CARTA ENCÍCLICA DE JOÃO XXIII
PRINCEPS PASTORUM
AS MISSÕES CATÓLICAS
Aos
veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos, bispos e
outros
ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica.
INTRODUÇÃO
Algumas
recordações pessoais
1. Desde
quando, respondendo com consciente humildade ao convite do "Príncipe dos
Pastores" (1Pd 5,4), mas confiante no seu poderosíssimo auxílio, assumimos
o governo e a guarda dos "cordeiros" e das "ovelhas" do
rebanho de Deus (cf. Jo 21,15-17) espalhado por toda a terra, sempre esteve
presente à nossa alma "o problema missionário em toda a sua vastidão,
beleza e importância".(1) Por isto, nunca cessamos de volver para ele as
nossas mais vivas solicitudes. E, na homília do primeiro aniversário da nossa
coroação, quisemos inscrever entre os dias mais felizes do nosso Pontificado o
dia onze de outubro passado, quando mais de quatrocentos missionários vieram à
sacrossanta Basílica Vaticana para receberem das nossas mãos o crucifixo, antes
de se espalharem pelo mundo todo, a serviço do Evangelho.
2. Neste
campo, a Divina Providência, nos seus adoráveis e amorosos desígnios, bem cedo
quis orientar o nosso ministério sacerdotal. Com efeito, terminada a primeira
guerra mundial, o nosso predecessor Bento XV, de feliz memória, quis chamar-nos
da nossa diocese nativa a Roma para nos dedicarmos à "Obra da propagação
da fé", à qual atendemos durante quatro felicíssimos anos da nossa vida
sacerdotal. E ainda está viva na nossa mente a lembrança daquele memorável pentecostes
do ano de 1922, quando, com profunda alegria, nos foi dado participar, aqui em
Roma, da celebração do terceiro centenário da fundação da S. Congregação
"de Propaganda Fide", à qual justamente está confiada a tarefa de
fazer refulgir a verdade e a graça do Evangelho até aos extremos confins da
terra.
3.
Naqueles anos, também o nosso predecessor, de feliz memória, Pio XI,
confortou-nos, com a sua palavra e com o seu exemplo, no apostolado
missionário, e dos seus lábios aprendemos, na iminência do conclave em que o
Espírito Santo o designaria para sucessor de Pedro, que "nada mais
grandioso podia esperar-se de um vigário de Cristo, qualquer que fosse o
eleito, do que o que está contido neste duplo ideal: irradiação extraordinária
da doutrina evangélica no mundo, e espírito de pacificação".(2)
Paternais
sodicitudes de Sumos Pontífices pelas missões
4. Com a
mente cheia destas e de outras suaves recordações, e cônscio dos graves deveres
que incumbem ao pastor supremo do rebanho de Deus, desejamos, veneráveis irmãos,
aproveitar o 40° aniversário da memorável Carta Apostólica Maximum illud,(3)
com a qual o nosso venerado predecessor Bento XV dava novo e decisivo impulso à
ação missionária na Igreja para vos falar sobre as necessidades e as esperanças
da dilatação do Reino de Deus naquela considerável parte do mundo onde se
desenvolve o precioso e fatigante trabalho dos missionários, a fim de que
surjam novas comunidades cristãs e produzam frutos salutares.
5. Sobre
este assunto, também os nossos predecessores Pio XI e XII, de feliz memória,
emitiram oportunas normas e exortações por meio de encíclicas, (4) que nós
mesmos quisemos "confirmar com a nossa autoridade e com igual
caridade" na nossa primeira encíclica.(5) Certamente, porém, nunca se fará
o bastante para levar a cabo o desejo do divino Redentor, de que todas as
ovelhas façam parte de um só rebanho sob a guia de um único pastor (cf. Jo
10,16).
A nova
encíclica
6. Ao
volvermos a nossa particular atenção para os interesses sobrenaturais da Igreja
nas terras de missão, aos nossos olhos se oferecem regiões fecundas de messes,
regiões em que o trabalho dos operários da vinha de Deus é particularmente
árduo, e regiões, ainda, onde a violência da perseguição e regimes hostis ao
nome de Deus e de Cristo tentam sufocar a semente da palavra do Senhor (cf. Mt
13,19). Mas em toda parte é grande a necessidade das almas, e de toda parte nos
chega a invocação: "Ajuda-nos" (At 16,9). Em todas essas zonas
portanto, que foram fecundadas pelo sangue e pelo suor apostólico de heróicos
arautos do Evangelho provenientes "de todas as nações que estão sob o
céu" (At 2,5), e onde agora germinam, como floração e frutificação de
graça, apóstolos nativos, desejamos fazer chegar a nossa palavra afetuosa de
louvor e de incentivo, e, ao mesmo tempo também de ensinamento, alimentada por
uma grande esperança que não teme ser confundida, por fundar-se na infalível
promessa do divino Mestre: "Eis que eu estou convosco todos os dias até à
consumação dos séculos" (Mt 28,20); "Tende confiança: eu venci o
mundo" (Jo 16,33).
I. A
HIERARQUIA E O CLERO LOCAL
Apelo da
epístola "Maximum illud" em favor do clero indígena
7. Passado
o primeiro conflito mundial, que proporcionara lutos, devastações e
desconfortos a grande parte da humanidade, a Carta Apostólica Maximum illud
de Bento XV(6) ressoou como um grito de levante espiritual em favor das novas e
pacíficas conquistas do Reino de Deus: o único que pode assegurar a todos os
homens filhos do Pai celeste uma paz duradoura e uma prosperidade verdadeira.
Desde então, num ativíssimo e fecundíssimo quarentênio de atividade
missionária, um fato da maior importância veio enriquecer os já felizes
progressos das missões: o desenvolvimento da hierarquia e do clero local.
8.
Conformemente ao "fim último" do trabalho missionário, "que é o
de constituir de modo estável a Igreja no seio dos outros povos, e de confiá-la
a uma hierarquia própria, escolhida entre os cristãos do lugar",' esta Sé
Apostólica sempre providenciou oportuna e maduramente, e nestes últimos tempos
com significativa largueza, para estabelecer ou restabelecer a hierarquia
eclesiástica naquelas regiões em que as circunstâncias permitiam e aconselhavam
chegar à constituição de sedes episcopais, confiando-as, quando possível, a
prelados nativos do lugar. Aliás, ninguém ignora que este tem sido
constantemente o programa de ação da S. Congregação "de Propaganda
Fide". Todavia, foi a Carta apostólica Maximum illud que pôs em
plena evidência, como nunca antes, toda a importância e urgência do problema,
relembrando uma vez mais, com acentos lacinantes e prementes, o empenho
urgente, por parte de quem presidia às missões, de cuidar das vocações e da
educação daquele que então se chamava clero indígena, sem que este apelativo
jamais haja revestido qualquer significado de discriminação ou de diminuição,
que se deve sempre excluir da linguagem dos romanos pontífices e dos documentos
eclesiásticos.
