Carta Pastoral sobre
Ao clero e aos fiéis de toda a Igreja Particular de São José dos Campos.
Graça e paz da parte do Senhor Jesus Ressuscitado!
Dom Nelson Westrupp, SCJ
Bispo
diocesano
INTRODUÇÃO
Visto que
muitos de nossos diocesanos e diocesanas insistentemente nos pedem uma palavra
de esclarecimento a respeito de aparições, possíveis revelações particulares e
alocuções interiores, as presentes Orientações Pastorais, assim o esperamos,
deverão servir de base para o posicionamento de nossos queridos diocesanos
sobre esses assuntos.
1.
REVELAÇÃO NATURAL E REVELAÇÃO SOBRENATURAL
"Muitas
vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora,
nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu
herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos" (Hb 1,1-2).
"Deus
é amor" (1 Jo 4,8), e quer livremente partilhar com os homens Sua vida e
felicidade. Por isso, Deus se revela. Revelar quer dizer levantar o véu. Desde
a origem do mundo, Deus se dá a conhecer, por meio das coisas criadas que, em
sua beleza e harmonia, são um testemunho perene da bondade do Criador (cf. Rm
1,19-20). "Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu senso do bem
moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com sua aspiração ao
infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus"
(CIC 33), de modo que em toda parte, mesmo os que nunca tiveram contato com as
Sagradas Escrituras nem ouviram falar de Jesus Cristo, podem conhecer a Deus
como princípio e fim último de todas as coisas à luz da razão natural (Concílio
Vaticano I: DS 3004; DV 6; CIC 36).
Além desta
revelação natural, "Deus, que ‘habita uma luz inacessível’ (1 Tm 6,16),
quer comunicar a sua própria vida divina aos homens" (CIC 52).
"Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e
tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1,19), pelo qual os homens,
por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao
Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2 Pd 1,4)"
(DV 2; CIC 51). Para isso, Deus escolhe Abraão, em quem serão abençoadas todas
as nações da terra (cf. Gn 12,3). "Depois dos patriarcas, Deus formou
Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança
do Sinai e deu-lhe, através de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o
servisse como o único Deus vivo e verdadeiro" (CIC 62). A esse povo,
através dos patriarcas e profetas, Deus se revela de maneira particular, para
que fosse "a raiz sobre a qual serão enxertados os pagãos tornados crentes"
(CIC 60; cf. Rm 11,17-18.24). Esta autocomunicação de Deus na história tem na
Encarnação do Verbo a sua plenitude. "Cristo, o Filho de Deus feito homem,
é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não
haverá outra palavra senão esta" (CIC 65). Por isso, "já não há que
esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação" de
Cristo no final dos tempos (cf. DV 4). Esta revelação especial ou sobrenatural
está consignada nas Sagradas Escrituras, sendo garantida em sua infalibilidade
por uma assistência especialíssima do Espírito Santo, que conferiu aos
Hagiógrafos ou Escritores Sagrados os carismas extraordinários da revelação e
da inspiração. Desta maneira, podemos dizer que a Bíblia, embora escrita por
homens os mais diversos, é de fato Palavra de Deus.
Por outro
lado, "embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por
completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo
dos séculos". É neste sentido que devemos entender o desenvolvimento do
dogma na Igreja: não se trata de novas revelações, mas de um aprofundamento, um
desabrochar de verdades já contidas no depósito da fé.
2.
REVELAÇÕES PARTICULARES
"No
decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas
têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo,
ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação
definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela com mais plenitude em uma
determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos
fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo
autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (CIC 67). É o caso, por
exemplo, das aparições da Mãe de Deus em Fátima ou Lourdes. Note-se que o nome
"revelação privada" não quer significar que tais
"revelações" não sejam conhecidas pelo grande público, ou que digam
respeito apenas aos videntes ou a um círculo limitado de pessoas. Pode se
tratar de um fenômeno de repercussão nacional ou mesmo mundial. No entanto,
tais possíveis "revelações" são ditas, ainda assim,
"privadas" ou "particulares" porque não fazem parte do
depósito da fé católica. Em outras palavras, nenhum católico está obrigado a
aceitá-las, mesmo quando já consagradas pela devoção do grande público, ao
contrário do que acontece com a revelação especial, tal como nos é apresentada
nas Sagradas Escrituras e transmitida pelo magistério da Igreja. Neste caso,
todo católico tem a obrigação de acatar tudo o que a Igreja propõe como verdade
de fé e de moral.
