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] A possessão demoníaca na Bíblia De
fato, o motivo principal de considerar o demônio como a força que realiza
"possessões" em certas pessoas, são as descrições bíblicas.
Foi a Bíblia a causa do erro da "possessão demoníaca",
principalmente na Europa (a história da Igreja tem sido muito européia) e da
Europa, o erro se estendeu a todo o mundo. Mas, repetimos, temos que ter presente,
nós, cientistas do século XX,, que a Bíblia não é um livro de ciência. Simplesmente,
não há por que invocar a Bíblia na interpretação de fatos observáveis do
nosso mundo que, como tais, pertencem à ciência. Chama muito a atenção, que em todo o
Antigo Testamento, sendo tão comprido e relacionado com tantos séculos, não
há nenhum caso de "possessão demoníaca" (ao menos claro; existe o
caso de Sara, que alguns interpretam, não claramente, como de "possessão
demoníaca"). E no Novo Testamento, por ser tão
curto, correspondendo a tão poucos anos, existem descrições de
"possessões demoníacas". Além dos casos concretos citados, como o
endemoninhado de Geresa, o endemoninhado lunático, o endemoninhado mudo, o
endemoninhado epiléptico, etc; há frases de ordem geral como: "deu poder
aos seus discípulos de expulsar os demônios", e todos os que tinham
possessos levavam lá para que Cristo os curasse", etc. No
Antigo Testamento não há nenhum. No Novo Testamento são inúmeros. Por que
essa diferença? Alguns teólogos, sem fundamento,
manifestamente para salvar a situação, explicam: "É que na época em que
Cristo veio combatê-los, Deus concedeu mais liberdade aos demônios..." de onde se tira essa afirmação?...é pura invenção. Sabemos pela história o porque desta
diferença. Foi precisamente nesta época em que a Cabala Judaica fortaleceu
muito o influxo das idéias demoníacas dos povos mesopotâmicos, vizinhos de
Israel, porque a Cabala trouxe dos gregos e romanos o erro de atribuir ao
'daimos', daemonium, demônio, certos tipos de doenças. Os gregos e romanos
atribuíam certas doenças e fenômenos aos demônios, aos demíurgos, isto é, às
forças semi-divinizadas da natureza (na Palestina falava-se também a Koiné,
o grego comum, e era uma colônia romana). Por
influxo da Cabala, os judeus começaram a chamar endemoninhadas às pessoas que
apresentavam aquelas doenças ou fenômenos. Confundiram então e até hoje, os
demônios dos gregos, romanos e dos países vizinhos com os anjos rebeldes da
Bíblia. (Para não entrar em
discussão de menor interesse, estou dando por suposto que os judeus
identificavam o demônio com os anjos rebeldes, como fazemos hoje, os
cristãos.) Na
realidade, não fica nada claro que os demônios dos judeus fossem precisamente
os anjos rebeldes. É mais provável, que na mentalidade popular judaica e
inclusive na mentalidade dos rabinos da época, os demônios correspondiam ao
conceito greco-romano e mesopotâmico. Considerava a cultura (ou incultura) da
época, que havia no ar uma série de entidades, demiurgos, semideuses, bons ou
maus. Esses seriam os demônios para os
judeus e não precisamente os anjos rebeldes.) Cristo, os apóstolos e a
Bíblia empregaram a terminologia da época. Lógico. Que outra terminologia
empregariam?? Nem Cristo, nem a Bíblia e nem os apóstolos deveriam se meter e
nem se meteram em ciência. Não correspondia nem à Cristo, nem aos apóstolos,
nem à Bíblia explicar e analisar os fatos do nosso mundo, o que corresponde à
ciência. No Antigo Testamento Uma palavra com
referência à pouco provável descrição de "possessão demoníaca" no
Antigo Testamento. No livro de Tobias se descreve que Sara
("possuída pelo demônio"?) teria sido a causa da morte de nove
maridos. E o anjo, que acompanhou Tobias, curou a sua mãe, Sara. De possessão
demoníaca? Todo o livro de
Tobias é metafórico. Não se trata de um episódio histórico. No máximo, teria
uma mínima base histórica, como inspiração para o escritor bíblico fazer uma
ampla e linda metáfora poética. Nesse livro, é narrada a morte dos maridos,
ou a doença de Sara, dramatizadas como devidas ao demônio (não precisamente
"possessão", ou não claramente), da mesma maneira que todos os
fenômenos bons se dramatizam também como devidos à força divina, ou dos anjos.
