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| OS PRIMÓRDIOS DA REFORMA LITÚRGICA NO BRASIL | Dom Clemente Isnard
Conferência - Encontro dos Liturgistas do Brasil Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2002
No
dia 04 de dezembro de 1963, foi aprovada a Constituição Conciliar
“Sacrosanctum Concilium“, o primeiro fruto do Concilio Ecumênico
Vaticano II (1962-1965), e o resultado das lutas ingentes dos amigos da
Liturgia contra o grupo conservador. Esse esteve reduzido a 04
( quatro ) votos. Apesar
das dificuldades causadas pela Congregação dos Ritos, em 25 de janeiro
de 1964, Paulo VI publica o primeiro documento para aplicação da
Constituição Conciliar, o motu próprio
“Sacram Liturgiam” . Os
bispos brasileiros, que estavam em Roma para
o Concilio, já haviam retornado ao Brasil. Só
em 1964, depois de voltar a Roma para a continuação do Concilio, a CNBB
se reuniu e aprovou os Estatutos e procedeu a eleição para preencher
os cargos. Os
novos Estatutos previam um
Secretariado Nacional de Liturgia encarregado da matéria e uma Comissão
Episcopal. Fui
eleito, então, Secretário Nacional da Liturgia, e encarregado de compor
a Comissão Nacional. Escolhi bispos interessados, moços e simples
auxiliares. Foram
Dom Lamartine, Dom Mielli e Dom Castro Pinto. Encontrava-se também em
Roma Dom Waldyr Calheiros que me ajudou com conselhos, especialmente para
a escolha do secretário, Cônego
Amaro Cavalcanti. Este, além de trabalhar no setor no Rio de Janeiro,
tinha iniciado um belo trabalho de música, que durou até a
sua morte, ocorrida no ano passado. Fiz
o pedido ao cardeal Jaime Barros Câmara, que se encontrava em Roma, e a
primeira resposta foi negativa. Mas depois, o Cardeal modificou sua posição
porque conhecia a competência e o bom espirito do Cônego Amaro e nele
confiava. Disse consigo mesmo: “ Se eu nego, Dom Clemente vai convidar
alguém exagerado. É melhor permitir que o Cônego Amaro assuma”.
Movido por essa razão ( conforme relato de Dom. Waldyr, então bispo
Auxiliar do Rio de Janeiro ) me procurou alguns dias depois para liberar o
Cônego Amaro. Os
quatro bispos, hoje, sou o único
sobrevivente, se davam muito bem e podiam trabalhar juntos. Castro Pinto
era diferente, mas muito capaz, inclusive para as traduções. A trinca
era Lamartine, auxiliar de Recife, Mielli, auxiliar de Campinas e eu. O
primeiro trabalho que se nos apresentava era o das traduções, para
introdução do vernáculo na Liturgia. E ai surgia a questão: será uma
tradução brasileira ou portuguesa? Parecia-nos então que o começo
seria um entendimento com os Bispos de Portugal. Fomos os quatro ao Seminário
Português em Roma, onde estavam hospedados os portugueses, e depois de
uma tarde de entendimento, concluímos que seria preciso adotar uma tradução
comum da Bíblia. Chegamos até a combinar algumas coisas práticas. Mas
daí não ouve seguimento. Surgiram logo dificuldades, e entre elas a
maior: que tratamento dar a Deus, “tu” ou “vós”. Os portugueses
queriam “ Vós “ e os
brasileiros da comissão queriam “Tu “, mas os Bispos brasileiros
estavam divididos. Mais tarde, numa assembléia geral celebrada, em São
Paulo (no Ipiranga ), foi feita a votação por escrito, e o resultado foi
surpreendente: empate rigoroso. Enquanto isso os padres que trabalhavam
nas traduções, sob a orientação de Dom Timóteo Amoroso Anastácio,
optavam pelo “tu “e ciclostilavam os primeiros textos em “tu “.
