CARTA APOSTÓLICA
SALVIFICI DOLORIS
DO
SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II AOS BISPOS, AOS SACERDOTES, ÀS FAMÍLIAS RELIGIOSAS
E
AOS FIÉIS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO
Dado em Roma, junto de São
Pedro, na memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, a 11 de Fevereiro do
ano de 1984, sexto do meu Pontificado.
Veneráveis Irmãos no Episcopado e amados
Irmãos e Irmãs em Cristo:
I
INTRODUÇÃO
1. « Completo na minha carne — diz o
Apóstolo São Paulo, ao explicar o valor salvífico do sofrimento — o que falta
aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja ». (1)
Estas palavras parecem encontrar-se
no termo do longo caminho que se desenrola através do sofrimento inserido na
história do homem e iluminado pela Palavra de Deus. Elas têm o valor de uma
como que descoberta definitiva, que é acompanhada pela alegria: « Alegro-me nos
sofrimentos suportados por vossa causa ». (2) Esta alegria provém da descoberta
do sentido do sofrimento; e muito embora Paulo de Tarso, que escreve estas
palavras, participe de um modo personalíssimo nessa descoberta, ela é válida ao
mesmo tempo para os outros. O Apóstolo comunica a sua própria descoberta e
alegra-se por todos aqueles a quem ela pode servir de ajuda — como o ajudou a
ele — para penetrar no sentido salvífico do
sofrimento.
2. O tema do sofrimento —
precisamente sob este ponto de vista do sentido salvífico — parece estar
integrado profundamente no contexto do Ano da Redenção, o Jubileu
extraordinário da Igreja; e também esta circunstância se apresenta de molde a
favorecer directamente uma maior atenção a dispensar a tal tema exactamente
durante este período. Mas, prescindindo deste facto, trata-se de um tema
universal, que acompanha o homem em todos os quadrantes da longitude e da
latitude terrestre; num certo sentido, coexiste com ele no mundo; e por isso,
exige ser constantemente retomado. Ainda que São Paulo tenha escrito na Carta
aos Romanos que « toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parto, até ao
presente », (3) e ainda que os sofrimentos do mundo dos animais sejam bem
conhecidos e estejam próximos ao homem, aquilo que nós exprimimos com a palavra
« sofrimento » parece entender particularmente algo
essencial à natureza humana. É algo tão profundo como o homem,
precisamente porque manifesta a seu modo aquela profundidade que é própria do
homem e, a seu modo, a supera. O sofrimento parece pertencer à transcendência
do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, «
destinado » a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo.
3. Se o tema do sofrimento deve ser
tratado de modo especial no contexto do Ano Santo da Redenção, isso sucede,
primeiro que tudo, porque a Redenção se
realizou mediante a Cruz de Cristo,
ou seja, pelo seu sofrimento. Ao mesmo
tempo, no ano da Redenção há que repensar a verdade expressa na Encíclica Redemptor Hominis: em Cristo « cada um dos
homens se torna o caminho da Igreja ». (4) Pode dizer-se que o homem se torna
caminho da Igreja de modo particular quando o sofrimento entra na sua vida.
Isso acontece, como é sabido, em diversos momentos da vida; verifica-se de
diversas maneiras e assume dimensões diferentes; mas, de uma forma ou de outra,
o sofrimento parece ser, e é mesmo, quase inseparável
da existência terrena do homem.
Dado, pois, que o homem no decorrer
da sua vida terrena trilha, de um modo ou de outro, o caminho do sofrimento, a
Igreja deveria, em todos os tempos — e talvez de um modo especial no Ano da
Redenção — encontrar-se com o homem precisamente neste caminho. A Igreja, que
nasce do mistério da Redenção na Cruz de Cristo, tem o dever de procurar o encontro com o homem, de modo
particular no caminho do seu sofrimento. É em tal encontro que o homem « se
torna o caminho da Igreja »; e este é um dos caminhos mais importantes.
4. Daqui tem a sua origem também a
presente reflexão, precisamente neste Ano da Redenção: a reflexão sobre o
sofrimento. O sofrimento humano suscita compaixão,
inspira também respeito e,
a seu modo, intimida. Nele,
efectivamente, está contida a grandeza de um mistério específico. Este respeito
particular por todo e qualquer sofrimento humano deve ficar assente no
princípio de quanto vai ser explanado a seguir, que promana da necessidade mais profunda do coração, bem como de um imperativo da fé. Estes dois motivos
parecem aproximar-se particularmente um do outro e unir-se entre si, quanto ao
tema do sofrimento: a necessidade do coração impõe-nos vencer a timidez; e o
imperativo da fé — formulado, por exemplo, nas palavras de São Paulo citadas no
início — proporciona o conteúdo, em nome e em virtude da qual nós ousamos tocar
naquilo que parece ser tão intangível em cada um dos homens; efectivamente, o
homem no seu sofrimento permanence um mistério intangível.
II
O MUNDO DO SOFRIMENTO HUMANO
5. Se bem que na sua dimensão
subjectiva, como facto pessoal, encerrado no concreto e irrepetível íntimo do
homem, o sofrimento pareça ser algo quase inefável e não comunicável, talvez
nenhuma outra coisa exija ao mesmo tempo tanto como ele — na sua « realidade objectiva » — ser
tratada, meditada e concebida, dando ao problema uma forma explícita; e daí,
que a seu respeito se levantem questões de fundo e que para estas se procurem
as respostas. Não se trata aqui, como se verá, somente de fazer uma descrição
do sofrimento. Existem outros critérios, que estão para além da esfera da
descrição, dos quais devemos lançar mão quando queremos penetrar no mundo do
sofrimento humano.
A medicina, enquanto
ciência e, conjuntamente, como arte de curar, descobre no vasto terreno dos
sofrimentos do homem o seu sector mais
conhecido; ou seja, aquele que é identificado com maior precisão e,
correlativamente, contrabalançado pelos métodos do « reagir » (isto é, da
terapia). Contudo, isso é apenas um sector. O campo do sofrimento humano é
muito mais vasto, muito mais diversificado e mais pluridimensional. O homem
sofre de diversas maneiras, que nem sempre são consideradas pela medicina, nem
sequer pelos seus ramos mais avançados. O sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a
doença e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na própria
humanidade. É-nos dada uma certa ideia quanto a este problema pela distinção
entre sofrimento físico e sofrimento moral. Esta distinção toma como fundamento
a dupla dimensão do ser humano e indica o elemento corporal e espiritual como o
imediato ou directo sujeito do sofrimento. Ainda que se possam usar, até certo
ponto, como sinónimas as palavras « sofrimento » e « dor », o sofrimento físico dá-se quando, seja de
que modo for, « dói » o corpo; enquanto que o
sofrimento moral é « dor da alma ». Trata-se, de facto, da dor de
tipo espiritual e não apenas da dimensão « psíquica » da dor, que anda sempre
junta tanto com o sofrimento moral, como com o sofrimento físico. A amplidão do
sofrimento moral e a multiplicidade das suas formas não são menores do que as
do sofrimento físico; mas, ao mesmo tempo, o primeiro apresenta-se como algo
mais difícil de identificar e de ser atingido pela terapia.
6. A Sagrada Escritura é um grande livro sobre o sofrimento. Do Antigo
Testamento fazemos menção apenas de alguns exemplos de situações que patenteiam
as marcas do sofrimento; e, em primeiro lugar, do sofrimento moral: o perigo de
morte; (5) a morte dos próprios filhos (6) e especialmente a morte do filho
primogénito e único; (7) e depois também: a falta de descendência; (8) a
saudade da pátria; (9) a perseguição e a hostilidade do meio ambiente;(10) o
escárnio e a zombaria em relação a quem sofre; (11) a solidão e o abandono;
(12) e ainda outros, como: os remorsos de consciência; (l3) a dificuldade em
compreender a razão por que os maus prosperam e os justos sofrem; (l4) a
infidelidade e a ingratidão da parte dos amigos e vizinhos; (15) e, finalmente,
as desventuras da própria nação. (16)
O Antigo Testamento, considerando o
homem como um « conjunto » psicofísico, associa
frequentemente os sofrimentos « morais » à dor de determinadas partes do
organismo: dos ossos," dos rins, (18) do fígado, (19) das vísceras (20) e
do coração. (21) Não se pode negar, efectivamente, que os sofrimentos morais
têm também uma componente « física », ou somática, e que frequentemente se
reflectem no estado geral do organismo.
7. Como se vê pelos exemplos
referidos, na Sagrada Escritura encontramos um vasto elenco de situações dolorosas,
por diversos motivos, para o homem. Este elenco diversificado não esgota,
certamente, tudo aquilo que sobre o tema do sofrimento já disse e
constantemente repete o livro da história do
homem (que é prevalentemente um « livro não escrito »); e menos
ainda o que disse o livro da história da humanidade, lido através da história
de cada homem.
Pode-se dizer que o homem sofre,
quando ele experimenta um mal qualquer. A
relação entre sofrimento e mal, no vocabulário do Antigo Testamento, é posta em
evidência como identidade. Com efeito, este vocabulário não possuía uma palavra
específica para designar o « sofrimento »; por isso, definia como « mal » tudo
aquilo que era sofrimento». (22) Somente a língua grega — e, conjuntamente, o
Novo Testamento (e as versões gregas do Antigo) — se serve do verbo « ~am sou
afectado por..., experimento uma sensação, sofro »; e graças a este termo o
sofrimento já não é directamente identificável com o mal (objectivo), mas
exprime uma situação na qual o homem sente o mal e, sentindo-o, torna-se
sujeito de sofrimento. Este, de facto, possui ao mesmo tempo carácter activo e passivo (de « patior »). Mesmo quando o
homem se provoca por si próprio um sofrimento, quando é autor do mesmo, esse
sofrimento permanece como algo passivo na sua essência metafísica.
Isto, contudo, não quer dizer que o
sofrimento em sentido psicológico não seja assinalado por uma « actividade » específica. Há, de facto, uma
« actividade » múltipla e subjectivamente diferenciada de dor, de tristeza, de
desilusão, de abatimento ou, até, de desespero, conforme a intensidade do
sofrimento, a sua profundidade e, indirectamente, conforme toda a estrutura do
sujeito que sofre e a sua sensibilidade específica. No âmago daquilo que
constitui a forma psicológica do sofrimento encontra-se sempre uma experiência do mal, por motivo do qual o
homem sofre.
Assim, a realidade do sofrimento
levanta uma pergunta quanto à essência do mal: o que é o mal?
Esta pergunta parece inseparável,
num certo sentido, do tema do « sofrimento ». A resposta cristã neste ponto é
diversa daquela que é dada por certas tradições culturais e religiosas, para as
quais a existência é um mal de que é necessário libertar-se. O Cristianismo
proclama que a existência é essencialmente
um bem e o bem daquilo que existe; professa a bondade do Criador e
proclama o bem das criaturas. O homem sofre por causa do mal, que é uma certa
falta, limitação ou distorção do bem. Poder-se-ia dizer que o homem sofre por causa de um bem do qual não participa,
do qual é, num certo sentido, excluído, ou do qual ele próprio se privou. Sofre
em particular quando « deveria » ter participação num determinado bem — segundo
a ordem normal das coisas — e não a tem.
Por conseguinte, no conceito cristão
a realidade do sofrimento explica-se por meio do mal que, de certa maneira,
está sempre em referência a um bem.
