Igreja
Católica – Apostólica – Romana
Suas origens e atribuições
A Igreja Nasce
D. Estevão Bettencourt. Osb
O ambiente
Diz São
Paulo que Cristo nasceu "na plenitude dos tempos"(Gl 4,4; Ef 1,10).
Isto significa que a humanidade foi preparada pelo Senhor Deus para receber o
Salvador. A fim de esboçar os termos dessa preparação, distinguiremos o mundo
greco-romano e o mundo judeu.
O mundo
greco-romano
O Império
Romano, que se estendia desde a Síria até a Espanha e do rio Nilo ao rio
Danúbio, criou uma vasta organização política. Nesta desapareceram as barreiras
que dividiram povos outrora inimigos entre si: a mesma língua grega, o mesmo
sistema jurídico e administrativo suscitavam certa unidade nas condições de
vida desses povos. O comércio intenso por mar e por terra tornava possível o
intercâmbio de bens materiais e de idéias. O Imperador Otávio Augusto (30 a.C.
- 14 d.C.), pode-se dizer, instaurou a paz (Pax Romana) e a normalidade dentro
das suas fronteiras. Tais características, por certo, haveriam de facilitar a
propagação do Evangelho: os Apóstolos e discípulos de Cristo se beneficiaram
grandemente das estradas, dos meios de comunicação e da cultura do Império para
difundir a Boa-Nova; São Paulo recorreu, mais de uma vez, aos seus direitos de
cidadão romano no exercício de sua missão apostólica (ver At 16,35-39; 22,25-29;
25,10-12). Em conseqüência, podia o cristão Orígenes de Alexandria escrever por
volta de 248: "Deus preparou os povos e fez que o Império Romano dominasse
o mundo inteiro... porque a existência de muitos reinos teria sido um obstáculo
à propagação da doutrina de Deus sobre a terra"(Contra Celso II 30).
Todavia no
plano da filosofia e da Moral, registrava-se decadência. O pensamento grego
chegou ao seu auge com Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.).
Depois foi declinando até o ceticismo de Pirro, o cinismo de Diógenes e o
ecleticismo. A razão deste declínio foi a frustração que a Filosofia acarretou
para os seus cultores: Platão e Aristóteles conceberam um deus que era
"amado" pelos homens, mas não retribuía o amor precisamente por ser
Deus ou ser perfeito; após Aristóteles, a confiança do homem na razão para
descobrir as respostas aos seus anseios foi-se esvaindo. Substituindo o
intelectualismo, a partir do século I a.C., apareceram as chamadas
"religiões de mistérios", que apelavam não para o raciocínio, mas
para a pureza de coração e a mística como vias de encontro com a Divindade; não
o acume intelectual do homem provocaria a descoberta da Divindade, mas esta é
que se revelaria a quem se lhe abrisse mediante um processo de iniciação ascética
e ritual; essas religiões falavam de culpa, expiação, renascimento,
imortalidade, vida feliz no além-túmulo...; seus sacerdotes praticavam a
direção espiritual e a instrução dos devotos para que chegassem à salvação.
Sem dúvida,
as religiões de mistérios suscitavam nos seus devotos uma atitude muito
propícia para receber o Messias Jesus e sua graça; excitavam no homem a
consciência (aliás, já despertada pela própria experiência dos séculos
anteriores) de que a criatura não pode, por si só, chegar até Deus, mas precisa
de que Este lhe venha ao encontro gratuitamente. Esta noção é básica na
mensagem do Evangelho. - Deve-se conhecer também que a própria Filosofia grega,
embora nas suas linhas gerais não tenha podido satisfazer às aspirações
fundamentais do homem, forneceu todavia aos pensadores cristãos um valioso
instrumento para ilustrar as verdades da fé cristã; o platonismo com sua sede
do Transcendental e Invisível foi muito valorizado pela tradição teológica
grega e latina até a Idade Média ou até S. Boaventura († 1274); o
aristotelismo, que nos primeiros séculos pareceu racionalista a muitos mestres
cristãos, foi na Idade Média assumido por S. Tomás de Aquino († 1274), entrando
assim na Escolástica medieval e moderna; o estoicismo, representado principalmente
por Sêneca († 65 d.C.), Epicteto († 138 d.C.) e o Imperador Marco Aurélio (†
180 d.C.), influiu na formulação da Ética cristã; esta encontrava ecos
antecipados em certos princípios ascéticos do estoicismo, na aceitação da lei
natural, no reconhecimento de que todos os homens são iguais e devem ser
solidários entre si; a proximidade de normas do estoicismo e do Cristianismo
deu ocasião a que um cristão anônimo escrevesse em latim uma correspondência
epistolar apócrifa entre Sêneca e São Paulo (há oito cartas atribuídas a
Sêneca, pretensamente convertido ao Cristianismo, e seis cartas ditas do
Apóstolo, que abordam a "conversão" de Sêneca e a missão deste
filósofo como pregador do Evangelho na corte imperial).
Em suma,
alguns autores cristãos dos séculos II e III quiseram ver na cultura grega a
preparação do Evangelho; assim, por exemplo, Clemente de Alexandria († 214)
chamava a filosofia "um dom que Deus concedeu aos gregos"(Stromata I
2,20); dizia outrossim: "A filosofia educou o mundo grego como a Lei de
Moisés educou os hebreus (Gl 3,24), orientando-os para Cristo" (Stromata I
5,28).
O mundo
judaico
Entre os
demais povos da terra nos tempos anteriores a Cristo, distinguia-se o povo
judaico por seu monoteísmo ou pelo culto estrito de um só Deus.
Os estudiosos
têm procurado explicar o surto e a persistência do monoteísmo no povo de Israel
desde Abraão (século XIX a.C.); não encontram elucidação sociológica ou
psicológica para tal fenômeno, pois Israel era um povo militar e culturalmente
inferior aos seus vizinhos politeístas; tendia a adotar os deuses e os costumes
dos pagãos...; não obstante, à revelia de todas as influências politeístas,
Israel professou constantemente o monoteísmo , suplantando assim, no plano da
religião, os grandes reinos e impérios que o cercavam. Este fato só se entende
se Deus quis intervir na história, suscitando e conservando Ele mesmo o
monoteísmo em Israel (como,aliás, professa a Bíblia). Desta maneira a história
de Israel é um portento, que a Providência Divina quis realizar a fim de
preparar a vinda do Messias ou do Senhor Jesus. Este é o Prometido a Israel
desde os tempos de Abraão.
Nos séculos
anteriores próximos a Cristo, o povo israelita se achava em fase de declínio.
Após o apogeu de sua história sob Salomão († 932 a.C.), as tribos de Israel
conheceram duas deportações (721 e 587 a.C.); após esta última, viveram sempre
sob domínio estrangeiro. Nos tempos de Cristo estavam sob os romanos desde
Pompeu e a tomada de Jerusalém em 63 a.C.. A esperança de Israel se voltava para
o Messias prometido como Filho de Davi; todavia o ideal messiânico era assaz
desvirtuado pelo nacionalismo de Israel, que concebia um messianismo fortemente
político, apto a restaurar a potência e a grandeza temporal do povo de Deus
(ver Lc 24,21; At 1,6).
A facção
dos Fariseus predominava no país e inspirava ao povo uma observância
escrupulosa da Lei de Moisés e das respectivas tradições, ao mesmo tempo que
incutia forte espírito nacionalista; os fariseus "separavam-se" (tal
é o sentido do nome perushim) de tudo o que fosse estrangeiro ou impuro. - Ao
lado dos fariseus, havia os Saduceus, grupo de elite, que se voltava para a
cultura grega, seguindo orientação racionalista (negavam a ressurreição dos
mortos e os anjos, At 23,7s). - Fora das cidades encontravam-se em colônias
isoladas no deserto ( principalmente à margem ocidental do Mar Morto) os
Essênios, que esperavam a vinda do Messias para breve, observando celibato e
renúncia à propriedade particular; é possível que São João Batista e alguns dos
discípulos de Jesus tenham tido contato com os Essênios em Qumram (N.O. do Mar
Morto). O nascimento judaico chegava ao extremo nas correntes dos Zelotas
(zelosos de suas tradições pátrias e religiosas) e dos Sicários (dispostos a
empreender a guerrilha).
Nos tempos
do nascimento de Jesus, a Judéia era governada por Herodes o Grande (37-4
a.C.), estrangeiro idumeu, rei vassalo de Roma. No ano 6 d.C. a Judéia foi
incorporada à província romana da Síria, cuja administração competia a um
Procurador que residia em Cesaréia (Palestina).
Fora da sua
terra-mãe, os israelitas se achavam esparsos na Diáspora (= Dispersão). Com
efeito, após as deportações para a Assíria (em 721) e para Babilônia (em 587),
muitos permaneceram no estrangeiro, formando comunidades que não se misturavam
com outros povos e mantinham contato com Jerusalém mediante peregrinações
freqüentes. Especialmente no Egito constituiu-se próspera colônia judaica, com
sua sede principal em Alexandria; nesta cidade viveram grandes pensadores
judeus, dos quais o mais famoso é Filon ( † 40 d.C.), filósofo que procurou
fundir a Bíblia e a filosofia grega numa síntese harmoniosa. Embora se
mantivessem segregados, os judeus não deixaram de exercer influência sobre o
mundo pagão; o monoteísmo e Moral de Israel impressionavam os greco-romanos, de
modo que estes se aproximavam da religião judaica... uns como prosélitos, At
2,11 (aceitavam a circuncisão e a Lei de Moisés), outros como tementes a Deus,
At 10,2; 13,50; 16,14 (abraçavam o monoteísmo e apenas algumas práticas do
judaísmo como repouso do sábado, a distinção de alimentos, certas abluções
rituais...) Neste contexto de pagãos e judeus teve origem o Cristianismo.
Jesus e a
Igreja
Jesus
nasceu em Belém, cidade do rei Davi, como descendente de estirpe régia. A data
de seu nascimento foi calculada pelo monge Dionísio o Pequeno († 556), que se
enganou fixando-a no ano 753 (25 de dezembro) da fundação de Roma; para tanto,
baseou-se em Lc 3,1 e 3,23, que afirmam: "No décimo quinto ano do Império
de Tibério César...Jesus tinha aproximadamente trinta anos"; foi então
batizado e iniciou-se seu ministério público. Ora o 15º ano do Imperador
Tibério corresponde ao ano 782 da fundação de Roma; Dionísio entendeu que Jesus
tinha 29 anos completos quando começou a pregar; daí o cálculo 782-29 = 753.
Jesus então teria nascido em 25/12/753 da era de Roma; conseqüentemente, o ano
de 754 foi o primeiro da era cristã. Todavia este cálculo de Dionísio é falho,
pois atribuiu a Lc 3,23 um sentido errôneo; Lucas apenas queria dizer que Jesus
tinha a idade exigida pelos judeus para exercer uma função pública (= 30 anos).
Na verdade, Jesus nasceu antes de 753 de Roma, pois nasceu antes da morte de
Herodes (cf. Mt 2,1-22), que se deu em 4 a.C.; Jesus devia ter talvez dois anos
quando Herodes provocou a matança dos inocentes (cf. Mt 2,16), o que quer dizer
que nasceu em 6 ou 7 "antes de Cristo" (pois Herodes deve ter vivido
um pouco, depois do morticínio dos inocentes).
