EXORTAÇÃO
APOSTÓLICA DO PAPA PIO XII
MENTI
NOSTRAE
AO CLERO
DO MUNDO CATÓLICO
SOBRE A
SANTIDADE DA VIDA SACERDOTAL
A todo o clero,
em paz e comunhão com a Sé
Apostólica
INTRODUÇÃO
Vozes que não se perdem
1. Em nosso espírito repercute
sempre a palavra do divino Redentor, dirigida a Pedro: "Simão, filho de
João, amas-me mais do que estes?... Apascenta os meus cordeiros, apascenta as
minhas ovelhas" (Jo 21,15.17), e a do mesmo príncipe dos apóstolos, que
exorta os bispos e sacerdotes do seu tempo: "Guiai o rebanho de Deus, que
está entre vós, tende cuidado dele, tornando-vos sinceramente exemplares do
rebanho" (1Pd 5,2.3).
A principal necessidade do
nosso tempo
2. Meditando atentamente essas
palavras, consideramos como ofício precípuo do nosso supremo ministério o
esforçarmo-nos por que se torne cada vez mais eficaz o trabalho dos sagrados
pastores e dos sacerdotes, que devem guiar o povo cristão para que evite o mal,
vença os perigos e alcance a santidade. É essa, realmente, a principal
necessidade do nosso tempo, em que os povos, em conseqüência da recente e
tremenda guerra, não somente se vêem assoberbados por graves dificuldades
materiais, mas estão também espiritualmente perturbados, enquanto os inimigos
do nome cristão, que as condições em que se encontra a sociedade tornaram mais
insolentes, com ódio satânico e insídias sutis se esforçam por afastar os
homens de Deus e do seu Cristo.
Paternal solicitude pelos
sacerdotes
3. A necessidade de uma
restauração cristã, que todos os bons reclamam, impele-nos a voltar o nosso
pensamento e o nosso afeto de modo especial para os sacerdotes de todo o mundo,
porque sabemos que é sobretudo a humilde, vigilante e fervorosa ação destes,
que vivem no meio do povo e conhecem suas dificuldades, aflições e angústias espirituais
e materiais, que pode renovar, com os preceitos evangélicos, os costumes de
todos e estabelecer na terra o reino de Jesus Cristo, "reino de justiça,
de amor e de paz".(1)
4. De modo algum, porém, será
possível que o ministério sacerdotal consiga plenamente seu fim, de forma a
corresponder adequadamente às necessidades do nosso tempo, se os sacerdotes não
brilham no meio do povo por insigne santidade, como dignos "ministros de
Cristo", e fiéis "dispenseiros dos mistérios de Deus" (1Cor
4,1), eficazes "auxiliares de Deus" (1Cor 3,9), preparados para toda
boa obra (2Tm 3,17).
Manifestação de
reconhecimento
5. Julgamos, por isso, que de
nenhum modo podemos melhor manifestar o nosso reconhecimento aos sacerdotes do
mundo inteiro, os quais nos deram testemunho do seu amor elevando preces a Deus
por motivo do qüinquagésimo aniversário do nosso sacerdócio, do que endereçando
a todo o clero uma paternal exortação à santidade, sem a qual o ministério a
ele confiado não poderá ser fecundo. O ano santo, que anunciamos com a
esperança de um geral saneamento dos costumes segundo os ensinamentos do
evangelho, desejamos que traga, como primeiro fruto, que aqueles que são os
guias do povo cristão cuidem com o maior empenho da própria santificação,
porque assim estará assegurada a renovação dos povos no espírito de Jesus
Cristo.
6. Deve-se, no entanto, recordar
que, se as crescentes necessidades da sociedade cristã exigem hoje com mais
premência a perfeição interna dos sacerdotes, estes, pela mesma natureza íntima
do altíssimo ministério que Deus lhes confiou, já estão obrigados a procurar,
sempre e em toda parte, indefessamente, a própria santificação.
O grande dom do sacerdócio
7. Como têm ensinado os nossos
predecessores, e particularmente Pio X (2) e Pio XI, (3) e como nós mesmos
advertimos na Carta Encíclica Mystici Corporis (4) e na Mediator Dei,
(5) o sacerdócio é verdadeiramente o grande dom do divino Redentor, o qual,
para tornar perene a obra da redenção do gênero humano por ele consumada sobre
a cruz, transmitiu os seus poderes à Igreja, que tornou partícipe do seu único
e eterno sacerdócio. O sacerdote é um "alter Christus", porque é
assinalado com o caráter indelével que o torna semelhante ao Salvador; o
sacerdote representa Cristo, o qual disse: "Como o Pai me enviou, assim eu
também vos envio a vós" (Jo 20,21); "quem vos ouve, ouve a mim"
(Lc 10,16). Iniciado, por vocação divina, neste divino ministério, "é
constituído a favor dos homens nas coisas que tocam a Deus, para que ofereça
dons e sacrifícios pelos pecados" (Hb 5,1). A ele, portanto, é mister
recorra quem queira viver a vida de Cristo e deseje receber força, conforto e
alimento para a alma; a ele pedirá o remédio necessário quem deseje ressurgir
do pecado e enveredar pelo caminho certo. Por este motivo todos os sacerdotes
podem a si mesmos aplicar as palavras do Apóstolo: "Somos auxiliares de
Deus" (1Cor 3,9).
Necessidade da
correspondência
8. Mas tão excelsa dignidade exige
dos sacerdotes que correspondam com a máxima fidelidade ao seu altíssimo ofício.
Destinados a promover a glória de Deus na terra, a alimentar e engrandecer o
corpo místico de Cristo, é absolutamente necessário que se elevem tanto pela
santidade dos costumes, que por meio deles por toda parte se difunda o
"bom odor de Cristo" (2Cor 2,15).
O dever fundamental
9. No mesmo dia em que vós, filhos
diletos, fostes exaltados à dignidade sacerdotal, o bispo, em nome de Deus, vos
indicou solenemente qual seria o vosso dever fundamental: "Compenetrai-vos
do que fazeis, imitai o que tratais, de modo que, ao celebrardes o mistério da
morte do Senhor, cuideis de mortificar a vossa carne com todos os seus vícios e
concupiscências. Seja a vossa doutrina uma medicina espiritual para o povo de
Deus, seja o exemplo da vossa vida como um odor de consolação para a Igreja de
Cristo, para que pela vossa pregação e conduta edifiqueis a casa, isto é, a
Igreja de Deus".(6) Totalmente imune do pecado, a vossa vida, mais que a
dos simples fiéis, seja "escondida com Cristo em Deus" (Cl 3,3).
Adornados asssim da exímia virtude que a vossa dignidade exige, podereis cuidar
do oficio a que vos destinou a sagrada ordenação, que é o de continuar e
completar a obra da redenção.
10. É este o programa que vós
livre e espontaneamente assumistes; sede santos, porque é santo o vosso
ministério.
I. A SANTIDADE DA VIDA
A perfeição consiste no
fervor da caridade
11. Consoante o ensino do divino
Mestre, a perfeição da vida cristã consiste no amor de Deus e do próximo (cf.
Mt 22,37.38.39), amor, porém, que seja verdadeiramente fervoroso, zeloso e
ativo. Se ele tem essas qualidades, de certo modo abrange todas as virtudes
(cf.1Cor 13,4ss.), e com razão pode ser chamado "vínculo da
perfeição" (Cl 3,14). Seja qual for o estado em que se encontre o homem,
para esse fim deve dirigir as suas intenções e as suas ações.
O sacerdote é chamado à
perfeição
12. A esse dever está de modo
particular obrigado o sacerdote. Toda a sua ação sacerdotal, por sua própria
natureza - pois exatamente para esse fim foi o sacerdote chamado por divina
vocação, destinado a um ofício divino e assinalado por um carisma divino -
tende realmente para isso; ele deve, de fato, emprestar a sua cooperação a
Cristo, único e eterno sacerdote; é, portanto, necessário que siga e imite
aquele que, durante sua vida terrena, não teve outro escopo senão demonstrar o
seu ardentíssimo amor ao Pai e anunciar aos homens os infinitos tesouros do seu
Coração.
1. Imitação de Cristo
União íntima com Jesus
13. O primeiro impulso que deve
mover o espírito sacerdotal há de ser o de unir-se estreitamente ao divino
Redentor, para aceitar docilmente e em toda a sua integridade os divinos
ensinamentos, e de aplicá-los diligentemente em todos os momentos de sua
existência, de forma que a fé seja constantemente a luz de sua conduta e sua
conduta seja o reflexo de sua fé.
Conservar os olhos fixos
nele
14. Seguindo a luz dessa virtude,
ele terá seu olhar fixado em Cristo e seguirá seus ensinamentos e exemplos,
intimamente persuadido de que para si não é suficiente limitar-se a cumprir os
deveres a que estão obrigados os simples féis, mas de que deve tender com força
cada vez maior àquela santidade que a dignidade sacerdotal exige, segundo a
advertência da Igreja: "Os clérigos devem levar vida mais santa que os
leigos e servir para estes de exemplo na virtude e no modo reto de
agir".(7)
Vida cristocêntrica
15. Porque deriva de Cristo, deve
por isso a vida sacerdotal dirigir-se toda e sempre para ele. Cristo é o Verbo
de Deus, que não desdenhou assumir a natureza humana; que viveu a sua vida
terrena para cumprir a vontade do Pai Eterno; que em torno de si difundiu o
perfume do lírio; que viveu na pobreza e "passou fazendo o bem e curando a
todos" (At 10,38); que, enfim, se imolou como hóstia pela salvação de seus
irmãos. Eis, diletos filhos, a síntese daquela admirável vida; esforçai-vos por
reproduzi-la em vós, recordando a exortação: "Dei-vos o exemplo, para que,
como eu vos fiz, assim façais também vós" (Jo 13,15).
Prática da humildade
16. O início da perfeição cristã
está na humildade: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de
coração" (Mt 11,29). Observando a altura a que fomos elevados pelo batismo
e a ordenação sacerdotal, a consciência da nossa miséria espiritual nos deve
induzir a meditar na divina sentença de Jesus Cristo: "Sem mim nada podeis
fazer" (Jo 15,5).
Descon fiança em si mesmo
17. Não confie o sacerdote em suas
próprias forças, nem se deslumbre com seus próprios dotes, não procure a estima
e os louvores dos homens, não aspire a cargos elevados, mas imite a Cristo, o
qual não veio "para ser servido, mas para servir" (Mt 20,28); e
renuncie a si mesmo, consoante o ensinamento do evangelho (Mt 16,24), apartando
o espírito das coisas terrenas para seguir mais livremente o Mestre divino.
Tudo aquilo que tem e tudo quanto é procede da bondade e do poder de Deus: se
pretende, portanto, gloriar-se, recorde-se das palavras doApóstolo:
"Quanto a mim, em nada me gloriarei, senão nas minhas fraquezas"
(2Cor 12,5).
Imolação da vontade
18. O espírito de humildade,
iluminado pela fé, dispõe a alma à imolação da vontade por meio da obediência.
O próprio Cristo, na sociedade por ele fundada, estabeleceu uma autoridade
legítima, que é uma continuação da sua. Quem, portanto, obedece aos superiores,
obedece ao próprio Redentor.
