A sagrada tradição apostólica
da Igreja
Um dos pilares sobre os
quais se assenta a fé da Igreja Católica é a Sagrada Tradição Apostólica. Esta
Tradição, chamada pela Igreja de Sagrada, é tudo aquilo que ela recebeu dos
Apóstolos e que a eles foi confiado diretamente pelo próprio Jesus Cristo. Não
se trata da tradição dos homens, mas somente daquilo que se refere à salvação
das almas, e que nos foi deixado pelo Senhor. Sabemos que o Magistério da
Igreja extrai todo o ensinamento que dá aos fiéis, da Revelação Divina, que se
compõe da Tradição (oral) que veio dos Apóstolos e da Tradição (escrita), a
Bíblia. É sobre essa Tradição (escrita e oral), com igual importância nas duas
formas, que o Magistério assenta seus ensinamentos infalíveis. Portanto, a
Igreja católica não se guia apenas pela Bíblia (a Revelação escrita), mas
também pela Revelação oral que chegou até nós. Sem esta última, nem mesmo a
Bíblia existiria como a temos hoje, já que ela foi ´berçada´ ´ como diz D.
Estevão Bettencourt ´ e redigida pela Igreja. A transmissão do Evangelho, feita
pelos Apóstolos, fez´se de duas maneiras: oralmente e, depois, por escrito,
cerca de 20 anos após a morte de Jesus. No ensino oral os Apóstolos
´transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e
das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo´ (CIC, 76),
nos ensina o Catecismo. Ensina´nos a importantíssima Constituição Dogmática Dei
Verbum, do Concílio Vaticano II, que: ´Para que o Evangelho sempre se
conservasse inalterado e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores
os bispos, a eles transmitindo o seu próprio encargo de Magistério´ (DV, 7).
Vemos que ´os Apóstolos deixaram como seus sucessores os bispos´, para que
estes transmitissem aos seus sucessores o ´depósito da fé´ que eles tinham
recebido de Jesus. Sabemos que São Paulo instituiu muitos bispos; por exemplo,
colocou Timóteo como bispo à frente da importante igreja de Éfeso; enviou Tito
para a ilha de Chipre. É comovente a despedida que Paulo faz aos bispos de
Éfeso, quando em caminho para o cativeiro de Roma: ´Cuidai de vós mesmos e de
todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear
a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois de
minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o
rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que irão proferir doutrinas
perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai!´(At
20,28´31). Vemos nesta passagem a preocupação do Apóstolo, recomendando aos
bispos, ´constituídos pelo Espírito Santo´, que cuidem e vigiem o rebanho de
Deus afim de que os hereges não lhe faça mal. O mesmo tipo de recomendação
Paulo faz a Timóteo e a Tito: ´Torno a lembrar´te a recomendação que te dei,
quando parti para a Macedônia: devias permanecer em Éfeso para impedir que
certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes.´ (1Tm 1,3)
´Recomenda esta doutrina aos irmãos, e serás bom ministro de Jesus Cristo,
alimentado com as palavras da fé e da sã doutrina que até agora seguiste com
exatidão.´ (1Tm 4,6) ´Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste
de mim sobre a fé e amor a Jesus Cristo. Guarda o precioso depósito pela
virtude do Espírito Santo.´ (2Tm 1,13´14). ´Seja (...) firmemente apegado à
doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a sã
doutrina´. Nos ensina a Dei Verbum que: ´Assim a pregação apostólica, expressa de
modo especial nos livros inspirados, devia conservar´se sem interrupção até a
consumação dos tempos. Por isso os Apóstolos, transmitiram aquilo que eles
próprios receberam (cf. I Cor 11,23; 15,3), exortam os fiéis a manter as
tradições que aprenderam seja oralmente, seja por carta (cf. II Tess 2,15) e a
combater pela fé uma vez transmitida aos santos (cf. Jd 3). Quanto à Tradição
recebida dos Apóstolos ela compreende todas aquelas coisas que contribuem para
santamente conduzir a vida e fazer crescer a fé do povo de Deus, e assim a
Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações
tudo o que ela é, tudo o que crê´ (DV,8).
O nosso Catecismo explica
assim:
´Esta transmissão viva,
realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição enquanto distinta da Sagrada
Escritura, embora intimamente ligada a ela. Através da Tradição, ´a Igreja, em
sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que
ela é, tudo o que crê (DV, 8)´. (CIC n.78) ´A Tradição da qual aqui falamos é a
que vem dos Apóstolos e transmite o que estes receberam do ensinamento e dos
exemplo de Jesus e o que receberam através do Espírito Santo.Com efeito, a
primeira geração de cristãos ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito,
e o próprio Novo Testamento atesta o processo da Tradição viva.´ (CIC n.83)
A Dei Verbum, ensina que:
´Os ensinamentos dos
Santos Padres [sec. I a VIII] testemunham a presença vivificante desta Tradição
cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante´
(DV,8). Embora a Igreja tenha ciência de que ´já não há que esperar nenhuma
nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus
Cristo´ (DV,4), no entanto, o Catecismo nos assegura que ´embora a Revelação
esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar
gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos´ (CIC, 66). E isso o
Espírito Santo continua a fazer na Igreja através dos teólogos e do Magistério
oficial. Aos teólogos cabe aprofundar os conhecimentos do ´mistério da fé´,
guiados pelos dogmas já revelados; mas somente ao Magistério cabe definir as
verdades da fé. A Tradição e a Bíblia estão intimamente ligadas. Tanto uma como
a outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, presente na
Igreja até o fim do mundo (cf Mt 28,20). Ensina´nos a Dei Verbum que: ´A
Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão, portanto, estreitamente conexas e
interpenetradas. Ambas promanam da mesma fonte divina, formam de certo modo um só
todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito a Sagrada Escritura é a fala de
Deus, enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição,
por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de
Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que,
sob a luz do Espírito e da verdade, eles por sua pregação fielmente a
conservem, exponham e difundam. Resulta, assim, que não é através da Escritura
apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado.
Por isso, ambas ´ Escritura e Tradição ´ devem ser aceitas e veneradas com
igual sentimento de piedade e reverência´ (DV,9), (CIC, 82). Muitas são as
passagens do Novo Testamento que revelam a importância da Tradição oral. São Paulo
diz a Timóteo: ´O que ouvistes de mim em presença de muitas testemunhas,
confia´o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros´ (2 Tm
2,2). Note bem o ´ouvistes´ de mim. É a transmissão oral do depósito da fé.
