A Infabilidade da Igreja e do Papa
Para levar os homens à salvação, pelo ´conhecimento
da verdade´ (1 Tm 3,15), o Senhor garantiu a Igreja – por meio do sagrado
Magistério ´ a infalibilidade naquilo, e só naquilo, que se refere à salvação
dos fiéis; isto é, nos ensinamentos doutrinários (fé e moral). Assim, a
mensagem do Evangelho não ficaria à mercê da manipulação dos homens, como
sempre se tentou na história da Igreja.
Sem a garantia da infalibilidade para o Magistério
da Igreja, podemos dizer que teria sido inútil a Revelação Divina, pois ela
seria deteriorada ao chegar até nós, e não teria a força da salvação.
O Papa João Paulo II ao apresentar o novo Catecismo
disse : ´Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor confiou à Sua Igreja
e que ela cumpre em todos os tempos´ (FD, introdução). Esta é portanto ´a
missão´ sagrada que a Igreja recebeu do Senhor: ´guardar o depósito da fé´,
intacto; e isto a Igreja sempre fez e faz. É com esta finalidade que a Santa Sé
possui a ´Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé ´, encarregada de zelar
pela pureza da doutrina em todo o mundo católico. A Igreja tem a missão de
fazer ´resplandecer a verdade do Evangelho´, disse o Papa João Paulo II; e
ainda: ´Ao Concílio, o Papa João XXIII tinha confiado como tarefa principal
guardar e apresentar melhor o precioso depósito da doutrina cristã ...´ (FD,
Introdução).
A grande preocupação da Igreja sempre foi ser fiel
ao seu Senhor, guardando intacto aquilo que dEle recebeu, o ´depositum fidei´
(depósito da fé), ou, como dizia São Paulo a Timóteo e a Tito, a ´sã doutrina´
(1Tm 4,6; 2Tm 1,14; 4,3; Tt 1,9; 2,7). Podemos notar que nas Cartas pastorais
que São Paulo escreveu a S. Timóteo e a S. Tito, a quem ordenou bispos, a
grande preocupação do Apóstolo é com a doutrina, para que essa não se
corrompesse com o passar do tempo e com a transmissão oral ou escrita. Veja
essas passagens: ´Torno a lembrar´te a recomendação que te dei... para impedir
que certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes...´(1Tm1,3).
´Recomenda esta doutrina aos irmãos, e serás bom ministro de Jesus Cristo,
alimentando com as palavras da fé e da sã doutrina...(1Tm4,6). ´Quem ensina de
outra forma... é um obcecado pelo orgulho, um ignorante...(1Tm6,3´4). ´O’
Timóteo, guarda o bem que te foi confiado!´(1Tm6,20). ´Guarda o precioso
depósito!´ (2Tm1,14). ´Porque virá tempo que os homens já não suportarão a sã
doutrina da salvação´ (2Tm4,3). A S. Tito, vemos as mesmas recomendações de S.
Paulo. Falando das qualidades que deve ter o bispo, ele diz: ´...firmemente
apegado à doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a sã
doutrina e rebater os que a contradizem´(Tt 1,9).
´O teu ensinamento, porém, seja conforme a sã
doutrina...(Tt 2,1). ´...mostra´te em tudo modelo de bom comportamento: pela
integridade da doutrina,...´(Tt 2,7).
´Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com
constância e firmeza...(Tt 3,8).
Na sua grande preocupação com a ´sã doutrina´, S.
Paulo diz aos gálatas, com toda severidade: ´Não há dois evangelhos: há pessoas
que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas,
ainda que alguém ´ nós, ou um anjo baixado do céu ´ vos anunciasse um evangelho
diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema [maldito]. Repito
aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que
recebestes, seja ele excomungado!´(Gal 1,7´10).
