CONCLUSÕES DE MEDELIN
2ª Edição
Introdução
A
Igreja latino-americana, reunida na 11 Conferência Geral de seu Episcopado,
situou no centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento
decisivo de seu processo histórico.
Assim
sendo, não se acha “desviada”, mas “voltou-se para” o homem, consciente de que
“para conhecer Deus é necessário conhecer o homem”. Pois Cristo é aquele em
quem se manifesta o mistério do homem; procurou a Igreja compreender este
memento histórico do homem latino-americano à Luz da Palavra, que é Cristo.
Procurou ser iluminada por esta palavra para tomar consciência !mais profunda
do serviço que lhe incumbe prestar neste momento.
Esta
ramada de consciência do presente volta-se para o passado. Ao examiná-lo, vê
com alegria a obra realizada com tanta generosidade: seria este o momento de
exprimir o nosso reconhecimento a todos aqueles que traçaram o sulco do
Evangelho em nossos países e que estiveram ativa e caritativamente presentes
nas diversas raças, especialmente indígenas, do continente, àqueles que vêm
continuando a tarefa educadora da Igreja erro nossas cidades e nossos campos.
reconhece, também que «nem sempre», ao Longo de sua história, foram todos os
seus membros, clérigos ou Leigos, fié2s ao Espírito de Deus; «também em nossos
tempos, a Igreja não ignora quanto se distanciam entre si a mensagem que ela
profere e a fraqueza humana daqueles aos quais o Evangelho foi confiado» (GS
43).
Acatando
o juízo da história sobre estas Luzes e sombras, quer assumir inteiramente a
responsabilidade histórica que recai sobre ela no presente.
Não
basta, certamente, refletir, conseguir mais clarividência e falar. E
necessário agir. A hora atual não deixou de ser a hora da «palavra», mas já se
tornou, com dramática urgência, a hora da ação. Chegou o momento de inventar
com imaginação criadora a ação que cabe realizar e que, principalmente, terá
que ser levada a cabo com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus. Esta
Assembléia foi convidada “a tomar decisões e a estabelecer projetos, somente
com a condição de que estivéssemos dispostos a executá-los como compromisso
pessoal nosso, mesmo à custa de sacrifícios”.
A
América Latina está evidentemente sob o signo da transformação e do
desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se cem uma rapidez
extraordinária, atinge e afeta todos os níveis do homem, desde o econômico até
o religioso.
Isto
indica que estarmos no Limiar de uma nova época da história do nosso
continente. Época cheia de anelo de emancipação total, de libertação diante de
qualquer servidão, de maturação pessoal e de integração coletiva. Percebemos
aqui os prenúncios do parto doloroso de urna nova civilização. E não podemos
deitar de interpretar este gigantesco esforço por uma rápida transformação e
desenvolvimento como um evidente signo do Espírito que conduz a história dos
homens e dos povos para sua vocação. Não podemos deitar de descobrir nesta
vontade, cada dia mais tenaz e apressada de transformação, os vestígios da
imagem de Deus no homem, cama um poderoso dinamismo. Progressivamente, este
dinamismo leva-o ao domínio cada vez maior da natureza, a uma mais profunda
personalização e coesão fraterna e também a um encontro cem aquele que
ratifica, purifica e dá fundamento aos valores conquistados pelo esforço
humano. O fato de a transformação a que assiste nosso continente atingir cem
seu 2mpacto todos os níveis da existência, apresenta-se como um signo e uma
exigência.
Nós,
cristãos, não podemos, com efeito, deitar de pressentir a presença de Deus,
que quer salvar o homem inteiro, alma e corpo. No dia definitivo da salvação
Deus ressuscitará também nossos corpos, por cuja redenção geme agora em nós o
Espírito com gemidos indescritíveis. Deus ressuscitou a Cristo e, por conseguinte,
todos os que crêem nele. Através de Cristo, ele está ativamente presente em
nossa história e antecipa seu gesto escatológico não somente no desejo
impaciente do hormem para conseguir sua total redenção, mas também naquelas
conquistas que, cama sinais indicadores, com voz cada vez mais poderosa, do
futuro, vai fazendo o homem através de uma atividade realizada no amor.
Assim,
como outrora Israel, o antigo Povo, sentia a presença salvífica de Deus quando
ele o libertava da opressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o
conduzia à conquista da terra prometida, assim também nós: novo povo de Deus
não podemos deixar de sentir seu passo que salva, quando se diz o “verdadeiro
desenvolvimento, que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de
vida menos humanas para condições mais humanas. Menos humanas: as carências
materiais dos que são privados do mínimo
vital e as carências morais dos que são mutilados pelo egoísmo. Menos
humanas: as estruturas opressoras que provenham dos abusos da posse do poder,
das explorações dos trabalhadores ou da injustiça das transações. Mais humanas:
a passagem da miséria para a posse do necessário, a vitória sobre as
calamidades sociais, a ampliação dos conhecimentos, a aquisição da cultura.
Mais humanas também: o aumento na consideração da dignidade dos demais, a
orientação para o espirito de pobreza, a cooperação no bem comum, a vontade de
paz. Mais humanas ainda: o reconhecimento, por parte do homem, dos valores
supremos e de Deus, que deles é a fonte e o fim. Mais humanas, finalmente, e em
especial, a f é, dom de Deus acolhido pela boa vontade dos homens e a unidade
na caridade de Cristo, que nos chama a todos a participar como f ilhas na vida
de Deus vivo, Pai de todos os homens”.
Nesta
transformação, por trás da qual se anuncia o desejo de passar do conjunto de
condições menos humanas para a totalidade de condições plenamente humanas e de
integrar fada a escala de valores temporais na visão global da fé cristã,
tomamos consciência da “vocação original» da América Latina: «vocação de unir
em uma síntese nova e genial o antigo e o moderno, o espiritual e o temporal, o
que outros nos legaram e nossa própria originalidade.
Nesta
Assembléia do Episcopado Latino-Americano renovou-se o mistério de Pentecostes.
Em torno de Maria como Mãe da Igreja, que cem seu patrocínio assistiu a este
continente desde sua primeira evangelização, imploramos as luzes do Espírito
Santo e perseverando na oração, alimentamo-nos do pão da Palavra e da
Eucaristia. Esta Palavra foi intensamente meditada.
Nossa
reflexão orientou-se para a busca de formas de presença mais intensa e renovada
da Igreja na atual transformação da América Latina.
Três
grandes setores, sobre os qua2s recai nossa solicitude pastoral, f oram
abordados em sua relação com o processo de transformação do continente.
Em
primeiro lugar, o setor da promoção do homem e dos povos do continente para os
valores da justiça, da paz, da educação e do amor conjugal.
Em
seguida, nossa reflexão se dirigiu para os povos deste continente e suas
elites, que por estarem num processo de profunda mutação de suas condições de
vida e da seus valores, requerem uma adaptada evangelização e educação na fé,
através da catequese e da Liturgia.
Finalmente,
abordamos os problemas relativos aos membros da Igreja. E preciso intensificar
sua unidade e ação pastoral através de estruturas visíveis, também adaptadas
às novas condições do continente.
As
conclusões seguintes são o fruto do trabalho realizado nesta conferência.
l.
JUSTIÇA
I.
Fatos
Existem
muitos estudos sobre a situação do homem latino-americano. O documento de
trabalho preparado para esta II Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano não será certamente o último. Em todos eles se descreve a
miséria que marginaliza grandes grupos humanos em nossos povos. Essa miséria,
como fato coletivo, se qualifica de injustiça que clama aos céus. Entretanto, o
que talvez não se esclareceu suficientemente é que os esforços que foram
feitos, em geral, não foram capazes de assegurar que a justiça seja respeitada
e realizada em todos os setores das respectivas comunidades nacionais. As
famílias, muitas vezes, não encontram possibilidades concretas de educação para
seus filhos; a juventude reclama seu direito de entrar nas universidades ou em
centros superiores de aperfeiçoamento intelectual ou técnico-profissional; a
mulher reivindica sua igualdade, de direito e de fato, com o homem; os
camponeses pedem melhores condições de vida; os produtores, melhores preços e
segurança na comercialização; a crescente classe média sente-se atingida pela
falta de perspectivas. Iniciou-se um êxodo de profissionais e técnicos para
países mais desenvolvidos; os pequenos artesãos e industriais da América Latina
são pressionados por interesses maiores e não poucos grandes industriais vão
passando progressivamente a depender das grandes empresas internacionais. Não
podemos ignorar o fenômeno desta quase frustração universal de legítimas
aspirações, que cria o clima de angústia coletiva que já estamos vivendo. A
falta de integração sócio-cultural, na maioria de nossos países deu origem a
superposição de culturas.
No
campo econômico implantaram-se sistemas que encaram só as possibilidades dos
setores com alto poder aquisitivo. Esta falta de adaptação ao que é próprio e
às possibilidades de nossa população, origina, por sua vez, uma freqüente
instabilidade política e a consolidação de instituições puramente formais. A
tudo isto deve-se acrescentar a falta de solidariedade, que provoca no campo
individual e social, verdadeiros pecados, cuja cristalização aparece evidente
nas estruturas injustas que caracterizam a situação da América Latina.
II.
Fundamentação doutrinária
A
Igreja Latino-Americana tem uma mensagem para todos os homens que neste
continente têm «fome e sede de justiça.
O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, criou a aterra e tudo
o que nela existe para uso de todos os
homens, e de todos os povos, de modo
que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (GS 69), e dá poder ao homem para que
solidaria mente transforme e aperfeiçoe o mundo (Gên 1,29) . É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos
envia seu Filho para que feito carne,
venha libertar todos os homens, de
todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa
palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo 8,32-34) . Por isso, para nossa verdadeira libertação,
todos os homens necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o «Reino de justiça, de amor e de
paz». A origem de todo desprezo ao
homem, de toda injustiça, deve ser procurada no desequilíbrio interior da
liberdade humana, que necessita sempre,
na história, de um permanente esforço
de retificação. A originalidade da mensagem cristã não consiste tanto na afirmação da necessidade
de uma mu dança de estruturas, quanto na insistência que devemos por na conversão do homem. Não teremos um
continente novo, sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo, não haverá
continente novo sem homens novos, que à luz do Evangelho saibam ser
verdadeiramente livres e responsáveis. Somente a luz de Cristo esclarece o
mistério do homem. Sob essa luz, toda a obra divina, na história da salvação é
uma ação de promoção e de libertação humana que tem como único objeto o amor. O
homem é «criado em Cristo Jesus», feito nele «criatura nova» (2 Cor 5,17). Pela
fé e pelo batismo, o homem é transformado, cheio do dom do Espírito, com um
dinamismo novo, não de egoísmo, mas de amor que o leva a buscar uma nova
relação mais profunda com Deus, com os homens seus irmãos e com as coisas. O
amor, «a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do
mundo» (GS 32), não é somente o mandamento supremo do Senhor, é também o
dinamismo que deve mover os cristãos a realizarem a justiça no mundo, tendo
como fundamento a verdade e como sinal a liberdade. Assim é que a Igreja quer
servir ao mundo, irradiando sobre ele uma luz e uma vida que cura e eleva a
dignidade da pessoa humana (GS 41), consolida a unidade da sociedade (GS 42) e
dá um sentido e um significado mais profundo a toda a atividade dos homens.
Certamente, para a Igreja, a plenitude e a perfeição da vocação humana se
alcança com a inserção definitiva de cada homem na Páscoa ou triunfo de Cristo,
porém a esperança de tal realização definitiva, antes de adormecer, deve
«avivar a preocupação de aperfeiçoar esta terra onde cresce o corpo da nova
família humana, o que pode, de certa maneira, antecipar a visão do novo século.
Não confundimos progresso temporal com Reino de Cristo; entretanto, o
primeiro, «enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana,
interessa em grande medida o Reino de Deus» (GS 39) . A busca cristã da justiça
é uma exigência do ensinamento bíblico. Todos os homens, somos apenas humildes
administradores dos bens. Na busca da salvação devemos evitar o dualismo que
separa as tarefas temporais da santificação. Apesar de estarmos rodeados de
imperfeições, somos homens de esperança. Cremos que o amor a Cristo e a nossos
irmãos será não somente a grande força libertadora da injustiça e da opressão,
mas também e principalmente a inspiradora da justiça social, entendida como
concepção de vida e como impulso para o desenvolvimento integral de nossos
povos.
III.
Projeções da pastoral social
Nossa
missão pastoral é essencialmente um serviço de inspiração e de educação das
consciências dos fiéis, para ajudar-lhes a perceber as exigências e
responsabilidades de sua fé, em sua vida pessoal e social. Dentro dessa perspectiva,
a Segunda Conferência Episcopal quer evidenciar as mais importantes para os
países de nosso continente, tendo em conta o juízo de valor que, sobre a
situação econômica e social do mundo de hoje, emitiram os últimos documentos
do magistério da Igreja, e que no continente latino-americano tem plena
vigência.
l.
Orientação da mudança, social
A
Igreja latino-americana julga dever orientar-se para a formação de comunidades
nacionais, que refletem uma organização global, onde toda a população, porém, especialmente
as classes populares, tenha, através de estruturas territoriais e funcionais,
uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma
nova sociedade. Essas estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado
devem ser organizadas livremente, sem uma intervenção indevida da autoridade
ou de grupos dominantes, no seu desenvolvimento e na sua participação concreta
na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. São
também a expressão real da liberdade e da solidariedade dos cidadãos.
a)
A f am2lia
Sem
desconhecer o caráter insubstituível da família, como grupo natural,
consideramo-1a aqui como estrutura intermediária, posto que o conjunto de
famílias deve assumir sua função no processo de transformação social. As
famílias latino-americanas deverão organizar seu potencial econômico e
cultural para que suas legitimas necessidades e aspirações sejam levadas em
conta, dentro dos setores onde se tomam as decisões fundamentais, que podem ou
promovê-las ou prejudicá-las. Deste modo, assumirão um papel representativo e
de participação eficiente na vida de comunidade global. Além da dinâmica que
lhes cabe desencadear no conjunto de famílias de cada país, é necessário que
os governos estabeleçam uma legislação e uma sadia e atualizada política
familiar.
b)
A organização profissional
A
II Conferência Episcopal Latino-Americana, dirige-se a todos aqueles que, com o
esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o
desenvolvimento da vida humana. Pensamos muito especialmente nos milhões de
homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e
operário. Eles, na sua maioria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança
que humanize e dignifique seu trabalho. Sem desconhecer a totalidade do
significado humano do trabalho, aqui o consideramos como estrutura
intermediária, enquanto constitui a função que dá origem à organização
profissional no campo da produção.
c)
Empresas e economia
No
mundo de hoje, a produção encontra sua expressão concreta na empresa, tanto
industrial como rural, que constituem a base fundamental e dinâmica do processo
econômico global. O sistema empresarial latino-americano e, devido a ele, a
economia atual, corresponde a uma concepção errada sobre o direito de
propriedade dos meios de produção e sobre a finalidade mesma da economia. A empresa,
numa economia verdadeiramente humana, não se identifica com os donos do
capital, porque é fundamentalmente uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho
que necessita de capital para a produção de bens. Uma pessoa ou um grupo de
pessoas não podem ser propriedade de um indivíduo, de uma sociedade ou do
Estado. O sistema liberal capitalista e a tentação do sistema marxista, pareceriam
esgotar em nosso continente, as possibilidades de transformar as estruturas
econômicas. Ambos sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; um
porque tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua
discriminatória utilização em função do lucro. O outro, embora ideologicamente
defenda um humanismo, vislumbra melhor o homem coletivo e na prática se
transforma numa concentração totalitária do poder do Estado. Devemos
denunciar que a América Latina se encontra fechada entre essas duas opções e
permanece dependente dos centros de poder que canalizam sua economia.
Fazemos,
por isso, um apelo urgente aos empresários , às suas organizações e às
autoridades políticas, para que modifiquem radicalmente a valorização, as
atitudes e as medidas relativas à finalidade, organização e funcionamento das
empresas. Merecem encorajamento todos aqueles empresários que individualmente
ou através de suas organizações fazem esforços para integrar suas empresas nas
orientações do magistério social da Igreja. Disso tudo dependerá
fundamentalmente a mudança social e econômica na América Latina, para uma
economia verdadeiramente humana.
Por
outro lado, esta transformação será fundamental para o desencadeamento do
verdadeiro processo de desenvolvimento e integração latino-americanos. Muitos
de nossos trabalhadores, se bem que venham adquirindo consciência da
necessidade desta transformação, experimentam, simultaneamente, uma situação de
dependência ante os sistemas e instituições econômicas inumanas, situação que,
para muitos deles, aproxima-se da escravidão não apenas física, mas também
profissional, cultural, cívica e espiritual.
Com
a lucidez que surge do conhecimento do homem e de suas aspirações, devemos
reafirmar que nem a acumulação de capitais, nem a implantação das mais modernas
técnicas de produção, nem os planos econômicos serão eficazes, para os
trabalhadores e para o serviço do homem, se os trabalhadores não tiverem a
«unidade necessária de direção e não estiverem incorporados, com todo o empenho
do ser humano, mediante a «ativa participação de todos, na gestão da empresa,
segundo formas estabelecidas com acerto» .(GS 68) , assim como nos níveis da
macroeconomia, decisivos no âmbito nacional e internacional.
Organização
dos trabalhadores
Por
isso, na estrutura intermediária profissional, a organização sindical rural e
operária deverá adquirir a força e a presença suficiente a que os trabalhadores
têm direito.
Suas
associações deverão ter uma força de solidariedade e responsabilidade capaz de
fazer valer o direito de sua representação e participação nos meios de produção
e no comércio nacional, continental e internacional.
Assim
deverão exercer, igualmente, o direito de se fazerem representar política,
social, e economicamente, onde quer que sejam adotadas decisões relativas ao
bem comum.
Simultaneamente,
as organizações sindicais deverão lutar com todos os meios ao seu alcance ,para
formar moral, econômica e sobretudo tecnicamente, aqueles que forem
designados para o exercício dessas responsabilidades.
Unidade
de ação
A
socialização compreendida como processo sócio-cultural de personalização e de
solidariedade crescente
,
nos induz a pensar que todos os setores da sociedade, mas, nesse caso,
principalmente o setor econômico-social, deverão superar, pela justiça e
fraternidade, os antagonismos, para se transformarem em agentes do
desenvolvimento nacional e continental. Sem esta unidade, a América Latina não
conseguirá livrar-se do neocolonialismo a que está submetida, nem, em
conseqüência, realizar-se com liberdade, com suas características próprias, no
campo cultural, sóciopolítico e econômico.
Transformação
do campo
A
II Conferência Episcopal não pretende deixar de expressar sua preocupação
pastoral pelo amplo setor camponês, que embora compreendido implicitamente em
tudo o que foi dito, requer, por suas características especiais no continente,
uma atenção imediata.
Embora
se deva considerar a diversidade de situações e recursos em países diferentes,
não há dúvida de que existe um denominador comum em todas elas: a necessidade
de uma promoção humana para as populações camponesas e indígenas. Esta
promoção não será viável se não for realizada uma autêntica e urgente reforma
das estruturas e da política agrárias. Esta transformação estrutural e suas
políticas correspondentes não podem limitar-se a uma simples distribuição de
terras. Torna-se necessário fazer um estudo profundo das mesmas, segundo
determinadas condições que legitimam sua ocupação e seu rendimento, tanto para
as famílias camponesas como para sua contribuição à economia do país.
Isso
exigirá, além dos aspectos jurídicos e técnicos , cuja responsabilidade não é
de nossa competência, a organização dos camponeses em estruturas
intermediárias eficazes, principalmente em forma de cooperativas e estímulo
para a criação de centros urbanos nos meios rurais, que permitam o acesso da
população camponesa aos bens de sua cultura, da saúde, desenvolvimento
espiritual e de sua participação nas decisões locais e naquelas que incidam
sobre a economia e a política nacional.
Esta
elevação do meio rural contribuirá para o processo necessário de
industrialização e para a participação da massa camponesa nas vantagens de uma
civilização urbana.
d)
Industrialização
Não
há dúvida de que o processo de industrialização é irreversível e necessário à
independência econômica e para que possamos nos integrar na moderna economia
mundial. A industrialização será um fator decisivo à elevação dos níveis de
vida de nossos povos e para que se possa proporcionar-lhes melhores condições
para o desenvolvimento integral.
Para
isso é indispensável que se revejam os planos e as macroeconomias nacionais,
salvando-se a legítima autonomia de nossos países, as justas reivindicações
das nações mais fracas e a almejada integração econômica do continente,
respeitando-se sempre os inalienáveis direitos das pessoas e das estruturas
intermediárias, como protagonistas deste processo.
2.
A reforma política
Em
face da necessidade de uma transformação global nas estruturas
latino-americanas, julgamos que esta transformação tem como requisito a reforma
política.
O
exercício da autoridade política e suas decisões têm como única finalidade o
bem comum. Na América Latina tal exercício e decisões freqüentemente aparecem
favorecendo sistemas que atentam contra o bem comum ou favorecem grupos
privilegiados.
A
autoridade deverá assegurar eficaz e permanentemente, através de normas
jurídicas, os direitos e liberdades inalienáveis dos cidadãos e o livre
funcionamento das estruturas intermediárias.
A
autoridade política tem a missão de proporcionar e fortalecer a criação de
mecanismos de participação e de legítima representatividade da população, ou o
estabelecimento de novas formas de participação do povo se isso se tornar
necessário.
Queremos
insistir na necessidade de vitalizar e fortalecer a organização municipal e
comunal como ponto do partida para a vida departamental, provincial, regional o
nacional.
A
carência de uma consciência política em nossos países torna imprescindível a
ação educadora da Igreja, com vistas a que os cristãos considerem sua
participação na vida política da nação como um dever de consciência e como o
exercício da caridade em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da
comunidade.
3.
Informação e conscientização
Desejamos
afirmar que é indispensável a formação da consciência social e a percepção
realista dos problemas da comunidade e das estruturas sociais. Devemos
despertar a consciência social e hábitos comunitários em todos os meios e
grupos profissionais, seja no que se refere ao diálogo e à vivência
comunitária dentro do mesmo grupo, seja no que se refere a suas relações com
grupos sociais maiores (operários, camponeses, profissionais liberais, clero,
religiosos, funcionários etc.)
A
tarefa de conscientizar e educar socialmente, devei cá ser parte integrante dos
planos de Pastoral de Conjunto, em seus diversos níveis.
O
sentido de serviço e realismo exige da hierarquia de hoje uma maior
sensibilidade e objetividade sociais. Para isso se torna imprescindível o
contato direto com grupos distintos, social e profissionalmente, em encontros
que proporcionem a todos uma visão mais completa da dinâmica social. Tais
encontros podem ser considerados como instrumentos capazes de facilitar ao
Episcopado uma ação colegiada, útil para a garantia da harmonização do
pensamento e das atividades numa sociedade em transformação.
As
conferências episcopais proporcionarão a organização de cursos, encontros
etc., como meio de integração dos responsáveis pelas atividades sociais,
vinculadas à Pastoral.
Além
de sacerdotes, religiosos e leigos, poder-se-ia também. convidar líderes que
trabalhassem em programas nacionais e internacionais de promoção dentro do
país. Os institutos destinados ao preparo de pessoal apostólico de outros
países, coordenarão suas atividades de pastoral social com os respectivos
organismos nacionais; além disso, promover-se-á principalmente, a realização de
semanas sociais para elaboração da doutrina social a ser aplicada a nossos
problemas. Isso permitirá formar a opinião pública a respeito.
Merecem
especial atenção os homens-chave, ou seja, aquelas pessoas que estão em postos
de decisão e comando e cujas atitudes repercutam nas estruturas básicas da vida
nacional e internacional.
As
conferências episcopais, por isso mesmo, através de suas comissões de ação ou
Pastoral social, promoverão, junto com outros organismos interessados, a
organização de cursos para técnicos, políticos, dirigentes, operários, camponeses,
empresários e homens de cultura em todos os níveis.
É
necessário que as pequenas comunidades sociológicas de base se desenvolvam
para o estabelecimento de um equilíbrio diante dos grupos minoritários, que são
grupos que detêm o poder.
Isso
só se tornará possível mediante a ativação das mesmas comunidades e dos seus
próprios elementos naturais e atuantes, em seus respectivos meios.
A
Igreja - Povo de Deus - prestará sua ajuda aos desamparados de qualquer tipo e
ambiente social, para que tomem consciência de seus próprios direitos e saibam
fazer uso deles. Para tanto a Igreja utilizará sua força moral e procurará a
colaboração de profissionais e instituições competentes.
A
“Comissão de Justiça e Paz” deverá ser promovida em todos os países, pelo menos
em nível nacional.
Deverá
ser integrada por pessoas de alto nível moral qualificação profissional e de
representatividade nos diferentes setores sociais; deverá ser capaz de
estabelecer um diálogo eficaz com pessoas e instituições mais diretamente
responsáveis pelas decisões relativas ao bem comum, deverá denunciar tudo o que
possa lesar a justiça e colocar em perigo a paz interna e externa das
comunidades nacionais e internacionais; ajudará a buscar os meios concretos
para conseguir as soluções adequadas a cada situação.
Para
o exercício de sua missão pastoral, as conferências episcopais constituirão
sua comissão de ação ou pastoral social para a elaboração doutrinária e para
assumir as iniciativas na área de atuação da Igreja, como estimuladora da
ordem temporal, numa autêntica atitude de serviço. O mesmo vale para os níveis
diocesanos.
Além
disso, as conferências episcopais e as organizações católicas devem promover a
colaboração, em âmbito continental e nacional, com as igrejas e instituições
cristãs não-católicas, dedicadas à tarefa de instaurar a justiça nas relações
humanas.
“Caritas”,
que é um organismo da Igreja (of. PP 46) integrado na pastoral de Conjunto, não
será apenas uma instituição beneficente, mas um organismo que deve inserir-se
mais operativamente no processo de desenvolvimento da América Latina, como uma
instituição verdadeiramente promocional.
A
Igreja reconhece que as instituições de ação temporal pertencem à esfera
específica da sociedade civil, ainda quando criadas e dirigidas por cristãos.
Nas atuais situações concretas esta Conferência Episcopal sente o dever de
atribuir um estímulo especial às organizações que têm como objetivo a promoção
humana e a aplicação da justiça.
A
força moral e animadora da Igreja estará consagrada, particularmente, a
estimular aqueles objetivos e se propõe a atuar, neste campo, a título
supletivo e em situações impostergáveis.
Finalmente,
a II Conferência Episcopal tem plena consciência de que o processo de
socialização, desencadeado pelas técnicas e meios de comunicação social, faz
destes um instrumento necessário e muito apto à educação social, à
conscientização de acordo com a transformação de estruturas e à vigência da
justiça.
Em
vista disso, nas tarefas de promoção humana, conclama sobretudo os leigos a
seu adequado cumprimento.
21
2.
PAZ
Primeira
parte
A
situação Latino-Americana e a paz
«Se
o desenvolvimento é o novo nome da paz», o subdesenvolvimento
latino-americano, com características próprias nos diversos países, é uma
injusta situação promotora de tensões que conspiram contra a paz.
Sistematizamos
estas tensões em três grandes grupos, destacando em cada caso aquelas variáveis
que, por exprimir uma situação de injustiça, constituem uma ameaça positiva
contra a paz em nossos países.
Ao
falar de uma situação de injustiça fazemos referência àquelas realidades que
exprimem uma situação de pecado; isto não significa de conhecer que, por vezes,
a miséria em nossos países pode ter causas naturais difíceis de superar.
Ao
realizar esta análise não ignoramos nem deixamos de valorizar os esforços
positivos que se realizam em diferentes níveis para a construção de uma
sociedade mais justa. Não os incluímos aqui porque nossa intenção é a de chamar
a atenção, precisamente, para aqueles aspectos que constituem uma ameaça ou
negação da paz.
I.
Tensões entre classes e colonialismo interno
1)
As diversas formas de marginalização: sócio-econômicas, políticas, culturais,
raciais, religiosas, tanto nas zonas urbanas como nas rurais.
2)
Desigualdades excessivas entre as classes sociais: especialmente, embora não de
forma exclusiva, naqueles países que se caracterizam por um acentuado
biclassismo: poucos têm muito (cultura, riqueza, poder, prestígio) enquanto
muitos nada têm. O Santo Padre descreve esta realidade ao dirigir-se aos
camponeses colombianos: «Sabemos que o desenvolvimento econômico e social foi
desigual no grande continente da América Latina; e embora tenha favorecido os
que o promoveram, em princípio, descuidou da massa das populações nativas,
quase sempre abandonadas a um ignóbil nível de vida e por vezes tratadas e
exploradas duramente» (Em Mosquera, 23-8-68).
3)
Frustrações crescentes: o fenômeno universal das expectativas crescentes assume
na América Latina uma dimensão particularmente agressiva. A razão é óbvia: as
desigualdades excessivas impedem sistematicamente a satisfação das legítimas
aspirações dos setores postergados. Geram-se assim frustrações crescentes.
Semelhante
estado de espírito constata-se também nas classes médias que, diante de graves
crises, entram em um processo de desintegração e proletarização.
4)
Formas de opressão de grupos e setores dominantes: sem excluir uma eventual
vontade de opressão elas se exprimem mais freqüentemente numa forma de insensibilidade
lamentável dos setores mais favorecidos perante a miséria dos setores
marginalizados. Daí as palavras do papa aos dirigentes: «Que vosso ouvido e
vosso coração sejam sensíveis às vozes daqueles que pedem paz, interesse
justiça . . . » (celebração eucarística no Dia do Desenvolvimento no Congresso
de Bogotá).
Não
é raro comprovar que estes grupos ou setores, com exceção de algumas minorias
lúcidas, qualificam de ação subversiva toda tentativa de modificar um sistema
social que favorece a permanência de seus privilégios.
5)
Poder exercido injustamente por certos setores dominantes: como uma
conseqüência normal das atitudes mencionadas, alguns membros dos setores
dominantes recorrem, por vezes, ao uso da força para reprimir drasticamente
toda tentativa de reação. Será muito fácil para eles encontrar aparentes justificativas
ideológicas (anticomunismo) ou práticas (conservação da «ordem») para oonestar
este procedimento.