Vemos aí a própria Escritura atestando a existência da transmissão oral, de
geração a geração. Este ´depósito´ oral chegou até nós pela palavra oficial da
Igreja, e não pode ser desprezada. Jesus deixou claro a seus discípulos, na
noite da despedida, que Ele não lhes tinha ensinado tudo, mas que o Espírito
Santo o faria ao longo do tempo: ´Muitas coisas tenho a dizer´vos, mas não as
podeis suportar agora. Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade,
ensinar´vos´á toda a verdade...´ (Jo 16,12). Todo esse ensinamento que o
Espírito Santo foi acrescentando à Igreja é o que foi formando a sua Sagrada
Tradição. Era tão marcante a inspiração do Espírito Santo que, por exemplo,
após o Concílio de Jerusalém, os apóstolos escreveram à Igreja de Antioquia:
´Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...´ (At 15,28). Outras
passagens mostram essa intimidade deles com o Espírito Santo. ´Então Pedro,
cheio do Espírito Santo...´ (At 4,8). ´Por que combinastes para por à prova o
Espírito do Senhor ?´ (At 5,9). Diante do Grande Conselho dos Judeus e do Sumo
Sacerdote: ´Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo...´(At
5,32). Podemos, portanto, afirmar, com toda certeza, que tudo o que está na
Bíblia é verdade, mas nem toda a verdade está na Bíblia. Parte da Revelação foi
oral e está na Tradição, que, por isso é Sagrada e indispensável. Na segunda
Carta aos tessalonicenses vemos claramente a Tradição oral: ´Não vos lembrais
de que vos dizia estas coisas, quando estava ainda convosco? ´ (2Tes 2,5).
´Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós
aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa´ (2Tes 2,15). ´O que
ouvistes de mim em presença de muitas testemunhas, confia´o a homens fiéis, que
sejam capazes de ensinar ainda a outros´ (2 Tm 2,2). Essas passagens se referem
a uma transmissão de verdades por meio oral e não escrito. Como, então,
desprezar o seu valor? Nem tudo o que Jesus ensinou e fez, e nem tudo o que os
apóstolos ensinaram, foi escrito. Naquele tempo era difícil escrever. Não havia
papel e caneta fácil como hoje. Usava´se pergaminhos (peles de carneiros),
papiros, etc., penas molhadas na tinta. Escrever era raridade. São João encerra
o seu Evangelho mostrando claramente isto: ´Jesus fez, diante dos seus
discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de
Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome´(Jo 20,30s).
Mais adiante ele repete:
´Há muitas outras coisas
que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não
poderia conter os livros que se escreveriam´(Jo 21,25). Essas passagens deixam
claro que os evangelistas e Apóstolos só escreveram o ´essencial ´ da mensagem
de Cristo, ´ para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que
crendo, tenhais a vida em seu nome´. Vemos assim que a própria Bíblia nos
encaminha para as fontes orais da Palavra de Deus; isto é a Tradição oral que a
berçou. Não podemos jamais nos esquecer de que a Igreja é anterior ao Novo
Testamento e que foi ela que formou o cânon do Antigo Testamento como o temos
hoje. Logo, sem a Igreja a Bíblia se esfacela. O Cristianismo já existia quando
foi escrito o Novo Testamento: ´os fiéis eram assíduos aos ensinamentos (orais)
dos apóstolos´ (At 2,4). Portanto, é a Igreja que credencia a Bíblia. Foi a
Igreja que ´constituiu´ a Bíblia, como a temos, e não o contrário. Todo este
ensinamento é reafirmado pelo último Concílio, quando diz na Dei Verbum: ´Assim
a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados, devia
conservar´se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por isso os
Apóstolos, transmitiram aquilo que eles próprios receberam (cf. I Cor 11,23;
15,3), exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja oralmente,
seja por carta (cf. II Tess 2,15) e a combater pela fé uma vez transmitida aos
santos (cf. Jd 3). Infelizmente os reformadores protestantes (Lutero, Calvino,
Melanchton, etc) tomaram a Bíblia como ´a única fonte de fé´ e, pior ainda,
entendida segundo o ´livre exame´ de cada crente, podendo interpretá´la segundo
o seu parecer, ´guiado pelo Espírito Santo´. Negaram a Tradição oral,
repudiaram o Magistério, abandonaram a Igreja, esquecendo´se que Ela é anterior
à Bíblia (Novo Testamento). Foi uma grande traição a Jesus, à Igreja, e ao
Espírito Santo que, há quinze séculos (1500 anos!) já conduzia a Igreja sem
nunca abandoná´la. Na verdade, a Reforma protestante foi o começo de toda esta
lamentável situação que vivemos hoje, um mundo ateu, materialista, racionalista
e hedonista, ofensivo a Deus e à Igreja, como diz D. Estevão Bettencourt.. A
Reforma protestante, influenciada pelo Renascimento, deu a partida ao
liberalismo e ao relativismo religioso que hoje assola o mundo todo e até a
Igreja. Transcrevo aqui o que disse D. Estevão Bittencourt, OSB, no seu artigo
Origem dos vários grupos cristãos: ´Os reformadores deram início à destruição
do grande patrimônio de fé e cultura dos séculos anteriores, que associavam
entre si Deus, Jesus Cristo e a Igreja. ´ a Reforma no século XVI disse SIM a
Deus e a Cristo e NÃO à Igreja; ´ os iluministas racionalistas do século XVIII
disseram SIM a Deus, NÃO a Cristo e a Igreja; ´ os ateus do século XIX disseram
NÃO também a Deus; ´ finalmente os estruturalistas do século XX disseram NÃO
também ao homem, pois a morte de Deus vem a ser também a morte do homem´.