Ao longo da sua história a Igreja realizou 21
Concílios Ecumênicos (universais) para manter intacta essa ´sã doutrina´. Foram
muitas vezes momentos difíceis para a Igreja, porque, por não aceitar a verdade
muitos irmãos se separaram da unidade católica; mas foram momentos de luzes
para a caminhada da Igreja. Falando desses Concílios, disse o Papa João Paulo
II: ´Os grandes Concílios foram momentos de graça para a vida da Igreja
universal ... Eles representam um ponto de referência indiscutível para a
Igreja universal´. ´Esses foram momentos de graça, através dos quais o Espírito
de Deus concedeu luzes abundantes sobre os mistérios fundamentais da fé cristã´
(LR, nº 28, 13/7/96). É sobretudo nos Concílios que a Igreja exerce a sua
infalibilidade em matéria de fé e de moral. Não se conhece na história da
Igreja (de 2000 anos!) uma verdade da fé que um dos Concílios, legítimos, tenha
ensinado e que outro tenha revogado. Essa ocorrência doutrinária é uma prova da
infalibilidade, já que o Espírito Santo, o grande Mestre da Igreja, não se
contradiz. Ele não pode revelar à Igreja uma verdade hoje, que seja diferente,
na essência, daquilo que Ele revelou ontem. Um dia Jesus disse aos Apóstolos :
´Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e
tudo o que desligardes sobre a terra será desligado no céu´ (Mt 18,18). Essa
mesma grande promessa que Ele já tinha feito a Pedro, como Cabeça visível da
Igreja (cf. Mt 16,18), estende para todo o Colégio Apostólico unido e submisso
a Pedro. E ainda mais, Jesus disse aos Apóstolos: ´Quem vos ouve, a Mim ouve, e
quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me
enviou´ (Lc 10,16). Depois dessa promessa, como não entender a infalibilidade
da Igreja? Jesus garante que a palavra da Igreja é a Sua palavra. Quem rejeita
o ensinamento dos Apóstolos, rejeita o próprio Senhor e o Pai que o enviou.
Isto é muitíssimo sério. Rejeitar o que ensina a Igreja é rejeitar o que Jesus
ensina, é rejeitar o que o Pai ensina; é rejeitar Jesus e o Pai. Antes de
voltar ao Céu, na Ascensão, Jesus disse aos Apóstolos (à Igreja):
´Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.
Ide, pois, e ensinai a todas as nações ... Ensinai´as a observar tudo o que vos
prescrevi´ (Mt 28, 19´20). Jesus envia a Igreja, que nascia com os Apóstolos, a
´ensinar a todas as nações´ a Sua doutrina. Sabemos que Deus sempre dá a graça
necessária para se poder cumprir uma missão que Ele ordena. A graça, neste
caso, foi a assistência do Espírito Santo para que a Igreja ensinasse sem erro.
Antes de subir ao céu o Senhor garantiu:
´Eis que estarei convosco todos os dias até o fim
do mundo´ (Mt 28,20).
Esta é a última frase do Evangelho de S. Mateus, e
ela nos garante que o próprio Senhor está no seio da sua Igreja, através do
Espírito Santo, prometido e enviado em Pentecostes, para impedi´la de errar em
matéria fundamental para a salvação dos homens. Para aceitar que a Igreja,
nesses 2000 anos possa ter errado o ´caminho da salvação´, e desvirtuado o
Evangelho, como querem os protestantes, seria preciso aceitar antes, que Jesus
a abandonou, e não cumpriu a Promessa de estar sempre com a Igreja até o fim do
mundo. Mas isto jamais; Jesus é fiel e ama a sua Igreja como Esposa, com amor
indissolúvel, pela qual deu a Sua vida. ´Cristo amou a Igreja e se entregou por
ela´ (Ef 5,25). Como então, admitir que a Igreja errou o caminho da salvação
como quiseram os protagonistas da Reforma Protestante? É muito importante notar
o que São Paulo disse a S. Timóteo: ´Deus quer que todos se salvem, e cheguem
ao conhecimento da verdade´ (1 Tm 2,4). Para o Apóstolo, chegar à salvação é o
mesmo que ´chegar ao conhecimento da verdade´. É essa verdade (a sã doutrina),
que Jesus confiou aos Apóstolos, e lhes incumbiu de ensinar a todas as nações,
que leva à salvação. Em seguida S. Paulo vai dizer ao seu discípulo fiel que:
´A Igreja do Deus vivo é a coluna e o sustentáculo da verdade´ (1 Tm 3,15).