6)
Crescente tomada de consciência dos setores oprimidos: tudo o que ficou dito
torna-se cada vez mais intolerável diante da progressiva tomada de consciência
que os setores oprimidos fazem de sua situação. A isto se referia o Santo Padre
quando dizia aos camponeses: «Mas hoje o problema se agravou porque tomastes
consciência de vossas necessidades e de vossos sofrimentos e não podeis tolerar
que estas condições perdurem sem apresentar-lhes solícito remédio» (Em
Mosquera, idem). A visão estática descrita nos parágrafos precedentes
agrava-se quando se projeta para o futuro: a educação de base e a alfabetização
aumentarão a tomada de consciência e a explosão demográfica multiplicará os
problemas e tensões. Não se deve esquecer, tampouco, a existência de
movimentos de todo tipo, interessados, cada vez mais, em aproveitar e exacerbar
estas tensões. Portanto, se hoje a paz já é vista seriamente ameaçada, o
agravamento automático dos problemas provocará conseqüências explosivas.
II.
Tensões internacionais e neocolonialismo externo
Referimo-nos
aqui, particularmente, às conseqüências que traz para nossos países sua
dependência de um centro de poder econômico em torno do qual gravitam. Daí
resulta que nossas nações, cem freqüência, não são donas de seus bens e de
suas decisões econômicas. Como é óbvio, isto não deixa de ter suas incidências
no plano político, dada a interdependência que existe entre os dois campos.
Para
nós interessa assinalar especialmente dois aspectos deste fenômeno:
a)
ASPECTO ECONÔMICO - Analisamos somente aqueles fatores que mais influem no
empobrecimento global e relativo de nossos países, constituindo uma fonte de
tensões internas e externas.
1)
Distorção crescente do comércio internacional Por causa da perda de preço
relativa aos termos de troca, as matérias-primas valem cada vez menos em
relação ao custo dos produtos manufaturados. Isso significa que os países
produtores de matérias-primas - sobretudo em se tratando de monocultores -
permanecem sempre pobres, enquanto os países industrializados enriquecem cada
vez mais. Esta injustiça, denunciada claramente pela Populorzcm Progresszo
(56-61), anula o eventual efeito positivo das ajudas externas; constitui, além
disso, uma ameaça permanente para a paz, porque nossos países percebem que
«uma mão tira o que a outra dá».
2)
Fuga de capitais econômicos e humanos - A busca de segurança e o critério do
lucro individual leva muitos membros dos setores abastados de nossos países a
inverter seus lucros no estrangeiro. A injustiça desse procedimento já foi
denunciada categoricamente pela Populorum Progressio (24) . A isso se
acrescenta a fuga de técnicos e pessoal competente, fato tanto ou mais grave
quanto a fuga de capitais, devido ao alto custo de sua formação e valor
multiplicador de sua ação.
3)
Evasão de impostos e envio de lucros e dividendos - Diversas companhias
estrangeiras que atuam em nossos meios (também algumas nacionais) costumam
burlar com sutis subterfúgios os sistemas tributários vigentes. Constatamos
também que por vezes enviam ao estrangeiro os lucros e os dividendos sem
contribuir com adequadas reversões para o progressivo desenvolvimento de nossos
países.
4)
Endividamento progressivo - Não é raro constatar que, no sistema de créditos
internacionais, nem sempre são levadas em conta as verdadeiras necessidades e
possibilidades de nossos países. Corremos assim o risco de afundarmo-nos em
dívidas, cujo pagamento absorve a maior parte de nossos lucros (PP 54) .
5)
monopólios internacionais e o imperialismo internacional do dinheiro - Com isso
queremos sublinhar que os principais culpados da dependência econômica de
nossos países são aquelas forças que, inspiradas no lucro sem freios, conduzem
à ditadura econômica e ao «imperialismo internacional do dinheiro» condenado
por Pio XI na Quadragésimo Ano e por Paulo VI na PopzcZor2cm Progressio.
b)
ASPECTO POLÍTICO - Denunciamos aqui o imperialismo de qualquer matiz ideológico,
que se exerce na América Latina, em forma indireta e até com intervenções
diretas.
III.
Tensões entre os países da América, Latina,
Denunciamos
aqui um fenômeno especial de origem histórico-política, que perturba as
relações cordiais entre alguns países e levanta obstáculos a uma colaboração
realmente construtiva: sem dúvida, o processo de integração apresenta-se como
uma necessidade imperiosa para a América Latina. Sem pretender ditar normas
sobre os aspectos técnicos, realmente complexos desta necessidade, julgamos
oportuno destacar seu caráter pluridimensional. A integração, com efeito, não
é um processo exclusivamente econômico; apresenta-se antes com amplas
dimensões, que
27
abrangem
o homem total, considerado em sua totalidade: dimensão social, política,
cultural, religiosa, racial etc.
Entre
os fatores que favorecem as tensões entre os nossos países, salientamos:
1
- Um nacionalismo exacerbado em alguns países Já a Populorum Progressio (62)
denunciou o que de nocivo tem esta atitude, precisamente onde a fraqueza das
economias das nações exige a cooperação comum de esforços, de conhecimentos,
de meios financeiros etc.
2
- Armamentismo - Em determinados países, verifica-se uma corrida armamentista
que supera o limite do razoável. Trata-se, muitas vezes, de uma necessidade fictícia
que responde a interesses diversos e não a uma verdadeira necessidade da
comunidade nacional. A propósito, uma frase da Populorum Progressio é
particularmente válida: «Quando tantos povos têm fome, quando tantos lares
sofrem miséria, quando tantos homens vivem submersos na ignorância, toda
corrida armamentista torna-se um escândalo intolerável».
Segunda
parte
I.
Concepção cristã da paz
A
realidade descrita constitui uma negação da paz, tal como a entende a tradição
cristã.
Três
notas caracterizam a concepção cristã da paz:
1
- A paz é, antes de mais nada, obra da justiça (GS 73) ; ela supõe e exige a
instauração de uma ordem justa (PT 167; PP 76) na qual todos os homens possam
realizar-se como homens, onde sua dignidade seja respeitada, suas legítimas
aspirações satisfeitas, seu acesso à
verdade
reconhecido e sua liberdade pessoal garantida. Uma ordem na qual os homens não
sejam objetos, senão agentes de sua própria história. Portanto, onde existem
injustiça, desigualdade entre os homens e as nações, atenta-se contra a paz
(Mensagem de Pau1o VI, 1-1-1968) .
A
paz na América Latina, não é, portanto, a simples ausência de violências e de
derramamento de sangue. A opressão exercida pelos grupos de poder pode dar a impressão
de que a paz e a ordem estão sendo mantidas, mas na realidade, não se trata
senão do “germe contínuo e inevitável de rebeliões e guerras”(Mensagem de
Paulo VI, 1-1-1968).
Não
se consegue a paz senão criando uma ordem nova que «comporte uma justiça mais
perfeita entre os homens» (PP 76) . Nesse sentido, o desenvolvimento integral
do homem, a passagem de condições menos humanas para condições mais humanas é
o nome novo da paz.
2
- A paz é, em segundo lugar, uma tarefa permanente (GS 78) . A comunidade
humana realiza-se no tempo e está sujeita a um movimento que implica
contentemente em mudanças de estrutura, transformações de atitudes, conversão
de corações.
A
“tranqüilidade da ordem”, segundo a definição agostiniana da paz, não é,
portanto, passividade nem conformismo. Não é, tampouco, algo que se adquira de
uma vez por todas, é o resultado de um contínuo esforço de adaptação às novas
circunstâncias, às exigências e desafios de uma história em mutação. Uma paz
estática e aparente pode ser alcançada com o emprego da força; uma paz
autêntica implica luta, capacidade inventiva, conquista permanente (Cf. Paulo
VI, Mensagem de Natal, 1967) .
A
paz não se acha, há que construí-1a. O cristão é um artesão da paz (Ml 5,9) .
Esta tarefa, dada a situação descrita acima, reveste-se de um caráter
especial, em nosso continente; por isso, o Povo de Deus na América Latina,
seguido o exemplo de Cristo, deverá enfrentar com audácia e valentia o
egoísmo, a injustiça pessoal e a coletiva.
3
- A paz é, finalmente, fruto do amor (GS 78), expressão de uma real
fraternidade entre os homens. Fraternidade trazida por Cristo, príncipe da
paz, ao reconciliar todos os homens com o Pai. A solidariedade humana
'
não pode ser realizada senão em Cristo, que dá a paz que o mundo não pode dar
(of. Jo 14,27). O amor é a alma da justiça. O cristão que trabalha pela justiça
social deve cultivar sempre a paz e o amor em seu coração.
A
paz com Deus é o fundamento último da paz interior e da paz social. . . Por
isso mesmo, onde a paz social não existe, onde há injustiças, desigualdades
sociais, políticas, econômicas e culturais, rejeita-se o dom da paz do Senhor;
mais ainda, rejeita-se o próprio Senhor (Ml 25,31-46) .
II.
O problema da, violência na, América Latina
A
violência constitui um dos problemas mais graves da América Latina. Não se pode
abandonar aos impulsos da emoção e da paixão uma decisão da qual depende todo o
futuro dos países do continente. Faltaríamos a um grave dever pastoral se não
recordássemos em termos de consciência, neste dramático dilema, os critérios
que derivam da doutrina cristã do amor evangélico.
Ninguém
se surpreenderá se reafirmarmos firmemente nossa fé na fecundidade da paz.
Esse é nosso ideal cristão. “A violência não é nem cristã nem evangélica” (Discurso
de Paulo VI em Bogotá, na celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento,
23-8-68). O cristão é pacífico e não se envergonha disso. Não é simplesmente
pacifista, porque é capaz de lutar (ver Mensagem de Paulo VI de 1-1-1968). Mas
prefere a paz à guerra. Sabe que «as mudanças bruscas e violentas das
estruturas seriam falhas, ineficazes em si próprias, e certamente em desacordo
com a dignidade do povo, a qual exige que as transformações necessárias se
realizem de dentro, isto é, mediante uma conveniente tomada de consciência, uma
adequada preparação e efetiva participação de todos. A ignorância e as
condições de vida, por vezes infra-humanas, impedem hoje que seja assegurada»
(Discurso de Paulo VI em Bogotá, na celebração eucarística do Dia do
Desenvolvimento, 23 de agosto de 1968) .
Se
o cristão acredita na fecundidade da paz como meio de chegar à justiça,
acredita também que a justiça é uma condição imprescindível para a paz. Não
deixa de ver que a América Latina se acha, em muitas partes, em face de uma
situação de injustiça que pode ser chamada de violência institucionalizada,
porque as atuais estruturas violam os direitos fundamentais, situação que exige
transformações globais, audaciosas, urgentes e profundamente renovadoras. Não
é de estranhar, portanto, que nasça na América Latina, “a tentação da
violência» (PP 30). Não se deve abusar da paciência de um povo que suporta
durante anos uma condição que dificilmente aceitaria os que têm maior
consciência dos direitos humanos.
Em
face de uma situação que atenta tão gravemente contra a dignidade do homem e,
portanto, contra a paz, dirigimo-nos, como pastores, a todos os membros do
povo cristão, para que assumam sua grave responsabilidade na promoção da paz na
América Latina.
Desejaríamos
dirigir nosso apelo, em primeiro lugar, aos que têm uma maior participação na
riqueza, na cultura ou no poder. Sabemos que existem na América Latina
dirigentes que são sensíveis às necessidades e procuram remediá-las].
Reconhecem eles que os privilegiados, em seu conjunto, exercem muitas vezes
pressão sobre os governantes, com todos os meios de que dispõem, impedindo as
mudanças necessárias. Em algumas ocasiões, esta resistência chega a adotar
formas drásticas, com destruição de vidas e de bens.
Dirigimo-lhes,
pois, um apelo urgente a fim de que a posição pacífica da Igreja não seja
invocada pela oposição, passiva ou ativa, para opor-se às transformações profundas
que são necessárias. Se mantiverem zelosamente seus privilégios e sobretudo, se
os defenderem com o emprego de meios violentos, tornam-se responsáveis, perante
a história, por provocar as «revoluções nascidas do desespero» (Discurso de
Paulo VI, em Bogotá, na celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento, 23 de
agosto de 1968) . De sua atitude depende, portanto, em grande parte, o
pacífico porvir dos países da América Latina.
São
também responsáveis pela injustiça todos os que não agem em favor da justiça na
medida dos meios de que dispõem, e ficam passivos por temerem os sacrifícios e riscos
pessoais que implica toda ação audaciosa e realmente eficaz. A justiça e
conseqüentemente a paz conquista-se por uma ação dinâmica de conscientização e
de organização dos setores populares, capaz de urgir os poderes públicos,
muitas vezes, impotentes nos seus projetos sociais, sem o apoio popular.
Finalmente, nos dirigimos aos que, diante da gravidade da injustiça e da reação
ilegítima às mudanças, colocam suas esperanças na violência. Reconhecemos que
sua atitude, como diz Paulo VI, “tem freqüentemente sua última motivação em
nobres impulsos de justiça e solidariedade” (Discurso de Paulo VI, em Bogotá,
celebração eucarística do Dia do Desenvolvimento, 23 de agosto de 1968). Não
falamos, aqui, por puro verbalismo que não implica em nenhuma responsabilidade
pessoal e afasta as ações pacíficas e fecundas imediatamente realizáveis . . .
É verdade que a insurreição revolucionária pode ser legítima no caso «de
tirania evidente e prolongada que ofendesse gravemente os direitos fundamentais
da pessoa e danificasse perigosamente o bem comum do país» (PP 31) - provenha
esta tirania de uma pessoa ou de estruturas evidentemente injustas, - também é
certo que a violência ou “revolução armada” geralmente «acarreta novas
injustiças, introduz novos desequilíbrios e provoca novas ruínas: não se pode
combater um mal real ao preço de um mal maior» (PP 31) . Se considerarmos,
então, o conjunto das circunstâncias de nossos países e levarmos em conta a
preferência dos cristãos pela paz, a enorme dificuldade da guerra civil, sua
lógica de violência, os males cruéis que provoca, o perigo de atrair a
intervenção estrangeira - por mais ilegítima que seja, - a dificuldade de
construir um regime de justiça e de liberdade, através de um processo de
violência, ansiamos que o dinamismo do povo conscientizado ponha-se a serviço
da justiça e da paz. Fazemos nossas, finalmente, as palavras do Santo Padre,
dirigidas aos sacerdotes e diáconos em Bogotá, quando referindo-se a todos os
que sofrem, lhes disse: «Seremos capazes de compreender suas angústias e
transformá-las não em ódio e violência, mas em energia forte e pacífica para
obras construtivas».
III.
Conclusões pastorais
Diante
das tensões que ameaçam a paz, chegando inclusive a insinuar a tentação da
violência; diante da concepção cristã da paz que ficou descrita acima, cremos
que o Episcopado latino-americano não pode deixar de assumir responsabilidades
bem concretas, porque criar uma ordem social justa, sem a qual a paz é
ilusória, é uma tarefa eminentemente cristã. A nós, pastores da Igreja, cumpre
educar as consciências, inspirar, estimular e ajudar a orientar todas as
iniciativas que contribuem para a formação do homem. Cumpre-nos também
denunciar todos aqueles que ao irem contra a justiça, destroem a paz. .
Neste
espírito cremos oportuno avançar as seguintes linhas pastorais:
1)
Despertar nos homens e nos povos, principalmente através dos meios de
comunicação social, uma viva consciência da justiça, inspirando-lhes um
sentido dinâmico de responsabilidade e solidariedade.
2)
Defender segundo o mandato evangélico o direito dos pobres e oprimidos, urgindo
nossos governos e classes dirigentes que eliminem tudo quanto destrói a paz
social: injustiça, inércia, venalidade, insensibilidade.
3)
Denunciar energicamente os abusos e as injustiças, conseqüências das
desigualdades excessivas entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos,
favorecendo a integração.
4)
Fazer com que nossa pregação, catequese e liturgia tenham em conta a dimensão
social e comunitária do cristianismo, formando homens comprometidos na construção
de um mundo de paz.
5)
Procurar que em nossos colégios, seminários e universidades se forme um sadio
espírito crítico da situação social e se fomente a vocação do serviço.
Consideramos ainda de grande eficácia as campanhas de nível diocesano e
nacional que mobilizem a todos os fiéis e organizações levando-os a uma
reflexão similar.
6)
Convidar também as diversas confissões e comunidades cristas e não-cristãs a
colaborarem nesta fundamental tarefa de nossos tempos.
7)
Encorajar e favorecer todos os esforços do povo para criar e desenvolver suas
próprias organizações de base, para a reivindicação e consolidação de seus
direitos na busca de uma verdadeira justiça.
8)
Pedir o aperfeiçoamento da administração judicial cujas deficiências
freqüentemente causam sérios males.
9)
Empenhar-se para que em muitos de nossos países se detenha e reveja a atual
política armamentista, que constitui às vezes uma carga excessivamente
desproporcionada em face às legítimas exigências do bem comum, em detrimento
de urgentes necessidades sociais. A luta contra a miséria é a verdadeira guerra
que devem travar nossas nações.
10)
Convidar os Bispos, os responsáveis das diversas confissões religiosas e os
homens de boa vontade das nações desenvolvidas para que promovam nas suas
respectivas esferas de influência, especialmente entre os dirigentes
políticos e econômicos, uma consciência de maior solidariedade com as nossas
nações subdesenvolvidas, fazendo com que sejam reconhecidos, entre outras
coisas, preços justos para nossas matérias-primas.
11)
Por ocasião do vigésimo aniversário da declaração solene dos direitos humanos,
interessar as universidades da América Latina na realização de investigações
para se verificar sua aplicação em nossos países.
12)
Diante da ação injusta que, em escala mundial intentam as nações poderosas
contra a autodeterminação dos povos fracos, que têm de sofrer os efeitos
sangrentos da guerra e da invasão, denunciar o fato, pedindo aos organismos
internacionais competentes, ação eficaz e decidida.
13)
Alentar e aplaudir as iniciativas e trabalhos de todos aqueles que nos diversos
setores da ação contribuem para a criação de uma ordem nova que assegure a paz
no seio de nossos povos.
3.
FAMÍLIA E DEMOGRAFIA
Nesta
tomada de consciência da Igreja a respeito de si mesma, enquanto inserida na
realidade latino-americana, é-lhe indispensável a reflexão sobre a realidade da
família.
Esta
reflexão não é fácil, por várias razões. Porque a idéia da família encarna-se
em realidades sociológicas sumamente diversas. Porque a família tem sofrido,
talvez mais que outras instituições, os impactos das mudanças e transformações
sociais. Porque na América Latina a família sofre de modo especialmente grave
as conseqüências «dos círculos viciosos» do subdesenvolvimento: más condições
de vida e cultura, baixo nível de salubridade, baixo poder aquisitivo etc.,
transformações que nem sempre se podem captar adequadamente.
I.
A família em situação de transformação - na América Latina
1)
A família sofre, na América Latina, como também em outras partes do mundo, a
influência de quatro fenômenos sociais fundamentais:
a)
Passagem de uma sociedade rural a uma sociedade urbana, o que leva uma família
de tipo patriarcal a um novo tipo de família, de maior intimidade, com melhor
distribuição de responsabilidades e maior dependência de outras
micro-sociedades.
b)
O processo de desenvolvimento implica em abundantes riquezas para algumas
famílias, insegurança para outras e marginalidade social para as restantes.
c)
O rápido crescimento demográfico, que não deve ser tomado como a única variável
demográfica e muito menos como a causa de todos os males da América Latina,
engendra vários problemas tanto de ordem sócio-econômica como de ordem
ético-religiosa.
d)
O processo de socialização, que subtrai à família alguns aspectos de sua
importância social e de suas zonas de influência, mas deixa intactos seus
valores essenciais e sua condição de instituição básica de sociedade global.
2)
Estes fenômenos produzem na família concreta da América Latina algumas
repercussões que se traduzem em problemas de certa gravidade. Na
impossibilidade de catalogá-los todos, apontamos os que parecem ter maior
transcendência, incidência mais freqüente ou maior repercussão sócio-pastoral.
a)
Baixíssimo índice de casamento. A América Latina registra os mais baixos
índices de casamentos em relação à sua população. Isto indica uma alta
porcentagem de uniões ilegais, aleatórias e quase sem estabilidade, com todas
as conseqüências que derivam de tal situação.
b)
A alta porcentagem de nascimentos ilegítimos e de uniões ocasionais é um fator
que pesa fortemente sobre a explosão demográfica.
c)
Crescente e alto índice de desagregação familiar, seja pelo divórcio tão facilmente
aceito e legalizado em não poucas regiões, seja por abandono do lar (quase sempre
por parte do pai), seja pelas desordens sexuais nascidas de uma falsa noção de
masculinidade.
d)
Acentuação do hedonismo e do erotismo como resultante da asfixiante propaganda
propiciada pela civilização de consumo.
e)
Sérios problemas de moradia por causa de insuficiente e defeituosa política a
respeito desse problema.
f)
Desproporção entre os salários e as condições reais da família.
g)
Má distribuição dos bens de consumo e de civilização, como: alimentação,
vestuário, trabalho, meios de comunicação, descanso, diversões, cultura etc.
h)
Impossibilidade material e moral para muitos jovens de constituir dignamente
uma família, o que provoca o surgimento de muitas células familiares
deterioradas.
Nosso
dever pastoral é fazer um premente apelo aos que governam e a todos os que
possuem alguma responsabilidade a respeito, para que dêem à família o lugar
que lhe corresponde na construção de uma cidade temporal digna do homem,
ajudando-a a superar os graves males que a afligem e impedem sua plena
realização.
II.
Papel da família na América Latina
«A
força e o vigor da instituição matrimonial e familiar se evidenciam
igualmente: as profundas mudanças sociais contemporâneas, não obstante as
dificuldades a que dão origem, manifestam muitas vezes, de várias maneiras, a
verdadeira índole dessa instituição» (GS 47) .
É
portanto necessário ter em conta os valores fundamentais que a doutrina da
Igreja atribui à família cristã para que a ação pastoral leve as famílias
latino-americanas a conservar ou a adquirir esses valores que as capacitem a
cumprir sua missão.
Entre
eles, dentro das linhas de reflexão desta conferência, queremos assinalar três
especificamente: a família formadora de pessoas, educadora na fé, promotora do
desenvolvimento.
l.
Formadora de pessoas
“A
família recebeu diretamente de Deus a missão de ser célula primeira e vital da
sociedade” (AA 11,3).
«É,
pois, dever dos pais, criar um ambiente de família animado pelo amor, pela
piedade para com Deus e para com os homens que promova a educação íntegra,
pessoal e social dos filhos».
«Continua
impor-se a cada homem o dever de salvar a integridade de sua personalidade, no
qual sobressaem os valores de sua inteligência, vontade, consciência e fraternidade.
. . Como mãe e alimentadora desta educação acha-se em primeiro lugar a família»
(GS 61) .
Essa
doutrina do Concílio Vaticano II nos faz ver a urgência de a família cumprir
sua tarefa de formar personalidades integrais, e para tanto conta com muitos
elementos.
Realmente
a presença e influência dos modelos distintos e complementares do pai e da mãe
(masculino e feminino), o vínculo do afeto mútuo, o clima de confiança,
intimidade, respeito e liberdade, o quadro de vida social com uma hierarquia
natural mas matizada pelo clima de afeto, tudo converge para que a família se
torne capaz de plasmar personalidades fortes e equilibradas para a sociedade.
2.
Educadora na fé
“Os
esposos cristãos são para si mesmos, para seus filhos e demais familiares,
cooperadores da graça e testemunhas da fé. São para seus filhos os primeiros
pregadores e educadores na fé” (AA 11) e devem «inculcar a doutrina crista e
as virtudes evangélicas aos filhos amorosamente recebidos de Deus» (LG 41, 5),
e realizar esta missão «mediante a palavra e o exemplo» (LG 11), de tal maneira
que «graças aos pais, que precederão com o exemplo e a oração na família, os
filhos e ainda os demais que
vivem
no círculo familiar, encontrarão mais facilmente o caminho do sentido humano,
da salvação e da santidade».
Sabemos
que muitas famílias da América Latina foram incapazes de se tornarem
educadoras na fé, ou por não estarem bem constituídas, ou por estarem
desintegradas e outras, ainda, porque vêm dando esta educação em termos de
mero tradicionalismo, às vezes até com aspectos míticos e supersticiosos. Daí a
necessidade de se dotar a família atual de elementos que lhe restituam a
capacidade evangelizadora, de acordo com a doutrina da Igreja.
3.
Promotora do desenvolvimento
«A
família é a primeira escola das virtudes sociais necessárias às demais
sociedades. . . É aí que os filhos fazem a primeira experiência de uma sã
sociedade humana . . . É através dela que os filhos vão sendo introduzidos
gradativamente na sociedade civil e na Igreja (GS 3) .
Além
disso, «a família é a escola do mais rico humanismo» (GS 52), e o «humanismo
completo é o desenvolvimento integral».
E
considerando que «na família convivem diversas gerações que se ajudam
mutuamente para adquirir uma sabedoria mais completa e estabelecer os direitos
das pessoas com as demais exigências da vida social, sabemos que ela constitui
o fundamento da sociedade» (GS 2).
«Nela,
os filhos, num clima de amor, aprendem, juntos, com maior facilidade a reta
hierarquia dos valores, ao mesmo tempo em que se imprime, de modo natural, na
alma dos adolescentes, à medida que vão crescendo formas aprovadas de cultura»
(GS 61) .
«Aos
pais cabe preparar, no seio da família, os filhos para conhecerem o amor de Deus
para com todos os homens; ensinar-lhes, gradativamente, sobretudo pelo exemplo,
a solicitude pelas necessidades materiais e espirituais do próximo» (AAEE), e
assim a família cumprirá sua missão e promoverá a justiça e demais boas obras a
serviço de todos os irmãos que padecem necessidade (AA) .
Por isso, «o bem-estar da pessoa e da
sociedade humana está ligado estreitamente a uma situação favorável da
comunidade conjugal e familiar» (GS 47), pois ela é um fator importantíssimo no
desenvolvimento.
«Por isso todos os que têm influência nas
comunidades e grupos sociais devem trabalhar eficazmente para a promoção do
matrimônio e da família» (GS 52) .
III.
Problemas de demografia na América Latina,
A
questão demográfica em nosso continente reveste-se de uma complexidade e
delicadeza peculiares: é certo que existe um rápido crescimento da população,
devido, menos ao índice de nascimento, que ao índice de mortalidade infantil,
baixo mas não satisfatório, ao mesmo tempo que ao crescente índice de
longevidade. Mas é certo, também, que a maioria de nossos países sofre de
subpopulação e precisa de um aumento demográfico como fator de desenvolvimento;
também é certo que as condições sócioeconômico-culturais, excessivamente
baixas, se mostram adversas a um crescimento demográfico pronunciado.
Como
pastores, sensíveis aos problemas de nossa gente, fazendo nossas suas dores e
angústias, julgamos necessário enunciar os seguintes pontos sobre esta
matéria:
l.
Todo enfoque unilateral, como toda solução simplista a respeito desses
problemas são incompletos e, portanto, equívocos. Aparece como particularmente
daninha a adoção de uma política demográfica antinatalista que tende a
suplantar, substituir ou relegar ao esquecimento uma política de
desenvolvimento mais exigente, mas a única aceitável. «Trata-se, com efeito,
não de suprimir os comensais e sim de multiplicar o pão» (Paulo VI) .
2.
Neste sentido a encíclica Humanae Vitae, com o caráter social que nela ocupa
um lugar proeminente e que a coloca ao lado da Populorum Progressio tem para
nosso
continente
uma importância especial, pois ante nossos problemas e aspirações a Humanae
Vitae:
a)
Acentua a necessidade imperiosa de sair ao encontro do desafio dos problemas
demográficos com uma resposta integral e orientada para o desenvolvimento.
b)
Denuncia toda política fundada num controle indiscriminado da natalidade, isto
é, a qualquer preço e de qualquer maneira, sobretudo quando se torna condição
de ajuda econômica.
c)
Ergue-se como defensora dos valores inalienáveis como: o respeito à pessoa
humana, especialmente dos pobres e dos marginalizados, o valor da vida, o amor
conjugal.
d)
Contém um apelo e um estímulo à formação integral das pessoas mediante uma
auto-educação dos casais, cujos elementos principais são: o autodomínio, a
rejeição de soluções fáceis, mas perigosas por serem alienantes e deformadoras,
a necessidade da graça de Deus para o cumprimento da lei, a fé como
estimuladora da existência e um humanismo novo, livre do erotismo da
civilização burguesa etc.
3)
A aplicação da Encíclica na parte a que se refere à ética conjugal, como o
reconhece o próprio papa: «aparecerá facilmente aos olhos de muitos como
difícil e até impossível na prática” (n. 20).
Conscientes
dessas dificuldades e sentindo na alma as indagações e angústias de todos os
nossos filhos e empenhados em oferecer nosso apoio a todos indistintamente,
mas de modo particular àqueles que escutam a palavra do papa e procuram viver o
ideal que ela propõe, indicamos os seguintes pontos:
a)
O ensinamento do magistério na Encíclica é claro e inequívoco a respeito da
exclusão dos meios artificiais para tornar voluntariamente infecundo o ato
conjugal (HV).
b)
Mas o próprio Santo Padre reafirmou, ao inaugurar esta conferência: «Esta
norma não constitui uma cega corrida para a superpopulação nem diminui a
responsabilidade, nem a liberdade dos cônjuges, a quem não se proíbe uma
honesta e razoável limitação da natalidade, nem impede os meios terapêuticos
legítimos, nem o progresso das investigações científicas” (Discurso ao
inaugurar a II Conferência Episcopal Latino-americana) .
c)
A vida sacramental, sobretudo como caminho para uma progressiva maturidade
humana e cristã do matrimônio, é um direito e, mais ainda, um dever, e
corresponde a nós, pastores, facilitar esse caminho aos casais cristãos.
d)
A ajuda mútua que os casais se proporcionam ao reunirem-se, apoiados por
peritos em ciências humanas e sacerdotes imbuídos do espírito pastoral, pode
ser inestimável aos que, apesar de suas dificuldades, procuram alcançar o
ideal visado.
e)
Formulamos o propósito, e procuraremos cumpri-lo, não só de prestar «nosso
serviço às almas que lutam com essas dificuldades, com o coração de bom pastora
(HV, e discurso de abertura da II Conferência), mas também, e de modo especial,
de hipotecar nossa solidariedade aos casais que sofrem, por meio do exemplo de
nossa própria abnegação pessoal e coletiva, na pobreza real, no celibato
assumido com sinceridade e vivido com seriedade e alegria, na paciência e
dedicação aos homens, na obediência à palavra de Deus e, sobretudo, na caridade
elevada até ao heroísmo.