Era angustiante, e não se via solução: Portugal era “vós" e
Brasil empatado entre “vós” e
“tu”. A
discussão “vós” e “tu” voltou mais de uma vez à Assembléia
Geral. Dom Lamartine citava em apoio do “tu” uns versinhos do século
16 ou 17: “se a Deus se chama de “tu” e a El-Rey de “vós”, como
chamar o Juiz de Igarassi.: ‘tu” e “vós” , “vós” e tu” .O
mais difícil é que Roma queria um acordo entre Brasil e Portugal, e sem
o acordo se recusava a aprovar qualquer revisão. O assunto chegou ao
Papa, e o grande Paulo VI decidiu que não se devia ter todas as versões
iguais, em Portugal e no Brasil, mas que seria suficiente ter o texto do
povo igual, de modo que o povo pudesse rezar em Portugal e no Brasil da
mesma forma. Assim, a Oração Eucarística poderia ter uma tradução em
Portugal e outra no Brasil, mas as resposta do povo deveria ser idênticas.
E assim foi feito. Mas era preciso resolver o problema do “tu” e
“vós” ... Do
jeito que estavam as coisas não se via possibilidade de solução. Os
portugueses no fundo achavam que eles deveriam resolver por
serem os donos da língua e por assim fizerem com os países da África,
que, na época, eram chamados a opinar. Impunha-se um acordo, ou, caso
contrario, não haveria nunca nenhuma tradução aprovada em Roma. O
acordo se fez numa reunião em Portugal. Representando o Brasil fomos eu e
o Padre José Antônio de Moraes Busch, do clero de Campinas, então
assessor na CNBB, e, representando Portugal três Bispos e três peritos.
Nós nos reunimos, oito pessoas, na casa de Retiro da Buraca, perto de
Lisboa. Na abertura dos trabalho estabeleci
que os votos seriam por país, quer dizer, os seis votos portugueses
teriam o mesmo valor que os dois brasileiros. Do contrario, nós estaríamos
perdidos. Eles concordaram. E mediante discussões infinitas estabelecemos
o texto do povo, tanto no Ordinário da Missa como em outras partes da
Liturgia. Foi ai que se fixou “Ele está no meio de nós “ como
resposta ao “Senhor esteja
conosco “, e outras versões pouco literais. Os portugueses até que
foram liberais em atender nossas preferências. Saliento no principio da
Missa “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo “; apenas
duas “por minha culpa, minha tão grande culpa “ no
“Confesso “ ; “paz na terra aos homens por Ele amados “no
Glória; “desceu a mansão dos mortos “no Credo; “é nosso dever e
nossa salvação “no diálogo do Prefácio; “o amor de Cristo nos
uniu” como resposta ao “Pax Dominum sit semper vobiscum”. A presença
de Padre Busch foi muito importante para convencer os portugueses. No
fim do encontro tínhamos uma fórmula
aceitável, que os Bispos da Conferência Portuguesa adotaram sem
modificação e que eu e os assessores de liturgia adotamos sem consultar
a Assembléia da CNBB, sob os protestos de Dom Geraldo Fernandes. Ele me
disse certa vez: “Dom Clemente, como teve coragem de modificar sozinho o
Credo ( profissão de fé )”? Fiz e não me arrependo, pois não havia
outro jeito. Lembrem-se do empate entre “tu “ e “vós “ . O
acordo com Portugal consagrou o “vós” e agradou os Bispos
conservadores. A alma do Encontro da Buraca foi o Padre Busch, um dos mais
eficientes assessores que tivemos. Voltando
de Roma, onde tínhamos estado com o Cônego Cavalcanti, organizamos o
Secretariado da Liturgia no Rio de Janeiro, no novo edifício sede da
CNBB, no Largo da Glória. Até hoje me lembro com
saudades daquele velho prédio onde fizemos tanta coisa pela
Liturgia. Aí veio trabalhar conosco uma pessoa preciosa, Maria Luiza
Amarante, que foi nossa secretária enquanto a CNBB esteve no Rio de
Janeiro. A ida da CNBB para Brasília nos fez perder não só Maria Luiza
como o Cônego Amaro e Padre Busch. Apenas dois assessores seguiram
conosco: Padre Odilon Jaeger e
Maucyr Gibin. No Rio havia reunião da Comissão Episcopal de Pastoral
(CEP), precedida de um ou dois dias de reunião particular da Liturgia.