8. O sofrimento humano constitui em
si próprio como que um « mundo »
específico, que existe juntamente com o homem, que surge nele e passa, ou então
que as vezes não passa, mas se consolida e aprofunda nele. Este mundo do
sofrimento, abrangendo muitos, numerosíssimos sujeitos, existe por assim dizer na dispersão. Cada um dos
homens, mediante o seu sofrimento pessoal, por um lado constitui só uma pequena
parte desse « mundo »; mas, ao mesmo tempo, esse « mundo » está nele como uma
entidade finita e irrepetível. A par disso existe também a dimensão
inter-humana e social. O mundo do sofrimento possui como que uma sua própria compacidade. Os homens que sofrem
tornam-se semelhantes entre si por efeito da analogia da sua situação, da
provação do destino partilhado, ou da necessidade de compreensão e de cuidados;
mas sobretudo, talvez, por causa do persistente interrogar-se sobre o sentido
do sofrimento. Embora o mundo do sofrimento exista na dispersão, contém em si,
ao mesmo tempo, um singular desafio à
comunhão e à solidariedade. Procuraremos dar ouvidos também a este
apelo na presente reflexão.
Ao pensar no mundo do sofrimento e
no seu significado pessoal e ao mesmo tempo colectivo, não se pode, enfim,
deixar de notar o facto de que este mundo
como que se adensa de modo particular nalguns períodos de tempo e em
certos espaços da existência humana. É o que acontece, por exemplo, nos casos
de calamidades naturais, de epidemias, catástrofes e cataclismos, ou de
diversos flagelos sociais; pense-se, entre outros, no caso de um período de má
colheita e relacionado com isso — ou por diversas outras causas — no flagelo da
fome.
Pensemos, por fim, na guerra.
Refiro-me a ela de modo especial. E falo das últimas duas guerras mundiais;
destas foi a segunda que fez uma ceifa muito maior de vidas e uma acumulação
mais penosa de sofrimentos humanos. E acontece que a segunda metade do nosso
século — como que em proporção com os erros
e transgressões da nossa civilização contemporânea — contém em si
por sua vez uma ameaça tão horrível de guerra nuclear, que não podemos pensar
neste período senão em termos de acumulação
incomparável de sofrimentos, que vão até à possível autodestruição
da humanidade. Deste modo, aquele mundo de sofrimento, que afinal tem o seu
sujeito em cada homem, parece transformar-se na nossa época — talvez mais do
que em qualquer outro momento — num particular « sofrimento do mundo »: de um
mundo que se acha, como nunca, transformado pelo progresso operado pelo homem;
e está ao mesmo tempo, como nunca, em perigo por causa dos erros e culpas do
mesmo homem.
III
EM BUSCA DA RESPOSTA
À PERGUNTA SOBRE O SENTIDO DO SOFRIMENTO
9. No fundo de cada sofrimento
experimentado pelo homem, como também na base de todo o mundo dos sofrimentos,
aparece inevitavelmente a pergunta: porquê?
É uma pergunta acerca da causa, da razão e também acerca da finalidade (para quê?); trata-se sempre, afinal, de
uma pergunta acerca do sentido. Esta não só acompanha o sofrimento humano, mas
parece até determinar o seu conteúdo humano, o que faz com que o sofrimento
seja propriamente sofrimento humano.
A dor, como é óbvio, em especial a
dor física, encontra-se amplamente difundida no mundo dos animais. Mas só o
homem, ao sofrer, sabe que sofre e se pergunta o porquê; e sofre de um modo
humanamente ainda mais profundo se não encontra uma resposta satisfatória.
Trata-se de uma pergunta difícil, como
é também difícil uma outra muito afim, ou seja, a que diz respeito ao mal. Porquê
o mal? Porquê o mal no mundo? Quando fazemos a pergunta desta maneira fazemos
sempre também, ao menos em certa medida, uma pergunta sobre o sofrimento.
Ambas as perguntas são difíceis,
quando o homem as faz ao homem, os homens aos homens, como também quando o
homem as apresenta a Deus. Com
efeito, o homem não põe esta questão ao mundo, ainda que muitas vezes o
sofrimento lhe provenha do mundo; mas põe-na a Deus, como Criador e Senhor do
mundo.
É bem sabido que, quando se
calcorreia o terreno desta pergunta, se chega não só a múltiplas frustrações e
conflitos nas relações do homem com Deus, mas sucede até chegar-se à própria negação de Deus. Se,
efectivamente, a existência do mundo como que abre o olhar da alma à existência
de Deus, à sua sapiência, poder e magnificência, então o mal e o sofrimento
parecem ofuscar esta imagem, às vezes de modo radical; e isto mais ainda
olhando ao quotidiano com a dramaticidade de tantos sofrimentos sem culpa e de
tantas culpas sem pena adequada. Esta circunstância, portanto — mais do que
qualquer outra, talvez — indica quanto é importante a pergunta sobre o sentido do sofrimento e
com que acuidade se devam tratar, quer a mesma pergunta, quer as possíveis
respostas a dar-lhe.
10. O homem pode dirigir tal
pergunta a Deus, com toda a comoção do seu coração e com a mente cheia de
assombro e de inquietude; e Deus espera por essa pergunta e escuta-a, como
vemos na Revelação do Antigo Testamento. A pergunta encontrou a sua expressão
mais viva no Livro de Job.
É conhecida a história deste homem
justo que, sem culpa nenhuma da sua parte, é provado com inúmeros sofrimentos.
Perde os seus bens, os filhos e filhas e, por fim, ele próprio é atingido por
uma doença grave. Nesta situação horrível, apresentam-se em sua casa três
velhos amigos que procuram — cada um com palavras diferentes — convencê-lo de
que, para ter sido atingido por tão variados e tão terríveis sofrimentos, deve ter cometido alguma falta grave. Com
efeito, dizem-lhe eles, o sofrimento atinge o homem sempre como pena por uma
culpa; é mandado por Deus, que é absolutamente justo e age com motivações que
são da ordem da justiça. Dir-se-ia que os velhos amigos de Job querem não só convencê-lo da justeza moral do mal, mas,
de algum modo, procuram defender, aos
seus próprios olhos, o sentido moral do sofrimento. Este, a seu ver, pode ter
sentido somente como pena pelo pecado; e portanto, exclusivamente no plano da
justiça de Deus, que paga o bem com o bem e o mal com o mal.
O ponto de referência, neste caso, é
a doutrina expressa noutros escritos do Antigo Testamento, que nos apresentam o
sofrimento como castigo infligido por Deus pelos pecados dos homens. O Deus da
Revelação é Legislador e Juiz em
plano tão elevado, que nenhuma autoridade temporal o pode alcançar. O Deus da
Revelação, efectivamente, primeiro que tudo é o Criador, do qual provém, juntamente com a existência, o bem
que é essencial à criação. Por conseguinte, a violação consciente e livre deste
bem, por parte do homem, é não só transgressão da lei, mas também ofensa ao
Criador, que é o Primeiro Legislador. Tal transgressão tem carácter de pecado
no sentido próprio, isto é, no sentido bíblico e teológico desta palavra. Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que
garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi
estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue
também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na
Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: «
Vós, Senhor, sois justo em tudo o que fizestes; todas as vossas obras são
verdadeiras, rectos os vossos caminhos, todos os vossos juízos se baseiam na
verdade, e tomastes decisões conforme a verdade em tudo o que fizestes que nos
sobreviesse e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. Sim, em verdade e
justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados ».
(23)
Na opinião manifestada pelos amigos
de Job exprime-se uma convicção que também se encontra na consciência moral da
humanidade: a ordem moral objectiva exige uma pena para a transgressão, para o
pecado e para o crime. Sob este ponto de vista, o sofrimento aparece como um «
mal justificado ». A convicção daqueles que explicam o sofrimento como castigo
pelo pecado apoia-se na ordem da justiça, e isso corresponde à opinião expressa
por um dos amigos de Job: « Pelo que vi, aqueles que cultivam a iniquidade e os
que semeiam a maldade também as colhem ». (24)
11. Job, no entanto, contesta a
verdade do princípio que identifica o sofrimento com o castigo do pecado; e faz
isso baseando-se na própria situação pessoal. Ele, efectivamente, tem
consciência de não ter merecido semelhante castigo; e, por outro lado, vai
expondo o bem que praticou durante a sua vida. Por fim, o próprio Deus desaprova
os amigos de Job pelas suas acusações e reconhece que Job não é culpado. O seu
sofrimento é o de um inocente: deve ser aceite como um mistério, que o homem
não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência.
O Livro de Job não abala as bases da
ordem moral transcendente, fundada sobre a justiça, como são propostas em toda
a Revelação, na Antiga e na Nova Aliança. Contudo este Livro demonstra ao mesmo
tempo, com toda a firmeza, que os princípios desta ordem não podem ser
aplicados de maneira exclusiva e superficial. Se é verdade que o sofrimento tem
um sentido como castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o
sofrimento seja consequencia da culpa e tenha carácter de castigo. A
figura do justo Job é disso prova convincente no Antigo Testamento. A
revelação, palavra do próprio Deus, põe o problema do sofrimento do homem
inocente com toda a clareza: o sofrimento sem culpa. Job não foi castigado; não
havia razão para lhe ser infligida uma pena, não obstante ter sido submetido a
uma duríssima prova. Da introdução do Livro deduz-se que Deus condescendeu com
esta provação, em seguida à provocação de Satanás. Este, de facto, impugnou
diante do Senhor a justiça de Job: « Acaso teme Job a Deus em vão? ...
Abençoastes os seus empreendimentos e os seus rebanhos expandem-se sobre a
terra. Mas estendei a vossa mão e tocai nos seus bens; juro que vos amaldiçoará
na vossa face ». (25) Se o Senhor permite que Job seja provado com sofrimento,
fá-lo para demonstrar a sua justiça. O
sofrimento tem carácter de prova.
O Livro de Job não é a última
palavra da Revelação sobre este tema. É um anúncio, de certo modo, da Paixão de
Cristo. Entretanto, só por si, já é argumento
suficiente para que a resposta à pergunta sobre o sentido do
sofrimento não fique ligada, sem reservas, à ordem moral baseada somente na
justiça. Se tal resposta tem uma fundamental e transcendente razão e validade,
ao mesmo tempo apresenta-se não só insuficiente em casos análogos ao do
sofrimento do justo Job, mas parece, mais ainda, reduzir e empobrecer o conceito de justiça que encontramos na
Revelação.
12. O Livro de Job põe de modo
perspicaz, a pergunta sobre o « porquê » do sofrimento; e mostra também que ele
atinge o inocente, mas ainda não dá a solução ao problema.
No Antigo Testamento notamos uma
orientação que tende a superar o conceito segundo o qual o sofrimento teria
sentido unicamente como castigo pelo pecado, ao mesmo tempo que se acentua o
valor educativo da pena-sofrimento. Deste modo, nos sofrimentos infligidos por
Deus ao povo eleito está contido um convite da sua misericórdia, que corrige
para levar à conversão.
« Estes castigos não sucederam para
a nossa ruína, mas são uma lição salutar para o nosso povo ».(26)
Assim é afirmada a dimensão pessoal
da pena. Segundo esta dimensão, a pena tem sentido não só porque serve para
contrabalançar o mesmo mal objectivo da transgressão com outro mal, mas
sobretudo porque oferece a possibilidade de reconstruir o bem no próprio
sujeito que sofre.
Isto é um aspecto importantíssimo do
sofrimento. Está profundamente arraigado em toda a Revelação da Antiga e
sobretudo da Nova Aliança. O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução
do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina neste
chamamento à penitência. A penitência tem como finalidade superar o mal que,
sob diversas formas, se encontra latente no homem, e consolidar o bem, tanto no
mesmo homem, como nas relações com os outros e, sobretudo, com Deus.
13. Mas para se poder perceber a
verdadeira resposta ao « porquê » do sofrimento, devemos voltar a nossa atenção
para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que
existe. O amor é também a fonte mais rica do sentido do sofrimento que, não
obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e
inadequação das nossas explicações. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos
a descobrir o « porquê » do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de
compreender a sublimidade do amor divino.
Para descobrir o sentido profundo do
sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente
ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo,
acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da
justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva
de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à
pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao
homem na Cruz de Jesus Cristo.