Oportunos
desenvolvimentos durante os Pontificados de Pio XI e Pio XII
9. Esse
apelo de Bento XV, renovado pelos seus sucessores Pio XI e Pio XII, de feliz
memória, já teve os seus frutos providenciais e visíveis, e por isto vos
convidamos a agradecerdes conosco ao Senhor, que suscitou nas terras de missão
uma falange numerosa e escolhida de Bispos e de sacerdotes, irmãos e filhos
nossos caríssimos, abrindo assim o nosso coração às mais alegres esperanças. Um
rápido olhar, com efeito, às simples estatísticas dos territórios confiados à
S. Congregação "de Propaganda Fide", não incluídos aqueles atualmente
sujeitos a perseguições, mostra-nos que o primeiro Bispo de raça asiática foi
sagrado em 1923, e os primeiros Vigários Apostólicos de raça africana foram
nomeados em 1939. Até 1959, contam-se 68 Bispos de raça asiática e 25 de raça
africana. O clero nativo passou, de 919 membros, em 1918, a 5.553 em 1957 para
a Ásia, e de 90 membros a 1.811, no mesmo espaço de tempo, para a África. Desse
modo quis o Senhor das messes (cf. Mt 9,58) premiar as fadigas e os méritos de
quantos, com sua ação direta e com sua multíplice colaboração, se dedicaram ao
trabalho das missões segundo os repetidos ensinamentos desta Sé Apostólica. Com
razão, portanto, o nosso predecessor Pio XII, de feliz memória, podia, com
legítima satisfação, afirmar: "Outrora, a vida eclesiástica, no que é
visível, desenvolvia-se ubertosamente de preferência nos países da velha
Europa, de onde se difundia, qual rio majestoso, para aquela que podia dizer-se
a periferia do mundo: hoje, ao invés, aparece como que uma troca de vida e de
energias entre todos os membros do corpo místico de Cristo na terra. Não poucas
regiões, em outros continentes, de há muito ultrapassaram o período da forma
missionária da sua organização eclesiástica, são dirigidas por hierarquia
própria, e dão a toda a Igreja bens espirituais e materiais, quando antes
somente recebiam".(8) Ao Episcopado e ao clero das novas Igrejas desejamos
dirigir a nossa paternal exortação para que orem e ajam, de modo todo
particular a fim de que o seu sacerdócio se torne fecundo, com o empenho de
falar freqüentíssimamente, nas instruções catequéticas e na pregação, da
dignidade, da beleza, da necessidade e do alto mérito do estado sacerdotal, de
modo a inclinar todos aqueles que Deus quisesse chamar a tão excelsa honra a
corresponderem, sem delongas e com ânimo grande, à vocação divina. Façam rezar,
outrossim, às almas a si comadas, enquanto a Igreja toda, segundo a exortação
do divino Redentor, não cessa de elevar súplicas ao céu pelas mesmas intenções,
a fim de que o Senhor "envie operários à sua messe" (Lc 10,2), especialmente
nestes tempos em que "a messe é muita e poucos são os operários" (Lc
10,12).
Fraternal
colaboração entre o clero local e missionários de outros países
10. As
Igrejas locais dos territórios de missão, mesmo fundadas e estabelecidas com
sua própria hierarquia, seja pela vastidão de território, seja pelo número
crescente dos fiéis e pela ingente multidão dos que esperam a luz do evangelho,
ainda continuam a ter necessidade da obra dos missionários vindos de outros
países. Deles, por outro lado, bem se pode dizer: "Absolutamente não são
estrangeiros, visto que todo sacerdote católico no desenvolvimento das suas
atribuições acha-se como que na sua pátria, onde quer que o reino de Deus
floresce ou está nos seus inícios".(9) Trabalhem, pois, todos juntos, na
harmonia de uma fraternal, sincera e delicada caridade, seguro reflexo do amor
que eles têm ao Senhor e à sua Igreja, em perfeita, alegre e filial obediência
aos bispos "que o Espírito Santo pôs para regerem a Igreja de Deus"
(At 20,28), cada um grato ao outro pela colaboração oferecida, "um só
coração e uma só alma" (At 4,32), a fim de que pelo modo como eles se amam
refulja aos olhos de todos que eles são verdadeiramente discípulos daquele que
aos homens deu como primeiro e maior preceito, como mandamento "novo"
e seu, o do mútuo amor (cf. Jo 13,34;15,12).
II. A
FORMAÇÃO DO CLERO LOCAL
Primado da
formação espiritual na educação do clero jovem
11. O
nosso predecessor Bento XV, na carta apostólica Maximum illud, teve a
peito inculcar aos dirigentes de missão que as suas solicitudes mais assíduas
deviam ser dirigidas à "completa e perfeita"(10) formação do clero
local, como aquele que, "tendo comuns com os seus conacionais a origem, a
índole, a mentalidade e as aspirações, é maravilhosamente apto para lhes
instilar nos corações a fé, porque mais do que qualquer outro conhece as vias
da persuasão".(11)
12. É
apenas necessário lembrar que uma educação sacerdotal perfeita deve ser antes
de tudo dirigida à aquisição das virtudes próprias do santo estado, sendo este
o primeiro dever do sacerdote, isto é, "o dever de atender à própria
santificação".(12) O novo clero nativo deve entrar numa santa porfia com o
clero das dioceses mais antigas, que deu ao mundo sacerdotes que, pela
heroicidade das suas virtudes exemplares e pela eloqüência viva do seu exemplo,
mereceram ser propostos como modelo do clero de toda a Igreja. Efetivamente, é
especialmente pela santidade que o clero pode demonstrar que é luz e sal da
terra (cf. Mt 5,13-14), isto é, da sua própria nação e de todo o mundo, pode
convencer da beleza e poder do Evangelho, pode eficazmente ensinar aos fiéis
que a perfeição da vida cristã é uma meta à qual podem e devem tender com todo
esforço e com perseverança todos os filhos de Deus, seja qual for a sua origem,
o seu ambiente, a sua cultura e a sua civilização.
13. No
nosso ânimo paterno contemplamos o dia em que o clero local poderá em toda
parte dar indivíduos capazes de educarem na santidade os próprios alunos do
santuário, como seus guias espirituais. Aos Bispos e aos dirigentes de missões
lançamos, antes, o convite de não hesitarem em escolher desde já, entre o clero
local, sacerdotes que pela sua virtude e pela sua prudência inspirem confiança
de serem, para os seminaristas seus compatrícios, mestres seguros na formação
espiritual.
Educação
adaptada ao ambiente
14. Além
disto, a Igreja, como bem sabeis, veneráveis irmãos, sempre exigiu que os seus
sacerdotes sejam tornados aptos para seu ministério mediante uma educação
intelectual sólida e completa. Que de tanto sejam capazes os jovens de todas as
raças e provenientes de todas as partes do mundo, isto nem sequer vale mais a
pena lembrá-lo, tanto os fatos e a experiência o demonstraram com evidência.