IV.
Recomendações para uma pastoral familiar
Por
vários fatores históricos, étnicos, sociológicos e até caracterológicos, a
instituição familiar sempre teve, na América Latina, uma importância global
muito grande.
É
certo que nas grandes cidades perde parte de sua importância. Nas áreas rurais,
que formam ainda maior
parte
do continente, apesar de todas as transformações externas, a família continua
a desempenhar um papel primordial tanto no campo social, quanto no cultural,
no ético ou no religioso.
Por
isso e ainda mais por sua condição de formadora de pessoas, educadora na fé e
promotora do desenvolvimento, mas também a fim de sanar todas as carências de
que ela padece e que tem graves repercussões, julgamos necessário dar à
pastoral familiar uma prioridade na planificação da pastoral de conjunto;
sugerimos que esta seja planejada em diálogo com os casais que, por sua
experiência humana e pelos carismas próprios do sacramento do matrimonio,
podem auxiliar eficazmente em sua elaboração.
Esta
pastoral familiar deve conter, entre outras coisas, as seguintes metas e
orientações fundamentais:
1.
Procurar, desde os anos da adolescência, uma sólida educação para o amor que
integre e ao mesmo tempo sobreposse a simples educação sexual, inculcando nos
jovens de ambos os sexos a sensibilidade e a consciência dos valores
essenciais : amor, respeito, dom de si mesmo etc.
2.
Difundir a idéia e facilitar, na prática, uma preparação para o matrimônio,
acessível a todos os que vão se casar e tão integral quanto possível: física,
sociológica, jurídica, moral e espiritual.
3.
Elaborar e difundir uma espiritualidade matrimonial baseada simultaneamente
numa clara visão do leigo no mundo e na Igreja, e numa teologia do matrimônio
como sacramento.
4.
Inculcar nos jovens em geral e sobretudo nos casais jovens a consciência e a
convicção de uma paternidade realmente responsável (noção esta de
primeiríssima importância neste continente tão marcado pela praga dos
nascimentos ilegítimos) .
5.
Despertar nos esposos a necessidade do diálogo conjugal que os leve à unidade
profunda e a um espírito de coresponsabilidade e colaboração.
6.
Facilitar o diálogo entre pais e filhos que ajude a superar, no seio da
família, o conflito de gerações e torne o lar “um lugar onde se realize o
encontro das gerações” (GS).
7.
Fazer com que a família seja verdadeiramente uma «igreja doméstica» :
comunidade de fé, de oração, de amor, de ação evangelizadora, escola de
catequese etc.
8.
Levar todas as famílias a uma generosa abertura para as outras famílias,
inclusive de concepções cristãs diferentes; e sobretudo para as famílias
marginalizadas ou em processo de desintegração; abertura para a sociedade, para
o mundo e para a vida da Igreja.
Queremos,
finalmente, estimular os casais que se esforçam por viver a santidade conjugal
e realizam o apostolado familiar, bem como os que, «de comum acordo, de forma
bem ponderada, aceitam com magnanimidade uma prole mais numerosa para educá-1a
condignamente» (GS 50) .
Bem
planejada e bem executada mediante os movimentos familiares, tão meritórios,
ou mediante outras formas, a pastoral familiar contribuirá, certamente, para
fazer de nossas famílias uma força viva (e não, como poderia acontecer, um
peso morto) a serviço da construção da Igreja, do desenvolvimento e da
realização das necessárias transformações em nosso continente.
4.
EDUCAÇÃO
Introdução
Esta
Conferência do Episcopado Latino-americano, que teve o propósito de entrosar a
Igreja no processo de transformação dos povos latino-americanos, fixa muito especialmente
sua atenção na educação, como um fator básico e decisivo no desenvolvimento do
continente.
I.
Características da educação na América, Latina
Devemos
reconhecer, antes de mais nada, que têm sido feitos esforços consideráveis em
quase todos os nossos países para estender a educação em seus diversos níveis e
são grandes os méritos que, neste esforço, correspondem tanto aos governos como
à Igreja e aos demais setores responsáveis pela educação.
Contudo,
o panorama geral da educação apresenta-se a nós, ao mesmo tempo, com
características de drama e de repto. Ao dizer isto, não nos anima um espírito
pessimista, mas um desejo de superação.
Considerando
a urgência do desenvolvimento integral do homem e de todos os homens na grande
comunidade latino-americana, os esforços educativos padecem de sérias
deficiências e inadequações.
Existe,
em primeiro lugar, o vasto setor dos homens «marginalizados» da cultura, os
analfabetos e especialmente os analfabetos indígenas, privados por vezes até
do benefício elementar da comunicação por meio de uma língua comum. Sua
ignorância é uma escravidão inumana. Sua liberação, uma responsabilidade de
todos os homens
47
latino-americanos.
Devem ser libertados de seus preconceitos e superstições, de seus complexos e
inibições, de seus fanatismos, de sua tendência fatalista, de sua incompreensão
temerosa do mundo em que vivem, de sua desconfiança e de sua passividade.
A
tarefa de educação destes irmãos nossos não consiste propriamente em
incorporá-los nas estruturas culturais que existem em torno deles, e que podem
ser também opressoras, mas sim em algo muito mais profundo. Consiste em
capacita-los para que, eles próprios, como autores de seu próprio progresso,
desenvolvam de uma maneira criadora e original, um mundo cultural, em acordo
com sua própria riqueza e que seja fruto de seus próprios esforços,
especialmente no caso dos indígenas, devem-se respeitar os valores próprios de
sua cultura.
A
educação formal ou sistemática se estende cada vez mais para as crianças e os
jovens latino-americanos, embora grande número deles fique ainda fora dos
sistemas escolares. Qualitativamente, está longe de corresponder àquilo que exige
nosso desenvolvimento, considerando-se o futuro.
Sem
esquecer as diferenças que existem relativamente aos sistemas educativos nos
diversos países do continente, parece-nos que o seu conteúdo programático é em
geral demasiado abstrato e formalista. Os métodos didáticos estão mais
preocupados com a transmissão dos conhecimentos do que com a criação de um
espírito crítico. Do ponto de vista social, os sistemas educativos estão orientados
para a manutenção das estruturas sociais e econômicas imperantes, mais do que
para sua transformação. É uma educação uniforme, em um momento em que a comunidade
latino-americana despertou para a riqueza de seu pluralismo humano; é passiva,
quando já soou a hora para nossos povos de descobrirem seu próprio ser, pleno de
originalidade; está orientada no sentido de sustentar uma economia baseada na
ânsia de «ter mais», quando a juventude latino-americana exige “ser mais”, na
posse de sua auto-reaIização pelo serviço e no amor.
Em
especial, a formação profissional de nível médio e superior sacrifica com
freqüência a profundidade humana, em nome do pragmatismo e do imediatismo, para
ajustar-se às exigências do mercado de trabalho. Este tipo de educação é
responsável pela colocação do homem a serviço da economia e não desta a serviço
do homem.
Neste
momento aflora também uma preocupação nova pela educação assistemática, de
crescente importância: meios de comunicação social, movimentos juvenis e tudo
quanto contribui para a criação de uma certa cultura popular e para o aumento
do desejo de mutação.
A
democratização da educação é um ideal que está ainda longe de ter sido atingido
em todos os níveis, sobretudo no universitário. Já que nossas universidades
não levaram suficientemente em conta as peculiaridades latino-americanas,
transpondo com freqüência esquemas de países desenvolvidos, não deram
suficientemente resposta aos problemas próprios do nosso continente. A
universidade permaneceu muitas vezes com cursos tradicionais, quase sem
currículos de duração intermediária, aptos à nossa situação sócio-econômica.
Nem sempre e em todo lugar esteve devidamente aberta para a investigação ou
para o diálogo interdisciplinar, indispensável ao progresso da cultura e ao
desenvolvimento integral da sociedade.
Particularmente
quanto à Universidade católica, assinalamos uma insuficiência na instauração
do diálogo entre a teologia e os diversos ramos do saber, diálogo capaz de
respeitar a devida autonomia das ciências e de trazer a luz do Evangelho para a
convergência dos valores humanos em Cristo.
A
educação latino-americana, numa palavra, é chamada a dar uma resposta ao repto
do presente e do futuro em nosso continente. Somente assim será capaz de libertar
nossos homens das servidões culturais, sociais, econômicos e políticas que se
opõem ao nosso desenvolvimento. Quando falamos assim não perdemos de vista a
dimensão sobrenatural que se inscreve no próprio desenvolvimento o qual
condiciona a plenitude da vida cristã.
II.
Sentido humanista e cristão da educação
1.
A educação libertadora como resposta a nossas necessidades
Nossa
reflexão sobre este panorama conduz-nos a propor uma visão da educação mais
conforme com o desenvolvimento integral que propugnamos para nosso continente;
chamá-1a-íamos de «educação libertadora», isto é, que transforma o educando em
sujeito de seu próprio desenvolvimento. A educação é efetivamente o meio-chave
para libertar os povos de fada servidão e para fazê-los ascender «de condições
de vida menos humanas para condições mais humanas” (PP) , tendo-se em conta
que o homem é o responsável e «o artífice principal de seu êxito e de seu
fracasso» (PP 15).
Para
tanto, a educação em todos os seus níveis deve chegar a ser criadora, enquanto
deve antecipar o novo tipo de sociedade que buscamos na América Latina; deve
basear seus esforços na personalização das novas gerações, aprofundando a
consciência de sua dignidade humana, favorecendo sua livre autodeterminação e
promovendo seu sentido comunitário.
Deve
ser aberta ao diálogo, para se enriquecer com os valores que a juventude intui
e descobre como válidos para o futuro e assim promover a compreensão dos
jovens entre si e com os adultos. Isto permitirá aos jovens recolher ao melhor
do exemplo e dos ensinamentos de seus pais e mestres e formar a sociedade de amanhã»
(Mensagem do Concílio aos Jovens) .
A
educação deve, além disso, afirmar, com sincero apreço, as peculiaridades
locais e nacionais e integrá-las na unidade pl2cral2sta do continente e do
mundo. Finalmente, deve capacitar as novas gerações para a mudança permanente
e orgânica que o desenvolvimento supõe.
Esta
é a educação libertadora de que a América Latina necessita para redimir-se das
servidões injustas e, antes de tudo, do seu próprio egoísmo. Esta é a educação
reclamada por nosso desenvolvimento integral.
2.
A educação libertadora e a missão da Igreja
Como
toda libertação já é uma antecipação da plena redenção de Cristo, a Igreja na
América Latina sente-se particularmente solidária com todo esforço educativo
tendente a libertar nossos povos. “O Espírito do Senhor está sobre mim, por
isso me enviou para evangelizar os pobres” (Isaías). Cristo pascal, “imagem do
Deus invisível”, é a meta que o desígnio de Deus estabelece para o desenvolvimento
do homem, para que «alcancemos todos a estatura do homem perfeito” (Et 1,4-13)
.
Por
isso, todo «crescimento em humanidade» (PP) capacita-nos a «reproduzir a imagem
do Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rom 8,29).
A
Igreja, no que se refere à sua missão específica, recomendada por seu divino
fundador, deve promover e fomentar a educação cristã a que todos os batizados
têm direito, para que alcancem a maturidade de sua fé. Enquanto servidora de
todos os homens, a Igreja busca por meio de seus membros, especialmente pelos
leigos, colaborar nas tarefas de promoção cultural humana sob todas as formas
que interessam à sociedade. No exercício deste direito e serviço, juntamente
com os demais setores responsáveis, a obra educadora da Igreja não deve ser
obstaculizada por discriminações de qualquer espécie.
Esta
é a visão alentadora que, sobre a educação na América Latina, apresenta hoje a
Igreja. Ela, isto é, todos os cristãos, empregarão seus esforços, com
humildade, desinteresse e desejo de servir, na tarefa de criar a nova educação
exigida pelos nossos povos, neste despertar de um novo mundo.
III.
Orientações pastorais
1.
Linhas gerais
A
Conferência Episcopal Latino-americana recomenda os seguintes critérios e
orientações:
1.1.
Reconhecendo a transcendência da educação sistemática para a promoção do
homem, em escolas ou colégios, convém não identificar a educação com qualquer
dos instrumentos concretos. Dentro do conceito educativo moderno, esta
transcendência é enorme, pois a educação é a maior garantia para o
desenvolvimento das pessoas e do progresso social; já que conduzida
corretamente para os autores do desenvolvimento; e é também ela a melhor distribuidora
dos frutos do progresso, que são as conquistas culturais da humanidade,
constituindo-se no elemento mais rentável da nação.
1.2.
Este conceito ultrapassa a mera institucionalidade dos centros docentes e
projeta sua dinâmica apostólica em outros setores que reclamam urgentemente a
presença e o compromisso da Igreja. Por isso, a Conferência Episcopal faz um
apelo aos responsáveis pela educação para que ofereçam oportunidades educativas
a todos os homens, em vista da posse sempre maior de seu próprio talento e de
sua própria personalidade, a fim de que, através dela, consigam alcançar, por
si próprios, a sua integração na sociedade, com plenitude de participação
social, econômica, cultural, política e religiosa.
Exorta,
portanto, os educadores ao cumprimento de seus deveres e à guarda de seus
direitos. A Igreja, de seu lado, por sua missão de serviço, compromete-se a
utilizar todos os meios a seu alcance.
1.3.
Dirige-se em primeiro lugar aos pais de família, «os primeiros e principais
educadores». Não podem ficar marginalizados do processo educativo. É urgente
auxiliá-los a tomarem consciência de seus deveres e direitos e facilitar-lhes
a participação direta nas atividades e na organização dos centros docentes,
através das Associações de Pais de Família, que devem ser criadas ou encorajadas
onde existirem, ao nível local, nacional e internacional.
1.4.
No que se refere aos educandos, insiste para que se leve em conta sua
problemática. A juventude pede para ser ouvida com relação à sua própria
formação. É preciso não esquecer que o aluno tende para seu auto-aperfeiçoamento,
e por isso é preciso apresentar-lhe os valores, a fim de que ele adote uma
atitude de aceitação pessoal em face deles. A auto-educação, que deve ser
ordenada com sabedoria, é requisito indispensável para alcançar a verdadeira
comunidade de educandos.
1.5.
Quanto aos ed2Gcadores é preciso antes de mais nada valorizar sua missão
decisiva na transformação da sociedade e chegar a uma decisão consciente e
corajosa na preparação, seleção e promoção do professorado.
A
seleção e a promoção deverão insistir fundamentalmente nos dotes humanos de
personalidade e atitude de serviço em permanente evolução; e para a preparação
deve a Igreja latino-americana apoiar os institutos de formação do pessoal
docente, confessional ou não.
A
Igreja deve, além disso, trabalhar para que todas as tarefas sociais lhes sejam
retribuídas convenientemente, colaborando com eles em suas justas
reivindicações.
1.6.
Dentro da comunidade educacional ocupam hoje lugar prioritário os grupos
j2cvenis, que vencem a distância crescente entre o mundo adulto e o mundo dos
jovens. Por isso, a Conferência Episcopal recomenda a formação de movimentos
juvenis que realizem toda sorte de atividades, de acordo com seus próprios
interesses e com uma direção suficiente, gradual e cada vez maior dos próprios
jovens. Além disso, aos que tiverem qualidades humanas apropriadas devem ser
dadas oportunidades de se formarem como líderes.
1.7.
A Igreja toma consciência da suma importância da educação de base. Em atenção
ao grande número de analfabetos e marginalizados na América Latina, a Igreja,
sem poupar sacrifício algum, se comprometerá a promover a educação de base,
que não visa somente alfabetizar mas também capacitar o homem para convertê-1o
em agente consciente de seu desenvolvimento integral.
2.
Relativamente à escola
2.1.
A Igreja, servidora da humanidade, tem-se preocupado, ao longo de sua
história, com a educação, não só catequética, mas integral do homem. A II
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano reafirma esta atitude de
serviço e continuará preocupando-se, por meio de seus Institutos Educacionais,
aos quais reconhece plena validez, em prosseguir nesta tarefa adaptada às
mudanças históricas. Assim, incentiva todos os educadores católicos e congregações
docentes a prosseguirem incansavelmente em sua abnegada função apostólica e
exorta-os à sua renovação e atualização, dentro da linha proposta pelo Concílio
e por esta Conferência.
2.2.
Recomenda, portanto, a obtenção dos títulos correspondentes ao exercício de sua
profissão educadora.
2.3.
Procure-se aplicar a recomendação do Concílio, relativa a uma efetiva
democratização da escola católica, a fim de que todos os setores sociais, sem
discriminação alguma, tenham acesso a ela e nela adquiram uma autêntica
consciência social que enforme sua vida.
2.4.
A escola católica deverá:
a)
Ser uma verdadeira comunidade formada por todos os elementos que a integram;
b)
Integrar-se na comunidade local e estar aberta à I comunidade nacional e
latino-americana;
c)
Ser dinâmica, viva e estar em contínua experimentação franca e leal;
d)
Estar aberta ao diálogo ecumênico;
e)
Partir da escola para a comunidade, transformando a mesma escola em centro
cultural, social e espiritual da comunidade; partir dos filhos para chegar aos
pais e à família; partir da educação escolar para chegar aos demais ambientes
educacionais.
2.5.
A fim de conseguir uma escola católica, aberta e democrática, esta Conferência
Episcopal apoia o direito que os pais e os alunos têm de escolherem sua própria
escola e de obter os meios econômicos necessários, dentro das exigências do
bem comum.
3.
Relativamente à universidade católica
A
II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano lembra às Universidades
católicas:
3.1.
Que devem ser antes de tudo universidades; isto é, órgãos superiores, onde a
investigação e a procura da verdade seja um trabalho comum entre professores e
alunos e, desta forma, se crie a cultura em suas diversas manifestações.
3.2.
Para alcançar este objetivo as Universidades católicas devem estabelecer o
diálogo entre as disciplinas humanas e o saber teológico, em íntima conexão
com as exigências mais profundas do homem e da sociedade.
Para
isso o ensino teológico deve estar em todos os setores da universidade, em
harmônica integração. Para este fim procurarão ter sua própria faculdade de
teologia, ou, pelo menos, um instituto superior de formação teológica ( GE 2)
.
3.3.
De acordo com o Concílio Vaticano II e a PP, as Universidades católicas devem
esforçar-se por integrar ativamente seus professores, alunos e graduados na comunidade
universitária, suscitando sua respectiva responsabilidade e participação na
vida e atividade universitária, na medida em que as circunstâncias concretas o
aconselhem.
3.4.
A universidade deve estar integrada na vida nacional e poder responder com
espírito criador e coragem às exigências do próprio país. Deverá auscultar as
necessidades reais, para o estabelecimento de suas faculdades e institutos e
para estabelecer, simultaneamente, as carreiras intermediárias de capacitarão
técnica, tendo em vista o desenvolvimento da comunidade, do país e do
continente.
3.5.
Para a constante renovação das tarefas universitárias, é importante promover
uma permanente avaliação dos métodos e estruturas de nossas universidades.
4.
Relativamente ao planejamento
4.1.
Dada a complexidade atual dos problemas educacionais nos países
latino-americanos, a pastoral educacional não pode ser concebida como uma
série de atividades e normas desconexas, mas sim como resultado de um verdadeiro
planejamento, sempre renovado e composto dos seguintes elementos :
a)
Reconhecimento das urgências na pastoral de conjunto;
b)
Elaboração das metas educacionais, fixando as prioridades;
c)
Censo e ordenação dos recursos humanos disponíveis;
d)
Censo dos instrumentos e meios institucionais,
financeiros e outros;
e)
Elaboração das etapas do plano.
4.2.
Nos assuntos de pastoral educacional, é conveniente que se procure
gradualmente, dentro do respeito às
pessoas e grupos, uma adequada articulação entre os organismos
episcopais de educação e os organismos correspondentes das Conferências de
Religiosos e das Federações de Colégios católicos.
4.3.
Compete aos cristãos estar presentes em todas as possíveis iniciativas do campo educacional e da cultura e informá-las para que a todos chegue o plano
divino da salvação.
4.4.
Para atender ao grande número de alunos das universidades e escolas
não-católicas será necessário organizar equipes de sacerdotes, de religiosos ou
de leigos educadores, responsáveis pelas tarefas apostólicas dessas
instituições.
A
atitude da Igreja no campo da educação não pode ser a de contrapor a escola
confessional à não-confessional, a escola particular à escola oficial, e sim, a
de colaboração aberta e franca entre escola e escola, universidade e
universidade, entre as escolas e as iniciativas extra escolares de formação e
de educação, entre os planos de educação da Igreja e os do Estado; colaboração
essa exigida em benefício da comunidade universal dos homens (GM 12) .
Esta
coordenação não só está isenta de perigo para o caráter confessional das escolas
católicas, mas é antes um dever pós-conciliar das mesmas, segundo o novo
conceito da presença da Igreja no mundo de hoje.
4.6.
A Igreja deve procurar prioritariamente a meIhoria das Universidades católicas
existentes, antes que promover a criação de novas instituições.
4.7.
Procure-se ainda uma coordenação efetiva entre as instituições educacionais da
Igreja e os organismos nacionais e internacionais interessados na educação.
5.
JUVENTUDE
1.
Situação da juventude
1.1.
A juventude, tema «digno do máximo interesse e de grandíssima atualidade»l,
constitui hoje não somente o grupo mais numeroso da sociedade latino-americana,
como também uma grande força nova de pressão. Ela se apresenta, em grande parte
do continente, como um novo corpo social (com perigo de detrimento na relação
com os outros corpos sociais) , portador de idéias próprias e valores
inerentes ao seu próprio dinamismo interno. Procura participar ativamente,
assumindo novas responsabilidades e funções, dentro da comunidade
latino-americana.
Freqüentemente,
sua impossibilidade de participação na vida da sociedade, provoca na juventude
uma certa marginalidade forçada.
1.2.
Vive numa época de crises e mudanças que são causas de conflito entre as
diversas gerações. Conflitos que estão exigindo um sincero esforço de
compreensão e diálogo, tanto da parte dos jovens como da parte dos adultos.
Trata-se de uma crise que atinge todos os níveis, e ao mesmo tempo que produz
um efeito purificador, traz também freqüentemente, a negação dos grandes
valores.
1.3.
Enquanto um setor da juventude aceita passivamente as formas burguesas da
sociedade (deixando-se levar, às vezes, pelo indiferentismo religioso) , outro
rejeita com marcado radicalismo o mundo que seus pais construíram, por
considerar seu estilo de vida carente de autenticidade; rejeita igualmente uma
sociedade de consumo que massifica e desumaniza o homem. Esta insatisfação
cresce de momento a momento.
A
juventude, particularmente sensível aos problemas sociais, reclama as mudanças
profundas e rápidas que assegurem uma sociedade mais justa: exigência que,
constantemente, sente tentação de expressar por meio da violência3. É um fato
constatável que o excessivo idealismo dos jovens os coloca facilmente sob a
ação de grupos de diversas tendências extremistas4.
1.4.
Os jovens são mais sensíveis do que os adultos aos valores positivos do
processo de secularização. Esforçam-se por construir um mundo mais comunitário,
que vislumbram, talvez, com mais clareza do que os antepassados. Estão mais
abertos a uma sociedade pluralista e a uma dimensão mais universal da
fraternidade.
A
atitude religiosa da juventude se caracteriza por recusar uma imagem
desfigurada de Deus, que, às vezes, lhe tem sido apresentada, e pela busca de
autênticos valores evangélicos.
1.5.
Freqüentemente os jovens identificam a Igreja com os bispos e os sacerdotes.
Por não terem sido chamados a uma plena participação na comunidade eclesial,
não se consideram como integrantes da Igreja. A linguagem comum da transmissão
da palavra (pregação, documentos pastorais etc.), são-lhes muitas vezes
estranhos e por isso não têm influência em suas vidas. Esperam dos pastores
que não somente divulguem princípios doutrinais, mas que os provem com atitudes
e realizações concretas. Dá-se o caso de jovens que condicionam a aceitação dos
pastores à coerência de suas atitudes com a dimensão social do Evangelho : ( «
. . . o mundo, disse Paulo VI, nos observa hoje de modo particular com relação
à pobreza e à simplicidade de vida . . . » ) 5.
1.6.
A tendência a reunir-se em grupos ou comunidades juvenis, mostra-se cada vez
mais forte dentro da dinâmica dos movimentos de juventude na América Latina.
Os jovens rejeitam as organizações demasiado institucionalizadas, as
estruturas rígidas e as formas de agrupamentos massificados. As comunidades
juvenis acima referidas se caracterizam, geralmente, por serem grupos naturais
(com «dimensão humana») de reflexão evangélica e revisão de vida, em torno de
um compromisso cristão ambiental.
1.7.
Sem desconhecer o significado das ações de massa entre os jovens, o excessivo
valor que a hierarquia atribui por vezes a seus resultados (resultados que
muitas vezes é de importância numérica), dificulta a tarefa daqueles movimentos
educativos e apostólicos que se esforçam por manter uma presença de fermento e
irradiação.
1.8.
Os movimentos juvenis esperam da hierarquia da Igreja um maior apoio moral,
quando se comprometem na aplicação concreta dos princípios da doutrina social
enunciada pelos pastores.
1.9.
Em síntese: a juventude oferece inegavelmente um conjunto de valores,
acompanhados, entretanto, de aspectos negativos. Mencionemos em primeiro
lugar, uma tendência à personalização, consciência de si mesmo, criatividade,
que por contraste os leva a rejeitar os valores da tradição. Possuem um
idealismo excessivo que os leva a desconhecer realidades inegáveis que terão de
ser aceitas, e adotam um inconformismo radical, cujas manifestações
características ocorrem em quase todos os países que os impulsionam a pretender
construir um mundo novo com negação absoluta do passado. Também é característica
da juventude a espontaneidade que a leva a menosprezar nem sempre com razão as
formas institucionais, as normas, a autoridade e o formalismo.
Finalmente
apresenta um conjunto de valores no plano da relação comunitária: certas
formas de responsabilidade, desejo de autenticidade e de sinceridade, uma aceitação
dos outros tais como são e um franco reconhecimento do caráter pluralista da
sociedade. Esta tendência comunitária, por sua vez, os faz correr o perigo de
fecharem-se em pequenos grupos agressivos.
2.
Critérios básicos para orientação pastoral
Antes
de passar a considerar as atitudes concretas que se deverão adotar com relação
à juventude, será oportuno esboçar a visão geral que a Igreja tem dela.
2.1.
A Igreja vê na juventude a constante renovação da vida da humanidade e descobre
nela um sinal de si mesma: «a Igreja é a verdadeira juventude do mundo»e.
a)
Vê, portanto, na juventude o contínuo recomeço e a persistência da vida, ou
seja, uma forma de superação da juventude. Isto não tem somente um sentido
biológico mas também sócio-cultural, psicológico e espiritual. De fato, diante
das culturas que mostram sinais de velhice e caducidade, a juventude está sendo
chamada a levar uma revitalizado; a manter a «fé na vida»s a conservar sua
«faculdade de alegrar-se com as coisas que começam»s Ela tem a tarefa de
reintroduzir constantemente o «sentido da vida»s. Renovar as culturas e o
espírito significa trazer e manter vivos novos sentidos da vida.
b)
Na juventude, assim entendida, a Igreja descobre também um sinal de si mesma.
Um sinal de sua fé, pois fé é a interpretação escatológica da existência, seu
sentido pascal, e através dele, a «novidade que o Evangelho encerrado. A fé,
anúncio do novo sentido das coisas, é a renovação e rejuvenescimento da
humanidade. Nesta perspectiva a Igreja convida os jovens a “mergulhar nas
luzes da fé” se deste modo introduzir a fé no mundo para vencer as formas
espirituais da morte, quer dizer, «as filosofias do egoísmo, do prazer, do
desespero e do nada”. Filosofias que implantam na cultura formas velhas e
caducas.
A
juventude é um símbolo da Igreja, chamada a uma constante renovação de si
mesma, ou seja, a um constante «rejuvenescimento»7.
3.
Recomendações pastorais
3.1.
A Igreja, adotando uma atitude francamente acolhedora para com a juventude,
saberá distinguir os aspectos positivos e negativos que ela apresenta na
atualidade. Por um lado, quer perscrutar atentamente as atitudes dos jovens que
são manifestações dos sinais dos tempos: a juventude anuncia valores que
renovam as diversas épocas da história; quer aceitar com prazer em seu seio e
em suas estruturas a juventude e promovê-la numa ativa participação das
tarefas humanas e espirituais.
Por
outro lado, coerente com a ânsia de sinceridade que demonstra a juventude, a
Igreja terá de chamá-1a a um constante aprofundamento de sua autenticidade e a
uma autocrítica de suas próprias deficiências, apresentando-lhe então os
valores permanentes para que sejam reconhecidos por ela. Tudo isto demonstra a
sincera vontade da Igreja de adotar uma atitude de diálogo com a juventude.
Dentro desta linha pastoral a II Conferência do Episcopado Latino-americano,
reconhecendo na juventude não somente sua força numérica, mas ainda seu papel
cada vez mais decisivo no processo de transformação do continente, bem como
sua importância insubstituível na missão profética da Igreja, formula as
seguintes recomendações:
3.2.
A) Com relação à juventude em geral
I.
Desenvolver, em todos os níveis, nos setores urbanos e rurais, dentro da
pastoral de conjunto, uma autêntica pastoral da juventude. Esta pastoral
haverá de tender à educação da fé dos jovens, partindo de sua vida, de modo que
eles participem plenamente da comunidade eclesial, assumindo consciente e
cristãmente seu compromisso temporal. Esta pastoral implica:
a)
A necessidade de elaboração de uma pedagogia orgânica da juventude através da
qual se estimule no jovem uma sólida formação humana e cristã e se apoiem os esforços
em adquirir uma autêntica personalidade. Personalidade que os capacite, por
uma parte, assimilar com critério lúcido e verdadeira liberdade todos os
elementos positivos das influências que recebem através dos diversos meios de
comunicação social e lhes permita, por outra parte, fazer frente ao processo de
despersonalizado e massificação, que ataca de modo particular a juventude.
