CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII
MEMINISSE IUVAT
ORAÇÕES PÚBLICAS
PELA PAZ DO MUNDO
E LIBERDADE DA IGREJA
NA NOVENA DA ASSUNÇÃO
Aos
veneráveis irmãos,
Patriarcas,
Primazes,
Arcebispos,
Bispos
e aos
outros Ordinários de lugares,
em paz e
comunhão com a Sé Apostólica
1.
Parece-nos oportuno lembrar que, quando novos perigos ameaçavam o povo cristão
e a Igreja, esposa do divino Redentor, nós, tal como nos séculos passados já
haviam feito os nossos predecessores, volvemo-nos suplicantes para a virgem Maria,
nossa Mãe amorosa, e convidamos todo o rebanho a nós confiado a abandonar-se
confiantemente à sua proteção. E, enquanto o mundo era enlutado por uma guerra
espantosa, tudo fizemos para exortar à paz cidades, povos e nações, e para
revocar as almas, dilaceradas pelas contendas, ao mútuo acordo em nome da
verdade, da justiça e do amor; e não nos limitamos só a isso, mas, percebendo
que vinham a.faltar-nos os meios e recursos humanos, por meio de diversas
cartas admoestadoras, convocando como que uma santa competição de orações,
invocamos o auxílio celeste mediante a poderosa intercessão da grande Mãe de
Deus, a cujo coração imaculado consagramos, conosco, toda a família humana.(1)
2. No
momento presente, se finalmente se acalmou o embate bélico dos povos, todavia
ainda não reina a justa paz, nem a vêem os homens consolidar-se num
entendimento fraterno; circulam, com efeito, germes latentes de discórdia, que
de vez em quando irrompem ameaçadoramente, e mantêm os ânimos em ansiosa
trepidação, tanto mais quanto as espantosas armas, ora descobertas pelo engenho
humano, são de tamanha expressão, que podem arrasar e submergir no extermínio
universal não só os vencidos, mas também os vencedores e a humanidade inteira.
I
3. Mas, se
com ânimo pensativo examinamos as causas de tantos perigos, presentes e
futuros, facilmente vemos que as decisões, as forças e as instituições dos homens
são inevitavelmente destinadas a falhar sempre que ou é descurada, ou não é
colocada no seu justo lugar, ou é positivamente suprimida a autoridade de Deus
- que ilumina as mentes com os seus mandamentos e as suas proibições, e que é
princípio e garantia da justiça, fonte da verdade e fundamento das leis. Toda
casa que não se apóia numa base sólida e segura rui; toda inteligência que não
é iluminada pela luz de Deus afasta-se mais ou menos da plenitude da verdade;
surgem as discórdias, aumentam, avolumam-se, se a caridade fraterna não
afervora os cidadãos, os povos e as nações.
4. Ora, só
a religião cristã ensina essa verdade plena, essa justiça perfeita e essa
caridade divina que elimina ódios, animosidades e lutas; de fato, só ela as
recebeu em custódia, do divino Redentor, caminho, verdade e vida (cf. Jo 14,6),
e com todas as forças deve fazê-las pôr em prática. Não há dúvida, então, de
que aqueles que querem deliberadamente ignorar a religião cristã e a Igreja
católica, ou que se esforçam por lhes opor obstáculos, por desconhecê-las, por
submetê-las, enfraquecem com isso as bases da sociedade, ou as substituem por
outras que absolutamente não podem sustentar o edifício da dignidade, liberdade
e bem-estar humanos.
5.
Necessário é, portanto, voltar aos preceitos do cristianismo, se se quiser
formar uma sociedade sólida, justa e equitativa. É prejudicial, é imprudente
entrar em conflito com a religião cristã, cuja duração perene é garantida por
Deus e provada pela história. Reflita-se em que um estado, sem a religião, não
pode ter nem retidão moral nem ordem. A religião é que faz com que as almas
sejam formadas na justiça, na caridade, na obediência às leis justas; ela
condena e proscreve o vício; induz os cidadãos à virtude; antes, rege-lhes e
regula-lhes a conduta pública e privada; ensina que a melhor distribuição da
riqueza não se obtém pela violência e pela revolução, mas mediante normas
justas, de modo que o proletário que ainda não tenha os meios de vida
necessários e oportunos pode ser elevado a uma condição mais decorosa, com
feliz solução para as dissensões sociais; desse modo ela traz um eficaz
contributo à boa ordem e à justiça, se bem que não tenha sido instituída
unicamente para proporcionar e aumentar as comodidades da vida.
