O Islamismo e a Igreja
D. ESTEVÃO BETTENCOURT
Enquanto no Ocidente o
Cristianismo se propagava sempre mais, no Oriente e no Norte da África sofreu
sérias restrições por parte do Islamismo fundado no século VII
A pessoa de Maomé
Maomé (Muhammad´ibn´Abdallag´ibn´Mottalib)
nasceu em Meca (Arábia Central) provavelmente em 580. Faleceu com pouco mais de
50 anos, em 632. Desde adolescente, viajava com seu tio comerciante em
caravanas pela Arábia, a Assíria e a Mesopotâmia, o que lhe proporcionou o
contato com judeus e cristãos.
Por volta de 610/11,
Maomé efetuou sua ´conversão´. Profundamente impressionado pela desunião dos
homens entre si, tornava´se cada vez mais meditativo: entregava´se a severas
práticas de mortificação e retirava´se para a montanha a fim de rezar a sós.
Certa vez, na ´Noite do Destino´, terá tido uma visão: em sonho, estranho
personagem lhe apareceu trazendo nas mãos um rolo de pano coberto de sinais e
mandando´lhe que lesse; após relutar contra essa ordem no sonho, Maomé acordou,
consciente de que finalmente um livro descera em seu coração. Percebia uma voz
que lhe falava em nome de Deus, atribuindo´lhe a missão de reformar as crenças,
pôr termo à idolatria e às disputas religiosas do seu povo, indicando a todos o
caminho do céu. Muito perturbado, contou o ocorrido a sua esposa Kadija, que
foi consultar um primo seu, Varaka, homem sensato e culto, que exclamou: ´Deus
o escolhe para ser profeta de nova fé!´ Após repetidas visões, ignorando quem
era o personagem que lhe aparecia, Maomé julgava´se perseguido por espíritos e
pensava em suicidar´se, quando, certa vez, a estranha voz lhe declarou: ´Sou o
anjo Gabriel e tu serás o apóstolo do Senhor´.
Doravante o ´Iluminado´
pôs´se a pregar nova forma de religião: o ´Islam´ ou, em árabe, a Submissão,
Dedicação à Vontade de Deus. Maomé apoiava´se na fé em um só Deus, Allah,
criticando os cultos pagãos, predizendo iminente catástrofe e apresentando
reivindicações sociais em favor dos pobres. Tais proposições só fizeram irritar
a aristocracia de Meca, de sorte que Maomé granjeou para si adversários cada
vez mais hostis, temerosos pela sorte de seus ídolos e de suas rendas
comerciais. Resolveu então transferir´se para a cidade de Medina na noite de
16/07/622. Tal acontecimento tomou o nome de Hidjra ou Hegira, Fuga, e assinala
o início da era maometana.
Em Medina Maomé, apoiado
pela população local, revelou dotes de hábil chefe político. Visando a unir
numa só população coesa seus compatriotas árabes, começou a estender o seu
domínio por meio de expedições de ataque a caravanas comerciais. Os sucessos
obtidos iam´lhe assegurando crescente número de adeptos, até que finalmente em
629 Maomé conseguiu entrar em Meca e tomou posse do famoso santuário desta
cidade dito ´a Caaba´, donde removeu os ídolos. Nos anos seguintes, foi
dilatando o seu poder mediante guerras. Finalmente, aos 08/06/632, veio a
morrer. A sua obra estava suficientemente adiantada para despertar a
consciência religiosa e nacional dos árabes e lançá´los, coesos, à conquista de
numerosas nações estrangeiras mediante a prática da ´guerra santa´.
As proposições do Islam
As fontes doutrinárias do
Islam são o código sagrado do Corão (em Árabe, recitação, declamação, pois o
texto devia ser recitado no culto) e a tradição oral dita Sunna.
O Islam é monoteísta, ou
seja, reconhece um só Deus Criador, A diferença do politeísmo, que professa
muitos deuses, e do panteísmo, que identifica tudo com a Divindade. Acontece,
porém, que o monoteísmo do Islam não é originário da Arábia mesma, mas derivado
do monoteísmo judaico´cristão. Maomé nunca se apresentou como o fundador de uma
religião nova, e, sim, como o novo profeta de tradições mais antigas; a
teologia que ele ensinou, deriva´se de três blocos religiosos anteriormente
existentes:
1) a antiga religião
Árabe, de índole politeísta. Cultuava pedras ´divinas´, consideradas como
mansões de seres superiores, cujas graças os homens procuravam atrair a si. Um
resquício deste culto é a veneração da ´Pedra Negra´, situada na Caaba em Meca;
2) a religião israelita,
professada por judeus residentes na Arábia, onde se entregavam ao comércio e à
agricultura. Foi desse patrimônio judaico que Maomé derivou as grandes linhas
de sua orientação religiosa: existe um só Deus, que se foi revelando aos
profetas da humanidade: Adão, Abraão, Moisés, Jesus Cristo, e consumou a sua
revelação por meio de Maomé, o maior de todos os profetas. A inserção de Maomé
na linha do judaísmo explica o uso da Bíblia no ensinamento islamítico assim
como certos costumes muçulmanos (as purificações legais, a observância do
talião, a poligamia ...). Maomé, porém, não se identificou com o pensamento
bíblico, porque via em Jesus Cristo não o Filho de Deus feito homem, mas um
profeta eminente (coisa que os judeus não aceitavam);
3) a religião dos
cristãos: Maomé a conheceu principalmente em suas viagens. Tais cristãos eram
geralmente nestorianos e monofisitas. (ver capítulo 9), que lhe apresentaram um
Cristianismo debilitado; nunca chegou a ler os Evangelhos.
