Redemptoris Missio
CARTA ENCÍCLICA REDEMPTORIS MISSIO DO
SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II SOBRE A VALIDADE PERMANENTE DO MANDATO MISSIONÁRIO
(Esta transcrição é feito do Jornal L-Osservatore
Romano, do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras
são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)
Veneráveis Irmãos e
caríssimos Filhos sandações e Bênção Apostólica!
INTRODUÇÃO
1. A MISSÃO DE CRISTO
REDENTOR, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento. No
termo do segundo milénio, após a Sua vinda, uma visão de conjunto da humanidade
mostra que tal missão está ainda no começo, e que devemos empenhar-nos com
todas as forças no seu serviço. É o Espírito que impele a anunciar as grandes
obras de Deus! « Porque se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar,
pois que me foi imposta esta obrigação: ai de mim se não evangelizar! » (1 Cor
9, 16). Em nome de toda a Igreja, sinto o dever imperioso de repetir este grito
de S. Paulo. Desde o início do meu pontificado, decidi caminhar até aos confins
da terra para manifestar esta solicitude missionária, e este contacto directo
com os povos, que ignoram Cristo, convenceu-me ainda mais da urgência de tal
actividade a que dedico a presente Encíclica. O Concílio Vaticano II pretendeu
renovar a vida e a actividade da Igreja, de acordo com as necessidades do mundo
contemporaneo: assim sublinhou o seu carácter missionário, fundamentando-o
dinamicamente na própria missão trinitária. O impulso missionário pertence, pois,
à natureza íntima da vida cristã, e inspira também o ecumenismo: « que todos
sejam um (...) para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Jo 17,21).
2. Já são muitos os
frutos missionários do Concílio: multiplicaram-se as Igrejas locais, dotadas do
seu bispo, clero e agentes apostólicos próprios; verifica-se uma inserção mais
profunda das Comunidades cristãs na vida dos povos; a comunhão entre as Igrejas
contribui para um vivo intercambio de bens e dons espirituais; o empenhamento
dos leigos no serviço da evangelização está a mudar a vida eclesial; as Igrejas
particulares abrem-se ao encontro, ao diálogo e à colaboração com os membros de
outras Igrejas cristãs e outras religiões. Sobretudo está-se a afirmar uma nova
consciência, isto é, a de que a missão compete a todos os cristãos, a todas as
dioceses e paróquias, instituições e associações eclesiais. No entanto, nesta «
nova primavera » do cristianismo não podemos ocultar uma tendência negativa,
que, aliás, este Documento quer ajudar a superar: a missão específica ad gentes
parece estar numa fase de afrouxamento, contra todas as indicações do Concílio
e do Magistério posterior. Dificuldades internas e externas enfraqueceram o
dinamismo missionário da Igreja ao serviço dos não-cristãos: isto é um facto
que deve preocupar todos os que crêem em Cristo. Na História da Igreja, com
efeito, o impulso missionário sempre foi um sinal de vitalidade, tal como a sua
diminuição constitui um sinal de crise de fé.1 A distancia de vinte e cinco
anos da conclusão do Concílio e da publicação do Decreto sobre a actividade
missionária Ad gentes, a quinze anos da Exortação ApostólicaEvangelii Nuntiandi
de Paulo VI, de veneranda memória, desejo convidar a Igreja a um renovado
empenhamento missionário, dando, neste assunto, continuação ao Magistério dos
meus predecessores.2 O presente Documento tem uma finalidade interna: a
renovação da fé e da vida cristã. De facto, a missão renova a Igreja, revigora
a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé
que ela se fortalece! A nova evangelização dos povos cristãos também encontrará
inspiração e apoio, no empenho pela missão universal. Mas o que me anima mais a
proclamar a urgência da evangelização missionária é que ela constitui o
primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira, no
mundo de hoje, que, apesar de conhecer realizações maravilhosas, parece ter
perdido o sentido último das coisas e da sua própria existência. « Cristo
Redentor — como deixei escrito na primeira Encíclica — revela plenamente o
homem a si próprio. O homem que a si mesmo se quiser compreender profundamente
(.. ) deve aproximar-se de Cristo (...) A Redenção, operada na cruz, restituiu
definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo ».3
Não faltam certamente outros motivos e finalidades: corresponder a inúmeros
pedidos de um documento deste género; dissipar dúvidas e ambiguidades sobre a
missão ad gentes, confirmando no seu compromisso os beneméritos homens e
mulheres que se dedicam à actividade missionária e todos quantos os ajudam;
promover as vocações missionárias; estimular os teólogos a aprofundar e expor
sistematicamente os vários aspectos da missão; relançar a missão, em sentido
específico, comprometendo as Igrejas particulares, especialmente as de recente
formação, a mandarem e a receberem missionários; garantir aos não cristãos, e
particularmente às Autoridades dos Países aos quais se dirige a actividade
missionária, que esta só tem uma finalidade, ou seja, servir o homem, revelando-lhe
o amor de Deus manifestado em Cristo Jesus.
3. Povos todos, abrí as
portas a Cristo! O Seu Evangelho não tira nada à liberdade do homem, ao devido
respeito pelas culturas, a tudo quanto de bom possui cada religião. Acolhendo
Cristo, abris-vos à Palavra definitiva de Deus, Àquele no qual Deus se deu a
conhecer plenamente e nos indicou o caminho para chegar a Ele. O número
daqueles que ignoram Cristo, e não fazem parte da Igreja está em contínuo
aumento; mais ainda: quase duplicou, desde o final do Concílio. A favor desta
imensa humanidade, amada pelo Pai a ponto de lhe enviar o Seu Filho, é evidente
a urgência da missão. Por outro lado, a época que vivemos oferece, neste campo,
novas oportunidades à Igreja: a queda de ideologias e sistemas políticos
opressivos; o aparecimento de um mundo mais unido, graças ao incremento das
comunicações; a afirmação, cada vez mais frequente entre os povos, daqueles
valores evangélicos que Jesus encarnou na sua vida: paz, justiça, fraternidade,
dedicação aos mais pequenos; um tipo de desenvolvimento económico e técnico sem
alma, que, em contrapartida, está a criar necessidade da verdade sobre Deus , o
homem e o significa do da vida. Deus abre, à Igreja, os horizontes de uma
humanidade mais preparada para a sementeira evangélica. Sinto chegado o momento
de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na missão ad
gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição da Igreja se pode esquivar deste
dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos.
CAPÍTULO I
JESUS CRISTO ÚNICO
SALVADOR
4. « A tarefa fundamental
da Igreja de todos os tempos e, particularmente, do nosso — como lembrei, na
minha primeira Encíclica programática — é a de dirigir o olhar do homem e
orientar a consciência e experiência da humanidade inteira, para o mistério de
Cristo ».4 A missão universal da Igreja nasce da fé em Jesus Cristo, como se
declara no Credo: « Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de
Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos (...) E por nós homens, e para nossa
salvação, desceu dos céus. E encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem
Maria, e Se fez homem ».5 No acontecimento da Redenção está a salvação de
todos, « porque todos e cada um foram compreendidos no mistério da Redenção, e
a todos e cada um se uniu Cristo para sempre, através deste mistério »:6
somente na fé, se fundamenta e compreende a missão. No entanto, devido às
mudanças dos tempos modernos e à difusão de novas ideias teológicas, alguns
interrogam-se: ainda é actual a missão entre os não cristãos? Não estará por
acaso substituida pelo diálogo interreligioso? Não se deverá restringir ao
empenho pela promoção humana? O respeito pela consciência e pela liberdade não
exclui qualquer proposta de conversão? Não é possível salvar-se em qualquer
religião? Para quê, pois, a missão? « Ninguém vai ao Pai, senão por Mim » (Jo
14, 6)
5. Remontando às origens
da Igreja, aparece clara a afirmação de que Cristo é o único salvador de todos,
o único capaz de revelar e de conduzir a Deus. As autoridades religiosas
judaicas, que interrogam os Apóstolos sobre a cura do aleijado, realizada por
Pedro, este responde: « É em nome de Jesus Nazareno, que vós crucificastes e
Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se apresenta curado
diante de vós (... ) E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do
céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar » (At 4, 10.12).
Esta afirmação, dirigida ao Sinédrio, tem um valor universal, já que, para
todos — judeus e gentios —, a salvação só pode vir de Jesus Cristo. A
universalidade desta salvação em Cristo é afirmada em todo o Novo Testamento.
S. Paulo reconhece, em Cristo ressuscitado, o Senhor: « Porque, ainda que haja
alguns que são chamados deuses, quer no céu quer na terra, existindo assim muitos
deuses e muitos senhores, para nós há apenas um único Deus, o Pai de Quem tudo
procede e para Quem nós existimos; e um único Senhor, Jesus Cristo, por meio do
Qual todas as coisas existem, e igualmente nós existimos também » (1 Cor 8, 5-6).
O único Deus e o único Senhor são afirmados em contraste com a multidão de «
deuses » e de « senhores » que o povo admitia. Paulo reage contra o politeismo
do ambiente religioso do seu tempo, pondo em relevo a característica da fé
cristã: crença num só Deus e num só Senhor, por Aquele enviado. No Evangelho de
S. João, esta universalidade salvífica de Cristo compreende os aspectos da Sua
missão de graça, de verdade e de revelação: « o Verbo é a Luz verdadeira que a
todo o homem ilumina » (Jo 1, 9). E ainda: « ninguém jamais viu Deus: o Filho
único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhocer » (Jo 1, 18; cf. Mt 11,
27). A revelação de Deus tornou-se definitiva e completa, na obra do Seu Filho
Unigénito: « Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de
muitas maneiras, pelos profetas, agora falou-nos, nestes últimos tempos, pelo
Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo, e por Quem igualmente criou o mundo
» (Heb 1, 1-2; cf. Jo 14, 6). Nesta Palavra definitiva da Sua revelação, Deus
deu-se a conhecer do modo mais pleno: Ele disse à humanidade Quem é. E esta
auto-revelação definitiva de Deus é o motivo fundamental pelo qual a Igreja é,
por sua natureza, missionária. Não pode deixar de proclamar o Evangelho, ou
seja, a plenitude da verdade que Deus nos deu a conhecer de Si mesmo. Cristo é
o único mediador entre Deus e os homens: « há um só Deus e um só mediador entre
Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que se deu em resgate por todos. Tal é o
testemunho que foi dado no tempo devido, e do qual eu fui con stit uido p reg
ador, ap óstolo e mestre dos gentios na fé e na verdade. Digo a verdade, não
minto » (1 Tim 2, 5-7; cf. Heb 4, 14-16). Os homens, portanto, só poderão
entrar em comunhão com Deus através de Cristo, e sob a acção do Espírito. Esta
Sua mediação única e universal, longe de ser obstáculo no caminho para Deus, é
a via estabelecida pelo próprio Deus, e disso, Cristo tem plena consciência. Se
não se excluem mediações participadas de diverso tipo e ordem, todavia elas
recebem significado e valor unicamente da de Cristo, e não podem ser entendidas
como paralelas ou complementares desta.
6. É contrário à fé
cristã introduzir qualquer separação entre o Verbo divino e Jesus Cristo. S.
João afirma claramente que o Verbo, que « no princípio estava com Deus », é o
mesmo que « se fez carne » (Jo 1, 2. 14). Jesus é o Verbo encarnado, pessoa una
e indivisa: não se pode separar Jesus, de Cristo, nem falar de um «Jesus da
história » que seria diferente do « Cristo da fé ». A Igreja conhece e confessa
Jesus como « Cristo, o Filho de Deus vivo » (Mt 16, 16): Cristo não é diferente
de Jesus de Nazaré; e este é o Verbo de Deus feito homem, para a salvação de
todos. Em Cristo, « habita corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col
2, 9) e « da Sua plenitude todos nós recebemos » (Jo 1, 16). O « Filho
Unigénito, que está no seio do Pai » (Jo 1, 18), é « o Filho muito amado, no
qual temos a redenção e a remissão dos pecados (...) Aprouve a Deus que n-Ele
residisse toda a plenitude, e por Ele fossem reconciliadas Consigo todas as
coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as criaturas da terra como
as do céu » (Col 1, 13-14. 19-20). Precisamente esta singularidade única de
Cristo é que Lhe confere um significado absoluto e universal, pelo qual,
enquanto está na História, é o centro e o fim desta mesma História:7 « Eu sou o
Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Ultimo, o Princípio e o Fim » (Ap 22, 13). Se é
lícito e útil, portanto, considerar o mistério de Cristo sob os seus vários
aspectos, nunca se deve perder de vista a Sua unidade. À medida que formos
descobrindo e valorizando os diversos tipos de dons, e sobretudo as riquezas
espirituais, que Deus distribuiu a cada povo, não podemos separá-los de Jesus
Cristo, o Qual está no centro da economia salvadora. De facto, como « pela
encarnação, o Filho de Deus se uniu de alguma forma a todo o homem », assim «
devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus
conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal »,8 0 plano
divino é « recapitular em Cristo todas as coisas que há no céu e na terra » (Ef
1, 10).
A fé em Cristo é uma
proposta à liberdade do homem
7. A urgência da
actividade missionária deriva da radical novidade de vida, trazida por Cristo e
vivida pelos Seus discípulos. Esta nova vida é dom de Deus, e, ao homem, é-lhe
pedido que a acolha e desenvolva, se quiser realizar integralmente a sua
vocação, conformando-se a Cristo. Todo o Novo Testamento se apresenta como um
hino à vida nova, para aquele que crê em Cristo e vive na Sua Igreja. A
salvação em Cristo, testemunhada e anunciada pela Igreja, é auto-comunicação de
Deus. « O amor não só cria o bem, mas faz participar também na própria vida de
Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Com efeito, aquele que ama quer dar-se a si
mesmo ».9 Deus oferece ao hmem esta novidade de vida. « Poder-se-á rejeitar
Cristo e tudo aquilo que Ele introduziu na história do homem? Certamente que
sim; o homem é livre: ele pode dizer não, a Deus. O homem pode dizer não, a
Cristo. Mas permanece a pergunta fundamental: é lícito fazê-lo? É lícito, em
nome de quê? ».10 8. No mundo moderno, há tendência para reduzir o homem
unicamente à dimensão horizontal. Mas o que acontece ao homem que não se abre
ao Absoluto? A resposta está na experiência de cada homem, mas está também
inscrita, na história da humanidade, com o sangue derramado em nome de
ideologias e regimes políticos que quiseram construir uma « humanidade nova »
sem Deus.11 De resto, a quantos se mostram preocupados em salvar a liberdade de
consciência, o Concílio Vaticano II responde: « a pessoa humana tem direito à
liberdade religiosa (...) Todos os homens devem viver imunes de coacção, em
matéria religiosa, quer da parte de pessoas particulares, quer de grupos
sociais ou qualquer poder humano, de tal forma que ninguém seja obrigado a agir
contra a sua consciência, nem impedido de actuar de acordo com ela, privada ou
publicamente, só ou associado ».12 O anúncio e o testemunho de Cristo, quando
feitos no respeito das consciências, não violam a liberdade. A fé exige a livre
adesão do homem, mas tem de ser proposta, já que « as multidões têm o direito
de conhecer as riquezas do mistério de Cristo, nas quais toda a humanidade —
assim o acreditamos nós — pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo
aquilo que procura, às apalpadelas, a respeito de Deus, do homem, do seu
destino, da vida e da morte, da verdade (... ) É por isso que a Igreja conserva
bem vivo o seu espírito missionário, desejando até que ele se intensifique,
neste momento histórico que nos foi dado viver ».13 No entanto, é necessário
acrescentar, citando ainda o Concílio, que « todos os homens, pela sua própria
dignidade, já que são pessoas, isto é, seres dotados de razão e vontade livre,
e consequentemente de responsabilidade pessoal, são impelidos pela sua
natureza, e moralmente obrigados a procurar a verdade, e antes de tudo a que se
refere à religião. Têm também obrigação de aderir à verdade conhecida, e
ordenar toda a sua vida segundo as exigências da verdade ».14
A Igreja sinal e
instrumento de salvação
9. A primeira
beneficiária da salvação é a Igreja: Cristo adquiriu-a com o Seu sangue (cf. At
20, 28) e tornou-a Sua cooperadora na obra da salvação universal. Com efeito,
Cristo vive nela, é o seu Esposo, realiza o seu crescimento, e cumpre a Sua
missão através dela. O Concílio deu grande realce ao papel da Igreja, em favor
da salvação da humanidade. Enquanto reconhece que Deus ama todos os homens e
lhes dá a possibilidade de se salvarem (cf. 1 Tim 2, 4),15 a Igreja professa que
Deus constituiu Cristo como único mediador e que ela própria foi posta como
instrumento universal de salvação.16 « Todos os homens, pois, são chamados a
esta católica unidade do Povo de Deus (...) à qual, de diversos modos,
pertencem ou estão ordenados quer os fiéis católicos, quer os outros crentes em
Cristo, quer universalmente todos os homens, chamados à salvação pela graça de
Deus ».17 É necessário manter unidas, estas duas verdades: a real possibilidade
de salvação em Cristo para todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa
salvação. Ambas facilitam a compreensão do único mistério salvífico, permitindo
experimentar a misericórdia de Deus e a nossa responsabilidade. A salvação, que
é sempre um dom do Espírito, exige a colaboração do homem, para se salvar tanto
a si próprio como aos outros. Assim o quis Deus, e por isso estabeleceu e
comprometeu a Igreja no plano da salvação. « Este povo messianico — diz o
Concílio — estabelecido por Cristo como uma comunhão de vida, amor e verdade,
serve também, nas mãos d-Ele, de instrumento da redenção universal, sendo
enviado a todo o mundo, como luz desse mundo e sal da terra ».18
A salvação é oferecida a
todos os homens
10. A universalidade da
salvação em Cristo não significa que ela se destina apenas àqueles que, de
maneira explícita, crêem em Cristo e entraram na Igreja. Se é destinada a
todos, a salvação deve ser posta concretamente à disposição de todos. É
evidente, porém, que, hoje como no passado, muitos homens não têm a
possibilidade de conhecer ou aceitar a revelação do Evangelho, e de entrar na
Igreja. Vivem em condições socio-culturais que o não permitem, e frequentemente
foram educados noutras tradições religiosas. Para eles, a salvação de Cristo
torna-se acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa
relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina
convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de
Cristo, é fruto do Seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo: ela permite
a cada um alcançar a salvação, com a sua livre colaboração. Por isso o
Concílio, após afirmar a dimensão central do Mistério Pascal, diz: « isto não
vale apenas para aqueles que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa
vontade, no coração dos quais opera invisivelmente a graça. Na verdade, se
Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, isto é,
a divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um
modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao Mistério
Pascal ».19
« Não podemos calar-nos »
(at 4, 20)
11. Que dizer então das
objecções, atrás referidas, relativamente à missão ad gentes? Respeitando todas
as crenças e todas as sensibilidades, devemos afirmar antes de mais, com simplicidade,
a nossa fé em Cristo, único Salvador do homem — fé que recebemos como um dom do
Alto, sem mérito algum da nossa parte. Dizemos com S. Paulo: « eu não me
envergonho do Evangelho, o qual é poder de Deus para salvação de todo o crente
» (Rm 1, 16). Os mártires cristãos de todos os tempos — também do nosso — deram
e continuam a dar a vida para testemunhar aos homens esta fé, convencidos de
que cada homem necessita de Jesus Cristo, o Qual, destruindo o pecado e a
morte, reconciliou os homens com Deus. Cristo proclamou-se Filho de Deus,
intimamente unido ao Pai e, como tal, foi reconhecido pelos discípulos,
confirmando as suas palavras com milagres e sobretudo com a ressurreição. A
Igreja oferece aos homens o Evangelho, documento profético, capaz de corresponder
às exigências e aspirações do coração humano: é e será sempre a « Boa Nova ». A
Igreja não pode deixar de proclamar que Jesus veio revelar a face de Deus, e
merecer, pela cruz e ressurreição, a salvação para todos os homens. À pergunta
porquê a missão?, respondemos, com a fé e a experiência da Igreja, que abrir-se
ao amor de Cristo é a verdadeira libertação. N-Ele, e só n-Ele, somos libertos
de toda a alienação e extravio, da escravidão ao poder do pecado e da morte.
Cristo é verdadeiramente « a nossa paz » (Ef 2,14), e « o amor de Cristo nos
impele » (2 Cor 5, 14), dando sentido e alegria à nossa vida. A missão é um
problema de fé, é a medida exacta da nossa fé em Cristo e no Seu amor por nós.
A tentação hoje é reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como
se fosse a ciência do bom viver. Num mundo fortemente secularizado, surgiu uma
« gradual secularização da salvação », onde se procura lutar, sem dúvida, pelo
homem, mas por um homem dividido a meio, reduzido unicamente à dimensão horizontal.
Ora nós sabemos que Jesus veio trazer a salvação integral, que abrange o homem
todo e todos os homens, abrindo-lhes os horizontes admiráveis da filiação
divina. Porquê a missão? Porque a nós, como a S. Paulo, « nos foi dada esta
graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo » (Ef 3, 8). A
novidade de vida n-Ele é « Boa Nova » para o homem de todos os tempos: a ela
todos são chamados e destinados. Todos, de facto, a buscam, mesmo se às vezes
confusamente, e têm o direito de conhecer o valor de tal dom e aproximar-se
dele. A Igreja, e nela cada cristão, não pode esconder nem guardar para si esta
novidade e riqueza, recebida da bondade divina para ser comunicada a todos os
homens. Eis por que a missão, para além do mandato formal do Senhor, deriva
ainda da profunda exigência da vida de Deus em nós. Aqueles que estão
incorporados na Igreja Católica devem-se sentir privilegiados, e, por isso
mesmo, mais comprometidos a testemunhar a fé e a vida cristã como serviço aos
irmãos e resposta devida a Deus, lembrados de que « a grandeza da sua condição
não se deve atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo;
se não correspondem a essa graça por pensamentos, palavras e obras, em vez de
se salvarem, incorrem num julgamento ainda mais severo ».20
CAPITULO II
O REINO DE DEUS
12. « Deus, rico em
misericórdia, é Aquele que Jesus Cristo nos revelou como Pai. Foi o Seu próprio
Filho Quem, em Si mesmo, no-l-O manifestou e deu a conhecer »,21 Isto escrevi-o
eu, no início da Encíclica Dives in Misericordia, mostrando como Cristo é a
revelação e a encarnação da misericórdia do Pai. A salvação consiste em crer e
acolher o mistério do Pai e do Seu amor, que se manifesta e oferece em Jesus,
por meio do Espírito. Assim se cumpre o Reino de Deus, preparado já no Antígo
Testamento, realizado por Cristo e em Cristo, anunciado a todos os povos pela
Igreja, que actua e reza para que ele se realize de modo perfeito e definitivo.
Na verdade, o Antigo Testamento atesta que Deus escolheu para Si e formou um
povo, para revelar e cumprir o Seu plano de amor. Mas, ao mesmo tempo, Deus é
criador e Pai de todos os homens, atende às necessidades de cada um, estende a
Sua bênção a todos (cf. Gn 12, 3) e com todos selou uma aliança (cf. Gn 9, 1-17).
Israel faz a experiência de um Deus pessoal e salvador (cf. Dt 4, 37; 7, 6-8;
Is 43, 1-7), do Qual se torna testemunha e portavoz, no meio das nações. Ao
longo da sua história, Israel toma consciência de que a sua eleição tem um
significado universal (cf por ex.: Is 2, 2-5; 25, 6-8; 60, 1-6; Jer 3, 17; 16,
19).
Cristo torna presente o
Reino
13. Jesus de Nazaré levou
o plano de Deus ao seu pleno cumprimento. Depois de ter recebido o Espírito
Santo no baptismo, Ele manifesta a sua vocação messianica nestes moldes:
percorre a Galileia, « pregando a Boa Nova de Deus: -Completou-se o tempo, o
Reino de Deus está perto! Arrependei-vos, e acreditai na Boa Nova- » (Mc 1, 14-15;
cf. Mt 4, 17; Lc 4, 43). A proclamação e a instauração do Reino de Deus são o
objectivo da Sua missão: « pois foi para isso que fui enviado » (Lc 4, 43).
