O Processo de Galileu
D. Estevão Bettencourt,osb
Segue-se famoso caso de
história da Igreja, que há de ser entendido dentro do respectivo contexto.
O ambiente religioso e
científico dos séculos XVI/XVII
O Humanismo ou
Renascimento do século XVI foi afirmando os valores do homem em termos ora
mais, ora menos autônomos. No início do século XVII, os sintomas de mentalidade
leiga, mesmo atéia, já eram tantos que começaram a inquietar os ânimos
tradicionais. Sem dúvida, a ciência progredira muito no século XVI; já se
apoiava em observações precisas, levadas a efeito segundo métodos novos,
afastando-se assim das conclusões formuladas de antemão, sem muito contato com
a realidade concreta, como eram as conclusões da Filosofia e da Fisica
medievais. Enfim, a ciência, dotada de instrumentos de trabalho cada vez mais
esmerados, tendia a se emancipar da Filosofia e de.qualquer argumento de
autoridade (inclusive da fé). A “vertigem da inteligência” ia-se apoderando de
alguns pensadores, que de maneira mais ou menos confessada chegavam a lançar um
brado de “morte a Deus”; tal é, por exemplo, a exclamação de Campanella (1568-1639),
frade que chegou a abandonar momentaneamente a sua profissão religiosa (mas que
acabou tranquilamente os seus dias no convento de SaintHonoré em Paris):
“Alguns cristãos descobriram a imprensa, Colombo descobriu um novo mundo,
Galileu novas estrelas... Acrescentai o uso dos canhões, da bússola, dos
moínhos, das armas de fogo e todas essas invenções maravilhosas. os pensadores
de ontem eram crianças junto a nós! Nós somos livres!” A humanidade que assim
pensava ter atingido a idade de adulto, julgava que, para o futuro, poderia
dispenser a “tutela de Deus”. Ao lado dos que nos termos atrás se entusiasmavam
por uma ciência quase absoluta, havia os céticos, representados principalmente
por Michel de Montaigne (1533-1592), que não menos peridosamente corroíam as
tradicionais concepções cristãs. Montaigne peregrinava pelos grandes santuários
da Europa, mas, como dizia um seu contemporãneo, o Pe. Garasse S.J., “sufocava
suavemente, como que com um cordel de seda, o senso religioso”, mediante as
suas proposições ambíguas. Diante dessas novas correntes de pensamento, que
atitude tomavam as autoridades eclesiásticas? Nos casos de flagrante impiedade
e ateísmo, reagiam fortemente, desconfiando da nova ciência, movidas pelo
desejo de preservar a verdade e os valores da cultura (daí a sua reação contra
Campanella, Tanini, Teófilo de Viau ...). Quando, porém, a contestação era
habilmente dissimulada por seus autores, parece que os eclesiásticos não
avaliavam plenamente a gravidade do perigo; Montaigne, por exemplo, submeteu,
com todos os sinais de respeito, suas obras aos censores eclesiásticos; estes
em resposta delicada Ihe pediram que em consciência tratasse de retocar o que
julgasse dever retocar! ... Estas reações são sintomáticas, pois revelam bem um
período de transição e incertezas em que os pensadores (tanto os tradicionais
como os invasores) ainda não vêem plenamente o significado de valores novos que
vão surgindo no cenário da civilização os erros eram bem possiveis, tanto da
parte dos inovadores como da parte dos tradicionais, antes de se chegar a justa
assimilação dos elementos em causa ou a incorporação dos elementos novos na
sintese antiga. Ora foi precisamente num ambiente de certa reação contra a fé,
reação encabeçada por uma ciência aparente, que viveu Galileo Galilei (1564-1642).
Examinemos agora.