Foi dessa forma que nós asseguramos a colaboração de um grupo notável
de liturgistas e que preparamos nossa atividade. A Liturgia era o único
setor que promovia esse tipo de reunião, e isso desagradou a alguns. O próprio
Dom Ivo Lorscheiter, quando Secretário Geral, me procurou para acabar com
essa reunião. Tivemos então uma longa entrevista e ele tentou me
convencer, mas não conseguiu. No final da reunião ele me disse: “Dom
Clemente, o senhor é muito teimoso”. Eu respondi : “é uma das minhas
poucas qualidades “. Ele então acabou com o almoço que
nos era dado na CNBB, mas nós arranjamos almoço no apartamento de
minha mãe e outros lugares amigos. Quanto ao pro labore, que os
colaboradores que não eram assessores da CNBB recebiam, eu passei a
arranjar com amigos. Uma amiga protetora foi Dona Laurita Pessoa Rajá
Gabaglia. Foi único aborrecimento que tive com Dom Ivo. Não sei porque
ele não aceitava o modo próprio de funcionamento do setor de Liturgia;
seu argumento é que aquela atividade não era necessária porque as
outras linhas não tinham. Evidentemente a mudança da CNBB para Brasília
acabou com esse tipo de reunião. Além das reuniões mensais com grupo
pequeno, nos primeiros anos fizemos reuniões grandes uma vez por ano, que
chamávamos Semana Nacional de Liturgia. Para
essas semanas eram convocados representantes de todos as Regionais da CNBB
e havia uma programação cuidadosa com peritos encarregados dos diversos
temas. Paralelamente à reunião de Liturgia, se realizava uma reunião de
músicos, coordenada pelo Cônego Amaro Cavalcanti. Nessas reuniões
sobressaia frei Joel Postma. Destacaram-se as Semanas Nacionais de
Liturgia de Valinhos ( perto de Campinas ) e de Belo Horizonte. Não me
lembro exatamente de quantas foram. O trabalho de reflexão, indispensável
para uma reforma, se fazia nas reuniões
mensais especialmente nas Semanas de Liturgia, onde se estabelecia o
contato e o convívio com liturgistas de outros lugares. Assim conhecemos
Pe. Reginaldo Veloso, de Recife, e outros, como o Pe. Jocy Rodrigues, do
Maranhão, que é o compositor da Oração Eucarística número V e de belíssimos
outros cantos litúrgicos. Desta maneira a reforma era obra não de um
pequeno grupo do Sul e do Centro, mas abrangia a colaboração de gente de
todo o Brasil, com apoio em Pernambuco e no Maranhão, sem falar no Centro
Oeste. Iniciamos, ao voltar de Portugal, a redação do Ordinário da
Missa com “vós”. É pena que não tenha havido um episcopado tão numeroso
e tão diversificado em matéria de opiniões aquilo que alcançamos em
Lisboa. Resolvi então proceder por própria conta -
coisa de admirar mas não de imitar – e que tanto irritou Dom
Geraldo Fernandes, que chegou a ser Vice – Presidente da CNBB.
Apresentei em Roma, e a Congregação para o Culto Divino aprovou nossa
versão. Nossa sorte é que no momento não havia na Congregação perito
em língua portuguesa. Desta forma obtivemos apuração da simplificação
do Cânon Romano, que tinha sido apresentada pelos franceses e negada... Nós
simplesmente havíamos copiado a proposta francesa. A aprovação do Ordinário
da Missa era um grande passo dado. Mas não era o mais longo. Era preciso
traduzir o Missal. Já havia circulando traduções parciais. Aproveitando
na medida do possível o trabalho feito, uma comissão de liturgia,
presidida pelo Pe. Busch, assumiu o trabalho de preparar a tradução
completa do Missal Romano. Padre Busch obteve para isso a cooperação do
venerável Arcebispo de Campinas, Dom Alves de Siqueira, que durante
muitos meses vinha passar uma semana no Rio de Janeiro, hospedando-se na
própria CNBB e trabalhando intensivamente na companhia do Padre Busch.