Necessidade da obediência
19. Numa época como a nossa, em
que o princípio de autoridade está gravemente abalado, é absolutamente
necessário que o sacerdote, firme nos princípios da fé, considere e aceite a
autoridade não só como baluarte da ordem social e religiosa, mas também como
fundamento de sua própria santificação pessoal. Enquanto, com criminosa
astúcia, os inimigos de Deus se esforçam por provocar e excitar a imoderada
cobiça de alguns, para induzi-los a erguer-se contra a santa madre Igreja, Nós
desejamos render os devidos louvores e confirmar com paternal carinho a enorme
multidão de ministros de Deus, que, para mostrar abertamente sua obediência
cristã e conservar intacta a própria fidelidade a Jesus e à legitima autoridade
por ele estabelecida, "foram achados dignos de sofrer afrontas pelo nome
de Jesus" (At 5,41) e não somente afrontas, mas perseguições, prisão e
morte.
A renúncia do celibato
20. O sacerdote tem como campo de
sua própria atividade tudo o que se refere à vida sobrenatural, e é o órgão de
comunicação e de incremento da mesma vida no corpo místico de Cristo. É
necessário, por isso, que ele renuncie a "tudo quanto é do mundo",
para cuidar somente daquilo "que é de Deus" (lCor 7, 32.33). E é
exatamente porque deve estar livre das preocupações do mundo, para se dedicar
todo ao serviço divino, que a Igreja estabeleceu a lei do celibato, a fim de
que ficasse sempre manifesto a todos que o sacerdote é ministro de Deus e pai
das almas. Com a lei do celibato, o sacerdote, ao invés de perder o dom e o
encargo da paternidade, aumenta-o ao infinito, pois se não gera filhos para
esta vida terrena e caduca, gera-os para a celeste e eterna.
21. Quanto mais refulge a
castidade sacerdotal, tanto mais unido se torna o sacerdote com Cristo,
"hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada".(8)
22. Para guardar integérrima, como
inestimável tesouro, a pureza sacerdotal, é necessário ater-se fielmente àquela
exortação do príncipe dos apóstolos, que diariamente repetimos no ofício
divino: "Sede sóbrios e vigiai" (1Pd 5,8).
Vigilância e oração,
sentinelas da castidade
23. Sim, diletos filhos, vigiai,
porque a castidade sacerdotal está exposta a muitos perigos, seja pela
dissolução dos costumes públicos, seja pelas atrações do vício, tão freqüentes
e insidiosas, seja, afinal, pela excessiva liberdade que cada vez mais se
introduz nas relações entre os dois sexos e também tenta penetrar no exercício
do sagrado ministério. "Vigiai e orai" (Mc 14,38), sempre lembrados
de que vossas mãos tocam as coisas mais santas e estais consagrados a Deus e a
ele só deveis servir. O próprio hábito que vestis vos adverte de que não deveis
viver para o mundo, mas para Deus. Esforçai-vos, pois, com ardor e alegria,
confiando na proteção da Virgem Mãe de Deus, para conservar-vos sempre
"alvos, limpos, puros, castos, como convém a ministros de Cristo e
dispenseiros dos mistérios de Deus".(9)
Evitar familiaridades
24. A esse propósito vos
endereçamos uma particular exortação, a fim de que, dirigindo associações e
sodalícios femininos, vos mostreis como convém a sacerdotes; evitai toda
familiaridade; quando se fizer mister prestar a vossa assistência, prestai-a
como ministros sagrados. Na direção, portanto, dessas associações, vossa tarefa
se limite ao estritamente prescrito ao vosso sagrado ministério.
Desprendimento dos bens
terrenos
25. Ao desprendimento da vossa
vontade e de vós mesmos com a generosa obediência aos superiores e a renúncia
aos prazeres carnais pela castidade, deveis unir o desprendimento cotidiano do
espírito, das riquezas e das coisas terrenas. Exortamo-vos ardentemente, filhos
diletos, a não vos prenderdes com afeto às coisas desta terra, transitórias e
perecíveis. Tomai como exemplo os grandes santos dos passados e dos nossos
tempos, os quais, unindo o necessário desprendimento dos bens materiais a uma
grandíssima confiança na Providência e a um ardentíssimo zelo sacerdotal,
realizaram maravilhosas obras, confiando unicamente em Deus, o qual nunca deixa
faltar o necessário. Também o sacerdote, que não faz com voto particular a
profissão da pobreza, deve ser sempre guiado pelo espírito e pelo amor desta
virtude, amor que deve demonstrar pela simplicidade e modéstia do teor de vida,
da habitação e pela generosidade para com os pobres; de modo particularíssimo,
portanto, repudie o imiscuir-se em empresas econômicas, que lhe impedirão de
cumprir os seus deveres pastorais e diminuirão a confiança que nele depositam
os fiéis. O sacerdote, porque deve com o máximo de empenho procurar a salvação
das almas, deve poder aplicar sempre a si mesmo o dito de s. Paulo: "Não
busco os vossos bens, mas, sim, a vós" (2Cor 12,14).
Ser modelos de todas as
virtudes
26. Teríamos ainda muito por dizer
sobre todas as virtudes com as quais o sacerdote deve reproduzir em si mesmo,
do melhor modo possível, o exemplar divino que é Jesus Cristo. Preferimos,
contudo, despertar a vossa atenção sobre o que nos parece mais necessário aos
nossos tempos. Recordamo-vos, entre outras, as palavras do áureo livro da
"Imitação de Cristo": "O sacerdote deve ser adornado de todas as
virtudes, e dar aos outros exemplo de vida reta; a sua conversação não seja
segundo os vulgares e comuns meios dos homens, mas com os anjos no céu ou os
homens perfeitos na terra".(10)
2. Necessidade da graça
para a santificação
Verdades consoladoras
27. Ninguém ignora, diletos
filhos, que não é possível a qualquer cristão, e em especial aos sacerdotes,
imitar os admiráveis exemplos do divino Mestre, sem o auxílio da graça e sem o
uso daqueles instrumentos da graça que ele mesmo pôs à nossa disposição: uso
tanto mais necessário quanto mais elevado o grau de perfeição que devemos
alcançar e quanto mais graves as dificuldades que procedem da nossa natureza
inclinada ao mal. Por esse motivo, julgamos oportuno passar à consideração de
outras verdades tanto mais sublimes e consoladoras, das quais ainda mais
claramente ressalta quão sublime deve ser a santidade sacerdotal e quão
eficazes são os auxílios que nos dá o Senhor, para que possamos realizar em
nossos desígnios da divina misericórdia.
Vida de sacrifício
28. Assim como toda a vida do
Salvador foi ordenada para o sacrifício de si mesmo, também a vida do
sacerdote, que deve reproduzir em si a imagem de Cristo, deve ser com ele, por
ele, e nele um sacrifício aceitável.
A exemplo de Jesus sobre o
Calvário
29. Em verdade, a oferta que o
Senhor fez de si mesmo sobre o Calvário não foi somente a imolação do seu
Corpo; ele ofereceu-se a si mesmo, hóstia de expiação, como cabeça da
humanidade, e por isso "enquanto encomenda nas mãos do Pai o seu espírito,
encomenda a si mesmo a Deus como homem, para encomendar a Deus todos os
homens".(11)
Na santa missa
30. A mesma coisa sucede no
sacrifício eucarístico, que é a renovação incruenta do sacrifício da cruz:
Cristo oferece-se ao Pai pela sua glória e pela nossa salvação. E enquanto ele,
sacerdote e vítima, procede como cabeça da Igreja, oferece e imola não somente
a si mesmo, mas a todos os fiéis, e de certo modo todos os homens.(12)
Os tesouros do sacrifício
eucarístico
31. Ora, se isso vale para todos
os féis, por maior título vale para os sacerdotes, que são ministros de Cristo,
principalmente para a celebração do sacrifício eucarístico. E precisamente no
sacrifício eucarístico, quando "na pessoa de Cristo" consagra o pão e
o vinho que se tornam corpo e sangue de Cristo, o sacerdote pode tirar da mesma
fonte da vida sobrenatural os inexauríveis tesouros da salvação e todos os
auxílios que lhe são necessários pessoalmente e à realização da sua missão.
Viver a santa missa
32. Enquanto está tão
estreitamente em contato com os divinos mistérios, o sacerdote não pode deixar
de sentir fome e sede de justiça (cf. Mt 5,6), ou deixar de sentir estímulo
para adaptar a sua vida à sua excelsa dignidade e orientá-la para o sacrifício,
devendo imolar-se a si mesmo com Cristo. Ele, portanto, não somente celebrará a
santa missa, mas a viverá intimamente; somente assim poderá alcançar aquela
força sobrenatural que o transformará e o tornará partícipe da vida de
sacrifício do Redentor.
Transformação em vítimas
com Jesus
33. S. Paulo estabelece o seguinte
preceito como princípio fundamental da perfeição cristã: "Revesti-vos do
Senhor Jesus Cristo" (Rm 13,14). Esse preceito, se vale para todos os
cristãos, vale de modo particular para os sacerdotes. Mas revestir-se de Cristo
não é somente inspirar os próprios pensamentos na sua doutrina, mas também
entrar em uma nova vida, a qual, para brilhar com os esplendores do Tabor, deve
conformar-se com os sofrimentos de nosso Salvador no Calvário. Isso comporta em
longo e árduo trabalho, que transforme a alma no estado de vítima, para que
participe intimamente do sacrifício de Cristo. Esse árduo e assíduo trabalho
não se realiza com vãs veleidades, nem se consuma com desejos e promessas, mas
deve ser um exercício indefesso e contínuo que leve ao renovamento do espírito;
deve ser exercício de piedade, que tudo refira à glória de Deus; deve ser
exercício de penitência, que refreie e governe os movimentos do espírito; deve
ser ato de caridade, que inflame o ânimo de amor a Deus e ao próximo e estimule
a praticar obras de misericórdia; deve, enfim, ser vontade operosa de luta e de
fadiga para fazer todo o bem.
Admoestação de s. Pedro
Crisólogo
34. O sacerdote deve, portanto,
esforçar-se por reproduzir na sua alma tudo quanto se produz sobre o altar.