Pedagogia que eduque também no sentido (valor e relatividade) do
institucional.
b) A necessidade de um conhecimento da
realidade sócio-religiosa da juventude
constantemente atualizado.
c)
A necessidade de promover centros de investigação e estudos no que se refere à
participação da juventude na solução dos problemas do desenvolvimento.
d)
Esta pastoral exige, em particular, da parte dos ministros da Igreja, um
diálogo sincero e permanente com a juventude, tanto de movimentos organizados,
como de setores não organizados, através dos conselhos pastorais ou outras
formas de diálogo.
3.3.
II. A atitude de diálogo implica responder aos legítimos e veementes reclamos
pastorais da juventude, nos quais se há de reconhecer um chamado de Deus. Por
isso, esta Segunda Conferência recomenda:
a)
Que se apresente cada vez mais nítido na América Latina o rosto da Igreja
autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo poder temporal e
corajosamente comprometida com a libertação do homem todo e de todos os
homens.
b)
Que a pregação, dos documentos pastorais, e em geral a linguagem da Igreja sejam
simples e atuais, tendo em conta a vida real dos homens de nosso tempo.
64
c)
Que se viva na Igreja, em todos os níveis, com caráter de serviço, um sentido
de autoridade isento de autoritarismo.
3.4.
III. Procurar que em todos os centros educacionais da Igreja e nos outros,
onde ela deve realizar sua presença se capacite os jovens, através de uma
autêntica orientação vocacional, que tenha em conta os diferentes estados de
vida, para assumirem sua responsabilidade social como cristãos no processo de mudanças
na América Latina.
3.5.
B) Com relação aos movimentos juvenis
I.
Que se tenha muito em conta a importância das organizações e movimentos
católicos de juventude, em particular os de caráter nacional e continental.
Que
se dê maior confiança aos dirigentes leigos e se reconheça a autonomia própria
dos seus movimentos. Que sejam eles consultados na elaboração da pastoral
juvenil, em nível diocesano, nacional e continental. Que se estimule sua ação
evangelizadora na transformação das pessoas e das estruturas.
Que
se apoiem seus esforços no sentido da formação de líderes da comunidade.
Que
se distribua mais racionalmente os sacerdotes para que haja uma maior atenção
para os movimentos juvenis.
Que
se dê à formação de assessores da juventude (sacerdotes, religiosos,
religiosas e leigos) a importância que têm num continente com uma maioria de
jovens em sua população.
3.6.
II. Que se favoreça em todos os níveis o encontro, o intercâmbio e a ação em
comum dos movimentos e organizações juvenis católicos com outras instituições
de juventude.
III.
Que se dê apoio às iniciativas de caráter ecumênica, entre os grupos e
organizações de juventude, segundo as orientações da Igreja.
IV.
Que se considere a possibilidade e a conveniência de contar com a colaboração
de leigos, e entre eles de jovens, na qualidade de consultores, nos diversos
departamentos do CELAM.
6.
PASTORAL DAS MASSAS
I.
Situação
Na
América Latina, na grande massa de batizados, as condições de fé, crenças e
práticas cristas são muito diversas, não só de um país para outro, como entre
regiões de uma mesma nação, e ainda entre os diversos níveis sociais.
Encontram-se
também grupos étnicos semi-pagãos; massas camponesas que conservam uma profunda
religiosidade e massas de marginalizados com sentimentos religiosos, mas de
pouca prática cristã.
Há
um processo de transformação cultural e religiosa. A evangelização do
continente experimenta sérias dificuldades que se vêm agravando face à
explosão demográfica, às migrações internas, às modificações sócio-culturais, à
escassez de pessoal apostólico e à deficiente adaptação das estruturas
eclesiais.
Até
agora a Igreja contou principalmente com uma pastoral conservadora, baseada
numa sacramentalização com pouca ênfase numa prévia evangelização. Pastoral apta,
sem dúvida, para uma época em que as estruturas sociais coincidiam com as
estruturas religiosas, em que os métodos de comunicação dos valores (família,
escola . . . ) estavam impregnados de valores cristãos e onde a fé se
transmitia quase pela própria força da tradição.
Hoje,
entretanto, as próprias transformações do continente exigem uma revisão dessa
pastoral, a fim de que se adapte à diversidade e pluralidade culturais do povo
latino-americano.
A
expressão da religiosidade popular é fruto de uma evangelização realizada desde
o tempo da conquista, com características especiais. É uma religiosidade de
votos e promessas, de peregrinações e de um número infinito de devoções,
baseada na recepção dos sacramentos, especialmente do batismo e da primeira eucaristia,
recepção que tem mais conseqüências sociais que um verdadeiro influxo no
exercício da vida cristã.
Embora
a conduta moral deixe muito a desejar, observa-se, entre nossos povos, uma
enorme reserva de virtudes autenticamente cristãs, especialmente no que diz
respeito à caridade. Sua participação na vida cultural oficial é quase nula e
sua adesão à organização da Igreja é muito escassa.
Esta
religiosidade, mais do tipo cósmico, em que Deus é resposta a todas as
incógnitas e necessidades do homem, pode entrar em crise e, de fato, já começou
a entrar com o conhecimento científico do mundo que nos rodeia.
Ante
esta religiosidade se apresenta à Igreja um dilema: ou continua a ser Igreja
universal ou converte-se em seita e, portanto, não os incorpora a si. Por ser
Igreja e não seita, deverá oferecer sua mensagem de salvação a todos os homens,
correndo, talvez, o risco de que nem todos a aceitem da mesma forma e com a
mesma intensidade.
Como
em toda sociedade humana os diversos grupos de pessoas captam de modo diferente
os objetivos da organização, respondem igualmente de formas diversas aos
valores e normas que o grupo professa, os graus de participação são diversos;
as lealdade, o sentido de solidariedade nem sempre são expressos do mesmo
modo.
Há,
além disso, na sociedade contemporânea, uma tendência aparentemente
contraditória; tendência às manifestações grupais no comportamento humano e,
simultaneamente, uma tendência para as pequenas comunidades onde existe melhor
possibilidade de realização como pessoas.
Do
ponto de vista da vivência religiosa, sabemos que nem todos os homens aceitam e
vivem a mensagem religiosa da mesma maneira. No nível pessoal um mesmo homem
experimenta fases distintas em sua resposta a Deus, e no nível social, nem
todos manifestam sua religiosidade nem sua fé de um modo unívoco. O povo
precisa manifestar sua fé de uma forma simples, emocional, coletiva.
Ao
julgar a religiosidade popular, não podemos partir de uma interpretação
cultural ocidentalizada das classes médias e alta urbanas e sim do significado
que essa religiosidade tem no contexto da subcultura dos grupos rurais e
urbanos marginalizados.
Suas
expressões podem estar deformadas e mescladas, em certa medida, com um
patrimônio religioso ancestral, onde a tradição exerce um poder quase
tirânico; correm o perigo de serem facilmente influenciadas por práticas
mágicas e supersticiosas, de revelarem um caráter mais utilitário e um certo
temor ao divino, que necessita da intervenção de seres mais próximos ao homem e
de expressões mais plásticas e concretas.
Esses
tipos de religiosidade podem ser, entretanto, balbucios de uma autêntica
religiosidade, expressa com os elementos culturais de que dispõe.
É
mister recordar aos pastores que no fenômeno religioso existem motivações
distintas que, por serem humanas, são mistas e podem corresponder ao desejo de
segurança, impotência e, simultaneamente, à necessidade de adoração, gratidão
para com o Ser supremo. Motivações que se plasmam e se expressam em símbolos
diversos. A fé chega ao homem envolta sempre numa linguagem cultural; e na
religiosidade natural do homem há germens de um chamado de Deus.
Para
responder a cada situação na qual o homem se encontra em seu caminho para Deus,
há necessidade de reafirmar a diversidade de respostas que devem ser dadas ao
homem contemporâneo e não esquecer a urgência em exigir, na medida do possível,
uma aceitação mais pessoal e comunitária da mensagem da revelação.
II.
Princípios teológicos
Uma
pastoral popular pode ser baseada nos seguintes critérios teológicos :
1.
A fé, e, por conseguinte, a Igreja, nascem e crescem em religiosidade
culturalmente diversificada nos distintos povos. Fé, que embora imperfeita,
pode encontrar-se ainda nos níveis culturais mais inferiores.
Pertence
precisamente à tarefa evangelizadora da Igreja descobrir nessa religiosidade a
«secreta presença de Deus» (AG 9) e a luz da verdade que ilumina a todos (NA
2), a luz do Verbo presente, mesmo antes da encarnação ou da pregação
apostólica, e fazer frutificar essa semente.
Sem
extinguir a mecha fumegante (of. Ml 12,20), a Igreja aceita com alegria e
respeito, purifica e incorpora à fé os diversos “elementos religiosos” (GS 92)
que estão presentes nessa religiosidade como “semente oculta do Verbo (AG 11) e
que constituem ou podem constituir uma preparação evangélica” (LG 16) .
2.
Os homens aderem à fé e participam de diversas maneiras.
Ainda
que não se possa supor sem mais nem menos a existência da fé e por trás de
qualquer expressão religiosa aparentemente crista tampouco se pode negar,
arbitrariamente, o caráter de verdadeira adesão fiel e de participação
eclesial real, embora fraca, a toda expressão que apresente elementos espúrios
ou motivações temporais e egoístas. Com efeito, mesmo na fé, como ato de uma humanidade
peregrina no tempo, o homem depende da imperfeição das motivações mistas.
3.
É igualmente próprio da fé, emborca incipiente e débil, um dinamismo e
exigência que a levam a superar constantemente suas motivações inautênticas
para firmar-se
em
outras mais autênticas.
70
Pertence,
pois, ao ato de fé, sob o impulso do Espírito Santo, o dinamismo interior que
tende constantemente a aperfeiçoar o momento de apropriação salvífica transformando-o
em ato de doação e entrega absoluta de si.
4.
Conseqüentemente, longe de tranqüilizar-se com a idéia de que o povo
latino-americano, em seu conjunto, possui já fé; longe de estar satisfeita com
a tarefa de conservar a fé do povo em seus níveis inferiores, fracos e
ameaçados, a Igreja, na América Latina, se propõe a estabelecer e a seguir uma
linha de pedagogia pastoral, que
a)
Assegure uma séria reevangelização das diversas áreas humanas do continente;
b)
Promova constantemente uma reconversão e uma educação de nosso povo na fé em
níveis cada vez mais profundos e maduros, seguindo o critério de uma pastoral
dinâmica, que em consonância com a natureza da fé, impulsione o povo fiel para
a dupla dimensão personalizante e comunitária.
5.
Segundo a vontade de Deus, os homens devem santificar-se e salvar-se não
individualmente, mas constituídos em comunidade (LG 9; GS 32). Esta comunidade
é convocada e congregada em primeiro lugar pelo anúncio da Palavra de Deus vivo
(PO 2 e 4) . Entretanto, não se edifica nenhuma comunidade cristã se ela não
tiver como raiz e centro a celebração da Santíssima Eucaristia (PO 6), mediante
a qual a Igreja continuamente vive e cresce (LG 26) .
III.
Recomendações pastorais
1.
Pedir que se realizem estudos sérios e sistemáticos sobre a religiosidade
popular e suas manifestações, seja em universidades católicas, seja em outros
centros de investigação sócio-religiosa.
2.
Estudar e realizar uma pastoral litúrgica e catequética adequada, não só
destinada a pequenos grupos, mas sim à totalidade do povo de Deus, partindo-se
de um estudo das subculturas próprias, das exigências e das aspirações dos
homens.
3.
Impregnar as manifestações populares, como romarias, e peregrinações, devoções
diversas, da palavra evangélica. Rever muitas das devoções aos santos, para que
não sejam tomados apenas como intercessores, mas também como modelos de vida,
de imitadores de Cristo. Tratar das devoções e dos sacramentos de maneira que
não levem o homem a uma aceitação semifatalista e sim que o eduquem para se
tornar administrador com Deus, de seu destino.
4.
Procurar a formação do maior número de comunidades eclesiais nas paróquias,
especialmente nas zonas rurais ou entre os marginalizados urbanos. Comunidades
que se devem basear na Palavra de Deus e realizar-se, enquanto seja possível,
na celebração eucarística, sempre em comunhão e sob a dependência do bispo.
5.
A comunidade se formará na medida em que seus membros adquirirem um sentido de
pertença que os leve a ser solidários numa missão comum, e consigam uma participação
ativa, consciente e frutificante, na vida litúrgica e na convivência
comunitária. Para isso, se torna mister fazê-los viver como comunidade,
incu1cando-lhes um objetivo comum: alcançar a salvação mediante a vivência de
fé e de amor.
6.
Para a necessária formação dessas comunidades, colocar em vigência, o quanto
antes, o diaconato permanente e convidar a uma participação mais ativa os religiosos,
religiosas e leigos.
7.
A pastoral das massas deverá adotar uma exigência cada vez maior para
conseguir personalização e vida
comunitária,
de modo pedagógico, respeitando as etapas diversas no caminho para Deus.
Respeito que não significará apenas aceitação e imobilismo, mas também um convite
a uma vivência mais plena do Evangelho e a uma conversão reiterada. Para este
fim, se torna necessária a estruturação de organismos pastorais (nacionais,
diocesanos, paroquiais) e a utilização dos meios adequados, como os de
comunicação social, para uma catequese apropriada, missões baseadas sobretudo
em núcleos familiares ou de bairros etc., que dêem um sentido de vida mais de
acordo com as exigências do Evangelho.
7.
PASTORAL DAS ELITES
I.
Situação
a)
Fatos
l.
As elites são, em nosso contexto :
a)
De modo geral: os grupos dirigentes mais adiantados, dominantes no plano da
cultura, da profissão, da economia e do poder;
b)
De modo especial: dentro desses mesmos grupos, as minorias comprometidas que
exercem uma influência atual ou potencial nos distintos níveis de decisão
cultural, profissional, econômica, social ou política.
2.
Conscientes da dificuldade em apresentar uma classificação adequada,
assinalamos, entretanto, como pertencentes à elite c2dtural: os artistas,
homens de letras e universitários (professores e estudantes); à elite
profissional: os médicos, os advogados, educadores (profissões liberais) ;
engenheiros, agrônomos, planificadores, economistas, sociólogos, técnicos em
comunicação social (tecnólogos) ; à elite econômico-social: os industriais,
banqueiros, líderes sindicais (operários e camponeses), empresários, comerciantes,
fazendeiros. . . ; à elite dos poderes políticos e militares: os políticos, os
que exercem o poder judiciário, os militares . . .
3.
Partindo do ponto de vista de que se trata, em geral, de círculos específicos e
compactos, convém examinar, em primeiro lugar, suas atitudes, mentalidades e
indicações em vista da transformação social, para considerar, posteriormente,
as manifestações de sua fé, seu espírito eclesial e social, em confronto com a
pastoral atual da Igreja, propondo, finalmente, algumas recom2endações
pastorais.
75
4.
A experiência mostra que é difícil realizar uma análise exata e profunda do
assunto por carência de dados precisos, nestes diferentes setores.
Para
uma análise deste tipo, seria necessário ouvir mais os técnicos e os leigos.
Entretanto apresentamos as seguintes observações:
b)
Tipos
Por
questões de método e levando-se em conta o caráter relativo de toda tipologia
- que comporta necessariamente matizes e simplificações - e tratando-se de uma
classificação em função da transformação social, assinalaremos os seguintes
grupos : os tradicionalistas ou conservadores; os progressistas ou
revolucionários, que podem ser marxistas, esquerdistas não-marxistas, ou
ideologicamente indefinidos.
1.
Os tradicionais ou conservadores manifestam pouca ou nenhuma consciência
social, têm mentalidade burguesa e por isso não discutem o problema das
estruturas sociais. Em geral se preocupam com a manutenção de seus privilégios,
que eles identificam com a «ordem estabelecida». Sua atuação na comunidade possui
um caráter paternalista e assistencial, sem nenhuma preocupação em modificar
o status quo.
Entretanto,
alguns conservadores atuam, muitas vezes, sob o influxo do poder econômico
nacional ou internacional, com alguma preocupação desenvolvimentista.
Trata-se
de uma mentalidade que freqüentemente se destaca em alguns meios profissionais,
em setores econõmico-sociais e do poder estabelecido. Isto faz com que certos
setores governamentais atuem em benefício dos grupos tradicionalistas ou
conservadores, o que dá lugar à corrupção e ausência de um benéfico processo de
personalização e socialização das classes populares. Em diversas regiões as
forças militares apoiam esta estrutura, e, às vezes, intervêm para reforçá-1a.
2.
Os progressistas se ocupam preferencialmente dos meios de produção que, segundo
eles, devem ser modificados em qualidade e quantidade. Atribuem grande valor à
tecnização e ao planejamento da saciedade. Acham que o povo marginalizado deve
ser integrado na sociedade como produtor e consumidor. Dão mais ênfase ao
progresso econômico que à promoção social do povo que vise à participação de
todos nas decisões que interessem à ordem econômica e política.
É
essa a mentalidade que se observa, freqüentemente, entre os tecnólogos e os
vários organismos que procuram o desenvolvimento dos países.
3.
Os revolucionários contestam a estrutura econômico-social. Desejam a
transformação radical da mesma, tanto de seus objetivos como de seus meios.
Para eles o povo é ou deve ser o sujeito dessa transformação, de modo a participar
das decisões para o ordenamento de todo o processo social.
Esta
atitude pode ser observada com maior freqüência entre os intelectuais,
pesquisadores, cientistas e universitários.
c)
Atitudes na fé
Reconhecendo
que em todos estes ambientes muitos vivem sua fé conforme sua consciência e
ainda realizam um trabalho positivo de conscientização e promoção humana,
notamos, do ponto de vista da mudança social as seguintes manifestações desta
fé :
l.
No grupo dos conservadores ou ir adicionalistas se encontra, com maior
freqüência, a separação entre fé e responsabilidade social. A fé é mais a
adesão a um credo e a princípios morais. A pertença à Igreja é mais de estilo
tradicional, e, às vezes interesseira. Dentro desses grupos, mais que
verdadeira crise de fé, se verifica uma crise de religiosidade.
76
77
2.
Entre os progressistas podem ser encontradas diversas gamas de fé, desde o
indiferentismo até a vivência pessoal. Têm tendência a considerar a Igreja
instrumento mais ou menos favorável ao desenvolvimento. Nestes grupos se
percebe mais claramente o impacto da dessacralização devida à mentalidade
técnica.
Nota-se
também em alguns desses grupos, especialmente entre universitários e os
profissionais jovens, uma tendência que leva ao indiferentismo religioso ou a
uma visão humanística que exclui a religião, devido, sobretudo, à sua
preocupação com os problemas sociais.
3.
Os revolucionários tendem a identificar unilateralmente a fé com a
responsabilidade social. Possuem um sentido muito agudo do serviço ao próximo
e, ao mesmo tempo, experimentam dificuldades no relacionamento pessoal com
Deus transcendente na expressão litúrgica da fé.
Dentro
destes grupos ocorre mais freqüentemente uma crise real de fé. Quanto à Igreja,
criticam determinadas formas históricas e algumas manifestações dos representantes
oficiais da Igreja, em sua atitude e vivência concretas, frente ao social.
II.
Princípios
l.
Em todos esses ambientes a evangelização deve orientar-se para formação de uma
fé pessoal, adulta, interiormente formada, operante e constantemente em confronto
com os desafios da vida atual, nesta fase de transição.
2.
Esta evangelização deve ser relacionada com os «sinais dos tempos».
Não
pode ser atemporal nem a-histórica. Com efeito, os “sinais dos tempos”,
observados em nosso continente sobretudo na área social, constituem um «dado
teológico” e interpelação de Deus.
3.
Por outro lado, esta evangelização deve ser realizada através do testemunho
pessoal e comunitário, que se expressará de forma especial no contexto do
próprio compromisso temporal.
4.
A evangelização de que estamos falando deve tornar explícitos os valores de
justiça e fraternidade, contidos nas aspirações de nossos povos, numa
perspectiva escatológica.
5.
A evangelização precisa, como suporte, de uma Igreja-sinal.
III.
Recomendações Pastorais
a)
De caráter geral:
1.
É necessário animar, dentro das elites, as minorias comprometidas, criando -
enquanto possível - equipes de base que façam uso da pedagogia da revisão da
vida, fazendo-as compreender que são, simultaneamente, apóstolos de seu
próprio ambiente, e estimulando, além disso, contatos com os demais grupos na
vida paroquial, diocesana e nacional. Esta pastoral das elites não deve ser
separada da pastoral geral da Igreja.
2.
Procuremos que os sacramentos e a vida litúrgica, com base numa relação pessoal
com Deus e com a comunidade, adquiram o sentido de apoio e desenvolvimento, o
amor de Deus e do próximo, como expressão da comunidade cristã.
3.
Na formação do clero, é preciso dar maior atenção a este tipo de pastoral
especializada, preparando-se - também mediante estudos profissionais e
técnicos quando for preciso - assessores especializados para estes grupos.
b)
De caráter especial:
1.
Artistas e homens de letras
a)
Levando-se em conta o importante papel que os artistas e homens de letras estão
chamados a desempenhar em nosso continente, especialmente em relação a sua autonomia
cultural, como intérpretes naturais de suas angústias e de suas esperanças,
como promotores de valores autótones que configuram a imagem nacional, a II
Conferência considera particularmente importante a presença animadora da
Igreja nestes setores.
b)
Esta presença deverá revestir-se de um caráter de diálogo, longe de toda preocupação
moralizante ou confessional, em atitude de profundo respeito à liberdade criadora,
sem detrimento da responsabilidade moral.
c)
A Igreja latino-americana deve dar ao homem de letras e aos artistas o seu
devido lugar, requerendo sua ajuda para a expressão estética de sua palavra
litúrgica, de sua música sacra e de seus lugares de culto.
2.
Universitários (estudantes)
a)
Ante a urgente necessidade de uma efetiva presença da Igreja no meio
universitário, esta II Conferência pede que se levem em conta as recomendações
práticas do encontro episcopal sobre pastoral universitária realizada em Buga,
em fevereiro de 1967.
b)
Da mesma forma, pede às hierarquias locais maior compreensão dos problemas
próprios dos universitários, procurando valorizar antes de condenar
indiscriminadamente, as nobres motivações e as justas aspirações, muitas vezes
contidas em suas inquietudes e protestos, tratando de canalizá-las devidamente
através de um diálogo aberto.
c)
Levando-se em conta o fato de que milhares de jovens latino-americanos estudam
na Europa e América do Norte, o CELAM procurará, de acordo com as hierarquias
desses países, dar a devida atenção pastoral aos mesmos, cuidando,
simultaneamente, de manter viva, neles, a consciência do compromisso de serviço
para com seus países de origem.
3.
Grupos econômicas-saciais
a)
A experiência demonstra que no ambiente dessas elites é possível a constituição
de grupos e organizações especializadas, cujas metas e metodologia devem
manter-se em constante revisão à luz do contexto latino-americano e da pastoral
social da Igreja.
b)
Sem subestimar as formas assistenciais de ação social, a pastoral da Igreja
deve orientar preferencialmente esses grupos para um compromisso no plano das
estruturas sócio-econômicas e que conduza às necessárias reformas das mesmas.
c)
A Igreja deve prestar uma atenção especial às minorias ativas (líderes
sindicais e cooperativas) que nos ambientes rural e operário estão realizando
um importante trabalho de conscientização e promoção humana, apoiando e
acompanhando pastoralmente suas preocupações com a transformação social.
4.
Poderes militares
Com
relação às forças armadas, a Igreja deve inculcar-lhes a idéia de que, além de
suas funções normais específicas, elas têm a missão de garantir as liberdades
políticas dos cidadãos, em vez de lhes pôr obstáculos. Por outro lado, as
forças armadas têm a possibilidade de educar, dentro de seus próprios quadros,
os jovens recrutas para a futura participação, livre e responsável, na vida política
do país.
5.
Poderes políticos
a)
Promovam-se contatos e diálogos entre a Igreja e o poder constituído sobre
exigências da moral social, não se excluindo, onde se torne necessário, a
denúncia, enérgica e prudente, das injustiças e dos excessos do poder.
b)
A ação pastoral da Igreja estimulará todas as categorias de cidadãos a
colaborarem nos planos construtivos dos governos e a contribuírem também por
meio de uma crítica sadia, numa oposição responsável, para progresso do bem
comum.
c)
A Igreja deverá manter sempre sua independência diante dos poderes constituídos
e dos regimes que os asseguram, renunciando, se for preciso, às formas
legítimas de presença que, por causa do contexto social, a tornam suspeita de
aliança com o poder constituído e são, por isso mesmo, um contra-sinal pastoral
(of. GS 76).
d)
A Igreja, entretanto, deverá colaborar na formação política das elites, através
de seus movimentos e instituições educativas.
e)
Note-se, finalmente, que também na América Latina «com o desenvolvimento cultural,
econômico e social, se consolida na maioria o anseio de participar mais plenamente
da ordenação da comunidade política . . . A consciência mais viva da natureza
humana fez com que «surgisse o propósito de se estabelecer uma ordem
político-jurídica destinada a proteger melhor a vida pública e os direitos da
pessoa humana, como o direito de livre reunião, de livre associação, de
expressar suas próprias opiniões e de professar, particular e publicamente, a
religião» (of. GS 73 ) .
8.
CATEQUESE
I.
Necessidade de uma renovação
l.
Diante de um mundo em transformação, e considerando o atual processo de
maturação da Igreja na América Latina, o movimento catequético sente a
necessidade de uma profunda renovação que expresse a vontade da Igreja e de
seus responsáveis de levar avante sua missão fundamental: educar eficazmente a
fé dos jovens e dos adultos, em todas as camadas. Falhar neste ponto seria
trair, ao mesmo tempo, a Deus, que confiou à Igreja sua mensagem, e ao homem,
que necessita dela para salvar-se.
2.
A renovação catequética não pode ignorar um fato: que nosso continente vive,
em grande parte, de uma tradição crista, e que esta impregna, simultaneamente,
a existência dos indivíduos e o contexto social e cultural. A religiosidade
popular, embora se observe um crescimento no processo de secularização, é um
elemento válido na América Latina. Não se pode prescindir dela, dada a
importância, seriedade e autenticidade com que é vivida por muitas pessoas,
sobretudo nos meios populares. A religiosidade popular pode ser a ocasião ou
ponto de partida para um anúncio da fé. Não obstante, impõe-se uma revisão e um
estudo científico dessa religiosidade, para purificá-1a de elementos que a
tornam autêntica e para valorizar seus elementos positivos. Evitar-se-á,
assim, uma estagnação em formas do passado, algumas das quais parecem hoje,
além de ambíguas, inadequadas e até nocivas.
3.
Como conseqüência, os responsáveis pela catequese encontram-se diante de uma
série de tarefas complexas e difíceis de conjugar:
Promover
a evolução de formas tradicionais de fé, próprias de uma grande parte do
público cristão, e também suscitar formas novas.
evangelizar
e catequizar massas incontáveis de pessoas simples, freqüentemente
analfabetas, e, ao mesmo tempo, responder às necessidades dos estudantes e dos
intelectuais, que são as parcelas mais vivas e dinâmicas da sociedade.
Purificar,
quando necessário, formas tradicionais de presença e, ao mesmo tempo, descobrir
uma nova maneira de estar presente às formas contemporâneas de expressão e
comunicação numa sociedade que se seculariza.
Assegurar,
finalmente, o conjunto dessas tarefas, utilizando todos os recursos atuais da
Igreja e, ao mesmo tempo, renunciar a formas de influência e atitudes de vida
que não sejam evangélicas.
II.
Características da renovação
4.
Ao apresentar sua mensagem renovada, a catequese deve manifestar a unidade do
plano de Deus.
Sem
cair em confusões ou em identificações simplistas, deve-se expressar sempre a
unidade profunda que existe entre o plano divino de salvação, realizado em
Cristo, e as aspirações do homem; entre a história da salvação e a história
humana; entre a Igreja, povo de Deus, e as comunidades temporais; entre a ação
reveladora de Deus e a experiência do homem; entre os dons e carismas sobrenaturais
e os valores humanos.
Excluindo
assim toda dicotomia ou dualismo no cristão, a catequese prepara o
desenvolvimento progressivo do povo de Deus para a sua realização escatológica,
que tem agora sua expressão na liturgia.
5.
Por outro lado, a catequese deve conservar sempre seu caráter dinâmico e
evolutivo.
A
tomada de consciência da mensagem cristã se faz aprofundando cada vez mais a
compreensão autêntica da verdade revelada. Essa tomada progressiva de consciência,
porém, cresce na medida do surgimento das experiências humanas, individuais e
coletivas. Por isso, a fidelidade da Igreja à Revelação tem que ser e é
dinâmica.
A
catequese não pode, pois, ignorar em sua renovação as mudanças econômicas,
demográficas, sociais e culturais sofridas na América Latina.
III.
Prioridades na renovação catequética
6.
De acordo com esta teologia da Revelação, a catequese atual deve assumir
totalmente as angústias e esperanças do homem de hoje, para oferecer-lhe as
possibilidades de uma libertação plena, as riquezas de uma salvação integral
em Cristo, o Senhor. Por isso, deve ser fiel à transmissão, não somente da
mensagem bíblica em seu conteúdo intelectual, mas também à sua realidade vital
encarnada nos fatos da vida do homem de hoje.
As
situações históricas e as aspirações autenticamente humanas são parte
indispensável do conteúdo da catequese. E devem ser interpretadas seriamente,
dentro de seu contexto atual, à luz das experiências vivenciais do povo de
Israel, de Cristo, e da comunidade eclesial, na qual o Espírito de Cristo
ressuscitado vive e opera continuamente.
7.
A América Latina vive hoje um momento histórico, que a catequese não pode
ignorar: o processo da transformação social, exigido pela atual situação de
necessidade e injustiça em que se encontram marginalizados grandes setores da
sociedade. As formas desta evolução global e profunda poderão ser diversas:
progressivas e mais ou menos rápidos. E cabe à catequese ajudar na evolução
integral do homem, dando-lhe seu autêntico sentido cristão, promovendo sua
motivação nos catequizados e orientando-a para que seja fiel ao Evangelho.
