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 A parapsicologia tem demonstrado que o feitiço não existe; ninguém pode influenciar-nos à distância, causando-nos dano pelo feitiço. Mas também se sabe que o medo do feitiço (mesmo telepaticamente adivinhado que exista o feitiço) tem causado muito dano a muitas pessoas supersticiosas.

Por Pedro G. Quevedo

Um pouco de história                   

 Perdem-se na história os testemunhos acerca do sempre presente feitiço e é raro o povo, rara a raça ou cultura onde não se encontra presente.

 Desde a era paleolítica é possível detectar a presença do elemento mágico na vida diária, embora, pelo menos no princípio, tenha sido usado "positivamente", quer dizer, com intenção benéfica.. Os belos desenhos de homens, membros e animais que decoravam profusamente as cavernas pré-históricas, raramente foram inspirados por motivos estéticos: pintando, por exemplo, o cervo a ser caçado, atravessado por setas mortais, o homem paleolítico acreditava conseguir o domínio sobre o animal, facilitando assim a sua captura.

 Os principais motivos do homem primitivo, tais como grandes caçadas, enfermidades, nascimento, mortes eram acompanhados de cerimônias mágicas, desde então dirigidas por um bruxo-feiticeiro, dos quais ainda se conservam representações.

 Apesar dos inícios "benéficos", não tardou o homem primitivo em descobrir que o "poder" que acreditava conseguir com a magia, poderia ser usado em direção oposta: como arma contra os rivais ou inimigos de qualquer tipo.

 A utilização da magia como arma ofensiva ou defensiva em todo caso, sempre abusiva, generalizou-se rapidamente, convertendo-se assim em inesgotável fonte de poder político, econômico e até religioso. No Egito, por exemplo, os faraós se serviram da magia até depois da morte para assegurar a inviolabilidade de faustosos mausoléus: chegaram até nós um bom número de papiros, com milhares de anos de antiguidade, nos quais se ameaça com a vingança, sempre terrível, do Deus Ka contra aqueles que ousassem romper os selos de seus túmulos.

 Da pujança que a magia alcançou em civilização tão sofisticada como o do antigo Egito e do destacadíssimo papel social e político desempenhado por seus praticantes, conservamos uma infinidade de relatos, inclusive bíblicos.

 Nem sequer a avançada cultura do mundo grego conseguiu se libertar do elemento mágico. Grandes pensadores como Tales de Mileto, Platão, Heráclito, Píndaro, Apuleu e Sócrates, não conseguiram romper o círculo encantado. Demócrito recomenda um particularíssimo ritual para livrar-se do veneno do escorpião: se alguém era picado, deveria montar num asno e dizer no ouvido do animal, "fui picado por um escorpião"e com isso, os efeitos do veneno passariam automaticamente para o asno.

 Na antiguidade clássica, talvez o Império Romano foi uma exceção digna de ser mencionada. Sem poder afirmar que entre os romanos a magia não constituísse uma realidade, é certo que sua função foi muito diminuída, principalmente nas classes dirigentes. Roma desenvolveu uma cultura prática e racional que deixava pouco espaço para a prática da magia: sua obra magna, por exemplo, o Direito Romano, dificilmente pode compartilhar com a alienação supersticiosa da mitologia.

 O extraordinário avanço do cristianismo, por outra parte, foi um fator decisivo para o retrocesso da magia. Entre os cristãos dos séculos I e II, tais práticas não só estavam proibidas, mas muito desprestigiadas; magos e feiticeiros tiveram então que resignar-se à pouca influente função de procurar divertir os reis e suas cortes.

 Não estava, contudo, completamente banido, o elemento mágico, mas estava latente e à espera de tempos mais propícios... e estes não tardaram em aparecer... Cultura e superstição, ciência e magia são forças antagônicas e que se excluem. Bastou que começasse o eclipse da primeira para que aparecesse a Segunda, iniciando seu retorno nas camadas sociais mais baixas, das quais nunca tinha sido completamente extirpada. Seu reaparecimento, tímido e lento no começo, foi progressivamente se impondo pela ousadia e pela velocidade, graças àqueles que pretendiam impedir seu avanço; cremos que tenha sido um lamentável erro cometido pelo Concílio de Elvira, no ano de 305, o declarar e repudiar solenemente e ainda débil e pouco fortalecida existência dos cultos demoníacos. Semelhante "oficialização" foi um tácito reconhecimento da capacidade e solidez das ainda tímidas investidas da magia, que a partir de então seria chamada de magia negra; foi uma implícita aceitação do valor do oponente que não fez outra coisa senão robustecê-lo.

