| O Endemoninhado de Geresa |

 

[ Retornar ]

 

 

 O endemoninhado de Gerasa não se enquadra de maneira nenhuma numa interpretação demonológica e sim perfeitamente numa interpretação natural, até por senso comum.

 A Bíblia diz que um homem fora expulso da cidade por ser louco. Se tomarmos endemoninhado ao pé da letra, também haveria que tomar louco ao pé da letra. A Bíblia usa as duas expressões. Diríamos, a expressão popular (endemoninhado) e a expressão um tanto mais culta ou científica (louco). A Bíblia não entra em interpretações científicas. Nunca entrou durante todos os séculos em que foi escrita. Serviu-se inclusive de erros científicos e opiniões contraditórias da cultura da época, para, através desse instrumento de linguagem ensinar doutrina religiosa. A Bíblia é um livro de doutrina religiosa, não um livro de ciência.

 Aquele homem apresentava uma série de fenômenos misteriosos. Expulso da cidade refugiou-se num cemitério. Aproximava-se Jesus Cristo com os apóstolos e o "endemoninhado" começou a gritar: "Filho de Deus Altíssimo..."

 Ora, se realmente fosse o demônio, o menos que se poderia esperar é que não se converta em apóstolo e faça propaganda da Divindade de Cristo. Isto não encaixa numa interpretação demonológica.

 Mas perfeitamente numa interpretação natural: Aquela pessoa possuía manifestações parapsicológicas e adivinhou, ao menos naquela ocasião, o pensamento de Cristo e gritou: "Filho de Deus Altíssimo"... Hiperestesia Indireta do Pensamento (HIP) ou qualquer outra faculdade de adivinhação. Explicação lógica e sem a contradição de supor que se fosse o demônio faria propaganda da divindade de Cristo.

 Depois pergunta Cristo ao "endemoninhado": - Qual é o seu nome? -E o "endemoninhado" responde: "Legião é o meu nome porque somos muitos".

 Ora, discutiríamos se aquela pessoa poderia ter dentro do seu corpo um demônio. Discutiríamos por discutir, porque a possessão demoníaca ou espírita, etc é metafisicamente impossível. Um corpo está animado por um espírito, a alma e nenhum outro espírito pode animá-lo. Seria contraditório. Absurdo. Não há argumento nenhum para poder admitir que outro espírito diferente da própria alma anime a um corpo. E há muitos argumentos que provam a absoluta impossibilidade de tal fato.

 Mas sem entrar nesta discussão de se poderia haver um espírito dentro do corpo do chamado "endemoninhado" de Gerasa, certamente é absurdo pensar que havia nele uma legião de demônios. Absolutamente absurdo, para ser entendido demonologicamente.

 Mas muito compreensível na típica, conhecidíssima, e característica megalomania compensadora. Em outros casos, outra pessoa, para não ter um complexo de inferioridade, se defende personificando-se megalonicamente em Napoleão, Joana D arc, a rainha Maria Antonieta e outras personalidades importantes.

 Neste caso, o "endemoninhado", expulso da cidade, tendo que viver num cemitério, na sua loucura, se defende do seu sofrimento psicológico com a mania de grandeza compensadora de incorporar-se nele uma legião de demônios. Em questão de endemoninhado, ninguém ganha dele. Como diria o povo: "Ele é o tal". Estas pessoas que se defendem com megalomania, deveriam ser internadas, mas vivem felizes. Quem sofre é a família, ao passo que eles se sentem como sendo Napoleão, Júlio César, ou uma legião de demônios.

 Os "demônios" entrariam em pânico ao perceber que poderiam ser expulsos do corpo do possesso. Começaram a dizer a Jesus: "Por que nos atormentas, que tem que ver conosco?...

 Ora, também isto não combina com uma interpretação demonológica. Não se encaixa com o senso comum supor que eles poderiam entrar em pânico vendo que iriam perder sua morada.

 Mas se explica perfeitamente pela mentalidade primitiva da época, que mesmo sabendo que os demônios eram puramente espíritos, os imaginavam com algo de corpo, mais ou menos tênue, e que precisariam de um corpo para habitar.

 Depois levanta o "endemoninhado" os olhos e vê os porcos. Achando ele, na sua dramatização demonológica que estava possuído pelo demônio, pensou logicamente: se o demônio vai abandonar o seu corpo, precisa de outro corpo para morar, e por associação de idéias, pode entrar nos porcos.

