CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA
34ª Reunião Ordinária do Conselho Permanente/1994
Brasília, DF, 22 a 25 de novembro de 1994
APRESENTAÇÃO
Em
várias oportunidades, no decorrer dos últimos anos, a Renovação Carismática
Católica tem merecido a atenção de nossos Bispos. A 32ª Assembléia Geral da
CNBB, em abril de 1994, começou a estudar um projeto de orientações pastorais
sobre a Renovação Carismática Católica, elaborado após ampla consulta a todas
as Dioceses do País. Dado o acúmulo de trabalhos, a Assembléia não pôde
concluir o estudo, delegando à Presidência, Comissão Episcopal de Pastoral e ao
Conselho Permanente o prosseguimento do mesmo até sua aprovação final.
Uma
nova comissão episcopal foi constituída e retomou o trabalho em diálogo com a
Comissão Nacional da RCC e com Bispos e padres a ela mais ligados. Outras
colaborações foram igualmente pedidas e recebidas. A partir de tudo isso a
comissão elaborou um novo texto enviado à Presidência e CEP e por elas
cuidadosamente estudado.
As
sugestões apresentadas levaram a comissão a reelaborar o texto, resultando numa
segunda redação significativamente modificada. Enviado previamente a todos os
membros do Conselho Permanente, o texto foi reescrito a partir das indicações
feitas. Foi, portanto, uma terceira redação do texto que o Conselho discutiu,
modificou e votou em sua reunião de novembro deste ano, aprovando-o por
unanimidade de seus membros.
É o
resultado desse longo e cuidadoso trabalho que a CNBB entrega, agora, às
Igrejas Particulares rogando a Maria, Mãe da Igreja, possam estas orientações
pastorais contribuir para o crescimento da comunhão e do ardor missionário de
nossas comunidades, dos membros da RCC e de todos os fiéis.
Brasília,
27 de novembro de 1994.
1º
Domingo do Advento do Senhor.
D.
A. Celso Queiroz
Secretário-Geral
da CNBB
INTRODUÇÃO
1.
Como pastores da Igreja Católica no Brasil, nós, Bispos, nos dirigimos a todos
os fiéis, propondo uma reflexão sobre a Renovação Carismática Católica (RCC).
De modo especial nos dirigimos aos fiéis que nela têm encontrado meios de
crescimento em sua vida espiritual e apostólica.
2.
O Espírito Santo anima e sustenta a vitalidade da Igreja em sua dupla dimensão
fundamental de comunhão e missão. Ele suscita, orienta e assiste os grandes
acontecimentos eclesiais como o Concílio Ecumênico, os Sínodos Episcopais, as
Conferências dos Bispos e de outros membros do Povo de Deus, as Assembléias
Diocesanas e outras... Ele sustenta também toda a grande obra missionária no
mundo. É o mesmo Espírito que faz brotar sempre novas iniciativas no seio do
Povo de Deus. Entre os vários movimentos de renovação espiritual e pastoral do
tempo pós-conciliar, surgiu a RCC que tem trazido novo dinamismo e entusiasmo
para a vida de muitos cristãos e comunidades.
3.
Como Bispos, procuramos estar sempre atentos à ação do Espírito, ajudando os
cristãos a valorizá-la. Freqüentemente enfatizamos algum aspecto determinado da
vida da Igreja que necessita de especial estímulo ou cuidado. É assim que neste
ano temos incentivado nossas comunidades para a celebração do Ano Missionário.
Recentemente refletimos também com as CEBs ajudando-as a prosseguirem fiéis em
seu caminho. Nossa missão nos leva também a ajudar a discernir as verdadeiras
moções do Espírito, incentivando tudo aquilo que contribui para o crescimento
da Igreja e a realização da sua missão. Em tudo, a busca da fidelidade deve ser
constante, busca realizada na humildade e em espírito de comunhão.
4.
As orientações fundamentais que aqui propomos para a RCC são válidas e
necessárias também para todas as comunidades em geral e para os demais
movimentos e organismos de Igreja. Todos devemos aprofundar nossa vivência
eclesial, valorizando os novos caminhos que o Espírito suscita e evitando
deturpações e atitudes parciais que dificultam a comunhão eclesial.
5.
