CARTA ENCÍCLICA DO PAPA JOÃO XXIII
PAENITENTIAM AGERE
CONVITE À PENITÊNCIA PARA O
BOM ÊXITO DO CONCÍLIO
Aos
veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos, bispos
e outros
ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica.
Veneráveis
irmãos: saúde e bênção apostólica
1. Fazer
penitência pelos próprios pecados é, para o homem pecador, segundo o explícito
ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição, não apenas para
solicitar o perdão mas ainda para chegar à salvação eterna. Evidente se torna,
pois, quão justificada seja a atitude da Igreja católica, dispensadora dos
tesouros da divina Redenção, a qual sempre considerou a penitência como
condição indispensável para o aperfeiçoamento da vida de seus filhos e para seu
melhor futuro.
2. Por
este motivo, na constituição apostólica de convocação do concílio ecumênico
Vaticano II, quisemos dirigir aos fiéis o convite para dignamente se prepararem
para o grande acontecimento não só com a oração e com a prática ordinária das
virtudes cristãs, mas também com a mortificação voluntária. (1)
3.
Aproximando-se a abertura do concílio, bem natural se nos afigura renovarmos
com maior insistência a mesma exortação, visto que, embora estando presente na
sua Igreja "todos os dias até à consumação dos séculos" (Mt 28,20), o
Senhor tornar-se-á então ainda mais próximo das mentes e dos corações dos
homens através da pessoa dos seus representantes, segundo a sua própria
palavra: "Quem vos escuta a mim escuta" (Lc 10,16).
4. Na
realidade, sendo o concílio ecumênico a reunião dos sucessores dos apóstolos, a
quem o Salvador divino confiou o mandato de ensinar todas as gentes,
ensinando-as a observarem todas as coisas que ele mandara (cf. Mt 28,19-20),
quer ele significar uma mais alta afirmação dos direitos divinos sobre a
humanidade redimida pelo sangue de Cristo, e dos deveres que ligam os homens ao
seu Deus e Salvador.
Apelos à
penitência no Antigo Testamento
5. Ora, se
interrogarmos os livros do Antigo e do Novo Testamento, vemos que todo gesto de
mais solene encontro entre Deus e a humanidade - para nos exprimirmos em
linguagem humana - sempre foi precedido de um mais persuasivo apelo à oração e
à penitência. Com efeito, Moisés não entrega ao povo hebreu as tábuas da lei
divina senão depois de haver ele feito penitência pelos seus pecados de
idolatria e de ingratidão (cf. Ex 32,6-35; lCor 10,7). Os profetas exortam
incessantemente o povo de Israel a implorar Deus com coração contrito, a fim de
cooperar na realização do desígnio da providência que acompanha toda a história
do povo eleito. Comovente é entre todas, a voz do profeta Joel, que ressoa na
sagrada liturgia quaresmal: "Agora, portanto, oráculo de Iahweh: retornai
a mim de todo vosso coração, com jejum, com lágrimas e com lamentação. Rasgai
os vossos corações, e não as vossas roupas. Entre o pórtico e o altar chorem os
sacerdotes ministros de Iahweh e digam: Iahweh, tem piedade de teu povo! Não
entregues ao opróbrio a tua herança, para que as nações zombem deles!" (Jl
2,1213.17).
A
penitência no ensino de Jesus Cristo e dos Apóstolos
6. Antes
que se atenuarem, tais convites à penitência fazem-se mais solenes com a vinda
do Filho de Deus à terra. Eis, com efeito, que João Batista, o Precursor do
Senhor, dá início à sua pregação com o grito: "Fazei penitência, pois está
próximo o Reino dos Céus" (Mt 3,1). E o próprio Jesus não inicia o seu
ministério com a imediata revelação das sublimes verdades da fé, e sim com o
convite a purificar a mente e o coração de tudo o que pudesse impedir o
frutuoso acolhimento da boa-nova: "A partir desse momento começou Jesus a
pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus"
(Mt 4,17). Ainda mais do que os profetas, o Salvador exige dos seus ouvintes à
mudança total do espírito, no reconhecimento sincero e integral dos direitos de
Deus: "Eis que o Reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17,21); a
penitência é força contra as forças do mal; ensina-nos o próprio Jesus Cristo:
"O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele "
(Mt 11,12).