O processo de Galileu
O sistema geocêntrico de
Ptolomeu († 150 d.C.) estivera em vigor durante toda a Idade Média, quando em
1543 o cônego Nicolau Copérnico publicou o livro “De revolutionibus orbium
caelestium”, em que sugeria outra concepção: a Terra e os demais planetas giram
em torno do sol. A obra foi dedicada ao Papa Paulo III, que a aceitou sem
contradição. Os doze Pontífices Romanos subseqüentes não se mostraram em
absoluto infensos a Copérnico; verdade é que, por falta de provas seguras,
ninguém atribuia grande verossimilhança à nova teoria. Quando, porém, Galileu
entrou no cenário da história, esta mudou notavelmente de face. Galileu, depois
de ter aderido ao sistema ptolomaico, a partir de 1610 professou as idéias de
Copérnico, baseadas sobre observações de astronomia recém-realizadas. Com isto
mereceu numerosos elogios, principalmente por parte de sábios jesuítas
(Clavius, Griemberger e outros), que o aplaudiram como “um dos mais célebres e
felizes astrônomos do seu tempo”. Em março de 1611, tendo ido a Roma (era
natural de Pisa), lá foi recebido pelo Papa Paulo V em audiência particular:
prelados e príncipes pediram-lhe que Ihes explicasse as maravilhas que havia
descoberto. O Cardeal Del Monte em carta ao Grão-Duque de Florença atestava:
“Galileu convenceu cabalmente da veracidade de suas descobertas todos os sábios
de Roma. E, se estivéssemos ainda nos tempos da antiga República Romana, não há
dúvida de que, em homenagem às suas obras, Ihe mandariam erguer uma estátua no
Capitólio” (Favaro, Le opere di Galilei XI 119). Até essa época Galileu se
mantivera exclusivamente no domínão da astronomia. Era inevitável, porém, que
entrasse no da Teologia. Com efeito, havia quem, desconfiasse das teses de
Galileu e o quisesse impugnar em nome de textos bíblicos, como SI 103,4; Js 10,
12-14; Ecl 1,4-6. Foi o que fez Ludovico delle Colombe. Galileu defendeu-se em
carta a seu discípulo Benedetto Castelli O.S.B., fazendo considerações
escriturísticas que foram posteriormente ratificadas pelos exegetas e até hoje
conservam seu pleno valor na Igreja: A Sagrada Escritura não pode nem mentir
nem se enganar. A veracidade das suas palavras é absoluta e Inatacável Aqueles,
porém, que a explicam e interpretam, podem-se enganar de diversas maneiras,
cometer-se-iam funestos e numerosos erros se se quisesse sempre seguir o
sentido literal das palavras; chegaríamos a contradições grosseiras, erros,
doutrinas ímpias, porque seriamos forçados a dizer que Deus tem pés, mãos,
olhos, etc... Em questões de ciências naturais, a Sagrada Escritura deveria
ocupar o último lugar A S. Escritura e a natureza provém ambas da Palavra de
Deus; aquela foi inspirada pelo Espirito Santo, esta executa fielmente as leis
estabelecidas por Deus. Mas, ao passo que a Bíblia, acomodando-se à compreensão
do comum dos homens, fala em muitos casos, e com razão, conforme as aparências,
e usa de termos que não são destinados ;a exprimir a verdade absoluta, a
natureza se conforma rlgorosa e Invariavelmente às leis que Ihe foram dadas;
não se pode, pois, em nome da S. Escritura, pôr em dúvida um resultado
manifesto adquirido por maduras observações ou por provas suficientes... O
Espirito Santo não quis ensinar-nos se o céu está em movimento ou se é imóvel;
se tem forma de globo ou forma de disco; se ele ou a terra se move ou permanece
em repouso... Já que o Espirito Santo não intencionou instruir-nos a respeito
dessas coisas, porque isto não importava aos seus designãos, que são a salvação
das nossas almas, como se pode, agora, pretender que é necessário sustentar
nesses assuntos tal ou tal opinião, que uma é de fé e a outra é errônea ? Uma
opinião que não diz respeito a salvação da alma, poderá ser herética ?” (Favaro, opere V 279-288). Por
mais sábias que fossem as ponderações de Galileu, a muitos católicos pareciam
naquela época inovações inspiradas pelo princípio do “livre exame da Biblia”
propugnado por Lutero. Foi o que deu novo aspecto ao curso da história,
motivando a intervenção do Santo oficio: uma comissão de teólogos, tendo
examinado as teses do heliocentrismo de Copérnico, acabou por dar parecer
contrário as mesmas aos 24 de fevereiro de 1616; em consequência, o Santo
oficio comunicou a Galileu a ordem de “abandonar por inteiro a opinião que
pretende que o sol é o centro do mundo e imóvel, e que a terra se move”, assim
como lhe proibiu “sustentasse essa opinião como quer que fosse, a ensinasse ou
defendesse por palavras ou por escritos, sob pena de ser processado pelo S.
oficio” (Favaro, Galilei e Inquisizione 62). O astrônomo aceitou docilmente a
intimação. Em consequência, aos 5 de março de 1616 a Congregação do indice
condenou as obras que defendiam a doutrina de Copérnico, até que fossem
corrigidas, sem mencionar em absoluto o nome de Galileu. o processo do S.
oficio fora secreto e o sábio astrônomo voltou para Florença a fim de continuar
seus estudos, plenamente prestigiado pela Santa Sé.
Terminou assim a primeira
fase da história de Galileu.