"A fé
cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a
Revelação da qual Cristo é a perfeição. Este é o caso de certas Religiões
não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais
‘revelações’" (CIC 67), como é o caso, por exemplo dos Mórmons ou do
Espiritismo.
3.
PRÁXIS OBSERVADA PELOS BISPOS E PELA SÉ APOSTÓLICA NA AVALIAÇÃO DO FENÔMENO DAS
APARIÇÕES
Ultimamente,
tem-se multiplicado o fenômeno de aparições atribuídas a Nossa Senhora, tanto
no Brasil como no estrangeiro. A respeito de tais fenômenos, existem opiniões
favoráveis e opiniões contrárias. O que a Igreja tem a dizer?
A Igreja é
cautelosa; antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, manda examinar
o caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda boa fé,
podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua
fantasia.
Não existe
legislação canônica sobre a avaliação do fenômeno das aparições e manifestações
miraculosas. O Direito Canônico cala sobre o assunto. O que existe é uma práxis
observada pelos bispos e pela Sé Apostólica. Os critérios básicos são os
seguintes1:
a)
Critérios a respeito dos videntes:
·
Deve ser verificado o estado de saúde física e mental dos videntes por parte de
médicos competentes e psicólogos ou psiquiatras a fim de que não se confunda
alucinação com visão.
·
É importante verificar se há falta de sinceridade e de humildade da parte dos
videntes, se há interesse em tirar proveito próprio ou em se colocar no centro
das atenções.
·
Verificar os contra-testemunhos que os videntes apresentam na vida cotidiana, a
falta de respeito e de obediência aos pastores, a exploração das emoções com
objetivos comerciais, políticos ou outros interesses.
·
O objetivo de qualquer revelação autêntica é a edificação da Igreja. Por isso,
tudo o que a divide, tudo o que leva ao pecado, tudo o que não leva à
evangelização não pode vir de Deus.
"Os
videntes deixam de ter credibilidade a partir do momento em que procuram
sustentar com apoio celestial, portanto, com autoridade pretensamente superior
à da Igreja, uma certa orientação doutrinária, da qual se estivesse convencido;
ou então promover mais facilmente certos aspectos da vida cristã, como os
sacramentos, valendo-se da tendência das massas para o maravilhoso"2.
b)
Critérios a respeito da mensagem transmitida pela aparição
São
basicamente três os critérios a serem indicados aqui:
Ortodoxia:
o conteúdo da mensagem das aparições não pode estar em contradição com a
revelação bíblica, nem com a doutrina da Igreja.
Convergência:
O conteúdo da mensagem deve estar em sintonia com as linhas pastorais da Igreja
e os pastores podem encontrar nessa mensagem matéria para incentivar a vida
pastoral e a conversão e renovação da vida cristã.
Coerência:
Deve haver uma coerência entre o que os videntes vêem, ouvem e dizem. O
conjunto deve formar uma mensagem coerente.
Além disso,
toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do
Evangelho. Assim, as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos
fenômenos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da
Sagrada Escritura. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar
a data de sua vinda e do fim dos tempos (cf. Mc 13,32; At 1,7).
c)
Critérios a respeito das ressonâncias da aparição
Sinais: O
fenômeno pode estar acompanhado de milagres, curas, conversões, fenômenos
cósmicos extraordinários em favor da veracidade da aparição, os quais, porém,
devem ser cuidadosamente examinados pela ciência e pela teologia. E como dizia
o Papa João XXIII, em sua radiomensagem de 18/02/1959, comemorativa do
centenário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fiéis
"não para propor doutrinas novas, mas para guiar nossa conduta"3.
Frutos: Que
Frutos espirituais estão surgindo em decorrência da aparição? Trata-se de
conversões, renovação da vida cristã, devoção mais intensa e mais qualificada a
Nossa Senhora, amor à Igreja, vocações missionárias, sacerdotais e consagradas?
Caso o
resultado dos exames acima sejam positivos, a Igreja não somente permite, mas
favorece o culto ao Senhor ou ao santo(a) que se julga ter aparecido. É o caso
do culto a N. S. de Fátima ou de Lourdes, havendo inclusive a festa respectiva
no calendário da Igreja. Importante: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa
Senhora em tal ou tal lugar, ela não obriga os fiéis a acolher as respectivas
revelações particulares, uma vez que elas não fazem parte do depósito da fé:
fica a critério de cada fiel julgar as razões pró e contra a autenticidade de
cada "aparição" não condenada pela Igreja e daí assumir ou não sua
mensagem para a própria vida.