7. Igual
apelo ressoa na pregação dos apóstolos. Efetivamente, s. Pedro assim fala às
turbas depois de pentecostes, no intuito de as dispor para também receberem o
sacramento da regeneração em Cristo e os dons do Espírito Santo:
"Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo,
para a remissão dos vossos pecados. Então recebereis o dom do Espírito
Santo" (At 2,38). E o Apóstolo das Gentes adverte os Romanos de que o
Reino de Deus não consiste na prepotência e nos desenfreados gozos dos
sentidos, mas sim no triunfo da justiça e na paz interior: "Portanto o
Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no
Espírito Santo" (Rm 14,17-18).
8. Não se
deve crer que o convite à penitência seja dirigido somente àqueles que pela
primeira vez devem entrar a fazer parte do Reino de Deus. Na realidade, todos
os cristãos têm o dever e a necessidade de fazer violência a si mesmos, ou para
repelir os seus inimigos espirituais, ou para conservar a inocência batismal,
ou para readquirir a vida da graça perdida com a transgressão dos preceitos
divinos. De fato, se é verdade que todos os que se tornaram membros da Igreja
pelo santo batismo participam da beleza que Cristo a ela conferiu, segundo as
palavras de s. Paulo: "Cristo amou a Igreja, e se entregou por ela, a fim
de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra para apresentar
a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas
santa e irrepreensível (Ef 5, 26-27); é também verdade que todos os que com
graves culpas mancharam a cândida veste batismal devem temer grandemente os
castigos de Deus se não procurarem tornar a fazer-se cândidos e resplendentes
no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,14) pelo sacramento da penitência e pela prática
das virtudes cristãs. Também a esses, portanto, se endereça o severo aviso do
apóstolo s. Paulo: "Quem transgride a lei de Moisés, é condenado a morte
sem piedade, com base em duas ou três testemunhas. Podeis, então, imaginar que
castigo mais severo ainda merecerá aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e
profanou o sangue da aliança no qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da
graça?... Quão terrível é cair nas mãos do Deus vivo! " (Hb 10,28-30).
O
pensamento e a praxe da Igreja
9.
Veneráveis irmãos, a Igreja, esposa dileta do Salvador divino, sempre
permaneceu santa e imaculada em si mesma, pela fé que a ilumina, pelos
sacramentos que a santificam, pelas leis que a governam, pelos numerosos
membros que a embelezam com o adorno de virtudes heróicas. Mas há nela também
filhos esquecidos da sua vocação e eleição, os quais em si mesmos deturpam a
beleza celestial, e não refletem em si mesmos o semblante divino de Jesus
Cristo.
10. Pois
bem: a todos, mais do que palavras de reprovação e de ameaça, apraz-nos dirigir
uma paternal exortação a terem presente este consolador ensinamento do concílio
de dento, eco fidelíssimo da doutrina católica: "Revestidos, com efeito,
de Cristo no batismo (Gl 3,27), por meio dele nos tornamos uma criatura
inteiramente nova, obtendo a remissão plena e integral de todos os pecados; a
tal novidade e integridade não podemos, todavia, chegar por meio do sacramento
da penitência sem nossa grande dor e trabalho, sendo isto reclamado pela
justiça divina, de modo que a penitência foi justamente chamada pelos santos
Padres um certo batismo laborioso".(2)
O exemplo
nos concílios precedentes
11. O
apelo à penitência, portanto, como instrumento de purificação e de renovação
espiritual, não deve ressoar qual voz nova ao ouvido do cristão, mas como
convite do próprio Jesus, convite que com freqüência tem sido repetido pela
Igreja através da voz da sagrada liturgia, dos santos Padres e dos concílios.
Assim, há séculos que a Igreja suplica a Deus no tempo de quaresma: "a
nossa alma que se mortifica pela penitência corporal viva junto de ti com o
desejo de possuir-te" (3) e também: "Fazei que mitigando os afetos
terrenos compreendamos mais facilmente as coisas celestes".(4)
12. Não
há, portanto, que admirar se os nossos predecessores, ao prepararem a
celebração dos concílios ecumênicos, preocuparam-se com exortar os fiéis à
penitência salutar. Baste-nos lembrar alguns exemplos. Inocêncio III, ao se
aproximar o concílio Lateranense IV, exortava os filhos da Igreja com estas
palavras: "À oração junte-se o jejum e a esmola, a fim de que, por meio
destas duas asas, a nossa oração mais fácil e mais celeremente voe aos ouvidos
de Deus misericordiosíssimo, e ele nos atenda benevolamente no momento
oportuno".(5) Gregório X, com uma carta endereçada a todos os seus
prelados e capelães, dispôs que a solene abertura do II concílio ecumênico de
Lião fosse precedida de três dias de jejum.(6) Pio IX, enfim, exortou todos os
féis a que, na purificação da alma de toda mancha de culpa ou reato de pena,
dignamente e em perfeita alegria se preparassem para a celebração do concílio
ecumênico Vaticano: "Visto ser coisa manifesta que as orações dos homens
são mais aceitas a Deus se estes a ele se volvem com coração limpo, isto é, com
a alma purificada de toda culpa".(7)
Oportunas
sugestões em preparação ao concílio ecumênico Vaticano II
13.
