EM DEFESA DA FÉ
Página
de Apologética Católica
A
Santíssima Trindade
Fonte: Lepanto. Home Page: http://www.lepanto.org.br/
Primeiramente, cabe contar uma pequena história que
nos ajudará a entender a posterior explicação.
Conta-se
que Santo Agostinho andava em uma praia meditando sobre o mistério da
Santíssima Trindade: um Deus em três pessoas distintas...
Enquanto caminhava, observou um menino que portava uma
pequena tigela com água. A criança ia até o mar, trazia a água e derramava
dentro de um pequeno buraco que havia feito.
Após ver repetidas vezes o menino fazer a mesma coisa,
resolveu interrogá-lo sobre o que pretendia.
O menino, olhando-o, respondeu com simplicidade:
-"estou querendo colocar a água do mar neste buraco".
Santo Agostinho sorriu e respondeu-lhe: -"mas
você não percebe que é impossível?".
Então, novamente olhando para Santo Agostinho, o
menino respondeu-lhe: "ora, é mais fácil a água do mar caber nesse
pequeno buraco do que o mistério da Santíssima Trindade ser entendido por um
homem!". E continuou: "Quem fita o sol, deslumbra-se e quem
persistisse em fitá-lo, cegaria. Assim sucede com os mistérios da religião:
quem pretende compreendê-los deslumbra-se e quem se obstinasse em os perscrutar
perderia totalmente a fé" (Sto. Agost).
Só poderíamos compreender perfeitamente a Santíssima
Trindade se nós fossemos 'deus'. Podemos, contudo, por meio da razão iluminada
pela fé, chegar a um conhecimento muito útil dos mistérios, considerando certas
analogias da natureza. Citemos algumas: o raio branco de luz, sendo apenas um,
pode ser decomposto em vermelho, amarelo e azul; a ametista brilha de três
cores diferentes, segundo o lado em que se observa: é purpúrea, violeta e
rósea, sem ser mais do que uma pedra. O fogo queima, ilumina e aquece, sendo
apenas fogo, etc.
Bem, a Santíssima Trindade é superior à capacidade
humana de entendimento, mas não contraria a razão. Dizer que existe "um
Deus em três pessoas" é superior à capacidade de compreensão humana,
mas não é o mesmo que dizer que é "um Deus em três deuses",
que seria contrariar a razão humana.
Ou seja, o mistério é conhecido, mas não é
compreendido em sua totalidade.
Sabendo disso, a Igreja aconselha muita cautela na
busca de conhecer certos mistérios superiores à nossa compreensão, conforme
ensina o Catecismo Romano, transcrevendo a Bíblia: "Quem quer sondar a
majestade, será oprimido pelo peso de sua glória" (Prov. 25, 27).
O
Conhecimento através da Revelação
Portanto, a Santíssima Trindade só é conhecida através
da Revelação, através das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que era Deus e
Homem verdadeiro.
Disse Nosso Senhor: "Ensinai todas as gentes,
e batizai-as em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo" (Mt
28, 19). Na sua última prece, o Salvador pede que seus discípulos sejam um como
seu Pai e Ele não são mais que um (S. Jo., 17, 21). Também afirma: "Meu
Pai e eu somos um" (Jo., 10, 30), deixando clara a unidade de natureza
entre o Pai e o Filho.
Em diversas passagens, os apóstolos reconhecem Nosso
Senhor como "Filho de Deus", que prometeu enviar o "Espírito
Santo" sobre eles, que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia pelo seu
próprio poder, etc.
Na promessa de enviar o Espírito Santo, Nosso Senhor,
antes de se elevar ao Céu, anunciou aos Apóstolos que o Pai lhes enviará o
Espírito Santo, que os ensinaria e os fortaleceria na fé: "Rogarei a
meu Pai e Ele vos mandará outro consolador" (Jo 14, 16, 26), "o
espírito da verdade" que "vos ensinará tudo" (Jo, 14,
26). Ora, como não há ninguém senão Deus (a verdade), capaz de ensinar tudo,
resulta dessas palavras que tal consolador é Deus, como o Pai e o o Filho que
hão de mandá-lo. S. Pedro repreende Ananias que procurou iludir o Espírito
Santo, e acusa-o de ter assim mentido a "Deus", não aos homens (Act.
4, 5, 11) Na mesma passagem sobre o Espírito Santo, fica claro que as pessoas
são distintas: O Pai que envia, o Filho que roga ao Pai, o Espírito Santo que
será enviado.
Em II Cor, 13, 13 está escrito: "Estejam com
todos vós a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do
Espírito Santo"!.
No "batismo" de Nosso Senhor, ao sair da
água, os céus se abriram e o "Espírito, como uma pomba",
desceu sobre Nosso Senhor e uma voz "veio dos Céus: "Tu és o meu
filho amado, em ti me comprazo".