IV
JESUS CRISTO:
O SOFRIMENTO VENCIDO PELO AMOR
14. « Deus amou tanto o mundo que
deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas
tenha a vida eterna ». (27) Estas palavras pronunciadas por Cristo no colóquio
com Nicodemos, introduzem-nos no próprio centro da acção salvífica de Deus. Elas exprimem também a própria
essência da soteriologia cristã, quer dizer, da teologia da salvação. E
salvação significa libertação do mal; e por isso mesmo está em relação íntima
com o problema do sofrimento. Segundo as palavras dirigidas a Nicodemos, Deus
dá o seu Filho ao « mundo » para libertar o homem do mal, que traz em si a
definitiva e absoluta perspectiva do sofrimento. Ao mesmo tempo, a palavra « dá » (« deu ») indica que esta
libertação deve ser realizada pelo Filho unigénito, mediante o seu próprio
sofrimento. E nisto se manifesta o amor, o amor infinito, quer do mesmo Filho
unigénito, quer do Pai, o qual « dá » para isso o seu Filho. Tal é o amor para
com o homem, o amor pelo « mundo »: é o amor salvífico.
Encontramo-nos aqui — importa
dar-nos conta disso claramente na nossa reflexão comum sobre este problema —
perante uma dimensão completamente nova do nosso tema. É uma dimensão diversa
daquela que determinava e, em certo sentido, restringia a busca do significado
do sofrimento dentro dos limites da justiça. É a dimensão da Redenção, que no Antigo Testamento as palavras
do justo Job — pelo menos segundo o texto da Vulgata — parecem já prenunciar: «
Sei, de facto, que o meu Redentor vive e que no último dia ... verei o meu Deus
... ».28 Enquanto que até aqui as nossas considerações se concentravam,
primeiro que tudo e, em certo sentido, exclusivamente, no sofrimento sob as
suas múltiplas formas temporais (como era o caso também dos sofrimentos do
justo Job), agora as palavras do colóquio de Jesus com Nicodemos, acima
citadas, referem-se ao sofrimento no seu
sentido fundamental e definitivo. Deus dá o seu Filho unigénito,
para que o homem « não pereça »; e o significado deste « não pereça » é
cuidadosamente determinado pelas palavras que lhe seguem: « mas tenha a vida
eterna ».
O homem « perece », quando perde a «
vida eterna ». O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento
temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida
eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigénito foi dado à
humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do
sofrimento definitivo. Na sua
missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes
transcendentais, a partir das quais se desenvolve na história do homem. Estas
raízes transcendentais do mal estão pegadas ao pecado e à morte: elas estão, de
fácto, na base da perda da vida eterna. A missão do Filho unigénito consiste em
vencer o pecado e a morte. E Ele
vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua
ressurreição.
15. Quando se diz que Cristo com a
sua missão atinge o mal nas próprias raízes, nós pensamos não só no mal e no
sofrimento definitivo, escatológico (para que o homem « não pereça, màs tenha a
vida eterna »), mas também — pelo menos indirectamente — no mal e no sofrimento na sua dimensão temporal e histórica. O mal, de
facto, permanece ligado ao pecado e à morte. E ainda que se deva ter muita
cautela em considerar o sofrimento do homem como consequência de pecados
concretos (como mostra precisamente o exemplo do justo Job), ele não pode
contudo ser separado do pecado das origens, daquilo que em São João é chamado «
o pecado do mundo », (29) nem do pano de
fundo pecaminoso das acções pessoais e dos processos sociais na
história do homem. Se não é permitido aplicar aqui o critério restrito da
dependência directa (como faziam os três amigos de Job), não se pode também,
por outro lado, pôr absolutamente de parte o critério segundo o qual, na base
dos sofrimentos humanos, há uma multíplice implicação com o pecado.
Sucede o mesmo quando se trata da morte. Esta, muitas vezes, até é esperada,
como uma libertação dos sofrimentos desta vida; ao mesmo tempo, não é possível
deixar passar despercebido que ela constitui como que uma síntese definitiva da
obra destrutora do sofrimento, tanto no organismo corporal como na vida
psíquica. Mas a morte comporta, antes de mais, a
desagregação da personalidade total psicofísica do homem. A alma
sobrevive e subsiste separada do corpo, ao passo que o corpo é sujeito a uma
decomposição progressiva, segundo as palavras do Senhor Deus, pronunciadas
depois do pecado cometido pelo homem nos princípios da sua história terrena: «
És pó e em pó te hás-de tornar ».(30) Portanto, mesmo que a morte não seja um
sofrimento no sentido temporal da palavra, mesmo que de certo modo ela se encontre para além de todos os sofrimentos, contudo
o mal que o ser humano nela experimenta tem um carácter definitivo e
totalizante. Com a sua obra salvífica, o Filho unigénito liberta o homem do
pecado e da morte. Antes de mais, cancela da história do homem o domínio do pecado, que se enraizou sob o
influxo do Espírito maligno a partir do pecado original; e dá desde então ao
homem a possibilidade de viver na Graça santificante. Na esteira da vitória
sobre o pecado, tira o domínio também àmorte,
abrindo, com a sua ressurreição, o caminho para a futura
ressurreição dos corpos. Uma e outra são condição essencial da « vida eterna »,
isto é, da felicidade definitiva do homem em união com Deus; isto, para os
salvados, quer dizer que na perspectiva escatológica o sofrimento é totalmente
cancelado.
Como consequência da obra salvífica
de Cristo, o homem passou a ter, durante a sua existência na terra, a esperança da vida e da santidade
eternas. E ainda que a vitória sobre o pecado e sobre a morte, alcançada por
Cristo com a sua Cruz e a sua Ressurreição, não suprima os sofrimentos
temporais da vida humana, nem isente do sofrimento toda a dimensão histórica da
existência humana, ela projecta, no
entanto, sobre essa dimensão e sobre todos os sofrimentos uma luz nova. É a luz do Evangelho, ou
seja, da Boa Nova. No centro desta luz encontra-se a verdade enunciada no
colóquio com Nicodemos: « Com efeito, Deus amou tanto o mundo que deu o seu
Filho unigénito ».(31) Esta verdade opera uma mudança, desde os fundamentos, no
quadro da história do homem e da sua situação terrena. Apesar do pecado que se
enraizou nesta história, como herança original, como « pecado do mundo » e como
suma dos pecados pessoais, Deus Pai amou o Filho unigénito, isto é, ama-o de
modo perdurável; depois, no tempo, precisamente por motivo deste amor que
supera tudo, Ele « dá » este Filho, a fim de que atinja as próprias raízes do
mal humano e assim se aproxime, de maneira salvífica, do inteiro mundo do
sofrimento, no qual o homem é participante.
16. Na sua actividade messiânica no
meio de Israel, Cristo tornou-se incessantemente próximo do mundo do sofrimento humano. « Passou fazendo o
bem »; (32) e adoptava este seu modo de proceder em primeiro lugar para com os
que sofriam e os que esperavam ajuda. Curava os doentes, consolava os aflitos,
dava de comer aos famintos, libertava os homens da surdez, da cegueira, da
lepra, do demónio e de diversas deficiências físicas; por três vezes, restituíu
mesmo a vida aos mortos. Era sensível a toda a espécie de sofrimento humano,
tanto do corpo como da alma. Ao mesmo tempo ensinava; e no centro do seu ensino
propôs as oito bem-aventuranças, que
são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal.
Estes são os « pobres em espírito », « os aflitos », « os que têm fome e sede
de justiça », « os perseguidos por causa da justiça », quando os injuriam, os
perseguem e, mentindo, dizem toda a espécie de mal contra eles por causa de
Cristo... (33) É assim segundo São Mateus; e São Lucas menciona ainda
explicitamente aqueles « que agora têm fome ». (34)
De qualquer modo, Cristo aproximou-se
do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo facto de ter ele próprio assumido
sobre si este sofrimento. Durante
a sua actividade pública, ele experimentou não só o cansaço, a falta de uma
casa, a incompreensão mesmo da parte dos que viviam mais perto dele, mas também
e acima de tudo foi cada vez mais acantoado por um círculo hermético de
hostilidade, ao mesmo tempo que se iam tornando cada dia mais manifestos os
preparativos para o eliminar do mundo dos vivos. E Cristo estava cônscio de
tudo isto e muitas vezes falou aos seus discípulos dos sofrimentos e da morte
que o esperavam: « Eis que subimos a Jerusalém; e o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos príncipes dos
sacerdotes e dos escribas, e eles condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão nas
mãos dos gentios, que o hão-de escarnecer, cuspir sobre ele, flagelar e matar.
Mas três dias depois ressuscitará ». (35) Cristo vai ao encontro da sua paixão
e morte com plena consciência da missão que deve realizar exactamente desse
modo. É por meio deste seu sofrimento que
ele tem de fazer com que « o homem não pereça, mas tenha a vida eterna ». É
precisamente por meio da sua Cruz que ele deve atingir as raízes do mal, que se
embrenham na história do homem e nas almas humanas. É precisamente por meio da
sua Cruz que ele deve realizar a obra da
salvação. Esta obra, no desígnio do Amor eterno, tem um carácter
redentor.
Por isso, Cristo repreende
severamente Pedro quando ele pretende faze-lo abandonar os pensamentos sobre o
sofrimento e a morte na Cruz. (36) E quando, no momento de Ele ser preso no
Getsémani, o mesmo Pedro procura defendê-lo com a espada, Cristo diz-lhe: «
Mete a tua espada na bainha ... Como se
cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é necessário que
assim suceda? ». (37) E diz ainda: « Não hei-de eu beber o cálice que meu Pai me deu? ». (38) Esta
resposta — tal como outras que aparecem em diversos pontos do Evangelho —
mostram quanto Cristo estava profundamente compenetrado do pensamento que já
tinha exprimido no colóquio com Nicodemos: « Com efeito, Deus amou tanto o
mundo que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não
pereça, mas tenha a vida eterna ». (39) Cristo encaminha-se para o próprio
sofrimento, consciente da força salvífica deste; e vai, obediente ao Pai e,
acima de tudo, unido ao Pai naquele mesmo
amor, com o qual Ele amou o mundo e o homem no mundo. E por isso,
São Paulo escreverá, referindo-se a Cristo: « Amou-me e entregou-se a si mesmo
por mim ». (40)
17. As Escrituras tinham que ser
cumpridas. Eram muitos os textos messiânicos do Antigo Testamento que
anunciavam os sofrimentos do futuro Ungido de Deus. De entre todos eles, é
particularmente comovedor aquele que habitualmente se designa como Canto quarto do Servo de Javé, contido no
Livro de Isaías. O profeta, que justamente é chamado «o quinto evangelista »,
dá-nos neste Canto a imagem dos sofrimentos do Servo, com um realismo tão vivo
como se o contemplasse com os próprios olhos: com os olhos do corpo e com os do
espírito. A paixão de Cristo torna-se, à luz dos versículos de Isaías, quase
mais expressiva e comovente do que nas descrições dos próprios evangelistas.
Eis como se nos apresenta o verdadeiro Homem das dores:
« Não tem aparência bela nem
decorosa
para atrair os nossos olhares...
Foi desprezado e evitado pelos
homens,
homem das dores, familiarizado
com o sofrimento;
como pessoa da qual se desvia o
rosto,
desprezível e sem valor para nós.
No entanto, ele tomou sobre si as
nossas enfermidades
carregou-se com as
nossas dores,
e nós o julgávamos açoitado
e homem ferido por Deus e humilhado.
Mas foi transpassado por causa dos
nossos delitos,
e espezinhado por causa das nossas
culpas.
A punição salutar para nós foi-lhe
infligida a ele,
e as suas chagas nos curaram.