Obviamente, a formação do clero local deve ter na devida conta os fatores
ambientais próprios das várias regiões. Para todos os candidatos ao sacerdócio
vigora a sapientíssima norma segundo a qual eles não devem ser formados
"num ambiente por demais arredio do mundo"(13), visto que desse modo,
"quando forem para o meio da sociedade, encontrarão sérias dificuldades
nas relações com o povo e com a classe culta, e daí sucederá, com freqüência ou
assumirem eles uma atitude errada e falsa para com os fiéis, ou considerarem
desfavoravelmente a formação recebida".(14) Eles deverão ser sacerdotes
espiritualmente perfeitos, mas também, "gradual e prudentemente inseridos
naquela parte do mundo"(15) que lhes coube por sorte, para que a iluminem
com a verdade, a santifiquem com a graça de Cristo. Para tal fim, também no que
respeita ao regime de vida do seminário, convém insistir sobre o modo de viver
local, não porém sem pôr a fruto todas aquelas facilitações de ordem técnica ou
material que já agora são bem e patrimônio de todas as civilizações, enquanto
representam um real progresso para um teor de vida mais elevado e para uma mais
adequada salvaguarda das forças físicas.
Educação
no senso de responsabilidade e no espírito de iniciativa
15. A
formação do clero autóctone, dizia o nosso predecessor Bento XV, deve visar a
torná-lo capaz de tomar em mãos, apenas isso for possível, o governo das novas
Igrejas, e de guiar, com o ensino e com o ministério, os próprios compatrícios
na trilha da salvação.(16) Para tal fim, afigura-se-nos sumamente oportuno que
todos aqueles que, ou alienígenas ou nativos, cuidam dessa formação, se
empenhem conscienciosamente em desenvolver nos seus alunos o senso de
responsabilidade e o espírito de iniciativa,(17) de modo que estes estejam em
condições de assumir bem depressa e progressivamente todas as tarefas, mesmo as
mais importantes, inerentes ao seu ministério, em perfeita concórdia com o
clero alienígena, mas também em igual medida. Esta será, com efeito, a prova da
real eficácia da educação a eles ministrada, e constituirá o coroamento e o
prêmio melhor dos que para ela contribuíram.
Utilização
dos valores locais
16. Em
vista justamente de uma formação intelectual que leve em conta as necessidades
reais e da mentalidade de cada povo, esta Sé Apostólica sempre recomendou os
estudos especiais de missionologia não só para o clero alienígena, como também
para o clero nativo. Assim o nosso predecessor Bento XV, decretava a
instituição do ensino de matérias missionárias no Pontifício ateneu Urbaniano
"de Propaganda Fide", (18) e Pio XII salientava com satisfação a ereção
do Instituto missionário científico no mesmo ateneu Urbaniano, "e a
instituição, quer em Roma, quer noutros lugares, de faculdades e cátedras de
missionologia".(19) Por isto os programas dos seminários locais em terra
de missão não deixarão de assegurar cursos de estudo nos vários ramos da
missionologia e o ensino dos diversos conhecimentos e técnicas especialmente
úteis para o ministério futuro do clero daquelas regiões. Para tal fim
prover-se-á a um ensino que, no espírito da mais pura e sólida tradição
eclesiástica, saiba formar acuradamente o juízo dos sacerdotes sobre os valores
culturais locais especialmente filosóficos e religiosos, na sua relação com o
ensino e a religião cristã. "A Igreja Católica - disse o nosso imortal
predecessor Pio XII - não despreza ou rejeita completamente o pensamento pagão,
mas, antes, depois de o haver purificado de toda escória de erro, completa-o e
aperfeiçoa-o com sabedoria cristã. Assim igualmente ela acolheu o progresso no
campo das ciências e das artes... e consagrou de alguma maneira os costumes
particulares e as tradições antigas dos povos; as próprias festas pagãs,
transformadas, serviram para celebrar as memórias dos mártires e os divinos
mistérios".(20) Nós mesmo já manifestamos o nosso pensamento sobre este
assunto: "Em toda parte... onde autênticos valores de arte e de pensamento
são suscetíveis de enriquecer a família humana, a Igreja está pronta a
favorecer tais trabalhos do espírito. Ela mesma, como sabeis, não se identifica
com nenhuma cultura, nem mesmo com a cultura ocidental, à qual a sua história
está estreitamente ligada. Porque a sua missão pertence a uma outra ordem, à
ordem da salvação religiosa do homem. Porém a Igreja, tão rica de juventude que
incessantemente se renova ao sopro do Espírito, está sempre disposta a
reconhecer, antes a acolher, e mesmo animar, tudo aquilo que é de honra para a
inteligência e para o coração humano nas outras partes do mundo, diverso desta
bacia mediterrânea, que foi berço providencial do cristianismo".(21)
Penetração
entre as classes cultas
17. Bem
preparados e adestrados neste campo tão difícil e importante, no qual estão em
condições de oferecer contributos bastante preciosos, os sacerdotes nativos
poderão, sob a direção dos seus Bispos, dar vida a movimentos de penetração
mesmo entre as classes cultas, especialmente nas nações de antiga e alta
cultura, a exemplo de famosos missionários, dos quais basta citar por todos o
Pe. Matteo Ricci. Com efeito, também ao clero nativo cabe a tarefa de
"reduzir todo intelecto ao obséquio de Cristo" (cf. 2Cor 10,5), como
dizia aquele incomparável missionário que foi S. Paulo, e assim "atrair a
si, na pátria, a estima mesmo das personalidades e dos doutos".(22) A seu
juízo, os Bispos providenciem oportunamente no sentido de constituir, para as
necessidades de uma ou mais regiões, centros de cultura, nos quais missionários
alienígenas e sacerdotes nativos tenham meios de fazer frutificar o seu preparo
intelectual e a sua experiência em beneficio da sociedade em que vivem por escolha
ou por nascimento. Neste campo é necessário também lembrar aquilo que o nosso
imediato predecessor Pio XII sugeriu, isto é, que é dever dos féis
"multiplicar e difundir a imprensa católica em todas as suas formas"
(23), e preocupar-se outrossim com as "técnicas modernas de difusão e de
cultura, sabida como é a importância de uma opinião pública formada e
iluminada".(24) Nem tudo se poderá fazer em toda parte, mas não se deve
perder nenhuma boa ocasião para prover a estas reais e urgentes necessidades,
mesmo se às vezes "quem semeia não é o mesmo que colhe" (Jo 4,37).
Cautelas
nos empreendimentos de caráter social e assistencial
18. A
difusão da verdade e da caridade de Cristo é a verdadeira missão da Igreja, que
tem o dever de oferecer aos povos, "na medida máxima possível, as
substanciais riquezas da sua doutrina e da sua vida, animadora de uma nova
ordem social cristã".(25) Por isto, nos territórios de missão, ela provê
com toda a largueza possível também a iniciativas de caráter social e assistencial
que são de sumo proveito para as comunidades cristãs e para os povos entre os
quais elas vivem. Tenha-se, todavia, o cuidado de não atravancar o apostolado
missionário com um complexo de instituições de ordem puramente profana.
Fique-se nos limites daqueles serviços indispensáveis de fácil manutenção e de
uso fácil, cujo funcionamento possa o mais depressa possível ser posto nas mãos
do pessoal local, e disponham-se as coisas de modo que ao pessoal propriamente
missionário seja oferecida a possibilidade de dedicar as melhores energias ao
ministério de ensino, de santificação e de salvação.