Compreende-se, porém,
que, continuando a estudar astronomia, o famoso autor não podia deixar de se
envolver no novo sistema de Copérnico. Após alguns anos, provocado a se
pronunciar sobre o assunto, passou a defender em termos cautelosos o
heliocentrismo; em 1623 chegava a propugná-lo no escrito II Saggiatore; este
opúsculo, ofertado ao novo Papa, Urbano VIII, amigo pessoal de Galileu (ambos
eram poetas), foi aceito e lido com prazer pelo Pontífice. o Cardeal
Hohenzollern, por essa ocasião, pediu mesmo a Sua Santidade que se pronunciasse
em favor do heliocentrismo; Urbano VIII respondeu que esta doutrina jamais fora
condenada como herética e que pessoalmente ele nunca a mandaria condenar,
embora a considerasse bastante ousada (esta resposta é de importância, pois
sugere que o decreto da Congregagão do índice emanado em 1616 era tido como
decreto meramente disciplinar, não como decisão doutrinária). Muito estimulado
pelos sucessos, Galileu pôs-se a escrever nova obra em favor do copernicismo: O
célebre Diálogo dei due Massimi Sistemi. Tendo-a submetido à censura
eclesiástica, esta Ihe concedeu o Imprimatur com a condição de que propusesse o
heliocentrismo não como tese certa (os argumentos apresentados ainda não eram
tais que fornecessem certeza), mas como hipótese. Galileu, porém, não o fez; em
1632 publicou o livro como estava, incluindo, além do mais, a aprovação dos
censores de Roma e Florença! Este gesto causou grande agitação em Roma; o sábio
deixava naturalmente de gozar da confiança da autoridade eclesiástica. Chamado
perante o Santo ofício, Galileu respondeu insistentemente que em consciência
jamais admitira como certo e definitivo o sistema de Copérnico. Já que nada
mais se podia apurar, o processo foi encerrado em junho de 1633: O astrônomo
teve então que abjurar publicamente o heliocentrismo e foi condenado a prisão
branda, onde, com alguns amigos, continuou a se dedicar aos estudos. Morreu
finalmente em Florença aos 8 de janeiro de 1642, tendo recebido em seu leito de
morte a benção do Sumo Pontífice. Galileu, tido como réu, foi tratado de
maneira que, a luz da praxe vigente na época, era notavelmente benigna (foi
detido como prisioneiro em palácios de nobres e embaixadores).
Observações
complementares
1) A oposição dos teólogos e do Sumo Pontifice é tese de
Galileu não compromete a infabilidade do magistério da Igreja, que tem por
âmbito tão somente temas de fé e de Moral. ora é certo que o caso Galileu
versava sobre assuntos de ordem cientifica, aparentemente associados a
autoridade da S. Igreja. Em tal matéria nem o Papa nem os bispos em sua
colegialidade têm garantia de infalibilidade. Pergunta-se, porém: como entender
tão drástica reação dos homens da Igreja contra Galileu, que objetivamente
tinha razão? - Na ldade Média e ainda no início da ldade Moderna, a Biblia era
o manual utilizado para todos os estudos (psalmos discere, aprender os salmos,
significava então aprender a ler”; a alfabetização já era feita com a Bíblia na
mão). Era, por conseguinte, a Biblia que os medievais iam pedir um juizo sobre
as suas noções de astronomia. ora eis que no início do século XVII, depois de
alguns inovadores, apareceu Galileu, que defendia uma tese de astronomia em
aparente contradição com a Biblia. Naquela época Galileu só podia apresentar
argumentos fracos, ainda sujeitos a discussão científica; apesar de tudo, não
cedia as intimações da autoridade, que Ihe pedia que apresentasse as suas
idéias como simples hipóteses. Além disto, Galileu intervinha no terreno da
exegeses formulando principios para a interpretação da Escritura. ora esse
proceder não podia deixar de suscitar suspeita e réplica por parte dos homens
da Igreja. Quem lê depoimentos de escritores do século XVII mesmo, pode chegar
a conclusão de que, se Galileu tivesse ficado no plano de uma hipótese e não se
tivesse explicitamente envolvido em questões de exegese biblica não teria
provocado a intervenção do S. ofício. As descobertas da ciência aos poucos
deram a ver aos teólogos que a Bíblia não quer ensinar conhecimentos profanos:
passaram então a distinguir e aceitar o que no século XVII parecia monstruoso,
isto é, dois planos que não se contradizem mutuamente, mas não interferem um no
outro: o plano das ciências naturais e o da Bíblia ou da Teologia. A fim de
ilustrar quão dificil devia ser a um cristão imbuido da mentalidade dos séculos
XVI/XVII admitir o heliocentrismo, seja aqui observada a atitude dos autores
protestantes diante do novo sistema; a estes, assim como aos católicos, foi
custoso compreender que a Biblia não ensina cosmologia, de modo que durante
dois séculos resistiram ao heliocentrismo. Com efeito, Lutero julgava que as
idéias de Copérnico eram idéias de louco, que tornavam confusa a astronomia.
Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fantasmagória e
significava a rebordosa das ciências. Kepler (1581-1630), astrônomo protestante
contemporâneo de Galileu, teve que deixar a sua terra, o Wurttemberg, por causa
de suas idéias copérnicianas. Em 1659, o Superintendente Geral de Wittenberg,
Calovius, proclamava altamente que a razão se deve calar quando a Escritura
falou; verificava com prazer que os teólogos protestantes, até o último,
rejeitavam a teoria de que a Terra se move. Em 1662, a Faculdade de Teologia
protestante da Universidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico
em contradição com a Sagrada Escritura. Em 1679, a Faculdade de Teologia
protestante de Upsala (Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o
sistema de Copérnico. Ainda no século XVIII a oposição luterana contra o
sistema de Copérnico era forte: em 1744 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg,
pregava energicamente que a teoria do heliocentrismo era abominável invenção do
diabo.
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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