Dizer que a Igreja é a ´coluna e o sustentáculo da verdade´, é o mesmo que
dizer que sem ela a verdade não fica de pé, não se sustenta. É o mesmo que
dizer que a Igreja é infalível, através do seu Magistério. Sem ela a doutrina
de Jesus não teria chegado intacta até nós. Como disse Teilhard de Chardin:
´Sem a Igreja, o Cristo se evapora, se esfacela ou se anula´. Jesus insistiu
sobre a importância da Verdade. Disse a Pilatos, que Ele veio ao mundo ´para dar
testemunho da verdade´ (Jo 18,37). Aos judeus que nele creram ele disse:
´Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus
verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará´ (Jo
8,32).
Aos discípulos Ele afirmou: ´Eu sou a Verdade´ (Jo
14,6). Na oração sacerdotal Ele pede ao Pai: ´Santifica´os na verdade´ (Jo
17,17). São Paulo alerta os tessalonicenses que aqueles que se perderem diante
das tribulações que a Igreja terá que atravessar antes da volta do Senhor, será
´por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar´(2Tes
2,10). ´Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito
à verdade, mas consentiram no mal´ (2 Tes 2,12). São Paulo deixa claro aqui que
se perderão aqueles que diante das falsas doutrinas, preferirem os ensinamentos
dos homens à verdade de Deus, ensinada pela Igreja. ´Não deram crédito à
verdade´. É preciso relembrar aqui, mais uma vez o que disse o Apóstolo: ´A
Igreja do Deus vivo é a coluna e o sustentáculo da verdade´(1Tm3,15).
Não existe portanto ninguém, e nenhuma outra
instituição, fora da Igreja católica, que detenha a verdade infalível, em
matéria de fé e de moral. Todas essas passagens mostram a importância da
verdade, a qual vivida, liberta do mal e salva. É essa verdade que Jesus
garantiu à Igreja ensinar sem erro até o fim do mundo. E o nosso Catecismo, com
todas as letras, confirma isso: ´Deus quer a salvação pelo conhecimento da
verdade. A salvação está na verdade. Os que obedecerem à moção do Espírito de
verdade já estão no caminho da salvação; mas a Igreja, a quem esta verdade foi
confiada, deve ir ao encontro do seu anseio levando´lhes a mesma verdade´ (CIC,
851). Na última vez que Jesus esteve com os seus Apóstolos, na última Ceia, na
hora do adeus, antes de sofrer a sua paixão, garantiu´lhes a infalibilidade
para conhecer e ensinar a verdade que salva. Desde o capítulo 13 até o 17 São
João narra no seu Evangelho tudo o que aconteceu naquela Ceia memorável onde o
Senhor instituiu o Sacerdócio e a Eucaristia. Esses cinco capítulos (13 a 17)
revestem´se de uma importância especial, já que são as últimas palavras e
recomendações de Jesus à Igreja. É fácil compreender a sublimidade desta hora.
Pois bem, nesta noite sagrada o Senhor lhes garantiu a infalibilidade por três
vezes, segundo narra São João, testemunha ocular daqueles acontecimentos. Jesus
começa dizendo aos Apóstolos:
´Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro
Advogado, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da verdade, que o
mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conhecereis,
porque permanecerá convosco e estará em vós´ (Jo 14,16´17). Que garantia maior
de infalibilidade Jesus poderia ter dado à Sua Igreja, do que deixando nela o
seu próprio Espírito, que Ele chama de Espírito da Verdade? Se Ele permanecerá
com a Igreja, como ela poderia errar em matérias essenciais a salvação? É
preciso notar que Jesus disse que o Espírito Santo seria dado ´para que fique
eternamente convosco´. E garantiu ainda que Ele ficaria com a Igreja e estaria
na Igreja. ´Permanecerá convosco e estará em vós´. Para aceitarmos que a Igreja
tenha errado o caminho da verdade, como quiseram Lutero e seus seguidores,
depois de 1517 anos, seria preciso antes concordar que o Espírito Santo, ´o
Espírito da Verdade´, tenha abandonado a Igreja. Mas isto jamais poderia ter
acontecido, pois Ele foi dado para ficar ´eternamente convosco´ (Jo 14, 16´17).
