Nele convivem, em geral, povos abo­rígines, afro-americanos, mestiços e descendentes de europeus e asiáticos, cada qual com sua própria cultura que os situa em sua respectiva identidade social, segundo a cosmovisão de cada povo. Eles buscam, porém, uma unidade a partir da identidade católi­ca.

245. - Os povos indígenas de hoje cultivam valores humanos de grande significação. Eles têm, nas palavras de João Paulo II, a certeza de que o mal se identifica com a morte e o bem com a vida" (João Paulo IIs Mensagem aos indígenas, 2). Estes valores e convicções são fruto das "sementes do Verbo" que estavam já presentes e atuastes nos seus antepassados, para que fossem descobrindo a presença do Criador em todas suas criaturas: o sol, a lua, a mãe terra etc. (c£ ibid.).

A Igreja, ao se encontrar com estes povos nativos, desde o princípio tratou de acompanha-los na luta pela própria sobrevi­vência, ensinando-lhes o caminho de Cristo Salvador, a partir da injusta situação de povos vencidos, invadidos e tratados como escravos. Na primeira evangelização, junto a enormes sofrimentos, houve grandes acertos e intenções pastorais valiosas, cujos frutos perduram até os nossos dias.

246. - As culturas afiro-americanas, presentes na América Latina e no Caribe, estão marcadas por uma constante resistência à escra­vidão. Estes povos, que somam milhões de pessoas, têm também nas suas culturas valores humanos que expressam a presença do Deus criador.

Durante os quatro séculos passados, é indubitável que vários milhões de africanos negros foram transportados como escravos, violentamente arrancados de suas terras, separados de suas famílias e vendidos como mercadoria. A escravidão dos negros e a matança dos índios foram o maior pecado da expansão colonial do Ocidente. Infelizmente, no que se refere à escravidão, ao racismo e à discriminação, houve batizados que não se mantive­ram alheios a essa situação.

247. - Como o assinalou vigorosamente o Documento de Puebla, nos povos que são fruto da mestiçagem racial, tem-se desenvol­vido uma cultura "mestiça" particular, na qual está muito vigente a religiosidade popular, como forma inculturada do catolicismo. Coexistem, no entanto, o descumprimento de deveres cristãos ao lado de admiráveis exemplos de vida cristã e um desco­nhecimento da doutrina ao lado de vivências católicas enraizadas nos princípios do Evangelho.

Nas expressões culturais e religiosas de camponeses e de habi­tantes das periferias urbanas, reconhece-se grande parte do patrimônio cristão do continente e uma fé arraigada dos valores do Reino de Deus.

Linhas pastorais: Evangelização incultura

248. - Depois de ter pedido perdão com o Papa aos nossos irmãos indígenas e afro-americanos "perante a infinita santidade de Deus, pelos fatos marcados pelo pecado, pela injustiça e pela

violência" (Audiência geral, quarta feira 21 de outubro de 1991), queremos desenvolver uma evangelização inculturada:

1. Para com nossos irmãos indígenas:

- Oferecer o evangelho de Jesus com o testemunho de uma atitude humilde, compreensiva e profética, valorizando sua pala­vra através de um diálogo respeitoso, franco e fraterno e esfor­çar-nos por conhecer suas próprias línguas.

- Crescer no conhecimento crítico de suas culturas para apreciá-las à luz do Evangelho.

- Promover uma inculturação da liturgia, acolhendo com apreço seus símbolos, ritos e expressões religiosas compatíveis com o claro sentido da fé, mantendo o valor dos símbolos universais e em harmonia com a disciplina geral da Igreja.

- Acompanhar sua reflexão teológica, respeitando suas formula­ções culturais, que os auxiliem a dar razão de sua fé e de sua esperança.

- Crescer no conhecimento de sua cosmovisão, que faz da globa­lidade de Deus, homem e mundo, uma unidade que impregna todas as relações humanas, espirituais e transcendentais.

- Promover nos povos indígenas seus valores culturais autóctones mediante uma inculturação da Igreja, para atingir uma maior realização do Reino.

249. 2. Para com nossos irmãos afro-americanos:

- Conscientes do problema da marginalização e do racismo que pesa sobre a população negra, a Igreja, na sua missão evangeli­zadora, quer participar dos seus sofrimentos e acompanhá-los em suas legítimas aspirações em busca de uma vida mais justa e digna para todos (cf. ibid.).

- Pela mesma razão, a Igreja na América Latina e no Caribe quer apoiar os povos afro-americanos na defesa de sua identidade e no reconhecimento de seus próprios valores; como também ajudá-los a manter vivos seus usos e costumes compatíveis com a doutrina cristã (Discurso do Papa João Paulo II aos Afro-ame­ricanos em Santo Domingo).

- Da mesma forma, comprometemo-nos a dedicar especial aten­ção à causa das comunidades afro-americanas no campo pasto­ral, favorecendo a manifestação das expressões religiosas pró­prias de suas culturas (ibid.).

250. 3. Desenvolver a consciência da mestiçagem, não só a nível racial mas também cultural, que caracteriza as grandes maiorias em muitos dos nossos povos, pois está vinculada à inculturação do Evangelho.

Promoção humana das etnias

251. Para uma autêntica promoção humana, a Igreja quer apoiar os esforços que estes povos fazem para ser reconhecidos como tais pelas leis nacionais e internacionais, com pleno direito à terra, às suas próprias organizações e vivências culturais, a fim de garantir o direito que têm de viver segundo sua identidade, sua própria língua e seus costumes ancestrais, e de se relacionar com plena igualdade com todos os povos da terra.

Portanto assumimos os seguintes compromissos:

- Superar a mentalidade e a práxis do desenvolvimento induzido do exterior, em favor do autodesenvolvimento, a fim de que estes povos sejam artífices do seu próprio destino.

- Contribuir eficazmente para deter e erradicar as políticas tendentes a fazer desaparecer as culturas autóctones como meios de forçada integração; ou pelo contrário, políticas que queiram manter os indígenas isolados e marginalizados da realidade na­cional.

- Impulsionar a plena vigência dos direitos humanos dos indíge­nas e afro-americanos, incluindo a legítima defesa de suas terras. - Como um gesto concreto de solidariedade em favor dos cam­poneses, indígenas e afro-americanos, apoiar a Fundação Popu­lorum Progressio, instituída pelo Santo Padre.

- Rever completamente nossos sistemas educacionais, para eli­minar definitivamente todo aspecto discriminatório no que diz respeito a métodos educativos, volume e investimento de recur­sos.

- Fazer o possível para que se garanta aos indígenas e afro-americanos uma educação adequada a suas respectivas culturas, começando inclusive com a alfabetização bilingüe.

3.3 Nova cultura

3.3.1 Cultura moderna

Situação

252. - Embora realidade pluricultural, a América Latina e o Caribe estão profundamente marcados pela cultura ocidental, cuja memória, consciência e projeto se apresentam sempre no nosso predominante estilo de vida comum. Daí o impacto que a cultura moderna e as possibilidades a nós oferecidas por seu período pós-moderno produziram em nossa maneira de ser.

A cultura moderna se caracteriza pela centralidade do homem; os valores da personalização, da dimensão social e da convivência; a absolutização da razão, cujas conquistas científicas e tecnológicas e informáticas têm satisfeito muitas das necessidades do homem, ao mesmo tempo que têm buscado uma autonomia em relação à natureza, a qual domina; em relação à história, cuja construção ele assume; e inclusive em relação a Deus, do qual se desinteressa ou relega à consciência pessoal, privilegiando exclusivamente a ordem temporal.

- A pós-modernidade é o resultado do fracasso da pretensão reducionista da razão moderna, que leva o homem a questionar tanto alguns êxitos da modernidade como a confiança no progresso indefinido, embora reconheça, como o faz também a Igreja (GS 57), seus valores.

- Tanto a modernidade, com seus valores e contravalores, como a pós-modernidade enquanto espaço aberto à transcendência, apresentam sérios desafios à evangelização da cultura.

Desafios pastorais

253. - Ruptura entre fé e cultura, conseqüência do fechamento do homem moderno à transcendência, e da excessiva especialização que impede a visão de conjunto.

- Escassa consciência da necessidade de uma verdadeira inculturação como caminho para a evangelização da cultura.

- Incoerência entre os valores do povo, inspirados em princípios cristãos, e as estruturas sociais geradoras de injustiças, que im­pedem o exercício dos direitos humanos.

- O vazio ético e o individualismo reinante, que reduzem a fundamentação dos valores a meros consensos sociais subjetivos. - O poder massivo dos meios de comunicação social, com fre­qüência a serviço de contravalores.

- A escassa presença da Igreja no campo das expressões domi­nantes da arte, do pensamento filosófico e antropológico-social, no universo da educação.

- A nova cultura urbana, com seus valores, expressões e estrutu­ras características, com seu espaço aberto e, ao mesmo tempo, diversificado, com sua mobilidade, em que predominam as rela­ções funcionais.

Linhas pastorais

254. - Apresentar Jesus Cristo como paradigma de toda atitude pessoal e social, e como resposta aos problemas que afligem às culturas modernas: o mal, a morte, a falta de amor.

- Intensificar o diálogo entre fé e ciência, fé e expressões, fé e instituições, que são grandes âmbitos da cultura moderna.

- Cuidar dos sinais e da linguagem cultural que assinala a pre­sença cristã e permite introduzir a originalidade da mensagem evangélica no coração das culturas, especialmente no campo da liturgia.

- Promover e formar o laicado para exercer no mundo sua tríplice função: a profética, no campo da Palavra, do pensamento, de sua expressão e valores; a sacerdotal no mundo da celebração e do sacramento, enriquecida pelas expressões da arte, e da comuni­cação; a régia no universo das estruturas sociais, políticas, eco­nômicas.

- Promover o conhecimento e discernimento da cultura moderna visando a uma adequada inculturação.

3.3.2 A cidade

Desafios pastorais

255. - A América Latina e o Caribe acham-se hoje num processo acelerado de urbanização. A cidade pós-industrial não repre­senta só uma variante do tradicional habitat humano, mas cons­titui, de fato, a passagem da cultura rural à cultura urbana, sede e motor da nova civilização universal (cf. P 429). Nela altera-se a forma com a qual num grupo social, num povo, numa nação, os homens cultivam sua relação consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus.