Como Jesus se imola a si mesmo, assim o seu ministro deve imolar-se com ele;
como Jesus expia os pecados dos homens, assim ele, seguindo o árduo caminho da
ascética cristã, deve alcançar a própria e a alheia purificação. Assim admoesta
s. Pedro Crisólogo: "Sê sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo
que te deu a divina autoridade. Reveste-te da estola da santidade; cinge-te com
o cinto da castidade; seja Cristo o véu que te cubra a cabeça; a cruz esteja
como baluarte sobre a tua fronte; coloca em teu peito o sacramento da divina
ciência; queima sempre o incenso da oração; cinge a espada do Espírito; faz do
teu coração como que um altar e assim seguro oferece teu corpo como vítima a
Deus. Oferece a fé, de modo que seja punida a perfídia; imola o jejum, a fim de
que cesse a voracidade; oferece em sacrifício a castidade, para que morra a
sensualidade; coloca sobre o altar a piedade, para que seja deposta a
impiedade; atrai a misericórdia, para que seja destruída a avareza; e para que
desapareça a insensatez, convém imolar sempre a santidade: assim teu corpo será
a tua hóstia, se não for ferido por alguma seta do pecado".(13)
A morte mística em Cristo
35. Desejamos repetir aqui de modo
particular aos sacerdotes quanto já propusemos à meditação de todos os fiéis na
Encíclica Mediator Dei: "É bem verdade que Jesus é sacerdote; não o
é, porém, para si, mas para nós, apresentando ao eterno Pai os votos e
sentimentos religiosos de toda a humanidade; assim mesmo, é vítima, mas para
nós, substituindo-se ao homem pecador; ora, o dito do Apóstolo: 'Tende em vós
mesmos os sentimentos de Jesus Cristo' (Fl 2,5) exige de todo cristão que
reproduza em si, quanto está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma
que tinha o divino Redentor quando realizava o sacrifício de si mesmo: a
humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à
suprema Majestade de Deus; mais: que reproduza em si mesmo a condição de
vítima, a abnegação segundo os preceitos do evangelho, o voluntário e
espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa
palavra, que todos espiritualmente morramos com Cristo na cruz, de modo a poder
dizer com s. Paulo: 'Estou pregado na cruz com Cristo'" (Gl 2,19). (14)
Aproveitar as riquezas do
sangue de Jesus
36. Sacerdotes e filhos diletos,
temos em nossas mãos um grande tesouro, uma preciosíssima pérola: as
inexauríveis riquezas do sangue de Jesus Cristo; utilizemo-nos copiosamente
delas, para sermos, com o total sacrifício de nós mesmos oferecidos ao Pai com
Jesus Cristo, os verdadeiros mediadores de justiça "nas coisas que tocam a
Deus" (Hb 5,1), e para merecermos que as nossas orações sejam aceitas e
alcancem superabundantes graças para toda a Igreja e todas as almas. Só depois
que nos tornarmos uma só coisa com Cristo, mediante a sua e a nossa oblação, e
houvermos elevado a nossa voz com os coros dos habitantes da celeste Jerusalém,
"illi canentes iungimur almae Sionis aemuli",(15) e só então,
fortalecidos pela virtude do Salvador, poderemos com segurança descer da
montanha da santidade que houvermos galgado, para levar a todos os homens a
vida e a luz de Deus pelo ministério sacerdotal.
3. Necessidade da oração e
da piedade
A obrigação do Ofício
divino
37. A perfeita santidade exige
ainda uma contínua comunicação com Deus; e a fim de que este íntimo contacto
que a alma sacerdotal deve estabelecer com Deus não seja interrompido na
sucessão dos dias e das horas, a Igreja impôs aos sacerdotes a obrigação de
recitar o Ofício divino. Desse modo acolheu ela fielmente o preceito do Senhor:
"É mister orar sempre e nunca deixar de fazê-lo" (Lc 18,1). Assim
como a Igreja jamais cessa de orar, deseja ardentemente que o mesmo façam seus
filhos, repetindo a palavra do Apóstolo: "Por ele (Jesus), pois,
ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios
que confessam o seu nome" (Hb 13,15). Aos sacerdotes incumbiu a Igreja do
dever particular de consagrar a Deus, orando também em nome do povo, todo o
tempo e todas as circunstâncias.
A voz de Cristo e da Igreja
38. Conformando-se a essa
disposição, o sacerdote continua através dos séculos a praticar o mesmo que fez
Cristo, o qual "nos dias da sua carne, oferecendo, com grande brado e
lágrimas, preces e rogos... foi atendido pela sua reverência" (Hb 5,7).
Essa oração tem uma eficácia singular, porque é feita em nome de Cristo, isto
é, "por nosso Senhor Jesus Cristo", que é, o nosso mediador junto do
Pai, a quem incessantemente apresenta a sua satisfação, os seus méritos e o
supremo preço do seu sangue. Essa é verdadeiramente a "voz de
Cristo", o qual "ora por nós como nosso sacerdote, ora em nós como
nossa cabeça".(16) É igualmente sempre a "voz da Igreja", que
abrange os votos e desejos de todos os fiéis, os quais, associados à voz e à fé
do sacerdote, louvam Jesus Cristo e por meio dele rendem graças ao Eterno Pai e
lhe impetram os auxílios necessários nas vicissitudes de cada dia e cada hora.
Por meio do sacerdote repete-se desse modo aquilo que fez Moisés sobre o monte
Sinai, quando, de braços elevados ao céu, falava com Deus e obtinha
misericórdia a favor do seu povo, que lutava no vale subjacente.
Eficiente meio de
santificação
39. O Ofício divino é também o
meio mais eficaz de santificação. Por isso não é somente uma recitação de
fórmulas, nem de cânticos entoados com arte; não se trata somente do respeito a
certas normas, determinadas rubricas ou de cerimônias externas de culto; mas
trata-se, sobretudo, da elevação do nosso espírito e da nossa alma a Deus, para
que se unam à harmonia dos espíritos bem-aventurados; (17) elevação que supõe
aquelas disposições interiores lembradas no princípio do Ofício divino:
"digna, atenta e devotamente".
Ter as mesmas disposições
de Jesus
40. É por isso necessário que o
sacerdote ore com as mesmas intenções do Redentor. É, portanto, quase que a
própria voz do Senhor, que, por intermédio do seu sacerdote, continua a
implorar da clemência do Pai os benefícios da redenção; é a voz do Senhor, à
qual se associam as legiões dos anjos e dos santos no céu e de todos os fiéis
sobre a terra, para devidamente glorificar a Deus; é a própria voz de Cristo
nosso advogado, por meio da qual nos são alcançados os imensos tesouros dos
seus méritos.
A meditação cuidadosa do
breviário
41. Meditai atentamente, portanto,
aquelas verdades fecundas que o Espírito Santo generosamente nos deu na Sagrada
Escritura e que os escritos dos Padres e doutores comentam. Enquanto os vossos
lábios repetem as palavras ditadas pelo Espírito Santo, esforçai-vos por nada
perder de tanto tesouro, e para que em vossa alma encontre viva ressonância a
voz de Deus, afastai cuidadosamente tudo quanto vos possa distrair e concentrai
os vossos pensamentos, a fim de vos dedicardes mais facilmente e com maior
fruto à contemplação das verdades eternas.
Acompanhar o ciclo litúrgico
42. Em nossa encíclica Mediator
Dei, explicamos difusamente com que fim o ciclo litúrgico evoca e
representa em ordem progressiva, durante o ano, os mistérios de nosso Senhor
Jesus Cristo e celebra as festas da bem-aventurada Virgem e dos santos. Esses ensinamentos,
que a todos ministramos, porque são para todos utilíssimos, devem ser meditados
especialmente por vós, sacerdotes, que, com o sacrifício eucarístico e com o
Ofício divino, tendes uma tão importante parte no desenvolvimento do ciclo
litúrgico.
43. A fim de que progridam com
crescente celeridade nas vias da santidade, recomenda vivamente a Igreja aos
sacerdotes, além da celebração do sacrifício eucarístico e da recitação do
Oficio divino, também outros exercícios de piedade. A respeito destes é de
utilidade propor à vossa consideração algumas observações.
A contemplação das coisas
celestes...
44. Antes de tudo exorta-nos a
Igreja à meditação, que eleva a alma à contemplação das coisas celestes, guia-a
para Deus e a faz viver numa atmosfera sobrenatural de pensamentos e afetos que
constituem a melhor preparação e a mais frutuosa ação de graças à santa missa.
A meditação, além disso, dispõe a alma a saborear e compreender as belezas da
liturgia e fá-la contemplar as verdades eternas e os admiráveis exemplos e
ensinamentos do evangelho.
...e dos mistérios da vida
de Jesus
45. Ora, a isso deve estar
continuamente atento o sacerdote, para reproduzir em si mesmo as virtudes do
Redentor. Como, porém, o alimento material não alimenta a vida, não a sustenta,
não a faz crescer, se não é convenientemente assimilado, assim o sacerdote não
pode adquirir o domínio sobre si mesmo e os seus sentidos, nem purificar seu
espírito, nem tender - como deve - à virtude, nem, afinal, cumprir com alegre
fidelidade e frutuosamente os deveres do seu sagrado ministério, se não tiver
aprofundado, pela meditação assídua e incessante, os mistérios do divino
Redentor, supremo modelo da vida sacerdotal e inexaurível fonte de santidade.
Graves danos para quem dela
se descuida
46. Julgamos, portanto, ser grave
obrigação nossa exortar-vos à prática da meditação cotidiana, prática também
recomendada ao clero pelo Código de direito canônico.(18) Porque como o
estímulo à perfeição sacerdotal é alimentado e fortificado pela meditação cotidiana,
assim do descuido e negligência desta prática origina-se a indiferença
espiritual, pela qual diminui e enlanguesce a piedade, e não somente cessa ou
se retarda o impulso para a santificação pessoal, mas todo o ministério
sacerdotal sofre não ligeiros danos. Deve-se, com fundamento, assegurar por
isso que nenhum outro meio tem a particular eficácia da meditação e, portanto,
é insubstituível a sua prática cotidiana.
Orações várias e espírito
de oração
47. Não sejam, porém, separadas da
oração mental a oração vocal e as outras formas de oração privada que, na
condição particular de cada um, auxiliam a promover a união da alma com Deus.
Mas deve-se ter isto presente: mais do que múltiplas orações, vale a piedade e
o verdadeiro e ardente espírito de oração. Esse ardente espírito de oração, se
o era nos tempos passados, mais necessário é especialmente hoje, que o assim
chamado "naturalismo" invadiu os espíritos e as inteligências e a
virtude se vê exposta a perigos de toda espécie, perigos que às vezes se encontram
até no próprio ministério. Que nos poderá melhor premunir contra essas
insídias, que poderá melhor elevar a alma às coisas celestiais e mantê-la unida
com Deus, do que a oração assídua e a invocação dos divinos auxílios?
Ardente devoção a Nossa
Senhora
48. E porque por um título
particular podem os sacerdotes ser chamados filhos de Maria, não podem eles
deixar de nutrir ardente devoção à Virgem santíssima, de invocá-la com
confiança e de implorar freqüentemente sua valiosa proteção. Cada dia, portanto,
como a própria Igreja o recomenda, (19) recitem o santo rosário, o qual,
propondo à nossa meditação também os mistérios do Redentor, nos conduz "a
Jesus por Maria".
A visita cotidiana ao
santíssimo Sacramento
49. O sacerdote, além disso, antes
de encerrar o seu dia de trabalho, se aproximará do tabernáculo e aí se
demorará por uns momentos para adorar Jesus no seu sacramento de amor, para
reparar a ingratidão de muitos para com tão grande sacramento, para
incendiar-se cada vez mais de amor de Deus e para manter-se de certo modo na
presença do coração de Cristo também durante o tempo do repouso noturno, que
nos traz ao espírito o silêncio da morte.
O exame de consciência
50. Nem omita o cotidiano exame de
consciência, que é o meio mais eficaz para avaliar o andamento da vida
espiritual durante o dia, assim como para remover os obstáculos que embaraçam
ou retardam o progresso na virtude, ou afinal para conhecer os meios mais
idôneos a assegurarem ao ministério sacerdotal maiores frutos e para implorar
do Pai Celeste perdão das nossas misérias.
