SANTO DOMINGO
IV CONFERÊNCIA DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
“Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8)
7ª Edição
DISCURSO DE ABERTURA DO PAPA JOÃO PAULO II À
IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO EM SANTO DOMINGO
Queridos
Irmãos no Episcopado,
Amados
Sacerdotes, Religiosos, Religiosas e Leigos
l.
Sob a guia do Espírito Santo, a quem acabamos de invocar fervorosamente para
que ilumine os trabalhos desta importante Assembléia eclesial, inauguramos esta
IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, pondo nossos olhos e nosso
coração em Jesus Cristo, "o mesmo ontem, hoje e por toda a
eternidade" (Hb 13,8). Ele é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega (Ap 21,6;
cf. 1,8; 22,13), a plenitude da
Evangelização, "o primeiro e o maior dos evangelizadores. Ele foi isso
mesmo até o fim, até a perfeição, até ao sacrifício da sua vida terrena" (Evangelii nuntiandi, 7).
Sentimos
muito viva nesta celebração a presença de
Jesus Cristo, Senhor da História. Em seu nome se reuniram os Bispos da
América Latina nas Assembléias anteriores - Rio de Janeiro em 1955; Medellín
em 1968; Puebla em 1979 -, e em Seu mesmo nome nos reunimos agora em Santo
Domingo, para tratar o tema "Nova Evangelização, Promoção humana, Cultura
cristã", que engloba as grandes questões que, de aqui para o futuro, deve
enfrentar a Igreja diante das novas situações que emergem na América Latina e
no mundo.
Esta,
queridos Irmãos, é uma hora de graça para todos nós e para a Igreja que
peregrina na América. Na verdade, para a Igreja universal que nos acompanha com
sua oração, com essa comunhão profunda de corações que o Espírito Santo gera em
todos os membros do único Corpo de Cristo. Hora de graça e também de grande
responsabilidade. Diante dos nossos olhos já se vislumbra o terceiro milênio. E
se a Providência divina nos convocou para Lhe dar graças pelos quinhentos anos
de fé e de vida crista no Continente americano, com maior razão podemos dizer
que nos convocou também para renovar-nos interiormente, e para "distinguir
os sinais dos tempos" (cf. Ml 16,3). Na verdade, a chamada à nova
evangelização é antes de tudo uma chamada à conversão. De fato, mediante o
testemunho de uma Igreja cada vez mais fiel à sua identidade e mais viva em
todas as suas manifestações, os homens e os povos poderão continuar a
encontrar Jesus Cristo e, n'Ele, a verdade da sua vocação e da sua esperança, o
caminho em direção a uma humanidade melhor.
Olhando
para Cristo, "com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé,
Jesus" (Hb 12,2), seguimos a senda percorrida pelo Concílio Vaticano II,
cujo XXX aniversário da sua inauguração foi ontem lembrado. Daí que, ao
inaugurar esta magna Assembléia, desejo recordar aquelas expressivas palavras
pronunciadas pelo meu venerável predecessor, o Papa Paulo VI, na abertura da
segunda sessão conciliar:
"Cristo!
Cristo, nosso princípio,
Cristo,
nossa vida e nosso guia. Cristo, nossa esperança e nosso fim...
Que
não desça sobre esta Assembléia outra luz, a não ser a luz de Cristo, luz do
mundo.
Que
nenhuma outra verdade atraia a nossa mente, fora das palavras do Senhor, único
Mestre.
Que
não tenhamos outra aspiração, que não seja o desejo de Lhe sermos absolutamente
fiéis.
Que
nenhuma outra esperança nos sustente, a não ser aquela que, mediante a Sua
palavra, conforta a nossa debilidade...".
I.
JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE
2.
Esta Conferência reúne-se para celebrar
Jesus Cristo, para dar graças a Deus por Sua presença nestas terras
americanas, donde, faz hoje 500 anos, começou a difundir-se a mensagem da
salvação; reúne-se para celebrar a
implantação da Igreja que, durante estes cinco séculos, tão abundantes frutos
de santidade e de amor deu ao Novo Mundo.
Jesus
Cristo é a verdade eterna que se
manifestou na plenitude dos tempos. E precisamente, para transmitir a Boa-Nova
a todos os povos, fundou a Sua Igreja com a missão específica de evangelizar: "Ide por todo o
mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16,15). Pode-se dizer que
nestas palavras está contida a solene
proclamação da evangelização. Assim, pois, desde ò dia em que os Apóstolos
receberam o Espírito Santo, a Igreja recebeu a tarefa da Evangelização. São
Paulo o exprime numa &ase lapidar e emblemática: "Evangelizarelesum Christum'; "Evangelizar a Jesus
Cristo" (G1 1,16). Foi o que fizeram os discípulos do Senhor, em todos
os tempos e em todas as latitudes do mundo.
3.
Neste singular processo, o ano de 1492 encerra uma data chave. Com efeito, no dia 12 de outubro - faz hoje exatamente
cinco séculos Almirante Cristóvão Colombo com suas três caravelas procedentes
da Espanha, chegou a estas terras e nelas fincou a cruz de Cristo. No entanto, a evangelização propriamente dita
começou com a segunda viagem dos descobridores, que vieram acompanhados dos
primeiros missionários. Iniciava-se assim a semeadura do dom precioso da fé. E como não dar graças a Deus por ela, junto convosco, queridos Irmãos Bispos,
que hoje tornais presentes aqui em Santo Domingo todas as Igrejas particulares
da América Latina? Como não dar graças pela semente plantada ao longo destes
cinco séculos por tantos e tão intrépidos missionários!
Com
a chegada do Evangelho à América, a história da salvação se expande, cresce a
família de Deus, multiplica-se "para a glória de Deus o número dos que Lhe
dão graças" (2Cor 4,15). Os
povos do Novo Mundo eram "povos novos...totalmente desconhecidos para o
Velho Mundo até ao ano de 1492", porém, "eram conhecidos desde toda a
eternidade por Deus, e por ele sempre abraçados com a paternidade que o Filho
revelou na plenitude dos tempos" (G1
4,4) (Homilia, 1 de janeiro de 1992). Nos povos da América, Deus escolheu
para Si um novo povo, incorporou-o ao Seu desígnio redentor, fazendo-o
participar do Seu Espírito. Mediante a evangelização e a fé em Cristo, Deus
renovou Sua aliança com a América Latina.
Demos,
pois, graças a Deus pela plêiade de evangelizadores que deixaram sua pátria e
deram sua vida para semear no Novo Mundo a vida nova da fé, da esperança e do
amor. O seu móbil não era a lenda do "Eldorado", nem mesmo interesses
pessoais, mas a chamada urgente a evangelizar irmãos que não conheciam a Jesus
Cristo. Eles anunciaram "a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor
pelos homens" (Tf 3,4), a povos que ofereciam aos seus deuses inclusive
sacrifícios humanos. Eles testemunharam, com a sua vida e com a sua palavra, a
humanidade que brota do encontro com Cristo. Pelo seu testemunho e sua
pregação, o número de homens e mulheres, que se abriam à graça de Cristo,
multiplicou-se "como as estrelas do céu e inumerável como as areias das
praias" (Hb 11,12). 4. Desde os primeiros passos da evangelização, a
Igreja Católica, movida pela fidelidade ao Espírito de Cristo, foi defensora
infatigável dos índios, protetora dos valores que havia em suas culturas,
promotora de humanidade diante dos abusos de colonizadores, às vezes sem
escrúpulos. A denúncia das injustiças e das violações feita por Montesinos,
Las Casas, Córdoba, Frei Juan dal Valle e muitos outros, foi como um clamor que
propiciou uma legislação inspirada no reconhecimento do valor sagrado da
pessoa. A consciência cristã aflorava com valentia profética nessa cátedra de dignidade e de
liberdade que foi, na Universidade de Salamanca, a Escola de Vitória (c£ Discurso, 14 de maio de 1991), e em
tantos outros exímios defensores dos nativos, na Espanha e na América Latina.
Nomes que são bem conhecidos e que, por ocasião do V Centenário, foram
lembrados com admiração e gratidão. De minha parte, e para precisar os perfis da verdade histórica pondo em
relevo as raízes cristãs e a identidade católica do Continente, sugeri que se
celebrasse um Simpósio Internacional sobre a História da Evangelização da
América, organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina. Os dados
históricos mostram que foi levada a cabo uma válida, fecunda e admirável obra evangelizadora e que, através
dela, ganhou de tal modo espaço na América a verdade sobre Deus e sobre o homem
que, de fato, ela mesma constitui uma espécie de tribunal de acusação dos
responsáveis daqueles abusos.
Da
fecundidade da semente evangélica depositada nestas terras abençoadas, pude ser
testemunha durante as viagens
apostólicas, que o Senhor me permitiu realizar nas vossas Igrejas
particulares. Como não manifestar abertamente minha ardente gratidão a Deus,
por ter-me concedido conhecer a realidade viva da Igreja na América Latina!
Nas minhas viagens ao Continente, assim como durante as vossas visitas "ad
Limina", e em outros diversos encontros - que fortaleceram os vínculos da
colegialidade episcopal e a co-responsabilidade na solicitude pastoral por
toda a Igreja - pude comprovar repetidamente o vigor da fé das vossas
comunidades eclesiais e também medir a dimensão dos desafios para a Igreja,
ligada indissoluvelmente à mesma sorte dos povos do Continente.
5.
Esta Conferência Geral reúne-se para preparar as linhas mestras de uma ação evangelizadora, que ponha Cristo no
coração e nos lábios de todos os latino-americanos. Esta é a nossa tarefa:
fazer que a verdade sobre Cristo e a verdade sobre o homem penetrem ainda mais
profundamente em todos os segmentos da sociedade e a transformem (cf. Discurso à Pontifícia Comissão para a
América Latina, 14 de junho de 1991). Nas suas deliberações e conclusões,
esta Conferência deverá saber conjugar os três elementos doutrinais e
pastorais, que constituem como as três coordenadas da nova evangelização: Cristologia, Eclesiologia e Antropologia. Contando
com uma profunda e adequada Cristologia (cf. Discurso à II Assembléia Plenária da Pontifícia Comissão para América
Latina, 3), e baseados numa sadia antropologia e com uma clara e reta visão
eclesiológica, deveis enfrentar os desafios que se apresentam hoje à ação
evangelizadora da Igreja na América.
Em
continuação, desejo compartilhar convosco algumas reflexões que, seguindo a
pauta do tema da Conferência e como sinal de profunda comunhão e
co-responsabilidade eclesial, vos ajudem na vossa solicitude de Pastores,
dedicados generosamente ao serviço do rebanho que o Senhor vos confiou.
Trata-se de apresentar algumas prioridades, a partir da perspectiva da nova
evangelização.
II.
NOVA EVANGELIZAÇÃO
6. A nova evangelização é
a idéia central de toda a temática desta Conferência.
Desde
o meu encontro, no Haiti, com os Bispos do CELAM em 1983, venho pondo uma
particular ênfase nesta expressão, para das errar assim um novo ardor e novos
esforços evangelizadores na "América e no mundo inteiro; ou seja, para dar
à ação pastoral um novo impulso, capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais
arraigada na força e na potência imorredouras do Pentecostes, tempos novos de
evangelização" (Evangeii nuntiandi, 2).
A
nova evangelização não consiste num "novo evangelho", que surgiria sempre de nós mesmos, da nossa cultura
ou da nossa análise, sobre as necessidades do homem. Por isso, nâo seria
"evangelho" mas pura invenção humana, e a salvação não se encontraria
nele. Nem mesmo consiste em retirar do Evangelho tudo aquilo que parece
dificilmente assimilável. Não é a cultura a medida do Evangelho, mas Jesus
Cristo é a medida de toda a cultura e de toda obra humana. Não, a nova
evangelização não nasce do desejo de "agradar aos homens" ou de
"procurar o seu favor" (cf GI 1,10), mas da responsabilidade pelo dom
que Deus nos fez em Cristo, pelo qual temos acesso à verdade sobre Deus e sobre
o homem, e à possibilidade da vida verdadeira.
A
nova evangelização tem, como ponto de partida, a certeza de que em Cristo há
uma "riqueza insondável" (Et 3,8), que não extingue nenhuma cultura
de qualquer época, e à qual nós homens sempre poderemos recorrer para
enriquecer-nos (c£ Assembléia especial do Sínodo dos Bispos da Europa, Declaração final, 3). Essa riqueza é,
antes de tudo, o próprio Cristo, sua pessoa, porque Ele mesmo é a nossa
salvação. Nós homens de qualquer época e de qualquer cultura, aproximando-nos
d'Ele mediante a fé e a incorporação ao seu Corpo, que é a Igreja, podemos
encontrar a resposta àquelas perguntas, sempre antigas e sempre novas, que se
nos apresentam, no mistério da nossa existência, e que de modo indelével levamos
gravadas em nosso coração desde a criação e desde a ferida do pecado.
7. A novidade não
afeta o conteúdo da mensagem evangélica que não muda, pois Cristo é
"sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre". Por isso, o Evangelho há de
ser proclamado em total fidelidade e
pureza, assim como foi conservado e transmitido pela Tradição da Igreja.
Evangelizar é anunciar uma pessoa, que é Cristo. De fato, "não haverá
nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o
Reino, o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus, não forem anunciados"
(Evangelii nuntiandi, 22). Por isso, as cristologias redutivas, cujos desvios
assinalei em diversas ocasiões (cf. Discurso
inaugural da Conferência de Puebla,
28 de janeiro de 1979, I,4), não podem aceitar-se como instrumentos da nova
evangelização. Ao evangelizar, a unidade da fé da Igreja tem que resplandecer
não somente no magistério autêntico dos Bispos, mas também no serviço à verdade
por parte dos pastores de almas, dos teólogos, dos catequistas, e de todos os
que estão comprometidos na proclamação e pregação da fé.
A
este respeito, a Igreja estimula, admira e respeita a vocação do teólogo, cuja
"função é adquirir uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de
Deus, contida na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva da Igreja" (Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo, n. 6). Esta
vocação, nobre e necessária, surge no interior da Igreja e pressupõe a condição
de crente no próprio teólogo, com uma atitude de fé que ele mesmo deve testemunhar
na comunidade. "A reta consciência do teólogo católico supõe, portanto, a
fé na Palavra de Deus (...), o amor à Igreja, da qual ele recebe a sua missão,
e o respeito pelo Magistério divinamente assistido" (Ibid, 38). A teologia está chamada a prestar um grande serviço à
nova evangelização.
8.
Certamente é a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). Existem, porém,
posições inaceitáveis sobre o que é a
verdade, a Liberdade, a consciência. Chega-se, inclusive, a justificar a
dissensão recorrendo "ao pluralismo teológico, levado às vezes até a um
relativismo, que põe em perigo a integridade da fé". Não faltam os que
pensam que "os documentos do Magistério não seriam nada mais que o reflexo
de uma teologia opinável" (Ibid, 34);
e "surge assim uma espécie de `magistério paralelo' dos teólogos, em
oposição e em concorrência com o Magistério autêntico" (ibid. ). Por outro
lado, não podemos minimizar o fato de que "os comportamentos de oposição
sistemática à Igreja, que chegam até mesmo a constituir-se em grupos
organizados", a contestação e a discórdia, da mesma forma que "causam
graves inconvenientes para a comunhão da Igreja", são também um obstáculo
para a evangelização (cf.Ibid., 32).
A confissão da fé - "Jesus
Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre" (Hb 13,8) - que é como o
pano de fundo do tema desta IV Conferência, nos leva a recordar o seguinte
versículo: "Não vos deixeis seduzir pela diversidade de doutrinas
estranhas" (Hb 13,9). Vós, amados Pastores, deveis zelar sobretudo pela fé
da gente simples que, em caso contrário, se veria desorientada e confundida. 9.
Todos os evangelizadores deverão dar também uma especial
atenção
à catequese. No início do meu
Pontificado quis dar um novo impulso a esta tarefa pastoral, mediante a
Exortação Apostólica Catechesi
tradendae, e recentemente aprovei o Catecismo
da Igreja Católica, que recomendo como o melhor dom que a Igreja pode fazer
aos seus Bispos e ao Povo de Deus. Trata-se de um valioso instrumento para a
nova evangelização, onde se compendia toda a doutrina que a Igreja deve
ensinar.
Confio
igualmente que o Movimento Biônico continue
desenvolvendo sua benéfica tarefa na América Latina, e que as Sagradas
Escrituras nutram cada vez mais a vida dos fiéis, para o qual faz-se
imprescindível que os agentes da pastoral aprofundem incansavelmente na
Palavra de Deus, vivendo-a e transmitindo-a aos demais com fidelidade, ou seja,
"tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé" (Dei herbum, 12). Da mesma forma, o Movimento litúrgico deverá dar um
renovado impulso à vivência íntima dos mistérios da nossa fé, levando ao
encontro de Cristo Ressuscitado na liturgia da Igreja. É na celebração da
Palavra e dos Sacramentos, mas sobretudo na celebração da Eucaristia, fonte e
coroa da vida da Igreja e de toda a Evangelização, que se realiza nosso
encontro salvífico com Cristo, a quem nos unimos misticamente formando a sua
Igreja (cf. Lumen gentium, 7). Por
isso, exorto-vos a dar um novo impulso à celebração digna, viva e participada
das assembléias litúrgicas, com esse profundo sentido da fé e da contemplação
dos mistérios da salvação, tão enraizado em vossos povos.
10.
A "novidade" da ação evangelizadora a que temos convocado afeta a
atitude, o estilo, o esforço e a programação ou, como 0 propus em Haiti, o ardor, os métodos e a expressão
(cf.Discurso aos Bispos do CELAM, 9 de março de 1983). Uma evangelização
nova no seu ardor supõe uma fé
sólida, uma caridade pastoral intensa e uma fidelidade a toda prova que, sob o
influxo do Espírito, gerem uma mística, um incontido entusiasmo na tarefa de
anunciar o Evangelho. Na linguagem neotestamentária é a "parresia"
que inflama o coração do apóstolo (cf. At 5,28-29; cf. Redemptoris missio, 45). Esta "parresia" há de ser também
o selo do vosso apostolado na América. Nada vos pode fazer calar. Sois arautos da verdade. A verdade de Cristo
há de iluminar as mentes e os corações com a ativa, incansável e pública
proclamação dos valores cristãos.
Por
outra parte, os novos tempos exigem que a mensagem crista chegue ao homem de
hoje, mediante novos métodos de
apostolado, e que seja expressada numa
linguagem e forma acessíveis ao homem latino-americano, necessitado de Cristo e
sedento do Evangelho: como tornar acessível, penetrante, válida e profunda a
resposta ao homem de hoje, sem alterar ou modificar em nada o conteúdo da
mensagem evangélica? Como chegar ao coração da cultura que queremos
evangelizar? Como falar de Deus num mundo em que está presente um processo
crescente de secularização?
11.
Como o manifestastes nos encontros e nos colóquios que mantivemos ao longo
destes anos, tanto em Roma como nas minhas visitas às vossas Igrejas
particulares, hoje a fé simples da vossa gente sofre a inves6da da secularização, com o conseqüente
enfraquecimento
dos valores religiosos e morais. Nos ambientes urbanos cresce uma modalidade
cultural que, confiando somente na ciência e nos adiantamentos da técnica, se
apresenta como hostil à fé. Transmitem-se uns "modelos" de vida, em
contraste com os valores do Evangelho. Sob a pressão do secularismo, chega-se a apresentar a fé como se fosse uma ameaça
à liberdade e à autonomia do homem.
No
entanto, não podemos esquecer que a história recente mostrou que quando, ao
amparo de certas ideologias, se negam a verdade sobre Deus e a verdade sobre o
homem, é impossível construir uma sociedade de rosto humano. Com a queda dos
regimes do chamado "socialismo real" na Europa oriental, é de se
esperar que também neste Continente se tirem as conclusões pertinentes em
relação ao valor efêmero de tais ideologias. A crise do coletivismo marxista
não teve somente raízes econômicas, como salientei na Encíclica Centesimus annus (n. 41), visto que a
verdade sobre o homem está íntima e necessariamente ligada à verdade sobre
Deus.
A nova evangelização há de
dar assim uma resposta integral, pronta, ágil, que fortaleça a fé católica, nas
suas verdades fundamentais, nas suas dimensões individuais, familiares e
sociais.
12.
A exemplo do Bom Pastor, deveis apascentar o rebanho que vos foi confiado e defendê-1o
dos lobos vorazes. As seitas e os
movimentos "pseudo-espirituais" de que fala o Documento de Puebla
(n. 628) são causa de divisão e de discórdia nas vossas comunidades eclesiais,
e cuja expansão e agressividade urge enfrentar. Como muitos de vós tiveram
ocasião de assinalar, o avanço das seitas põe em evidência um vazio
pastoral, que tem freqüentemente sua causa na falta de formação, que dissolve a
identidade cristã, fazendo que grandes massas de católicos sem uma adequada
atenção religiosa - entre outras razões por falta de sacerdotes - fiquem à
mercê de campanhas de proselitismo sectário muito ativas. Mas, pode também
acontecer que os fiéis não encontrem entre os agentes da pastoral aquele forte
sentido de Deus, que eles deveriam transmitir em suas vidas. "Tais
situações podem ser ocasião para que muitas pessoas, pobres e simples - como
infelizmente está ocorrendo - se convertam em fácil presa das seitas, nas
quais buscam um sentido religioso da vida que, talvez, não encontrem naqueles
que lho deveriam oferecer a mãos cheias" (Os Caminhos do Evangelho, 20).
Por
outra parte, não se pode menosprezar uma certa estratégia, cujo objetivo é
enfraquecer os fatores que unem os Países da América Latina, desenvolvendo
assim as forças que nascem da unidade. Com este objetivo, se destinam
importantes recursos econômicos para subvencionar campanhas proselitistas, que
buscam desestruturar esta unidade católica.
Ao
preocupante fenômeno das seitas, deve-se responder com uma ação pastoral que
ponha no centro de toda a pessoa a
sua dimensão comunitária e o seu anseio de uma relação pessoal com Deus. É um
fato que ali onde a presença da Igreja é dinâmica, como no caso das paróquias em que se promove uma assídua
formação na Palavra de Deus, onde existe uma liturgia ativa e participada, uma
sólida piedade mariana, uma efetiva solidariedade no campo social, uma marcada
solicitude pastoral pela família, pelos jovens e pelos doentes, as seitas ou os
movimentos para-religiosos não conseguem se instalar ou progredir.
A
forte religiosidade popular de vossos
fiéis, com seus extraordinários valores de fé e de piedade, de sacrifício e de
solidariedade, convenientemente evangelizada e alegremente celebrada, orientada
em torno dos mistérios de Cristo e da Virgem Maria, pode ser, pelas suas raízes
eminentemente católicas, um antídoto contra as seitas e uma garantia de
fidelidade à mensagem da salvação.
III.
PROMOÇÃO HUMANA
13.
Levando-se em conta que a Igreja está consciente de que o homem - não o homem abstrato, mas o homem concreto e histórico -
"é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua
missão" (Redemptorhominis, 14), a promoção humana há de ser conseqüência
lógica da evangelização, para a qual tende a libertação integral da pessoa (cf.
Evangelii nuntiandi, n. 29-39).
Olhando
para este homem concreto, vós, Pastores da Igreja, constatais a difícil e
delicada realidade social pela qual atravessa hoje a América Latina, onde
contemplas camadas de população na pobreza e na marginalização. Por isso,
solidários com o clamor dos pobres, vos
sentis chamados a assumir o papel do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37), onde o
amor a Deus se demonstra no amor à pessoa humana. É o que nos lembra o Apóstolo
Tiago com aquelas sérias palavras: "Se um irmão ou uma irmã estiverem nus
e precisarem do alimento cotidiano, e alguém de vós lhes disser: `Ide em paz,
aquecei-vos
e saciai-vos', porém não lhes der as coisas necessárias ao corpo, de que lhe
aproveitará?" (Tg 2,15-16).
A
preocupação pelo social "faz parte da missão evangelizadora da
Igreja" (Sollicitudo rei socialis, 41).
"Efetivamente, para a Igreja, ensinar e difundir a doutrina social
pertence à sua missão evangelizadora e faz parte essencial da mensagem cristã,
porque essa doutrina propõe as suas conseqüências diretas na vida da sociedade
e enquadra o trabalho diário e as lutas pela justiça no testemunho de Cristo
Salvador" (Centesimus annus, 5).
Como
afirma o Concilio Vaticano II na Constituição pastoral Gaudium et spes, o problema da promoção humana não pode ser posto à
margem da relação do homem com Deus (cf. n. 43 e 45). De fato, contrapor a
promoção humana e o projeto de Deus sobre a humanidade, é uma grave distorção,
fruto de uma certa mentalidade de inspiração secularista. A genuína promoção
humana há de respeitar sempre a verdade sobre Deus e a verdade sobre o homem,
os direitos de Deus e os direitos do homem.
14.
Vós, amados Pastores, tocais de perto a situação angustiosa de tantos irmãos
que carecem do mais necessário para uma vida autenticamente humana. Apesar do
progresso registrado em alguns campos, persiste e inclusive cresce o fenômeno
da pobreza. Os problemas agravam-se com a perda do poder aquisitivo da moeda,
devido à inflação, às vezes descontrolada, e da deterioração das relações de
intercâmbio, com a conseqüente diminuição dos preços de certas matérias-primas
e com o peso insuportável da dívida externa, da qual derivam desastrosas conseqüências
sociais. A situação faz-se ainda mais dolorosa com o grave problema do
crescente desemprego, que não permite levar o pão para o lar e impede o acesso
a outros bens fundamentais (c£ Laborem
exercens, 18).
Sentindo
vivamente a gravidade desta situação, não deixei de dirigir instantes apelos a
favor de uma ativa, justa e urgente solidariedade
internacional. É um dever de justiça que afeta toda a humanidade, mas
sobretudo os países ricos que não
podem eximir-se da sua responsabilidade para com os países em vias de
desenvolvimento. Esta solidariedade é uma exigência do bem comum universal,
que deve ser respeitado por todos os integrantes da família humana (c£ Gaudium et spes, 26).
15.
O mundo não pode ficar tranqüilo e satisfeito diante da situação caótica e
desconcertante que se apresenta diante dos nossos olhos: nações, setores da
populaçâo, famMias e indivíduos cada vez mais ricos e privilegiados diante de
povos, famílias e multidões de pessoas submergidas na pobreza, vítimas da fome
e das doenças, carentes de moradias dignas, de assistência sanitária, de acesso
à cultura. Tudo isso é testemunho eloqüente de uma desordem real e de uma
injustiça institucionalizada, à qual se somam, às vezes, o atraso em tomar
medidas necessárias, a passividade e a imprudência, bem como a falta de uma
séria moral administrativa. Diante de tudo isso, impõe-se uma "mudança de
mentalidade, de comportamento e de estruturas" (Centesimus annus, 60), a fim de superar o abismo existente entre os
países ricos e os países pobres (cf. Laborem
exemens, 16; Centesimus annus, 14),
bem como as profundas diferenças existentes entre cidadãos de um mesmo país.
Numa palavra: é preciso fazer valer o
novo ideal de solidariedade diante da falaz vontade de dominar.
Por
outra parte, é desumana e falaz a solução que propõe a redução do crescimento
demográfico, sem se importar com a moralidade dos meios usados para o
conseguir. Não se trata de reduzir a todo o custo o número de convidados ao
banquete da vida; o que é preciso é aumentar os meios e distribuir com maior
justiça a riqueza, para que todos possam participar eqüitativamente dos bens da
criação.
São
necessárias soluções em nível mundial, instaurando uma verdadeira economia de comunhão e participação de bens,
tanto na ordem internacional como nacional. A este respeito, um fato que
pode contribuir notavelmente para superar os problemas urgentes que afetam hoje
este Continente é a integração latino-americana. É grave responsabilidade dos
governantes favorecer o já iniciado processo de integração de alguns povos cuja
mesma geografia, a fé crista, a língua e a cultura uniram definitivamente no
caminho da história.
16.
Em continuidade com as Conferências de Medellín e de Puebla, a Igreja reafirma a opção preferencial pelos pobres. Uma
opção não exclusiva nem excludente, pois a mensagem da salvação está destinada
a todos. "Uma opção, além disso, baseada especialmente na Palavra de Deus
e não em critérios retirados das ciências humanas ou de ideologias contrárias
entre si, que freqüentemente reduzem os pobres em categorias sócio-politicas e
conômicas abstratas. Mas uma opção firme e irrevogável" (Discurso aos Cardeais e Prelados da Cúria
Romang 21 de dezembro de 1984, 9).
Como
afirma o Documento de Puebla, "ao aproximar-nos do pobre para acompanhá-1o
e servi-1o, fazemos o que Cristo nos ensinou, quando se fez irmão nosso, pobre
como nós. Por isso 0 serviço dos pobres é medida privilegiada, embora não
exclusiva, de nosso seguimento de Cristo. O melhor serviço ao irmão é a evangelização,
que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o
promove integralmente" (Puebla, 1145).
Tais critérios evangélicos de serviço ao necessitado evitarão qualquer tentação
de convivência com os responsáveis das causas da pobreza, ou perigosos desvios
ideológicos, incompatíveis com a doutrina e a missão da Igreja.
A
genuína praxes de libertação há de estar sempre inspirada pela doutrina da
Igreja, como se explica nas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé (Libertatis nuntius, 1984, Libertatis conscientia, 1986), que
conservam todo o seu valor e devem ser tidas em conta quando se trata do tema
das teologias de libertação. Por outro lado, a Igreja não pode de maneira
nenhuma deixar que lhe seja arrebatada, por qualquer ideologia ou corrente
política, a bandeira da justiça, que
é uma das primeiras exigências do Evangelho e, ao mesmo tempo, fruto da chegada
do Reino de Deus.
17.
Como já assinalou a Conferência de Puebla, existem grupos humanos
particularmente submergidos na pobreza: é o caso dos índios (c£ 1265). A eles,
e também aos afro-americanos, quis dirigir uma mensagem especial de solidariedade
e de simpatia, que entregarei amanhã a um grupo de representantes de suas
respectivas comunidades. Como gesto de solidariedade, a Santa Sé criou
recentemente a Fundação Populorum
Progressio, que dispõe de um fundo de ajuda a favor dos camponeses, dos
índios e demais grupos humanos do setor rural, particularmente desprotegidos
na América Latina.
Nesta
mesma linha de solicitude pastoral pela situação das categorias sociais mais
carentes, esta Conferência Geral poderia considerar a oportunidade de que, num
futuro não remoto, possa realizar-se um
Encontro de representantes dos Episcopados de todo o Continente americano -
que poderia ter também caráter sinodal -, visando incrementar a cooperação
entre as diversas Igrejas particulares nos distintos campos da ação pastoral,
e no qual, no âmbito da nova evangelização e como expressão da comunhão
episcopal, se enfrentem também os problemas relativos à justiça e à solidariedade
entre todas as nações da América. A Igreja, no limiar já do terceiro milênio da
era cristã e numa época em que caíram muitas barreiras e fronteiras
ideológicas, sente como um dever iniludível unir espiritualmente ainda mais
todos os povos que formam este grande Continente e, ao mesmo tempo, a partir da
missão religiosa que lhe é própria, incentivar um espírito solidário entre
todos eles, que permita encontrar vias de solução para as dramáticas situações
de amplos setores de populações, que aspiram a um legítimo progresso integral
e a condições de vida mais justas e mais dignas.
18.
Não existe autêntica promoção humana, nem verdadeira libertação, nem opção
preferencial pelos pobres, se não se parte dos mesmos fundamentos da dignidade
da pessoa e do ambiente em que ela deve desenvolver-se, de acordo com o projeto
do Criador. Por isso, não posso não recordar, entre os temas e as opções que
requerem toda atenção da Igreja, o da
família e da vida: duas realidades que vão estreitamente unidas, dado que "a família é como o santuário da
vida" (Centesimus annus, 39). Com efeito, "o futuro da humanidade
passa pela família! É pois
indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e
promover os valores e as exigências da família" (Familiaris consonio, 86).
Apesar
dos problemas que afligem atualmente o matrimônio e a instituição familiar,
esta, como "célula primeira e vital da sociedade" (Apostolicam actuositatem, 11), pode
gerar energias formidáveis (c£ n. 43), necessárias
para o bem da humanidade. Por isso, é preciso "anunciar com alegria e
convicção a `boa-nova' acerca da família" (cf. Familiaris consortio, 86). É preciso anunciá-1a aqui, na América
Latina, onde, junto ao apreço que se tem pela família, alicerçada no
matrimônio, proliferam, infelizmente, as uniões livres. Diante desse fenômeno e
das crescentes pressões divorcistas, é urgente promover medidas adequadas a
favor do núcleo familiar, em primeiro lugar para garantir a união de vida e de
amor estável dentro do matrimônio, conforme o plano de Deus, bem como a serena
educação dos filhos.
Em
estreita conexão com os problemas apontados, está o grave problema das crianças
que vivem permanentemente nas ruas das grandes cidades latino-americanas,
extenuadas pela fome e pelas doenças, sem qualquer proteção, sujeitas a tantos
perigos, não excluída a droga e a prostituição. Eis aqui outra questão que deve
fazer urgir vossa solicitude pastoral, lembrando as palavras de Jesus:
"Deixai que as crianças venham a Mim" (Ml 19,14).
A
vida desde a sua concepção no seio materno até à sua natural conclusão deve ser
defendida com decisão e valentia. É necessário criar na América uma cultura da vida que frete a cultura da
morte que, através do aborto, da eutanásia, da guerra, da guerrilha, do
seqüestro,
do terrorismo e de outras formas de violência ou exploração, pretende dominar
em algumas nações. Neste espectro de atentados à vida, ocupa um lugar de
destaque o tráfico de entorpecentes, que há de ser reprimido com todos os
meios licitas à disposição.
19.
Quem nos libertará destes sinais de morte? A experiência do mundo contemporâneo
tem mostrado, cada vez mais, que as ideologias são incapazes de derrotar aquele
mal que escraviza o homem. O único que pode libertar deste mal é Cristo. Ao
celebrar o V Centenário da Evangelização, dirigimos, comovidos, nossos olhares
para aquele momento de graça em que Cristo nos foi dado de uma vez para sempre.
A dolorosa situação de tantas irmãs e irmãos latino-americanos não nos leva ao
desespero. Pelo contrário, torna mais urgente a tarefa que a Igreja tem diante
de si: reavivar no coração de cada batizado a graça recebida. "Recomendo-te
- escrevia São Paulo a Timóteo - que reanimes a graça de Deus, que está em
ti" (2Tm 1,6).
Como
da acolhida do Espírito no Pentecostes nasceu o povo da Nova Aliança, somente
esta acolhida fará surgir um povo capaz de gerar homens renovados e livres,
conscientes da sua dignidade. Não podemos esquecer que a promoção integral do
homem é de importância capital para o desenvolvimento dos povos da América
Latina. Pois "o progresso de um povo não deriva primariamente do dinheiro,
nem dos auxílios materiais, nem das estruturas técnicas, mas sobretudo da
formação das consciências, do amadurecimento das mentalidades e dos costumes. O homem é que é o protagonista do
desenvolvimento, não o dinheiro ou a técnica" (Redemptoris missio, 58). A maior riqueza da América Latina são
suas gentes. A Igreja, "despertando as consciências com o Evangelho",
contribui para despertar as energias adormecidas, a fim de as dispor a
trabalhar na construção de uma nova civilização (cf. Ibid).
IV.
CULTURA CRISTA
20.
Embora o Evangelho não se identifique com nenhuma cultura em particular, deve
sim inspirá-las para, desta maneira, as transformar a partir de dentro,
enriquecendo-as com aqueles valores cristãos que derivam da fé. Na verdade, a
evangelização das culturas representa a forma mais profunda e global de
evangelizar uma sociedade, porque, através dela, a mensagem de Cristo penetra
nas consciências das pessoas e se projeta no "ethos" de um povo, nas
suas atitudes vitais, nas suas instituições e em todas as estruturas (cf. Discurso aos intelectuais e ao mundo
universitário, Medellín, 5 de julho de 1986, 2).
O
tema "cultura" foi objeto de particular estudo e reflexão por parte
do CELAM, nos últimos anos. Também a Igreja inteira concentra a sua atenção
sobre esta importante matéria, "já que a
nova evangelização deverá projetar-se sobre a cultura `emergente', sobre
todas as culturas, inclusive as culturas indígenas" (cf. Angelus, 28 de
junho de 1992). Anunciar Jesus Cristo a todas as culturas é a preocupação
central da Igreja e objeto da sua missão. Nos nossos dias, isto exige, em
primeiro lugar, o discernimento das culturas como realidade humana a
evangelizar e, conseqüentemente, a urgência de um novo tipo e alto nível de
colaboração entre todos os responsáveis pela obra evangelizadora.
21.
Hoje em dia percebe-se uma crise cultural de proporções inimagináveis. Certo é
que o substrato cultural atual apresenta um bom número de valores positivos,
muitos deles fruto da evangelização e que são perfeitamente compatíveis com o
Evangelho; ao mesmo tempo, porém, foram eliminados valores religiosos
fundamentais e introduzidas concepções insidiosas, que são inaceitáveis sob o
ponto de vista cristão.
A
ausência desses valores fundamentais cristãos na cultura moderna não apenas
tem ofuscado a dimensão transcendente, arrastando muitas pessoas para a
indiferença religiosa - também na América Latina -, mas é ainda causa
determinante do desencanto social, no qual se gerou a crise desta cultura. Após
a autonomia introduzida pelo racionalismo, tende-se hoje a assentar os valores,
sobretudo, em consensos sociais subjetivos que, não raro, conduzem a posições
contrárias inclusive à própria ética natural. Pense-se no drama do aborto, nos
abusos no âmbito da engenharia genética, nos atentados à vida e à dignidade da
pessoa.
Face
à pluralidade de opções que hoje se oferecem, requer-se uma profunda renovação
pastoral, mediante o discernimento evangélico
sobre os valores dominantes, as atitudes, os comportamentos coletivos, que
seqüentemente representam um fato decisivo para optar tanto pelo bem como pelo
mal. Nos nossos dias, torna-se necessário um esforço e um tato especial para
inculturar a mensagem de Jesus, de tal modo que os valores cristãos possam
transformar os diversos núcleos culturais, purificando-os, se necessário for,
e possibilitando a consolidação de uma cultura
cristã que renove, amplie e unifique os valores históricos, passados e
presentes, para assim responder de modo adequado aos desafios do nosso tempo
(cf. Redemptoris missio, 52). Um
destes desafios à evangelização é intensificar o diálogo entre as ciências e a
fé, em ordem a criar um verdadeiro humanismo cristão. Trata-se de mostrar que
as ciências e a técnica contribuem para a civilização e a humanização do mundo,
na medida em que estão penetradas pela sabedoria de Deus. A este propósito,
desejo encorajar vivamente as Universidades e Centros de estudos superiores,
especialmente os que dependem da Igreja, a renovar o seu empenhamento no
diálogo entre fé e ciência. 22. A Igreja vê com preocupação a ruptura existente
entre os valores evangélicos e as culturas modernas, pois estas correm o risco
de fechar-se dentro de si mesmas, numa espécie de involução agnóstica e sem
referência à dimensão moral (cf. Discurso
ao Pontifício Conselho para a Cultura, 18 de janeiro de 1983). A este
respeito, conservam pleno vigor as palavras do Papa Paulo VI: "A ruptura
entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi
também de outras épocas. Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de
uma generosa evangelização da cultura, ou mais exatamente das culturas. Estas
devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa-Nova" (Evangelü nuntiandi, 20).
A
Igreja, que considera o homem como seu "caminho" (c£ Redemptor hominis, 14), há de dar uma
resposta adequada à atual crise da cultura. Frente ao complexo fenômeno da
modernidade, é necessário dar vida a uma alternativa cultural plenamente
cristã. Se a verdadeira cultura é a que exprime os valores universais da
pessoa, quem pode projetar mais luz sobre a realidade do homem, sobre a sua
dignidade e razão de ser, sobre a sua liberdade e destino do que o Evangelho de
Cristo?