O anjo teria expulsado a Asmodeu e o teria confinado no deserto do alto Egito
onde o teria deixado acorrentado para sempre. Acorrentado até o fim do mundo
pelo Arcanjo Rafael. Mas como dizíamos,
não se trata de um livro histórico. É um livro de valor moral. Foi escrito
depois de um exílio do povo judeu. Durante o exílio, entraram os judeus em
contato com civilizações pagãs, que atribuíam aos demiurgos, deuses ou
demônios deles, muitos dos fenômenos da natureza, doenças, etc. Influenciado por
esta civilização, o povo judeu começou a ter medo de demônios, ou espécie de
deuses menores, separando-se um pouco da confiante dependência da Providência
do único Deus. Por isso veio o livro de Tobias, para frisar enfaticamente que
por cima de todos os demônios e ídolos pagãos, estava o poder de Deus. O
livro de Tobias, citando as intervenções demoníacas, não as afirma; citando
os ídolos, não confirma seu poder. E, diríamos, um livro de "Utilidade
Pública", para alentar aos judeus assustados com as teorias e práticas
demonológicas, mágicas e idolásticas que tinham observado nos povos pagãos
circunvizinhos. Não se trata,
repetimos, de um livro histórico, mas de um livro moral e metafórico. No Novo Testamento Assim como Jesus esclareceu os
discípulos sobre a causa da cegueira do cego de nascença, (os discípulos
perguntaram ao Mestre, se o cego ou os pais dele haviam pecado) dissipando o
erro segundo o qual toda doença era conseqüência pessoal ou da família do
enfermo (Jo 9, 1-3), ele também não esclareceria se os endemoninhados fossem
doentes psíquicos? Cristo não ensinava ciência, ensinava religião. No caso do cego de
nascença, tratava-se de uma doença. Cristo não entrou no campo científico
determinando se tal cegueira tinha como causa a atrofia, uma lesão, um corte
ou escasso desenvolvimento do nervo óptico ou a ausência do líquido humoral
no cristalino, desprendimento ou ausência da retina, lesão na circunvolução
cerebral correspondente à visão, ou qualquer outra causa ou força observável
ou deduzível, deste ou do outro mundo. Cristo não diagnosticou nem a doença
nem sua causa. Mas havia, isto sim, um erro doutrinal
próprio da época. "As doenças e as suas causas seriam enviadas por Deus como
castigo dos pecados. Mesmo sendo causa natural, a Divina Providência se
serviria dessa força natural para castigar". Cristo corrige esse
erro doutrinal. Não é um castigo e também não é uma providência especial. A mesma distinção deve ser feita com
relação à "possessão demoníaca". Nós nem sequer entramos em
discussão se poderia tratar-se de uma Providência especial de Deus (ou até do
demônio). O que afirmamos é que a causa, a força que ocasionou as
chamadas possessões, são forças naturais, doenças, desequilíbrios, faculdades
parapsicológicas. A força não é demoníaca, e portanto não é o demônio que
atua. A interpretação dos fenômenos que se dão no
nosso mundo, a localização das forças que atuam neles é objeto da ciência.
Cristo não entrava neste campo. Não correspondia a Cristo diagnosticar a
causa daqueles fenômenos. Nisso usava, tinha que usar, a ciência (ou a
ignorância) do seu tempo. Oscar G. Quevedo S.J. ______________ Copyright 2003 - Paróquia
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