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 As alucinações podem se manifestar em todos os domínios da atividade sensorial. Encontramos alucinações visuais, auditivas, olfativas, gustativas, da sensibilidade geral, genitais, multissensoriais, etc...

 Quando as alucinações se traduzem em impressões vagas e indiferenciadas, são chamadas de elementares (resplendores, luzes, barulhos, fulgores, murmúrios indefinidos...). Quando se identificam com objetos precisos (animais, personagens, palavras claras, músicas, cheiros definidos, etc) são chamadas de complexas ou figuradas.

 As alucinações podem ser positivas ou negativas. Nas alucinações positivas se percebe o que não existe. Nas negativas não se percebe o que de fato deveria estar impressionando os sentidos.

 Apesar da estreita relação existente entre alucinação e ilusão, há porém, uma diferença fundamental: a ilusão não é uma percepção sem base na realidade, mas uma deformação da percepção. A ilusão se apóia na realidade, transformando-a.

 As alucinações, a percepção sem objeto, compreendem um estado psicológico particular, diferente em cada caso concreto. Às vezes, não tem significado patológico. No estudo clínico das alucinações deve-se levar em conta não só a intensidade das mesmas, o maior ou menor grau de clareza na percepção sensorial, mas também a qualidade ou conteúdo delas. Não é a mesma coisa perceber claramente um santo, os demônios, animais aterrorizantes ou um ruído, um resplendor, ouvir vozes, músicas ou um cheiro indefinido. Sob esta disparidade, oculta-se uma significação que não pode ser negligenciada. O que o médico procura é desvendar, atrás das aparências sensoriais, a tendência, a significação oculta e as causas psicológicas ou psicofisiológicas das alucinações.

 A manifestação freqüente de alucinações pode ser um sintoma patológico indicador de uma personalidade desintegrada.

 Alucinações Visuais - Podem ser reproduzidas experimentalmente em circunstâncias favoráveis, por isso, seu estudo é mais fácil.

 A origem desse tipo de alucinações pode ser diverso. Às vezes se reproduzem em laboratório pela excitação do córtex cerebral. O Dr. Fedor Krause, neurocirurgião de Berlim, fez experiências com um ferido de guerra. Provocando estímulos elétricos sobre a esfera visual occipital esquerda, o ferido declarava perceber figuras análogas àquelas do cinema.

 O tipo mais comum de alucinações visuais são as chamadas imagens hipnagógicas. Consistem numa aparição que se manifesta no momento do semi-sono ou estado crepuscular.

 Em geral, a imagem alucinatória é absolutamente estereotipada: a visão de um ser fantástico, rostos, um olhar familiar, etc. Quase sempre o paciente as reconhece como alucinações; sabe que está sendo enganado pelos sentidos.

 A visão freqüentemente é instantânea ou extremamente curta, e também freqüentemente acompanhada de um sentimento de angústia. Em regra, repete-se com freqüência e pode ser até quotidiana. Em pessoas submetidas a uma prolongada vigília; a sonolência provoca imagens hipnagógicas.

 Nos campos de batalha, quando os soldados são forçados a passar vários dias sem dormir, são freqüentes as perturbações deste gênero. Uma modalidade pitoresca de alucinação visual é a liliputiense. O alucinado percebe um mundo de personagens diminutos semelhantes aos de Gulliver. O paciente chega a regozijar-se com este pequeno mundo achando-o divertido. Qualquer tipo de alucinação, inclusive as liliputienses tem sido observadas em pessoas que aparentam boa saúde. Parece, porém que a senilidade forma uma condição especialmente favorável para as alucinações. Também são bastante comuns no curso de intoxicações exógenas e especialmente no alcoolismo sub-agudo.

 Os traumatismos cerebrais das últimas guerras possibilitaram inúmeras comprovações de alucinações visuais. Um soldado ferido na região occipital esquerda; quinze meses mais tarde, começou a ter crises caracterizadas pela aparição de luzes brilhantes e intermitentes. Estas crises foram seguidas de outras alucinações complexas; com imagens em movimento, vivas, representando cenas vividas pelo ferido e que haviam-no impressionado fortemente.

 O Delirium Tremens é uma outra situação propícia à alucinação visual. O alcoólatra, em delírio, crê perceber formas em movimento, silenciosos seres estranhos, animais bizarros, que podem se apresentar com os detalhes mais realistas. As formas esquisitas parecem ameaçar o alcoólatra, confundindo-o ao ponto de desorientá-lo e aterrorizá-lo. Outros sentidos, como a audição e o olfato também podem ser alucinados. A combinação de diversas alucinações provoca no sujeito um sentimento de realidade total, tão intenso, que o alcoólatra pode chegar ao desespero.

 Alucinações Auditivas- São tão freqüentes quanto as da vista, combinando-se às vezes com estas. Principalmente nas intoxicações, mas podem ocorrer, como toda alucinação, em circunstâncias aparentemente normais.