6.
Tornando, pois, a pensar em tais coisas com aquela disposição de ânimo que nos
coloca acima das disputas humanas, e que nos faz amar paternalmente os povos de
todas as raças, duas coisas se nos antolham e nos proporcionam intensas
angústias e preocupações. De fato, de um lado vemos que em não poucos países os
preceitos cristãos e a religião católica não são tidos na necessária
consideração. Turbas de cidadãos, especialmente do povo menos instruído, com
facilidade são atraídas por erros amplamente divulgados e, não raro, revestidos
da aparência da verdade; as lisonjas e os incentivos do vício, que com influxos
nefastos perturbam os ânimos, por meio de publicações de todo gênero, de
espetáculos cinematográficos e de televisão corrompem especialmente a juventude
incauta. Muitos escrevem e difundem as suas obras não para servirem à verdade e
à virtude, e nem para proporcionarem um justo passatempo aos leitores, mas sim
para, com objetivo de lucro, lhes excitarem as turvas paixões; ou para ofender
e enlamear com mentiras, calúnias e ofensas tudo aquilo que é sagrado, nobre e
belo. Muitas vezes - é doloroso dizê-lo - a verdade é deturpada; e dá-se
público relevo a coisas falsas e vergonhosas. Não há, pois, quem não veja
quanto mal daí promane para a própria sociedade, e quanto dano para a Igreja.
7. Por
outro lado, com suma dor do nosso coração de pai vemos que a Igreja católica,
de rito quer latino quer oriental, em não poucas nações é oprimida por graves
vexames; põem-se os fiéis e os ministros do culto, senão com palavras, certamente
com os fatos, em face deste dilema: ou abster-se de professar e difundir
publicamente a sua fé, ou sofrer danos, mesmo graves. Muitos bispos já foram
expulsos da sua Sé ou impedidos de exercer livremente o ministério, ou
aprisionados, ou mandados para o exílio. Numa palavra, tenta-se temerariamente
fazer verificar o dito: "Ferirei o pastor e o rebanho será
dispersado" (Mt 26,31; cf. Zc 13,7).
8. Além
disso, os jornais, as revistas, as publicações católicas são quase totalmente
silenciadas, como se a verdade fosse domínio e arbítrio exclusivo de quem
manda, e como se as ciências divinas e humanas e as artes liberais não tivessem
o direito de ser livres, para poderem florescer em proveito do bem público.
9. As
escolas, outrora abertas pelos católicos, são vedadas e abolidas; no lugar
delas foram instituídas outras, que ou absolutamente não ministram as noções de
Deus e da religião, ou proclamam e difundem as máximas do ateísmo, coisa que
sucede freqüentemente.
10. Os
missionários, que, tendo abandonado sua casa e a doce terra natal, haviam
suportado graves e numerosos incômodos para propiciarem aos outros a luz e a
força do evangelho, têm sido expulsos de muitos lugares, como indivíduos
nocivos e perigosos; destarte, o clero que fica, desigual em número em confronto
com a extensão territorial, e não raro mal visto e perseguido, não pode prover
às exigências dos fiéis.
11. Com
dor vemos que às vezes são espezinhados os direitos da Igreja, só à qual
compete, sob o mandato da Santa Sé, escolher e consagrar os Bispos destinados a
governarem legitimamente o rebanho cristão; e isso sucede com grande dano para
os fiéis, como se a Igreja católica fosse coisa interna de uma só nação,
dependente da autoridade civil, e não uma instituição divina, e destinada a
acolher todos os povos.
12.
Malgrado essas graves e dolorosas angústias, há todavia alguma coisa que dá
grande conforto ao nosso coração de Pai. Sabemos, com efeito, que a maior parte
dos fiéis de rito latino e oriental permanecem, com todas as forças, apegados a
fé avoenga, conquanto estejam privados daqueles auxílios espirituais que os
seus pastores poderiam administrar-lhes se de tal não estivessem impedidos.
Continuem eles, pois, com coragem, e tornem a pôr a sua esperança naquele que
conhece o pranto e os sofrimentos dos que "sofrem perseguição por amor da
justiça" (Mt 5,10); Ele "não faz tardar demais a sua promessa"
(2Pd 3,9), mas consolará imalmente seus filhos com justo prêmio.