As promessas de Jesus para a Sua Igreja são infalíveis, porque Jesus não é um
farsante e nem um mentiroso. Naquela hora memorável que antecedia a Sua paixão,
Ele não estava brincando com os seus Apóstolos e com a Sua Igreja. Ele se
despedia dela com as suas últimas e mais importantes promessas, para em seguida
sofrer, por amor a ela, a sua dolorosa paixão. Naquela mesma noite memorável
Jesus diz mais uma vez aos Apóstolos: ´Disse´vos estas coisas enquanto estou
convosco. Mas o Advogado, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome,
ensinar´vos´á TODAS as coisas, e vos recordará TUDO o que vos tenho dito´ (Jo
14,25´26).
Que garantia maior de infabilidade Jesus poderia
ter dado à Igreja do que essa Promessa de que o Espírito Santo ´ensinar´vos´à
todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito´? Como, então, a
Igreja poderia se enganar? Para aceitar a Reforma Protestante, que negou
´quinze séculos´ de caminhada da Igreja, guiada dia a dia pelo Espírito Santo,
seria preciso aceitar antes, que Jesus enganou a Sua Igreja, mentiu para ela e
não cumpriu a promessa de assistí´la sempre com a Verdade. Mas isto nunca!
Jesus é o Esposo da Igreja; Ele deu a sua vida por ela (Ef 5,25), e jamais a
abandonou nem a abandonará até o fim dos tempos. ´Eis que estou convosco todos
os dias até o fim do mundo!´ (Mt 28,18). A Reforma protestante negou os dogmas,
os sacramentos, a Igreja como instituição divina, a Sagrada Tradição, o Sagrado
Magistério, a Sagrada Hierarquia, as sagradas devoções católicas, enfim, toda a
Tradição apostólica (de quinze séculos !), testemunhada pelo sangue dos
Mártires e dos Confessores e confirmada pelos Papas. Será que os Apóstolos se
enganaram? Será que os mártires, testemunhas de Cristo com o próprio sangue, se
enganaram? Será que os Santos Padres nos mentiram? Será que os santos doutores
erraram o caminho da fé?... Aí está a garantia de tudo que a Igreja ensina e
que o Espírito Santo, o Seu Mestre, lhe ensinou nestes 20 séculos: os dogmas do
Credo, as verdades sobre a Virgem Maria, os Sacramentos, a Moral católica, etc.
Repito mais uma vez, com toda a convicção: negar que os ensinamentos do Magistério
da Igreja são verdadeiros, é o mesmo que negar as promessas de Jesus aos
Apóstolos na última Ceia.
Enfim, pela terceira vez, naquela Ceia
inesquecível, o Senhor afirma mais uma vez à sua Igreja, de maneira mais forte
ainda: ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos, mas não as podeis suportar
agora. Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade, ensinar´vos´á TODA a
verdade...´(Jo 16,12). Que promessa maravilhosa de Jesus para a Igreja! ´O
Espírito da Verdade ensinar´vos´á TODA a verdade´. Naquela hora Jesus sabia que
os Apóstolos já não tinham mais condições psicológicas para aprenderem novos
ensinamentos. ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos´. Isso mostra claro que
Jesus não ensinou tudo para os Apóstolos, mas deixou o Espírito Santo para
conduzi´los a toda a verdade. Com o passar dos anos e dos séculos, com muita
oração, meditação, Concílios e provações, o Espírito Santo foi guiando, e vai
guiando hoje, a Igreja, a descobrir, lentamente, ´toda a verdade´. Não apenas
uma parte da verdade, mas ´TODA a verdade´.
