Sobre a oração pelos mortos
Didaquè (ou
doutrina dos 12 Apóstolos):
“Ao fazerdes as vossas
comemorações, reuni-vos, lede as Sagradas Escrituras... tanto em vossas
assembléias quanto nos cemitérios. O pão duro que o pão tiver purificado e que
a invocação tiver santificado, oferecei-o orando pelos mortos”.
Tertuliano
(†220) – Bispo de Cartago:
“A esposa roga pela alma
de seu esposo e pede para ele refrigério, e que volte a reunir-se com ele na
ressurreição; oferece sufrágio todos os dias aniversários de sua morte” (De
monogamia, 10). “... é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para
que sejam perdoados de seus pecados” (2 Mac 12,46). Tertuliano atesta o uso de
sufrágios na liturgia oficial de Cartago, que era um dos principais centros do
cristianismo no século III: “Durante a morte e o sepultamento de um fiel, este
fora beneficiado com a oração do sacerdote da Igreja”. ( De anima 51; PR,
ibidem)
São Cipriano (†258),
bispo de Cartago, refere-se à oferta do sacrifício eucarístico em sufrágio dos
defuntos como costume recebido da herança dos bispos seus antecessores (cf.
epist. 1,2). Nas suas epístolas é comum encontrar a expressão: “oferecer o
sacrifício por alguém ou por ocasião dos funerais de alguém”. (Revista PR, 264,
1982, pag. 50 e 51; PR ibidem) Falando da vida de Cartago, no século III,
afirma Vacandart: “Podemos de certo modo conceber o que terá sido a vida religiosa
de Cartago em meados do século III. Aí vemos o clero e os fiéis a cercar o
altar... ouvimos os nomes dos defuntos lidos pelo diácono e o pedido de que o
bispo ore por esses fiéis falecidos; vemos os cristãos... voltar para casa
reconfortados pela mensagem de que o irmão falecido repousa na unidade da
Igreja e na paz do Cristo.” (Revue de Clergé Français 1907 t. Lil 151; PR,
ibidem)
S. Gregório
Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja:
“No que concerne a certas
faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador,
segundo o que afirma Aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver
cometido uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem no
presente século nem no século futuro (Mt 12,31). Desta afirmação podemos
deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que
outras, no século futuro”. (dial. 4, 39)
S. João
Crisóstomo (349-407), bispo e doutor da Igreja:
“Levemos-lhe socorro e
celebremos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelos
sacrifícios de seu pai (Jó 1,5), porque duvidar que as nossas oferendas em
favor dos mortos lhes leva alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que
partiram e em oferecer as nossas orações por eles” (Hom. 1Cor 41,15). “Os Apóstolos
instituíram a oração pelos mortos e esta lhes presta grande auxílio e real
utilidade” (In Philipp. III 4, PG 62, 204).
São Cirilo,
bispo de Jerusalém (†386):
“Enfim, também rezamos
pelos santos padres e bispos e defuntos e por todos em geral que entre nós
viveram; crendo que este será o maior auxílio para aquelas almas, por quem se
reza, enquanto jaz diante de nós a santa e tremenda vítima”(Catequeses.
Mistagógicas. 5, 9, 10, Ed. Vozes, 1977, pg. 38). “Da mesma forma, rezando nós
a Deus pelos defuntos, ainda que pecadores, não lhe tecemos uma coroa, mas
apresentamos Cristo morto pelos nossos pecados, procurando merecer e alcançar
propiação junto a Deus clemente, tanto por eles como por nós mesmos.”(idem) “Em
seguida [na oração eucarística], mencionamos os que já dormiram: primeiro os
patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, para que Deus em virtude de suas
preces e intercessões, receba nossa oração. Depois, rezamos pelos nossos santos
pais e bispos falecidos, e em geral por todos os que já dormiram antes de nós.
Acreditamos que esta oração aproveitará sumamente às almas pelas quais é feita,
enquanto repousa sobre o altar a santa e temível vítima. Quero, neste ponto,
convencer-vos por um exemplo. Sei que muitos dizem: “Que aproveita à alma que
passou deste mundo, em pecado ou sem ele, se a recordo na oferenda?” Se um rei,
porventura, banir cidadãos subversivos, mas depois os súditos fiéis tecem uma
coroa e a oferecem ao rei pelos que estão cumprindo pena, não é certo que lhes
concederá o perdão do castigo? Da mesma forma, nós, oferecendo a Deus preces
pelos mortos, sejam ou não pecadores, oferecemos, não coroa tecida por nossas
mãos, mas Cristo crucificado por nossos pecados; assim, tornamos propício o
Deus amigo dos homens aos pecados nossos e deles”. (Catequeses Mistagógicas)
Santo
Epifânio (†403), bispo da ilha de Chipre.