´Negando a Igreja de Cristo, os reformadores aceitaram a fundação de numerosas
igrejas e igrejinhas de líderes humanos, todas originadas do subjetivismo dos
seus fundadores´ (PR, nº 404, 1996, pp. 14 e 15). Isto jamais foi da vontade do
Senhor. A maneira subjetiva com que lêem a Bíblia, levou o Protestantismo ao
esfacelamento, especialmente da doutrina: uns aceitam o batismo de crianças,
outros não; uns guardam o sábado como o dia santo, outros o domingo; umas
igrejas têm bispos, outras não; umas aceitam o batismo só por imersão na água,
outras aceitam´no apenas por infusão. As denominações mais recentes
(Testemunhas de Jeová, Mormons, Ciência Cristã) já não aceitam Jesus Cristo
como Deus e Homem e nem aceitam a SS. Trindade. Os Mormons por exemplo, chegam
a ter uma ´bíblia´ acima da Bíblia. E a confusão vai longe... Em relação à
Jesus Cristo há divergências profundas entre luteranos e ´reformados´. Para
muitos o dogma da Santíssima Trindade é a base do Cristianismo, para outros é
uma ´pedra de escândalo´ e ´aberração politeista´, embora muitas vezes convivam
juntos achando que essas diferenças são ´insignificantes´. Algumas denominações
levam a sério a questão doutrinária, outras, como a ´Union Church´, admitem
todas as doutrinas. Resumindo podemos dizer que não há um só ponto de acordo,
nem mesmo a respeito da Pessoa do próprio Jesus Cristo, que para uns é
consubstancial ao Pai, mas para outros não. Se neste ponto central do
Cristianismo ´ a Pessoa de Jesus Cristo ´ não há acordo no protestantismo,
imagine no resto... O próprio Lutero, amargurado, foi obrigado a reconhecer em
1525, apenas oito anos após o seu rompimento com a Igreja: ´Há tantas seitas e
crenças quantas cabeças. Um não terá nada a fazer com o Batismo; outro nega o
Sacramento; um terceiro acredita que há outro mundo entre este e o último dia.
Alguns ensinam que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros dizem aquilo. Não
há rústico, por mais rude que seja, que, se sonhar ou fantasiar alguma coisa
não deva ser o sussurro do Espírito Santo, e ele próprio um profeta´ (Martinho
Lutero, John A. O’ Brien, Ed. Vozes, 1959, p.32). Para mostrar o quanto Lutero
foi incoerente na defesa do ´livre exame da Bíblia´, cito o que diz O’ Brien:
´Lutero começou declarando que a Bíblia podia ser interpretada por qualquer um
´até mesmo pela humilde criada do moleiro; antes, até por uma criança de nove
anos´. Mais tarde, no entanto, quando os Anabatistas, Zwinglianos e outros contrariaram
as suas vistas, a Bíblia tornou´se para ele ´um livro de heresias´, muito
obscuro e difícil de entender´ ( idem, p.32). Nos relata O’ Brien que, em
Ingolstadt, em 1577, trinta e um anos após a morte de Lutero (1546), Cristovão
Rasperger citava duzentas interpretações diferentes das quatro palavras da
consagração: ´Isto é o Meu corpo´; interpretações sustentadas pelos seguidores
da Reforma (The Faith of Millions, J. A. O’ Brien, Ind.1938, p.227). Que
confusão! É preciso dizer também que, embora Lutero colocasse a Bíblia como ´a
única fonte da fé´, desprezando a Tradição e o Magistério, no entanto, quando a
sua teoria da ´salvação somente pela fé´, sem necessidade das obras, se chocou
com as palavras da Epístola de S. Tiago (´sem obras a fé é morta´, Tg 2,26),
Lutero a rejeitou de todo e a chamou de ´uma verdadeira epístola de palha´(idem
p.16). Onde estava o seu respeito pela Bíblia?... Como, então, as bíblias
protestantes ainda mantém nela a Epístola de S.Tiago? Jamais as igrejas
evangélicas conseguiriam chegar a um único Símbolo de Fé, um só Credo. A Igreja
católica, por outro lado, porque se manteve fiel a Cristo, apesar dos pecados
dos seus filhos, professa uma só fé, um só batismo, um só Senhor. Como disse D.
Estevão há uma nostalgia de unidade entre os irmãos separados. Mas eles só a
encontrarão ao retornarem ao seio da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica,
fundada por Jesus sobre a Rocha de Pedro. E nós católicos esperamos por essa
hora e rogamos ao Espírito Santo que a apresse, para que haja ´um só rebanho e
um só pastor´ (Jo 10,16). É fácil notar que o esfacelamento do protestantismo,
cada vez maior, tem como causa a negação da Igreja, do Magistério e da Tradição
apostólica, e o princípio estabelecido por Lutero, de que a única fonte de fé é
a Bíblia, interpretada segundo ´livre exame´ de cada um. Dessa ´leitura livre´
da Bíblia, cada qual tira a conclusão que quer, a que lhe seja mais oportuna e
cômoda, até aquela de fundar ´nova igreja´ dirigida pelo seu fundador, contra o
que Jesus determinou. O Catolicismo tem a convicção de que a humanidade de
Jesus é o grande Sacramento que salva a todos os homens, fazendo´se presente no
Corpo de Cristo que é a Igreja e que leva a salvação a cada um através dos sete
sacramentos. Todos os sacramentos, as verdades doutrinárias, as práticas de
piedade, etc., chegaram até nós pela Tradição, oral, não escrita. Lentamente,
sob o impulso do Espírito Santo, a Igreja foi descobrindo os sete sacramentos
até ter uma visão nítida dos mesmos. Ao vencer cada heresia, especialmente nos
grandes Concílios, foi´lhe sendo revelada o verdadeiro ´Símbolo dos Apóstolos´,
o Credo. E assim, muitos outros assuntos, foram sendo, sob a inspiração do
Espírito, conhecidos. Por exemplo, a necessidade e validade do Batismo
ministrado às crianças; a não necessidade de ministrá´lo por imersão, mas
apenas por infusão (derramamento) de água; a salutar veneração das imagens,
ícones, gravuras sagradas; o casamento indissolúvel, o primado do Papa, o cânon
da Bíblia como hoje o temos, diferente da bíblia protestante, o culto e a
veneração dos santos (dulia) e à Nossa Senhora (hiperdulia), a santificação do
domingo, o purgatório, a ordenação sacerdotal apenas de homens, a intercessão
dos santos, a confissão auricular com o sacerdote, a santa missa, a Eucaristia,
o celibato dos padres, os ritos litúrgicos, as grandes devoções populares
(Sagrado Coração de Jesus, Rosário, Via Sacra, procissões, etc.), tudo chegou a
nós através da Sagrada Tradição, confirmada e aprovada pela Igreja. Sem ela não
teríamos toda a riqueza da nossa fé, e estaríamos privados de tantos meios de
salvação. Só na Igreja católica está a plenitude desses meios. Um ponto
relevante a ser observado, mais uma vez, é a composição da Bíblia Católica, com
46 livros no AT (45, se contarmos Jr e Lm juntos) e 27 no NT; ao todo 72 ou 73.