Sem se comprometer nem
com o judaísmo nem com o Cristianismo, Maomé se definiu como continuador da
religião de Abraão e de seu filho imediato Ismael, personagens muito mais
antigos do que Moisés e Cristo na história sagrada (na verdade o povo árabe é
descendente de Ismael, filho de Abraão e Agar). Para justificar sua
independência religiosa, Maomé atribuiu a judeus e cristãos ´o grande erro de
terem falsificado os livros sagrados e o monoteísmo de Abraão e Ismael´.
A Moral maometana
prescreve cinco grandes deveres, tidos como ´pilastras da Religião´:
1) professar a fé
(praticamente o maior pecado para os muçulmanos é a apostasia da fé ou a adesão
à idolatria e ao paganismo);
2) orar cinco vezes por
dia (ao alvorecer, ao meio´dia, pelas 3/4 horas da tarde, ao pôr do sol, no
primeiro quarto da noite), cumprindo´se, de cada vez, as abluções rituais
prescritas;
3) jejuar durante o mês
inteiro de Ramadã, desde o nascer até o pôr do sol diariamente;
4) dar esmola aos
pobres,(o que compreende também a obrigação de dar hospedagem momentânea seja a
quem for e a qualquer hora);
5) Peregrinar a Meca uma
vez na vida.
O Corão autoriza todo
homem a ter quatro esposas legítimas e tantas concubinas escravas quantas seus
recursos financeiros lhe permitam. O conceito de guerra santa é central no
Islamismo e foi responsável pela rápida propagação árabe nos séculos VII e
VIII; morrer em batalha armada torna o maometano ´mártir´, ou seja, herói
religioso; de resto, a noção de ´predestinação´, que inevitavelmente assinala a
cada indivíduo a hora da sua morte, muito concorreu para precipitar
destemidamente os discípulos de Maomé na aventura de fazer a guerra.
A expansão do Islamismo
1. Depois da morte de
Maomé, os sucessores (califas = lugar´tenentes) chefiaram expedições conquistadoras
e predatórias a países vizinhos e distantes da Arábia. Esse avanço arrebatou ao
Império bizantino uma bela porção de seus territórios e ameaçou seriamente a
própria cultura helenística.
Também o Cristianismo foi
altamente prejudicado pela expansão maometana. Os califas Abu Bekr (632´4) e
Omar (634´44) conquistaram a Palestina, a Síria, o Egito e a Pérsia. Assim os
Patriarcados de Antioquia (637), Jerusalém (638) e Alexandria (642) ficaram sob
a dominação árabe. Tornou´se instável a condição dos cristãos residentes
naquelas regiões, especialmente caras à fé por serem o berço do Cristianismo;
tal situação explicará o surto das Cruzadas na Idade Média. A expansão árabe
foi facilitada pelo fato de que os cristãos estavam divididos entre si nos territórios
invadidos: os litígios cristológicos, em particular os monofisitas, jogavam
população e governo imperial um contra o outro. Em conseqüência, os monofisitas
egípcios chegaram a saudar com alegria as tropas árabes invasoras, pois estas
lhes levavam a emancipação frente a Bizâncio!
O Califa Othmam (644´56)
mandou invadir também a Armênia, Chipre e o Norte da África (especialmente
Cartago). Cartago, grande centro cristão, caiu em 698; as tropas muçulmanas
foram avançando para o Ocidente, atravessaram a Espanha de Sul a Norte e
chegaram até Poitiers na França.
Constantinopla sofreu
intenso cerco nos anos de 717´18, mas resistiu às pressões bélicas. Finalmente
os muçulmanos estabeleceram a sua capital ou a sede do seu Império no califado
de Bagdad (750´1258).
Os maometanos não
sufocavam o Cristianismo nos territórios ocupados, embora lhe fizessem
restrições. Apenas na Arábia os cristãos e os judeus foram obrigados a emigrar.