8.
É necessário ressaltar, também, as exigências do pluralismo numa pastoral
latino-americana. As situações em que se desenvolve a catequese são muito
diversas: desde as de tipo patriarcal, em que as formas tradicionais são ainda
aceitas, até as mais avançadas formas da civilização urbana contemporânea.
Convém, por isso, destacar a riqueza que deve existir na diversidade de pontos
de vista e de formas que se dão na catequese. Tanto mais quanto esta deve
adaptar-se à diversidade de línguas e de mentalidade e à variedade de situações
e culturas humanas.
É
impossível, em vista disso, querer impor moldes fixos e universais. Com um
sincero intercâmbio de colaborações, devemos guardar a unidade da fé na
diversidade de formas.
9.
Apesar deste pluralismo de situações, nossa catequese tem um ponto comum em
todos os meios: tem que ser eminentemente evangelizadora, sem pressupor uma
realidade de fé, senão após oportunas constatações.
Já
o fato de se batizarem as crianças pequenas, confiando na fé da família, torna
necessário uma «evangelização dos batizados», como uma etapa na educação de sua
fé. E esta necessidade é mais urgente, quando se considera a desintegração que
a família tem sofrido em muitas regiões, a ignorância religiosa dos adultos e a
escassez de comunidades cristãs de base.
Esta
evangelização dos batizados tem um objetivo concreto: levá-los a um compromisso
pessoal com Cristo e a uma entrega consciente à obediência da fé. Daí, a
importância de uma revisão da pastoral da confirmação, assim como de novas
formas de catecumenato na catequese de adultos, insistindo na preparação para
os sacramentos.
Devemos
rever, também, tudo aquilo que em nossa vida ou em nossas instituições possa
ser um obstáculo para a reevangelização dos adultos, purificando assim a face
da Igreja diante do mundo.
10.
Para os cristãos, tem particular importância a forma ca7nunitária de vida, como
testemunho de amor e de unidade.
Não
pode, portanto, a catequese limitar-se às dimensões individuais da vida. As
comunidades cristãs de base, abertas ao mundo e inseridas nele, têm que ser o
fruto da evangelização, assim como sinal que confirma com fatos a mensagem de
salvação.
Nesta
catequese comunitária deve-se ter em conta a família, como primeiro ambiente
natural onde se desenvolve o cristão. Ela deve ser objeto da ação catequética,
para que seja dignificada e se torne capaz de cumprir sua missão. E, ao mesmo
tempo, a família se converte em agente eficaz da renovação catequética.
11.
Deve-se fazer ressaltar o aspecto totalmente positivo do ensinamento
catequético com seu conteúdo de amor. Assim, fomentar-se-á um são ecumenismo,
evitando toda polêmica, e criar-se-á um ambiente propício à justiça e à paz.
12.
A catequese encontra-se diante de um fenômeno que está incluindo profundamente
nos valores, nas atitudes e na vida mesma dos homens: os meios de comunicação
social.
Este
fenômeno constitui um fato histórico irreversível que, na América Latina,
avança rapidamente e conduz em breve prazo a uma cultura universal: “ cultura
da imagem” Este é um sinal dos tempos, que a Igreja não pode ignorar.
Da
situação criada por este fenômeno, deve partir a catequese para uma
apresentação eficaz da mensagem cristã. É urgente, pois, uma séria investigação
sobre o efeito dos meios de comunicação social e uma pesquisa da forma mais
adequada de dar uma resposta, utilizando-os na tarefa evangelizadora, e uma
séria avaliação das realizações atuais.
IV.
Meios para a renovação catequética
13.
Para a realização do trabalho catequético, impõe-se um mínimo de organização
que, partindo da ordem nacional e diocesana, chegue às distantes comunidades
primárias. A organização de tipo nacional, com suas óbvias relações
internacionais, facilitará evidentemente e dará agilidade ao trabalho nas
dioceses e outros meios, com maior e eficaz aproveitamento das técnicas,
pessoal especializado e possibilidades econômicas.
14.
Esta renovação exige pessoal adequado, para formar a comunidade cristã.
Conseqüentemente,
admitido o necessário testemunho da própria vida, sugerem-se os seguintes
pontos:
-
preparação de dirigentes e orientadores catequistas com dedicação exclusiva;
-
A formação de catequistas com um conhecimento básico e uma visão ampla das
condições psico-sociológicas do meio humano em que terão de trabalhar, bem como
das religiões primitivas, em alguns lugares, e dos recursos de evangelização
que tenham sido empregados;
-
A promoção de catequistas leigos, preferentemente originários de cada lugar, e
a formação, no ministério da Palavra, dos diáconos permanentes.
15.
A linguagem falada pela Igreja reveste-se de importância particular. Trata-se
tanto das formas de ensino simples - catecismos, homilia etc. - nas comunidades
locais, como das formas mais universais da palavra do magistério. Impõe-se um
trabalho permanente, de maneira que seja possível fazer perceber como a
mensagem de salvação contida nas Escrituras, na liturgia, no magistério e no
testemunho é hoje palavra de vida. Não basta, pois, repetir ou explicar a
mensagem. Ao contrário, cumpre reexpressar incessantemente por novas maneiras,
o Evangelho em relação com as formas de existência do homem, tendo em conta os
meios humanos étnicos e culturais e guardando sempre a fidelidade à palavra
revelada.
16.
Para que a renovação seja eficaz, necessita-se de um trabalho de reflexão,
orientação e avaliação nos diferentes aspectos da catequese. Há que
multiplicar por toda parte os institutos catequéticos, as equipes de trabalho,
nos quais pastores, catequistas, teólogos especialistas em ciências humanas,
dialoguem e trabalhem conjuntamente a partir. da experiência, a fim de propor
formas novas de palavras e ação, de elaborar o material pedagógico correspondente
e de verificar e avaliar, em cada caso, sua validade. É mister que essas
equipes sejam dotadas de meios de trabalho adequados e da indispensável
liberdade de ação.
V.
Conclusões
a)
Renovar a catequese, promovendo a evolução das formas tradicionais da fé,
insistindo na catequese permanente dos adultos (no. 1, 2, 3) .
b)
Evitar toda dicotomia ou dualismos entre o natural e o sobrenatural (n. 4).
c)
Guardar fidelidade à mensagem revelada, encarnada nos fatos atuais (n. 8).
d)
Orientar e promover, através da catequese, a evolução integral do homem e as
transformações sociais (n.7).
e)
Respeitar na unidade a pluralidade de situação (n. 8) .
f)
Promover a evangelização dos batizados: na confirmação, para adolescentes e
jovens; em um novo catecumenato, para os adultos (n. 9) .
g)
Dar todo o valor catequético à família (n. 10) .
h)
Empregar os meios de comunicação social (n.12) . i) Fomentar a organização da
catequese em nível nacional e diocesano (n. 13) .
j)
Formar catequistas leigos, preferentemente autótones (n. 14).
k)
«Adaptar a linguagem eclesiástica ao homem de hoje, resguardando a integridade
da mensagem».
1)
Impulsionar trabalhos de reflexão e experimentação em institutos e equipes de
trabalho, com a suficiente amplitude e liberdade (n. 16) .
9.
LITURGIA
I.
Dados garis sobre a situação na América Latina
A
pluralidade de situação na renovação litúrgica é um fato; enquanto em algumas
regiões esta aplicação se realiza com crescentes esforços, em outras sua
aplicação é feita de forma ainda débil. Em geral é insuficiente. Falta uma
mentalidade sobre o conteúdo da reforma, a qual é especialmente importante para
o clero, cujo papel na renovação litúrgica é básico. Além disso, é necessário
reconhecer que a variedade de culturas provoca difíceis problemas de aplicação
(línguas, sinais) .
Tem-se
a impressão de que o bispo nem sempre exerce de forma eficaz seu papel
litúrgico, de promotor, regulador e orientador do culto.
As
traduções litúrgicas significaram um passo no avanço da Igreja; mas os critérios
que têm sido adotados não permitiram ainda chegar ao grau de adaptação necessária.
A
liturgia não está integrada organicamente na educação religiosa, nem a ela
vinculada em mútua compenetração.
São
insuficientes os estudiosos capacitados para desenvolver a renovação
litúrgica.
II.
Fundamentação teológica e pastoral
a)
Elementos do2ctrinários: a presença do mistério da salvação, enquanto a
humanidade peregrina até sua plena realização na parusia do Senhor, culmina na
celebração da liturgia eclesial.
A
liturgia é ação de Cristo, Cabeça e de seu Corpo, que é a Igreja2. Contém,
portanto, a iniciativa salvadora que vem do Pai, pelo Verbo e no Espírito
Santo, e a resposta da humanidade nos que se ligam pela fé e pela caridade no
Cristo, recapitulador de todas as coisas.
Como
não vivemos ainda a plenitude do Reino, toda celebração litúrgica está
essencialmente marcada pela tensão entre o que já é uma realidade e o que
ainda não se verifica plenamente; é a imagem da Igreja, ao mesmo tempo santa e
necessitada de purificação; tem um sentido de alegria e uma dolorosa
consciência do pecado. Numa palavra, vive na esperança.
A
liturgia, momento em que a Igreja é mais perfeitamente ela própria, realiza,
indissoluvelmente unidas, a comunhão com Deus e entre os homens, e de tal modo,
, que aquela é a razão desta9.
Busca-se, antes de tudo, o louvor da glória
da graça. É certo, também, que todos os
homens precisam da glória de Deus para
serem verdadeiramente homens. E por isso
mesmo
o gesto litúrgico, não é autêntico se não implica um compromisso de caridade,
um esforço sempre renovado por ter os sentimentos de Cristo Jesus, e para uma
contínua conversão.
A instituição divina da liturgia jamais pode
ser considerada como um adorno contingente da vida eclesial, já que «nenhuma» comunidade cristã se edifica
se não tem sua raiz na celebração da
Santíssima Eucaristia, pela qual se
inicia toda a educação do espírito da comunidade. Esta celebração, para ser sincera e plena, deve
conduzir tanto às várias obras de caridade e mútua ajuda como à açâo
missionária e às várias formas de testemunho cristão.
No
momento atual da América Latina, como em todos os tempos, a celebração
litúrgica comporta e coroa um compromisso com a realidade humana, com o
desenvolvimento e com a promoção, precisamente porque toda a criação está
envolvida pelo desígnio salvador que abrange a totalidade do homem.
b)
Princípios pastorais. No momento atual de nosso continente, certos estados de
vida e certas atividades humanas representam uma importância vital para o
futuro. Entre os primeiros cabe destacar a família, a juventude, a vida
religiosa e o sacerdócio; entre as segundas, a promoção humana e tudo o que
está ou pode ser colocado a seu serviço: a educação, a evangelização e as
diversas formas de ação apostólica.
Sendo
a sagrada liturgia a presença do mistério da salvação, visa em primeiro lugar
à glória do Pai. Mas essa mesma glória comunica-se aos homens e por isso a celebração
litúrgica, mediante o conjunto de sinais com que expressa a fé, apresenta:
l.
Um conhecimento e uma vivência mais profunda da fé
2.
Um sentido da transcendência da vocação humanais;
3.
Um fortalecimento do espírito da comunidade;
4.
Uma mensagem cristã de alegria e esperança;
5.
A dimensão missionária da vida eclesial;
6.
A exigência postulada pela fé, de comprometer-se com as realidades humanas;
Todas
essas dimensões devem estar presentes onde quer que cada estado de vida realize
alguma atividade humana.
Para
que a liturgia possa realizar, em plenitude, esses objetivos, necessário se
faz:
l.
Uma catequese prévia sobre o mistério cristão e sua expressão litúrgica;
2.
Adaptar-se ao gênio das diversas culturas e encarnar-se nele;
3.
Acolher, portanto, positivamente, a pluralidade na unidade, evitando erigir, a
priori, a uniformidade como princípio;
4.
Manter-se numa situação dinâmica que acompanhe tudo o que houver de são no
processo de evolução da humanidade;
5.
Conduzir a uma experiência vital da união entre a fé, a liturgia e a vida
cotidiano, em virtude da qual chegue o cristão ao testemunho de Cristo.
Não
obstante, a liturgia, que interpela o homem, não pode reduzir-se a mera
expressão de uma realidade humana freqüentemente unilateral ou marcada pelo
pecado.
III.
Recomendações
a)
referentes aos bispos. O Concílio Vaticano II reconhece ao bispo o direito de
regulamentar a liturgia e aponta-lhe o dever de promovê-1a no seio da Igreja
local3°. A ele
cumpre:
1.
Com toda a responsabilidade pastoral, promover singular ou coletivamente, a
vida litúrgica;
2.
Celebrar freqüentemente como «grande sacerdote de sua grei», cercado por seu
presbitério e ministros no meio de seu povo3l;
3.
Uma função moderadora «ad normam juris» e segundo o espírito da Constituição
da Sagrada Liturgia;
4.
Valer-se da comissão diocesana ou interdiocesana,
recomendadas
pelo Concílio, compostas de estudiosos da liturgia, Bíblia, pastoral, música e
arte sacra33.
b)
Referentes às conferências episcopais. A renovação comunitária e hierárquica
necessita, além disso, da integração de «diversas assembléias territoriais» de
bispos legitimamente constituídas. A elas cabe uma função regulamentadora e
coordenadora, dentro dos limites estabelecidos que assegurem a fidelidade da
imagem eclesial que cada comunidade crista deve oferecer da Igreja universal.
Para
conseguir melhor estas finalidades, a II Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano:
l.
Deseja que se confiram às Conferências Episcopais faculdades mais amplas em
matéria litúrgica, a fim de que possam realizar melhor as adaptações necessárias,
levando em conta as exigências de cada assembléia;
2.
Recomenda que, dadas as peculiaridades circunstanciais dos territórios de
missão, seus ordinários se reúnam para estudar as adaptações necessárias e para
que possam ser apresentadas à autoridade competente3.
c)
Serviços do CELAM. A coincidência de problemas comuns e a necessidade de contar
com grupos de técnicos devidamente preparados, aconselha, além disso, o incremento
dos serviços que possa proporcionar o Departamento de Liturgia do CELAM. Tais
são:
1
- Um serviço de informação, documentação bibliográfica e coordenação prestado
pelo secretário executivo do Departamento, que se propõe manter em permanente
comunicação os Episcopados latino-americanos.
2°
- Um serviço de investigação e formação que já começou a prestar o Instituto
de Liturgia Pastoral de Medellin, com vistas a adaptação mais profunda da
liturgia às necessidades e culturas da América Latina3°. Para isso se torna
necessário que se considere e se facilite o agrupamento de técnicos em
liturgia, Sagradas Escrituras e Pastoral, como em ciências antropológicas,
cujos trabalhos abram caminho a um progresso legítimo37.
3°
- Um escritório de coordenação dos musicólogos, artistas e compositores numa
união de esforços que se estejam realizando em nossos países, de forma a
proporcionar uma música digna dos sagrados mistérios.
4°
- Um serviço de assessoramento técnico, tanto para a conservação do patrimônio
artístico como para a promoção de novas formas artísticas?9.
5º
- Um serviço editorial para diversas publicações que sirvam de instrumento
valioso para a pastoral litúrgica, sem que isso interfira no âmbito de outras
publicações.
Os
serviços mencionados pressupõem a existência de bibliotecas especializadas e
suficientemente providas.
d)
Sugestões particulares
1º
- A celebração da Eucaristia em pequenos grupos e comunidades de base pode ter
verdadeira eficácia pastoral; aos bispos cabe permiti-1a, tendo em conta as
circunstâncias de cada lugar.
2°
- A fim de que os sacramentos alimentem e fortaleçam a fé na situação atual da
América Latina, aconselha-se o estabelecimento, planificação e intensificação
de uma pastoral sacramental comunitária mediante preparações sérias, graduais e
adequadas para o batismo (os pais e padrinhos) , confirmação, primeira
eucaristia e matrimônio.
É
recomendável a celebração comunitária da penitência, mediante uma celebração da
Palavra em observância a legislação vigente, porque isso contribui para
ressaltar a dimensão eclesial desse sacramento e torna mais frutuoso, a
participação no mesmo.
3°
- Incremente-se as sagradas celebrações da Palavra, conservando sua relação com
os sacramentos nos quais ela alcança sua máxima eficácia e particularmente com
a Eucaristia. Promovam-se as celebrações ecumênicas da palavra, segundo o teor
do decreto sobre o ecumenismo, n, 8, e seguindo as normas do Diretório no.
33.35.
4º
- Sendo tão arraigadas em nosso povo certas devoções populares, recomenda-se
buscar formas mais adequadas, que lhes dêem conteúdo litúrgico, de modo que se
tornem veículos da fé e de compromisso com Deus e com os homens.
10.
MOVIMENTOS LEIGOS
I.
Constatações
1.l.
Em outros documentos, e de diferentes ângulos, assinalou-se a presença dos
leigos no processo de transformação de nosso continente.
Neste
documento nos propomos rever a dimensão apostólica dessa presença no momento
histórico em que todos estamos vivendo na América Latina.
1.2.
Recordemos mais uma vez que o momento histórico atual de nossos povos, se
caracteriza na ordem social e do ponto de vista objetivo, por uma situação de
subdesenvolvimento, revelada por fenômenos maciços de marginalidade,
alienação e pobreza, e condicionada, em última instância, por estruturas de
dependência econômica, política e cultural em relação às metrópoles industrializadas,
que detêm o monopólio da tecnologia e da ciência (neocolonialismo, of. PP n. 3)
.
Do
ponto de vista subjetivo, nosso continente se caracteriza pela tomada de
consciência dessa situação, que provoca em amplos setores dos povos latino-americanos
atitudes de protesto e aspirações à libertação, ao desenvolvimento e à justiça
social.
Esta
complexa realidade, historicamente, coloca os leigos latino-americanos ante o
desafio de um compromisso libertador e humanizador.
1.3.
Por um lado, a modernização refletida nos setores mais dinâmicos da sociedade
latino-americana, acompanhada pela crescente tecnização e aglomeração urbana,
manifestou-se em fenômenos de mobilidade, socialização e divisão do trabalho,
cujo efeito foi carrear importância crescente aos grupos e ambientes funcionais
- fundados sobre o trabalho, a profissão ou a função - em relação às
comunidades tradicionais de caráter de vizinhança ou territorial.
Os
ditos meios funcionais constituem em nossos dias os centros de decisão mais importantes
no processo de transformação social, e os focos onde se condensa, ao máximo, a
consciência da comunidade.
Estas
novas condições de vida obrigam os movimentos leigos da América Latina a
aceitarem o desafio de um compromisso de presença, de adaptação permanente e de
criatividade.
1.4.
A insuficiente resposta a estes desafios e, muito especialmente, a inadequação
às novas formas de vida que caracterizam os setores dinâmicos de nossa
sociedade, explicam em grande parte as diferentes formas de crises que afetam
os movimentos leigos.
Muitos
deles, com efeito, empreenderam um trabalho decisivo em seu tempo, mas, por
circunstâncias posteriores, ou se fecharam em si mesmos, ou se aferraram indevidamente
a estruturas demasiado rígidas, ou não souberam situar devidamente seu
apostolado no contexto de um compromisso histórico libertador.
Por
outro lado, muitos destes movimentos não refletem um meio sociológico
compacto, ou talvez não tenham adotado a organização e a pedagogia mais
apropriadas a um apostolado de presença e compromisso nos ambientes funcionais,
onde, em grande parte, fermenta o processo de transformação social.
1.5.
Finalmente, entre os fatores que favorecem a crise de muitos movimentos,
assinalam-se também a pequena integração do leigo latino-americano na Igreja,
o freqüente desconhecimento, na prática, de sua legítima autonomia e a falta de
assessores devidamente preparados para as novas exigências do apostolado dos
leigos.
100
1.6.
Finalmente, não é possível desconhecer os valiosos serviços que prestaram e
continuam prestando com renovado vigor os movimentos leigos à promoção cristã
do homem latino-americano. Sua presença em muitos ambientes, apesar dos
obstáculos e das dolorosas crises de crescimento, é cada vez mais efetiva e
notória. Por outro lado, na elaboração de muitas renovações acolhidas e confirmadas
pelo Vaticano II, não se pode deixar de ver o trabalho e a reflexão de muitas
gerações de militantes cristãos.
II.
Critérios teológico-pastorais
2.1.
No seio do Povo de Deus, que é a Igreja, há unidade de missão e diversidade de
carismas, serviços e funções «obra do único e mesmo Espírito» (1 Cor 12,11),
de sorte que todos, a seu modo, cooperem unanimemente na obra comum (of. LG 32
e 33).
2.2.
Os leigos, como membros da Igreja, participam da tríplice função profética,
sacerdotal e real do Cristo, em vista da realização da sua missão eclesial.
Todavia, realizam especificamente esta missão no âmbito do temporal, em vista
da construção da história, «exercendo funções temporais e ordenando-as segundo
Deus» (LG 31).
2.3.
O que tipifica o papel do leigo é seu compromisso com o mundo, entendido como
quadro de solidariedade humana, como trama dos acontecimentos e fatos
significativos, em uma palavra, como história.
Pois
bem, comprometer-se é ratificar com ações a solidariedade em que todo homem se
encontra imerso, assumindo tarefas de promoção humana na linha de um determinado
projeto social.
O
compromisso assim entendido, na América Latina, deve estar impregnado pelas
circunstâncias peculiares de seu momento histórico presente, pelos signos da
libertação, da humanização e do desenvolvimento.
Nunca
é demais dizer que o leigo goza de autonomia e responsabilidade próprias para
optar por seu compromisso temporal. A Gandium et Spes assim o reconhece,
quando diz que os leigos «conscientes das exigências da fé e vigorizados por
suas próprias energias, empreendam, sem vacilar e quando seja necessário, novas
iniciativas e levem-nas a bom termo ( . . . ) Não pensem que seus pastores
estejam sempre em condições de poder dar-lhes de imediato soluções concretas em
todas as questões, por mais graves que surjam. Não é esta sua missão. Cumpram
os leigos melhor suas missões específicas, à luz da sabedoria crista e com a
observância atenta da doutrina do magistério» (GS 43) .
E,
como diz a Populorum Progressio em seu final: «Aos leigos, por sua livre
iniciativa e sem esperar passivamente ordens e diretrizes, pertence impregnar
de espírito cristão a mentalidade, os costumes, as leis e as estruturas da
comunidade em que vivem» (n. 81) .
2.4.
Por mediação da consciência, a fé - que opera pela caridade - está presente no
compromisso temporal do leigo como motivação, iluminação e perspectiva escatológica,
e dá sentido integral aos valores baseados na dignidade humana, na união
fraternal e na liberdade, que «voltaremos a encontrar limpos de toda a mancha,
iluminados e transfigurados, no Dia do Senhor» (GS 39). “Ensina também a
Igreja que a esperança escatológica não diminui a importância das tarefas temporais,
mas, pelo contrário, proporciona novas motivações, para seu exercício"
(GS 21).
2.5.
Pois bem, como a fé exige ser compartilhada e por isso mesmo implica uma
exigência de comunicação ou de proclamação, compreende-se a vocação apostólica
dos leigos dentro, e não fora, de seu próprio compromisso temporal.
102
Mais
ainda: ao ser assumido este compromisso no dinamismo da fé e da caridade, ele
adquire em si mesmo um valor de testemunho e se confunde com o testemunho
cristão. A evangelização do leigo, nesta perspectiva, nada mais é que a
explicação ou a proclamação do sentido transcendente deste testemunho.
Vivendo
“nas ocupações e nas condições ordinárias de vida familiar e social, pelas
quais sua existência está como que tecida”, os leigos são chamados por Deus ali
mesmo “para que, desempenhando sua própria profissão e guiados pelo espírito
evangélico, contribuam para santificação do mundo, penetrando-o como
fermento... A eles, pois, corresponde iluminar e ordenar as realidades
temporais, às quais estão estreitamente vinculados” (LG 31).
2.6.
O apostolado leigo terá maior transparência de sinal e maior densidade
eclesial, quando apoia seu testemunho em equipes ou comunidades de fé, nas
quais o Cristo prometeu especialmente estar presente (Ml 18,20) . Deste modo,
os leigos cumprirão mais cabalmente sua missão de fazer com que a Igreja
«aconteça» no mundo, na tarefa humana e na história.
III.
Recomendações pastorais
Tendo
em conta as numerosas recomendações pastorais já desenvolvidas em outros
documentos desta Conferência sobre o papel dos leigos na América Latina, atemo-nos
apenas às seguintes:
3.1.
Atendendo às prioridades evidentes, derivadas da situação latino-americana que
descrevemos acima com especial ênfase e urgência, deve ser promovida a criação
de equipes apostólicas ou de movimentos seculares nos lugares ou estruturas
funcionais, sobretudo naquelas onde se elabora e se decide o processo de
libertação e humanização da sociedade a que pertencem, dotando-os de uma
estrutura adequada e de uma pedagogia baseada no discernimento dos sinais dos
tempos, no cerne dos acontecimentos.
3.2.
Reconhecendo a crescente interdependência entre as nações e o peso das
estruturas internacionais de dominação, que condicionam de forma decisiva o
subdesenvolvimento dos povos periféricos, os leigos devem assumir seu
compromisso cristão ao nível dos movimentos e organismos internacionais para
promover «o progresso dos povos mais pobres e favorecer a justiça entre as
nações (PP 5) .
3.3.
As equipes ou movimentos que já existirem para tais tarefas devem ser apoiadas
decididamente, e que não se abandone seus militantes quando, pelas implicações
sociais do Evangelho, são levados a compromissos que ocasionam dolorosas
conseqüências.
3.4.
Os movimentos de apostolado dos leigos, situados no plano de uma mais estreita
colaboração com a hierarquia e que tanto contribuíram para a ação da Igreja,
continuam tendo vigência como apostolado organizado. Hão de ser, portanto,
promovidos, ainda que se deva evitar “ir para além do limite de vida útil de
associações e métodos antiquados” (AA 19 d) .
3.5.
Deve ser fomentada uma espiritualidade própria dos leigos, baseada em sua
própria experiência de compromisso com o mundo, ajudando-os a se entregarem a
Deus, entregando-se aos homens. Ensinando-os a redescobrir o sentido da oração
e da liturgia como expressão e alimento dessa dupla e recíproca doação.
«Seguindo o exemplo do Cristo, que exerceu o artesanato, alegrem-se os cristãos
de poder exercer todas as suas atividades temporais, fazendo uma síntese vital
do esforço humano, familiar, profissional, científico ou técnico, com os
valores religiosos, tudo cooperando para a glória de Deus» (GS 43).
3.6.
Finalmente, que se preste o devido reconhecimento e apoio a todos os movimentos
internacionais de apostolado dos leigos, que através de seus organismos de
coordenação promovem e edificam com tanto sacrifício o apostolado neste
continente, atentos às exigências peculiares de sua problemática social.
t
104
, 105
11.
SACERDOTES
I.
Observações sobre a situação atual
1.
Motivação
As
grandes mudanças do mundo de hoje na América Latina afetam obrigatoriamente os
presbíteros no seu ministério e em sua vida. Por isso nós, os bispos, tentamos
refletir com o propósito de contribuir para o orientamento da renovação
sacerdotal nesta hora complexa do continente.
2.
Diversidade da situações concretas
As
conseqüências das mudanças não são as mesmas em todos os países, nem em todos
os setores de cada país. Afetam de modo particular as pessoas jovens e os sacerdotes
que estão comprometidos nos pontos-chaves da presente situação de mudança.
Estas conseqüências se caracterizam de modo particular pela maior valorização
de alguns aspectos do ministério e da vida sacerdotal e pelo menosprezo de outros.
Em ambos os casos existem elementos positivos e negativos. A soma desses
elementos dá um total, em definitivo, construtivo e gerador de esperança. 3. O
quantitativo s o qualitativo em relação aos sacerdotes
Como
causa global da insuficiência pastoral na América Latina leva-se muito em
conta a escassez numérica dos sacerdotes, além do crescimento demográfico. E
isto é verdade: apesar da generosa integração de presbíteros enviados pelas
Igrejas-irmâs e apesar de não poucas famílias religiosas procurarem
estabelecer núcleos em zonas ainda não providas de clero diocesano.
Reconhecemos, contudo, que existem erros de ordem distributiva que influem na
qualidade do trabalho pastoral como por exemplo:
a)
a primeira coisa que salta à vista é o excessivo acúmulo de pessoas nas igrejas
mais desenvolvidas e a ausência de elementos do clero em regiões que deles
necessitam, no mesmo país, e até na mesma diocese ou cidade;
b)
existem igrejas com abundância de clero paroquial mas carecem de pessoas
especializadas. Existem regiões e igrejas que se beneficiariam se recebessem -
mesmo temporariamente - a ajuda de sacerdotes especializados cujos serviços não
são aproveitados integralmente.
4.
Consideração das carismas sacerdotais
O
sacerdócio hierárquico é enriquecido certamente pela ação renovadora do
Espírito Santo que provê sempre de carismas a sua Igreja. É, sem dúvida,
possível comprovar que neste campo os superiores nem sempre prestam suficiente
atenção à diversidade carismática, o que afeta negativamente o ministério
sacerdotal. Por outro lado, não faltam sacerdotes que confundem os dons do
Espírito Santo com simples inclinações naturais ou interesses individuais sem
levar em conta as perspectivas da comunidade, para cujo exercício são
outorgados os carismas.
5.
Aspectos da crise pessoal
a)
Existe, antes de tudo, um perigo para a própria fé do presbítero de hoje e para
isso contribui um conjunto de elementos de especial complexidade. Cabe
assinalar principalmente certa superficialidade na formação mental e uma
insegurança doutrinária, ocasionada por um relativismo ideológico e por certa
desorientação teológica (of. discurso de Paulo VI em Bogotá por ocasião da
abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano) e também pelos
atuais progressos, sobretudo das ciências antropológicas e das ciências da
Revelação de que muitos presbíteros não possuem o necessário esclarecimento ou
não chegaram a assimilá-los suficientemente.
Percebe-se,
além disso, neste momento de transição, uma crescente desconfiança nas
estruturas históricas da Igreja, que chega, em alguns, ao menosprezo de tudo o
que foi instituído, comprometendo os próprios aspectos da instituição divina.