 Daqui para a frente assistiremos a um progresso ininterrupto do elemento mágico, que aproveitou de outros elementos conjunturais favoráveis: o aumento do comércio, a presença árabe na Europa, a presença Cristã no Oriente através das Cruzadas, favorecendo a progressiva penetração no Ocidente das culturas orientais, fortemente impregnadas de magia e ocultismo. Os séculos XII a XVII marcaram o período áureo da mentalidade mágica na Europa.

 Neste ambiente de alienação onde qualquer tipo de desatino poderia ser esperado, surge uma das maiores epidemias de loucura coletiva da História. Ninguém escapa das funestas conseqüências de tal situação e os maiores despropósitos e excessos aparecem dos sois lados antagônicos: a repressão brutal que não se fez esperar, surtiu efeito contrário e fez explodir ainda mais a ousadia dos fanáticos defensores, como seus rivais, da mentalidade mágica. Feitiços, bruxarias, missas negras, satanismo estão na ordem do dia e com tal virulência que os sabats, por exemplo, superavam em muito as antológicas orgias dionisíacas. Estava em marcha o círculo vicioso: a ação e reação tornaram-se tragicamente evidentes. A contra-ofensiva, a anti-magia, cega pelo medo, protagonizou os mais brutais e inimagináveis episódios

 Mas não é intenção deste trabalho enveredar por tais caminhos que nos levariam longe demais, mas ater-nos ao aspecto concreto do feitiço, dentro do panorama geral do elemento mágico. Contudo, antes de deixar-nos o ângulo abordado, seja-nos permitido um esclarecimento que nos parece justo: foi toda a sociedade ocidental em peso, e não somente a hierarquia eclesiástica que se lançou furiosamente no torvelinho da loucura coletiva. Está fora de qualquer dúvida que a crença nos temidos malefícios era geral e que os processos por bruxaria eram mais numerosos e mais cruéis nos tribunais civis que nos eclesiásticos..

 Tudo indica que a intenção mais ou menos consciente dos magos, bruxos, feiticeiros ao estruturar seu cerimonial era a busca de um ambiente apropriado para alcançar "emoções de impacto". Se para o espírito simples do homem medieval, a missa era, por excelência, a cerimônia cume na qual se encontrava o respeito, o temor e o mistério propiciados pela solene, culta e poderosa imagem do sacerdote que detinha o "poder mágico" de pôr-se em contato com o sobrenatural; nada mais útil que uma brutal e sacrílega paródia da missa. Numa sociedade fortemente influenciada pela espartana expulsão do sexo da literatura, da arte, numa palavra, da vida pública, haveria algo melhor do que uma explosão erótica, como os sabats ??

 Fascínio e repulsão, sadismo e masoquismo foram sempre sabiamente dosados como elemento chaves de fanatização dos espíritos simples, não só medievais, clientes e vítimas ao mesmo tempo, dos bruxos e feiticeiros de todas as épocas. Enquanto e onde existe magia estão presentes: se existe magia negra, existe também a magia branca. Se o bruxo pode castigar com malefícios, também pode fazer filtros encantadores. Se existe o amuleto que liberta de influxos prejudiciais, também existe o talismã que atrai as influências positivas e benfazejas.O próprio rei Afonso X de Castela apelidado de "sábio" decidido adversário da magia negra, acreditava piamente que fazer feitiços bem intencionados era inclusive algo digno de recompensa.

 Assim se restabeleceu o antigo e despótico domínio da magia sobre a sociedade, sem distinção de classes. Amigos e inimigos, pobres e ricos, campesinos e reis caíram sob o influxo temido dos encantamentos.

 Reis e rainhas foram na onda... Fernando IV, rei de Castela e Leão passou à história como o "emprazado"; tendo condenado à morte dois irmãos acusados de assassinato; estes, antes de enfrentarem o verdugo e, protestando inocência perante o tribunal, deram ao rei trinta dias de vida;; o rei morreu dentro deste prazo, fatalmente "assassinado"...por seu próprio medo.

 Guichard, Bispo de Troyes sofreu um processo acusado de ter sido causador da morte da rainha da França, Joana de Navarra, por meio de feitiços; teria modelado uma figura de cera e a teria batizado com ritual e padrinhos com o nome da rainha e em seguida a flechou várias vezes.

 Esta modalidade de feitiço, servindo-se de reprodução em estatuetas de cera e outros materiais é um exemplo do que o Prof. B. Fantoni denomina "Rito de Transmissão".

 A psicose do feitiço chegou a ser insuportável e coletiva.

 Não faltaram contudo vozes discordantes no clamor geral, tentando pôr um pouco de sensatez nesse ambiente, apesar deles mesmos, como filhos da situação, não escapar por completo da crença mágica. Paracelso Von Hohenheim protestou repetidas vezes contra as falsas acusações, que ele chamava de superstições, e das quais tantas criaturas foram vítimas inocentes.