A confissão freqüente
51. Essa indulgência e o perdão
dos pecados nos são concedidos no sacramento da penitência, obra-prima da
bondade de Deus, para nos socorrer em nossa fragilidade. Nunca suceda, diletos
filhos, que exatamente o ministro desse sacramento de reconciliação dele se
abstenha. Como o sabeis, nesta matéria dispõe a Igreja: "Vigiem os
ordinários por que todos os clérigos purifiquem freqüentemente pelo sacramento
da penitência as manchas da própria consciência".(20) Ainda que ministros
de Cristo, somos contudo débeis e miseráveis; como poderemos, pois, subir ao
altar e tratar os sagrados mistérios, se não nos procuramos purificar o mais
freqüentemente possível? A confissão freqüente "aumenta o conhecimento
próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a
negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade,
presta-se a direção espiritual e por virtude do mesmo sacramento aumenta a
graça".(21)
A direção espiritual
52. Outra recomendação se torna
aqui oportuna: que ao arrostar e enveredar pela via espiritual não confieis em
vós mesmos, mas com simplicidade e docilidade peçais e aceiteis o auxilio de
quem possa guiar vossa alma com esclarecida direção, indicar-vos os perigos,
sugerir-vos os remédios idôneos, e em todas as dificuldades internas ou
externas vos possa dirigir retamente e levar-vos a uma perfeição cada vez
maior, segundo o exemplo dos santos e os ensinamentos da ascética cristã. Sem
essa prudente guia da consciência, é assaz difícil, pelas vias ordinárias,
secundar convenientemente os impulsos do Espírito Santo e da graça
divina.
Os exercícios espirituais
53. Desejamos ardentemente, enfim,
a todos recomendar a prática dos exercícios espirituais. Quando por alguns dias
nos segregamos das habituais ocupações e do ambiente habitual e nos retiramos à
solidão e ao silêncio, então prestamos mais ouvidos a voz de Deus e esta
penetra mais profundamente em nossa alma. Os exercícios, enquanto nos compelem
a uma mais diligente execução dos deveres do nosso ministério, com a
contemplação dos mistérios do Redentor reforçam nossa vontade, a fim de que
"O sirvamos sem temor, em santidade e justiça diante dele, por todos os
nossos dias" (Lc 1,74.75).
II. A SANTIDADE NO
MINISTÉRIO SAGRADO
54. Sobre o monte Calvário o
Redentor teve aberto o lado, do qual fluiu seu sangue sagrado, que no decurso
dos séculos mana como alagadora torrente, para purificar as consciências dos
homens, expiar os seus pecados e distribuir-lhes os tesouros da salvação.
O sacerdote, dispenseiro
dos mistérios de Deus
55. Para a execução de tão sublime
ministério são destinados os sacerdotes. Esses, de fato, não somente conciliam
e comunicam a graça de Cristo aos membros do seu corpo místico, mas são também
os órgãos de desenvolvimento do mesmo corpo místico, pois que eles devem dar
sempre novos filhos à Igreja, educando-os, cultivando-os e guiando-os. Sendo
eles os "dispenseiros dos mistérios de Deus" (1Cor 4,1), devem servir
a Jesus Cristo com perfeita caridade e consagrar todas as suas forças à
salvação de seus irmãos. São eles os apóstolos da luz: por isso devem iluminar
o mundo com a doutrina do evangelho, e ser tão fortes na fé que a possam
comunicar aos outros, e seguir os exemplos e ensinamentos do divino Mestre,
para poderem conduzir todos a ele. São os apóstolos da graça e do perdão; devem
por isso consagrar-se totalmente à salvação dos homens e atraí-los ao altar de
Deus, para que se nutram do pão da vida eterna. São os apóstolos da caridade:
devem, portanto, promover as obras de caridade, tanto mais urgentes hoje, que
cresceram enormemente as necessidades dos indigentes.
As várias formas do
apostolado moderno
56. O sacerdote deve esforçar-se
ainda a fim de que os fiéis compreendam com justeza a doutrina da
"comunhão dos santos", sintam-na e vivam-na; para este fim deve
servir-se de obras tais como o "Apostolado litúrgico" e o
"Apostolado da oração". Deve, do mesmo modo, promover todas as formas
de apostolado que hoje, por especial necessidade do povo cristão, são de tanta
importância e de tanta urgência. Esforce-se, assim, pela difusão do ensino
catequético, pelo desenvolvimento e difusão da "Ação católica" e da
"Ação missionária"; e, mediante o trabalho dos leigos, bem preparados
e formados, dê incremento às iniciativas de apostolado social que o nosso tempo
reclama.
Exercê-lo em união com
Cristo
57. Recorde-se, entretanto, o
sacerdote que o seu ministério será tanto mais fecundo, quanto mais
estreitamente estiver ele unido a Cristo e for guiado no seu trabalho pelo
espírito de Cristo. A sua atividade não se reduzirá, então, a um movimento e a
uma agitação puramente naturais, que afadiguem o corpo e o espírito e exponham
o próprio sacerdote a transviações ruinosas para si mesmo e a Igreja. Mas o seu
trabalho e as suas fadigas serão fecundados e corroborados pelos carismas de
graça que Deus nega aos soberbos, mas largamente concede àqueles que,
trabalhando com humildade na "vinha do Senhor", não buscam a si
mesmos e o próprio proveito (1Cor 10,33) mas a glória de Deus e a salvação das
almas. Fiel, portanto, ao ensinamento do evangelho, não confie em si mesmo nem
nas próprias forças, mas deposite a sua confiança no auxílio do Senhor:
"Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o
crescimento" (1Cor 3,7). Quando for assim inspirado e organizado o
apostolado, não poderá deixar de suceder que o sacerdote atraia a si, com força
quase divina, o espírito de todos. Reproduzindo nos seus costumes e na sua vida
como que uma viva imagem de Cristo, todos aqueles que o buscam como um mestre
reconhecerão, movidos por íntima persuasão, que ele não pronuncia palavras
suas, mas palavras de Deus, e que não age por virtude própria, mas por virtude
de Deus. "Se alguém fala, sejam palavras de Deus; se alguém exerce o
ministério, seja conforme a força que Deus der" (1Pd 4,11). No tender à
santidade e no desempenhar-se, com suma diligência, do seu ministério, deve o
sacerdote esforçar-se por representar Cristo tão perfeitamente, que possa com
toda modéstia repetir a palavra do apóstolo das gentes: "Sede meus
imitadores, como também eu o sou de Cristo" (1Cor 4,16).
Resguardar-se da heresia da
ação
58. Por esse motivo, enquanto
rendemos o devido louvor a quantos, na afanosa reparação deste triste pós-guerra,
movidos pelo amor de Deus e pela caridade para com o próximo, sob a direção e
seguindo o exemplo dos bispos, consagraram todas as suas forças para remediar
tantas misérias, não nos podemos abster de exprimir a nossa preocupação e a
nossa ansiedade por aqueles que, por especiais circunstâncias do momento, se
deixaram levar pelo vórtice da atividade exterior, assim como a negligenciar o
principal dever do sacerdote, que é a santiflcação própria. Já dissemos em
público documento (22) que devem ser chamados a melhores sentimentos quantos
presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente
designada como a "heresia da ação": daquela ação que não tem os seus
fundamentos nos auxílios da graça, e não se serve constantemente dos meios necessários
a obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona. Do mesmo modo, porém,
estimulamos às obras do ministério aqueles que, trancados em si mesmos e
duvidosos da eficácia do auxílio divino, não se esforçam, segundo as próprias
possibilidades, por fazer penetrar o espírito cristão na vida cotidiana, em
todas as formas que os nossos tempos reclamam.(23)
Dedicar-se inteiramente à
salvação das almas
59. Exortamo-vos, portanto, com
todo o empenho, a que, estreitamente unidos ao Redentor, "com cujo auxílio
tudo podemos" (Fl 4,13), vos esforceis com toda solicitude pela salvação
daqueles que a divina Providência contou aos vossos cuidados, como ardentemente
desejamos, diletos filhos, que imiteis os santos, que, nos tempos passados,
demonstraram com suas obras grandiosas quanto pode o poder da graça divina. Que
todos e cada um, com humildade e sinceridade, possais sempre atribuir-vos -
testemunhem-no os vossos fiéis - a expressão do apóstolo: "E de boa
vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas"
(2Cor 12,15). Iluminai os espíritos, dirigi as consciências, confortai e
sustentai as almas que se debatem na dúvida e gemem na dor. A essa forma de
apostolado ligai também todas as demais que as necessidades do tempo exigem.
Mas em tudo fique sempre patente que o sacerdote, em todas as suas atividades,
nada mais procura senão o bem das almas, e a nada mais visa senão a Cristo, a
quem consagra todas as suas forças e a si mesmo inteiramente.
Imitar os exemplos do
Redentor
60. Do mesmo modo que para vos
estimular à santificação pessoal vos exortamos a reproduzir em vós mesmos a
imagem viva de Cristo, assim agora, para a eficácia santificadora do vosso
ministério, vos incitamos com insistência a seguir sempre os exemplos do
Redentor. Ele, repleto do Espírito Santo, "andou fazendo o bem e curando
todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele" (At 10,38).
Fortificados pelo mesmo Espírito e impelidos por sua força, podereis exercer um
ministério que, nutrido pela caridade cristã, será rico de virtude divina, que
poderá comunicar aos outros.
61. Seja o vosso zelo vivificado
por aquela caridade que se não deixa vencer pelas adversidades e a todos os
homens abraça, pobres e ricos, amigos e inimigos, fiéis e infiéis. Essa
diuturna fadiga e cotidiana paciência, eis o que de vós reclamam as almas, para
a salvação das quais o nosso Salvador sofreu pacientemente dores e tormentos
até a morte, para nos restituir a amizade divina. É essa, bem o sabeis, o maior
dos bens. Não vos deixeis prender pelo imoderado desejo de sucesso, nem vos
deixeis desarmar se, após assíduo trabalho, não recolherdes os frutos
desejados, porque "um é que semeia, outro que ceifa" (Jo 4,37).
Com benigna caridade
62. Resplandeça, além disso, o
vosso zelo de caridade benigna, pois se é necessário - e é dever de todos -
combater o erro e rechaçar o vício, o espírito do sacerdote deve, todavia,
estar sempre aberto à compaixão. É imperioso combater com todas as forças o
erro, mas amando intensamente o irmão que erra e conduzindo-o à salvação.
Quanto bem não fizeram, quão admiráveis obras não realizaram os santos com a
sua benignidade, mesmo em ambientes pervertidos pela mentira e degradados pelo
vício. Trairia, por certo, seu ministério aquele que, para agradar aos homens,
lhes lisonjeasse as inclinações malsãs ou se mostrasse indulgente com seu
incorreto modo de pensar e de agir, com prejuízo para a doutrina cristã e a
integridade dos costumes. Quando, no entanto, são observados os ensinamentos do
evangelho e os que erram se mostram movidos por sincero desejo de retornar ao
bom caminho, então deve recordar-se o sacerdote da resposta que o Senhor deu a
Pedro, quando lhe perguntou quantas vezes se devia perdoar ao irmão: "Não
te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete" (Mt 18,22).
Ser desinteressados
63. Este vosso zelo deve ter por
objeto não as coisas terrenas e caducas, mas as eternas. Deve ser este o
propósito dos sacerdotes que aspiram à santidade: trabalhar unicamente pela
glória divina e salvação das almas. Quantos sacerdotes, mesmo nas graves
dificuldades dos nossos tempos, vêm seguindo como norma os exemplos e
advertências do apóstolo das gentes, que se contentava com o mínimo
indispensável: "Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto"
(1Tm 6,8).