 Realizaram-se experiências em laboratório para provocar alucinações auditivas. Por exemplo: esfriando com cloruro etílico a circunvolução cerebral correspondente à audição num mutilado cujo ferimento permitia uma ação direta sobre o cérebro, vozes estranhas eram ouvidas pelo paciente. Em pessoas submetidas à eletrização da parte posterior temporal, ou excitando zonas cerebrais correspondentes à audição, tem-se produzido alucinações verbais,ou inclusive, até complexas peças musicais.

 Nas alucinações auditivas verbais, o que o sujeito percebe não é outra coisa que sua "linguagem interior". É "ouvir de dentro para fora". Mas com a característica toda especial de que o alucinado não reconhece como própria, sua "linguagem"; não conseguindo identificá-la como proveniente de seu EU pessoal.

 Esta não identificação da "linguagem interna" leva o sujeito, em muitos casos, a atribuir como realidade, a alucinação auditiva, acreditando ser os espíritos dos mortos, Deus, o diabo ou qualquer entidade sobrenatural a causa ou a origem destas audições. O Alucinado, então, julga-se um "escolhido", um profeta, ou um médium em diálogo constante com o "além".

 As pessoas que sofrem este tipo de alucinações, salvo exceções, manifestam profundas perturbações da personalidade, geralmente de desagregação psíquica de dissociação dos laços que garantem a unidade do EU.

 Alucinações do gosto e do olfato- São em geral, muito elementares e monótonas: sabor ou cheiro de algo queimado, de peixe, de matéria fecal, gostos ou odores acres, repulsivos, etc. Jogam um papel importante no desenvolvimento de idéias de perseguição. Suscitam idéias de envenenamento, de rechaço dos alimentos.

 Nos casos de alcoolismo ou nas neuroses e psicoses de perseguição, tornam-se particularmente penosas.

 As mais diversas causas- As causas das alucinações são muito diversas. Umas originadas por traumatismos: lesões cerebrais, golpes na cabeça, mutilação, pressões em alguma região cortical... Outras, por intoxicações do organismo provocadas por álcool ou por substâncias alucinógenas: LSD, mescalina, ácido lisérgico, peiote mexicano, cocaína, etc. Todavia, sabe-se que certas neuroses e psicoses vão acompanhadas de freqüentes alucinações; isto indica que desequilíbrios psicológicos, perturbações mentais e a demência estão também na base de falsas percepções. Estados de fadiga física ou mental são também causa freqüente de uma alucinação.

 Fora as causas específicas, cujo diagnóstico dependerá de cada caso concreto, o ambiente sócio-cultural e religioso determina certas formas alucinatórias. Temos assim, as alucinações dos endemoninhados ou as que acompanham a prática do espiritismo.

 Alucinação dos endemoninhados- Sempre insistimos que o endemoninhado antes de mais nada, é um doente.

 Os grandes casos de endemoninhados na história mostram que os protagonistas eram mais ou menos desequilibrados, sofrendo alucinações da índole mais diversa. O Pe. Surin, exorcista e "endemoninhado" de Loudun, assim escrevia: "Estou em conversa perpétua com os diabos...De 3 meses para cá, eu nunca passei um dia sem ter o diabo ao meu lado. O diabo passa do corpo da pessoa possessa e entrando no meu, me agita e me atravessa visivelmente durante várias horas..." Surin tentou suicidar-se e foi considerado, nos registros de sua ordem religiosa, como um enfermo mental.

 O mais notável nas "pseudo-possessões" demoníacas é a violência, a diversidade e a impetuosidade das alucinações. Os pacientes vêem, sentem, cheiram, ouvem e obedecem ao "demônio". Entre as alucinações do tipo demoníaca, se destacaram pela sua vivacidade, as da esfera genital: Os famosos íncubos e súcubus. O alucinado pensava estar em contato sexual com demônios machos ou fêmeas. Estes delírios sexuais foram mais freqüentes em ambientes onde existia grande repressão ao sexo.

 Alucinação em ambiente espírita- Diversas vezes, a crença na comunicação com os espíritos dos mortos dispara os mecanismos da auto-sugestão que estão na base das mais diversas alucinações. O médium, sentindo-se invadido pelo "espírito do morto", chega a vê-lo, conversa com ele, escuta as mensagens que o "espírito" lhe comunica, dramatiza um relacionamento irreal que, com toda a propriedade, pode ser chamado de alucinatório, isto é, sem base na realidade.

 Em todos os casos, uma análise psicológica destas falsas comunicações com os espíritos revela que seu conteúdo não é mais do que a manifestação dramatizada das idéias, afetos, tendências e desejos da personalidade do médium ou se fazendo eco do ambiente em que vive.

 Uma percepção paranormal pode estar na base de uma alucinação sensorial. O sentimento mais ou menos confuso de que algo de ruim tem acontecido, captado parapsicologicamente, pode manifestar-se por meio de uma dramatização do inconsciente, sob a forma de alucinação visual, auditiva, etc.

 Não deve confundir-se a alucinação com a fantasmogênese, ecto-colo-plasmia, aporte, fotogênese, psicofonia e tantos outros fenômenos parapsicológicos. Nestes casos, a visão, audição ou qualquer outra impressão dos sentidos é real; corresponde a objetos externos reais.

 

Pablo Garulo -Revista de Parapsicologia número 19, elaborada pelo CLAP

 

 

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