Neste
marco histórico do meio milênio da evangelização dos vossos povos, convido-vos,
pois, queridos Irmãos, a que, com o ardor da nova evangelização, animados pelo
Espírito do Senhor Jesus, torneis a Igreja presente na encruzilhada cultural do
nosso tempo, para impregnar com os valores cristãos as próprias raízes da
cultura emergente e de todas as culturas já existentes. Particular atenção
haveis de prestar às culturas indígenas e
afro-americanas, assimilando e pondo em relevo tudo o que nelas há de
profundamente humano e humanizador. A sua visão da vida, que reconhece a
sacralidade do ser humano e do mundo, o seu respeito profundo pela natureza, a
humildade, a simplicidade, a solidariedade são valores que hão de estimular o
esforço, por levar a cabo uma autêntica evangelização inculturada, que seja
também promotora de progresso e conduza sempre à adoração de Deus "em
espírito e verdade" (Jo 4,23). Mas o reconhecimento dos ditos valores não
vos exime de proclamar em todo o momento que "Cristo é o único salvador de
todos, o único capaz de revelar e de conduzir a Deus" (Redemptoris missio, 5).
"A
evangelização da cultura é um esforço por compreender as mentalidades e as
atitudes do mundo atual e iluminá-las a partir do Evangelho. É a vontade de
chegar a todos os níveis da vida humana, para a tornar mais digna" (Discurso ao mundo da cultura, Lima, 15
de maio de 1988, 5). Porém este esforço de compreensão e iluminação deve ser
sempre acompanhado pelo anúncio da Boa-Nova (cf. Redemptoris missio, 46), de tal maneira que a penetração do Evangelho
nas culturas não seja uma simples adaptação
externa, mas um processo profundo e
abrangente que englobe tanto a mensagem cristã como a reflexão e a práxis
da Igreja, respeitando sempre as características e a integridade da fé (Cf.
Ibid., 52).
23.
Sendo a comunicação entre as pessoas um admirável elemento gerador de cultura,
os modernos meios de comunicação social revestem
neste campo uma importância de primeira grandeza. Intensificar a presença da
Igreja no mundo da comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades.
Vêm-me à mente as graves palavras do meu venerado predecessor, o Papa Paulo VI:
"A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não
lançasse mão destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia
mais aperfeiçoados" (Evangelii
nuntiandi, 45).
Por
outro lado, ocorre também vigiar sobre o uso dos meios de comunicação social na
educação da fé e na difusão da cultura
religiosa. Uma responsabilidade que compete sobretudo às casas editoriais,
dependentes de Instituições Católicas, que devem "ser objeto de particular
solicitude por parte dos Ordinários locais, para que as suas publicações sejam
sempre conformes à doutrina da Igreja e contribuam eficazmente para o bem das
almas" (Instrução sobre alguns
aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social na promoção da doutrina
da fé, 15,2).
São
exemplos de inculturação do Evangelho também certas manifestações
sócio-culturais, que se estão levantando em defesa do homem e do seu ambiente,
e que têm de ser iluminadas pela luz da fé. É o caso do movimento ecológico a favor do respeito devido à natureza e
contra a exploração desordenada dos seus recursos, com a conseqüente
deterioração da qualidade de vida. A convicção de que "Deus destinou a
terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos" (Gaudium et spes, 69), há de inspirar um
sistema de gestão dos recursos mais justo e melhor coordenado a nível mundial.
A Igreja faz sua a preocupação pelo meio ambiente e convida os governos a
protegerem este patrimônio, segundo os critérios do bem comum (c£ Mensagem para a XXV Jornada Mundial da Paz,
1º de janeiro de 1992).
24.
O desafio que representa a cultura "emergente", não enfraquece, no
entanto, nossa esperança, e damos graças a Deus porque na América Latina o dom
da fé católica penetrou no âmago dos seus povos, conformando nestes quinhentos
anos a alma cristã do Continente e inspirando muitas das suas instituições. De
fato, a Igreja na América Latina conseguiu impregnar a cultura do povo, soube situar a mensagem evangélica na base do
seu pensamento, nos seus princípios fundamentais de vida, nos seus critérios
de juízo, nas suas normas de ação.
Agora,
é-nos apresentado o desafio formidável da
contínua inculturação do
Evangelho nos vossos povos, tema que tereis de abordar com clarividência e
profundidade, durante os próximos dias. A América Latina, em Santa Maria de Guadalupe, oferece um grande
exemplo de evangelização perfeitamente inculturada. De fato, na figura de Mana
- desde os começos da cristianização do Novo Mundo, e à luz do Evangelho de
Jesus - encarnaram-se autênticos valores culturais indígenas. No rosto mestiço
da Virgem de Tepeyac se resume o grande princípio da inculturação: a íntima
transformação dos autênticos valores culturais, mediante a integração no
cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas (cf. Redemptoris missio, 52)
V.
UMA NOVA ERA SOB O SIGNO DA ESPERANÇA
25.
Eis aqui, queridos irmãos e irmãs, alguns dos desafios que se apresentam à
Igreja nesta hora da nova evangelização. Diante deste panorama, cheio de
interrogações, mas também repleto de promessas, devemos perguntar-nos qual é o caminho que deve seguir a
Igreja na América Latina, para que a sua missão dê, na próxima etapa da sua
história, os frutos que espera o Dono da messe (cf. Lc 10,2; Mc 4,20). Vossa
Assembléia deverá delinear a fisionomia de uma Igreja viva e dinâmica que
cresce na fé, se santifica, ama, sofre, se compromete e espera em seu Senhor,
como nos lembra o Conc7io Ecumênico Vaticano II, ponto de referência
obrigatório na vida e na missão de todo o Pastor (cf. Gaudium et spes, 2).
A
tarefa que vos espera nos próximos dias é árdua, mas está marcada pelo signo da esperança que vem de Cristo Ressuscitado. Vossa
missão é a de serdes arautos da esperança, de que nos fala o Apóstolo Pedro
(cf. 1Pd 3,15): esperança que se apoia nas promessas de Deus, na fidelidade à
sua palavra e que tem como certeza inquebrantável a ressurreição de Cristo, sua vitória definitiva sobre o pecado e a
morte, primeiro anúncio e raiz de toda a evangelização, fundamento de toda a
promoção humana, princípio de toda a autêntica cultura cristã, que não pode
deixar de ser a cultura da ressurreição e da vida, vivificada pelo sopro do
Espírito de Pentecostes.
Amados
Irmãos no Episcopado, na unidade da Igreja local, que tem origem na Eucaristia,
encontra-se todo o Colégio Episcopal com o Sucessor de Pedro à frente, como
pertencendo à própria essência da Igreja particular (cf. Carta da Congregação para a Doutrina da Fé sobre alguns aspectos da
Igreja entendida como Comunhão, 14). Em torno do Bispo e em perfeita
comunhão com ele, devem florescer as paróquias e as comunidades cristãs, como
células vivas e pujantes de vida eclesial. Por isso, a nova evangelização
requer uma vigorosa renovação de toda a vida diocesana. As paróquias, os movimentos
apostólicos e associações laicais, e todas as comunidades eclesiais em geral,
hão de ser sempre evangelizadas e evangelizadoras. De modo particular, as Comunidades eclesiais de base devem
se caracterizar por uma decidida projeção universalista e missionária, que lhes
infunda um renovado dinamismo apostólico (cf. Evangelii nuntiandi, 58; Puebla
640-642). Elas, que devem estar sempre marcadas por uma clara identidade
eclesial, hão de ter na Eucaristia, a que preside o Sacerdote, o centro da vida
e da comunhão dos seus membros, em estreita união com seus pastores e em plena
sintonia com o Magistério da Igreja
26.
Condição indispensável para a nova evangelização é poder contar com
evangelizadores numerosos e qualificados. Por isso, a promoção das vocações sacerdotais e religiosas, bem como de
outros agentes de pastoral, há de ser uma prioridade dos Bispos e um
compromisso de todo o Povo de Deus. É preciso dar, em toda a América Latina, um
impulso decisivo à Pastoral vocacional e enfrentar, com critérios acertados e
com esperança, o que se relacionar com os Seminários e Centros de formação dos
religiosos e religiosas, bem como com o problema da formação permanente do
Clero e de uma melhor distribuição dos sacerdotes entre as diversas Igrejas
locais, em que se deve ter em conta também o apreciável trabalho dos diáconos
permanentes. Para tudo isto, existem orientações apropriadas na Exortação Apostólica
pós-sinodal Pastores dobo vobis.
No
que diz respeito aos religiosos e às
religiosas, que na América Latina levam o peso de uma parte considerável da
ação pastoral, desejo mencionar a Carta Apostólica Os Caminhos do Evangelho, que lhes dirigi com data de 29 de junho de
1990. Também quero lembrar aqui os
Institutos Seculares, com sua pujante vitalidade no meio do mundo, e os
membros das Sociedades de Vida Apostólica
que desenvolvem uma grande atividade missionária.
Na
hora presente, os membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades
de Vida Apostólica, tanto masculinos como femininos, devem concentrar-se mais
na tarefa especificamente evangelizadora, desenvolvendo toda a riqueza de
iniciativas e tarefas pastorais que brotam de seus diversos carismas. Fiéis ao
espírito dos seus Fundadores, devem caraterizar-se por um profundo sentido de
Igreja e pelo testemunho de uma estreita colaboração e submissão na pastoral,
cuja direção compete aos Ordinários das dioceses e, a nível nacional, às
Conferências Episcopais.
Como
recordei na minha Carta às contemplativas da América Latina (12 de
dezembro de 1989), a ação evangelizadora da Igreja está sustentada por esses santuários da vida contemplativa, tão
numerosos em toda a América, que constituem um testemunho da radicalidade da
consagração a Deus, que tem de ocupar sempre o primeiro lugar em nossas opções.
27.
Na Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles
laici sobre "vocação e missão dos leigos na Igreja", quis pôr em
particular evidência que na "grande, comprometedora e magnífica empresa"
da nova evangelização é indispensável o trabalho dos leigos, especialmente dos
catequistas e "delegados da Palavra". A Igreja espera muito de todos
aqueles leigos que, com entusiasmo e eficácia evangélica, agem através dos
novos movimentos apostólicos, que hão
de estar coordenados na pastoral de conjunto e que respondem à necessidade de
uma maior presença da fé na vida social. Nesta hora em que convoquei todos para
trabalhar com ardor apostólico na vinha do Senhor, sem que ninguém ficasse
excluído, "os fiéis Ieigos devem
sentir-se parte viva e responsável desta tarefa, chamados como são a anunciar e
a viver o Evangelho ao serviço dos valores e das exigências das pessoas e da
sociedade" (n. 64). Digna de todo elogio, como transmissora da fé, é a mulher Iatino-americana, cujo papel
na Igreja e na sociedade deve ser posto na devida evidência (cf. Carta Apostólica
Mulieris dignitatem). Particular
solicitude pastoral deve-se prestar aos doentes,
tendo em vista também a força evangelizadora do sofrimento (cf. Carta
Apostólica Salvifici doloris, sobre o
sentido cristão do sofrimento humano, 11 de fevereiro de 1984). Lanço um apelo
especial aos jovens da América
Latina. Por um lado, eles - tão numerosos num Continente jovem - são os
sujeitos da nova evangelização, mas deverão ser, além disso, os protagonistas
do anúncio no novo milênio, já à porta. Eles são os jovens a quem temos de
apresentar Jesus Cristo e a beleza da vocação cristã, mas são também aqueles a
quem há que libertar das ilusões do consumismo e sobretudo oferecer-lhes
ideais altos e nobres, que os apóiem nas suas aspirações de uma sociedade mais
justa e fraterna. 28. Todos são chamados a construir a civilização do amor
neste
Continente
da esperança. Mais ainda, a América Latina, que recebeu a fé transmitida pelas
Igrejas do Velho Mundo, tem de preparar-se para difundir a mensagem de Cristo
pelo mundo inteiro, dando "da sua pobreza" (cf. Mensagem aos III e IV Congressos Missionários Latino-Americanos, Santa
Fé de Bogotá, 1987, e Lima, 1991). "Chegou o momento de empenhar todas as
forças eclesiais na nova evangelização e na missão ad gentes. Nenhum crente em
Cristo, nenhuma instituição da Igreja se pode esquivar deste dever supremo:
anunciar Cristo a todos os povos" (Redemptoris
missio, 3). Este momento chegou também para a América Latina. "É dando a fé que ela se fortalece! A nova
evangelização dos povos cristãos, também nas Igrejas da América, encontrará
inspiração e apoio no empenho pela missão universal" (ibid., 2). Para a América Latina, que recebeu Cristo há já
quinhentos anos, o maior sinal de agradecimento pelo dom recebido, e da sua
vitalidade crista, é empenhar-se ela mesma na missão.
29.
Amados Irmãos no Episcopado, como sucessores dos Apóstolos, deveis dedicar
todo o desvelo à vossa grei, "no meio da qual vos colocou o Espírito Santo
para apascentardes a Igreja de Deus" (At 20,28). Por outro lado, como
membros do Colégio Episcopal, em estreita unidade afetiva e efetiva com o
Sucessor de Pedro, sois chamados a conservar a comunhão e a solicitude por toda
a Igreja. E, nesta circunstância, como membros da IV Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano, incumbe-vos uma responsabilidade histórica.
Em
virtude da mesma fé, da Palavra revelada, da ação do Espírito e por meio da
Eucaristia à qual preside o Bispo, a Igreja particular mantém com a Igreja
Universal uma peculiar relação de mútua interioridade, porque nela se encontra
e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo que é Una, Santa, Católica e
Apostólica (cf. Christus Dominus, 11).
Nela deve resplandecer a santidade de
vida, a que todo o evangelizador é chamado, dando testemunho de uma intensa
vivência do mistério de Jesus Cristo, sentido e experimentado fortemente na
Eucaristia, na escuta assídua da Palavra, na oração, no sacrifício, na entrega
generosa ao Senhor, que nos Sacerdotes e demais pessoas consagradas se exprime
de modo especial pelo celibato.
Não
se pode esquecer que a primeira forma de evangelização é o testemunho (cf. Redemptoris
missio, 42-43), isto é, a proclamação da mensagem da salvação através das
obras e da coerência de vida, levando assim a cabo a sua encarnação na história
quotidiana dos homens. A Igreja, desde o princípio da sua história, fez-se
presente e operante não apenas mediante o anúncio explicito do Evangelho de
Cristo, mas também, e sobretudo, através da irradiação da vida cristã. Por
isso, a nova evangelização exige coerência de vida, testemunho sólido e
unitário de caridade, sob o signo da unidade, para que o mundo creia (cf. Jo
17,23).
30.
Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Pastor dos pastores, está no vosso meio,
pois vos reunistes em Seu nome (cf. Ml 18,20). Convosco está o Espírito do
Senhor que guia a Igreja para a plenitude da verdade e a rejuvenesce com a
Palavra do Evangelho, como em novo Pentecostes.
Na
comunhão dos Santos, vela sobre vossos trabalhos uma plêiade de Santos e
Santas latino-americanos, que evangelizaram este Continente com sua palavra e
suas virtudes, e muitos deles o fecundaram com seu sangue. Eles são os frutos
mais excelsos da Evangelização.
Como
no Cenáculo do Pentecostes, acompanha-vos a Mãe de Jesus, a Mãe da Igreja. Sua
presença entranhável em todos os rincões da América Latina e nos corações de
seus filhos é garantia do sentido profético e do ardor evangélico que deve
acompanhar vossos trabalhos.
31.
"Bem-aventurada és tu que acreditaste, porque se hão de cumprir as coisas
que da parte do Senhor te foram ditas" (Lc 1,45). Estas palavras, que
Isabel dirige a Maria, portadora de Cristo, são aplicáveis à Igreja, da qual a
Mãe do Redentor é tipo e modelo. Feliz és tu, América, Igreja da América, portadora
de Cristo também, que recebeste o anúncio da salvação e creste "nas coisas
que te foram ditas da parte do Senhor"! A fé é a tua ventura, a fonte da
tua alegria. Felizes vós, homens e mulheres da América Latina, adultos e
jovens, que conhecestes o Redentor! Junto com toda a Igreja, e com Maria,
podeis dizer que o Senhor "pôs os olhos na humildade de sua serva"
(Lc 1,48). Felizes vós, os pobres da terra, porque chegou para vós o Reino de
Deus!
"O
que o Senhor te disse, se cumprirá". Sê fiel ao teu batismo reaviva neste
Centenário a imensa graça recebida, dirige teu coração e teu olhar ao centro,
à origem, Àquele que é o fundamento de toda a felicidade, a plenitude de tudo!
Abre-te a Cristo, acolhe o Espírito, para que em todas as tuas comunidades tenha
lugar um novo Pentecostes! E surgirá de ti uma humanidade nova, bem-aventurada;
e experimentarás de novo o braço poderoso do Senhor, e "o que o Senhor te
disse se cumprirá". O que te disse, América, é Seu amor por ti, é Seu amor
pelos teus homens, por tuas famílias, pelos teus povos. E esse amor se cumprirá
em ti, e te encontrarás de novo a ti mesma, encontrarás teu rosto, "te
proclamarão bem-aventurada todas as gerações" (Lc 1,48).
Igreja
da América, o Senhor passa hoje ao teu lado. Chama-te. Nesta hora de graça,
pronuncia de novo teu nome, renova sua aliança contigo. Oxalá ouças hoje sua
voz, para que conheças a verdadeira e plena felicidade, e entres em seu
descanso! (cf. SI 94,7.11).
Terminemos
invocando Maria, a Estrela da primeira e
da nova evangelização. A Ela, que sempre esperou, confiamos nossa esperança.
Em suas mãos, colocamos nossos cuidados pastorais e todos os trabalhos desta
Conferência, encomendando a seu coração de Mãe o êxito e a projeção da mesma
sobre o futuro do Continente. Que Ela nos ajude a anunciar Seu Filho:
"Jesus
Cristo ontem, hoje e sempre!". Amém.
DOCUMENTO
DE SANTO DOMINGO
Primeira
Parte
JESUS
CRISTO, EVANGELHO DO PAI
1.
Convocados pelo Papa João Paulo II e impulsionados pelo Espírito de Deus,
nosso Pai, os Bispos participantes da IV Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano, reunido em Santo Domingo, em continuidade às precedentes do
Rio de Janeiro, Medellín e Puebla, proclamamos nossa fé e nosso amor a Jesus
Cristo. Ele é o mesmo "ontem, hoje e sempre" (cf. Hb 13,8).
Reunidos
como num novo cenáculo, em torno de Maria, a Mãe de Jesus, damos graças a Deus
pelo dom inestimável da fé e pelos incontáveis dons de sua misericórdia.
Pedimos perdão pelas infidelidades à sua bondade. Animados pelo Espírito Santo,
dispomo-nos a impulsionar, com novo ardor, uma Nova Evangelização que se
projete num maior compromisso pela promoção integral do homem e impregne com a
luz do Evangelho as culturas dos povos latino-americanos. É o Espírito quem nos
deve dar a sabedoria para encontrar os novos métodos e as novas expressões que
tornem o único Evangelho de Jesus Cristo mais compreensível hoje a nossos
irmãos, para assim responder aos novos desafios.
2.
Ao contemplar, com um olhar de fé, a implantação da Cruz de Cristo neste
continente, ocorrida há cinco séculos, compreendemos que foi Ele, Senhor da
história, quem estendeu o anúncio da salvação a dimensões insuspeitadas.
Cresceu assim a famílias de Deus e se multiplicou para a glória de Deus o
número dos que dão graças (cf. 2Cor 4,15; c£ João Paulo II, Discurso inaugural, 3). Deus escolheu um
novo povo entre os habitantes destas terras que, mesmo desconhecidos para o
Velho Mundo, eram "bem conhecidos por Deus desde toda a eternidade e por
Ele sempre abraçados com a paternidade que o Filho revelou na plenitude dos
tempos" (DI 3). p
3.
Jesus Cristo é, na verdade, o centro do desígnio amoroso de Deus. Por isso
repetimos com a epístola aos Efésios:
"Bendito
seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a
sorte de bênçãos espirituais, nos céus em Cristo; n'Ele ele nos escolheu antes
da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor.
Ele nos predestinou para ser 'seus filhos adotivos por Jesus Cristo" (Et
1,3-5).
Celebramos
Jesus Cristo, morto por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação
(cf. Rm 4,25), que vive entre nós e é nossa "esperança da glória" (Cl
1,27). Ele é a imagem de Deus invisível, primogênito de toda criatura em quem
foram criadas todas as coisas. Ele mantém a criação, para Ele convergem todos
os caminhos do homem, é o Senhor dos tempos. Em meio às dificuldades e às
cruzes, queremos continuar a ser em nosso continente testemunhas do amor de
Deus e profetas da esperança que não falha. Queremos iniciar "uma nova era
sob o signo da esperança" (DI V).
1.
PROFISSÃO DE FÉ
4.
Bendizemos a Deus que, em seu amor misericordioso, "enviou seu Filho,
nascido de mulher" (G1 4,4) para salvar a todos os homens. Assim Jesus
Cristo se fez um de nós (Hb 2,17). Ungido pelo Espírito Santo (Lc 1,15)
proclama na plenitude dos tempos a Boa Nova dizendo: "Cumpriu-se o tempo e
o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc
1,15). Este Reino inaugurado por Jesus nos revela primeiramente o próprio Deus
como "um Pai amoroso e cheio de compaixão" (RMi 13), que chama a
todos, homens e mulheres a nele ingressar.
Para
ressaltar esse aspecto, Jesus se aproximou sobretudo daqueles que, por suas
misérias, estavam à margem da sociedade, anunciando-lhes a Boa Nova. No início
de seu ministério proclama ter sido enviado para "anunciar aos pobres a
Boa Nova" (Lc 4,18). A todas as vítimas da rejeição e do desprezo,
conscientes de suas carências, Jesus lhes disse: "Bem-aventurados os
pobres" (Lc 6,10; cf. RMi 14). Assim, pois, os necessitados e pecadores
podem sentir-se amados por Deus, e objeto de sua imensa ternura (cf. Lc
15,1-32).
5.
A entrada no Reino de Deus se realiza mediante a fé na Palavra de Jesus, selada
pelo batismo, testemunhada no seguimento, no compartilhar sua vida, morte e
ressurreição (cf. Rm 6,9). Isto exige uma profunda conversão (cf. Mc 1,15; Mt
4,17), uma ruptura com toda forma de egoísmo num mundo marcado pelo pecado (cf
Mt 7,21; Jo 14,15; RMi 13), ou seja, uma adesão ao anúncio das bem-aventuranças
(Mt 5,1-10).
O
mistério do Reino, oculto durante séculos e gerações em Deus (cf. Cl 1,2b) e
presente na vida e nas palavras de Jesus, identificado com sua pessoa, é dom
do Pai (cf. I,c 12,32; Mt 20,23) e consiste na comunhão, gratuitamente
oferecida, do ser humano com Deus (cf. EN 9; cf. Jo 14,23), começando nesta
vida e alcançando plena realização na eternidade (EN 27).
Do
amor de Deus dá-se testemunho no amor fraterno (cf. 1Jo 4,20) do qual não pode
separar-se: "Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu
amor em nós é levado à perfeição" (1Jo 4,12). "Portanto, a natureza
do Reino é a comunhão de todos os seres entre si e com Deus" (RMi 15).
6.
Para a realização do Reino, "Jesus instituiu Doze, para que ficassem com
Ele, para enviá-los a pregar" (Mc 3,18), aos quais revelou os
"mistérios" do Pai fazendo deles seus amigos (cf. Jo 15,15) e
continuadores da mesma missão que Ele recebera de seu Pai (cf. Jo 20,21), e
estabelecendo Pedro como fundamento da nova comunidade (cf. Ml 16,18).
Antes
de sua ida ao Pai, Jesus instituiu o sacramento do seu amor, a Eucaristia (cf.
Mc 14,22), memorial do seu sacrifício. Assim o Senhor permanece no meio do seu
povo para alimentá-1o com seu Corpo e com seu Sangue, fortalecendo e
expressando a comunhão e a solidariedade que deve reinar entre os cristãos,
enquanto peregrinam pelos caminhos da terra na esperança do encontro pleno com
Ele. Vítima sem mancha oferecida a Deus (H6 9,24), Jesus é igualmente o
sacerdote que tira o pecado com uma única oferenda (H6 10,14).
Ele,
e somente Ele, é nossa salvação, nossa justiça, nossa paz e nossa
reconciliação. Nele fomos reconciliados com Deus e por
Ele
nos foi confiado o "Ministério da Reconciliação" (2Cor 5,19). Ele
derruba todo o muro que separa os homens e os povos (cf. Et 2,14). Por isso
hoje, nesse tempo de Nova Evangelização, queremos repetir com o apóstolo São
Paulo: "Reconciliai-vos com Deus" (2Cor 5,20).
7.
Confessamos que Jesus, verdadeiramente ressuscitado e elevado ao céu, é Senhor,
consubstanciai ao Pai, "nele reside toda a plenitude da divindade"
(Cl 2,9), sentado a sua direita, merece o tributo de nossa adoração. "A
ressurreição confere um alcance universal à mensagem de Cristo, a sua ação e a
toda a sua missão" (RMi 16). Cristo ressuscitou para nos comunicar a sua
vida. De sua plenitude todos recebemos a graça (cf. Jo 1,16). Jesus Cristo, que
morreu para nos libertar do pecado e da morte, ressuscitou para, em Si,
fazer-nos filhos de Deus. Se não tivesse ressuscitado, vã seria nossa pregação
e vazia seria nossa fé (lCor 15,14). Ele é nossa esperança (cf. 1Tm 1,l;
3,14-16), uma vez que pode salvar os que se aproximam de Deus e vive para
sempre, para interceder a nosso favor (cf. Hb 7,25).
Conforme
a promessa de Jesus, o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos reunidos
com Maria no cenáculo (c£ At 1,12-14; 2,1). Com a doação do Espírito em
Pentecostes, a Igreja foi enviada para anunciar o Evangelho. A partir desse
dia, ela, novo povo de Deus (1Pd 2,9-10) e corpo de Cristo (cf. lCor 12,27; Ef
4,12), está ordenada ao Reino, do qual é germe, sinal e instrumento (cf. RMi
18) até o fim dos tempos. A Igreja, desde então e até os nossos dias, gera,
pela pregação e pelo batismo, novos filhos de Deus, concebidos pelo Espírito
Santo e nascidos de Deus (LG 64).
8.
Na comunhão da fé apostólica, que pela boca de Pedro confessou na Palestina:
"Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo" (Ml 16,16), hoje fazemos nossas
as palavras de Paulo VI que, ao começar nossos trabalhos, João Paulo II nos
recordava: "Cristo! Cristo, nosso princípio. Cristo, nossa vida e nosso
guia. Cristo, nossa esperança e nosso fim... Que não desça sobre esta
assembléia outra luz a não ser a luz de Cristo, luz do mundo. Que nenhuma outra
verdade atraia a nossa mente fora das palavras do Senhor, único Mestre. Que não
tenhamos outra aspiração que não seja o desejo de lhe ser absolutamente fiéis.
Que nenhuma outra esperança nos sustente, a não ser aquela que, mediante a Sua
palavra, conforta a nossa debilidade..” (DI 1).
Sim,
confessamos que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele é o
Filho único do Pai feito homem no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito
Santo, que veio ao mundo para nos livrar de toda escravidão do pecado, dar-nos
a graça da adoção filial e reconciliar-nos com Deus e com os homens. Ele é o
Evangelho vivo do amor do Pai. Nele a humanidade tem a medida de sua dignidade
e o sentido do seu desenvolvimento.
9.
Reconhecemos a dramática situação a que o pecado leva o homem. Porque o homem
criado bom, à imagem do próprio Deus, senhor responsável da criação, ao pecar,
caiu em inimizade com Ele. Dividido em si mesmo, rompeu a solidariedade com o
próximo e destruiu a harmonia da natureza. Nisso reconhecemos a origem dos
males individuais e coletivos que lamentamos na América Latina: as guerras, o
terrorismo, a droga, a miséria, as opressões e injustiças, a mentira
institucionalizada, a marginalizado de grupos étnicos, a corrupção, os ataques
à família, o abandono de crianças e idosos, as campanhas contra a vida, o
aborto, a instrumentalização da mulher, a depredação do meio ambiente, enfim,
tudo o que caracteriza uma cultura de morte. Quem nos livrará dessas forças de
morte? (cf.. Rm 7,24). Só a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, oferecida uma
vez mais aos homens e mulheres da América Latina, como chamado à conversão do
coração. A renovada evangelização que agora empreendemos deve ser, pois, um
convite a converter, ao mesmo tempo, a consciência pessoal e coletiva dos
homens (DI 18), para que nós, cristãos, sejamos como que a alma em todos os
ambientes da vida social (carta a Diogneto 6).
10.
Identificados com Cristo que vive em cada um (cf.Gl 2,20) e conduzidos pelo
Espírito Santo, os filhos de Deus recebem em seu coração a lei do amor. Desta
maneira podem responder à exigência de serem perfeitos como o Pai que está no
céu (cf. Ml 5,48), seguindo a Jesus Cristo e carregando a própria cruz, a cada
dia, até dar a vida por Ele (cf. Mc 8,34-36).
11.
Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica e a amamos. Fundada por
Jesus Cristo "sobre o fundamento dos Apóstolos" (cf. Ef 2,20), cujos
sucessores, os bispos, presidem as distintas Igrejas particulares. Em comunhão
entre si e presididos na caridade pelo Bispo de Roma, servem a suas Igrejas
particulares, de modo que em cada uma delas se torne viva e atuante a Igreja de
Cristo. Ela é a primeira beneficiária da Salvação. Cristo a adquiriu com seu
sangue (At 20,28), dela fazendo sua colaboradora na obra da salvação
universal" (cf. RMi 9).
Peregrina
neste continente, está presente e se realiza como comunidade de irmãos sob a
condução dos bispos. Fiéis e pastores, congregados pelo Espírito Santo (c£ CD
11) em torno à Palavra de Deus e à mesa da Eucaristia, são, por sua vez,
enviados a proclamar o Evangelho, anuuciando Jesus Cristo e dando testemunho
de amor fraterno.
12.
"A Igreja peregrina é missionária por natureza, uma vez que procede da
missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus
Pai" (AG 2). A evangelização é a sua razão de ser; ela existe para
evangelizar (cf. EN 15). Para a América Latina, providencialmente animada com
um novo ardor evangélico, chegou a hora de levar a sua fé aos povos que ainda
não conhecem Cristo, na certeza convicta de que "a fé se fortalece,
doando-a" (DI 28).
A
Igreja quer realizar nestes tempos uma Nova Evangelização que transmita,
consolide e amadureça, em nossos povos, a fé em `Deus, Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Esta evangelização deve conter sempre - como base, centro e,
mesmo tempo, cume do seu dinamismo - uma clara proclamação de que em Jesus
Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida
a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus" (EN 27).
13.
O anúncio cristão, por seu próprio vigor, tende a curar, firmar e promover o
homem, para constituir uma comunidade fraterna, renovando a própria humanidade
e dando-lhe sua plena dignidade humana, com a novidade do batismo e da vida
segundo o Evangelho (cf. EN 18). A Evangelização promove o desenvolvimento
integral, exigindo de todos e de cada um o pleno respeito a seios direitos e a
plena observância de seus deveres, a fim de criar uma sociedade justa e
solidária, a caminho de sua plenitude no Reino definitivo. O homem é chamado a
colaborar e ser instrumento com Jesus Cristo na Evangelização. Na América
Latina, continente religioso e sofrido, urge uma Nova Evangelização que
proclame inequivocamente o Evangelho da justiça, do amor e da misericórdia.
Sabemos
que, em virtude da encarnação, Cristo se uniu de certo modo a todo homem (cf.
GS 22). Ele é a perfeita revelação do homem ao próprio homem e revela a
sublimidade de sua vocação (GS 22). Jesus Cristo se insere no coração da
humanidade e convida todas as culturas a se deixar levar por seu espírito à
plenitude, elevando nelas o que é bom e purificando o que se encontra marcado
pelo pecado. Toda evangelização há de ser, portanto, inculturação do Evangelho.
Assim toda cultura pode chegar a ser cristã, ou seja, a fazer referência a
Cristo e inspirar-se nele e em sua mensagem (João Paulo II, Discurso à II Assembléia da Pontifícia
Comissão para a América Latina, de junho de 1991, 4). Jesus Cristo é, com
efeito, a medida de toda cultura e de toda obra humana. A inculturação do
Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar
o rosto desfigurado do mundo (LG 8). Trabalho que se realiza no projeto de
cada povo, fortalecendo sua identidade e libertando-o dos poderes da morte.
Por isso podemos anunciar com confiança: homens e mulheres da América Latina,
abri os corações a Jesus Cristo. Ele é o caminho, a verdade e a vida, quem o
segue não anda nas trevas (cf. Jo 14,6; 8,12).
14.
Cremos que Cristo, o Senhor, há de voltar para levar à plenitude o Reino de
Deus e entregá-1o ao Pai (cf. lCor 15,24), transformada então a criação inteira
em "novos céus e nova terra onde habita a justiça" (2Pd 3,13). Lá
alcançaremos a comunhão perfeita do céu, no gozo da visão eterna da Trindade.
Homens e mulheres que se tenham mantido fiéis ao Senhor, vencidos finalmente o
pecado, o diabo e a morte, chegarão a sua plenitude humana, participando da
própria natureza divina (2Pd 1,4). Então Cristo recapitulará e reconciliará
plenamente a criação, tudo será dele e Deus será tudo em todos (cf. lCor
15,28).
15.
Confirmando a fé de nosso povo, queremos proclamar que a Virgem Maria, Mãe de
Cristo e da Igreja, é a primeira redimida e a primeira crente. Maria, mulher de
fé, foi plenamente evangelizada, é a mais perfeita discípula e evangelizadora
(cf. Jo 2,1-12). É o modelo de todos os discípulos e evangelizadores por seu
testemunho de oração, de escuta da Palavra de Deus e de pronta e fiel
disponibilidade ao serviço do Reino até a cruz. Sua figura materna foi decisiva
para que os homens e mulheres da América Latina se reconhecessem em sua
dignidade de filhos de Deus. Maria é o selo distintivo da cultura do nosso
continente. Mãe e educadora do nascente povo latino-americano, em Santa Maria
de Guadalupe, através do Beato Juan Diego, "é oferecido um grande exemplo
de evangelização perfeitamente inculturada" (DI 24). Ela nos precedeu na
peregrinação da fé e no caminho da glória, e acompanha os nossos povos que a
invocam com amor até que nos encontremos definitivamente com seu Filho. Com
alegria e gratidão acolhemos o dom imenso de sua maternidade, ternura e
proteção, e aspiramos a amá-1a do mesmo modo como Jesus a amou. Por isso a
invocamos como estrela da Primeira e da Nova Evangelização.
2.
NOS 500 ANOS DA PRIMEIRA EVANGELIZAÇÃO
16.
"Nos povos da América, Deus escolheu para Si um novo povo, fazendo-o
participar do seu Espírito. Mediante a Evangelização e a fé em Cristo, Deus
renovou sua aliança com a América latina" (DI 3).
O
ano de 1492 foi um ano-chave no processo de pregação da Boa Nova. Com efeito,
"o que a Igreja celebra nessa comemoração não são acontecimentos históricos
mais ou menos discutíveis, mas uma realidade esplêndida e permanente cujo valor
não se pode subestimar: a chegada da fé, a proclamação e difusão da mensagem
evangélica no continente (americano). E o celebra no sentido mais profundo e
teológico do termo: como se celebra Jesus Cristo, Senhor da história e dos
destinos da humanidade" (João Paulo II, Alocução dominical, 5 de janeiro
de 1992, 2).
17.
A presença criadora, providente e salvadora de Deus, já acompanhava a vida
desses povos. As "sementes do Verbo", presentes no profundo sentido
religioso das culturas pré-colombianas, esperavam o orvalho fecundante do
Espírito. Tais culturas ofereciam em sua base, junto a outros aspectos
necessitados de purificação, aspectos positivos como a abertura à ação de Deus,
o sentido da gratidão pelos frutos da terra, caráter sagrado da vida humana e
valorização da família, o sentido da solidariedade e a co-responsabilidade no
trabalho comum, a importância do culto, a crença em uma vida ultraterrena e
tantos outros valores que enriquecem a alma latino-americana (cf. João Paulo
II, Mensagem aos indígenas, 13.10.92,
n.1). Esta religiosidade natural predispunha os indígenas americanos a uma
mais pronta recepção do Evangelho, mesmo que tenha havido evangelizadores nem
sempre em condições de reconhecer esses valores.
18.
Como conseqüência, o encontro do catolicismo ibérico com as culturas americanas
deu lugar a um processo peculiar de mestiçagem que, embora tenha tido aspectos
conflituosos, pôs em relevo as raízes católicas, assim como a singular
identidade do continente. Tal processo de mestiçagem, também perceptível nas
múltiplas formas de religiosidade popular e da arte mestiça, é conjunção do
elemento perene cristão com o próprio da América, e desde a primeira hora se
estendeu de um lado a outro do continente.
A
história nos mostra "que foi levada a cabo uma válida, fecunda e admirável
obra evangelizadora e que, através dela, ganhou de tal modo espaço na América a
verdade sobre Deus e sobre o homem que, de fato, ela mesma constitui uma
espécie de tribunal de acusação dos responsáveis daqueles abusos (de colonizadores,
às vezes, sem escrúpulos)" (DI 4).
19.
A obra evangelizadora, inspirada pelo Espírito Santo, que no começo teve como
generosos protagonistas sobretudo membros de ordens religiosas, foi uma obra
conjunta de todo o povo de Deus, dos Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas
e fiéis leigos. Entre estes últimos, é importante assinalar também a colaboração
dos próprios indígenas batizados, aos quais se somaram, no correr do tempo,
catequistas latino-americanos.
Aquela
primeira evangelização teve como instrumentos privilegiados homens e mulheres
de vida santa. Os meios pastorais foram uma incansável pregação da Palavra, a
celebração dos sacramentos, a catequese, o culto mariano, a prática das obras
de misericórdia, a denúncia das injustiças, a defesa dos pobres e a especial
solicitude pela educação e promoção humana.
20.
Os grandes evangelizadores defenderam os direitos e a dignidade dos
aborígenes, e censuraram "os atropelos cometidos contra os índios na época
da conquista" (João Paulo II, Mensagem
aos indígenas, 2). Os Bispos, por sua vez, em seus concílios e outras
reuniões, em cartas aos Reis da Espanha e Portugal e nos decretos de visita
pastoral, revelam também essa atitude profética de denúncia, unida ao anúncio
do Evangelho.
Assim
pois, "a Igreja, que com os seus religiosos, sacerdotes e bispos, esteve
sempre ao lado dos indígenas, como poderia esquecer neste V Centenário os
enormes sofrimentos infligidos às populações deste continente durante a época
da conquista e colonização? Deve-se reconhecer, com toda a verdade, os abusos
cometidos devido à falta de amor das pessoas que não souberam ver nos indígenas
irmãos e filhos do mesmo Deus Pai" (João Paulo II, Mensagem aos indígenas, 2). Lamentavelmente estas dores se prolongaram, em algumas formas, até os nossos dias.
Um dos episódios mais tristes da história latino-americana e caribenha foi o
translado forçado, como escravos, de um enorme número de africanos. Do tráfico
de negros participaram entidades governamentais e particulares de quase todos
os países da Europa atlântica e das Américas. O desumano tráfico escravista, a
falta de respeito à vida, à identidade pessoal e familiar e às etnias são uma ofensa
escandalosa para a história da humanidade. Queremos, com João Paulo II, pedir
perdão a Deus por este "holocausto desconhecido" do qual
"participaram batizados que não viveram sua fé" (Homilia na Ilha de Goreia, Senegal, 21.2.92; Mensagem aos afro-americanos, Santo Domingo, 12.10.92 2). '
21.
Olhando a época histórica mais recente continuamos a nos encontrar com pegadas
vivas de uma cultura de séculos, em cujo núcleo está presente o Evangelho. Esta
vida é testemunhada particularmente pela vida dos santos americanos, os quais,
ao viver em plenitude o Evangelho, têm sido as testemunhas mais autênticas,
fidedignas e qualificadas de Jesus Cristo. A Igreja proclamou as virtudes
heróicas de muitos deles, desde o beato índio Juan Diego, Santa Rosa de Lima e
São Martim de Porres até Santo Ezequiel Moreno em nossos dias.