64. Por esse desinteresse e
desprendimento das coisas terrenas, unidos à confiança na Divina Providência,
dignos do mais alto louvor, o ministério sacerdotal tem dado à Igreja ubérrimos
frutos de bem espiritual e social.
Aperfeiçoar a cultura
própria
65. Esse zelo operoso deve, enfim,
ser iluminado pela luz da sabedoria e da disciplina e inflamado pela chama da
caridade. Quem se determine à santificação própria e alheia, deve estar
preparado por sólida doutrina, que abranja não somente a teologia, mas
igualmente a sã cultura moderna profana, a fim de que, como bom pai de família,
possa tirar "do seu tesouro coisas novas e velhas" (Mt 13,52), e
tornar cada vez mais apreciado e fecundo o seu ministério. Inspire-se, antes de
tudo, a vossa atividade e seja fielmente conforme às prescrições desta sede
apostólica e as diretivas dos bispos. Não mais ocorra, diletos filhos, que se
tornem mortas ou, por defeituosa direção, não correspondam às necessidades dos
fiéis todas as novas formas de apostolado que são hoje tão oportunas, especialmente
nas regiões onde o clero é pouco numeroso.
Aumentar o zelo operoso
66. Cresça, portanto, cada dia
esse vosso operoso zelo, sustente a Igreja de Deus, sirva de exemplo aos fiéis
e constitua um poderoso baluarte contra o qual se esboroem os ataques dos
inimigos de Deus.
Satisfação pelos diretores
espirituais
67. Desejamos, por isso, exprimir
a nossa satisfação de modo particular aos sacerdotes que, com humildade e
ardente caridade, auxiliam a santificação dos confrades, como conselheiros,
confessores ou diretores espirituais. O incalculável bem que fazem à Igreja
permanece na maioria dos casos oculto, mas será um dia patenteado no reino da
glória divina.
Tomem s. José Cafasso como
modelo
68. Nós, que, não há ainda muitos
anos, com íntima satisfação para o nosso coração decretamos as honras dos
altares para o sacerdote turinense José Cafasso - que em época dificílima foi
guia espiritual, esclarecido e santo, de não poucos sacerdotes, aos quais fez
progredir na virtude, tornando-lhes particularmente fecundo o ministério -
alimentamos plena confiança em que também pelo seu valioso patrocínio o divino
Redentor suscite numerosos sacerdotes de igual santidade, que saibam
conduzir-se a si mesmos e aos seus Confrades a tão excelsa perfeição de vida,
que os fiéis, admirando-lhes os exemplos, se sintam espontaneamente movidos a
imitá-los.
III. NORMAS PRÁTICAS
69. Até aqui expusemos as
principais verdades e normas fundamentais sobre as quais se baseiam o
sacerdócio católico e o exercício do seu ministério. A essas verdades e normas
conformam-se diligentemente na sua prática cotidiana todos os sacerdotes
santos, enquanto violam as obrigações contraídas pela sagrada ordenação todos
os desertores e trânsfugas.
Princípio fundamental:
adaptar-se aos tempos
70. Para que, entretanto, nossa
paternal exortação seja mais eficaz, julgamos oportuno indicar mais miudamente
algumas coisas que estão estreitamente ligadas à prática da vida cotidiana. É
isso tanto mais necessário porque na vida moderna se verificam certas situações
e de nova maneira se apresentam certas questões, que reclamam mais diligente
estudo e mais atentos cuidados. Por isso queremos exortar todos os sacerdotes,
e de modo particular os bispos, a fim de que providenciem com a máxima
solicitude a promoção de tudo quanto seja necessário aos nossos tempos, e
reduzam ao reto caminho da verdade, probidade e virtude o que se desviou ou
depravou.
1. Formação do Clero
Sacerdotes seculares e
religiosos unidos para o bem da Igreja
71. Depois das prolongadas e
diversas vicissitudes da recente guerra, o número dos sacerdotes, tanto nos
países católicos como nas missões, tornou-se insuficiente em face das sempre
crescentes necessidades. Exortamos, portanto, todos os sacerdotes, tanto os do
clero diocesano quanto os que pertencem a ordens ou congregações religiosas, a
fim de que, estreitados os vínculos da caridade fraterna, prossigam em união de
forças e de vontades na meta comum, que é o bem da Igreja, a santificação
própria e dos fiéis. Todos, também os religiosos que vivem no retiro e no
silêncio, devem contribuir para a eficácia do apostolado sacerdotal, pela
oração e pelo sacrifício; e, quantos o podem, de boa mente ajudem também pela
ação.
Recrutar novos operários
72. Mas é também necessário
recrutar outros operários, com o auxílio da graça divina. Sobre este
importantíssimo problema, em íntima conexão com o futuro da Igreja, chamamos,
portanto, a atenção especialmente dos ordinários e de quantos se dedicam de
qualquer modo à cura de almas. É verdade que não faltarão jamais à Igreja os
sacerdotes necessários à sua missão; cabe contudo, estarmos vigilantes,
lembrados da palavra do Senhor. "Grande é a messe, mas poucos são os
operários!" (Lc 10,2), e empregarmos toda diligência para dar à Igreja
numerosos e santos ministros.
Orar pelas vocações
73. O próprio nosso Senhor nos
indica o caminho mais seguro para termos numerosas vocações: "Rogai... ao
Senhor da messe que mande operários para a sua messe" (Lc 10,2): a oração
humilde e confiante a Deus.
Suscitar grande estima pelo
sacerdócio
74. É, porém, preciso que o
espírito daqueles que são chamados por Deus esteja preparado para o impulso e a
ação invisível do Espírito Santo; e a esse respeito, é precioso o contributo
que podem dar os pais cristãos, os párocos, confessores, superiores de
seminários, todos os sacerdotes e os fiéis que levam a peito as necessidades e
o incremento da Igreja. Procurem os ministros de Deus, não somente na pregação
e na instrução catequística, mas também nas conversações privadas, dissipar os
preconceitos ainda tão difundidos contra o estado sacerdotal, mostrando a sua
excelsa dignidade, beleza, necessidade e elevado mérito. Os pais e mães
cristãos, pertençam a qualquer esfera social, devem rogar a Deus torná-los
dignos de que ao menos um de seus filhos seja chamado ao seu serviço. Todos os
cristãos, em suma, devem sentir o dever de favorecer e auxiliar aqueles que se
sentem chamados ao sacerdócio.
Especialmente pela
santidade de vida
75. A escolha dos candidatos ao
sacerdócio, que o Código de direito canônico(24) recomenda aos pastores de
almas, deve constituir a obrigação particular de todos os sacerdotes, que não
só devem render humildes e generosas graças a Deus pelo dom inestimável
recebido, mas devem igualmente ter como o mais querido e grato o encontrar e
preparar para si um sucessor, dentre os jovens que reconhecem possuir os dotes
necessários. Para mais eficazmente alcançar esse escopo, todo sacerdote deve
esforçar-se por ser e mostrar-se como um exemplo de vida sacerdotal, para que
possa constituir um ideal a imitar para os jovens que atrai e nos quais
vislumbra os sinais do divino chamamento.
Seleção cuidadosa e
prudente
76. Esta seleção cuidadosa e
prudente se desenvolva sempre e em toda parte; não somente entre os jovens que
já estão no seminário, mas também entre aqueles que completam seus estudos
alhures, e de modo particular entre aqueles que prestam a sua colaboração nas
várias atividades do apostolado católico. Estes, mesmo que atinjam o sacerdócio
em idade avançada, são frequentemente possuidores de maiores e mais sólidas
virtudes, estando já experimentados e tendo fortalecido o seu espírito no
contato com as dificuldades da vida e tendo já colaborado num campo adentro das
finalidades da ação sacerdotal.
Exame das vocações...
77. Carece, porém, examinar sempre
diligentemente cada um dos aspirantes ao sacerdócio, para ver-se com quais
intenções e causas tenham tomado semelhante resolução. De modo especial, quando
se trata de rapazinhos, é preciso investigar se eles se acham dotados dos necessários
dotes morais e físicos, e se aspiram ao sacerdócio unicamente levados pela sua
sublimidade e pela utilidade espiritual própria e alheia.
...e das qualidades físicas
dos candidatos
78. Conheceis, veneráveis irmãos,
quais as condições de idoneidade moral que a Igreja exige nos jovens que
aspiram ao sacerdócio, e reputamos supérfluo deter-nos sobre este argumento. Ao
invés, reclamamos a vossa atenção sobre as condições de idoneidade física, e
isso tanto mais porque a recente guerra deixou funestos traços e perturbou de
diversas maneiras a geração jovem. Examinem-se, portanto, com particular
atenção as qualidades físicas dos candidatos, recorrendo ainda, se preciso, ao
exame por médico prudente.
Com essa escolha das vocações,
feita com zelo e prudência, nos confiamos que surja por toda parte uma
escolhida e numerosa falange de candidatos ao sacerdócio.
2. Cultivo das vocações
É um grave dever
79. Se muitos pastores sagrados
estão preocupados com a diminuição das vocações, de não menores preocupações estão
possuídos quando se trata do cuidado de jovens que já ingressaram no seminário.
Conhecemos, veneráveis irmãos, quão árdua é esta obra e quantas dificuldades
apresenta; mas do cumprimento de tão grave dever tirais grandíssima consolação,
porquanto, como recorda o nosso predecessor Leão XIII, "da cura e das
solicitudes postas na formação dos sacerdotes auferireis frutos sumamente
apetecíveis, e experimentareis que o vosso ofício episcopal será mais
facilmente exercido e muito mais fecundo em frutos".(25)
Julgamos, portanto, oportuno
dar-vos algumas normas, sugeridas pela necessidade, hoje mais sentida que
outrora, de educar santos sacerdotes.
Seja são e sereno o
ambiente
80. É preciso recordar antes de
tudo que os alunos dos seminários menores são adolescentes afastados do natural
ambiente da família. É necessário, portanto, que a vida que os rapazes levam
nos seminários corresponda, quanto possível, à vida normal dos outros rapazes;
será dada, pois, grande importância à vida espiritual, mas em forma adequada à
sua capacidade e ao seu grau de desenvolvimento: que tudo se processe num
ambiente são e sereno. Mas ainda nisto se observe "a justa medida e
moderação", de modo a não suceder que aqueles que devem ser formados para
a abnegação e para as virtudes evangélicas "vivam em casas suntuosas, nos
prazeres e comodidades".(26)
Formar o caráter com o
senso da responsabilidade
81. Deve-se cuidar de modo
especial da formação do caráter de cada rapaz, nele desenvolvendo o senso de
responsabilidade, a capacidade de raciocínio, o espírito de iniciativa. Por
isso aqueles que dirigem os seminários devem recorrer com moderação aos meios
coercitivos, aliviando, ao passo que os jovens crescem em idade, o sistema da
rigorosa vigilância e das restrições, preparando os jovens a guiar-se por si
mesmos e a sentir a responsabilidade de seus atos. Concedam certa liberdade de
ação em determinadas iniciativas, habituem os alunos à reflexão, a fim de que
se lhes torne mais fácil a assimilação das verdades teóricas e práticas; não temam
tê-los ao par dos acontecimentos do dia, que antes, além de lhes fornecerem
elementos necessários para que possam formar e exprimir um reto juízo, ainda
lhes dão ensejo de discuti-los, ajudando-os e habituando-os a julgar e avaliar
com equilíbrio.