- Na cidade, as relações com a natureza se limitam, quase sempre e pelo próprio ser da cidade, ao processo de produção de bens de consumo. As relações entre as pessoas se tornam amplamente funcionais e as relações com Deus passam por uma acentuada crise, porque falta a mediação da natureza tão importante na religiosidade rural e porque a modernidade tende a fechar o homem dentro da imanência do mundo. As relações do homem urbano com ele mesmo também mudam, porque a cultura moderna faz com que valorize principalmente sua liberdade, sua autonomia, a racionalidade científico-tecnológica e, de modo geral, sua subjetividade, sua dignidade humana e seus direitos. Com efeito, na cidade encontram-se os grandes centros geradores da ciência e tecnologia moderna.

- Nossas metrópoles latino-americanas têm também como característica atual periferias de pobreza e miséria, que quase sempre constituem a maioria da população, fruto de modelos econômicos exploradores e excludentes. Até o campo se urbaniza pela multiplicação das comunicações e transportes.

- Por sua vez, o homem urbano atual apresenta um tipo diverso do homem rural: confia na ciência e na tecnologia; é influenciado pelos grandes meios de comunicação social; é dinâmico e projetado em direção do novo; consumiste, audiovisual, anônimo na massa e desarraigado.

Linhas pastorais

256. - Realizar uma pastoral urbanamente inculturada com relação à catequese, à liturgia, e à organização da Igreja. A Igreja deverá inculturar o Evangelho na cidade e no homem urbano, discernir seus valores e antivalores; captar sua linguagem e seus símbolos. O processo de inculturação abrange o anúncio, a assimilação e a reexpressão da fé.

257. - Reprogramar a paróquia urbana. A Igreja na cidade deve reorganizar as suas estruturas pastorais. A paróquia urbana deve ser mais aberta, flexível e missionária, permitindo uma ação pastoral transparoquial e supraparoquial. Além disso, a estrutura da cidade exige uma pastoral especialmente pensada para essa realidade. Lugares privilegiados da missão deveriam ser as gran­des cidades, onde surgem novas formas de cultura e comuni­cação.

258. - Promover a formação de leigos para a pastoral urbana, com formação bíblica e espiritual; criar ministérios conferidos aos leigos para a evangelização das grandes cidades.

259. - Multiplicar as pequenas comunidades, os grupos e movimen­tos eclesiais, e as comunidades eclesiais de base. Iniciar a chama­da "pastoral dos edifícios", mediante a ação de leigos comprometidos que vivam neles.

260. - Programar uma pastoral ambiental e funcional, diferenciada segundo os espaços da cidade. Uma pastoral de acolhida, dado o fenômeno das migrações. Uma pastoral para os grupos margi­nalizados. Assegurar a assistência religiosa aos habitantes das grandes cidades durante os meses de verão e férias; dispensar atenção pastoral aos que passam habitualmente os fins de sema­na fora da cidade, onde não têm possibilidade de cumprir o preceito dominical.

261. - Incentivar a evangelização dos grupos de influência e dos responsáveis da cidade, no sentido de fazer da mesma, principal­mente nos bairros populares, um habitat digno do homem.

262.-Promover no âmbito continental (CELAM), nacional e regio­nal, encontros e cursos sobre evangelização das grandes metró­poles.

3.4 A ação educativa da Igreja

Iluminação teológica

263. - Reafirmamos o que dissemos em Medellín e Puebla (c£ Documento de educação, Medellín, Puebla) e a partir dali assi­nalamos alguns aspectos importantes para a educação católica nos nossos dias.

- A educação é a assimilação da cultura. A educação cristã é a assimilação da cultura cristã. F a inculturação do Evangelho na própria cultura. Seus níveis são bem diversos, podem ser escola­res ou não escolares, elementares ou superiores, formais ou não-formais. Em todo caso, a educação é um processo dinâmico que dura a vida toda da pessoa e dos povos. Recolhe a memória do passado, ensina a viver hoje e se projeta para o futuro. Por                                                        isto, a educação cristã é indispensável na nova evangelização.

    264. - A educação cristã desenvolve e assegura a cada cristão a sua                vida de fé e faz com que verdadeiramente nele sua vida seja Cristo (cf. F1 1,21). Por ela, ecoam no homem as "palavras de vida eterna" (Jo 6,68), realiza-se em cada pessoa a "nova criatura" (2  Cor 5,17) e se leva a cabo o projeto do Pai de "recapitular em Cristo todas as coisas" (Et 1,10). Assim a educação cristã se funda numa verdadeira antropologia cristã que significa a abertura do homem para Deus como Criador e Pai, para os outros como seus irmãos, e para o mundo como àquilo que lhe foi entregue para potenciar suas virtualidades e não para exercer sobre ele um  domínio despótico que destrua a natureza.

    265. - Nenhum mestre educa sem saber para que educa e em que direção educa. Há um projeto de homem encerrado em qualquer projeto educativo; e este projeto vale ou não segundo construa ou destrua o educando. Este é o valor educativo. Quando falamos de uma educação cristã, queremos dizer que o mestre educa para um projeto de homem no qual viva Jesus Cristo. Há muitos aspectos nos quais educar e muitos que constam do projeto       educativo do homem; há muitos valores; mas estes valores nunca estão sós, sempre formam uma constelação ordenada explicita ou implicitamente. Se a estruturação tem como fundamento e  termo a Cristo, tal educação recapitulará tudo em Cristo e será uma verdadeira educação cristã; caso contrário, pode falar de Cristo, mas não é educação cristã.

    - O mestre cristão deve ser considerado como sujeito eclesial que evangeliza, que catequiza e educa cristãmente. Tem uma identidade definida na comunidade eclesial. Seu papel deve ser reconhecido na Igreja.

266. - Na situação atual encontramos uma pluralidade de valores que nos interpelam e que são ambivalentes. Daí surge a necessidade de confrontar os novos valores educacionais com Cristo revelador do mistério do homem. Na nova educação, trata-se de      fazer crescer e amadurecer a pessoa segundo as exigências dos novos valores; a isto deve agregar-se a harmonização com a tipologia própria do contexto latino-americano.

    - Geralmente nos pedem, com base em critérios secularistas, que eduquemos o homem técnico, o homem apto para dominar seu mundo e viver num intercâmbio de bens produzidos sob certas normas políticas; as mínimas. Esta realidade nos interpela fortemente para podermos ser conscientes de todos os valores que estão nela e podê-los recapitular em Cristo; interpela-nos para continuar a linha da Encarnação do Verbo na nossa educação cristã, e para chegar ao projeto de vida para todo homem, que é Cristo morto e ressuscitado.

Desafios pastorais

267. - A partir de outros aspectos a realidade latino-americana nos interpela pela exclusão de muita gente da educação escolar, mesmo a básica, pelo grande analfabetismo que existe em vários dos nossos países; interpela-nos pela crise da família, a primeira educadora, pelo divórcio existente entre o Evangelho e a cultura; pelas diferenças sociais e econômicas que fazem com que para muitos seja dispendiosa a educação católica, especialmente nos níveis superiores. Interpela-nos também a educação informal que se recebe através de tantos comunicadores não propriamen­te cristãos, p.ex., na televisão.

268.-Um grande desafio é a Universidade católica e a Universidade de inspiração cristã, já que o seu papel é especialmente o de realizar um projeto cristão de homem e portanto, tem de estar em diálogo vivo, contínuo e progressivo com o Humanismo e com a cultura técnica, de maneira que saiba ensinar a autêntica Sabedoria cristã pela qual o modelo de "homem trabalhador", aliado ao de "homem sábio", culmine em Jesus Cristo. Só assim poderá apontar soluções para os complexos problemas não re­solvidos da cultura emergente e para as novas estruturações sociais, como a dignidade da pessoa humana, os direitos inviolá­veis da vida, a liberdade religiosa, a família como primeiro espaço para o compromisso social, a solidariedade nos seus distintos níveis, o compromisso próprio de uma sociedade democrática, a complexa problemática econômico-social, o fenômeno das seitas, a velocidade da mudança cultural.

269. - No campo escolar, outro desafio é o que representa em vários países o espinhoso problema das relações entre a educação estatal e a educação cristã. Embora em outras nações se tenha produzido uma maior viabilidade das mesmas, há países em que ainda não se compreende que a educação católica é um direito inalienável dos pais católicos e dos seus filhos e neles não se recebem os recursos necessários para ela, ou simplesmente é proibida.

270. - Outros desafios significativos são a ignorância religiosa da juventude, a educação extra-escolar e a educação informal. Tam­bém é um desafio a educação adequada às diferentes culturas, em especial às culturas indígenas e afro-americanas; não só no sentido de que não se adapta à sua maneira de ser, mas no de não marginalizá-las nem excluí-las do progresso, da igualdade de oportunidades e da capacidade de construir a unidade nacional.

Linhas pastorais

271. - Nossos compromissos no campo educacional se resumem, sem dúvida, à linha pastoral da inculturação: a educação é a mediação metodológica para a evangelização da cultura. Portan­to pronunciamo-nos por uma educação cristã desde e para a vida no âmbito individual, familiar e comunitário e no âmbito do ecossistema; que fomente a dignidade da pessoa humana e a verdadeira solidariedade; educação a ser integrada por um pro­cesso de formação cívico-social inspirado no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja. Comprometemo-nos com uma educação evangelizadora.

272.-Apoiamos os pais de família para que decidam de acordo com suas convicções o tipo de educação para seus filhos e denuncia­mos todas as intromissões do poder civil que coorte este direito natural. Deve garantir-se o direito da formação religiosa para cada pessoa, e, portanto, o do ensino religioso nas escolas em todos os níveis.

273. - Apoiamos os educadores cristãos que trabalham em institui­ções da Igreja, as congregações que se dedicam ao trabalho educativo e os professores católicos que trabalham em institui­ções não católicas. Devemos promover a formação permanente dos educadores católicos no que concerne ao crescimento de sua fé e à capacidade de comunicá-1a como verdadeira Sabedoria, especialmente na educação católica.

274. - Urge uma verdadeira formação cristã sobre a vida, o amor, a sexualidade, que corrija os desvios de certas informações que se recebem nas escolas. Urge uma educação para a liberdade, um dos valores fundamentais da pessoa. É também necessário que a educação cristã se preocupe de educar para o trabalho, especi­almente nas circunstâncias da cultura atual.