Todos nós, como ovelhas, nos desgarrámos,
cada um seguia o seu caminho;
o Senhor fez cair
sobre ele
as culpas de todos
nós ». (41)
O Canto do Servo sofredor contém uma
descrição na qual se podem, de certo modo, identificar os momentos da paixão de
Cristo com vários pormenores dos mesmos: a prisão, a humilhação, as bofetadas,
os escarros, o rebaixamento da própria dignidade do prisioneiro, o juízo
injusto; e, a seguir, a flagelação, a coroação de espinhos e o escárnio, a
caminhada com a cruz, a crucifixão e a agonia.
Mais do que esta descrição da
paixão, impressiona-nos ainda nas palavras do Profeta a profundidade do sacrifício de Cristo. Ele,
embora inocente, carregou-se com os sofrimentos de todos os homens, porque
assumiu sobre si os pecados de todos. « O Senhor fez cair sobre ele as culpas
de todos nós »: todo o pecado do
homem, na sua extensão e profundidade, se torna a verdadeira causa do
sofrimento do Redentor. Se o sofrimento « se pode medir » pelo mal suportado,
então as expressões do Profeta permitem-nos compreender a medida deste mal e deste sofrimento que
Cristo carregou sobre si. Pode-se dizer que se trata de um sofrimento «
substitutivo »; mas ele é, sobretudo, « redentor ». O Homem das dores da citada
profecia é verdadeiramente aquele « cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo
». (42) Com o seu sofrimento, os pecados são cancelados precisamente porque só
ele, como Filho unigénito, podia tomá-los sobre si, assumi-los com aquele amor para com o Pai que supera o
mal de todos os pecados; num certo sentido, ele aniquila este mal, no plano
espiritual das relações entre Deus e a humanidade, e enche o espaço criado com
o bem.
Deparamos aqui com a dualidade de
natureza de um único sujeito pessoal do sofrimento redentor. Aquele que, com a
sua paixão e morte na Cruz, opera a Redenção é o Filho unigénito que Deus nos «
deu ». Ao mesmo tempo, este Filho da mesma
natureza que o Pai sofre como homem. O seu sofrimento tem dimensões
humanas; e tem igualmente — únicas na história da humanidade — uma profundidade
e intensidade que, embora sendo humanas, podem ser também uma profundidade e
intensidade de sofrimento incomparáveis, pelo facto de o Homem que sofre ser o
próprio Filho unigénito em pessoa: « Deus de Deus ». Portanto, somente Ele — o
Filho unigénito — é capaz de abarcar a extensão do mal contida no pecado do
homem: em cada um dos pecados e no pecado « total », segundo as dimensões da
existência histórica da humanidade na terra.
18. Pode-se dizer que as
considerações anteriores nos levam agora directamente ao Getsémani e ao
Gólgota, onde se cumpriu o mesmo Canto do Servo sofredor, contido no Livro de
Isaías. Antes de chegar aí, porém, leiamos os versículos sucessivos do Canto
que constituem uma antecipação profética da paixão do Getsémani e do Gólgota. O
Servo sofredor — e isso é por sua vez algo essencial para uma análise da paixão
de Cristo — toma sobre si aqueles sofrimentos de que se falou, de um modo
totalmente voluntário.
« Era maltratado e ele sofria,
não abria a boca;
era como cordeiro levado ao
matadouro,
como ovelha muda nas mãos do
tosquiador.
E não abriu a boca.
Com tirânica sentença foi suprimido;
e quem se preocupa pela sua sorte,
pelo modo como foi suprimido da
terra dos vivos,
e foi ferido de morte por causa da
iniquidade do [seu povo?
Deram-lhe com os réus sepultura,
e uma tumba entre os malfeitores,
embora não tivesse cometido
injustiça alguma,
nem se tenha achado engano algum na
sua boca ». (43)
Cristo sofre
voluntariamente e sofre inocentemente. Ele acolhe, com o
seu sofrimento, aquela interrogação — feita muitas vezes pelos homens — que foi
expressa, num certo sentido, de uma maneira radical no Livro de Job. Cristo,
porém, não só é portador em si da mesma interrogação (e isso de um modo ainda
mais radical, uma vez que Ele não é somente homem como Job, mas é o Filho unigénito
de Deus), como dá também a resposta mais
completa que é possível a esta interrogação. A resposta emerge,
pode-se dizer, da mesma matéria que constitui a pergunta. Cristo responde a
esta pergunta, sobre o sofrimento, e sobre o sentido do sofrimento, não apenas
com o seu ensino, isto é, com a Boa Nova, mas primeiro que tudo, com o próprio
sofrimento, que está integrado, de um modo orgânico e indissolúvel, com os
ensinamentos da Boa Nova. E esta é, por assim dizer, a última palavra, a
síntese desse ensino: « a palavra
da Cruz », como dirá um dia São Paulo. (44)
Esta « linguagem da Cruz » preenche
a imagem da antiga profecia com uma realidade definitiva. Muitas passagens e
discursos da pregação pública de Cristo atestam como Ele aceita desde o
princípio este sofrimento, que é a vontade do Pai para a salvação do mundo.
Neste ponto a oração no Getsémani reveste-se
de uma importância decisiva. As palavras: « Meu Pai, se é possível passe de mim
este cálice! Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres! » (45) e
as que vêm a seguir: « Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o
beba, faça-se a tua vontade », (46) encerram em si uma eloquência multiforme.
Provam a verdade daquele amor que, com a sua obediência, o Filho unigénito
demonstra para com o Pai. Atestam, ao mesmo tempo, a verdade do seu sofrimento.
As palavras da oração de Cristo no Getsémani provam a verdade do amor mediante a verdade do sofrimento. As
palavras de Cristo confirmam, com toda a simplicidade e cabalmente, esta
verdade humana do sofrimento: o sofrimento consiste em suportar o mal, diante
do qual o homem estremece; e precisamente como disse Cristo no Getsémani,
também o homem diz: « passe de mim ».
As palavras de Cristo confirmam,
ainda, esta única e incomparável profundidade e intensidade do sofrimento, que
somente o Homem que é o Filho unigénito pôde experimentar; elas atestam aquela profundidade e intensidade que as
palavras proféticas acima referidas nos ajudam, à sua maneira, a compreender.
Não, por certo, completamente (para isso seria necessário penetrar o mistério
divino-humano d'Aquele que dele era sujeito); elas ajudam-nos, no entanto, a
compreender pelo menos a diferença (e, ao mesmo tempo, a semelhança) que se
verifica entre todo o possível sofrimento do homem e o do Deus-Homem. O
Getsémani é o lugar onde precisamente este sofrimento, com toda a verdade
expressa pelo Profeta quanto ao mal que ele faz experimentar, se revelou quase definitivamente diante dos olhos da
alma de Cristo.
Depois das palavras do Getsémani,
vêm as palavras pronunciadas no Gólgota, que atestam esta profundidade — única
na história do mundo — do mal do sofrimento que se experimenta. Quando Cristo
diz: « Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes? », as suas palavras não são
apenas expressão daquele abandono que, por diversas vezes, se encontra expresso
no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos; e, em particular, no Salmo 22
(21), do qual provêm as palavras referidas. (47) Pode-se dizer que estas
palavras sobre o abandono nascem no plano da união inseparável do Filho com o
Pai, e nascem porque o Pai « fez cair sobre ele as culpas de todos nós », (48)
na linha daquilo mesmo que mais tarde dirá São Paulo: « A ele, que não
conhecera o pecado, Deus tratou-o, por nós, como pecado ». (49) Juntamente com
este horrível peso, que dá bem a medida de «
todo » o mal que está em voltar as costas a Deus, contido no pecado,
Cristo, mediante a profundidade divina da união filial com o Pai, apercebe-se
bem, de modo humanamente inexprimível, deste
sofrimento que é a separação, a rejeição do Pai, a ruptura com Deus. Mas é exactamente mediante este
sofrimento que ele realiza a Redenção e pode dizer ao expirar: « Tudo está
consumado ». (50)
Pode-se dizer também que se cumpriu
a Escritura, que se realizaram definitivamente as palavras do Canto do Servo
sofredor: « Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento ». (51) O Sofrimento
humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo,
revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor de que
Cristo falava a Nicodemos, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal,
tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo
foi tirado da Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio. A
Cruz de Cristo tornou-se uma fonte da qual brotam rios de água viva. (52) Nela
devemos também repropor-nos a pergunta sobre o sentido do sofrimento, e ler aí
até ao fim a resposta a tal pergunta.
V
PARTICIPANTES NOS SOFRIMENTOS DE CRISTO
19. 0 mesmo Canto do Servo sofredor
no Livro de Isaías conduz-nos, através dos versículos seguintes, exactamente na
direcção dessa pergunta e dessa resposta: « Aprouve ao Senhor que...
oferecendo a sua vida em expiação,
gozasse de uma descendência longeva
e por seu meio tivesse efeito o
intento do Senhor.
Das aflições do seu
coração sairá para ver a luz
e desta visão se há-de saciar.
O Justo, meu servo, justificará a muitos
e tomará sobre si as nossas culpas.
Por isso, dar-lhe-ei-em prémio as multidões
e fará dos poderosos os seus
despojos,
em recompensa de se ter
prodigalizado,
mesmo até à morte,
e se ter deixado contar entre os
malfeitores,
quando, ao invés, ele tomou sobre si
a culpa de muitos
e intercede pelos malfeitores ».
(53)
Pode-se dizer que com a paixão de
Cristo todo o sofrimento humano veio a encontrar-se numa nova situação. Parece
mesmo que Job a tinha pressentido, quando dizia: « Eu sei que o meu Redentor
está vivo... », (54) e que para ela tivesse orientado o seu próprio sofrimento
que, sem a Redenção, não teria podido revelar-lhe a plenitude do seu
significado. Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do
sofrimento, mas também o próprio sofrimento
humano foi redimido. Cristo — sem ter culpa nenhuma própria — tomou
sobre si « todo o mal do pecado ». A experiência deste mal determinou a
proporção incomparável do sofrimento de Cristo, que se tornou o preço da Redenção. É disto que fala o
Canto do Servo sofredor de Isaías. Disto falarão também, a seu tempo, as
testemunhas da Nova Aliança, estabelecida com o Sangue de Cristo. Eis as
palavras do Apóstolo Pedro, na sua primeira Carta: « Vós sabeis que não fostes
resgatados dos vossos costumes fúteis, herdados dos vossos antepassados, a
preço de coisas corruptíveis, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um
cordeiro sem defeito e sem mácula ». (55) E o Apóstolo Paulo, na Carta aos
Gálatas, dirá: « Entregou-se a si mesmo pelos nossos pecados, a fim de nos
subtrair ao mundo maligno em que vivemos »; (56) e na primeira Carta aos
Coríntios: « Fostes comprados por elevado preço. Glorificai, pois, a Deus no
vosso corpo ». (57)
É assim, com estas e com expressões
semelhantes, que as testemunhas da Nova Aliança falam da grandeza da Redenção,
que se realizou mediante o sofrimento de Cristo. O Redentor sofreu em lugar do
homem e em favor do homem.
Todo o homem tem uma sua participação na Redenção. E cada
um dos homens é também chamado a participar
naquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é
chamado a participar naquele sofrimento, por meio do qual foi redimido também
todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por
isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também
participantes do sofrimento redentor de Cristo.