Neste
V Centenário, queremos agradecer aos inumeráveis missionários, agentes de
pastoral e leigos anônimos, muitos dos quais têm atuado em silêncio, e
especialmente àqueles que chegaram até ao testemunho do sangue, por amor de
Jesus.
Segunda
Parte
JESUS
CRISTO EVANGELIZADOR VIVO EM SUA IGREJA
22.
"Ide, pois, e fazei discípulos a todas as gentes..., batizando-as em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-lhes a guardar tudo o que eu
vos tenho mandado. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do
mundo" (Ml 28, 19-20). "Nesta palavras está contida a solene
proclamação da evangelização" (DI 2).
O
Santo Padre nos convocou para comprometer a Igreja da América latina e do
Caribe numa Nova Evangelização e "traçar agora, para os próximos anos, uma
nova estratégia evangelizadora, um plano global de evangelização" (DCAL,
nº 4). Queremos apresentar alguns elementos que nos servirão de base para
concretizar estas orientações nas Igrejas locais do Continente.
A
partir da Nova Evangelização, "o elemento englobante" ou "idéia
central" que iluminou nossa Conferência, entenderemos, em sua verdadeira
dimensão, a Promoção Humana, resposta à "delicada e difícil situação em
que se encontram os países latino-americanos" (Carta do Cardeal Gantin,
12-12-90) e enfocaremos o desafio do diálogo entre o Evangelho e os distintos
elementos que conformam nossas culturas para purificá-las e aperfeiçoá-las
desde dentro, com o ensinamento e o exemplo de Jesus, até chegar a uma cultura
crista.
CAPITULO I
A
NOVA EVANGELIZAÇÃO
23.
Toda evangelização parte do mandato de Cristo a seus apóstolos e sucessores,
desenvolve-se na comunidade dos batizados, no seio de comunidades vivas que
compartilham a sua fé e se orienta ao fortalecimento da vida de adoção filial
em Cristo, que se expressa principalmente no amor fraterno.
Depois
de nos perguntarmos o que é a Nova Evangelização, podemos compreender melhor
que ela tem seu ponto de partida na Igreja, na força do Espírito, em contínuo p
acesso de conversão, que busca testemunhar a unidade dentro da diversidade de
ministérios e carismas e que vive intensamente seu compromisso missionário. Só
uma Igreja evangelizada é capaz de evangelizar. As trágicas situações de
injustiça e sofrimento de nossa América, que se tornaram mais agudas depois de
Puebla, pedem respostas que só uma Igreja sinal de reconciliação e portadora de
vida e de esperança que brotam do Evangelho poderá dar.
24.
O que é Nova Evangelização?
"A
Nova Evangelização tem, como ponto de partida, a certeza de que em Cristo há
uma riqueza insondável' (Et 3,8) que nenhuma cultura, de qualquer época,
extingue, e à qual nós homens sempre poderemos recorrer para
enriquecer-nos" (DI 6). Falar de Nova Evangelização é reconhecer que
existiu uma antiga ou primeira. Sena impróprio falar de Nova Evangelização de
tribos ou povos que nunca receberam o Evangelho. Na América Latina pode-se
falar assim, porque aqui se realizou uma primeira evangelização nos últimos 500
anos.
Falar
de Nova Evangelização não significa que a anterior tenha sido inválida,
infrutuosa ou de curta duração. Significa que hoje novos desafios, novas
interpelações se fazem aos cristãos e aos quais é urgente responder.
Falar
de Nova Evangelização, como advertiu o Papa no Discurso inaugural desta IV
Conferência, não significa propor um novo Evangelho diferente do primeiro: há
um só e único Evangelho do qual se podem tirar luzes novas para problemas
novos.
Falar
de Nova Evangelização não quer dizer reevangelizar. Na América Latina, não se
trata de prescindir da primeira evangelização, mas partir dos ricos e
abundantes valores que ela deixou para aprofundá-los e complementa-los,
corrigindo as deficiências anteriores. A Nova Evangelização surge na América
Latina como resposta aos problemas apresentados pela realidade de um Continente
no qual se dá um divórcio entre fé e vida ao ponto de produzir clamorosas
situações de injustiça, desigualdade social e violência. Implica enfrentar a
grandiosa tarefa de infundir energias ao cristianismo da América latina.
Para
João Paulo II, a Nova Evangelização é algo atuante, dinâmico. É, antes de
tudo, chamado à conversão (cf. DI 1) e à esperança que se apóia nas promessas
de Deus e que tem como certeza inquebrantável a Ressurreição de Cristo,
primeiro anúncio e raiz de toda a evangelização, fundamento de toda promoção
humana, princípio de toda autêntica cultura crista (cf. ibid., 25). É também um
novo, âmbito vital, um novo Petencostes (c£ ibidem, 30-31) em que o acolhimento
do Espírito Santo fará surgir um povo renovado, constituído de homens livres,
conscientes de sua dignidade (cf. ibid.,l9) e capazes de forjar uma história
verdadeiramente humana. É o conjunto de meios, ações e atitudes aptos para pôr
o Evangelho em diálogo ativo com a modernidade e o pós-moderno, seja para
interpreta-los, seja para deixar-se interpelar por eles. Também é o esforço por
inculturar o Evangelho na situação atual das culturas de nosso Continente.
25.
O sujeito da Nova Evangelização é toda a comunidade eclesial segundo sua
própria natureza: nós, os Bispos, em comunhão com o Papa, nossos presbíteros e
diáconos, os religiosos e religiosas, e todos os homens e mulheres que
constituímos o Povo de Deus.
26.
A Nova Evangelização tem como finalidade formar pessoas e comunidades maduras
na fé e dar respostas à nova situação que vivemos, provocada pelas mudanças
sociais e culturais da modernidade. Há de ter em conta a urbanização, a
pobreza e a marginalização. Nossa situação está marcada pelo materialismo, a
cultura da morte, a invasão das seitas e propostas religiosas de diversas
origens.
Esta
situação nova traz consigo também novos valores, a ânsia da solidariedade, de
justiça, a busca religiosa e a superação de ideologias totalizantes.
Destinatários
da Nova Evangelização são também as classes médias, os grupos, as populações,
os ambientes de vida e de trabalho, marcados pela ciência, pela técnica e pelos
meios de comunicação social.
A
Nova Evangelização tem a tarefa de suscitar a adesão pessoal a Jesus Cristo e à
Igreja de tantos homens e mulheres batizados que vivem sem energia o
cristianismo, "tendo perdido o sentido vivo da fé, inclusive já não se
reconhecendo como membros da Igreja e levando uma existência distanciada de
Cristo e de seu Evangelho" (RMi, 33).
27.
O conteúdo da Nova Evangelização é Jesus Cristo, Evangelho do Pai, que anunciou
com gestos e palavras que Deus é misericordioso para com todas as suas
criaturas, que ama o homem com um amor sem limites e que quis entrar na sua
história por meio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, para
libertar-nos do pecado e de todas as suas
conseqüências e para fazer-nos participar de sua vida divina (c£ João Paulo
II, Homilia em Veracruz, México, 7.5.90). Em Cristo tudo adquire sentido. Ele
rompe o horizonte estreito em que o secularismo encerra o homem, devolve-lhe a
verdade e dignidade de Filho de Deus e não permite que nenhuma realidade
temporal, nem os estados nem a economia nem a técnica se convertam para os
homens na realidade última a que devam submeter-se. Nas palavras de Paulo VI,
evangelizar é anunciar "o nome, a
doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho
de Deus" (EN 22).
Esta
Evangelização terá força renovadora na fidelidade à Palavra de Deus, seu lugar
de acolhida na comunidade eclesial, seu alento criador no Espírito Santo, que
cria a unidade na diversidade, alimenta a riqueza carismática e ministerial, e
se projeta ao mundo mediante o compromisso missionário.
28.
Como deve ser esta Nova Evangelização? O Papa nos respondeu: nova em seu
ardor, em seus métodos e em sua expressão. Nova em seu ardor. Jesus Cristo nos
chama a renovar nosso ardor apostólico. Para isso envia o seu Espírito que
inflama hoje o coração da Igreja. O ardor apostólico da Nova Evangelização
brota de uma radical conformação com Jesus Cristo, o primeiro evangelizador.
Assim o melhor evangelizador é o santo, o homem das bem-aventuranças (RMi
90-91). Uma evangelização nova em seu ardor supõe uma fé sólida, uma caridade
pastoral intensa e uma forte fidelidade que, sob a ação do Espírito, gere uma
mística, um entusiasmo incontido na tarefa de anunciar o Evangelho e capaz de
despertar a credibilidade para acolher a Boa Nova da Salvação.
29.
Nova em seus métodos. Novas situações exigem novos caminhos para a
evangelização. O testemunho e o encontro pessoal, a presença do cristão em todo
o humano, assim como a confiança no anúncio salvador de Jesus (querigma) e na
atividade do Espírito Santo, não podem faltar.
F
necessário empregar, sob a ação do Espírito criador, a imaginação e a
criatividade para que, de maneira pedagógica e convincente, o Evangelho chegue
a todos. Já que vivemos numa cultura da imagem, devemos ser audazes para
utilizar os meios que a técnica e a ciência nos proporcionam, sem jamais
depositar neles toda a nossa confiança.
Por
outro lado, é necessário utilizar aqueles meios que façam chegar o Evangelho ao
centro da pessoa e da sociedade, às raízes mesmas da cultura, "não de uma
maneira decorativa, como um verniz superficial" (EN 20).
30.
Nova em sua expressão. Jesus Cristo nos pede proclamar a Boa Nova com uma
linguagem que torne o Evangelho de sempre mais próximo das novas realidades
culturais de hoje. A partir da riqueza inesgotável de Cristo, se hão de buscar
as novas expressões que permitam evangelizar os ambientes marcados pela cultura
urbana e inculturar o Evangelho nas formas de cultura adveniente. A Nova
Evangelização tem que inculturar-se mais no modo de ser e de viver de nossas
culturas, levando em conta as particularidades das diversas culturas,
especialmente as indígenas e afro-americanas. (Urge aprender a falar segundo a
mentalidade e cultura dos ouvintes, de acordo com suas formas de comunicação e
os meios em uso). Assim a Nova Evangelização continuará na linha da encarnação
do Verbo. A Nova Evangelização exige a conversão pastoral da Igreja. Tal
conversão deve ser coerente com o concílio. Ela diz respeito a tudo e a todos:
na consciência e na práxis pessoal e comunitária, nas rela es de igualdade e de
autoridade; com estruturas e dinamismo que tornem a Igreja presente com cada
vez mais clareza, enquanto sinal eficaz, sacramento de salvação universal.
1.l.
A Igreja convocada à santidade
Iluminação doutrinal
31.
Durante nossa IV Conferência estivemos, como Maria, à escuta da Palavra, para
comunicá-1a a nossos povos. Sentimos que o Senhor Jesus repetia o chamamento a
uma vida santa (c£ Ef l, fundamento de toda nossa ação missionária.
A
Igreja, como mistério de unidade, encontra sua fonte em Jesus Cristo. Só n'Ele
pode dar os frutos de santidade que Deus espera dela. Só participando de seu
Espírito pode transmitir aos homens a autêntica Palavra de Deus. Somente a
santidade de vida alimenta e orienta uma verdadeira promoção humana e cultura
cristã. Só com Ele, por Ele e n'Ele se pode dar a Deus, Pai onipotente, a honra
e a glória pelos séculos dos séculos.
Chamado à santidade
32.
A Igreja é comunidade santa (cf. 1Pd 2,9), em primeiro lugar, pela presença
nela do Cordeiro que a santifica por seu Espírito (cf. Ap 21,22s; 22,1-5; Ef
1,18; lCor 3,16; 6,19; LG 4). Por isso, seus membros devem esforçar-se cada dia
por viver, no seguimento de Jesus e em obediência ao Espírito, "como
santos e imaculados em sua presença pelo amor" (Et 1,4). Estes são os
homens e mulheres novos de que a América Latina e o Caribe necessitam: os que
escutaram com coração bom e reto (cf. Lc 8, 15) o chamado à conversão (cf. Mc
1,15) e renasceram pelo Espírito Santo segundo a imagem perfeita de Deus (cf.
Cl 1,15; Rm 8,29), chamam a Deus "Pai" e expressam seu amor a Ele no
reconhecimento de seus irmãos (cf. P 32'. São bem-aventurados porque
participam da alegria do Reino dos céus. São livres com a liberdade que dá a
Verdade e solidários com todos os homens, especialmente com os que mais sofrem.
A Igreja alcançou na Santíssima Virgem a perfeição em virtude da qual não tem
mancha nem ruga. A santidade "é a chave do ardor renovado da
Nova
Evangelização" (João Paulo II, Homilia em Salto, Uruguai, 09-OS-88, 4).
Convocada pela Palavra
33.
A Igreja, comunidade santa, convocada pela Palavra, tem como uma de suas
principais tarefas a de pregar o Evangelho (cf. LG 25). Os Bispos das Igrejas
particulares que peregrinam na América Latina e no Caribe e todos os
participantes reunidos em Santo Domingo, queremos assumir com o renovado ardor
que os tempos exigem, o chamado que o Papa, sucessor de Pedro, nos tem feito
para empreender uma Nova Evangelização, muito conscientes de que evangelizar é
necessariamente anunciar com alegria o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o
Reino e o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus (cf. EN 22). Querigma e
catequese. A partir da situação generalizada de muitos batizados na América
Latina, que não deram sua adesão pessoal a Jesus Cristo pela conversão
primeira, se impõe, no ministério profético da Igreja, de modo prioritário e
fundamental, a proclamação vigorosa do anúncio de Jesus morto e ressuscitado
(querigma, cf. RMi 44), "raiz de toda a Evangelização, fundamento de toda
promoção humana e princípio de toda autêntica cultura crista" (DI 25).
Este
ministério profético da Igreja compreende também a catequese que, atualizando
incessantemente a revelação amorosa de Deus manifestada em Jesus Cristo, leva a
fé inicial à sua maturidade e educa o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo (c£
CT 19). Ela deve nutrir-se da Palavra de Deus, lida e interpretada na Igreja e
celebrada na comunidade, para que, ao esquadrinhar o mistério de Cristo, ajude
a apresentá-1o como Boa Nova nas situações históricas de nossos povos.
Igualmente
pertence ao ministério profético da Igreja o serviço que os teólogos prestam ao
povo de Deus (cf. DI 7). Sua tarefa, enraizada na Palavra de Deus, realizada no
diálogo aberto com os pastores, em plena fidelidade ao magistério, é nobre e
necessária. Seu trabalho, assim realizado, pode contribuir para a inculturação
da fé e a evangelização das culturas, como também para nutrir uma teologia que
impulsione a pastoral, que promova a vida cristã integral, até a busca da
santidade. Um trabalho teológico assim compreendido impulsiona a ação em favor
da justiça social, dos direitos humanos e da solidariedade com os mais pobres.
Não esquecemos, sem embargo, que a função profética de Cristo é participada por
todo o "povo santo de Deus" e que este a exerce, em primeiro lugar,
"difundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de fé e
caridade" (LG 12). O testemunho doe vida crista é a primeira e
insubstituível forma de evangelização, como o fez presente vigorosamente Jesus
em várias ocasiões (cf. Mt 7, 21-23; 25, 31-46; Lc 10, 37; 19, 1-10) e o
ensinaram também os apóstolos (c£ Tg 2, 14-18).
Celebração litúrgica
34.
A Igreja santa encontra o sentido último de sua convocação na vida de oração,
louvor e ação de graças que o céu e a terra dirigem a Deus por "suas obras
grandes e maravilhosas" (Ap 15,3s; 7, 9-17). Esta é a razão pela qual a
liturgia "é o cume ao qual tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo,
é a fonte de onde emana a sua força" (SC 10). A liturgia é a ação do
Cristo total, Cabeça e membros, e, como tal, deve expressar o sentido mais
profundo de sua oblação ao Pai pelos homens. Assim como a celebração da Última
Ceia está essencialmente unida à vida e ao sacrifício de Cristo na Cruz e o faz
cotidianamente presente pela salvação de todos os homens, assim também, os que
louvam a Deus reunidos em torno do Cordeiro, são os que mostram em suas vidas
os sinais testemunhais da entrega de Jesus (cf. Ap 7,13s . Por isso, o culto
cristão deve expressar a dupla vertente da obediência ao Pai (glorificação) e
da caridade com os irmãos (redenção), pois a glória de Deus é que o homem viva.
Com o qual longe de alienar aos homens, os liberta e os faz irmãos.
35.
O serviço litúrgico, assim realizado na Igreja, tem, por si mesmo, um valor
evangelizador que a Nova Evangelização deve situar em lugar de grande destaque. Na liturgia se faz presente hoje Cristo
Salvador. A liturgia é o anúncio e realização (cf. SC 6) dos feitos salvíficos que nos chegam a tocar
sacramentalmente; por isso, convoca,
celebra e envia. É exercício da fé, útil tanto para quem tem uma fé robusta
como para j em tem fé débil, e inclusive ara o
não-crente (cf. lCor 14,24-25). Sustenta o compromisso com a promoção humana, enquanto orienta os fiéis a
assumir sua responsabilidade na construção do Reino, "para que se ponha
de manifesto que os fiéis cristãos, sem
ser deste mundo, são a luz do mundo" (SC 9). A celebração não pode ser
algo separado ou paralelo à vida (c£ 1Pd
1,15). por último, é especialmente pela liturgia
que o Evangelho penetra no coração mesmo das culturas. Toda a cerimônia
litúrgica de cada sacramento tem também um valor pedagógico; a linguagem dos
signos é o melhor veículo para que "a mensagem de Cristo penetre nas
consciências das pessoas e (daí) se projete no ethos de um povo, em suas atitudes vitais, em suas instituições e
em todas as suas estruturas" (DI 20 e; cf. João Paulo II, Disc. aos intelectuais, Medellín,
OS-07-86, 2). Por isto as formas da celebração litúrgica devem ser aptas para
expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, ser claras e inteligíveis
para os homens e mulheres ( João Paulo II, Discurso à UNESCO, 02-06-80, 6).
Religiosidade popular
36.
A religiosidade popular é uma expressão privilegiada da inculturação da fé.
Não se trata só de expressões religiosas mas também de valores, critérios,
condutas e atitudes que nascem do dogma católico e constituem a sabedoria de
nosso povo, formando-lhe a matriz cultural. Esta celebração da fé, tão
importante na vida da Igreja da América Latina e do Caribe, está presente em
nossa preocupação pastoral. As palavras de Paulo VI (EN 48), recebidas e
desenvolvidas pela Conferência de Puebla, em propostas claras, são ainda hoje
válidas (cf. Puebla, nº 444s). É necessário que reafirmemos nosso propósito de
continuar os esforços por compreender cada vez melhor e acompanhar com atitudes
pastorais, as maneiras de sentir e viver, compreender e expressar o mistério de
Deus e de Cristo por parte de nossos povos, para que purificadas de suas
possíveis limitações e desvios cheguem a encontrar seu lugar próprio em nossas
Igrejas locais e em sua ação pastoral.
Contemplação e compromisso
37.
Queremos concluir estas palavras acerca da Igreja como mistério de comunhão que
se realiza plenamente na santidade de seus membros, recordando e agradecendo a
Deus a vida contemplativa e monástica presente hoje na América Latina. A
santidade, que é desenvolvimento da vida de fé, de esperança e de caridade,
recebida no batismo, busca a contemplação do Deus que ama e de Jesus Cristo,
seu Filho. A oração profética não se entende, nem é verdadeira e autêntica,
senão a partir de um real e amoroso encontro com Deus que atrai
irresistivelmente (cf. Am 3,8; Jr 20,7-9; Os 2,16s). Sem uma capacidade de
contemplação, a liturgia, que é acesso a Deus através de sinais, se converte em
ação carente de profundidade. Agradecemos a Deus a presença de homens e
mulheres consagrados à contemplação em uma vida segundo os conselhos
evangélicos. São um sinal vivo da santidade de todo o povo de Deus e um chamado
poderoso a todos os cristãos a crescer na oração, como expressão de fé ardente
e comprometida, de amor fiel que contempla a Deus em sua vida íntima Trinitária
e em sua ação salvífica na história, e de inquebrantável esperança naquele que
há de voltar para introduzir-nos na glória de seu Pai, que é também nosso Pai
(cf. Jo 20,17).
Desafios pastorais
38.
As considerações acima acerca da santidade da Igreja, de seu caráter profético
e de sua vocação celebrativa, levam-nos a reconhecer alguns desafios que nos
parecem fundamentais, aos quais é preciso responder para que a Igreja seja na
América Latina e no Caribe plenamente o mistério da comunhão dos homens com
Deus e entre si.
Na
Igreja se multiplicam os grupos de oração, os movimentos apostólicos, formas
novas de vida e de espiritualidade contemplativa, além de diversas expressões
da religiosidade popular. Muitos leigos tomam consciência de sua
responsabilidade pastoral em suas diversas formas. Cresce o interesse pela
Bíblia, que exige uma pastoral bíblica adequada que dê aos fiéis leigos critérios
para responder às insinuações de uma interpretação fundamentalista ou a um
afastamento da vida na Igreja para refugiar-se nas seitas.
39.
Entre nós, católicos, o desconhecimento da verdade sobre Jesus Cristo e das
verdades fundamentais da fé é um fato muito freqüente e, em alguns casos, essa
ignorância está vinculada a uma perda do sentido do pecado. Freqüentemente a
religiosidade popular, apesar de seus imensos valores, não está purificada de
elementos alheios à autêntica fé cristã, nem leva sempre à adesão pessoal a
Cristo morto e ressuscitado.
40.
Pregamos pouco a respeito do Espírito que atua nos corações e os converte,
fazendo assim possível a santidade, o desenvolvimento das virtudes e o vigor
para tomar, a cada dia, a cruz de Cristo (cf. Ml 10,38; 16,24).
41.
Tudo isto nos obriga a insistir na importância do primeiro anúncio (querigma) e
na catequese. Damos graças a Deus pelos esforços de tantas e tantos catequistas
que cumprem seu serviço eclesial com sacrifício, selado, às vezes, com suas vidas.
Contudo, devemos reconhecer como pastores que ainda há muito por fazer. Existe
ainda muita ignorância religiosa, a catequese não chega a todos e muitas vezes
chega em forma superficial, incompleta quanto a seus conteúdos, ou puramente
intelectual, sem força para transformar a vida das pessoas e de seus ambientes.
42.
É notória a perda da prática da "direção espiritual", que seria muito
necessária para a formação dos leigos mais comprometidos, além de ser condição
para que amadureçam vocações sacerdotais e religiosas.
43.
Quanto à liturgia muito resta a ser feito tanto para assimilar em nossas
celebrações a renovação litúrgica desencadeada pelo Concílio Vaticano II, como
para ajudar os fiéis a fazer da celebração eucarística a expressão de seu compromisso
pessoal e comunitário com o Senhor. Ainda não se alcançou plena consciência do
que significa a centralidade da liturgia como fonte e cume da vida eclesial.
Perdeu-se para muitos o sentido do "dia do senhor" e da conseqüente
exigência eucarística. Persiste a pouca participação da comunidade cristã, e
surge quem queira se apropriar da liturgia sem considerar seu verdadeiro
sentido eclesial. Descuidou-se da séria e permanente formação litúrgica segundo
as instruções e documentos do magistério (cf. Carta apostólica Vicesimus quintos annus, 4), em todos os
níveis. Ainda não se dá atenção ao processo de uma sã inculturação da liturgia.
Isto faz com que as celebrações sejam ainda, para muitos, algo ritualista e
privado a ponto de não se fazerem conscientes da presença transformadora de
Cristo e de seu Espírito nem de traduzirem-na em um compromisso solidário para
a transformação do mundo.
44.
A conseqüência de tudo isto é uma falta de coerência entre a fé e a vida em
muitos católicos, incluídos, às vezes, nós mesmos ou alguns de nossos agentes
pastorais. A falta de formação doutrinal e de profundidade na vida de fé faz de
muitos católicos presa fácil do secularismo, do hedonismo e do consumismo que
invadem a cultura moderna e, em todo caso, os incapacita de evangelizá-1a.
Linhas pastorais
45.
A Nova Evangelização exige uma renovada espiritualidade que, iluminada pela fé
que se proclama, anime, com a sabedoria de Deus, a autêntica promoção humana e
seja o fermento de uma cultura cristã. Pensamos que é preciso continuar a
acentuar a formação doutrinal e espiritual dos fiéis cristãos, e, em primeiro
lugar, do clero, religiosos e religiosas, catequistas e agentes pastorais,
destacando claramente a primazia da graça de Deus que salva por Jesus Cristo na
Igreja, por meio da caridade vivida e através da eficácia dos sacramentos.
46.
É preciso anunciar de tal maneira a Jesus que o encontro com Ele leve ao
reconhecimento do pecado na própria vida e à conversão, em uma experiência
profunda da graça do Espírito recebido no batismo e na confirmação. Isto supõe
uma revalorização do sacramento da penitência, cuja pastoral deveria prolongar-se
na direção espiritual de quem mostra maturidade sufuciente para aproveitá-la.
47.
Devemos zelar para que todos os membros do povo de Deus assumam a dimensão
contemplativa de sua consagração batismal e "aprendam a orar",
imitando o exemplo de Jesus Cristo (c£ Lc 11,1), de maneira que a oração esteja
sempre integrada com a missão apostólica da comunidade cristã e do mundo. Diante
de muitos - inclusive cristãos - que buscam, em práticas alheias ao
cristianismo, respostas às suas ânsias de vida interior, devemos saber oferecer
a rica doutrina e a larga experiência que tem a Igreja.
48.
Uma tal evangelização de Cristo e de sua vida divina em nós deve mostrar a
exigência iniludível de acomodar a conduta ao modelo que Ele nos oferece. A
coerência da vida dos cristãos com sua fé é condição da eficácia da Nova
Evangelização. Para isso é necessário conhecer bem as situações concretas
vividas pelo homem contemporâneo para oferecer-lhe a fé como elemento iluminador.
Isto supõe também uma clara pregação da moral crista que abrange tanto a
conduta pessoal e familiar quanto a social. A prática de pequenas comunidades
pastoralmente bem assistidas constitui um bom meio para aprender a viver a fé
em estreita comunhão com a vida e com a perspectiva missionária. Neste campo é
muito significativamente, também, a contribuição dos movimentos apostólicos.
49.
A Nova Evangelização deve acentuar uma catequese querigmática e missionária.
Requerem-se, para a vitalidade da comunidade eclesial, mais catequistas e
agentes pastorais, dotados de sólido conhecimento da Bíblia, que os capacite
para lê-1a, à luz da Tradição e de Magistério da Igreja e para iluminar, a partir
da Palavra de Deus, sua própria realidade pessoal, comunitária e social. Eles
serão instrumentos especialmente eficazes da inculturação do Evangelho. Nossa
catequese tem de ter um itinerário contínuo que vá desde a infância até à idade
adulta, utilizando os meios mais adequados para cada idade e situação. Os
catecismos são subsídios muito importantes para a catequese. São, ao mesmo
tempo, caminho e fruto de um processo de inculturação da fé. O Catecismo da Igreja católica, já anunciado
pelo Papa João Paulo II, orientará a elaboração de nossos futuros catecismos.
50.
A função profética da Igreja, que anuncia Jesus Cristo, deve mostrar sempre os
sinais da verdadeira "valentia" (parresía: cf. At 4,13; 1Ts 2,2) em
total liberdade diante de qualquer poder deste mundo. Parte necessária de toda
pregação e de toda catequese deve ser a Doutrina Social da Igreja, que
constitui a base e o estímulo da autêntica opção preferencial pelos pobres.
51.
Nossas Igrejas locais, que se expressam plenamente na liturgia e em primeiro
lugar na Eucaristia, devem promover uma séria e permanente formação litúrgica
do povo de Deus em todos os seus níveis, a fim de ele que possa viver a
liturgia espiritual, consciente e ativamente. Esta formação deverá ter em conta
a presença viva de Cristo na celebração, seu valor pascal e festivo, o papel
ativo que cabe à Assembléia e seu dinamismo missionário. Uma preocupação
especial deve ser promover e dar uma séria formação a quem esteja encarregado
de dirigir a oração e a celebração da Palavra na ausência do sacerdote.
Parece-nos, enfim, que é urgente dar ao domingo, aos tempos litúrgicos e à
celebração da Liturgia das Horas todo seu sentido e força evangelizadora.
52.
A celebração comunitária deve ajudar a integrar em Cristo e em seu mistério os
acontecimentos da própria vida, deve fazer crescer na fraternidade e na
solidariedade, deve atrair a todos.
53.
Temos de promover uma liturgia, que em total fidelidade ao espírito que o
Concílio Vaticano II quis recuperar em toda sua pureza, busque, dentro das
normas dadas pela Igreja, a adoção das formas, sinais e ações próprios das
culturas da América Latina e Caribe. Nesta tarefa dever-se-á dar uma especial
atenção à valorização da piedade popular, que encontra sua expressão
especialmente na devoção à Santíssima Virgem, nas peregrinações aos santuários
e nas festas religiosas, iluminadas pela Palavra de Deus. Se nós, os pastores,
não nos empenhamos a fundo em acompanhar as expressões de nossa religiosidade
popular, purificando-as e abrindo-as a novas situações, o secu1arismo
impor-se-á mais fortemente em nosso povo latino-americano e a inculturação do
Evangelho será mais difícil.
1.2.
Comunidades aclesiais vivas e dinâmicas
54.
"Que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, que eles estejam
em Nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17,21). Esta é ai
oração de Jesus Cristo por sua Igreja. Ele pediu pra ela que viva a unidade,
segundo o modelo da unidade trinitária (cf. GS 24). Assim procuraram viver os
primeiros cristãos em Jerusalém.
Conscientes
de que o momento histórico que vivemos exige que delineemos "o rosto de
uma Igreja viva e dinâmica que cresce na fé, se santifica, ama, sofre, se
compromete e espera em seu Senhor" (João Paulo II, DI 25), queremos voltar
a descobrir o Senhor Ressuscitado que hoje vive em sua Igreja, se entrega a
ela, santifica-a (cf, Ef 5,25-26) e a faz sinal da união de todos os homens
entre si e destes com Deus (cf. LG 1).
Queremos
refletir este "rosto" em nossas Igrejas particulares, paróquias e
demais comunidades cristas. Buscamos dar impulso evangelizador a nossa Igreja a
partir de uma vivência de comunhão e participação que já se experimenta em
diversas formas de comunidades existentes em nosso continente.
1.2.1.
A Igreja particular
55.
As Igrejas particulares têm como missão prolongar para as diversas comunidades
"a presença e a ação evangelizadora de Cristo (P 224) já que estão "formadas à imagem da Igreja universal
nas quais e, a partir das quais, existe uma só e única Igreja Católica (LG23).
A
Igreja particular e chamada a viver o dinamismo de comunhão missão, "a
comun5ão e a missão estão profundamente unidas entre si; se compenetram e se
implicam mutuamente, ao ponto de a comunhão representar, ao mesmo tempo, a
fonte e o fruto da missão... sempre o único e idêntico Espírito o que convoca e
une a Igreja e o que a envia a pregar o Evangelho até os confins da terra ChL
32),
A
Igreja particular igualmente "comunhão orgânica.,. caracterizada pela
simultânea presença da diversidade e da complementaridade das vocações e
condições de vida, dos mistérios, dos carismas e das responsabilidades"
(Ch L 20).
"Na
unidade da Igreja local, que tem origem na Eucaristia, se encontra todo o
Colégio episcopal com o Sucessor de Pedro à frente, como pertencendo à própria
essência da Igreja particular. Em torno do Bispo e em perfeita comunhão com
ele, devem florescer as paróquias e as comunidades cristãs como células vivas e
pujantes de vida eclesial" (João Paulo II, DI 25).
A
Igreja particular, conforme o seu ser e a sua missão, por congregar o povo de
Deus de um lugar ou região, conhece de perto a vida, cultura, os problemas de
seus integrantes e é chamada a gerar ali com todas as forças, sob a ação do
Espírito, a Nova Evangelização, a promoção humana, a inculturação da fé (cf.
RMi 54).
56.
Em geral, nossas dioceses carecem de suficientes e qualificados agentes de
pastoral. Muitas delas ainda não possuem um claro e verdadeiro planejamento
pastoral. É urgente avançar no caminho da comunhão e participação, que, muitas
vezes, é dificultado pela falta do sentido de Igreja e do autêntico espírito
missionário. 57. Por isso é indispensável:
-
Promover o aumento e a adequada formação dos agentes para os diversos campos da
ação pastoral, conforme a eclesiologia do Vaticano II e o Magistério posterior.
-
Impulsionar processos globais, orgânicos e planificados que facilitem e
promovam a integração de todos os membros do povo de Deus, das comunidades e
dos diversos carismas, e os oriente à Nova Evangelização, inclusive a missão ad gentes.
1.2.2.
A paróquia
58.
A paróquia, comunidade de comunidades e movimentos, acolhe as angústias e
esperanças dos homens, anima e orienta a comunhão, participação e missão.
"Não é principalmente uma estrutura, um território, nem edifício, é a
família de Deus, como uma fraternidade animada pelo Espírito de
unidade"... "A paróquia se funda sobre uma realidade teológica porque
ela é uma comunidade eucarística"... "A paróquia é comunidade de fé
e uma comunidade orgânica... na qual o pároco, que representa o bispo
diocesano, é o vínculo hierárquico com toda a Igreja particular" (ChL 26).
Se
a paróquia é a Igreja que se encontra entre as casas dos homens, então ela vive
e trabalha profundamente inserida na sociedade humana e intimamente solidária
com suas as ira es e dificuldades.
A
paróquia tem a missão de evangelizar, de celebrar a liturgia, de fomentar a
promoção humana, de fazer progredir a inculturação da fé nas famílias, nas
CEBs, nos grupos e movimentos apostólicos, e através deles em toda a sociedade.
A
paróquia, comunhão orgânica e missionária, é assim uma rede de comunidades.
59.
Mas ainda é lento o processo de renovação da paróquia em seus agentes de
pastoral e na participação dos fiéis leigo .
É
urgente e indispensável dar solução às interrogações que apresentam às
paróquias urbanas, para que estas possam responder aos desafios da Nova
Evangelização. Há defasagem entre o ritmo da vida moderna e os critérios que
ordinariamente animam 60. Temos que pôr em prática estas grandes linhas:
-
Renovar as paróquias a partir de estruturas que permitam setorial a pastoral,
mediante pequenas comunidades eclesiais nas quais apareça a responsabilidade
dos fiéis leigos.
-
Qualifica a formação e participa dos leigos, capacitando-os alho nas situações
específicas onde vivem ou atuam.
-
Nas Paróquias urbanas, se devem privilegiar planos de conjunto em zonas
homogêneas para organizar serviços ágeis que facilitem a Nova Evangelização.
-
Renovar sua capacidade de acolhida e seu dinamismo missionário com os fiéis
marginalizados e multiplicar a presença física da paróquia mediante a criação
de capelas e pequenas comunidades.
1.2.3.
As Comunidades Eclesiais de Base
61.
A Comunidade Eclesial de Base é célula viva da paróquia entendida esta como
comunhão orgânica e missionária.
CEB,
em si mesma, ordinariamente integrada por nucas amplias, é chamada a viver como
comunidade de fé, de culto e de amor, será animada por leigos, homens e
mulheres adequadamente preparados no mesmo processo comunitário; os animadores
estarão em comunhão com o pároco respectivo e o bispo. "As Comunidades
Eclesiais de Base devem caracterizar-se, sempre, por uma decidida projeção
universal e missionária que lhes inspire um renovado dinamismo apostólico"
(João Paulo II, DI 25). "São sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de
formação e de evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade
fundada sobre a civilização do amor" (RM 51).
62.
Quando não existe uma clara fundamentação eclesiológica e uma busca sincera de
comunhão, estas comunidades deixam de ser eclesiais e podem ser vítimas de
manipulação ideológica e política.
63.
Consideramos necessário:
-
Ratificar a validade das Comunidades Eclesiais de Base, fomentando nelas um
espírito missionário e solidário, e buscando sua integração com a paróquia, com
a diocese e com a Igreja universal, em conformidade com os ensinamentos da Evangelii Nuntiandi (58).
-
Elaborar planos de ação pastoral que assegurem a preparação dos animadores
leigos que assistem a estas comunidades, em íntima comunhão com o pároco e o
bispo.
1.2.4.
A família cristã
64.
A família cristã é a "igreja doméstica", primeira comunidade
evangelizadora. "Apesar do problemas que em nossos dias afligem o
matrimônio e a instituição familiar, esta, como célula primeira e vital da
sociedade, pode gerar grandes energias que são necessárias para o bem da
humanidade" (DI 18). É necessário fazer da pastoral familiar uma
prioridade básica, sentida, real e atuante. Básica, como fronteira da Nova
Evangelização. Sentida, isto é, acolhida e assumida por toda a comunidade
diocesana. Real, porque será respaldada, concreta e decididamente no
acompanhamento do bispo diocesano e seus párocos. Atuante significa que deve
estar inserida numa pastoral orgânica. Esta pastoral deve estar em sincronia
com instrumentos pastorais e científicos. Necessita ser acolhida a partir de
seus próprios carismas pelas comunidades religiosas e os movimentos em geral.
1.3.
Na unidade do Espírito e com diversidade de ministérios e carismas
65.
O batismo nos constitui povo de Deus, membros vivos da Igreja. Pela ação do
Espírito Santo participamos de todas as riquezas da graça que o Ressuscitado
nos doa.
É
o espírito que nos dá a possibilidade de reconhecer Jesus como Senhor e nos
leva a construir a unidade da Igreja, a partir de distintos carismas que Ele
nos confia para "proveito comum" (cf. lCor 12,3-11). Eis nossa
grandeza e nossa responsabilidade. Ser portadores da mensagem salvadora para os
demais.
66.
Assim, o ministério salvífico de Cristo (cf. Ml 20,28; Jo 10,10) se atualiza
através do serviço de cada um de nós. Existimos e servimos a uma Igreja rica em
ministérios.
1.3.1.
Os ministérios ordenados
67.
O ministério dos bispos, em comunhão com o sucessor de Pedro, e o dos
presbíteros e diáconos é essencial para que a Igreja responda ao desígnio
salvífico de Deus pelo anúncio da palavra, pela celebração dos sacramentos e
pela guia pastoral. O ministério ordenado é sempre um serviço à humanidade com
vistas ao Reino. Recebemos "a força do Espírito Santo" (c£ At 1,8)
para sermos testemunhas de Cristo e instrumentos de vida nova. Voltemos a
escutar hoje a voz do Senhor que, com os desafios do momento atual, nos chama e
envia; queremos permanecer fiéis ao Senhor e aos homens e mulheres, sobretudo
os mais pobres, para cujo serviço fomos consagrados.
a) O desafio da unidade
68.
O Concílio nos recordou a dimensão comunitária de nosso ministério:
colegialidade episcopal, comunhão presbiteral, unidade entre os diáconos. A
nível continental e em cada uma de nossas Igrejas particulares, já existem
organismos de integração e coordenação. É notório o esforço de unidade com os
religiosos que partilham os esforços pastorais em cada diocese. Reconhecemos,
sem dúvida, causas de preocupação em nossas Igrejas particulares: divisões e conflitos
que nem sempre refletem a unidade querida pelo Senhor.
Por
outro lado, a escassez de ministros e a sobrecarga de trabalho que o exercício
do ministério impõe a alguns fazem com que muitos permaneçam isolados.
Faz-se
portanto necessário viver a reconciliação na Igreja, percorrer ainda o caminho
de unidade e de comunhão de nós, os pastores, entre nós e com as pessoas e
comunidades a nós confiadas.
69.
Por isso nos propomos:
-
Manter as estruturas a serviço da comunhão entre os ministros ordenados,
prestando especial atenção aos respectivos papéis subsidiários, sem detrimento
das competência próprias, em conformidade com o direito da Igreja. Segundo as
necessidades e o que ensina a experiência, tais estruturas podem ser revistas e
redimensionadas pelo esclarecimento de sua competência e natureza. Entre estas
instâncias estão as conferências episcopais, as províncias e regiões
eclesiásticas, os conselhos presbiterais e, em nível continental, o CELAM.