 Vanini, Cornélio, Agrippa e Van Helmont atribuíam o efeito dos amuletos e encantamentos, não ao poder destes mas à vontade do feiticeiro. Provavelmente, uma das mentes mais sensatas e mais objetivas da época com relação a estes temas foi Johannes Weier, médico afamado e que por primeiro enfocou o problema da bruxaria como um sombrio e desapaixonado observador psiquiátrico.

 

 O supersticioso vive perpetuamente num grande temor de ser vítima de todo tipo de "influências" que ele mesmo inventa, exista ou não alguém desejando-lhe o mal.

Por clarividência ou por telepatia, o supersticioso poderia captar os objetos do feitiço ou a má intenção do feiticeiro.

 A própria vítima se auto-sugestiona, embora se encontre na captação, ao menos inconsciente, da má intenção do feiticeiro.

Emissão às claras-

 Tal captação pode-se dar de diversas formas, às vezes, nem sequer parapsicológicas. Claramente se vê nas expressões de alguns, o desagrado por outras pessoas. A vítima logo vê as intenções do feiticeiro e se auto-sugestiona.

Captação parapsicológica do feitiço

 Exigem uma percepção do tipo inconsciente, parapsicológica, que pode ser sensorial (sentidos) através da Hiperestesia Indireta do Pensamento (HIP), ou extra-sensorial (sem envolver os sentidos), através de Psi-Gamma (telepatia ou clarividência)

 Se o feitiço "funciona" somente nas pessoas supersticiosas (leia-se sugestionáveis), devemos também acrescentar que a manifestação de fenômenos parapsicológicos exigidas para esta modalidade é muito mais freqüente em pessoas com algum tipo de desequilíbrio psíquico (somente nestas pessoas é lícito referir-se à certa freqüência. São essas pessoas, pois que se tornam as" vítimas" naturais e obrigatória dos feitiços.

O emotivo é a chave

 A emotividade é um fator fundamental, quase imprescindível para a manifestação de todo tipo de faculdades parapsicológicas e mais ainda no tipo de captação da qual nos ocupamos; até ao ponto de que a própria palavra telepatia (etimologicamente, sofrimento à distância), deve sua existência ao compreensível erro dos antigos estudiosos, que chegaram a pensar que somente informações emotivas eram suscetíveis de ser objeto de tais captações, tal sua altíssima porcentagem de freqüência.

 Não existe nenhuma dúvida entre os estudiosos: os casos de telepatia referentes à morte de entes queridos (dupla razão para a emotividade) são com grande diferença, os mais numerosos. Serão poucos os leitores que não tenham conhecimento de algum caso desse tipo.

Captação mortal-

 Inclusive, em casos especiais de predisposição, pode dar-se a morte do receptor da notícia. Exemplo: O General Serrano, vítima de uma prolongada enfermidade, estava paralítico. Somente com a ajuda de outros podia levantar-se. Certa noite, porém, com surpresa de todos os presentes, levantou-se sozinho e estando firme em pé, exclamou: " Que um ajudante monte a cavalo e corra ao Pardo. O Rei morreu. " Os presentes pensaram que se tratasse de delírio e tentaram acalmá-lo. Serrano entrou num estado de torpor. Pouco depois, tornou a pôr-se de pé e com voz débil disse: " Meu uniforme, minha espada. O rei morreu. Deve-se acrescentar que o estado de saúde do rei tinha sido mantido em segredo. Neste caso, obviamente, a morte de Serrano, bem como sua repentina e efêmera "cura" da paralisia, foi precipitada pela emotiva captação telepática.

Relação pais-filhos

 A emotividade da mãe supersticiosa, assustada por pensar que lançaram "mau-olhado" em seu filho, comunicará à criança, sua preocupação e a criança assimilará isso em seu organismo e psiquismo.

Beleza contagiosa- Na Grécia (e Roma) clássica, uma das tarefas principais das futuras mães, durante a gestação, era passar horas inteiras na contemplação da estátua Apollon (Apolo ou Febo) e outras tantas horas admirando a de Afrodite (Venus) com a ingênua intenção de que os filhos nascessem com características de beleza como os das estátuas. Podemos dizer e é evidente que a quase totalidade das matronas perdiam seu tempo, mas sem dúvida, alguma vez, uma delas teria um filho que herdaria a influencia parapsicológica materna, nascendo com características da imagem que durante vários meses a mãe manteve emotivamente em seu pensamento

 Esse tipo de influencia dos pais sobre os filhos é mais evidente em criaturas recém-nascidas.Tenha-se em conta o papel que desempenha a sugestionabilidade... e a importância que a mesma tem, juntamente com a imitação na patologia infantil. As crianças não só são profundamente sugestionáveis, mas, para um bom número de especialistas, a sugestionabilidade neles é tanto maior quanto menos a idade.