Instilar horror pela
dissimulação
82. Deste modo os jovens são
encaminhados para a honestidade e a lealdade, a estima da firmeza e a retidão
de caráter e a aversão por toda forma de dissimulação. Quanto mais sinceros e
simples forem eles, tanto melhor poderão ser conhecidos e bem guiados pelos
superiores no difícil exame da vocação.
Não isolar inteiramente do
mundo
83. Se os jovens - especialmente
os que entraram no seminário em tenra idade - são formados num ambiente
demasiado afastado do mundo, ao saírem do seminário poderão encontrar sérias
dificuldades nas relações tanto com o povo simples, quanto com o laicato culto,
e poderá ocorrer que assumam uma atitude errada e falsa em relação aos fiéis ou
que considerem desfavoravelmente a formação recebida. Por esse motivo, é
preciso diminuir gradativamente e com a devida prudência a separação entre o
povo e o futuro sacerdote, a fim de que este, recebida a sagrada ordenação,
quando iniciar seu ministério, não venha a sentir-se desorientado, o que não
somente seria danoso para o seu espírito, como anularia até a eficácia do seu
trabalho.
A formação intelectual,
literária e científica...
84. Outro grave cuidado dos
superiores é a formação intelectual dos alunos. Tendes certamente presentes,
veneráveis irmãos, as ordenações e disposições que esta Sé Apostólica tem dado
a respeito, e que nós recomendamos a todos já no primeiro encontro que tivemos
com os alunos dos seminários e colégios de Roma no início do nosso
pontificado.(27)
...não inferior à dos
leigos
85. Desejamos aqui, antes de tudo,
recomendar que a cultura literária e científica dos futuros sacerdotes seja
pelo menos não inferior à dos leigos que freqüentam análogos cursos de estudos.
Desse modo não somente será assegurada a seriedade da formação intelectual, mas
ainda será facilitada a seleção dos elementos. Os seminaristas sentir-se-ão
mais livres na escolha de estado e será afastado o perigo de que, pela falta de
uma suficiente preparação cultural, que possa assegurar uma adaptação ao mundo,
alguém se sinta de certo modo constrangido a prosseguir num rumo que não o seu,
adotando a reflexão do administrador infiel: "Lavrar a terra não posso, de
mendigar tenho vergonha" (Lc 16,3). Se, portanto, viesse a suceder que
algum, sobre o qual se depositavam boas esperanças para a Igreja, se afastasse
do seminário, não deveria isso causar preocupações, porque o jovem que tornar
ao mundo não poderá deixar de recordar-se dos benefícios recebidos no
seminário, e com a sua atividade poderá prestar notável contribuição de bem às
obras do laicato católico.
Necessidade da doutrina
filosófica e teológica
86. Embora não descurando os
outros estudos, entre os quais relembramos os atinentes aos problemas sociais,
tão necessários hoje, na formação intelectual dos jovens seminaristas deve-se
dar a máxima importância à doutrina filosófica e teológica "consoante a
norma do Doutor Angélico"(28) adequada aos tempos e informada sobre os
erros modernos. O estudo dessas disciplinas é de suma importância e utilidade,
seja para o espírito do próprio sacerdote, seja para o povo. Os mestres da vida
espiritual afirmam que o estudo das ciências sagradas, desde que seja
ministrado na devida forma e por um sistema apropriado, é um auxílio
eficacíssimo para conservar e alimentar o espírito de fé, refrear as paixões e
manter a alma unida a Deus. Adite-se que o sacerdote, "sal da terra"
e "luz do mundo" (cf, Mt 5,13.14), deve dedicar-se à defesa da fé
pregando o evangelho e rebatendo os erros das doutrinas adversas que hoje andam
disseminadas sob todas as formas entre o povo. Mas semelhantes erros não podem
ser combatidos eficazmente, se não se conhecem a fundo os inconcussos
princípios da filosofia e da teologia católica.
Seguir o método escolástico
87. A esse propósito não vem fora
de lugar recordar que o método escolástico tem particular eficácia para dar
conceitos claros e mostrar que as doutrinas comadas, como sagrado depósito, à
Igreja, mestra dos cristãos, são entre si organicamente conexas e coerentes.
Não faltam hoje alguns que, afastando-se dos ensinamentos do magistério
eclesiástico e negando a clareza e precisão das idéias, não somente abandonam o
sadio método escolástico, como franqueiam caminho aos erros e confusões, como o
demonstra uma triste experiência.
88. Para impedir, portanto, que
nos estudos eclesiásticos se venham a lamentar flutuações e incertezas,
exortamo-vos, veneráveis irmãos, a vigiar assiduamente, a fim de que as normas
precisas, dadas por esta Sé Apostólica, para este estudo, sejam fielmente
acolhidas e postas em prática.
3. Formação espiritual e
moral
A ciência, em si, pode ser
nociva
89. Se com tanta solicitude
recomendamos forte preparação intelectual no clero, é fácil compreender quanto
nos toca ao coração a formação intelectual e moral dos jovens clérigos, sem a
qual mesmo uma ciência eminente se torna infrutífera e pode até produzir danos
incalculáveis, pela soberba e orgulho que inocula nos corações. Por isso, a
Igreja ansiosamente e acima de todas as coisas quer que nos Seminários se
estabeleçam sólidos fundamentos à santidade, que o ministro de Deus deverá
depois desenvolver e praticar durante toda a vida.
Dediquem-se os clérigos à
vida interior
90. Como já o dissemos para os
sacerdotes, assim agora recomendamos que os clérigos tenham uma sincera e
profunda convicção da necessidade da vida espiritual, e portanto sintam o dever
de empregar todo esforço para alcançá-la, para conservá-la e aumentá-la
continuamente.
Seja convicta a sua piedade
91. No curso do dia, com ritmo
mais ou menos uniforme, consoante os horários e programas, fazem eles várias
práticas religiosas e participam de diversos exercícios de piedade. Há
facilmente perigo de que aos exercícios externos de piedade não corresponda um
movimento interior da alma, o que se poderá tornar habitual e até agravar-se quando,
fora do seminário, o ministro de Deus se sentir atormentado pela necessidade de
ação, não raro absorvente.
Executem tudo com fé
92. Haja, portanto, todo cuidado
na formação dos jovens à vida interior, que é a vida do espírito e segundo o
espírito; que eles tudo executem à luz da fé e em união com Cristo, convictos
de que é este grave dever de consciência que incumbe a quem deverá receber um
dia o caráter sacerdotal e representar o divino Mestre na Igreja. Para o
seminarista seria a vida interior o meio mais eficaz para adquirir as virtudes
sacerdotais, a força espontânea proveniente da íntima persuasão que faz superar
as dificuldades e incita à realização dos santos propósitos.
Instilem neles os diretores
as virtudes eclesiásticas...
93. Aqueles que dirigem a formação
moral dos seminaristas tenham sempre em mente o objetivo de fazê-los adquirir
todas as virtudes que a Igreja exige nos sacerdotes. A essas já nos referimos
em outro ponto desta exortação e não pretendemos retornar sobre o mesmo
argumento. Mas não podemos deixar de assinalar e recomendar, entre todas as
virtudes que solidamente devem possuir os aspirantes ao sacerdócio, aquelas
sobre as quais se apóia, como sobre inabaláveis pilares, toda a santidade
sacerdotal.
...particularmente a
submissão...
94. É necessário que os jovens
adquiram o espírito de obediência, habituando-se a submeter sinceramente a sua
vontade à de Deus, manifestada através da legítima autoridade dos superiores.
Nada deverá existir na conduta do futuro sacerdote que se não conforme à
vontade divina. Que esta obediência seja sempre inspirada pelo modelo perfeito
do divino Mestre, que na terra teve um só e único programa: "Fazer, ó
Deus, a tua vontade" (Hb 10, 7).
...e assim tornem-se
verdadeiramente obedientes ao bispo
95. Aprenda desde o seminário o
futuro sacerdote a prestar obediência filial e sincera a seus superiores, para
estar depois sempre pronto a obedecer docilmente ao seu bispo, segundo o
ensinamento do invicto confessor de Cristo, Inácio de Antioquia: "Obedecei
todos ao bispo, como Jesus Cristo obedecia ao Pai".(29) "Quem honra o
bispo é honrado por Deus; quem age às ocultas do bispo serve ao
demônio".(30) "Não façais nada sem o bispo, guardai o vosso corpo
como templo de Deus, amai a união, evitai as discórdias, sede imitadores de
Jesus Cristo como ele o foi de seu Pai".(31)
Seja solidamente possuída e
longamente provada a castidade
96. Empregue-se, por outro lado,
toda a diligência e solicitude, a fim de que os seminaristas apreciem, amem e
guardem a castidade, porque a escolha do estado sacerdotal e a perseverança
nela dependem em grande parte dessa virtude. Estando ela, na sociedade, exposta
a maiores perigos, deve ser solidamente possuída e longamente provada.
Esclareçam-se, portanto, os seminaristas sobre a natureza do celibato
eclesiástico, sobre a castidade que devem observar e sobre as obrigações que
isso comporta, (32) e sejam instruídos acerca dos perigos que se lhes podem
deparar. Sejam advertidos a deles premunir-se desde a tenra idade, recorrendo
fielmente aos meios que lhes oferece a ascética cristã para refrear as paixões;
porque quanto mais firme e eficaz for o domínio sobre elas, tanto mais poderá a
alma progredir nas outras virtudes e tanto mais segura será depois a ação do
seu ministério. Quando, portanto, os jovens clérigos mostrarem a esse respeito
tendências malsãs, e após a devida correção se mostrarem incorrigíveis, é
absolutamente necessário eliminá-los do seminário, antes que atinjam as ordens
sacras.
Cultivem a devoção ao ss.
Sacramento e a nossa Senhora
97. Essas e todas as demais
virtudes do sacerdote podem ser facilmente adquiridas e tenazmente possuídas
pelos seminaristas, se, desde os primeiros anos, houverem eles aprendido e
cultivado uma sincera e delicada devoção a Jesus presente "verdadeira,
real e substancialmente" entre nós no sacramento do seu amor e fizerem do
Deus sacramentado a causa e o fim de todas as suas ações, de suas aspirações e
sacrifícios. E se à devoção a Jesus sacramentado unirem uma filial devoção a
Maria, devoção que seja cheia de confiança e de abandono nela, e que excite a
alma à imitação das suas virtudes, então a Igreja se regozijará porque não
poderá mais faltar o fruto de um ministério ardente e zeloso num sacerdote cuja
adolescência foi alimentada pelo amor a Jesus e a Maria.
Dispensar cuidados ao clero
jovem
98. Aqui não podemos deixar de
endereçar a vós, veneráveis irmãos, uma viva recomendação: dispensar um cuidado
todo particular ao clero jovem.