 Não vamos nos deter agora a explicar o chamado mau-olhado ou influxo sobre as plantas e animais pequenos. Mas ao menos como hipótese de trabalho. Entre a hipótese demonológica e a hipótese parapsicológica de mau-olhado, temos de escolher. Muitos leitores terão ouvido falar de alguma vez,alguma pessoa olha com admiração e secreta inveja uma planta, e no dia seguinte, a planta está murcha. Ou quando uma pessoa olha com inveja um passarinho, e no dia seguinte o passarinho está morto. É telergia, a nossa energia somática transformada e exteriorizada. Pode atuar sobre plantas e animais pequenos; e não atua sobre o homem e animais grandes.

 Nas casas "Mal-assombradas", as pedras que se mexem ou voam, nunca batem a não ser na própria pessoa que as movimenta telergicamente. Mas é muito raro que o dotado de faculdades parapsicológicas pretenda se destruir a si mesmo. Geralmente, quer "destruir" a outra pessoa, ou chamar atenção de outras pessoas. Daí que as pedras vão "assustar" a outras pessoas. O mais que se pode acontecer é que se sinta um pequeno toque por efeito da inércia, ou um vento do objeto ou telergia que passa.

 O "endemoninhado" não pode influir sobre os porcos com a telergia, mas pode sobre um ou dois porcos. Dramatizou o inconsciente do "endemoninhado a "passagem dos "demônios" pela telergia para os porcos e isto bastou para assustar um ou dois porcos.

 Assusta-se um porco ou dois e se assustam todos. Igual quando se assusta um boi e temos o estouro da boiada. Assusta-se um peixe, e assusta-se todo o cardume. Assusta-se uma pomba e, entram em pânico todas que lá estão...

 Assustados os porcos, correndo em pânico, chegam onde termina o terreno e sem poder parar (mesmo que os primeiros porcos tentassem parar, os que vem por trás os empurram) e caem pelo barranco ao lago e se afogam.

 Mas isso não se encaixa numa interpretação demonológica: se (hipoteticamente) fossem os demônios que estavam procurando uma "casa" (corpo), cuidariam dos porcos. Do contrário, perderiam sua "casa"...

 Todo o conjunto se interpreta perfeitamente por forças naturais. Nenhum fenômeno há no caso que supere as forças naturais. E além do mais, resulta contraditório numa interpretação demonológica. Todos esses fatos são absolutamente naturais. Não há milagres do demônio.

 Em tudo o que até aqui foi dito, estamos dando por suposto a interpretação literal ou histórica do fato fundamental, o que realmente aos olhos da ciência é inegável.

 Alguns exegetas, sem dúvida, bons exegetas e teólogos, mas ao parecer deslumbrados com o aspecto teológico-doutrinário deste episódio (e de outros), desnorteados pela impossibilidade para eles de explicar os fatos de um ponto de vista científico e esquecendo ou não conhecendo plenamente a crítica histórica, pensam que o episódio poderia ser meramente simbólico. O caso inteiro não teria acontecido, ou ao menos o "incômodo" fato dos porcos, seria só para indicar a degradação a que leva o pecado.

 Não cabe dúvida que em todos os fatos cientificamente históricos da vida de Jesus, há do ponto de vista religioso e doutrinal, um significado mais profundo: Jesus, como claramente expressou santo agostinho, era verbo (palavra) não só na sua doutrinação, mas também nos seus fatos. Mas isto não tira, não deve tirar, a ciência não permite que se tire, que o fundamental do caso foi um fato histórico.

 E do fundamental do núcleo histórico do fato, não é lícito excluir o detalhe dos porcos, porque era ele precisamente o que mais impressionou as testemunhas, ou que motivou que os habitantes da região pedisse depois a Jesus que se retirasse.

 A explicação que temos dada do ponto de vista parapsicológico, não é certamente a explicação tradicional. Mas, como nos séculos passados algum intérprete da Bíblia por sábio ou santo que fosse, poderia dar uma explicação científica do fato? Houve algum teólogo ou exegeta, no passado que soubesse Parapsicologia? Além do mais, repetimos, a interpretação dos fatos como tais não pertence à doutrina religiosa, à teologia, à exegese, senão à ciência. Fique o teólogo na interpretação doutrinal e deixe a interpretação dos fatos ao cientista.

Oscar G. Quevedo S.J.

 

______________

Copyright 2003 - Paróquia Divino Espírito Santo - Maceió/AL

http://www.divinoespiritosanto.cjb.net