Parece-nos que este perigo para a fé é, definitivamente, o elemento mais
pernicioso para o presbítero de hoje.
b)
O sacerdote de hoje sente a necessidade de uma expressão mais vivencial em sua
oração, de sua ascese e consagração. A superação da dicotomia entre a Igreja e
o mundo e a necessidade de maior presença da fé nos valores temporais exigem a
adoção de novas formas de espiritualidade, segundo as orientações do Vaticano
II. Não poucos sacerdotes, antes de assegurar a passagem valedoura para novas
formas, emancipam-se do tradicional com o risco de cair em desastroso
enfraquecimento de sua vida espiritual. Este enfraquecimento da espiritualidade
é particularmente perigoso porque o sacerdote transfere facilmente sua própria
crise à comunidade em que vive.
c)
Em relação ao celibato sacerdotal, um louvável aprofundamento do valor afetivo
da pessoa humana e uma exacerbação do erotismo no meio ambiente, unidos ao freqüente
descuido da vida espiritual e a outras causas mais, abriram caminho a uma nova
e variada problemática.
Alguns
apoiam seus argumentos em razões do tipo pastoral ou psicológico ou aduzem
reflexões teológicas que delimitam a distinção entre carisma e ministério,
enquanto outros pretenderiam diminuir a força do próprio compromisso assumido
na consagração.
d)
No ministério presbiterial é fácil sentir hoje uma tensão entre as novas
exigências da missão e certo modo de exercer a autoridade, que pode implicar em
crise de obediência. A consciência mais viva da dignidade e responsabilidade
da pessoa, a maior sensibilidade atual pela ordem dos valores mais do que pela
ordem das normas, a nova concepção do ministério hierárquico como estrutura
colegial, o sentido da autoridade como serviço, a distinção da obediência
específica do religioso, da obediência própria do sacerdote, (PC 14, comparado
com PO 15) são indícios de um novo clima muito positivo mas também portador de
tensões: se a isto aduzirmos as falhas naturais das pessoas, compreender-se-á
facilmente a presença de um conjunto de problemas delicados no exercício do
ministério sacerdotal.
Nesta
ordem de coisas é preciso assinalar, sobretudo, um perigoso ofuscamento, em
alguns, do valor do magistério papal e episcopal, que pode levar não só a uma
falta de obediência mas também de fé.
e)
Também surgem dúvidas no que concerne à própria vocação sacerdotal. Motivam
essas dúvidas vários fatores característicos desta hora de renovação eclesial:
-
a crescente valorização do papel do leigo no desenvolvimento do mundo e da
Igreja;
-
a discussão moderna sobre o papel e a figura do sacerdote na sociedade;
-
a superficialidade com que se encara e vive o próprio sacerdócio, em serviços
religiosos de rotina e em uma forma de vida aburguesada.
f)
Há também uma crise entre sacerdotes que por sua idade e formação recebida
sentem-se como que incapacitados para assumir as mudanças de renovação promovidas
pelo Concílio.
g)
Muitos sacerdotes lamentam que a revisão do regime de benefícios, lenta por
sua própria complexidade, mantenha ainda em suas igrejas um lamentável estado
de
penúria
e pedem a quantos sejam afetados pelas imprescindíveis reformas
administrativas, que facilitem a pronta aplicação das indicações conciliares.
II.
Elementos de reflexão pastoral
1.
Sacerdócio de Cristo
a)
Na nova Aliança, Cristo Jesus, Senhor ressuscitado, é o único sacerdote,
mediador sempre ativo ante o Pai em favor dos homens.
O
ministério hierárquico da Igreja, sacramento na terra desta única mediação, faz
com que os sacerdotes atuem entre os homens “in persona Christi”. A eles também
se aplica parcialmente o que Paulo VI dissera de Cristo sumo e eterno Sacerdote
« . . . não és diafragma, mas passagem; não és obstáculo, mas sim caminho; não
és um profeta qualquer, mas o intérprete único e necessário do mistério
religioso . . . és a ponte entre o reino da terra e o reino do céu. . . és
necessário, és suficiente para nossa salvação . . . » (Dist. de 22-8-68, em
Bogotá) .
b)
Em seu sacerdócio Cristo unificou a tríplice função de profeta, liturgo e
pastor, estabelecendo com isso uma peculiar originalidade no ministério
sacerdotal de sua Igreja. Por isso os sacerdotes, embora dedicados a tarefas
ministeriais nas quais se acentua alguns dos aspectos desta tríplice missão,
não devem esquecer os outros, nem enfraquecer a intrínseca unidade da ação
total de seu ministério, porque o sacerdócio de Cristo é indivisível (of. PO
8) .
2.
Caminhão hierárquica
a)
No corpo místico de Cristo, os bispos e os presbíteros são consagrados pelo
sacramento da Ordem para exercer o sacerdócio ministerial como um conjunto orgânico,
que manifesta e torna presente a Cristo Cabeça (cf. LG 21). Os presbíteros são
incorporados a este conjunto orgânico para serem cooperadores da Ordem
episcopal. Deduz-se daí, como conseqüência inevitável, a íntima união de
amizade, amor, preocupações, interesses e trabalhos entre bispos e presbíteros
de modo que não se possa conceber um bispo desligado ou alheio a seus
presbíteros, nem um presbítero desligado do ministério de seu bispo. Todos os
sacerdotes vinculados entre si por uma verdadeira “fraternidade sacramental”
(PO 4), devem saber conviver e atuar unidos na solidariedade de uma mesma
consagração.
b)
Em vista da comunhão hierárquica do ministério sacerdotal sugere-se assegurar
uma forma institucionalizada da adequada co-responsabilidade dos presbíteros
com a ordem episcopal. Encarece-se, assim, antes de mais nada, a criação ou
eficiente funcionamento do Conselho Presbiteral em cada diocese. Além disso
achamos importante, hoje, maior representação dos presbíteros nos organismos
episcopais de nível supradiocesano.
3.
Comunidads eclesial
Os
bispos, com os presbíteros, receberam “o ministério da comunidade” (of. LG
20), pelo qual devem dedicar-se a edificar e a guiar a comunidade eclesial como
sinais e instrumentos de sua unidade (of. PO 6).
Os
presbíteros atuam na comunidade como membros específicos que compartilham com
todo o povo de Deus o mesmo ministério e a mesma e única missão salvadora. Os
leigos, por seu sacerdócio comum, gozam na comunidade do direito e têm o dever
de contribuírem com uma indispensável colaboração para a ação pastoral (of. AA
3) . Por isso, é dever dos sacerdotes dialogar com eles não de maneira
ocasional, mas de maneira constante e institucional. O mesmo diga-se a
respeito das religosas e dos religiosos não-presbíteros.
4.
Serviço ao mundo
a)
Todo sacerdote ministerial é tomado de entre os homens e constituído em favor
dos homens no que se refere a Deus (cf Hebr 5,1).
A
consagração sacramental da Ordem situa o sacerdote no mundo a serviço dos
homens. É de particular importância sublinhar que a «consagração sacerdotal é
conferida por Cristo para a «missão» de salvação do homem. Isto exige de todo
sacerdote uma especial solidariedade de serviço humano, que seja expressa em
uma viva dimensão missionária, que o faça colocar suas preocupações ministeriais
a serviço do mundo com seu grandioso futuro e seus humilhantes pecados, e um
contato inteligente e constante com a realidade, de tal maneira que sua
consagração resulte num modo especial de presença no mundo, e não em uma
segregação dele.
b)
O mundo latino-americano encontra-se empenhado em um gigantesco esforço para
acelerar o processo de desenvolvimento no continente.
Nesta
tarefa cabe ao sacerdote um papel específico e indispensável. Ele é meramente
um promotor do progresso humano. Descobrindo o sentido dos valores temporais,
deverá procurar conseguir «unindo o esforço humano, familiar, profissional,
científico e técnico, uma síntese vital com os valores religiosos, sob cuja
altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus» (GS 43) . Mas para
isso deve esforçar-se, pela palavra e pela ação apostólica não só sua mas
também da comunidade eclesial, para que todo o trabalho temporal adquira seu
pleno sentido de liturgia espiritual, incorporando-o de maneira vital na
celebração da Eucaristia.
c)
Para promover o desenvolvimento integral do homem deverá formar e incentivar
entre os leigos a participação ativa, com consciência cristã, na técnica e
elaboração do progresso. Mas acontece que na ordem econômica e social e
principalmente na ordem política, onde se apresentam diversas opções
concretas, ao sacerdote não cabe diretamente a decisão, nem a liderança e nem
tampouco a estruturação de soluções.
II.
Algumas conclusões orientadoras
l.
Espiritualidade
a)
A adequada co-responsabilidade ser uma vivência pessoal intrinsecamente
vinculada à ação ministerial (of. PO 13) .
Dentre
as exigências desta espiritualidade nenhuma é superior nem mais necessária que
a de uma profunda e permanente vida de fé. Por ela o sacerdote deve tornar
clara a perfeita unidade de Cristo com o Pai «quem me vê, vê ao Pai» (Jo 14,9)
; e poder testemunhar com São Paulo «sede meus imitadores, como eu o sou de
Cristo» (1 Cor 11,1).
O
que importa, pois, antes de mais nada, é que o sacerdote seja homem de oração
por antonomásia. Um sacerdote, cuja vida não for testemunha deste espírito de
fé, jamais poderá ser reconhecido como digno ministro de Cristo Senhor.
b)
A caridade pastoral infundida pelo sacramento da ordem deve impulsionar, hoje,
os sacerdotes a trabalharem mais do que nunca pela união entre os homens até
dar a vida por eles, como o fez o Bom Pastor.
No
exercício desta caridade que une o sacerdote intimamente com a comunidade,
encontrar-se-á o equilíbrio da personalidade humana, feita para o amor, e se
redescobrirão as grandes riquezas contidas no carisma do celibato, em toda
sua visão cristológica, eclesiológica, escatológica e pastoral (of. Encíclica:
Sacerdotahs coelibatus).
2.
Ministério
Uma
clara conseqüência da orientação conciliar é a superação da uniformidade da
figura do presbítero; os sacerdotes «...quer exerçam o ministério paroquial ou
supraparoquial, quer se dediquem às investigações ou ao ensino, quer
trabalhem manualmente, compartilhando da sorte dos próprios operários . . .
quer, enfim, levem a cabo outras obras apostólicas ou relacionadas com o
apostolado» (PO 8), exercerão seu ministério em consonância com a exigência
pastoral das diferenças carismáticas.
É
mister, entretanto, lembrar com respeito aos carismas, que compete aos que
presidem a Igreja julgar da autenticidade e ordenado exercício de tais dons
(of. LG 12 e AA 3) . Neste campo é preciso que haja uma planificação pastoral
para melhor distribuição dos sacerdotes tanto quantitativa quanto
qualitativamente.
3.
Diálogo e cooperação
a)
A adequada co-responsabilidade entre bispos e presbíteros pede o exercício de
um diálogo no qual haja mútua liberdade e compreensão, tanto com respeito aos
assuntos a tratar quanto à maneira de discuti-tos. Isto ajudará muito a
compreender melhor a missão comum do sacerdócio ministerial e trará um clima
novo, no qual será mais fácil superar certas tensões de obediência pela busca
em comum da vontade de Deus.
b)
É de extraordinária importância dar vida aos «Conselhos Pastorais» que são
inegavelmente uma das instituições mais originais sugeridas pelo Concílio e um
dos mais eficientes instrumentos da renovação da Igreja em sua ação de pastoral
de conjunto.
c)
É contrário ao profundo sentido de união do presbitério o isolamento em que
vivem muitos sacerdotes.
Para
que possa realmente ser compartilhada a responsabilidade comum na igreja local,
recomendamos vivamente que se fomente a vida das equipes sacerdotais em suas diversas formas. É preciso estabelecer
centros sacerdotais onde possam reunir-se, em um ambiente fraternal e de
contato freqüente com o bispo, todos os presbíteros que tenham em mente seu aperfeiçoamento pessoal.
4. Valores culturais
É hoje urgente tornar possível a atualização
cultural dos presbíteros, proporcionando-lhes tempo e meios adequados.
Em
primeiro lugar, será necessário ajudá-los a assimilarem com a devida profundeza
as grandes metas de orientação
teológica do Concílio e os principais progressos das ciências da revelação.
Além disso, é preciso maior adaptação a
todo o progresso humano; a missão do presbítero, na verdade, exige uma cultura
autêntica e dinâmica, contentemente atualizada e aprofundada, que não se reduza a mero cultivo intelectual, mas que
abranja todo o sentido da “humanitas” enriquecida pelos valores vividos
sacerdotalmente (tf PO 3).
5.
Modo de vida
Uma
das características indispensáveis da espiritualidade sacerdotal, especialmente
requerida por nossa situação continental, é a pobreza evangélica.
Os
presbíteros devem ser testemunhas do Reino, sendo pobres pelo espírito e
imitando Jesus Cristo, mas valorizando e usando de maneira pastoral os bens
econômicos em favor de Cristo pobre,
presente todos os dias na pessoa dos
necessitados. A pobreza evangélica, que é vivida na Igreja de acordo com as diferentes vocações, terá que
concretizar-se, para os presbíteros diocesanos, num modo de vida que lhes dê as possibilidades
econômicas, condizentes com um
ministério de especial situação comunitária.
Deverá
ser preocupação dos bispos com seu presbitério cuidar da realização concreta
de um sistema de sustentação dos presbíteros que, por um lado, evite toda a aparência
de lucro com relação ao sagrado e, por outro lado, distribua eqüitativamente as
rendas diocesanas reunidas de maneira solidária por todas as paróquias (of. PO
21). Em particular as Conferências Episcopais consigam quanto antes o
funcionamento de uma previdência social adequada para o clero.
IV.
Saudação fraternal
1.
A nossos presbíteros
Nós,
bispos, sentimo-nos unidos a todos os queridos irmãos que, na serenidade e na
paz, vêm enfrentando problemas e inquietude que põem em relevo a riqueza de
seu amor pela Igreja e pelos homens. Unidos procuramos dar nossa resposta aos
problemas do homem atual. Pensaremos juntos, apoiando-nos no dom de Deus para
discernir os sinais dos tempos. Encontraremos no Evangelho a imagem mais
nítida de Cristo Senhor. Contamos com sua ajuda para levar a cabo este serviço
em uma Igreja que empreende com prazer e confiança a tarefa de conduzir com
Cristo, Pastor eterno, todos os homens à casa do Pai.
É
de justiça, em particular, manifestar nosso reconhecimento a todos os
sacerdotes que, em passado remoto ou próximo viveram, trabalharam e se
entregaram aos povos da América Latina.
Não
podemos tampouco deixar de testemunhar nosso íntimo reconhecimento aos numerosos
sacerdotes e religiosos das Igrejas irmãs que, deixando pátria, tradições e
amigos, vieram juntar-se à tarefa apostólica que sozinhos não poderíamos
consumar.
2.
Aos que estão em crise
Dirigimo-nos,
além disso, aos nossos queridos cooperados que estão padecendo as angústias de
muitas e variadas crises depois de anos vividos na fidelidade e abnegação.
Reconhecemos que sua situação é fruto, às vezes e em parte, de sinceridade e
autenticidade. Que exista entre nós uma recíproca confiança e apesar de nossas
deficiências e até possíveis, embora não intencionais, falhas, acreditem com
espírito elevado que nós, por disposição divina, somos também com respeito a
tudo isso, responsáveis perante Deus.
Permitam
que os ajudemos e, na convivência com os irmãos presbíteros, que vivem e sofrem
na senda do Senhor, procurem amparo e solidariedade. Acima de tudo, não se
afastem do contato íntimo e confiante com Cristo, que não os considera servos,
mas sim amigos. Saibam também que por eles oramos ao Pai das luzes.
3.
Aos que se afastaram
Aos
presbíteros que, com ou sem consentimento da autoridade competente, como
resultado de uma crise, que em última instância só a Deus cabe julgar,
afastaram-se do presbitério, dizemos que os reconhecemos marcados com o caráter
do sacerdócio e que os respeitamos como irmãos, amando-os como filhos.
Encontrarão
sempre nosso coração aberto para prestar-lhes ajuda, na medida de nossas
possibilidades para que, conservando ou recuperando o vínculo visível da união
essencial da Igreja de Cristo, dêem testemunho do Reino para o qual foram
consagrados.
12.
RELIGIOSOS
América
Latina
1.
A caridade com que amamos a Deus e ao próximo é a única santidade cultivada por
todos aqueles que, guiados pelo Espírito de Deus, seguem o Cristo em qualquer
estado de vida e profissão a que foram chamados (LG 41 e 42) .
Na
Igreja, todos são chamados à santidade (LG 39), tanto os que pertencem à
hierarquia como os leigos e os religiosos. Essa santidade se realiza mediante a
imitação do Senhor, no amor. Pelo batismo o cristão inaugura sua configuração
com o Cristo (LG 7) que, em seguida, pela ação de Deus e pela fidelidade do
homem, irá crescendo até chegar à idade perfeita da plenitude de Cristo (LG 7)
. Cada qual procura alcançar a santidade pela vivência da caridade, segundo as
características próprias de seu estado de vida.
2.
Nestes momentos de revisão, muitos se perguntam qual é o lugar do religioso na
Igreja e em que consiste sua vocação especial no seio do Povo de Deus.
No
transcorrer da história da Igreja, a vida religiosa teve sempre, e agora com
maior razão, uma missão profética, a de ser um testemunho da escatologia. Todo
cristão, seja religioso ou leigo, deve buscar o Reino de Deus identificando-se,
por amor, com Cristo na sua encarnação e na sua morte e ressurreição, que
culmina na escatologia; todavia, o que é próprio do religioso, o que mais o
caracteriza é viver a caridade mediante uma peculiar consagração que se funda
na do batismo e a exprime com maior plenitude (PC 5). Esta consagração peculiar
é um compromisso a viver com mais intensidade o aspecto escatológico do
cristianismo, para ser dentro da Igreja, de um modo especial, «testemunha da
Cidade de Deus».
3.
Isto quer dizer, de uma parte, que o religioso deve encarnar-se no mundo real,
e hoje com maior audácia que em outros tempos: não podendo alhear-se dos
problemas sociais, do sentido democrático, da mentalidade pluralista etc., dos
homens que vivem a seu lado. E assim, nas circunstâncias concretas da América
Latina (nações em via de desenvolvimento, com escassez de sacerdotes etc.), exigem
dos religiosos uma especial disponibilidade, segundo seu próprio carisma, para
inserirem-se nas linhas de uma pastoral efetiva. Por outra parte, em meio a um
mundo que marcha para a secularização e o esfriamento da fé e da caridade, o
religioso deve ser o sinal de que o Povo de Deus não tem uma cidadania
permanente neste mundo, mas que busca a futura mediante o estado religioso «que
deixa seus seguidores mais livres dos cuidados terrenos, manifesta melhor aos
fiéis os bens celestiais - já presentes nesta vida - e, sobretudo, dá um
testemunho da vida nova e eterna conquistada pela redenção do Cristo, prenuncia
a ressurreição futura e a glória do reino celestial» (LG 44) . Ou, conforme
expressa a Lumem Gentium em outra passagem: «Os religiosos, por seu estado,
dão claro e exímio testemunho de que o mundo não pode ser transfigurado nem
oferecido a Deus sem o espírito das bem-aventuranças».
Se
é verdade que o religioso se coloca à certa distância das realidades do mundo
presente, não o faz por desprezo ao mundo, mas com o propósito de recordar seu
caráter transitório e relativo.
4.
Seu testemunho não é algo abstrato mas existencial, sinal da santidade
transcendente da Igreja: quer-se viver com maior plenitude, por meio desta
especial consagração, aquela identificação pessoal com Cristo, que se iniciou
com o batismo. Ela se expressa principalmente pelo voto de castidade através do
qual o religioso se une ao
Senhor
com um amor indivisível (0T 10) , e pela caridade da vida em comunidade é um
prenúncio da união perfeita no reino futuro.
Nas
congregações de vida ativa, a ação apostólica, como atividade missionária, não
é um trabalho de desagregação da vida religiosa, mas uma manifestação do desígnio
de Deus na história da salvação que «também tende à plenitude escatológica» (AG
9) .
O
testemunho do mundo futuro se manifesta de modo especial na vida religiosa
contemplativa que é uma mediação e uma presença do mistério de Deus no mundo. A
ela corresponde um grande papel, especialmente na situação latino-americana, já
que, com sua vida de fé e abnegação, os contemplativos convidam a uma visão
mais crista do homem e do mundo.
5.
Tanto na vida ativa como na contemplativa requer-se, para que esse testemunho seja
autêntico, um contato íntimo com Deus na oração pessoal e um aprofundamento no
sentido da caridade que tem sua melhor expressão na celebração eucarística.
6.
Colocados esses princípios e orientando-se este documento especialmente para o
desenvolvimento e pastoral na América Latina, insistiremos somente naqueles
aspectos da vida religiosa que têm relação direta com estes temas.
Ajornamento
7.
As mudanças provocadas no mundo latino-americano pelo processo de
desenvolvimento e, por outro lado, os planos de pastoral de conjunto, através
dos quais a Igreja da América Latina quer encarnar-se em nossas concretas
realidades de hoje, exigem uma revisão séria e metódica da vida religiosa e da
estrutura da comunidade. Esta é uma condição indispensável para que os
religiosos sejam um sinal inteligível e eficaz dentro do mundo atual.
8.
Algumas vezes a separação entre a vida religiosa e o mundo é interpretada
equivocamente e há comunidades que mantém ou criam barreiras artificiais,
esquecendo-se que a vida comunitária deve abrir-se para o ambiente humano que
a cerca, a fim de irradiar a caridade e abranger todos os valores humanos.
9.
A verdadeira caridade tem como efeito a flexibilidade de espírito para
adaptar-se a toda sorte de circunstâncias. Ao religioso cabe ter uma perfeita
disponibilidade para seguir o ritmo da Igreja e do mundo atual, dentro dos
limites que lhe marca a obediência religiosa. Deve adaptar-se às condições
culturais, sociais e econômicas ainda que isto suponha a reforma de costumes e
constituições ou a supressão de obras que hoje perderam sua eficácia. Os costumes,
os horários, a disciplina devem facilitar as tarefas apostólicas.
10.
É necessário levar em conta as inquietações e interrogações da juventude, que
revelam em geral uma atitude de generosidade e compromisso com o ambiente.
11.
Por outro lado, é preciso abordar seriamente o «conflito de gerações», que se
caracteriza não somente como conflito entre um sistema de normas, de um lado, e
de valores, de outro, mas também porque a certos valores não se lhes dá o
caráter de absolutos, e este «relativismo» produz na juventude, e mais ainda
nos adultos, um estado de insegurança que chega a afetar os valores da vida religiosa
e da própria fé. É necessário, portanto, dar uma educação personalizadora, que
os leve a realizarem-se através de graduais opções sociais, que tenham por meta
a vivência autêntica dos valores evangélicos.
12.
Também notamos que por causa desta transformação de mudança e insegurança
registram-se numerosas deserções nos institutos religiosos. Nestes casos é necessário
um espírito de compreensão fraterna que facilite ao máximo o reajustamento
psicológico e social dos que deixam a vida religiosa.
Participação
no desenvolvimento da vida religiosa
13.
O amor fraternal a todos os membros do Corpo místico terá que nascer da «vida
escondida com Cristo em Deus» e há de ser a fonte de todo apostolado (PC 6), e
o apostolado terá que conduzir à unidade da caridade (PO 9) . Para os
religiosos de vida ativa a ação apostólica não pode ser considerada como algo
secundário; muito ao contrário, ela «integra a própria natureza da vida
religiosa»; toda a vida religiosa de seus membros há de estar saturada do
espírito apostólico, e toda a ação apostólica enformada do espírito religioso»
(PC 8; LG 44) .
14.
A integração da vida apostólica (em todas as suas manifestações) na própria
vida das instituições religiosas está se apresentando na América Latina como
um problema de características dramáticas, especialmente entre os jovens, mais
sensibilizados pelos condicionamentos do processo de humanização do continente.
15.
No entender desses jovens há uma dissociação prática entre o conjunto de
observância a que se dá o nome de «vida regular» e a participação no
desenvolvimento do homem latino-americano.
16.
Isto provoca uma crítica severa a seus próprios institutos e comunidades,
acusando a vida religiosa, assim entendida, de alienação fundamental
relativamente à vida cristã, e a inadaptação ao mundo de hoje.
17.
As crises nas comunidades religiosas tomam grandes proporções, enquanto
diminui o número dos que nelas ingressam.
18.
a) Por isso recomendamos aos religiosos: desenvolver e aprofundar uma teologia
e uma espiritualidade da vida ativa. É necessário adquirir uma mentalidade que
valorize sobrenaturalmente os elementos de penitência que o apostolado encerra
e que realce o exercício das virtudes teologais e morais que ele implica.
b)
É preciso tomar consciência dos graves problemas sociais de vastos setores do
povo em que vivemos.
19.
A situação atual não pode deixar inativos os religiosos que, embora não tenham
que intervir no sentido de dirigir o que é temporal, hão de trabalhar
diretamente com as pessoas em um duplo aspecto: no de fazê-las viver sua
fundamental dignidade humana e no de servi-las em vista dos bens da redenção
(CELAM, Conclusões de Mar dal Plata, p. 39) .
20.
Consideramos que a colaboração do religioso para o desenvolvimento integral é
algo vital e inerente à sua própria vocação. Cada um deve aceitar generosamente
seu papel, sobretudo os que, por sua educação, sua situação e sua influência,
têm maiores possibilidades (PP 32) .
21.
A este respeito recordamos aos religiosos a necessidade de:
a)
Insistirem em uma séria formação espiritual, teológica, profunda e continuada,
harmonizada com o cultivo e apreciação dos valores humanos.
b)
Valorizar o apostolado e suas exigências como elemento essencial da vida
religiosa. A fidelidade a este aspecto essencial exige dos religiosos a
renovação constante de seus métodos dentro da continuidade com seu próprio
patrimônio, para assimilar tudo o que de melhor for surgindo na Igreja e
adaptar seus sistemas aos novos processos e novas necessidades e, em nosso
caso, a Igreja da América Latina, em cumprimento de sua missão salvadora vá ao
encontro do problema do desenvolvimento.
c)
Considerar que o desenvolvimento se conecta necessariamente com dimensões de
justiça e caridade; a teologia deve intervir para ponderá-las no sentido de
uma pastoral que cada vez mais carece de maior atualização, dado o dinamismo do
progresso humano.
d)
Rever sinceramente a formação que se dá no campo social aos religiosos, dando
especial importância às experiências vitais ordenadas à aquisição de uma
mentalidade social.
e)
Atender, educar, evangelizar e promover as classes sociais marginalizadas
sobretudo, com um espírito eminentemente missionário, preocupar-se com os
numerosos grupos indígenas do continente (PC 20).
f)Promover
um autêntico espírito de pobreza que se traduza efetivamente em colocar a serviço
dos outros os bens de que se disponha (PC 13).
g)
Realizar o pedido de Paulo VI referente à reforma agrária no caso de possuírem
terras não necessárias à obra apostólica.
Pastoral
de conjunto
22.
É necessário que em nossos planos de Pastoral de Conjunto possam as
congregações religiosas integrar-se de acordo com o carisma, as finalidades
específicas de cada instituto e as prioridades pastorais, ainda que para isso
seja necessário, às vezes, abandonar certas obras para atender a outras que se
considerem mais urgentes e necessárias.
23.
Esta íntima participação dos religiosos terá que realizar-se a partir da fase
de reflexão e planificação até a fase de realização, sem esquecer que a
integração real só se obtém quando as próprias comunidades religiosas (ao nível
provincial e local) tomarem consciência da responsabilidade pastoral colegial
e refletirem em sintonia com os demais grupos e membros do Povo de Deus.
125
24.
Temos consciência do indispensável trabalho apostólico que realizam religiosos
e religiosas; eles continuarão sendo, junto ao clero das dioceses, a base da
evangelização da América Latina. Sugerimos, sem embargo, que os religiosos se
esforcem por integrar os leigos nos trabalhos apostólicos, respeitando
sinceramente sua competência na ordem temporal e reconhecendo-lhes sua
responsabilidade própria dentro da Igreja.
25.
Finalmente, já que o trabalho de evangelização supõe permanência e
estabilidade, esta II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano pede
encarecidamente aos superiores que dêem estabilidade ao pessoal religioso que
desempenha funções apostólicas na América Latina, de acordo com convênios
firmados com os bispos da região.
Leigos
consagrados na Vida Religiosa e nos Institutos Seculares
26.
A consciência mais clara que os leigos vão tomando do lugar que lhes cabe
dentro da Igreja por força de seu batismo, leva-nos a ver e apreciar de maneira
especial o enorme potencial que representam para a América Latina os numerosos
homens e mulheres que, conservando sua condição leiga, se consagraram ao Senhor
na vida religiosa ou nos institutos seculares.
27.
Recordamos antes de tudo que «a vida religiosa leiga, tanto para os homens como
para as mulheres, constitui em si mesma um estado completo de profissão dos
conselhos evangélicos» (PC 10) .
28.
Todavia, para que os religiosos leigos possam cumprir sua missão específica na
América Latina de hoje, é necessário que valorizem seu papel de «leigos
consagrados» e consigam uma inserção mais profunda no laicato do Povo de Deus.
Por meio de diversas formas de presença em
126
pequenas
comunidades que vivem do próprio trabalho, os religiosos leigos serão o
«fermento na massa». Por suas tarefas apostólicas e profissionais, comunitárias
ou pessoais, eles hão de ser um apoio eficaz para os leigos que trabalham nas
mesmas atividades.
29.
No campo da promoção humana, os institutos leigos deveriam partir para uma
diversificação à luz de uma presença bem compreendida da Igreja em um mundo em
desenvolvimento.
30.
Os religiosos leigos poderão prestar freqüentemente um apoio valioso ao
ministério hierárquico. Deste modo é que adquire especial importância, na
situação atual, o trabalho que realizam as religiosas encarregadas de paróquias
nos lugares em que a presença do padre não é permanente.
31.
Toda essa atualização exige uma preparação esmerada que obriga as comunidades
religiosas a uma profunda reflexão crista sobre as condições humanas encontradas
na América Latina e a uma aptidão profissional nos diversos setores (GE 3) .
32.