275. - Os carismas das ordens e congregações religiosas, postos a serviço da educação católica nas diversas igrejas particulares do nosso Continente, nos auxiliam sobremodo a cumprir o mandato recebido do Senhor de ir e ensinar a todas as gentes (Ml 28,18­20), especialmente na evangelização da cultura. Conclamamos os religiosos e religiosas que abandonaram este campo tão impor­tante da educação católica a que se reincorporem à sua tarefa; recordando que a opção preferencial pelos pobres inclui a opção preferencial pelos meios a que as pessoas saiam da sua miséria, e um dos meios privilegiados para isto é a educação católica. A opção preferencial pelos pobres se manifesta também em que os religiosos educadores continuem seu trabalho educativo em tan­tas regiões rurais tão afastadas como necessitadas.

276. - Devemos também nos esforçar para que a educação católica escolar em todos seus níveis esteja ao alcance de todos e não se veja restrita a alguns, mesmo em vista dos problemas econômicos que isso implica. Deve-se promover a responsabilidade da comu­nidade paroquial na escola e sua gestão. Pedimos que se garan­tam os recursos públicos destinados à educação católica. Cremos particularmente que a universidade católica, a partir da Constituição apostólica Ex carde Ecclesiae, é chamada a uma importante missão de diálogo entre o Evangelho e as culturas e de promoção humana na América Latina e Caribe.

277. - Cientes da extensão planetária da cultura atual formaremos a partir da educação católica e em todo nível uma consciência crítica diante dos meios de comunicação social. Urge dotar a família de critérios de verdade para capacitá-1a para o uso da TV, da imprensa e do rádio.

278. - Transformar a escola católica numa comunidade que seja centro de irradiação evangelizadora, mediante alunos, pais e mestres. Empenhamo-nos em fortalecer a comunidade educativa e nela um processo de formação cívico-social, inspirado no Evan­gelho e no magistério social da Igreja que responda às verdadei­ras necessidades do povo. Reforça-se-á outrossim a organização dos estudantes, docentes, pais de alunos e ex-alunos, como mé­todo de educação cívico-social e política que possibilite a formação democrática das pessoas. Solicitamos aos governos que sigam em seus esforços para promover cada vez mais a democratização da educação.

Comunicação social e cultura

Iluminação teológica

279.-A evangelização, anúncio do Reino, é comunicação, para que vivamos em comunhão (cf. P 1063): "O que vimos e ouvimos vo-1o anunciamos para que estejais também em comunhão co­nosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo 1,3). Cada pessoa e cada grupo humano desenvolve sua identidade no encontro com os outros (alteridade). Esta comunicação é caminho necessário para chegar à comunhão (comunidade). A razão é que o homem foi feito à imagem de Deus Uno e Trino, e no coração da Revelação encontramos seu mistério trinitário como a comunicação eternamente interpes­soal, cuja palavra se faz diálogo, entra na história por obra do Espírito e inaugura assim um mundo de novos encontros, inter­câmbios, comunicação e comunhão. Esta comunicação é impor­tante não só com o mundo, mas também ao interior da Igreja.

- No gesto de comunicação do Pai, através do Verbo feito carne, "a palavra se faz libertadora e redentora para toda a humanidade na pregação e na ação de Jesus. Este ato de amor pelo qual Deus se revela, associado à resposta de fé da humanidade, gera um diálogo profundo" (AN 6). Assim Cristo é o modelo de comunicador, n'Ele, Deus, o totalmente Outro, sai ao nosso encontro e espera nossa resposta livre. Este encontro de comunhão com Ele é sempre crescimento. É o caminho da santidade.

- Assim dá-se uma relação muito íntima entre evangelização, promoção humana e cultura, fundada na comunicação, o que impõe à Igreja tarefas e desafios concretos no campo da comunicação social. Disse-o o Papa no discurso inaugural desta Conferência: "Intensificar a presença da Igreja no mundo da comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades" (DI 23).

- Sabemos que nos encontramos na nova cultura da imagem, e que a Mensagem evangélica deve inculturar-se nessa cultura, levando-a a ser expressão de Cristo, a máxima comunicação.

Compreendemos a importância dos inumeráveis meios eletrônicos que agora estão ao nosso alcance para anunciar o Evangelho. Damos graças a Deus por este novo dom que nos deu na cultura atual.

Desafios pastorais

280.- O desenvolvimento tecnológico em matéria de comunicações, especialmente na televisão oferece à evangelização amplas perspectivas de comunicação nos mais diversos níveis e facilita à sociedade, em geral, uma interrelação também planetária. Este é um fato positivo, mas também no contexto atual apresenta desafios muito sérios pela orientação secularista de muitas programações.

Damo-nos conta do desenvolvimento da indústria da comunicação na América Latina e Caribe que mostra o crescimento de grupos econômicos e políticos que concentram cada vez mais em poucas mãos e com enorme poder a propriedade dos diferentes meios e chegam a manipular a comunicação, impondo uma cultura que estimula o hedonismo e o consumismo e atropela nossas culturas com os seus valores e identidades.

- Vemos como a publicidade freqüentemente introduz falsas expectativas e cria necessidades fictícias; vemos também como especialmente na programação televisiva sobejam a violência e a pornografia que penetram agressivamente no seio das famílias. Também constatamos que as seitas fazem uso cada vez mais intensivo e extensivo dos meios de comunicação.

- Por outro lado, a presença da Igreja no sistema de meios é ainda insuficiente e se carece de suficientes agentes com a preparação devida para enfrentar o desafio; além disso, falta por parte dos diferentes episcopados um adequado planejamento da pastoral das comunicações.

A telemática e a informática são novos desafios para a integração da Igreja no seu mundo.

Linhas pastorais

281. - Apoiar e estimular os esforços daqueles que, com o uso dos meios defendem a identidade cultural, assumem o desafio do encontro com realidades novas e distintas e procuram que se dê  lugar a um diálogo autêntico. Articular a comunicação massiva com a comunitária e grupai. Esforçar-se para ter meios próprios e ao menos uma produtora de vídeo a serviço da América Latina e do Caribe.

282. - Ajudar a discernir e orientar as políticas e estratégias da comunicação, que devem encaminhar-se a criar condições para  o encontro entre as pessoas, para a vigência de uma autêntica e responsável liberdade de expressão, para fomentar os valores culturais próprios e para buscar a integração latino-americana.

283. - Dar aos profissionais católicos da comunicação o apoio suficiente para cumprir sua missão. Procurar uma crescente relação de comunhão eclesial com as organizações internacionais (OCIC-AL, UNDA-AL, UCLAP) "cujos membros podem ser colaboradores valiosos e competentes das Conferências episco­pais e dos diferentes bispos" (AN 17). As comissões episcopais de comunicação de cada país e o próprio DECOS-CELAM e o SERTAL hão de aumentar e melhorar sua presença neste cam­po.

284. - Deve-se pôr todo empenho na formação técnica, doutrinal e moral de todos os agentes de pastoral que trabalham em e com os meios de comunicação social. Ao mesmo tempo, é necessário um Plano de educação orientado para a percepção crítica, espe­cialmente nos lares, como para a capacidade de utilizar ativa e criativamente os meios e sua linguagem, empregando os símbolos culturais do nosso povo.

285. - É necessário levar as Universidades católicas a oferecer formação do melhor nível humano, acadêmico e profissional em comunicação social. Nos seminários e casas de formação religio­sa se ensinarão as linguagens e técnicas de comunicação, que garantam uma preparação sistemática suficiente.

É hoje imprescindível usar a informática para otimizar nossos recursos evangelizadores. Deve-se avançar na instalação da rede de informática da Igreja nas diferentes Conferências episcopais.

286. - Que as editoras católicas ajam coordenadamente dentro da pastoral orgânica.

Terceira parte

JESUS CRISTO, VIDA E ESPERANÇA DA AMÉRICA LATINA

LINHAS PASTORAIS PRIORITÁRIAS

287. De nossas igrejas particulares viemos a Santo Domingo. Éra­mos portadores das "alegrias e das esperança, das tristezas e das angústias" (GS 1) dos nossos povos Acompanharam-nos os anseios de vida e esperança para o Continente.

Nosso encontro com o Santo Padre nos confirmou na fé, na esperança e no amor ao Senhor e à Igreja. A companhia espiritual de tantos irmãos que oraram por nós e nos ofereceram seu apoio, nos deu fortaleza.

A celebração diária da Eucaristia, a meditação da Palavra de Deus e o trabalho comum realizado com a confiança posta no Senhor, permitiram-nos uma autêntica experiência da presença de "Jesus no meio de nós" (Ml 18,20) e na ação do Espírito. "Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre" fez-nos sentir que Ele faz de nós "criaturas novas" (2 Cor 5,17); que nos dá "vida abundante" (Jo 10,10); que nos promete "vida eterna" (Jo 6,54). Ele é "nossa esperança" (1Tm 1,1).

Agora regressamos aos diferentes campos do nosso ministério. Anunciaremos o Evangelho da vida. Continuaremos dando "ra­zão dessa mesma esperança" (1 Pd 3,15) a cada uma das pessoas que o Senhor colocar em nossos caminhos.

288. - Ao finalizar nossas reflexões, com o coração agradecido a Deus, voltamos nosso olhar ao trabalho realizado para identificar as principais linhas pastorais que encontramos e para continuar caminhando guiados pelos três temas que o Santo Padre nos convidou a estudar, aprofundar e aplicar a partir desta IV Con­ferência.

Revendo nosso caminho proclamamos com novo ardor nossa fé em Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, única razão da nossa vida e fonte da nossa missão. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Ele nos dá a vida que desejamos comunicar plenamente a nossos povos para que tenham todos um espírito de solidariedade, reconciliação e esperança.

289.- Fazemos esta profissão de fé sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina, que esteve conosco neste encontro episcopal e que nos acompanha sempre na missão que o Senhor nos confia.

290. - Renovamos nossa intenção de levar adiante as orientações pastorais do Concílio Vaticano II, aplicadas nas Conferências Gerais de Medellín e Puebla, atualizando-as através das linhas pastorais traçadas na presente Conferência.

291. - Os três temas propostos pelo Santo Padre constituem para nós três grandes linhas pastorais que assumimos para nossas Igrejas. Cada Igreja Particular e cada Conferência Episcopal poderá encontrar, nas orientações de Santo Domingo, os desa­fios e as linhas pastorais que mais respondam a suas exigências concretas.

292. - Em nome de nossas Igrejas particulares da América Latina e do Caribe comprometemo-nos a trabalhar em:

1. Uma nova evangelização dos nossos povos.

2. Uma promoção integral dos povos latino-americanos e caribe­nhos.

3. Uma Evangelização inculturada.

- Neste sentido, ressaltamos os elementos que durante a Confe­rência foram indicados com especial ênfase e aprovados para impulsionar e concretar as três linhas pastorais principais.

1. UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO DOS NOSSOS POVOS

293. 1.l O compromisso é de todos a partir de comunidades vivas. Um especial protagonismo corresponde aos leigos em continuidade com as orientações da Exortação apostólica Christifideles Laici. Entre eles, seguindo o convite constante do Papa, convocamos mais uma vez os jovens para que sejam força renovadora da Igreja e esperança do mundo.

A fim de suscitar presbíteros, diáconos permanentes, religiosos religiosas e membros dos Institutos seculares para a nova evangelização, impulsionaremos uma vigorosa pastoral de vocações.

294. 1.2 Somos todos chamados à santidade (cf. LG 39-42). Numa Igreja, comunidade missionária, nos urge um decidido empenho pela continua educação da fé, por meio da catequese, que tem seu fundamento na Palavra de Deus e o Magistério da Igreja, e permite aos católicos dar razão de sua esperança em toda ocasião e frente às seitas e aos novos movimentos religiosos.

A celebração da fé na liturgia, cume da vida da Igreja, há de realizar-se com alegria e de forma a permitir uma participação mais viva, ativa e comprometida na realidade dos nossos povos.

295. 1.3 É a hora missionária da América. Dirigimos a todos um anúncio forte e entusiasta para a Evangelização, não só no seio de nossas igrejas, mas para além de nossas fronteiras. Esta será a resposta segundo o exemplo dos missionários que de outras partes chegaram à América, para nos comunicar sua fé e será também fonte de generosidade para nossos jovens e bênção para nossas igrejas.

2. PROMOÇÃO HUMANA INTEGRAL DOS POVOS LATINO AMERICANOS E CARIBENHOS

296. 2.1 Fazemos nosso o clamor dos pobres. Assumimos com renovado ardor a opção evangélica preferencial pelos pobres, em continuidade com Medellín e Puebla. Esta opção não exclusiva nem excludente, iluminará, à imitaçâo de Jesus Cristo, toda nossa ação evangelizadora.

A essa luz convidamos a promover uma nova ordem econômica, social e política, conforme à dignidade de todas e cada uma das pessoas, implantando a justiça e a solidariedade e abrindo para todas elas horizontes de eternidade.

297. 2.2 Dizemos sim à vida e à família. Diante das graves agressões à vida e à família, agravadas nos últimos anos, propomos uma decidida ação para defender e promover a vida e a família, Igreja doméstica, e santuário da vida, desde sua concepção até o final natural de sua etapa temporal. Toda vida humana é sagrada.

3. UMA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA

É o terceiro compromisso que assumimos na perspectiva de novos métodos e expressões para viver hoJe a mensagem evangélica.

298. 3.1 As grandes cidades da América Latina e do Caribe, com os seus múltiplos problemas, têm-nos interpelado. Atenderemos à evangelização desses novos centros onde vive a maior parte da nossa população. Nossa solicitude dirigir-se-á também às áreas rurais; nelas já se sente o impacto das mudanças culturais.

299. 3.2 Queremos aproximar nos dos povos indígenas e afro-americanos, a fim de que o Evangelho encarnado em suas culturas manifeste toda a sua vitalidade e entrem eles em diálogo de comunhão com as demais comunidades cristãs para o mútuo enriquecimento.

300. 3.3 Buscaremos também impulsionar uma eficaz ação educativa e um decidido empenho por uma moderna comunicação.

301. Colocamo-nos sob a ação do Espírito Santo que desde Pentecostes conduz a Igreja no amor. Ele nos concedeu a graça do Concílio Vaticano II e de nossas Conferências Gerais do Rio de Janeiro, Medellín e Puebla.

Estamos certos de que não nos há de faltar seu auxilio para continuarmos, a partir de São Domingos, mais unidos entre nós sob a orientação e guia do Santo Padre, sucessor de Pedro e, apesar dos nossos limites, possamos impulsionar com entusiasmo na América Latina e Caribe o anúncio de Jesus Cristo e do seu Reino.

LINHAS PASTORAIS PRIORITÁRIAS

302. A Igreja na América Latina e Caribe proclama sua fé: "lesos Cristo: ontem, hoje e sempre" (cf Hb 13,8)

Nossas Igrejas particulares, unidas na esperança e no amor, sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe, em comunhão com o Santo Padre e em continuidade com as orientações pastorais das Conferências Gerais de Medellín e Puebla, comprometem-se a trabalhar em:

1. Uma nova Evangelização de nossos povos - À qual TODOS estão chamados

- Com ênfase na PASTORAL VOCACIONAL

- com especial protagonismo dos LEIGOS e, entre eles, dos JOVENS

- mediante a educação contínua da fé e sua celebração" a CATEOUESE e a LITURGIA

- Para além de nossas próprias fronteiras:

AMÉRICA LATINA MISSIONÁRIA.

2. Uma promoção integral do povo latino-americano e caribenho

- A partir de uma evangélica e renovada opção pelos POBRES

- A serviço da VIDA e da FAMÍLIA

3. Uma evangelização inculturada

- Que penetre os ambientes marcados pela CULTURA URBANA

- Que se encarne nas CULTURAS INDÍGENAS e AFRO-AMERICANAS

- Com uma eficaz AÇÃO EDUCATIVA e uma MODERNA COMUNICAÇÃO

303. ORAÇÃO

Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo,

Bom Pastor e irmão nosso,

nossa única opção é por Ti.

Unidos no amor e na esperança

sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe,

Estrela da Evangelização,

pedimos o Teu Espírito.

Dá-nos a graça,

em continuidade com Medellín e Puebla,

de nos empenhar numa Nova Evangelização, à qual todos somos chamados,

com o especial protagonismo dos leigos, particularmente dos jovens,

comprometendo-nos numa educação contínua da fé,

celebrando teu louvor,

e anunciando-te para além das nossas próprias

fronteiras,

numa igreja decididamente missionária.

Aumenta nossas vocações para que não faltem operários

na tua messe.

Anima-nos a nos comprometer

numa promoção integral

do povo latino-americano e caribenho,

a partir de uma evangélica e renovada

opção preferencial pelos pobres

e a serviço da vida e da família.

Ajuda-nos a trabalhar

por uma evangelização inculturada

que penetre os ambientes de nossas cidades,

que se encarne nas culturas indígenas e afro-americanas

por meio de uma eficaz ação educativa

e de uma moderna comunicação.

Amém.

MENSAGEM AOS POVOS DA AMÉRICA LATINA E CARIBE

I. APRESENTAÇÃO

1. Convocados pelo Santo Padre João Paulo II para a IV Confe­rência Geral do Episcopado Latino-Americano e presididos por ele na sua inauguração, reunimo-nos, em Santo Domingo, repre­sentantes dos Episcopados da América Latina e Caribe, e cola­boradores do Papa na Cúria Romana. Participaram também outros Bispos convidados de diversas partes do mundo e igual­mente sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e leigos, além de observadores pertencentes a outras Igrejas cristãs.

2. Uma sugestiva efeméride sugeriu a data desta IV Conferência: os 500 anos do início da evangelização do Novo Mundo. A partir de então, a Palavra de Deus fecundou as culturas dos nossos povos, chegando a constituir parte integrante da sua história. Por isso, depois de uma longa preparação que incluiu uma novena de anos, inaugurada aqui mesmo em Santo Domingo pelo Santo Padre, congregamo-nos com a atitude assumida pelo próprio Santo Padre, ou seja, com a humildade da verdade, dando graças a Deus pelas muitas e grandes luzes e pedindo perdão pelas inegá­veis sombras que cobriram este período.

3. A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano quis traçar as linhas fundamentais de um novo impulso evangelizador, que ponha Cristo no Coração e nos lábios, na ação e na vida de todos os latino-americanos. É esta a nossa tarefa: fazer com que a verdade sobre Cristo, a Igreja e o homem penetre mais profun­damente em todas as camadas da sociedade, em busca da sua progressiva transformação. A NOVA EVANGELIZAÇÃO foi a preocupação do nosso trabalho.

4. A nossa reunião está em estreita relação e continuidade com as anteriores da mesma natureza: a primeira celebrada no Rio de Janeiro, em 1955; a seguinte em Medellín, em 1968; e a terceira em Puebla, em 1979. Assumimos plenamente as opções que assinalaram aqueles encontros e encarnaram as suas conclusões mais substanciais.

5. Estes eventos constituem uma valiosa experiência eclesial, da qual provém um rico ensinamento episcopal, útil às Igrejas e à socie­dade do nosso Continente. A estas orientações junta-se agora o compromisso evangelizador, que emerge da presente reunião, e que oferecemos com humildade e alegria aos nossos povos.

6. A presença materna da Virgem Maria, unida entranhadamente à fé cristã na América Latina e nas Caraíbas, foi desde sempre, e em especial nestes dias, guia do nosso caminho de fé, alento nos nossos trabalhos e estímulo diante dos desafios pastorais de hoje.

II. A AMÉRICA LATINA E CARIBE ENTRE O TEMOR E A ESPERANÇA

7. A grande maioria dos nossos povos suporta condições dramáticas nas suas vidas. Verificamo-1o nas quotidianas tarefas pastorais, e exprimi-lo com clareza em muitos documentos. Assim, quando os seus sofrimentos nos oprimem, ressoa aos nossos ouvidos a palavra que Deus disse a Moisés: "Eu vi a miséria do Meu povo... e bem assim tenho ouvido o seu clamor... conheço, pois, a sua dor... Estou decidido... a conduzi-1o desta terra para uma terra fértil e espaçosa" (Ex 3,7-8).

8. Essas condições poderiam abalar a nossa esperança. Mas a ação do Espírito Santo proporciona-nos um motivo vigoroso e sólido para esperar: a fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, que cumpre a sua promessa de estar sempre conosco (cf. Ml 28,20). Esta fé mostra-no-1'O atento e solicito a toda a necessidade humana. Nós procuramos realizar o que Ele fez e ensinou: assumir a dor da humanidade e atuar para que se converta em caminho de redenção.

9. A nossa esperança seria vã, se não fosse atuante e eficaz. A mensagem de Jesus Cristo seria falaz, se permitisse uma desassociação entre o crer e o atuar. Exortamos aqueles que sofrem a abrir os seus corações à mensagem de Jesus, que tem o poder de dar um sentido novo à sua vida e dores. A fé, unida à esperança e à caridade no exercício da atividade apostólica, tem que se traduzir em "terra fértil e espaçosa", para aqueles que hoje sofrem na América Latina e Caribe.