Após três
anos de vida pública (27-30, provavelmente), Jesus morreu e ressuscitou, como
havia predito. Tinha chamado doze seguidores imediatos ou Apóstolos, dos quais
Judas desertou (entrando em seu lugar Matias; ver At 1,21-26); Pedro foi
constituído chefe desse Colégio e da Igreja inteira (ver Mt 16, 16-19; Lc
22,31s; Jo 15, 15-17).
A
existência histórica de Jesus foi negada por autores como A. Kalthoff, P.
Jensen, A. Drews, P. L. Couchoud..., que quiseram equiparar Jesus a personagens
místicos do Oriente antigo. Tal tese, porém, não encontra ressonância mesmo nos
ambientes mais racionalistas, pois a realidade histórica de Jesus é atestada
por autores romanos e judeus, além dos cristãos (ver Curso de Iniciação
Teológica por Correspondência, módulo 3, onde são citados os textos de Tácio, †
116, Suetônio, † 120, e Plínio o Jovem, † 112; são outrossim transcritos
testemunhos do Talmud dos judeus e de Flávio José, historiador israelita, †
95).
A Igreja
teve sua origem plena em Pentecostes, quando o Espírito Santo se deu aos
Apóstolos reunidos com Maria em oração no Cenáculo de Jerusalém. Os Apóstolos,
pregando em diversas línguas sob a ação do Espírito, fizeram a primeira
proclamação de que se iniciava o Reino de Deus; daí resultou a conversão de
3.000 judeus (cf. At 2). A Igreja era movida pelo Espírito, de sorte que o
número de fiéis aumentava de dia para dia (cf. At 2,47); os Atos dos Apóstolos
atestam que levavam vida fraterna, com desapego de seus bens, como se fossem um
só coração e uma só alma (cf. At 4,32s). A princípio, os cristãos freqüentavam
o Templo de Jerusalém, participando da oração dos judeus e observando costumes
israelitas; nas casas particulares, porém, "partiam o pão", isto é,
celebravam a Eucaristia, como lhes mandara o Senhor. Não pareciam ser mais do
que um ramo dissidente do judaísmo oficial, o que lhes valeu perseguições da
parte das autoridades judaicas (cf. At 4, 1-31). Em breve, porém, se
evidenciaria a grande novidade trazida pelo Evangelho e assim formulada por São
Paulo: "Quando ainda éramos fracos, Cristo no tempo marcado morreu pelos
ímpios. Dificilmente alguém dá a vida por um justo; por um homem de bem talvez
haja alguém que se disponha a morrer. Mas Deus demonstra seu amor para conosco
pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores" (Rm
5, 6-8).
Igreja Católica
A palavra católico vem do
grego ´catholikón´, que quer dizer ´geral´, ´universal´, em sentido contrário a
´particular´. Desde a sua origem a Igreja fundada por Jesus, sobre Pedro e os
Apóstolos, é universal, católica. Foi este desejo do Senhor, quando enviou os
seus apóstolos a todos os povos: ´Ide, pois e ensinai a todas as nações...´ (Mt
28,19). ´Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura´ (Mc 16,16).
É Cristo quem quis, desde
a sua origem, que a Igreja fosse universal. Há dezoito anos Edir Macedo fundou
a ´igreja Universal do Reino de Deus´; como se ela já não existisse há 20
séculos! Nenhuma Instituição humana está presente em toda a face da terra como
a Igreja católica. Na maioria dos países ela está presente, com o representante
do Papa, o Núncio Apostólico, os Bispos, os sacerdotes, diáconos e fiéis. É a
única Instituição que fala todas as línguas dos homens, como Jesus quis.
A catolicidade da Igreja
tem vários aspectos:
1. Geográfico e
antropológico.
É o aspecto externo, e
que significa a abertura para todos os homens e mulheres de todos os tempos e
lugares da terra.
2. Pessoal, ontológico.
Significa que a Igreja é
a depositária de toda a Verdade revelada pela Bíblia (escrita), e pela Tradição
(oral); e recebeu de Cristo a ´plenitude dos meios da Salvação´, como enfatizou
o decreto do Concílio último sobre o Ecumenismo (UR, 3). Deus deu à sua Igreja
um caráter universal porque ´quer que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade´(2Tm 2,1´5). Essa verdade que salva foi confiada à Igreja
por Jesus, para ser levada a todos os homens. O Pai quis e quer o Cristo e a
Igreja como ´sacramento universal da salvação´. Cristo é o Salvador único de
todos os homens e a Igreja é o Seu Corpo prolongado na humanidade, para
salvá´la.
São Pedro disse aos
judeus:
´Em nenhum outro há
salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual
devemos ser salvos´ (At 4,12). ´Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a
plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por
intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz
a tudo quanto existe na terra e nos céus´ (Col 1,19´20).
Através da Igreja,
Cristo, Cabeça, leva a salvação a todos.
´Ele é a cabeça do corpo,
da Igreja´ (Col 1,17). ´E sujeitou a seus pés todas as coisas, e o constituiu
chefe supremo da Igreja, que é o seu corpo, o receptáculo daquele que enche
todas as coisas sob todos os aspectos´ (Ef 1,23). Sabemos que o desígnio de
Deus é ´recapitular todas as coisas em Cristo´ (Ef 1,10), restaurando e
reunindo tudo sob a sua autoridade, para reconduzir o mundo a Si. Para cumprir
esse desígnio a Igreja abraça todas as dimensões da pessoa humana: ciência,
técnica, trabalho, cultura, a fim de santificá´las, impregnando´as com o
Evangelho e com a vida de Cristo. Este é um outro aspecto da catolicidade da
Igreja, que as seitas não possuem, por não estarem abertas a todos os legítimos
valores humanos. Elas são fechadas sobre si mesmas e desprezam muitos desses
valores. A catolicidade (universalidade) da Igreja tem como conseqüências a
tarefa missionária e o ecumenismo. Cristo mandou que a Igreja pregasse o
Evangelho a todos os homens (Mt 28,18´20). Cada cristão é responsável por essa
missão que é da Igreja toda (LG nº 17; AG nº 23). A missão da Igreja é
transformar a humanidade toda ´em Povo de Deus, Corpo do Senhor e Templo do
Espírito Santo, para que em Cristo, Cabeça de todos, seja dada ao Pai e Criador
do universo toda a honra e toda a glória´ (LG, 17). Daí a necessidade do movimento
ecumênico; isto é, a busca da unidade de todos os cristãos, quebrada pelos
diversos cismas. Não quer dizer apenas uma união com as ´igrejas´ separadas, ou
formar com elas como se fosse uma ´Confederação de igrejas´, onde a Igreja
católica seria apenas uma entre muitas. Não. O movimento ecumênico não implica
em relativismo religioso e moral. As verdades reveladas por Cristo à Igreja são
intocáveis, e é em torno delas que se deve formar a unidade querida por Deus.
Na Carta Encíclica sobre o Ecumenismo, ´Ut Unum Sint´ (Que todos sejam um), de
25/5/95, o Papa João Paulo II afirma: ´...unidos na esteira dos mártires, os
crentes em Cristo não podem permanecer divididos. Se querem verdadeira e
eficazmente fazer frente à tendência do mundo a tornar vão o Mistério da
Redenção, os cristãos devem professar juntos a mesma verdade sobre a Cruz´
(UUS, 1). E o Papa faz um alerta importantíssimo sobre a necessidade dos
cristãos, unidos, testemunharem ao mundo a Cruz redentora de Cristo: ´A Cruz! A
corrente anti´cristã propõe´se dissipar o seu valor, esvaziá´la do seu
significado, negando que o homem possa encontrar nela as raízes da sua nova
vida e alegando que a Cruz não consegue nutrir perspectivas nem esperanças: o
homem ´ dizem ´ é um ser meramente terreno, que deve viver como se Deus não
existisse´ (nº 1). A união dos cristãos é portanto urgente e fundamental para o
testemunho de Cristo ao mundo; no entanto, não pode ser obtida ´a qualquer
preço´, sacrificando o essencial.
Sobre isso o Papa diz na
mesma Encíclica:
´Não se trata, neste
contexto, de modificar o depósito da fé, de mudar os significados dos dogmas,
de banir deles palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de uma
época, de eliminar certos artigos do Credo com o falso pretexto de que hoje já
não se compreendem. A unidade querida por Deus só se pode realizar na adesão
comum ao conteúdo integral da fé revelada. Em matéria de fé, a cedência está em
contradição com Deus, que é a Verdade. No Corpo de Cristo ´ ele que é ´Caminho,
Verdade e Vida´ (Jo 14,6), quem poderia considerar legítima uma reconciliação
levada a cabo à custa da verdade? A declaração conciliar sobre a liberdade
religiosa atribui à dignidade humana a procura da verdade, ‘sobretudo no que
diz respeito a Deus e à sua Igreja’ (DH,1), e a adesão às suas exigências.
Portanto um ´estar juntos´ que traísse a verdade, estaria em oposição com a
natureza de Deus, que oferece a sua comunhão, e com a exigência da verdade que
vive no mais profundo de todo o coração humano´ (nº 18). Essas palavras do Papa
falam por si mesmas sobre a necessidade de não se sacrificar nada do ´depositum
fidei´ na busca da necessária unidade. Aos nossos bispos do Nordeste que
estiveram com o Papa, em 5/9/95, no encerramento da visita ´ad limina
apostolorum´ (ao túmulo dos apóstolos), após repetir as palavras já citadas
acima, João Paulo II acrescentou: ´A inculturação do Evangelho não é uma
adaptação mais ou menos oportuna aos valores da cultura ambiente, mas uma
verdadeira encarnação nesta cultura para purificá´la e remi´la´ (L.R., nº 36,
9/9/95, pag.8 [420]). ´O mesmo vale no campo ecumênico. Com efeito, no campo da
inculturação como no do ecumenismo, nota´se uma certa facilidade com que a
busca do entendimento, do acolhimento ou da simpatia com outros grupos ou confissões
religiosas tem levado a sérias mutilações na expressão clara do mistério da fé
católica, na oração litúrgica, ou a concessões indevidas quanto às exigências
objetivas da moral católica. Ecumenismo não é irenismo (cf UR, 4 e 11). Não se
trata de buscar a unidade a qualquer preço´ ( UR,4 e 11) (idem). Referindo´se
ao diálogo com os irmãos separados, o Papa disse aos nossos bispos: ´Este
diálogo, que somente tem sentido se for uma busca sincera da verdade, poderá
nos pedir que deixemos de lado elementos secundários que poderiam constituir um
obstáculo de ordem psicológica para nossos irmãos de distintas denominações
religiosas. Mas nunca será verdadeiro, autêntico, se implicar na mais mínima
mutilação duma verdade da fé, no abandono da legítima expressão da piedade
tradicional do povo cristão ou no enfraquecimento das exigências de séculos da
disciplina eclesiástica ou das veneráveis tradições litúrgicas do Oriente, da
Igreja Romana e outras Igrejas do Ocidente´. Portanto, a inculturação e o
ecumenismo não podem ser realizados de qualquer jeito, a qualquer custo; a
verdade da fé não pode ser minimamente sacrificada. Ainda sobre isso o Papa
disse, após a sua última viagem à África: ´Fazer com que o Evangelho penetre
... no coração da cultura africana, valorizando´lhe tudo o que é positivo e
purificando aquilo que há de incompatível com a mensagem de Cristo´ (LR ´
30/9/95). Infelizmente têm havido muito ensaio infeliz de inculturação em
nossos dias, às vezes aprovados inadequadamente até por alguns padres e bispos.