Seguindo o exemplo dos nossos predecessores, também nós, veneráveis irmãos,
ardentemente desejamos convidar todo o mundo católico, clero e laicato, a
preparar-se para a grande celebração conciliar com a oração, com as boas obras
e com a penitência. E, já que a oração pública é o meio mais eficaz para obter
as graças divinas, segundo a própria promessa de Cristo: "Onde dois ou
três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mt 18,20),
mister se torna portanto que os fiéis todos sejam "um só coração e uma só
alma" (At 4,32) como nos primeiros tempos da Igreja, e, com a oração e com
a penitência, impetrem de Deus que este extraordinário acontecimento produza
aqueles frutos salutares que estão na expectativa de todos; isto é, um
reavivamento tal da fé católica, um tal reflorescimento de caridade e
incremento dos costumes cristãos, que até mesmo nos irmãos separados despertem
um vivo e eficaz desejo de unidade sincera e operosa, num único redil e sob um
só pastor (cf. Jo 10,16).
14. Para
este fim, exortamo-vos, ó veneráveis irmãos, a que, na imediata vizinhança do
mesmo concílio, em cada paróquia das dioceses a cada um de vós confiadas,
promovais uma solene novena em honra do Espírito Santo, para invocar sobre os
padres do concílio a abundância das luzes celestes e das graças divinas. A este
respeito, queremos pôr à disposição dos fiéis os bens que fazem o tesouro
espiritual da Igreja, e, por isto, a todos os que tomarem parte na supradita
novena será concedida a indulgência plenária, a ser lucrada nas condições
habituais.
15.
Oportuno será também promover nas diversas dioceses uma função penitencial
propiciatória. Esta função deverá ser um fervoroso convite, acompanhado com
particular curso de pregação, a obras de misericórdia e de penitência, com as
quais procurem todos os féis tornar propício Deus onipotente e implorar dele a
renovação do espírito cristão, que é um dos escopos precípuos do concílio. Com
efeito, justamente observava nosso predecessor Pio XI, de venerada memória:
"A oração e a penitência são os dois poderosos meios postos por Deus à
nossa disposição em nossa época para reconduzir a ele a mísera humanidade
errante sem guia aqui e acolá; são elas que tiram e reparam a causa primeira e
principal de toda perturbação, isto é, a rebelião do homem a Deus".(8)
Necessidade
da penitência interna e externa
16. Antes
de tudo é necessária a penitência interior, isto é, o arrependimento e a
purificação dos próprios pecados, o que especialmente se obtém com uma boa
confissão e comunhão, e com a assistência ao sacrifício eucarístico. A este
gênero de penitência deverão ser convidados todos os fiéis durante a novena ao
Espírito Santo. Vãs seriam, com efeito, as obras exteriores de penitência se
não fossem acompanhadas da limpeza interior da alma e do sincero arrependimento
dos próprios pecados. Neste sentido deve-se entender o severo aviso de Jesus:
"Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis" (Lc 13,5).