-
Na formação inicial dos futuros pastores e na formação permanente dos bispos,
presbíteros e diáconos queremos impulsionar, muito especialmente, o espírito de
unidade e comunhão.
b) A exigência de uma vida espiritual
profunda
70.
O sacerdócio procede da profundidade do inefável mistério de Deus. Nossa existência
sacerdotal nasce do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e da ação
santificadora e unificante do Espírito Santo; esta mesma existência se vai
realizando para o serviço de uma comunidade, a fim de que todos se façam dóceis
à ação salvadora de Cristo (cf. Ml 20,28, PDV 12).
O
Sínodo Episcopal de 1990 e a exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis, delinearam claramente as notas características
de uma espiritualidade sacerdotal, insistindo profundamente sobre na caridade
pastoral (cf. PDV, cap 3).
71.
Por estas razões nos propomos:
-
Buscar em nossa oração litúrgica e particular e em nosso ministério uma
permanente e profunda renovação espiritual para que nos lábios, no coração e na
vida de cada um de nós Jesus Cristo esteja sempre presente.
-
Crescer no testemunho de santidade de vida a que somos chamados com a ajuda dos
meios que já temos em nossas mãos:
"Os
encontros de espiritualidade sacerdotal, como os exercícios espirituais, os
dias de retiro ou de espiritualidade" (PDV 80) e outros recursos assinalados
no Documento Pontifício pós-sinodal.
c) A urgência da formação permanente
72.
São Paulo recomenda a seu discípulo que reavive o dom que recebeu pela
imposição das mãos (c£ 2Tm 1,6). João Paulo II nos lembrou que a Igreja
necessita apresentar modelos fidedignos de sacerdotes que sejam ministros
convencidos e fervorosos da Nova Evangelização (cf. PDV 8 e cop. 6).
Há
uma consciência crescente de necessidade e integralidade da formação
permanente, entendida e aceita como caminho de conversão e meio para a
fidelidade. As implicações concretas desta formação para o compromisso do
sacerdote com a Nova Evangelização exigem criar laços concretos que a possam
assegurar. Cada vez aparece com mais clareza a necessidade de acompanhar o
processo de crescimento, tentando fazer com que os desafios, que o secularismo
e a injustiça suscitam possam ser assimilados e respondidos a partir da
caridade pastoral. Igual atenção temos de prestar aos sacerdotes idosos ou
enfermos.
73.
Consideramos importante:
-
Elaborar projetos e programas de formação permanente para bispos, sacerdotes e
diáconos, as comissões nacionais do clero e os conselhos presbiterais.
-
Motivar e apoiar todos os ministros ordenados para uma formação permanente
estruturada conforme as orientações do magistério pontifício.
d) A indispensável aproximação a nossas
comunidades
74.
O Bom Pastor conhece suas ovelhas e por elas é conhecido (cf. Jo 10,14). Servos
da comunhão, queremos velar por nossas comunidades com entrega generosa, sendo
modelos para o rebanho (cf. 1Pd 5,1-5). Queremos que nosso serviço humilde faça
sentir a todos que fazemos presente a Cristo Cabeça, Bom Pastor e Esposo da
Igreja (cf. PDV 10).
A
aproximação com cada uma das pessoas permite aos pastores partilhar com elas as
situações de dor e ignorância, de pobreza e marginalização, as aspirações de
justiça e libertação. É todo um programa para viver melhor nossa condição de
ministros da reconciliação (cf. 2Cor 5,18), dando a cada um motivos de esperança
(cf. 1Pd 3,15), pelo anúncio salvador de Jesus Cristo (cf. G1 5,1).
75.
- Nós, bispos, nos propomos organizar melhor uma pastoral de acompanhamento de
nossos presbíteros e diáconos, para apoiar os que se encontram em ambientes
especialmente difíceis. Todos os ministros queremos conservar uma presença
humilde e acessível no meio de nossas comunidades, para que todos possam sentir
a misericórdia de Deus. Queremos ser testemunhas de solidariedade com nossos
irmãos.
e)
A atenção aos diáconos permanentes
76.
O ministério dos diáconos é de importância para o serviço de comunhão na
América Latina. Eles são, de forma muito privilegiada, sinais do Senhor Jesus
"que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em
resgate por muitos" (Ml 20,28). Seu serviço será o testemunho evangélico
diante de uma história em que a iniqüidade se faz presente cada vez mais e se
esfria a caridade (cf. Ml 24,12).
Para uma Nova Evangelização que, pelo
serviço da Palavra e a Doutrina
Social da Igreja, responda às necessidades de promoção humana e vá gerando uma
cultura de solidariedade, o diácono permanente, por sua condição de ministro
ordenado e inserido nas complexas situações humanas, tem um amplo campo de
serviço em nosso Continente.
77.
- Queremos reconhecer nossos diáconos mais pelo que são do que pelo que fazem.
-
Queremos acompanhar a nossos diáconos no discernimento para que tenham uma
formação inicial e permanente, adequada a sua condição.
-
Continuaremos nossa reflexão sobre a espiritualidade própria dos diáconos,
fundamentada em Cristo servo, para que vivam com profundo sentido de fé sua
entrega à Igreja e sua integração com o presbitério diocesano.
-
Queremos ajudar aos diáconos casados para que sejam fiéis a sua dupla
sacramentalidade: a do matrimônio e a da ordem e para que suas esposas e filhos
vivam e participem com eles na diaconia. A experiência de trabalho e seu papel
de pais e esposos, constituem-nos colaboradores muito qualificados para abordar
diversas realidades urgentes em nossas Igrejas particulares.
-
Propomo-nos criar os espaços necessários para que os diáconos colaborem na
cação dos serviços na Igreja, detectando e promovendo lideres, estimulando a
corresponsabilidade de todos para uma cultura da reconciliação e
solidariedade. Há situações e lugres, principalmente nas zonas rurais
distantes, e nas grandes áreas urbanas densamente povoadas, onde só através do
diácono o ordenado se faz presente.
1.3.2.
As vocações ao ministério presbiteral e
os seminários
78.
"Naqueles dias, ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em
oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles
escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos” (Lc 6,12-13;Mc 3,13-14).
"Ao
ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como
ovelhas sem pastor" (Ml 9,36-38).
No
marco de uma Igreja "comunhão para a missão", o Senhor, que nos chia
todos à santidade, chama todos à santidade, chama alguns para o serviço
sacerdotal.
a) A pastoral vocacional uma prioridade
79.
Estamos diante de fatos inegáveis: há um aumento das vocações sacerdotais,
cresceu o interesse por uma pastoral que apresente aos jovens, m clareza, a
possibilidade de um chamado do Senhor.
Mas
os jovens chamados não podem escapar às mudanças familiares, culturais,
econômicos e sociais do momento. A desintegração
familiar pode impedir uma experiência de amor que prepara para a entrega
generosa de toda a vida. O contágio de uma sociedade lesiva" e consumiste
não favorece uma vida de austeridade e sacrifício. Pode acontecer que a
motivação vocacional esteja, sem que o candidato o queira, viciada por razões
não evangélicas.
88-
Por isso apoderamos muito importante:
-
Estruturar uma pastoral vocacional inserida na pastoral orgânica da diocese,
em estreita vinculação com a pastoral familiar e a da juventude. É agente
preparar agentes e encontrar recursos para este campo de pastoral e apoiar o
compromisso dos leigos na promoção de vocações consoada
-
Fundamentar a pastoral vocacional na oração, na freqüência dos sacramentos da
Eucaristia e da Penitência, na catequese da confirmação, na devoção mariana no
acompanhamento com a direção espiritual e num compromisso missionário concreto:
estes são os principais meios que auxiliarão os jovens em seu discernimento.
-
Procurar estimular as vocações provenientes de todas as culturas presentes em
nossas Igrejas particulares. O Papa nos convidou a prestar atenção de vocações
indígenas (Mensagem aos indígenas, 6) e
(Mensagem aos afro-americanos, 5).
81.
Mantêm sua validade os seminários menores e centros afins devidamente adaptados
às condições da época atual para os jovens dos últimos anos do curso médio, nos
quais começa a manifestar-se um forte desejo de optar pelo sacerdócio. Em
alguns países e em ambientes familiares deteriorados, são necessárias estas
instituições para que os jovens cresçam em sua vivência cristã e possam fazer
uma opção vocacional mais duradoura.
82.
Ante o ressurgimento de vocações entre os adolescentes, é tarefa nossa uma
adequada promoção, discernimento e formação.
-
Em nossa pastoral vocacional teremos muito em conta as palavras do Santo Padre:
"Condição indispensável para a Nova Evangelização é poder contar' com
evangelizadores numerosos e qualificados. Por isso, a promoção das vocações
sacerdotais e religiosas... há de ser uma prioridade dos bispos e um compromisso
de todo o povo de Deus" (DI 26).
b) Os seminários
83.
Sinal de alegria e de esperança é o nascimento de seminários maiores em nosso
continente e o aumento do número de alunos neles.
Em
geral, trabalha-se por um ambiente favorável à direção espiritual e procura-se
atualizar a formação, especialmente pastoral, dos futuros sacerdotes.
Preocupa,
no entanto, a dificuldade para reunir a equipe de formadores adequada às
necessidades de cada seminário, em detrimento da qualidade da formação.
Em
muitos casos, o meio social do qual provêm os candidatos "os marca"
com modos de vida muito secularizados ou os faz chegar ao seminário com
limitações em sua formação humana ou intelectual quando não nos fundamentos de
sua fé cristã.
84.
Diante destas realidades nos propomos:
-
Assumir plenamente as diretrizes da exortação pós-sinodal Pastores dobo vobis e rever, a partir dela, nossas "Normas
básicas para a formação sacerdotal" (Ratio
fundamentalis) em cada país. - Selecionar e preparar formadores, aproveitando
os cursos oferecidos pelo CELAM e outras instituições. Antes de abrir um
seminário é necessário assegurar a presença da equipe de formadores.
-
Rever a orientação da formação oferecida em cada um dos nossos seminários para
que corresponda às exigências da Nova Evangelização, com suas conseqüências
para a promoção humana e a inculturação do Evangelho. Sem atenuar as
exigências de uma séria formação integral, dispensar particular interesse ao
desafio representado pela formação sacerdotal daqueles candidatos provindos de
culturas indígenas e afro-americanas.
-
Procurar uma formação integral que desde o seminário disponha para a formação
permanente do sacerdote.
1.3.3.
A vida consagrada
85.
A vida consagrada, que como dom do Espírito Santo, pertence à vida íntima e
santa da Igreja (LG 44; EN 69), é manifestada pelo testemunho heróico de muitos
religiosos e religiosas que a partir de sua singular aliança com Deus fazem
presente, em todas as situações, até as mais difíceis, a força do Evangelho.
Pela
vivência fiel dos conselhos evangélicos, participam do mistério e da missão de
Cristo, irradiam os valores do Reino, glorificam a Deus, animam a própria
comunidade eclesial e interpelam à sociedade (cf. Lc 4,14-21; 9,1-6). Os
conselhos evangélicos têm uma profunda dimensão pascal, já que supõem uma
identificação com Cristo, em sua morte e ressurreição (João Paulo II, Os
caminhos do Evangelho, n. 7).
Por
sua experiência testemunhal, a vida religiosa "há de ser sempre
evangelizadora para que os necessitados da luz da fé acolham com alegria a
Palavra da Salvação; para que os pobres e mais desprezados sintam a proximidade
da solidariedade fraterna; para que os marginalizados e abandonados
experimentem o clamor de Cristo; para que
os sem voz se sintam escutados; para
que os tratados injustamente encontrem defesa e ajuda" (João Paulo II,
Homilia na Catedral de Santo Domingo, 10.10.92, n. 8). A Virgem Maria, que
pertence tão profundamente à identidade cristã de nossos povos
latino-americanos (cf. Puebla 283), é modelo de vida para os consagrados e
apoio seguro de sua fidelidade.
Na
base do Concílio Vaticano II e sob o impulso de Medellín e Puebla, houve um
esforço de renovação dos religiosos, uma "volta às fontes" e à
primitiva inspiração dos institutos (cf. Per fectae Caritatis, n. 2). As conferências de Superiores Maiores
desempenham importante papel para a vida consagrada; respeitando o fim e o
espírito de cada instituto, tratam de assuntos comuns e estabelecem a
conveniente cooperação com os pastores da Igreja (cf. CIC 708).
A
vida consagrada, dom peculiar de Deus à sua Igreja, é necessariamente eclesial
e enriquece as Igrejas particulares. Os religiosos da América Latina renovam
sua adesão ao Papa. A partir das disposições de Mutuae relationes, é preciso um esforço de maior conhecimento
recíproco entre as diversas formas de vida consagrada nas Igrejas particulares.
86.
De singular fecundidade evangelizadora e missionária é a vida contemplativa;
ela dá testemunho com toda a sua vida da primazia do absoluto de Deus. Com
alegria constatamos o aumento de suas vocações e o envio a outros países.
87.
A experiência dos institutos seculares é significativa e eles estão em
crescimento. Por sua consagração buscam harmonizar os valores autênticos do
mundo contemporâneo com o seguimento de Jesus vivido a partir da secularidade;
hão de ocupar, pois, um lugar de destaque no trabalho da Nova Evangelização
para a promoção humana e a inculturação do Evangelho.
88.
As sociedades de vida apostólica também contribuem generosamente com esta
tarefa de evangelização e são chamadas a manter suas características
específicas de vida apostólica.
89.
Outra forma de consagração é a das virgens consagradas a Deus pelo bispo
diocesano, esposas místicas de Jesus Cristo, que se entregam ao serviço da
Igreja (cf. CIC 604,1).
90.
A mulher consagrada contribui para impregnar de Evangelho nossos processos de
promoção humana integral e dinamiza a pastoral da Igreja. Ela é freqüentemente
encontrada nos lugares de missão que oferecem maior dificuldade e é
especialmente sensível ao clamor dos pobres. Por isto é necessário dar-lhe mais
responsabilidade na programação da ação pastoral e caritativa.
91.
"A obra de evangelização (disse o Papa) na América Latina tem sido, em
grande parte, fruto do vosso serviço missionário... Também em nossos dias, os
religiosos e religiosas representam uma força evangelizadora e apostólica
primordial no continente latino-americano" (João Paulo II, Os caminhos do Evangelho, 29.6.90, n.
2.3).
Em
sua carta aos religiosos da América Latina (29.6.9(j), o Santo Padre lhes
apresenta os seguintes pontos: seguir "na vanguarda da pregação, dando
sempre testemunho do Evangelho da Salvação" (n. 24). "Evangelizar a
partir de uma profunda experiência de Deus " (n. 25). "Manter vivos os
carismas dos fundadores" (n. 26). "Evangelizar em estreita
colaboração com os bispos, com os sacerdotes e com os leigos, dando exemplo de
renovada comunhão" (n. 27). Estar na vanguarda da evangelização das
culturas (n. 28). Responder à necessidade de evangelizar para além de nossas
fronteiras.
Linhas pastorais
92.
A respeito da vida consagrada, esta IV Conferência assinala os seguintes
compromissos e linhas de ação pastoral:
-
Reconhecer a vida consagrada como um dom para nossas Igrejas particulares.
- Fomentar
a vocação à santidade nas religiosas e religiosos, valorizando sua vida por sua
própria existência e testemunho. Por isso queremos respeitar e fomentar a
fidelidade a cada carisma fundacional como contribuição à Igreja.
-
Dialogar nas comissões mistas e em outros organismos previstos no Documento da
Santa Sé Mutuae relationes para
responder às diversas tensões e conflitos a partir da comunhão eclesial.
Queremos que em nossos seminários se fomente o conhecimento da teologia da vida
religiosa e que, nas casas de formação dos religiosos, se dê especial
importância à teologia da Igreja particular presidida pelo bispo e, além
disso, o conhecimento da espiritualidade específica do sacerdote diocesano.
-
Queremos apoiar as iniciativas dos Superiores Maiores em favor de uma formação
inicial e permanente e de um acompanhamento espiritual dos religiosos e
religiosas para que estes possam responder aos desafios da Nova Evangelização.
Trataremos de estimular um espírito missionário que desperte nos religiosos o
desejo de servir para além de "nossas fronteiras."
-
Apoiar e assumir o ser e a presença missionária dos religiosos na Igreja
particular sobretudo quando sua opção pelos pobres os leva a postos de
vanguarda de maior dificuldade ou de inserção mais comprometida.
93.
Procurar que os religiosos e religiosas que se encontram trabalhando
pastoralmente na Igreja particular o façam sempre em perfeita comunhão com o
bispo e os presbíteros.
1.3.4.
Os fiéis leigos na Igreja e no mundo
94.
O Povo de Deus está constituído em sua maioria por fiéis leigos. Eles são
chamados por Cristo como Igreja, agentes e destinatários da Boa Nova da
Salvação, a exercer no mundo, vinha de Deus, uma tarefa evangelizadora
indispensável. A eles se dirigem hoje as palavras do Senhor "Ide também
vós para a vinha" (Ml 20, 3-4) e estas outras: “Ide por todo o mundo,
proclamai o Evangelho a toda criatura"(Mc 16,15; tf ChL33).
Como
conseqüência do batismo os fiéis estão inseridos em Cristo e são chamados a
viver o tríplice ministério sacerdotal, profético e real. Esta vocação deve ser
fomentada constantemente pelos pastores das Igrejas particulares.
a) Os leigos hoje em nossas Igrejas
95.
Hoje, como sinal dos tempos, vemos um grande número de leigos comprometidos com
a Igreja que exercem diversos ministérios, serviços e funções nas comunidades
eclesiais de base ou atividades nos movimentos eclesiais. Cresce sempre mais a
consciência de sua responsabilidade no mundo e na missão ad gentes. Os pobres evangelizam os pobres.
Os
fiéis leigos comprometidos manifestam uma sentida necessidade de formação e de
espiritualidade.
%.
Comprova-se, porém, que a maior parte dos batizados ainda não tomou plena
consciência de sua pertença à Igreja. Sentem-se católicos, mas não Igreja.
Poucos assumem os valores cristãos cromo elemento de sua identidade cultural,
não sentindo a necessidade de um compromisso eclesial e evangelizador. Como
conseqüência disto, o mundo do trabalho, da política, da economia, d.e
ciência, da arte, da literatura e dos meios de comunicação social não são
guiados por critérios evangélicos. Assim se explica a incoerência entre a fé
que dizem professar e o compromisso real na vida (cf. Puebla 783).
Também
se comprova que os leigos nem sempre são adequadamente acompanhados pelos
Pastores no descobrimento e amadurecimento de sua própria vocação.
A
persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral,
clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla 784), a dedicação preferencial de
muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e -uma deficiente formação, privam-nos
de dar respostas eficazes aos desafios atuais da sociedade.
b) Os desafios para os leigos
97.
As urgências do momento presente na América Latina e no Caribe reclamam:
Que
todos os leigos sejam protagonistas da Nova Evangelização, da Promoção Humana e
da Cultura Cristã. É necessária a constante promoção do laicado, livre de todo
clericalismo e sem te dação ao intra-eclesial.
Que
os batizados não evangelizados sejam os principais destinatários da Nova
Evangelização. Esta só será efetivamente levada a cabo se os leigos,
conscientes de seu batismo, responderem ao chamado de Cristo a que se convertam
em protagonistas da Nova Evangelização.
No
marco da comunhão eclesial, urge um esforço de favorecer, a busca de Santidade
dos leigos e o exercício de sua missão.
c) Principais linhas pastorais
98.
Incrementar uma vivência da Igreja-comunhão, que nos leve à co-responsabilidade
na ação da Igreja. Fomentar a participação dos leigos nos Conselhos Pastorais,
nos diversos níveis da estrutura eclesial. Evitar que os leigos reduzam sua
ação ao âmbito intra-eclesial, impulsionando-os a penetrar os ambientes sócio
culturais e a serem eles os protagonistas da transformação da sociedade à luz
do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Promover os conselhos de leigos,
em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de
encontro, diálogo e serviço, que contribuam ao fortalecimento da unidade, da
espiritualidade e da organização do laicato. Estes conselhos de leigos também
são espaços de formação e podem estabelecer-se em cada diocese na Igreja de
cada pais e abarcar tanto os movimentos de apostolado como os leigos que,
estando comprometidos com a Evangelização, não estão integrados em grupos
apostólicos.
99.
Incentivar uma formação integral, gradual e permanente dos leigos mediante
organismos que facilitem "a formação de formadores" e programem
cursos e escolas diocesanas e nacionais, dispensando particular atenção à
formação dos pobres (cf. ChL 63).
Os
pastores procuraremos, como objetivo pastoral imediato, fomentar a preparação
de leigos que se sobressaiam no campo da educação, da política, dos meios de
comunicação social, da cultura e do trabalho. Estimularemos uma pastoral
específica para cada um destes campos, de maneira que os que nelas estiverem
presentes sintam todo o respaldo de seus pastores. Estarão incluídos também os
militares a quem corresponde sempre estar a serviço da liberdade, da
democracia e da paz dos povos (cf. GS 79).
Tendo
presente que a santidade é um chamado a todos os cristãos, os pastores
procurarão os meios adequados que favoreçam aos leigos uma autêntica
experiência de Deus. Incentivarão também publicações específicas de
espiritualidde laical.
100.
Favorecer a organização dos leigos em todos os níveis da estrutura pastoral,
baseada nos critérios de comunhão e participação, respeitando "a
liberdade de associação dos fiéis leigos na Igreja" cf. ChL 29-30)
d) Ministérios conferidos aos leigos
101·
O documento de Puebla recolheu a experiência do Continente no que diz respeito
aos ministérios conferidos aos leigos e deu orientações claras para que, de
acordo com os carismas de cada pessoa e as necessidades de cada comunidade, se
fomentasse "uma especial criatividade no estabelecimento de ministérios e
serviços que possam ser exercidos por leigos, de acordo com as necessidades da
evangelização" (P 833; c£ 804-805; 811-817).
O
Sínodo dos Bispos em 1987 e a Exortação apostólica Christifideles laici têm insistido na importância de mostrar que
estes ministérios "têm seu fundamento sacramental no batismo e na
confirmação" (ChL 23).
Fiéis
às orientações do Santo Padre, queremos continuar fomentando estas
experiências que dão ampla margem de participação aos leigos (cf. ChL 21-23) e
respondem às necessidades de muitas comunidades que, sem esta valiosa
colaboração, careceriam de todo acompanhamento na catequese, na oração e na
animação de seus compromissos sociais e caritativos.
Consideramos
que "novas expressões e novos métodos" para nossa missão evangelizadora
encontram amplos campos de realização em "ministérios, oficias e
funções" (ChL 23) que possam desempenhar alguns leigos cuidadosamente
escolhidos e preparados. Uma forma adequada poderia ser que a uma família
completa se entregasse à tarefa pastoral de animar outras famílias,
preparando-se devidamente para este ofício.
e) Os movimentos e associações de Igreja
102.
Como resposta às situações de secularismo, ateísmo, indiferença religiosa e
como fruto da aspiração e necessidade do religioso (cf. ChL 4), o Espírito
Santo tem impulsionado o nascimento de movimentos e associações de leigos que
já têm produzido muitos frutos em nossas Igrejas.
Os
movimentos dão importância fundamental à Palavra de Deus, à oração em comum e
atenção especial à ação do Espírito. Há casos também em que a experiência de
uma fé compartilhada segue sempre como uma necessidade de comunhão cristã de
bens como primeiro passo para uma economia de solidariedade.
As
associações de apostolado são legítimas e necessárias (cf. AA 18); seguindo a
orientação do Concílio, confere-se um lugar especial para a ação católica por
sua vinculação profunda à Igreja particular (cf. AA 20; ChL 31).
Ante
os riscos de alguns movimentos e associações que possam chegar a fecharem-se
sobre si mesmos, é particularmente urgente ter em conta os "critérios de
eclesialidade" indicados na exortação pós-sinodal Christifideles Iaici n.30. É necessário acompanhar os movimentos
em um processo de inculturação mais definido e alentar a formação de
movimentos com perfil mais latino-americano.
"A
Igreja espera muito de todos os leigos que com entusiasmo e eficácia evangélica
agem através dos novos movimentos apostólicos, que estejam sendo coordenados
na pastoral de conjunto e que respondam "à necessidade de uma maior presença
da fé na vida social" (João Paulo II, DI 27).
f) Leigos, Linha pastoral prioritária
103.
A importância da presença dos leigos na tarefa da Nova Evangelização que
conduz à promoção humana e chega a informar todo o âmbito da cultura com a
força do Ressuscitado, nos permite afirmar que uma linha prioritária de nossa
pastoral, fruto desta IV Conferência, há de ser a de uma Igreja na qual os
fiéis cristãos leigos sejam protagonistas. Um laicato, bem estruturado com uma
formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas particulares
que têm tomado muito a sério 0 compromisso da Nova Evangelização
1.3.5.
As mulheres
104.
Em Cristo, plenitude dos tempos, a igualdade e complementaridade com que o
homem e a mulher foram criados (cf. Gn 1,27) se faz possível, já que "não
há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus"(Gl 3,
26-29). Jesus acolheu as mulheres, lhes devolveu a dignidade e lhes confiou,
depois de sua ressurreição, a missão de anunciá-1o. (cf. MD 16). Cristo,
"nascido de mulher" (G1 4,4) nos dá Maria que "precede a Igreja
mostrando em forma eminente e singular o modelo de virgem e de mãe" (LG
63). Ela é protagonista da história por sua cooperação livre, levada à máxima
participação com Cristo (cf. P 283). Maria tem representado um papel muito
importante na evangelização das mulheres latino-americanas e tem feito delas
evangelizadoras eficazes, como esposas, mães, religiosas, trabalhadoras,
camponesas, profissionais. Continuamente lhes inspira a fortaleza para dar a vida,
debruçar-se ante a dor, resistir e dar esperança quando a vida está mais
ameaçada, encontrar alternativas quando os caminhos se fecham, como
companheira ativa, livre e animadora da sociedade.
I. Situação
105.
Em nosso tempo, a sociedade e a Igreja têm crescido em consciência da igual
dignidade e missão da mulher e do homem. Ainda que teoricamente se reconheça
esta igualdade, na prática freqüentemente é ela desconhecida. A Nova
Evangelização deve ser promotora decidida e ativa da dignidade da mulher. Isto
supõe aprofundar o papel da mulher na Igreja e na Pastoral. Hoje se difundem
diversas posições reducionistas sobre a natureza e missão da mulher: nega-se
sua específica dimensão feminina, reduz-se a mulher em sua dignidade e
direitos, converte-se a mulher em objeto de prazer, com um papel secundário na
vida social. Ante isto queremos propor a doutrina evangélica sobre a dignidade
e vocação da mulher, sublinhando seu papel "como mãe, defensora da vida e
educadora do lar" (cf. P 846).
106.
Na família e na construção do mundo, hoje, ganha terreno uma maior
solidariedade entre homens e mulheres, mas fazem falta passos mais concretos
rumo à igualdade real e à descoberta de que ambos se realizam na reciprocidade.
Tanto
na família como nas comunidades eclesiais e nas diversas organizações de um
país, as mulheres são quem mais se comunicam, sustentam e promovem a vida, a
fé e os valores. Elas têm sido durante séculos "o anjo da guarda da alma
cristã do continente" (João Paulo II, Homilia em S. Domingo, 11.10.92
n.9). Este reconhecimento se choca escandalosamente com a freqüente realidade
de sua marginalização, dos perigos aos quais se submete sua dignidade, da
violência da qual muitas vezes é objeto. Àquela que dá e defende a vida é
negada uma vida digna. A Igreja se sente chamada a estar do lado da vida e
defendê-1a na mulher.
2. Compromissos pastorais
107.
Consideramos urgentes estas linhas de ação:
Denunciar
abertamente as violações às mulheres latino-americanas e caribenhas, sobretudo
as camponesas, indígenas, afro-amencanas, migrantes e operárias, inclusive as
violências que se cometem pelos meios de comunicação social contra sua dignidade.
Promover a formação integral para que haja verdadeira conscientização da
dignidade comum do homem e da mulher. Anunciar profeticamente o ser verdadeiro
da mulher, retirando do Evangelho a luz e a esperança do que ela é em
plenitude, sem reduzi-1a a modalidades culturais transitórias. Criar espaços
para que a mulher possa descobrir seus próprios valores, apreciá-los e oferecê-los
abertamente à sociedade e à Igreja.
108.
Desenvolver a consciência dos sacerdotes e dirigentes leigos para que aceitem e
valorizem a mulher na comunidade eclesial e na sociedade, não só pelo que elas
fazem, mas, sobretudo, pelo que elas são. Fomentar uma atitude de análise
crítica ante as mensagens dos meios de comunicação sobre os estereótipos que
tais meios apresentam sobre a feminilidade. Discernir à luz do Evangelho de
Jesus os movimentos que lutam pela mulher partindo de distintas perspectivas,
para potenciar seus valores, iluminar o que pode parecer confuso e denunciar o
que resulta contrário à dignidade humana. Ao ler as escrituras, anunciar com
força o que o Evangelho significa para a mulher e desenvolver uma leitura da
Palavra de Deus que descubra os traços que a vocação feminina confere ao plano
da salvação.
109.
Criar na educação novos símbolos e linguagens que não reduzam ninguém à
categoria de objeto, mas que resgatem o valor de cada um como pessoa, e evitar
nos programas educativos conteúdos que discriminem a mulher, reduzindo sua
dignidade e identidade. É importante pôr em prática programas de educação para
o amor e educação sexual na perspectiva cristã, buscar caminhos para que se
dêem entre o homem e a mulher relações interpessoais baseadas no mútuo respeito
e apreço, o reconhecimento das diferenças, o diálogo e a reciprocidade. É
preciso incorporar as mulheres no processo de decisões responsáveis em todos os
âmbitos: na fama e na sociedade. Urge contar com a liderança feminina e
promover a presença da mulher na organização e animação da Nova Evangelização
da América Latina e do Caribe. É necessário estimular uma pastoral que promova
as mulheres indígenas no campo social, educativo e político.
110.
Denunciar tudo aquilo que atentando contra a vida afete a dignidade da mulher
como o aborto, a esterilização, os programas antinatalistas, a violência nas
relações sexuais; favorecer os meios que garantam uma vida digna para as
mulheres mais expostas: empregadas domésticas, migrantes, camponesas, indígenas,
afro-americanas, trabalhadoras humildes e exploradas; intensificar e renovar o
acompanhamento pastoral a mulheres em situações difíceis: separadas,
divorciadas, mães solteiras, meninas e mulheres prostituídas por causa da
fome, do engano e do abandono.
1.3.6.
Os adolescentes e os jovens
111.
Jesus percorreu as etapas da vida de toda pessoa humana: infância,
adolescência, juventude, idade adulta. Ele se revela como o caminho, a verdade
e a vida (Jo 14,S). Ao nascer assumiu a condição de menino pobre e submisso a
seus pais, recém-nascido foi perseguido (Ml 2,13). Jesus, revelação do Pai que
quer a vida em abundância (cf. Jo 10,10), devolve a vida a seu amigo Lázaro (Jo
11), ao jovem filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,17) e à jovem filha de Jairo
(cf. Mc 5,21-43). Ele continua hoje chamando os jovens para dar sentido a suas
vidas.
A
missão dos adolescentes e jovens na América Latina "que caminham para o
terceiro milênio cristão é preparar-se para ser os homens e mulheres do futuro,
responsáveis e ativos nas estruturas sociais, culturais e eclesiais, para que
incorporados pelo Espírito de Cristo e por seu talento em conseguir soluções
originais, contribuam para a conquista de um desenvolvimento cada vez mais
humano e mais cristão" (c£ Discurso do Papa em Higuey, 4).
1. Situação
112.
Muitos jovens são vítimas do empobrecimento e da marginalização social, do
desemprego e do subemprego, de uma educação que não responde às exigências de
suas vidas, do narcotráfico, da guerrilha, das gangues, da prostituição, do alcoolismo,
de abusos sexuais. Muitos vivem adormecidos pela propaganda dos meios de
comunicação social e alienados por imposições culturais, e pelo pragmatismo
imediatista que tem gerado novos problemas no processo de amadurecimento
afetivo dos adolescentes e dos jovens.
Por
outro lado, constatamos que há adolescentes e jovens que reagem ao consumismo
imperante e se sensibilizam com as fraquezas das pessoas e com a dor dos mais
pobres. Buscam inserir-se na sociedade, repudiando a corrupção e gerando
espaços de participação genuinamente democráticos. Cada vez são mais os que se
reúnem em grupos, movimentos e comunidades eclesiais para orar e realizar
distintos serviços de ação missionária e apostólica. Os adolescentes e os
jovens estão povoados de interrogações vitais e representam o desafio de
montar um projeto de vida pessoal comunitário que dê sentido a suas vidas, para
assim
lograr
a realização de suas capacidades. Encarnam o desafio de ser acompanhados em
seus caminhos de crescimento na fé e trabalho eclesial e preocupações de
transformação necessária da sociedade por meio de uma pastoral orgânica.
113.
Na Igreja da América Latina, os jovens católicos organizados em grupos, pedem
aos pastores acompanhamento espiritual e apoio em suas atividades, mas
necessitam sobretudo em cada país de linhas pastorais claras que contribuam
para uma pastoral juvenil orgânica.
2. Compromissos pastorais
114.
Nós nos propomos executar as seguintes ações pastorais:
-
Reafirmar a "opção preferencial" pelos jovens proclamada em Puebla,
não só de modo afetivo mas também efetivamente; isto deve significar uma opção
concreta por uma pastoral juvenil orgânica, onde haja um acompanhamento e apoio
real com diálogo mútuo entre jovens, pastores e comunidades. A efetiva opção
pelos jovens exige maiores recursos pessoais e materiais por p3rte das
paróquias e das dioceses. Esta pastoral juvenil deve ter sempre uma dimensão
vocacional.
115.
Para cumpri-1a propomos uma ação pastoral:
-
Que responda às necessidades de amadurecimento afetivo e à necessidade de
acompanhar os adolescentes e jovens em todo 0 processo de formação humana e
crescimento da fé. Será preciso dar especial importância ao sacramento da
Confirmação, para que sua celebração leve os jovens ao compromisso apostólico e
a ser evangelizadores de outros jovens.
-
Que capacite para conhecer e responder criticamente aos impactos culturais,
sociais que recebem e os ajude a comprometer-se na pastoral da Igreja, nas
necessárias transformações da sociedade.
116.
- Que dinamize uma espiritualidade do seguimento de Jesus que propicie o
encontro entre a fé e a vida, que seja promotora da justiça, da solidariedade e
que anime um projeto promissor e gerador de uma nova cultura de vida.
117.
- Que assuma as novas formas celebrativas da fé, próprias da cultura dos
jovens; fomente a criatividade e a pedagogia dos sinais, respeitando sempre os
elementos essenciais da liturgia.
118.
- Que anuncie nos compromissos assumidos e na vida cotidiano que o Deus da vida
ama aos jovens e quer para eles um futuro diferente sem frustrações nem
marginalizações, onde a vida plena seja fruto acessível a todos.
119.
- Que abra aos adolescentes e jovens espaços da participação na Igreja. Que o
processo educativo se realize através de uma pedagogia experiencial,
participativa e transformadora. Que promova o protagonismo através da
metodologia do ver, julgar, agir, revisar e celebrar. Tal pedagogia tem de
integrar o crescimento da fé no processo de crescimento humano, tendo em conta
os diversos elementos, como o esporte, a festa, a música, o teatro. - Esta
pastoral deve pretender fortalecer todos os processos orgânicos válidos e
definidamente analisados pela Igreja, desde Puebla até hoje. Cuidará
especialmente de dar relevância à pastoral juvenil de meios específicos, onde
vivem e atuam os adolescentes e os jovens: camponeses, indígenas, afro-americanos,
trabalhadores, estudantes, habitantes de periferias urbanas marginalizados,
militares e jovens em situações críticas.
-
A Igreja, com sua palavra e seu testemunho, deve antes de tudo apresentar Jesus
Cristo aos adolescentes e aos jovens de modo atrativo e motivador, de modo que
seja para eles o caminho, a verdade e a vida que responda a seus anseios de
realização pessoal e a suas necessidades de encontrar sentido na mesma vida.
120.
Para responder à realidade cultural atual, a pastoral juvenil deverá
apresentar, com força e de um modo atraente e acessível à vida dos jovens, os
ideais evangélicos. Deverá favorecer a criação e animação de grupos, comunidades
juvenis vigorosas e evangélicas, que assegurem a continuidade e perseverança
dos processos educativos dos adolescentes e jovens, e os sensibilizem e
comprometam a responder aos desafios da promoção humana, da solidariedade e da
construção da civilização do amor.
1.4.
Para anunciar o Reino a todos os povos
121.
Cristo nos revela o Pai e nos introduz no Mistério da vida trinitária pelo
Espírito. Tudo passa por Cristo, que se faz caminho, verdade e vida. Pelo
batismo recebemos a filiação divina. Tendo sido feitos filhos de Deus, todos os
povos da América Latina fomos feitos também irmãos entres nós.
Fomos
introduzidos no Mistério da comunhão trinitária, porque Cristo se fez um de
nós, assumindo a condição de servo e tudo o que a nossa condição humana
implica, menos o pecado, para transformá-1a, vivificá-1a, fazê-la cada vez mais
humana e divina. Desta maneira, Cristo agora entra no coração de nossos povos,
assume-os e transforma-os.
Ao
incorporar-nos a Ele, comunica-nos sua vida amorosa, como a videira aos ramos,
infundindo-nos seu Espírito, que nos faz capazes de perdoar, de amar a Deus
sobre todas as coisas e a todos os irmãos sem distinção de raça, nação ou
situação econômica. Jesus Cristo é assim a semente de uma nova humanidade
reconciliada.
122.
Na América Latina, são muitos os que vivem na pobreza, que com frequência desce
a níveis escandalosos. Entretanto, inseridos em situações-limite, somos capazes
de amar-nos, de viver unidos apesar de nossas diferenças e de comunicar ao
mundo inteiro nossa acendrada experiência de fraternidade.
123.
Com alegria testemunhamos que em Jesus Cristo temos a libertação integral para
cada um de nós e para nossos povos; libertação do pecado, da morte e da
escravidão feita de perdão e reconciliação.
Jesus
Cristo nos convoca em sua Igreja, que é sacramento de comunhão evangelizadora.
Nela devemos viver a unidade de nossas Igrejas na caridade, comunicando e
anunciando essa comunhão a todo o mundo com a Palavra, com a Eucaristia e com os demais sacramentos. A Igreja vive para
evangelizar, sua vida e vocação se realizam quando se faz testemunho, quando
provoca a conversão e conduz os homens e as mulheres à salvação (cf. EN 15).
"Assim, pois, desde o dia em que os Apóstolos receberam o Espírito Santo,
a Igreja recebeu a tarefa de evangelização (DI2).
124.
Jesus Cristo nos dá a vida para comunicá-1a a todos. Nossa missão exige de nós,
que, unidos a nossos povos, estejamos abertos para receber esta vida em
plenitude, para comunicá-la abundantemente às Igrejas a nós encomendadas,
e também além de nossas fronteiras. Pedimos perdão por nossas fragilidades e
imploramos a graça do Senhor, para cumprir, mais eficazmente, a missão que
recebemos. Convidamos a todos para que, renovados no Espírito, anunciem também
a Jesus Cristo e se convertam em missionários da vida e da esperança para todos
nossos irmãos.
A
Nova Evangelização tem que ser capaz de despertar um novo fervor missionário em
uma Igreja cada vez mais arraigada "na força e no poder perene de
Pentencostes" (cf. EN 41).
1.4.1.
Que se lance à missão "ad gentes"
125.
Nascida do amor salvífico do Pai, a missão do Filho com a força do Espírito
Santo (cf. Lc 4,18), essência da Igreja (cf. AG 2) e objeto fundamental desta
IV Conferência, é para nós nosso principal objetivo.
João
Paulo II, em sua encíclica missionária, levou-nos a discernir três modos de
realizar essa missão: a atenção pastoral em situações de fé viva, a Nova
Evangelização e a ação missionária "ad gentes" (cf. RMi 33).