A respeito
de tais fenômenos extraordinários, o Papa Bento XIV (1740-1758) publicou o
seguinte: "A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as
publicar, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois
estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um
assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo
as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e
piedosamente aceitável"4. Esta posição tornou-se clássica na prática da
Igreja.
Pode acontecer
ainda que a Igreja se abstenha de qualquer pronunciamento a respeito dos
fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos. É o que acontece na
maioria dos casos: não há motivos para condenar os fenômenos relatados; nem a
saúde mental dos (as) videntes dá lugar a suspeitas nem as mensagens
apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé. A Igreja considera
os frutos pastorais que decorrem de tais mensagens: muitos fiéis se beneficiam
peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou
adquirem o hábito da prática sacramental, da oração... Por tudo isso, a Igreja
deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou
moral que exijam algum pronunciamento.
Diante dos
fenômenos de aparições e revelações particulares, a Igreja tem a obrigação de
ser prudente. Ela é responsável pela preservação da doutrina da fé. Por um
lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal
modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito (cf. 1 Ts 5,19s); por outro
lado, o extraordinário não é a via normal pela qual Deus guia seus filhos. A fé
madura não diz Sim a qualquer notícia sobre portentos, prodígios e milagres,
mas pergunta sempre: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me
transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?
Do que foi
dito, segue que:
Aparições e
revelações particulares não devem ser presumidas nem admitidas em primeira
instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados
ou criteriosamente credenciados;
Diante de
um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as
explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas, parapsicológicas);
É preciso
levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, sugestões, alucinações
coletivas, etc. Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um
traço que pode ter importância; em conseqüência, um acontecimento explicável
por vias naturais pode tornar-se, na boca dos narradores, um fenômeno altamente
portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar de que
realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada. Leve-se em
conta especialmente a tendência dos meios de comunicação social a provocar
artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a
verdade.
3.
ORIENTAÇÕES PASTORAIS
A Diocese
de São José dos Campos, na pessoa de seu Bispo Diocesano, apresenta as
seguintes orientações para a prática do povo de Deus:
Não se
faça, em nome de Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, lotações para
afluírem aos locais de supostas aparições.
Não se
divulgue nas Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, folhetos, apostilas,
fitas cassete ou vídeos com mensagens de cunho milenarista, apocalíptico ou
catastrófico.
Seja
mantida a devida prudência com relação aos escritos de pessoas que teriam a
faculdade de locução interior. O devido cuidado deve ser tomado de não
colocá-los em forma de leitura espiritual como substituto ou auxiliar da
Palavra de Deus.
Cada
coordenador tenha como referência, para orientações com relação a esta
temática, além das presentes orientações, os Subsídios Doutrinais 1 da CNBB,
intitulado "Aparições e revelações particulares".
Em última
instância, prevaleça sempre a palavra do Bispo Diocesano.
CONCLUSÃO
Gostaria de
terminar essas orientações pastorais, recordando o que nos ensina o Vaticano II
sobre o culto da Bem-aventurada Virgem, o qual admoesta todos os filhos e
filhas da Igreja "a que generosamente promovam o culto, sobretudo o
litúrgico, para com a Bem-aventurada Virgem, dêem grande valor às práticas e
aos exercícios de piedade recomendados pelo Magistério no curso dos séculos e
observem religiosamente o que em tempos passados foi decretado sobre o culto
das imagens de Cristo, da Bem-aventurada Virgem e dos Santos" (LG 67).
"Ademais,
saibam os fiéis que a verdadeira devoção não consiste num estéril e transitório
afeto, nem numa certa vã credulidade, mas procede da fé verdadeira pela qual
somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, excitados a um amor
filial para com nossa Mãe e à imitação das suas virtudes" (ib.,67);
Enquanto
peregrinamos, Maria será a mãe educadora da fé (cf. LG 63). Ela cuida que o
Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em
nós frutos de santidade (cf. Puebla, 290).
Como pastor
da Diocese de São José dos Campos, envio a todo o Povo de Deus que aqui
peregrina, minha saudação e a bênção em Cristo Ressuscitado.
Decreto:
Que esta Carta Pastoral seja afixada em lugar visível para os fiéis e publicada
no Jornal Expressão.
São
José dos Campos, 25 de março de 1996.