Nossa reflexão parte de uma meditação sobre o Espírito Santo no mistério e na
vida da Igreja, e se desdobra a seguir com orientações pastorais sobre a Igreja
Particular, a Leitura e Interpretação da Bíblia, a Liturgia, e as Dimensões da
Fé. Finalizamos com algumas indicações de ordem mais prática e concreta.
6.
Este texto é oferecido aos membros da RCC para ser refletido e aprofundado. Ele
quer ser ponto de referência para um diálogo constante dos pastores com os
fiéis nos vários níveis da vida de Igreja.
I - O ESPÍRITO SANTO NO MISTÉRIO
E NA VIDA DA IGREJA
7.
O Mistério da Igreja surge na História pela missão do Filho de Deus e do
Espírito Santo. Enviado pelo Pai, o Verbo Divino assume a natureza humana para
instaurar o Reino de Deus na terra e instituir a Igreja a seu serviço, como
"germe e princípio" desse Reino ( cf. LG, 5b). Enviado pelo Pai e
pelo Filho, o Espírito Santo vivifica a
Igreja e a faz crescer como Corpo Místico de Cristo (LG, 8).
8.
Estando para consumar a obra que o Pai lhe confiara, Jesus promete o envio do
Espírito Santo que continua e aprofunda a própria missão de Cristo (cf. Jo
14,17.26). Ele não falará por si mesmo, mas ensinará e recordará aos discípulos
tudo o que Jesus lhes disse (cf. Jo 14,26). Ele glorificará Jesus porque
receberá o que é de Jesus e o comunicará (cf. Jo 16,14).
9.
Em Pentecostes, pela força do Espírito Santo, os apóstolos se tornam
testemunhas da Ressurreição (cf. At 1,8; 5,32) e a Igreja-comunhão inicia a sua
missão, espalhando-se pelo mundo com dons e carismas diferentes. "Jesus
continua sua missão evangelizadora pela ação do Espírito Santo, o agente
principal da evangelização, através de sua Igreja" (CNBB, Doc. 45, 255). O
Espírito Santo, protagonista de toda missão eclesial (RMi, 21) leva a Igreja a
"evangelizar com renovado ardor missionário".
10.
O Espírito Santo é o intercessor que nos introduz na vida da
Trindade, para a realização do projeto de Deus, na adoção filial, na
glorificação dos filhos de Deus e da própria criação (cf. Rm 8,19-27). Faz de
cada cristão uma testemunha (cf. At 1,8 e 5,32), gera dinamismo interior nos
apóstolos, tornando-os os primeiros evangelizadores na expansão missionária da
Igreja, realiza a unidade entre os que crêem para que sejam "um só coração
e uma só alma" (At 4,32), e para permanecerem unidos "na doutrina dos
apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações" (At
2,42). Habitando em nós (cf. Rm 8,9), faz morrer as obras do pecado (cf. Rm
8,12). Ele comunica a verdadeira paz, que é comunhão na vida feliz de Deus. É
Aquele que "vem em auxílio de nossa fraqueza porque nem sabemos o que
convém pedir" (Rm 8,26).
11.
O cristão, pela graça batismal, é introduzido na intimidade da
vida trinitária, partilhando da sua riqueza na comunidade eclesial. A plena
comunhão da Trindade manifesta-se na Comunidade-Igreja e oferece vida nova (cf.
2Pd 1,4; Ef 4,24; Cl 3,10) de relacionamento de filhos com o Pai (Gl 4,6).
12.
Quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo faz de sua vida um testemunho de
Jesus Bom Pastor (cf. Jo 10,10). Não poderá, portanto, retirar-se dos problemas
e ambigüidades da convivência humana, mas buscará construir fraternidade.
"Não são os que dizem Senhor, Senhor que entrarão no Reino de Deus, mas os
que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7,21).
13.
O Espírito ensina, santifica e conduz o Povo de Deus através da pregação e
acolhida da Palavra, da celebração dos sacramentos e da orientação dos
pastores. Distribui também graças ou dons especiais "a cada um como lhe
apraz" (1Cor 12,11), sempre "para a utilidade comum". Por essas
graças, Ele "os torna aptos e prontos a tomarem sobre si os vários
trabalhos e ofícios, que contribuem para a renovação e maior incremento da
Igreja (cf. 1Cor 12,2; LG 12b).
14.