São Vicente de Lerins (†450), afirmava:
´É necessário que cresçam e vigorosamente progridam
a compreensão, a ciência e a sabedoria da parte de cada um e de todos, seja de
um só homem como de toda a Igreja, à medida que passam as idades e os séculos´
(Communitorium). Vemos assim que, de maneira muito marcante, na última noite,
na hora solene do Adeus, Jesus garantiu à Igreja a assistência infalível do
´Espírito da Verdade´ para conduzi´la sempre à verdade que liberta e salva. ´Eu
rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Advogado, para que fique eternamente
convosco´( Jo 14,16). O grande Santo Ireneu (†202), que combateu com zelo as
heresias do seu tempo, nos assegura: ´É realmente verdadeira e firme a pregação
da Igreja, onde aparece a única via de salvação em todo o mundo. Com efeito à
Igreja foi confiada a luz de Deus, e portanto a ´sabedoria´ de Deus, pela qual
Ele salva os homens.... Por toda a parte a Igreja anuncia a verdade: ela é o
candelabro de sete luzes ( Ap 2,1) que transporta a luz de Cristo...convém
refugiar´se na Igreja e ser educado em seu grêmio, nutrido com as santas
Escrituras do Senhor. Pois a Igreja está plantada neste mundo como o Paraíso.´
( Contra as Heresias, liv. V, cap. 20).
Podemos garantir, em Nome do Espírito Santo, que o
Catecismo da Igreja, os documentos dos Concílios, os ensinamentos dos Papas,
são a mais pura verdade de Deus. É por isso que o Apóstolo garante: ´A Igreja é
a coluna e o sustentáculo da verdade´ (1Tm 3,15). O bom católico, o católico
fiel e convicto, não pode duvidar de nada que a Santa Igreja Católica ensina.
São maus filhos da Igreja aqueles que discordam dos seus ensinamentos oficiais.
Discordar da Igreja nesses pontos é o mesmo que discordar de Jesus e desconfiar
da assistência infalível que o Espírito Santo presta à Igreja, por promessa de
Jesus. Longe, muito longe de nós esta terrível tentação. Quando a Igreja nos
ensina qualquer verdade de fé ou de Moral, é porque ela estudou muito a fundo a
questão, orou muito sobre isto, perscrutou o que o Espírito Santo lhe tinha a
dizer, antes de nos ensinar. As verdades reveladas, muitas vezes
incompreensíveis para quem não estudou teologia, não devem ser para nós motivo
de discordância ou de desconfiança, por se tratarem de dogmas. Pelo contrário,
todo e qualquer ensinamento do Magistério da Igreja deve ser recebido com
gratidão e alegria, e imediatamente colocado em prática, como algo vindo a nós
do próprio Jesus. É lamentável que muitos católicos se deixem abalar quando
pessoas de outras religiões neguem as verdades de nossa fé, solidamente
consolidadas. Eis aí uma questão que nos deve fazer estudar e aprofundar a
nossa fé. São Pedro já dizia aos cristãos do seu tempo: ´Estai preparados para
apresentar aos outros a razão da vossa esperança´ (1Pe3,15).