Garante´nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que: ´Foi a Tradição
apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na
lista dos Livros Sagrados´ (DV 8) ( CIC,120). Portanto, sem a Tradição da
Igreja não teríamos a Bíblia. Como então, dispensar a Tradição na sua
interpretação? Como aceitar a existência da fruta e negar a árvore que a gerou?
Sabemos que é o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que na hesitação
dos séculos II a IV a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta
de Alexandria, o que vale até hoje para nós católicos. Neste fato fundamental
para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da
Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio:
´Pela Tradição torna´se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados
e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente
compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes´. (DV,8). Por fim, é preciso
compreender que a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há
um livro da Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido
feito pela Tradição dos apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração
chegou até nós. Se negarmos o valor indispensável da Tradição, negaremos a
autenticidade da própria Bíblia. São Clemente (88´97), Bispo de Roma, quarto
Papa da Igreja, colaborador de São Paulo ( cf. Fil 4,3), na Carta aos
Corintios, para debelar a rebelião dos fiéis contra os pastores, já no século I
expunha as bases da Igreja, mostrando que Jesus Cristo recebeu todo o poder do
Pai e incumbiu os Apóstolos de estabelecerem a Hierarquia. Assim, os Apóstolos
cumpriram a ordem e puseram à frente das Igrejas, bispos, presbíteros e
diáconos como auxiliares, tendo regulamentado a sua sucessão, com normas
claras, para que, com a comunidade, fossem escolhidos sempre os melhores. Essas
´normas´ até hoje norteiam a vida da Igreja, é a expressão da tradição dos
Apóstolos. Um dos grandes Padres da Igreja, do século II, foi Santo Ireneu
(†202); discípulo de São Policarpo (†156), grande bispo e mártir de Esmirna,
que, por sua vez, foi discípulo de São João evangelista. Portanto, S. Ireneu é
herdeiro direto dos Apóstolos, e nos dá muitos testemunhos da importância da
Tradição que recebeu deles. Vamos ver algo do ele escreveu na sua grande obra
´Contra os Hereges´: ´Sendo nossas provas de tal monta, não é preciso ir
procurar alhures a verdade, tão fácil de se haurir na Igreja, pois os
Apóstolos, como num rico celeiro, aí depuseram a verdade em sua plenitude, a
fim de que todo o que desejar possa tirar dela a bebida da vida...´ ´Pois bem,
se ainda que apenas uma questão de detalhe provocasse discussão, não se haveria
de renovar às Igrejas mais antigas, àquelas onde viveram os apóstolos, para se
esclarecer a questão? E se os apóstolos não tivessem deixado quaisquer
Escrituras, não se haveria de seguir a ordem da Tradição que eles legaram aos
mesmos aos quais confiaram as igrejas?´ ´Assim, todos os que desejam a verdade
podem perceber em qualquer igreja a tradição dos Apóstolos manifestada no mundo
inteiro. E nós podemos enumerar os que os apóstolos instituíram como bispos nas
igrejas, bem como suas sucessões até nossos dias´ (III, 3,1). ´A pregação da
Igreja apresenta por todos os lados firme solidez, perseverando idêntica e
beneficiando´se, como pudemos mostrar, com o testemunho dos profetas, apóstolos
e seus discípulos, testemunho este que engloba o começo, o meio e o fim, isto é,
a totalidade da ´economia´ de Deus e de sua operação infalivelmente ordenada à
salvação do homem, fundamento de nossa fé. Eis porque esta fé, que recebemos da
Igreja, guardamos com cuidado, como um depósito de grande valor, encerrado em
vaso excelente e que, sob a ação do Espírito de Deus, se renova e faz renovar o
próprio vaso que a contém. Pois como fora entregue o divino sopro ao barro
modelado, foi confiado à Igreja o ´Dom de Deus´(Jo 4,10), afim de que todos os
seus membros pudessem dele participar e ser por ele vivificados. À Igreja foi
entregue a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor da
incorruptibilidade, confirmação de nossa fé e escada de nossa ascensão para
Deus: ´na Igreja´, foi dito, ´Deus colocou apóstolos, profetas, doutores´
(1Cor12,1) e tudo o mais que pertence à operação do Espírito. Deste Espírito se
excluem os que, recusando´se a aderir à Igreja, se privam a si mesmos da vida,
por suas falsas doutrinas e depravadas ações. Porque onde está a Igreja está o
Espirito de Deus, e onde está o Espírito de Deus está a Igreja e toda graça.
Ora, o Espírito é Verdade. Assim, os que dele não participam são também os que
não estão sendo nutridos e vivificados pelos peitos da Mãe, os que não têm
parte na fonte límpida que brota do Corpo de Cristo, os que ´escavam cisternas
dessecadas´(Jr2,13), buracos na terra, os que bebem a água poluída do pantanal.
Eles fogem da Igreja para não serem desmascarados e rejeitam o Espírito para
não serem instruídos. Tornando´se estranhos à verdade, é fatal que se
precipitem em todo erro e pelo erro sejam sacudidos; fatal que pensem a cada
momento diversamente sobre as mesmas coisas, nunca tendo doutrina estável,
sendo sofistas de palavras mais que discípulos da verdade. Porque não estão
fundados sobre a única Rocha, mas sobre a areia, a areia dos muitos saibros´
(Contra as Heresias, liv.III,24,1). Neste texto de Santo Ireneu você tem uma
mostra clara do que é a Tradição da Igreja e sua importância. Torne a lê´la
cuidadosamente. Nesta mesma obra Santo Ireneu apresenta a primeira lista dos
doze primeiros Papas da Igreja, até o décimo segundo, até Eleutério, Papa do
seu tempo: ´Ora, dado que seria demasiado longo... enumerar as sucessões de
todas as Igrejas, tomaremos a máxima igreja, muito antiga e conhecida de todos,
fundada e construída em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo;
mostraremos que a tradição que ela tem, dos mesmos, e a fé que anunciou aos
homens, chegaram até nós por sucessões de bispos´... ´Porque, é com esta Igreja
(de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve
necessariamente concordar toda a Igreja... na qual sempre se conservou a
tradição que vem dos Apóstolos´. ´Depois de ter fundado e edificado a Igreja,
os bem´aventurados apóstolos transmitiram a Lino o cargo do episcopado...