Em São Mateus, lemos: "Só o Pai conhece o
Filho e o Filho conhece o Pai"(Mt 11, 27; Lc. 10, 22). Em S. João,
está que o Espírito Santo "procede do Pai", que é "enviado
pelo Filho" (Jo 15, 26; 16, 7).
Respondendo a Felipe, que lhe havia pedido para ver o
Pai: "Filipe, quem me viu, viu também o Pai. Como é que dizes:
Mostra-nos o Pai? Então não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim"
(Jo, 14, 9 e 10).
O mesmo que Jesus Cristo explica da sua união com o
Pai, afirma-o igualmente do Espírito Santo. "Quando tiver vindo o
Consolador que eu vos mandarei de junto de meu Pai, o Espírito de verdade que
procede do Pai, Ele dará testemunho de mim" (Jo, 15, 26). Ora, o que
procede de Deus tem, forçosamente, natureza idêntica à de Deus.
Dessa forma, fica clara a distinção de três pessoas em
um só Deus, ou seja, três pessoas de mesma natureza, poder e glória.
Já no Antigo Testamento a Trindade estava implícita.
Citemos algumas passagens: Os sacerdotes judeus deviam, ao abençoar o povo,
invocar três vezes o nome de Deus (Num. 6, 23). Isaías diz-nos (6, 3) que os
Serafins cantam nos céus: Santo, santo, santo é o Deus dos exércitos. Notemos
sobretudo o estranho plural empregado por Deus na criação do homem: "façamos
o homem à nossa imagem e semelhança"(Gen. 1, 26). No momento da
confusão de Babel: "Vinde, diz o Senhor, confundamos a sua linguagem"
(Gen. 11, 7). Por que esse plural? Já, depois da culpa de Adão, o mesmo livro
sagrado representa Deus dizendo ironicamente: "Portanto eis Adão que se
tornou com um de nós, vamos agora impedir-lhe que levante a mão à árvore da
vida"(Gen. 3, 22). E David escreveia no Salmo CIX: "Disse o
Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha direita".
Encontram-se, no Antigo Testamento, duas expressões
para designar a divindade: uma é "Jehováh", outra é "Eloim".
Pelo parecer de todos os hebraizantes, a primeira se aplica ao mesmo ser de
Deus, à sua suprema essência: está sempre no singular. A segunda exprime a
idéia da presença de Deus e do seu poder: vem sempre no plural e significa
"os deuses"; mas, o que não deixa de surpreender é que esta palavra
sempre no plural, rege sempre no singular o verbo que a segue. Assim o primeiro
versículo da Bíblia traduzir-se-ia literalmente: "No princípio,
"os deuses" fez o céu e a terra". Os sábios não duvidam em
ver, nesta palavra "Eloim" e no modo de se usar dela, uma
expressão que deixa entender a existência de várias pessoas em Deus.
Na
Tradição da Igreja encontramos várias provas da Santíssima Trindade.
a) Testemunho dos Mártires. Era para confessar a su fé
na divindade das três pessoas e particularmente em Nosso Senhor, que numerosos
mártires sofriam os suplícios mais curéis. Assim, para citarmos um exemplo
apenas, S. Policarpo (166), discípulo de S. João, exclamava em frente da
fogueira acesa: "Eu vos glorifico em todas as coisas, a vós, ó meu
Deus, com vosso eterno e divino Filho, Jesus Cristo, a quem, com o Espírito
Santo, seja honra, agora e para sempre".
b) Testemunho dos Padres da Igreja. Nos escritos de
certos Padres, encontram-se testemunhos valiosíssimos desta nossa crença. Santo
Inácio de Antioquia fala do Pai, do Filho e do Espírito Santo como sendo três
pessoas às quais devemos respeito igual. Santo Irineu diz que "a
Igreja, espalhada pelos Apóstolos até os confins do universo, crê em Deus Pai
todo-poderoso, em Jesus Cristo, seu Filho, encarnado por nossa salvação e no
Espírito Santo que falou pelos profetas". Claríssimas são, também, na
sua conclusão, as palavras de Tertuliano: "O Pai é Deus, o Filho é
Deus, o Espírito-Santo é Deus e Deus é cada um deles".
c) Prática da Igreja. De acordo com sua crença, a
Igreja sempre administrou o batismo em nome das três pessoas. Ocupa o primeiro
lugar na liturgia, o mistério da Santíssima Trindade. Dela fazem menção todas
as bênçãos, todas as orações, todas as cerimônias, quer por meio do sinal da
cruz, quer pela dexologia: "Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo".
Ademais, sem a divindade de Nosso Senhor, não haveria
a redenção, que consiste na crucifixão e morte de Nosso Senhor sobre a Cruz. Se
Cristo não fosse Deus, o "pecado original" e os nossos "pecados
atuais" não poderiam ter sido remidos, visto terem um valor infinito (pois
foram praticados contra Deus, que é infinito) e precisarem de um ser infinito
para os expiar.