10. A hora presente faz-nos recordar o episódio evangélico do paralítico, que havia trinta e oito anos estava junto da piscina que curava, mas não tinha quem o levasse para dentro dela. O nosso trabalho evangelizador quer atualizar a palavra de Jesus ao homem enfermo: "Levanta-te, toma o teu leito e anda (cf. Jo 1-8).

11. Desejamos converter os nossos afãs evangelizadores em ações concretas, que façam com que as pessoas superem os seus problemas e curem as suas enfermidades - tomem os seus leitos e andem - sendo protagonistas das suas próprias vidas, a partir do contato salvífico com o Senhor.

 

III. UMA ESPERANÇA QUE SE CONCRETIZA EM MISSÃO

1. A Nova Evangelização

12. Desde a visita do Santo Padre ao Haiti em 1983, temo-nos sentido animados por um impulso encora odor para uma ação pastoral renovada e mais eficaz nas nossas Igrejas particulares. A esse projeto global que aspira a um novo Pentecostes dá-se o nome de Nova Evangelização (cf. Discurso Inaugural, João Paulo II, n. 6 e 7).

13. O episódio dos discípulos de Emaús, relatado pelo evangelista Lucas, apresenta-nos Jesus ressuscitado anunciando a Boa-Nova. Pode ser também um modelo da Nova Evangelização.

2. Jesus Cristo Ontem, Hoje e Sempre: Jesus vai ao encontro da humanidade que caminha (Lc 24,13-17).

14. Enquanto os discípulos de Emaús, desconcertados e tristes, regressavam para a sua aldeia, o Mestre aproxima-se deles para os acompanhar no caminho. Jesus procura as pessoas e caminha com elas, para assumir as alegrias e as esperanças, as dificuldades e as tristezas da vida.

15. Hoje também nós, como pastores da Igreja na América Latina e no Caribe, em fidelidade ao Divino Mestre, queremos renovar a sua atitude de proximidade e de acompanhamento a todos os nossos irmãos e irmãs; proclamamos o valor e a dignidade de cada pessoa, e procuramos iluminar com a fé e sua história o seu caminho de cada dia. Este é um elemento fundamental da Nova Evangelização.

3. Promoção humana: Jesus compartilha o caminho dos seres humanos (Lc 24,17-24)

16. Jesus não só se aproxima dos viandantes. Vai mais além: faz-Se caminho para eles (cf. Jo 14,6), penetra na vivência profunda da pessoa, nos seus sentimentos, nas suas atitudes. Mediante um diálogo simples e direto conhece as suas preocupações imedia­tas. O próprio Cristo Ressuscitado acompanha os passos, as aspirações, as buscas, os problemas e as dificuldades dos seus discípulos, quando estes se dirigem para a sua aldeia.

17. Aqui, Jesus põe em prática com os seus discípulos o que um dia ensinara a um doutor da lei: as feridas e os gemidos do homem espancado e meio morto, que jazia à beira do caminho, consti­tuem as urgências do próprio caminhar (Lc 10,25-37). A parábola do Bom Samaritano diz-nos diretamente respeito perante todos os nossos irmãos, de modo especial dos pecadores, pelos quais Jesus derramou o seu sangue. Recordamos em particular todos os que sofrem: os enfermos, os anciãos que vivem na solidão, as crianças abandonadas. Temos presentes também os que são vítimas da injustiça: os marginalizados, os mais pobres, os habi­tantes dos subúrbios das grandes cidades, os indígenas e os afro-americanos, os camponeses, os sem terra, os desemprega­dos, os sem teto, as mulheres ignoradas nos seus direitos, inter­pelam-nos também outras formas de opressão: a violência, a pornografia, o tráfico e o uso de drogas, o terrorismo, o seqüestro de pessoas, e muitos outros problemas inquietantes.

4. A cultura: Jesus ilumina com as Escrituras o caminho dos homens (Lc 24,25-28)

18. A presença do Senhor não se exaure numa simples solidariedade humana. O drama interior dos viandantes consistia em que ti­nham perdido toda a esperança. Essa desilusão iluminou-se com a explicação das Escrituras. A Boa-Nova que ouviram de Jesus transmitia a mensagem recebida de seu Pai.

19. Explicando-lhes as Escrituras, Jesus corrige os erros de um messianismo puramente temporal e de todas as ideologias que escravizam o homem. Explicando-lhes as Escrituras, ilumina­r-lhes a sua situação e abre-lhes horizontes de esperança.

20. O caminho que Jesus percorre ao lado dos seus discípulos está marcado com os vestígios do desígnio de Deus sobre cada uma das criaturas e sobre as vicissitudes humanas.

21. Exortamos todos os agentes de pastoral a aprofundarem o estudo e a meditação da Palavra de Deus, para a poderem viver e transmitir aos outros com fidelidade.

22. Reiteramos a necessidade de encontrar novos métodos, para que aos construtores da sociedade pluralista cheguem as exigências éticas do Evangelho, sobretudo na ordem social. A Doutrina Social da Igreja constitui parte essencial da mensagem cristã. O seu ensinamento, difusão, aprofundamento e aplicação são exi­gências imprescindíveis para a nova evangelização dos nossos povos.

5. Um novo ardor: Jesus dá-se a conhecer no partir do pão (Lc 24,28-32).

23. Mas a explicação das Escrituras não foi suficiente para lhes abrir os olhos e lhes fazer ver a realidade a partir da perspectiva da fé. É verdade que fez arder os seus corações, mas o gesto definitivo para O poderem conhecer, vivo e ressuscitado dentre os mortos, foi o sinal concreto do partir o pão.

24. Em Emaús abriu-se também um lar para Alguém que andava peregrino. Cristo revelou a sua intimidade aos companheiros de caminho, e na sua atitude de partilhar reconheceram aquele que, durante a sua vida, não fez mais do que dar-se aos irmãos e aquele que selou com a sua morte na cruz, a entrega de toda a sua vida.

25. Findos estes dias de oração e de reflexão, voltamos para os lares que formam as nossas Igrejas particulares, para partilhar com os irmãos, com os quais construímos a vida quotidiana; em especial com aqueles que participam mais de perto no nosso ministério: os nossos presbíteros e diáconos, aos quais desejamos exprimir um particular afeto e gratidão. Oxalá a celebração eucarística inflame cada vez mais os seus corações, para levar à prática a Nova Evangelização, a promoção humana e a cultura cristã.

6. Missão: Jesus é anunciado pelos discípulos (Lc 24,33-35)

26. O encontro entre o Mestre e os discípulos terminou. Jesus desapareceu da vista deles. Mas eles, impelidos por um novo ardor, partem com alegria para empreender a sua tarefa missio­nária. Abandonam a aldeia e vão à procura dos outros discípulos. A vivência da fé realiza-se em comunidade. Por isso os discípulos voltam para Jerusalém, a fim de se encontrarem com os seus irmãos e de lhes comunicarem o encontro com o Senhor. A partir da fé, vivida em comunidade, eles convertem-se em anunciadores de uma realidade totalmente nova: "realmente o Senhor ressus­citou, está de novo entre nós". A fé em Jesus traz consigo a missão.

27. "Para a América Latina e o Caribe que receberam Cristo há quinhentos anos, o maior sinal de agradecimento pelo dom recebido e da sua vitalidade cristã é empenharem-se elas mesmas na missão" (Discurso Inaugural, João Paulo II, n. 28), quer no próprio interior quer para além das suas fronteiras.

IV. LINHAS PASTORAIS

28. A IV Conferência propõe, com grandes esperanças e tendo em conta os meritórios contributos recebidos das Conferências Episcopais e de muitas outras instâncias da Igreja, as seguintes linhas de ação pastoral. Para guiar os nossos trabalhos tivemos a orientação e o apoio do Santo Padre, o qual desde há muito tempo deu motivo a esta IV Conferência.

29. Antes de tudo, proclamamos a adesão, na fé da Igreja na América Latina e nas Caraíbas, a Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade (cf. Nb 13,8).

30. Para que Cristo esteja no interior da vida dos nossos povos, convocamos todos os fiéis a uma Nova Evangelização e convoca­mos especialmente os leigos, e entre eles os jovens. Nesta hora confiamos em que muitos jovens, ajudados por uma pastoral vocacional eficaz, possam responder à chamada do Senhor para o sacerdócio e a vida consagrada.

- Uma catequese renovada e uma liturgia viva, numa Igreja em estado de missão, serão os meios para aproximar e santificar mais todos os cristãos e, em particular, os que estão afastados e são indiferentes.

- A Nova Evangelização intensificará uma pastoral missionária em todas as nossas Igrejas e far-nos-á sentir responsáveis por trans­por as nossas fronteiras a fim de levar a outros povos a fé que há 500 anos chegou até nós.

31. Como expressão da Nova Evangelização, comprometemo-nos também a trabalhar por uma promoção integral do povo latino-americano e caribenho, tendo a preocupação de que os seus principais destinatários sejam os mais pobres.

- Nesta promoção humana ocupa um lugar privilegiado e funda­mental a família, onde tem origem a vida. Hoje é necessário e urgente promover e defender a vida, devido aos múltiplos ataques com que a ameaçam setores da sociedade contemporânea.

32. Devemos encorajar uma evangelização que penetre nas raízes mais profundas da cultura comum dos nossos povos, tendo uma especial preocupação pela crescente cultura urbana.

- Ocuparmo-nos de uma autêntica encarnação do Evangelho nas culturas indígenas e afro-americanas do nosso Continente mereceu-­nos uma particular atenção.

- Para toda esta inculturação do Evangelho é muito importante desenvolver uma eficaz ação educativa e utilizar os meios modernos de comunicação.

V. SAUDAÇÕES E VOTOS

33. Não queremos terminar esta Mensagem sem dirigir uma palavra afetuosa a algumas pessoas e grupos aos quais incumbe uma particular responsabilidade eclesial e social.

34. Uma saudação especial dirigimo-1a aos nossos presbíteros e diáconos, solicitas colaboradores na nossa missão episcopal, que todos os dias estiveram presentes no nosso pensamento e na nossa oração. Nutrimos a esperança de que, como sempre, nos ajudarão a levar ao povo das nossas Igrejas particulares as con­clusões desta Conferência. Recebam eles a expressão do nosso afeto paterno e fraterno e a nossa gratidão pelo seu sacrifício e infatigável compromisso no ministério.