O Espírito Santo distribui seus dons aos fiéis, de tal forma que ninguém possui
todos eles, como ninguém está totalmente privado deles (cf. 1Cor 12,4ss). Esses
dons são sempre para o serviço da comunidade (cf. 1Cor 14). Não é a experiência
dos carismas que exprime a perfeição da salvação, mas a caridade que deve
perpassar toda a vida do cristão (cf. Mc 12, 28-31; 1Cor 13). Procurá-la é o
primeiro e melhor caminho para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja
(cf. 1Cor 12,31-13,13; LG, 42; AA, 3).
15.
Hoje ele continua renovando a Igreja através de múltiplas e novas expressões de
fé e coerência cristã. Podemos enumerar como frutos do Espírito os novos
sujeitos da evangelização; a expansão e vitalidade das CEBs; movimentos de
renovação espiritual e pastoral; a própria RCC; o engajamento de leigos na
transformação da sociedade; a leitura da Bíblia à luz das situações vividas na
comunidade; a liturgia mais participada com a riqueza de seus ritos e
simbologia; a busca de evangelização inculturada; a fidelidade de muitos na
vida cotidiana; as lutas do povo para a implantação dos direitos humanos; a
prática da justiça e da promoção social (cf. CNBB, Doc. 45, 301-302).
II - ORIENTAÇÕES PASTORAIS
A) A Igreja Particular
16.
O Concílio Vaticano II ensina que a Igreja Particular é uma porção do Povo de
Deus, confiada a um bispo para que a pastoreie com a cooperação do presbitério
e dos diáconos. Nela verdadeiramente reside e opera a Una, Santa, Católica e
Apostólica Igreja de Cristo (cf. CD, 11).
17.
"Conforme o próprio Concílio Vaticano II, a comunidade eclesial é
edificada pelo Espírito Santo, mediante o anúncio da Palavra (Evangelho), a
celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, a vida de comunhão do Povo
de Deus com seus carismas e ministérios, entre os quais sobressai o ministério
episcopal-presbiteral-diaconal, que tem a responsabilidade de garantir os laços
que unem a comunidade de hoje com a Igreja apostólica e com o projeto
missionário, evangelizador, que lhe é confiado até o fim dos tempos"
(CNBB, Doc. 45, 196).
18.
A liberdade associativa dos fiéis é
reconhecida e garantida pelo Direito Canônico e deve ser exercida na comunhão
eclesial. O Papa João Paulo II, na sua Exortação Apostólica Christifideles
Laici (n. 30), aponta critérios fundamentais para o discernimento de toda e
qualquer associação dos fiéis leigos na Igreja, que podem ser aplicados a todos
os grupos eclesiais:
— o
primado dado à vocação de cada cristão à santidade, favorecendo e encorajando
"uma unidade íntima entre a vida prática dos membros e a própria fé"
(AA, 19);
— a
responsabilidade em professar a fé católica, no seu conteúdo integral,
acolhendo e professando a verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre a pessoa
humana;
— o
testemunho de uma comunhão sólida com o papa e com o bispo, e na "estima
recíproca de todas as formas de apostolado da Igreja" (AA, 23);
— a
conformidade e a participação na finalidade apostólica da Igreja, que é a evangelização
e santificação dos homens... de modo a permear de espírito evangélico as várias
comunidades e os vários ambientes (cf. AA, 20);
— o
empenho de uma presença na sociedade humana a serviço da dignidade integral da
pessoa humana, mediante a participação e solidariedade, para construir
condições mais justas e fraternas no seio da sociedade.
19.
Reconhecendo-se a presença da RCC em muitas Dioceses e também a contribuição
que tem trazido à Igreja no Brasil, é preciso estabelecer o diálogo fraterno no
seio da comunidade eclesial, apoiando o sadio pluralismo, acolhendo a
diversidade de carismas e corrigindo o que for necessário.
20.
Nenhum grupo na Igreja deve subestimar outros grupos diferentes, julgando-se
ser o único autenticamente cristão.
21.
A RCC assuma com fidelidade as diretrizes e orientações pastorais da CNBB. A
Coordenação Nacional da RCC terá um bispo designado pela CNBB, como seu
Assistente Espiritual, que lhe dará acompanhamento e ajudará nas questões de
caráter nacional, zelando pela reta aplicação destas orientações pastorais, sem
prejuízo da autoridade de cada bispo diocesano.
22.
A RCC assuma também as opções, diretrizes e orientações da Igreja Particular
onde se faz presente, evitando qualquer paralelismo e integrando-se na pastoral
orgânica.