Um exemplo disso é a ´missa afro´ que foi apresentada no ´Fantástico´, da rede
Globo, em 20/8/95, que de modo nenhum tinha aprovação do Papa, como foi dito.
Parecia muito mais festejos folclóricos do que uma verdadeira missa. Algumas
comunidades ´avançadas´ têm realizado Missas com instrumentos musicais, cantos,
gestos e símbolos do folclore popular, candomblé, umbanda e carnaval, com
danças, pipocas, imagem da ´escrava Anastácia´, que nunca existiu, como podemos
ver na televisão. É a falsa inculturação. A Constituição dogmática do Concílio
sobre a Litúrgia ensina que: ´A igreja não deseja impor na Liturgia uma forma
rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé ou ao bem de
toda a comunidade. Antes, cultiva e desenvolve os valores e os dotes de
espírito das várias nações e povos´. Em seguida acrescenta: ´O que quer que nos
costumes dos povos não esteja ligado indissoluvelmente a superstições e erros,
Ela o examina com benevolência e, se pode, o conserva intato. Até, por vezes,
admite´o na própria Liturgia, contanto que esteja de acordo com as normas do
verdadeiro e autêntico espírito litúrgico´. Este não é o caso da ´Missa Afro´.
Em 1981 a chamada ´Missa dos Quilombos´ foi proibida pela Santa Sé e a ´Sagrada
Congregação dos Ritos´, responsável pela Liturgia, proibiu qualquer missa,
dedicada às minorias, para não haver politização da fé e da liturgia. O
Vaticano nunca suspendeu essa proibição. Infelizmente no dia 15/11/95 essa
´Missa´ foi celebrada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, com um forte
sentido político e sindicalista, encabeçada pela Central Única dos
Trabalhadores (CUT) e, infelizmente, com a autorização da autoridade
eclesiástica local. De fato, o Papa tem presidido celebrações onde são usados
símbolos e gestos litúrgicos legítimos, que ajudam a levar a Deus, em oração e
adoração, mas não, como se tem visto, músicas, gestos, danças que provocam
irreverência liturgia, dispersão e escândalo entre o povo. Ainda sobre o
ecumenismo é preciso dizer que ele somente é realizado com as denominações
cristãs, não católicas, tradicionais, históricas, e não com as ´seitas´ e
´igrejas´ independentes que surgem às dezenas, em cada uma de nossas cidades.
Falando aos bispos do Brasil em Roma, o Papa se referiu a elas dizendo: ´Na
área latino´americana... deparamo´nos com o grave problema das seitas que se
expandem, como uma mancha de óleo, ameaçando fazer ruir a estrutura de fé de
tantas nações. Certamente a expansão das seitas constitui uma ameaça para a
Igreja Católica e para todas as comunidades eclesiais...´ (RM, 50). E o Papa
não teve dúvida em alertar os bispos, lembrando o documento de Santo Domingo
(nº 139´152), que há ´claros interesses políticos e econômicos envolvidos em
sua expansão em todo o Continente...´ Afirma o Papa: ´É notória a intenção, por
vezes virulenta, destas seitas de minar as bases da fé do povo, de modo
especial no que diz respeito ao culto do Mistério Eucarístico e da Santíssima
Virgem, à estrutura hierárquica da Igreja e ao primado de Pedro, que perdura no
pastoreio universal do Bispo de Roma, e às expressões da piedade popular´. (LR
nº 36, 9/9/95). Para enfrentar esse ´desafio das seitas´ o Papa convoca a
Igreja para uma ´Nova Evangelização´,´com novo ardor, novos métodos e nova
expressão´, indo ao encontro do povo. Disse o Papa aos bispos do Brasil: ´Isso
mostra, caríssimos irmãos, que não basta chamar, convocar e esperar que as
pessoas venham. Como diz outro lema da ação pastoral de uma das vossas
Dioceses, deveis ser ´uma Igreja que vai ao encontro Povo ´! Deveis ser uma
Igreja que procure as pessoas, que as convide não somente no chamado geral dos
meios de comunicação, mas no convite pessoal, de casa em casa, de rua em rua,
num trabalho permanente, respeitoso, mas presente em todos os lugares e
ambientes´ (LR nº 36,9/9/95). Essas palavras são um verdadeiro brado do Santo
Padre, é a trombeta que toca convocando toda a Igreja para a ´nova
evangelização´ em vista da chegada do terceiro milênio. Ninguém pode ficar de
fora desta luta e missão. Sem o último soldado leigo, o general comandante
desta batalha ´ João Paulo II, o Vigário de Cristo na terra ´ não poderá ganhar
essa guerra para Deus. A catolicidade da Igreja está presente em cada Igreja
particular, que é a diocese, com o seu Bispo ordenado na sucessão apostólica,
conforme reza o Código de Direito Canônico (cân. 368´369). É nas Igrejas
particulares e a partir delas que existe a Igreja católica una e única (LG,
23), pela comunhão com a Igreja de Roma que ´preside a caridade´, como dizia
Santo Inácio de Antioquia, já no século II. Santo Irineu, na mesma época,
dizia: ´Pois com essa Igreja [ a de Roma], em razão da sua origem mais
excelente, deve necessariamente concordar cada igreja; isto é, os fiéis de toda
parte´ ( Contra as heresias 3,3,2). O testemunho dos santos Padres é eloqüente,
em favor da Igreja de Roma. O grande são Máximo Confessor, bispo de Turim do
século IV, afirmava: ´Com efeito desde a descida a vós do Verbo Encarnado,
todas as Igrejas cristãs de toda parte consideraram e continuam considerando a
grande Igreja que está aqui [em Roma] como única base e fundamento, visto que,
segundo as próprias promessas do Salvador, as portas do inferno nunca
prevaleçam sobre ela´ (CIC, 834). É preciso entender que a Igreja não é o
somatório ou a federação das Igrejas particulares. Cada Igreja particular é
plenamente católica, por vocação e por missão; e a rica variedade de ritos
litúrgicos e de patrimônios teológicos e espirituais de cada uma, como disse o
último Concílio ´mostra mais luminosamente a catolicidade da Igreja indivisa,
pela sua convergência na unidade´ (LG, 23). Todos os homens são chamados a
pertencerem à Igreja católica, como ensina o Concílio (LG,13). O Catecismo da
Igreja responde à pergunta: ´quem pertence à Igreja Católica? ´ ´São
incorporados plenamente à sociedade da Igreja os que, tendo o Espírito de
Cristo, aceitam a totalidade da sua organização e todos os meios de salvação
nela instituídos e na sua estrutura visível ´ regida por Cristo através do Sumo
Pontífice e dos Bispos ´ se unem com Ele pelos vínculos da profissão de fé, dos
sacramentos, do regime e da comunhão eclesiásticos´ (CIC, 837). E o Catecismo
faz um alerta muito importante: ´Contudo, não se salva, embora esteja
incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece
dentro da Igreja com o corpo, mas não com o coração´ (nº 837). Em seguida ele
faz uma síntese perfeita da razão de ser da Igreja: ´É para reunir todos os
seus filhos ´ que o pecado dispersou e desgarrou ´ que o Pai quis convocar toda
a humanidade na Igreja do seu Filho. A Igreja é o lugar em que a humanidade
deve reencontrar a unidade e a sua salvação´ (nº 845). Santo Agostinho disse
que a Igreja é ´o mundo reconciliado´. Os Padres da Igreja viam´na figurada na
Arca de Noé, a única que salva do dilúvio. Os mesmos Santos Padres afirmavam
que ´fora da Igreja não há salvação´ (CIC, 846); e o Catecismo explica o
sentido dessas palavras: ´ Formulada de maneira positiva, ela significa que
toda salvação vem de Cristo ´ Cabeça ´ através da Igreja que é o seu Corpo.
Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja
peregrina é necessária para a salvação. O único mediador e caminho da salvação
é Cristo, que se nos torna presente, no seu Corpo, que é a Igreja. Ele, porém,
inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo, ao mesmo
tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo,
como que por uma porta. Por isso não podem salvar´se aqueles que, sabendo que a
Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição
necessária, apesar disso não quiseram nela entrar, ou então perseverar´ (CIC,
nº 846; cf LG, 14). Mas o Catecismo explica também que: ´Esta afirmação não
visa àqueles que, sem culpa, desconhecem Cristo e a sua Igreja´ (nº 847). A
Igreja sabe que: ´Deus pode por caminhos dele conhecidos levar a fé a todos os
homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho´ (AG, 7).
Igreja Apostólica
O que garantiu a unidade
da Igreja católica e sua continuidade até hoje, de maneira ininterrupta,
conservando intacto o “depósito da fé”, que recebeu do Senhor, é a sua
apostolicidade; isto é, a sucessão apostólica. Muito cedo a Igreja tomou
consciência de que a sua “identidade e missão” estava ligada ao colégio dos
Doze Apóstolos, e seus sucessores, os bispos. Quando nos primeiros séculos
surgia uma doutrina nova, às vezes uma heresia, o critério do discernimento era
o da apostolidade: ´esta doutrina está de acordo com o que ensinaram os
Apóstolos?´ Está em conformidade com o que ensina a Igreja de Roma, onde foram
martirizados Pedro e Paulo? Essas eram as perguntas mais importantes para se
chegar ao discernimento. Isto porque os Apóstolos foram as testemunhas oculares
do Senhor e dEle receberam diretamente tudo o que Ele ensinou e realizou para a
salvação da humanidade. Já mostramos neste livro que a Igreja é a sucessora de
Israel. O povo de Israel era a posteridade das Doze tribos de Jacó, que Deus
chamou de Israel. Dá mesma forma a Igreja é a posteridade dos Doze Apóstolos.