Mais ainda: o próprio Jesus é a « Boa Nova », como afirma logo no início da
missão, na sinagoga da Sua terra natal, aplicando a Si próprio as palavras de
Isaías, sobre o Ungido, enviado pelo Espírito do Senhor (cf. Lc 4, 14-21).
Sendo Ele a « Boa Nova », então em Cristo há identidade entre mensagem e
mensageiro, entre o dizer, o fazer e o ser. A força e o segredo da eficácia da
Sua acção está na total identificação com a mensagem que anuncia: proclama a «
Boa Nova » não só por aquilo que diz ou faz, mas também pelo que é. O
ministério de Jesus é descrito no contexto das viagens na Sua terra. O
horizonte da missão antes da Páscoa concentra-se em Israel; no entanto, Jesus
oferece um novo elemento de importancia capital. A realidade escatológica não
fica adiada para um remoto fim do mundo, mas está próxima e começa já a cumprir-se.
O Reino de Deus aproxima-se (cf. Mc 1, 15), roga-se que venha (Mt 6, 10), a fé
já o descobre operante nos sinais, isto é, nos milagres (cf. Mt 11, 4-5), nos
exorcismos (cf. Mt 12, 25-28), na escolha dos Doze (cf. Mc 3, 13-19), no
anúncio de Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 18). Nos encontros de Jesus com os
pagãos, fica claro que o acesso ao Reino se faz pela fé e conversão (cf. Mc 1,
15), e não por mera proveniência étnica. O Reino, inaugurado por Jesus, é o
Reino de Deus: o próprio Jesus revela Quem é este Deus, para o Qual usa a
expressão familiar « Abba », Pai (Mc 14, 36). Deus, revelado especialmente nas
parábolas (cf. Lc 15, 3-32; Mt 20, 1-16), é sensível às necessidades e aos
sofrimentos do homem: um Pai cheio de amor e compaixão, que perdoa e dá
gratuitamente os benefícios que Lhe pedem. S. João diz-nos que « Deus é amor »
(1 Jo 4, 8.16). Todo o homem, por isso, é convidado a « converter-se » e a «
crer » no amor misericordioso de Deus por ele: o Reino crescerá na me dida em
que cada homem aprender a dirigir-se a Deus, na intimidade da oração, como a um
Pai (cf. Lc 11, 2; Mt 23, 9), e se esforçar por cumprir a Sua vontade (cf. Mt
7, 21).
Características e
exigências do Reino
14. Jesus revela
progressivamente as características e as exigências do Reino, através das suas
palavras, das suas obras e da sua pessoa. O Reino de Deus destina-se a todos os
homens, pois todos foram chamados a pertencer-lhe. Para sublinhar este aspecto,
Jesus aproximou-se sobretudo daqueles que eram marginalizados pela sociedade,
dando-lhes preferência, ao anunciar a Boa Nova. No início do Seu ministério,
proclama: fui enviado a anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 18). As
vítimas da rejeição e do desprezo, declara: « bem-aventurados vós, os pobres »
(Lc 6, 20), fazendo-lhes, inclusive, sentir e viver já uma experiência de
libertação, estando com eles, partilhando a mesma mesa (cf. Lc 5, 30; 15, 2),
tratando-os como iguais e amigos (cf. Lc 7, 34), procurando que se sentissem
amados por Deus, e revelando deste modo imensa ternura pelos necessitados e
pecadores (cf. Lc 15, 1-32). A libertação e a salvação, oferecidas pelo Reino
de Deus, atingem a pessoa humana tanto nas suas dimensões físicas como
espirituais. Dois gestos caracterizam a missão de Jesus: curar e perdoar. As
múltiplas curas provam a Sua grande compaixão face às misérias humanas; mas
significam também que, no Reino de Deus, não haverá doenças nem sofrimentos, e
que a Sua missão, desde o início, visa libertar as pessoas daqueles. Na
perspectiva de Jesus, as curas são também sinal da salvação espiritual, isto é,
da libertação do pecado Realizando gestos de cura, Jesus convida à fé, à conversão,
ao desejo do perdão (cf. Lc 5, 24) Recebida a fé, a cura impele a ir mais
longe: introduz na salvação (cf. Lc 18, 42-43). Os gestos de libertação da
possessão do demónio, mal supremo e símbolo do pecado e da rebelião contra
Deus, são sinais de que o « Reino de Deus chegou até vós » (Mt 12, 28).
15. O reino pretende
transformar as relações entre os homens, e realiza-se progressivamente à medida
que estes aprendem a amar, perdoar, a servir-se mutuamente. Jesus retoma toda a
Lei, centrando-a no mandamento do amor (cf. Mt 22, 34-40; Lc 10, 25-28). Antes
de deixar os seus, dá-lhes um « mandamento novo »: « amai-vos uns aos outros
como Eu vos amei » (Jo 13, 34; cf. 15, 12). 0 amor com que Jesus amou o mundo
tem a sua expressão suprema, no dom da Sua vida pelos homens (cf. Jo 15, 13),
que manifesta o amor que o Pai tem pelo mundo (cf. Jo 3, 16). Por isso a
natureza do Reino é a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus. O
Reino diz respeito a todos: às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro. Trabalhar
pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está
presente na história humana e a transforma. Construir o Reino quer dizer
trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas formas. Em resumo, o
Reino de Deus é a manifestação e a actuação do Seu desígnio de salvação, em
toda a sua plenitude.
Em Cristo ressuscitado, o
Reino cumpre-se e é proclamado
16. Ao ressuscitar Jesus
dos mortos, Deus venceu a morte, e n-Ele inaugurou definitivamente o Seu Reino.
Durante a vida terrena, Jesus é o profeta do Reino e, depois da Sua paixão,
ressurreição e ascenção aos céus, participa do poder de Deus, e do Seu domínio
sobre o mundo (cf Mt 28, 18; At 2, 36; Ef 1, 18-21). A ressurreição confere à
mensagem de Cristo, e a toda a Sua acção e missão, um alcance universal. Os
discípulos constatam que o Reino já está presente na pessoa de Jesus, e pouco a
pouco vai-se instaurando no homem e no mundo, por uma misteriosa ligação com a
Sua pessoa. Assim depois da ressurreição, eles pregam o Reino, anunciando a
morte e a ressurreição de Jesus; Filipe, na Samaria, « anunciava a Boa Nova do
Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo » (At 8, 12). Paulo, em Roma, «
anunciava o Reino de Deus e ensinava o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo
» (At 28, 31). Também os primeiros cristãos anunciam « o Reino de Cristo e de
Deus » (Ef 5, 5; cf. Ap 11, 15; 12, 10), ou então « o Reino eterno de Nosso
Senhor e Salvador, Jesus Cristo » (2 Ped 1, 11). Sobre o anúncio de Jesus
Cristo, com o Qual o Reino se identifica, se concentra a pregação da Igreja
primitiva. Como outrora, é preciso unir hoje o anúncio do Reino de Deus (o
conteúdo do « kerigma » de Jesus) e a proclamação da vinda de Jesus Cristo (o «
kerigma » dos apóstolos). Os dois anúncios completam-se e iluminam-se mutuamente.
O Reino em relação a
Cristo e à Igreja
17. Hoje fala-se muito do
Reino, mas nem sempre em consonancia com o sentir da Igreja. De facto, existem
concepções de salvação e missão que podem ser designadas « antropocêntricas »,
no sentido redutivo da palavra, por se concentrarem nas necessidades terrenas
do homem. Nesta perspectiva, o Reino passa a ser uma realidade totalmente
humanizada e secularizada, onde o que conta são os programas e as lutas para a
libertação socio-económica, política e cultural, mas sempre num horizonte
fechado ao transcendente. Sem negar que, a este nível, também existem valores a
promover, todavia estas concepções permanecem nos limites de um reino do homem,
truncado nas suas mais autênticas e profundas dimensões, espelhando-se
facilmente numa das ideologias de progresso puramente terreno. O Reino de Deus,
pelo contrário, « não é deste mundo (...) não é daqui debaixo » (Jo 18, 36).
Existem também concepções que propositadamente colocam o acento no Reino,
autodenominando-se de « reino-cêntricas », pretendendo com isso fazer ressaltar
a imagem de uma Igreja que não pensa em si, mas dedica-se totalmente a
testemunhar e servir o Reino. E uma « Igreja para os outros » — dizem — como
Cristo é o homem para os outros. A tarefa da Igreja é orientada num duplo
sentido: por um lado promover os denominados « valores do Reino », como a paz,
a justiça,a liberdade, a fraternidade, por outro, favorecer o diálogo entre os
povos, as culturas, as religiões, para que, num mútuo enriquecimento, ajudem o
mundo a renovar-se e a caminhar cada vez mais na direcção do Reino. Ao lado de
aspectos positivos, essas concepções revelam frequentemente outros negativos.
Antes de mais, silenciam o que se refere a Cristo: o Reino, de que falam,
baseia-se num « teocentrismo », porque — como dizem — Cristo não pode ser
entendido por quem não possui a fé n-Ele, enquanto que povos, culturas e
religiões se podem encontrar na mesma e única realidade divina, qualquer que
seja o seu nome. Pela mesma razão, realçam o mistério da criação, que se
reflecte na variedade de culturas e crenças, mas omitem o mistério da redenção.
Mais ainda, o Reino, tal como o entendem eles, acaba por marginalizar ou
desvalorizar a Igreja, como reacção a um suposto eclesiocentrismo do passado, por
considerarem a Igreja apenas um sinal, aliás passível de ambiguidade.
18. Ora este não é o
Reino de Deus, que conhecemos pela Revelação: ele não pode ser separado de
Cristo nem da Igreja. Como já se disse, Cristo não só anunciou o Reino, mas, n-Ele,
o próprio Reino se tornou presente e plenamente se realizou. E não apenas
através das Suas palavras e obras: « o Reino manifesta-se principalmente na
própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do Homem, que veio -para servir
e dar a Sua vida em resgate por muitos- (Mc 10, 45) ».22 O Reino de Deus não é
um conceito, uma doutrina, um programa sujeito a livre elaboração, mas é, acima
de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus
invisível.23 Se separarmos o Reino, de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus por
Ele pregado, acabando por se distorcer quer o sentido do Reino, que corre o
risco de se transformar numa meta puramente humana ou ideológica, quer a
identidade de Cristo, que deixa de aparecer como o Senhor, a Quem tudo se deve
submeter (cf. 1 Cor 15, 27). De igual modo, não podemos separar o Reino, da
Igreja. Com certeza que esta não é fim em si própria, uma vez que se ordena ao
Reino de Deus, do qual é princípio, sinal e instrumento. Mesmo sendo distinta
de Cristo e do Reino, a Igreja todavia está unida indissoluvelmente a ambos.
Cristo dotou a Igreja, Seu Corpo, da plenitude de bens e de meios da salvação;
o Espírito Santo reside nela, dá-lhe a vida com os Seus dons e carismas,
santifica, guia e renova-a continuamente.24 Nasce daí uma relação única e
singular que, mesmo sem excluir a obra de Cristo e do Espírito fora dos confins
visíveis da Igreja, confere a esta um papel específico e necessário. Disto
provém a ligação especial da Igreja com o Reino de Deus e de Cristo, que ela t
em « a mis s ão de anunciar e est ab elecer em todos os povos ».25
19. Nesta visão de
conjunto, é que se compreende a realidade do Reino. É verdade que ele exige a
promoção dos bens humanos e dos valores, que podem mesmo ser chamados «
evangélicos », porque intimamente ligados à Boa Nova. Mas essa promoção, que a
Igreja também toma a peito realizar, não deve ser separada nem contraposta às
outras suas tarefas fundamentais, como são o anúncio de Cristo e Seu Evangelho,
a fundação e desenvolvimento de comunidades que actuem entre os homens a imagem
viva do Reino. Isto não nos deve fazer recear que se possa cair numa forma de
eclesiocentrismo. Paulo VI, que afirmou existir « uma profunda ligação entre
Cristo, a Igreja e a evangelização »,26 disse também que a Igreja « não é fim
em si própria, pelo contrário, deseja intensamente ser toda de Cristo, em
Cristo e para Cristo, e toda dos homens, entre os homens e para os homens ».27
A Igreja ao serviço do
Reino
20. A Igreja está
efectiva e concretamente ao serviço do Reino. Em primeiro lugar, serve-o com o
anúncio que chame à conversão: este é o primeiro e fundamental serviço à vinda
do Reino para cada pessoa e para a sociedade humana. A salvação escatológica
começa já agora, na novidade de vida em Cristo: « a todos os que O receberam,
aos que crêem n-Ele, deu o poder de se tornarem filhos de Deus » (Jo 1, 12). A
Igreja serve ainda o Reino, fundando comunidades, constituindo Igrejas
particulares, levando-as ao amadurecimento da fé e da caridade, na abertura aos
outros, no serviço à pessoa e à sociedade, na compreensão e estima das
instituições humanas. A Igreja, além disso, serve o Reino, difundindo pelo
mundo os «valores evangélicos», que são a expressão do Reino, e ajudam os
homens a acolher o desígnio de Deus. É verdade que a realidade incipiente do
Reino se pode encontrar também fora dos confins da Igreja, em toda a humanidade
na medida em que ela viva os «valores evangélicos » e se abra à acção do
Espírito que sopra onde e como quer (cf. Jo 3, 8); mas é preciso acrescentar,
logo a seguir, que esta dimensão temporal do Reino está incompleta, enquanto
não se ordenar ao Reino de Cristo, presente na Igreja, em constante tensão para
a plenitude escatológica.28 As múltiplas perspectivas do Reino de Deus 29 não
enfraquecem os fundamentos e as finalidades missionárias; pelo contrário,
fortificam e expandem-nas. A Igreja é sacramento de salvação para toda a
humanidade; a sua acção não se limita àqueles que aceitam a sua mensagem. Ela é
força actuante no caminho da humanidade rumo ao Reino escatológico, é sinal e
promotora dos valores evangélicos entre os homens.30 Neste itinerário de
conversão ao projecto de Deus, a Igreja contribui com o seu testemunho e
actividade, expressa no diálogo, na promoção humana, no compromisso pela paz e
pela justiça, na educação, no cuidado dos doentes, na assistência aos pobres e
mais pequenos, mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentes
e espirituais, premissas da salvação escatológica. A Igreja serve o Reino tembém
com a sua intercessão, uma vez que aquele, por sua natureza, é dom e obra de
Deus, como lembram as parábolas evangélicas e a própria oração que Jesus nos
ensinou. Devemos suplicá-lo, para que seja acolhido e cresça em nós; mas
devemos simultaneamente cooperar a fim de que seja aceite e se consolide entre
os homens, até Cristo « entregar o Reino a Deus Pai », altura essa em que «
Deus será tudo em todos » (1 Cor 15, 24.28).
CAPÍTULO III
O ESPÍRITO SANTO
PROTAGONISTA DA MISSÃO
21. « No ápice da missão messianica
de Jesus, o Espírito Santo aparece-nos, no mistério pascal, em toda a Sua
subjectividade divina, como Aquele que deve continuar agora a obra salvífica,
radicada no sacrifício da cruz. Esta obra, sem dúvida, foi confiada aos homens:
aos Apóstolos e à Igreja. No entanto, nestes homens e por meio deles, o
Espírito Santo permanece o sujeito protagonista transcendente da realização
dessa obra, no espírito do homem e na história do mundo ».31 Verdadeiramente o
Espírito Santo é o protagonista de toda a missão eclesial: a Sua obra brilha
esplendorosamente na missão ad gentes, como se vê na Igreja primitiva pela
conversão de Cornélio (cf. At 10), pelas decisões acerca dos problemas surgidos
(cf. At 15), e pela escolha dos territórios e povos (cf. At 16, 6 s). O
Espírito Santo age através dos Apóstolos, mas, ao mesmo tempo, opera nos
ouvintes: « pela Sua acção a Boa Nova ganha corpo nas consciências e nos
corações humanos, expandindo-se na história. Em tudo isto, é o Espírito Santo
que dá a vida ».32 O envio «até aos confins da terra » (at 1, 8)
22. Todos os
evangelistas, ao narrarem o encontro de Cristo Ressuscitado com os Apóstolos,
concluem com o mandato missionário: « foi-Me dado todo o poder no céu e na
terra Ide, pois, ensinai todas as nações (...) Eu estarei convosco todos os
dias, até ao fim do mundo » (Mt 28, 18-20; cf. Mc 16, 15-18; Lc 24, 46-49; Jo
20, 21-23). Esta missão é envio no Espírito, como se vê claramente no texto de
S. João: Cristo envia os Seus, ao mundo, como o Pai O enviou a Ele; e, para
isso, concede-lhes o Espírito. Lucas põe em estreita relação o testemunho que
os Apóstolos deverão prestar de Cristo com a acção do Espírito, que os
capacitará para cumprir o mandato recebido.
23. As várias formas do «
mandato missionário » contêm pontos em comum, mas também acentuações próprias
de cada evangelista; dois elementos , de facto , encontram- se em to das as
versões. Antes de mais, a dimensão universal da tarefa confiada aos Apóstolos:
« todas as nações » (Mt 28, 19); « pelo mundo inteiro, a toda a criatura » (Mc
16, 15); « todos os povos » (Lc 24, 47); « até aos confins do mundo » (At 1,
8). Em segundo lugar, a garantia, dada pelo Senhor, de que, nesta tarefa, não
ficarão sozinhos, mas receberão a força e os meios para desenvolver a sua missão;
estes são a presença e a potência do Espírito e a assistência de Jesus: « eles,
partindo, foram pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles » (Mc
16, 20). Quanto às diferenças de acentuação no mandato, Marcos apresenta a
missão como proclamação ou kerigma: « anunciai o Evangelho » (Mc 16, 15). O seu
evangelho tem como objectivo levar o leitor a repetir a confissão de Pedro: «
Tu és o Cristo » (Mc 8, 29) e a dizer como o centurião romano diante de Jesus
morto na cruz: « verdadeiramente este Homem era o Filho de Deus » (Mc 15, 39).
Em Mateus, o acento missionário situa-se na fundação da Igreja e no seu
ensinamento (cf. Mt 28, 19-20; 16, 18); nele, o mandato evidencia a proclamação
do Evangelho, mas enquanto deve ser completada por uma específica catequese de
ordem eclesial e sacramental. Em Lucas, a missão é apresentada como um
testemunho (cf. Lc 24, 48; At 1, 8), principalmente da ressurreição (At 1, 22);
o missionário é convidado a crer na potência transformadora do Evangelho e a
anunciar a conversão ao amor e à misericórdia de Deus — que Lucas ilustra muito
bem —, a experiência de uma libertação integral até à raiz de todo o mal, o
pecado. João é o único que fala explicitamente de « mandato » — palavra
equivalente a « missão » — e une directamente a missão confiada por Jesus aos
seus discípulos, com aquela que Ele mesmo recebeu do Pai: « assim como o Pai me
enviou, também Eu vos envio a vós » (Jo 20, 21). Jesus, dirigindo-se ao Pai,
diz: « assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os envio ao mundo » (Jo
17, 18). Todo o sentido missionário do Evangelho de S. João se pode encontrar
na « Oração Sacerdotal »: a vida eterna é « que Te conheçam a Ti, único Deus
Verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste » (Jo 17, 3). O fim último da
missão é fazer participar na comunhão que existe entre o Pai e o Filho: os
discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para
que o mundo conheça e creia (cf. Jo 17, 21.23). Trata-se de um texto de grande
alcance missionário, fazendo-nos entender que somos missionários sobretudo por
aquilo que se é, como Igreja que vive profundamente a unidade no amor, e não
tanto por aquilo que se diz ou faz. Portanto os quatro Evangelhos, na unidade
fundamental de mesma missão, manifestam todavia um pluralismo, que reflecte as
diversas experiências e situações das primeiras comunidades cristãs. Também
esse pluralismo é fruto do impulso dinamico do Espírito, convidando a prestar
atenção aos vários carismas missionários e às múltiplas condições ambientais e
humanas. No entanto, todos os evangelistas sublinham que a missão dos
discípulos é colaboração com a de Cristo: « Eu estarei convosco todos os dias,
até ao fim do mundo » (Mt 28, 20). Assim a missão não se baseia na capacidade
humana, mas na força de Cristo ressuscitado.
O Espírito guia a missão
24. A missão da Igreja,
tal como a de Jesus, é obra de Deus, ou, usando uma expressão frequente em S.
Lucas, é obra do Espírito Santo. Depois da ressurreição e ascenção de Jesus, os
Apóstolos viveram uma intensa experiência que os transformou: o Pentecostes. A
vinda do Espírito Santo fez deles testemunhas e profetas (cf. At 1, 8; 2, 17-18),
infundindo uma serena audácia, que os leva a transmitir aos outros a sua
experiência de Jesus e a esperança que os anima. O Espírito deu-lhes a
capacidade de testemunhar Jesus « sem medo ».33 Quando os evangelizadores saiem
de Jerusalém, o Espírito assume ainda mais a função de « guia » na escolha
tanto das pessoas como dos itinerários da missão. A Sua acção manifesta-se
especialmente no impulso dado à missão que, de facto, se estende, segundo as
palavras de Cristo, desde Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e vai até aos
confins do mundo. Os Actos dos Apóstolos referem seis « discursos missionários
», em miniatura, que foram dirigidos aos judeus, nos primórdios da Igreja (cf.
At 2, 22-39; 3, 12-26; 4, 9-12; 5, 29-32; 10, 34-43; 13, 16-41). Estes
discursos-modelo, pronunciados por Pedro e por Paulo, anunciam Jesus, convidam
a « converter-se », isto é, a acolher Jesus na fé e a deixar-se transformar n-Ele,
pelo Espírito. Paulo e Barnabé são impelidos pelo Espírito para a missão entre
os pagãos (cf At 13, 46-48), mesmo no meio de tensões e problemas. Como devem
viver os pagãos convertidos, a sua fé em Jesus? Ficam eles vinculados à
tradição do judaismo e à lei da circuncisão? No primeiro Concílio, que reune em
Jerusalem, à volta dos Apóstolos, os membros das diversas Igrejas, é tomada uma
decisão considerada como emanada do Espírito Santo: não é necessário que o
pagão se submeta à lei judaica para ser cristão (cf At 15, 5-11.28) A partir
desse momento, a Igreja abre as suas portas e torna-se a casa onde todos podem
entrar e sentir-se à vontade, conservando as próprias tradições e cultura,
desde que não estejam em contraste com o Evangelho.
25. Os missionários,
seguindo esta linha de acção, tiveram presente os anseios e as esperanças, as
aflições e os sofrimentos, a cultura do povo, para lhe anunciar a salvação em
Cristo. Os discursos de Listra e de Atenas (cf. At 14, 15-17; 17, 22-31) são
considerados modelo para a evangelização dos pagãos: neles, Paulo « dialoga »
com os valores culturais e religiosos dos diferentes povos. Aos habitantes da
Licaónia, que praticavam uma religião cósmica, Paulo lembra experiências
religiosas que se referiam ao cosmos; com os Gregos, discute sobre filo sofia e
cita os seus poetas (cf. At 17, 18.26-28). O Deus que vem revelar, já está
presente nas suas vidas: de facto, foi Ele Quem os criou, e é Ele que
misteriosamente conduz os povos e a história; no entanto, para reconhecerem o
verdadeiro Deus, é necessário que abandonem os falsos deuses que eles próprios
fabricaram, e se abram Àquele que Deus enviou para iluminar a sua ignorância e
satisfazer os anseios dos seus corações (cf. At 17, 27-30). São discursos que
oferecem exemplos de inculturação do Evangelho. Sob o impulso do Espírito, a fé
cristã abre-se decididamente às nações pagãs, e o testemunho de Cristo expande-se
em direcção aos centros mais importantes do Mediterraneo oriental, para chegar
depois a Roma e ao extremo ocidente. É o Espírito que impele a ir sempre mais
além, não só em sentido geográfico, mas também ultrapassando barreiras étnicas
e religiosas, até se chegar a uma missão verdadeiramente universal.