13. Com
paterno afeto exortamos, pois, de modo particular aqueles nossos veneráveis
irmãos e filhos diletos, que são impelidos de todos os modos, mesmo dolosos e
insidiosos, a deixarem a firme, sólida e constante união com a Igreja, e a
estreita fidelidade a esta Sé Apostólica, sem a qual tal unidade não pode ter
nenhum fundamento seguro. Com efeito, ninguém ignora que em alguns lugares essa
unidade é alvo de insídias e combatida com opiniões enganosas e com todas as
artes. Lembrem-se, porém, todos de que o corpo místico de Jesus Cristo, a
Igreja, deve ser "compacto e ligado por todas as junturas de comunicação,
segundo uma operação proporcionada a cada membro" (Ef 4,16); "até que
se reúnam todos, na unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus, num homem
perfeito, na medida da idade plena de Cristo" (Ef 4,13), de quem o
pontífice romano, como sucessor de Pedro, é, por disposição divina,
estabelecido vigário na terra. Recordem e meditem estas sapientas palavras de
s. Cipriano, bispo e mártir: "O Senhor assim fala a Pedro: 'Digo-te que és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja'... (cf. Mt 16,18s). Só sobre ele educa a Igreja...
Esta unidade devemos firmemente manter e defender, especialmente nós bispos,
que na Igreja governamos... Também a Igreja é una, e estende-se amplamente a
uma grande multidão com o incessante incremento da sua fecundidade; do mesmo
modo que os raios do sol são muitos, mas uma só é a luz; e muitos são os ramos
da árvore, mas um só é o tronco, que se afunda no terreno com resistentes
raízes; e, quando de uma só fonte jorram diversos cursos de água, embora pareça
que o número deles se ramifique por causa da abundância de água irrompente,
todavia há sempre uma só fonte. Podes arrancar do sol um raio, mas a unidade da
luz não se divide; podes quebrar um ramo da árvore, mas, quebrado, ele não
poderá mais germinar; interceptas um córrego da sua fonte, e ele secará. Assim
também a Igreja, inundada pela luz de Deus, envia os seus raios a todo o
universo; todavia é um só esplendor o que por toda parte se difunde; e a
unidade do organismo não é dividida. Ela estende os seus ramos sobre toda a
terra com luxuriante riqueza, despeja por toda parte córregos amplamente
transbordantes; mas um só é o tronco, uma só a fonte... E não pode ter Deus
como pai quem não tem como mãe a Igreja... Quem não mantém essa unidade não mantém
a lei de Deus, não mantém a fé do Pai e do Filho, não tem a vida e a
salvação".(2)
14. Essas
palavras do santo bispo mártir serão de conforto, de exortação, de defesa
especialmente para aqueles que, não podendo de modo algum, ou senão com
dificuldade, estar em relações com a Sé Apostólica, se acham em grandes
perigos, e têm de vencer diversos obstáculos e ciladas. Confiem todavia no
auxílio de Deus, e não deixem de invocá-lo com fervorosas súplicas. E
lembrem-se de que todos os perseguidores da Igreja - ensina-o a história - têm
passado como uma sombra, enquanto que o sol da verdade divina nunca se põe,
porque "a palavra de Deus permanece para sempre" (1Pd 1,25). A
sociedade fundada por Cristo pode ser combatida, mas não vencida, porque haure
a sua força não dos homens, mas sim de Deus. Antes, não há dúvida de que ela
deve ser martirizada nos séculos por perseguições, contrariedades, calúnias,
como sucedeu ao seu divino Fundador, consoante a profecia: "Se a mim me
perseguiram, perseguirão também a vós" (Jo 15,20); mas é igualmente certo
que, no fim, assim como Cristo nosso redentor triunfou, ela também alcançará
sobre todos os seus inimigos uma pacífica vitória. Confiai, pois; sede fortes e
constantes. Exortamo-vos ainda com as palavras de santo Inácio, embora
estejamos certos de que não precisais de exortações: "Sede gratos àqueles
por quem combateis... Nenhum dentre vós se torne desertor, Seja o vosso batismo
como uma arma, a fé como um elmo, a caridade como uma lança, a paciência como
uma armadura completa. Sejam as vossas obras os vossos tesouros, a fim de que
mereçais uma digna recompensa".(3)
15. Além
disso, dêem-vos as belas palavras de santo Ambrósio bispo, uma segura esperança
e uma fortaleza inabalável: "Empunha o leme da fé, a fim de que te não
perturbem as tempestuosas procelas deste mundo. É bem verdade que o mar é vasto
e imenso, porém, não temais; pois ele a fundou sobre os mares e estabeleceu-a
sobre os rios (Sl 23,2). Não sem razão, pois, a Igreja do Senhor persiste
imóvel no meio de tantas ondas, porque fundada na rocha apostólica, e persevera
sobre o seu fundamento, imóvel contra as fúrias do mar (cf. Mt 16,18). É batida
pelas ondas, mas não sacudida; e se bem que, quebrando-se, os vagalhões deste
mundo lhe rumorejem em volta, ela tem todavia um porto seguro para receber os
nautas fatigados".(4)
II
16. Assim
como já desde a idade apostólica, quando os cristãos em algum lugar sofriam
perseguições particulares, todos os outros, ligados por vínculos de caridade,
com unânime consenso fraterno elevavam súplicas e preces a Deus, Pai das
misericórdias, para que lhes infundisse força e fizesse quanto antes
resplandecer tempos melhores para a Igreja; assim também no presente, ó
veneráveis irmãos, desejamos que a todos aqueles que, nas regiões da Europa e
da Ásia oriental, são assim demoradamente provados por uma condição de coisas a
eles adversa e penosa, não venham a faltar os auxílios e os confortos divinos,
implorados por seus irmãos.