Renovamos
este último sentido da missão, sabendo que não pode haver Nova Evangelização
sem projeção para o mundo não cristão, pois, como nota o Papa: "A Nova
Evangelização dos povos cristãos encontrará inspiração e apoio no compromisso
pela missão universal" (RMi 2).
Podemos
dizer com satisfação que o desafio da missão "ad gentes", proposta
por Puebla, foi assumido a partir de nossa pobreza, compartilhando a riqueza da
fé com que o Senhor nos tem abençoado. Reconhecemos, porém, que a consciência
missionária "ad gentes" ainda é insuficiente ou &ágil.
Os
Congressos Missionários Latino-americanos (COMLAS), os Congressos missionários
nacionais, os grupos e movimentos missionários e a ajuda de Igrejas irmãs, têm
sido um incentivo para tomar consciência desta exigência evangélica.
Desafios pastorais
126.
- Não se tem insistido o suficiente em que sejamos melhores evangelizadores.
-
Nós nos fechamos em nossos próprios problemas locais, esquecendo nosso
compromisso apostólico com o mundo não cristão. - Descarregamos nosso
compromisso missionário em alguns de nossos irmãos e irmãs, que os cumprem por
nós.
127.
Causa do que se descreveu é a carência de um explicito programa de formação
missionária na maioria dos seminários e casas de formação.
Linhas pastorais
128.
Convidamos cada Igreja particular do continente latino-americano para que:
-
Introduza em sua pastoral ordinária a animação missionária, apoiada em um
centro missionário diocesano, sustentado por uma equipe missionária, movido por
uma espiritualidade viva para uma ação missionária, criativa e generosa.
-
Estabeleça uma relação positiva com as Obras Missionárias Pontifícias, que
devem ter um responsável eficaz e o apoio da Igreja particular.
-
Promova a cooperação missionária de todo o Povo de Deus, traduzida em oração,
sacrifício, testemunho de vida cristã e ajuda econômica.
-
Integre nos programas de formação sacerdotal e religiosa cursos específicos de
missiologia e instrua os candidatos ao sacerdócio sobre a importância da
inculturação do Evangelho. - Forme agentes de pastoral autóctones, com espírito
missionário na linha assinalada pela Encíclica Redemptoris Missio.
-
Assuma com valentia o envio missionário, tanto de sacerdotes como de religiosos
e leigos. Coordene os recursos humanos e materiais que fortaleçam os processos
de formação, envio, acompanhamento e reinserção dos missionários.
1.4.2.
Que vivifique a fé dos batizados
afastados
129.
Nosso Deus é o Pai rico em misericórdia. Ele respeita a liberdade de seus
filhos e filhas e espera o tempo do retorno saindo ao encontro daqueles que se
afastaram de sua casa (cf. Lc 15).
Desafios pastorais
130.
Na América Latina e no Caribe, numerosos batizados não orientam sua vida
segundo o Evangelho.
Muitos
deles se afastam da Igreja, ou não se identificam com ela. Entre esses, ainda
que não exclusivamente, há muitos jovens e pessoas mais críticas da ação da
Igreja. Há outros que, tendo imigrado de suas regiões de origem, se desenraízam
de seu ambiente religioso.
Linhas pastorais
131.
Como pastores da Igreja isto nos preocupa. Ao mesmo tempo nos dói ver como
muitos de nossos fiéis não são capazes de comunicar aos demais a alegria de sua
fé. Jesus Cristo nos pede que sejamos o sal da terra , o fermento na massa. Por
isso, a Igreja, pastores e fiéis, sem descuidar da atenção aos mais próximos,
deve sair ao encontro dos que estão afastados.
Muitas
portas destes irmãos afastados esperam o chamado do Senhor (cf. Ap 3,20)
através dos cristãos que, assumindo missionariamente seu batismo e
confirmação, saem ao encontro daqueles que se afastaram da casa do Pai. Por isso
sugerimos:
-
Promover um novo impulso missionário em direção a estes fiéis, indo-lhes ao
encontro. A Igreja não deve ficar tranqüila com os que a aceitam e a seguem com
maior facilidade.
-
Pregar-lhes o querigma de uma forma viva e alegre.
-
Organizar campanhas missionárias que descubram a novidade sempre atual de Jesus
Cristo, dentre as quais podem-se destacar as visitas domiciliares e as missões
populares.
-
Aproveitar os momentos de contato que os batizados mantêm com a Igreja, tais
como o batismo de seus filhos, a primeira comunhão, a confirmação, a
enfermidade, o matrimônio, as exéquias, para manifestar-lhes a novidade sempre
atual de Jesus Cristo.
-
Buscar através dos meios de comunicação social proximidade com aqueles que não
podem ser alcançados diretamente.
-
Motivar e animar as comunidades e movimentos eclesiais para que redobrem seu
serviço evangelizador dentro da orientação pastoral da Igreja local.
1.4.3.
Que reúne a todos os irmãos em Cristo
132.
"Pai, que todos sejam um como Tu e eu somos um, para que o mundo creia que
Tu me enviaste" (Jo 17,21). Esta súplica de Cristo justifica a denúncia do
concílio Vaticano II, ao apontar o escândalo da divisão dos cristãos (cf. UR
1), e exige que encontremos os caminhos mais eficazes para alcançar a unidade
na verdade.
Desafios pastorais
133.
- O grande desafio em que nos encontramos é a divisão entre os cristãos,
divisão que se agravou por diversos motivos ao longo da história.
-
A existência de uma confusão sobre este tema, fruto de uma deficiente formação
religiosa e de outros fatores.
-
O fundamentalismo proselitista de grupos cristãos sectários que dificultam o
são caminho do ecumenismo.
134.
Em situação similar à dos cristãos separados, podemos situar todo o povo judeu.
Também com eles o diálogo é desafio para a nossa Igreja.
Linhas pastorais
135.
- Por isso também nós, com o Papa João Paulo II, dizemos: "O ecumenismo é
uma prioridade na pastoral da Igreja do nosso tempo". Para dar uma
resposta adequada a este desafio sugerimos:
-
Consolidar o espírito e o trabalho ecumênico na verdade, na justiça e na
caridade. Aprofundar as relações de convergência e diálogo com as Igrejas que
rezam conosco o Credo Niceno-Constantinopolitano, partilham dos mesmos
sacramentos e da veneração por Santa Maria, a Mãe de Deus, ainda que não
reconheçam o primado do Romano Pontífice.
-
Intensificar o diálogo teológico ecumênico.
-
Avivar a oração em comum pela unidade dos cristãos e, de modo particular, a
semana de oração pela unidade dos que crêem.
-
Promover a formação ecumênica em cursos de formação para agentes de pastoral,
principalmente nos seminários.
-
Estimular o estudo da Bíblia entre os teólogos e estudiosos da Igreja e das
denominações cristãs.
-
Manter e reforçar programas e iniciativas de cooperação conjunta no campo
social e na promoção dos valores comuns.
-
valorizar a seção de Ecumenismo do CELAM (SECUM) e colaborar com suas
iniciativas.
1.4.4.
Diálogo com as religiões não-cristãs
136.
"Deus, num diálogo que dura ao longo dos séculos, ofereceu e continua oferecendo
a salvação à humanidade. Para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja deve
entrar no diálogo da salvação com todos" (Diálogo e Anúncio, 38). Ao
promover esse diálogo, a Igreja sabe bem que ele tem um caráter de testemunho
dentro do respeito à pessoa humana e à identidade do interlocutor (cf. P
1114)).
Desafios pastorais
137.
A importância de aprofundar um diálogo com as religiões não-cristãs presentes
em nosso continente, particularmente as indígenas e afro-americanas, durante
muito tempo ignoradas ou marginalizadas.
A
existência de preconceitos e incompreensões como obstáculo para o diálogo.
Linhas pastorais
138.
Para intensificar o diálogo inter-religioso consideramos importante:
-
Levar a cabo uma mudança de atitude de nossa parte, deixando para trás
preconceitos históricos, para criar um clima de coo fiança e proximidade.
-
Promover o diálogo com judeus e muçulmanos, em que pesem as dificuldades que
sofre a Igreja nos países onde essas religiões são majoritárias.
-Aprofundar
nos agentes de pastoral o conhecimento do judaísmo e do islamismo.
-
Favorecer nos agentes de pastoral o conhecimento das outras religiões e formas
religiosas presentes no Continente.
-
Promover ações em favor da paz, da promoção e defesa da dignidade humana, bem
como a cooperação em defesa da criação e do equilíbrio ecológico, como uma
forma de encontro com outras religiões.
-
Buscar ocasiões de diálogo com as religiões afro-americanas e dos povos
indígenas, atentos a descobrir nelas as "sementes do Verbo", com
verdadeiro discernimento cristão, oferecendo-lhes o anúncio integral do
Evangelho e evitando qualquer forma de sincretismo religioso.
1.4.5.
As seitas fundamentalistas
139.
O problema das seitas adquiriu proporções dramáticas e chega a ser
verdadeiramente preocupante sobretudo pelo crescente proselitismo.
140.
As seitas fundamentalistas são grupos religiosos que insistem que somente a fé
em Jesus Cristo salva e que a única base da fé é a Sagrada Escritura,
interpretada de modo pessoal e fundamentalista, com exclusão da Igreja,
portanto, e insistência na iminência do fim do mundo e juízo próximo.
Caracterizam-se
por seu afã proselitista mediante insistentes visitas domiciliares, grande
difusão de Bíblias, revistas e livros; a presença e ajuda oportunista em
momentos críticos da vida das pessoas ou
da Família e uma grande capacidade técnica no uso dos meios de comunicação
social. Contam com uma poderosa ajuda financeira proveniente do estrangeiro e
do dízimo obrigatoriamente pago por todos os adeptos.
Distinguem-se
por um moralismo rigoroso, por reuniões de oração com um culto participativo e
emotivo, baseado na Bíblia, e por sua agressividade contra a Igreja, valendo-se
freqüentemente da calúnia e do suborno. Ainda que seu compromisso com o
temporal seja débil, orientam-se para a participação política em vista à tomada
do poder.
A
presença dessas seitas religiosas fundamentalistas na América Latina aumentou
de maneira extraordinária de Puebla até os nossos dias.
Desafios pastorais
141.
Dar uma resposta pastoral eficaz ante o avanço das seitas, tornando mais
presente a ação evangelizadora da Igreja nos setores mais vulneráveis, como
migrantes, populações sem atenção sacerdotal e com grande ignorância
religiosa, pessoas simples ou com problemas materiais e familiares.
Linhas pastorais
142.
Que a Igreja seja cada vez mais comunitária e participativa, e com comunidades
eclesiais, grupos de famílias, círculos bíblicos, movimentos e associações
eclesiais, fazendo da paróquia uma comunidade de comunidades.
-
Provocar nos católicos a adesão pessoal a Cristo e à Igreja pelo anúncio do
Senhor ressuscitado.
-
Desenvolver uma catequese que instrua devidamente o povo, explicando o mistério
da Igreja, sacramento de salvação e comunhão, a mediação da Virgem Maria e dos
santos e a missão da hierarquia.
-
Promover uma Igreja ministerial com o aumento de ministros ordenados e a
promoção de ministros leigos devidamente formados para impulsionar o serviço
evangelizador em todos os setores do Povo de Deus.
143.
- Garantir a identidade da Igreja, cultivando aspectos que lhe são
característicos como:
a)
A devoção ao Mistério da Eucaristia, sacrifício e banquete P;
b)
A devoção à Santíssima Virgem, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja;
c)
A comunhão e a obediência ao Romano Pontífice e ao próprio bispo;
d)
A devoção à Palavra de Deus lida na Igreja.
144.
- Procurar que em todos os planos de pastoral a dimensão contemplativa e a
santidade sejam prioridade, a fim de que a Igreja possa fazer-se presença de
Deus para o homem contemporâneo que tem tanta sede dele.
145.
- Criar condições para que todos os ministros do Povo de Deus dêem testemunho
de vida e caridade, espírito de serviço, capacidade de acolhida, sobretudo em
momentos de dor e de crise.
-
Promover uma liturgia viva, participativa e com repercussão na vida.
146.
- Instruir o povo amplamente, com serenidade e objetividade, sobre as
características e diferenças das diversas seitas e sobre as respostas às
injustas acusações contra a Igreja.
-
Promover visitas familiares com leigos preparados e organizar a pastoral do
retorno para acolher os católicos que regressam à Igreja.
1.4.6.
Novos movimentos religiosos ou movimentos
religiosos Livres
147.
Fenomenologicamente, trata-se de fatos sócio-culturais protagonizados por
setores marginalizados e também camadas médias e abastadas na América Latina,
que através de formas religiosas geralmente sincréticas conseguem expressar sua
identidade e aspirações humanas. Do ponto de vista da fé católica, esses
fenômenos podem ser considerados como sinais dos tempos, e também como
advertência de que existem ambientes humanos dos quais a Igreja está ausente e
onde deve rearticular sua ação evangelizadora.
Cabe distinguir várias correntes ou tipos de
fenômeno:
-
formas paracristãs ou semicristãs, como Testemunhas de Jeová e Mórmons. Cada um
destes movimentos tem suas caraterísticas, mas em comum manifestam um
proselitismo, um milenarismo e traços organizativos empresariais;
-
formas esotéricas que buscam uma iluminação especial e compartilham
conhecimentos secretos e um ocultismo religioso. Tal é o caso de correntes
espíritas, Rosas-cruzes, gnósticos, teósofos, etc.;
-
filosofias e cultos com facetas orientais mas que rapidamente estão
adequando-se ao nosso continente, tais como Hare Krishna, a Luz Divina, Ananda
Marga e outros, que trazem um misticismo e uma experiência de comunhão;
-
grupos derivados das grandes religiões asiáticas, quer seja do budismo (seicho
no lê, etc.), do hinduísmo (yoga, etc.) ou do islã (baha'i) que não só atingem
migrantes da Ásia, mas também plantam raízes em setores de nossa sociedade;
-
empresas sócio-religiosas, como a seita Moon ou a Nova Acrópolis, que têm
objetivos ideológicos e políticos bem precisos, junto com suas expressões
religiosas, levadas a cabo mediante meios de comunicação e campanhas
proselitistas, que contam com apoio ou inspiração do primeiro mundo, e que
religiosamente insistem na conversão imediata e na cura; é onde estão as
chamadas "igrejas eletrônicas";
-
uma multidão de centros de "cura divina" ou atendimento aos mal-estares
espirituais e físicos de gente com problemas e de pobres. Esses cultos
terapêuticos atendem individualmente a seus clientes.
148.
Diante da multiplicidade de novos movimentos religiosos, com expressões muito
diversas entre si, queremos centrar nossa atenção sobre as causas de seu
crescimento (cf. P 1122) e os desafios pastorais que levantam.
149.
São muitas e variadas as causas que explicam o interesse que despertam em
alguns. Entre elas se devem assinalar:
-
A permanente e progressiva crise social que suscita certa angústia coletiva, a
perda de identidade e o desenraizamento das pessoas.
-
A capacidade destes movimentos para adaptar-se às circunstâncias sociais e
para satisfazer, momentaneamente, algumas necessidades da população. Em tudo
isto não deixa de ter certa presença a curiosidade pelo inédito.
-
O distanciamento da Igreja de setores-populares ou abastados - que buscam novos
canais de expressão religiosa, nos quais não se deve descartar uma evasão dos
compromissos da fé. Sua habilidade para oferecer aparente solução aos desejos
de "cura" por parte dos atribulados.
Desafios pastorais
150.
Nosso maior desafio está em avaliar a ação evangelizadora da Igreja e em
determinar desse modo a quais ambientes humanos chega ou não essa ação.
-
Como dar uma resposta adequada às perguntas que as pessoas se fazem sobre o
sentido de sua vida, sobre o sentido da relação com Deus, em meio à permanente
e progressiva crise social.
-
Adquirir um maior conhecimento das identidades e culturas dos nossos povos.
Linhas pastorais
151.
Diante desses desafios propomos estas linhas
pastorais:
-
Ajudar no discernimento dos problemas da vida à luz da fé. Nesse sentido, é
preciso revalorizar o sacramento da penitência e a orientação espiritual.
-
Procurar adaptar nossa evangelização e celebrações de fé às culturas e
necessidades subjetivas dos fiéis, sem falsear o Evangelho.
-
Fazer uma revisão profunda de nosso trabalho pastoral, a fim de melhorar a
qualidade de nossos meios e de nosso testemunho.
-
Dar um tratamento diferenciado aos movimentos religiosos, segundo sua índole e
suas atitudes para com a Igreja.
152.
Promover uma liturgia viva, na qual os fiéis se introduzam no mistério.
-
Apresentar uma antropologia cristã que dê o sentido da potencialidade humana,
o sentido da ressurreição e o sentido das relações com o universo (horóscopos).
Não esquecer que o indiferentismo deve ser combatido através de uma
apresentação adequada do sentido último do homem, ao que muito ajudará a
apresentação dos novíssimos.
1.4.7
Chamado aos sem Deus e aos indiferentes
153.
O fenômeno da descrença cresce na América Latina e no Caribe hoje e preocupa a
Igreja sobretudo por aqueles que vivem como se não fossem batizados (cf. EN
56).
Uma
modalidade é o "secularismo" que nega a Deus, ou porque sustenta que
todas as realidades se explicam por si mesmas sem recorrer a Deus, ou porque se
considera a Deus como inimigo, alienação do homem. Esta posição secularista
deve-se distinguir do processo chamado "secularização". Este sustenta
legitimamente que as realidades materiais da natureza e do homem são em si
"boas", e suas leis devem ser respeitadas, e que a liberdade é para a
auto-realização humana e é respeitada por Deus (cf. GS 36).
O
outro é o "indiferentismo" daqueles que ou repelem toda religião
porque a consideram inútil e nociva para a vida humana e por isso não se
interessam por ela, ou sustentam que todas as religiões se equivalem e,
portanto, nenhuma pode apresentar-se como única e verdadeira.
Desafios pastorais
154.
O secularismo é um sério desafio à Nova Evangelização por considerar a Deus
incompatível com a liberdade humana (DI 11) e a religião como atitude
anti-humana e alienante, porque separa o homem de sua atividade. Além disso,
negando a dependência do Criador, conduz às idolatrias do ter, do poder e do
prazer, e faz perder o sentido da vida, reduzindo o ser humano somente ao valor
material.
-
O indiferentismo oferece também um desafio à Nova Evangelização porque suprime
pela raiz a relação da criatura com Deus, ou seja, nega todo o interesse pela
religião e com isso o compromisso da fé, ou porque reduz a figura de Cristo a
um mestre de moral ou um fundador de religiões entre outras igualmente válidas,
negando-lhe o caráter de salvador único, universal e definitivo dos homens.
-
Ademais, tanto o indiferentismo como o secularismo minam a moral porque deixam
o comportamento humano sem fundamento para seu valor ético, e, por isso,
facilmente caem no relativismo e permissivismo que caracterizam a sociedade
atual.
155.
Muitos movimentos pseudo-religiosos de caráter orientalista e ocultista,
adivinhação e espiritismo minam a fé e causam desconcerto nas mentes, dando
soluções falsas para as grandes interrogações do homem, seu destino, sua
liberdade e o sentido da vida. Linhas
pastorais
156.
A Nova Evangelização exige de nós:
-
Que nos formemos em uma fé que se faça vida, iniciando-a com o anúncio do
querigma aos que estão no mundo descristianizado (cf. EN Sl e 52) e
promovendo-a com o testemunho alegre de autênticas comunidades de fé, nas quais
nossos leigos vivam o significado dos sacramentos.
-
Que cultivemos uma sólida consciência moral para que, nas complexas
circunstâncias da vida moderna, nossos fiéis saibam interpretar acertadamente a
voz de Deus em matéria moral e desenvolvam um evangélico sentido do pecado.
-
Que eduquemos os cristãos para ver a Deus em sua própria pessoa, na natureza,
na história global, no trabalho, na cultura, em todo o secular, descobrindo a
harmonia que, no plano de Deus, deve haver entre a ordem da criação e a da
redenção.
-
Que desenvolvamos um estilo de celebração da liturgia que integre a vida dos
homens numa profunda e respeitosa experiência do insondável mistério divino da
riqueza inefável.
-
Que impulsionemos uma pastoral adequada para evangelizar os ambientes
universitários, onde se formam os que irão plasmar decisivamente a cultura.
CAPÍTULO
2
A
PROMOÇÃO HUMANA
157.
"Entre evangelização e promoção humana - desenvolvimento, libertação -
existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é
um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas
sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca
dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, um e outro a abrangerem as
situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser
restaurada; laços da ordem eminentemente evangélica, qual seja a ordem da
caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro
e o autêntico progresso do homem?" (EN 31).
O
sentido último do compromisso da Igreja com a promoção humana, reiteradamente
pregado em seu magistério social, está na
firme convicção de que "a verdadeira união social externa decorre da união
dos espíritos e dos corações, isto é, da fé e da caridade" (G.S. 42).
"Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e
criadora do desenvolvimento, exatamente porque leva à conversão do coração e da
mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à
solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos" (RMi 59),
"mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentais e
espirituais, premissas da salvação escatológica" (RMi 20). Assim
procedendo, a Igreja oferece a sua participação específica à promoção humana,
dever de todos.
158.
A doutrina social da Igreja é o ensinamento do Magistério em matéria social e
contém princípios, critérios e orientações para a atuação do crente na tarefa
de transformar o mundo segundo o projeto de Deus. O ensino do pensamento social
da Igreja "faz arte da missão evangelizadora (SRS 41) e tem "o valor
de um instrumento de evangelização" (CA 54), porque ilumina a vivência
concreta de nossa fé.
2.1.
A promoção humana, dimensão privilegiada da Nova Evangelização
159.
Jesus ordenou a seus discípulos que distribuíssem o pão multiplicado à
multidão necessitada, de modo que "todos comeram e ficaram saciados"
(cf Mc 6,34-44). Curou ou os enfermos, passou a vida fazendo o bem (At 10,38 .
No final dos tempos, nos julgará no amor (cf. Ml 25).
Jesus
é o bom samaritano (Lc 10, 25-37) que encarna a caridade e não só se comove,
mas se transforma em ajuda eficaz, Sua ação é motivada pela dignidade de todo
homem, cujo fundamento está em Jesus Cristo como Verbo criador (Jo 1,3),
encarnado (cf. Jo 1,14). Como indicava a
Gaudium et Spes: "O mistério do homem só se torna claro
verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro
homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo
Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor Cristo manifesta
Plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima
vocação" (GS 22).
Dignidade
que não se perdeu pela ferida do pecado, mas que foi exaltada pela compaixão de
Deus, que se revela no coração de Jesus Cristo (cf. Mc 6,34). A solidariedade
cristã é certamente serviço aos necessitados, mas é, sobretudo, fidelidade a
Deus. Isto fundamenta a relação entre a evangelização e a promoção humana (EN
31).
160.
Nossa fé no Deus de Jesus Cristo e o amor aos irmãos têm de traduzir-se em
obras concretas. O seguimento de Cristo significa comprometer-se a viver
segundo seu estilo. Esta preocupação de coerência entre a fé e a vida sempre
esteve presente nas comunidades cristãs. Já o apóstolo Tiago escrevia:
"Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe
aproveitará isso Acaso a fé poderá salvá-1o? Se um irmão ou uma irmã não
tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada
dia, e alguém dentre vós lhes disser: `Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos',
e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso?
Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento. Com efeito,
como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem
obras" (Tg 2,14-17.26).
161.
A falta de coerência entre a fé que se professa e a vida cotidiano é uma das
várias causas que geram pobreza em nossos países, porque os cristãos não souberam
encontrar na fé a força necessária para penetrar os critérios e as decisões
dos setores responsáveis pela liderança ideológica e pela organização da
convivência social, econômica e política de nossos povos. "Em povos de
arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça" (P
437).
162.
A promoção, como indica a Doutrina Social da Igreja, deve levar o homem e a
mulher a passar de condições menos humanas para condições cada vez mais
humanas, até chegar ao pleno conhecimento de Jesus Cristo (Populorum Progressio
14-L5). Em sua raiz, descobrimos, pois, que se trata de um verdadeiro canto à
vida, de toda vida, desde o não-nascido até o abandonado.
163.
Maria, a mulher solicita ante a necessidade surgida nas bodas de Caná, é modelo
e figura da Igreja ante toda forma de necessidade humana (cf. Jo 2,3ss). À
Igreja, assim como a Maria, Jesus lhe recomenda preocupar-se pelo cuidado
maternal da humanidade, sobretudo dos que sofrem (cf. Jo 19,26-27).
2.2.
Os novos sinais dos tempos no campo da promoção humana
2.2.1.
Direitos humanos
164.
A igualdade entre os seres humanos em sua dignidade, por serem criados à imagem
e semelhança de Deus, se afirma e aperfeiçoa em Cristo. Desde a Encarnação, ao
assumir o Verbo nossa natureza e sobretudo sua ação redentora na cruz, mostra o
valor de cada pessoa. Por isso mesmo Cristo, Deus e homem, é a fonte mais
profunda que garante a dignidade da pessoa e de seus direitos. Toda violação
dos direitos humanos contradiz o Plano de Deus e é pecado.
165.
A Igreja, ao proclamar o evangelho, raiz profunda dos direitos humanos, não se
arroga uma tarefa alheia à sua missão, mas, ao moral utilitarista e
individualista. Postula a aceitação do princípio do destino universal dos bens
da criação e a promoção da justiça e solidariedade como valores indispensáveis.
Linhas pastorais:
Os
cristãos, como integrantes da sociedade, não estão isentos de responsabilidade
em relação aos modelos de desenvolvimento, que provocaram os atuais desastres
ambientais e sociais.
-
Partindo das crianças e dos jovens, empreender uma tarefa de reeducarão de
todos diante do valor da vida e da interdependência dos diversos ecossistemas.
-
Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido de Deus, sempre presente na
natureza. Explicitar a nova relação estabelecida pelo mistério da encarnação,
pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.
-
Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou, e
questionar a riqueza e o desperdício.
-
Aprender dos pobres a viver com sobriedade e a partilhar e valorizar a
sabedoria dos povos indígenas no tocante à preservação da natureza como
ambiente de vida para todos.
170.
- Aprofundar as mensagens do Santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz,
especialmente dentro de uma configuração de "ecologia humana".
-
Levar os cristãos a assumir o diálogo com o Norte através dos canais da Igreja
católica, assim como de outros movimentos ecológicos e ecumênicos.
-
São Francisco de Assis, em seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar este
caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens entre si, caminho
de justiça e de paz.
2.2.3.
A terra: dom de Deus
171.
Os cristãos não olham o universo, somente como natureza considerada em si
mesma, mas como criação e primeiro dom do amor do Senhor por nós.
"De
Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes" (S1 24,1)
é a afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos
povos de que a terra é o
primeiro
sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina
que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o
cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe
`alguns limites (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que Deus é o Senhor e
criador, e dele é a terra e tudo que nela existe" e que ele a pode usar,
não como dono absoluto, mas como administrador.
Estes
limites no uso da terra buscam preservar a justiça e o direito de todos de
aceder aos bens da criação, que Deus destinou ao serviço de todo homem que vem
a este mundo.
172.
Em nosso continente deve-se considerar duas mentalidades opostas com relação à
terra, ambas distintas da visão cristã:
a)
A terra, dentro do conjunto de elementos que formam a comunidade indígena, é
vida, é lugar sagrado, centro integrador de vida da comunidade. Nela vivem e
com ela convivem, através dela se sentem em comunhão com seus antepassados e em
harmonia com Deus; por isso mesmo a terra, sua terra, forma parte substancial
de sua experiência religiosa de seu próprio projeto histórico. Nos indígenas
existe um sentido natural de respeito pela terra; ela é a mãe terra, que
alimenta a seus filhos, por isso há que cuidá-1a, pedir permissão para
cultivá-1a e não matá-1a. b) A visão mercantilista: considera a terra numa relação
exclusiva com a exploração e o lucro, chegando até ao desalojamento e à
expulsão de seus legítimos donos.
Esse
mesmo mercantilismo leva à especulação do solo urbano, tornando a terra
inacessível à habitação dos pobres, cada vez mais numerosos em nossas grandes
cidades.
Além
dos tipos anteriores, não podemos esquecer a situação dos camponeses que
trabalham sua terra e ganham o sustento de sua família com tecnologias
tradicionais.
173.
A mentalidade própria da visão cristã tem seu fundamento na Sagrada Escritura
que considera sempre a terra e os elementos da natureza antes de tudo como
aliados do povo de Deus e instrumentos de nossa salvação. A ressurreição de
Jesus Cristo ressitua a humanidade, em face da missão de libertar toda a
criação, que há de ser transformada em novo céu e em nova terra, onde a justiça
tenha sua morada (cf. 2Pd 3,13).
Desafios pastorais:
174.
- Desafia-nos a situação problemática da terra na América Latina e no Caribe,
já que "cinco séculos de presença do Evangelho... não instauraram ainda
uma eqüitativa distribui o dos bens da terra", que "infelizmente
ainda está nas mãos de uma minoria". Os antigos aborígenes foram, em
geral, despojados de suas terras e os afro-americanos tiveram dificuldades por
causa da legislação que dá acesso à propriedade da terra. Os atuais camponeses
sofrem o peso da desordem institucional e as conseqüências das crises
econômicas.
-
Nos últimos anos esta crise se fez sentir com mais força onde a modernização de
nossas sociedades trouxe a expansão do comércio agrícola internacional, a
crescente integração de países, o maior uso da tecnologia e a presença
transnacional. Isto, não poucas vezes, favorece os setores econômicos fortes,
mas à custa dos pequenos produtores e trabalhadores.
175.
A situação da apropriação, administração e utilização da terra na América
Latina e no Caribe é um dos apelos mais urgentes à Promoção Humana.
Linhas pastorais:
176.
- Promover transformação da mentalidade sobre o valor da terra com base na
cosmovisão cristã, que se liga às tradições culturais dos setores pobres e
camponeses.
-
Recordar aos fiéis leigos que devem influir nas políticas agrárias dos
governos (sobretudo nas de modernização) e nas organizações de camponeses e
indígenas, visando formas justas, mais comunitárias e participativas no uso da
terra.
177.-Apoiar
todas as pessoas e instituições que estão buscando seja da parte dos governos, seja dos que possuem os meios
de produção, a criação de uma justa e humana reforma e política agrária, que
legisle, programe e acompanhe uma distribuição mais justa da terra e sua
utilização eficaz.
-
Dar apoio solidário às organizações de camponeses e indígenas que lutam, por
meios justos e legítimos, para conservar ou readquirir suas terras.
-
Promover progressos técnicos indispensáveis para que a terra produza, tendo em
conta também as condições do mercado, e para tanto, a necessidade de fomentar a
consciência da importância da tecnologia.
-
Favorecer uma reflexão teológica em torno da problemática da terra, dando
ênfase à inculturação e a uma presença efetiva dos agentes de pastoral nas
comunidades de camponeses.
-
Apoiar a organização de grupos intermédios, por exemplo, cooperativas, que
sejam instância de defesa dos direitos humanos, de participação democrática e
de educação comunitária.
2.2.4.
Empobrecimento e solidariedade
178.
Evangelizar é fazer o que Jesus Cristo fez, quando mostrou na sinagoga que veio
para "evangelizar" os pobres (cf. Lc 4,18-19). Ele "se fez
pobre, embora fosse rico, para nos enriquecer com sua pobreza" (2 Cor
8,9). Ele nos desafia a dar testemunho autêntico de pobreza evangélica em nosso
estilo de vida e em nossas estruturas eclesiais, tal qual Ele fez.
Esta
é a fundamentação que nos compromete numa opção evangélica e preferencial
pelos pobres, firme e irrevogável, mas não exclusiva e nem excludente, tão
solenemente afirmada nas Conferências de Medellín e Puebla. Sob a luz desta
opção preferencial, a exemplo de Jesus, nos inspiramos para toda ação
evangelizadora comunitária e pessoal (cf. SRS 42; RM 14; João Paulo II, Santo
Domingo, 16). Com o "potencial evangelizador dos pobres" (P 1147), a
Igreja pobre quer impulsionar a evangelização de nossas comunidades.
Descobrir
nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Ml 25,31-46) é algo que
desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial. Na fé
encontramos os rostos desfigurados pela fome, conseqüência da inflação, da
dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos
que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria
cultura, que não é respeitada, quando não desprezada; os rostos angustiados
dos menores abandonados que caminham por nossas ruas e dormem sob nossas
pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos cansados
dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo
tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente (cf.
CECAM, DT 163). O amor misericordioso é também voltar-se para os que se encontram
em carência espiritual, moral, social e cultural.
Desafios pastorais:
179.-O
crescente empobrecimento a que estão submetidos milhões de irmãos nossos, que
chega a intoleráveis extremos de miséria, é o mais devastador e humilhante
flagelo que vive a América Latina e Caribe. Assim o denunciamos tanto em
Medellín como em Puebla e hoje voltamos a fazê-1o com preocupação e angústia. -
As estatísticas mostram com eloqüência que na última década as situações de
pobreza cresceram tanto em números absolutos como em relativos. A nós,
pastores, comove-nos até as entranhas ver continuamente a multidão de homens e
mulheres, crianças e jovens e anciãos que sofrem o insuportável peso da miséria
assim como diversas formas de exclusão social, étnica e cultural; são pessoas
humanas concretas e irredutíveis que vêem seus horizontes cada vez mais
fechados e sua dignidade desconhecida.
-
Vemos o empobrecimento de nosso povo não só como um fenômeno econômico e
social, registrado e quantificado pelas ciências sociais. N6s o vemos dentro da
experiência de muita gente com quem compartilhamos, como pastores, sua luta
cotidiana pela vida.
-
A política de corte neoliberal que predomina hoje na América Latina e no Caribe
aprofunda ainda mais as conseqüências negativas destes mecanismos. Ao
desregular indiscriminadamente o mercado, eliminar partes importantes da
legislação trabalhista e despedir empregados, ao reduzir os gastos sociais que
protegiam as famílias dos trabalhadores, foram aumentadas ainda mais as
distâncias na sociedade.
-
Temos de aumentar a lista dos rostos sofridos que já havíamos assinalado em
Puebla (cf. P 31-39), todos eles desfigurados pela fome, aterrorizados pela
violência, envelhecidos por condições de vida infra-humanas, angustiados pela
sobrevivência familiar. O Senhor nos pede que saibamos descobrir seu próprio
rosto nos rostos sofridos dos irmãos.
-
Por outro lado, comprovamos com alegria os múltiplos esforços que diversos
grupos e instituições da América Latina e do Caribe estão fazendo a fim de
transformar esta realidade. A Igreja, chamada a ser cada vez mais fiel à sua
opção preferencial pelos pobres, tem tido crescente participação nos mesmos.
Damos graças a Deus por isto e convocamos a alargar o caminho já aberto, porque
muito mais são os que ainda têm de caminhar por ele.
Linhas pastorais
180.
- Assumir com decisão renovada a evangélica opção preferencial pelos pobres,
seguindo o exemplo e as palavras do Senhor Jesus, com plena confiança em Deus,
austeridade de vida e partilha de bens.
-
Privilegiar o serviço fraterno aos mais pobres entre os pobres e ajudar as
instituições que cuidam deles: os deficientes, enfermos, idosos solitários,
crianças abandonadas, presos, aidéticos e todos aqueles que requerem a
proximidade misericordiosa do "bom samaritano".
-
Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunitários, bem como as
estruturas e métodos pastorais, a fim de que não afastem os pobres, mas que
propiciem a proximidade e a partilha com eles.
-Promover
a participação social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos
dos pobres.
181.
- Fazer de nossas paróquias um espaço para a solidariedade.
-
Apoiar e estimular as organizações de economia solidária com as quais nossos
povos tratam de responder às angustiantes situações de pobreza.
-
Urgir respostas dos Estados para as difíceis situações agravadas pelo modelo
econômico neoliberal, que afeta principalmente os mais pobres. Entre estas
situações é importante destacar os milhões de latino-americanos que lutam para
sobreviver na economia informal.
2.2.5.
O trabalho
182.
Uma das realidades que mais nos preocupa em nossa ação pastoral é o mundo do
trabalho, por sua significação humanizadora e salvífica, que tem sua origem na
vocação co-criadora do homem como "filho de Deus" (Gn 1,26) e que foi
resgatado e elevado por Jesus, trabalhador e "filho de carpinteiro"
(Ml 13,55 e Mc 6,3).
A
Igreja como depositária e servidora da mensagem de Jesus, , sempre via o homem
como sujeito que dignifica o trabalho realizando-se a si mesmo e aperfeiçoando
a obra de Deus, para fazer dela um louvor ao Criador e um serviço aos irmãos.
O
permanente ensino do magistério da Igreja sobre o trabalho como "chave da
questão social" tem sido confirmado e desenvolvido nas recentes
encíclicas sociais de João Paulo II (LE; SRS; CA). E de modo especial sublinha
"a dimensão subjetiva do trabalho" (LE 6) que é a expressão mais
eloqüente da dignidade do trabalhador.
Desafios pastorais:
183.
- A realidade desafia uma cultura do trabalho e da solidariedade, partindo da
fé em Deus Pai, que nos faz irmãos em Jesus Cristo. No que se refere ao mundo
dos trabalhadores, alerta-se para uma deteriorização em suas condições de vida
e no respeito aos seus direitos; um escasso ou nulo cumprimento de normas
estabelecidas para os setores mais débeis (p.ex. crianças, aposentados...);
uma perda de autonomia por parte das organizações de trabalhadores devido a
dependências ou autodependências de diversos gêneros; abuso do capital que
desconhece ou nega a primazia do trabalho; poucas ou nulas oportunidades de
trabalho para os jovens. Alerta-se para a alarmante falta de trabalho ou
desemprego com toda a insegurança econômica e social que isso implica. O mundo
do trabalho reclama o crescimento da economia e o aumento da produtividade, de
modo a tornar possível, mediante uma justa e eqüitativa distribuição, o maior
bem-estar do homem e de sua família.
184.
Cs direitos do trabalhador são um patrimônio moral da sociedade que deve ser
tutelado por uma adequada legislação social e sua necessária instância
judicial, que assegure a continuidade confiável nas relações de trabalho.
Linhas pastorais:
185.
- Impulsionar e sustentar uma pastoral do trabalho em todas as nossas dioceses,
a fim de promover e defender o valor humano do trabalho.
-
Apoiar as organizações próprias dos homens do trabalho para a defesa de seus
legítimos direitos, em especial de um salário suficiente e de uma justa
proteção social para a velhice, a doença e o desemprego (cf. CA 34 e 35).
-
Favorecer a formação de trabalhadores, empresários e governantes em seus
direitos e em seus deveres, e propiciar espaços de encontro e mútua
colaboração.
2.2.6.
A mobilidade humana
186.
O Verbo de Deus se faz carne para reunir em um só povo os que andavam dispersos
e para fazer deles cidadãos do céu (F1 3,20; Hb 11,13-16).
Assim
o Filho de Deus se faz peregrino, passa pela experiência dos que não têm lugar
(cf. Ml 2,13-23), como migrante radicado numa insignificante aldeia (cf. Jo
1,46). Educa a seus discípulos para serem missionários, fazendo-os passar pela
experiência do que migra a fim de confiar somente no amor de Deus, de cuja boa
nova são portadores (cf. Mc 6,6b-12).
Desafios pastorais:
187.
- Tem havido, nos últimos anos, um forte incremento da migração para os grandes
países no Norte, e também- ainda que em menor escala - para outros países
latino-americanos mais ricos. Surgem também fenômenos como a repatriação
voluntária e a deportação dos que não obtêm visto de permanência. O auge das
viagens e o turismo, e inclusive as peregrinações religiosas e dos que vivem do
mar, interpelam a solicitude especial da Igreja. - Nos países com especiais
problemas de migração por causas sócio-econômicas existe em geral ausência de
medidas sociais para detê-1a; e nos países receptores, uma tendência a impedir
seu ingresso. Isto traz graves conseqüências de desintegração familiar e
dispersão de forças produtivas em nossos povos, junto com o desenraizamento, a
insegurança, a discriminação e a degradação moral e religiosa dos migrantes.
Não obstante, em alguns casos, conseguem inserir-se em comunidades católicas e
ainda as revitalizam.