Anacleto o sucedeu. Depois, em terceiro lugar a partir dos apóstolos, é a
Clemente que cabe o episcopado. Ele tinha visto os próprios apóstolos, estivera
em relação com eles; sua pregação ressoava´lhe aos ouvidos; sua tradição estava
presente ainda aos seus olhos. Aliás ele não estava só, havia em sua época
muitos homens instruídos pelos apóstolos... A Clemente sucede Evaristo; a
Evaristo, Alexandre; em seguida... Sixto, depois Telésforo, também glorioso por
seu martírio; depois Higino, Pio, Aníceto, Sotero... Eleutério em 12º lugar a
partir dos Apóstolos´. ´É nesta ordem e sucessão que a tradição dada à Igreja
desde os apóstolos, e a pregação da verdade, chegaram até nós. E está aí uma
prova muito completa de que é única e sempre a mesma, a fé vivificadora que, na
Igreja desde os Apóstolos, se conservou até o dia de hoje e foi transmitida na
verdade´ (III, 2,2). O Catecismo da Igreja fala também da importância da
Tradição. Logo no ínicio da sua apresentação, o Papa João Paulo II diz:
´Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor confiou à Sua Igreja e que
ela cumpre em todos os tempos´ (FD, introdução). Com essas palavras o Papa nos
ensina que a missão por excelência da Igreja é ´guardar´ intacta a mensagem que
recebeu de Jesus, e que salva a humanidade. O Catecismo ensina que a Tradição
consiste em tudo aquilo ´que vem dos apóstolos e transmite o que estes
receberam do ensinamento e do exemplo de Jesus e o que receberam através do
Espírito Santo´ (CIC, 83).
A Tradição da Igreja
O Magistério da Igreja
extrai todo o ensinamento que dá aos fiéis, da Revelação Divina, que se compõe
da Tradição (oral) que veio dos Apóstolos e da Tradição (escrita), a Bíblia. É sobre
essa Tradição (escrita e oral), com igual importância nas suas formas, que o
Magistério acenta seus ensinamentos infalíveis. Portanto, a Igreja católica não
se guia apenas pela Bíblia (a Revelação escrita), mas também pela Revelação
oral que chegou até nós. Sem esta última, nem mesmo a Bíblia existiria como a
temos hoje, já que ela foi ´berçada´ ´ como diz D. Estevão Bettencourt ´ e
redigida pela Igreja. A transmissão do Evangelho, feita pelos Apóstolos, fez´se
de duas maneiras: oralmente e, depois, por escrito, cerca de 20 anos após a
morte de Jesus. No ensino oral os Apóstolos ´transmitiram aquelas coisas que ou
receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das
sugestões do Espírito Santo´ (CIC, 76), nos ensina o Catecismo. Ensina´nos a
Constituição Dogmática ´Dei Verbum´, do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação
Divina, que: ´Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na
Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles transmitindo o
seu próprio encargo de Magistério´ (DV, 7). Essa transmissão viva, realizada no
Espírito Santo, é chamada de Tradição apostólica, distinta da Bíblia, mas
ligada a ela intimamente.
A ´Dei Verbum´ ensina que
através da Tradição: ´A Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e
transmite a todas as gerações tudo o que ela é, e tudo o que crê´ ( DV,8).
E diz ainda que: ´Os
ensinamentos dos Santos Padres [sec. I a VIII] testemunham a presença
vivificante desta Tradição cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da
Igreja crente e orante´ (DV,8). Embora a Igreja tenha ciência de que ´já não há
que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de
Nosso Senhor Jesus Cristo´ (DV,4), no entanto, ela sabe que ´embora a Revelação
esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar
gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos´ (CIC, 66). E isso o
Espírito Santo continua a fazer na Igreja através dos teólogos e do Magistério
oficial. Aos teólogos cabe aprofundar os conhecimentos do ´mistério da fé´,
guiados pelos dogmas já revelados; mas somente ao Magistério cabe definir as
verdades da fé. A Tradição e a Bíblia estão intimamente ligadas. Tanto uma como
a outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, presente na
Igreja até o fim do mundo (cf Mt 28,20). Ensina´nos a ´Dei Verbum´ que:
´A Sagrada Tradição e a
Sagrada Escritura estão, portanto, estreitamente conexas e interpenetradas.
Ambas promanam da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem
para o mesmo fim. Com efeito a Sagrada Escritura é a fala de Deus, enquanto é
redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez,
transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada
por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do
Espírito e da verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e
difundam. Resulta, assim, que não é através da Escritura apenas que a Igreja
consegue sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado. Por isso, ambas ´
Escritura e Tradição ´ devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de
piedade e reverência´ (DV,9), (CIC, 82). Já mostramos no capítulo anterior,
através dos escritos de S.Ireneu, a riqueza da Tradição apostólica. É ainda ele
quem a confirma, dizendo: ´Sendo nossas provas de tal monta, não é preciso ir
procurar alhures a verdade, tão fácil de se haurir na Igreja, pois os
apóstolos, como num rico celeiro, aí depuseram a verdade em sua plenitude, a fim
de que todo o que desejar possa tirar dela a bebida da vida...´ ´Pois bem, se
ainda que apenas uma questão de detalhe provocasse discussão, não se haveria de
renovar às Igrejas mais antigas, àquelas onde viveram os apóstolos, para se
esclarecer a questão? E se os apóstolos não tivessem deixado quaisquer
Escrituras, não se haveria de seguir a ordem da Tradição que eles legaram aos
mesmos aos quais confiaram as igrejas?´ Vemos aí todo o valor da Tradição oral
! O Catecismo nos ensina que ela consiste em tudo aquilo ´que vem dos apóstolos
e transmite o que estes receberam do ensinamento e do exemplo de Jesus e o que
receberam através do Espírito Santo. Com efeito a primeira geração de cristãos
ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento
atesta o processo da Tradição viva´ (CIC, 83).
Muitas são as passagens
do Novo Testamento que revelam a importância da Tradição oral. São Paulo diz a
Timóteo: ´O que ouvistes de mim em presença de muitas testemunhas, confia´o a
homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros´ (2 Tm 2,2). Note bem
o ´ouvistes´ de mim. É a transmissão oral do depósito da fé. Vemos aí a própria
Escritura atestando a existência da transmissão oral, de geração a geração.