23.
Os Bispos e os párocos procurem dar acompanhamento à RCC diretamente ou através
de pessoas capacitadas para isso. Por sua vez, a RCC aceite as orientações e
colabore com as pessoas encarregadas desse acompanhamento.
24.
Os membros da RCC participem dos Encontros, Cursos, Círculos Bíblicos e outras
atividades pastorais e de formação promovidos pelas Igrejas Particulares, bem
como dos momentos fortes que marcam a vida eclesial, tais como Campanha da
Fraternidade, Mês da Bíblia, Mês Missionário, Preparação de Natal e outros.
25.
Deve-se também reconhecer a legitimidade de encontros e reuniões específicos da
RCC, nos quais seus membros buscam aprofundar sua espiritualidade e métodos
próprios, dentro da doutrina da fé e da grande comunhão da Igreja Católica.
26.
As Equipes de coordenação da RCC, integradas às diversas instâncias pastorais
da Igreja Particular, visem uma comunhão plena com as Comunidades, Associações,
Pastorais Específicas, Serviços e Organismos existentes na Diocese,
respeitando-os, valorizando-os, reconhecendo-os e colaborando com elas na busca
de uma autêntica articulação pastoral (cf. CNBB, Doc. 45, 295-296).
27.
Os Grupos de Oração alimentem o espírito de comunhão eclesial, busquem o
crescimento na fé e a perseverança de seus participantes levando-os a um
efetivo compromisso na evangelização engajando-se na Comunidade, Paróquia e
Diocese.
28.
As tarefas de coordenação, animação de grupos e de evangelização sejam
confiadas a pessoas adequadamente preparadas e de comprovada vivência cristã.
29.
Evite-se na RCC a utilização de termos já consagrados na linguagem comum da
Igreja e que na RCC assumem significado diferente, tais como pastor, pastoreio,
ministério, evangelizador e outros.
30.
O programa recentemente lançado pela RCC no Brasil, intitulado "Ofensiva
Nacional", assuma o Objetivo e as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da
Igreja no Brasil. Seus projetos só poderão ser implantados em sintonia com os
organismos pastorais da Diocese.
31.
Os convites a pessoas de outras Dioceses para conferências, palestras,
seminários e outros eventos, sejam feitos com a devida anuência do bispo
diocesano ou de quem for por ele indicado.
32.
Os manuais de oração, livros de estudos bíblicos e de formação doutrinal, dada
sua importância pastoral, tenham aprovação eclesiástica.
B) Leitura e Interpretação
da Bíblia
33.
A Palavra de Deus é a própria presença do Deus que fala: "Escrutai as
Escrituras... elas dão testemunho de mim" (Jo 5,39). Cristo, Evangelho
vivo do Pai, não só é o centro da Bíblia, mas também seu intérprete (cf. Lc
24,13-35). A "Igreja venera as divinas Escrituras como o próprio Corpo do
Senhor" (DV, 21). E não apenas transmite a Palavra de Deus, mas também a
interpreta (cf. Interpretação da Bíblia
na Igreja, Pontifícia Comissão Bíblica, 127).
34.
A Bíblia manifesta o Plano salvífico de Deus de modo unitário. Por isso, não se
podem utilizar textos ou palavras, sem referência ao contexto e ao conjunto da
Bíblia (cf. idem, 142).
35.
Para não prejudicar uma reta leitura da Bíblia, é preciso estar atentos para
não cair, entre outros, nos seguintes perigos: 1º O fundamentalismo, que é
fixar-se apenas no que as palavras dizem "materialmente" sem
respeitar o contexto nem a contribuição das ciências bíblicas; 2º O intimismo,
que é interpretar a Bíblia de modo subjetivo, e até mágico, fazendo o texto
dizer o que não era intenção dos autores sagrados. Sobre isso, sigam-se as
orientações do Magistério, especialmente o recente documento da Pontifícia
Comissão Bíblica sobre a interpretação da Bíblia na Igreja.
36.
É urgente a formação doutrinal de todos os fiéis, seja para o natural dinamismo
da fé, seja para iluminar com critérios evangélicos os graves e complexos
problemas do mundo contemporâneo (ChL, 60). Dê-se especial importância à
formação bíblica, que ofereça sólidos princípios de interpretação.
37.
Estimule-se a prática da leitura orante da Bíblia (= lectio divina), fazendo
dela fonte e inspiração de nosso encontro com Deus e com os irmãos.