17. E,
visto que muito confiamos no interposto patrocínio da virgem Maria, exprimimos
ardentes votos para que em todas as regiões da terra, durante a novena que
costuma preceder a festa da augusta Mãe de Deus assunta ao céu, os católicos
elevem preces públicas, de modo particular pela Igreja que, como se disse, em
algumas regiões é vexada e afligida.
18.
Nutrimos a esperança de que a virgem Mãe, que durante o ano santo de 1950, não
sem divina vontade foi por nós proclamada Assunta ao céu em alma e corpo; (5)
ela, que por nós foi solenemente declarada Rainha do céu, e como tal deve ser
por todos venerada; (6)
ela, enfim, a quem, ao completar-se um século de quando, na Gruta de Lourdes,
como benigna dispensadora de bens, apareceu a uma inocente menina, convidamos
as multidões dos peregrinos para que pudessem fruir das suas graças maternas;(7)
ela no duvidamos, de modo algum quererá afastar e repelir os nossos votos e as
preces universais dos católicos.
19.
Esforçai-vos, pois, ó veneráveis irmãos, para que, com a vossa exortação e com
o vosso exemplo, os fiéis a vós confiados, o mais numerosos e o mais súplices
possível acorram nos dias estabelecidos aos altares da Mãe de Deus, a qual
"para todo o gênero humano foi feita causa de salvação"; (8)
e, com uma só voz e com um só coração, implorem que finalmente em toda parte
seja restituída à Igreja a liberdade; essa liberdade que para ela serve não só
para obter a eterna salvação dos homens, mas também para confirmar as justas
leis com o dever de consciência, e para consolidar os fundamentos da sociedade
civil. Implorem de modo especial, do materno patrocínio, que os sagrados
pastores mantidos longe do seu rebanho, ou impedidos de exercer livremente o
seu ministério, possam, quanto antes, como é de dever, ser restituídos ao seu
antigo estado; que os fiéis perturbados por insídias, erros e dissídios, na
plena luz da verdade alcancem completa concórdia e caridade; que todos os que
estão na incerteza da dúvida e fracos sejam revigorados pela divina graça, de
modo que estejam prontos e dispostos a tudo sofrer antes que a se desligarem da
fé cristã e da unidade católica. Possam as dioceses - é este o objeto dos
nossos ardentes desejos - ter o seu legítimo pastor; possam difundir a lei
cristã livremente em todas as regiões e em todas as classes citadinas; possam
os jovens nas escolas primárias e superiores, nas oficinas e nos campos, não
ser enredados nas ideologias do materialismo, do ateísmo, do hedonismo, que
debilitam o vôo da mente e tiram o vigor às virtudes; senão que, em vez disso,
sejam iluminados pela luz da sabedoria evangélica, que os estimule, eleve e
dirija para tudo o que é ótimo. Em toda parte, abram-se à verdade os caminhos;
ninguém lhe oponha obstáculos; todos compreendam que, com o correr do tempo,
nada pode resistir à verdade, e nada pode opor-se duradouramente à caridade.
20.
Possam, enfim, quanto antes, os missionários voltar para entre aquela gente que
eles ganharam para Cristo com o seu zelo apostólico e com o suor das suas
fadigas, e que ardentemente eles desejam fazer progredir na civilização cristã,
mesmo à custa de trabalhos, sacrifícios e dores.