Os trabalhos domésticos necessários e meritórios não devem ser, para os
religiosos e religiosas de instituições de apostolado direto, um impedimento
para seu trabalho específico.
33.
Uma atenção especial deve ser prestada à formação espiritual e ao ajornamento
dos religiosos leigos para que eles possam ser um sinal inteligível que
manifeste ao homem latino-americano sua vocação.
Necessidade
de centros regionais de decisão
(Cir. CLAR, ap. cif., p. 48)
34.
Por ser a situação da América Latina muito diferente da de outras regiões, em
todos os planos, é muito
127
importante
que as decisões para aplicação concreta das normas gerais dadas pelos
institutos religiosos sejam tomadas pelos responsáveis latino-americanos de
cada país. De outra maneira, corre-se o risco de interpretar mal a situação
regional e local, com grave dano para a vida e a atividade das comunidades
religiosas.
Os
Religiosos na vida do Povo de Deus sob a coordenação da Hierarquia
35.
A característica dos religiosos só é compreensível relacionando-a com os outros
membros, funções e ministérios do Povo de Deus.
36.
Os religiosos sacerdotes têm uma situação especial: estão unidos com os bispos
no sacerdócio, são consagrados para ser cooperadores da ordem episcopal,
pertencem ao clero da diocese enquanto participam em obras de apostolado sob a
autoridade dos bispos (PO 7; CD 34) .
37.
Religiosos e religiosas se integram à pastoral hierárquica em diversos níveis:
no sacerdócio, no conselho pastoral, em organismos supradiocesanos.
38.
A diversidade de níveis de integração supõe para os superiores religiosos a
missão de coordenar e alimentar as diferentes participações; cabe-lhes
desenvolver e manter o sentido de comunidade que deve ligar a vida religiosa,
em suas diversas funções e ministérios, com o Povo de Deus. Em conseqüência, a
missão dos superiores, sobretudo dos superiores de grau mais elevado, deverá
integrar-se muitas vezes em níveis que ultrapassam os da Igreja local.
39.
Para o bem da pastoral diocesana e nacional, é indispensável que os bispos se
reúnem periodicamente com os superiores religiosos e que as Conferências
Episcopais convidem para suas assembléias a Conferência de Religiosos e
Religiosas e vice-versa, para tratar, em um ambiente de compreensão e
cordialidade, do que se relaciona com a participação dos religiosos na pastoral
de conjunto (CD 5, 6, 35).
40.
Um exemplo desta coordenação tão necessária encontramo-1o muito bem retratado
no plano continental, graças às relações institucionalizadas já existentes
entre a CELAM e a Confederação Latino-americana de Religiosos - CLAR. Que seja
esta a oportunidade para pedir a todos os religiosos e religiosas do continente
que secundem a atividade de suas conferências nacionais e da CLAR, a fim de
que todos esses organismos sejam para o Episcopado interlocutores cada vez
mais válidos e mais eficazes veículos de nosso interesse pela vida religiosa.
41.
De outra parte, esta II Conferência considera de extrema conveniência que
religiosos e religiosas de diversas regiões da América Latina participem nas
Congregações Romanas e, em particular, na dos Religiosos.
13.
FORMAÇÃO DO CLERO
I.
Realidade da Igreja na América Latina
«A
América Latina apresenta uma sociedade em movimento, sujeita a transformações
rápidas e profundaso (exortação de Paulo VI ao CELAM, 24 de novembro de 1965,
IV 8) . Isto repercute na Igreja e exige dela uma tomada de posição. A Igreja
latino-americana deve exprimir seu testemunho e seu serviço neste continente,
que enfrenta problemas angustiosos como os de integração, desenvolvimento,
profundas modificações e miséria.
Por
outro lado, diante dos múltiplos problemas de tipo estritamente religioso, a
Igreja está com um número cada vez mais escasso de sacerdotes, com estruturas
ministeriais insuficientes e às vezes inadequadas para um real trabalho
apostólico.
Neste
contexto colocamos a formação do clero, que deve ser instrumento fundamental de
renovação de nossa Igreja e resposta às exigências religiosas e humanas de
nosso continente.
1.2.
Estado atual da formação ao clero
A
restauração do diaconato permanente e os problemas particulares suscitados pela
existência do sacerdócio nos leva ao estudo da situação atual da formação do
clero.
1.2.1.
Diaconato permanente
Em
alguns países da América Latina já se desenvolvem experiências de formação de
diáconos. É cedo para emitir um juízo, porque sendo iniciativas incipientes,
ainda não alcançaram o suficiente grau de maturidade.
Contudo,
nota-se que a promoção do diaconato surgiu devido a determinadas exigências
pastorais. Isso vem dando lugar a uma relativa pluralidade de formas na concepção,
preparo e realização da ação dos candidatos ao diaconato, de acordo com os
ambientes regionais.
1.2.2.
Formação sacerdotal
1.2.2.1,
Seminaristas
-
Aspectos positivos: a juventude de nossos seminários participa das inquietudes
e dos valores dos jovens de hoje. Nota-se neles um desejo de autenticidade e
sensibilidade aos problemas sociais, desejo de justiça e de participação nas
responsabilidades nas transformações de hoje, maior desejo de vida comunitária,
diálogo e sentido de Igreja como catolicidade; anelo de pobreza e busca de valores
evangélicos; respeito à pessoa humana; espírito de iniciativa pastoral; sentido
de liberdade e autonomia; desejo de trabalhar para inserir-se no ambiente e
auxiliar em sua formação; apreço aos valores essenciais.
-
Aspectos negativos: da mesma forma, a crise vivida hoje pela juventude e pela
sociedade se refletem na vida do seminário : tensões entre a autoridade e a
obediência; ânsia de total independência; falta de equilíbrio para discernir
entre o positivo e o negativo das novidades que surgem dentro da vida da
Igreja; rejeição de certos valores religiosos tradicionais; exagerado ativismo
que leva a descuidar sua vida de relação pessoal com Deus; desconfiança dos
adultos.
1.2.2.2.
Seminários
-
Aspectos negativos: nota-se uma crise nos seminários, que se manifesta
principalmente numa baixa notável na perseverança e no ingresso cada vez menor
de seminaristas. Há, aqui, algumas causas reveladoras desta situação:
educadores insuficientemente preparados; falta de unidade de critérios na
equipe de formadores e de segurança entre os mesmos, para defender certos
valores fundamentais dentro da formação; deficiência de uma orientação segura
e pessoal no que se relaciona com o crescimento na fé e na vocação específica
sacerdotal nos candidatos; abertura às vezes muito brusca dos seminários, sem
graduá-1a e sem preparar e assistir os seminaristas; falhas de formação para
uma maturidade humana plena; carência em alguns seminários de um espírito
autêntico de família; relaxamento na direção espiritual do seminário. Certos
fatores externos como a crise da atual figura do sacerdote, a valorização do
leigo e do matrimônio como possibilidades de participação na missão da Igreja
e maiores oportunidades para a promoção social etc.
-
Aspectos positivos: nota-se uma ardente busca de soluções. As principais
tentativas atualmente desenvolvidas, entre outras, são :
Em
geral se verifica que há maior integração na equipe de educadores, atualização
deste nível pessoal, através de cursos e encontros de reflexão, esforços de uma
formação mais pessoal dos seminaristas num ambiente de família; integração do
seminário na comunidade eclesial e na comunidade humana, em maior contato com o
bispo e os párocos com os seminários; maior sensibilidade para as realidades do
mundo atual e da família; renovação dos métodos pedagógicos; aplicação de uma
sã psicologia no discernimento e orientação dos candidatos. Quanto ao seminário
menor, maior incorporação do pessoal leigo, inclusive feminino; abertura para
uma formação fundamentalmente humana e cristã e uma orientação vocacional pluralista;
criação de formas novas de seminários menores, tais como semi-internatos,
externatos, assistência a classes de colégios estatais, particulares, etc.
No
que respeita ao seminário maior: uma formação pessoal à base de equipes e
pequenas comunidades, sobre o que a Santa Sé deu orientações precisas. No campo
da formação intelectual: tendência a unir o pessoal de várias dioceses e
comunidades em centros de estudos comuns e a freqüentar universidades católicas
ou estatais, sobretudo para o estudo da filosofia (Carta do Cardeal Garrone,
maio de 1968) .
2.
Pressuposto teológico
A
razão de ser do seminário devemos colocá-1a dentro da perspectiva bíblica do
chamado e resposta. Como centro de formação sacerdotal deverá partir, o
seminário, da visão bíblica «Ex Hominibus Assumptuso «Pra Hominibus constitutos»,
para lograr aquela maturidade humana nos candidatos que os capacite a
tornarem-se guias de homens. Mais ainda que aos simples batizados, pede-se aos
seminaristas aquela maturidade cristã indispensável para serem idôneos do
carisma sacerdotal, pelo qual são chamados a configurar-se com Cristo, Cabeça
do Corpo Místico. Esta configuração com o sacerdócio ministerial de Cristo os
situa num nível especificamente distinto do sacerdócio comum dos fiéis.
3.
Orientações pastorais
De
acordo com o que ficou dito e tendo em conta a situação latino-americana, e sem
pretender esgotar todos os aspectos de formação contidos nos documentos do Concílio
Vaticano II e da Santa Sé, permitimo-nos destacar os seguintes pontos:
3.1.
Formação espiritual
Considerando
o papel específico do sacerdote na América Latina e as tarefas da pastoral que
esta Conferência destacou, julga que a formação específica dos seminários deve
insistir particularmente sobre algumas atitudes e vir
134
rudes
sem pretender que elas sejam nem as únicas nem as principais.
3.1.1.
Capacidade para ouvir fielmente a Palavra de Deus
Exige-se
do sacerdote de hoje saber interpretar, habitualmente, à luz da fé, situações
e exigências da comunidade. Esta tarefa profética, por um lado, exige a capacidade
de compreender, com a ajuda do laicato, a realidade humana; exige, por outro,
como carisma específico do sacerdote em união com o bispo, saber julgar as
realidades que estão em conexão com o plano de salvação. Para chegar a esta
capacidade necessita-se de:
3.1.1.1.
Uma profunda e continuada purificação interior que dê capacidade ao homem para
captar as autênticas exigências da Palavra de Deus (sentido da direção espiritual)
.
3.1.1.2.
Um «sensos fidei» que é aprofundado particularmente pela Sagrada Escritura,
assimilada vitalmente pela oração pessoal, por uma ativa, consciente, frutuosa
participação na liturgia e pelo estudo sério da mensagem; por um constante
confronto com o ensino do magistério da Igreja. Com o mesmo fim parece
necessário desenvolver uma forte paixão pela verdade e uma disposição habitual
para defender-se da unilateralidade com uma busca e verificação comunitárias.
3.1.2.
Uma espiritualidade marcada pelos conselhos evangélicos
3.1.2.1.
No período em que a pastoral latino-americana se acha comprometida com a
promoção humana, a fim de que cada homem se realize a si mesmo e goze dos bens
da natureza, é necessário que o sacerdote dê a seus irmãos, de maneira
convincente, o testemunho de saber viver com
135
equilíbrio
e liberdade a renúncia daqueles bens da natureza, sem lhes dar um valor absoluto,
evitando assim que se repitam os erros de outros países.
3.1.2.2.
O Concílio Vaticano II e o Sumo Pontífice reafirmaram recentemente a vigência
do celibato para os sacerdotes. Sendo o motivo central do celibato a entrega a
Cristo, e por ele à Igreja, e constituindo ao mesmo tempo uma forma de
caridade pastoral que se confunde com a consagração total e é um testemunho
escatológico para os homens, é necessário que se dêem aos seminaristas bases
muito sólidas para garantir seu cumprimento. Assim pois, dadas as
circunstâncias concretas em que freqüentemente o sacerdote latino-americano
vive, é de particular importância uma cuidadosa formação dos seminaristas nesse
sentido. Principalmente isso exige uma formação gradual, de acordo com o
desenvolvimento físico e psicológico; capacidade para que realize uma escolha
madura, consciente e livre; capacidade de amor e de entrega sem reserva, que
exige uma fé forte, que o capacite a responder ao chamado de Deus; disciplina
ascética e vida de oração que o leve a uma maturidade no relacionamento com 0
outro sexo; uma realização do sentido da amizade e a capacidade para trabalhar
em equipe com seus irmãos sacerdotes.
3.1.3.
Espírito de serviço
O
sacerdote está posto ao serviço do povo como Cristo. Isto exige que ele aceite
sem limitações as exigências e as conseqüências do serviço aos irmãos e, em
primeiro lugar, saber assumir as realidades e “o sentido do povo” em suas
situações e em sua mentalidade.
Ele,
com espírito de humildade e espírito de pobreza, antes de ensinar deve
aprender, fazendo-se tudo para todos a fim de leva-los a Cristo.
3.1.4.
Experiência pessoal e amor a Cristo
Assim
como a Pedro, Cristo pede ao seminarista de hoje um serviço de entrega total,
como resultado de amor pessoal a ele e ao Pai, pelo Espírito, já que Cristo não
quer servos, mas amigos.
3.2.
Disciplina
A
disciplina é indispensável, não somente para a boa ordem, mas sobretudo para a
formação da personalidade. É necessário que a disciplina seja objeto de uma
adesão interior para o seminarista, o que só é possível se os jovens
perceberem seu valor e se tiverem por objeto metas essenciais (tudo isto dentro
das orientações do Concílio e de Paulo VI. Cf. 11; Paulo VI no Seminário
Lombardo 1966).
3.3.
Formação intelectual
3.3.1.
Hoje mais do que nunca é urgente atualizar os estudos de acordo com as
orientações do Concílio, insistindo naqueles aspectos que mais particularmente
se relacionam com a situação atual do continente.
3.3.1.2.
Nesse sentido cuide-se da pureza doutrinal, ante uma tendência de novidades não
suficientemente fundamentadas (of. Discurso de Paulo VI na abertura da II
Assembléia do CELAM) . Insista-se, além disso, em aprofundar-se de tal modo que
se alcance um alto nível intelectual com vistas sobretudo à sua condição de pastor.
3.3.1.3.
Dê-se uma importância particular ao estudo e investigação de nossas realidades
latino-americanas em seus aspectos religioso, social, antropológico e
sociológico.
3.3.1.4.
Quanto ao professorado, constatada a capacitação dos futuros professores, há
que procurar atualizá-los, por meio de encontros, cursos e institutos de
alcance nacional e latino-americano, buscando ainda a colaboração de
professores especializados que possam prestar serviços nos diferentes centros.
3.4.
Formação pastoral
3.4.1.
Há que cuidar que os professores de seminários tenham experiência pastoral e,
ademais, que o clero esteja convenientemente atualizado para que assim possa
colaborar eficazmente para a formação dos futuros sacerdotes.
3.4.2.
Numa forma mais concreta e em conformidade com sua futura atividade pastoral,
providencie-se melhor preparação dos seminaristas em alguns aspectos de particular
importância de nosso ambiente latino-americano: formação básica sobre pastoral
de conjunto, preparação para a iniciação e assistência às comunidades de base,
conveniente formação e treinamento da dinâmica de grupos e relações humanas e
adequada informação para utilizar os meios de comunicação social.
3.4.3.
Por outro lado, deve-se procurar que participem de atividades pastorais de
forma gradual, progressiva e prudente, especialmente na época de férias.
3.5.
Pastoral vocacional
3.5.1.
Sendo a pastoral vocacional a ação da comunidade eclesial sob a orientação da
hierarquia para levar todos os homens a fazerem sua parte na Igreja, toda a comunidade
cristã, unificada e guiada pelo bispo, é responsável solidamente pelo
desenvolvimento vocacional, tanto no seu aspecto fundamental cristão, «a
vocação», quanto em seus aspectos específicos: vocações sacerdotais, religiosas
e leigas.
3.5.2.
Note-se que o sacerdote, por sua própria missão, deve ser o mediador mais
direto nos chamados de
Deus,
pelo ideal que deve encarnar para a juventude, e porque, sendo fiel à sua
vocação, será mais sensível aos chamados de Deus nos outros.
3.5.3.
Dado o fenômeno de um número cada vez mais crescente de jovens e mesmo de
adultos, tenha-se cuidado especial na promoção e cultivo dessas vocações. Para
isso é necessário uma pastoral juvenil que, para ser plenamente autêntica,
deve levar os jovens a um amadurecimento pessoal e comunitário, e assim
assumirem um compromisso concreto ante a comunidade eclesial em alguns dos mencionados
estilos de vida.
3.6.
Pontos diversos
3.6.1.
Procure-se promover no seminário, uma reflexão contínua sobre a realidade em
que vivemos, a fim de que se saiba interpretar os sinais dos tempos e se criem
atitudes e mentalidade pastoral adequadas.
3.6.2.
Todos os que participam da vida do seminário, sejam quais forem os seus graus,
devem-se considerar como educadores.
3.6.3.
Verifica-se, na América Latina, uma busca de novas formas de preparação de
sacerdotes. Tenha-se em conta que, para que tais experiências sejam fecundas,
devem ser preparadas refletidamente, aprovadas pelas autoridades competentes,
bem compreendidas pelos interessados, acompanhadas, controladas e avaliados os
seus resultados, tendo sempre em conta sua reversibilidade. Ademais, seria
desejável que, uma vez demonstrada sua validade, fosse comunicada às
Conferências Episcopais dos distintos países, para utilização comum.
3.6.4.
Por razões óbvias, é conveniente que a formação dos seminaristas, em geral,
seja realizada no seu próprio ambiente.
3.6.5.
Julga-se conveniente que os sacerdotes de outros países designados para
trabalhar na formação do clero, sigam cursos de adaptação em centros nacionais
ou internacionais e que completem um período prudencial de trabalho pastoral.
3.6.6.
Para uma maior economia de forças e melhoramento do ensino, recomendam-se
iniciativas como: seminários regionais e internacionais, cuidando que haja
simultaneamente uma integração dos bispos responsáveis e que, na medida do
possível, abranjam zonas humana e pastoralmente homogêneas. Igualmente
recomendam-se institutos e faculdades de filosofia e teologia comuns para os
candidatos ao clero diocesano e religioso. Isto ajudará a promover maior
integração no futuro trabalho pastoral e melhor inserção na realidade do mundo
atual.
3.6.7.
Considera-se de muita utilidade que se intensifique a colaboração mútua e as
relações entre o CELAM e OSLAM (Organização de Seminários Latino-Americanos)
com as Comissões Episcopais de Seminários e com as Conferências Nacionais de
Religiosos, havendo uma informação mútua sobre os problemas de cada um.
3.7.
Diaconato
Em
seguida assinalamos algumas orientações gerais no que se refere à formação dos
diáconos permanentes.
3.7.1.
Fator indispensável na formação do futuro diácono será a colaboração recíproca
entre este e a comunidade. Quer dizer que o candidato amadurece sua formação
atuando na comunidade e esta também contribui para formá-lo. Além disso, os
métodos de formação terão de levar em conta a psicologia do adulto, excluindo
todo tipo de formação massificadora e utilizando os métodos ativos.
140
3.7.2.
A primeira preocupação dos responsáveis da formação do futuro diácono será a de
prepará-1o para que seja capaz de criar novas comunidades cristãs e ativar as
existentes, para que o ministério da Igreja possa realizar-se nelas com maior
plenitude.
3.7.3.
Em vista do que acima ficou dito, é necessário despertar nos candidatos uma
espiritualidade diaconal própria, que nos casados se una a uma autêntica
espiritualidade conjugal.
3.7.4.
Considerando-se as diversas tarefas que o ministério diaconal terá de realizar
na América Latina, será necessário que a formação intelectual seja ao mesmo tempo
adequada às funções que terão de cumprir e ao nível cultural do ambiente.
3.7.5.
Ademais, de acordo com as condições da Igreja na América Latina, na formação do
diácono, cuidar-se-á também de capacitá-1o para uma ação efetiva no terreno da
evangelização e do desenvolvimento integral.
3.7.6.
Recomenda-se que haja nas dioceses, região ou país, equipes responsáveis pela
formação dos candidatos que poderão ser integradas por presbíteros, diáconos,
religiosos e leigos.
141
14.
POBREZA DA IGREJA
I.
Realidade Latino-americana
l.
O Episcopado Latino-americano não pode ficar indiferente ante as tremendas
injustiças sociais existentes na
América Latina, que mantêm a maioria de nossos povos numa dolorosa pobreza, que em muitos casos chega a ser miséria desumana.
2.
Um surdo clamor nasce de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma
libertação que não lhes chega de
nenhuma parte. «Agora nos estais escutando em silêncio, mas ouvimos o grito que
sobe de vosso sofrimento», disse o papa
aos camponeses colombianos. E chegam igualmente até nós as queixas de que a
hierarquia, o clero e os religiosos,
são ricos e aliados dos ricos. Sobre isso devemos esclarecer que com muita freqüência se confunde a aparência com a
realidade. Muitos fatores têm contribuído
para a formação desta imagem de uma Igreja hierárquica rica. Os grandes edifícios, as residências
dos párocos e religiosos, quando são superiores às dos bairros em que vivem; os
veículos próprios, às vezes luxuosos; a maneira de vestir herdada de outras
épocas, são alguns desses fatores.
O sistema de espórtulas e pensões escolares
para o sustento do clero e para a
manutenção das obras educacionais, tornam-se mal vistos e até têm contribuído
para a formação de uma opinião
exagerada sobre o montante das somas
percebidas.
Acrescentamos a isso o exagerado sigilo em
que se tem mantido o movimento
econômico de colégios, paróquias e dioceses, ambiente de mistério que agiganta
as sombras e ajuda a criar fantasias; e
casos isolados de condenável enriquecimento que foram generalizados.
Tudo
isso tem levado à convicção de que a Igreja, na América Latina, é rica.
3.
Na realidade, muitíssimas paróquias e dioceses vivem tremendamente pobres. Há
casos de muitos bispos, sacerdotes e religiosos que vivem cheios de privações
e que se entregam com grande abnegação ao serviço dos pobres. Isso escapa, em
geral, à apreciação de muitos e não consegue dissipar a imagem deformada que
persiste.
No
contexto de pobreza e até de miséria em que vive a grande maioria do povo
latino-americano, os bispos, sacerdotes e religiosos temos o necessário para a
vida e certa segurança, enquanto os pobres carecem do indispensável e se
debatem entre a angústia e a incerteza. E não faltam casos em que os pobres
sentem que seus bispos, párocos e religiosos, não se identificam realmente com
eles, com seus problemas e angústias, e que nem sempre apoiam os que trabalham
com eles ou defendem sua sorte.
II.
Motivação doutrinária
4.
Devemos distinguir:
l.
A pobreza coco carência dos bens deste mundo, necessários para uma vida humana
digna é um mal em si. Os profetas a denunciam como contrária à vontade do
Senhor e, muitas vezes, como fruto da injustiça e do pecado dos homens.
2.
A pobreza espiritual, que é o tema dos pobres de Javé (of. Sof 2,3; Magnificat)
. A pobreza espiritual é a atitude de abertura para Deus, a disponibilidade de
quem tudo espera do Senhor (of. Ml 5). Embora valorize os bens deste mundo, não
se apega a eles e reconhece o valor superior dos bens do Reino (of. Am 2,6-7; 4,1; 5,7; Jer 5,28; Miq 6,12-13; Is
10,2 etc).
3.
A pobreza como compromisso, assumida voluntariamente e por amor à condição dos
necessitados deste mundo, para testemunhar o mal que ela representa e a liberdade
espiritual frente aos bens do Reino. Continua, nisto, o exemplo de Cristo, que
fez suas todas as conseqüências da condição pecadora dos homens (of. Flp 2) e
que sendo «rico se fez pobre» (2 Cor 8,9) para salvar-nos.
Neste
contexto, uma Igreja pobre:
-
Denuncia a carência injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra.
-
Prega e vive a pobreza espiritual como atitude de infância espiritual e
abertura para o Senhor.
-
Compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja é, com
efeito, uma constante na história da salvação.
5.
Todos os membros da Igreja são chamados a viver a pobreza evangélica. Mas nem
todos da mesma maneira, pois nela há diversidade de vocações, que comportam diversos
estilos de vida e diversas formas de agir. Entre os próprios religiosos, que
têm a missão especial de dar testemunho da pobreza, há diferenças segundo os
carismas mais próprios.
6.
Dito tudo isso, é necessário salientar que o exemplo e o ensinamento de Jesus,
a situação angustiosa de milhões de pobres na América Latina, as incisivas exortações
do papa e do Concílio, põem a Igreja latino-americana ante um desafio e uma
missão a que não pode fugir e à qual deve responder com a diligência e audácia
adequadas à urgência dos tempos. Cristo, nosso Salvador, não só amou aos
pobres, mas também, «sendo rico se fez pobre», viveu na pobreza, centralizando
sua missão no anúncio da libertação aos pobres e fundou sua Igreja como sinal
dessa pobreza entre os homens.
A
Igreja sempre tem procurado cumprir essa vocação, não obstante «tantas
debilidades e fracassos nossos, no passado” (ES 50). A Igreja da América
Latina, dadas às condições de pobreza e subdesenvolvimento do continente,
sente a urgência de traduzir esse espírito de pobreza em gestos, atitudes e
normas, que a tornem um sinal mais lúcido e autêntico do Senhor. A pobreza de
tantos irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso,
esforço e superação para o cumprimento pleno da missão salvífica confiada por
Cristo.
A
situação atual exige, pois, dos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos o
espírito de pobreza que «rompendo as amarras da posse egoísta dos bens
temporais, estimula o cristianismo a dispor organicamente da economia e do
poder em benefício da comunidade (Paulo VI, 23-7-68) .
«A
pobreza da Igreja e de seus membros na América Latina deve ser sinal e
compromisso. Sinal do valor inestimável do pobre aos olhos de Deus;
compromisso de solidariedade com os que sofrem». (ibid.)
III.
Orientações pastorais
7.
Por tudo isso queremos que a Igreja da América Latina seja evangelizadora e
solidária com os pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde
servidora de todos os homens de nossos povos. Seus pastores e demais membros
do Povo de Deus hão de dar à sua vida, suas palavras, suas atitudes e sua ação,
a coerência necessária com as exigências evangélicas e as necessidades dos
homens latino-americanos.
8.
Preferência e solidariedade
O
mandato particular do Senhor, que prevê a evangelização dos pobres, deve
levar-nos a uma distribuição tal de esforços e de pessoal apostólico, que deve
visar, preferencialmente, os setores mais pobres e necessitados
146
e
os povos segregados por uma causa ou outra, estimulando e acelerando as
iniciativas e estudos que com esse fim se realizem.
Queremos,
como bispos, nos aproximar cada vez com maior simplicidade e sincera
fraternidade, dos pobres, tornando possível e acolhedor o seu acesso até nós.
Devemos
tornar mais aguda a consciência do dever de solidariedade para com os pobres;
exigência da caridade. Esta solidariedade implica em tornar nossos seus
problemas e suas lutas e em saber falar por eles.
Isto
há de se concretizar na denúncia da injustiça e da opressão, na luta contra a
intolerável situação suportada freqüentemente pelo pobre, na disposição de
dialogar com os grupos responsáveis por essa situação, para faz-los
compreender suas obrigações.
Expressamos
nosso desejo de estar sempre bem perto dos que trabalham no abnegado apostolado
dos pobres, para que sintam nosso estímulo e saibam que não ouviremos vozes
interessadas em denegrir seu trabalho.
A
promoção humana há de ser a linha de nossa ação em favor do pobre, respeitando
sua dignidade pessoal, ensinando-lhe a ajudar-se a si mesmo. Com esse fim, reconhecemos
a necessidade da estruturação racional de nossa pastoral e da integração de
nosso esforço com os esforços de outras entidades.
9.
Testemunho
Desejamos
que nossa habitação e estilo de vida sejam modestos; nossa indumentária,
simples; nossas obras e instituições funcionais, sem aparato nem ostentação.
Pedimos
aos sacerdotes e fiéis que nos dêem um tratamento que convenha à nossa missão
de padres e pastores, pois desejamos renunciar a títulos honoríficos próprios
de outras épocas.
Com
o auxílio de todo o povo de Deus, esperamos superar o sistema de espórtulas,
substituindo-o por outras formas de cooperação econômica, desligadas da administração
dos sacramentos.
A
administração dos bens diocesanos ou paroquiais deverá ser integrada por leigos
competentes e dirigida, da melhor forma possível, para o bem de toda a comunidade
(PO 17) .
Em
nossa missão pastoral, confiaremos antes de tudo na força da Palavra de Deus;
quando tivermos que empregar meios técnicos buscaremos os mais adequados ao
ambiente em que devam ser usados e os colocaremos a serviço da comunidade (GS
69) .
a)
Exortamos os sacerdotes a darem, também, testemunho de pobreza e
desprendimento dos bens materiais como o fazem tantos, particularmente, em
regiões rurais e em bairros pobres. Com empenho, procuraremos fazer com que
tenham um justo, embora modesto, sustento e a necessária assistência social.
Para isso, procuraremos criar um fundo comum levantado de todas as paróquias
e da própria diocese e das dioceses de todo o país (PO 21).
Estimularemos
os que se sentem chamados a compartilhar da sorte dos pobres, vivendo com eles
e trabalhando com suas próprias mãos, de acordo com o decreto Presbyterorum
OrdW is (n. 8) .
b)
As comunidades religiosas, por especial vocação, devem dar testemunho da
pobreza de Cristo. Recebam nosso estímulo as que se sintam chamadas a formar,
entre seus membros, pequenas comunidades, encarnadas realmente nos ambientes
pobres; serão um chamado contínuo à pobreza evangélica dirigido a todo o Povo
de Deus.
Esperamos,
também, que possam cada vez mais fazer participar de seus bens os outros,
especialmente os mais necessitados, repartindo com eles não só o supérfluo,
mas também o necessário e dispostos a colocar a serviço da comunidade humana os
prédios e instrumentos de suas obras (GS 68).
A
distinção entre o que pertence à comunidade e o que pertence às obras,
permitirá a realização de tudo isto com maior facilidade. Igualmente, permitirá
buscar novas formas para essas obras, da qual participem também outros membros
da comunidade crista, em sua administração ou propriedade.
c)
Estes exemplos autênticos de desprendimento e liberdade de espírito, fará com
que os demais membros do Povo de Deus dêem testemunho análogo de .pobreza. Uma
sincera conversão terá que modificar a mentalidade índividualista em outra de
sentido social e preocupação pelo bem comum. A educação da infância e da
juventude, em todos os níveis, começando pelo lugar, deve ser incluída neste
aspecto fundamental da vida cristã.