O Espírito torna
missionária toda a Igreja
26. O Espírito impele o
grupo dos crentes a « constituirem comunidades », a serem Igreja. Depois do
primeiro anúncio de Pedro no dia de Pentecostes e as conversões que se
seguiram, forma-se a primeira comunidade (cf. At 2, 42-47; 4, 32-35). Com efeito,
uma das finalidades centrais da missão é reunir o povo de Deus na escuta do
Evangelho, na comunhão fraterna, na oração e na Eucaristia. Viver a « comunhão
fraterna » (koinonía) significa ter « um só coração e uma só alma » (At 4, 32),
instaurando uma comunhão sob os aspectos humano, espiritual e material. A
verdadeira comunidade cristã sente necessidade de distribuir os próprios bens,
para que não haja necessitados, e todos possam ter acesso a esses bens, «
conforme as necessidades de cada um » (At 2, 45; 4, 35). As primeiras
comunidades, onde reinava « a alegria e a simplicidade de coração » (At 2, 46),
eram dinamicamente abertas e missionárias: « gozavam da estima de todo o povo »
(At 2, 47). Antes ainda da acção, a missão é testemunho e irradiação.34
27. Os Actos dos
Apóstolos mostram que a missão primeiro se dirigia a Israel, e depois aos
pagãos. Para a actuação dessa missão, aparece antes de tudo o grupo dos Doze
que, como um corpo guiado por Pedro, proclama a Boa Nova. Depois temos a
comunidade dos crentes que, com o seu modo de viver e agir, dá testemunho do
Senhor e converte os pagãos (cf. At 2, 46-47). Existem também enviados
especiais, destinados a anunciar o Evangelho. Assim a comunidade cristã de
Antioquia envia os seus membros em missão: depois de ter jejuado, rezado e
celebrado a Eucaristia, ela faz notar que o Espírito escolheu Paulo e Barnabé
para serem enviados (cf At 13, 1-4). Logo, nas suas origens, a missão foi vista
como um compromiso comunitário e uma responsabilidade da Igreja local, que
necessita de « missionários » para se expandir em direcção a novas fronteiras.
Ao lado destes enviados, havia outros que testemunhavam espontaneamente a
novidade que tinha transformado as suas vidas e uniam à Igreja apostólica, as
comunidades em formação. A leitura dos Actos mostra-nos que, no início da
Igreja, a missão ad gentes, embora contando com missionários integralmente
dedicados a ela por vocação especial, todavia era considera da como o fruto
normal da vida cristã, graças ao compromisso de cada crente actuado através do
testemunho pessoal e do anúncio explícito, sempre que possível.
O Espírito está presente
e operante em todo o tempo e lugar
28. O Espírito manifesta-se
particularmente na Igreja e nos seus membros, mas a Sua presença e acção são
universais, sem limites de espaço nem de tempo.35 O Concílio Vaticano II lembra
a obra do Espírito no coração de cada homem, cuidando e fazendo germinar as «
sementes do Verbo », presentes nas iniciativas religiosas e nos esforços
humanos à procura da verdade, do bem, e de Deus.36 O Espírito oferece ao homem
« luz e forças que lhe permitem corresponder à sua altíssima vocação »; graças
a Ele, « o homem chega, por meio da fé, a contemplar e saborear o mistério dos
planos divinos »; mais ainda, « devemos acreditar que o Espírito Santo oferece
a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao
mistério pascal ».37 Seja como for, a Igreja sabe que o homem, solicitado
incessantemente pelo Espírito de Deus, nunca poderá ser totalmente indiferente
ao problema da religião, mantendo sempre o desejo de saber, mesmo se
confusamente, qual o significado da sua vida, da sua actividade, e da sua
morte.38 O Espírito está, portanto, na própria origem da questão existencial e
religiosa do homem, que surge não só de situações contingentes, mas sobretudo
da estrutura própria do seu ser.39 A presença e acção do Espírito não atingem
apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as
culturas e as religiões. Com efeito, Ele está na base dos ideais nobres e das
iniciativas benfeitoras da humanidade peregrina: « com admirável providência, o
Espírito dirige o curso dos tempos e renova a face da terra ».40 Cristo
ressuscitado, « pela virtude do Seu Espírito, actua já nos corações dos homens,
não só despertando o desejo da vida futura, mas também alentando, purificando e
robustecendo a família humana para tornar mais humana a sua própria vida e
submeter a terra inteira a este fim »,41 É ainda o Espírito que infunde as «
sementes do Verbo », presentes nos ritos e nas culturas, e as faz maturar em
Cristo.42
29. Assim o Espírito que
« sopra onde quer » (Jo 3, 8) e que « já estava a operar no mundo, antes da
glorificação do Filho »,43 que « enche o universo, abrangendo tudo e de tudo
tem conhecimento » (Sab 1, 7), induz-nos a estender o olhar, para podermos
melhor considerar a Sua acção, presente em todo o tempo e lugar.44 É uma
referência que eu próprio sigo muitas vezes e que me guiou nos encontros com os
mais diversos povos. As relações da Igreja com as restantes religiões baseiam-se
num duplo aspecto: « respeito pelo homem na sua busca de resposta às questões
mais profundas da vida, e respeito pela acção do Espírito nesse mesmo homem
».45 0 encontro interreligioso de Assis, excluída toda e qualquer interpretação
equívoca, reforçou a minha convicção de que « toda a oração autêntica é
suscitada pelo Espírito Santo, que está misteriosamente presente no coração dos
homem ». 46 Este Espírito é o mesmo que agiu na encarnação, vida, morte e ressurreição
de Jesus, e actua na Igreja. Não é de modo nenhum uma alternativa a Cristo, nem
vem preencher uma espécie de vazio, como algumas vezes se sugere existir, entre
Cristo e o Logos. Tudo quanto o Espírito opera no coração dos homens e na
história dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação
evangélica,47 e não pode deixar de se referir a Cristo, Verbo feito carne pela
acção do Espírito, « a fim de, como Homem perfeito, salvar todos os homens e
recapitular em Si todas as coisas ». 48 A acção universal do Espírito,
portanto, não poder ser separada da obra peculiar que Ele desenvolve no Corpo
de Cristo, que é a Igreja. Sempre é o Espírito que actua, quer quando dá vida à
Igreja impelindo-a a anunciar Cristo, quer quando semeia e desenvolve os seus
dons em todos os homens e povos, conduzindo a Igreja à descoberta, promoção e
acolhimento desses dons, através do diálogo. Qualquer presença do Espírito deve
ser acolhida com estima e gratidão, mas o discerni-la compete à Igreja, à qual
Cristo deu o Seu Espírito para a guiar até à verdade total (cf. Jo 16, 13).
A actividade missionária
està ainda no início
30. O nosso tempo, com
uma humanidade em movimento e insatisfeita, exige um renovado impulso na
actividade missionária da Igreja. Os horizontes e as possibilidades da missão
alargam-se, e é-nos pedida, a nós cristãos, a coragem apostólica, apoiada sobre
a confiança no Espírito. Ele é o protagonista da missão! Na história da
humanidade, há numerosas viragens que estimulam o dinamismo missionário, e a
Igreja, guiada pelo Espírito, sempre respondeu com generosidade e
clarividência. Também não faltaram os frutos! Pouco tempo atrás, celebrou-se o
milénio da evangelização da Rússia e dos povos eslavos, estando para se
celebrar o quincentésimo aniversário da evangelização das Américas; foram
entretanto comemorados, de forma solene, os centenários das primeiras missões
em vários Países da Ásia, da África e da Oceania. A Igreja deve hoje enfrentar
outros desafios, lançando-se para novas fronteiras, quer na primeira missão ad
gentes, quer na nova evangelização dos povos que já receberam o anúncio de
Cristo: A todos os cristãos, às Igrejas particulares e à Igreja universal, pede-se
a mesma coragem que moveu os missionários do passado, a mesma disponibilidade
para escutar a voz do Espírito.
CAPÍTULO IV
OS IMENSOS HORIZONTES DA
MISSÃO AD GENTES
31. O Senhor Jesus enviou
os Seus Apóstolos, a todas as pessoas, a todos os povos e a todos os lugares da
terra. Nos Apóstolos, a Igreja recebeu uma missão universal, sem limites,
referindo-se à salvação em toda a sua integridade, segundo aquela plenitude de
vida que Cristo veio trazer (cf. Jo 10, 10): ela foi « enviada para manifestar
e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos ».49 Esta missão é
única, sendo a mesma a sua origem e fim; mas na sua dinamica de realização, há
diversas funções e actividades. Antes de tudo, está a acção missionária,
denominada « missão ad gentes » pelo Decreto conciliar: trata-se de uma
actividade primária e essencial da Igreja, jamais concluída. Com efeito, a
Igreja « não pode eximir-se da missão permanente de levar o Evangelho a quantos
— e são milhões e milhões de homens e mulheres — ainda não conhecem Cristo
Redentor do homem. Esta é a tarefa mais especificamente missionária que Jesus
confiou e continua quotidianamente a confiar à Sua Igreja ».50
Um quadro religioso
complexo e em mutação
32. Encontramo-nos hoje
diante de uma situação religiosa bastante diversificada e mutável: os povos
estão em movimento; certas realidades sociais e religiosas, que, tempos atrás,
eram claras e definidas, hoje evoluem em situações complexas. Basta pensar em
fenómenos tais como o urbanismo, as migrações em massa, a movimentação de
refugiados, a descristianização de países com antiga tradição cristã, a
influência crescente do Evangelho e dos seus valores em países de elevada
maioria não cristã, o pulular de messianismos e de seitas religiosas. É uma
alteração tal de situações religiosas e sociais, que se torna difícil aplicar
em concreto certas distinções e categorias eclesiais, a que estávamos
habituados. Já antes do Concílio, era comum atribuir, a algumas metrópoles ou
regiões cristãs, a classificação de « terra de missão », e passados estes anos
não se pode dizer que a situação melhorou. Por outro lado, a obra missionária
produziu abundantes frutos, em todas as partes do mundo, como o demonstram as
Igrejas implantadas de uma forma tão sólida e amadurecida, que já é capaz de
prover às necessidades das suas comunidades, a ponto de enviarem até pessoas a
evangelizar outras Igrejas e territórios. Daí o contraste com áreas de antiga
tradição cristã, carecidas de serem re-evangelizadas. Alguns perguntam-se
inclusive se ainda é o caso de falar em actividade missionária específica, ou
dos seus ambitos específicos ou se não deveríamos antes admitir que existe uma
única situação missionária, havendo apenas uma única missão, igual em todo o
lugar. A dificuldade é real, e a prova de quão difícil é interpretar esta
realidade complexa e mutável em ordem ao mandato de evangelizar está patente no
« vocabulário missionário »: por exemplo, há uma certa hesitação em usar os
termos « missões » e « missionários », porque as consideram superadas por
conterem resquícios históricos negativos; prefere-se usar o substantivo «
missão » no singular, e o adjectivo « missionário » para qualificar toda a
actividade da Igreja. Estas dificuldades denotam uma mudança real, que contém
aspectos positivos. A integração das « missões » na missão da Igreja, o
confluir da missionologia para a eclesiologia, e a inserção de ambas no plano
trinitário da salvação, deu um novo ar à própria actividade missionária, não
concebida já como uma tarefa à margem da Igreja, mas antes inserida no amago da
sua vida, como compromisso fundamental de todo o Povo de Deus. Torna-se
necessário, porém, precaver-se contra o risco de nivelar situações muito
diferentes, e reduzir ou até fazer desaparecer a missão e os missionários ad
gentes. A afirmação de que toda a Igreja é missionária não exclui a existência de
uma específica missão ad gentes, assim como dizer que todos os católicos devem
ser missionários não impede — pelo contrário, exige-o — que haja missionários
ad gentes, dedicados por vocação específica à missão por toda a vida.
A missão ad gentes conserva
o seu valor
33. As diferenças de
actividade, no âmbito da única missão da Igreja, nascem não de motivações
intrínsecas à própria missão, mas das diversas circunstancias onde ela se
exerce.51 Olhando o mundo de hoje, do ponto de vista da evangelização, podemos
distinguir três situações distintas. Antes de mais, temos aquela a que se
dirige a actividade missionária da Igreja: povos, grupos humanos, contextos
socio-culturais onde Cristo e o Seu Evangelho não é conhecido, onde faltam
comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no
próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos. Esta é propriamente a missão ad
gentes.52 Aparecem depois as comunidades cristãs que possuem sólidas e
adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, irradiando o
testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da missão
universal. Nelas se desenvolve a actividade ou cuidado pastoral da Igreja.
Finalmente, existe a situação intermédia, especialmente nos países de antiga tradição
cristã, mas, por vezes, também nas Igrejas mais jovens, onde grupos inteiros de
baptizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros
da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do Seu Evangelho. Neste
caso, torna-se necessária uma « nova evangelização », ou « re-evangelização ».
34. A actividade
missionária específica, ou missão ad gentes, tem como destinatários « os povos
ou grupos que ainda não crêem em Cristo », « aqueles que estão longe de Cristo
», entre os quais a Igreja « não está ainda radicada »,53 e cuja cultura ainda
não foi influenciada pelo Evangelho.54 Distingue-se das outras actividades
eclesiais por se dirigir a grupos e ambientes não cristãos, caracterizados pela
ausência ou insuficiência ao anúncio evang*lico e da presença eclesial. Vem a
ser, portanto, a obra do anúncio de Cristo e do seu Evangelho, da edificação da
Igreja local, da promoção dos valores do Reino. A peculiariedade da missão ad
gentes deriva do facto de se orientar para os « não cristãos ». É preciso
evitar, por isso, que esta « tarefa especificamente missionária, que Jesus
confiou e continua quotidianamente a confiar à Sua Igreja »,55 se torne numa
realidade diluída na missão global de todo o Povo de Deus, ficando desse modo
descurada ou esquecida. De resto, os confins entre o cuidado pastoral dos
fieis, a nova evangelização e a actividade missionária específica não são
facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses ambitos
barreiras ou compartimentos estanques. Não se pode, no entanto, perder a tensão
para o anúncio e para a fundação de novas Igrejas entre povos ou grupos
humanos, onde elas ainda não existem, porque esta é a tarefa primária da
Igreja, que é enviada a todos os povos, até aos confins da terra. Sem a missão
ad gentes, a propria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu
significado fundamental e do seu exemplo de actuação. Registe-se também uma
real e crescente interdependência entre as diversas actividades salvíficas da
Igreja: cada uma influi sobre a outra, estimula e ajuda-a. O dinamismo
missionário permite uma troca de valores entre as Igrejas, e projecta para o
mundo exterior influência positiva em todos os sentidos. As Igrejas de antiga
tradição cristã, por exemplo, preocupadas com a dramática tarefa da nova
evangelização, estão mais conscientes de que não podem ser missionárias dos não
cristãos de outros países e continentes, se não se preocuparem seriamente comos
não cristãos da própria casa: a actividade missionária ad intra é sinal de
autenticidade e de estímulo para realizar a outra ad extra, e vice-versa.
A todos os povos, apesar
das dificuldades
35. A missão ad gentes
tem à sua frente uma tarefa imensa, que está muito longe de se ver concluída.
Pelo contrário, quer desde o ponto de vista numérico devido ao aumento
demográfico, quer do ponto de vista socio-cultural pelo despontar de novas
relações e pela variação das situações, aquela missão parece destinada a
possuir horizontes ainda mais vastos. A tarefa de anunciar Jesus Cristo a todos
os povos apresenta-se enorme e desproporcionada relativamente às forças humanas
da Igreja. As dificuldades parecem insuperáveis e poderiam fazer desanimar, se
se tratasse de uma obra puramente humana. Em alguns países, está proibida a
entrada de missionários; noutros, é proibida tanto a evangelização, como a
conversão e até mesmo o culto cristão. Há outros lugares, onde os obstáculos
são de natureza cultural: a transmissão da mensagem evangélica mostra-se
irrelevante ou incompreensível, e a conversão é considerada como abandono do
próprio povo e cultura.
36. Não faltam também, ao
Povo de Deus, as dificuldades internas, que são as mais dolorosas. Já o meu
predecessor Paulo VI indicava, em primeiro lugar, « a falta de fervor, tanto
mais grave por nascer de dentro; manifesta-se no cansaço, na desilusão, no
acomodamento e no desinteresse, e sobretudo na falta de alegria e de esperança
».56 Grandes obstáculos à acção missionária da Igreja são também as divisões,
passadas e presentes, entre os cristãos,57 a descristianização em países
cristãos, a diminuição das vocações para o apostolado, o contra-testemunho de
fiéis e de comunidades cristãs que não reproduzem em suas vidas o modelo de
Cristo. Mas uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento
missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida,
infelizmente também entre os cristãos, frequentemente radicada em concepções
teológicas incorrectas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a
pensar que « tanto vale uma religião como outra ». Podemos, por último, referir
ainda — como dizia o mesmo Pontífice — a existência de « álibis que podem
afastar da evangelização; os mais insidiosos são certamente aqueles para os
quais se presume encontrar apoio neste ou naquele ensinamento do Concílio ».58
A este respeito, recomendo vivamente aos teólogos e aos profissionais da
imprensa cristã que intensifiquem o seu serviço em favor da missão, para
encontrarem o sentido profundo do seu importante trabalho, no verdadeiro
caminho do sentire cum ecclesia. As dificuldades internas ou externas não nos
devem deixar pessimistas e inactivos. O que deve contar — aqui, como nos demais
sectores da vida cristã — é a confiança que provém da fé, ou seja, a certeza de
não sermos nós os protagonistas da missão, mas Jesus Cristo e o Seu Espírito.
Somos apenas colaboradores e, depois de termos feito tudo o que estava ao nosso
alcance, devemos dizer: « somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer
» (Lc 17, 10). Âmbitos da missão ad gentes
37. A missão ad gentes,
devido ao mandato universal de Cristo, não tem fronteiras. Apesar disso, é
possível identificar vários ambitos, em que ela se concretiza, para ficarmos
com um quadro real da situação.
a) Ambitos territoriais.
Normalmente a actividade missionária foi definida em relação a territórios
concretos. O Concílio Vaticano II reconheceu a dimensão territorial da missão
ad gentes,59 que ainda hoje permanece válida para determinar responsabilidades,
competências e limites geográficos de acção. É certo que a uma missão uníversal
deve corresponder uma perspectiva universal: a Igreja, com efeito, não pode
aceitar que fronteiras geográficas e impedimentos políticos sejam obstáculos à
sua presença missionária. Mas é verdade também que a actividade missionária ad
gentes, sendo distinta do cui dado pastoral dos fiéis e da nova evangelização
dos não praticantes, se exerce em territórios e grupos humanos bem delimitados.
O multiplicar-se das Igrejas jovens, nos últimos tempos, não deve iludir-nos.
Nos territórios confiados a estas Igrejas, especialmente na Ásia, mas também na
África, América Latina e na Oceania, existem várias zonas não evangelizadas:
povos inteiros e áreas culturais de grande importancia, em muitas nações, ainda
não foram alcançados pelo anúncio evangélico nem pela presença da Igreja
local.60 Inclusive em países tradicionalmente cristãos, há regiões confiadas ao
regime especial da missão ad gentes, com grupos e áreas não evangelizadas.
Impõe-se, pois, nestes países, não apenas uma nova evangelização, mas, em
certos casos, a primeira evangelização.61 As situações, porém, não são
homogéneas. Mesmo reconhecendo que as afirmações sobre a responsabilidade
missionária da Igreja não são dignas de crédito se não forem autenticadas por
um sério empenho numa nuova evangelização nos Países de antiga tradição cristã,
não parece justo equiparar a situação de um povo que nunca ouviu falar em Jesus
Cristo, com a de um outro que o conheceu e aceitou, mas depois o rejeitou,
embora continuando a viver numa cultura que absorveu em grande parte os
princípios e valores evangélicos. Em relação à fé, são duas posições
substancialmente diferentes. Portanto, o critério geográfico, mesmo se
provisório e não muito preciso, serve ainda para indicar as fronteiras para as quais
se deve dirigir a actividade missionária. Existem Países e áreas geográficas e
culturais onde faltam comunidades cristãs autóctones; noutros lugares, estas
são tão pequenas, que não é possível reconhecer nelas um sinal claro da
presença cristã; ou então, a estas comunidades, falta o dinamismo para
evangelizar a própria sociedade, ou pertencem a populações minoritárias, não
inseridas na cultura dominante. Em particular no Continente asiático, para onde
deveria orientar-se principalmente a missão ad gentes, os cristãos são uma
pequena minoria, apesar de às vezes se verificarem movimentos significativos de
conversão e testemunhos exemplares de presença cristã.
b) Mundos e fenómenos
sociais novos. As rápidas e profundas tranformações que caracterizam o mundo de
hoje, particularmente no Hemisfério Sul, influem decididamente no quadro
missionário: onde antes as situações humanas e sociais eram estáveis, hoje tudo
está em movimentação. Pensemos, por exemplo, na urbanização e no massiço
aumento das cidades, especialmente onde é mais forte a pressão demográfica. Em
muitos Países, mais de metade da população vive em algumas megalópoles, onde os
problemas do homem frequentemente pioram, entre outras razões, por causa do
anonimato em que ficam imersas as multidões. Nos tempos modernos, a actividade
missionária desenvolveu-se sobretudo em regiões isoladas, longe dos centros
civilizados e inacessíveis por dificuldades de comunicação, de língua e de
clima. Hoje a imagem da missão ad gentes está talvez a mudar: lugares privilegiados
deveriam ser as grandes cidades, onde surgem novos costumes e modelos de vida,
novas formas de cultura e comunicação que depois influem na população. É
verdade que a « escolha dos menos afortunados » deve levar a não descuidar os
grupos humanos mais isolados e marginalizados, mas também é verdade que não é
possível evangelizar as pessoas ou pequenos grupos, descuidando os centros onde
nasce — pode-se dizer — uma nova humanidade, com novos modelos de
desenvolvimento. O futuro das jovens Nações está-se a formar nas cidades.
Falando de futuro, não é possível esquecer os jovens que, em numerosos Países,
constituem mais de metade da população. Como proceder para que a mensagem de
Cristo atinja esses jovens não cristãos, que são o futuro de inteiros Continentes?
Evidentemente já não bastam os meios tradicionais da pastoral: são necessárias
associações e instituições, grupos e centros específicos, iniciativas culturais
e sociais para os jovens. Eis um ambito onde os modernos Movimentos eclesiais
têm largo campo de acção. Entre as grandes transformações do mundo
contemporâneo, as migrações produziram um novo fenómeno: os não cristãos chegam
em grande número aos Países de antiga tradição cristã, criando novas ocasiões
para contactos e intercambios culturais, esperando da Igreja o acolhimento, o
diálogo, a ajuda, numa palavra, a fraternidade. De entre os emigrantes, os
refugiados ocupam um lugar especial e merecem a máxima atenção. São já muitos
milhões no mundo e não cessam de aumentar: fogem da opressão política e da
miséria desumana, da fome e da seca que assume dimensões catastróficas. A
Igreja deve acolhê-los no âmbito da sua solicitude apostólica. Por fim,
lembramos as situações de pobreza, frequentemente intoleráveis, que se criam em
bastantes Países, e estão muitas vezes na origem de migrações em massa. Estas
situações desumanas desafiam a comunidade cristã: o anúncio de Cristo e do
Reino de Deus deve tornar-se instrumento de redenção humana para estas
populações. c) Áreas culturais, ou modernos areópagos. Paulo, depois de ter
pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o
Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente
(Cf. At 17, 22-31). O areópago representava, então, o centro da cultura do
douto povo ateniense, e hoje pode ser tomado como símbolo dos novos ambientes
onde o Evangelho deve ser proclamado. O primeiro areópago dos tempos modernos é
o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a —
como se costuma dizer — na « aldeia global ». Os meios de comunicação social
alcançaram tamanha importancia que são para muitos o principal instrumento de
informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais,
familiares e sociais. Principalmente as novas gerações crescem num mundo
condicionado pelos mass-média. Talvez se tenha descuidado um pouco este
areópago: deu-se preferência a outros instrumentos para o anúncio evangélico e
para a formação, enquanto os mass-média foram deixados à iniciativa de particulares
ou de pequenos grupos, entrando apenas secundariamente na programação pastoral.