20. Os textos do Novo Testamento
exprimem esta mesma ideia em diversos pontos. Na segunda Carta aos Coríntios, o
Apóstolo escreve: « Em tudo atribulados, mas não oprimidos, perplexos, mas não
desesperados, perseguidos, mas não abandonados, abatidos, mas não perdidos, por
toda a parte levamos sempre no corpo os
sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste
no nosso corpo. De facto, enquanto vivemos, somos continuamente entregues à
morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa
carne mortal ... com a certeza de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus,
nos ressuscitará também a nós com Jesus ». (58)
São Paulo fala dos diversos
sofrimentos e, em particular, daqueles em que os primeiros cristãos se tornavam
participantes « por causa de Jesus ». Estes sofrimentos permitem aos
destinatários desta Carta participar na obra da Redenção, realizada mediante os
sofrimentos e a morte do Redentor. A eloquência
da Cruz e da morte, no entanto, é completada com a eloquência da Ressurreição. O homem
encontra na Ressurreição uma luz completamente nova, que o ajuda a abrir
caminho através das trevas cerradas das humilhações, das dúvidas, do desespero
e da perseguição. Por isso, o Apóstolo escreverá ainda na segunda Carta aos
Coríntios: « Pois, assim como são abundantes
para nós os sofrimentos de Cristo, assim por obra de Cristo é também
superabundante a nossa consolação ». (59) Noutras passagens dirige aos
destinatários dos escritos palavras de encorajamento: « Que o Senhor dirija os
vossos corações para o amor de Deus e a paciência de Cristo ». (60) E na Carta
aos Romanos escreve: « Exorto-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecer os vossos corpos como sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus; é este o culto espiritual que lhe deveis prestar ».
(61)
A própria participação nos
sofrimentos de Cristo, nestas expressões apostólicas, reveste-se de uma dupla
dimensão. Se um homem, se torna participante dos sofrimentos de Cristo, isso
acontece porque Cristo abriu o seu
sofrimento ao homem, porque Ele próprio, no seu sofrimento redentor,
se tornou, num certo sentido, participante de todos os sofrimentos humanos. Ao
descobrir, pela fé, o sofrimento redentor de Cristo, o homem descobre nele, ao
mesmo tempo, os próprios sofrimentos, reencontra-os,
mediante a fé, enriquecidos de um novo conteúdo e com um novo
significado.
Esta descoberta ditou a São Paulo
palavras particularmente vigorosas na Carta aos Gálatas: « Com Cristo estou
cravado na Cruz; e já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. E,
enquanto eu vivo a vida mortal, vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se
entregou a si mesmo por mim ». (62) A fé permite ao autor destas palavras
conhecer aquele amor que levou Cristo à Cruz. E se ele amou assim, sofrendo e
morrendo, então, com este seu sofrimento e morte, ele vive naquele a quem amou assim, vive no
homem: em Paulo. E vivendo nele — à medida que o Apóstolo, consciente disso mediante
a fé, responde com amor ao seu amor — Cristo torna-se também de um modo
particular unido ao homem, a
Paulo, através da Cruz. Esta
união inspirou ao mesmo Apóstolo, ainda na Carta aos Gálatas, estas outras
palavras, não menos fortes: « Quanto a mim, jamais suceda que eu me glorie a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela
qual o mundo está crucificado para mim, como eu para o mundo ». (63)
21. A Cruz de Cristo projecta a luz
salvífica de um modo assim tão penetrante sobre a vida do homem e, em
particular, sobre o seu sofrimento, porque, mediante a fé, chega até ele
juntamente com a Ressurreição: o
mistério da paixão está contido no mistério pascal. As testemunhas da paixão de
Cristo são, ao mesmo tempo, testemunhas da sua Ressurreição. São Paulo escreve:
« Poderei conhecê-lo, a ele e à força da sua Ressurreição, e ser integrado na
participação dos seus sofrimentos, transformado numa imagem da sua morte, com a
esperança de chegar à ressurreição dos mortos ». (64) O Apóstolo experimentou
isto verdadeiramente: em primeiro lugar, « a força da Ressurreição » de Cristo,
no caminho de Damasco; e só depois, nesta luz pascal, chegou àquela «
participação nos seus sofrimentos » de que fala, por exemplo, na Carta aos
Gálatas. A caminhada de São Paulo é claramente pascal: a participação na Cruz de Cristo realiza-se através da experiência do Ressuscitado e,
por isso, graças a uma participação especial na Ressurreição. E por esta razão
que mesmo nas expressões do Apóstolo sobre o tema do sofrimento aparece tão
frequentemente o motivo da glória, à qual a Cruz de Cristo dá início.
As testemunhas da Cruz e da
Ressurreição estavam convencidas de que « através de muitas tribulações é que
temos de entrar no reino de Deus ». (65) E São Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses,
exprime-se deste modo: « Nós mesmos nos ufanamos de vós... pela vossa
constância e pela vossa fidelidade, no meio de todas as vossas aflições e
perseguições que suportais. É isto um indício do justo juizo de Deus, para que
sejais feitos dignos do reino de Deus, pelo
qual, precisamente, sofreis ». (66) Portanto, a participação nos sofrimentos de
Cristo é, ao mesmo tempo, sofrimento pelo reino de Deus. Aos olhos de Deus
justo, frente ao seu juízo, todos os que participam nos sofrimentos de Cristo tornam-se
dignos deste reino. Mediante os seus sofrimentos, eles restituem, em certo
sentido, o preço infinito da paixão e morte de Cristo, que se tornou o preço da
nossa Redenção: por este preço, o reino de Deus foi de novo consolidado na
história do homem, tornando-se a perspectiva definitiva da sua existência
terrena. Cristo introduziu-nos neste reino pelo seu sofrimento. E é também
mediante o sofrimento que amadurecem para
ele os homens envolvidos pelo mistério da Redenção de Cristo.
22. À perspectiva do reino de Deus
está unida também a esperança daquela glória, cujo início se encontra na Cruz
de Cristo. A Ressurreição revelou esta glória — a glória escatológica — que na
Cruz de Cristo era completamente ofuscada pela imensidão do sofrimento. Aqueles
que participam nos sofrimentos de Cristo, estão também chamados, mediante os
seus próprios sofrimentos, para tomar parte na
glória. São Paulo exprime esta ideia em diversas passagens. Aos
Romanos, escreve: « Somos ... co-herdeiros de Cristo, se, porém, sofrermos com
ele, para sermos também glorificados com ele. Tenho como coisa certa,
efectivamente, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção alguma
com a glória que há-de revelar-se em nós ». (67) Na segunda Carta aos Coríntios
lemos: « Realmente, o leve peso da nossa tribulação do momento presente
prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória: não
que nós olhemos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis ». (68) O
Apóstolo Pedro exprimirá esta verdade nas seguintes palavras da sua primeira
Carta: « Alegrai-vos, antes, na medida em que participais nos sofrimentos de
Cristo, para que também vos alegreis e rejubileis na sua gloriosa aparição ».
(69)
O motivo do sofrimento e da glória tem uma característica
profundamente evangélica, que se clarifica mediante a referência à Cruz e à
Ressurreição. A Ressurreição tornou-se, antes de mais nada, a manifestação da
glória, que corresponde à elevação de Cristo por meio da sua Cruz. Com efeito,
se a Cruz representou aos olhos dos homens o despojamento
de Cristo, ela foi, ao mesmo tempo, aos olhos de Deus a sua elevação. Na Cruz, Cristo alcançou e
realizou em toda a plenitude a sua missão: cumprindo a vontade do Pai,
realizou-se ao mesmo tempo a si mesmo. Na fraqueza manifestou o seu poder; e na humilhação, toda a sua grandeza messiânica Não são
porventura uma prova desta grandeza todas as palavras pronunciadas durante a
agonia, no Gólgota, e, de modo especial, as palavras que se referem aos autores
da crucifixão: « Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem »? (70) Estas
palavras impõem-se àqueles que são participantes dos sofrimentos de Cristo, com
a força de um exemplo supremo. O sofrimento constitui também um chamamento a
manifestar a grandeza moral do homem, a sua maturidade
espiritual. Disto deram prova, ao longo das diversas gerações, os
mártires e os confessores de Cristo, fiéis às palavras: « Não temais os que
matam o corpo e que não podem matar a alma ». (71)
A Ressurreição de Cristo revelou « a
glória que está contida no próprio
sofrimento de Cristo, a qual muitas vezes se reflectiu e se reflecte
no sofrimento do homem, como expressão da sua grandeza espiritual. Importa
reconhecer esta glória, não só nos mártires da fé, mas também em muitos outros
homens que, por vezes, mesmo sem a fé em Cristo, sofrem e dão a vida pela
verdade e por uma causa justa. Nos sofrimentos de todos estes é confirmada, de
um modo particular, a grande dignidade do homem.
23. O sofrimento, de facto, é sempre
uma provação — por vezes, uma
provação muito dura — à qual a humanidade é submetida. Impressiona-nos nas
páginas das Cartas de São Paulo, com frequência, aquele paradoxo evangélico da fraqueza e da força, experimentado de
maneira particular pelo Apóstolo, e que experimentam com ele também todos
aqueles que participam nos sofrimentos de Cristo. Na segunda Carta aos
Coríntios, escreve: « De boa vontade me ufanarei de preferência das minhas
fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo ». (72) Na segunda Carta a
Timóteo lemos: « É também por esta causa que eu sofro estes males, mas não me
envergonho: porque sei em quem depositei a minha confiança ». (73) E na Carta
aos Filipenses dirá mesmo expressamente: « Tudo
posso naquele que me dá força ». (74)
Aqueles que participam nos
sofrimentos de Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da Cruz e da
Ressurreição, no qual Cristo, numa primeira fase, desce até às últimas da
debilidade e da impotência humana: efectivamente, morre pregado na Cruz. Mas
dado que nesta fraqueza se
realiza ao mesmo tempo a sua elevação, confirmada
pela força da Ressurreição, isso significa que as fraquezas de todos os
sofrimentos humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus,
manifestada na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à acção das forças salvíficas de Deus, oferecidas
em Cristo à humanidade. Nele, Deus confirmou que quer operar de um modo
especial por meio do sofrimento, que é a fraqueza e o despojamento do homem; e
ainda, que é precisamente nesta fraqueza e neste despojamento que Ele quer
manifestar o seu poder. Compreende-se, deste modo, a recomendação da primeira
Carta de São Pedro: Se alguém « sofre por ser cristão, não se envergonhe, mas
dê glória a Deus por este título ». (75)
Na Carta aos Romanos, o Apóstolo
Paulo pronunciar-se-á ainda mais detidamente sobre este tema do « nascer da
força na fraqueza » e do retemperar-se
espiritual do homem no meio das provações e tribulações, que é
vocação especial daqueles que participam nos sofrimentos de Cristo: «
Gloriamo-nos também nas tribulações, sabendo que da tribulação deriva a
paciência; da paciência a virtude comprovada; e da virtude comprovada a
esperança. A esperança não engana, porque o amor de Deus se encontra largamente
difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado ». (76) No
sofrimento está como que contido um particular apelo
à virtude que o homem por seu turno deve exercitar. É a virtude da
perseverança em suportar tudo aquilo que incomoda e faz doer. Ao proceder
assim, o homem dá livre curso à esperança, que mantém em si a convicção de que
o sofrimento não prevalecerá sobre ele, nem o privará da dignidade própria do
homem, que anda unida à consciência do sentido da vida. E este sentido
manifesta-se simultaneamente com a obra do
amor de Deus, que é o dom supremo do Espírito Santo. A medida que
participa deste amor , o homem sabe orientar-se quando mergulhado no
sofrimento: reencontrando-se, reencontra « a alma » que julgava ter « perdido »
(77) por causa do sofrimento.