Gostaria de insistir neste ponto: mesmo que eu não
compreenda bem aquilo que a Igreja nos ensina, devo acatar de imediato, e
buscar compreender o que significa o que nos foi ensinado. Certa vez o Cardeal
Ratzinguer, Prefeito da Sagrada Congregação da Fé, disse que ´os dogmas de
nossa fé não são cadeias, ao contrário, são janelas que se abrem para o
infinito´. É lamentável que vez ou outra surja um teólogo moderno (talvez mais
moderno do que verdadeiramente teólogo!), ousando desafiar a perenidade do
dogma ou contestando a sua verdade. É preciso compreender que infalibilidade
não quer dizer impecabilidade. Sabemos que há pecados entre os membros da
Igreja, contra a sua vontade, mas isto não impede que ela seja infalível quando
conduz os seus filhos no caminho da verdade que salva. Mediante o Espírito
Santo, enviado por Jesus à Igreja, de maneira permanente, Ele garante ao Papa
não cometer erros de doutrina, quando ensina ´ex´cátedra´, isto é, em caráter
decisivo e definitivo, alguma matéria de fé ou moral. Assim explica o
Catecismo: ´Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos apóstolos,
Cristo quis conferir à sua Igreja uma participação na sua própria
infalibilidade, ele que é a Verdade. Pelo ´sentido sobrenatural da fé´, o Povo
de Deus se atém ´indefectivelmente à fé´ sobre a guia do Magistério vivo da
Igreja.´ (LG, 12; DV,10; CIC 889´892) ´Goza desta infalibilidade o Pontífice
Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força do seu cargo quando, na
qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis, e encarregado de
confirmar seus irmãos na fé, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que
concerne à fé e aos costumes... A infalibilidade prometida à Igreja reside
também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união
com o sucessor de Pedro, sobretudo em Concílio Ecumênico. ´
´Quando, pelo seu Magistério supremo, a Igreja
propõe alguma coisa a crer como sendo revelada por Deus, e como ensinamento de
Cristo, é preciso aderir na obediência da fé a tais definições. Esta
infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina´
(LG,25). A infalibilidade não se estende aos assuntos científicos: física,
química, matemática, astronomia, etc. Somente nos assuntos de fé e de moral,
propostos aos fiéis como obrigatórios, é a que Igreja goza da assistência
infalível do Espírito Santo. Exemplos disso são os dogmas proclamados pelos
Papas ou por algum Concílio. Por exemplo, em 1854, o Papa Pio IX proclamou o
dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora; em 1950, o Papa Pio XII
proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de corpo e de alma; em
22/05/94, o Papa João Paulo II pronunciou em caráter definitivo e irrevogável,
através da Carta Apostólica ´Ordinatio Sacerdotalis´, a proibição de ordenação
sacerdotal de mulheres. A infalibilidade do Papa foi definida no Concílio
Vaticano I, em 1870, embora a Igreja, desde os seus primórdios já acreditasse
nisso:
´Aderindo fielmente à tradição recebida desde o
princípio da fé cristã..., declaramos e definimos, como dogma de fé divinamente
revelado, que o Pontífice Romano, quando fala ´ex´cáthedra´, isto é quando, no
desempenho do seu múnus de pastor e doutor de todos os cristãos, define, com a
sua suprema autoridade Apostólica, doutrina respeitante à fé e à moral, que
deva ser crida pela Igreja universal, pois possui, em virtude da assistência
divina, que lhe foi prometida na pessoa do Bem´aventurado Pedro, a
infalibilidade de que o Divino Redentor revestiu a sua Igreja, ao definir
doutrina atinente à fé e à moral; e que, portanto, as definições do Romano
Pontífice são irrefragáveis por si mesmas, e não em virtude do consenso da
Igreja´( De Ecclesia Christi, c.IV).
O Concílio Vaticano II, quase 100 anos depois,
reafirmou este mesmo dogma, dizendo que: ´O Romano pontífice, cabeça do Colégio
Episcopal, goza desta infalibilidade em virtude do seu ofício, quando define
uma doutrina de fé ou de costumes, como Supremo Pastor e Doutor de todos os
cristãos, confirmando na fé os irmãos (cf Lc 22,32). Por isso, as suas
definições são irreformáveis só por si, sem necessidade do consentimento da
Igreja, uma vez que são pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo,
prometida ao Papa na pessoa de Pedro; não precisam da aprovação de ninguém, nem
admitem qualquer apelo a outro juízo. É que nestes casos, o Romano Pontífice
não dá uma opinião como qualquer pessoa privada, mas propõe ou defende a
doutrina da fé como Mestre Supremo da Igreja Universal, dotado pessoalmente do
carisma da infalibilidade que pertence à própria Igreja (LG 25).