Este ´depósito´ oral chegou até nós pela palavra oficial da Igreja, e não pode
ser desprezada. Jesus deixou claro a seus discípulos, na noite da despedida,
que Ele não lhes tinha ensinado tudo, mas que o Espírito Santo o faria ao longo
do tempo: ´Muitas coisas tenho a dizer´vos, mas não as podeis suportar agora.
Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade, ensinar´vos´á toda a
verdade...´(Jo 16,12). Todo esse ensinamento que o Espírito Santo foi
acrescentando à Igreja é o que foi formando a sua Sagrada Tradição. Era tão
marcante a inspiração do Espírito Santo que, por exemplo, após o Concílio de
Jerusalém, os apóstolos escreveram à Igreja de Antioquia:
´Com efeito, pareceu bem
ao Espírito Santo e a nós...´ (At 15,28). Outras passagens mostram essa
´intimidade´ deles com o Espírito Santo. ´Então Pedro, cheio do Espírito
Santo...´ (At 4,8). ´Por que combinastes para por à prova o Espírito do Senhor
?´ (At 5,9). Diante do Grande Conselho dos Judeus e do Sumo Sacerdote: ´Deste
fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo...´(At 5,32). Podemos,
portanto, afirmar, com toda certeza, que tudo o que está na Bíblia é verdade,
mas nem toda a verdade está na Bíblia. Parte da Revelação foi oral e está na
Tradição, que, por isso é Sagrada e indispensável. Na segunda Carta aos
tessalonicenses vemos claramente a Tradição oral: ´Não vos lembrais de que vos
dizia estas coisas, quando estava ainda convosco? ´ (2Tes 2,5). ´Assim, pois,
irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja
por palavras, seja por carta nossa´ (2Tes 2,15). Nem tudo o que Jesus ensinou e
fez, e nem tudo o que os apóstolos ensinaram, foi escrito. Naquele tempo era
difícil escrever. Não havia papel e caneta fácil como hoje. Usava´se
pergaminhos, peles de carneiros, papiros, etc., penas molhadas nas tintas.
Escrever era raridade. São João encerra o seu Evangelho mostrando claramente
isto: ´Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que
não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu
nome´(Jo 20,30s). Mais adiante ele repete: ´Há muitas outras coisas que Jesus
fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter
os livros que se escreveriam´(Jo 21,25). Essas passagens deixam claro que os
evangelistas e Apóstolos só escreveram o ´essencial ´ da mensagem de Cristo, ´
para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais
a vida em seu nome´.
Vemos assim que a própria
Bíblia nos encaminha para as fontes orais da Palavra de Deus; isto é a Tradição
oral que a berçou. Não podemos jamais nos esquecer de que a Igreja é anterior
ao Novo Testamento e que foi ela que formou o cânon do Antigo Testamento como o
temos hoje. Logo, sem a Igreja a Bíblia se esfacela. O Cristianismo já existia
quando foi escrito o Novo Testamento: ´os fiéis eram assíduos aos ensinamentos
(orais) dos apóstolos´ (At 2,4). Portanto, é a Igreja que credencia a Bíblia.
Foi a Igreja que ´constituiu´ a Bíblia, como a temos, e não o contrário. Todo
este ensinamento é reafirmado pelo último Concílio, quando diz na ´Dei Verbum´:
´Assim a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados,
devia conservar´se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por isso os
Apóstolos, transmitiram aquilo que eles próprios receberam (cf. I Cor 11,23;
15,3), exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja oralmente,
seja por carta (cf. II Tess 2,15) e a combater pela fé uma vez transmitida aos
santos (cf. Jd 3). Quanto à Tradição recebida dos Apóstolos ela compreende
todas aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer
crescer a fé do povo de Deus, e assim a Igreja, em sua doutrina, vida e culto,
perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê´
(DV,8). Infelizmente os reformadores protestantes (Lutero, Calvino, etc)
tomaram a Bíblia como ´a única fonte de fé´, e, pior ainda, entendida segundo o
´livre exame´ de cada crente, podendo interpretá´la segundo o seu parecer,
´guiado pelo Espírito Santo´. Negaram a Tradição oral, repudiaram o Magistério,
abandonaram a Igreja, esquecendo´se que Ela é anterior à Bíblia (Novo
Testamento). Foi uma grande traição a Jesus, à Igreja, e ao Espírito Santo que,
há quinze séculos (1500 anos!) já conduzia a Igreja sem nunca abandoná´la. Na
verdade, a reforma protestante foi o começo de toda esta lamentável situação
que vivemos hoje, um mundo ateu, materialista, racionalista e hedonista,
ofensivo a Deus e à Igreja. A Reforma protestante, influenciada pelo
Renascimento, deu a partida ao liberalismo e ao relativismo religioso que hoje
assola o mundo todo. Transcrevo aqui o que disse D. Estevão Bittencourt, OSB,
no seu artigo ´Origem dos vários grupos cristãos´: ´Os reformadores deram início
à destruição do grande patrimônio de fé e cultura dos séculos anteriores, que
associavam entre si Deus, Jesus Cristo e a Igreja. ´ a reforma no século XVI
disse SIM a Deus e a Cristo e NÃO à Igreja; ´ os iluministas racionalistas do
século XVIII disseram SIM a Deus, NÃO a Cristo e a Igreja; ´ os ateus do século
XIX disseram NÃO também a Deus; ´ finalmente os estruturalistas do século XX
disseram NÃO também ao homem, pois a morte de Deus vem a ser também a morte do
homem´. ´Negando a Igreja de Cristo, os reformadores aceitaram a fundação de
numerosas igrejas e igrejinhas de líderes humanos, todas originadas do
subjetivismo dos seus fundadores´ (PR, nº 404, 1996, pp 14 e 15). A maneira
subjetiva com que lêem a Bíblia levou o Protestantismo ao esfacelamento,
especialmente da doutrina: uns aceitam o batismo de crianças, outros não; uns
guardam o sábado como o dia santo, outros o domingo; umas igrejas têm bispos,
outras não; umas aceitam o batismo só por imersão na água, outras aceitam´no
apenas por infusão. As denominações mais recentes (Testemunhas de Jeová,
Mormons, Ciência Cristã) já não aceitam Jesus Cristo como Deus e Homem e nem
aceitam a SS. Trindade. Os Mormons por exemplo, chegam a ter uma ´bíblia´ acima
da Bíblia. E a confusão vai longe...