Prepará-lo santamente para
a vida de ministério
99. A passagem da vida resguardada
e tranqüila do seminário à atividade do ministério pode ser perigosa para o
sacerdote que ingressa no campo aberto do apostolado, se não estiver
suficientemente preparado para tal gênero novo de vida. Podem fracassar as
esperanças tão largamente depositadas em jovens sacerdotes, se estes não forem
gradativamente iniciados no trabalho, sabiamente vigiados e paternalmente
guiados nos primeiros passos do seu ministério.
Criar institutos
adequados...
100. Nós aprovamos, portanto, que
os jovens sacerdotes, quando for isto possível, sejam recolhidos durante alguns
anos em Institutos especiais, onde, sob a direção de superiores experimentados,
possam acrisolar-se na piedade e aperfeiçoar-se nas sagradas disciplinas e ser
preparados para o ministério que melhor corresponda a sua índole e inclinações.
Para tal fim desejamos que em cada diocese, ou ao menos em cada grupo de
dioceses, juntamente, sejam instituídos semelhantes colégios.
...modelados pelo de santo
Eugênio, de Roma
101. No que respeita a nossa
cidade, nós mesmo já o fizemos, quando, ao se completar o 50° aniversário do
nosso sacerdócio, erigimos o Instituto de santo Eugênio para jovens
sacerdotes.(33)
Não encaminhar ao
ministério sacerdotes inexperientes
102. Exortamo-vos, veneráveis irmãos,
a que eviteis, na medida do possível, lançar em cheio na atividade pastoral
sacerdotes ainda inexperientes, e mandá-los para pontos demasiado afastados da
sede da diocese ou de outros centros maiores. Em semelhante situação, de fato,
isolados, inexperientes, expostos a perigos e privados de mestres prudentes,
somente poderão colher danos para si mesmos e para seu ministério.
Aproximá-los de sacerdotes provectos...
103. É, ao invés, particularmente
recomendável que esses jovens sacerdotes sejam colocados ao lado de algum
pároco, pois, desse modo, mediante a direção de pessoa avançada em anos, podem
mais facilmente ser adestrados no sagrado ministério e aperfeiçoar o seu
espírito de piedade. Lembramos a todos os pastores de almas que o futuro dos
novos sacerdotes está em grande parte em suas mãos. O ardente zelo e os
generosos propósitos de que vêm animados, ao iniciar seu ministério, podem ser
apagados ou certamente entibiados pelo exemplo dos anciãos, se nestes não
brilha o esplendor da virtude ou se, sob pretexto de não alterar velhos
hábitos, se mostrassem amantes do ócio.
Promova-se a vida em comum
do clero
104. Aprovamos e recomendamos
vivamente quanto já está contido nos votos da Igreja, (34) isto é, que se
introduza e se estenda o costume da vida em comum entre os sacerdotes de uma
mesma paróquia ou de paróquias limítrofes.
As imensas vantagens que
isso traz
105. Se essa prática da vida em
comum comporta algum sacrifício, nenhuma dúvida há, entretanto, de que dela
provêm grandes vantagens: antes de tudo, alimenta cotidianamente o zelo e o
espírito de caridade entre os sacerdotes; dá, portanto, um admirável exemplo
aos fiéis o desprendimento dos ministros de Deus dos interesses pessoais e da
própria família; é, afinal, testemunho do cuidado escrupuloso com que eles
resguardam a castidade sacerdotal.
Não interromper a vida de
estudo
106. Devem, além disso, os
sacerdotes cultivar o estudo, como sabiamente prescreve o Código de direito
canônico: "Os clérigos não interrompam os estudos, especialmente os sagrados,
depois de recebido o sacerdócio".(35) O mesmo Código, depois, além dos
exames que se devem fazer "ao menos cada ano, durante todo um
triênio",(36) que exige aos novos sacerdotes, prescreve outrossim que o
clero tenha várias vezes por ano reuniões destinadas "a promover a ciência
e a piedade".(37)
Tornar eficientes as
bibliotecas para sacerdotes...
107. Para estimular esses estudos,
que se tornam às vezes difíceis pelas precárias condições econômicas do clero,
seria sumamente oportuno que os ordinários, segundo as luminosas tradições da
Igreja, restituíssem a dignidade e a eficiência às bibliotecas das catedrais,
dos colégios ou das próprias paróquias.
108. Essas bibliotecas
eclesiásticas, não obstante as espoliações e dispersões sofridas, não raramente
possuem uma preciosa herança de pergaminhos, livros manuscritos e impressos,
"testemunho eloqüente tanto da atividade e influência da Igreja, como da
fé e piedade generosa dos antepassados, dos seus estudos ou do seu bom
gosto".(38) Que essas bibliotecas não sejam depósitos de livros
abandonados, mas, ao contrário, estruturas vivas, com una sala adaptada à
consulta dos livros e à leitura. Antes do mais, porém, sejam elas atualizadas e
enriquecidas com obras de todos os gêneros, especialmente das relativas às
questões religiosas e sociais dos nossos tempos, de modo que os professores, os
párocos e particularmente os jovens sacerdotes possam aí adquirir a doutrina
necessária para difundir as verdades do evangelho e para combater os erros.
IV. PERIGOS DO NOSSO TEMPO
PROBLEMAS DE
ATUALIDADE
1. Perigos do nosso tempo
109. Julgamos ser, enfim, do nosso
oficio, veneráveis irmãos, endereçar-vos uma advertência sobre as dificuldades
peculiares ao nosso tempo. Já observastes que entre os sacerdotes,
especialmente entre aqueles menos providos de doutrina e de vida menos severa,
vai-se difundindo, de modo cada vez mais grave e preocupante, certo espírito de
novidade.
Quando o espírito de
novidade pode ser louvável
110. A novidade nunca foi por si
mesma um critério de verdade, e só pode ser louvável quando confirma a verdade
e leva à retidão e à virtude.
Novidades perniciosas
contra as quais se deve estar em guarda
111. A época em que vivemos sofre
de grave perturbação em todos os terrenos: sistemas filosóficos que nascem e
morrem, sem em nada melhorarem os costumes; monstruosidade de certa arte, que
no entanto pretende julgar-se cristã; critérios de governo que em muitos
lugares se convertem antes na opressão dos cidadãos do que em bem comum;
métodos de vida e de relações econômicas e sociais em que correm maior perigo
os honestos do que os velhacos. Daí deriva quase naturalmente que não faltem de
todo em nossos tempos sacerdotes infectados, de alguma maneira, de semelhante
contágio, e que manifestam opiniões e levam um teor de vida, até no modo de
vestir-se e cuidar de si, inteiramente contrários tanto à sua dignidade como à
sua missão; que se deixam empolgar pela mania de novidades, seja no pregar aos
fiéis, seja no modo de combater os erros dos adversários; e que comprometem,
portanto, não somente sua consciência, mas ainda sua boa fama e, então, a
eficácia do seu ministério.
Cabe aos ordinários a
atualização dos métodos de apostolado
112. Sobre tudo isso, veneráveis
irmãos, alertamos vivamente a vossa vigilância, certos de que vós, entre a
ânsia de novidades e o exagerado apego ao passado, usareis aquela prudência que
é sempre sábia e vigilante, mesmo quando experimenta novos rumos de atividade e
de luta pelo triunfo da verdade. Bem longe estamos de pretender que o apostolado
não se deva adaptar à realidade da vida moderna e não se devam promover
iniciativas adequadas às necessidades do nosso tempo. Como, porém, todo o
apostolado sacerdotal que a Igreja desenvolve é essencialmente hierárquico, não
se introduzam novas formas senão com o beneplácito do ordinário. Os ordinários
de uma mesma região ou de uma mesma nação procurem, nesta matéria, estabelecer
entre si um entendimento com a finalidade de prover às necessidades locais e de
estudar os métodos mais idôneos e consentâneos com o apostolado religioso.
Assim tudo se fará em ordem e disciplina e se poderá ter certeza da eficácia da
ação sacerdotal. Estejam todos persuadidos disto: que é preciso escutar a voz
de Deus e não a do mundo, e regular a atividade do apostolado segundo as
diretrizes da hierarquia e não segundo opiniões pessoais. É vã ilusão acreditar
que se possa dissimular a própria pobreza interior e cooperar eficazmente na
difusão do reino de Cristo com a extravagância e a incongruência dos métodos de
ação.
2. O clero e a questão
social
113. Semelhante retidão de atitude
se impõe aos sacerdotes em face às doutrinas sociais do tempo presente.
Nenhuma incerteza contra o
comunismo
114. Alguns existem que, frente à
iniqüidade do comunismo, que visa a destruir a fé naqueles mesmos a quem
promete o bem-estar material, se mostram atemorizados e incertos; mas esta Sé
Apostólica, em documentos recentes, indicou claramente qual o caminho a seguir
e do qual ninguém se poderá afastar, se não quiser faltar ao próprio dever.
Denunciar as conseqüências
ruinosas do capitalismo
115. Outros, porém, se mostram
tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de
capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves
conseqüências. A Igreja, de fato, apontou não somente os abusos do capital e do
próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem
igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da
produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da
liberdade e da dignidade da pessoa humana. Os erros dos dois sistemas
econômicos e as ruinosas conseqüências que deles derivam devem a todos
convencer, e especialmente aos sacerdotes, a manter-se fiéis à doutrina social
da Igreja e a difundir-lhe o conhecimento e a aplicação prática. Essa doutrina
é, realmente, a única que pode remediar os males denunciados e tão
dolorosamente difundidos: ela une e aperfeiçoa as exigências da justiça e os
deveres da caridade, promove tal ordem social que não oprima os cidadãos e não
os isole num egoísmo seco, mas a todos una na harmonia das relações e nos
vínculos da solidariedade fraternal.
Ir ao encontro dos pobres e
dos ricos
116. A exemplo do divino Mestre,
vá o sacerdote ao encontro dos pobres, dos trabalhadores, daqueles todos que se
encontram em angústia e miséria, entre os quais estão também muitos da classe
média e não raros confrades de sacerdócio. Mas não se descuide tampouco
daqueles que, embora ricos de bens de fortuna, são no entanto os mais pobres de
alma e têm necessidade de ser chamados à renovação espiritual, para dizerem
como Zaqueu: "Dou a metade dos meus bens aos pobres, e, se tiver
defraudado alguém, restituirei o quádruplo" (Lc 19, 8). No campo das
discórdias sociais, portanto, não perca jamais de vista o sacerdote o fim de
sua missão. Com zelo, sem temor, deve apresentar os princípios católicos acerca
da propriedade, das riquezas, da justiça social e da caridade cristã entre as
diversas classes, e dar a todos exemplo manifesto de sua aplicação.
Preparar os leigos para os
deveres sociais
117. Normalmente a realização
desses princípios sociais cristãos na vida pública compete aos leigos; mas onde
não os há capazes, ponha o sacerdote todo empenho em formá-los
convenientemente.
3. Ajuda ao clero pobre
118. Este argumento nos obriga
oportunamente a dizer uma palavra sobre as condições econômicas em que neste
pós-guerra vieram a encontrar-se muitíssimos sacerdotes, particularmente nas
regiões que majoritamente sentiram as conseqüências da guerra e da situação
política determinada pelo recente conflito. Angustia-nos profundamente
semelhante estado de coisas e nada temos poupado para aliviar, conforme as
nossas possibilidades, as dificuldades, a miséria e extrema indigência de
muitos.