Jesus mesmo relacionou a escolha dos Doze com as Doze tribos de Israel, que
prefiguravam a Igreja. “Em verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo,
quando o Filho do homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis
seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel”
(Mt 19,28). O livro do Apocalipse revela a Igreja como a Jerusalém celeste
construída sobre Doze pedras fundamentais, nas quais ´estão escritos os nomes
dos Doze Apóstolos do Cordeiro´. “Levou´me em espírito a um grande e alto
monte, e mostrou´me a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de
Deus, revestida da glória de Deus. Assemelhava´se a uma pedra preciosa, tal
como o jaspe cristalino. Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas
por doze anjos. Nas portas estavam gravados os nomes das doze tribos dos filhos
de Israel. Ao oriente havia três portas, ao setentrião três portas, ao sul três
portas, e ao ocidente três portas. A muralha da cidade tinha doze fundamentos
com os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (Ap 21,12´14). Essa belíssima
revelação que São João teve da Igreja ensina´nos, através dos símbolos da
figura apocalíptica, a realidade da Igreja. Vemos aí a sua glória que será
consumada no final dos tempos. As três portas abertas permanentemente para as
quatro regiões do mundo são uma imagem da universalidade (catolicidade) da
Igreja, de portas abertas para acolher todas as nações e todos os homens. A
“grande e alta muralha” simboliza toda a grandeza, estabilidade e majestade desta
Cidade de Deus. Naquele tempo as muralhas significavam toda a grandeza e
segurança da cidade. Nessa muralha haviam “doze portas guardadas por doze
anjos”, são as doze tribos de Israel, através das quais Deus começou a abrir as
portas da salvação para a humanidade. O mais importante contudo, é notar que os
“doze fundamentos” (alicerces) da muralha traziam “os nomes dos Doze Apóstolos
do Cordeiro”. Isto mostra que neles está edificada a Igreja, como disse São
Paulo aos efésios: “Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas
sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o
fundamento dos Apóstolos...” (Ef 2,20). Os Bispos são os sucessores dos
Apóstolos, que foram testemunhas dos ensinamentos e da Ressurreição de Jesus.
Eles estabeleceram os princípios básicos para toda a vida da Igreja, o Credo e
a Tradição apostólica. Cada um deles tinha jurisdição sobre as comunidades
cristãs fundadas. Vemos São Pedro na Capadócia, na Bitínia, no Ponto, na
Samaria, em Antioquia e, por fim, em Roma. São Paulo em Filipos, Éfeso,
Corinto, Atenas, Tessalônica, Chipre, Creta, Roma... Os Apóstolos ordenaram
Bispos, seus sucessores, para que a Igreja cumprisse até o fim dos tempos a
missão que Jesus lhe confiou: “Ide pelo mundo inteiro, pregai o Evangelho a
toda criatura...”(Mt 28,18).
Os Bispos da Igreja, que
hoje são cerca de 4200 (3000 em plena função), embora não tenham sido
testemunhas diretas da ressurreição de Jesus, no entanto, pela “sucessão
apostólica”, participam do Colégio dos Apóstolos. Cada Bispo, individualmente,
não tem o carisma da infalibilidade, apenas o Bispo de Roma, o Papa, e o
Colégio dos Bispos que sucede o Colégio dos Doze Apóstolos. Essa
infalibilidade, que na maioria das vezes o Colégio dos Bispos exerceu nos 21 Concílios
universais que a Igreja já realizou, se limita à definição de assuntos de fé e
de moral. Ao Colégio dos Doze, Jesus disse: “Em verdade eu vos digo: tudo o que
ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será
desligado no céu” (Mt 18,18). É com esta autoridade, recebida diretamente de
Jesus, que o Colégio episcopal se reúne em Concílios e Sínodos para “ligar na
terra” o que é para o bem e a salvação dos fiéis. Jesus disse que aquele que se
recusa a ouvir a Igreja,”seja para ti como um pagão e um publicano” (Mt 18,17).
Aqui Jesus deixou muito claro para os Apóstolos que é a Igreja que tem a
palavra final nas decisões das coisas do Reino de Deus. Aquele que recusar a
ouvir e obedecer à Igreja, deve ser considerado como um “pagão e um publicano”,
isto é, ateu e pecador. E além disso garantiu aos Apóstolos que ouvi´los é
ouvir a Ele mesmo e ao Pai. “Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita a
Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou” (Lc 10,26). Para
que a transmissão da Boa´Nova chegasse então aos confins da terra e dos tempos,
os Apóstolos foram preparando os pastores das comunidades, seus sucessores.
Vejamos alguns casos: São Paulo deixa Timóteo como Bispo de Éfeso: “Torno a
lembrar´te a recomendação que te dei, quando parti para a Macedônia: devias
permanecer em Éfeso para impedir que certas pessoas andassem a ensinar
doutrinas extravagantes” (1Tm 1,3).
A principal preocupação
de Paulo é com a “sã doutrina” (v.10) que Timóteo deve garantir na comunidade.
Essa continua a ser a principal missão do bispo também hoje na Igreja, além de
ser para o seu rebanho o pai espiritual e a pedra viva da unidade. “Por esse
motivo eu te exorto a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela
imposição das minhas mãos” (2 Tm 1,6). Aqui vemos a ordenação de Timóteo pela
imposição das mãos de São Paulo. Até hoje a Igreja repete esse gesto na
ordenação dos sacerdotes e bispos, e assim garante a sucessão apostólica. Paulo
Também escolheu Tito para bispo de Creta: “Eu te deixei em Creta para acabares
de organizar tudo e estabeleceres anciãos (sacerdotes) em cada cidade, de
acordo com as normas que te tracei” (Tt 1,5). Essa passagem mostra que os
Apóstolos iam definindo as ´normas” da Igreja, que foram formando a sagrada Tradição
Apostólica, tão importante e legitima quanto a própria Bíblia. Para a
comunidade de Filipos, São Paulo envia Epafrodito: “Julguei necessário
enviar´vos nosso irmão Epafrodito, meu companheiro de labor e de lutas...” (Fil
2,25). O autor da Carta aos Hebreus, provavelmente algum dos discípulos de S.
Paulo, recomenda os fiéis aos seus dirigentes: “Sede submissos e obedecei aos
que vos guiam (pois eles velam por vossas almas e delas devem dar contas)´ (Hb
13,17). Nos Atos dos Apóstolos, vemos São Paulo despedindo´se emocionado dos
anciãos de Éfeso (“não tornareis a ver minha face”) e recomenda´lhes o rebanho,
como sua grande preocupação: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o
qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus,
que Ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois de minha partida se
introduzirão entre vós os lobos cruéis, que não pouparão o rebanho” (At 20,28).
Mais uma vez a grande preocupação de São Paulo é com os “lobos cruéis”, os
falsos profetas. “Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir
doutrinas perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos” (At
20,30). Sabemos que já no inicio do cristianismo os Apóstolos tiveram que
enfrentar a terrível heresia do gnosticismo, de fundo dualista, o qual negava
que Jesus tivesse se encarnado de fato, uma vez que consideravam a matéria como
má. Desta forma anulava´se a obra redentora de Cristo. Nessas palavras de São
Paulo vemos toda a importância dos bispos, constituídos pelo Espírito Santo. O
mesmo recomenda São Pedro aos pastores: “Eis a exortação que dirijo aos anciãos
que estão entre vós... Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende
cuidado dele...” (1Pe 5,1´4). Logo no início da evangelização, São Paulo dá
normas a Timóteo e a Tito de como devem ser os bispos: “Eis uma coisa certa:
quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque
o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente,
regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a
bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber
governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade.
Pois, quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de
Deus? ” (1 Tm 3,1´7). Também a Tito, a quem São Paulo delega o poder de ordenar
outros bispos, ele faz recomendações semelhantes, ao escolher os pastores:
“Sejam escolhidos entre quem seja irrepreensível, casado uma só vez, tenha
filhos fiéis...”. “Porquanto é mister que o bispo seja irrepreensível, como
administrador que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem
intemperante, nem violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro,
amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à
doutrina da fé como foi ensinada, para poder exortar segundo a são doutrina e a
rebater os que a contradizem” (Tit 1,5´9). Todas essas passagens mostram
abundantemente que os bispos foram escolhidos pelos próprios Apóstolos,
“constituídos pelo Espírito Santo”(At 20,28), para governar a Igreja. Nas
cartas de Santo Inácio de Antioquia, falecido no ano 107, já encontramos a
organização atual da Igreja. Vemos ali um Bispo residente em cada diocese e
respondendo por essa parte do rebanho do Senhor. “Segui ao bispo, vós todos,
como Jesus Cristo ao Pai. Segui ao presbítero como aos apóstolos. Respeitai os
diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse fazer sem o bispo coisa alguma
concernente à Igreja. Como válida só se tenha a eucaristia celebrada sob a
presidência do bispo ou de um delegado seu. A comunidade se reúne onde estiver
o bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja católica. Sem a união do bispo
não é lícito batizar nem celebrar a eucaristia; só o que tiver a sua aprovação
será do agrado de Deus e assim será firme e seguro o que fizerdes”. (Antologia
dos Santos Padres, Ed. Paulinas, Pág. 44, 3ª ed. 1979, pág. 43).
Esse testemunho do
primeiro século da Igreja mostra bem a sucessão apostólica e a importância do
bispo. Já no primeiro século ve´se que sem o bispo, ordenado pelos apóstolos,
ou um delegado seu, não se pode celebrar a eucaristia. No combate aos hereges
gnósticos do seu tempo, Santo Ireneu (†202), no primeiro século, dizia: “Ora,
todos esses hereges são de muito posteriores aos bispos, aos quais os Apóstolos
entregaram as Igrejas [particulares]...Necessariamente, pois, tais hereges,
cegos para a verdade, mudam sempre de direção e disseminam as doutrinas de modo
discordante e incoerente. Ao contrário, o caminho dos que pertencem à Igreja
cerca o universo inteiro e, possuindo a firme tradição dos apóstolos, faz´nos
ver que todos possuímos a mesma fé” (Contra as Heresias). São do mesmo Santo
Ireneu estas palavras que mostram a importância da sucessão apostólica: “Foi
inicialmente na Judéia que [os apóstolos] estabeleceram a fé em Jesus Cristo e
fundaram igrejas, partindo em seguida para o mundo inteiro a fim de anunciarem
a mesma doutrina e a mesma fé. Em todas as cidades iam fundando Igrejas das
quais, desde esse momento, as outras receberam o enxerto da fé, a semente da
doutrina, e ainda recebem cada dia para serem igrejas. É por isso mesmo que
sejam consideradas como apostólicas, na medida em que forem rebentos das igreja
apostólicas. É necessário que tudo se caracterize segundo a sua origem. Assim,
essas igrejas, por numerosas e grandes que pareçam, não são outra coisa que não
a primitiva Igreja apostólica da qual procedem. São todas primitivas, são todas
apostólicas e TODAS UMA SÓ. Para atestarem a sua unidade, comunicam´se
reciprocamente na paz, trocam entre si o nome de irmãs, prestam´se mutuamente
os deveres da hospitalidade...Desde o momento em que Jesus Cristo, nosso
Senhor, enviou os apóstolos para pregarem, não se podem acolher outros
pregadores senão os que Cristo instituiu. Pois ninguém conhece o Pai senão o
Filho e aquele a quem o Filho tiver revelado.” E Santo Ireneu conclui dizendo:
“Nestas condições, é claro que toda doutrina em acordo com a dessas igrejas
apostólicas, matrizes e fontes originárias da fé, deve ser considerada
autêntica, pois contém o que tais igrejas receberam dos apóstolos, os apóstolos
de Cristo, e Cristo de Deus” (Contra as Heresias ). Esse testemunho de Santo
Ireneu, discípulo de São Policarpo, discípulo por sua vez do apóstolo São João,
mostram com clareza a importância da sucessão apostólica e da Tradição. Alguns
elementos são necessários para que o Bispo seja legítimo sucessor dos
Apóstolos: 1. A sucessão apostólica ´ comunhão de fé e de tarefas com os demais
bispos e com toda a Igreja, e principalmente submissão e obediência ao Papa.