Formação
no espírito de caridade universal
19. Se é
verdade que, para um apostolado o mais amplamente frutífero, é de primária
importância que o sacerdote nativo conheça e saiba com toda inteligência e
prudência estimar os valores locais, com ainda maior razâo ficará sendo verdade
que para ele vale aquilo que o nosso imediato predecessor dizia de todos os
fiéis: "As perspectivas universais da Igreja serão as perspectivas normais
da sua vida cristã".(26) Para tal fim, deverá o clero local ser não
somente informado dos interesses e das vicissitudes da Igreja universal, mas
também deverá ser educado numa íntima, universal respiração de caridade. S.
João Crisóstomo dizia das celebrações litúrgicas cristãs: "Quando estamos
no altar, oramos antes de tudo pelo mundo inteiro e pelos interesses coletivos
(27); e Santo Agostinho lindamente afirmava: "Se queres amar Cristo,
derrama a caridade por toda a terra, porque os membros de Cristo estão no mundo
inteiro".(28).
20. No
desejo, justamente, de salvaguardar em toda a sua pureza este espírito católico
que deve animar a obra dos missionários, o nosso predecessor Bento XV não
hesitou em denunciar com expressões severas um perigo que podia fazer perder de
vista as altíssimas finalidades do apostolado missionário e, assim,
comprometer-lhe a eficácia: "Seria coisa bem triste se algum missionário
se revelasse tão descuidado de sua dignidade que pensasse mais na pátria
terrena do que na celeste, e se preocupasse excessivamente com dilatar o poder
dela e lhe estender a glória. Este modo de agir constituiria um dano
funestíssimo para o apostolado, e, no missionário, extinguiria todo impulso de
caridade para com as almas e lhe diminuiria o prestígio na opinião do
povo".(29)
21. O
mesmo perigo poderia hoje repetir-se sob outras formas, pelo fato de em muitos
territórios de missão ir-se tornando geral a aspiração dos povos ao antogoverno
e à independência, e a conquista das liberdades civis poder infelizmente
acompanhar-se de excessos que absolutamente não estão em harmonia com os
autênticos e profundos interesses espirituais da humanidade.
22.
Estamos plenamente confiante de que o clero nativo, movido por sentimentos e
por propósitos superiores em conformidade com as exigências universalistas da
religião cristã, contribuirá outrossim para o bem real da própria nação.
23.
"A Igreja de Deus é católica, e não é estrangeira, para nenhum povo ou
nação",(30) dizia o mesmo nosso predecessor, e nenhuma Igreja local poderá
exprimir a sua união vital com a Igreja universal se o seu clero e o seu povo
se deixarem sugestionar pelo espírito particularista, por sentimentos de
malevolência para com os outros povos, por um mal compreendido nacionalismo que
destruiria a realidade dessa caridade universal que edifica a Igreja de Deus, a
única verdadeiramente "católica".
III.
O LAICATO DAS MISSÕES
Os leigos
na vida da Igreja
24.
Insistindo sobre a necessidade de preparar com o maior zelo o advento do clero
autóctone e de formá-lo adequadamente para sua finalidade, o nosso venerado
predecessor Bento XV certamente não pretendeu excluir a importância, também
fundamental, de um laicato nativo à altura da sua vocação cristã e empenhado no
apostolado. Isso fê-lo expressamente e com todo o relevo o nosso imediato
predecessor Pio XII,(31) que muitas vezes voltou sobre este assunto vital que,
hoje mais do que nunca, se impõe à consideração e requer ser resolvido, em toda
parte, na medida máxima possível.
25. O
mesmo Pio XII - e isto redunda em seu singular mérito e louvor - com copiosa
doutrina e renovados incitamentos advertiu e incentivou os leigos a assumirem
solicitamente o seu lugar ativo no campo do apostolado em colaboração com a
hierarquia eclesiástica; com efeito, desde os primórdios da história cristã e
em todas as épocas sucessivas, esta colaboração dos fiéis fez com que os Bispos
e o clero pudessem eficazmente desenvolver a sua obra entre os povos, quer no
campo propriamente religioso, quer no campo social. Pode e deve isto
verificar-se também nos nossos tempos, que, antes, revelam maiores
necessidades, proporcionais a uma humanidade numericamente mais vasta e com
exigências espirituais multiplicadas e complexas. Aliás, onde quer que a Igreja
é fundada, deve estar sempre presente e ativa com toda a sua estrutura
orgânica, e portanto não somente com a hierarquia nas suas várias ordens, mas
também com o laicato: e, portanto, é por meio do clero e dos leigos que ela
deve necessariamente desenvolver a sua obra de salvação.(32)
Metas na
formação do laicato em terra de missão
26. Nas
novas cristandades, não se trata somente de proporcionar, com as conversões e
os batismos, um grande número de cidadãos ao reino de Deus, mas também de os
tornar aptos, por uma adequada educação e formação cristã, a assumirem, cada um
segundo a sua condição e as suas possibilidades, as suas responsabilidades na
vida e no futuro da Igreja. O número dos cristãos pouco significaria se
faltasse a qualidade, se faltasse a solidez dos próprios fiéis na profissão
cristã, e se faltasse o aprofundamento da sua vida espiritual; e se, depois de
haverem nascido para a fé e para a graça, eles não fossem ajudados a progredir
na juventude e na madureza do espírito que dá impulso e prontidão para o bem.
Com efeito, a profissão de fé cristã não pode ser reduzida a um dado
anagráfico, mas deve investir e modificar o homem no profundo (cf. Ef 4,24),
dar significado e valor a todas as suas manifestações.
Particulares
deveres do clero
27.
Os leigos não poderão chegar a essa meta de madureza se o clero, quer
alienígena, quer nativo, não se propuser oportunamente o programa já sugerido,
nas suas linhas essenciais, pelo primeiro Papa: "Sois uma raça eleita, um
sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade, a fim
de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua
luz maravilhosa" (1Pd 2,9).
28. Uma
instrução e educação cristã que se considerasse satisfeita por haver ensinado e
feito aprender as fórmulas do catecismo e os preceitos fundamentais da moral
cristã com uma casuística sumária, sem envolver a conduta prática, expor-se-ia
ao risco de proporcionar à Igreja de Deus um rebanho por assim dizer passivo. O
rebanho de Cristo, ao invés, é formado de ovelhas que não só escutam o seu
Pastor, mas têm a capacidade de reconhecê-lo e de lhe reconhecerem a voz (cf.
Jo 10,4,14), de segui-lo fielmente, e com plena consciência, aos pastos da vida
eterna (Jo 10,9,10), para poderem merecer um dia, do Príncipe dos Pastores,
"a coroa imarcescível da glória" (1Pd 5,4), ovelhas que, conhecendo e
seguindo o Pastor que por elas deu a vida (cf. Jo 10,11), estejam prontas a
dedicar a ele sua vida e a lhe cumprirem a vontade de levar a fazerem parte do
único ovil as outras ovelhas que não o seguem, mas vagueiam longe dele, que é
caminho, verdade e vida (Jo 14,6).
29. O
impulso apostólico pertence essencialmente à profissão de fé cristã: com
efeito, "cada um é obrigado a difundir no meio dos outros a sua fé, seja
para instruir ou confirmar os outros fiéis, seja ainda para repelir os ataques
dos infiéis",(33) especialmente nos tempos, como os nossos, em que o
apostolado é uma tarefa urgente para as difíceis circunstâncias em que se acham
a humanidade e a Igreja.