Em relação à Jesus Cristo
há divergências profundas entre luteranos e ´reformados´. Para muitos o dogma
da Santíssima Trindade é a base do Cristianismo, para outros é uma ´pedra de
escândalo´ e ´aberração politeista´, embora muitas vezes convivam juntos
achando que essas diferenças são ´insignificantes´. Algumas denominações levam
a sério a questão doutrinária, outras, como a ´Union Church´, admitem todas as
doutrinas. Resumindo podemos dizer que não há um só ponto de acordo, nem mesmo
a respeito da Pessoa do próprio Jesus Cristo, que para uns é consubstancial ao
Pai, mas para outros não. Se neste ponto central do Cristianismo ´ a Pessoa de
Jesus Cristo ´ não há acordo no protestantismo, imagine no resto... O próprio
Lutero, amargurado, foi obrigado a reconhecer em 1525, apenas oito anos após o
seu rompimento com a Igreja: ´Há tantas seitas e crenças quantas cabeças. Um
não terá nada a fazer com o Batismo; outro nega o Sacramento; um terceiro
acredita que há outro mundo entre este e o último dia. Alguns ensinam que Cristo
não é Deus; uns dizem isto, outros dizem aquilo. Não há rústico, por mais rude
que seja, que, se sonhar ou fantasiar alguma coisa não deva ser o sussurro do
Espírito Santo, e ele próprio um profeta´ ( ´Martinho Lutero´, John A. O´
Brien, Ed. Vozes, 1959, p.32). Lutero chegou ao fim da vida angustiado.
Sentia´se atormentado pelos demônios, sem tréguas: ´não dão descanso sequer um
só dia´. E dizia que de todos os assaltos, ´nenhum foi mais severo ou maior do
que o acerca da minha pregação, acudindo´me à mente este pensamento: ´Toda essa
confusão foi causada por você´ (John A. O´ Brien, idem, p. 28). Vemos aí a voz
de uma consciência pesada falando a Lutero. No seu último sermão em Wittenberg,
diz O´ Brien, ele denuncia a razão como ´o orgulho do diabo´ e como uma
´petulante prostituta´( idem, p.29). Para mostrar o quanto Lutero foi
incoerente na defesa do ´livre exame da Bíblia´, cito o que diz O´ Brien:
´Lutero começou declarando que a Bíblia podia ser interpretada por qualquer um
´até mesmo pela humilde criada do moleiro; antes, até por uma criança de nove
anos´. Mais tarde, no entanto, quando os Anabatistas, Zwinglianos e outros
contrariaram as suas vistas, a Bíblia tornou´se para ele ´um livro de
heresias´, muito obscuro e difícil de entender ( idem, p.32). Nos relata O´
Brien que, em Ingolstadt, em 1577, trinta e um anos após a morte de
Lutero(1546), Cristovão Rasperger citava duzentas interpretações diferentes das
quatro palavras da consagração: ´Isto é o Meu corpo´; interpretações
sustentadas pelos seguidores da Reforma ( The Faith of Millions, J. A. O´
Brien, Ind.1938, p.227). Que confusão! É preciso dizer também que, embora
Lutero colocasse a Bíblia como ´a única fonte da fé´, desprezando a Tradição e
o Magistério, no entanto, quando a sua teoria da ´salvação somente pela fé´,
sem necessidade das obras, se chocou com as palavras da Epístola de S. Tiago
(´sem obras a fé é morta´, Tg 2,26), Lutero a rejeitou de todo e a chamou de
´uma verdadeira epístola de palha´(idem p.16). Onde estava o seu respeito pela
Bíblia?... Jamais as igrejas evangélicas conseguiriam chegar a um único
´Símbolo de Fé´, um só Credo. A Igreja católica, por outro lado, porque se
manteve fiel a Cristo, apesar dos pecados dos seus filhos, professa uma só fé,
um só batismo, um só Senhor. Como disse D. Estevão há uma ´nostalgia de
unidade´ entre os irmãos separados. Mas eles só a encontrarão ao retornarem ao
seio da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, fundada por Jesus sobre a
Rocha de Pedro. E nós católicos esperamos por essa hora e rogamos ao Espírito
Santo que a apresse, para que haja ´um só rebanho e um só pastor´ (Jo 10,16). É
fácil notar que o esfacelamento do protestantismo, cada vez maior, tem como
causa a negação da Igreja, do Magistério e da Tradição apostólica, e o princípio
estabelecido por Lutero, de que a única fonte de fé é a Bíblia, interpretada
segundo ´livre exame´ de cada um. Dessa ´leitura livre´ da Bíblia, cada qual
tira a conclusão que quer, a que lhe seja mais oportuna e cômoda, até aquela de
fundar ´nova igreja´ dirigida pelo seu fundador, contra o que Jesus determinou.