O uso dos mass-média, no entanto, não tem somente a finalidade de multiplicar o
anúncio do Evangelho: trata-se de um facto muito mais profundo porque a própria
evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência.
Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o
Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta « nova cultura
», criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta
cultura nasce, menos dos conteúdos do que do próprio facto de existirem novos
modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes
psicológicas O meu predecessor Paulo VI dizia que « a ruptura entre o Evangelho
e a cultura é, sem dúvida, o drama da nossa época »;62 e 0 campo da comunicação
moderna confirma plenamente este juizo. Existem muitos outros areópagos do
mundo moderno, para os quais se deve orientar a actividade missionária dos
povos. Por exemplo, o empenhamento pela paz, o desenvolvimento e a libertação
dos povos, sobretudo o das minorias; a promoção da mulher e da criança; a
protecção da natureza, são outros tantos sectores a serem iluminados pela luz
do Evangelho. É preciso lembrar além disso, o vastíssimo areópago da cultura,
da pesquisa científica, das relações internacionais que favorecem o diálogo e
levam a novos projectos de vida. Convém estar atentos e empenhados nestas
exigências modernas. Os homens sentem-se como que a navegar no mesmo mar
tempestuoso da vida, chamados a uma unidade e solidariedade cada vez maior: as
soluções para os problemas existenciais são estudadas, discutidas e
experimentadas com o concurso de todos. Eis porque os organismos e as
convenções internacionais se apresentam cada vez mais importantes, em muitos
sectores da vida humana, desde a cultura à política, da economia à pesquisa Os
cristãos, que vivem e trabalham nesta dimensão internacional, tenham sempre
presente o seu dever de testemunhar o Evangelho.
38. A época em que
vivemos é, ao mesmo tempo, dramática e fascinante. Se por um lado, parece que
os homens vão no encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no
consumismo materialista, por outro lado, manifesta-se a angustiante procura de
sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e
meios de concentração e de oração. Não só nas culturas densas de religiosidade,
mas também nas sociedades secularizadas, procura-se a dimensão espiritual da
vida como antídoto à desumanização. Este fenómeno, denominado « ressurgimento
religioso », não está isento de ambiguidade, mas traz com ele também um
convite. A Igreja tem em Cristo, que se proclamou « o Caminho, a Verdade e a
Vida » (Jo 14, 6), um imenso património espiritual para oferecer à humanidade.
É o caminho cristão que leva ao encontro de Deus, à oração, à ascese, à
descoberta do sentido da vida. Também este é um areópago a evangelizar.
Fidelidade a Cristo promoção da liberdade do homem 39. Todas as formas de
actividade missionária se caracterizam pela consciência de promover a liberdade
do homem, anunciando-lhe Jesus Cristo. A Igreja deve ser fiel a Cristo, já que
é o Seu Corpo e continua a Sua missão. É necessário que ela « caminhe pela
mesma via de Cristo, via de pobreza, obediência, serviço e imolação própria até
à morte, da qual Ele saiu vitorioso pela sua ressurreição ».63 A Igreja,
portanto, tem o dever de fazer todo o possível para cumprir a sua missão no
mundo e alcançar todos os povos; e tem também o direito, que lhe foi dado por
Deus, de levar a termo o seu plano. A liberdade religiosa, por vezes ainda
limitada e cerceada, é a premissa e a garantia de todas as liberdades que
asseguram o bem comum das pessoas e dos povos. É de se auspiciar que a
autêntica liberdade religiosa seja concedida a todos, em qualquer lugar, e para
isso a Igreja se empenha a fim de que tal aconteça nos vários Países,
especialmente nos de maioria católica, onde ela alcançou uma maior influência.
Não se trata porém, de um problema de maioria ou de minoria, mas de um direito
inalienável de toda a pessoa humana. Por outro lado, a Igreja dirige-se ao
homem no pleno respeito da sua liberdade: 64 a missão não restringe a
liberdade, pelo contrário, favorece-a. A Igreja propõe, não impõe nada: respeita
as pessoas e as culturas, detendo-se diante do sacrário da consciência Aos que
se opõem com os mais diversos pretextos à actividade missionária, a Igreja
repete: Abrí as portas a Cristo! Dirijo-me a todas as Igrejas particulares,
antigas ou de formação recente. O mundo vai-se unificando cada vez mais, o
espírito evangélico deve levar à supressão de barreiras culturais,
nacionalistas, evitando qualquer isolamento. Já Bento XV admoestava os
missionários do seu tempo a que nunca « esquecessem a dignidade pessoal para
não pensarem mais na pátria terrena que na do céu »,65 A mesma recomendação
vale hoje para as Igrejas particulares: abrí as portas aos missionários, pois «
toda a Igreja particular que se separasse voluntariamente da Igreja universal
perderia a sua referência ao desígnio de Deus e empobrecer-se-ia na sua
dimensão eclesial »,66 Dirigir a atenção para Sul e Oriente 40. A actividade
missionária ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja. À medida que
se aproxima o fim do segundo Milénio da Redenção, é cada vez mais evidente que
os povos que ainda não receberam o primeiro anúncio de Cristo constituem a
maioria da humanidade. Certamente o balanço da actividade missionária dos
tempos modernos é positivo: a Igreja está estabelecida em todos os continentes,
e a maioria dos fiéis e das Igrejas particulares já não está na velha Europa,
mas nos Continentes que os missionários abriram à fé. Permanece, porém, o facto
de que « os confins da terra » para onde o Evangelho deve ser levado, alargam-se
cada vez mais e a sentença de Tertuliano, segundo a qual o Evangelho foi
anunciado por toda a terra e a todos os povos,67 está ainda longe de se
concretizar: a missão ad gentes ainda está no começo. Novos povos aparecem no
cenário mundial e também eles têm o direito de receber o anúncio da salvação. O
crescimento demográfico no sul e no oriente, em Países não cristãos, faz
aumentar continuamente o número das pessoas que ignoram a redenção de Cristo. É
necessário, portanto, dirigir a atenção missionária para aquelas áreas
geográficas e para aqueles ambientes culturais que permaneceram à margem do
influxo evangélico. Todos os crentes em Cristo devem sentir, como parte
integrante da sua fé, a solicitude apostólica de a transmitir aos outros, pela
alegria e luz que ela gera. Essa solicitude deve-se transformar, por assim
dizer, em fome e sede de dar a conhecer o Senhor, quando estendemos o olhar
para os horizontes imensos do mundo não-cristão.
CAPÍTULO V
OS CAMINHOS DA MISSÃO
41. « A actividade
missionária não é mais nem menos do que a manifestação ou epifania, e a
realização do desígnio de Deus no mundo e na história: pela missão, Deus
realiza claramente a história de salvação».68 Que caminhos segue a Igreja para
conseguir este resultado? A missão é uma realidade unitária, mas complexa; e
explica-se de vários modos, alguns do quais são de particular importância, na
presente situação da Igreja e do mundo.
A primeira forma de
evangelização é o testemunho
42. O homem contemporâneo
acredita mais nas testemunhas do que nos mestres,69 mais na experiência do que
na doutrina, mais na vida e nos factos do que nas teorias. O testemunho da vida
cristã é a primeira e insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós
continuamos, é a « testemunha » por excelência (Ap 1, 5; 3, 14) e o modelo do
testemunho cristão. O Espírito Santo acompanha o caminho da Igreja, associando-a
ao testemunho que Ele próprio dá de Cristo (cf. Jo 15, 26-27 ). A primeira
forma de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da comunidade
eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. O missionário que,
apesar dos seus limites e defeitos humanos, vive com simplicidade, segundo o
modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes. Mas todos
na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo
testemunho,70 que é, em muitos casos, o único modo possível de se ser
missionário. O testemunho evangélico, a que o mundo é mais sensível, é o da
atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos, e dos
que sofrem. A gratuidade deste relacionamento e destas acções, em profundo
contraste com o egoismo presente no homem, faz nascer questões precisas, que
orientam para Deus e para o Evangelho. Também o compromiso com a paz, a
justiça, os direitos do homem, a promoção humana, é um testemunho do Evangelho,
caso seja um sinal de atenção às pessoas e esteja ordenado ao desenvolvimento
integral do homem.71
43. O cristão e as
comunidades cristãs vivem profundamente inseridos na vida dos respectivos
povos, e são também sinal do Evangelho pela fidelidade à sua pátria, ao seu
povo, e à sua cultura nacional, sempre porém na liberdade que Cristo trouxe. O
cristianismo está aberto à fraternidade universal, porque todos os homens são filhos
do mesmo Pai e irmãos em Cristo. A Igreja é chamada a dar o seu testemunho por
Cristo, assumindo posições corajosas e proféticas, face à corrupção do poder
político ou económico; não correndo ela própria atrás da glória e dos bens
materiais; usando os seus bens para o serviço dos mais pobres e imitando a
simplicidade de vida de Cristo. A Igreja e os missionários devem ainda dar o
testemunho da humildade, começando por si próprios, ou seja, desenvolvendo a
capacidade de exame de consciência, a nível pessoal e comunitário, a fim de
corrigirem nas suas atitudes aquilo que é anti-evangélico e desfigura o rosto
de Cristo.
O primeiro anúncio de
Cristo Salvador
44. O anúncio tem a
prioridade permanente, na missão: a Igreja não pode esquivar-se ao mandato explícito
de Cristo, não pode privar os homens da « Boa Nova » de que Deus os ama e
salva. « A evangelização conterá sempre — como base, centro e, ao mesmo tempo,
vértice do seu dinamismo — uma proclamação clara de que, em Jesus Cristo (...)
a salvação é of erecida a cada homem, como dom de graça e de misericórdia do
próprio Deus ».72 Todas as formas de actividade missionária tendem para esta
proclamação que revela e introduz no mistério, desde sempre escondido e agora
revelado em Cristo (cf. Ef 3, 3-9; Col 1, 25-29), o qual se encontra no amago
da missão e da vida da Igreja, como ponto fulcral de toda a evangelização. Na
realidade complexa da missão, o primeiro anúncio tem um papel central e
insubstituível, porque introduz « no mistério do amor de Deus, que, em Cristo,
nos chama a uma estreita relação pessoal com Ele »73 e predispõe a vida para a
conversão. A fé nasce do anúncio, e cada comunidade edesial consolida-se e vive
da resposta pessoal de cada fiel a esse anúncio.74 Como a economia salvífica
está centrada em Cristo, assim a actividade missionária tende para a
proclamação do Seu mistério. O anúncio tem por objecto Cristo crucificado,
morto e ressuscitado: por meio d-Ele se realiza a plena e autêntica libertação
do mal, do pecado e da morte; n-Ele Deus dá a « vida nova », divina e eterna. É
esta a « Boa Nova », que muda o homem e a história da humanidade, e que todos
os povos têm o direito de conhecer. Um tal anúncio tem de se inserir no
contexto vital do homem e dos povos que o recebem. Além disso ele deve ser
feito numa atitude de amor e de estima a quem o escuta, com uma linguagem
concreta e adaptada às circunstancias. Para isso concorre o Espírito, que
instaura uma união entre o missionário e os ouvintes, tornada possível enquanto
um e os outros, por Cristo, entram em comunhão com o Pai.75
45. Sendo feito em união
com toda a comunidade eclesial, o anúncio nunca é um facto pessoal. O
missionário está presente e actuante em virtude de um mandato recebido, pelo
que, mesmo se estiver sozinho, sempre viverá coligado, através de laços
invisíveis mas profundos, à actividade evangelizadora de toda a Igreja.76 Os
ouvintes, mais cedo ou mais tarde, entrevêem, por detrás dele, a comunidade que
o enviou e o apoia. O anúncio é animado pela fé, que gera entusiasmo e ardor no
missionário. Como ficou dito, os Actos dos Apóstolos definem uma tal atitude
com a palavra parresía, que significa falar com coragem e desembaraço; o mesmo
termo aparece em S. Paulo: « No nosso Deus, encontramos coragem para vos
anunciar o Evangelho, no meio de muitos obstáculos » (1 Tes 2, 2). « Rezai
também por mim, para que, quando abrir a boca, me seja dado anunciar
corajosamente o Mistério do Evangelho, do qual, mesmo com as algemas, sou
embaixador, e para que tenha a audácia de falar dele como convém » (Ef 6, 19-20)
. Ao anunciar Cristo aos não cristãos, o missionário está convencido de que
existe já, nas pessoas e nos povos, pela acção do Espírito, uma ansia — mesmo
se inconsciente — de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho
que conduz à libertação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de
Cristo deriva da convicção de responder a tal ansia, pelo que o missionário não
perde a coragem nem desiste do seu testemunho, mesmo quando é chamado a
manifestar a sua fé num ambiente hostil ou indiferente. Ele sabe que o Espírito
do Pai fala nele (cf. Mt 10, 17-20; Lc 12, 11-12), podendo repetir com os
apóstolos: « nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito
Santo » (At 5, 32). Está ciente de que não anuncia uma verdade humana, mas « a
Palavra de Deus », dotada de intrínseca e misteriosa força (cf. Rm 1, 16). A
prova suprema é o dom da vida, até ao ponto de aceitar a morte para testemunhar
a fé em Jesus Cristo. Como sempre, na história cristã, os « mártires », isto é,
as testemunhas, são numerosas e indispensáveis no caminho do Evangelho. Também
na nossa época, há tantos: bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos,
tantas vezes, heróis desconhecidos que deram a vida para testemunhar a fé. São
esses, os anunciadores e as testemunhas por excelência.
Conversão e baptismo
46. O anúncio da Palavra
de Deus visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao
seu Evangelho, mediante a fé. A conversão é dom de Deus, obra da Trindade: é o
Espírito que abre as portas dos corações, para que os homens possam acreditar
no Senhor e « confessá-l-O » (1 Cor 12, 3). Jesus, referindo-se a quem se
aproxima d-Ele pela fé, diz: « ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que me enviou,
o não atrair » (Jo 6, 44). Desde o início, a conversão exprime-se com uma fé
total e radical: não põe limites nem impedimentos ao dom de Deus. Ao mesmo
tempo, porém, determina um processo dinâmico e permanente que se prolonga por
toda a existência, exigindo uma passagem contínua da « vida segundo a carne » à
« vida segundo o Espírito » (cf. Rm 8, 3-13). Esta significa aceitar, por
decisão pessoal, a soberania salvífica de Cristo, tornando-se Seu discípulo. A
Igreja chama a todos, a esta conversão, a exemplo de João Baptista que preparava
o caminho para Cristo, « pregando um baptismo de conversão, em ordem ao perdão
dos pecados » (Mc 1, 4), e a exemplo do próprio Cristo que, « depois de João
ter sido preso, veio para a Galileia pregar a Boa Nova de Deus, dizendo: -Completou-se
o tempo, o Reino de Deus está próximo:arrependei-vos, e acreditai no Evangelho-
» (Mc 1, 14-15 ). Hoje o apelo à conversão, que os missionários dirigem aos não
cristãos, é posto em discussão ou facilmente deixado no silêncio. Vê-se nele um
acto de « proselitismo »; diz-se que basta ajudar os homens a tornarem-se mais
homens ou mais fiéis à própria religião, que basta construir comunidades
capazes de trabalharem pela justiça, pela liberdade, pela paz, e pela
solidariedade. Esquece-se, porém, que toda a pessoa tem o direito de ouvir a «
Boa Nova » de Deus que se revela e se dá em Cristo, para realizar em plenitude
a sua própria vocação. A grandeza deste evento ressoa nas palavras de Jesus à
samaritana: « Se tu conhecesses o dom de Deus », e no desejo inconsciente, mas
intenso da mulher: « Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sêde
» (Jo 4, 10.15).
47. Os Apóstolos, movidos
pelo Espírito Santo, convidaram todos a mudarem de vida, a converterem-se e a
receberem o baptismo. Logo depois do evento do Pentecostes, Pedro fala de modo
convincente à multidão: « ao ouvirem aquelas palavras, os presentes sentiram-se
emocionados até ao fundo do coração e perguntaram a Pedro e aos outros
apóstolos: -Que havemos de fazer, irmãos?- Pedro respondeu-lhes: -Convertei-vos
e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus
pecados; recebereis então o dom do Espírito Santo- » (At 2, 37-38). E naquele
dia baptizou cerca de três mil pessoas. Noutra ocasião, depois da cura de um
paralítico, Pedro fala à multidão, dizendo de novo: « convertei-vos, pois, e
mudai de vida, para que sejam apagados os vossos pecados! » (At 3, 19). A
conversão a Cristo está conexa com o baptismo: está-o não só per força da
práxis da Igreja, mas por vontade de Cristo, que enviou a fazer discípulos em
todas as nações, e a baptizá-los (cf. Mt 28, 19); está-o ainda por intrínseca
exigência da recepção em plenitude da vida nova n-Ele: « Em verdade, em
verdade, te digo — assim falou Jesus a Nicodemos — quem não nascer da água e do
Espírito não pode entrar no Reino de Deus » (Jo 3, 5). O baptismo, de facto,
regenera-nos para a vida de filhos de Deus, une-nos a Jesus Cristo e unge-nos
no Espírito Santo: aquele não é um simples selo da conversão, à maneira de um
sinal exterior que a comprova e atesta; mas é o sacramento que significa e
opera este novo nascimento do Espírito, instaura vínculos reais e inseparáveis
com a Trindade, torna-nos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja.
Recordamos tudo isto, porque uns tantos, precisamente onde se realiza a missão
ad gentes, tendem a separar a conversão a Cristo, do baptismo, considerando-o
como desnecessário. É verdade que, em certos ambientes, alguns aspectos
sociológicos, referentes ao baptismo, lhe obscurecem o genuíno significado de
fé. Isso fica-se a dever a diversos factores históricos e culturais, que é
necessário suprimir onde ainda subsistam, para que o sacramento da regeneração
espiritual surja em todo o seu valor: nesta tarefa, empenhem-se as comunidades
eclesiais locais. Também é verdade que algumas pcssoas se dizem interiormente
comprometidas com Cristo e com a Sua mensagem, mas sem quererem sê-lo
sacramentalmente, porque, devido aos seus preconceitos ou por culpa dos
cristãos, não chegam a perceber a verdadeira natureza da Igreja, mistério de fé
e de amor.77 Desejo encorajar estas pessoas a abrirem-se plenamente a Cristo,
recordando, a quantos sentem o fascínio de Cristo, que foi Ele próprio que quis
a Igreja como « lugar » aonde, de facto, O podem encontrar. Ao mesmo tempo,
convido os fiéis e as comunidades cristãs a testemunharem autenticamente Cristo
com a sua vida nova. Cada convertido é certamente um dom oferecido à Igreja,
mas comporta também para ela uma grave responsabilidade, não só porque ele terá
de ser preparado para o baptismo com o catecumenado, e depois continuar a sua
instrução religiosa, mas também porque — especialmente se é adulto — traz como
que uma energia nova, o entusiasmo da fé, o desejo de encontrar na própria
Igreja o Evangelho vivido. Seria para ele uma desilusão se, entrando na
comunidade eclesial, encontrasse aí uma vida sem fervor, privada de sinais de
renovação. Não podemos pregar a conversão, se nós mesmos não nos convertermos
todos os dias. Formação de Igrejas locais
48. A conversão e o
baptismo inserem na Igreja, onde ela já existe, ou então implicam a
constituição de novas comunidades, que confessem Jesus Senhor e Salvador. Isto
faz parte do desígnio de Deus, a Quem aprouve « chamar os homens a participar
da Sua própria vida, não um a um , ma s con stit uído s co mo p ovo , no qual
os Seus filhos dispersos fossem reconduzidos à unidade ».78 A missão ad gentes
tem este objectivo: fundar comunidades cristãs, desenvolver Igrejas até à sua
completa maturação. Esta é uma meta central e qualificativa da actividade
missionária, de tal modo que esta não se pode considerar verdadeiramente
concluída, enquanto não tiver conseguido edificar uma nova Igreja particular
actuando normalmente no ambiente local. Disto fala amplamente o Decreto Ad
gentes,79 e, já depois do Concílio, se consolidou a linha teológica que defende
que todo o mistério da Igreja está contido em cada uma das Igrejas
particulares, desde que esta não se isole, mas permaneça em comunhão com a
Igreja universal e, por sua vez, se faça também missionária. Trata-se de um
grande e longo trabalho, onde é difícil indicar as etapas em que cessa a acção
propriamente missionária para se passar à actividade pastoral. Mas alguns
pontos devem ficar daros.
49 Antes de mais, é
necessário procurar estabelecer em cada lugar comunidades cristãs, que sejam «
sinal da presença divina no mundo »80 e cresçam até se tornarem Igrejas. Não
obstante o elevado número de dioceses, existem ainda vastas áreas onde as
Igrejas locais não se encontram, ou são insuficientes relativamente à vastidão
do território e à densidade da população: está ainda por realizar um grande
trabalho de implantação e de desenvolvimento da Igreja. Não está terminada esta
fase da história eclesial, dita plantatio Ecclesiae; pelo contrário, em muitos
aglomerados humanos, está ainda por iniciar. A responsabilidade de tal tarefa
recai sobre a Igreja universal e sobre as Igreja particulares, sobre todo o
Povo de Deus e sobre as diversas forças missionárias. Cada Igreja, mesmo aquela
que é formada por neoconvertidos, é por sua natureza missionária; é
simultaneamente evangelizada e evangelizadora, devendo a fé ser apresentada
como dom de Deus, tanto a viver em comunidade (família, paróquia, associações)
como a irradiar par o exterior, quer pelo testemunho de vida quer pela palavra.
A acção evangelizadora da comunidade cristã, primeiramente no próprio
território e depois, mais além, como participação na missão universal, é o
sinalmais claro da maturidade da fé. Impõe-se uma conversão radical da
mentalidade para nos tornarmos missionários — e isto vale tanto para os
indivíduos como para as comunidades. O Senhor chama-nos constantemente a
sairmos de nós próprios, a partilhar com os outros os bens que temos, começando
pelo mais precioso, que é a fé. À luz deste imperativo missionário, dever-se-á
medir a validade dos organismos, movimentos, paróquias e obras de apostolado da
Igreja. Somente tornando-se missionária é que a comunidade cristã conseguirá
superar divisões e tensões internas, e reencontrar a sua unidade e vigor de fé.
As forças missionárias, vindas de outras Igrejas e Países, devem agir em
comunhão com as forças locais, no desenvolvimento da comunidade cristã. Em
particular, toca àquelas — sempre segundo as directrizes dos Bispos e em
colaboração com os responsáveis locais — promover a difusão da fé e a expansão
da Igreja nos ambientes e grupos não cristãos; cabe-lhes ainda animar o sentido
missionário das Igrejas locais, para que a preocupação pastoral sempre traga
associada a si, a da missão ad gentes. Assim cada Igreja fará verdadeiramente
sua a solicitude de Cristo, o bom Pastor, que se prodigaliza pelo seu rebanho,
mas pensa ao mesmo tempo nas « outras ovelhas que não são deste aprisco » (Jo
10, 16).