Faculdades extraordinárias
concedidas aos bispos
119. Vós, veneráveis irmãos, bem
conheceis como interviemos nos lugares onde maior se fazia sentir a
necessidade, até por intermédio da Sagrada Congregação do Concílio, concedendo
aos bispos faculdades extraordinárias a fim de que fossem eliminadas clamorosas
desproporções de condições econômicas entre sacerdotes de uma mesma diocese, e
consta-nos que em numerosos lugares os sacerdotes atenderam aos convites de
seus pastores de um modo digno de encômios; noutros lugares, porém, devido a
graves dificuldades, ainda não foi possível pôr integralmente em prática as
normas estabelecidas. Exortamo-vos, portanto, a prosseguir com ânimo paternal
no rumo empreendido, e a notificar-nos dos frutos de vossos esforços, porque
não é admissível que falte o pão cotidiano ao operário que trabalhou e continua
a trabalhar na vinha do Senhor.
Promoção da previdência
social para os sacerdotes
120. Louvamos vivamente, além
disso, veneráveis irmãos, todas as iniciativas que tomardes de comum acordo, a
fim de que não somente não falte aos sacerdotes o necessário para o dia de
hoje, mas que lhes seja também assegurado o futuro, por meio do sistema de
previdência já vigente e que tanto enaltecemos nas outras classes, e que
asseguram uma conveniente assistência nos casos de moléstia, de invalidez e
velhice. Desse modo libertareis os sacerdotes das preocupações conseqüentes da
incerteza do futuro.
Encômio ao clero que
socorre os confrades de sacerdócio
121. A esse propósito exprimimos a
nossa paternal satisfação a todos os sacerdotes que, mesmo à custa de
sacrifícios, tenham vindo ou vierem ainda ao encontro das necessidades dos
confrades necessitados, especialmente se doentes ou idosos. Agindo dessa
maneira, dão eles prova luminosa daquela caridade mútua que Jesus Cristo
indicou como sinal distintivo dos seus discípulos: "Nisto todos conhecerão
que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13, 35). E
nós desejamos que esses vínculos de fraterna caridade se tornem cada vez mais estreitos
entre os sacerdotes de todas as nações, a fim de que seja sempre mais manifesto
que eles, ministros de Deus, Pai universal, pertençam a qualquer raça, estão
entre si unidos pelo vínculo da caridade.
Ensinar os fiéis a socorrer
o clero pobre
122. Vós, contudo, bem
compreendereis que semelhante problema não poderá ser convenientemente
resolvido, se os fiéis não sentirem intimamente o dever de auxiliar o clero,
cada qual segundo suas possibilidades pessoais, e se não se adotarem todos os
meios para atingir esse escopo.
123. Por isso, fazei compreender
aos fiéis confiados aos vossos cuidados a obrigação que têm de ir em socorro
dos seus sacerdotes que se encontrem necessitados, para o que é sempre oportuna
a palavra do Senhor: "O operário é digno do seu salário" (Lc 10,7).
Como se poderá esperar uma atividade fervorosa e alegre dos sacerdotes, se
carecem eles do necessário? De resto, os fiéis que se descuidam desse dever,
aplanam, embora involuntariamente, o caminho aos inimigos da Igreja, que em não
poucos países procuram exatamente empobrecer o clero para poderem segará-lo dos
legítimos pastores.
A obrigação que têm de o
fazer os poderes públicos
124. Também os poderes públicos,
conforme as diversas condições de cada país, têm a obrigação de prover às
necessidades do clero, de cuja ação recebe a sociedade civil incalculáveis
benefícios espirituais e morais.
Exortação final
Resumo e programa de vida
125. Pondo remate à nossa
exortação, não nos podemos abster de reunir e repetir quanto desejamos se grave
cada vez mais profundamente em vosso espírito, como programa da vossa vida e da
vossa atividade. Somos sacerdotes de Cristo: por isso devemos dedicar-nos com
todas as forças a que a redenção por ele realizada tenha a mais eficaz
aplicação em todas as almas. Consideradas as imensas necessidades dos nossos
tempos, devemos empregar todo esforço para reconduzir a Cristo os irmãos
desviados pelo erro ou obcecados pelas paixões; para esclarecer os povos com as
luzes da doutrina cristã, para guiá-los segundo os preceitos do evangelho e
incutir-lhes uma consciência cristã mais perfeita, para, finalmente, incitá-los
à luta pelo triunfo da verdade e da justiça.
Transfundindo-lhes a vida
haurida de Jesus
126. Atingiremos a meta prefixada
somente quando tivermos atingido a nossa santificação, de modo a podermos
transfundir nos outros a vida que houvermos haurido de Cristo.
Mostrando-nos como modelos
de bondade
A cada sacerdote repetimos,
portanto, a palavra do Apóstolo: "Não negligencies a graça que está em ti
e que te foi dada por profecia, com a imposição das mãos do presbitério"
(1Tm 4,14); "Em tudo, mostra-te modelo de boas obras: na doutrina,
integridade incorruptível, gravidade, linguagem sã, irrepreensível, para que o
adversário seja confundido, não tendo mal algum que dizer de nós" (Tt
2,7-8).
Prezar a vocação e vivê-la
santamente
127. Diletos filhos, tende em sumo
conceito a graça da vossa vocação, e vivei-a de modo que produza copiosos
frutos, para edificação da Igreja e para a conversão dos seus inimigos.
Renovar-se espiritualmente
neste ano santo
A fim de que nossa exortação
alcance o fim esperado, dirigimo-vos com particular afeto estas palavras, que,
na ocorrência do ano santo, são tanto mais oportunas: "Renovai-vos no
espírito do vosso entendimento, e revesti-vos do homem novo, que, segundo o
ideal de Deus, foi criado em justiça e santidade da verdade" (Ef 4,23-24);
"Sede... imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai na
caridade, como também Cristo nos amou e se entregou por nós, como oferenda e
sacrifício a Deus, em odor de suavidade" (Ef 5,1-2); "Enchei-vos do
Espírito Santo, falando uns aos outros com salmos, hinos e cânticos
espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vossos corações" (Ef
5,18-19); "vigiando com todo fervor, suplicando por todos os santos"
(Ef 6,18)
Exortação a que se faça um
curso extraordinário de exercícios espirituais...
128. Meditando nesses incitamentos
do apóstolo das gentes, parece-nos oportuno sugerir-vos que, no decorrer deste
ano santo, façais um curso extraordinário de exercícios espirituais, de forma
que, cheios de um novo fervor de piedade, possais conduzir também as outras
almas aos tesouros da indulgência divina.
...e à confiança em Maria,
Mãe dos sacerdotes...
129. E, enfim, quando
experimentardes mais graves dificuldades no caminho da santidade e no exercício
do vosso ministério, volvei confiantemente vossos olhos e vosso espírito àquela
que é a Mãe do Eterno Sacerdote, e Mãe, portanto, de todos os sacerdotes
católicos. Conheceis muito bem a bondade dessa Mãe, e até em muitas regiões
fostes os humildes instrumentos da misericórdia do Coração imaculado de Maria
no resguardo da fé e da caridade do povo cristão.
130. Se Maria a todos ama com
terníssimo amor, de modo todo particular ela prefere os sacerdotes, que são a
imagem viva do seu Jesus. Reconfortai-vos ao pensamento desse amor da Mãe
divina a cada um de vós, e se tornarão para vós mais fáceis as fadigas da vossa
santificação e do ministério sacerdotal.
...à qual o santo padre
confia o clero de todo o mundo
131. À puríssima Mãe de Deus,
mediadora das graças celestiais, nós confiamos os sacerdotes de todo o mundo, a
fim de que, por sua intercessão, Deus faça descer uma larga efusão do seu
Espírito, que impulsione todos os ministros do altar à santidade e, pelo seu
ministério, renove espiritualmente a face da terra.
Bênção especial ao clero
perseguido
132. Confiante no valioso
patrocínio da imaculada Virgem Maria para a realização destes votos, imploramos
a abundância das divinas graças sobre todos, mas especialmente sobre os bispos
e os seus sacerdotes, que, pela defesa dos direitos e da liberdade da Igreja,
sofrem perseguições, cárceres e exílios. A esses expressamos nosso vivíssimo
afeto, e os exortamos com ânimo paternal a que continuem a dar exemplo de fortaleza
e de virtudes sacerdotais.
Benção a todos os
sacerdotes
Seja augúrio destas graças
celestiais e testemunho de nossa paternal benevolência, a bênção apostólica que
de todo coração concedemos a vós todos e a cada um, veneráveis irmãos, e a
todos os vossos sacerdotes.
Dada em Roma, junto a S.
Pedro, no dia 23 de setembro do ano santo de 1950, XII do nosso pontificado.
PIO PP. XII.
Notas
1. Prefácio da Missa de Jesus
Cristo Rei.
2. Exort. Haerent ânimo, Acta
Pii X, vol. IV, p. 237ss.
3. Carta Enc. Ad cath. sacerdotii, AAS 28(1936), p. 5ss.
4. AAS 35(1943), p.193ss.
5. AAS 39(1947), p. 521ss.
6. Pont. Rom., De Ord. Presbyteri.
7. CIC cân.,124.
8. Missal Romano, Cânon.
9. Pont. Rom., na ord. do
diácono.
10. Imitação de Cristo, IV,
c. 5, v.13,14.
11. S. Atanásio, De Incarn.,
n.12; Migne, PG 26,1003s.
12. Cf. s. Agostinho, De civ.
Dei, 1. X, c. 6; Migne, PL 41, 284.
13. Sermo 108: PL 52,
500-501.
14. AAS 39(1947), pp. 552-553.
15. Brev. Romano, Hino para
a Dedic. de uma igreja.
16. S. Agostinho, Enarrat. in Ps. 85, n. l; Migne, PL
37,1081. Este texto foi editado em português pela Paulus, com o
título Comentário aos Salmos.
17. Cf. Enc. Mediator Dei, AAS
39(1947), p. 574.
18. Cf.CIC, cânon 125, 2°.
19. Cf. CIC, cânon 125, 2°.
20. CIC, cân.125,1°.
21. Enc. Mystici Corporis: AAS 35(1943), p. 235.
22. Cf. AAS 36(1944), p. 239; Ep. Cum
proxime exeat.
23. Cf. Alocução de 12 de setembro
de 1947.
24Cf. cânon 1353.
25. Enc. Quod multum, aos bispos húngaros, 22 de
agosto de 1886, Acta Leonis XIII, vol. VI, p.158.
26. Cf. Aloc. de 25 de Novembro de
1948, AAS 40(1948), p. 552.
27. Cf. Discurso de 24 de junho de
1939, AAS 31(1939), p. 245-251.
28. Cf. CIC, cânon 1366 2°.
29. Ad Smyrnaeos, VIII,1; Migne, PG 8, 714.
30. Ibid. IX,1, PG 714-715.
31. Ad Philadelphienses, VII, 2, Migne, PG 5, 700.
32. Cf. CIC, cânon 132.
33. Cf. AAS 41(1949), p.165-167.
34. Cf. CIC, cânon 134.
35. Cânon 129.
36. Cânon 130, l°.
37. Cânon 131,1°.
38. Carta do Card. P. Gasparri ao
Episcopado da Itália, l5 de abril de 1923; Ench. Clericorum, Tip. Polig.
Vat.,1937, p. 613.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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