2. Seja escolhido pelo
Papa e ordenado por Bispos legítimos da Igreja.
3. Conserve intacta a
doutrina transmitida desde o tempo dos Apóstolos.
Em todos os tempos da
história da Igreja as comunidades heréticas e cismáticas procuraram imitar as
aparências da sucessão apostólica, tentando enganar o povo. É o caso, por
exemplo, das “Igrejas Católicas Apostólicas Brasileiras”, derivada de D. Carlo
Duarte, ex´Bispo de Maura, mas que não guarda a comunhão com a Igreja católica.
Outro exemplo é o dos Bispos “patriotas” que foram instituídos por governos
comunistas e sagrados por um bispo “colaboracionista”. Não estão na sucessão
apostólica, pois romperam com o Papa. Assim são também os “bispos” da igreja
anglicana, da igreja universal do reino de Deus, etc... Os protestantes
perderam a sucessão apostólica porque romperam com a Igreja dos Apóstolos e
seus sucessores. A encarnação do Verbo é uma realidade histórica que se
prolonga através da Igreja e da sucessão apostólica. Jesus disse claro aos
Apóstolos: “Estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). Os
Santos Padres da Igreja diziam: “Ubi Petrus, ibi Ecclesia; ubi Ecclesia, ibi
Christus” (Onde está Pedro está a Igreja, onde está a Igreja está Jesus
Cristo”. Santo Ireneu (140´202) escreveu que: “Onde está a Igreja aí está o
Espírito Santo, e onde está o Espírito Santo de Deus, aí estão a Igreja e o
tesouro de todas as graças, porque o Espírito é a verdade”. Santo Agostinho
(354´430) confirmava dizendo: “Onde está a Igreja aí está o Espírito de Deus.
Na medida que alguém ama a Igreja é que possui o Espírito Santo”. “Fazei´vos
Corpo de Cristo se quereis viver do Espírito de Cristo. Somente o Corpo de
Cristo vive do seu Espírito”. São João Crisóstomo (350´407) mandava: “Não te
afaste da Igreja: Nada é mais forte do que ela. Ela é a tua esperança, o teu
refúgio. Ela é mais alta que o céu e mais vasta que a terra. Ela nunca
envelhece”. Santo Hipólito (160 ´ 235) também dizia: “A Igreja é o local onde
floresce o Espírito”. São Justino (†165) dizia que: “O mundo foi criado em
vista da Igreja”. O que Santo Epifânio (+403) confirmava: “A Igreja é a
finalidade de todas as coisas”. São Cipriano (†258), bispo de Cartago no norte
da África dizia: “A Esposa de Cristo não pode adulterar, é fiel e casta. Aquele
que se separa dela saiba que se junta com uma adúltera, e que as promessas da
Igreja já não o alcança. Aquele que abandona a Igreja não espere que Jesus
Cristo o recompense, é um estranho, um proscrito, um inimigo”. Deus Pai disse a
Santa Catarina de Sena, nos “Diálogos”: “Foi na dispensa da hierarquia
eclesiástica que eu guardei o Corpo e o Sangue do meu Filho”. Foi no seio da
Igreja hierárquica que o Senhor depositou o seu mais precioso tesouro. E a mesma
Santa disse certa vez: “Tenham a certeza de que quando eu morrer, a única causa
de minha morte será meu amor pela Igreja”. A outra doutora da Igreja, Santa
Teresa de Ávila (1515´1591) dizia: ´Eu sou filha da Igreja !´ “Em tudo me
sujeito ao que professa a Santa Igreja Católica Romana, em cuja fé vivo, afirmo
viver e prometo viver e morrer”. É importante notar que Santa Teresa viveu
exatamente no tempo da Reforma protestante, iniciada em 1517. A fim de que
possamos sentir mais profundamente a riqueza da Tradição apostólica transcrevo
abaixo um trecho de Santo Hipólito (160´235), da Igreja de Roma, mártir, autor
de grandes escritos litúrgicos usados ainda hoje, sobre a “eleição e
consagração dos bispos”
“Seja ordenado bispo quem
for irrepreensível e tiver sido eleito por todo o povo. Uma vez designado e
aceito por todos, reuna´se o povo juntamente com o presbitério e os bispos
presentes, no domingo. Com o consentimento de todos, imponham os bispos sobre
ele as mãos, permanecendo imóvel o presbítero. Mantenham´se todos em silêncio,
orando em seu coração pela descida do Espírito. A seguir, um dos bispos
presentes, instado por todos, impondo a mão sobre o que é ordenado bispo, reze
dizendo: Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de
toda a consolação, que habitas as alturas e baixas o olhar para o que é
humilde, tu, que conheces todas as coisas antes de nascerem, tu que destes as
leis da tua Igreja pela palavra da tua graça, elegendo desde o princípio a raça
dos justos de Abraão, constituindo os chefes e os sacerdotes; tu, que não
deixaste sem administração o teu santuário; tu, que desde o início dos séculos
te aprouveste em ser glorificado neste que escolheste, derrama agora a força
que vem de ti ´ o Espírito de chefia que deste a teu Filho querido, Jesus
Cristo, e que Ele concedeu aos santos apóstolos, os quais constituíram por toda
parte a tua Igreja, teu Templo, para glória e louvor perpétuo do teu nome. Pai,
que conheces os corações, concede a este servo que escolheste para o episcopado,
apascentar o teu santo rebanho e desempenhar irrepreensivelmente diante de ti o
primado do sacerdócio, servindo´te noite e dia. Concede´lhe tornar
incessantemente propícia a tua face, oferecer as oblações da tua santa Igreja
e, com o espírito do sacerdócio superior, ter a faculdade de perdoar os pecados
segundo a tua ordem, distribuir os cargos segundo o teu preceito; dissolver
quaisquer laços, segundo o poder que deste aos apóstolos, ser do teu agrado
pela ternura e pureza de coração, oferecendo´te um perfume agradável, por teu
Filho Jesus Cristo, pelo qual a ti a glória, o poder e a honra ´ ao Pai e ao
Filho, com o Espírito Santo na santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos.
Amém” (Antologia dos Santos Padres, C. Folch Gomes, Ed. Paulinas, 3°ed.,1979,
pags 172´3). Esta oração de Santo Hipólito, do segundo século da Igreja, mostra
a riqueza e a importância da Tradição Apostólica. A Igreja reza na santa Missa,
no Prefácio dos Apóstolos: “Pastor eterno, vós não abandonais o rebanho, mas o
guardais constantemente pela proteção dos Apóstolos. E assim a Igreja é
conduzida pelos mesmos pastores que pusestes à sua frente como representantes
de vosso Filho Jesus Cristo, Senhor nosso”. Por esta oração eucarística
observamos que a Igreja vê nos seus pastores hierárquicos os “representantes”
do próprio Senhor. Afinal, foi a eles que Jesus disse no momento da sua
Ascensão:´Vós sereis testemunhas de tudo isto´ (Lc 24,48). “Sereis minhas
testemunhas ... até os confins do mundo” (At 1,8). Eles, os Apóstolos, foram
enviados em missão pelo próprio Senhor. “Quem vos recebe a Mim recebe. E quem
me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10,40). São Paulo reconhece isto:
“Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe.
Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho ! ... é uma missão que me foi imposta”
(1 Cor 9,16). Na saudação aos gálatas ele diz: “Paulo apóstolo ´ não da parte
dos homens, nem por meio de algum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai”
(Gal 1,1). Isto mostra porque a hierarquia é Sagrada; porque foi desejada e
instituída pelo próprio Cristo. A Igreja nasceu, cresceu e caminha na “doutrina
dos Apóstolos” (At 2,42). Os bispos ´ apóstolos de hoje ´ continuam a mesma
missão de Jesus. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). E
Jesus avisa: “Em verdade em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviei
recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Jo 13,20). E
disse ao Pai na oração Sacerdotal, antes de sofrer a Paixão: “Como tu me
enviaste ao mundo também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18). Jesus os escolheu
pessoalmente ´ e continua a fazê´lo ainda hoje. “Depois, subiu ao monte e
chamou a si os que Ele quis. Designou Doze entre eles para ficar em sua
companhia. Ele os enviava a pregar, com o poder de expulsar os demônios”(Mc 3,
13´14). Desde o início de sua missão, Jesus instituiu os Doze, como diz a ´Ad
Gentes´: “os germes do Novo Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada
hierarquia” (AG, 5). Jesus associou os Apóstolos à sua própria missão, recebida
do Pai. Por isso Ele ensina´lhes que como “o Filho não pode fazer nada por si
mesmo” (Jo 5,19.30), mas recebe tudo do Pai que o enviou, da mesma forma eles
não podem fazer nada sem Jesus. “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).
Portanto, os Apóstolos do Senhor, os bispos hoje, são colocados por Deus como
“ministros da Nova Aliança”. É o que São Paulo ensina: “Ele é que nos fez aptos
para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra e sim a do Espírito. Porque
a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Cor 3,6). Segundo São Paulo, os
apóstolos são os “embaixadores de Cristo”. “Portanto, desempenhamos o encargo
de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso
intermédio” (2 Cor 5,20). E Paulo também os vê como “administradores dos mistérios
de Deus”: “Que os homens vos considerem, pois, como simples operários de Cristo
e administradores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4,1). Foi a eles que Jesus deu
o poder de, em Seu Nome, ministrar os sacramentos da salvação, depois de
conviver com eles durante três anos, e prepará´los para essa missão. A eles o
Senhor enviou a batizar: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide,
pois, e ensinai a todas as nações; batizai´as em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” (Mt 28,19). A eles o Senhor delegou o mandato de ensinar.