50. Tal solicitude
constituirá motivo e estímulo para um renovado empenho ecuménico. Os laços
existentes entre aactividade ecuménica e a actividade missionária tornam
necessário considerar dois factores relativos a elas. Por um lado, temos de
reconhecer que « a divisão dos cristãos prejudica a santíssima causa de pregar
o Evangelho a toda a criatura e fecha a muitos o acesso à fé ».81 Na verdade, o
facto de a Boa Nova da reconciliação ser proclamada por cristãos, que entre si
se apresentam divididos, debilita o seu testemunho, e por isso é urgente
trabalhar pela unidade dos cristãos, para que a actividade missionária possa
ser mais incisiva. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que o próprio esforço
em direcção à unidade, constitui por si um sinal da obra de reconciliação que
Deus realiza no meio de nós. Por outro lado, é verdade também que todos aqueles
que receberam o baptismo em Cristo estão constituídos numa certa comunhão entre
si, embora não perfeita. É sobre esta base que se fundamenta a orientação dada
pelo Concílio: « Os católicos, banindo toda a forma de indiferentismo, de
sincretismo e odiosa rivalidade, colaborem com os irmãos separados, em
conformidade com as disposições do decreto sobre o Ecumenismo, por meio da
comum profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo diante dos gentios, na medida
do possível, e pela cooperação em questões sociais e técnicas, culturais e
religiosas ».82 A actividade ecuménica e o testemunho comum de Jesus Cristo,
dado pelos cristãos pertencentes a diversas Igrejas e comunidades eclesiais,
produziu já abundantes frutos, mas é ainda mais urgente que colaborem e
testemunhem de comum acordo, neste tempo em que seitas cristãs e paracristãs
semeiam a confusão com a sua acção. A expansão destas seitas constitui uma
ameaça para a Igreja Católica e para todas as comunidades eclesiais com quem
ela mantém um diálogo. Onde for possível e segundo as circunstâncias locais, a
resposta dos cristãos poderá também ser ecuménica. As « comunidades eclesiais
de base » força de evangelização
51. Um fenómeno, com
crescimento rápido nas jovens Igrejas, promovido pelos bispos ou mesmo pelas
Conferências episcopais, por vezes como opção prioritária da pastoral, são as
comunidades eclesiais de base (conhecidas também por outros nomes), que estão a
dar boas provas como centros de formação cristã e de irradiação missionária.
Trata-se de grupos de cristãos, a nível familiar ou de ambientes restritos, que
se encontram para a oração, a leitura da Sagrada Escritura, a catequese, para a
partilha dos problemas humanos e eclesiais, em vista de um compromisso comum.
Elas são um sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e
evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade, fundada na «
civilização do amor ». Tais comunidades descentralizam e simultâneamente
articulam a comunidade paroquial, à qual sempre permanecem unidas; radicam-se
em ambientes simples das aldeias, tornando-se fermento de vida cristã, de
atenção aos « últimos », de empenho na transformação da sociedade. O indivíduo
cristão faz nelas uma experiência comunitária, onde ele próprio se sente um
elemento activo, estimulado a dar a sua colaboração para proveito de todos.
Deste modo, elas tornam-se instrumento de evangelização e de primeiro anúncio,
bem como fonte de novos ministérios; enquanto, animadas pela caridade de
Cristo, oferecem uma indicação sobre o modo de superar divisões, tribalismos,
racismos. De facto, cada comunidade, para ser cristã, deve fundar-se e viver em
Cristo, na escuta da Palavra de Deus, na oração onde a Eucaristia ocupa o lugar
entral, na comunhão expressa pela unidade de coração e de alma, e pela partilha
conforme as necessidades dos vários membros (cf. At 2, 42-47). Toda a
comunidade recordava Paulo VI - deve viver em unidade com a Igreja particular e
universal, na comunhão sincera com os Pastores e o Magistério, empenhada na
irradiação missionária e evitando fechar-se em si mesma ou deixar-se
instrumentalizar ideologicamente.83 O Sínodo dos Bispos afirmou: « uma vez que
a Igreja é comunhão, as novas comunidades de base, se verdadeiramente vivem em
unidade com a Igreja, elas representam uma verdadeira expressão de comunhão e
um meio eficaz para construir uma comunhão ainda mais profunda. Por isso, são
um motivo de grande esperança para a vida da Igreja ».84
Encarnar o Evangelho nas
culturas dos povos
52. Desenvolvendo a sua
actividade missionária no meio dos povos, a Igreja encontra várias culturas,
vendo-se envolvida no processo de inculturação. Esta constitui uma exigência
que marcou todo o seu caminho histórico, mas hoje é particularmente aguda e
urgente. O processo de inserção da Igreja nas culturas dos povos requer un
tempo longo: é que não se trata de uma mera adaptação exterior, já que a
inculturação « significa a íntima transfor mação dos valores culturais
autênticos, pela sua integração no cristianismo, e o enraizamento do
cristianismo nas várias culturas ».85 Trata-se, pois, de um processo profundo e
globalizante que integra tanto a mensagem cristã, como a reflexão e a práxis da
Igreja. Mas é também um processo difícil, porque não pode comprometer de modo
nenhum a especifícídade e a integridade da fé cristã. Pela inculturação, a
Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os
povos com as suas culturas na sua própria comunidade,gb transmitindo-lhes os
seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a
partir de dentro.8Ç Por sua vez, a Igreja, com a inculturação, torna-se um
sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e um instrumento mais apto
para a missão. Graças a esta acção das Igrejas locais, a própria Igreja
universal se enriquece com novas expressões e valores nos diversos sectores da
vida cristã, tais como a evangelização, o culto, a teologia, a caridade;
conhece e exprime cada vez melhor o mistério de Cristo, e é estimulada a uma
renovação contínua. Estes temas, presentes no Concílio e no Magistério
sucessivo, tenho-os afrontado repetidamente nas minhas visitas pastorais às
jovens Igrejas. A inculturação é um caminho lento, que acompanha toda a vida
missionária e que responsabiliza os vários agentes da missão ad gentes, as
comunidades cristãs à medida que se vão desenvolvendo, e os Pastores que têm a
responsabilidade de discernimento e de estímulo na sua realização.89
53. Os missionários,
provenientes de outras Igrejas e Países, devem inserir-se no mundo socio-cultural
daqueles a quem são enviados, superando os condicionalismos do próprio ambiente
de origem. Assim, torna-se necessário aprender a língua da região onde
trabalham, conhecer as expressões mais significativas da sua cultura,
descobrindo os seus valores por experiência directa. Eles só poderão levar aos
povos, de maneira crível e frutuosa, o conhecimento do mistério escondido (cf.
Rm 16, 25- 27; Ef 3, 5 ), através daquela aprendizagem. Não se trata, por
certo, de renegar a própria identidade cultural, mas de compreender, estimar,
promover e evangelizar a do ambiente em que actuam e, deste modo, conseguir
realmente comunicar com ele, assumindo um estilo de vida que seja sinal de
testemunho evangélico e de solidariedade com o povo. As comunidades eclesiais
em formação, inspiradas pelo Evangelho, poderão exprímir progressivamente a
própria experiência cristã em modos e formas originais, em consonância com as
próprias tradições culturais, embora sempre em sintonia com as exigências
objectivas da própria fé. Para isso, especialmente no que toca aos sectores
mais delicados da inculturaçáo, as Igrejas particulares do mesmo território
devem trabalhar em comunhão entre si 90 e com toda a Igreja, certas de que só a
atenção tanto à Igreja universal como à Igreja particular as tornará capazes de
traduzirem o tesouro da fé, na legítima variedade das suas expressões.91
Portanto os grupos evangelizados oferecerão os elementos para uma « tradução »
da mensagem evangélica,92 tendo presente os contributos positivos provenientes
do contacto do cristianismo com as várias culturas, ao longo dos séculos, mas
sem nunca esquecer os perigos de alteração, de quando em vez a tentar-nos.93
54. A propósito disto,
continuam fundamentais algumas indicações. A inculturação, em seu correcto
desenvolvimento, deve ser guiada por dois princípios: « a compatibilidade com o
Evangelho e a comunhão com a Igreja universal ».94 Os Bispos, defensores do «
depósito da fé », velarão pela fidelidade e, sobretudo, pelo discernimento,95
para o qual se requer um profundo equilíbrio: de facto corre-se o risco de se
passar acriticamente de um alheamento da cultura para uma sobrevalorização da
mesma, que não deixa de ser um produto do homem e, como tal, está marcada pelo
pecado. Também ela deve ser « purificada, elevada, e aperfeiçoada ».96 Um tal
processo requer gradualidade, para que seja verdadeiramente uma expressão da
experiência cristã da comunidade: « será necessária uma incubação do mistério
cristão no carácter do vosso povo - dizia Paulo VI em Kampala para que a sua
voz nativa, mais límpida e franca, se levante harmoniosa no coro das vozes da
Igreja universal ».97 Enfim, a inculturação deve envolver todo o povo de Deus,
e não apenas alguns peritos, dado que o povo reflecte aquele sentido da fé, que
é necessário nunca perder de vista. Ela seja guiada e estimulada, mas nunca
forçada, para não provocar reacções negativas nos cristãos: deve ser uma
expressão da vida comunitária, ou seja, amadurecida no seio da comunidade, e não
fruto exclusivo de investigações eruditas. A salvaguarda dos valores
tradicionais é efeito de uma fé madura.
O diálogo com os irmãos
de outras religiões
55. O diálogo
interreligioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja. Entendido como
método e meio para um conhecimento e enriquecimento recíproco, ele não está em
con traposição com a missão ad gentes; pelo contrário, tem laços especiais com
ela, e constitui uma sua expressão. Na verdade, a missão tem por destinatários
os homens que não conhecem Cristo e o seu Evangelho, e pertencem, na sua grande
maioria, a outras religiões. Deus atrai a Si todos os povos, em Cristo,
desejando comunicar-lhes a plenitude da sua revelação e do seu amor; Ele não
deixa de Se tornar presente de tantos modos, quer aos indivíduos quer aos
povos, através das suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial
expressão são as religiões, mesmo se contêm também « lacunas, insuficiências e
erros ».98 Tudo isto foi amplamente sublinhado pelo Concílio e pelo Magistério sucesivo,
sem nunca deixar de afirmar que a salvação vem de Cristo, e o diálogo não
dispensa a evangelização.99 À luz do plano de salvação, a Igreja não vê
contraste entre o anúncio de Cristo e o diálogo interreligioso; sente
necessidade, porém, de os conjugar no âmbito da sua missão ad gentes. De facto,
é necessário que esses dois elementos mantenham o seu vínculo íntimo e, ao
mesmo tempo, a sua distinção, para que não sejam confundidos,
instrumentalizados, nem considerados equivalentes a ponto de se puderem
substituir entre si. Recentemente escrevi aos Bispos da Ásia: « mesmo
reconhecendo a Igreja de bom grado o quanto há de verdadeiro e de santo nas
tradições religiosas do Budismo, do Induismo e do Islão - reflexos daquela
verdade que ilumina todos os homens -, isso não diminui o seu dever e a sua
determinação de proclamar sem hesitações Jesus Cristo que é -o Caminho a
Verdade, e a Vida- ( ... ) O facto de os crentes de outras religiões poderem
receber a graça de Deus e serem salvos por Cristo independentemente dos meios
normais por Ele estabelecidos, não suprime, de facto, o apelo à fé e ao
baptismo que Deus dirige a todos os povos ».1·· Na verdade, o próprio Senhor, «
ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do baptismo, ao mesmo tempo
corroborou a necesszdade da Igreja, na qual os homens entram pela porta do
baptismo »,101 O diálogo deve ser conduzido e realizado com a convicção de que
a Igreja é o camznho normal de salvação e que só ela possui a plenitude dos
meios de salvação.loz
56. O diálogo não nasce
de tácticas ou de interesses, mas é uma actividade que apresenta motivações,
exigências, dignidade própria: é exigído pelo profundo respeito por tudo o que
o Espírito, que sopra onde quer, operou em cada homem.103 Por ele, a Igreja
pretende descobrir as « sementes do Verbo »,104 os « fulgores daquela verdade
que ilumina todos os homens -105 - sementes e fulgores que se abrigam nas
pessoas e nas tradições religiosas da humanidade. O diálogo fundamenta-se sobre
a esperança e a caridade, e produzirá frutos, no Espírito. As outras religiões
constituem um desafio positivo para a Igreja: estimulam-na efectivamente quer a
descobrir e a reconhecer os sinais da presença de Cristo e da acção do
Espírito, quer a aprofundar a própria identidade e a testemunhar a integridade
da revelação, da qual é depositária para o bem de todos. Daqui deriva o
espírito que deve animar um tal diálogo, no contexto da missão. O interlocutor
deve ser coerente com as próprias tradições e convicções religiosas, e
disponível para compreender as do outro, sem dissimulações nem restrições, mas
com verdade, humildade, e lealdade, sabendo que o diálogo pode enriquecer a
ambos. Não deve haver qualquer abdicação, nem irenismo, mas o testemunho
recíproco em ordem a um progresso comum, no caminho da procura e da experiência
religiosa, e simultameamente em vista do superamento de preconceitos,
intolerâncias e malentendidos. O diálogo tende à purificação e conversão
interior que, se for realizada na docilidade ao Espírito, será espiritualmente frutuosa.
57. Ao diálogo, abre-se
um vasto campo, podendo ele assumir múltiplas formas e expressões: desde o
intercâmbio entre os peritos de tradições religiosas ou com seus representantes
oficiais, até à colaboração no desenvolvimento integral e na salvaguarda dos
valores religiosos; desde a comunicação das respectivas experiências
espirituais, até ao denominado « diálogo de vida », pelo qual os crentes das
diversas religiões mutuamente testemunham, na existência quotidiana, os
próprios valores humanos e espirituais, ajudando-se a vivê-los em ordem à
edificação de uma sociedade mais justa e fraterna. Todos os fiéis e comunidades
cristãs são chamadas a praticar o diálogo, embora não seja no mesmo grau e
forma. Para isso é indispensável o contributo dos leigos, que « com o exemplo
da sua vida e com a própria acção podem favorecer a melhoria das relações entre
os crentes das diversas religiões » 106 enquanto alguns deles poderão mesmo
oferecer uma ajuda na pesquisa e no estudo. 107 Sabendo que bastantes missionários
e comunidades cristãs encontram, no caminho difícil e por vezes incompreendido
do diálogo, a única maneira de prestar um sincero testemunho de Cristo e um
generoso serviço ao homem, desejo encorajá-los a perseverar con fé e caridade,
mesmo onde os seus esforços não encontrem acolhimento nem resposta. O diálogo é
um caminho que conduz ao Reino e seguramente dará frutos, mesmo se os tempos e
os momentos estão reservados ao Pai (cf. At 1, 7).
Promover o
desenvolvimento educando as cosciências
58. A missão ad gentes
desenvolve-se ainda hoje, na sua maior parte, nas regiões do hemisfério Sul,
onde é mais urgente a acção em favor do desenvolvimento integral e da
libertação de toda a opressão. A Igreja sempre soube suscitar, nas população
que evangelizou, o impulso para o progresso, e hoje os missionários, mais do
que no passado, são reconhecidos também como promotores de desenvolvimento por
governos e peritos internacionais, que ficam admirados do facto de obterem
notáveis resultados com escassos meios. Na Encíclica Sollicitudo rei socialis,
afirmei que « a Igreja não tem soluções técnicas para resolver o
subdesenvolvimento como tal », mas « dá o primeiro contributo para a solução do
urgente problema do progresso, quando proclama a verdade acerca de Cristo, de
Si própria e do homem, aplicando-a a uma situação concreta ».108 A Conferência
dos Bispos latino-ameri canos, em Puebla, afirmou que « o melhor servíço ao
irmão é a evangelização, que o predispõe a realizar-se como filho de Deus, o
liberta da injustiça e promove-o integralmente ».109 A missão da Igreja não é a
íntervenção directa no plano económico, técnico, político ou do contributo
material para o desenvolvimento, mas consiste essencialmente em oferecer aos
povos não um « ter mais » mas um « ser mais », despertando as consciências com
o Evangelho. « O progresso humano autêntico deve assentar as suas raízes sobre
uma evangelização cada vez mais profunda ».110 A Igreja e os missionários são
também promotores de desenvolvimento com as suas escolas, hospitais,
tipografias, universidades, explorações agrícolas experimentais. O pro gresso
de um povo, porém, não deriva primariamente do dinheiro, nem dos auxílios
materiais, nem das estruturas técnicas, mas sobretudo da formação das
consciências, do amadurecimento das mentalidades e dos costumes. O homem é que
é o protagonista do desenvolvimento, não o dinheiro ou a técnica. A Igreja
educa as consciências, revelando aos povos aquele Deus, que procuram sem O
conhecer, a grandeza do homem criado à imagem de Deus e por Ele amado, a
igualdade de todos os homens enquanto filhos de Deus, o domínio sobre a
natureza criada e posta ao serviço do homem, o dever de se empenhar no
progresso do homem todo e de todos os homens.
59. Com a mensagem
evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora de
desenvolvimento, exartamente porque leva à conversão do coração e da
mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à
solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos, insere o homem no
projecto de Deus, que é a construção do Reino de paz e de justiça, já a partir
desta vida. É a perspectiva bíblica dos « novos céus e da nova terra » (cf.Is
65, 17; 2 Ped 3, 13; Ap 21, 1 ), a qual inseriu na história, o estímulo e a
meta para o avanço da humanidade. O progresso do homem vem de Deus, do modelo
Jesus e deve conduzir a Deus.111 Eis porque entre anúncio evangélico e promoção
do homem existe uma estreita conexão. O contributo da Igreja e da sua obra
evangelizadora para o desenvolvimento dos povos, não se restringe apenas ao
hemisfério Sul, visando combater aí a miséria material e o subdesenvolvimento,
mas envolve também o Norte, que está exposto à miséria moral e espiritual,
causada pelo « superdesenvolvimento ».112 Uma certa concepção a-religiosa da
vida moderna, dominante em algumas partes do mundo, está baseada na ideia de
que, para tornar o homem mais homem, basta enriquecer e elevar o crescimento
técnico e económico. Mas um desenvolvimento sem alma não pode bastar ao homem,
e o excesso de opulência é tão nocivo como o excesso de pobreza. O hemisfério
Norte construiu um « modelo de desenvolvimento », e quer difundi-lo para o Sul,
onde o sentido de religiosidade e os valores humanos, que ali existem, correm o
risco de serem submersos pela vaga do consumísmo. « Contra a fome: muda de vida
» é um lema, nascido em ambientes eclesiais, que indica, aos povos ricos, o
caminho para se tornarem irmãos dos pobres: é preciso voltar a uma vida mais
austera que favoreça um novo modelo de progresso, atento aos valores éticos e
religiosos. A actividade missionária leva aos pobres a luz e o estímulo para o
verdadeiro progresso, enquanto a nova evangelização, entre outras tarefas, deve
criar, nos ricos, a consciência de que chegou o momento de se tornarem
realmente irmãos dos pobres, na conversão comum ao « progresso integral »,
aberto ao Absoluto. 113
A caridade: fonte e
critério da missão
60. « A Igreja em todo o
mundo - disse-o durante a minha visita ao Brasil - quer ser a Igreja dos
pobres. Ela deseja extrair toda a verdade contida nas Bem-aventuranças, e em
particular na primeira: -Bem-aventurados os pobres em espírito ...-. Ela quer
ensinar e pôr em prática esta verdade como Jesus, que veio fazer e ensinar
».114 As jovens Igrejas, que, na sua maioria, vivem no meio de povos sofrendo
de uma enorme pobreza, referem muitas vezes esta preocupação como parte
integrante da sua missão. A Conferência dos Bispos latino-americanos, em
Puebla, depois de ter recordado 0 exemplo de Jesus, escreve que « os pobres me
recem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em
que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus, para serem seus
filhos, essa imagem está ofuscada, e até ultrajada. Por isso, Deus toma a sua
defesa e os ama. Daí resulta que os primeiros destinatários da missão são os
pobres, sendo a sua evangelização, sinal e prova por excelência da missão de
Jesus ».115 Fiel ao espírito das Bem-aventuranças, a Igreja é chamada à
partilha com os pobres e oprimidos de qualquer género. Assim exorto os discípulos
de Cristo e as comunidades cristãs, desde as famílias às dioceses, das
paróquias aos institutos religiosos, a fazerem uma sincera revisão da própria
vida, na perspectiva da solidariedade com os pobres. Ao mesmo tempo, agradeço
aos missionários que, com a sua presença amorosa e o seu serviço humilde,
trabalham para o desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade, levantando
escolas, centros sanitários, leprosarias, casas de assistência para diminuidos
físicos e anciãos, iniciativas para a promoção da mulher. Agradeço em
particular, às religiosas, aos irmãos e aos leigos missionários, pela sua
dedicação, enquanto encorajo os voluntários de Organizações não-governamentais,
hoje cada vez mais numerosos, que se dedicam a estas obras de caridade e de promoção
humana. De facto são estas « obras de caridade » que dão testemunho da alma de
toda a actividade missionária: o amor, que é e permanece o verdadeiro motor da
missão, constituindo também « o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou
deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada acção,
e o fim para o qual deve tender. Agindo na perspectiva da caridade ou
inspirados pela caridade, nada é impróprio, e tudo é bom ».116
CAPÍTULO VI
OS RESPONSÁVEIS E OS
AGENTES DA PASTORAL MISSIONÁRIA
61. Não existe testemunho
sem testemunhas, como não há missão sem missionários. Com a finalidade de
colaborem na Sua missão e continuarem a Sua obra salvífica, Jesus escolhe e
envia pessoas como Suas testemunhas e apóstolos: « Sereis minhas testemunhas em
Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo » (At 1, 8 )
. Os Doze são os primeiros agentes da missão universal: eles constituem um «
sujeito colegial » da missão, foram escolhidos por Jesus para permanecerem com
Ele e serem enviados « às ovelhas perdidas da casa de Israel » (Mt 10, 6). Esta
colegialidade não impede que dentro do grupo se singularizem figuras como
Tiago, João e sobretudo Pedro, que ganhou tal relevo que se tornou usual a
expressão: « Pedro e os outros apóstolos » (At 2, 14. 37 ). Graças a ele, abrem-se
os horizontes da missão universal, onde depois sobressairá Paulo, que, por
vontade divina, foi chamado e enviado aos gentios (cf. Gal 1, 15-16). Na
expansão missionária das origens, encontramos, ao lado dos apóstolos, outros
agentes menos conhecidos, que não podemos esquecer: são pessoas, grupos,
comunidades. Um típico exemplo de Igreja local é a comunidade de Antioquia, que
de evangelizada passa a evangelizadora, enviando os seus missionários, aos
gentios (cf. At 13, 2-3). A Igreja primitiva vive a missão como tarefa
comunitária, embora reconheça, no seu seio, « enviados especiais », ou «
missionários consagrados aos pagãos », como no caso de Paulo e Barnabé.