C) Liturgia
38.
"Na Liturgia, especialmente na Eucaristia, celebra-se a realidade
fundamental da Páscoa: morte e ressurreição de Jesus Cristo, morte e
ressurreição do batizado com Cristo. Na ação litúrgica, devem encontrar espaço
todas as realidades da vida cotidiana do cristão, pois é com todos os aspectos
da sua pessoa que ele tem de passar deste mundo ao Pai. Ao participar na
celebração, o cristão terá presente suas aspirações, alegrias, sofrimentos,
projetos, bem como os de todos os seus irmãos. E colocará todas estas intenções
na oração que sua comunidade, com toda a Igreja, dirige ao Pai, com Cristo
Salvador, na unidade do Espírito Santo" (João Paulo II, Diretrizes aos Bispos do Brasil, Loyola,
1991, p. 44).
39.
"A dimensão litúrgica exprime, pois, o caráter
celebrativo da Igreja. Constitui, na terra, a expressão mais significativa da
comunhão eclesial. Na Liturgia, o Povo de Deus encontra seu maior momento de
festa e de comunhão eclesial" (CNBB, Doc. 45, 92). Por isso, seja dada
especial atenção à formação litúrgica de todos os membros da RCC para maior
compreensão e vivência do mistério e de sua expressão simbólico-ritual e
ministerial, visando uma autêntica prática celebrativa, que leve em conta o
espaço e o tempo litúrgico.
40.
Nas celebrações, observe-se a legislação litúrgica que, embora estabeleça
normas precisas para certos momentos, abre amplo espaço para a criatividade.
Não se introduzam elementos estranhos à tradição litúrgica da Igreja ou que
estejam em desacordo com o que estabelece o Magistério ou aquilo que é exigido
pela própria índole da celebração.
41.
Na celebração da Missa, não se deve salientar de modo inadequado as palavras da
Instituição, nem se interrompa a Oração Eucarística para momentos de louvor a
Cristo presente na Eucaristia com aplausos, vivas, procissões, hinos de louvor
eucarístico e outras manifestações que exaltem de tal maneira o sentido da
presença real que acabem esvaziando as várias dimensões da celebração
eucarística.
42.
Os cantos e os gestos sejam adequados ao momento celebrativo e de acordo com os
critérios exigidos para a celebração litúrgica. São preciosas e oportunas as
orientações do documento n. 43 da CNBB sobre Animação da vida litúrgica no Brasil. Procure-se distinguir cantos
para uso litúrgico e cantos para encontros. Valorizem-se os Hinários Litúrgicos
publicados pela CNBB, os Livros de Cantos das Igrejas Particulares e outros
Hinários difundidos entre o povo.
43.
A Celebração Eucarística, a distribuição da Sagrada Comunhão fora da Missa e o
Culto Eucarístico realizem-se dentro das normas litúrgicas, as diretrizes da
CNBB e as orientações do bispo diocesano.
44.
Cuide-se para que não haja coincidência de reuniões de grupos ou outras
iniciativas da RCC com a celebração da Santa Missa ou outras celebrações da
comunidade eclesial.
D) Dimensões da vivência da Fé
45.
"Pela vivência do
mistério de Cristo na vida cotidiana, o Povo de Deus
aprofunda constantemente o sentido da fé" (CNBB, Doc. 45, 86). A própria
dinâmica da fé comporta tanto a dimensão pessoal e subjetiva, como a
comunitária. "A fé nasce do anúncio e cada comunidade eclesial
consolida-se e vive da resposta pessoal de cada fiel a esse anúncio" (RMi,
44).
46.
"A experiência religioso-cristã não se realiza em mera experiência
subjetiva, mas no encontro com a Palavra de Deus confiada ao Magistério e à
Tradição da Igreja, nos sacramentos e na comunhão eclesial" (CNBB, Doc.
45, 175). Isso faz parte do desígnio de Deus a quem aprouve "chamar os
homens a participar da sua própria vida, não um a um, mas constituídos como
povo, no qual seus filhos dispersos fossem reconduzidos à unidade" (AG 2).
47.
A fé não pode ser reduzida a uma busca de satisfação de exigências íntimas e de
resposta às necessidades imediatas. Nem se pode propor a fé cristã sem a
dimensão da cruz, inerente ao seguimento de Jesus Cristo (cf. Lc 14, 25-35),
caminho para a vida plena na ressurreição.