24. As experiências do Apóstolo
participante nos sofrimentos de Cristo, no entanto, vão ainda mais longe. Na
Carta aos Colossenses podemos ler as palavras que representam como que a última
etapa do itinerário espiritual em relação ao sofrimento. São Paulo escreve: «
Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo
seu Corpo, que é a Igreja ». (78) E numa outra Carta, o mesmo Apóstolo
interpela os destinatários: « Não sabeis que os vossos corpos são membros de
Cristo? ». (79)
No mistério pascal, Cristo deu
início à união com o homem na comunidade da
Igreja. O mistério da Igreja exprime-se nisto: a partir do acto em
que alguém recebe o Baptismo, que configura a Cristo, e depois mediante o seu
Sacrifício — sacramentalmente mediante a Eucaristia — a Igreja edifica-se
espiritualmente, sem cessar, como Corpo de Cristo. Neste Corpo, Cristo quer
estar unido a todos os homens, e está unido de modo especial àqueles que
sofrem. As palavras da Carta aos Colossenses, acima citadas, atestam o carácter
excepcional desta união. De facto, aquele
que sofre em união com Cristo — assim como o Apóstolo Paulo
suportava as suas « tribulações » em união com Cristo — não só haure de Cristo
aquela força de que em precedência se falou, mas « completa » também com o seu
sofrimento « aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo ». Neste contexto
evangélico, é posta em relevo, de um modo especial, a verdade sobre o carácter criativo do sofrimento. O
sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo
inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo
tempo, porém, Cristo no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido
abriu o próprio sofrimento redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em
que o homem se torna participante nos sofrimentos de Cristo — em qualquer parte
do mundo e em qualquer momento da história — tanto mais ele completa, a seu modo, aquele
sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo.
Quererá isto dizer, porventura, que
a Redenção operada por Cristo não é completa? Não. Isto significa apenas que a
Redenção, operada por virtude do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se
exprime no sofrimento humano.
Nesta dimensão — na dimensão do amor — a Redenção, já realizada totalmente,
realiza-se em certo sentido constantemente. Cristo operou a Redenção completa e
cabalmente; ao mesmo tempo, porém, não a fechou: no sofrimento redentor,
mediante o qual se operou a Redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o
princípio, e continua a abrir-se constantemente, a todo o sofrimento humano.
Sim, é algo que parece fazer parte da própria
essência do sofrimento redentor de Cristo: o facto de ele solicitar
a ser incessantemente completado.
Deste modo, com tal abertura a todos
os sofrimentos humanos, Cristo operou com o seu próprio sofrimento a Redenção
do mundo. Esta Redenção, no entanto, embora tenha sido realizada em toda a sua
plenitude pelo sofrimento de Cristo, à sua maneira vive e desenvolve-se ao
mesmo tempo na história dos homens. Vive e desenvolve-se como o Corpo de
Cristo, que é a Igreja; e nesta dimensão, todo o sofrimento humano, em razão da
sua união com Cristo no amor, completa o sofrimento de Cristo. Completa-o como a Igreja completa a obra redentora de Cristo. O
mistério da Igreja — daquele Corpo que completa também em si o corpo
crucificado e ressuscitado de Cristo — indica, ao mesmo tempo, aquele âmbito no
qual os sofrimentos humanos completam o sofrimento de Cristo. Só à luz disto e
com esta dimensão — da Igreja-Corpo de Cristo que se desenvolve continuamente
no espaço e no tempo — é que se pode pensar e falar « daquilo que falta » aos
sofrimentos de Cristo. O Apóstolo, de resto, sublinha-o claramente quando fala
da necessidade de completar « aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo pelo
seu Corpo, que é a Igreja ».
A Igreja, precisamente,
que sem cessar vai haurir nos infinitos recursos da Redenção, introduzindo esta
na vida da humanidade, é a dimensão
na qual o sofrimento redentor de Cristo pode ser constantemente completado pelo
sofrimento do homem. Nisto é posta também em relevo a natureza divino-humana da
Igreja. O sofrimento parece participar, de certo modo, nas características
desta natureza; e, por isso, reveste-se também de um valor especial aos olhos
da Igreja. É um bem, diante do qual a Igreja se inclina com veneração, com toda
a profundidade da sua fé na Redenção. Inclina-se também diante dele com toda a
profundidade daquela fé com que acolhe em si mesma o inexprimível mistério do
Corpo de Cristo.
VI
O EVANGELHO DO SOFRIMENTO
25. As testemunhas da Cruz e da
Ressurreição de Cristo transmitiram à Igreja e à humanidade um Evangelho
específico do sofrimento. O próprio Redentor escreveu este Evangelho; em
primeiro lugar, com o seu sofrimento assumido por amor, a fim de que o homem «
não pereça, mas tenha a vida eterna ».(80) Este sofrimento, juntamente com a
palavra viva do seu ensino, tornou-se uma fonte abundante para aqueles que participaram
nos sofrimentos de Jesus na primeira geração dos seus discípulos e confessores.
E é consolador — como é também evangélica e historicamente exacto — notar que
ao lado de Cristo, em primeiríssimo lugar e bem em evidência junto dele, se
encontra sempre a sua Mãe santíssima, porque com toda a sua vida ela dá um testemunho exemplar deste
particular Evangelho do sofrimento. Em Maria, os sofrimentos, numerosos e
intensos, sucederam-se com tal conexão e encadeamento, que bem demonstram a sua
fé inabalável; e foram, além disso, uma contribuição para a Redenção de todos.
Na realidade, desde o colóquio misterioso que teve com o anjo, Ela entrevê na
sua missão de mãe a « destinação » de compartilhar, de maneira única e
irrepetível, a mesma missão do seu Filho. E teve bem depressa a confirmação
disso, quer nos acontecimentos que acompanharam o nascimento de Jesus em Belém,
quer no anúncio explícito de velho Simeão, que lhe falou de uma espada bem
afiada que haveria de trespassar-lhe a alma, quer, ainda, na ansiedade e nas
privações da fuga precipitada para o Egito, motivada pela decisão cruel de
Herodes.
E mais ainda: depois das
vicissitudes da vida oculta e pública do seu Filho, por ela certamente
partilhadas com viva sensibilidade, foi no Calvário que o sofrimento de Maria
Santíssima, conjunto ao de Jesus, atingiu um ponto culminante dificilmente
imaginável na sua sublimidade para o entendimento humano; mas, misterioso, por
certo sobrenaturalmente fecundo para os fins da salvação universal. A sua
subida ao Calvário e aquele seu « estar » aos pés da Cruz com o discípulo amado
foram uma participação muito especial na morte redentora do Filho, assim como
as palavras que ela pôde escutar dos lábios de Jesus foram como que a entrega
solene deste Evangelho particular, destinado a ser anunciado a toda a
comunidade dos fiéis.
Testemunha da paixão pela sua presença, nela participante com a sua compaixão, Maria Santíssima ofereceu uma
contribuição singular ao Evangelho do sofrimento, realizando antecipadamente
aquilo que afirmaria São Paulo com as palavras citadas no início desta
reflexão. Sim, Ela tem títulos especialíssimos para poder afirmar que «
completa na sua carne — como igualmente no seu coração — aquilo que falta aos
sofrimentos de Cristo ».
À luz do inacessível exemplo de
Cristo que se reflecte com uma evidência singular na vida da sua Mãe, o
Evangelho do sofrimento, através da experiência e da palavra dos Apóstolos,
torna-se fonte inexaurível para as gerações
sempre novas, que se sucedem na história da Igreja. O Evangelho do
sofrimento significa não apenas a presença do sofrimento no Evangelho, como um
dos temas da Boa Nova, mas também a revelação da força salvífica e do significado salvífico do sofrimento na
missão messiânica de Cristo e, em seguida, na missão e na vocação da Igreja.
Cristo não escondia aos seus ouvintes a necessidade do sofrimento. Pelo contrário, dizia-lhes
muito claramente: « Se alguém quer vir após mim... tome a sua cruz todos os
dias »; (81) e aos seus discípulos punha algumas exigências de ordem moral,
cuja realização só é possível se cada um se « renega a si mesmo ». (82) O
caminho que conduz ao reino dos céus é « estreito e apertado »; e Cristo
contrapõe-no ao caminho « largo e espaçoso » que, porém, « leva à perdição ».
(83) Diversas vezes Cristo disse também que os seus discípulos e confessores haveriam de encontrar muitas perseguições; o
que — como se sabe — aconteceu, não só nos primeiros séculos da vida da Igreja,
nos tempos do império romano, mas não cessou de se verificar também em diversos
outros períodos da história e em diversos lugares da terra, mesmo nos nossos
dias.
Eis aqui algumas frases de Cristo
sobre este tema: « Deitar-vos-ão as mãos e perseguir-vos-ão, entregando-vos às
sinagogas, e metendo-vos nos cárceres, arrastando-vos à presença de reis e de
governadores, por causa do meu nome; isso proporcionar-vos-á ocasião para dardes testemunho de mim. Gravai,
pois, no vosso coração que não deveis preparar a vossa defesa, porque eu vos
darei língua e sabedoria tais a que não poderão contrastar nem contradizer os
vossos adversários. Sereis traídos até pelos vossos pais, pelos irmãos, pelos
parentes e amigos, e causarão a morte a alguns de vós. Sereis odiados por todos
por causa do meu nome; mas nem um
só cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa constância ganhareis as vossas
almas ». (84)
O Evangelho do sofrimento fala em
diversos pontos, primariamente, do sofrimento « por Cristo », « por causa de
Cristo »; e isto é expresso com as próprias palavras de Jesus, ou então com as
palavras dos seus Apóstolos. O Mestre não esconde aos seus discípulos e àqueles
que o seguirão a perspectiva de um tal sofrimento; pelo contrário,
apresenta-lha com toda a franqueza, indicando-lhes ao mesmo tempo as forças
sobrenaturais que os acompanharão no meio das perseguições e tribulações
sofridas « pelo seu nome ». Estas serão, ao mesmo tempo, como que um meio especial de verificar a semelhança
a Cristo e a união com ele. « Se o mundo vos odeia, ficai sabendo que, primeiro
do que a vós, me odiou a mim...; mas porque não sois do mundo — ao contrário,
eu vos separei do meio do mundo — por isso é que o mundo vos odeia... O servo
não é maior que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos hão-de
perseguir a vós... Mas farão tudo isso contra vós por causa do meu nome, porque
não conhecem Aquele que me enviou ». (85)
« Disse-vos isto para que tenhais
paz em mim: no mundo tereis que sofrer. Mas tende confiança! Eu venci o mundo
». (86)
Este primeiro capítulo do Evangelho
do sofrimento, que fala das perseguições, isto é, das tribulações por causa de
Cristo, contém em si um chamamento especial
à coragem e à fortaleza, apoiado pela eloquência da Ressurreição.
Cristo venceu definitivamente o mundo com a sua ressurreição; todavia, porque a
sua ressurreição está ligada à sua paixão e morte, ele venceu este mundo, ao
mesmo tempo, com o seu sofrimento. Sim, o sofrimento foi inserido de um modo
singular naquela vitória sobre o mundo que se manifestou na ressurreição.
Cristo conserva no seu corpo ressuscitado os sinais das feridas causadas pelo
suplício da Cruz: nas suas mãos, nos seus pés e no seu lado. Pela ressurreição,
ele manifesta a força vitoriosa do
sofrimento; e quer incutir a convicção desta força no coração
daqueles que escolheu como seus Apóstolos e daqueles que ele continua a
escolher e a enviar. O Apóstolo Paulo dirá: « Todos aqueles que querem viver
piedosamente em Jesus Cristo serão perseguidos ».(87)
26. Se é verdade que o primeiro
grande capítulo do Evangelho do sofrimento vai sendo escrito ao longo das gerações,
por aqueles que sofrem perseguições por Cristo, também é verdade que a « pari
passu » com ele um outro grande capítulo deste Evangelho do sofrimento se vai
desenrolando ao longo da história. Escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios
sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico. Neles se realiza aquilo que as
primeiras testemunhas da Paixão e da Ressurreição disseram e escreveram acerca
da participação nos sofrimentos de Cristo. Neles se realiza, por conseguinte, o
Evangelho do sofrimento; e, ao mesmo tempo, cada um deles continua, de certo
modo, a escrevê-lo: escreve-o e proclama-o ao mundo, anuncia-o no próprio
ambiente e aos homens seus contemporâneos.