30. A fim
de que seja possível uma completa e intensa educação cristã, requer-se que os
educadores sejam capazes de achar as vias e os meios mais aptos para penetrar
nas várias psicologias, por onde facilitar ao máximo, nos novos cristãos, a
assimilação profunda da verdade com todas as suas exigências. O nosso Salvador,
com efeito, impôs a cada um de nós o cumprimento deste supremo mandamento:
"Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com
toda a tua mente" (Mt 22,37). Aos olhos dos fiéis deve bem depressa
brilhar em todo o seu esplendor a sublimidade da vocação cristã, a fim de que
eficazmente se lhes acenda no coração o desejo e o propósito de uma vida
virtuosa e ativa, moldada na própria vida do Senhor Jesus, que, tendo assumido
a natureza humana, nos mandou seguir os seus exemplos (cf.lPd 2,21; Mt 11,29;
Jo 13,15).
Deveres do
leigo de testemunhar a verdade
31. Todo
cristão deve estar convicto do seu fundamental e primordial dever de ser
testemunha da verdade em que crê e da graça que o transformou. "Cristo -
dizia um grande Padre da Igreja - deixou-nos na terra a fim de que nos
tornássemos faróis que iluminam, doutores que ensinam; a fim de que
cumpríssemos o nosso dever de fermento; a fim de que nos comportássemos como
anjos, como anunciadores entre os homens; a fim de que fôssemos adultos entre
os menores, homens espirituais entre os carnais a fim de os ganharmos; a fim de
que fôssemos semente e déssemos frutos numerosos. Nem sequer seria necessário
expor a doutrina, se a nossa vida fosse irradiante a esse ponto; não seria
necessário recorrer às palavras, se as nossas obras dessem um tal testemunho.
Não haveria mais nenhum pagão, se nos comportássemos como verdadeiros
cristãos".(34)
32. Como é
fácil de compreender, este é o dever de todos os cristãos do mundo inteiro. Mas
é fácil compreender que, nos países de missão, ele poderia produzir frutos
especiais e particularmente preciosos para os fins da dilatação do reino de
Deus mesmo junto àqueles que não conhecem a beleza da nossa fé e o poder
sobrenatural da graça, como já nos exortava Jesus: "Assim brilhe a vossa
luz diante dos homens, a fim de que eles vejam as vossas boas obras e
glorifiquem vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,16); e S. Pedro advertia
amorosamente os fiéis: "Exorto-vos, ó caros,... a que vos abstenhais dos
desejos carnais, que promovem a guerra contra alma. Seja bom o vosso
comportamento entre os gentios para que, mesmo que falem mal de vós, como se
fôsseis malfeitores, vendo as vossas boas obras glorifiquem a Deus, no dia da
Visitação" (1Pd 2,12).
Eficácia
do testemunho da caridade
33. O
testemunho dos indivíduos precisa ser confirmado e ampliado pelo da comunidade
cristã inteira, à semelhança do que acontecia na estaçâo primaveril da Igreja,
quando a união compacta e perseverante de todos os fiéis "no ensino dos
Apóstolos e na comum fração do pão e nas orações" (At 2,42) e no exercício
da mais generosa caridade, era motivo de satisfação profunda e de mútua
edificação; com efeito, eles "louvavam a Deus e eram bem vistos por todo o
povo. E o Senhor aumentava cada dia aqueles que vinham à salvação" (At
2,47).
34. A
união nas orações e na participação ativa na celebração dos mistérios divinos
na liturgia da Igreja contribui de maneira particularmente eficaz para a
plenitude e riqueza da vida cristã dos indivíduos e da comunidade, e é um meio
admirável para educar naquela caridade que é o sinal distintivo do cristão; uma
caridade que foge de toda discriminação social lingüística e racial, que
estende os braços e o coração a todos, irmãos e inimigos. Sobre este assunto
apraz-nos fazer nossas as palavras do nosso predecessor S. Clemente Romano:
"Quando (os gentios) ouvem de nós que Deus diz: Não há mérito para vós se
amais aqueles que vos amam, mas há mérito se amais os inimigos e os que vos
odeiam (cf. Lc 6,32-35), ao ouvirem estas palavras eles admiram esse altíssimo
grau de caridade. Mas, quando vêem que nós não só não amamos os que nos odeiam,
mas nem sequer amamos aqueles que nos amam, eles riem de nós, e o nome de Deus
é blasfemado".(35) O maior dos missionários, s. Paulo Apóstolo, escrevendo
aos Romanos no momento em que se preparava para evangelizar o extremo Ocidente,
exortava à "caridade sem fingimento" (Rm 12,9ss), depois de haver
elevado um hino sublime a esta virtude "sem a qual o cristão nada é"
(lCor 13,2).
Dever de
contribuir para as necessidades materiais da comunidade
35. A
caridade torna-se, outrossim, visível no socorro material, como afirmava o
nosso imortal predecessor Pio XII: "O corpo exige também uma multidão de
membros, unidos entre si para se prestarem mútuo auxílio. Se no nosso organismo
mortal, quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele, dando os
membros sãos o próprio auxílio aos doentes, igualmente na Igreja todo membro
não vive unicamente para si, mas ajuda também os outros para a sua mútua
consolação, como também para um melhor desenvolvimento de todo o corpo
místico".(36)
36. As
necessidades materiais dos fiéis incluem também a do organismo eclesiástico, e,
para isso, é bom que os fiéis nativos se habituem a sustentar espontaneamente,
na medida das suas possibilidades, as suas Igrejas, as suas instituições e o
clero que a eles se dedicou completamente. Não importa se este contributo não
pode ser notável; o importante é que seja testemunho sensível de uma viva consciência
cristã.
IV.
DIRETRIZES PARA O APOSTOLADO LEIGO NAS MISSÕES
Preparação
para o apostolado
37.
Os fiéis cristãos, membros de um organismo vivo, não podem ficar encerrados em
si mesmos e acreditar que basta ter pensado e providenciado sobre as próprias
necessidades espirituais para ter cumprido todo o seu dever. Em vez disso, cada
um por sua própria parte deve contribuir para o incremento e para a difusão do
reino de Deus na terra. O nosso predecessor Pio XII lembrou a todos este dever
universal: "A catolicidade é uma nota essencial da verdadeira Igreja: a
tal ponto que um cristão não é verdadeiramente afeiçoado e devotado à Igreja se
não é igualmente afeiçoado e devotado à universalidade dela, desejando que ela
lance raízes e floresça em todos os lugares da terra".(37)
38. Todos
devem entrar numa porfia de santa emulação e dar assíduos testemunhos de zelo
para o bem espiritual do próximo, para a defesa da própria fé, para fazê-la
conhecer a quem a ignora completamente ou a quem mal a conhece e por isto a
julga mal. Desde a infância e desde a adolescência, mesmo nas mais jovens
comunidades cristãs é necessário que o clero, as famílias e as várias
organizações locais de apostolado inculquem este santo dever. Depois, há
algumas ocasiões particularmente felizes, em que tal educação no apostolado
pode achar o lugar mais adequado e a expressão mais convincente. Tal é, por
exemplo, a preparação dos rapazes e dos neo-batizados para o sacramento da
Confirmação, com o qual "é infundida nos crentes uma nova força para
defenderem a santa mãe Igreja e a fé que dela receberam";(38) preparação
esta sumamente oportuna, especialmente lá onde existem nos costumes locais
cerimônias apropriadas de iniciação a fim de preparar os jovens para o ingresso
oficial no seu grupo social.