48.
É fundamental para a realização da vida cristã e da ação pastoral o sentido
comunitário da fé. A formação de pessoas e de comunidades vivas e maduras na fé
é resposta aos desafios da Nova Evangelização e da ação missionária. A missão
nasce da fé em Jesus Cristo e fortifica-se quando partilhada (cf. RMi, 4 e 2).
49.
A espiritualidade cristã integra o social e o espiritual, o humano e o
religioso. Não está, porém, isenta das ambigüidades e mesmo distorções que
podem caracterizar as reações do psiquismo humano, seja individual, seja
grupal. Por isso, evite-se alimentar um clima de exaltação da emoção e do
sentimento, que enfatiza apenas a dimensão subjetiva da experiência da fé.
50.
Para expandir o projeto de Deus, o cristão deve comprometer-se com a criação de
uma sociedade justa e solidária, eliminando o pecado como gerador de divisão
com Deus e os irmãos. A dimensão social da fé, à luz da Doutrina Social da
Igreja, requer a luta para debelar as estruturas de pecado: pessoal,
comunitário, social e estrutural, e assim estabelecer o Reino de Cristo e de
Deus (cf. LG, 5). Recomenda-se, pois, que membros dos grupos de oração sejam
animados a assumir projetos de promoção humana e social, especialmente dos
pobres e marginalizados.
51.
A evangélica opção preferencial pelos pobres é um dom do Espírito Santo à
Igreja, que é também concedido, como carisma especial, a alguns grupos de
cristãos leigos, a certas famílias religiosas e a muitos fiéis. Segundo a
recomendação do apóstolo: "aspirai aos carismas melhores" (1Cor
12,31), a vivência da opção pelos pobres deve ser desejada e implorada por
todos como carisma precioso, a ser vivido em nossos dias, como sinal da presença
do Reino.
52.
A falta de coerência entre a fé que se professa e a vida cotidiana é uma das
várias causas que geram pobreza em nosso País. Os cristãos nem sempre souberam
encontrar na fé a força necessária para penetrar os critérios e as decisões dos
setores responsáveis pela organização social, econômica e política de nosso
povo (cf. DSD 161).
E) Questões Particulares
53.
Alguns temas necessitam de maior aprofundamento teológico, diálogo eclesial e
orientação pastoral, tais como: Batismo no Espírito Santo, dons e carismas, dom
da cura, orar e falar em línguas, profecia, repouso no Espírito, poder do mal e
exorcismo.
54.
A palavra "Batismo" significa tradicionalmente o sacramento da
iniciação cristã. Por isso, será melhor evitar o uso da expressão "Batismo no Espírito" ,
ambígua, por sugerir uma espécie de sacramento. Poderão ser usados termos como
"efusão do Espírito Santo", "derramamento
do Espírito Santo". Do mesmo modo, não se utilize o termo
"confirmação" para não confundir com o sacramento da Crisma (cf.
Comissão Episcopal de Doutrina, Comunicado Mensal, Dez. de 1993, 2217).
55. Dons e Carismas: O grande dom, que deve ser
por todos desejado, é o da caridade: "Aspirai aos dons mais altos. Aliás,
passo a indicar-vos um caminho que ultrapassa a todos..." (1Cor
12,31-13,13). "A caridade é o primeiro dom e o mais necessário, pelo qual
amamos a Deus acima de tudo e o próximo por causa dele" (LG, 42).
56.
"O Espírito Santo unifica a Igreja na comunhão e no ministério. Dota-a e
dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos" (LG, 4). O
Espírito opera "pelas múltiplas graças especiais, chamadas de carismas,
através das quais torna os fiéis aptos e prontos a tomarem sobre si os vários
trabalhos e ofícios que contribuem para a renovação e maior incremento da
Igreja" (Catecismo da Igreja Católica, 798). Os carismas devem ser
recebidos com gratidão e consolação. E não devem ser temerariamente pedidos nem
se ter a presunção de possuí-los (cf. LG, 12).
57.
Haja muito discernimento na identificação de carismas e dons extraordinários.
Diante das pessoas que teriam carismas especiais, o juízo sobre sua
autenticidade e seu ordenado exercício compete aos pastores da Igreja. A eles,
em especial, cabe não extinguir o Espírito, mas provar as coisas para ficar com
o que é bom (cf. 1Ts 5,12.19.21). Assim, também no que se refere aos carismas,
a RCC se atenha rigorosamente às orientações do Bispo diocesano.