Linhas pastorais:
188.-Reforçar
a pastoral da mobilidade humana reunindo esforços entre dioceses e conferências
episcopais das regiões afetadas, e cuidando que, na acolhida e demais serviços
em favor dos migrantes, se respeitem suas riquezas espirituais e religiosas.
-
Conscientizar os setores públicos sobre o problema das migrações, tendo em
vista a eqüidade das leis sobre o trabalho e a seguridade social, e o
cumprimento de convênios internacionais.
189.-Oferecer
aos migrantes uma catequese adaptada a sua cultura e assessoria legal para
proteger seus direitos.
-
Apresentar alternativas aos camponeses para que não se sintam obrigados a
migrar para a cidade.
2.2.7.
A ordem democrática
190.
- Cristo, o Senhor, enviado pelo Pai para a redenção do mundo, veio para
anunciar a boa notícia e iniciar o Reino e, mediante a conversão das pessoas,
obter uma nova vida segundo Deus e um novo tipo de convivência e relação
social. À Igreja, fiel à missão que lhe outorgou seu fundador, corresponde
constituir a comunidade dos filhos de Deus e ajudar na construção de uma sociedade
onde primam os valores cristãos evangélicos.
-
A Igreja respeita a legítima autonomia da ordem temporal e não tem um modelo
específico de regime político. "A Igreja encara com simpatia o sistema da
democracia, à medida que assegura a participaçâo dos cidadãos nas opções
políticas e garante aos governados a possibilidade quer de eleger e controlar
os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se
torne oportuno" (CA 46).
-
Durante os últimos anos deste processo, a Igreja tem desempenhado na América
Latina um papel de protagonista. Em muitos países sua ação assentou as bases
para uma convivência baseada no diálogo e no respeito à pessoa humana. Apoiada
no magistério de sua doutrina social, a Igreja vem acompanhando o povo em suas
lutas e anseios de uma maior participação e pelo estado de direito.
191.-A
liberdade, inerente à pessoa humana e posta em relevo pela modernidade, vem
sendo conquistada pelo povo em nosso continente e tem possibilitado a
instauração da democracia como 0 sistema de governo mais aceito, ainda que seu
exercício seja mais formal que real.
Desafios pastorais:
192.
- A convivência democrática, que se afirmou depois de Puebla, em alguns países,
vem-se deteriorando, entre outros fatores, pelos seguintes: corrupção
administrativa, distanciamento das lideranças partidárias com relação aos
interesses das bases e às reais necessidades da comunidade; vazios
programáticos e desatenção do social e ético-cultural da parte das
organizações partidárias; governos eleitos pelo povo que não se orientam
eficazmente para o bem comum; muito clientelismo político e populismo, porém
pouca participaçâo.
Linhas pastorais:
193.-Proclamar
insistentemente à sociedade civil os valores de uma genuína democracia
pluralista, justa e participativa.
-
Iluminar e animar o povo para um real protagonismo.
-
Criar as condições para que os leigos se formem segundo a Doutrina Social da
Igreja, em ordem a uma atuação política dirigida ao saneamento e ao
aperfeiçoamento da democracia, e ao serviço efetivo da comunidade.
-
Orientar a família, a escola e as diversas instâncias eclesiais, para que
eduquem nos valores que fundam uma autêntica democracia: responsabilidade,
corresponsabilidade, participação, respeito da dignidade das pessoas, diálogo,
bem comum.
2.2.8.
Nova ordem econômica
194.
Consciente da gestação de uma nova ordem econômica mundial que afeta a América
Latina, a Igreja a partir de sua perspectiva é obrigada a fazer um sério
esforço de discernimento. Temos de nos perguntar: até onde deve chegar a
liberdade de mercado? Ove características deve ter para que sirva ao
desenvolvimento das grandes maiorias?
195.
Segundo o recente ensinamento de João Paulo II (cf. CA), é licita a livre
atividade dos indivíduos no mercado. Isto não significa que o mercado possa
oferecer todos os bens que requer a sociedade nem que esta possa pagar muitos
bens necessários. A economia de mercado deve ter em conta estes limites.
Por
isso os ensinamentos do Santo Padre assinalam a necessidade de ações concretas
dos poderes públicos para que a economia de mercado não se converta em algo
absoluto ao qual se sacrifique tudo, acentuando a desigualdade e a
marginalizado das grandes maiorias. Não pode haver uma economia de mercado
criativa e ao mesmo tempo socialmente justa, sem um sólido compromisso de toda
a sociedade e seus atores com a solidariedade através de um marco jurídico que
assegure o valor da pessoa, a honra, o respeito à vida e a justiça distribu6va,
e a preocupação efetiva com os mais pobres.
196.
Os ajustes econômicos, ainda que possam ser benéficos a longo prazo, ao frear a
inflação e estabilizar a economia, costumam produzir uma grave deterioração do
nível de vida dos pobres. Por isso, o Estado é obrigado, na medida do possível,
porém sincera e generosamente, a compensar os custos sociais dos mais pobres.
197.
O problema da dívida externa não é só, nem principalmente, econômico, mas
humano, porque leva a um empobrecimento cada vez maior e impede o
desenvolvimento e retarda a promoção dos mais pobres. Perguntamo-nos por sua
validade quando por seu pagamento a sobrevivência dos povos corre sério perigo,
quando a população não foi consultada antes de contrair a dívida, e quando esta
foi usada para fins nem sempre licitas. Por isso
,
como pastores, fazemos nossa a preocupação de João Paulo II quando afirma que
"é necessário encontrar modalidades para mitigar, reescalonar ou até cancelar
a dívida, compatíveis com o direito fundamental dos povos à subsistência e o
progresso" (CA 35).
Desafios pastorais:
198.
- Os anos oitenta se caracterizaram pelo flagelo da inflação agravado pelo
déficit fiscal, pelo peso da dívida externa e pela desordem monetária, pela
destruição das economias estatais em razão da perda de recursos fiscais, da
inflação e da corrupção, pela queda das inversões tanto nacionais quanto
estrangeiras, entre outros fenômenos.
-
A relação dos preços, em nível internacional, entre as matérias-primas e os
produtos manufaturados, tornou-se cada vez mais desigual e discriminatória,
afetando muito desfavoravelmente a economia de nossos países. Esta situação
persiste e tende a se agravar.
199.
- O empobrecimento e a agudização da brecha entre ricos e pobres golpeiam de
modo grave as grandes maiorias de nossos povos devido à inflação, à redução dos
salários reais e à falta de acesso a serviços básicos, ao desemprego e ao
aumento da economia informal e da dependência científico-tecnológica.
-
Difunde-se uma mentalidade e um estilo de vida consumiste e egoísta, amplamente
divulgados pelos meios de comunicação social. Isto dificulta ou impede uma
organização social mais justa e digna.
-
Diante da crise de sistemas econômicos que conduziram a fracassos e
frustrações, costuma apresentar-se como solução uma economia de livre mercado,
assumida por não poucos sob o rótulo de neoliberalismo e com um alcance que vai
além do puro campo econômico, e que parte de interpretações estreitas ou reducionistas
da pessoa e da sociedade.
Linhas
pastorais:
200.
- Robustecer o conhecimento, difusão e prática da Doutrina Social da Igreja nos
distintos ambientes.
-
Impulsionar nos diversos níveis e setores da Igreja uma pastoral social que
parta da opção evangélica preferencial pelos pobres, atuando nas frentes do
anúncio, da denúncia e do testemunho, promovendo iniciativas de cooperação, no
contexto de uma economia de mercado.
-
Educar nos valores da laboriosidade e da partilha, da honestidade e da
austeridade, do sentido ético-religioso da vida, para que desde a família -
primeira escola - se formem homens novos para uma sociedade mais fraterna, onde
se viva a destinação universal dos bens em contexto de desenvolvimento
integral.
201.
- Assentar as bases de uma economia solidária, real e eficiente, sem esquecer a
correspondente criação de modelos sócio-econômicos em nível local e nacional.
-
Fomentar a busca e implementação de modelos sócio-econômicos que conjuguem a
livre iniciativa, a criatividade de pessoas e grupos, a função moderadora do
Estado, sem deixar de dar atenção especial aos setores mais necessitados. Tudo
isto, orientado para a realização de uma economia da solidariedade e da
participação, expressa em diversas formas de propriedade.
202.
- Promover relações econômicas internacionais que facilitem a transferência da
tecnologia em um ambiente de reciprocidade social.
-
Denunciar os mecanismos da economia de mercado que prejudicam fundamentalmente
os pobres. Não podemos estar ausentes numa hora na qual não há quem vele por
seus interesses.
203.
- Constatar que a economia informal obedece a uma necessidade de
sobrevivência, ainda que seja susceptível de naufrágio em caso de enfermidades,
inflação, etc.
-
Recordar aos fiéis leigos que devem influir para que o Estado alcance uma maior
estabilidade das políticas econômicas, elimine a corrupção administrativa e
aumente a descentralização administrativa, econômica e educacional.
-
Reconhecer o papel fundamental da empresa, do mercado, da propriedade privada e
da conseqüente responsabilidade para com os meios de produção, da criatividade
humana, no marco jurídico de uma justiça social (CA 42).
2.2.9.
Integração latino-americana
204.
A experiência nos tem mostrado que nenhuma nação pode viver e desenvolver-se com
solidez de maneira isolada. Todos sentimos a urgência de integrar o disperso e
de unir esforços para que a interdependência se torne solidariedade e esta
possa transformar-se em fraternidade. Por isto destacamos estes valores ao
falar da realidade econômica e social do mundo e dos anseios de humanização
nelas latentes.
Os
cristãos encontram motivações muito profundas para continuar este esforço.
Jesus Cristo tornou presente o Reino de Deus, um reino de justiça, de amor e de
paz. Realizou a fraternidade de todos fazendo-se irmão nosso e ensinando-nos a
nos reconhecermos como filhos de um mesmo Pai (cf. Mc 14,36). Ele mesmo nos
chamou à unidade: "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um" (Jo
17,21).
A
Igreja tem consciência de seu singular protagonismo e de seu papel orientador
quanto à formação de uma mentalidade de pertença à humanidade e ao fomento de
uma cultura solidária e de reconciliação.
205.
A necessária interdependência das pessoas e das nações para uma autêntica
solidariedade são características humanas. Também constatamos o dinamismo
mundial das nações, que se associam, como sinal dos tempos, ainda na América
Latina e Caribe.
206.
João Paulo II tem insistido na necessidade de transformar as estruturas que não
respondem às necessidades dos ovos e antes
"
P de tudo em que as nações mais fortes devem oferecer às mais
débeis
oportunidade de inserção na vida internacional" (CA 35). Ante o espetáculo
de países cada vez mais ricos junto a outros cada vez mais pobres, expressou:
"São necessárias soluções em nível mundial, instaurando uma verdadeira economia de comunhão e participação de
bens, tanto na ordem internacional como nacional. A este respeito, um fato
que pode contribuir notavelmente para superar os problemas angustiantes que
afetam hoje este continente é a
integração latino-americana. q grave responsabilidade dos governantes
favorecer o já iniciado processo de integração de alguns povos cuja mesma
geografia, a fé cristã, a língua e a cultura uniram definitivamente no caminho
da história (DI 15).
Desafios pastorais:
207.
- Experimentam-se um isolamento e uma fragmentação de nossas nações, ao mesmo
tempo em que se incrementa uma globalização da economia planetária junto à
formação e/ou reformulação de grandes blocos.
208.
- A formação de grandes blocos que ameaçam deixar isolado a todo o continente,
enquanto não responde a seus interesses econômicos.
-
Dá-se uma desintegração no interior de nossos países como efeito de
discriminações raciais ou grupais e do predomínio econômico-politico-cultural
de interesses particulares, que dificultam também uma abertura a espaços mais
amplos.
-
A própria falta de comunhão entre as Igrejas particulares de uma nação com as
de outra, ou entre nações vizinhas do continente, debilita a força integradora
da própria Igreja.
Linhas
pastorais:
209.
- Fomentar e acompanhar os esforços em prol da integração
latino-americana
como "pátria grande", partindo de uma perspectiva de solidariedade
que exige, além disso, uma nova ordem mternacional.
-
Promover a justiça e a participaçâo no interior de nossas nações, educando
nestes valores, denunciando situações que os contradizem e dando testemunho de
relação fraterna. Animar iniciativas e fortalecer as estruturas e organismos de
colaboração intra-eclesial que sejam necessários ou úteis, respeitando as
diversas competência. Assumir neste sentido a sugestão do Santo Padre relativa
a um encontro dos Episcopados de todo o continente americano.
23.
A Fam7ia e a Vida: desafios de especial urgência na Promoção Humana
2.3.1.
A Família santuário da vida
210.
A Igreja anuncia com alegria e convicção a Boa Nova sobre a família na qual se
forja o futuro da humanidade e se concretiza a fronteira decisiva da Nova
Evangelização. Assim o proclamamos, aqui na América Latina e no Caribe, num
momento histórico em que a família é vítima de muitas forças que buscam
destruí-1a ou deformá-1a.
É
certo que o lugar mais indicado para falar da família é aquele em que se trata
da Igreja particular, paróquia e comunidades eclesiais, uma vez que a família é
a Igreja doméstica. Porém, por causa dos tremendos problemas que hoje afetam a
vida humana, incluímos este tema na parte que trata da Promoção Humana.
Evidentemente reconhecemos a diversidade de famílias rurais e urbanas, cada uma
dentro de seu contexto cultural; mas em todas as partes a família é fermento e
sinal do amor divino e da Igreja e, portanto, deve estar aberta ao plano de
Deus.
211.
O matrimônio e a família no projeto original de Deus são instituições de origem
divina e não produtos da vontade humana. Quando o Senhor disse "no começo
não foi assim" (Ml 19,8) se refere à verdade sobre o matrimônio, que,
segundo o plano de Deus, exclui o divórcio.
212.
O homem e a mulher, sendo imagem e semelhança de Deus (Gn 2,16), que é amor,
são chamados a viver no matrimônio, o mistério da comunhão e relação
trinitária. "Deus inscreve na pessoa humana a vocação e conseqüentemente a
capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão" (FC 11). Homem e
mulher são chamados ao amor na totalidade de seu corpo e espírito.
213.
Jesus Cristo é a Nova Aliança, nele o matrimônio adquire sua verdadeira
dimensão. Por sua Encarnação e por sua vida em família por Maria e José no lar
de Nazaré se constitui um modelo de toda família. O amor dos esposos por Cristo
chega a ser como o dele: total, exclusivo, fiel e fecundo. A partir de Cristo e
por sua vontade, proclamada pelo Apóstolo, o matrimônio não só volta à perfeição primeira mas se enriquece com novos
conteúdos (Et 5,25-33). O matrimônio
cristão é um sacramento em que o amor humano é santificante e comunica a vida
divina por obra de Cristo; um sacramento
em que os esposos significam e realizam o amor de Cristo e de sua Igreja, amor
que passa pelo caminho da cruz, das
limitações, do perdão e dos defeitos para chegar à alegria da ressurreição. É necessário ter presente que "entre
batizados não pode haver contrato matrimonial válido, senão por esse mesmo sacramento" (CIC 1055,2).
214.
No plano de Deus Criador e Redentor a família descobre não só sua identidade
senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida, através
de quatro atos fundamentais (FC 17):
a)
A missão da família é viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas que se caracteriza pela
unidade e indissolubilidade. A família é o lugar privilegiado para a realização
pessoal junto com os seres amados.
b)
Ser "como o santuário da vida" (CA 39), serva da vida, já que o
direito à vida é a base de todos os direitos humanos. Este serviço não se reduz
só à procriação, é antes auxilio eficaz para transmitir e educar em valores
autenticamente humanos e cristãos.
c)
Ser "célula primeira e vital da sociedade" (FC 42). Por sua natureza
e vocação, a família deve ser promotora do desenvolvimento, protagonista de uma
autêntica política familiar.
d)
Ser "Igreja doméstica" que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra
de Deus, é santuário onde se edifica a santidade e a partir de onde a Igreja e
o mundo podem ser santificados (FC 55).
Não
obstante as graves crises da família, constatamos que muitas famílias
latino-americanas e do Caribe se esforçam e vivem cheias de esperança e com
fidelidade o projeto de Deus Criador e
Redentor, a fidelidade, a abertura à vida, a educação cristã dos filhos
e o compromisso com a Igreja e o mundo.
215.
Deus é o Senhor da vida. A vida é dom seu. O homem não é, nem pode ser árbitro
ou dono da vida. O filho deve ser responsavelmente acolhido na família como dom
preciosíssimo e irrepetível de Deus. A criança, concebida, não nascida é o ser
mais pobre, vulnerável e indefeso que se há de defender e tutelar. Vê-se hoje,
com maior clareza, a relação tão estreita, subjetiva e objetiva entre
anticoncepção e aborto. Separa-se de modo drástico o significado unitivo do
procriativo no ato conjugal, o que vem a ser traição do próprio sentido da
vida.
2.3.2
Os desafios d família e à vida hoje
216.
A mudança histórico-cultural tem causado impacto na imagem tradicional da
família. Cada vez são mais numerosas as uniões consensuais livres, os divórcios
e os abortos. A novidade é que estes problemas familiares se tornaram um
problema de ordem ético-Política, e uma mentalidade "laicizante" e os
meios de comunicação social têm contribuído para isto.
217.
Com demasiada freqüência, se desconhece que o matrimônio e a família são um
projeto de Deus, que convida o homem e a mulher criados por amor a realizar seu
projeto de amor em fidelidade até a morte, devido ao secularismo reinante, à
imaturidade psicológica e a causas sócio-econônicas e políticas, que levam a
quebrantar os valores morais e éticos da família. Disso resultam a dolorosa
realidade de famílias incompletas, casais em situação irregular e o crescente
matrimônio civil sem celebração sacramental e uniões consensuais.
218.
Um número crescente de famílias da América Latina e do Caribe interpela
governos, sociedade e organismos internacionais, partindo de sua situa o de
miséria e fome em razão do desemprego, da carência da vida digna, de serviços
educativos e sanitários, de salários baixos; a partir do abandono das idosos e
do crescente número de mães solteiras.
219.
A cultura da morte nos desafia. Com tristeza humana e preocupação cristã, somos
testemunhas das campanhas antivida, que se difundem na América Latina e no
Caribe, perturbando a mentalidade do nosso povo com uma cultura da morte. O
egoísmo, o medo ao sacrifício e à cruz unidos às dificuldades da vida moderna
geram uma rejeição do filho que não é responsável e alegremente acolhido na
família, mas considerado como um agressor. Atemorizam-se as pessoas com um
verdadeiro "terrorismo demográfico" que exagera o perigo que pode
representar o crescimento da população &ente à qualidade de vida.
Existe
uma distribuição massiva de anticoncepcionais, em sua grande maioria abortivos.
Imensos setores de mulheres são vítimas de programas de esterilizações
massivas. Também os homens sucumbem ante estas ameaças. Nosso continente sofre
as causa do "imperialismo contraceptivo, que consiste em impor a povos e
culturas toda forma de contracepção, esterilização e aborto, que se considera
efetiva sem respeito às tradições religiosas, étnicas e familiares de um povo
ou cultura" (Carta da Santa Sé à Reunião da OMS em Bangcoc).
Cada
dia é maior o massacre do aborto que produz milhões de vítimas em nossos povos
latino-americanos. A mentalidade antivida, além da eutanásia pré-natal, leva à
eliminação de crianças recém-nascidas e dos anciãos e enfermos estimados como
inúteis, defeituosos, ou "carga" para a sociedade. Outras expressões
de anticultura da morte são a eutanásia, a guerra, a guerrilha, o seqüestro, o
terrorismo, o narcotráfico.
220.
Os cristãos fiéis se sentem perplexos ante as contradições e falta de coerência
dos agentes de pastoral familiar, quando não seguem o Magistério da Igreja (Humanae vitae; Familiaris consortio;
Reconciliatio et poenitentia).
221.
A América Latina e o Caribe têm uma população infantil crescente. As crianças,
adolescentes e jovens são mais da metade da população do continente (55%). Esta
"emergência silenciosa" vivida pela América Latina e Caribe é
desafiante não só do ponto de vista numérico mas muito especialmente do ponto
de vista humano e pastoral. Com efeito, em muitas cidades têm aumentado os
"meninos de rua" que perambulam dia e noite sem lugar nem futuro. Em
alguns países têm sido vítimas de campanhas de extermínio, realizadas por
organismos policiais e privados; crianças sem família, sem amor, sem acesso à
educação, isto é, crianças em extrema miséria física e moral, muitas vezes
conseqüência da desintegração familiar. Detecta-se, inclusive, um aberrante comércio
de meninos e meninas, tráfico de órgãos e até utilização de crianças em cultos
satânicos. Do ponto de vista da educação da fé, se percebe um forte descuido
quanto à recepção de sacramentos e à catequese.
2.3.3.
Linhas pastorais
222.
1. Enfatizar a prioridade e centralidade da pastoral familiar na Igreja
diocesana. Para isto é necessário capacitar agentes. Os movimentos apostólicos
que têm por objetivo o matrimônio e a família podem oferecer apreciável
cooperação às Igrejas particulares, dentro de um plano orgânico integral.
-
A pastoral familiar não pode limitar-se a uma atitude meramente protetora,
deve ser provisora, audaz e positiva. Há de discernir com sabedoria evangélica
os desafios que as mudanças culturais apresentam à família. Há de denunciar as
violações contra a justiça e a dignidade da família. Ha de acompanhar às
famílias dos setores mais pobres, rurais e urbanos, promovendo a solidariedade.
-
A pastoral familiar há de cuidar da formação dos futuros esposos e o
acompanhamento dos cônjuges, sobretudo, nos primeiro anos de sua vida
matrimonial. Como preparação imediata têm reconhecido valor os cursos para
noivos antes da celebração sacramental.
223.
2. Proclamar que Deus é o único Senhor da vida, que o homem não é, nem pode ser
amo ou árbitro da vida humana. Condenar e rejeitar qualquer violação exercida
por autoridades em favor da anticoncepção, a eutanásia, a esterilização e o
aborto provocado. Igualmente, as políticas de alguns governos e organismos
internacionais que condicionam a ajuda econômica aos programas contra a vida.
224.
Buscar, seguindo o exemplo do Bom Pastor, caminhos e formas para conseguir uma
pastoral orientada a casais em situações irregulares, especialmente os
divorciados e pessoas que de novo se casaram civilmente.
225.
Fortalecer a vida da Igreja e da sociedade a partir da família: enriquecê-1a a
partir da catequese familiar, a oração no lar, a Eucaristia, a participação no
sacramento da Reconciliação, o conhecimento da Palavra de Deus, para ser
fermento na Igreja e na sociedade.
226.
3. Convidar os teólogos, cientistas e casais cristãos a colaborar com o
magistério hierárquico para iluminar melhor os fundamentos bíblicos, as
motivações éticas e as razões científicas para a paternidade responsável, para
a decisão livre, de acordo com uma consciência bem formada, segundo os
princípios da moral, q to no que tange ao número de filhos que se pode educar,
quanto aos métodos segundo uma autêntica paternidade responsável. O fruto
desses trabalhos será a promoção de programas e serviços que difundem os
métodos naturais de planejamento e elaborem manuais de educação para a
sexualidade e o amor, dirigidos a crianças, adolescentes e jovens.
-
Ante os equívocos de alguns programas "demográficos", temos de
recordar as palavras do Papa no seu Discurso inaugural dessa Conferência:
"O que é preciso é aumentar os meios e distribuir com maior justiça a
riqueza, para que todos possam participar eqüitativamente dos bens da
criação" (n. 15).
227.
4. Exercer o ministério profético da Igreja: denunciando toda violação contra
as crianças nascidas e não-nascidas. Difundir e exigir o cumprimento da
"convenção dos direitos da criança" com as observações da Santa Sé, e
ainda a carta da Santa Sé sobre os direitos da família. Orientar os leigos para
que promovam nos diversos países legislações que tutelem os direitos das
crianças e urgir seu cumprimento. Acompanhar e apoiar efetivamente os pais de
família, educadores, catequistas e institutos religiosos que se dedicam à
educação da infância, prestando especial atenção ao crescimento na fé. Fomentar
a mística pelo trabalho a favor das crianças e promover a pastoral da infância,
através de ações proféticas e caritativas que testemunhem o amor de Cristo
pelas crianças mais pobres e abandonadas.
CAPÍTULO 3
A
CULTURA CRISTÃ
Introdução
228.
A vinda do Espírito Santo em Pentecostes (c£ At 2,1-11) põe de manifeste a
universalidade do mandato evangelizador: pretende chegar a toda cultura.
Manifesta também a diversidade cultural dos fiéis, quando ouviam falar cada um
dos apóstolos na sua própria língua.
Nasce
a cultura com o mandato inicial de Deus aos seres humanos: crescer e
multiplicar-se, encher a terra e submetê-1a (Gn 1,28-30). Dessa maneira a
cultura é cultivo e expressão de todo o humano em relação amorosa com a
natureza e na dimensão comunitária dos povos.
Quando
Jesus Cristo, na encarnação, assume e exprime todo 0 humano, exceto o pecado,
então o Verbo de Deus entra na cultura. Assim, Jesus Cristo é a medida de todo
o humano e portanto também da cultura. Ele, que se encarnou na cultura de seu
povo, traz para cada cultura histórica o dom da purificação e da plenitude.
Todos os valores e expressões culturais que possam dirigir-se a Cristo promovem
o autêntico humano. O que não passa pelo Cristo não poderá ficar redimido.
229.
Por nossa adesão radical a Cristo no batismo, comprometemo-nos a fazer com que
a fé, plenamente anunciada, pensada e vivida, chegue a fazer-se cultura. Assim,
podemos falar de uma cultura cristã quando o sentir comum da vida de um povo
tem sido penetrado interiormente, até "situar a mensagem evangélica na
base de seu pensamento, nos seus princípios fundamentais de vida, nos seus
critérios de juízo, nas suas normas de ação" (DI 24) e dali "projeta-se no
ethos de um povo... nas suas instituições e em todas as estruturas"
(ibid. 19).
Esta
evangelização da cultura, que a invade até seu núcleo dinâmico, manifesta-se
no processo de inculturação, que João Paulo II chamou de "centro, meio e
objetivo da Nova Evangelização" (Discurso
ao Conselho Internacional de Catequese, 26.9.92). Os autênticos valores
culturais, discernidos e assumidos pela fé, são necessários para encarnar nessa
mesma cultura a mensagem evangélica e a reflexão e práxis da Igreja.
A
Virgem Maria acompanha os apóstolos quando o Espírito de Jesus ressuscitado
penetra e transforma os povos das diversas culturas. Maria, que é modelo da
Igreja, também é modelo da evangelização da cultura. É a mulher judia que
representa o povo da Antiga Aliança com toda sua realidade cultural. Mas abre-se
à novidade do Evangelho e está presente nas nossas terras como Mãe comum, tanto
dos aborígines como daqueles que para cá vieram, propiciando desde o princípio
a nova síntese cultural que é a América Latina e do Caribe.
230.
Inculturação do Evangelho
Posto
que "hoje em dia estamos diante de uma crise cultural de proporções
inimagináveis" (DI 21) na qual vão desaparecendo valores evangélicos e
ainda humanos fundamentais, apresenta-se à Igreja um desafio gigantesco para
uma nova evangelização, ao qual se pretende responder com o esforço da
inculturação do Evangelho. É necessário inculturar o Evangelho à luz dos três
grandes mistérios da salvação: a Natividade, que mostra o caminho da
Encarnação e move o evangelizador a partilhar sua vida com o evangelizado; a
Páscoa, que conduz através do sofrimento à purificação dos pecados, para que
sejam redimidos; e Pentecostes, que pela força do Espírito possibilita a todos
entender, na sua própria língua, as maravilhas de Deus.
A
inculturação do Evangelho é um processo que supõe reconhecimento dos valores
evangélicos que se têm mantido mais ou menos puros na atual cultura; e o
reconhecimento de novos valores que coincidem com a mensagem de Cristo.
Mediante a inculturação, busca-se que a sociedade descubra o caráter cristão
desses valores, os aprecie e os mantenha como tais. Além disso, pretende a
incorporação de valores evangélicos que estão ausentes da cultura, ou porque
se tenham obscurecido ou porque tenham chegado a desaparecer. "Pela
inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e
simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua própria
comunidade, transmitindo-lhes os seus próprios valores, assumindo o que de bom
nelas existe, e renovando-as a partir de dentro" (RMi 52). A fé, ao se
encarnar nessas culturas, deve corrigir seus erros e evitar sincretismos. A
tarefa da inculturação da fé é própria das Igrejas particulares sob a direção
dos seus pastores, com a participação de todo o povo de Deus. Os critérios
fundamentais neste processo são a sintonia com as exigências objetivas da fé e
a abertura à comunhão com a Igreja universal (cf. RMi 54).
3.1
Valores culturais: Cristo, medida de nossa conduta moral
231.
- Criados à imagem de Deus, temos a medida de nossa conduta moral em Cristo,
Verbo encarnado, plenitude do homem. Já a conduta ética natural, essencialmente
ligada à dignidade humana e seus direitos, constitui a base para um diálogo
com os não-crentes.
Pelo
batismo nascemos a uma vida nova e recebemos a capacidade de nos aproximarmos
do modelo que é Cristo. Caminhar em direção a Ele é a moral cristã; é a forma
de vida própria do homem de fé, que com a ajuda da graça sacramental segue a
Jesus Cristo, vive a alegria da salvação e abunda em frutos de caridade para a
vida do mundo (c£ Jo 15; OT 16).
-
Consciente da necessidade de seguir este caminho, o cristão se empenha na
formação da própria consciência. Desta formação, tanto individual como
coletiva, da maturidade de mentalidade, do seu sentido de responsabilidade e da
pureza dos costumes depende o desenvolvimento e a riqueza dos povos (cf. DI
19). A moral cristã só se entende dentro da Igreja e se planifica na
Eucaristia. Tudo o que nela podemos oferecer é vida; o que não se pode oferecer
é o pecado.
Desafios pastorais
232.
- Graças a Deus, na América Latina e no Caribe, há muita gente que segue com
fidelidade a Jesus Cristo, mesmo em circunstâncias adversas. Todavia,
observa-se na nossa realidade social o crescente desajuste ético-moral, em
especial a deformação da consciência, a ética permissiva e uma sensível queda
do sentido do pecado. Decresce o influxo da fé, perde-se o valor religioso,
desconhece-se a Deus como sumo bem e último juiz. Diminui a prática do
sacramento da reconciliação. É deficiente a apresentação do magistério moral
da Igreja.
233. - A corrupção tem-se generalizado. Há um mau emprego
dos recursos econômicos públicos; progridem a demagogia, o populismo, a
"mentira política" nas promessas eleitorais; burla-se a justiça,
generaliza-se a impunidade e a comunidade se sente impotente e indefesa diante
do delito. Com tudo isso, fomenta-se a insensibilidade social e o cepticismo
ante a falta de aplicação da justiça, emitem-se leis contrárias aos valores
humanos e cristãos fundamentais. Não há uma eqüitativa distribuição dos bens
da terra, abusa-se da natureza e se danifica o ecossistema.
234.-Fomentam-se
a mentalidade e as ações contra a vida mediante campanhas anti-natalistas, de
manipulação genética, do abominável crime do aborto e da eutanásia. Muda-se o
sentido da vida como conquista do forte sobre o fraco, que propicia ações de
ódio e destruição, e impede a construção e o crescimento do homem.
235.
- Assiste-se assim à crescente deterioração da dignidade humana. Crescem a
cultura da morte, a violência e o terrorismo, a toxicomania e o narcotráfico.
Desnaturaliza-se a dimensão integral da sexualidade humana, faz-se de homens e
mulheres, inclusive de crianças, uma indústria de pornografia e prostituição;
no âmbito da permissividade e promiscuidade sexual cresce o terrível mal da
AIDS e aumentam as doenças venéreas.
236.-Introduz-se
como norma de moralidade a chamada "ética civil ou cidadã", na base
de um consenso mínimo de todos com a cultura reinante, sem necessidade de
respeitar a moral natural e as normas cristãs. Observa-se uma "moral de
situação" segundo a qual algo mau em si deixaria de sê-1o segundo as
pessoas, circunstâncias e interesses em jogo. Freqüentemente os meios de
comunicação social se fazem eco de todos estes critérios e os difundem.
Linhas pastorais
237.
- Trabalhar na formação cristã das consciências e resgatar os valores perdidos
da moral cristã. Voltar a tomar consciência do pecado (do pecado original e dos
pecados pessoais) e da graça de Deus como força para poder seguir nossa
consciência cristã.
Despertar
em todos a experiência do amor que o Espírito Santo derrama nos corações, como
força de toda Moral cristã.
238.
- Zelar para que os meios de comunicação social nem manipulem nem sejam
manipulados ao transmitir, sob pretexto de pluralismo, o que destrói o povo
latino-americano. Fortalecer a unidade da família e sua influência na formação
da consciência cristã.
239.
- Apresentar a vida moral como um seguimento de Cristo, frisando a vivência das
Bem-aventuranças e a freqüente prática dos sacramentos. Difundir as virtudes
morais e sociais que nos convertam em homens novos, criadores de uma nova
humanidade. Este anúncio tem que ser vital e querigmático, especialmente onde
mais se houver introduzido o secularismo, apresentando na catequese a conduta
cristã como o autêntico seguimento de Cristo. Cuidar que, no campo moral, a
justa aplicação de critérios de gradualidade não diminua as exigências
peremptórias da conversão.
240.
- Favorecer a formação permanente dos bispos e presbíteros, dos diáconos, dos
religiosos, religiosas e leigos, especialmente dos agentes de pastoral segundo
o ensinamento do Magistério. A liturgia deve expressar mais claramente os
compromissos morais que comporta. A religiosidade popular, especialmente nos
Santuários, deve voltar-se para a conversão. É mister fomentar e facilitar o
acesso ao sacramento da reconciliação.
241.
- Quanto ao problema da droga, implementar ações de prevenção na sociedade e
de atenção e cura dos toxicômanos; denunciar com coragem os males que o vício e
o tráfico da droga produzem em nossos povos, e o gravíssimo pecado que
significa a sua produção, comercialização e consumo. Chamar especialmente a
atenção sobre a responsabilidade dos poderosos mercados consumidores. Promover
a solidariedade e a cooperação nacional e internacional no combate a este
flagelo.
242.
- Orientar e acompanhar pastoralmente os construtores da sociedade na formação
de uma consciência moral em suas tarefas e na atuação política.
Estar
sempre abertos ao diálogo com aqueles que guiam suas vidas por caminhos
diferentes da ética cristã. Comprometer-nos efetivamente na consecução da
justiça e da paz dos nossos povos.
3.2.
Unidade e pluralidade das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças
Iluminação teológica
243.
- A ação de Deus, através do seu Espírito, dá-se permanentemente no interior
de todas as culturas. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho Jesus
Cristo, que assumiu as condições sociais e culturais dos povos e se fez
"em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hb 4,15; cf. GS 22).
-
A analogia entre a encarnação e a presença cristã no contexto sócio-cultural e
histórico dos povos suscita para nós o problema teológico da inculturação. Esta
inculturação é um processo que vai do Evangelho ao coração de cada povo e comunidade
com a mediação da linguagem e dos símbolos compreensíveis e apropriados
segundo o juízo da Igreja.
-
Uma meta da Evangelização inculturada será sempre a salvação e libertação
integral de um determinado povo ou grupo humano, que fortaleça sua identidade e
confie em seu futuro específico, contrapondo-se aos poderes da morte, adotando
a perspectiva de Jesus Cristo encarnado, que salvou a vida de todos partindo da
fraqueza, da pobreza e da cruz redentora. A Igreja defende os autênticos
valores culturais de todos os povos, especialmente dos oprimidos, indefesos e
marginalizados, diante da força esmagadora das estruturas de pecado manifestas
na sociedade moderna.
Desafios pastorais
244.
- A América Latina e o Caribe configuram um continente multiétnico e
pluricultural. Nele convivem, em geral, povos aborígines, afro-americanos,
mestiços e descendentes de europeus e asiáticos, cada qual com sua própria
cultura que os situa em sua respectiva identidade social, segundo a cosmovisão
de cada povo. Eles buscam, porém, uma unidade a partir da identidade católica.
245.
- Os povos indígenas de hoje cultivam valores humanos de grande significação.
Eles têm, nas palavras de João Paulo II, a certeza de que o mal se identifica
com a morte e o bem com a vida" (João Paulo IIs Mensagem aos indígenas, 2). Estes valores e convicções são fruto
das "sementes do Verbo" que estavam já presentes e atuastes nos seus
antepassados, para que fossem descobrindo a presença do Criador em todas suas
criaturas: o sol, a lua, a mãe terra etc. (c£ ibid.).
A
Igreja, ao se encontrar com estes povos nativos, desde o princípio tratou de
acompanha-los na luta pela própria sobrevivência, ensinando-lhes o caminho de
Cristo Salvador, a partir da injusta situação de povos vencidos, invadidos e tratados
como escravos. Na primeira evangelização, junto a enormes sofrimentos, houve
grandes acertos e intenções pastorais valiosas, cujos frutos perduram até os
nossos dias.
246.
- As culturas afiro-americanas, presentes na América Latina e no Caribe, estão
marcadas por uma constante resistência à escravidão. Estes povos, que somam
milhões de pessoas, têm também nas suas culturas valores humanos que expressam
a presença do Deus criador.
Durante
os quatro séculos passados, é indubitável que vários milhões de africanos
negros foram transportados como escravos, violentamente arrancados de suas
terras, separados de suas famílias e vendidos como mercadoria. A escravidão dos
negros e a matança dos índios foram o maior pecado da expansão colonial do
Ocidente. Infelizmente, no que se refere à escravidão, ao racismo e à
discriminação, houve batizados que não se mantiveram alheios a essa situação.
247.
- Como o assinalou vigorosamente o Documento de Puebla, nos povos que são fruto
da mestiçagem racial, tem-se desenvolvido uma cultura "mestiça"
particular, na qual está muito vigente a religiosidade popular, como forma
inculturada do catolicismo. Coexistem, no entanto, o descumprimento de deveres
cristãos ao lado de admiráveis exemplos de vida cristã e um desconhecimento da
doutrina ao lado de vivências católicas enraizadas nos princípios do Evangelho.
Nas
expressões culturais e religiosas de camponeses e de habitantes das periferias
urbanas, reconhece-se grande parte do patrimônio cristão do continente e uma fé
arraigada dos valores do Reino de Deus.
Linhas pastorais: Evangelização incultura
248.
- Depois de ter pedido perdão com o Papa aos nossos irmãos indígenas e
afro-americanos "perante a infinita santidade de Deus, pelos fatos
marcados pelo pecado, pela injustiça e pela
violência"
(Audiência geral, quarta feira 21 de outubro de 1991), queremos desenvolver uma
evangelização inculturada:
1.
Para com nossos irmãos indígenas:
-
Oferecer o evangelho de Jesus com o testemunho de uma atitude humilde,
compreensiva e profética, valorizando sua palavra através de um diálogo
respeitoso, franco e fraterno e esforçar-nos por conhecer suas próprias
línguas.
-
Crescer no conhecimento crítico de suas culturas para apreciá-las à luz do
Evangelho.
-
Promover uma inculturação da liturgia, acolhendo com apreço seus símbolos,
ritos e expressões religiosas compatíveis com o claro sentido da fé, mantendo o
valor dos símbolos universais e em harmonia com a disciplina geral da Igreja.
-
Acompanhar sua reflexão teológica, respeitando suas formulações culturais, que
os auxiliem a dar razão de sua fé e de sua esperança.
-
Crescer no conhecimento de sua cosmovisão, que faz da globalidade de Deus,
homem e mundo, uma unidade que impregna todas as relações humanas, espirituais
e transcendentais.
-
Promover nos povos indígenas seus valores culturais autóctones mediante uma
inculturação da Igreja, para atingir uma maior realização do Reino.
249.
2. Para com nossos irmãos afro-americanos:
-
Conscientes do problema da marginalização e do racismo que pesa sobre a
população negra, a Igreja, na sua missão evangelizadora, quer participar dos
seus sofrimentos e acompanhá-los em suas legítimas aspirações em busca de uma
vida mais justa e digna para todos (cf. ibid.).