Os
catequistas
39. Aqui
não podemos deixar de dar o justo relevo à obra dos catequistas, que na longa
história das missões católicas se têm demonstrado de insubstituível auxílio.
Eles sempre foram o braço direito dos operários do Senhor, e lhes têm compartilhado
e aliviado as fadigas a ponto de os nossos predecessores terem podido
considerar seu recrutamento e sua formação cuidadosíssima entre os "pontos
importantíssimos para a difusão do Evangelho",(39) e os terem definido
como "o caso talvez mais clássico do apostolado leigo".(40) A eles
renovamos os mais amplos elogios, e exortamo-los a meditarem sempre mais na
felicidade espiritual da sua condição e a nunca desistirem de todo esforço para
enriquecerem e aprofundarem, sob a guia da hierarquia, a sua instrução e
formação moral. Os catecúmenos devem aprender deles não somente os rudimentos
da fé, mas também a prática da virtude, o amor grande e sincero a Cristo e à
sua Igreja. Todo cuidado dedicado ao aumento do número destes eficacíssimos
auxiliares da hierarquia e à sua adequada formação, e todo sacrifício dos
catequistas para cumprirem de modo mais apto e perfeito a sua tarefa, será um
contributo de imediata eficácia para a fundação e para o progresso das novas
comunidades cristãs.
A Ação
Católica
40. Na
nossa primeira encíclica já evocamos os múltiplos motivos graves que impõem
hoje, em todos os países do mundo, recrutar os leigos "para o pacífico
exército da Ação católica, com o intento de os ter como colaboradores no
apostolado da hierarquia eclesiástica".(41) Também manifestamos a nossa
satisfação por "tudo o que foi feito no passado, mesmo em terras de
missão, por esses preciosos colaboradores dos bispos e dos
sacerdotes",(42) e queremos aqui renovar, com toda a urgência da caridade
que nos impele (cf. 2Cor 5,14), o aviso e o apelo do nosso predecessor Pio XII
"sobre a necessidade de que todos os leigos nas missões, afluindo
numerosíssimos às fileiras da Ação católica, colaborem ativamente no apostolado
com a hierarquia eclesiástica".(43) Os Bispos dos países de missão, o
clero secular e regular, os fiéis mais generosos e preparados, têm realizado os
esforços mais louváveis para traduzirem em ato esta vontade do sumo pontífice,
e pode-se dizer que em toda parte há, já agora, uma floração de iniciativas e
de obras. Nunca, porém, se insistirá bastante sobre a necessidade de adaptar
convenientemente esta forma de apostolado às condições e exigências locais. Não
basta transferir para um país aquilo que foi feito noutro, mas, sob a guia da
hierarquia e no espírito da mais alegre obediência aos sagrados pastores, é
preciso fazer com que a organização não resulte numa sobrecarga que estorve ou
desperdice preciosas energias, com movimentos fragmentários e de excessiva
especialização que, necessários noutra parte, poderiam resultar menos úteis em
ambientes onde as circunstâncias e as necessidades são completamente diversas.
Na nossa primeira encíclica também prometemos voltar com maior amplitude a este
assunto da Ação católica, e a seu tempo também os países de missão poderão
tirar dela proveito e impulso novo. Nesse ínterim, trabalhem todos em plena
concórdia e com espírito sobrenatural, na convicção de que só assim poderão
gloriar-se de pôr as suas forças a serviço da causa de Deus, da elevação
espiritual e do melhor progresso dos seus povos.
Formação
dos dirigentes leigos
41.
A Ação católica é uma organização de leigos "com funções executivas
próprias e responsáveis"; (44) os leigos, portanto, compõem-lhe os quadros
diretivos. Isto comporta a formação de homens capazes de imprimir às várias
associações o impulso apostólico e de lhes assegurar o melhor funcionamento;
para isso, homens e mulheres que, por serem dignos de se verem confiar pela
hierarquia a direção central ou periférica das associações, devem fornecer as
mais amplas garantias de uma formação cristã intelectual e moral solidíssima,
em virtude da qual possam, "transfundir nos outros aquilo que com o
auxílio da graça divina, já possuem".(45)
42.
Bem se pode dizer que a sede natural desta formação dos dirigentes leigos de
Ação católica é a escola. E a escola cristã justificará a sua razão de ser na
medida em que os seus mestres, sacerdotes e leigos, religiosos e seculares,
conseguirem formar sólidos cristãos.
43.
Ninguém ignora a importância que sempre teve e terá a escola nos países de
missão, e quanta energia a Igreja tem empregado na instituição de escolas de
toda ordem e grau, e na defesa da sua existência e prosperidade. Mas, como é
óbvio, um programa de formação de dirigentes de Ação católica, dificilmente
pode achar o seu lugar nos cursos escolares, para os quais as mais das vezes
será necessário confiar-se a iniciativas extra-escolares, que reúnam os jovens
de melhores esperanças, para instruí-los e formá-los no apostolado. Para isto,
os ordinários procurarâo estudar a melhor forma para dar vida a escolas de
apostolado, cujos métodos educativos obviamente são diferentes dos métodos
escolares públicos. Às vezes se tratará também de preservar de falsas doutrinas
meninos e jovens que são forçados à freqüentar escolas não-católicas; em todo
caso será necessário contrabalançar a educação humanística e técnica recebida
nas escolas públicas por uma educação espiritual particularmente inteligente e
intensa, a fim de que não suceda produzir a instrução indivíduos falsamente
evoluídos, cheios de pretensões, e mais nocivos do que úteis à Igreja e aos
povos. A sua formação espiritual deve ser proporcional ao seu grau de
desenvolvimento intelectual, dirigida a prepará-los para viverem catolicamente
no seu ambiente social e profissional, e para, a seu tempo, assumirem o seu
lugar na vida católica organizada. Para tal fim, no caso em que jovens cristãos
sejam forçados a deixar a sua comunidade para freqüentarem em outras cidades as
escolas públicas, será oportuno cogitar da instituição de
"pensionatos" e lugares de encontro que lhes assegurem um ambiente
religioso e moralmente sadio, conveniente e apto para lhes encaminhar as
capacidades e energias para os ideais apostólicos. Atribuindo às escolas uma tarefa
especial e particularmente eficaz na formação dos dirigentes de Ação católica,
certamente não queremos subtrair às famílias a sua parte de responsabilidade,
nem negar a sua influência, que pode ser mesmo mais vigorosa e eficaz do que a
da escola, em alimentar em seus filhos a chama do apostolado e em cuidar de uma
formação cristã sempre mais madura e aberta à ação. A família é, com efeito,
uma escola ideal e insubstituível.