62. Tudo quanto, no
início do cristianismo, se fez pela missão universal conserva ainda hoje a sua
validade e urgência. A Igreja é por sua natureza missionária, porque o mandato
de Cristo não é algo de contingente e exterior, mas atinge o próprio coração da
Igreja. Segue-se daí que a Igreja toda e cada uma das Igrejas é enviada aos não
cristãos. Mesmo as Igrejas mais jovens, precisamente « para este zelo
missionário florescer nos membros da sua pátria », devem « participar o quanto
antes e de facto na missão universal da Igreja, enviando também elas, por todo
o mundo, missionários a pregar o Evangelho, mesmo se sofrem escassez de clero
».117 Muitas já assim fazem: eu encorajo-as vivamente a continuar. Neste
vínculo essencial de comunhão entre a Igreja universal e as Igrejas
particulares, exercita-se o seu autêntico e pleno carácter missionário. « Num
mundo que, com o encurtar das distâncias, se torna cada vez mais pequeno, as
comunídades eclesiais devem coligarem-se entre si, trocando energías e meios,
empenharem-se conjuntamente na única e comum missão de anunciar e viver o
Evangelho ( ... ) As Igrejas denominadas jovens ( ... ) têm necessidade da
força das antigas, enquanto estas precisam do testemunho e do estímulo das mais
jovens, de tal modo que cada Igreja beba da riqueza das outras Igrejas ».118
Os primeiros responsáveis
da actividade missionária
63. Como o Senhor
ressuscitado confiou o mandato da missão universal ao colégio apostólico com
Pedro à cabeça, assim essa responsabilidade íncumbe antes de maís ao colégío
dos Bispos, tendo à sua cabeça o sucessor de Pedro.119 Consciente desta
responsabilidade, no encontro com os Bispos, sinto o dever de a partilhar em
ordem tanto à nova evangelização como à missão universal. Pus-me a caminho
pelas estradas do mundo, « para anunciar o evangelho, para -confírmar os írmãos-
na fé, para consolar a Igreja, para ir ao encontro do homem. São viagens de
fé... São outras tantas ocasiões de catequese itinerante, de anúncio evangélico
alargado a todas as latitudes, e de Magistério apostólico prolongado até aos
hodíernos espaços planetários ».120 Os irmãos Bispos são comigo directamente
responsáveis pela evangelização do mundo, quer corno membros do colégio
episcopal, quer como pastores das Igrejas particulares. O Concílio declara a
propósito disto: « O cuidado de anunciar o Evangelho, em toda a terra, pertence
ao colégio dos pastores, aos quais, em comum, Cristo deu o mandato ».121 Aquele
afirma também que os Bíspos « foram consagrados não apenas para uma diocese,
mas para a salvação de todo o mundo ».122 Esta responsabilidade colegial tem
consequências práticas. Do mesmo modo « o Sínodo dos Bispos, entre as suas
obrigaÇões de ordem geral, deve seguír com partícular solicitude a actividade
missionária, que constitui o dever mais alto e sagrado da Igreja ».123 A mesma
responsabilidade se reflecte, em graus diferentes, nas Conferências episcopais
e nos seus organismos a nível contínental, que, por isso mesmo, têm um
contributo próprio a oferecer ao compromisso míssionário.124 Vasto é também o
trabalho missionário de cada Bispo, enquanto pastor de uma Igreja partícular.
Cabe-lhe a ele, « como cabeça e centro unificador do apostolado diocesano,
promover, dirigir e coordenar a actividade missionária... Procure também que a
actividade apostólica não fique limitada apenas aos convertidos, mas uma parte
razoável de missionários e de subsídios seja destinada à evangelização dos não-cristãos
».125
64. Cada Igreja
particular deve-se abrir generosamente às necessidades das outras. A
colaboração entre as Igrejas, numa efectiva reciprocidade que lhes permite dar
e receber, é também fonte de enriquecimento para todas, e estende-se a vários
sectores da vida eclesial. A propósito disto, serve de exemplo a declaração dos
Bispos, em Puebla: « Chegou finalmente a hora de a América Latina (...) se
lançar em missão para além das suas fronteiras, ad gentes. É verdade que nós
próprios temos ainda necessidade de missionários, mas devemos dar da nossa
pobreza ».126 Com este espírito, convido os Bispos e as Conferências episcopais
a actuarem generosamente tudo quanto está sugerido na Nota directiva, que a
Congregação de Clero emanou, visando a colaboração entre as Igrejas
particulares e especialmente a melhor distribuição de clero no mundo.127 A
missão da Igreja é mais vasta que a « comunhão entre as Igrejas »: esta deve
ser orientada não só para auxiliar a reevangelização, mas também e sobretudo na
direcção da acção missionária específica. Dirijo o meu apelo a todas as
Igrejas, jovens e antigas, para partilharem comigo esta preocupação,
incrementando as vocações missionárias e superando as suas próprias
dificuldades.
Missionários e Institutos
ad gentes
65. Entre os agentes da
pastoral missionária, hoje como no passado, ocupam um lugar de importância
fundamental, aquelas pessoas e instituições às quais o Decreto Ad Gentes dedica
um capítulo, especial sob o título: « os missionários ».128 A propósito disso,
impõe-se uma reflexão profunda, sobretudo para os próprios missionários, que,
devido às alterações no contexto da missão, podem ser induzidos a não compreenderem
já o sentido da sua vocação, a não saberem já aquilo que hoje a Igreja espera
especificamente deles. Ponto de referência são estas palavras do Concílio: «
embora o compromisso de difundir a fé recaia sobre todos os discípulos de
Cristo, na medida das suas possibilidades, Cristo Senhor, do meio da multidão
dos seus seguidores, sempre chama aqueles que quer, para conviverem com Ele e
os enviar a pregar aos não cristãos. Por isso, Ele, por acção do Espírito Santo
que distribui como quer os seus carismas para o bem das almas, acende no
coração dos indivíduos a vocação missionária e, ao mesmo tempo, suscita no seio
da Igreja aquelas instituições que assumem como dever específico a tarefa da
evangelização, que diz respeito a toda a Igreja ».129 Trata-se, portanto, de
uma « vocação especial », modelada a partir da dos apóstolos, e que se
manifesta na totalidade com que se orienta o compromisso para o serviço da
evangelização dos não cristãos: é compromisso que envolve toda a pessoa e vida
do missionário, exigindo-lhe uma doacção de forças e de tempo sem limites.
Aqueles que estão dotados dessa vocação, « enviados pela legítima autoridade,
vão ter, por espírito de fé e obediência, com aqueles que se encontram longe de
Cristo, entregando-se exclusivamente àquela obra para a qual, como ministros do
Evangelho, foram assumidos ».130 Os missionários devem meditar no dom recebido
e na resposta que ele implica e actualizar a sua formação doutrinal e
apostólica.
66. Os Institutos
Missionários devem empregar todos os recursos necessários, tirando proveito da
sua experiência e criatividade na fidelidade ao seu carisma originário, para
prepararem adequadamente os candidatos, e assegurarem o restabelecimento das
energias espirituais, morais e físicas dos seus membros.l31 Sintam-se parte
viva da comunidade eclesial e trabalhem em comunhão com ela. De facto, cada
Instituto nasceu para a Igreja e deve enriquecê-la com as características
próprias, segundo 0 seu espírito particular e sua especial missão, e os
próprios Bispos são os guardiões dessa fidelidade ao carisma originário.132 Os
Institutos missionários, de uma forma geral, nasceram nas Igrejas de antiga
tradição cristã, e historicamente foram instrumentos da Congregação da
Propaganda Fide, em vista da difusão da fé e da fundação de novas Igrejas. Eles
acolhem hoje, numa medida sempre maior, candidatos provenientes das jovens
Igrejas que eles fundaram, enquanto surgem novos institutos, precisamente nos
países que antes só recebiam missionários e hoje já os enviam também. É de
louvar esta dupla tendência, que demonstra a validade e actualidade da vocação
missionária específica destes Institutos, hoje ainda « absolutamente
necessários »: 133 não apenas para a actividade missionária ad gentes como é
sua tradição, mas também para a animação missionária, tanto nas Igrejas de
antiga tradição cristã, como nas mais jovens. A vocação especial dos
missionários ad vitam, isto é, por toda a vida, mantém toda a sua validade:
representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem
necessidade de doacções radicais e totais, de ímpulsos novos e corajosos. Os
missionários e as missionárias, que consagraram a vida toda ao testemunho de
Cristo ressuscitado entre os não cristãos, não se deixem, pois, atemorizar por
dúvidas, incompreensões, recusas, perseguições. Rejuvenesçam a graça do seu
carisma específico, e retomem corajosamente o seu caminho, preferindo - em
espírito de fé, obediência e comunhão com os Pastores - os lugares mais
humildes e difíceis. Sacerdotes diocesanos para a missão universal
67. Colaboradores do
Bispo, os presbíteros, por força do sacramento da Ordem, sáo chamados a
partilhar a solicitude pela missão: « o dom espiritual que os presbíteros
receberam na Ordenanão prepara-os, não para uma missão limitada e restrita, mas
para uma vastíssima e universal missão de salvação -até aos confins da terra-,
uma vez que todo o ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal
da missão confiada aos Apóstolos por Cristo ».134 Por isso, a própria formação dos
candidatos ao sacerdócio deve procurar dar-lhes « aquele espírito
verdadeiramente católico que os habitue a olhar para além dos confins da
própria diocese, nação ou rito, indo ao encontro das necessidades da missão
universal, prontos a pregar o Evangelho por todo o lado ».135 Todos os
sacerdotes devem ter um coração e uma mentalidade missionária, estarem abertos
às necessidades da Igreja e do mundo, atentos aos mais distantes e, sobretudo,
aos grupos não cristãos do próprio meio. Na oração e, em particular no
sacrifício eucarístico, sintam a solicitude de toda a Igreja pela humanidade.
Especialmente os sacerdotes, que se encontram em áreas de minoria cristã, devem-se
sentir movidos por un singular zelo e empenho missionário: o Senhor confia-lhes
não só o cuidado pastoral da comunidade cristã, mas também e sobretudo a
evangelização dos seus compatriotas que não fazem parte do Seu rebanho. « Não
deixarão de estar concretamente disponíveis ao Espírito Santo e ao Bispo, para
serem enviados a pregar o Evangelho para além das fronteiras do seu país. Isto
exigir- lhes-á não apenas maturidade na vocação, mas também uma capacidade,
fora do comun, para se afastarem da própria pátria, etnia e família, bem como
uma particular idoneidade para se inserirem, com inteligência e respeito, nas
outras culturas ».136
68. Na encíclica Fidei
Donum, Pio XII, com intuição profética, encorajou os Bispos a oferecerem alguns
sacerdotes para um serviço temporário nas Igrejas de África, aprovando as ini
ciativas, nessa linha, já existentes. Nos 25 anos desse Documento, eu quis
sublinhar a sua grande novidade « que fez superar a dimensão territorial do
serviço presbiteral, para o destinar a toda a Igreja ».137 Hoje está confirmada
a validade e a fecundidade dessa experiência: na verdade, os presbíteros,
denominados Fidei Donum, evidenciam o vínculo de comunhão en tre as Igrejas,
dão um precioso contributo para o crescimento de comunidades carenciadas,
enquanto recebem delas frescura e vitalidade de fé. Entretanto é necessário que
o serviço mis sionário do sacerdote diocesano obedeça a alguns critérios e
condições. Sejam enviados sacerdotes escolhidos de entre os melhores, idóneos e
devidamente preparados para o trabalho peculiar que os espera.138 Eles devem-se
inserir com espírito aberto e fraterno no novo ambiente da Igreja que os
acolhe, e constituirão um único presbitério com os sacerdotes locais, sob a
autoridade do Bispo;139 ( . . . ) . Faço votos de que este espírito de serviço
aumente no seio do presbitério das igrejas antigas, e seja promovido no das
Igrejas mais recentes.
A fecundidade missionária
da consagração
69. Na inexaurível e
multiforme riqueza do Espírito, se situam as vocações dos Institutos de vzáa
consagrada, cujos membros « desde o momento em que se dedicam ao serviço da
Igreja, por força da sua consagração, ficam obrigados a prestar o seu serviço
especialmente na acção missionária, dentro do estilo própio do Instituto ».140
A história atesta a extraordinária e benemérita acção das Famílias religiosas,
em favor da propagação da fé e da formação de novas Igrejas: desde as antigas
Instituições monásticas até às Congregações modernas, passando pelas Ordens
medievais.
a ) Seguindo o Concílio,
convido os Institutos de vida contemplativa a estabelecer comunidades nas
jovens Igrejas, para prestarem « entre os não cristãos um magnífico testemunho
da majestade e da caridade de Deus, bem como da união estabelecida em Cristo
».141 Esta presença é benéfica em todo o mundo não cristão, mas especialmente
naquelas regiões, onde as religiões têm em grande estima a vida contemplativa,
na perspectiva da ascese e da busca do Absoluto.
b) Aos Institutos de vida
activa, aponto os espaços imensos da caridade, do anúncio evangélico, da
educação cristã, da cultura, e da solidariedade com os pobres, os
discriminados, os marginalizados e os oprimidos. Tais Institutos, tendam ou não
para um fim estritamente missionário, devem-se interrogar sobre a sua
possibilidade e disponibilidade de alargar a própria acção, para expandir o
Reino de Deus. Este apelo foi acolhido, nos últimos tempos, por bastantes
Institutos, mas queria que fosse tido em meIhor consideração e mais
adequadamente actuado por um autêntico serviço. A Igreja deve dar a conhecer os
grandes valores evangélicos de que é portadora; ora ninguém os testemunha mais
eficazmente, do que aquele que faz profissão de vida consagrada na castidade,
pobreza e obediência, numa total doação a Deus e plena disponibilidade para
servir o homem e a sociedade, segundo o exemplo de Cristo.142
70. Dirijo uma palavra de
especial apreço às religiosas missionárias, nas quais a virgindade por amor do
Reino se traduz em múltiplos frutos de uma maternidade segundo o Espírito: a
missão ad gentes oferece-lhes precisamente um campo vastíssimo para « se doarem
com amor, de modo total e indiviso -.143 O exemplo e a actividade da mulher
virgem, consagrada à caridade para com Deus e o próximo, sobretudo do mais
pobre, são indispensáveis como sinal evangélico, naqueles povos e culturas onde
a mulher deve ainda percorrer um longo caminho em ordem à sua promoção humana e
libertação. Faço votos de que muitas jovens cristãs sintam a sedução de se
entregarem a Cristo con generosidade, extraindo da sua consagração a força e a
alegria para O testemunharem entre os povos que O ignoram.
Todos os leigos são
missionários em razão do baptismo
71. Os últimos Pontífices
têm insistido bastante na importância do papel dos leigos para a actividade
missionária.l44 Na Exortação apostólica Christifideles laici, também eu tratei
explicitamente da « missão permanente de levar o Evangelho a todos quantos - e
são milhões e milhões de homens e de mulheres - ainda não conhecem Cristo
redentor do homem »,145 e do respectivo compromisso dos fiéis leigos. A missão
é de todo o Povo de Deus: se é verdade que a fundação de uma nova Igreja requer
a Eucaristia, e, por conseguinte, o ministério sacerdotal, todavia a missão,
que comporta as mais variadas formas, é tarefa de todos os fiéis. Aliás a
participação dos leigos na expansão da fé é clara, desde os primeiros tempos do
cristianismo, tanto a nível de indivíduos e famílias, como da comunidade
inteira. Isto foi já recordado por Pio XII, ao referir na primeira encíclica
missionária, as vicissitudes das missões laicais.146 Nos tempos modernos,
também não faltou a participação activa dos missionários leigos e das
missionárias leigas. Como não recordar o importante papel desempenhado por
estas, o seu trabalho nas famílias, nas escolas, na vida política, social e
cultural, e em particular o seu ensino da doutrina cristã? Mais: é necessário
reconhecer, como um título de honra, que algumas Igrejas tiveram a sua origem,
graças à actividade dos leigos e das leigas missionárias. O Vaticano II
confirmou esta tradição, ilustrando o carácter missionário de todo o Povo de Deus,
em particular o apostolado dos leigos,147 e sublinhando o contributo específico
que eles são chamados a dar na actividade missionária.148 A necessidade de que
todos os fiéis compartilhem tal responsabilidade não é apenas questão de
eficácia apostólica, mas é um dever-direito, fundado sobre a dignidade
baptismal, pelo qual « os fiéis leigos participam, por sua vez, no tríplice
ministério - sacerdotal, profético e real - de Jesus Cristo ».149 Por isso
também « recai sobre eles o mandato do Senhor, tendo o direito de se empenharem
individualmente ou reunidos em associação para que o anúncio da salvação seja
conhecido e acolhido por todo o homem em qualquer lugar; tal obrigação vincula-os
ainda mais naquelas situações onde os homens só poderão ouvir o Evangelho e
conhecer Cristo através deles ».150 Além disse pela índole secular, que lhes é
própria, cabe-lhes a vocação particular de « buscar o Reino de Deus, tratando
das coisas temporais e orientando-as segundo o plano de Deus ».151
72. Os sectores da presença
e da acção missionária dos leigos são muito amplos. « O primeiro campo (...) é
o mundo vasto e complicado da política, da realidade social, da economia »,152
no plano local, nacional e internacional. No âmbito da Igreja, existem vários
tipos de serviços, funções, ministérios e formas de animação da vida cristã.
Recordo, como novidade surgida recentemente em bastantes Igrejas, o grande
desenvolvimento dos « Movimentos eclesiais », dotados de dinamismo missionário.
Quando se inserem humildemente na vida das Igrejas locais e são acolhidos
cordialmente por Bispos e sacerdotes, nas estruturas diocesanas e paroquiais,
os Movimentos representan um verdadeiro dom de Deus para a nova evangelização e
para a actividade missionária propriamente dita. Recomendo, pois, que se
difundam e sirvam para dar novo vigor, sobretudo entre os jovens, à vida cristã
e à evangelização, numa visão pluralista dos modos de se associar e exprimir.
Na actividade missionária, devem-se valorizar as várias expressões do laicado,
respeitando a sua índole e finalidade: associações do laicado missionário,
organismos cristãos de voluntariado internacional, movimentos eclesiais, grupos
e sodalícios de vário género, sejam aproveitados na missão ad gentes e na
colaboração com as Igrejas locais. Deste modo se favorecerá o crescimento de um
laicado maduro e responsável cuja « formação, nas jovens Igrejas, se requer
como elemento essencial e irrenunciável da plantatio Ecclesiae -.153
A obra dos catequistas e
a variedade dos ministérios
73. Entre os leigos, que
se tornam evangelizadores, contam-se, em primeiro lugar, os catequistas. O
Decreto missionário define-os como sendo « aquele exército tão benemérito da
obra das missões entre os pagãos ( ... ) que penetrados de espírito apostólico,
prestam com seus relevantes serviços um singular e indispensável auxílio à
causa da dilatação da fé e da Igreja »,154 Não é sem razão que as Igrejas de
antiga data, ao empenharem-se numa nova evangelização, multiplicaram os
catequistas e intensificaram a catequese. « O título de -catequistas- pertence,
por antonomásia aos catequistas em terra de missão: Igrejas, hoje florescentes,
sem eles não teriam sido edificadas ».155 Mesmo com a multiplicação dos
serviços eclesiais e extraeclesiais, o ministério dos catequistas permanece
ainda necessário e tem características peculiares: os catequistas são agentes
especializados, testemunhas directas, evangeli zadores insubstituíveis, que
representam a força basilar das comunidades cristãs, particularmente nas jovens
Igrejas, como várias vezes pude dizer e constatar, nas minhas viagens mis
sionárias. O novo código de Direito Canónico refere as suas tarefas, qualidades
e requisitos.156 Mas não se pode esquecer que o trabalho dos catequistas vai-se
tornando cada vez mais difícil e exigente, devido às mudanças eclesiais e
culturais em curso. É válido ainda hoje o que o Concílio já sugeria: uma
preparação doutrinal e pedagógica mais cuidada, a constante renovação
espiritual e apostólica, a necessidade de « garantir um digno teor de vida e de
segurança social » aos catequistas.157 É importante, por último, favorecer a
criação e o fortalecimento de escolas para catequistas que, aprovadas pelas
Conferências episcopais, confiram títulos oficialmente reconhecidos por estas
últimas.158
74. Ao lado dos
catequistas, é preciso recordar outras formas de serviço à vida da Igreja e à
missão, e por conseguinte outros operadores: animadores da oração, do canto e
da liturgia; chefes de comunidades eclesiais de base e de grupos bíblicos;
encarregados das obras caritativas; administradores dos bens da Igreja;
dirigentes das várias associações de apostolado; professores de religião nas
escolas. Todos os fiéis leigos devem oferecer à Igreja uma parte do seu tempo,
vivendo com coerência a própria fé.
A Congregação para a
Evangelização dos Povos e outras estruturas da actividade missionária
75. Os responsáveis e os
agentes da pastoral missionária devem-se sentir unidos na comunhão que
caracteriza o Corpo místico. Por isto rezou Cristo, na Última Ceia: « Como tu,
Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles sejam em nós um só, para que o
mundo creia que Tu Me enviaste » (Jo 17, 21). Nesta comunhão, está o fundamento
da fecundidade da missão. Mas a Igreja constitui também uma comunhão visível e
orgânica, e por isso a missão exige uma união externa e ordenada das diversas
responsabilidades e funções, para que todos os membros « façam convergir, em
plena unanimidade, as suas forças para a edificação da Igreja ».159 Compete ao
Dicastério missionário « dirigir e coordenar, em todo o mundo, a obra de
evangelização dos povos e a cooperação missionária, salva sempre a competência
da Congregação para as Igrejas Orientais ».160 Assim « é seu dever suscitar e
distribuir, segundo as carências mais urgentes das regiões, os missionários
(...) elaborar um programa orgânico de acção, emanar directrizes e princípios
adequados à evangelização, dar o impulso inicial ».161 Só posso corroborar
estas sábias orientações: para relançar a missão ad gentes é necessário um
centro de propulsão, direcção e coordenação, que é a Congregação para a
Evangelização. Convido as Conferências episcopais e seus organismos, os
Superiores maiores das Ordens, Congregações e Institutos, os organismos laicais
empenhados na actividade missionária, a colaborar fielmente com a referida
Congregação, que tem a autoridade necessária para programar e dirigir a
activídade e a cooperação missionária a nível universal. Esta Congregação,
tendo atrás de si uma longa e gloriosa experiência, é chamada a desempenhar um
papel de primária grandeza, no plano da reflexão e dos programas operativos, de
que a Igreja precisa para se orientar mais decididamente para a missão, nas
suas várias formas. Com este objectivo, a Congregação deve manter estreitas
relações com os outros Dicastérios da Santa Sé, com as Igrejas particulares, e
com as diversas forças missionárias. Numa eclesiologia de comunhão, onde toda a
Igreja é missionária, mas simultaneamente se confirmam como cada vez mais
indispensáveis as vocações e instituições específicas para o trabalho ad
gentes, continua a ser muito importante o papel de guia e coordenação do
Dicastério missionário, para conjuntamente enfrentar as grandes questões de
interesse comum, salvas as competências de cada autoridade e estrutura.
76. Para a direcção e
coordenação da activídade missionária a nível nacional e regional, revestem-se
de grande importância as Conferências episcopais e os seus diversos órgãos. O
Concílio pede-lhes que « tratem de pleno acordo as questões mais graves e os
problemas mais urgentes, sem transcurarem, porém, as diferenças locais »162 nem
o problema da inculturação. De facto, existe uma acção ampla e regular neste
campo, e os frutos são visíveis. Essa acção, porém, deve ser intensificada e
melhor interligada com a de outros organismos das mesmas Conferências, para que
a solicitude missionária não seja deixada apenas ao cuidado de um certo sector
ou organismo, mas seja partilhada por todos. Os organismos, que se empenham na
actividade missionária, unam esforços e iniciativas sempre que isso seja útil.
As Conferências dos Superiores Maiores dirijam esse empenhamento no seu âmbito,
em contacto com as Conferências episcopais, segundo as indicações e as normas
estabelecidas,163 recorrendo mesmo a comissões mistas.164 Enfim são de desejar
encontros e formas de colaboração entre as várias instituições missionárias, no
referente tanto à formação e ao estudo,165 como à acção apostólica.
CAPÍTULO VII
A COOPERAÇÃO NA
ACTIVIDADE MISSIONÁRIA
77. Membros da Igreja por
força do baptismo, todos os cristãos são corresponsáveis pela actividade
missionária. A participação das comunidades e dos indivíduos cristãos neste
direito-dever, é chamada « cooperação missionária ». Tal cooperação radica-se e
concretiza-se, antes de mais, no estar pessoalmente unidos a Cristo: só se
estivermos unidos a Ele, como 0 ramo à videira (cf. Jo 15, 5), é que poderemos
dar bons frutos. A santidade de vida possibilita a cada cristão ser fecundo na
missão da Igreja: « o Sagrado Concílio convida a todos a uma profunda renovação
interior, para que, uma vez adquirida uma viva consciência da própria
responsabilidade na difusão do Evangelho, cumpram a sua parte na actividade
missionária no meio dos não cristãos »,166 A participação na missão universal,
portanto, não se reduz a algumas actividades isoladas, mas é o sinal da
maturidade da fé e de uma vida cristã que dá fruto. Deste modo o crente alarga
os horizontes da sua caridade, ao manifestar solicitude por aqueles que estão
longe e pelos que estão perto: reza pelas missões e pelas vocações
missionárias, ajuda os missionários, acompanha-lhes a actividade com interesse
e, quando regressam, acolhe-os com aquela alegria, com que as primitivas
comunidades cristãs ouviam, dos Apóstolos, as maravilhas que Deus operara pela
sua pregação (cf. At 14, 27).