35. Com igual solicitude temos presentes os religiosos e as religiosas, membros de institutos seculares, agentes de pastoral, catequistas, animadores de comunidades, membros de Comunidades Ecle­siais de Base, de movimentos eclesiais e ministros extraor­dinários, que certamente receberão do conteúdo da IV Conferência renovado ânimo para a sua tarefa eclesial.

36. O nosso pensamento agradecido dirige-se aos numerosos missi­onários e missionárias que desde o primeiro momento, em con­dições de grande dificuldade e com grande renúncia, anunciaram o Evangelho no nosso Continente.

37. Foi para nós motivo de conforto e de alegria ter no nosso encontro observadores pertencentes a Igrejas cristãs irmãs. A eles, e por seu intermédio a todas estas Igrejas com as quais compartilhamos a fé em Jesus Cristo Salvador, chegue a nossa saudação fraterna, unida à oração, a fim de que, na hora que Deus indicar, possamos cumprir o testamento espiritual de Jesus Cris­to: "para que todos sejam um só... a fim de que o mundo creia!" (Jo 17,21).

38. Aos povos indígenas, habitantes originários destas terras, pos­suidores de inumeráveis riquezas culturais, que estão na base da nossa cultura atual, e aos descendentes de milhares de famílias vindas de várias regiões da África, manifestamos a nossa estima e desejo de os servir como ministros do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

39. Unimo-nos aos construtores e dirigentes da sociedade - gover­nantes, legisladores, magistrados, chefes políticos e militares, educadores, empresários, responsáveis sindicais e muitos outros - e a todos os homens de boa vontade que trabalham pela promoção e defesa da vida, na exaltação e dignidade do homem e da mulher, na proteção dos seus direitos, na busca e na conso­lidação da paz, banidas todas as formas de corrida aos armamen­tos. Desta IV Conferência exortamo-tos a que, no exercício da sua respeitável missão ao serviço dos povos, se empenhem em favor da justiça, da solidariedade e do desenvolvimento integral, guiados pelo indispensável imperativo ético nas suas decisões.

40. De um modo especial desejamos que os ensinamentos que entregamos da parte do Senhor ressoem no interior das famílias latino-americanas e caribenhas. A elas, que são o santuário da vida, pede-se que façam germinar o Evangelho no coração dos seus filhos, mediante uma adequada educação. Num momento em que a cultura da morte nos ameaça, encontrarão aqui uma "fonte que jorra para a vida eterna". Os sacerdotes, com o seu exemplo e a sua palavra, são os grandes evangelizadores da sua "Igreja doméstica" e, em boa parte, depende deles que esta Conferência de Santo Domingo dê os seus frutos. Por isso, ao mesmo tempo que os saudamos, queríamos exprimir-lhes a nossa proximidade e apoio.

41. Aos representantes do mundo da cultura encorajamo-tos a que intensifiquem os seus esforços em favor da educação, que é a chave mestra do futuro; alma do dinamismo social, direito e dever de toda a pessoa; para assentar as bases de um autêntico huma­nismo integral (João Paulo II, Missa em Faro de Colón, n. 7).

42. Convidamos cordialmente todos os comunicadores sociais a serem pregoeiros incansáveis de reconciliação, firmes promoto­res dos valores humanos e cristãos, defensores da vida e anima­dores da esperança, da paz e da solidariedade entre os povos.

VI. CONCLUSÃO

43. Entregamos, pois, cheios de confiança, esta Mensagem ao Povo de Deus na América Latina e Caribe. Entregamo-1a com igual sentimento a todos os homens e a todas as mulheres, especia­lmente aos jovens do Continente, chamados a serem protago­nistas na vida da sociedade e da Igreja, no novo Milênio cristão já à porta (D.1., 27). Também àqueles que, sem participarem da nossa fé cristã e católica, aderem à Mensagem desta Assembléia de Santo Domingo por reconhecerem nela uma chamada ao humanismo cristão e evangélico que eles estimam e vivem.

44. Aos irmãos na fé, esta Mensagem deseja levar-lhes uma explicita profissão de fé em Jesus Cristo e na sua Boa-Nova. Neste Jesus, "o mesmo ontem e hoje e por toda a eternidade" (Hb 13,8), temos a certeza de encontrar inspiração, luz e força para um renovado espírito evangelizador. N'Ele também se encontram motivos e orientações para novos esforços em vista da autêntica promoção humana de quase quinhentos milhões de latino-americanos. É igualmente Ele quem nos ajudará a infundir nos valores culturais próprios da nossa gente seu cunho cristão, a sua identidade, a riqueza da unidade na variedade.

45. A todos, queremos propor o conteúdo da Conferência de Santo Domingo como premissa para o permanente rejuvenescimento do ideal dos nossos antepassados sobre a Pátria Grande. Estamos efetivamente persuadidos de que o encontro com as raízes cristãs e católicas comuns aos nossos países dará à América Latina a unidade desejada.

46. Há, na América, fermentos de divisão muito ativos. Há ainda muito a fazer, na nossa terra americana, para ser o Continente unificado que desejamos. Agora, para além do seu objetivo primariamente religioso, a Nova Evangelização lançada pela IV Conferência Geral oferece os elementos necessários para o nas­cimento da indispensável reconciliação graças à qual, na lógica do PAI-NOSSO, se superam discórdias antigas e novas, se dará o perdão mútuo às ofensas antigas e novas, se aplainarão injusti­ças antigas e novas, se restaurará a paz;

- a solidariedade, ajuda da parte de uns para tornar suportável o peso de outros, e para compartilhar com os outros os próprios bens: "é preciso fazer valer o novo ideal de solidariedade diante da falaz vontade de dominar" (Discurso inaugural, João Paulo II, n. 15);

- a integração dos nossos países uns com os outros, vencidas as barreiras da divisão, das discriminações e das indiferenças recípro­cas: "um fator que pode contribuir notavelmente para superar os problemas urgentes que afetam hoje este Continente é a integração latino-americana" (Discurso inaugura João Paulo II, n. 15 e tam­bém n. 17);

- a profunda comunhão, a partir da Igreja, no que se refere à vontade política de progresso e de bem-estar.

47. Oxalá o patrimônio social e espiritual contido nestas quatro palavras chaves: reconciliação, solidariedade, integração e co­munhão - se transforme na maior riqueza da América Latina. São estes os votos e as orações dos Bispos participantes na IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Seja tam­bém a melhor dádiva que a graça de Deus nos conceda! Pensa­mos que tal patrimônio é a tarefa e a obrigação de todos e de cada um.

48. A Nossa Senhora de Guadalupe, Estrela da Nova Evangelização, confiamos os nossos trabalhos. Ela caminhou com os nossos povos desde o primeiro anúncio de Cristo. A Ela suplicamos hoje que encha de ardor os nossos corações, para proclamarmos com novos métodos e novas expressões que Jesus Cristo é o mesmo Ontem, Hoje e por toda a Eternidade! (Hb 13,8).

CARTA DO PAPA AOS BISPOS DA AMÉRICA LATINA

Por ocasião do V Centenário da evangelização da América, eu havia convocado a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano com a finalidade de estudar, à luz de Cristo "o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hab. 13,8), os grandes temas da Nova Evangelização, da Promoção humana e da Cultura cristã.

A Divina Providência deu-me a alegria de poder inaugurar pessoalmente a referida Assembléia em Santo Domingo, a 12 de outubro passado. No dia 28 do mesmo mês terminaram os trabalhos da Conferência, e os Presidentes da mesma fizeram-me chegar as Conclusões que os Bispos presentes tinham elaborado.

Com sumo gosto pude verificar a profunda solicitude pastoral com que os meus Irmãos no Episcopado examinaram os temas que lhes havia proposto, a fim de contribuir para o desenvolvimento da vida da Igreja na América Latina, olhando para o presente e o futuro.

Os textos conclusivos da mencionada Conferência, cuja difusão autorizei, poderão orientar agora a ação pastoral de cada Bispo diocesano da América Latina. Cada Pastor diocesano, juntamente com os presbíteros, "seus colaboradores" (Lumen gentium, 28), e com os demais membros da Igreja particular que lhe foi confiada, fará o necessário discernimento, para ver o que é mais útil na situação particular da sua diocese.

Um amplo consenso dos Bispos das Igrejas particulares existentes num mesmo País poderá também levar a fórmulas pastorais comuns, sempre respeitosas da identidade de cada diocese e da autoridade pastoral que corresponde ao Bispo, que é o centro visível de unidade e, ao mesmo tempo, o seu vínculo hierárquico com o Sucessor de Pedro e com a Igreja Universal (c fLumen gentium, 23).

Como é evidente, as Conclusões da Conferência de Santo Do­mingo deverão ser analisadas à luz do Magistério da Igreja Univer­sal, e atuadas em fidelidade à disciplina canônica vigente.

Por minha parte, confio em que a solicitude pastoral dos Bispos da América Latina leve todas as Igrejas particulares do Continente a um renovado compromisso com a Nova Evangelização, a Promo­ção humana e a Cultura cristã.

Jesus Cristo, Nosso Senhor, Evangelizador e Salvador, seja hoje, como ontem e sempre, o centro da vida e da Igreja.

A Virgem Santíssima, que esteve sempre ao lado do seu Divino Filho, acompanhe os Pastores e fiéis na sua peregrinação rumo ao Senhor.

Vaticano, 10 de novembro de 1992, memória de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja.

Joannes Paulus pp.l1

MENSAGEM DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS INDÍGENAS DA AMÉRICA

Amadíssimos irmãos e irmãs indígenas do Continente america­no.

1. No contexto da comemoração do V Centenário do início da evangelização do Novo Mundo, lugar preferencial no coração e no afeto do Papa ocupam os descendentes dos homens e das mulheres que povoavam este continente, quando a cruz de Cristo foi plantada naquele 12 de outubro de 1492.

Da República Dominicana, onde tive a alegria de me encontrar com alguns dos vossos representantes, dirijo a minha mensagem de paz e amor a todas as pessoas e grupos étnicos indígenas, desde a península do Alasca até à Terra do Fogo. Sois continuadores dos povos tupi-guarani, aimara, meia, Quechua, chibcha, nahualt, mixte­cas, araucano, yanomami, guajiro, inuit, apache e muitíssimos outros que se distinguiram pela sua nobreza de espírito, que se evidencia­ram nos seus valores autóctones culturais, como as civilizações asteca, ince e meia, e que podem gloriar-se de possuir uma visão da vida que reconhece a sacralidade do mundo e do ser humano. A simplicidade, a humildade, o amor à liberdade, a hospitalidade, a solidariedade, o apego à família, a proximidade à terra e o sentido da contemplação são outros tantos valores, que a memória indígena da América conservou até aos nossos dias e constituem um contri­buto que se sente na alma latino-americana.