-
Pela mesma razão, a Igreja na América Latina e no Caribe quer apoiar os povos
afro-americanos na defesa de sua identidade e no reconhecimento de seus
próprios valores; como também ajudá-los a manter vivos seus usos e costumes
compatíveis com a doutrina cristã (Discurso do Papa João Paulo II aos Afro-americanos
em Santo Domingo).
-
Da mesma forma, comprometemo-nos a dedicar especial atenção à causa das
comunidades afro-americanas no campo pastoral, favorecendo a manifestação das
expressões religiosas próprias de suas culturas (ibid.).
250.
3. Desenvolver a consciência da
mestiçagem, não só a nível racial mas também cultural, que caracteriza as
grandes maiorias em muitos dos nossos povos, pois está vinculada à inculturação
do Evangelho.
Promoção humana das
etnias
251.
Para uma autêntica promoção humana, a Igreja quer apoiar os esforços que estes
povos fazem para ser reconhecidos como tais pelas leis nacionais e
internacionais, com pleno direito à terra, às suas próprias organizações e
vivências culturais, a fim de garantir o direito que têm de viver segundo sua
identidade, sua própria língua e seus costumes ancestrais, e de se relacionar
com plena igualdade com todos os povos da terra.
Portanto
assumimos os seguintes compromissos:
-
Superar a mentalidade e a práxis do desenvolvimento induzido do exterior, em
favor do autodesenvolvimento, a fim de que estes povos sejam artífices do seu
próprio destino.
-
Contribuir eficazmente para deter e erradicar as políticas tendentes a fazer
desaparecer as culturas autóctones como meios de forçada integração; ou pelo
contrário, políticas que queiram manter os indígenas isolados e marginalizados
da realidade nacional.
-
Impulsionar a plena vigência dos direitos humanos dos indígenas e
afro-americanos, incluindo a legítima defesa de suas terras. - Como um gesto
concreto de solidariedade em favor dos camponeses, indígenas e
afro-americanos, apoiar a Fundação Populorum
Progressio, instituída pelo Santo Padre.
-
Rever completamente nossos sistemas educacionais, para eliminar
definitivamente todo aspecto discriminatório no que diz respeito a métodos
educativos, volume e investimento de recursos.
-
Fazer o possível para que se garanta aos indígenas e afro-americanos uma
educação adequada a suas respectivas culturas, começando inclusive com a
alfabetização bilingüe.
3.3
Nova cultura
3.3.1
Cultura moderna
Situação
252.
- Embora realidade pluricultural, a América Latina e o Caribe estão
profundamente marcados pela cultura ocidental, cuja memória, consciência e
projeto se apresentam sempre no nosso predominante estilo de vida comum. Daí o
impacto que a cultura moderna e as possibilidades a nós oferecidas por seu
período pós-moderno produziram em nossa maneira de ser.
A
cultura moderna se caracteriza pela centralidade do homem; os valores da
personalização, da dimensão social e da convivência; a absolutização da razão,
cujas conquistas científicas e tecnológicas e informáticas têm satisfeito
muitas das necessidades do homem, ao mesmo tempo que têm buscado uma autonomia
em relação à natureza, a qual domina; em relação à história, cuja construção
ele assume; e inclusive em relação a Deus, do qual se desinteressa ou relega à
consciência pessoal, privilegiando exclusivamente a ordem temporal.
-
A pós-modernidade é o resultado do fracasso da pretensão reducionista da razão
moderna, que leva o homem a questionar tanto alguns êxitos da modernidade como
a confiança no progresso indefinido, embora reconheça, como o faz também a
Igreja (GS 57), seus valores.
-
Tanto a modernidade, com seus valores e contravalores, como a pós-modernidade
enquanto espaço aberto à transcendência, apresentam sérios desafios à
evangelização da cultura.
Desafios
pastorais
253.
- Ruptura entre fé e cultura, conseqüência do fechamento do homem moderno à
transcendência, e da excessiva especialização que impede a visão de conjunto.
-
Escassa consciência da necessidade de uma verdadeira inculturação como caminho
para a evangelização da cultura.
-
Incoerência entre os valores do povo, inspirados em princípios cristãos, e as
estruturas sociais geradoras de injustiças, que impedem o exercício dos
direitos humanos.
-
O vazio ético e o individualismo reinante, que reduzem a fundamentação dos
valores a meros consensos sociais subjetivos. - O poder massivo dos meios de
comunicação social, com freqüência a serviço de contravalores.
- A escassa presença
da Igreja no campo das expressões dominantes da arte, do pensamento filosófico
e antropológico-social, no universo da educação.
-
A nova cultura urbana, com seus valores, expressões e estruturas
características, com seu espaço aberto e, ao mesmo tempo, diversificado, com
sua mobilidade, em que predominam as relações funcionais.
Linhas pastorais
254.
- Apresentar Jesus Cristo como paradigma de toda atitude pessoal e social, e
como resposta aos problemas que afligem às culturas modernas: o mal, a morte, a
falta de amor.
-
Intensificar o diálogo entre fé e ciência, fé e expressões, fé e instituições,
que são grandes âmbitos da cultura moderna.
-
Cuidar dos sinais e da linguagem cultural que assinala a presença cristã e permite
introduzir a originalidade da mensagem evangélica no coração das culturas,
especialmente no campo da liturgia.
-
Promover e formar o laicado para exercer no mundo sua tríplice função: a
profética, no campo da Palavra, do pensamento, de sua expressão e valores; a
sacerdotal no mundo da celebração e do sacramento, enriquecida pelas expressões
da arte, e da comunicação; a régia no universo das estruturas sociais,
políticas, econômicas.
-
Promover o conhecimento e discernimento da cultura moderna visando a uma
adequada inculturação.
3.3.2
A cidade
Desafios pastorais
255.
- A América Latina e o Caribe acham-se hoje num processo acelerado de
urbanização. A cidade pós-industrial não representa só uma variante do
tradicional habitat humano, mas constitui, de fato, a passagem da cultura
rural à cultura urbana, sede e motor da nova civilização universal (cf. P 429).
Nela altera-se a forma com a qual num grupo social, num povo, numa nação, os
homens cultivam sua relação consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com
Deus.
-
Na cidade, as relações com a natureza se limitam, quase sempre e pelo próprio
ser da cidade, ao processo de produção de bens de consumo. As relações entre as
pessoas se tornam amplamente funcionais e as relações com Deus passam por uma acentuada
crise, porque falta a mediação da natureza tão importante na religiosidade
rural e porque a modernidade tende a fechar o homem dentro da imanência do
mundo. As relações do homem urbano com ele mesmo também mudam, porque a cultura
moderna faz com que valorize principalmente sua liberdade, sua autonomia, a
racionalidade científico-tecnológica e, de modo geral, sua subjetividade, sua
dignidade humana e seus direitos. Com efeito, na cidade encontram-se os grandes
centros geradores da ciência e tecnologia moderna.
-
Nossas metrópoles latino-americanas têm também como característica atual
periferias de pobreza e miséria, que quase sempre constituem a maioria da
população, fruto de modelos econômicos exploradores e excludentes. Até o campo
se urbaniza pela multiplicação das comunicações e transportes.
-
Por sua vez, o homem urbano atual apresenta um tipo diverso do homem rural:
confia na ciência e na tecnologia; é influenciado pelos grandes meios de
comunicação social; é dinâmico e projetado em direção do novo; consumiste,
audiovisual, anônimo na massa e desarraigado.
Linhas pastorais
256.
- Realizar uma pastoral urbanamente inculturada com relação à catequese, à
liturgia, e à organização da Igreja. A Igreja deverá inculturar o Evangelho na
cidade e no homem urbano, discernir seus valores e antivalores; captar sua
linguagem e seus símbolos. O processo de inculturação abrange o anúncio, a
assimilação e a reexpressão da fé.
257.
- Reprogramar a paróquia urbana. A Igreja na cidade deve reorganizar as suas
estruturas pastorais. A paróquia urbana deve ser mais aberta, flexível e
missionária, permitindo uma ação pastoral transparoquial e supraparoquial. Além
disso, a estrutura da cidade exige uma pastoral especialmente pensada para essa
realidade. Lugares privilegiados da missão deveriam ser as grandes cidades,
onde surgem novas formas de cultura e comunicação.
258.
- Promover a formação de leigos para a pastoral urbana, com formação bíblica e
espiritual; criar ministérios conferidos aos leigos para a evangelização das
grandes cidades.
259.
- Multiplicar as pequenas comunidades, os
grupos e movimentos eclesiais, e as comunidades eclesiais de base. Iniciar
a chamada "pastoral dos edifícios", mediante a ação de leigos
comprometidos que vivam neles.
260.
- Programar uma pastoral ambiental e funcional, diferenciada segundo os espaços
da cidade. Uma pastoral de acolhida, dado o fenômeno das migrações. Uma
pastoral para os grupos marginalizados. Assegurar a assistência religiosa aos
habitantes das grandes cidades durante os meses de verão e férias; dispensar
atenção pastoral aos que passam habitualmente os fins de semana fora da
cidade, onde não têm possibilidade de cumprir o preceito dominical.
261.
- Incentivar a evangelização dos grupos de influência e dos responsáveis da
cidade, no sentido de fazer da mesma, principalmente nos bairros populares, um
habitat digno do homem.
262.-Promover
no âmbito continental (CELAM), nacional e regional, encontros e cursos sobre
evangelização das grandes metrópoles.
3.4
A ação educativa da Igreja
Iluminação teológica
263.
- Reafirmamos o que dissemos em Medellín e Puebla (c£ Documento de educação,
Medellín, Puebla) e a partir dali assinalamos alguns aspectos importantes para
a educação católica nos nossos dias.
-
A educação é a assimilação da cultura. A educação cristã é a assimilação da
cultura cristã. F a inculturação do Evangelho na própria cultura. Seus níveis
são bem diversos, podem ser escolares ou não escolares, elementares ou
superiores, formais ou não-formais. Em todo caso, a educação é um processo
dinâmico que dura a vida toda da pessoa e dos povos. Recolhe a memória do passado, ensina a viver hoje e se projeta
para o futuro. Por isto,
a educação cristã é indispensável na nova evangelização.
264. - A educação cristã desenvolve e
assegura a cada cristão a sua vida
de fé e faz com que verdadeiramente nele sua vida seja Cristo (cf. F1 1,21).
Por ela, ecoam no homem as "palavras de vida eterna" (Jo 6,68),
realiza-se em cada pessoa a "nova criatura" (2 Cor 5,17) e se leva a cabo o projeto do Pai
de "recapitular em Cristo todas as coisas" (Et 1,10). Assim a
educação cristã se funda numa verdadeira antropologia cristã que significa a
abertura do homem para Deus como Criador e Pai, para os outros como seus
irmãos, e para o mundo como àquilo que lhe foi entregue para potenciar suas
virtualidades e não para exercer sobre ele um
domínio despótico que destrua a natureza.
265. - Nenhum mestre educa sem saber para
que educa e em que direção educa. Há um projeto de homem encerrado em qualquer
projeto educativo; e este projeto vale ou não segundo construa ou destrua o
educando. Este é o valor educativo. Quando falamos de uma educação cristã,
queremos dizer que o mestre educa para um projeto de homem no qual viva Jesus
Cristo. Há muitos aspectos nos quais educar e muitos que constam do projeto educativo do homem; há muitos valores; mas
estes valores nunca estão sós, sempre formam uma constelação ordenada explicita
ou implicitamente. Se a estruturação tem como fundamento e termo a Cristo, tal educação recapitulará
tudo em Cristo e será uma verdadeira educação cristã; caso contrário, pode
falar de Cristo, mas não é educação cristã.
- O mestre cristão deve ser considerado como
sujeito eclesial que evangeliza, que catequiza e educa cristãmente. Tem uma
identidade definida na comunidade eclesial. Seu papel deve ser reconhecido na
Igreja.
266.
- Na situação atual encontramos uma pluralidade de valores que nos interpelam e
que são ambivalentes. Daí surge a necessidade de confrontar os novos valores
educacionais com Cristo revelador do mistério do homem. Na nova educação,
trata-se de fazer crescer e
amadurecer a pessoa segundo as exigências dos novos valores; a isto deve
agregar-se a harmonização com a tipologia própria do contexto latino-americano.
- Geralmente nos pedem, com base em
critérios secularistas, que eduquemos o homem técnico, o homem apto para
dominar seu mundo e viver num intercâmbio de bens produzidos sob certas normas
políticas; as mínimas. Esta realidade nos interpela fortemente para podermos
ser conscientes de todos os valores que estão nela e podê-los recapitular em
Cristo; interpela-nos para continuar a linha da Encarnação do Verbo na nossa
educação cristã, e para chegar ao projeto de vida para todo homem, que é Cristo
morto e ressuscitado.
Desafios pastorais
267.
- A partir de outros aspectos a realidade latino-americana nos interpela pela
exclusão de muita gente da educação escolar, mesmo a básica, pelo grande
analfabetismo que existe em vários dos nossos países; interpela-nos pela crise
da família, a primeira educadora, pelo divórcio existente entre o Evangelho e a
cultura; pelas diferenças sociais e econômicas que fazem com que para muitos
seja dispendiosa a educação católica, especialmente nos níveis superiores.
Interpela-nos também a educação informal que se recebe através de tantos
comunicadores não propriamente cristãos, p.ex., na televisão.
268.-Um
grande desafio é a Universidade católica e a Universidade de inspiração cristã,
já que o seu papel é especialmente o
de realizar um projeto cristão de homem e portanto, tem de estar em diálogo
vivo, contínuo e progressivo com o Humanismo e com a cultura técnica, de
maneira que saiba ensinar a autêntica Sabedoria cristã pela qual o modelo de
"homem trabalhador", aliado ao de "homem sábio", culmine em
Jesus Cristo. Só assim poderá apontar soluções para os complexos problemas não
resolvidos da cultura emergente e para as novas estruturações sociais, como a
dignidade da pessoa humana, os direitos invioláveis da vida, a liberdade
religiosa, a família como primeiro espaço para o compromisso social, a
solidariedade nos seus distintos níveis, o compromisso próprio de uma sociedade
democrática, a complexa problemática econômico-social, o fenômeno das seitas, a
velocidade da mudança cultural.
269.
- No campo escolar, outro desafio é o que representa em vários países o
espinhoso problema das relações entre a educação estatal e a educação cristã.
Embora em outras nações se tenha produzido uma maior viabilidade das mesmas, há
países em que ainda não se compreende que a educação católica é um direito
inalienável dos pais católicos e dos seus filhos e neles não se recebem os
recursos necessários para ela, ou simplesmente é proibida.
270.
- Outros desafios significativos são a ignorância religiosa da juventude, a
educação extra-escolar e a educação informal. Também é um desafio a educação
adequada às diferentes culturas, em especial às culturas indígenas e
afro-americanas; não só no sentido de que não se adapta à sua maneira de ser,
mas no de não marginalizá-las nem excluí-las do progresso, da igualdade de
oportunidades e da capacidade de construir a unidade nacional.
Linhas pastorais
271.
- Nossos compromissos no campo educacional se resumem, sem dúvida, à linha
pastoral da inculturação: a educação é a mediação metodológica para a
evangelização da cultura. Portanto pronunciamo-nos por uma educação cristã
desde e para a vida no âmbito individual, familiar e comunitário e no âmbito do
ecossistema; que fomente a dignidade da pessoa humana e a verdadeira
solidariedade; educação a ser integrada por um processo de formação
cívico-social inspirado no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja.
Comprometemo-nos com uma educação evangelizadora.
272.-Apoiamos
os pais de família para que decidam de acordo com suas convicções o tipo de
educação para seus filhos e denunciamos todas as intromissões do poder civil
que coorte este direito natural. Deve garantir-se o direito da formação
religiosa para cada pessoa, e, portanto, o do ensino religioso nas escolas em
todos os níveis.
273.
- Apoiamos os educadores cristãos que trabalham em instituições da Igreja, as
congregações que se dedicam ao trabalho educativo e os professores católicos
que trabalham em instituições não católicas. Devemos promover a formação permanente
dos educadores católicos no que concerne ao crescimento de sua fé e à
capacidade de comunicá-1a como verdadeira Sabedoria, especialmente na educação
católica.
274.
- Urge uma verdadeira formação cristã sobre a vida, o amor, a sexualidade, que
corrija os desvios de certas informações que se recebem nas escolas. Urge uma
educação para a liberdade, um dos valores fundamentais da pessoa. É também
necessário que a educação cristã se preocupe de educar para o trabalho, especialmente
nas circunstâncias da cultura atual.
275.
- Os carismas das ordens e congregações religiosas, postos a serviço da
educação católica nas diversas igrejas particulares do nosso Continente, nos
auxiliam sobremodo a cumprir o mandato recebido do Senhor de ir e ensinar a
todas as gentes (Ml 28,1820), especialmente na evangelização da cultura.
Conclamamos os religiosos e religiosas que abandonaram este campo tão importante
da educação católica a que se reincorporem à sua tarefa; recordando que a opção
preferencial pelos pobres inclui a opção preferencial pelos meios a que as
pessoas saiam da sua miséria, e um dos meios privilegiados para isto é a
educação católica. A opção preferencial pelos pobres se manifesta também em que
os religiosos educadores continuem seu trabalho educativo em tantas regiões
rurais tão afastadas como necessitadas.
276.
- Devemos também nos esforçar para que a educação católica escolar em todos
seus níveis esteja ao alcance de todos e não se veja restrita a alguns, mesmo
em vista dos problemas econômicos que isso implica. Deve-se promover a
responsabilidade da comunidade paroquial na escola e sua gestão. Pedimos que
se garantam os recursos públicos destinados à educação católica. Cremos
particularmente que a universidade católica, a partir da Constituição apostólica
Ex carde Ecclesiae, é chamada a uma
importante missão de diálogo entre o Evangelho e as culturas e de promoção
humana na América Latina e Caribe.
277.
- Cientes da extensão planetária da cultura atual formaremos a partir da
educação católica e em todo nível uma consciência crítica diante dos meios de
comunicação social. Urge dotar a família de critérios de verdade para
capacitá-1a para o uso da TV, da imprensa e do rádio.
278.
- Transformar a escola católica numa comunidade que seja centro de irradiação
evangelizadora, mediante alunos, pais e mestres. Empenhamo-nos em fortalecer a
comunidade educativa e nela um processo de formação cívico-social, inspirado no
Evangelho e no magistério social da Igreja que responda às verdadeiras
necessidades do povo. Reforça-se-á outrossim a organização dos estudantes,
docentes, pais de alunos e ex-alunos, como método de educação cívico-social e
política que possibilite a formação democrática das pessoas. Solicitamos aos
governos que sigam em seus esforços para promover cada vez mais a
democratização da educação.
Comunicação
social e cultura
Iluminação teológica
279.-A
evangelização, anúncio do Reino, é comunicação, para que vivamos em comunhão
(cf. P 1063): "O que vimos e ouvimos vo-1o anunciamos para que estejais
também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho
Jesus Cristo" (1 Jo 1,3). Cada pessoa e cada grupo humano desenvolve sua
identidade no encontro com os outros (alteridade). Esta comunicação é caminho
necessário para chegar à comunhão (comunidade). A razão é que o homem foi feito
à imagem de Deus Uno e Trino, e no coração da Revelação encontramos seu
mistério trinitário como a comunicação eternamente interpessoal, cuja palavra
se faz diálogo, entra na história por obra do Espírito e inaugura assim um
mundo de novos encontros, intercâmbios, comunicação e comunhão. Esta
comunicação é importante não só com o mundo, mas também ao interior da Igreja.
-
No gesto de comunicação do Pai, através do Verbo feito carne, "a palavra
se faz libertadora e redentora para toda a humanidade na pregação e na ação de
Jesus. Este ato de amor pelo qual Deus se revela, associado à resposta de fé da
humanidade, gera um diálogo profundo" (AN 6). Assim Cristo é o modelo de
comunicador, n'Ele, Deus, o totalmente Outro, sai ao nosso encontro e espera
nossa resposta livre. Este encontro de comunhão com Ele é sempre crescimento. É
o caminho da santidade.
-
Assim dá-se uma relação muito íntima entre evangelização, promoção humana e
cultura, fundada na comunicação, o que impõe à Igreja tarefas e desafios
concretos no campo da comunicação social. Disse-o o Papa no discurso inaugural
desta Conferência: "Intensificar a presença da Igreja no mundo da
comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades" (DI 23).
-
Sabemos que nos encontramos na nova cultura da imagem, e que a Mensagem
evangélica deve inculturar-se nessa cultura, levando-a a ser expressão de
Cristo, a máxima comunicação.
Compreendemos
a importância dos inumeráveis meios eletrônicos que agora estão ao nosso
alcance para anunciar o Evangelho. Damos graças a Deus por este novo dom que
nos deu na cultura atual.
Desafios
pastorais
280.-
O desenvolvimento tecnológico em matéria de comunicações, especialmente na
televisão oferece à evangelização amplas perspectivas de comunicação nos mais
diversos níveis e facilita à sociedade, em geral, uma interrelação também
planetária. Este é um fato positivo, mas também no contexto atual apresenta
desafios muito sérios pela orientação secularista de muitas programações.
Damo-nos
conta do desenvolvimento da indústria da comunicação na América Latina e Caribe
que mostra o crescimento de grupos econômicos e políticos que concentram cada
vez mais em poucas mãos e com enorme poder a propriedade dos diferentes meios e
chegam a manipular a comunicação, impondo uma cultura que estimula o hedonismo
e o consumismo e atropela nossas culturas com os seus valores e identidades.
-
Vemos como a publicidade freqüentemente introduz falsas expectativas e cria
necessidades fictícias; vemos também como especialmente na programação
televisiva sobejam a violência e a pornografia que penetram agressivamente no
seio das famílias. Também constatamos que as seitas fazem uso cada vez mais
intensivo e extensivo dos meios de comunicação.
-
Por outro lado, a presença da Igreja no sistema de meios é ainda insuficiente e
se carece de suficientes agentes com a preparação devida para enfrentar o
desafio; além disso, falta por parte dos diferentes episcopados um adequado
planejamento da pastoral das comunicações.
A
telemática e a informática são novos desafios para a integração da Igreja no
seu mundo.
Linhas
pastorais
281.
- Apoiar e estimular os esforços daqueles que, com o uso dos meios defendem a
identidade cultural, assumem o desafio do encontro com realidades novas e
distintas e procuram que se dê lugar a
um diálogo autêntico. Articular a comunicação massiva com a comunitária e
grupai. Esforçar-se para ter meios próprios e ao menos uma produtora de vídeo a
serviço da América Latina e do Caribe.
282.
- Ajudar a discernir e orientar as políticas e estratégias da comunicação, que
devem encaminhar-se a criar condições para
o encontro entre as pessoas, para a vigência de uma autêntica e
responsável liberdade de expressão, para fomentar os valores culturais próprios
e para buscar a integração latino-americana.
283.
- Dar aos profissionais católicos da comunicação o apoio suficiente para
cumprir sua missão. Procurar uma crescente relação de comunhão eclesial com as
organizações internacionais (OCIC-AL, UNDA-AL, UCLAP) "cujos membros podem
ser colaboradores valiosos e competentes das Conferências episcopais e dos
diferentes bispos" (AN 17). As comissões episcopais de comunicação de cada
país e o próprio DECOS-CELAM e o SERTAL hão de aumentar e melhorar sua presença
neste campo.
284.
- Deve-se pôr todo empenho na formação técnica, doutrinal e moral de todos os
agentes de pastoral que trabalham em e com os meios de comunicação social. Ao
mesmo tempo, é necessário um Plano de educação orientado para a percepção
crítica, especialmente nos lares, como para a capacidade de utilizar ativa e
criativamente os meios e sua linguagem, empregando os símbolos culturais do
nosso povo.
285.
- É necessário levar as Universidades católicas a oferecer formação do melhor
nível humano, acadêmico e profissional em comunicação social. Nos seminários e
casas de formação religiosa se ensinarão as linguagens e técnicas de
comunicação, que garantam uma preparação sistemática suficiente.
É
hoje imprescindível usar a informática para otimizar nossos recursos
evangelizadores. Deve-se avançar na instalação da rede de informática da Igreja
nas diferentes Conferências episcopais.
286.
- Que as editoras católicas ajam coordenadamente dentro da pastoral orgânica.
Terceira
parte
JESUS
CRISTO, VIDA E ESPERANÇA DA AMÉRICA LATINA
LINHAS
PASTORAIS PRIORITÁRIAS
287.
De nossas igrejas particulares viemos a Santo Domingo. Éramos portadores das
"alegrias e das esperança, das tristezas e das angústias" (GS 1) dos
nossos povos Acompanharam-nos os anseios de vida e esperança para o Continente.
Nosso
encontro com o Santo Padre nos confirmou na fé, na esperança e no amor ao
Senhor e à Igreja. A companhia espiritual de tantos irmãos que oraram por nós e
nos ofereceram seu apoio, nos deu fortaleza.
A
celebração diária da Eucaristia, a meditação da Palavra de Deus e o trabalho
comum realizado com a confiança posta no Senhor, permitiram-nos uma autêntica
experiência da presença de "Jesus no meio de nós" (Ml 18,20) e na
ação do Espírito. "Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre"
fez-nos sentir que Ele faz de nós "criaturas novas" (2 Cor 5,17); que
nos dá "vida abundante" (Jo 10,10); que nos promete "vida
eterna" (Jo 6,54). Ele é "nossa esperança" (1Tm 1,1).
Agora
regressamos aos diferentes campos do nosso ministério. Anunciaremos o Evangelho
da vida. Continuaremos dando "razão dessa mesma esperança" (1 Pd
3,15) a cada uma das pessoas que o Senhor colocar em nossos caminhos.
288.
- Ao finalizar nossas reflexões, com o coração agradecido a Deus, voltamos
nosso olhar ao trabalho realizado para identificar as principais linhas
pastorais que encontramos e para continuar caminhando guiados pelos três temas
que o Santo Padre nos convidou a estudar, aprofundar e aplicar a partir desta
IV Conferência.
Revendo
nosso caminho proclamamos com novo ardor nossa fé em Jesus Cristo, Filho de
Deus vivo, única razão da nossa vida e fonte da nossa missão. Ele é o caminho,
a verdade e a vida. Ele nos dá a vida que desejamos comunicar plenamente a
nossos povos para que tenham todos um espírito de solidariedade, reconciliação
e esperança.
289.-
Fazemos esta profissão de fé sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe,
Padroeira da América Latina, que esteve conosco neste encontro episcopal e que
nos acompanha sempre na missão que o Senhor nos confia.
290.
- Renovamos nossa intenção de levar adiante as orientações pastorais do
Concílio Vaticano II, aplicadas nas Conferências Gerais de Medellín e Puebla,
atualizando-as através das linhas pastorais traçadas na presente Conferência.
291.
- Os três temas propostos pelo Santo Padre constituem para nós três grandes
linhas pastorais que assumimos para nossas Igrejas. Cada Igreja Particular e
cada Conferência Episcopal poderá encontrar, nas orientações de Santo Domingo,
os desafios e as linhas pastorais que mais respondam a suas exigências
concretas.
292.
- Em nome de nossas Igrejas particulares da América Latina e do Caribe
comprometemo-nos a trabalhar em:
1.
Uma nova evangelização dos nossos povos.
2.
Uma promoção integral dos povos latino-americanos e caribenhos.
3.
Uma Evangelização inculturada.
-
Neste sentido, ressaltamos os elementos que durante a Conferência foram
indicados com especial ênfase e aprovados para impulsionar e concretar as três
linhas pastorais principais.
1.
UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO DOS NOSSOS POVOS
293.
1.l O compromisso é de todos a partir de comunidades vivas. Um especial
protagonismo corresponde aos leigos em continuidade com as orientações da
Exortação apostólica Christifideles Laici. Entre eles, seguindo o convite constante
do Papa, convocamos mais uma vez os jovens para que sejam força renovadora da
Igreja e esperança do mundo.
A
fim de suscitar presbíteros, diáconos permanentes, religiosos religiosas e
membros dos Institutos seculares para a nova evangelização, impulsionaremos uma
vigorosa pastoral de vocações.
294.
1.2 Somos todos chamados à santidade (cf. LG 39-42). Numa Igreja, comunidade
missionária, nos urge um decidido empenho pela continua educação da fé, por
meio da catequese, que tem seu fundamento na Palavra de Deus e o Magistério da
Igreja, e permite aos católicos dar razão de sua esperança em toda ocasião e
frente às seitas e aos novos movimentos religiosos.
A
celebração da fé na liturgia, cume da vida da Igreja, há de realizar-se com
alegria e de forma a permitir uma participação mais viva, ativa e comprometida
na realidade dos nossos povos.
295.
1.3 É a hora missionária da América. Dirigimos a todos um anúncio forte e
entusiasta para a Evangelização, não só no seio de nossas igrejas, mas para
além de nossas fronteiras. Esta será a resposta segundo o exemplo dos
missionários que de outras partes chegaram à América, para nos comunicar sua fé
e será também fonte de generosidade para nossos jovens e bênção para nossas
igrejas.
2.
PROMOÇÃO HUMANA INTEGRAL DOS POVOS LATINO AMERICANOS E CARIBENHOS
296.
2.1 Fazemos nosso o clamor dos pobres. Assumimos com renovado ardor a opção
evangélica preferencial pelos pobres, em continuidade com Medellín e Puebla.
Esta opção não exclusiva nem excludente, iluminará, à imitaçâo de Jesus Cristo,
toda nossa ação evangelizadora.
A
essa luz convidamos a promover uma nova ordem econômica, social e política,
conforme à dignidade de todas e cada uma das pessoas, implantando a justiça e a
solidariedade e abrindo para todas elas horizontes de eternidade.
297.
2.2 Dizemos sim à vida e à família. Diante das graves agressões à vida e à
família, agravadas nos últimos anos, propomos uma decidida ação para defender e
promover a vida e a família, Igreja doméstica, e santuário da vida, desde sua
concepção até o final natural de sua etapa temporal. Toda vida humana é
sagrada.
3.
UMA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA
É
o terceiro compromisso que assumimos na perspectiva de novos métodos e
expressões para viver hoJe a mensagem evangélica.
298.
3.1 As grandes cidades da América Latina e do Caribe, com os seus múltiplos
problemas, têm-nos interpelado. Atenderemos à evangelização desses novos
centros onde vive a maior parte da nossa população. Nossa solicitude
dirigir-se-á também às áreas rurais; nelas já se sente o impacto das mudanças
culturais.
299.
3.2 Queremos aproximar nos dos povos indígenas e afro-americanos, a fim de que
o Evangelho encarnado em suas culturas manifeste toda a sua vitalidade e entrem
eles em diálogo de comunhão com as demais comunidades cristãs para o mútuo
enriquecimento.
300.
3.3 Buscaremos também impulsionar uma eficaz ação educativa e um decidido
empenho por uma moderna comunicação.
301.
Colocamo-nos sob a ação do Espírito Santo que desde Pentecostes conduz a Igreja
no amor. Ele nos concedeu a graça do Concílio Vaticano II e de nossas
Conferências Gerais do Rio de Janeiro, Medellín e Puebla.
Estamos
certos de que não nos há de faltar seu auxilio para continuarmos, a partir de
São Domingos, mais unidos entre nós sob a orientação e guia do Santo Padre,
sucessor de Pedro e, apesar dos nossos limites, possamos impulsionar com
entusiasmo na América Latina e Caribe o anúncio de Jesus Cristo e do seu Reino.
LINHAS
PASTORAIS PRIORITÁRIAS
302.
A Igreja na América Latina e Caribe proclama sua fé: "lesos Cristo: ontem, hoje e sempre" (cf Hb 13,8)
Nossas
Igrejas particulares, unidas na esperança e no amor, sob a proteção de Nossa
Senhora de Guadalupe, em comunhão com o Santo Padre e em continuidade com as
orientações pastorais das Conferências Gerais de Medellín e Puebla,
comprometem-se a trabalhar em:
1.
Uma nova Evangelização de nossos povos - À qual TODOS estão chamados
-
Com ênfase na PASTORAL VOCACIONAL
-
com especial protagonismo dos LEIGOS e, entre eles, dos JOVENS
-
mediante a educação contínua da fé e sua celebração" a CATEOUESE e a
LITURGIA
-
Para além de nossas próprias fronteiras:
AMÉRICA
LATINA MISSIONÁRIA.
2.
Uma promoção integral do povo latino-americano e caribenho
-
A partir de uma evangélica e renovada opção pelos POBRES
-
A serviço da VIDA e da FAMÍLIA
3.
Uma evangelização inculturada
-
Que penetre os ambientes marcados pela CULTURA URBANA
-
Que se encarne nas CULTURAS INDÍGENAS e AFRO-AMERICANAS
-
Com uma eficaz AÇÃO EDUCATIVA e uma MODERNA COMUNICAÇÃO
303.
ORAÇÃO
Senhor
Jesus Cristo, Filho de Deus vivo,
Bom
Pastor e irmão nosso,
nossa
única opção é por Ti.
Unidos
no amor e na esperança
sob
a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe,
Estrela
da Evangelização,
pedimos
o Teu Espírito.
Dá-nos
a graça,
em
continuidade com Medellín e Puebla,
de
nos empenhar numa Nova Evangelização, à qual todos somos chamados,
com
o especial protagonismo dos leigos, particularmente dos jovens,
comprometendo-nos
numa educação contínua da fé,
celebrando
teu louvor,
e
anunciando-te para além das nossas próprias
fronteiras,
numa
igreja decididamente missionária.
Aumenta
nossas vocações para que não faltem operários
na
tua messe.
Anima-nos
a nos comprometer
numa
promoção integral
do
povo latino-americano e caribenho,
a
partir de uma evangélica e renovada
opção
preferencial pelos pobres
e
a serviço da vida e da família.
Ajuda-nos
a trabalhar
por
uma evangelização inculturada
que
penetre os ambientes de nossas cidades,
que
se encarne nas culturas indígenas e afro-americanas
por
meio de uma eficaz ação educativa
e
de uma moderna comunicação.
Amém.
MENSAGEM
AOS POVOS DA AMÉRICA LATINA E CARIBE
I.
APRESENTAÇÃO
1.
Convocados pelo Santo Padre João Paulo II para a IV Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano e presididos por ele na sua inauguração,
reunimo-nos, em Santo Domingo, representantes dos Episcopados da América
Latina e Caribe, e colaboradores do Papa na Cúria Romana. Participaram também
outros Bispos convidados de diversas partes do mundo e igualmente sacerdotes,
diáconos, religiosos, religiosas e leigos, além de observadores pertencentes a
outras Igrejas cristãs.
2.
Uma sugestiva efeméride sugeriu a data desta IV Conferência: os 500 anos do
início da evangelização do Novo Mundo. A partir de então, a Palavra de Deus
fecundou as culturas dos nossos povos, chegando a constituir parte integrante
da sua história. Por isso, depois de uma longa preparação que incluiu uma
novena de anos, inaugurada aqui mesmo em Santo Domingo pelo Santo Padre,
congregamo-nos com a atitude assumida pelo próprio Santo Padre, ou seja, com a
humildade da verdade, dando graças a Deus pelas muitas e grandes luzes e
pedindo perdão pelas inegáveis sombras que cobriram este período.
3.
A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano quis traçar as linhas
fundamentais de um novo impulso evangelizador, que ponha Cristo no Coração e
nos lábios, na ação e na vida de todos os latino-americanos. É esta a nossa
tarefa: fazer com que a verdade sobre Cristo, a Igreja e o homem penetre mais
profundamente em todas as camadas da sociedade, em busca da sua progressiva
transformação. A NOVA EVANGELIZAÇÃO foi
a preocupação do nosso trabalho.
4.
A nossa reunião está em estreita relação e continuidade com as anteriores da
mesma natureza: a primeira celebrada no Rio de Janeiro, em 1955; a seguinte em
Medellín, em 1968; e a terceira em Puebla, em 1979. Assumimos plenamente as
opções que assinalaram aqueles encontros e encarnaram as suas conclusões mais
substanciais.
5.
Estes eventos constituem uma valiosa experiência eclesial, da qual provém um
rico ensinamento episcopal, útil às Igrejas e à sociedade do nosso Continente.
A estas orientações junta-se agora o compromisso evangelizador, que emerge da
presente reunião, e que oferecemos com humildade e alegria aos nossos povos.
6.
A presença materna da Virgem Maria, unida entranhadamente à fé cristã na
América Latina e nas Caraíbas, foi desde sempre, e em especial nestes dias,
guia do nosso caminho de fé, alento nos nossos trabalhos e estímulo diante dos
desafios pastorais de hoje.
II.
A AMÉRICA LATINA E CARIBE ENTRE O TEMOR E A ESPERANÇA
7.
A grande maioria dos nossos povos suporta condições dramáticas nas suas vidas.
Verificamo-1o nas quotidianas tarefas pastorais, e exprimi-lo com clareza em
muitos documentos. Assim, quando os seus sofrimentos nos oprimem, ressoa aos
nossos ouvidos a palavra que Deus disse a Moisés: "Eu vi a miséria do Meu
povo... e bem assim tenho ouvido o seu clamor... conheço, pois, a sua dor...
Estou decidido... a conduzi-1o desta terra para uma terra fértil e
espaçosa" (Ex 3,7-8).
8.
Essas condições poderiam abalar a nossa esperança. Mas a ação do Espírito Santo
proporciona-nos um motivo vigoroso e sólido para esperar: a fé em Jesus Cristo,
morto e ressuscitado, que cumpre a sua promessa de estar sempre conosco (cf. Ml
28,20). Esta fé mostra-no-1'O atento e solicito a toda a necessidade humana.
Nós procuramos realizar o que Ele fez e ensinou: assumir a dor da humanidade e
atuar para que se converta em caminho de redenção.
9.
A nossa esperança seria vã, se não fosse atuante e eficaz. A mensagem de Jesus
Cristo seria falaz, se permitisse uma desassociação entre o crer e o atuar.
Exortamos aqueles que sofrem a abrir os seus corações à mensagem de Jesus, que
tem o poder de dar um sentido novo à sua vida e dores. A fé, unida à esperança
e à caridade no exercício da atividade apostólica, tem que se traduzir em
"terra fértil e espaçosa", para aqueles que hoje sofrem na América
Latina e Caribe.
10.
A hora presente faz-nos recordar o episódio evangélico do paralítico, que havia
trinta e oito anos estava junto da piscina que curava, mas não tinha quem o
levasse para dentro dela. O nosso trabalho evangelizador quer atualizar a
palavra de Jesus ao homem enfermo: "Levanta-te, toma o teu leito e anda
(cf. Jo 1-8).
11.
Desejamos converter os nossos afãs evangelizadores em ações concretas, que
façam com que as pessoas superem os seus problemas e curem as suas enfermidades
- tomem os seus leitos e andem - sendo protagonistas das suas próprias vidas, a
partir do contato salvífico com o Senhor.
III.
UMA ESPERANÇA QUE SE CONCRETIZA EM MISSÃO
1.
A Nova Evangelização
12.
Desde a visita do Santo Padre ao Haiti em 1983, temo-nos sentido animados por
um impulso encora odor para uma ação pastoral renovada e mais eficaz nas nossas
Igrejas particulares. A esse projeto global que aspira a um novo Pentecostes
dá-se o nome de Nova Evangelização (cf. Discurso Inaugural, João Paulo II, n. 6
e 7).
13.
O episódio dos discípulos de Emaús, relatado pelo evangelista Lucas,
apresenta-nos Jesus ressuscitado anunciando a Boa-Nova. Pode ser também um
modelo da Nova Evangelização.
2.
Jesus Cristo Ontem, Hoje e Sempre: Jesus vai ao encontro da humanidade que
caminha (Lc 24,13-17).
14.
Enquanto os discípulos de Emaús, desconcertados e tristes, regressavam para a
sua aldeia, o Mestre aproxima-se deles para os acompanhar no caminho. Jesus
procura as pessoas e caminha com elas, para assumir as alegrias e as
esperanças, as dificuldades e as tristezas da vida.
15.
Hoje também nós, como pastores da Igreja na América Latina e no Caribe, em
fidelidade ao Divino Mestre, queremos renovar a sua atitude de proximidade e de
acompanhamento a todos os nossos irmãos e irmãs; proclamamos o valor e a
dignidade de cada pessoa, e procuramos iluminar com a fé e sua história o seu
caminho de cada dia. Este é um elemento fundamental da Nova Evangelização.