Foi uma grande alegria quando pudemos enviar à Congregação do Culto
Divino o pacotão do missal traduzido. Hoje, usando o Missal, achamos
alguns textos merecedores de melhoramento. Mas na época, Dom Siqueira ,
com enorme paciência, traduziu sobretudo o texto das orações, e quase
sempre chegou a resultado satisfatório. Quem trabalha para liturgia faz
uma obra anônima: não
consta no Missal o nome dos tradutores, como não
consta o nome dos redatores das Orações Eucarísticas e de outras
peças importantes. É um trabalho de amor e desinteressado. Quem iria
reconhecer os méritos de Bugnini e de Martimort e de outros grandes
liturgistas, também brasileiros ? Só Deus. A impressão do Missal foi
uma grande vitória. Entrementes
conseguimos preparar a tradução
de outros livros litúrgicos e mandar a Roma para aprovação. Não vou
apresentar um catálogo das edições litúrgicas. Paulinas
e Vozes foram as primeiras editoras, mas depois vieram outras. Os
assessores estavam divididos na preferência por essa ou outra editora.
Certa vez, vendo que isso prejudicava a causa comum, disse eu aos editores
reunidos, no Largo da Glória, algumas verdades talvez duras de ouvir. Com
efeito, havia perigo de surgir uma certa corrupção atingindo o pessoal
do secretariado para favorecer indevidamente esta ou aquela editora.
Coisas inevitáveis mesmo entre ótimas pessoas. O alvo a atingir era a
tradução de todos os textos litúrgicos: Missal, Sacramentários e
outros Rituais.
À medida que os textos iam sendo aprovados em Roma, nós
iniciávamos a tradução aqui. O processo de aprovação de textos
em Roma foi lento; alguns eram elaborados mais rapidamente, outros
encalhavam em dificuldades, como o do sacramento da Penitência e o dos
Ministérios, antigas Ordens Menores. A Liturgia das Horas era uma outra
maratona, talvez mais complicada do que o Missal. Foi
o ultimo livro que vi com a edição definitiva. Lembro-me de que
quando Dom Celso Queiroz me apresentou o primeiro volume, não contive as
lagrimas. O trabalho final foi feito em Brasília e para isso contamos com
a dedicação em tempo integral de duas pessoas. Era preciso ter uma boa
tradução dos salmos, como que a matéria prima do livro. Disso
se encarregou o Padre José Weber, que eu havia pescado em Roma por indicação
de Cônego Amaro. Precisaríamos
de uma tradução exata, recitável e bonita. Creio que nosso texto do
saltério em português é magnifico. Graças ao acordo da Buraca com os
portugueses, os textos da Liturgia das Horas não precisavam ser comuns
aos dois países, o que facilitou muito. Padre Weber
pode trabalhar à vontade e poucas foram as modificações feitas a
seu texto. E como foi difícil a montagem do livro! Mas não se tratava só
dos Salmos: era preciso traduzir os hinos, as antífonas,
as leituras. O Brasil pode se gloriar de ter a melhor versão dos
livros da Liturgia das Horas, melhor que a França, a Espanha e a Itália.
As leituras bíblicas dependiam de uma versão da Bíblia que a CNBB
orientou, mas que depois escapou de nosso julgamento.
A chamada Bíblia da CNBB foi feita por uma comissão especial
dirigida pelo Padre Konnings, jesuíta, que é o responsável principal.
Os textos que figuram na Liturgia das Horas foram os primeiros, mais tarde
corrigidos na edição definitiva. Nós tínhamos de inicio alguns bons
tradutores, como um padre, mas lento no trabalho. Para fazer uma obra que
se aproximasse da perfeição deveríamos esperar o ano 2000. E isso eu não
queria, pois quanto mais tarde saísse a Liturgia das Horas, menos seria
usada. Mais uma vez, para ter as traduções, facilitamos a qualidade.
Creio que não errei e hoje faria o mesmo. O
trabalho dos tradutores seria corrigido por uma comissão de Bispos. Houve
uma, que deveria rever a tradução do Evangelho de S. João, e que
envergonhou a CNBB. Mandou para Roma um texto tão ruim que obrigou a
Congregação a rever ela mesma. Ainda bem que fizeram em Roma esse
trabalho que não lhes cabia. Não me lembro dos nomes dos culpados,
apenas que se tratava de bispos mineiros. A
colaboração dos Bispos, também residenciais, no trabalho da Liturgia
foi intensa, sobretudo no principio, quando nos parecia que tudo devia ser
feito por bispos. Como Dom Lamartine e Dom Mielli e o próprio Dom Castro
Pinto se esforçaram nos primeiros tempos!