Uma
pequena explicação filosófica
Para dar uma explicação mais simples, sendo Deus
onipotente e sendo o existir próprio à eternidade de Deus e à sua natureza:
"Eu sou aquele que é", a imagem que Deus tem de si mesmo é o
seu Filho, o verbo de Deus.
A este pensamente vivo em que Deus se expressa
perfeitamente a si mesmo chamamos Deus Filho. Deus Pai é Deus conhecendo-se a
si mesmo; Deus filho é a expressão do conhecimento que Deus tem de si. Assim, a
segunda Pessoa da Santíssima Trindade é chamada Filho, precisamente porque é
gerada desde toda a eternidade, engendrada na mente divina do Pai. Também a
chamamos Verbo de Deus, porque é a "palavra mental" em que a mente
divina expressa o pensamento sobre Si mesmo.
Depois, Deus Pai (Deus conhecendo-se a Si mesmo) e
Deus Filho (o conhecimento de Deus sobre Si mesmo) contemplam a natureza que
ambos possuem em comum. Ao verem-se (falamos, naturalmente, em termos humanos),
contemplam nessa natureza tudo o que é belo e bom - quer dizer, tudo o que
produz amor - em grau infinito. E assim, a vontade divina origina um ato de
amor infinito para com a bondade e a beleza divinas. Uma vez que o amor de Deus
por Si mesmo, tal como o conhecimento de Deus sobre Si mesmo, é da própria
natureza divina, tem que ser um amor vivo. Este amor, infinitamente intenso,
que eternamente flui do Pai e do Filho, é o que chamamos Espírito Santo, que
procede do Pai e do Filho. É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Para deixar mais claro o assunto, ainda é necessário
fazer uma distinção entre a pessoa (personalidade), e a natureza (que em Deus
se confunde com a e essência e a substância).
O Mistério da Santíssima Trindade consiste
propriamente no fato de uma essência ou natureza única que subsiste em três
pessoas.
Pessoa é a substância completa dotada de razão
individual e autônoma. Na verdade, possuem todos os homens a mesma natureza:
todos têm corpo e alma racional. Entretanto, esta natureza comum existe em cada
um deles de modo diferente. Ora, o que distingue um homem de outro homem, o que
cada um tem de especial, é que constitui sua autonomia, seu "eu" e
chama-se "personalidade", a "pessoa".
Desta forma, Deus Filho tinha a mesma natureza de Deus
Pai, mas não era a mesma Pessoa.
Suponha que você se olha em um espelho de corpo
inteiro. Você vê uma imagem perfeita de si mesmo, com uma exceção: não é senão
um reflexo no espelho. Mas se a imagem saísse dele e se pusesse ao seu lado,
viva e palpitante como você, então sim, seria a sua imagem perfeita. Porém, não
haveria dois 'vocês', mas um só 'você', uma natureza humana. Haveria duas
'pessoas', mas só uma mente e uma vontade, compartilhando o mesmo conhecimento
e os mesmos pensamentos.
Depois, já que o amor de si (o amor de si bom) é
natural em todo ser inteligente, haveria uma corrente de amor ardente e mútuo
entre você e a sua imagem. Agora, dê asas à sua fantasia e pense na existência
desse amor como uma parte tão de você mesmo, tão profundamente enraizado na sua
própria natureza, que chegasse a ser uma reprodução viva e palpitante de você
mesmo. Este amor seria uma 'terceira pessoa' (mas, mesmo assim, nada mais que
um 'você', lembre-se; uma só natureza humana), uma terceira pessoa que estaria
entre você e a sua imagem, e os três, de mãos dadas: três pessoas numa só
natureza humana.
Esse exemplo, muito imperfeito, pode nos ajudar um
pouco a entender a relação entre as três Pessoas da Santíssima Trindade: Deus
Pai "olhando-se" a Si mesmo em sua mente divina (criadora) e
mostrando ali a Imagem de Si, tão infinitamente perfeita que é uma imagem viva:
Deus Filho; e Deus Pai e Deus Filho amando como amor vivo a natureza divina que
ambos possuem em comum: Deus Espírito Santo. Três pessoas divinas, uma natureza
divina.
É claro, é só um exemplo, muito imperfeito, mas que
nos ajuda a compreender o grande mistério que é a Santíssima Trindade, base de
nossa Fé, fundamento de nossa Redenção, sustentáculo de nossas vidas e no qual,
todos os dias, através do sinal da Cruz, nós afirmamos a nossa fé: Em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Extraído,
com adaptações, de vários livros.
Fonte: Lepanto. Home Page: http://www.lepanto.org.br/