 Por outra parte, hoje é amplamente aceito o fato de que os bebês vivem praticamente "por osmose", isto é, captando em alto grau, todo tipo de influências do ambiente que as rodeia.

 Experiências em orfanatos, tristemente famosas, provaram a necessidade vital que as crianças tem de carinho, atenção pessoal e um ambiente familiar sadio, livre de superstições.

 Relata-se por exemplo, um trágico erro de Frederico I, da Prússia, que desejando criar uma raça forte, ordenou que as crianças de um orfanato recebessem boa alimentação, mas sem nenhum tipo de carinho. Resultado: Todas elas morreram decorridos pouco tempo.

 Freud defendeu expressamente as profundas experiências emocionais dos recém-nascidos e a sua grande necessidade de serem amados.

 De um grupo de 55 bebês de um orfanato, todos eles devidamente atendidos no que se refere à totalidade de suas necessidades físicas, exceto a necessidade de carinhos, 100% deles decaiu visivelmente após três meses de separação dos pais, 27 crianças morreram antes de alcançar um ano e outras 7 no decurso do segundo ano. Os 21 sobreviventes (pouco mais de 38%) ficaram todos eles marcados por deficiências físicas e mentais.

 Trata-se da típica "reação de demissão", tipo de desespero que se traduz numa negativa para o esforço; uma falta de interesse por qualquer aspiração e quase por toda necessidade. Esta reação, muito freqüente em orfanatos e asilos, tem seu equivalente inclusive em animais: a inanição voluntária (contra o forte instinto de conservação) de alguns animais enjaulados e cães separados de seus donos.

 A criança que vive num ambiente supersticioso torna-se vulnerável aos perigos do contágio psíquico familiar.

 Os estudos dos Drs. Spitz e Wolf em 170 crianças observadas durante o primeiro ano de vida levaram-nos a concluir que a mãe e a criança constituem praticamente uma unidade funcional de modo que "muitas das funções da criança estão em íntima interação com as atitudes e comportamento materno". Existe uma espécie de encadeamento emocional entre criança e mãe (ou substituta).

Normal ou parapsicológico?

 Alguns autores pretendem que as idéias maternas inconscientes se transmitem através de sinais concretos que podem ser captados pela criança mediante a percepção sensorial ordinária (comum). Outros afirmam que é difícil que é difícil aceitar tal afirmação durante a primeira infância, quando as vias nervosas não estão desenvolvidas por completo e as funções motoras e sensoriais mostram somente um grau muito pobre de organização, o que impossibilita possuir os poderes de observação para tal tipo de observação.

 O encadeamento emocional entre mãe e criança existe antes de estar o bebê suficientemente maduro para perceber expressões claras de emoção, tais como o sorriso, a palidez ou um ar de preocupação ou tristeza.

 Portanto, o único ponto em desacordo entre os especialistas não é com referência à captação (dos sentimentos e preocupações da mãe); o desacordo versa exclusivamente acerca da modalidade, ordinária(comum) ou parapsicológica.

 Assim sendo, vimos o mecanismo através do qual se processa o "funcionamento" do feitiço sobre crianças, na primeira infância. Nestes casos, sem dúvida, pode-se falar de um mecanismo em "L" ou indireto; a vítima não é a responsável pelo processo que se movimenta, mas aqueles que compõem seu pequeno e influente universo: seus parentes e, de modo especial, seus pais. Basta por exemplo a mãe imaginar, saber, adivinhar parapsicologicamente, que seu filhinho foi objeto de um feitiço qualquer (nestes casos, o mais comum é o mau olhado); e se por desgraça a mãe é uma fanática convicta da efetividade dessas superstições, é fácil imaginar a que exageros pode chegar a emotividade, imaginando mil desgraças, uma mais assustadora que a outra. Regressando para casa, encontra reforço no resto da família e aí temos o ambiente mais propício e ideal para fazer crescer e "comunicar" ao bebê, todo tipo de influência... que terá conseqüência mais ou menos graves dependendo do grau de sugestionabilidade.

 Do exposto se deduz uma vez mais que basta que a pessoa viva num ambiente livre de superstições e não acredite nelas, para estar livre de auto-sugestões (influências do psiquismo sobre o organismo). que possam prejudicar sua saúde psíquica e orgânica.

Texto extraído da Revista de Parapsicologia número 15 elaborada pelo CLAP

 

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