Afaste Deus este perigo de todos aqueles que nos foram confiados!*
17. Além
disto, devem os fiéis ser convidados também à penitência exterior, quer para
sujeitarem o corpo ao comando da reta razão e da fé, quer para expiarem as suas
culpas e as dos outros. Com efeito, o próprio s. Paulo, que subira ao terceiro
céu e atingira as culminâncias da santidade, não hesita em armar de si mesmo:
"Mortifico o meu corpo e mantenho-o em servidão" (1Cor 9,27); e
alhures adverte: "Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com suas
paixões e seus desejos" (Gl 5,24). E desta maneira santoAgostinho insiste
nessas mesmas recomendações: "Não basta melhorar a própria conduta e
deixar de fazer o mal, se também não se dá satisfação a Deus pelas culpas
cometidas, por meio da dor da penitência, dos gemidos da humildade, do
sacrifício do coração contrito, juntamente com as esmolas". (9)
18. A
primeira penitência exterior que todos devemos fazer é a de, com ânimo
resignado e confiante, aceitarmos de Deus todas as dores e sofrimentos que se
nos deparam na vida, e tudo o que importa fadiga e incômodo no exato
cumprimento das obrigações do nosso estado, no nosso trabalho cotidiano e no
exercício das virtudes cristãs. Esta penitência necessária não somente vale
para nos purificar, para nos tornar propício o Senhor e para impetrar o seu
auxílio para o feliz e frutuoso êxito do próximo concilio ecumênico, como
também torna mais leves e quase suaves as nossas penas, pondo diante de nós a
esperança do prêmio eterno: "Os sofrimentos do tempo presente nâo têm proporção
com a glória que deverá revelar-se em nós" (Rm 8,18).
Cooperar
na divina redenção
19. Além
das penitências que necessariamente temos de enfrentar pelas dores inevitáveis
desta vida mortal, mister se faz que os cristãos sejam tão generosos a ponto de
também oferecerem a Deus mortificações voluntárias, à imitação do nosso divino
Redentor, que, segundo a expressão do príncipe dos apóstolos, "morreu uma
vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto
na carne, foi vivificado no espírito" (1Pd 3,18). "Pois que Cristo
sofreu na carne, deveis também vós munir-vos desta convicção" (1Pd 4,1).
Sirvam nisto de exemplo e de incitamento também os santos da Igreja, cujas
mortificações infligidas ao seu corpo, não raro inocentíssimo, enchem-nos de
admiração e quase nos assustam. Ante esses campeões da santidade, cristã, como
não oferecer ao Senhor alguma privação ou pena voluntária da parte também dos
fiéis, que talvez tantas culpas tenham a expiar? Elas são tanto mais agradáveis
a Deus quanto não vêm da enfermidade natural da nossa carne e do nosso
espírito, mas espontânea e generosamente são oferecidas ao Senhor em holocausto
de suavidade.
20. Sabido
é, enfim, que o concílio ecumênico tende a incrementar de nossa parte a obra da
redenção, que nosso Senhor Jesus Cristo, "oferecendo-se... porque ele
mesmo o quis" (Is 53,7), veio trazer entre os homens não só com a
revelação da sua celeste doutrina, mas também com o derramamento voluntário do
seu sangue precioso. Ora, podendo cada um de nós armar com s. Paulo apóstolo:
"Eu me regozijo nos meus sofrimentos... e completo, na minha carne, o que
falta das tribulações de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja" (Cl
1,24), também nós devemos portanto alegrar-nos de poder oferecer a Deus os nossos
sofrimentos "para a edificação do corpo de Cristo" (Ef 4,12) que é a
Igreja. Antes, devemos sentir-nos imensamente alegres e honrados de sermos
chamados a esta participação redentora da pobre humanidade, sobejas vezes
desviada do reto caminho da verdade e da virtude.
21.
Infelizmente muitos, em vez da mortificação e da renegação de si impostas por
Jesus Cristo a todos os seus seguidores com estas palavras: "Se alguém
quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e
siga-me" (Lc 9,23), antes procuram desenfreadamente os prazeres terrenos,
e deturpam e debilitam as energias mais nobres do espírito. Contra este modo de
viver desregrado, que não raro desencadeia as paixões mais baixas e leva a
grave perigo da salvação eterna, é preciso que os cristãos reajam com a
fortaleza dos mártires e dos santos que sempre ilustraram a Igreja católica.
Desta forma todos poderão contribuir, segundo o seu estado particular, para o
melhor êxito do concílio ecumênico Vaticano II, que justamente deve conduzir a
um reflorescimento da vida cristã.
Convites
conclusivos
22. Depois
destas paternais exortações, confiamos, veneráveis irmãos, que não somente as
acolhereis com entusiasmo em vós mesmos, mas também estimulareis nossos filhos
do clero e do laicato espalhados pelo mundo todo a acolhê-las. Com efeito - se,
como está na expectativa de todos, o próximo concílio ecumênico deverá
acarretar um grandíssimo incremento da religião católica; se nele ressoará de
modo ainda mais solene a "palavra da reino" de que se fala na
parábola do semeador (Mt 13,19); se queremos que por meio dele "o Reino de
Deus" se consolide e se estenda sempre mais no mundo - o bom êxito de tudo
isso dependerá, em grande parte, das disposições daqueles a quem serão
dirigidos os seus ensinamentos de verdade, de virtude, de culto público e
privado para com Deus, de disciplina, de apostolado missionário.