Já lembramos Dom Antônio Alves de Siqueira, mas muitos outros
também colaboram. Cada vez que
se editava em português do Brasil um livro Litúrgico, sentíamos alegria
e alivio. Era o caminho andado para o cumprimento da missão. Mas não era
tudo o que devíamos fazer. Era preciso comentar os livros, animar a vida
litúrgica e descobrir o que deveríamos fazer para enriquecer a própria
liturgia. Não éramos apenas tradutores, mas tínhamos de ser criativos,
e isso nos preocupava desde o inicio. Numa
de nossas reuniões mensais no Rio, foi feita sugestão de compor uma Oração
Eucarística para o Congresso Eucarístico Nacional de Manaus. Naqueles
dias nós contávamos em Roma com o apoio clarividente de Bugnini. Eu ia
duas vezes por ano a Roma para reuniões do
Conselho e depois da Congregação para o Culto Divino e podia
advogar a causa. Encontrei boa receptividade em Bugnini, e mãos a obra.
Marcamos reunião preparatória no Cenáculo, com a assessoria dilatada. E
preparamos dois textos: um meu, e outro do padre maranhense. Eu li o meu
texto e enquanto ouvia o do padre maranhense tinha vontade de imitar o que
fizera o concorrente de Santo Tomé de Aquênio para textos festa de
Corpus Christi: ir rasgando silenciosamente. Mas não fiz...
Evidentemente, o grupo reunido escolheu o do padre maranhense, que é o
texto da Oração Eucarística numero V. Esse
foi levado a Comissão Episcopal de Pastoral (CEP), onde recebeu uma ou
duas pequenas modificações, e depois enviado a Roma. Em Roma, sem levar
em consideração o ritmo do nosso texto, também fizeram duas pequenas
modificações. Parece que, além do Culto Divino, o projeto enfrentou a
Doutrina da Fé, mas venceu as etapas. E a Oração numero V, bastante
breve, é usada, apesar de não agradar a alguns. A aprovação
de uma Oração Eucarística brasileira era um sinal dos tempos. Bugnini
se achava no auge de seu prestigio e podia se permitir gestos de benevolência
para com uma Conferencia Episcopal numerosa mas sem prestigio. Infelizmente,
os ventos não tardaram a mudar em Roma. Bugnini cada vez mais ousado e
contando com a confiança de Paulo VI, aprovou a Oração Eucarística
para Missa com crianças e outras coisas mais. A oposição romana, tendo
como porta voz o Cardeal Felici, conseguiu derrubá-lo de modo insidioso;
foi supressa a Congregação para o Culto Divino e unida a Congregação
para a Disciplina dos Sacramentos. Bugnini estava fora de Roma, em férias.
Para ele não ter a notícia pela imprensa, o Cardeal Tabera
foi onde se encontrava para avisar. Ora, cada Congregação tinha
um Prefeito e um Secretário; unindo duas Congregações sobraria um
Prefeito e um Secretario. Ora, o secretário dos Sacramentos era mais
antigo como Bispo ( era um antigo Núncio, que nada entendia de Liturgia
), e teve prudência para continuar no cargo da nossa Congregação.
Bugnini não era mais nada. Eu escrevi uma carta ao Papa e o Cardeal
Secretário de Estado, Cardeal Villot, respondeu perguntando se o Papa não
tinha direito de escolher seus auxiliares. Eu não podia negar isso,
mas diria que deve escolher bem, e não como fez dessa vez. Esse
fato lançou uma sombra sobre o pontificado de Paulo VI, que estava
envelhecido e fazendo algo em contradição com toda sua linha de conduta
anterior. A saída de
Bugnini foi desastrosa, não só para a Congregação em Roma, mas para o
mundo inteiro. Uma
das últimas vezes que conversei com Bugnini em Roma, uma das melhores
conversas que tivemos, ele falou de seus planos. Disse que estava faltando
um Diretório para Missas “cum rudibus“ e que pretendia fazer isso.