A
função do laicato autóctone nos vários ambientes
44. O
"bom combate" (2Tm 4,7) pela fé leva-se a efeito não somente no
segredo da consciência ou na intimidade do lar, mas também na vida pública em
todas as suas formas. Em todos os países do mundo suscitam-se hoje em dia
problemas de vária natureza, cujas soluções são procuradas apelando-se, as mais
das vezes, só para os recursos humanos, e obedecendo a princípios que nem
sempre estão de acordo com as exigências da fé cristã. Além disto, muitos
territórios de missão estão atravessando "uma fase de evolução social,
econômica e política pejada de conseqüências para o seu futuro".(46)
Problemas que em outras nações, ou já foram resolvidos ou acham na tradição
elementos de solução, impõem-se a outros países com uma urgência que não é
isenta de perigos, enquanto poderia aconselhar soluções apressadas e
emprestadas, com deplorável leviandade, por doutrinas que não levam em nenhuma
conta, ou positivamente contradizem, os interesses religiosos dos indivíduos e
dos povos. Para o seu bem particular e para o bem público da Igreja, os
católicos não podem nem ignorar tais problemas, nem esperar que a eles sejam
dadas soluções prejudiciais que no futuro exigiriam um esforço bem maior de
correção e representariam ulteriores obstáculos à evangelização do mundo.
45. No
campo da atividade pública os leigos dos países de missão têm a sua mais direta
e preponderante ação, e é necessário providenciar com a máxima oportunidade e
urgência para que as comunidades cristãs ofereçam às suas pátrias terrenas,
para o seu bem comum, homens que honrem as várias procissões e atividades ao
mesmo tempo que honram, com a sua sólida vida cristã, a Igreja que os regenerou
para a graça, de modo que os sagrados pastores possam repetir-lhes o louvor que
lemos nos escritos de S. Basílio: "Tenho agradecido a Deus Santíssimo pelo
fato de que, mesmo estando ocupados nos negócios públicos, não tenhais
descurado os negócios da Igreja; ao contrário, cada um de vós tem-se preocupado
com eles como se se tratasse de um negócio pessoal do qual depende a sua
própria vida".(47)
46. Em
particular no campo dos problemas e da organização da escola, da assistência
social organizada, do trabalho, da vida política, a presença de peritos
católicos poderá ter a mais feliz e benéfica influência se eles souberem - como
é seu preciso dever que não os poderiam descurar sem acusação de traição -
inspirar as suas intenções e a sua ação nos princípios cristãos, que uma
longuíssima história demonstra eficientes e decisivos para proporcionar o bem
comum.
47. Para
tal fim, como já exortava o nosso predecessor Pio XII, de feliz memória, não
será difícil convencer-se da preciosidade e da importância da ajuda fraterna
que as Organizações internacionais católicas poderão prestar ao apostolado
leigo nos países de missão, quer no plano científico, com o estudo da solução
cristã a dar aos problemas especialmente sociais das novas nações, quer no
plano apostólico, sobretudo para a organização do laicato cristão ativo.
Conhecemos o que já tem sido feito e se vai fazendo por parte de leigos
missionários, que escolheram abandonar temporária ou definitivamente a sua
pátria para contribuírem com multíplice atividade para o bem social e religioso
dos países de missão, e ardentemente rogamos ao Senhor que multiplique as
falanges destes generosos e os ampare nas dificuldades e nas fadigas que
afrontam com espírito apostólico. Os institutos seculares poderão dar às
necessidades do laicato nativo em terra de missão uma ajuda incomparávelmente
fecunda, se,com o seu exemplo, suscitarem imitadores e puserem à disposição dos
ordinários as suas forças para acelerar o processo de madureza das jovens
comunidades.
48. O
nosso apelo vai também a todos aqueles leigos católicos que por toda parte se
destacam nas profissões e na vida pública, afim de que considerem seriamente a
possibilidade de ajudar seus novos irmãos de fé, mesmo sem abandonarem a sua
pátria. O seu conselho, a sua experiência, a sua assistência técnica poderão,
sem excessivo trabalho e sem graves incômodos, trazer um contributo às vezes
resolutivo. Não faltará aos bons o espírito de iniciativa para traduzir na
prática este nosso paternal desejo, fazendo-o conhecer lá onde ele puder ser
acolhido, incentivando as boas disposições e fazendo achar o seu melhor
emprego.
Os
estudantes nativos nos países de missão
49. O
nosso imediato predecessor exortou os bispos a que, com espírito de colaboração
fraterna e desinteressada, provessem à assistência espiritual dos jovens
católicos vindos, de países de missão, para as suas dioceses, afim de
realizarem os seus estudos e adquirirem experiências que os coloquem em
condições de assumirem funções diretivas no seu próprio país.(48) A que perigos
intelectuais e morais estejam eles expostos numa sociedade que não é a sua e
que infelizmente, muitas vezes, não é capaz de lhes sustentar a fé e incentivar
a virtude, cada um de vós, veneráveis irmãos, perceberá, e, movido pela
consciência do dever missionário que incumbe a todos os sagrados pastores,
proverá a isso com a mais solícita caridade e pelos meios mais adequados. Não
vos será difícil descobrir esses estudantes, confiá-los a sacerdotes e leigos
particularmente dotados para esse ministério, assisti-los espiritualmente,
fazer-lhes sentir e experimentar a fragrância e os recursos da caridade cristã
que nos faz todos irmãos e solícitos um do outro. Aos tantos e tão tangíveis
auxílios que dais às missões junte-se este, que vos torna mais imediatamente
presente um mundo geograficamente distante, mas espiritualmente também vosso.
50. A
esses estudantes, depois, queremos não somente dizer todo o nosso amor, mas também
dirigir um premente, afetuoso aviso para que levem por toda parte a fronte
erguida, marcada pelo sangue de Cristo e pela unção do sagrado crisma, e para
que aproveitem a sua permanência no estrangeiro não só para a sua formação
profissional, mas também para a ampliação e o aperfeiçoamento da sua formação
religiosa. Poderão eles achar-se expostos a muitos danos, mas se acham também
na boa ocasião de tirarem muitas vantagens espirituais da sua permanência nas
nações católicas, visto que todo cristão, qualquer que seja e em qualquer parte
da terra tenha nascido, tem sempre o dever do bom exemplo e da mútua educação
espiritual.
CONCLUSÃO
51. Depois
de vos haver falado, veneráveis irmãos, sobre as necessidades atuais mais
características da Igreja nas terras de missão, não podemos deixar de exprimir
a nossa comovida gratidão a todos os que se prodigalizam pela causa da
propagação da fé até os extremos confins do mundo. Aos caros missionários do
clero secular e regular, às religiosas tão exemplarmente generosas e tão
preciosas para as várias necessidades das missões, aos leigos missionários
prontamente acorridos às fronteiras da fé, asseguramos as nossas
particularíssimas e cotidianas preces e qualquer outro auxílio que esteja em
nosso poder prestar. O sucesso da vossa obra, visível mesmo na fecundidade
espiritual das jovens comunidades cristãs, é o sinal do agrado e da bênção de
Deus, e ao mesmo tempo atestam a solércia e a sabedoria com que a S.