21. Tudo
isso implorem da divina Mãe os féis; e não omitam pedir perdão para os próprios
perseguidores da religião cristã, secundando o impulso daquela caridade pela
qual o apóstolo das gentes não hesitou em asseverar: "Bendizei aqueles que
vos perseguem" (Rm 12,14); nem desistam de invocar para eles as graças e
as luzes celestes que possam ao mesmo tempo dissipar-lhes as trevas e pôr-lhes
na reta ordem as consciências.
III
22. Mas a
essas súplicas públicas, como bem sabeis, veneráveis irmãos, mister se faz seja
adotada a reforma cristã dos costumes, sem a qual as nossas preces são vozes
vãs que absolutamente não podem ser agradáveis a Deus. Pela caridade terna e
ardente com que os cristãos todos amam a Igreja católica, não somente elevem
eles ao céu piedosas preces, mas também ofereçam sentimentos de penitência,
obras virtuosas, sacrifícios, penas, e todas as dores e asperezas, as
necessariamente inerentes a esta vida mortal, e também aquelas a que às vezes,
livremente, com ânimo generoso, convém sujeitarmo-nos.
23. Com
essa auspiciosa renovação moral, unida às súplices preces, tornem eles Deus
propício não somente a si mesmos, mas também a santa Igreja, que eles devem
amar como mãe afeiçoada. Reproduzam entre si, sempre que as circunstâncias o
exijam, aquele espetáculo que com tão maravilhosa e expressiva beleza é
descrito na carta a Diogneto: "Os cristãos... estão na carne, mas não
vivem segundo a carne. Habitam na terra, mas têm a sua cidadania no céu.
Obedecem às leis aprovadas, e com o seu teor de vida superam as próprias leis.
Amam a todos, e todos os perseguem. São ignorados e condenados; são mortos e
sentem-se vivificados... são escarnecidos, e entre as ignomínias adquirem
glória. A sua fama é lacerada, e é tornada testemunho da sua justiça...
Comportam-se como gente honesta, e são punidos como malfeitores; enquanto são
punidos, alegram-se como aqueles que se sentem vivificados".(9)
"Em suma, para exprimir tudo isso brevemente, aquilo que no corpo é a
alma, isso são no mundo os cristãos".(10)
24. Se
como eram na época dos apóstolos e dos mártires, assim tornarão a florescer os
costumes cristãos, então com segura confiança podemos esperar o atendimento
benigno da parte da beata Virgem Maria, desejosa como está de que todos os que
ela conta como seus filhos tragam em si a sua virtude; e na solícita impetração
da parte dela, por tantas vozes súplices invocada, podemos outrossim esperar
tempos mais tranqüilos e mais felizes para a Igreja do seu unigênito Filho e
para o gênero humano inteiro.
25. Esses
nossos votos, essas nossas exortações, veneráveis irmãos, desejamos que, pelo
modo que melhor julgardes, em nosso nome façais presentes aos fiéis confiados
aos vossos cuidados. Entrementes, em auspício dos dons celestes e como penhor
da nossa benevolência, de coração concedemos, a vós singularmente e ao rebanho
a vós confiado, a bênção apostólica; e de modo particular aos que, para
reivindicarem os direitos da Igreja e por amor dela, sofrem perseguições.
Dado em
Roma, junto a São Pedro, a 14 de julho de 1958, XX do nosso pontificado.
PIO PP.
XII
Notas
(1) Cf. AAS, 34(1942), pp. 345-346.
(2)
S. Cipriano, De unitate Eccl. IV, V, VI; PL IV, 513, 514,
516-520.
(3)
Inácio, Ad Polycarpum, VI, 2; PG 5, 723-726.
(4)
S. Ambr., Ep. II; PL 16, 917.
(5)
Cf. Bula dogmatica Munificentissimus Deus, AAS, 42(1950), pp. 753ss.
(6)
Cf. Carta Enc. Ad Caeli Reginam, AAS, 46 (1954), pp. 625ss.
(7)
Cf. Const. apost. Primo exacto saeculo, AAS, 49(195), pp.1051ss., e
Carta enc. Le Pèlerinage de Lourdes, AAS, 49(1957), pp. 605ss. Neste
volume: pp 817ss.
(8)
S. Ireneu, Adv. haer., III, 22; PG 7, 959.
(9) Ep. ad Diogn., V; PG II,1174-1175.
(10) Ib., VI; PG IV,1175.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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