Dom Nelson Westrupp, SCJ
Bispo
diocesano
·
Referências Bibliográficas:
O documento
de referência é uma nota confidencial da Congregação para a Doutrina da Fé, de
25 de fevereiro de 1978. Veja-se também: R. PANNET, Les Apparitions
Aujourd’hui. 1988, p.145-146.
Cf. C. I.
GONZALEZ, Maria, Evangelizada, Evangelizadora. CELAM, Ed. Loyola, 1990,
p.401-402.
Cf.
Pergunte e responderemos, setembro de 1995, p.392-393.
De Servorum
Beatificatione II, c.32,11.
·
Outras fontes de consulta: na elaboração deste documento, foram consultadas,
entre outras, as seguintes fontes:
·
Aparições e Revelações particulares (Subsídios Doutrinais 1, CNBB), Ed.
Paulinas.
·
Compêndio do Vaticano II (DV e LG).
·
Catecismo da Igreja Católica (CIC).
·
JOÃO PAULO II, Redemptoris Mater.
·
CARLOS IGNÁCIO GONZALES, Maria, Evangelizada e Evangelizadora, CELAM, Ed.
Loyola., 1990.
·
ESTÊVÃO BETTENCOURT, OSB , Pergunte e Responderemos, setembro de 1995.
·
STEFANO DE FIORES, Dicionário de Mariologia. Ed. Paulus, 1995.
·
DOCUMENTO DE PUEBLA.
Atualmente uma gigantesca
onda de ´mensagens inspiradas´ tem invadido o mundo católico, como reflexo de
um fenômeno mais amplo: a grande explosão de misticismo que vem substituindo um
já desgastado e rançoso racionalismo. Acrescentem´se aí as angústias de um fim
de milênio ´´ e de uma civilização espiritualmente agonizante ´´ e teremos o
mais propício ambiente para a subcultura do ´aparicionismo´, que infesta hoje
muitos ambientes católicos. As ´aparições´ de Nossa Senhora se multiplicam por
todo o mundo, às centenas, sendo a de Medjugorje, na Croácia, a mais difundida.
Além dessas ´aparições´, não são poucas as pessoas que se dizem divinamente
´inspiradas´, recebendo ´mensagens´ espirituais de Jesus e Maria. Entre essas
poderíamos citar o Pe. Stefano Gobbi ´´ que diz receber locuções interiores de
Nossa Senhora ´´ e a ortodoxa Vassula Ryden, cuja obra em seis volumes
(supostamente escrita sob o ditado de Jesus) tem sido amplamente difundida no
Brasil, mesmo depois de condenada pelo Vaticano. Tais manifestações, por serem
tão abundantes, tendem a provocar no católico uma polarização: ou ceticamente
recusam todos os fenômenos (e pretensos fenômenos) ou os aceitam integralmente,
sem nenhum discernimento. Diante do silêncio da maioria das autoridades
eclesiásticas, que parecem ter abdicado da função de ensinar, é conveniente
recordarmos aqui o perene ensinamento da Igreja em matéria tão delicada, e não
obstante tão importante, cuja omissão tem levado os fiéis a aderir
indiscriminadamente a doutrinas ´inspiradas´ que nada têm de inspiradas nem de
católicas. As revelações são manifestações sobrenaturais de verdades ocultas ou
de fatos incomuns. Para que haja verdadeiramente revelação é necessário que o
seu conhecimento se opere por via sobrenatural. Quanto à destinação, as
revelações podem ser públicas ou privadas. As revelações públicas (ou
universais) estão contidas na Bíblia e no depósito da tradição apostólica,
transmitidas e mantidas pela Igreja. Essas revelações universais terminaram com
a pregação dos apóstolos e são de crença obrigatória para todos os fiéis. As
revelações privadas (ou particulares) são feitas usualmente aos santos, e a
Igreja não obriga acreditá´las, mesmo quando as aprova.