Congregação "de Propaganda Fide" e a S. Congregação para a Igreja
oriental cumprem os dedicados deveres que lhes são confiados.
52. A
todos os Bispos, clero e fiéis das dioceses do mundo inteiro que contribuem com
suas preces e com suas ofertas para as necessidades espirituais e materiais das
missões, dirigimos o incitamento para intensificarem ainda mais esta necessária
colaboração. Não obstante e escassez de clero que preocupa os pastores mesmo
das mais antigas dioceses, não se tenha a mínima hesitação em incentivar as
vocações missionárias e em se privar de excelentes súditos leigos para os
colocar à disposição das novas dioceses. Deste sacrifício não se tardará a
colher os frutos sobrenaturais. A emulação de generosidade que vê todos os
fiéis do mundo assiduamente empenhados nas manifestações de zelo e de tangível
caridade em vantagem das Obras que, na dependência da Sagrada Congregação
"de Propaganda Fide", encaminham os socorros provenientes de toda
parte para as destinações mais úteis e mais urgentes, aumente tanto quanto
incessantemente crescem as necessidades. A caridade solícita e concreta dos
irmãos incentivará os fiéis das jovens comunidades, e far-lhes-á sentir o calor
de um afeto sobrenatural que a graça alimenta no coração.
53.
Muitas dioceses e comunidades cristãs das terras de missão sofrem tormentos e perseguições
mesmo sangrentas; aos sagrados pastores que dão aos seus filhos espirituais o
exemplo de uma fé que não se deixa dobrar e de uma fidelidade que nunca falta
mesmo à custa do sacrifício da vida; aos féis tão duramente provados, mas tão
queridos ao Coração de Jesus Cristo, que prometeu a bem-aventurança e uma
recompensa copiosa aos que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt
5,10-12), endereçamos a nossa exortação para perseverarem na sua santa batalha,
visto que o Senhor, sempre misericordioso nos seus desígnios imperscrutáveis,
não deixará que lhes falte o socorro das graças mais preciosas e da íntima
consolação. Com os perseguidos está, em comunhão de oração e de sofrimentos,
toda a Igreja de Deus, segura na sua expectativa de vitória.
54.
Invocando com toda a alma, sobre as missões católicas, a eficaz assistência dos
seus santos patronos e santos mártires, e de modo especialíssimo a intercessão
de Maria santíssima, mãe amorosa de todos nós e rainha das missões, a cada um
de vós, veneráveis irmãos, e a todos os que de qualquer maneira colaboram na
propagação do reino de Deus, concedemos, com o maior afeto, a bênção
apostólica, que seja conciliatória e áuspice das graças do Pai Celeste que se
revelou em seu Filho Salvador do mundo e que em todos acenda e multiplique o
zelo missionário.
Dada em
Roma, junto a S. Pedro, no dia 28 de novembro de 1959, segundo ano do nosso
Pontificado.
JOÃO PP.
XXIII
Notas
1. Cf. Homilia in die Coronationis habita;
AAS 50(1958), 886.
2. Cf. La propagazione della fede.
Escritos de A.G. Roncalli, Roma,1958, p. 103ss.
3. Cf. AAS 11(1919), p. 440ss.
4. Cf. Pio XI, Carta enc. Rerun Ecclesiae;
AAS 18(1926), p. 65ss. Pio XII, Carta enc. Evangelii praecones: AAS
43(1951), p. 497ss; Fidei donum: AAS 49(1957), p. 225ss.
5. Carta
enc. Ad Petri Cathedram; cf. AAS 51(1959), p. 497ss.
6. 6Cf. AAS
11(1919), p. 440ss.
7. Carta
enc. Evangelii praecones; AAS 43(1951), p. 507.
8. Cf. Pio
XII, Mensagem radiofônica no dia de Natal; AAS 38(1946), p. 20.
9. Carta
de Pio XII ao Em. Card. Adeodato Piazza; AAS
47(1955), p. 542.
10. AAS 11(1919), p. 445.
11. Ibid.
12. Pio
XII, Exort. Apost. Menti Nostrae; AAS 42 (1950); p. 677.
13. Pio
XII, Exort. Apost. Menti Nostrae;
AAS 42 (1950), p. 686.
14. Ibid.
15. Ibid. p. 687.
16. Carta
Apost. Maximum illud: AAS 11(1919), p. 445.
17. Cf.
Pio XII, Exort. Apost. Menti Nostrae: AAS 42(1950), p. 686.
18. Carta
Apost. Maximum illud: AAS 11(1919), p. 448.
19. Carta
enc. Evangelii praecones; AAS 43(1951), p. 500.
20. Ibid.
p. 522.
21. Cf. Discurso
aos participantes no II Congresso mundial dos escritores e artistas negros:
L'Osservatore Romano,de 3 de abril de 1959; AAS 51(1959), p. 260.
22. Pio
XI, Carta enc. Rerum Ecclesiae: AAS 18(1926), p. 77.
23.Carta
enc. Fidei donum; AAS 49(1957), p. 233.
24. Ibid.
25. Ibid., p. 231.
26. Ibid., p. 238.
27. Hom. II in II Cor.; PG, 61,
398.
28.In Ep. Ioan. ad Parthos, tr 10, c. 5; PL,
35, 2060.
29.Carta Apost. Maximum illud; AAS
11(1919), p. 446.
30. Ibid. p. 445.
31.Carta enc. Evangelii praecones; AAS
43(1951), p. 510ss.
32. Cf. Pio XII, Carta enc. Mystici
Corporis: AAS 35(1943), p. 200-201; Pio XI, Carta enc. Rerum
Ecclesiae: AAS 18(1926), p. 78.
33. S. Tomás. Summa Theol. II-II, q. 3, a. 2,
ad 2.
34. S. João Chris. Hom. X in ITm.; Migne, PG
LXII, 551.
35. F.X.
Funk, Patres Apostolici, vol. I, p. 201.
36. Carta
enc. Mystici Corporis: AAS 35(1943), p. 200.
37. Carta
enc. Fidei donum: AAS 49(1957), p. 237.
38. Pio
XII, Carta enc. Mystici Corporis: AAS 35(1943), p. 201.
39. Cf.
Pio XI, Carta enc. Rerum Ecclesiae: AAS 18(1926), p. 78.
40. Cf.
Pio XII, Sermão do ano 1957 àqueles que participaram no II Congresso para o
apostolado dos leigos católicos de todo o mundo: AAS 49(1957), p.
937.
41. Cf.
Carta enc. Ad Petri Cathedram: AAS 51(1959), p. 523.
42. Ibid.
43. Carta
enc. Evangelii praecones: AAS 43(1951), p. 513.
44. Cf.
Pio XII, Ep. de Actione Catholica, do dia 11 de outubro de 1946; AAS
38(1946), p. 422; Discursos e Radiomensagens de S.S. Pio XII, VIII, p.
468.
45. Carta enc. Ad Petri Cathedram: AAS
51(1959), p. 524; EE 7/62.
46. Pio
XII, Carta enc. Fidei donum; AAS 49(1957), p. 229.
47. Ep.
288; PG, 32, 855.
48. Cf.
Carta enc. Fidei donum: AAS 49(1957), p. 245.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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