23. Por
isto, veneráveis irmãos, aplicai-vos sem demora, por todos os meios ao vosso
alcance, a fim de que os cristãos confiados aos vossos cuidados purifiquem seu
espírito pela penitência e se inflamem em maior ardor de piedade; de modo que a
"boa semente", que naqueles dias será mais larga e abundantemente
esparzida, não seja por eles dispersada nem sufocada, mas por todos seja
acolhida com ânimo bem disposto e perseverante, e desse grande acontecimento
tirem eles copiosos e duradouros frutos para a sua eterna salvação.
24. Por
último, pensamos que ao próximo concílio possam justamente aplicar-se as
palavras do Apóstolo: "Eis agora o tempo aceitável, eis agora o dia da
salvação" (2Cor 6,2). Corresponde, porém, aos desígnios da Providência de
Deus que os seus dons sejam distribuídos segundo as disposições de ânimo de
cada um. Portanto, aqueles que querem ser filialmente dóceis a nós, que de longo
tempo nos esforçamos por preparar os corações dos cristãos para esse grandioso
evento, diligentemente prestem atenção também a este nosso último convite.
Assim, seguindo o nosso e o vosso exemplo, veneráveis irmãos, os féis - e em
primeiro lugar os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, as crianças, os
doentes, os que sofrem - elevem súplicas e façam obras de penitência com o fim
de obterem de Deus para a sua Igreja aquela abundância de luzes e de auxílios
sobrenaturais de que naqueles dias terá ela especial necessidade. Com efeito,
como podemos pensar que Deus não se mova à largueza de graças celestes quando
recebe de seus filhos tal abundância de dons que respiram fervor de piedade e
perfume de mirra?
25. Além
disso, todo o povo cristão, em obséquio à nossa exortação, dedicando-se mais
intensamente à oração e à prática da mortificação, oferecerá um admirável e
comovedor espetáculo desse espírito de fé que deve animar indistintamente todo
filho da Igreja. Isto não deixará também de abalar salutarmente o ânimo
daqueles que, excessivamente preocupados e distraídos com as coisas terrenas,
deixaram-se levar à negligência dos seus deveres religiosos.
26. Se,
como está nos nossos desejos, tudo isto acontecer, e vós puderdes deslocar-vos
das vossas dioceses rumo a Roma, para a celebração do concílio, trazendo
convosco um tão rico tesouro de bens espirituais, legitimamente poder-se-á
esperar que surja uma nova e mais feliz era para a Igreja católica.
Animados
desta esperança, de todo coração concedemos a vós, veneráveis irmãos, ao clero
e ao povo comado aos vossos cuidados, a bênção apostólica, penhor dos celestes
favores e testemunho da nossa benevolência paternal.
Dado em
Roma, junto a s. Pedro, a 1° de julho de 1962, festa do Preciosíssimo Sangue de
N. S. J. C., quarto ano do nosso Pontificado.
JOÃO PP.
XXIII
Notas
1. Cf.
Constituição Apostólica Humanae salutis; AAS 54(1962), p. 12; ver neste
volume às pp. 251-259.
2. Conc.
Trid., Sess. 14, Doctrina de Sacramento Paenitentiae, cap. 2: COD 704;
cf. S. Greg. Naz., Orat. 39 in sancta lumina, n.17: PG 36,
355-356; S. João Dam., De fide orthod. 4, 9: PG 94,11.24.
3. Oração
da Fer. III depois do I Dom. da Quaresma.
4. Oração
da Fer. IV depois do IV Dom. da Quaresma.
5. Epist. ad concil. Later IV spectantes,
Epist. 28 ad fideles per Monguntinas provincias constitutos: Mansi,
Sacrorum Conciliorum... amplissima Collectio. Paris e Leipzig,1903, vol.
22, col. 959.
6. Cf.
Mansi, op. mem., vol. 24, col. 62.
7. Cf. Act. et decr. Sacr. Concil. Recent.:
Coll. Lac. t. VII, Friburgi Brisg. 1890.
8. Carta
Enc. Caritate Christi compulsi: AAS 24(1932), p.191.
* Esta
frase não tem correspondente no texto latino.
9. Serm.
351, 5,12: PL 39,1549.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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