2. Faz agora 500 anos que o Evangelho de Jesus Cristo chegou aos vossos povos. Mas já antes, e sem que talvez o imaginassem, o Deus vivo e verdadeiro estava presente iluminando os seus cami­nhos. O apóstolo São João diz-nos que o Verbo, o Filho de Deus, "é a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina" (Jo 1,9). Com efeito, as "sementes do Verbo" estavam já presentes e iluminavam o coração dos vossos antepassados, para que fossem descobrindo os vestígios do Deus Criador em todas as suas criaturas: o sol, a lua, a mãe terra, os vulcões e as selvas, as lagoas e os rios.

Mas, à luz da Boa Nova, eles descobriram que todas aquelas maravilhas da criação não eram senão um pálido reflexo do seu Autor, e que a pessoa humana, por ser imagem e semelhança do Criador, é muito superior ao mundo material e está chamada a um destino transcendente e eterno. Jesus de Nazaré, o Filho de Deus feito homem, com a sua morte e ressurreição, libertou-nos do pecado, tornando-nos filhos adotivos de Deus e abrindo-nos o caminho para a vida que não tem fim. A mensagem de Jesus Cristo fez-lhes ver que todos os homens são irmãos, porque têm um Pai comum: Deus. E todos estão chamados a fazer parte da única Igreja, que o Senhor fundou com o seu sangue (c£ At 20,28).

À luz da revelação cristã, as virtudes ancestrais dos vossos ante­passados, como a hospitalidade, a solidariedade, o espírito genero­so, encontraram a sua plenitude no grande mandamento do amor, que deve ser a suprema lei do cristão. A persuasão de que o mal se identifica com a morte e o bem com a vida abriu-lhes o coração para Jesus, que é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6).

Tudo isto, a que os Padres da Igreja chamam as "sementes do Verbo", foi purificado, aprofundado e completado pela mensagem cristã, que proclama a fraternidade universal e defende a justiça. Jesus chamou bem-aventurados aos que têm sede de justiça (cf. Ml 5,6). Que outro motivo, senão a pregação dos ideais evangélicos, moveu tantos missionários a denunciar as violações cometidas con­tra os índios, à chegada dos colonizadores? Estão a demonstrá-1o a ação apostólica e os escritos de intrépidos evangelizadores espa­nhóis como Bartolomeu de Las Casas, Frei Antônio de Montesinos, Vasco de Queiroga, João dal Valle, Julião Garcés, José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, e de tantos outros homens e mulheres, que dedicaram generosamente a sua vida aos nativos. A Igreja que, com os seus religiosos, sacerdotes e bispos, esteve sempre ao lado dos indígenas, como poderia esquecer neste V Centenário os enormes sofrimentos infligidos aos povoadores deste Continente durante a época da conquista e da colonização? Deve-se reconhecer com toda a verdade os abusos cometidos, devido à falta de amor daquelas pessoas que não souberam ver nos indígenas irmãos e filhos do mesmo Deus Pai.

3. Nesta comemoração do V Centenário, desejo repetir o que vos disse durante a minha primeira viagem pastoral à América Lati­na: " O Papa e a Igreja estão convosco e amam-vos; amam as vossas pessoas, a vossa cultura, as vossas tradições; admiram o vosso maravilhoso passado, animam-vos no presente e muito esperam do futuro" (Discurso em Cuilapan, 29.1.1979, n. 5). Por isso, quero também fazer-me eco e porta-voz dos vossos mais profundos anelos.

Sei que quereis ser respeitados como pessoas e como cidadãos. Por sua vez, a Igreja faz sua esta legítima aspiração, já que a vossa dignidade não é menor que a de qualquer outra pessoa ou raça. Todo o homem ou mulher foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27). E Jesus que mostrou sempre a sua predileção pelos pobres e abandonados, diz-nos que tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer "a um destes meus irmãos mais pequeninos", a Ele mesmo o fizemos (cf. Ml 25,40). Ninguém que se honre do nome de cristão pode desprezar ou discriminar por motivos de raça ou cultura. O apóstolo Paulo admoesta-nos quanto a isto. Foi num só Espírito que todos nós fomos batizados, a fim de formarmos um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres" (lCor 12,13).

A fé, queridos irmãos e irmãs, supera as diferenças entre os homens. A fé e o batismo dão vida a um novo povo: o povo dos filhos de Deus. Contudo, mesmo superando as diferenças, a fé não as destrói mas respeita-as. A unidade de todos nós em Cristo não significa, sob o ponto de vista humano, uniformidade. Pelo contrá­rio, as comunidades eclesiais sentem-se enriquecidas, ao acolher a multíplice diversidade e variedade de todos os seus membros.

4. Por isso, a Igreja anima os indígenas a conservarem e promove­rem, com legítimo orgulho, a cultura dos seus povos: as sãs tradições e costumes, o idioma e os valores próprios. Ao defender a vossa identidade, não só exerceis um direito, mas cumpris também o dever de transmitir a vossa cultura às gerações vindou­ras, enriquecendo deste modo toda a sociedade. Esta dimensão cultural, em ordem à evangelização, será uma das prioridades da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que se realiza em Santo Domingo e que tive a alegria de inaugurar, como ato preeminente da minha viagem, por ocasião do V Centenário. A tutela e o respeito das culturas, valorizando tudo o que de

positivo há nelas, não significam, entretanto, que a Igreja renuncia à sua missão de elevar os costumes, rejeitando tudo aquilo que se opõe ou contradiz a moral evangélica. "A Igreja - afirma o Docu­mento de Puebla - tem a missão de dar testemunho do "verdadeiro Deus e único Senhor". Não se pode considerar como violação a evangelização que é um convite a que se abandonem as falsas concepções de Deus, procedimentos antinaturais e manipulações aberrantes do homem, feitas pelo homem" (no. 405-4().

Elemento central nas culturas indígenas é o apego e a proximi­dade à mãe terra. Amais a terra e quereis permanecer em contato com a natureza. Uno a minha voz à de quantos pedem a aplicação de estratégias e meios eficazes para proteger e conservar a natureza criada por Deus. O respeito devido ao meio ambiente deve ser sempre tutelado, acima de interesses exclusivamente econômicos ou da abusiva exploração de recursos em terras e mares.

5. Entre os problemas que preocupam muitas das comunidades indígenas, estão os relacionados com a posse da terra. Consta-me que os Pastores da Igreja, a partir das exigências do Evangelho e em consonância com o magistério social, não têm deixado de apoiar os vossos legítimos direitos, favorecendo adequadas re­formas agrárias e exortando à solidariedade como caminho que conduz à justiça. Também conheço as dificuldades que deveis enfrentar em temas como a segurança social, o direito de associação, a capacidade agrícola, a participação na vida nacional, a formação integral dos vossos filhos, a educação, a saúde, a mo­radia e tantas outras questões que vos preocupam. A este propó­sito, vêm-me à mente as palavras que, há alguns anos, dirigi aos indígenas no inesquecível encontro de Quetzaltenango: "A Igre­ja conhece, queridos filhos, a marginalização que sofreis; as injustiças que suportais; as sérias dificuldades que tendes para defender as vossas terras e os vossos direitos; a freqüente falta de respeito pelos vossos costumes e pelas vossas tradições. Por isso, ao cumprir a sua obra de evangelização, ela quer estar junto de vós e elevar a sua voz de condenação, quando é violada a vossa dignidade de seres humanos e filhos de Deus; quer acompanhar-­vos pacificamente como o exige o Evangelho, mas com decisão e energia, na obtenção do reconhecimento e da promoção da vossa dignidade e dos vossos direitos como pessoas humanas" (Discur­so em Quetzaltenango, 7 de março de 1983 n. 4).

Dentro da missão religiosa que lhe é própria, a Igreja não pou­pará esforços para continuar a fomentar todas aquelas iniciativas, que têm em vista promover o bem comum e o desenvolvimento integral das vossas comunidades, assim como favorecer legislações que respeitem e tutelem adequadamente os valores autênticos e os direitos indígenas. Demonstração desta decidida vontade de cola­boração e assistência é a recente ereção, por parte da Santa Sé, da Fundação "Populorum Progressio", que dispõe de um fundo de ajuda para os grupos indígenas e populações rurais menos favore­cidas da América Latina.

Encorajo-vos, pois, a um renovado empenho a serdes também protagonistas da vossa própria elevação espiritual e humana, me­diante o trabalho digno e constante, a fidelidade às vossas melhores tradições, a prática das virtudes. Para isto contais com os genuínos valores da vossa cultura, acrisolada ao longo das gerações que vos precederam nesta abençoada terra. Mas, sobretudo, contais com a maior riqueza que, pela graça de Deus, recebestes: a vossa fé católica. Cumprindo os ensinamentos do Evangelho, conseguireis que os vossos povos, fiéis às suas legítimas tradições, progridam tanto material como espiritualmente. Iluminados pela fé em Jesus Cristo, vereis nos demais homens, para além de qualquer diferença de raça ou cultura, irmãos vossos. A fé ampliará o vosso coração, para que se abriguem nele todos os vossos concidadãos. E essa mesma fé levará os outros a amar-vos, a respeitar a vossa idiossin­crasia e a unir-se convosco na construção de um futuro, no qual todos sejam parte ativa e responsável, como corresponde à dignida­de cristã.

6. Acerca do lugar que vos corresponde na Igreja, exorto todos a fomentarem aquelas iniciativas pastorais, que favoreçam uma maior integração e participação das comunidades indígenas na vida eclesial. Para isto, dever-se-á fazer um renovado esforço no que se refere à inculturação do Evangelho, pois "uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada nem com fidelidade vivida" (Discurso ao mundo da cultura, Lima, 15.5.1988). Trata-se, em definitivo, de conseguir que os católicos indígenas se convertam em protago­nistas da sua própria promoção e evangelização. E isto, em todos os setores, incluídos os diversos ministérios. Que imensa alegria no dia em que as vossas comunidades puderem ser servidas por missionários e missionárias, por sacerdotes e bispos que tenham saído das vossas próprias famílias e vos guiem na adoração a Deus "em espírito e verdade" (Jo 4,23).