58.
Dom da cura: O Senhor dá a algumas
pessoas um carisma especial de cura, para manifestar a força da graça do
Ressuscitado. No entanto, as orações mais intensas não conseguem obter a cura
de todas as doenças. São Paulo aprende do Senhor que "basta minha graça,
pois é na fraqueza que minha força manifesta todo seu poder" (2Cor 12,9),
e que os sofrimentos que temos que superar podem ter como sentido
"completar na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu
corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24).
59.
Ao implorar a cura, nos encontros da RCC ou em outras celebrações, não se adote
qualquer atitude que possa resvalar para um espírito milagreiro e mágico,
estranho à prática da Igreja Católica (cf. Eclo 38,11-12).
60.
Nas celebrações com doentes, não se usem gestos que dão a falsa impressão de um
gesto sacramental coletivo ou que uma espécie de "fluido espiritual"
viesse a operar curas.
61.
O Óleo dos Enfermos não deve ser usado fora da celebração do Sacramento. Para
não criar confusão na mente dos fiéis, quem não é sacerdote não faça uso do
óleo em bênção de doentes, mas use apenas o Ritual de Bênçãos oficial da
Igreja.
62.
Orar e falar em línguas: O
destinatário da oração em línguas é o próprio Deus, por ser uma atitude da
pessoa absorvida em conversa particular com Deus. E o destinatário do falar em
línguas é a comunidade. O apóstolo Paulo ensina: "Numa assembléia prefiro
dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também aos outros,
a dizer dez mil palavras em línguas" (1Cor 14,19). Como é difícil
discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do
animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca
se fale em línguas sem que haja intérprete.
63.
Dom da profecia: Na Bíblia, profeta
é o que fala em nome de Deus. Significa, pois, um evangelizador. É a
comunicação de assuntos espirituais aos participantes de reuniões comunitárias,
aos quais se dirigem palavras de exortação e encorajamento. "Aquele que
profetiza, fala aos homens: edifica, consola, exorta" (1Cor 14,3). É um
dom para o bem da comunidade e não tem em vista adivinhações futuras.
64. Haja grande discernimento quanto ao dom da profecia,
eliminando qualquer dependência mágica e até supersticiosa.
65.
Em Assembléias, grupos de oração, retiros e outras reuniões evite-se a prática
do assim chamado "repouso no Espírito". Essa prática exige maior
aprofundamento, estudo e discernimento.
66.
Poder do mal e exorcismo: Cristo
venceu o demônio e todo o espírito do mal. Nem tudo se pode atribuir ao
demônio, esquecendo-se o jogo das causas segundas e outros fatores psicológicos
e até patológicos.
67.
Quanto ao "poder do mal", não se exagere a sua importância. E não se
presuma ter o poder de "expulsar" demônios. O exorcismo só pode ser
exercido de acordo com o que estabelece o Código de Direito Canônico (Cân.
1172). Por isso, seja afastada a prática, onde houver, do exorcismo exercido
por conta própria.
68.
Procure-se, ainda, formar adequadamente as lideranças e os membros da RCC para
superar uma preocupação exagerada com o demônio, que cria ou reforça uma
mentalidade feitichista, infelizmente presente em muitos ambientes.
CONCLUSÃO
69.
As orientações aqui oferecidas são expressão da solicitude pastoral com que o
episcopado brasileiro acompanha a RCC e seu carisma próprio dentro do legítimo
pluralismo, mas também mostrando sua preocupação com desvios ocorridos, que são
prejudiciais para a RCC e para toda a Igreja.
70.
Seja este um ponto de partida para uma nova e mais fecunda etapa em que a RCC
há de buscar sua maior integração nas Igrejas Particulares, em conformidade com
as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil.
71.
Pedimos a Deus que abençoe os membros da RCC e a todos que se empenham, nos
dias de hoje, com humildade e confiança a viver a vocação à santidade e o
compromisso missionário. Maria, Mãe da Igreja, interceda para que todos, no
seguimento de Jesus Cristo, aspirando aos diversos dons do Espírito, procurem
sempre o amor que permanece (1Cor 14,1).
Fonte:
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB
Home Page: http://www.cnbb.org.br
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2002 - Paróquia do
Divino Espírito Santo - Maceió/AL