No decorrer dos séculos e das
gerações, tem-se comprovado que no sofrimento
se esconde uma força particular que
aproxima interiormente o homem de
Cristo, uma graça particular. A esta ficaram a dever a sua profunda
conversão muitos Santos como, por exemplo, São Francisco de Assis, Santo Inácio
de Loiola etc. O fruto de semelhante conversão é não apenas o facto de que o
homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no
sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. Encontra como que uma maneira
nova para avaliar toda a sua vida e a
própria vocação. Esta descoberta constitui uma confirmação
particular da grandeza espiritual que no homem supera o corpo de um modo
totalmente incomparável. Quando este corpo está gravemente doente, ou mesmo
completamente inutilizado, e o homem se sente como que incapaz de viver e agir,
é então que se põem mais em evidência a sua maturidade
interior e grandeza espiritual; e estas constituem uma lição
comovedora para as pessoas sãs e normais.
Esta maturidade interior e grandeza
espiritual no sofrimento são fruto, certamente,
de uma particular conversão e
cooperação com a graça do Redentor crucificado. É Ele próprio a agir, no mais
vivo do sofrimento humano, por meio do seu Espírito de Verdade, do Espírito
Consolador. É Ele que transforma, em certo sentido, a própria substância da
vida espiritual, indicando à pessoa que está a sofrer um lugar perto de si. É Ele — como Mestre e Guia interior — que ensina ao irmão e à irmã que sofrem
esta admirável permuta, que se
situa no coração do mistério da Redenção. O sofrimento é, em si mesmo,
experimentar o mal; mas Cristo fez dele a base mais sólida do bem definitivo,
ou seja, do bem da salvação eterna. Com o seu sofrimento na Cruz, Cristo
atingiu as próprias raízes do mal: as raízes do pecado e da morte. Ele venceu o
autor do mal, que é Satanás com a sua permanente rebelião contra o Criador.
Perante o irmão ou a irmã que sofrem, Cristo abre
e descobre gradualmente os
horizontes do reino de Deus: os horizontes de um mundo convertido ao
Criador, de um mundo liberto do pecado, que se vai edificando, alicerçado no
poder salvífico do amor. E, lenta mas eficazmente, Cristo introduz neste mundo,
neste reino do Pai, o homem que sofre, através, em certo sentido, do coração do
seu sofrimento. De facto, o sofrimento não pode ser transformado e mudado por uma graça que aja do exterior, mas
sim por uma graça interior. Cristo,
mediante o seu próprio sofrimento salvífico encontra-se bem dentro de cada
sofrimento humano, e pode assim actuar a partir do interior do mesmo, pelo
poder do seu Espírito de Verdade, do seu Espírito Consolador.
E não é tudo: o divino Redentor quer
penetrar no ânimo de todas a pessoas que sofrem, através do coração da sua Mãe
Santíssima, primícia e vértice de todos os redimidos. Como que a prolongar
aquela maternidade, que por obra do Espírito Santo lhe havia dado a vida,
Cristo ao morrer conferiu à sempre Virgem Maria uma nova maternidade — espiritual e universal — em relação a
todos os homens, a fim de que cada um deles, na peregrinação da fé, à
semelhança e junto com Maria, lhe permanecesse intimamente unido até à Cruz; e
assim, todo o sofrimento, regenerado pela virtude da Cruz, de fraqueza do homem
se tornasse poder de Deus.
Entretanto, este processo interior
não se realiza sempre da mesma maneira. Ele inicia-se e estabiliza-se, não
raro, com dificuldade. O próprio ponto de partida já é diverso, pois é com
disposições diferentes que o homem encara o estado de sofrimento. Pode-se
todavia admitir que as pessoas quase sempre entram no sofrimento com uma queixa
tipicamente humana e com a pergunta sobre o seu « porquê ». Interrogam-se
sobre o sentido do sofrimento e procuram uma resposta à pergunta no seu plano
humano. Por certo, fazem muitas vezes esta pergunta também a Deus, e fazem-na
igualmente a Cristo. Além disso, não podem deixar de se aperceber de que Aquele
a quem fazem a sua pergunta também Ele sofre e quer responder-lhes da Cruz, do
meio do seu próprio sofrimento. Contudo, por vezes é necessário
tempo, muito tempo mesmo, para que esta resposta comece a ser percebida
interiormente. Cristo, de facto, não responde directamente e não responde de
modo abstracto a esta pergunta humana sobre o sentido do sofrimento. O homem
percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando ele próprio
participante dos sofrimentos de Cristo.
A resposta que lhe chega mediante
essa participação, ao longo da caminhada de encontro interior com o Mestre, é,
por sua vez, algo mais do que a simples
resposta abstracta à pergunta sobre o sentido do sofrimento. Tal
resposta é, sobretudo, um apelo. É uma vocação. Cristo não explica
abstractamente as razões do sofrimento; mas, antes de mais nada, diz: «
Segue-me! ». Vem! Participa com o teu sofrimento nesta obra da salvação do
mundo, que se realiza por meio do meu próprio sofrimento! Por meio da minha Cruz.
A medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se
espiritualmente à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido
salvífico do sofrimento. O homem não descobre este sentido ao seu nível humano,
mas ao nível do sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, porém, deste plano em que
Cristo se situa, este sentido salvífico do sofrimento desce ao nível do homem, e torna-se, de
algum modo, a sua resposta pessoal. E é então que o homem encontra no seu
sofrimento a paz interior e mesmo a alegria espiritual.
27. Desta alegria fala o Apóstolo na
Carta aos Colossenses: « Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa
causa... ». (88) Torna-se fonte de alegria o superar
o sentimento da inutilidade do sofrimento, sensação que, por vezes,
está profundamente arreigada no sofrimento humano; e isto, não só desgasta o
homem por dentro, mas parece fazer dele um peso para os outros. O homem
sente-se condenado a receber ajuda e assistência da parte dos outros e, ao
mesmo tempo, considera-se a si mesmo inútil. A descoberta do sentido salvífico
do sofrimento em união com Cristo transforma
esta sensação deprimente. A fé na participação nos sofrimentos de
Cristo traz consigo a certeza interior de que o homem que sofre « completa o
que falta aos sofrimentos do mesmo Cristo », e de que, na dimensão espiritual
da obra da Redenção, serve, como Cristo, para
a salvação dos seus irmãos e irmãs. Portanto, no só é útil aos
outros, mas presta-lhes ainda um serviço insubstituível. No Corpo de Cristo,
que cresce sem cessar a partir da Cruz do Redentor, precisamente o sofrimento,
impregnado do espírito de Cristo, é o
mediador insubstituível e autor dos bens indispensáveis para a
salvação do mundo. Mais do que qualquer outra coisa, o sofrimento é aquilo que
abre caminho à graça que transforma as almas humanas. Mais do que qualquer
outra coisa, é ele que torna presentes na história da humanidade as forças da
Redenção. Naquela luta « cósmica » que se trava entre as forças espirituais do
bem e as do mal, de que fala a Carta aos Efésios, (89) os sofrimentos humanos,
unidos ao sofrimento redentor de Cristo, constituem
um apoio particular às forças do bem, abrindo caminho à vitória
destas forças salvíficas.
E por isso a Igreja vê em todos os
irmãos e irmãs de Cristo que sofrem como que um
sujeito multíplice da sua força sobrenatural. Quantas vezes os
pastores da Igreja recorrem precisamente a eles e procuram concretamente neles
ajuda e apoio! O Evangelho do sofrimento vai sendo escrito, sem cessar, e fala
constantemente com as palavras deste estranho paradoxo: as fontes da força
divina jorram exactamente do seio da fraqueza humana. Aqueles que participam
nos sofrimentos de Cristo conservam nos sofrimentos próprios uma especialíssima
parcela do infinito tesouro da
Redenção do mundo, e podem partilhar este tesouro com os outros. Quanto mais o
homem se vê ameaçado pelo pecado, quanto mais se apresentam pesadas as
estruturas do pecado que comporta o mundo de hoje, maior é a eloquência que o
sofrimento humano encerra em si mesmo e tanto mais a Igreja sente a necessidade
de recorrer ao valor dos sofrimentos humanos para a salvação do mundo.
VII
O BOM SAMARITANO
28. A parábola do Bom Samaritano
pertence também — e de modo orgânico — ao Evangelho do sofrimento. Nesta
parábola Cristo quis dar uma resposta à pergunta « quem é o meu próximo? ».(90)
De facto, dos três que passavam pela estrada de Jerusalém a Jericó, à beira da
qual jazia por terra, meio morto, um homem roubado e ferido pelos ladrões, foi
exactamente o Samaritano quem demonstrou ser
na verdade « próximo » daquele
infeliz: « próximo » significa também aquele que cumpriu o mandamento do amor
ao próximo. Outros dois homens seguiam o mesmo caminho; um era sacerdote e o
outro levita; mas ambos « o viram e passaram adiante ». O Samaritano, ao
contrário, « tendo-o visto, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, pensou-lhe as
feridas », e depois « levou-o para uma estalagem e prestou-lhe assistência ».
(91) E, ao ir-se embora, confiou aos cuidados do hospedeiro o homem que estava
a sofrer, comprometendo-se a pagar-lhe o que fosse preciso.
A parábola do Bom Samaritano
pertence ao Evangelho do sofrimento. Ela indica, de facto, qual deva ser a
relação de cada um de nós para com o próximo que sofre. Não nos é permitido «
passar adiante », com indiferença; mas devemos « parar » junto dele. Bom Samaritano é todo o homem que se detém junto ao
sofrimento de um outro homem, seja qual for o sofrimento. Parar,
neste caso, não significa curiosidade, mas disponibilidade. Esta é como que o
abrir-se de uma disposição interior do coração, que também tem a sua expressão
emotiva. Bom Samaritano é todo o homem
sensível ao sofrimento de outrem, o homem que « se comove » diante
da desgraça do próximo. Se Cristo, conhecedor do intimo do homem, põe em realce
esta comoção, quer dizer que ela é importante para todo o nosso modo de
comportar-nos diante do sofrimento de outrem. É necessário, portanto, cultivar
em si próprio esta sensibilidade do coração, que se demonstra na compaixão por quem sofre. Por vezes esta compaixão acaba por
ser a única ou a principal expressão do nosso amor e da nossa solidariedade com
o homem que sofre.
O Bom Samaritano da parábola de
Cristo não se limita, todavia, à simples comoção e compaixão. Estas
transformam-se para ele num estímulo para as acções que tendem a prestar ajuda
ao homem ferido. Bom Samaritano, portanto, é, afinal, todo aquele que presta ajuda no sofrimento, seja
qual for a sua espécie; uma ajuda, quanto possível, eficaz. Nela põe todo o seu
coração, sem poupar nada, nem sequer os meios materiais. Pode-se dizer mesmo
que se dá a si próprio, o seu próprio « eu », ao outro. Tocamos aqui um dos
pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem « não pode encontrar a sua
própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo ». (92) Bom Samaritano é
o homem capaz, exactamente, de um tal dom de si mesmo.
29. Seguindo a parábola evangélica,
poder-se-ia dizer que o sofrimento, presente no nosso mundo humano sob tantas
formas diversas, também aí está presente para desencadear no homem o amor,
precisamente esse dom desinteressado do próprio « eu » em favor dos outros
homens, dos homens que sofrem. O mundo do sofrimento humano almeja sem cessar,
por assim dizer, outro mundo diverso: o mundo do amor humano; e aquele amor
desinteressado que vem do coração e transparece nas acções da pessoa que sofre;
amor que esta deve, aliás, em certo sentido ao sofrimento. O homem que é o «
próximo » não pode passar com indiferença diante do sofrimento de outrem; e
isso, por motivo da solidariedade humana fundamental e em nome do amor ao
próximo. Deve « parar », « deixar-se comover », como fez o Samaritano da
parábola evangélica. Esta parábola, em si mesma, exprime uma verdade profundamente cristã e, ao
mesmo tempo, muitíssimo humana universalmente. Não é sem motivo que até na
linguagem corrente se designa obra de « bom samaritano » qualquer actividade em
favor dos homens que sofrem ou precisam de ajuda.