Mas não teve tempo; os inimigos já estavam se movimentando e o golpe
preparado. Voltando para o Brasil, na primeira reunião mensal dos
assessores, falei do assunto e encontrei boa acolhida.
Com efeito, o Brasil precisava de um Diretório para gente simples.
Foi nome que dei. E nos pusemos mão à obra. Como não tratava de uma
tradução de um documento romano, usei de grande cautela, evitando
cuidadosamente coisas que pudessem criar dificuldades em Roma. O Diretório
para Missas com gente simples foi preparado e levado à Assembléia Geral,
onde foi aprovado, sem grande oposição, e batizado por Dom Waldyr como
“Diretório para Missas com Grupos Populares “. O nome me pareceu bom,
mas não foi feliz, porque era a época em que o colombiano Lopes Trujillo
fazia uma campanha contra a “Igreja
Popular” em toda a América Latina. Eu achei que nosso Diretório não
continha nada de avançado, e que por isso não precisava ser submetido a
Roma. Mas Roma recebe as atas da Assembléia Geral e fica
sabendo de tudo o que se passou. Um belo dia na CNBB, que ainda estava no
Rio, me disseram que a Congregação tinha pedido nosso Diretório para
examinar. Fiquei surpreso, disse que não havia necessidade, mas acabei
tendo de mandar. Não tardou muito a
chegar uma proibição de usar o
Diretório, que já estava impresso e distribuído. Foi
a grande humilhação que tive no relacionamento com Roma. Humilhação
injusta, pois o Diretório não tinha nada que merecesse essa condenação.
Mas não ficou nisso; como eu também atuava no CELAM, e o perito do
CELAM, Álvaro Botero, um colombiano inteligente e bem orientado, havia
apreciado nosso Diretório e feito traduziu em castelhano, a Secretaria de
Estado mandou uma circular aos
Núncios do mundo inteiro ( até da Austrália
! ) comunicando a condenação. Assim o nosso modesto Diretório se
transformou num perigo para a Igreja ! Ainda tenho
em meu poder um exemplar da 4” edição
do Diretório. Depois de redigir esta breve noticia, me dei ao trabalho de
reler todo o Diretório. Desafio qualquer perito em Liturgia para mostrar
algo que motivasse sua condenação. Tudo o que é aconselhado no Diretório
está hoje posto em pratica nas comunidades. Se não me engano, a razão
decisiva para a condenação romana está na expressão “Grupos
populares “. Na época Dom Afonso Lopes Trujillo movia no ambiente
latino americano uma guerra ao que chamava “Iglesia Popular “, e que
ele considerava uma perversão da Igreja Católica. Acontece que ao pensar
nos “Grupos populares “, nós brasileiros nem de longe tínhamos em
vista a fenômeno cismático que estava ocorrendo em alguns países latino
– americanos. Apesar desta
atitude, depois da saída de Bugnini, houve durante anos a fio uma boa
colaboração da Congregação para o Culto Divino com a CNBB. Primeiro a
compreensão dos problemas de língua entre Brasil e Portugal. Neste caso
Bugnini me disse que o Papa Paulo VI havia recomendado não exigir demais
porque conhecia as diferenças de linguagem; e a solução foi boa:
unidade para as partes do povo e liberdade para o resto. Segundo, a Oração
Eucarística brasileira, a V , que foi uma bela concessão ao Brasil, que
nenhum outro pais da América Latina tem. Terceiro, as aclamações na Oração
Eucarística, que nem todos os países da Europa têm. Quarto, a aprovação
da versão do Cânon Romano com as simplificações. Quinto, o tratamento
cordial dado ao Brasil durante as negociações.
Dom
Clemente Isnard, osb Conferência
- testemunho Encontro
dos Liturgistas do Brasil Belo
Horizonte, 28 de janeiro de 2002
[1] Esta palestra foi feita no Encontro dos Liturgistas do Brasil, realizado em Belo Horizonte, MG, de 28 de janeiro a 1 de fevereiro de 2002.
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