Quando a Igreja aprova
uma revelação privada, essa aprovação é simplesmente uma declaração de que ela
não encontrou nada nessas revelações que fosse contrário à fé e aos bons
costumes, e que os fiéis podem lê´las sem nenhum perigo para as almas. Ouçamos
o que diz o papa Bento XIV: ´O que se deve pensar das revelações privadas
aprovadas pela Santa Sé, as de Santa Hildegarda, Santa Brígida, Santa Catarina
de Sienna? Dissemos que não é nem obrigatório nem possível dar´lhes um
assentimento de fé católica, mas somente de fé humana, conforme as regras da
prudência, que no´las apresenta como prováveis e piedosamente críveis.´ (De
canon.,1 III,c. Liii,n° 15). Repetimos a afirmação básica: não é obrigatório
nem possível dar às revelações privadas um assentimento de fé católica, mesmo
que tais revelações tenham sido aprovadas pela Igreja. É importante que o
leitor tenha isso bem presente, para que não se pense que é pecado colocar´se
contra uma revelação privada. Ouçamos o cardeal Pitra: ´Sabemos que somos
plenamente livres de crer ou não nas revelações privadas, mesmo nas mais dignas
de fé. Mesmo quando a Igreja as aprova, elas são recebidas como prováveis e não
como indubitáveis (...) É totalmente permitido afastar´se dessas revelações,
mesmo aprovadas, quando alguém se apoia sobre razões sólidas, sobretudo quando
a doutrina contrária é estabelecida por documentos inatacáveis e uma
experiência certa.´ (Livro sobre Santa Hildegarda, p. XVI) E não se admire o
leitor de que mesmo em revelações aprovadas de pessoas canonizadas existam
erros dos mais variados tipos. Vale a pena conhecer algumas causas de erros que
podem ocorrer numa revelação verdadeira, ou tida como tal em determinada época.
1) Interpretações
incorretas. Não é incomum que o próprio vidente possa interpretar mal a
revelação que recebe. Isso se deve, em primeiro lugar, à obscuridade da
revelação, sobre a qual o vidente possui uma inteligência apenas parcial. Há
também outras causas, como por exemplo o apego do vidente a certos preconceitos
que interferem na correta compreensão da mensagem recebida. O exemplo clássico
é o de São Pedro, que teve a visão de uma toalha contendo diversos animais,
enquanto uma voz por três vezes lhe dizia: ´Levanta´te Pedro, mata e come.´ Ele
acreditou que se tratasse de sua alimentação, tanto mais que teve a visão
quando estava com fome e lhe preparavam o almoço. (Atos, X, 10). Inicialmente
ele não compreendeu o sentido simbólico da visão, que tinha por objetivo
convencê´lo de que devia batizar os pagãos sem lhes impor primeiro as práticas
da lei mosaica.
Santa Joana d’Arc também
interpretou erroneamente as mensagens que ouvia interiormente: acreditou que
seria libertada. Foi martirizada.
2) Imprópria consideração
dos elementos históricos. Engana´se frequentemente aquele que atribui aos
detalhes históricos de uma revelação ou visão uma exatidão absoluta. Detalhes
como a paisagem, o tipo de roupa, a língua falada, os costumes locais, quase
sempre estão em desacordo com os conhecimentos históricos ou senão, diferem
consideravelmente mesmo em santos que tiveram visões sobre o mesmo tema. Quando
Deus dá uma visão a uma alma, é para a sua santificação pessoal e não para
satisfazer a curiosidade histórica. Há inúmeros exemplos desse engano em visões
sobre a paixão e morte de Nosso Senhor.
3) Intromissão da atividade humana na ação sobrenatural.
Engana´se aquele que pensa que uma revelação não diabólica ou é inteiramente
divina ou inteiramente humana; o espírito humano pode imiscuir´se, em certa
medida, na ação sobrenatural, alterando partes da revelação. Catarina Labouré,
por exemplo, fez predições verdadeiras com até quarenta anos de antecedência, e
fez também predições falsas. Santa Hildegarda é outro exemplo: analfabeta, ela
compunha e ditava textos em latim. Suas numerosas obras inspiradas, entretanto,
contém os erros científicos de sua época. Embora nos repugne encontrar erros em
revelações recebidas por santos e santas, a lição que daí se tira não é a de
que se deve desprezá´las por completo, mas sim que se deve abandonar a idéia
tão popular e romântica de que tudo que vem da parte de um santo é infalível.
(O leitor interessado em conhecer mais profundamente os exemplos de erros em
revelações aprovadas deve consultar a obra clássica de A. Poulain, ´Des Grâces
d’Oraison´, na qual nos baseamos para este artigo). Se a situação é assim
complicada em relação aos santos, o que pensar das revelações privadas
recebidas (como é hoje tão freqüente) por pessoas comuns ´ donas de casa,
estudantes , empresários ´? E se existem erros mesmo em revelações privadas
aprovadas, qual a diferença entre esses erros e os que aparecem numa revelação
condenada? Como julgar aquelas pessoas que se apresentam como portadoras de uma
mensagem ´inspirada´? A igreja nos propõe um procedimento de extremo bom senso,
baseado na sua experiência bimilenar com a matéria.
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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