Oração e sacriflcio pelos
missionários
78. Entre as várias
formas de participação, ocupa o primeiro lugar a cooperação espiritual: oração,
sacrifício, testemunho de vida cristã. A oração deve acompanhar os passos dos
missio nários, para que o anúncio da Palavra se torne eficaz pela graça divina.
São Paulo, nas suas Cartas, pede tantas vezes aos fiéis que rezem por ele, para
que lhe seja concedido anunciar o Evangelho com confiança e coragem. A oração
deve-se juntar o sacrifício: o valor salvífico de qualquer sofrimento, aceíte e
oferecido a Deus por amor, brota do sacrifício de Cristo, que chama os membros
do Seu Corpo místico a associarem-se aos seus padecimentos, a completá-los na
sua própria carne (cf. Col l, 24). O sacrifício do missionário deve ser
partilhado e apoiado pelo dos fiéis. Por isso, àqueles que desempenham o seu
ministério pastoral junto dos doentes, recomendo que estes sejam instruídos
sobre o valor do sofrimento, encorajando-os a oferecê-lo a Deus pelos missionários.
Com esta oferta, os doentes tornam-se também missionários, como sublinham
alguns movimentos surgidos entre eles e para eles. Nesta perspectiva é que a
solenidade do Pentecostes, que assinala o início da missão da Igreja, é
celebrada, em algumas comunidades, como « jornada do sofrimento pelas Missões
».
«Eis-me, senhor, estou
pronto! Enviai-me! » (cf. Is 6, 8)
79. A cooperação exprime-se principalmente na promoção das vocações missionárias, que constituem o seu elemento indispensável. A este propósito, apesar da validade reconhecida às diversas formas de empenhamento missionário, todavia é necessário reafirmar ao mesmo tempo a prioridade da doacção total e perpétua à obra das missões, especialmente nos Institutos e Congregações míssionárias, masculinas e femininas. A promoção de tais vocações representa o coração da cooperação: o anúncio do Evangelho requer proclamadores, a messe tem necessidade de trabalhadores, a missão realiza-se sobretudo através de homens e mulheres que consagraram a vida à obra do Evangelho, dispostos a irem por todo o mundo levar a salvação. Desejo, portanto, recomendar insistentemente esta solz-citude pelas vocações missionárias. Conscientes da responsabilidade universal dos cristãos de contribuirem para a obra missionária e para o progresso das populações pobres, todos nos devemos interrogar porquê, em diversas nações, enquanto por um lado crescem os donativos materiais, por outro ameaçam de saparecer as vocações missionárias, que constituem a verdadeira medida da entrega aos irmãos. As vocações ao sacerdócio e à vida consagrada são um sinal seguro da vitalidade de uma Igreja.
80. Pensando neste
problema grave, dirijo 0 meu apelo, com particular confiança e afecto, às
famílias e aos jovens. As famílias, e sobretudo os pais, estejam conscientes do
dever que têm de dar « um contributo particular à causa missionária da Igreja,
cultivando as vocações missionárias entre os seus filhos e filhas ».167 Uma
vida de intensa oração, um sentido real do serviço ao próximo, e uma generosa
colaboração nas actividades eclesiais oferece às famílias as condições
favoráveis à vocação dos jovens. Quando os pais estão prontos a consentir que
um dos seus filhos parta para a missão, quando eles rogaran ao Senhor uma tal
graça, Deus os recompensará, na alegria, no dia em que um dos seus filhos ou
filhas escutar o Seu chamamento. Aos jovens, eu peço que escutem a palavra de
Cristo, a eles dirigida hoje, como então foi dita a Simão Pedro e a André na
margen do lago: « Vinde após Mim, e Eu farei de vós pescadores de homens » (Mt
4, 19). Que eles tenham a coragem de responder como Isaías: « Eis-me Senhor,
estou pronto! Enviai- me! » (cf. Is 6, 8). Esses jovens encontrarão à sua
frente uma vida fascinante, e conhecerão a alegria profunda de anunciar a « Boa
Nova » aos irmãos e irmãs que orientarão pelo caminho da salvação. « Há mais
alegria em dar do que em receber » (at 20, 35) 81. São muitas as necessidades
materiais e económicas das missões: não apenas para dotar a Igreja de
estruturas mínimas, tais como capelas, escolas para catequistas e seminaristas,
residências, mas também para sustentar as obras de caridade, de educação e de
promoção humana, campo vastíssimo de acção, especialmente nos Países pobres. A
Igreja missionária dá aquilo que recebe, distribui aos pobres aquilo que os
seus filhos mais dotados de bens materiais lhe põem generosamente à disposição.
Neste momento, desejo agradecer a todos quantos, com sacrifício, contribuem
para a obra missionária: as suas renúncias e a sua participação são indispensáveis
para construir a Igreja e testemunhar a caridade. Quanto às ajudas materiais, é
importante ver o espíríto com que se dá. Para isso torna-se necessário rever o
próprio estilo de vida: as missões não solicitam apenas uma ajuda, mas uma
partilha do anúncio e da caridade para os pobres. Tudo o que recebemos de Deus -
tanto a vida como os bens materiais - não é nosso, mas foi-nos confiado em uso.
Que a generosidade no dar seja sempre iluminada e inspirada pela fé! Então
verdadeiramente haverá mais alegria em dar do que em receber. O Dzá Mundial das
Missões, orientado à sensibilização para o problema missionário, mas também
para a recolha de fundos, constitui um momento importante na vida da Igreja,
porque ensina como se deve dar o contributo: na celebração eucarística, ou
seja, como oferta a Deus, e para todas as missões do mundo.
Novas formas de
cooperação missionária
82. A cooperação alarga-se
hoje para novas formas, não só no âmbito da ajuda económica, mas também no da
participação directa. Situações novas, conexas com o facto da mobilidade,
exigem dos cristãos um autêntico espírito missionário. Recordo algumas, a
título de exemplo. O turismo a nível internacional é já um fenómeno de massa,
certamente positivo, se for praticado numa atitude respeitadora, para mútuo
enriquecimento cultural, evitando ostentação e esbanjamento, e procurando o
contacto humano. Mas, aos cristãos, é pedida sobretudo a consciência de que
devem ser sempre testemunhas da fé e da caridade de Cristo. O conhecimento
directo da vida missionária e das novas comunidades cristãs também pode
enriquecer e revigorar a fé. Não posso deixar de louvar as visitas às missões,
em particular as dos jovens que vão trabalhar e fazer uma experiência forte de
vida cristã. A necessidade de emprego leva hoje numerosos cristãos de
comunidades jovens, para áreas onde o cristianismo é desconhecido e, às vezes,
banido ou perseguido. O mesmo acontece aos fiéis de Países de antiga tradição
cristã, que vão trabalhar temporariamente para Países não cristãos. Estas
estadias são de certeza uma oportunidade para viver e testemunhar a fé. Nos
primeiros séculos, o cristianismo es palhou-se graças sobretudo aos cristãos,
que, tendo de se estabelecer, noutras regiões onde Cristo não tinha sido
anunciado, testemunhavam corajosamente a sua fé e fundavam aí as primeiras
comunidades. Mais numerosos, porém, são os cidadãos dos Países de missão e
membros de religiões não cristãs que se vão estabelecer noutras Nações, por
motivos de estudo e de trabalho, ou forçados pelas condições políticas ou
económicas do lugar de origem. A presença destes irmãos, nos Países de antiga
tradição cristã, constitui um desafio às comunidades eclesiais, estimulando-as
ao acolhimento, ao diálogo, ao servíço, à partílha, ao testemunho e ao anúncio
directo. Praticamente, também nos Países cristãos, se formam grupos humanos e
culturais que necessitam da missão ad gentes, e as Igrejas locais, inclusive
com a ajuda de pessoas vindas dos países originários e de missionários
regressados, devem ocupar-se destas situações. A cooperação missionária está
também ao alcance e empenha os responsáveis da política, da economia, da
cultura, do jornalismo, bem como os peritos dos vários organismos interna
cionais. No mundo actual, é cada vez mais difícil traçar linhas de demarcação
geográfica ou cultural: há uma interdependência crescente entre os povos, o que
representa um estímulo para o testemunho cristão e para a evangelização.
Animação e formação
missionária do Povo de Deus
83. A formação
missionária é obra da Igreja local, com a ajuda dos missionários e dos seus
Institutos, bem como dos cristãos das jovens Igrejas. Este trabalho não deve
ser visto como marginal, mas central na vida cristã. Mesmo para a « nova
evangelização » dos povos cristãos, o tema missionário pode ser de grande
proveito: o testemunho dos missionários mantém efectivamente e seu fascínio
sobre os que se afastaram e os descrentes, e transmite valores cristãos. As
Igrejas locais, pois, insiram a animação missionária como elemento fulcral, na
pastoral ordinária das dioceses e paróquias, das associações e grupos,
especialmente juvenis. Para este fim serve antes de mais a informação através
da imprensa missionária, e dos vários subsídios audiovisuais. O seu papel é
extremamente importante, enquanto dão a conhecer a vida da Igreja, a palavra e
as experiências dos missionários e das Igrejas locais, junto daqueles para quem
trabalham. É necessário, pois, que nas Igrejas mais novas, que ainda não sáo
capazes de possuir um serviço de imprensa e outros subsídios, a iniciativa seja
assumida pelos Institutos missionários que, para tal, dedicarão o pessoal e
meios necessários. Para tal formação, estão chamados os sacerdotes e seus
colaboradores pastorais, os educadores e professores, os teólogos,
especialmente aqueles que ensinam nos seminários e nos centros para leigos. O
ensino teológico não pode nem deve prescindir da missão universal da Igreja, do
ecumenismo, do estudo das grandes religiões e da missionologia. Recomendo que,
sobretudo nos seminários e nas casas de formaçao para religiosos e religiosas,
se faça tal estudo, procurando também que alguns sacerdotes, ou alunos e alunas
se especializem nos diversos campos das ciências missiológicas. As actividades
de formação sejam sempre orientadas para os seus fins específicos: informar e
formar o Povo de Deus para a missão universal da Igreja, fazer nascer vocações
ad gentes, suscitar cooperação para a evangelização. Não podemos, de facto, dar
uma imagem redutora da actividade missionária, como se esta fosse principalmente
auxílio aos pobres, contributo para a libertação dos oprimidos, promoção do
desenvolvimento, defesa dos direitos humanos. A Igreja missionária está
empenhada também nestas frentes, mas a sua tarefa primária é outra: os pobres
têm fome de Deus, e não apenas de pão e de liberdade, devendo a actividade
missionária testemunhar e anunciar, antes de mais, a salvação em Cristo,
fundando as Igrejas locais, que serão depois instrumento de libertação
integral.
A responsabilidade
primária das Obras Missionárias Pontifícias
84. Nesta obra de
animação, -o dever primeiro compete às Pontifícias Obras Missionárzás, como
várias vezes afirmei nas Mensagens para o Dia Mundial das Missões. As quatro
Obras - Propagação da Fé, S. Pedro Apóstolo, Santa Infância e União Missionária
- têm em comum o objectivo de promover o espírito missionário universal, no
seio do Povo de Deus. A União Missionária tem como fim imediato e específico a
sensibilização e formação missionária dos sacerdotes, religiosos e religiosas,
que por sua vez a deverão promover nas comunidades cristãs; além disso, ela
procura impulsionar as outras Obras, de que é a alma.l6g « A palavra de ordem
deve ser esta: todas as Igrejas pela conversão de todo o mundo »,169 Sendo do
Papa e do Colégio episcopal, estas Obras ocupam, também no âmbito das Igrejas
particulares, « justamente o primeiro lugar, já que são meios quer para
infundir nos ca tólicos, desde a infância, um espírito verdadeiramente
universal e missionário, quer para favorecer uma adequada recolha de fundos em
favor de todas as missões, segundo a necessidade de cada uma ».170 Uma outra
finalidade das Obras Missionárias é a de suscitar vocações ad gentes, por total
consagração de vida, tanto nas Igrejas antigas como nas mais jovens. Recomendo
que orientem cada vez mais para este fim, o seu serviço de animação. No
exercício da sua actividade, estas Obras dependem, a nível universal, da
Congregação para a Evangelização, e, a nível local, das Conferências episcopais
e do Bispo de cada diocese, devendo colaborar com os centros de animação
existentes: elas geram, no mundo católico, aquele espírito de universalidade e
de serviço à missão, sem o qual não existirá verdadeira cooperação.
Não só dar à missão, mas
também receber
85. Cooperar para a
missão, não significa apenas dar, mas também saber receber. Todas as Igrejas
particulares, jovens e antigas, são chamadas a dar e a receber da missão
universal, e nenhuma se deve fechar em si própria. « Em virtude desta
catolicidade - diz o Concílio -, cada uma das partes traz dons próprios às
outras e a toda a Igreja, de modo que o todo e ca da uma das partes aumentem
pela comunicação mútua entre todos e pela aspiração comum à plenitude na
unidade (...). Daí nascem, entre as diversas partes da Igreja, laços de íntima
união quanto às riquezas espirituais, obreiros apostólicos e ajudas materiais
».171 Exorto todas as Igrejas e os pastores, os sacerdodes, os religiosos e os
fiéis, a abrirem-se à unz-versalzáade da Igrejá, evitando toda a forma de
particularismo, exclusivismo, ou qualquer sentimento de autosuficiência. As
Igrejas locais, radicadas no seu povo e na sua cultura, devem todavia manter,
em concreto, esse sentido universalístico da fé, isto é, dando e recebendo das
outras Igrejas dons espirituais, experiências pastorais de primeiro anúncio e
de evangelização, de pessoal apostólico e meios materiais. De facto, a
tendência para se fechar em si própria pode ser forte: as Igrejas antigas,
preocupadas com a nova evangelização, pensam que agora devem realizar a missão
em casa, e correm o risco de refrear o ímpeto para o mundo não cristão, sendo
pouca a vontade de dar vocações aos Institutos missionários, às Congregações
religiosas. Ora é dando generosamente do nosso, que se recebe, e as jovens
Igrejas, muitas das quais conhecem um prodigioso florescimento de vocações,
estão já hoje em condições de enviar sacerdotes, religiosos e religiosas para
as Igrejas antigas. As Igrejas jovens, por outro lado, sentem o problema da
própria identidade, da inculturação, da liberdade de crescer sem influências
externas, com a possível consequência de fe charem as portas aos missionários.
A estas Igrejas, digo: longe de vos isolardes, acolhei de boa vontade os
missionários e os meios, vindos das outras Igrejas, e vós próprias enviai- os
também. Precisamente para os problemas que vos angustiam, tendes necessidade de
vos manterdes em contínua relação com os irmãos e irmãs na fé. Servindo-vos de
todo o meio legítimo, fazei valer a liberdade a que tendes direito, pensando
que os discípulos de Cristo têm o dever de « obedecer antes a Deus do que aos
homens » (At 5, 29 ) . Deus prepara uma nova primavera do Evangelho 86. Se se
olha superficialmente o mundo moderno, fica-se impressionado pela abundância de
factos negativos, podendo-se ser levado ao pessimismo. Mas este sentimento é
injustificado: nós temos fé em Deus Pai e Senhor, na Sua bondade e
misericórdia. Ao aproximar-se o terceiro milénio da Redenção, Deus está a
preparar uma grande primavera cristã, cuja aurora já se entrevê. Na verdade,
tanto no mundo não cristão como naquele de antiga tradição cristã, existe uma
progressiva aproximação dos povos aos ideais e valores evangélicos, que a
presenÇa e a missão da Igreja se empenha em favorecer. Na verdade, manifesta-se
hoje uma nova convergência por parte dos povos para esses valores: a recusa da
violência e da guerra; o respeito pela pessoa humana e pelos seus direitos; o
desejo de liberdade, de justiça e de fraternidade; a tendência à superação dos
racismos e dos nacionalismos; a afirmação da dignidade e a valorização da
mulher. A esperança cristã apoia-nos num empenhamento profundo a favor da nova
evangelização e da missão universal, e faz-nos rezar como Jesus nos ensinou: «
venha o Teu Reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu » (Mt 6,
10 ) . Os homens, à espera de Cristo, constituem ainda um número imenso: os
espaços humanos e culturais, aonde o anúncio evangélico ainda não chegou, ou a
Igreja está escassamente presente, são tão amplos que requerem a unidade de
todas as suas forças. Preparando-se para celebrar o jubileu do ano Dois mil,
toda a Igreja está ainda mais empenhada num novo advento missionário. Temos de
alimentar em nós a ânsia apostólica de transmitir aos outros a luz e a alegria
da fé, e, para este ideal, devemos educar todo o Povo de Deus. Não podemos
ficar tranquilos, ao pensar nos milhões de irmãos e irmãs nossas, também eles
redimidos pelo sangue de Cristo, que ignoram ainda o amor de Deus. A causa
missionária deve ser, para cada crente tal como para toda a Igreja, a primeira
de todas as causas, porque diz respeito ao destino eterno dos homens e responde
ao desígnio misterioso e misericordioso de Deus.
CAPÍTULO VIII
A ESPIRITUALIDADE
MISSIONÁRIA
87. A actividade
missionária exige uma espiritualidade específica, que diz respeito de modo
particular, a quantos Deus chamou a serem missionários. Deixar-se conduzir pelo
Espírito Tal espiritualidade exprime-se, antes de mais, no viver em plena
docilidade ao Espírito, e em deixar-se plasmar interiormente por Ele, para se tornar
cada vez mais semelhante a Cristo. Não se pode testemunhar Cristo sem espelhar
a Sua imagem, que é gravada em nós por obra e graça do Espírito. A docilidade
ao Espírito permitirá acolher os dons da fortaleza e do discernimento, que são
traços essenciais da espi ritualidade missionária. Paradigmático é o caso dos
Apóstolos, que durante a vida pública do Mestre, apesar do seu amor por Ele e
da generosidade da resposta ao Seu chamamento, se mostram incapazes de
compreender as Suas palavras, e renitentes em segui-l-O pelo caminho do
sofrimento e da humilhação. O Espírito transformá-los-á em testemunhas
corajosas de Cristo e anunciadores esclarecidos da Sua Palavra: será o Espírito
que os conduzirá pelos caminhos árduos e novos da missão. Hoje a missão continua
a ser difícil e complexa, como no passado, e requer igualmente a coragem e a
luz do Espírito: vivemos tantas vezes o drama da primitiva comunidade cristã,
que via forças descrentes e hostis « coligarem-se contra o Senhor e contra o
seu Cristo » (At 4, 26). Como então, hoje é necessário rezar para que Deus nos
conceda o entusiasmo para proclamar o Evangelho. Temos de prescrutar os
caminhos misteriosos do Espírito e, por Ele, nos deixarmos conduzir para a
verdade total (cf. Jo 16, 13). Viver o mistério de « Cristo enviado »
88. Nota essencial da
espiritualidade missionária é a comunhão íntima com Cristo: não é possível
compreender e viver a
missão, senão na referência a Cristo, como Aquele que foi enviado para
evangelizar. Paulo descreve assim o Seu viver: « tende em vós os mesmos
sentimentos que havia em Cristo Jesus: Ele, que era de condição divina, não
reivindicou o direito de ser equiparado a Deus; mas despojou-se a Si mesmo,
tomando a condição de servo, tornando-se semelhantes aos homens. Tido pelo aspecto
como homem, humilhou-se a Si mesmo, feito obediente até à morte de cruz » (Fp
2, 5-8). Aqui aparece descrito o mistério da encarnação e da redenção, como
despojamento total de Si mesmo que leva Cristo a viver plenamente a condição
humana e a aderir até ao fim ao desígnio do Pai. Trata-se de um aniquilamento
que, todavia, está permeado de amor e exprime o amor. Muitas vezes a missão
percorre esta mesma estrada, com o seu ponto de chegada aos pés da Cruz. Ao
missionário, pede-se que « renuncie a si mesmo e a tudo aquilo que antes
possuía como seu, e se faça tudo para todos »:172 na pobreza que o torna livre
para o Evangelho, no distanciar-se de pessoas e bens do seu ambiente originário
para se fazer irmão daqueles a quem é enviado, levando-lhes Cristo salvador. A
espiritualidade do missionário conduz a isto: « com os fracos, fiz-me fraco
(...) Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo 0 custo. Tudo faço pelo
Evangelho... » (1 Cor 9, 22-23 ) . Precisamente porque « enviado », o
missionário experimenta a presença reconfortante de Cristo, que o acompanha em
todos os momentos de sua vida: « não tenhas medo ( ... ) porque Eu estou
contigo » (At 18, 9-10), e espera-o no coração de cada homem.
Amar a igreja e os homens
como Jesus os amou
89. A espiritualidade
missionária caracteriza-se, além disso, pela caridade apostólica - a de Cristo
que veio « para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos » (Jo
11, 52), o Bom Pastor que conhece as suas ovelhas, procura-as e oferece a sua
vida por elas (cf. Jo 10). Quem tem espírito missionárío sente o ardor de
Cristo pelas almas e ama a Igreja como Cristo a amou. O missionário é impelido
pelo « zelo das almas », que se inspira na própria caridade de Cristo, feita de
atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenhamento pelos
problemas da gente. O amor de Jesus en volvia o mais fundo da pessoa: Ele, que
« sabia o que há em cada homem » (Jo 2, 25 ), amava a todos para lhes oferecer
a redenção e sofria quando esta era rejeitada. O missionário é o homem da
caridade: para poder anunciar a todo o irmão que Deus o ama e que ele próprio
pode amar, ele terá de usar de caridade para com todos, gastando a vida ao
serviço do próximo. Ele é o « irmão universal », que leva consigo o espírito da
Igreja, a sua abertura e amizade por todos os povos e por todos os homens,
particularmente pelos mais pequenos e pobres. Como tal, supera as fronteiras e
as divisões de raça, casta, ou ideologia: é sinal do amor de Deus no mundo, que
é um amor, sem qualquer exclusão nem preferência. Por fim, como Cristo, o
missionário deve amar a Igreja: « Cristo amou a Igreja e entregou-se a Si mesmo
por ela » (Ef 5, 25 ) . Este amor, levado até ao extremo de dar a vida,
constitui um ponto de referência para ele (...) Só um amor profundo pela Igreja
poderá sustentar o zelo do missionário: a sua obsessão de cada dia - a exemplo
de S. Paulo - é « o cui dado de todas as Igrejas » (2 Cor 11, 28)! Para
qualquer missionário e comunidade, « a fidelidade a Cristo não pode ser separada
da fidelidade à Sua Igreja ».173
O verdadeiro missionário
é o santo
90. O chamamento à missão
deriva por sua natureza da vocação à santidade. Todo o missionário só o é
autenticamente, se se empenhar no caminho da santidade: « a santidade deve-se
considerar um pressuposto fundamental e uma condição totalmente insubstituível
para se realizar a missão de salvação da Igreja ».174 A universal vocação à
santidade está estritamente ligada à universal vocação à missão: todo o fiel é
chamado à santidade e à missão. Este foi o voto ardente do Concílio ao desejar,
« com a luz de Cristo reflectida no rosto da Igreja, iluminar todos os homens,
anunciando o Evangelho a toda a criatura ».175 A espiritualidade missionária da
Igreja é um caminho orientado para a santidade. O renovado impulso para a
missão ad gentes exige missionários santos. Não basta explorar com maior
perspicácia as bases teológicas e bíblicas da fé, nem renovar os métodos
pastorais, nem ainda organizar e coordenar melhor as forças eclesiais: é preciso
suscitar um novo « ardor de santidade » entre os missionários e em toda a
comunidade cristã, especialmente entre aqueles que são os colaboradores mais
íntimos dos missionários.176 Pensemos, caros Irmãos e Irmãs, no ímpeto
missionário das primitivas comunidades cristãs. Não obstante a escassez de
meios de transporte e comunicação de então, o anúncio do Evangelho atingiu, em
pouco tempo, os confins do mundo. E tratava-se da religião de um Homem morto na
cruz, « escândalo para os judeus e loucura para os pagãos » (1 Cor 1, 23 ) ! Na
base deste dinamismo missionário, estava a santidade dos prímeiros cristãos e
das primeiras comunidades.