“Ensinai´os a observar tudo o que vos prescrevi” (28,20). A eles o Senhor
garantiu a sua assistência permanente: “Eis que estou convosco todos os dias,
até o fim do mundo” (28,20). A eles o Senhor deu o poder de perdoar: “Recebei o
Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser´lhes´ão perdoados;
aqueles a quem os retiverdes, ser´lhes´ão retidos” (Jo 20,22´23). Santo
Agostinho escreveu importantes palavras sobre a missão que Cristo confiou à Sua
Igreja, de perdoar os pecados: “Se na Igreja não existisse a remissão dos
pecados, não existiria nenhuma esperança, nenhuma perspectiva de uma vida
eterna e de uma libertação eterna. Rendamos graças a Deus que deu à Sua Igreja
um tal dom”. “Quem não crer que a Igreja lhe perdoa os pecados, a esse não lhe
serão perdoados os pecados”. Através dos seus sacerdotes a Igreja Católica é a
portadora da misericórdia de Deus aos seus filhos queridos, porque Jesus assim
o quis. Sobre isso dizia o grande São Gregório Magno (540´604), Papa e doutor
da Igreja: “Os Apóstolos receberam, pois, o Espírito Santo para desligar os
pecadores da cadeia dos seus pecados. Deus fê´los participantes do seu direito
de julgar; e eles julgam em Seu Nome e em Seu lugar. Ora, como os bispos são os
sucessores dos Apóstolos têm o mesmo direito”. “O pecador, ao confessar sincera
e contritamente os seus pecados, é como Lázaro: já vive, mas está ainda ligado
com as ataduras de seus pecados. Precisa de que o Sacerdote lhas corte; e
corte´lhas absolvendo´o”. É preciso termos muito claro que sem os Sacramentos
não há salvação; mas sem a Igreja não há os Sacramentos, já que eles foram
confiados à Igreja por Cristo. Logo, sem a Igreja não há salvação, nos planos
ordinários de Deus. São Tomás de Aquino ensinava que: “O bem de Cristo é
comunicado a todos os membros, e essa comunicação se faz através dos
sacramentos da Igreja”. A eles o Senhor conferiu o poder de atualizar, “tornar
presente”, o seu Sacrifício do Calvário oferecido ao Pai por toda a humanidade:
“Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc
22,19´20). São Clemente (88´97), Bispo de Roma, quarto Papa da Igreja,
colaborador de São Paulo ( cf.Fil 4,3), na importante Carta escrita aos
Corintios, para debelar a rebelião dos fiéis contra os pastores, já no século I
expunha as bases da eclesiologia, mostrando que Jesus Cristo recebeu todo o
poder do Pai e incumbiu os Apóstolos de estabelecerem a Hierarquia. Assim, os
Apóstolos cumpriram a ordem e puseram à frente das Igrejas, bispos, presbíteros
e diáconos como auxiliares, tendo regulamentado a sua sucessão, com normas
claras, para que, com a comunidade, fossem escolhidos sempre os melhores. Vale
a pena relermos o que o quarto Papa escreveu já lá no século I: “Também os
nossos Apóstolos sabiam, por Nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria
contestações a respeito da dignidade episcopal. Por tal motivo e como tivessem
perfeito conhecimento do porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram,
além disso, instruções no sentido de que, após a morte deles outros homens
comprovados lhes sucedessem em seu ministério. Os que assim foram instituídos
por eles, ou mais tarde por outros homens iminentes com a aprovação de toda a
Igreja, e serviram de modo irrepreensível ao rebanho de Cristo com humildade,
pacífica e abnegadamente, recebendo por longo tempo e da parte de todos o
testemunho favorável, não é justo em nossa opinião que esses sejam depostos de
seu ministério” (Cor 42, 1´3). Nessas palavras do quarto Papa da Igreja, vemos
que os sucessores dos Apóstolos, chamados de “homens iminentes”, eram aprovados
por toda a Igreja e não podiam ser afastados do ministério. Vemos aí também, o
bispo de Roma atuando já como o pastor supremo da Igreja, intervindo na
rebelião de Corinto. São significativas as palavras de São Clemente: “Os
Apóstolos receberam a boa´nova em nosso favor da parte do Senhor Jesus Cristo.
Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo portanto vem de Deus e os Apóstolos
de Cristo; essa dupla missão realizou´se pois em perfeita ordem por vontade de
Deus... Assim, proclamando a palavra de Deus no interior e nas cidades,
estabeleciam suas primícias, como Bispos e Diáconos, dos futuros fiéis, depois
de prová´los pelo Espírito Santo” (Cor 42,1´4). Assim São Clemente mostra´nos
que a Hierarquia foi querida por Deus Pai e por Jesus, sendo, portanto,
sagrada. Isto mostra a apostolicidade da Igreja e as origens da sucessão
apostólica. Fora dessa sucessão que vem diretamente de Cristo, não há
legitimidade e infalibilidade para se atuar em seu Nome. A Igreja católica, por
graça especial de Deus, guarda intacta essa sucessão. Falando sobre isso diz o
último Concílio: “Esta missão divina, confiada por Cristo aos Apóstolos deverá
durar até o fim dos séculos (Mt 28,20), pois o Evangelho, que eles devem transmitir,
é para a Igreja o princípio de toda sua vida, através dos tempos. Por isso os
Apóstolos, nesta sociedade hierarquicamente organizada, cuidaram de constituir
os seus sucessores. De fato, não só se rodearam de vários colaboradores no
ministério, mas, para que a missão a eles confiada tivesse continuidade após a
sua morte, os Apóstolos, quase por testamento, incumbiram os seus cooperadores
imediatos de terminar e consolidar a obra por eles começada... Constituíram
assim os seus sucessores e dispuseram que, por morte destes, fosse confiado o
seu ministério a outros homens experimentados” (LG,20). Santo Irineu (†202),
mártir do século II, nos relata essa firme Tradição nos seus escritos “Contra
as Heresias”, dos primeiros séculos do Cristianismo: “Assim, todos os que
desejam a verdade podem perceber em qualquer igreja a tradição dos apóstolos
manifestada no mundo inteiro. E nós podemos enumerar os que os apóstolos
instituíram como bispos nas igrejas, bem como suas sucessões até nossos dias”
(III, 3,1). Foi Santo Irineu quem elaborou a lista dos primeiros Papas da
Igreja, até o décimo segundo, Eleutério, do seu tempo. Ele diz: “Ora, dado que
seria demasiado longo... enumerar as sucessões de todas as Igrejas, tomaremos a
máxima igreja, muito antiga e conhecida de todos, fundada e construída em Roma
pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo; mostraremos que a tradição
que ela tem, dos mesmos, e a fé que anunciou aos homens, chegaram até nós por
sucessões de bispos”... “Porque, é com esta Igreja (de Roma), em razão de sua
mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda a
Igreja... na qual sempre se conservou a tradição que vem dos Apóstolos”.
“Depois de ter fundado e edificado a Igreja, os bem´aventurados apóstolos
transmitiram a Lino o cargo do episcopado... Anacleto o sucedeu. Depois, em
terceiro lugar a partir dos apóstolos, é a Clemente que cabe o episcopado. Ele
tinha visto os próprios apóstolos, estivera em relação com eles; sua pregação
ressoava´lhe aos ouvidos; sua tradição estava presente ainda aos seus olhos.
Aliás ele não estava só, havia em sua época muitos homens instruídos pelos
apóstolos... A Clemente sucede Evaristo; a Evaristo, Alexandre; em seguida...
Sixto, depois Telésforo, também glorioso por seu martírio; depois Higino, Pio,
Aníceto, Sotero... Eleutério em 12º lugar a partir dos Apóstolos”. E Santo
Irineu conclui: “É nesta ordem e sucessão que a tradição dada à Igreja desde os
apóstolos, e a pregação da verdade, chegaram até nós. E está aí uma prova muito
completa de que é única e sempre a mesma, a fé vivificadora que, na Igreja
desde os Apóstolos, se conservou até o dia de hoje e foi transmitida na
verdade” (III, 2,2). Esse testemunho de um santo do segundo século, mostra bem
a sucessão apostólica e a Tradição viva da Igreja, que tem a mesma importância
da Revelação escrita. A missão do Bispo é tríplice: “santificar”, “ensinar” e
“governar”, em nome do próprio Cristo. É o que nos ensina o Concílio:
“Juntamente com o múnus (missão sagrada) de santificar, a consagração episcopal
confere ainda os de ensinar e de governar...”. “Pela imposição das mãos e pelas
palavras consecratórias, se confere a graça do Espírito Santo e se imprime o
caráter sagrado, de tal modo que os Bispos, de maneira iminente e visível,
fazem as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice, e agem em seu
nome” (LG 20). Entretanto, para que isto seja real é preciso que o Bispo esteja
“em comunhão hierárquica com a Cabeça [o Papa] e com os membros do Colégio” (LG
20). Nenhum fiel é obrigado, e nem pode ser submisso a um Bispo que não esteja
em comunhão com o Papa e com os demais Bispos. Cada bispo é escolhido pelo
Papa, Vigário de Cristo na terra, Cabeça visível da Igreja, e lhe deve
obediência e submissão. Tornou´se célebre na Igreja a expressão: “cum Petro et
sub Petro”. É doloroso para toda a Igreja quando um bispo, de qualquer lugar,
discorda publicamente do Papa, ou contradiz os seus ensinamentos inspirados
pelo próprio Espírito Santo. Lamentavelmente, mesmo sem chegarem ao cisma, no entanto
alguns bispos, que juraram fidelidade ao Papa, não cumprem bem esse juramento.
Dizer que a Igreja é Apostólica é o mesmo que dizer que ela permanece em
comunhão de fé e de vida com a sua origem. O Catecismo, com palavras claras
explica porque é essencial a sucessão apostólica na missão da Igreja: “Ninguém
pode dar a si mesmo o mandato e a missão de anunciar o Evangelho. O enviado do
Senhor fala e age não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de
Cristo; não como membro da comunidade, mas falando a ela em nome de Cristo.
Ninguém pode conferir a si mesmo a graça, ela precisa ser dada e oferecida.
Isto supõe ministros da graça, autorizados e habilitados da parte de Cristo.
Dele recebem a missão e a faculdade (o “poder sagrado”) de agir “na pessoa de
Cristo Cabeça”. A tradição da Igreja chama de “sacramento” este ministério,
através do qual os enviados de Cristo fazem e dão, por Dom de Deus, o que não
podem fazer nem dar a si mesmos” (nº 875). Com que autoridade algumas pessoas
entitulam´se a si mesmas de bispos? Quem lhes confiou este mandato, esta graça
e esta missão? Sem a sucessão apostólica o cristianismo fica subjetivo, a mercê
do capricho dos homens, sem a garantia e a infalibilidade do Espírito Santo.