Este
sentimento de amor ao próximo é efetivo quando se estuda e se trabalha tendo
em vista a preparação ou a realização de um serviço para a comunidade; quando
se trata de render e produzir mais para maior benefício da comunidade; quando
se dispõe organicamente a economia e o poder em benefício da comunidade.
10.
Serviço
A
Igreja não é impulsionada por nenhuma ambição terrena. O que ela quer é ser
humilde servidora de todos os homens (GS 3; Paulo VI, 7-12-65).
Precisamos
acentuar esse espírito em nossa América Latina.
Queremos
que nossa Igreja latino-americana esteja livre de peias temporais, de
conveniências indevidas e de prestígio ambíguo; que livre pelo espírito dos
vínculos da riqueza (Paulo VI, 24-8-68), seja mais transparente e forte sua
missão de serviço; que esteja presente na vida e nas tarefas temporais, refletindo
a luz de Cristo, presente na construção do mundo.
Queremos
reconhecer todo o valor e autonomia legítima das tarefas temporais;
servindo-nos delas, não queremos desvirtuá-las nem desviá-las de seus próprios
fins (GS 38). Desejamos respeitar sinceramente a todos os homens, escutando-os
para servi-tos em todos os seus problemas e angústias (GS 1,3) . Assim, a
Igreja, continuadora da obra de Cristo, «que sendo rico se fez pobre por nós,
para enriquecer-nos com sua pobreza” (2 Cor 8,9), apresentará ao mundo um sinal
claro e inequívoco da pobreza do Senhor.
15.
COLEGIALIDADE
I.
Constatações
l.
Continentais
1.
Em nosso continente, milhões de homens se encontram marginalizados da
sociedade e impedidos de alcançar a plena dimensão de seu destino, ou em
virtude da existência de estruturas inadequadas e injustas, ou por outros
fatores, como o egoísmo e a insensibilidade das classes dirigentes; de outro
lado, nossos povos estão tomando consciência da necessidade de desencadear um
processo de integração em todos os níveis: desde a integração dos
marginalizados nos benefícios da vida social, até a integração econômica e
cultural de nossos países.
2.
Eclesiais
2.
A Igreja deve, pois, fazer face a esta situação com estruturas pastorais aptas,
marcadas pelo sinal da organicidade e da unidade. Nesse sentido, quando se
examina a realidade latino-americana, constata-se alguns fatores de ordem
positiva e outros de ordem negativa.
a)
Fatores positivos
a)
Entre os primeiros, podemos mencionar:
-
A consciência bastante difundida, ainda que às vezes imprecisa e vaga, das
idéias de «Pastoral de Conjunto» e de «Planificação Pastoral», como também
diversas realizações efetivas nesta linha.
-
A vitalização dos vicariatos forâneos, a criação de zonas, e a constituição de
equipes sacerdotais, por exigências da ação pastoral conjunta.
-
A celebração de Sínodos e a constituição, já iniciada em vários lugares, dos
Conselhos presbiterais e de pastoral, incentivados pelo Concílio.
-
O desejo dos leigos de participar das estruturas pastorais da Igreja.
-
A importância adquirida pelas Conferências Episcopais e a própria existência
da Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do CELAM.
b)
Fatores negativos
b)
Entre os fatores de ordem negativa, figuram os seguintes:
-
Inadequação da estrutura tradicional em muitas paróquias para proporcionar uma
vivência comunitária. - Sensação bastante generalizada de que as Cúrias
diocesanas são organismos burocráticos e administrativos. - Falta de gosto de
muitos sacerdotes, proveniente do fato de não encontrarem um lugar claro e
satisfatório na estrutura pastoral; falta de gosto que amiúde foi o fator
decisivo em algumas crises sacerdotais, tal como foi - por analogia de
situações - nas crises de um número considerável de religiosos e leigos.
-
Atitudes particularistas de pessoas ou instituições, em situações que exigem
coordenação.
-
Casos de aplicação incorreta da Pastoral de Conjunto ou da Planificação, seja
por improvisação ou incompetência técnica, seja pela excessiva valorização dos
«plano”, seja por uma concepção demasiado rígida e autoritária de sua
realização.
II.
Orientações doutrinais
l.
Toda revisão e renovação das estruturas eclesiais no que têm de reformável,
deve evidentemente ser feita para atender as exigências de situações
históricas concretas, mas não perdendo de vista a própria natureza da
152
Igreja.
A revisão que hoje se deve levar a cabo em nossa situação continental há de ser
inspirada e orientada pelas idéias diretivas muito sublinhadas no Concílio: a
da COMUNHÃO e a da CATOLICIDADE (of. LG 13).
2.
Com efeito, a Igreja antes de tudo é um mistério de = comunhão católica, pois
no seio de sua comunidade visível, pela vocação da Palavra de Deus e pela
graça de seus sacramentos, particularmente a Eucaristia, todos os homens podem
participar fraternalmente da comum dignidade de filhos de Deus (LG 32), e
todos também, compartilhar a responsabilidade e o trabalho para realizar a
missão comum de dar testemunho do Deus que os salvou e os fez irmãos em Cristo
(LG 17; AA 3) .
3.
Esta comunhão que une a todos os batizados, longe de impedir, exige que dentro
da comunidade eclesial exista multiplicidade de funções específicas, pois para
que ela se construa e possa cumprir sua missão, o mesmo Deus suscita em seu
seio diversos ministérios e outros carismas que determinam a cada qual um papel
peculiar na vida e na ação da Igreja. Entre os ministérios, ocupam um lugar
particular os que estão vinculados com um «caráter» sacramental; estes
introduzem na Igreja uma dimensão estrutural de direito divino. Os diversos
ministérios não só devem estar a serviço da unidade de comunhão, mas também,
por sua vez, devem constituir-se e atuar de forma solidária. Em especial, os
ministérios que trazem anexa a função pastoral - episcopado e presbiterato -
devem exercer-se sempre em espírito colegial, e assim bispos e presbíteros,
por terem de atuar sempre como membros de um corpo (colégio episcopal ou
presbitério, respectivamente) são chamados a constituir na comunidade p
uma
realização «exemplara de comunhão: «forma facti gregiso («feitos modelo do
rebanhoo) (Pdr 5, 3).
4. É essencial que todas as comunidades
eclesiásticas se mantenham abertas à
dimensão da comunhão católica, de tal
forma que nenhuma se feche sobre si mesma. Assegurar o cumprimento desta
exigência é tarefa que incumbe particularmente aos ministros da hierarquia, e
em forma essencialíssima aos bispos, os quais, colegialmente unidos ao
Pontífice Romano, sua cabeça, são o princípio da catolicidade das Igrejas. Para
que a mencionada abertura seja efetiva e não puramente jurídica, é necessário
haver uma comunicação real, ascendente e descendente, entre a base e a
cúpula.
5.
De todo o exposto, se depreende que a ação pastoral da comunidade eclesial,
destinada a levar o homem todo e a todos os homens à plena comunhão de vida com
Deus na comunhão visível da Igreja, deve ser necessariamente global, orgânica
e articulada. Disto se infere que as estruturas eclesiais devem ser
periodicamente revistas e reajustadas, de tal forma que se possa desenvolver
harmoniosamente o que se chama uma Pastoral de Conjunto: quer dizer, toda
essa obra salvífica comum exigida pela missão da Igreja em seu aspecto global,
«como que o fermento e alma da sociedade humana a ser renovada em Cristo e
transformada em família de Deus» (GS 40).
III.
Orientações pastorais
A)
Renovação das estruturas pastorais
1.
Comunidades cristãs de base
a)
A vivência da comunhão a que foi chamado, o cristão deve encontrá-1a na
«comunidade de base»: ou seja, em uma comunidade local ou ambiental, que
corresponda à realidade de um grupo homogêneo e que tenha uma dimensão tal que
permita a convivência pessoal fraterna entre seus membros. Por conseguinte, o
esforço pastoral da Igreja, deve estar orientado à transformação dessas
comunidades em «família de Deus», começando por tornar-se presente nelas, como
fermento por meio de um núcleo, mesmo pequeno, que constitua uma comunidade de
fé, esperança e caridade (LG 8; GS 40) . A comunidade cristã de base é, assim,
o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve em seu próprio nível
responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também do culto que é
sua expressão. Ela é, pois, célula inicial da estrutura eclesial e foco de
evangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana e do
desenvolvimento.
b)
Elemento capital para a existência de comunidades cristãs de base são seus
líderes ou dirigentes. Estes podem ser sacerdotes, diáconos, religiosos,
religiosas ou leigos. É desejável que eles pertençam à comunidade por eles
animada. A escolha e formação dos líderes deverá ter acentuada preferência na
preocupação dos párocos e bispos, os quais terão sempre presente que a
maturidade espiritual e moral depende em grande parte da assunção de
responsabilidade em um clima de autonomia (GS 55) .
c)
Os membros destas comunidades, «vivendo conforme a vocação a que foram
chamados, exerçam as funções que Deus lhes confiou: sacerdotal, profética e
real», e façam assim de sua comunidade num sinal da presença de Deus no mundo»
(AG 15) .
d)
Recomenda-se a elaboração de estudos sérios, de caráter teológico, sociológico
e histórico, a respeito destas comunidades cristãs de base, que hoje começam a
surgir depois de terem sido ponto-chave na Pastoral dos missionários que
implantaram a fé e a Igreja em nosso continente. Recomenda-se, também, que as
experiências que foram realizadas sejam divulgadas pelo CELAM e coordenadas na
medida do possível.
2.
Paróquias, vicariatos forâneos e zonas
a)
A visão que se expôs há de levar-nos a fazer da paróquia um conjunto pastoral
vivificador e unificador das comunidades de babe. Assim, a paróquia tem de
descentralizar sua Pastor a1 no tocante a lugares, funções e pessoas,
justamente para «reduzir à unidade todas as diversidades humanas que nela se
encontram e inseri-las na universidade da Igreja» (AA 10) .
b)
O pároco terá que ser, nesta configuração de paróquia, o sinal e o princípio
da unidade, assistido no ministério pastoral pela colaboração de
representantes leigos, religiosos e diáconos. Merecem menção especial os vigários
cooperadores, os quais, não obstante sob a autoridade do pároco, não podem mais
ser considerados meros executores de suas diretivas, mas como seus
colaboradores, pois pertencem ao mesmo e único Presbitério (PO 8) .
c)
Quando uma paróquia não pode ser normalmente atendida, ou contar com um pároco
residente, ela pode ser confiada aos cuidados de um diácono ou a um grupo de
religiosos ou religiosas, a exemplo do que já se fez em algumas regiões com
resultados muito positivos.
d)
A comunidade paroquial faz parte de uma unidade mais ampla: a do vicariato
forâneo ou decanato, cujo titular é chamado a «promover e dirigir a ação
pastoral comum no território a ele confiado» (ES 19,1). Se vários vicariatos
forâneos vizinhos forem suficientemente homogêneos e caracterizados em sua
problemática pastoral, convêm, formar com eles uma região, que poderia ficar
sob a responsabilidade de um vigário episcopal (ES 14,2) . 3. Dioceses
a)
O fato de ser presidida por um bispo, faz com que uma porção do Povo de Deus
«constitua uma Igreja particular, na qual se encontra e opera verdadeiramente a
Igreja de Cristo que é una, santa, católica e apostólica» (CD 11). O bispo é a
«testemunha de Cristo ante todos os homens» (ibid.), e sua tarefa essencial é
colocar seu povo em condições de testemunho evangélico de vida e ação. E isto,
sem prejuízo do apostolado que compete a todos os batizados em razão de sua
ação. Ele deve preocupar-se de forma especial que os movimentos apostólicos ambientais,
que ocupam um lugar tão importante na estrutura Pastoral diocesana, se integrem
harmonicamente na busca de ditas metas. Em uma palavra, o bispo tem a
responsabilidade da Pastoral de Conjunto enquanto tal, e todos, na diocese, hão
de coordenar sua ação nas metas e prioridades determinadas por ele.
b)
«Para assumir esta tarefa e responsabilidade, o bispo deve, porém, antes de
mais nada, contar com o Conselho Presbiteral, que deve ajudá-1o eficazmente
com seus conselhos no ministério e função de ensinar, santificar e apascentar o
Povo de Deus» (PO 7). É também muito desejável que o bispo possa contar com um
Conselho Pastoral, dotado de consistência e funcionamento (of. Dist. Paulo VI,
II As. Ger. Ep. Lar.-Am.) : a este Conselho, que representa o Povo de Deus na
diversidade de suas condições e estados de vida (sacerdotes, diáconos,
religiosos, religiosas e leigos) incumbe «estudar e ponderar o que diz
respeito às obras pastorais, de tal sorte que se promova a conformidade da vida
e ação do Povo de Deus com o Evangelho» (ES 16). Se o Conselho Presbiteral
deve ser o principal canal do diálogo do bispo com seus presbíteros, o
Conselho Pastoral deve sê-1o de seu diálogo com toda a sua diocese.
c)
A Cúria diocesana, como prolongação da pessoa mesma do bispo em todos os seus
aspectos e atividades, deve ter um caráter primordialmente pastoral (of. CD 27)
, e seria de desejar que tivesse representação dentro do Conselho Presbiteral.
Recomenda-se que os cargos da Cúria que possam ser exercidos por leigos, sejam
a eles confiados.
d)
De transcendental importância é a figura dos vigários do bispo. A função dos
chamados «Vigários Epis- . copais» e o caráter eminentemente pastoral de seu
papel, delineado pelo Concílio (of. CD 27) , dispensam maiores comentários;
todavia, é oportuno sublinhar que não se pode continuar considerando o Vigário
Episcopal como um mero administrador da diocese. Sendo o «altar ego» do bispo,
há de ser um pastor. Na medida mesma em que se multiplicam os Vigários
Episcopais especializados (of. ES 14,2), é indispensável que o vigário geral
seja um homem penetrado de toda a amplitude da missão episcopal.
e)
«Os bispos, em virtude da sagração sacramental e pela comunhão hierárquica com
o chefe e os membros do Colégio, são constituídos membros do corpo episcopal”
(CD 4) . Por conseguinte, devem «manter-se sempre unidos entre si e mostrar-se
solícitos com todas as Igrejas, já que por instituição divina e por imperativo
do ofício apostólico, cada qual, juntamente com os outros bispos, é responsável
pela missão apostólica da Igreja (ibid., 6). O cumprimento deste dever reflete
em benefício da própria diocese, pois assim a comunhão eclesial dos fiéis se
abre às dimensões da catolicidade.
4.
Conferências episcopais
a)
A Conferência Episcopal deve constituir em cada país ou região a expressão
concreta do espírito de colegialidade que deve animar cada bispo. Deve
fortalecer sua estrutura interna, precisando as respectivas responsabilidades
mediante comissões formadas por bispos competentes, com assessores
especializados. É recomendável a utilização de uma dinâmica de grupo e uma
técnica de organização operantes, com ampla utilização dos meios de comunicação
social e de opinião pública.
b)
Sua atividade deve desenvolver-se dentro de uma autêntica Pastoral de conjunto
e com planos pastorais que corresponda sempre à realidade humana e às necessidades
religiosas do Povo de Deus. Deve também ser elemento de integração entre as
diversas dioceses e, em especial, fator de equilíbrio na distribuição de pessoal
e dos meios (of. CD 6; ES 2; Paulo VI, Exort. Apost., 24-1165). Ela deve
procurar, também, uma autêntica integração de todo o pessoal apostólico que se
oferece ao país, vindo do
158
exterior,
em particular mediante o diálogo com os organismos episcopais que o oferecem.
c)
As Conferências Episcopais devem assumir decididamente todas as atribuições,
reconhecidas ou concedidas pelo Concílio, nos campos de sua competência e de
acordo com seu conhecimento concreto da realidade imediata.
d)
As Conferências Episcopais devem procurar ouvir a voz dos respectivos
Presbíteros e do laicato do país e que chegue até elas fielmente. Por essa
razão, devem ter uma mais estreita e operante integração com a Confederação dos
Superiores Maiores religiosos, incorporado-os no estudo, elaboração e execução
da Pastoral.
e)
Para que a ação seja mais eficaz, faz-se necessário aplicar o que disse o
Concílio: 00 bem das almas pede a devida circunscrição não apenas das dioceses,
como das províncias eclesiásticas, de forma que se provisionem as necessidades
de apostolado de acordo com as circunstâncias sociais e locais» (CD 39). É
conveniente pensar nas conveniências das prelazias pessoais (of. PO 10; ES 4)
para maior atenção a certos grupos étnicos dispersos em várias circunscrições
eclesiásticas e em situações variadas, incluindo aqui as situações migratórias.
f)
As Conferências Nacionais devem ser os órgãos de aplicação dos resultados das
Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano.
g)
Para viver profundamente o espírito católico, as Conferências Episcopais
estarão em contato não apenas com o Pontífice Romano e os organismos da Santa
Sé, como também com as igrejas de outros continentes, tanto para a mútua
edificação das igrejas, como para a promoção da justiça e da paz no mundo.
5.
Organismos continentais
a)
Em nível continental, o espírito de colegialidade dos bispos latino-americanos,
na solução de problemas comuns, expressa-se na Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano e no CELAM, se bem que de diferentes maneiras (of. Paulo VI,
Exort. Apost. 24-1165) . Guardada a integridade do CELAM como organismo de
índole continental, nada impede que, para uma maior coordenação dos trabalhos
pastorais, se agrupem vários países que vivem problemas e situações similares.
b)
O CELAM, como órgão de contato, colaboração e serviço, é uma indispensável
ajuda para a reflexão e ação de toda a Igreja latino-americana (of. Exort. Apost. 24-11-65, n. 27) .
c)
Para que este organismo tenha uma melhor solidez e funcionalidade, é urgente
uma maior correspondência entre os departamentos do CELAM, e as respectivas
Comissões das Conferências Episcopais Nacionais, por meio das frentes de
trabalho.
d)
O CELAM, nesta fase, deve preocupar-se muito na reflexão integral e numa
continuada e enriquecedora comunhão de experiências no campo pastoral. Entre as
matérias cujo estudo seria oportuno que abordasse, atualmente deveriam figurar
as comunidades de base.
e)
O CELAM deve aumentar suas relações com os organismos latino-americanos e
mundiais para um melhor serviço ao continente.
B)
Outras exigências da pastoral de conjunto
l.
Renovação pessoal
1.
A Pastoral de Conjunto, levando em conta o momento atual da Igreja na América
Latina, além da já mencionada reforma de estruturas, exige: a) uma renovação
pessoal, e b) uma ação pastoral devidamente planificada de acordo com o
processo de desenvolvimento da América Latina.
2.
Planificação pastoral
2.
A renovação pessoal implica um processo de contínua mentalização ou
ajornamento, de dois pontos de vista:
a)
teológico-pastoral, fundamentado nos documentos conciliares e na teologia
vigente; e
b)
pedagógico, proveniente de um contínuo diálogo apoiado na dinâmica de grupo e
na revisão da ação levada a efeito pelas equipes de pastoral, tendendo a criar
um autêntico sentido comunitário, sem o qual é totalmente impossível uma
genuína Pastoral de Conjunto.
Esta
renovação pessoal deve alcançar todas as esferas do Povo de Deus, criando nos
bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, movimentos e associações, uma só consciência
eclesial.
3.
Exigências pastorais
3.
Uma ação pastoral planificada exige:
a)
Estudo da realidade local, com a colaboração técnica de organismos e pessoas
especializadas.
b)
Reflexão teológica sobre a realidade.
c)
Levantamento e ordenação dos elementos humanos disponíveis e dos materiais de
trabalho; o pessoal especializado deve-se preparar nos diversos institutos nacionais
ou latino-americanos.
d)
Determinação das prioridades de ação.
e)
Elaboração do plano pastoral. Para tal, devem ser seguidos os princípios
técnicos e sérios de uma autêntica planificação, dentro de uma integração em
planos de nível superior.
f)
Avaliação periódica das realizações.
16.
MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
l.
Descrição da realidade
1.1.
A Comunicação Social é hoje uma das principais dimensões da humanidade. Ela
inaugurou uma nova época e produz um
impacto que aumenta na medida em que
avançam os satélites, a eletrônica e a ciência em geral.
Os
Meios de Comunicação Social (MOS) abrangem
a pessoa na sua totalidade. Plasmam o homem e a sociedade e tomam cada
vez mais seu tempo livre. Forjam uma
nova cultura, produto da civilização audiovisual que, se por um lado tende a massificar o homem, por
outro favorece sua gersonalização. Esta nova cultura, pela primeira vez, se põe
ao alcance de todos, alfabetizados ou
não, fato que não acontecia com a cultura tradicional, que favorecia apenas uma minoria.
1.1.1. De outra parte, aproximam homens e
povos, convertendo-os em próximos e
solidários, contribuindo desta forma
para o fenômeno da socialização (of. IM 59),
uma das conquistas da época moderna.
1.2. Na América Latina os MCS representam um
dos fatores que mais têm contribuído e
contribuem para despertar a consciência das grandes massas sobre suas condições
de vida, suscitando aspirações e exigências de transformações radicais. Ainda
que de forma incipiente, vêm atuando,
também, como agentes positivos de mudança através da educação de base,
programas de formação e opinião
pública etc.
1.2.1. Todavia, muitos destes meios estão
vinculados a grupos econômicos e
políticos, nacionais e estrangeiros,
interessados na preservação do «status quo» social.
1.3. A Igreja empreendeu uma série de
iniciativas neste campo. Se algumas não chegaram a preencher sua finalidade
pastoral, deveu-se acima de tudo à falta de uma visão clara do que representa a
comunicação social em si mesma e ao desconhecimento das condições que seu uso
impõe.
2.
Justificações
2.1.
A Igreja universal acolhe e incentiva os maravilhosos inventos da técnica,
sobretudo os que se referem ao espírito humano, e têm aberto novos caminhos à
comunicação entre os homens, como a imprensa, o cinema, rádio, televisão,
teatro, discos etc. (of. IM 1).
Também
na América Latina a Igreja recebe com prazer a ajuda providencial destes meios,
com a firme esperança de que contribuirão cada vez mais para a promoção humana
e cristã do continente.
2.2.
Os MCS são essenciais para sensibilizar a opinião pública no indispensável
processo de transformação da América Latina; são essenciais para apoiar esse
processo; essenciais para impulsionar os centros de poder que inspiram os
planos de desenvolvimento, a fim de orientá-los segundo as exigências do bem
comum; são essenciais para divulgar ditos planos e promover a participação
ativa de toda a sociedade em sua execução, especialmente nas classes
dirigentes.
2.3.
De igual maneira, os MCS se convertem em agentes ativos do processo de
transformação, quando se colocam ao serviço de uma autêntica educação
integral, apta para desenvolver o homem todo, capacitando-o a ser o artífice de
sua própria promoção; o que se aplica também à evangelização e ao crescimento
na fé.
2.3.1.
De outra parte, não se pode ignorar que o uso dos MCS ocupa cada vez mais o
tempo livre de todas as categorias de pessoas que buscam neles a distração.
Este uso lhes proporciona ao mesmo tempo informação, conhecimentos e
influências morais positivas e negativas.
2.4.
No mundo de hoje a Igreja não pode cumprir a missão que Cristo lhe confiou de
levar a Boa-nova «até os confins da terra», se não emprega os MCS, únicos
capazes de chegar efetivamente a todos os homens.
2.4.1.
A palavra é o vínculo normal da fé: «Fidas exauditu» (Rom 10,17) . Em nossos
tempos, «palavra» também compreende imagem, cores e sons, adquirindo formas
variadas através dos diversos MCS. Ademais, os MCS, assim compreendidos, são um
imperativo dos tempos presentes para que a Igreja realize sua missão
evangelizadora (Ml 28,26).
2.5.
Finalmente, a Comunicação Social é para a Igreja o meio de apresentar a este
continente uma imagem mais exata e fiel de si mesma, transmitindo ao grande
público não apenas notícias relativas aos acontecimentos da vida eclesial e
suas atividades, mas, sobretudo, interpretando os fatos à luz do pensamento
cristão.
2.6.
Por todas estas razões, é que o Decreto Inter Mirifica concita a todos os
filhos da Igreja para que utilizem os MCS eficazmente, sem a menor dilação e
com o máximo empenho. E «insiste com os sagrados pastores para que cumpram sua
missão neste campo, intimamente ligada ao seu dever ordinário de pregar» (of.
IM 3).
3.
Recomendações pastorais
3.1.
O influxo sempre crescente e esmagador que a comunicação social exerce em toda
a vida do homem moderno, leva a Igreja a estar presente neste campo, com uma pastoral
dinâmica que abarque todos os setores deste amplo mundo.
3.2.
Reconhecendo o direito de a Igreja possuir meios próprios, que em alguns casos
são necessários para ela, faz-se indispensável um requisito para justificar
essa possessão: não apenas contar com uma organização que garanta sua
eficácia profissional, econômica e administrativa, mas sobretudo que preste um
serviço real à comunidade.
3.3.
A inserção dos cristãos no mundo de hoje obriga a que estes trabalhem nos MCS
alheios à Igreja segundo o espírito de diálogo e serviço assinalado pela Constituição
Gandium et Spes. O profissional católico, chamado a ser fermento na massa,
cumprirá melhor sua missão se integrar nesses meios para ampliar os contatos entre
a Igreja e o mundo, e, ao mesmo tempo, contribuir na sua transformação.
3.4.
Dada a dimensão social destes meios e a escassez de pessoal habilitado para
neles atuar, urge suscitar e promover vocações no campo da comunicação social,
especialmente entre os leigos.
3.5. Este pessoal deve receber uma adequada
formação apostólica e profissional, de acordo com os diversos níveis e categorias de suas funções; a
formação deverá incluir tanto conhecimentos teológicos, como sociológicos e
antropológicos que exigem as realidades do continente.
3.6. O trabalho de formação, no que se refere
aos usuários da comunicação social, se estenderá às pessoas de todas as
condições sociais, e de modo particular aos jovens, para que conheçam,
valorizem e apreciem esses meios fundamentais pelos quais se expressa o mundo
contemporâneo, desenvolvendo seu sentido crítico e sua capacidade de tomar
responsavelmente suas próprias decisões.
É conveniente, pois, que esta capacitarão
comece desde os níveis inferiores do ensino e também esteja incluída na catequese (of. IM 16).
3.7. Em virtude do caráter de ministros da
«Palavra» e de educadores do Povo de Deus, é igualmente necessário que se
ofereçam aos bispos, sacerdotes e religiosos de ambos os sexos, cursos que os intruam no significado da comunicação social e no conhecimento das
condições que regem sua utilização.
Esta formação deve ser matéria de
estudo sistemático nos seminários e casas de formação religiosa (cf. IM 15).
3.7.1.
Devido à importância que a Igreja concede aos
MCS, pedimos aos superiores eclesiásticos que facilitem a capacitarão e dedicação de sacerdotes,
religiosos e religiosas à tarefa específica da formação, assessoria e
inspiração das obras apostólicas, relacionadas com este campo.
3.8. Aos estudiosos e intelectuais,
especialmente às seções especializadas das universidades e institutos de
MCS, pedimos que aprofundem o estudo do
fenômeno da comunicação social em seus diversos aspectos - entre os quais, a Teologia da Comunicação - a fim de
especificar cada vez mais as dimensões
desta nova cultura e suas projeções futuras. De igual maneira, solicitamos que
promovam e utilizem todo tipo de
investigações que ensine a melhor
adaptar os MCS à uma mais efetiva promoção das distintas comunidades.
3.9.
O material adaptado às variadas culturas locais (p. ex.: artigos de imprensa,
emissões radiofônicas e televisivas etc.) deve ser orientado para a promoção
dos valores autóctones e que possam ser recebidos adequadamente pelos
destinatários.
3.10.
Para os objetivos específicos da Igreja é necessário que, entre outras coisas,
se criem e fortaleçam em cada país da América Latina, Escritórios Nacionais de
Imprensa, Cinema, Rádio e Televisão, com a autonomia que requer seu trabalho e
com a eficiente coordenação entre os mesmos.
3.11.
Estes Escritórios devem manter uma estreita relação com os organismos
continentais : ULARC, UNDAAL e SAL-OCIC. Da mesma forma, ditos organismos devem
prestar toda sua colaboração ao Departamento de Comunicação Social do CELAM,
para estruturar planos de nível latino-americano e promover sua execução.
3.12.
É indispensável favorecer o diálogo sincero e eficaz entre a hierarquia e todos
aqueles que trabalham nos MCS. Este diálogo também deve ser mantido com os que
atuam nas estruturas próprias da Igreja com o propósito de estimulá-los e
orientá-los pastora1mente.
3.13.
Esta atitude de abertura vem de encontro à necessária liberdade de expressão,
indispensável dentro da Igreja, conforme o espírito da Gantium et Spes, 92: «A
Igreja... consolida um diálogo sincero, o qual, em primeiro lugar, requer que
se promova no seio da Igreja uma mútua estima, respeito e concórdia.
Reconhecendo todas as legítimas diversidades para abrir com fecundidade sempre
crescente, o diálogo entre todos os que integram o único Povo de Deus, tanto os
pastores como os demais fiéis. Os laços de união entre os fiéis são muito mais
fortes que os motivos de divisão entre eles. Haja unidade no necessário,
liberdade no duvidoso e caridade em tudo».
3.14.
A Assembléia lembra aos Episcopados Nacionais a disposição do Decreto Inter
Mirifica, que em seu n. 18, oferece uma oportunidade excepcional para ensinar
aos fiéis a transcendência da mesma na vida do homem e da sociedade.
3.15.
As observações e orientações pastorais que mencionamos, põem em relevo a importância
que hoje ocupam os MCS; sem eles não se poderá obter a promoção do homem
latino-americano e as necessárias transformações do continente. Assim, de todo
o exposto, se infere não apenas sua utilidade e conveniência, mas sobretudo a
necessidade absoluta de empregá-los, em todos os níveis e em todas as formas,
na ação pastoral da Igreja, para conseguir os fins a que esta Assembléia se
propôs.
Fonte:
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB
Home Page: http://www.cnbb.org.br
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