É preciso ter em mente que uma definição papal
nunca é uma decisão rápida, pouco pensada, ou que dispense longos anos de
estudo e oração. Essas definições são a conclusão de um processo lento, durante
o qual uma verdade contida no depósito da Revelação vai se tornando ´visível´ à
hierarquia e ao povo de Deus. É apenas a proclamação explícita de uma verdade
que ainda não era conhecida mas que já pertencia ao depósito da fé. O que leva
algumas vezes o Magistério da Igreja a fazer a proclamação de uma verdade de fé,
é o surgimento de alguma heresia ou contestação a essa verdade já aceita pela
Igreja. Portanto, as definições ´ex´cathedra´, pronunciadas pelo Papa, são
raras. O Magistério ordinário da Igreja, exercido pelos bispos quando ensinam
em comunhão com o Papa é o caminho normal pelo qual a Igreja nos ensina. Não é
necessário que uma verdade seja solenemente definida pelo sucessor de Pedro,
para que pertença ao depósito da fé; basta que esta verdade tenha sido sempre e
em toda parte professada pelos cristãos. São Vicente de Lerins (†450), dizia
que: ´O que todos em toda parte e sempre acreditaram, isso é verdadeira e
propriamente católico´ (Communitorium). Três condições são necessárias para que
uma definição do Papa tenha caráter de dogma, sentença infalível: 1. É
necessário que ele fale ´ex´cathedra´, isto é, de maneira decisiva, como Pastor
e Mestre dos cristãos, e não apenas de modo particular. Ele não é obrigado a
consultar algum Concílio e ninguém, embora possa fazê´lo, e quase sempre o faz.
2. A matéria a ser definida se refira apenas à fé e
à moral; isto é, se relacione com a crença e o comportamento dos cristãos. 3.
Que o Sumo Pontífice queira proferir uma sentença definitória e definitiva,
irrevogável, imutável, sobre o assunto em questão. Somente a sentença final é
objeto da infalibilidade, e não os argumentos e as conclusões derivadas da
sentença proclamada. E não há uma fórmula única de redação para a definição
dogmática. Os termos normalmente usados pelos Papas são: ´pronunciamos´,
´definimos´, ´decretamos´, ´declaramos´, etc. Em 8/12/1854, ao proclamar o
dogma da Imaculada Conceição de Maria, o Papa Pio IX, na Bula ´Inefabilis Deus´
disse: ´Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual,
por uma graça e um privilégio especial de Deus Todo Poderoso e em virtude dos
méritos de Jesus Cristo, salvador do mundo, a bem´aventurada Virgem Maria foi
preservada de toda mancha do pecado original no primeiro instante de sua
Conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser crida firmemente
e constantemente por todos os fiéis´. Note que o Papa afirma que essa verdade
´foi revelada por Deus´; isto é, sempre esteve no depósito da fé, embora não
apareça de maneira explícita na Bíblia.
Na proclamação do dogma da Assunção de Maria ao céu,
o Papa Pio XII na Constituição Apostólica ´Munificientíssimus Deus´, no dia
1/11/1950:
´Depois de haver mais uma vez elevado a Deus nossas
súplicas e invocado as luzes do Espírito Santo ... pronunciamos, declaramos e
definimos ser dogma de fé revelado por Deus que: a Imaculada Mãe de Deus,
sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrena, foi elevada à
glória celeste em corpo e alma´. Também aqui o Papa repete a expressão ´foi
revelado por Deus´. Alguém poderia perguntar como foi revelado por Deus, se
isto não está explicitamente na Bíblia? Pode não estar na Revelação da Palavra
de Deus escrita, mas está na Revelação oral como nos mostra a vida da Igreja.
Aqueles que rejeitaram a Tradição oral não conseguem entender isto. Ao longo da
História da Igreja, o sagrado Magistério, guiado pelo Espírito Santo, conforme
esta solene promessa de Jesus, foi identificando os pontos imutáveis da
doutrina. Assim explica o nosso Catecismo: ´O Magistério da Igreja empenha
plenamente a autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é,
quando, utilizando uma fórmula que obriga o povo cristão a uma adesão
irrevogável de fé, propõe verdades contidas na Revelação divina ou verdades que
com elas têm uma conexão necessária. Há uma conexão orgânica entre a nossa vida
espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho da nossa fé, que
iluminam e tornam seguro. Se a nossa vida for reta, nossa inteligência e nosso
coração estarão abertos para acolher a luz dos dogmas da fé (Jo 8, 31´32)´ (CIC
n.88).
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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