Sabemos que toda a Igreja é apostólica; logo, todos os seus membros, os
batizados, participam da sua missão de evangelizar o mundo. O apostolado é toda
a atividade da Igreja no sentido de “estender o reino de Cristo a toda terra”
(AA, 2). Logo, todos somos chamados a evangelizar; entretanto, é preciso ficar
muito claro que ninguém pode evangelizar “por conta própria”, no sentido de
fazer um apostolado “independente da Igreja”, sem estar em comunhão com o Bispo
da diocese; e, o que seria pior ainda, pregando uma doutrina que não seja
aquela oficialmente aprovada pela Igreja. Todo aquele que evangeliza, seja para
uma pessoa ou para multidões, exerce um ministério por delegação da Igreja, e
dos Bispos, e portanto não pode ensinar o que quer, mas o que manda a Igreja. O
Papa Paulo VI disse certa vez aos Padres Conciliares: ´A fidelidade ao depósito
da Revelação é claro que exige que não se passe em silêncio alguma verdade da
fé: o Povo de Deus, confiado aos nossos cuidados, tem o sagrado e inalienável
direito de receber a Palavra de Deus, toda a Palavra de Deus´ (PR, N.419, abril
de 1997, pag.165). Na Exortação Apostólica ´Catechesi Tradendae´, o Papa João
Paulo II foi mais claro ainda: ´Para ser verdadeira a oblação da fé, aqueles
que se tornam discípulos de Cristo têm o direito de receber a palavra da fé não
mutilada, falsificada ou diminuída, mas sim plena e integral, com todo o seu
rigor e com todo o seu vigor. Atraiçoar em qualquer ponto a integridade da
mensagem é esvaziar a própria catequese...Assim a nenhum catequista verdadeiro
é lícito fazer, por seu próprio arbítrio, uma seleção no depósito da fé, entre
aquilo que considere importante e rejeitar o resto´ (CT,30). Hoje, mais do que
nunca, os leigos são chamados a evangelizar, como jamais na história da Igreja;
portanto, cresceu muito a responsabilidade de estarmos preparados bem para
isso. Infelizmente, ainda existe muita “achologia” nas aulas de religião,
catequeses e pregações, onde muitas vezes prevalece mais a opinião particular
do catequista, do professor de teologia, etc., do que a doutrina oficial da
Igreja ensinada pelo Magistério. E isto acontece principalmente no campo da
Moral. Na Encíclica “Veritates Splendor”, o Papa falou de maneira enfática
sobre esta questão: “A teologia Moral não se pode reduzir a um conhecimento
elaborado só no contexto das chamadas ciências humanas. Os princípios morais
não são dependentes do momento histórico em que são descobertos. Além disso, o
fato de alguns crentes agirem sem observar os ensinamentos do Magistério ou
considerarem erradamente como moralmente justa uma conduta declarada pelos seus
Pastores contrária à lei de Deus, não pode constituir argumento válido para
rejeitar a verdade das normas morais ensinadas pela Igreja. A afirmação dos
princípios morais não é da competência dos métodos empíricos formais”( VS,
111). Hoje temos um novo Catecismo aprovado pelos Bispos do mundo inteiro e
pelo próprio Papa, em 11 de outubro de 1992, e ninguém pode ensinar nada que
não esteja em consonância com ele. Quando o Papa aprovou o Catecismo e
apresentou´o através da Constituição Apostólica ´Fidei Depósitum´ ( O Depósito
da Fé), disse que ele é: “uma exposição da fé da Igreja e da doutrina
católica”... “texto de referência seguro e autêntico, para o ensino da doutrina
católica”... “oferecido a todo homem... que queira conhecer aquilo em que a
Igreja Católica crê”. E o Papa nos pede que o Catecismo seja usado por todos,
Pastores e fiéis: “Peço, portanto aos Pastores da Igreja e aos fiéis que
acolham este Catecismo em espírito de comunhão, e que o usem assiduamente ao
cumprirem a missão de anunciar a fé...”(FD). Aos bispos reunidos em Santo
Domingo, em 12/10/92, durante o IV CELAM, o Papa disse: ´...recentemente
aprovei o Catecismo da Igreja Católica, o melhor dom que a Igreja pôde fazer
aos seus Bispos e ao Povo de Deus. Trata´se de um valioso instrumento para a
Nova Evangelização onde se compendia toda a doutrina que a Igreja deve
ensinar´(DSD,9). Aos Bispos do Brasil que estiveram com ele, em visita ´ad
limina apostolorum´, em 29/1/96, o Papa, referindo´se à necessidade de bem
formar a consciência do povo cristão, pediu aos bispos: ´Formai´lhe a
consciência reta, coerente e corajosa. Deixai´me desse modo insistir sobre a
conveniência de valerem´se todos do Catecismo da Igreja Católica ´
significativo reflexo da natureza colegial do episcopado, decorridos três anos
desde quando autorizei a sua publicação para uma correta interpretação destas e
de outras verdades de nossa fé´. Todos esses apelos insistentes do Papa para
que o Catecismo seja usado constantemente na evangelização, mostram a sua
importância nesta hora difícil em que os católicos são tão ameaçados por tantas
seitas e falsas religiões.O Catecismo é hoje o nosso escudo de proteção contra
as ameaças das falsas doutrinas. Com o Catecismo acaba a “achologia” religiosa,
o subjetivismo moral e o relativismo doutrinário, onde muitos querem fazer a
religião e a moral “a seu próprio modo”, à revelia da autoridade da Igreja.
Vamos todos evangelizar, mas como manda a Igreja, e não como eu quero; isto
seria irresponsabilidade e um desserviço prestado à Igreja. Por tudo o que foi
dito podemos compreender porque a Igreja é apostólica e porque sem os Bispos,
que herdaram o mandato dos Apóstolos, não pode haver legítima Igreja. Jesus
quis assim para preservar a integridade da fé que leva à salvação e que deve
chegar a todos os homens de todos os tempos e lugares. Sem a Igreja, una,
santa, católica e apostólica, isto jamais será possível.
Igreja Santa
O santo Concílio Vaticano
II disse que:
´A Igreja... é, aos olhos
da fé, indefectivelmente santa. Pois Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o
Espírito Santo é proclamado o único Santo, amou a Igreja como Esposa. Por ela
se entregou com o fim de santificá´la. Uniu´a a si como seu corpo e cumulou´a
com o dom do Espírito Santo, para a glória de Deus´ (LG 39). É por isso que ela
é chamada de ´o Povo santo de Deus´ (LG 12 ). No início da vida da Igreja os
cristãos eram chamados ordinariamente de ´santos´. Vejamos alguns exemplos
disso: ´Ananias respondeu: Senhor, ouvi de muitos, a respeito desse homem
[Saulo], quanto mal fez a teus santos em Jerusalém ´(At 9,15).
´Quando alguém de vós tem
rixa com outro, como ousa levá´la aos injustos para ser julgada, e não aos
santos? Então, não sabeis que os santos julgarão o mundo?´ (1 Cor 6,1´2).
´Pedro, que percorria
todas essas regiões, foi ter com os santos que habitavam em Lida´(At 9,32).
´Pedro estendeu´lhe a mão
e levantou´a. Chamou os santos e a viúva, e a apresentou a eles viva´ (At
9,41).
Essas e muitas outras
passagens da Escritura (Rom 15,26.31; 1Cor 16,1.15; 2 Cor 8,4; 9,1.12; Rom
8,27; 12,13; 16,2.15; 1Cor 6,1s; 14,33; 2 Cor 13,12; Ef 1,15; 3,18; 4,12; 6,18;
Fl 4,21s; Cl 1,4; 1 Tm 5,10; Fm 5,7; Hb 6,10; 13,24; Jd 3, 2; 1Cor 1,1) mostram
que na primitiva comunidade cristã os cristãos eram chamados comumente de
santos, tanto na Palestina quanto em todas as Igrejas locais.
A Igreja é o corpo de
Cristo e é santificada por Ele mesmo; e, por Ele e n’Ele torna´se santificante.
O Concílio nos ensina que todas as obras da Igreja tendem para a ´santificação
dos homens em Cristo e a glorificação de Deus´ (SC,10), porque na Igreja está
depositada ´a plenitude dos meios da salvação´ (UR,3). É portanto na Igreja,
que ´adquirimos a santidade pela graça de Deus´ (LG,48). Foi à Igreja que o
Senhor confiou todos os meios de santificação, que de modo especial se
encontram nos sacramentos. O Concílio afirma:
´De fato, a Igreja possui
já na terra uma santidade verdadeira, embora imperfeita´ (LG,48).
Mesmo que os membros da
Igreja sejam pecadores, ela é santa, pois é o Corpo de Cristo, animado pelo
Espírito Santo. Os seus membros ainda lutam para adquirir a santidade perfeita,
que é a vocação de todos. São Cipriano (†258), bispo de Cartago, já dizia no
seu tempo:
´ O fato de brotarem no
seio da Igreja cardos e espinhos não deve abalar a nossa fé, nem arrefecer a
nossa caridade, afastando´nos também da Igreja. O que devemos é esforçar´nos
mais e mais para sermos trigos e para nos tornarmos mais e mais fecundos com o
nosso trabalho´( Ad Cornelium, Ep.51). Na profissão de fé solene, ´O Credo do
Povo de Deus´, o Papa Paulo V diz:
´A Igreja é santa, mesmo
compreendendo pecadores no seu seio, pois não possui outra vida senão a da
graça: é vivendo da sua vida que seus membros se santificam; é subtraindo´se à
vida dela que caem nos pecados e nas desordens que impedem a irradiação da
santidade dela. É por isso que ela sofre e faz penitência por essas faltas, das
quais tem o poder de curar seus filhos, pelo sangue de Cristo e pelo dom do
Espírito Santo´ (Nº 19). Nesta mesma linha de pensamento, o Catecismo da Igreja
afirma que:
´Todos os membros da
Igreja, inclusive os ministros, devem reconhecer´se pecadores´ (Nº 827). Isto
por causa da palavra de Deus que nos diz : ´Se dizemos que não temos pecado,
enganamo´nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os
nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para
nos purificar de toda iniquidade, se pensamos não ter pecado, nós o declaramos
mentiroso e a sua palavra não está em nós´ (1 Jo 1,8´10).
Em quase todos nós, o
joio do pecado ainda se mistura ao bom trigo das virtudes, até o fim da nossa
vida.
Quando a Igreja canoniza
certas pessoas que viveram uma vida conformada à de Cristo ´ os santos e santas
´ que viveram na graça de Deus e praticaram as virtudes de maneira heróica, ela
confirma e reconhece o poder do espírito de santidade que está nela. Esses são
aqueles, como viu São João no Apocalipse, ´os sobreviventes da grande
tribulação; que lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro´
(Ap 7,14). A Igreja os propõe a nós como modelos a serem imitados.
´Diante de Deus, eles
intercedem por nós sem cessar´ (Oração Eucarística).
A pujança dos santos,
presentes em toda a longa história da Igreja, é a grande prova da sua santidade
intrínseca. Eles sempre foram a fonte de renovação da Igreja nas horas mais
difíceis. Foi assim com Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, que
percorreram boa parte da Europa reformando o Carmelo masculino e feminino; foi
assim com São Bernardo e São Domingos, que enfrentaram as heresias dos cátaros
e albigenses do seu tempo; foi assim com São Francisco de Assis, que abraçando
a ´irmã Pobreza´ restaurou a Igreja do seu tempo; foi assim também com Santo
Inácio de Loyola, que fundou a Companhia de Jesus, com total submissão ao Papa,
para edificar a Igreja; e foi assim, com tantos outros grandes santos,
mártires, confessores, virgens, viúvas, jovens e até crianças, que
testemunharam Jesus até o derramamento do sangue.
O brilho dos santos é um
reflexo inequívoco da santidade intrínseca da Igreja. Diz a ´Chirstifidelis
Laici´ que:
´A santidade é a fonte
secreta e a medida infalível da sua atividade apostólica e do seu elã
missionário´ (CL, 17,3).
Certa vez o Papa João
Paulo II disse que:
´A santidade é a força
mais poderosa para levar o Cristo, aos corações dos homens´ (LR Nº 24,
14/06/92, pg 22 [ 338]).
Os santos arrastaram
multidões para Deus pela força imensa da sua santidade. Em outra ocasião o Papa
disse:
´Ser santo, ser apóstolo,
ser evangelizador: eis, caros fiéis, seja este também o vosso constante desejo
e a vossa aspiração... Desde as suas origens apostólicas a Igreja escreveu e
continua a escrever uma história de santidade... Aqueles que seguem fielmente a
chamada à santidade, escrevem a história da Igreja na sua dimensão mais
essencial, isto é, aquela da intimidade com Deus´ (LR Nº 8, 24/2/96, pg 10
[903]).
Porque a Igreja é santa,
na sua própria natureza, a santidade é, então, a vocação de todos os seus
membros.
A ´Lumen Gentium´ afirma
que:
´Todos os fiéis cristãos
são, pois, convidados e obrigados a procurar a santidade e a perfeição do
próprio estado´ (LG, 41).
