Maria
- Educadora do
Filho
de Deus
L'Osservatore Romano, Ed. Port. n.49, 07/12/1996, pag.
12(568)
1. Embora tenha ocorrido por obra
do Espírito Santo e de uma Mãe Virgem, a geração de Jesus, como a de todos os
homens, conheceu as fases da concepção, da gestação e do parto. Além disso, a
maternidade de Maria não se limitou apenas ao processo biológico do gerar, mas,
como ocorre para qualquer outra mãe, deu também uma contribuição essencial para
o crescimento e o desenvolvimento do filho. Mãe é não só a mulher que dá à luz
um filho, mas aquela que o cria e o educa; antes, podemos dizer que a tarefa
educativa é, segundo o plano divino, o prolongamento natural da procriação.
Maria é Theotokos não só porque gerou e deu à luz o Filho de Deus, mas também
porque O acompanhou no seu crescimento humano.
2. Poder-se-ia pensar que Jesus,
possuindo em Si a plenitude da divindade, não tenha tido necessidade de
educadores. Mas o mistério da Encarnação revela-nos que o Filho de Deus veio ao
mundo numa condição humana em tudo semelhante à nossa, exceto no pecado (cf.
Heb. 4, 15). Como acontece para cada ser humano, o crescimento de Jesus, da
infância até à idade adulta (cf. Lc. 2, 40), precisou da ação educativa dos
pais. O Evangelho de Lucas, particularmente atento ao período da infância, narra
que Jesus em Nazaré era submisso a José e a Maria (cf. Lc. 2, 51). Essa
dependência mostra-nos Jesus na disposição a receber, aberto à obra educativa
de sua mãe e de José, que exerciam a sua tarefa também em virtude da docilidade
por Ele constantemente manifestada.
3. Os dons especiais, de que Deus
tinha colmado Maria, tornavam-na particularmente idônea a desempenhar a tarefa
de mãe e educadora. Nas circunstâncias concretas de todos os dias, Jesus podia
encontrar nela um modelo a seguir e a imitar, e um exemplo de amor perfeito
para com Deus e os irmãos. Ao lado da presença materna de Maria, Jesus
podia contar com a figura paterna de José, homem justo (cf. Mt 1, 19) que
assegurava o necessário equilíbrio da ação educativa. Exercendo a função de pai,
José cooperou com a sua esposa para tornar a casa de Nazaré um ambiente
favorável ao crescimento e à maturação pessoal do Salvador da humanidade.
Iniciando-O depois no duro trabalho de carpinteiro, José permitiu a Jesus
inserir-se no mundo do trabalho e na vida social.
4. Os poucos elementos que o
Evangelho oferece, não nos consentem conhecer e avaliar completamente as
modalidades da ação pedagógica de Maria para com o seu Filho divino. Sem
dúvida, foi ela, juntamente com José, que introduziu Jesus nos ritos e prescrições
de Moisés, na oração ao Deus da aliança mediante o uso dos Salmos, na história
do povo de Israel centrada no êxodo do Egito. Dela e de José Jesus aprendeu a
freqüentar a sinagoga e a realizar a peregrinação anual a Jerusalém, por
ocasião da Páscoa. Olhando para os resultados, podemos sem dúvida deduzir que a
obra educativa de Maria foi muito incisiva e profunda, e encontrou na
psicologia humana de Jesus um terreno muito fértil.
5. A tarefa educativa de Maria,
dirigida para um filho tão singular, apresenta algumas características
particulares em relação ao papel das outras Mães. Ela garantiu apenas as
condições favoráveis para que se pudessem realizar os dinamismos e os valores
essenciais de um crescimento, já presentes no Filho. Por exemplo, a ausência em
Jesus de qualquer forma de pecado exigia de Maria uma orientação sempre
positiva, com a exclusão de intervenções corretivas para com Ele. Além disso,
se foi a Mãe que introduziu Jesus na cultura e nas tradições do povo de Israel,
será Ele, desde o episódio do encontro no Templo, a revelar a plena consciência
de ser o Filho de Deus, enviado para irradiar a verdade no mundo, seguindo
exclusivamente a vontade do Pai. De "mestra" do seu filho, Maria
torna-se assim a humilde discípula do divino Mestre por ela gerado. Permanece a
grandeza da tarefa da Virgem Mãe: desde a infância até à idade adulta, ela
ajudou o Filho Jesus a crescer "em sabedoria, em estatura e em graça"
(Lc. 2, 52) e a formar-se para a Sua missão. Maria e José emergem por isso como
modelos de todos os educadores. Eles sustêm-nos nas grandes dificuldades que
hoje encontra a família e mostram-lhes o caminho para chegar a uma formação
incisiva e eficaz dos filhos. A sua experiência educadora constitui um ponto de
referência seguro para os pais cristãos, chamados, em condições cada vez mais
complexas e difíceis, a pôr-se ao serviço do desenvolvimento integral da pessoa
dos seus filhos, para que vivam uma existência digna do homem e correspondente
ao projeto de Deus.
L'Osservatore Romano, Ed. Port.
n.49, 07/12/1996, pag. 12(568)
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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