Como quer que seja, o Cristianismo sofreu graves perdas em conseqüência da expansão
islâmica; o Norte da África, que era uma região de vida cristã intensa e
férvida, foi aos poucos perdendo o seu cunho evangélico; isto, em parte, se
explica pela debilitação que as longas controvérsias teológicas acarretaram,
como dito atrás.
Os muçulmanos não
deixaram de procurar ganhar adeptos entre os cristãos; favoreciam as conversões
ao Islam e ocasionalmente praticavam pressões e proselitismo. Entre as medidas
proselitistas podem´se citar: isenção de impostos para os apóstatas,
emancipação dos escravos que se convertessem, e dos servos da gleba sujeitos a
senhores cristãos. Muito ao contrário, quem se passasse do lslamismo para o
Cristianismo, era passível de morte; em conseqüência, tornava´se difícil e
estéril o trabalho dos missionários da lgreja. Compreende´se que, em tais
circunstâncias, tenha havido numerosas deserções da fé cristã, sem
possibilidade de se preencherem as lacunas abertas nos quadros da Igreja.
O desaparecimento do
Cristianismo implicava decadência cultural e até retorno à barbárie. Tal foi o
caso, certamente, do Norte´ocidental da África. Em 1055 contavam´se aí cinco
sedes diocesanas, já quase sem importância; a última delas, Cartago,
extinguiu´se por completo em 1160 aproximadamente.
O ideal da teocracia até
hoje é muito vivo entre os muçulmanos; preconizam um império terrestre regido
pelo poder religioso; tenha´se em vista o que ocorre atualmente no Irã e no
Paquistão. Este império terrestre, para defender´se ou expandir´se, conta com
cidadãos belicosos, pois a bem´aventurança celeste é prometida não propriamente
aos pacíficos, mas àqueles que morrem na guerra santa. Em tais condições
torna´se instável a sobrevivência e, mais ainda, a expansão missionária dos
cristãos.
2. As leis religiosas e
morais do Islamismo têm em mira principalmente os pecados públicos (mais
suscetíveis de definição legal). O lslamismo reconhece quase exclusivamente o
foro externo (ou o comportamento visível da pessoa). Os ditames da consciência
ou o foro interno são menos levados em conta na avaliação da conduta humana.
Ora precisamente este traço do Islamismo provocou no decorrer dos tempos uma
reação ou o surto e o cultivo da vida mística em ambientes islâmicos; assim a
Mística veio a ser inseparável da religião da lei em muitas correntes maometanas.
Entre os dizeres mesmos do Profeta não faltam os que inculcam a religião
interior ou o predomínio dos bens do espírito sobre os da carne. Maomé chegou a
falar de purificação da alma, apresentou a vida presente como ´água que passa e
erva que fenece´ (Sur. X 25; XIII 18); afirmou a prevalência da devoção
interior sobre os sacrifícios rituais (Sur. XXII 28). Assim o Corão mesmo era
capaz de inspirar não somente uma religião formalista, mas também uma piedade
muito intensa e profunda. Foi o que se deu nos círculos árabes que entraram em
contato com sistemas religiosos dos povos vizinhos, em particular com o
Cristianismo; criou´se assim uma autêntica mística muçulmana, da qual dois
grandes expoentes são Al´Hallaj († 922) e Al´Ghazali († 1111)
Especialmente a corrente
sufita dedicou´se ao cultivo da vida interior. A palavra árabe que corresponde
a Mística é tasawwuf, derivada do termo suf, lã. Significa originariamente
´vestir´se de lã´; a roupa de lã era o traje que os antigos ascetas ou monges
usavam. Designava, aos olhos do público, a vida retirada do mundo que o asceta
levava. Quem se veste assim, no Islamismo, é chamado sufi. Deste vocábulo se
deriva sufismo, o designativo da Mística islâmica.
A partir do século XII
foram´se formando comunidades de sufitas ou derviches21, que seguiam os
ensinamentos dos grandes mestres; observavam Regras de vida cenobítica
assemelhando´se às Congregações religiosas do Catolicismo. Cada comunidade
constava de um grupo relativamente pequeno de sufitas, que no convento viviam
de esmolas, e de um grupo maior de leigos, que permaneciam no mundo, mas se
reuniam oportunamente para cumprir certas práticas religiosas sob a direção de
seus mestres. Algumas destas comunidades subsistem até hoje.
Nos século XIII/XIV
fizeram´se sentir no sufismo influências do Extremo´Oriente, principalmente do
hinduísmo; caracterizaram´se em práticas como posições corporais e a repetição
amiudada do santo nome de Deus. O panteísmo assim se introduziu em vários
círculos da mística islâmica, acarretando certa degenerescência da mesma.
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
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