Esta actividade adopta, ao longo dos séculos, formas institucionais organizadas e
constitui um campo de trabalho nas respectivas profissões.
Quanto de « bom samaritano » têm as profissões do médico ou a da
enfermeira, ou outras similares! Em virtude do conteúdo « evangélico » que
nelas se encerra, somos inclinados a pensar, nestes casos, mais em vocação do
que em simples profissão. E as instituições que, no decorrer das gerações,
realizaram um serviço de « bom samaritano », desenvolveram-se e
especializaram-se ainda mais nos nossos dias. Isto prova, sem sombra de dúvida,
que o homem de hoje se detém cada vez com maior atenção a perspicácia junto aos
sofrimentos do próximo, tenta compreendê-los e precavê-los, de modo cada vez
mais preciso, e conquista também, cada vez mais, capacidade e especialização
neste sector. Tendo presente tudo isto, podemos dizer que a parábola do
Samaritano do Evangelho se tornou uma das
componentes essenciais da cultura moral e da civilização universalmente humana.
E pensando em todas aquelas pessoas que, com a sua ciência e capacidade,
prestam múltiplos serviços ao próximo que sofre, não podemos deixar de ter para
com elas uma palavra de reconhecimento e de gratidão.
Esta palavra estende-se a todos
aqueles que exercem o próprio serviço para com o próximo que sofre, de maneira
desinteressada, aplicando-se voluntariamente
em dar ajuda de « bom samaritano » e destinando a essa causa todo o
tempo e forças que lhes ficam do trabalho profissional. Tal actividade
espontânea como « bom samaritano », ou caritativa, pode ser chamada actividade
social; e pode também ser definida como apostolado
quando é empreendida por motivos lidimamente evangélicos, sobretudo
quando isso sucede em ligação com a Igreja ou com uma outra Comunidade cristã.
A actividade voluntária de « bom samaritano » realiza-se nas instituições e
meios apropriados, ou então através de organizações
criadas para determinado fim. Estas formas de actuação têm grande
importância, especialmente quando se trata de assumir tarefas de maior vulto,
que exijam cooperação e uso de meios técnicos. Permanece não menos valiosa
também a actividade individual, especialmente a actividade daquelas pessoas que
se sentem mais aptas para cuidarem de certas espécies de sofrimento humano, a
que não se pode dar ajuda senão individual e pessoalmente. Depois há a ajuda familiar, que cornpreende quer os actos de
amor ao próximo feitos em benefício dos membros da própria família, quer a
ajuda recíproca entre as famílias.
É difícil apresentar-um elenco de
todos os géneros e de todas as esferas da actividade de « bom samaritano » que
existem na Igreja e na sociedade. Importa pelo menos reconhecer que são muito
numerosos e, por isso, exprimir alegria; com efeito, graças a eles, os valores morais fundamentais, como o
valor da solidariedade humana, o valor do amor cristão ao próximo, compõem o
quadro da vida social e das relações inter-humanas e aí fazem frente às
diversas formas do ódio, da violência, da crueldade, do desprezo pelo homem, ou
até da simples « insensibilidade », ou seja, da indiferença para com o próximo
e os seus sofrimentos.
Neste ponto é para salientar o grandíssimo significado das atitudes que convém
adoptar na educação. A família, a escola e as outras instituições
educativas — ainda que seja somente por motivos humanitários — devem trabalhar
com perseverança no sentido de despertar e apurar aquela sensibilidade para com
o próximo e o seu sofrimento, de que se tornou símbolo a figura do Samaritano
do Evangelho. A Igreja deve fazer o mesmo, como é óbvio; e, se for possível,
ajudar a aprofundar ainda mais tal sentido, com a perscrutação das motivações
que Cristo apresentou na sua parábola e em todo o Evangelho. A eloquência da
parábola do Bom Samaritano — como de todo o Evangelho, de resto — está
sobretudo nisto: o homem deve sentir-se como que chamado, de maneira muito pessoal, a testemunhar o amor no
sofrimento. As instituições são muito importantes e indispensáveis; no entanto,
nenhuma instituição, só por si, pode substituir o coração humano, a compaixão
humana, o amor humano, a iniciativa humana, quando se trata de ir ao encontro
do sofrimento de outrem. Isto é válido pelo que se refere aos sofrimentos
físicos; mas é mais válido ainda quando se trata dos múltiplos sofrimentos
morais e, sobretudo, quando é a alma que está a sofrer.
30. A parábola do Bom Samaritano
que, como foi dito, pertence sem dúvida ao Evangelho do sofrimento, com ele tem
caminhado ao longo da história da Igreja e do Cristianismo e ao longo da
história do homem e da humanidade. Ela testemunha que a revelação, feita por
Cristo, do sentido salvífico do sofrimento, não
o identifica, de forma alguma, com um comportamento de passividade. Muito
pelo contrário. O Evangelho é a negação da passividade diante do sofrimento. O
próprio Cristo, neste aspecto, é sobretudo activo. E assim, realiza o programa
messiânico da sua missão em conformidade com as palavras do Profeta: « O
Espírito do Senhor está sobre mim; porque me conferiu a unção e me enviou para
anunciar aos pobres a boa nova, para anunciar aos cativos a libertação e aos
cegos o dom da vista; para pôr em liberdade os oprimidos e promulgar um ano de
graça da parte do Senhor ». (93) Cristo realiza de modo superabundante este programa messiânico da sua missão: passa «
fazendo o bem »; (94) e o bem resultante das suas obras assumiu grande realce
sobretudo diante do sofrimento humano. A paráboIa do Bom Samaritano está em profunda
harmonia com o comportamento do próprio Cristo.
Esta parábola, por fim, quanto ao
seu conteúdo, tem cabimento naquelas inquietantes palavras do juízo final, que
São Mateus recolheu no seu Evangelho: « Vinde, benditos de meu Pai, entrai na
posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive
fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e
destes-me hospedagem, andava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me,
estava no cárcere e fostes ver-me ». (95) Aos justos que perguntam quando
fizeram precisamente a ele tudo isso, o Filho do Homem responderá: « Em verdade
vos digo que tudo o que fizestes a um destes
meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes ». (96) Sentença
contrária caberá àqueles que se houverem comportado diversamente: « tudo o que
não fizestes a um destes pequeninos a mim deixastes de o fazer ». (97)
Poder-se-ia certamente ampliar a
lista dos sofrimentos que encontraram eco na sensibilidade humana, na compaixão
e na ajuda, ou que não o encontraram. A primeira e a segunda parte da
declaração de Cristo sobre o juízo final indicam, sem ambiguidade, quanto são
essenciais para todos os homens, na perspectiva da vida eterna, o « parar »,
como fez o Bom Samaritano, junto do sofrimento do seu próximo, o ter «
compaixão » dele, e, por fim, ajudá-lo. No programa messiânico de Cristo, que é
ao mesmo tempo o programa do reino de Deus, o
sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer
obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana na
« civilização do amor ». Com este amor é que o significado salvífico do
sofrimento se realiza totalmente e atinge a sua dimensão definitiva. As
palavras de Cristo sobre a juízo final permitem compreender isto, com toda a
simplicidade e clareza típicas do Evangelho.
Estas palavras sobre o amor, sobre
os actos de caridade relacionados com o sofrimento humano, permitem-nos
descobrir, uma vez mais, por detrás de todos
os sofrimentos humanos, o próprio sofrimento redentor de Cristo. O
mesmo Cristo diz: « A mim o fizestes ». É Ele próprio quem, em cada um,
experimenta o amor; é Ele próprio quem recebe ajuda, quando ela é prestada a
quemquer que sofra, sem excepção. Ele próprio está presente em quem sofre, pois
o seu sofrimento salvífico foi aberto de uma vez para sempre a todo o
sofrimento humano. E todos os que sofrem foram chamados, de uma vez sempre, a
tornarem-se participantes « dos sofrimentos de Cristo ». (98) Assim como todos
foram chamados a « completar » com o próprio sofrimento « o que falta aos
sofrimentos de Cristo ». (99) Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo
tempo, a fazer bem a quem sofre. Sob
este duplo aspecto, revelou cabalmente o sentido do sofrimento.
VIII
CONCLUSÃO
31. Tal é o sentido do sofrimento:
verdadeiramente sobrenatural e, ao mesmo tempo, humano; é sobrenatural, porque se radica no mistério
divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si
mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria
missão.
O sofrimento faz parte, certamente,
do mistério do homem. Talvez não esteja tão envolvido como o mesmo homem por
este mistério, que é particularmente impenetrável. O Concílio Vaticano II
exprimiu esta verdade assim: « na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado
encontra verdadeira luz o mistério do homem. Com efeito..., Cristo, que é o novo Adão, na própria
revelação do mistério do Pai o do Seu amor, também manifesta plenamente o homem ao homem e descobre-lhe a
sublimidade da sua vocação ». (100) Se é verdade que estas palavras dizem
respeito a tudo o que concerne o mistério do homem, então elas referem-se de
modo particularíssimo, certamente, ao
sofrimento humano. Quanto a este ponto, o « revelar o homem ao homem
e descobrir-lhe a sublimidade de sua vocação » é sobremaneira indispensável. Acontece porém — como a
experiência demonstra — isso ser particularmente dramático. Mas quando se realiza totalmente e se transforma
em luz para a vida humana, é também particularmente bem-aventurante. « Por Cristo e em Cristo se esclarece o
enigma da dor e da morte ». (101)
Concluímos as presentes
considerações sobre o sofrimento no ano em que a Igreja está a viver o Jubileu
extraordinário, relacionado com o aniversário da Redenção.
O mistério da Redenção do mundo está
radicado no sofrimento de modo
maravilhoso; e o sofrimento, por sua vez, tem nesse mistério o seu supremo e
mais seguro ponto de referência.
Desejamos viver este ano da Redenção
numa união especial com todos os que sofrem. É necessário pois, que se
congreguem em espírito, junto à Cruz do Calvário, todos aqueles que sofrem e
acreditam em Cristo; e, especialmente, aqueles que sofrem por causa da sua fé
n'Ele, Crucificado e Ressuscitado, a fim de que o oferecimento dos seus
sofrimentos apresse o realizar-se da oração do mesmo Salvador pela unidade de
todos. (102) Que para lá afluam também os homens de boa vontade, porque na Cruz
está o « Redentor do homem », o Homem das dores, que assumiu sobre si os
sofrimentos físicos e morais dos homens de todos os tempos, para que estes
possam encontrar no amor o
sentido salvífico dos próprios sofrimentos e respostas válidas para todas as
suas interrogações.
Com Maria, Mãe de
Cristo, que estava de pé junto à Cruz,
(103) nós detemos-nos junto a todas as cruzes do homem de hoje.
Invocamos todos os Santos, que no decorrer dos séculos
foram de modo especial participantes nos sofrimentos de Cristo. Pedimos a sua
protecção.
E pedimos a todos vós que sofreis, que nos ajudeis. Precisamente
a vós, que sois fracos, pedimos que vos
torneis uma fonte de força para a Igreja e para a humanidade. Na
terrível luta entre as forças do bem e do mal, de que o nosso mundo
contemporâneo nos oferece o espectáculo, que vença o vosso sofrimento em união
com a Cruz de Cristo!
A todos, caríssimos Irmãos e Irmãs,
envio a minha Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto de São Pedro, na memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, a 11 de Fevereiro do ano de 1984, sexto do meu Pontificado.
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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