“Sobre o rito de ler os
nomes dos defuntos (no sacrifício) perguntamos: que há de mais nisso? Que há de
mais conveniente, de mais proveitoso e mais admirável que todos os presentes
creiam viverem ainda os defuntos, não deixarem de existir, e sim existirem ao
lado do Senhor? Com isso se professa uma doutrina piedosa: os que oram por seus
irmãos defuntos abrigam a esperança (de que vivem), como se apenas casualmente
estivessem longe. E sua oração ajuda aos defuntos, mesmo se por elas não fiquem
apagadas todas as dívidas... A Igreja deve guardar este costume, recebido como
tradição dos Pais. Pois quem haveria de suprimir o mandato da mãe ou a lei do
pai? Conforme o que diz Salomão: “tu, filho meu, escuta as correções de teu
pai, e não rejeites as advertências de tua mãe”. Com isto se ensina que o Pai,
o Deus unigênito e o Espírito Santo, tanto por escrito como sem escritura, nos
deram doutrinas, e que nossa Mãe, a Igreja, nos legou preceitos, os quais são
indissolúveis e definitivos”. ( Haer. 75, c. 8: PG 42, 514s) Nas Atas de Santa
Perpétua de Cartago, do início do século III, mártir, na África, ela aparece
orando por seu irmão Dinócrate, o qual morrera jovem: pedia que ele fosse transferido
do lugar de padecimento em que se achava, para um “lugar de refrigério, de
saciedade e de alegria”. Finalmente, viu Dinócrate, de coração puro, revestido
de bela túnica, a gozar de refrigério, saciedade e alegria, como uma criancinha
que sai da água e se dispõe a brincar. ( Passio, S. Perpétua VIIs; PR, idem) Os
“Cânones de Santo Hipólito (160-235)”, que se referem à Liturgia do século III,
contém uma rubrica sobre os mortos... “... caso se faça memória em favor
daqueles que faleceram...” (Canones Hippoliti, em Monumenta Ecclesiae
Liturgica; PR, 264,1982) Serapião de Thmuis (século IV), bispo, no Egito,
compôs uma coletânea litúrgica, onde se pode ver a intercessão pelos irmãos
falecidos: “Por todos os defuntos dos quais fazemos comemoração, assim oramos:
‘Santifica essas almas, pois Tu as conheces todas; santifica todas aquelas que
dormem no Senhor; coloca-as em meio às santas Potestades (anjos); dá-lhes lugar
e permanência em teu reino.” (Journal of Theological Studies t. 1, p. 106; PR ,
264,1982) “Nós te suplicamos pelo repouso da alma de teu servo (ou de tua
serva) N. ; dá paz a seu espírito em lugar verdejante e aprazível, e ressuscita
o seu corpo no dia que determinaste”. (PR, 264,1982) As Constituições
Apostólicas, do fim do século IV, redigidas com base em documentos bem mais
antigos, no livro VIII da coleção, diz: “Oremos pelo repouso de N. , afim de
que o Deus bom, recebendo a sua alma, lhe perdoe todas as faltas voluntárias e
, por sua misericórdia, lhe dê o consórcio das almas santas.” Em todas as
missas, em qualquer das formas da Oração Eucarística, a Igreja ora pelas almas:
“Lembrai-vos também dos que morreram na paz do vosso Cristo e de todos os
mortos dos quais só vós conheceis a fé”. ( Oração Euc. IV) “Lembrai-vos também
dos nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos
os que partiram desta vida: acolhei-os junto a vós na luz da vossa face.”(Or.
Euc. II) “Lembrai-vos dos nossos irmãos e irmãs ... que adormeceram na paz do
vosso Cristo, e de todos os falecidos, cuja fé só vós conhecestes: acolhei-os
na luz da vossa face e concedei-lhes, no dia da ressurreição, a plenitude da
vida.” (Or. Euc. VI-A) “Ó Pai, sabemos que sempre vos lembrais de todos. Por
isso, pedimos por aqueles que nós amamos... e por todos os que morreram em
vossa paz.”(Or. Euc. IX - crianças 1) “A todos os que chamastes para a outra
vida na vossa amizade, e aos marcados com o sinal da fé, abrindo os vossos
braços, acolhei-os. Que vivam para sempre bem felizes no reino que para todos
preparastes.” (Or. Euc. V)
Catecismo
da Igreja Católica:
“Reconhecendo cabalmente
esta comunhão de todo o corpo místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre,
desde os tempos primevos da religião cristã, venerou com grande piedade a
memória dos defuntos...”(CIC, § 958) “A nossa oração por eles [no Purgatório]
pode não somente ajudá-los, mas também torna eficaz a sua intercessão por nós”.
(CIC, § 958)
Ensinamentos
do Papa João Paulo II
“... Igreja do Céu, Igreja da Terra e Igreja do Purgatório estão misteriosamente unidas nesta cooperação com Cristo para reconciliar o mundo com Deus.”(Reconciliatio et poenitentia, 12)
“... é inegável a
dimensão social deste sacramento [a confissão], no qual é toda a Igreja -
militante (na terra), a padecente (no Purgatório), e a triunfante ( no Céu) -
que intervém em auxílio do penitente e o acollhe de novo em seu seio, tanto
mais que toda a Igreja fora ofendida e ferida pelo seu pecado”. (RP, 31, IV)
“Numa misteriosa troca de dons, eles [no purgatório] intercedem por nós e nós oferecemos
por eles a nossa oração de sufrágio. “ ( LR de 08/11/92, p. 11)
“... os vínculos de amor
que unem pais e filhos, esposas e esposos, irmãos e irmãs, assim como os
ligames de verdadeira amizade entre as pessoas, não se perdem nem terminam com
o indiscutível evento da morte. Os nossos defuntos continuam a viver entre nós,
não só porque os seus restos mortais repousam no cemitério e a sua recordação
faz parte da nossa existência, mas sobretudo porque as suas almas intercedem
por nós junto de Deus”. (02/11/94) “A tradição da Igreja exortou sempre a rezar
pelos mortos. O fundamento da oração de sufrágio encontra-se na comunhão do
Corpo Místico... Por conseguinte, recomenda a visita aos cemitérios, o adorno
dos sepulcros e o sufrágio, como testemunho de esperança confiante, apesar dos
sofrimentos pela separação dos entes queridos”(LR, n. 45, de 10/11/91).
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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