3.
Promoção humana: Jesus compartilha o caminho dos seres humanos (Lc 24,17-24)
16.
Jesus não só se aproxima dos viandantes. Vai mais além: faz-Se caminho para
eles (cf. Jo 14,6), penetra na vivência profunda da pessoa, nos seus sentimentos,
nas suas atitudes. Mediante um diálogo simples e direto conhece as suas
preocupações imediatas. O próprio Cristo Ressuscitado acompanha os passos, as
aspirações, as buscas, os problemas e as dificuldades dos seus discípulos, quando
estes se dirigem para a sua aldeia.
17.
Aqui, Jesus põe em prática com os seus discípulos o que um dia ensinara a um
doutor da lei: as feridas e os gemidos do homem espancado e meio morto, que
jazia à beira do caminho, constituem as urgências do próprio caminhar (Lc
10,25-37). A parábola do Bom Samaritano diz-nos diretamente respeito perante
todos os nossos irmãos, de modo especial dos pecadores, pelos quais Jesus
derramou o seu sangue. Recordamos em particular todos os que sofrem: os
enfermos, os anciãos que vivem na solidão, as crianças abandonadas. Temos
presentes também os que são vítimas da injustiça: os marginalizados, os mais
pobres, os habitantes dos subúrbios das grandes cidades, os indígenas e os
afro-americanos, os camponeses, os sem terra, os desempregados, os sem teto,
as mulheres ignoradas nos seus direitos, interpelam-nos também outras formas
de opressão: a violência, a pornografia, o tráfico e o uso de drogas, o
terrorismo, o seqüestro de pessoas, e muitos outros problemas inquietantes.
4.
A cultura: Jesus ilumina com as Escrituras o caminho dos homens (Lc 24,25-28)
18.
A presença do Senhor não se exaure numa simples solidariedade humana. O drama
interior dos viandantes consistia em que tinham perdido toda a esperança. Essa
desilusão iluminou-se com a explicação das Escrituras. A Boa-Nova que ouviram
de Jesus transmitia a mensagem recebida de seu Pai.
19.
Explicando-lhes as Escrituras, Jesus corrige os erros de um messianismo
puramente temporal e de todas as ideologias que escravizam o homem.
Explicando-lhes as Escrituras, iluminar-lhes a sua situação e abre-lhes
horizontes de esperança.
20.
O caminho que Jesus percorre ao lado dos seus discípulos está marcado com os
vestígios do desígnio de Deus sobre cada uma das criaturas e sobre as
vicissitudes humanas.
21.
Exortamos todos os agentes de pastoral a aprofundarem o estudo e a meditação da
Palavra de Deus, para a poderem viver e transmitir aos outros com fidelidade.
22.
Reiteramos a necessidade de encontrar novos métodos, para que aos construtores
da sociedade pluralista cheguem as exigências éticas do Evangelho, sobretudo na
ordem social. A Doutrina Social da Igreja constitui parte essencial da mensagem
cristã. O seu ensinamento, difusão, aprofundamento e aplicação são exigências
imprescindíveis para a nova evangelização dos nossos povos.
5.
Um novo ardor: Jesus dá-se a conhecer no partir do pão (Lc 24,28-32).
23.
Mas a explicação das Escrituras não foi suficiente para lhes abrir os olhos e
lhes fazer ver a realidade a partir da perspectiva da fé. É verdade que fez
arder os seus corações, mas o gesto definitivo para O poderem conhecer, vivo e
ressuscitado dentre os mortos, foi o sinal concreto do partir o pão.
24.
Em Emaús abriu-se também um lar para Alguém que andava peregrino. Cristo revelou
a sua intimidade aos companheiros de caminho, e na sua atitude de partilhar
reconheceram aquele que, durante a sua vida, não fez mais do que dar-se aos
irmãos e aquele que selou com a sua morte na cruz, a entrega de toda a sua
vida.
25.
Findos estes dias de oração e de reflexão, voltamos para os lares que formam as
nossas Igrejas particulares, para partilhar com os irmãos, com os quais
construímos a vida quotidiana; em especial com aqueles que participam mais de
perto no nosso ministério: os nossos presbíteros e diáconos, aos quais
desejamos exprimir um particular afeto e gratidão. Oxalá a celebração
eucarística inflame cada vez mais os seus corações, para levar à prática a Nova
Evangelização, a promoção humana e a cultura cristã.
6.
Missão: Jesus é anunciado pelos discípulos (Lc 24,33-35)
26.
O encontro entre o Mestre e os discípulos terminou. Jesus desapareceu da vista
deles. Mas eles, impelidos por um novo ardor, partem com alegria para
empreender a sua tarefa missionária. Abandonam a aldeia e vão à procura dos
outros discípulos. A vivência da fé realiza-se em comunidade. Por isso os
discípulos voltam para Jerusalém, a fim de se encontrarem com os seus irmãos e
de lhes comunicarem o encontro com o Senhor. A partir da fé, vivida em
comunidade, eles convertem-se em anunciadores de uma realidade totalmente nova:
"realmente o Senhor ressuscitou, está de novo entre nós". A fé em
Jesus traz consigo a missão.
27.
"Para a América Latina e o Caribe que receberam Cristo há quinhentos anos,
o maior sinal de agradecimento pelo dom recebido e da sua vitalidade cristã é empenharem-se elas mesmas na missão" (Discurso
Inaugural, João Paulo II, n. 28), quer no próprio interior quer para além
das suas fronteiras.
IV.
LINHAS PASTORAIS
28.
A IV Conferência propõe, com grandes esperanças e tendo em conta os meritórios
contributos recebidos das Conferências Episcopais e de muitas outras instâncias
da Igreja, as seguintes linhas de ação pastoral. Para guiar os nossos trabalhos
tivemos a orientação e o apoio do Santo Padre, o qual desde há muito tempo deu
motivo a esta IV Conferência.
29.
Antes de tudo, proclamamos a adesão, na fé da Igreja na América Latina e nas
Caraíbas, a Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade (cf. Nb
13,8).
30.
Para que Cristo esteja no interior da vida dos nossos povos, convocamos todos
os fiéis a uma Nova Evangelização e convocamos especialmente os leigos, e
entre eles os jovens. Nesta hora confiamos em que muitos jovens, ajudados por
uma pastoral vocacional eficaz, possam responder à chamada do Senhor para o
sacerdócio e a vida consagrada.
-
Uma catequese renovada e uma liturgia viva, numa Igreja em estado de missão,
serão os meios para aproximar e santificar mais todos os cristãos e, em
particular, os que estão afastados e são indiferentes.
-
A Nova Evangelização intensificará uma pastoral missionária em todas as nossas
Igrejas e far-nos-á sentir responsáveis por transpor as nossas fronteiras a
fim de levar a outros povos a fé que há 500 anos chegou até nós.
31.
Como expressão da Nova Evangelização, comprometemo-nos também a trabalhar por
uma promoção integral do povo latino-americano e caribenho, tendo a preocupação
de que os seus principais destinatários sejam os mais pobres.
-
Nesta promoção humana ocupa um lugar privilegiado e fundamental a família,
onde tem origem a vida. Hoje é necessário e urgente promover e defender a vida,
devido aos múltiplos ataques com que a ameaçam setores da sociedade
contemporânea.
32.
Devemos encorajar uma evangelização que penetre nas raízes mais profundas da
cultura comum dos nossos povos, tendo uma especial preocupação pela crescente
cultura urbana.
-
Ocuparmo-nos de uma autêntica encarnação do Evangelho nas culturas indígenas e
afro-americanas do nosso Continente mereceu-nos uma particular atenção.
-
Para toda esta inculturação do Evangelho é muito importante desenvolver uma
eficaz ação educativa e utilizar os meios modernos de comunicação.
V. SAUDAÇÕES E VOTOS
33.
Não queremos terminar esta Mensagem sem dirigir uma palavra afetuosa a algumas
pessoas e grupos aos quais incumbe uma particular responsabilidade eclesial e
social.
34.
Uma saudação especial dirigimo-1a aos nossos presbíteros e diáconos, solicitas
colaboradores na nossa missão episcopal, que todos os dias estiveram presentes
no nosso pensamento e na nossa oração. Nutrimos a esperança de que, como
sempre, nos ajudarão a levar ao povo das nossas Igrejas particulares as conclusões
desta Conferência. Recebam eles a expressão do nosso afeto paterno e fraterno e
a nossa gratidão pelo seu sacrifício e infatigável compromisso no ministério.
35.
Com igual solicitude temos presentes os religiosos e as religiosas, membros de
institutos seculares, agentes de pastoral, catequistas, animadores de
comunidades, membros de Comunidades Eclesiais de Base, de movimentos eclesiais
e ministros extraordinários, que certamente receberão do conteúdo da IV
Conferência renovado ânimo para a sua tarefa eclesial.
36.
O nosso pensamento agradecido dirige-se aos numerosos missionários e
missionárias que desde o primeiro momento, em condições de grande dificuldade
e com grande renúncia, anunciaram o Evangelho no nosso Continente.
37.
Foi para nós motivo de conforto e de alegria ter no nosso encontro observadores
pertencentes a Igrejas cristãs irmãs. A eles, e por seu intermédio a todas
estas Igrejas com as quais compartilhamos a fé em Jesus Cristo Salvador, chegue
a nossa saudação fraterna, unida à oração, a fim de que, na hora que Deus
indicar, possamos cumprir o testamento espiritual de Jesus Cristo: "para
que todos sejam um só... a fim de que o mundo creia!" (Jo 17,21).
38.
Aos povos indígenas, habitantes originários destas terras, possuidores de
inumeráveis riquezas culturais, que estão na base da nossa cultura atual, e aos
descendentes de milhares de famílias vindas de várias regiões da África,
manifestamos a nossa estima e desejo de os servir como ministros do Evangelho
de nosso Senhor Jesus Cristo.
39.
Unimo-nos aos construtores e dirigentes da sociedade - governantes,
legisladores, magistrados, chefes políticos e militares, educadores,
empresários, responsáveis sindicais e muitos outros - e a todos os homens de
boa vontade que trabalham pela promoção e defesa da vida, na exaltação e
dignidade do homem e da mulher, na proteção dos seus direitos, na busca e na consolidação
da paz, banidas todas as formas de corrida aos armamentos. Desta IV
Conferência exortamo-tos a que, no exercício da sua respeitável missão ao
serviço dos povos, se empenhem em favor da justiça, da solidariedade e do
desenvolvimento integral, guiados pelo indispensável imperativo ético nas suas
decisões.
40.
De um modo especial desejamos que os ensinamentos que entregamos da parte do
Senhor ressoem no interior das famílias latino-americanas e caribenhas. A elas,
que são o santuário da vida, pede-se que façam germinar o Evangelho no coração
dos seus filhos, mediante uma adequada educação. Num momento em que a cultura
da morte nos ameaça, encontrarão aqui uma "fonte que jorra para a vida
eterna". Os sacerdotes, com o seu exemplo e a sua palavra, são os grandes
evangelizadores da sua "Igreja doméstica" e, em boa parte, depende
deles que esta Conferência de Santo Domingo dê os seus frutos. Por isso, ao
mesmo tempo que os saudamos, queríamos exprimir-lhes a nossa proximidade e
apoio.
41.
Aos representantes do mundo da cultura encorajamo-tos a que intensifiquem os
seus esforços em favor da educação, que é a chave mestra do futuro; alma do
dinamismo social, direito e dever de toda a pessoa; para assentar as bases de
um autêntico humanismo integral (João Paulo II, Missa em Faro de Colón, n. 7).
42.
Convidamos cordialmente todos os comunicadores sociais a serem pregoeiros
incansáveis de reconciliação, firmes promotores dos valores humanos e
cristãos, defensores da vida e animadores da esperança, da paz e da
solidariedade entre os povos.
VI.
CONCLUSÃO
43.
Entregamos, pois, cheios de confiança, esta Mensagem ao Povo de Deus na América
Latina e Caribe. Entregamo-1a com igual sentimento a todos os homens e a todas
as mulheres, especialmente aos jovens do Continente, chamados a serem protagonistas
na vida da sociedade e da Igreja, no novo Milênio cristão já à porta (D.1.,
27). Também àqueles que, sem participarem da nossa fé cristã e católica, aderem
à Mensagem desta Assembléia de Santo Domingo por reconhecerem nela uma chamada
ao humanismo cristão e evangélico que eles estimam e vivem.
44.
Aos irmãos na fé, esta Mensagem deseja levar-lhes uma explicita profissão de fé
em Jesus Cristo e na sua Boa-Nova. Neste Jesus, "o mesmo ontem e hoje e
por toda a eternidade" (Hb 13,8), temos a certeza de encontrar inspiração,
luz e força para um renovado espírito evangelizador. N'Ele também se encontram
motivos e orientações para novos esforços em vista da autêntica promoção humana
de quase quinhentos milhões de latino-americanos. É igualmente Ele quem nos
ajudará a infundir nos valores culturais próprios da nossa gente seu cunho
cristão, a sua identidade, a riqueza da unidade na variedade.
45.
A todos, queremos propor o conteúdo da Conferência de Santo Domingo como
premissa para o permanente rejuvenescimento do ideal dos nossos antepassados
sobre a Pátria Grande. Estamos efetivamente persuadidos de que o encontro com
as raízes cristãs e católicas comuns aos nossos países dará à América Latina a
unidade desejada.
46.
Há, na América, fermentos de divisão muito ativos. Há ainda muito a fazer, na
nossa terra americana, para ser o Continente unificado que desejamos. Agora,
para além do seu objetivo primariamente religioso, a Nova Evangelização lançada
pela IV Conferência Geral oferece os elementos necessários para o nascimento
da indispensável reconciliação graças à qual, na lógica do PAI-NOSSO, se
superam discórdias antigas e novas, se dará o perdão mútuo às ofensas antigas e
novas, se aplainarão injustiças antigas e novas, se restaurará a paz;
-
a solidariedade, ajuda da parte de uns para tornar suportável o peso de outros,
e para compartilhar com os outros os próprios bens: "é preciso fazer valer
o novo ideal de solidariedade diante da falaz vontade de dominar" (Discurso inaugural, João Paulo II, n.
15);
-
a integração dos nossos países uns com os outros, vencidas as barreiras da
divisão, das discriminações e das indiferenças recíprocas: "um fator que
pode contribuir notavelmente para superar os problemas urgentes que afetam hoje
este Continente é a integração latino-americana" (Discurso inaugura João Paulo II, n. 15 e também n. 17);
-
a profunda comunhão, a partir da Igreja, no que se refere à vontade política de
progresso e de bem-estar.
47.
Oxalá o patrimônio social e espiritual contido nestas quatro palavras chaves:
reconciliação, solidariedade, integração e comunhão - se transforme na maior
riqueza da América Latina. São estes os votos e as orações dos Bispos
participantes na IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Seja também
a melhor dádiva que a graça de Deus nos conceda! Pensamos que tal patrimônio é
a tarefa e a obrigação de todos e de cada um.
48.
A Nossa Senhora de Guadalupe, Estrela da Nova Evangelização, confiamos os
nossos trabalhos. Ela caminhou com os nossos povos desde o primeiro anúncio de
Cristo. A Ela suplicamos hoje que encha de ardor os nossos corações, para
proclamarmos com novos métodos e novas expressões que Jesus Cristo é o mesmo
Ontem, Hoje e por toda a Eternidade! (Hb 13,8).
CARTA
DO PAPA AOS BISPOS DA AMÉRICA LATINA
Por
ocasião do V Centenário da evangelização da América, eu havia convocado a
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano com a finalidade de estudar, à
luz de Cristo "o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hab. 13,8), os grandes
temas da Nova Evangelização, da Promoção humana e da Cultura cristã.
A
Divina Providência deu-me a alegria de poder inaugurar pessoalmente a referida
Assembléia em Santo Domingo, a 12 de outubro passado. No dia 28 do mesmo mês
terminaram os trabalhos da Conferência, e os Presidentes da mesma fizeram-me
chegar as Conclusões que os Bispos presentes tinham elaborado.
Com
sumo gosto pude verificar a profunda solicitude pastoral com que os meus Irmãos
no Episcopado examinaram os temas que lhes havia proposto, a fim de contribuir
para o desenvolvimento da vida da Igreja na América Latina, olhando para o
presente e o futuro.
Os
textos conclusivos da mencionada Conferência, cuja difusão autorizei, poderão
orientar agora a ação pastoral de cada Bispo diocesano da América Latina. Cada
Pastor diocesano, juntamente com os presbíteros, "seus colaboradores"
(Lumen gentium, 28), e com os demais membros da Igreja particular que lhe foi
confiada, fará o necessário discernimento, para ver o que é mais útil na situação
particular da sua diocese.
Um
amplo consenso dos Bispos das Igrejas particulares existentes num mesmo País
poderá também levar a fórmulas pastorais comuns, sempre respeitosas da
identidade de cada diocese e da autoridade pastoral que corresponde ao Bispo,
que é o centro visível de unidade e, ao mesmo tempo, o seu vínculo hierárquico
com o Sucessor de Pedro e com a Igreja Universal (c fLumen gentium, 23).
Como
é evidente, as Conclusões da Conferência de Santo Domingo deverão ser
analisadas à luz do Magistério da Igreja Universal, e atuadas em fidelidade à
disciplina canônica vigente.
Por
minha parte, confio em que a solicitude pastoral dos Bispos da América Latina
leve todas as Igrejas particulares do Continente a um renovado compromisso com
a Nova Evangelização, a Promoção humana e a Cultura cristã.
Jesus
Cristo, Nosso Senhor, Evangelizador e Salvador, seja hoje, como ontem e sempre,
o centro da vida e da Igreja.
A
Virgem Santíssima, que esteve sempre ao lado do seu Divino Filho, acompanhe os
Pastores e fiéis na sua peregrinação rumo ao Senhor.
Vaticano,
10 de novembro de 1992, memória de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja.
Joannes
Paulus pp.l1
MENSAGEM
DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS INDÍGENAS DA AMÉRICA
Amadíssimos
irmãos e irmãs indígenas do Continente americano.
1.
No contexto da comemoração do V Centenário do início da evangelização do Novo
Mundo, lugar preferencial no coração e no afeto do Papa ocupam os descendentes
dos homens e das mulheres que povoavam este continente, quando a cruz de Cristo
foi plantada naquele 12 de outubro de 1492.
Da
República Dominicana, onde tive a alegria de me encontrar com alguns dos vossos
representantes, dirijo a minha mensagem de paz e amor a todas as pessoas e
grupos étnicos indígenas, desde a península do Alasca até à Terra do Fogo. Sois
continuadores dos povos tupi-guarani, aimara, meia, Quechua, chibcha, nahualt,
mixtecas, araucano, yanomami, guajiro, inuit, apache e muitíssimos outros que
se distinguiram pela sua nobreza de espírito, que se evidenciaram nos seus valores
autóctones culturais, como as civilizações asteca, ince e meia, e que podem
gloriar-se de possuir uma visão da vida que reconhece a sacralidade do mundo e
do ser humano. A simplicidade, a humildade, o amor à liberdade, a
hospitalidade, a solidariedade, o apego à família, a proximidade à terra e o
sentido da contemplação são outros tantos valores, que a memória indígena da
América conservou até aos nossos dias e constituem um contributo que se sente
na alma latino-americana.
2.
Faz agora 500 anos que o Evangelho de Jesus Cristo chegou aos vossos povos. Mas
já antes, e sem que talvez o imaginassem, o Deus vivo e verdadeiro estava
presente iluminando os seus caminhos. O apóstolo São João diz-nos que o Verbo,
o Filho de Deus, "é a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem
ilumina" (Jo 1,9). Com efeito, as "sementes do Verbo" estavam já
presentes e iluminavam o coração dos vossos antepassados, para que fossem
descobrindo os vestígios do Deus Criador em todas as suas criaturas: o sol, a
lua, a mãe terra, os vulcões e as selvas, as lagoas e os rios.
Mas,
à luz da Boa Nova, eles descobriram que todas aquelas maravilhas da criação não
eram senão um pálido reflexo do seu Autor, e que a pessoa humana, por ser
imagem e semelhança do Criador, é muito superior ao mundo material e está
chamada a um destino transcendente e eterno. Jesus de Nazaré, o Filho de Deus
feito homem, com a sua morte e ressurreição, libertou-nos do pecado,
tornando-nos filhos adotivos de Deus e abrindo-nos o caminho para a vida que não
tem fim. A mensagem de Jesus Cristo fez-lhes ver que todos os homens são
irmãos, porque têm um Pai comum: Deus. E todos estão chamados a fazer parte da
única Igreja, que o Senhor fundou com o seu sangue (c£ At 20,28).
À
luz da revelação cristã, as virtudes ancestrais dos vossos antepassados, como
a hospitalidade, a solidariedade, o espírito generoso, encontraram a sua
plenitude no grande mandamento do amor, que deve ser a suprema lei do cristão.
A persuasão de que o mal se identifica com a morte e o bem com a vida
abriu-lhes o coração para Jesus, que é "o Caminho, a Verdade e a
Vida" (Jo 14,6).
Tudo
isto, a que os Padres da Igreja chamam as "sementes do Verbo", foi
purificado, aprofundado e completado pela mensagem cristã, que proclama a
fraternidade universal e defende a justiça. Jesus chamou bem-aventurados aos
que têm sede de justiça (cf. Ml 5,6). Que outro motivo, senão a pregação dos
ideais evangélicos, moveu tantos missionários a denunciar as violações
cometidas contra os índios, à chegada dos colonizadores? Estão a demonstrá-1o
a ação apostólica e os escritos de intrépidos evangelizadores espanhóis como
Bartolomeu de Las Casas, Frei Antônio de Montesinos, Vasco de Queiroga, João
dal Valle, Julião Garcés, José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, e de tantos
outros homens e mulheres, que dedicaram generosamente a sua vida aos nativos. A
Igreja que, com os seus religiosos, sacerdotes e bispos, esteve sempre ao lado
dos indígenas, como poderia esquecer neste V Centenário os enormes sofrimentos
infligidos aos povoadores deste Continente durante a época da conquista e da
colonização? Deve-se reconhecer com toda a verdade os abusos cometidos, devido
à falta de amor daquelas pessoas que não souberam ver nos indígenas irmãos e
filhos do mesmo Deus Pai.
3.
Nesta comemoração do V Centenário, desejo repetir o que vos disse durante a
minha primeira viagem pastoral à América Latina: " O Papa e a Igreja
estão convosco e amam-vos; amam as vossas pessoas, a vossa cultura, as vossas
tradições; admiram o vosso maravilhoso passado, animam-vos no presente e muito
esperam do futuro" (Discurso em Cuilapan, 29.1.1979, n. 5). Por isso,
quero também fazer-me eco e porta-voz dos vossos mais profundos anelos.
Sei
que quereis ser respeitados como pessoas e como cidadãos. Por sua vez, a Igreja
faz sua esta legítima aspiração, já que a vossa dignidade não é menor que a de
qualquer outra pessoa ou raça. Todo o homem ou mulher foi criado à imagem e
semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27). E Jesus que mostrou sempre a sua
predileção pelos pobres e abandonados, diz-nos que tudo o que fizermos ou
deixarmos de fazer "a um destes meus irmãos mais pequeninos", a Ele
mesmo o fizemos (cf. Ml 25,40). Ninguém que se honre do nome de cristão pode
desprezar ou discriminar por motivos de raça ou cultura. O apóstolo Paulo
admoesta-nos quanto a isto. Foi num só Espírito que todos nós fomos batizados,
a fim de formarmos um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer
livres" (lCor 12,13).
A
fé, queridos irmãos e irmãs, supera as diferenças entre os homens. A fé e o
batismo dão vida a um novo povo: o povo dos filhos de Deus. Contudo, mesmo
superando as diferenças, a fé não as destrói mas respeita-as. A unidade de
todos nós em Cristo não significa, sob o ponto de vista humano, uniformidade.
Pelo contrário, as comunidades eclesiais sentem-se enriquecidas, ao acolher a
multíplice diversidade e variedade de todos os seus membros.
4.
Por isso, a Igreja anima os indígenas a conservarem e promoverem, com legítimo
orgulho, a cultura dos seus povos: as sãs tradições e costumes, o idioma e os
valores próprios. Ao defender a vossa identidade, não só exerceis um direito,
mas cumpris também o dever de transmitir a vossa cultura às gerações vindouras,
enriquecendo deste modo toda a sociedade. Esta dimensão cultural, em ordem à
evangelização, será uma das prioridades da IV Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano, que se realiza em Santo Domingo e que tive a alegria de
inaugurar, como ato preeminente da minha viagem, por ocasião do V Centenário. A
tutela e o respeito das culturas, valorizando tudo o que de
positivo
há nelas, não significam, entretanto, que a Igreja renuncia à sua missão de
elevar os costumes, rejeitando tudo aquilo que se opõe ou contradiz a moral
evangélica. "A Igreja - afirma o Documento de Puebla - tem a missão de
dar testemunho do "verdadeiro Deus e único Senhor". Não se pode
considerar como violação a evangelização que é um convite a que se abandonem as
falsas concepções de Deus, procedimentos antinaturais e manipulações aberrantes
do homem, feitas pelo homem" (no. 405-4().
Elemento
central nas culturas indígenas é o apego e a proximidade à mãe terra. Amais a
terra e quereis permanecer em contato com a natureza. Uno a minha voz à de
quantos pedem a aplicação de estratégias e meios eficazes para proteger e
conservar a natureza criada por Deus. O respeito devido ao meio ambiente deve
ser sempre tutelado, acima de interesses exclusivamente econômicos ou da
abusiva exploração de recursos em terras e mares.
5.
Entre os problemas que preocupam muitas das comunidades indígenas, estão os
relacionados com a posse da terra. Consta-me que os Pastores da Igreja, a
partir das exigências do Evangelho e em consonância com o magistério social,
não têm deixado de apoiar os vossos legítimos direitos, favorecendo adequadas
reformas agrárias e exortando à solidariedade como caminho que conduz à
justiça. Também conheço as dificuldades que deveis enfrentar em temas como a
segurança social, o direito de associação, a capacidade agrícola, a
participação na vida nacional, a formação integral dos vossos filhos, a
educação, a saúde, a moradia e tantas outras questões que vos preocupam. A
este propósito, vêm-me à mente as palavras que, há alguns anos, dirigi aos
indígenas no inesquecível encontro de Quetzaltenango: "A Igreja conhece,
queridos filhos, a marginalização que sofreis; as injustiças que suportais; as
sérias dificuldades que tendes para defender as vossas terras e os vossos
direitos; a freqüente falta de respeito pelos vossos costumes e pelas vossas
tradições. Por isso, ao cumprir a sua obra de evangelização, ela quer estar
junto de vós e elevar a sua voz de condenação, quando é violada a vossa
dignidade de seres humanos e filhos de Deus; quer acompanhar-vos pacificamente
como o exige o Evangelho, mas com decisão e energia, na obtenção do
reconhecimento e da promoção da vossa dignidade e dos vossos direitos como
pessoas humanas" (Discurso em Quetzaltenango, 7 de março de 1983 n. 4).
Dentro
da missão religiosa que lhe é própria, a Igreja não poupará esforços para
continuar a fomentar todas aquelas iniciativas, que têm em vista promover o bem
comum e o desenvolvimento integral das vossas comunidades, assim como favorecer
legislações que respeitem e tutelem adequadamente os valores autênticos e os
direitos indígenas. Demonstração desta decidida vontade de colaboração e
assistência é a recente ereção, por parte da Santa Sé, da Fundação
"Populorum Progressio", que dispõe de um fundo de ajuda para os
grupos indígenas e populações rurais menos favorecidas da América Latina.
Encorajo-vos,
pois, a um renovado empenho a serdes também protagonistas da vossa própria
elevação espiritual e humana, mediante o trabalho digno e constante, a
fidelidade às vossas melhores tradições, a prática das virtudes. Para isto
contais com os genuínos valores da vossa cultura, acrisolada ao longo das
gerações que vos precederam nesta abençoada terra. Mas, sobretudo, contais com
a maior riqueza que, pela graça de Deus, recebestes: a vossa fé católica.
Cumprindo os ensinamentos do Evangelho, conseguireis que os vossos povos, fiéis
às suas legítimas tradições, progridam tanto material como espiritualmente.
Iluminados pela fé em Jesus Cristo, vereis nos demais homens, para além de
qualquer diferença de raça ou cultura, irmãos vossos. A fé ampliará o vosso
coração, para que se abriguem nele todos os vossos concidadãos. E essa mesma fé
levará os outros a amar-vos, a respeitar a vossa idiossincrasia e a unir-se
convosco na construção de um futuro, no qual todos sejam parte ativa e
responsável, como corresponde à dignidade cristã.
6.
Acerca do lugar que vos corresponde na Igreja, exorto todos a fomentarem
aquelas iniciativas pastorais, que favoreçam uma maior integração e
participação das comunidades indígenas na vida eclesial. Para isto, dever-se-á
fazer um renovado esforço no que se refere à inculturação do Evangelho, pois
"uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não
inteiramente pensada nem com fidelidade vivida" (Discurso ao mundo da
cultura, Lima, 15.5.1988). Trata-se, em definitivo, de conseguir que os
católicos indígenas se convertam em protagonistas da sua própria promoção e
evangelização. E isto, em todos os setores, incluídos os diversos ministérios.
Que imensa alegria no dia em que as vossas comunidades puderem ser servidas por
missionários e missionárias, por sacerdotes e bispos que tenham saído das
vossas próprias famílias e vos guiem na adoração a Deus "em espírito e
verdade" (Jo 4,23).
A
mensagem que hoje vos entrego em terras americanas, come morando cinco séculos
de presença do Evangelho no meio de vós ver ser um apelo à esperança e ao
perdão. Na oração que Jesus Cristo nos ensinou dizemos. Pai nosso...
perdoai-nos as nossas ofensas assim
como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" (Jo 6,68); Ele conhece "o
interior de cada homem" (cf. Jo 2,25). Em nome de Jesus Cristo, como
Pastor da Igreja peço-vos que "perdoeis a todos aqueles que, durante estes
quinhentos anos, foram causa de dor e sofrimento para os vossos antepassados e
para vós. Quando perdoamos, colocamos nas mãos de Deus as "ofensas"
que o homem fez, sabendo que o Senhor é a Justiça mais santa e a Misericórdia
mais justa. Ele é o único senhor da história, criador do mundo e redentor do
homem. Ao perdoar, nós mesmos nos renovamos no espírito e a nossa vontade
fortalece-se. O mundo precisa sempre do perdão e da reconciliação entre as
pessoas e entre os povos. Uma sociedade mais justa e fraterna só se poderá
construir sobres estes fundamentos. Por isso, neste solene Centenário, e em
nome do Senhor Jesus, vos dirijo o meu premente apelo a perdoar "a vem vos
tem ofendido" - como dizemos no Pai nosso - todas as ofensas e injustiças
que vos tenham sido feitas, muitas das quais só Deus conhece.
A
Igreja, que durante estes quinhentos anos vos acompanhou no vosso caminhar,
fará tudo o que estiver ao seu alcance para que os descendentes dos antigos
povoadores da América ocupem, na sociedade e nas comunidades eclesiais, o
lugar que lhes corresponde. Estou consciente dos graves problemas e
dificuldades com que vos deveis enfrentar. Mas estai certos de que nunca vos há
de faltar o auxilio de Deus e a proteção da sua Mãe Santíssima, como um dia, na
colina do Tepeyac foi prometido ao índio Juan Diego, um insigne filho do vosso
mesmo sangue, o qual tive a alegria de elevar à honra dos altares: "Ouve e
presta atenção, filho meu mais pequeno, é nada o que te assusta e aflige; não
se turve o teu coração. Não temas essa enfermidade, nem outra enfermidade ou
angústia. Não estou eu aqui, que sou tua Mãe? Não estás sob a minha sombra? Não
sou eu a tua saúde? Não estás porventura no meu regaço?" (Nican Mopohua).
Nossa
Senhora de Guadalupe proteja todos vós, enquanto vos abençôo de coração, no
nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Dado em Santo Domingo, no dia 12 de outubro
de 1992, II Centenário da Evangelização da América.
MENSAGEM
DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS AFRO-AMERICANOS
Amadíssimos
irmãos e irmãs afro-americanos.
1.
O V Centenário da Evangelização do Novo Mundo é ocasião propícia para vos
dirigir, da cidade de Santo Domingo, a minha mensagem de encorajamento que
aumente a vossa esperança e sustenha o vosso empenho cristão em dar renovada
vitalidade às vossas comunidades, às quais, como Sucessor de Pedro, envio uma
saudação cordial e afetuosa com as palavras do apóstolo São Paulo: "Graça
e paz da parte de Deus Pai e da de nosso Senhor Jesus Cristo" (G1 1,3).
A
evangelização da América é motivo de profunda ação de graças a Deus que, na sua
infinita misericórdia, quis que a mensagem de salvação chegasse aos habitantes
destas abençoadas terras, fecundadas pela cruz de Cristo, a qual marcou a vida
e a história das suas gentes, e que tão abundantes frutos de santidade e de
virtudes produziu no decorrer destes cinco séculos.
A
data de 12 de outubro de 1492 assinala o início do encontro de raças e
culturas, que configurariam a história destes quinhentos anos, nos quais a
penetrante visão cristã nos permite descobrir a intervenção amorosa de Deus,
apesar das limitações e infidelidade dos homens. Com efeito, no sulco da
história verifica-se uma confluência misteriosa de pecado e de graça, mas, ao
longo da mesma, a graça triunfa sobre o poder do pecado. Como nos diz São
Paulo: "Onde, porém, abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20).
2.
Nas celebrações deste V Centenário não podia faltar a minha mensagem, de
aproximação e vivo afeto, às populações afro-americanas, que representam uma
parte relevante no conjunto do continente e que, com os seus valores humanos e
cristãos, e também com a sua cultura, enriquecem a Igreja e a sociedade em
tantos países. A este propósito, vêm-me à mente aquelas palavras de Simão
Bolivar, afirmando que "a América é o resultado da união da Europa e da
África com elementos aborígenes. Por isso nela não cabem os preconceitos de raça
e, se coubessem, a América voltaria ao caos primitivo".
De
todos é conhecida a gravíssima injustiça cometida contra aquelas populações
negras do continente africano, que foram arrancadas com violência das suas
terras, das suas culturas e das suas tradições, e trazidas como escravos para a
América. Na minha recente viagem apostólica ao Senegal, não quis deixar de
visitar a ilha de Goreia, onde se exerceu parte daquele ignominioso comércio,
e quis deixar perpetuado o firme repúdio da Igreja, com as palavras que agora
desejo recordar de novo: "A visita à `Casa dos Escravos' faz-nos recordar
o tráfico de negros, que Pio II, ao escrever, em 1462, a um bispo missionário
que partia para a Guiné, qualificava como `grande crime'. Durante um período da
história do continente africano, homens, mulheres e crianças negros foram
trazidos para esta pequena localidade, tirados da sua terra, separados dos
seus parentes, para serem aqui vendidos como mercadoria. Estes homens e estas
mulheres foram vítimas de um vergonhoso comércio, no qual tomaram parte pessoas
batizadas, mas que não viveram a sua fé. Como se hão de esquecer os enormes
sofrimentos infligidos, com menosprezo dos mais elementares direitos humanos às
populações de orladas do continente africano? Como se hão de
P ,
esquecer as vidas humanas destruídas pela escravidão? Deve ser confessado, com
toda a verdade e humildade, este pecado do homem contra o homem"
(Discurso na Ilha de Goreia 21.2.1992).
3.
Olhando para a realidade atual do Novo Mundo, vemos pujantes e vivas
comunidades afro-americanas que, sem esquecer o seu passado histórico, oferecem
a riqueza da sua cultura à variedade multiforme do continente. Com tenacidade,
não isenta de sacrifícios, contribuem para o bem comum integrando-se no
conjunto social, mas mantendo a sua identidade, usos e costumes. Esta
fidelidade ao seu próprio ser e patrimônio espiritual, é algo que a Igreja não
só respeita mas encoraja e quer fomentar, pois, sendo o homem - todo o homem -
criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27), toda a realidade
autenticamente humana é expressão dessa imagem, que Cristo regenerou com o seu
sacrifício redentor.
Graças
à redenção de Cristo, amados irmãs e irmãos afro-americanos, todos nós
passamos das trevas à luz, a ser "não Meu povo" mas a chamar-nos
"Filhos do Deus vivo" (cf. Os 2,1). Como "eleitos de Deus"
formamos um só corpo, que é a Igreja (cf. Cl 3,12-15), na qual, segundo as
palavras de São Paulo, "não há mais grego, nem judeu, nem circunciso nem
incircunciso, nem bárbaro" nem cita, nem escravo nem livre, mas Cristo,
que é tudo em todos (Cl 3,11). De fato, a fé supera as diferenças entre os
homens e dá vida a um povo novo, que é o povo dos filhos de Deus. Contudo,
mesmo superando as diferenças na comum condição de cristãos, a fé não as
destrói mas respeita-as e dignifica-as.
Por
isso, nesta comemoração do V Centenário, encorajo-vos a defender a vossa
identidade, a ser conscientes dos vossos valores e fazê-los frutificar. Mas,
como Pastor da Igreja, exorto-vos sobretudo a ser conscientes do grande tesouro
que, pela graça de Deus, recebestes: a vossa fé católica. À luz de Cristo,
haveis de conseguir que as vossas comunidades cresçam e progridam, tanto no
espiritual como no material, difundindo assim os dons que Deus vos outorgou.
Iluminados pela fé cristã, vereis os demais homens, acima de qualquer
diferença de raça ou cultura, como irmãos vossos, filhos do mesmo Pai.
4.
A solicitude da Igreja por vós e pelas vossas comunidades, tendo em vista a
nova evangelização, a promoção humana e a cultura cristã, tornar-se-á evidente
na IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que hoje tive a
ventura de inaugurar. Sem esquecer que muitos valores evangélicos têm penetrado
e enriquecido a cultura, a mentalidade e a vida dos afro-americanos, deseja-se
incrementar a atenção pastoral e favorecer os elementos específicos das
comunidades eclesiais com fisionomia própria.
A
obra evangelizadora não destrói, mas encarna-se nos vossos valores,
consolida-os e fortalece-os; faz crescer as sementes lançadas pelo "Verbo
de Deus, o Qual antes de se fazer homem para tudo salvar e em Si recapitular,
já estava no mundo, como verdadeira luz que ilumina todo o homem" (Gaudium et spes, 57). A Igreja, fiel à
universalidade da sua missão, anuncia Jesus Cristo e convida os homens de todas
as raças e condições a aceitarem a sua mensagem. Como afirmaram os Bispos
latino-americanos na Conferência Geral de Puebla de tos Angeles: "A Igreja
tem a missão de dar testemunho do "verdadeiro Deus e único Senhor".
Não se pode considerar como violação a evangelização que é um convite a que se
abandonem as falsas concepções de Deus, procedimentos antinaturais e manipulações
do homem feitas pelo homem" (n. 406). Com efeito, com a evangelização, a
Igreja renova as culturas, combate os erros, purifica e eleva a moral dos
povos, fecunda as tradições, consolida-as e restaura-as em Cristo (cf. Gaudium et spes, 58).
5.
Sei que a vida de muitos afro-americanos nos diversos países não está isenta de dificuldades e problemas. A Igreja, bem
consciente disto, compartilha os vossos sofrimentos e acompanha-vos e apoia-vos
nas vossas legítimas aspirações a uma vida mais justa e digna para todos. A
este propósito, não posso deixar de expressar a viva gratidão e de encorajar a
ação apostólica de tantos sacerdotes, religiosos e religiosas que exercem o
seu ministério junto dos mais pobres e necessitados. Peço a Deus que nas vossas
comunidades cristãs surjam também numerosas vocações sacerdotais e religiosas,
para que os afro-americanos do continente possam contar com ministros
provenientes das vossas próprias famílias.
Enquanto
vos confio à maternal proteção da Santíssima Virgem, cuja devoção está tão
arraigada na vida e nas práticas cristãs dos católicos afro-americanos,
abençôo-vos no nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Dado em Santo Domingo, a 12 de Outubro de
1992 V Centenário da Evangelização da América.
Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB
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