É importante notar que São Pedro, quando falava das Cartas de São Paulo, que já
eram consideradas parte das Escrituras no seu tempo, alerta os cristãos para o
grande perigo de cada um querer interpretar a Bíblia livremente: ´É o que ele
[Paulo] faz em todas as suas cartas... Nelas há algumas passagens difíceis de
entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam,
para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras´ (2Pe
3,16). São Pedro chama a atenção aqui para o perigo de deturpação da mensagem e
para o grave erro de pessoas particulares quererem a seu modo e sem autorização
oficial da Igreja interpretar passagens difíceis. Em toda a Bíblia há passagens
difíceis que, por mandato de Cristo só a Igreja, pelo seu Magistério, pode
interpretar sem erro. Só à Igreja Cristo garantiu a infalibilidade de
interpretar a Bíblia sem erro. É preciso notar que, se São Pedro, que conviveu
com São Paulo, que falava a sua mesma língua e vivia os seus mesmos costumes,
achava nos escritos de Paulo ´algumas passagens difíceis´, imagine´se então
para nós hoje! Não é à toa que a Igreja sempre teve a seu serviço um batalhão
de estudiosos das mais variadas ciências para compreender cada vez melhor tudo
o que está na Bíblia. Quantos e quantos estudam teologia, hermenêutica,
arqueologia, paleontologia, história antiga, lingüística, etc, para que a
Igreja possa melhor interpretar a palavra de Deus. E nada disso contradiz a inspiração
do Espírito Santo garantida à Igreja; pois Ele faz a Sua parte e quer que
façamos a nossa. O mesmo São Pedro lembra aos cristãos do seu tempo: ´Antes de
tudo, sabei que nenhuma profecia foi proferida por efeito de uma vontade
humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falavam da parte de Deus´
(1Pe1,20). Ora, se a Bíblia toda foi inspirada pelo Espírito Santo, como a sua
interpretação pode ser conflitante? O Espírito Santo não se contradiz; logo,
não pode haver interpretações antagônicas para uma mesma passagem bíblica. Só a
Igreja, templo vivo do Espírito Santo, tem a interpretação autêntica. É o que
nos ensina a ´Dei Verbum´ do Vaticano II: ´O ofício de interpretar
autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente
ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus
Cristo´ (DV,10). O Catolicismo tem a convicção de que a humanidade de Jesus é o
grande Sacramento que salva a todos os homens, fazendo´se presente no Corpo de
Cristo que é a Igreja e que leva a salvação a cada um através dos sete
sacramentos. Todos os sacramentos, as verdades doutrinárias, as práticas de
piedade, etc., chegaram até nós pela Tradição. Lentamente, sob o impulso do
Espírito Santo, a Igreja foi descobrindo os sete sacramentos até ter uma visão
nítida dos mesmos. Ao vencer cada heresia, especialmente nos grandes Concílios,
foi´lhe sendo revelada o verdadeiro ´Símbolo dos Apóstolos´, o Credo. E assim,
muitos outros assuntos, que não cabem analisar aqui neste livro, foram sendo,
sob a inspiração do Espírito, conhecidos. Por exemplo, a necessidade e validade
do Batismo ministrado às crianças; a não necessidade de ministrá´lo por
imersão, mas apenas por infusão (derramamento) de água; a salutar veneração das
imagens, ícones, gravuras sagradas; o casamento indissolúvel, o primado do
Papa, o cânon da Bíblia como hoje o temos, diferente da bíblia protestante, o
culto e a veneração dos santos (dulia) e à Nossa Senhora (hiperdulia), a
santificação do domingo, o purgatório, a ordenação sacerdotal apenas de homens,
a intercessão dos santos, a confissão auricular com o sacerdote, a santa missa,
a Eucaristia, o celibato dos padres, os ritos litúrgicos, as grandes devoções
populares (Sagrado Coração de Jesus, Rosário, Via Sacra, procissões, etc.),
tudo chegou a nós através da Sagrada Tradição, confirmada e aprovada pela
Igreja. Sem ela não teríamos toda a riqueza da nossa fé, e estaríamos privados
de tantos meios de salvação. Só na Igreja católica está a plenitude desses
meios. Um ponto relevante a ser observado aqui é a composição da Bíblia
Católica, com 46 livros no AT (45, se contarmos Jr e Lm juntos) e 27 no NT; ao
todo 72 ou 73. Garante´nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que:
´Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser
enumerados na lista dos Livros Sagrados´ (DV 8) ( CIC,120). Portanto, sem a
Tradição da Igreja não teríamos a Bíblia. Como então, dispensar a Tradição na
sua interpretação? Como aceitar a existência da fruta e negar a árvore que a
gerou? Santo Agostinho dizia: ´Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não
me levasse a autoridade da Igreja Católica´(CIC,119). Por que a Bíblia católica
é diferente da protestante? Esta tem apenas 66 livros porque Lutero rejeitou os
livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2
Macabeus, além de Ester 10,4´16; Daniel 3,24´20; 13´14. A razão disso vem de
longe. No ano 100 da era cristã os rabinos judeus se reuniram no ´Sínodo de
Jâmnia´ (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definirem a Bíblia Judaica.
Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e
as cartas dos Apóstolos, que os Judeus não aceitaram. Nesse Sínodo os rabinos
definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o
seguinte: (1) deveria ter sido escrito na Terra Santa; (2) escrito somente em
hebraico, nem aramaico e nem grego; (3) escrito antes de Esdras (455´428 a.C.);
e (4) sem contradição com a Torá ou lei de Moisés. Esses critérios eram nacionalistas,
mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio. Por esses critérios não
foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na
Bíblia protestante, citados antes.
Acontece que em
Alexandria no Egito, antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus,
vivendo em terra estrangeira e falando o grego. Os judeus de Alexandria,
através de 70 sábios judeus, traduziram os livros sagrados hebraicos para o
grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu
assim a versão grega chamada ´Alexandrina´ ou ´dos Setenta´. E essa versão dos
Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios
nacionalistas, rejeitaram. Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias
judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa). Os Apóstolos
e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina),
considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo
Testamento usavam o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de
Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico. O texto grego,
´dos Setenta´ tornou´se comum entre os cristãos; e portanto, o cânon completo,
incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso
dos cristãos. Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são
tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos
apóstolos. Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos
livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom
1,12´32 se refere a Sb 13,1´9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg
1,19 a Ecls 5,11; Mt 11,29s a Ecls 51,23´30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42; Ap
8,2 a Tb 12,15. Nos séculos II a IV houve dúvidas na Igreja sobre os sete
livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Finalmente a Igreja,
ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros.
Vários Concílios
confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397),
Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de
Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha. No
século XVI, Martinho Lutero (1483´1546) para contestar a Igreja, e para
facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado
os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel. Sabemos que é
o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que na hesitação dos séculos II a
IV a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o
que vale até hoje para nós católicos. Lutero, ao traduzir a Bíblia para o
alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de
1534,.e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete
livros nas edições da Bíblia.
Neste fato fundamental
para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da
Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio:
´Pela Tradição torna´se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados
e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente
compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou,
mantém um permanente diálogo com a Esposa de seu dileto Filho, e o Espírito
Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja
no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles copiosamente a
Palavra de Cristo´ (DV,8). Por fim, é preciso compreender que a Bíblia não
define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga
qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido feito pela Tradição dos
apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração chegou até nós.
Se negarmos o valor
indispensável da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia. É
interessante notar que o Papa São Dâmaso (366´384), no século IV, pediu a
S.Jerônimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da
Bíblia, o que gerava certas confusões entre os cristãos. São Jerônimo revisou o
texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento,
dando origem ao texto latino chamado de ´Vulgata´, usado até hoje.
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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