A mensagem que hoje vos entrego em terras americanas, come­ morando cinco séculos de presença do Evangelho no meio de vós ver ser um apelo à esperança e ao perdão. Na oração que Jesus Cristo nos ensinou dizemos. Pai nosso... perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" (Jo 6,68); Ele conhece "o interior de cada homem" (cf. Jo 2,25). Em nome de Jesus Cristo, como Pastor da Igreja peço-vos que "perdoeis a todos aqueles que, durante estes quinhentos anos, foram causa de dor e sofrimento para os vossos antepassados e para vós. Quando perdoamos, colocamos nas mãos de Deus as "ofensas" que o homem fez, sabendo que o Senhor é a Justiça mais santa e a Misericórdia mais justa. Ele é o único senhor da história, criador do mundo e redentor do homem. Ao perdoar, nós mesmos nos renovamos no espírito e a nossa vontade fortalece-se. O mundo precisa sempre do perdão e da reconciliação entre as pessoas e entre os povos. Uma sociedade mais justa e fraterna só se poderá construir sobres estes fundamentos. Por isso, neste solene Centenário, e em nome do Senhor Jesus, vos dirijo o meu premente apelo a perdoar "a vem vos tem ofendido" - como dizemos no Pai nosso - todas as ofensas e injustiças que vos tenham sido feitas, muitas das quais só Deus conhece.

A Igreja, que durante estes quinhentos anos vos acompanhou no vosso caminhar, fará tudo o que estiver ao seu alcance para que os descendentes dos antigos povoadores da América ocupem, na so­ciedade e nas comunidades eclesiais, o lugar que lhes corresponde. Estou consciente dos graves problemas e dificuldades com que vos deveis enfrentar. Mas estai certos de que nunca vos há de faltar o auxilio de Deus e a proteção da sua Mãe Santíssima, como um dia, na colina do Tepeyac foi prometido ao índio Juan Diego, um insigne filho do vosso mesmo sangue, o qual tive a alegria de elevar à honra dos altares: "Ouve e presta atenção, filho meu mais pequeno, é nada o que te assusta e aflige; não se turve o teu coração. Não temas essa enfermidade, nem outra enfermidade ou angústia. Não estou eu aqui, que sou tua Mãe? Não estás sob a minha sombra? Não sou eu a tua saúde? Não estás porventura no meu regaço?" (Nican Mopo­hua).

Nossa Senhora de Guadalupe proteja todos vós, enquanto vos abençôo de coração, no nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Dado em Santo Domingo, no dia 12 de outubro de 1992, II Centenário da Evangelização da América.

MENSAGEM DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS AFRO-AMERICANOS

Amadíssimos irmãos e irmãs afro-americanos.

1. O V Centenário da Evangelização do Novo Mundo é ocasião propícia para vos dirigir, da cidade de Santo Domingo, a minha mensagem de encorajamento que aumente a vossa esperança e sustenha o vosso empenho cristão em dar renovada vitalidade às vossas comunidades, às quais, como Sucessor de Pedro, envio uma saudação cordial e afetuosa com as palavras do apóstolo São Paulo: "Graça e paz da parte de Deus Pai e da de nosso Senhor Jesus Cristo" (G1 1,3).

A evangelização da América é motivo de profunda ação de graças a Deus que, na sua infinita misericórdia, quis que a mensa­gem de salvação chegasse aos habitantes destas abençoadas terras, fecundadas pela cruz de Cristo, a qual marcou a vida e a história das suas gentes, e que tão abundantes frutos de santidade e de virtudes produziu no decorrer destes cinco séculos.

A data de 12 de outubro de 1492 assinala o início do encontro de raças e culturas, que configurariam a história destes quinhentos anos, nos quais a penetrante visão cristã nos permite descobrir a intervenção amorosa de Deus, apesar das limitações e infidelidade dos homens. Com efeito, no sulco da história verifica-se uma con­fluência misteriosa de pecado e de graça, mas, ao longo da mesma, a graça triunfa sobre o poder do pecado. Como nos diz São Paulo: "Onde, porém, abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20).

2. Nas celebrações deste V Centenário não podia faltar a minha mensagem, de aproximação e vivo afeto, às populações afro-americanas, que representam uma parte relevante no conjunto do continente e que, com os seus valores humanos e cristãos, e também com a sua cultura, enriquecem a Igreja e a sociedade em tantos países. A este propósito, vêm-me à mente aquelas palavras de Simão Bolivar, afirmando que "a América é o resultado da união da Europa e da África com elementos aborígenes. Por isso nela não cabem os preconceitos de raça e, se coubessem, a América voltaria ao caos primitivo".

De todos é conhecida a gravíssima injustiça cometida contra aquelas populações negras do continente africano, que foram arran­cadas com violência das suas terras, das suas culturas e das suas tradições, e trazidas como escravos para a América. Na minha recente viagem apostólica ao Senegal, não quis deixar de visitar a ilha de Goreia, onde se exerceu parte daquele ignominioso comér­cio, e quis deixar perpetuado o firme repúdio da Igreja, com as palavras que agora desejo recordar de novo: "A visita à `Casa dos Escravos' faz-nos recordar o tráfico de negros, que Pio II, ao escrever, em 1462, a um bispo missionário que partia para a Guiné, qualificava como `grande crime'. Durante um período da história do continente africano, homens, mulheres e crianças negros foram trazidos para esta pequena localidade, tirados da sua terra, separa­dos dos seus parentes, para serem aqui vendidos como mercadoria. Estes homens e estas mulheres foram vítimas de um vergonhoso comércio, no qual tomaram parte pessoas batizadas, mas que não viveram a sua fé. Como se hão de esquecer os enormes sofrimentos infligidos, com menosprezo dos mais elementares direitos humanos às populações de orladas do continente africano? Como se hão de

P , esquecer as vidas humanas destruídas pela escravidão? Deve ser confessado, com toda a verdade e humildade, este pecado do ho­mem contra o homem" (Discurso na Ilha de Goreia 21.2.1992).

3. Olhando para a realidade atual do Novo Mundo, vemos pujantes e vivas comunidades afro-americanas que, sem esquecer o seu passado histórico, oferecem a riqueza da sua cultura à variedade multiforme do continente. Com tenacidade, não isenta de sacri­fícios, contribuem para o bem comum integrando-se no conjunto social, mas mantendo a sua identidade, usos e costumes. Esta fidelidade ao seu próprio ser e patrimônio espiritual, é algo que a Igreja não só respeita mas encoraja e quer fomentar, pois, sendo o homem - todo o homem - criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27), toda a realidade autenticamente humana é expressão dessa imagem, que Cristo regenerou com o seu sacrifício redentor.

Graças à redenção de Cristo, amados irmãs e irmãos afro-ame­ricanos, todos nós passamos das trevas à luz, a ser "não Meu povo" mas a chamar-nos "Filhos do Deus vivo" (cf. Os 2,1). Como "eleitos de Deus" formamos um só corpo, que é a Igreja (cf. Cl 3,12-15), na qual, segundo as palavras de São Paulo, "não há mais grego, nem judeu, nem circunciso nem incircunciso, nem bárbaro" nem cita, nem escravo nem livre, mas Cristo, que é tudo em todos (Cl 3,11). De fato, a fé supera as diferenças entre os homens e dá vida a um povo novo, que é o povo dos filhos de Deus. Contudo, mesmo superando as diferenças na comum condição de cristãos, a fé não as destrói mas respeita-as e dignifica-as.

Por isso, nesta comemoração do V Centenário, encorajo-vos a defender a vossa identidade, a ser conscientes dos vossos valores e fazê-los frutificar. Mas, como Pastor da Igreja, exorto-vos sobretudo a ser conscientes do grande tesouro que, pela graça de Deus, recebestes: a vossa fé católica. À luz de Cristo, haveis de conseguir que as vossas comunidades cresçam e progridam, tanto no espiritual como no material, difundindo assim os dons que Deus vos outorgou. Iluminados pela fé cristã, vereis os demais homens, acima de qual­quer diferença de raça ou cultura, como irmãos vossos, filhos do mesmo Pai.

4. A solicitude da Igreja por vós e pelas vossas comunidades, tendo em vista a nova evangelização, a promoção humana e a cultura cristã, tornar-se-á evidente na IV Conferência Geral do Episco­pado Latino-Americano, que hoje tive a ventura de inaugurar. Sem esquecer que muitos valores evangélicos têm penetrado e enriquecido a cultura, a mentalidade e a vida dos afro-america­nos, deseja-se incrementar a atenção pastoral e favorecer os elementos específicos das comunidades eclesiais com fisionomia própria.

A obra evangelizadora não destrói, mas encarna-se nos vossos valores, consolida-os e fortalece-os; faz crescer as sementes lança­das pelo "Verbo de Deus, o Qual antes de se fazer homem para tudo salvar e em Si recapitular, já estava no mundo, como verdadeira luz que ilumina todo o homem" (Gaudium et spes, 57). A Igreja, fiel à universalidade da sua missão, anuncia Jesus Cristo e convida os homens de todas as raças e condições a aceitarem a sua mensagem. Como afirmaram os Bispos latino-americanos na Conferência Geral de Puebla de tos Angeles: "A Igreja tem a missão de dar testemunho do "verdadeiro Deus e único Senhor". Não se pode considerar como violação a evangelização que é um convite a que se abandonem as falsas concepções de Deus, procedimentos antinaturais e manipu­lações do homem feitas pelo homem" (n. 406). Com efeito, com a evangelização, a Igreja renova as culturas, combate os erros, purifica e eleva a moral dos povos, fecunda as tradições, consolida-as e restaura-as em Cristo (cf. Gaudium et spes, 58).

5. Sei que a vida de muitos afro-americanos nos diversos países não está isenta de dificuldades e problemas. A Igreja, bem consciente disto, compartilha os vossos sofrimentos e acompanha-vos e apoia-vos nas vossas legítimas aspirações a uma vida mais justa e digna para todos. A este propósito, não posso deixar de expressar a viva gratidão e de encorajar a ação apostólica de tantos sacer­dotes, religiosos e religiosas que exercem o seu ministério junto dos mais pobres e necessitados. Peço a Deus que nas vossas comunidades cristãs surjam também numerosas vocações sacer­dotais e religiosas, para que os afro-americanos do continente possam contar com ministros provenientes das vossas próprias famílias.

Enquanto vos confio à maternal proteção da Santíssima Virgem, cuja devoção está tão arraigada na vida e nas práticas cristãs dos católicos afro-americanos, abençôo-vos no nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém!

Dado em Santo Domingo, a 12 de Outubro de 1992 V Centenário da Evangelização da América.

 

 

 

 


 

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB

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