91. Dirijo-me aos
baptizados das jovens comunidades e das jovens Igrejas. Vós sois hoje a
esperança desta nossa Igreja, que tem já dois mil anos: sendo jovens na fé,
deveis ser como os primeiros cristãos, irradiando entusiasmo e coragem, numa
generosa dedicação a Deus e ao próximo: numa palavra, deveis seguir pelo
caminho da santidade. Só assim podereis ser sinal de Deus no mundo, revivendo
em vossos Países a epopeia missionária da Igreja primitiva. E sereis também
fermento de espírito missionário para as Igrejas mais antigas. Por sua vez, os
missionários reflictam sobre o dever da santidade, que o dom da vocação Ihes
exige, renovando-se dia a dia em seu espírito, e actualizando também a sua
formação doutrinal e pastoral. O missionário deve ser « um comtemplativo na
acção ». Encontra resposta aos problemas, na luz da palavra de Deus e na oração
pessoal e comunitária. O contacto com os representantes das tradições
espirituais não cristãs e, em particular, as da Ásia, persuadiu-me de que o
fruto da missão depende em grande parte da contemplação. O missionário, se não
é contemplativo, não pode anunciar Cristo de modo credível. Ele é uma
testemunha da experiência de Deus e deve poder dizer como os Apóstolos: « O que
nós contemplamos, ou seja o Verbo da vida ( ... ) nós vo-l-O anunciamos » (1 Jo
1, 1-3). O missionário é o homem das Bem-aventuranças. Na verdade, no «
discurso apostólico » (cf. Mt 10), Jesus dá instruções ao Doze, antes de os
enviar a evangelizar, indicando-lhes os caminhos da missão: pobreza, humildade,
desejo de justiça e paz, aceitação do sofrimento e perseguição, caridade que
são precisamente as Bem-aventuranças, concretizadas na vida apostólica (Mt 5, 1-12).
Vivendo as Bem-aventuranças, o missionário experimenta e demonstra
concretamente que o Reino de Deus já chegou, e ele já o acolheu. A
característica de qualquer vida missionária autêntica é a alegria interior que
vem da fé. Num mundo angustiado e oprimido por tantos problemas, que tende ao
pessimismo, o proclamador da « Boa Nova » deve ser um homem que encontrou, em
Cristo, a verdadeira esperança.
CONCLUSÃO
92. Nunca como hoje se
ofereceu à Igreja a possibilidade de, com o testemunho e a palavra, f azer
chegar o Evangelho a todos os homens e a todos os povos. Vejo alvorecer uma
nova época míssionária, que se tornará dia radioso e rico de frutos, se todos
os cristãos e, em particular, os missionários e as jovens Igrejas
corresponderem generosa e santamente aos apelos e desafios do nosso tempo. Como
os Apóstolos depois da ascensão de Cristo, a Igreja deve reunir-se no Cenáculo
« com Maria, a Mãe de Jesus » (At 1, 14), para implorar o Espírito e obter
força e coragem para cumprir o mandato missionário. Também nós, bem mais do que
os Apóstolos, temos necessidade de ser transformados e guiados pelo Espírito.
Na vigília do terceiro milénio, toda a Igreja é convidada a viver mais
profundamente o mistério de Cristo, colaborando com gratidão na obra da
salvação. Fa-lo-á com Maria e como Maria, sua mãe e modelo: é Ela, Maria, o
exemplo daquele amor materno, do qual devem estar animados todos quantos, na
missão apostólica, cooperam para a regeneração dos homens. Por isso, « confortada
pela presença de Cristo, a Igreja caminha no tempo para a consumação dos
séculos indo ao encontro do Senhor que vem. Mas, nesta caminhada, a Igreja
procede seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria ».177 A
« mediação de Maria, toda Ela orientada para Cristo e disponível para a
revelação do seu poder salvífico »,178 confio a Igreja e, em particular,
aqueles que se empenham na actuação do mandato missionário, no mundo de hoje.
Como Cristo enviou os seus apóstolos no nome de Pai, do Filho e do Espírito
Santo, também renovando o mesmo mandato, eu estendo a todos vós a Bênção
Apostólica no nome da mesma Trindade Santíssima. Amen.
Dado em Roma, junto de S.
Pedro, no dia 7 de Dezembro do ano de 1990, no XXV aniversário do Decreto
conciliar Ad gentes, décimo terceiro do Pontificado.
1 Cf. PAULO VI, Mensagem
para o Dia Mundial das Missões/1972 », Insegnamenti X (1972) 522: « Estas
tensões internas, que debilitam e laceram algumas Igrejas e instituições
locais, desapareceriam frente à firme convicção de que a salvação das
comunidades locais se conquista pela cooperação na obra missionária, a fim de
que esta se estenda até aos confins da terra ».
2 Cf. BENTO XV, Epist. ap. Maximum
illud (30/XI/1919): AAS 11 (1919) 440-455; Pio XI, Carta Enc. Rerum Ecclesiae
(28/II/1926): AAS 18 (1926) 65-83; Pto XII, Carta Enc. Evangelii praecones
(2/VI/1951): AAS 43 (1951) 497-528; Carta Enc. Fidei donum (21/IV/1957): AAS 49
(1957), 225-248; JoÃo XXIII, Carta Enc. Princeps Pastorum (28/XI/1959): AAS 51
( 1959) 833-864. 3 Carta Enc. Redemptor hominis (4/III/1979), 10: AAS 71 (1979)
274 s.
4 ibid., 10: l.c., 275. 5
5 Credo niceno-constantinopolitano:
DzS 150.
6 Carta Enc. Redemptor
hominis, 13: l.c., 283.
7 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gatrdtüm et spes,2.
8 ibid., 22.
9 Carta Enc. Dives in misericordia (30/XI/1980), 7: AAS 72 (1980)
1202.
10 Homilia da celebração
eucarística em Cracóvía, 10 de Junbo de 1979: AAS 71 (1979) 873.
11 Cf. João XXIII, Carta
Enc. Mater et magútra (15/V/1961), IV: AAS 53 (1961) 451-453.
12 Declaração sobre a
liberdade religiosa Dtgnitatts humanae, 2.
13 Paulo VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi (8/XII/1975), 53: AAS 68 (1976) 42.
14 Declaração sobre a
líberdade religiosa Dignitatis humanae, 2.
15 Cf. Const. dogm. sobre
a Igreja Lumen gentium, 14-17; Decreto sobre a actividade missionária da Igreja
Ad gentes, 3.
16 Cf. Const. dogm. sobre
a Igreja Lumen gentium, 48; Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 43; Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad
gentes, 7. 21.
17 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 13.
18 ibid., 9.
19 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.
20 Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 14.
21 Carta Enc. Dives in
misericordia, 1: l.c., 1177.
22 Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 5.
23 Cf. Conc. ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.
24 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium 4.
25 ibid., 5.
26 Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 16: l.c., 15.
27 Discurso de Abertura
da III Sessão do Conc. Ecum. Vat. II, 14 de Setembro de 1904: AAS 56 (1964)
810.
28 PAULO VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 34: l.c., 28.
29 Cf. COMISSÃO TEOLÓGICA
INTERNACIONAL, Temi SceIti d-ecclesiologia no XX aniversário do encerramento do
Conc. Ecum. Vat. II (7/X/1985), 10: « L-indole escatologica della Chiesa: Regno
di Dio e Chiesa ».
30 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 39.
31 Carta Enc. Dominum et
Vivificantem ( 18/V/1986), 42: AAS 78 (1986), 857.
32 ibid., 64: l.c., 892.
33 A expressão « sem medo
» corresponde ao termo grego parresia, que significa também entusiasmo, vigor;
cf. At 2, 29; 4, 13. 29. 31; 9, 27. 28; 13, 46; 14, 3; 18, 26; 19, 8. 26; 28,
31.
34 Cf. PAULO VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 41-42: l.c., 31-33.
35 Cf. Carta Enc. Dominum
et Vivificantem, 53: l.c., 874 s.
36 Cf. Conc. Ecum. Var.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 3. 11. 15;
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 10-11. 22.
26. 38. 41. 92-93.
37 CONC. ECUM. VAT. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudaium et spes, 10. 15. 22
38 ibid., 41.
39 Cf. Carta Enc. Dominum et
Vivificantem, 54: l.c., 875 s.
40 CONC. ECUM. VAT. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaud:úm et spes, 26.
41 ibid., 38; cf. 93.
42 Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const.
dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 17; Decreto sobre a actividade missionária
da Igreja Ad gentes, 3. 15.
43 Conc. Ecum. Var. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 4.
44 Cf. Carta Enc. Dominum
et Vivificantem, 53: l.c., 874.
45 Discurso aos
Dirigentes das religiões não cristãs, em Madras (Índia), a 5 de Fevereiro de
1986: AAS 78 (1986), 767; cf. Mensagem aos Povos da Asia, em Manila, a 21 de
Fevereiro de 1981, 2-4: AAS 73 ( 1981 ), 392 s.; Discurso aos representantes
das religíões nâo cristãs, em Tóquio, a 24 de Fevereiro de 1981, 3-4:
Insegnamenti IV/1 ( 1981 ), 507 s.
46 Discurso aos Cardeais,
à Família Pontifícia e à Cúria e Prelatura Romana, 22 de Dezembro de 1986, 11:
AAS 79 (1987), 1089.
47 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 16.
48 Conc. Ecum. Var. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 45; cf.
Carta Enc. Dominum et Vivificantem, 54: l.c., 876. 49 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 10.
50 Exort. Ap. pós-sinodal Christifideles laici
(30/XII/1988), 35: AAS 81 (1989), 457.
51 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.
52 Cf. ibid., 6.
53 ibid., 6. 23; cf. 27.
54 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 18-20: l.c., 17-19.
55 Exort. Ap. pós-sinodal
Christifideles laici, 35: l.c., 457.
56 Exort. Ap. Evangelii
nuntiandi, 80: l.c., 73.
57 Cf. Conc. Ecumt. Vat.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.
58 Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 80: l.c., 73.
59 Cf. Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.
60 Cf. ibid., 20.
61 Cf. Discurso aos
membros do Simpósio do Conselbo das Conferências Episcopais da Europa, 11 de
Outubro de 1985: AAS 78 (1986), 178-189.
62 Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 20: l.c., 19.
63 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 5; cf. Const. dogm.
sobre a Igreja Lumen gentium, 8.
64 Cf. Conc. Ecum. VAT.
II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 3-4; Paulo VI,
Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 79-80: l.c., 71-75; João Paulo II, Carta Enc. Redemptor hominis, 12: l.c., 278-281.
65 Epist. Ap. Maximum illud: l.c., 446.
66 PauLo VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 62: l.c., 52.
67 Cf. De praescriptione
haereticorum, XX: CCL I, 201 s.
68 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 9; cf. cap. II, 10-18.
69 Cf. PAULO VI, Exort. Ap. Evangelii nuntiandi, 41: l.c., 31 s.
70 Cf. Conc. Ecum. VAT.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 28. 35. 38; Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 43; Decreto sobre a actividade
missionária da Igreja Ad gentes, 11-12.
71 Cf. Paulo VI, Carta
Enc. Populorum progressio (26/III/1967), 21. 42: AAS 59 ( 1967), 267 s., 278.
72 Paulo VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 27: l.c., 23.
73 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 13.
74 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 15: l.c., 13-15; Coce. Ecum. Vat. II, Decreto sobre
a actividade missionária
da Igreja Ad gentes, 13-14.
75 Cf. Carta Enc. Dominum
et Vivificantem, 42. 64: l.c., 857-859, 892-894.
76 Cf. Paulo VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 60: l.c., 50 s.
77 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 6-9.
78 Conc. ECUM. VAT. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 2; cf. Const. dogm.
sobre a Igreja Lumen gentium, 9.
79 Cf. Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, cap. III, 19-22.
80 ibid., 15.
81 ibid., 6.
82 ibid., 15; cf. Decreto
sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio 3.
83 Cf. Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 58: l.c., 46-49.
84 Assembleia
Extraordinária em 1985, Relação final, II, C, 6.
85 ibid., II, D, 4.
86 Cf. Exort. Ap. Catechesi tradendae (16/X/1979), 53:
AAS 71 (1979), 1320; Epist. Enc. Slavorum apostoli (2/VI/1985), 21: AAS
77 (1985), 802 s.
87 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 20: l.c., 18 s. 88 Cf. Discurso aos Bispos do Zaire,
em Kinshasa, a 3 de Maio de 1980, 4-6: AAS 72 (1980), 432-435; Discurso aos
Bispos do Quénia, em Nairóbi, a 7 de Maio de 1980, 6: AAS 72 (1980), 497;
Discurso aos Bispos da Índia, em Nova Déli, a 1 de Fevereiro de 1986, 5: AAS 78
( 1986), 748 s.; Homilia em Cartagena, a 6 de Julho de 198G, 7-8: AAS 79
(1987), 105 s.; cf. também Carta Enc. Slavorum apostoli, 21-22: l.c., 802-804.
89 CONC. ECUM. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 22.
90 Cf. ibid., 22.
91 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 64: l.c., 55.
92 As Igrejas
particulares « têm a missão de assimilar o essencíal da mensagem evangélica, de
o traduzir, sem a mínima alteração da sua verdade fundamental, na linguagem que
estes homens compreendem, e depois anunciá-lo nessa mesma linguagem ... O termo
-linguagem- deve ser entendido aqui não tanto no sentido semântico ou
literário, como sobretudo naquele que podemos designar antropológico ou cultural
» (ibid., 63: l.c., 53). 93 Cf. Discurso na Audiência Geral de 13 de Abril de
1988: Insegnamenti XI/1 (1988), 877-881.
94 Exort. Ap. Familiaris
consortio (22/XI/1981), 10, que trata da inculturação « no âmbito do matrimónio
e da família »: AAS 74 (1982), 91.
95 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 63-65: l.c., 53-56.
96 Cocc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 17.
97 Discurso aos
participantes no Simpósio dos Bispos da África, em Kampala, a 31 de Julbo de
1969, 2: AAS 61 (1969), 577.
98 Paulo VI, Discurso na
Abertura da II Sessão do Conc. Ecum. Vat. II, a 29 de Setembro de 1963: AAS 55
(1963), 858; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Declaração sobre as relações da Igreja
com as religiões não cristãs Nostra aetate, 2; Const. dogm. sobre a Igreja
Lumen gentium, 16; Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes,
9; PAULO VI, Exort. Ap. Evangelii nuntiandi; 53: l.c., 41 s.
99 Cf. Paulo VI, Carta
Enc. Ecclesiam suam (6/XII/1964): AAS 56 ( 1964), 609-659; Conc. Ecum. Vat. II,
Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs Nostra
aetate; Decreto sobre a actividade missionáría da Igreja Ad Gentes, 11. 41;
SECRETARIADO PARA OS NÃO CRISTÃOS, A atitude da Igreja face aos sequazes de
outras religiões: reflexões e orientações do dialogo e missão (4/IX/1984): AAS
76 (1984), 816-828.
100 Carta aos Bispos da
Ásia, por ocasião da Va Assembleia Plenária da Federação das suas Conferências
Episcopais (23/VI/1990), 4: L-Osservatore Romano, de 18 de Julho de 1990.
101 Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 14; cf. Decreto sobre a actividade
missionária da Igreja Ad gentes, 7.
102 Cf. Conc. Ecum. VAT.
II, Decreto sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 3; Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 7.
103 Cf. Carta Enc.
Redemptor hominis, 12: l.c., 279.
104 Cone. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 11. 15.
105 Conc. Ecum. Vat. II,
Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs Nostra
aetate, 2. 106 Exorc. Ap. pós-sinodal Christifideles laici, 35: l.c., 458.
107 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 41.
108 Carta Enc.
Sollicitudo rei socialis (30/XII/1987), 41: AAS 80 ( 1988), 570 s.
109 Documentos da III
Conferência Geral do Episcopado latino-americano, em Puebla ( 1979), 3760
(1145).
110 Discurso aos Bispos,
sacerdotes, religiosas e religiosos, em Jacarta, a 10 de Outubro de 1989, 5: L-Osservatore
Romano de 11 de Outubro de 1989.
111 Cf. PAULO VI, Carta
Enc. Populorum progressio, 14-21. 40-42: l.c., 264-268, 277 s.; JOÃO
PAULO I I, Carta Enc.
Sollicitudo rei socialis, 27-41: l.c., 547-572.
112 Cf. Carta Enc.
Sollicitudo rei socialis, 28: l.c., 548-550.
113 Cf. ibid., cap. IV, 27-34: l.c.,
547-560; Paulo VI, Carta Enc. Populorum progressio, 19-21. 41-42: l.c., 266-268,
277 s.
114 Discurso aos
habitantes da favela do Vidigal, no Rio de Ja neiro, a 2 de Julho de 1980, 4:
AAS 72 (1980), 854.
115 Documentos da III Conferência
Geral do Episcopado latino-americano, em Puebla, 3757 (1142).
116 ISAAC DE STELLA, Sermone 31: PL 194, 1793.
117 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 20.
118 Exort. Ap. pós-sinodal Christifideles laici, 35:
l.c., 458.
119 Cf. Conc. Ecum. VAT.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 38.
120 Discurso aos membros
do Sacro Colégio e a todos os colaboradores da Cúria Romana, da Cidade do
Vaticano e do Vicariato de Roma, em 28 de Junho de 1980, 10: Insegnamenti III/1
(1980), 1887.
121 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 23.
122 Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 38.
123 ibid., 29.
124 Cf. ibid., 38.
125 ibid., 30.
126 Documentos da III
Conferência Geral do Episcopado latíno-americano, em Puebla, 2941 (368).
126 Cf. Notas directivas
para a promoção da mútua cooperação entre as Igrejas particulares e em especial
para uma distribuição mais correcta do Clero Postquam Apostoli (25/III/1980):
AAS 72 ( 1980), 343-364.
128 Cf. Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, cap. IV, 23-27.
129 ibid., 23.
130 ibid., 23.
131 Cf. ibid., 23. 27.
132 CE. CONGREGAÇÃO PARA
OS RELIGIOSOS E OS INSTITUTOS SECULARES e CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS, Notas
directivas para as relações mútuas entre os Bispos e os Religiosos na Igreja
Mutuae relationes (14/V/1978), 14b: AAS 70 (1978), 482; cf. ainda n. 28, do
mesmo documento.
133 CONC. ECUM. VAT. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 27. 134 Conc. Ecum.
Vat. II, Decreto sobre o ministério e a vida sacerdotal Presbyterorum ordinis,
10; cf. Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 39.
135 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a formação sacerdotal Optatam totius, 20. Cf. « Guide de vie
pastorale pour les prêtres diocésains des Eglises qui dépendent de la
Congrégation pour l-Evangélisation des Peuples o (Roma, 1989).
136 Discurso aos
participantes à Assembleia Plenária da Congregação para a Evangelização dos
Povos, a 14 de Abril de 1989, 4: AAS 81 (1989), 1140.
137 Mensagem para o Dia
Mundial das Missões/1982: Insegnamenti V/2 (1982), 1879.
138 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 38; CONGREGAÇÃO
PARA O CLERO, Notas Directivas Postquam Apostoli, 24-25: l.c., 361.
139 CF. CONGREGAÇÃO PARA
O CLERO, Notas directivas Postquam Apostoli, 29: l.c., 362 s.; Conc. ECUM. VAT.
II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 20.
140 C.I.C., cán. 783.
141 Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 40.
142 Cf. Paulo VI, Exort.
Ap. Evangelii nuntiandi, 69: l.c., 58 s.
143 Carta Ap. Mulieris
dignitatem (15/VIII/1988), 20: AAS 80 (1988), 1703.
144 Cf. PIO XII, Carta
Enc. Evangelii praecones: l.c., 510 s.; Carta Enc. Fidei donum: l.c., 228 s;
João XXIII, Carta Enc. Princeps Pastorum: l.c., 855 s.; Paulo VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 70-73: l.c., 59-63.
145 Exort. Ap. pós-sinodal
Christifideles laici, 35: l.c., 457.
146 Cf. Carta Enc.
Evangelii praecones: l.c., 510-514.
147 Cf. Const. dogm.
sobre a Igreja Lumen gentium, 17. 33 s.
148 Cf. Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 35-36. 41.
149 Exort. Ap. pós-sinodal Christifideles laici, 14:
l.c., 410.
150 C.I.C., cán. 225, I; cf. Conc. Ecum.
VAT. II, Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam Actuositatem, 6. 13.
151 Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 31; cf. C.I.C., cán. 225, 2.
152 PAULO VI, Exort. Ap.
Evangelii nuntiandi, 70: l.c., 60.
153 exort. ap. pós-sinodal
Christifideles laici, 35: l.c., 458.
154 Corrc. Ecum. VAT. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 17.
155 Exort. Ap. Catechesi tradendae, 66: l.c., 1331.
156 Cf. cán. 785, 1.
157 Decreto sobre a actividade
missionária da Igreja Ad gentes, 17.
158 Cf. Assembleia
Plenária da Congregação para a Evangelização dos Povos, do ano 1969, sobre os
catequistas, e a correlativa « Instrução » de Abril de 1970: Bibliografia
missionaria 34 (1970), 197-212, e ainda Sacra Congreg. de Propaganda Fide
Memoria Rerum, III/2 ( 1976), 821-831.
159 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 28.
160 Const. Ap. sobre a
Cúria Romana Pastor Bonus, (28/VI/1988), 85: AAS 80 (1988) 881; cf. Conc. Ecum.
Vat. II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 29.
161 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 29; cf. JOÃO PAULO
II, Const. Ap. Pastor Bonus,
86: l.c., 882.
162 Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad gentes, 31.
163 Cf. ibid., 33.
164 Cf. Paulo VI, Cart.
Ap. sob forma de motu proprio data Ecclesiae Sanctae (6/VIII/1966), II, 43: AAS
58 (1966), 782.
165 Cf. Conc. Ecum. Vat.
II, Decreto sobre a actividade missíonária da Igreja Ad gentes, 34; PAULO VI,
Motu proprio Ecclesiae sanctae, III, n. 22: l.c., 787.
166 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 35; cf. C.I.C.cán.
211. 781.
167 Exort. ap. Familiaris consortio, 54: l.c., 147.
168 Cf. PAULO VI, Cart.
Ap. Graves et increscentes (5/IX/1966): AAS 58 (1966), 750-756.
169 P. MANNA, Le nostre « Chrise » e la propagazione
del Vangelo, Trentola Ducenta, 1952, 2 p.35.
170 Conc. ECUM. VAT. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 38.
171 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 13.
172 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 24.
173 Conc. Ecum. Vat. II,
Decreto sobre o ministério e vida sacerdotal Presbyterorum ordinis, 14.
174 Exort. Ap. pós-sinodal Christifideles laici, 17:
l.c., 419.
175 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 1.
176 Cf. Discurso à
Assembleia do CELAM, em Porto Príncipe, a 9 de Março de 1983: AAS 75 (1983 )
771-779; Homilia na Abertura da « Novena de anos », promovida pelo CELAM em S.
Domingos, a 12 de Outubro
de 1984: Insegnamenti VII/2 ( 1984) 885-897.
177 Carta Enc.
Redemptoris Mater (25/III/1987), 2: AAS 79 (1987) 362 s.
178 ibid., 22: l.c., 390.
Fonte:
Vaticano - Santa Sé - Papa João Paulo II
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