É a vocação universal da
Igreja, como disse o Concílio:
´O Senhor Jesus, Mestre e
Modelo divino de toda perfeição, a todos e a cada um dos discípulos de qualquer
condição prega a santidade de vida da qual ele mesmo é o autor e o consumador,
dizendo: ´Sede, portanto, perfeitos, assim como também vosso Pai celeste é
perfeito (Mt 5,48)´ (LG,40) ´.
Todos os batizados, sem
exceção, são chamados portanto, à santidade.
´Eles são justificados ´
disse o Concílio ´ porquanto pelo batismo da fé se tornam verdadeiramente
filhos de Deus e participantes da natureza divina, e portanto realmente santos.
É pois, necessário que eles, pela graça de Deus, guardem e aperfeiçoem em sua
vida a santidade que receberam´ (LG,40).
São Paulo exortava os
fiéis de Efeso a viver ´como convém a santos´ (Ef 5,3); aos de Colossos, que
vivessem ´como escolhidos de Deus, santos e amados´ (Col 3,12), de modo a que
´leveis uma vida digna da vocação a qual fostes chamados´ (Ef 4,1). O Apóstolo
afirma aos cristãos de Tessalônica, com toda a convicção que:
´Esta é a vontade de
Deus: a vossa santificação´ (1Tess 4,3).
São Paulo começa quase
sempre as suas cartas, relembrando aos cristãos o chamado à santidade:
´A todos os que estão em
Roma, queridos de Deus, chamados a serem santos...´ (Rom 1,7).
´À Igreja de Deus que
está em Corinto, aos fiéis santificados em Cristo Jesus, chamados à santidade
com todos...´(1 Cor 1,2). ´Bendito seja Deus... que nos escolheu n’Ele antes da
criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus
olhos´(Ef 1,3´4).
´Deus nos salvou e chamou
para a santidade...´ (2Tm 1,9). Desde o Antigo Testamento Deus já tinha chamado
Israel, que prefigurava a Igreja, para a santidade Dele mesmo. Ele disse a
Moisés:
´Eu sou o Senhor que vos
tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santo porque Eu Sou Santo´ (Lv
11,44´45). São Pedro relembra isso aos fiéis em sua primeira Carta; ´A exemplo
da santidade d’Aquele que vos chamou, sede também vós santos, em todas as
vossas ações, pois está escrito: ´Sede santos, porque Eu sou Santo´ (1Pe
1,15´16)´. Na verdade, o chamado de Israel à santidade se confunde com a
Aliança que Deus quis fazer com o povo escolhido. Pela boca do profeta Oséias,
Ele diz:
´Sou Deus e não um homem,
sou Santo no meio de ti´ (Os 11,9). A Moisés Ele diz:
´Vós sereis para Mim um
reino de sacerdotes e uma nação santa´ (Ex. 19,6).
Podemos dizer, portanto,
que a Igreja é uma ´Comunhão na santidade´ de Deus e, por isso, é uma ´comunhão
de santos´. Certa vez o Papa João Paulo II disse em Roma, citando Bernanos: ´A
Igreja não precisa de reformadores, mas de santos´. Os reformadores tantas
vezes agitaram e dividiram o rebanho de Cristo; os santos, ao contrário,
trataram as feridas das ovelhas e as reuniram no aprisco do Senhor. Quando o
Papa esteve no Brasil, ao beatificar Madre Paulina, em Florianópolis, no dia
18/10/91, ele disse: ´A Igreja existe para a santificação dos homens em
Cristo´. E deu um grito, que atravessou todo o nosso país, e ainda está a ecoar
em nossos ouvidos:
´O Brasil precisa de
santos, de muitos santos !´
E completou:
´A santidade é a prova
mais clara, mais convincente da vitalidade da Igreja, em todos os tempos e em
todos os lugares´ (LR, nº 44, 3/11/91).
Enfim, podemos dizer que
a Igreja é Santa; e esta santidade não provém dos homens, mas do próprio Cristo
que nela está, de modo permanente, como Cabeça. E todo cristão, pelo batismo, é
inserido pelo Espírito Santo em Cristo, fazendo´o participar dessa santidade
ontológica; isto é, do próprio Ser de Cristo.
Todo cristão é chamado
portanto a deixar desabrochar em si esta santidade de Cristo. Uma compreensão
errada dessa verdade, com rigorismos radicais, chegou a provocar tensões na
Igreja nos primeiros séculos, por parte de alguns que só queriam na Igreja as
pessoas sem pecados. Assim foram os novacianos no século III e os donatistas no
século IV e V, para os quais os pecadores não deviam pertencer à Igreja. Os
doutores da Igreja reagiram contra essa tendência radical e perigosa, e
ensinaram que a pertença à Igreja não depende da vida moral da pessoa, mas está
no caráter indelével do batismo.
Desta forma a Igreja
sempre será formada de santos e pecadores, como Jesus deixa claro na parábola
do joio e do trigo (Mt 13,24´30.36´43). Por causa da fraqueza dos cristãos, o
pecado existe na Igreja, mas podemos dizer que não é da Igreja. O pecado que
está em nós não pertence à Igreja. Neste sentido, afirma D.Estevão Bettencourt
que ´as fronteiras da Igreja passam por cada cristão´ (Curso de Iniciação
Teológica, Mod. 21, pág. 85). O agente do pecado não pode ser a Igreja, porque
ela é uma Instituição, mas as pessoas que a formam. Por sua natureza a Igreja é
sem mancha, já que Cristo a purificou com o seu sangue (Ef 5,25´27). Contudo
ela carrega os pecados de seus filhos; mas estes não são seus propriamente
dito.Como disse Karl Rahner:
´Igreja Santa de homens
pecadores´. Embora os pecados sejam pessoais, é lógico que prejudicam a saúde
do Corpo todo. Isto aconteceu muito na história da Igreja. Por exemplo, a
simonia (comércio com as coisas sagradas), as investiduras leigas dos séculos
IX e X, prejudicaram a disciplina da Igreja, depois restaurada pelo grande Papa
São Gregório VII, falecido em 1085.
No século XVI houve o
forte espírito renascentista, que também abalou a vida da Igreja, trazendo para
dentro dela uma tendência liberal e relativista que promoveu de certa forma a
reforma protestante. É por isso que os protestantes afirmam que ´a Igreja há de
ser sempre reformada´, e então, cada reformador protestante começa uma ´nova
Igreja´ independente das demais. Foram milhares, de reformadores em quase cinco
séculos de protestantismo, esfacelando´o cada vez mais e diluindo a doutrina da
fé.
O catolicismo, ao
contrário, fala de reformas ´na´ Igreja, mas não reformas ´da´ Igreja. Ela deve
se manter intacta na sua estrutura essencial, como Cristo a quis (cf Mt 16,18).
As autoridades legítimas da Igreja podem e devem promover as reformas
necessárias, por exemplo, na Liturgia, na disciplina, na catequese, etc. Há
inclusive alguns critérios que norteiam a hierarquia nesta questão: 1º) Guardar
a caridade é mais importante do que ´belas idéias´, que algumas vezes podem
promover divisão e escândalos; 2º) Permanecer na comunhão com a Igreja. Por
exemplo, São Francisco de Assis (1226) e São Domingos de Gusmão (1221), autênticos
reformadores, afastaram´se das falhas dos homens sem romper com a Igreja. 3º)
Ter paciência e saber aguardar os momentos oportunos, respeitando o processo de
cada pessoa.
Igreja Infalível
Como a Igreja foi fundada
por Jesus para levar os homens à salvação, pelo ´conhecimento da verdade´ (1 Tm
3,15), então, o Senhor garantiu a ela a infalibilidade naquilo, e só naquilo,
que se refere à salvação dos fiéis; isto é, nos ensinamentos doutrinários.
Assim, a mensagem do Evangelho não ficaria à mercê da manipulação dos homens,
como sempre se tentou na história da Igreja. Sem a garantia da infalibilidade
para o Magistério da Igreja, podemos dizer que teria sido inútil a Revelação
Divina, pois ela seria deteriorada ao chegar até nós, e não teria a força da
salvação.
O Papa João Paulo II ao
apresentar o novo Catecismo disse : ´Guardar o depósito da fé é a missão que o
Senhor confiou à Sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos´ (FD,
introdução). Esta é portanto ´a missão´ sagrada que a Igreja recebeu do Senhor:
´guardar o depósito da fé´, intacto; e isto a Igreja sempre fez e faz. É com
esta finalidade que a Santa Sé possui a ´Sagrada Congregação Para a Doutrina da
Fé ´, encarregada de zelar pela pureza da doutrina em todo o mundo católico.
Infelizmente essa Sagrada Congregação, da maior importância para a Igreja e
para a nossa salvação, muitas vezes é criticada dentro da própria Igreja,
especialmente quando ela chama a atenção daqueles teólogos que começam a
caminhar fora da doutrina da Igreja, confirmada pelo Espírito Santo em toda a
caminhada de dois mil anos da Igreja. Mas é preciso dizer que essa Congregação
é de inteira confiança do Papa, assim como as demais. Assim ele se expressou
aos seus membros, no encerramento da Assembléia Plenária dessa Congregação, no
dia 24 de novembro de 1995: ´O vosso trabalho, em muitos aspectos difícil e
empenhativo, é de importância fundamental para a vida cristã. Com efeito, ele
tem por objetivo a promoção da integridade e da pureza da fé, condições
essenciais para que os homens e as mulheres do nosso tempo possam encontrar a
luz para entrar na via da salvação´ [LR, Nº 50, 16/12/95,pag 14(614)].
A Igreja tem a missão de
fazer ´resplandecer a verdade do Evangelho´, disse o Papa. ´Ao Concílio, o Papa
João XXIII tinha confiado como tarefa principal guardar e apresentar melhor o
precioso depósito da doutrina cristã ...´ (FD, Introdução). A grande
preocupação da Igreja sempre foi ser fiel ao seu Senhor, guardando intacto
aquilo que dEle recebeu, o ´depositum fidei´ (depósito da fé), ou, como dizia
São Paulo a Timóteo e a Tito, a ´sã doutrina´. Podemos notar que nas Cartas
pastorais que São Paulo escreveu a S.Timóteo e a S.Tito, a quem ordenou bispos,
a grande preocupação do Apóstolo é com a doutrina, para que essa não se
corrompesse com o passar do tempo e com a transmissão oral ou escrita. Veja
essas passagens: ´Torno a lembrar´te a recomendação que te dei...para impedir
que certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes...´(1Tm1,3).
´Recomenda esta doutrina
aos irmãos, e serás bom ministro de Jesus Cristo, alimentando com as palavras
da fé e da sã doutrina...(1Tm4,6). ´Quem ensina de outra forma... é um obcecado
pelo orgulho, um ignorante...(1Tm6,3´4). ´O´ Timóteo, guarda o bem que te foi
confiado!´(1Tm6,20). ´Guarda o precioso depósito!´ (2Tm1,14). ´Porque virá
tempo que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação´ (2Tm4,3). A
S.Tito, vemos as mesmas recomendações de S.Paulo. Falando das qualidades que
deve ter o bispo, ele diz: ´...firmemente apegado à doutrina da fé tal como foi
ensinada, para poder exortar segundo a sã doutrina e rebater os que a
contradizem´(Tt 1,9). ´O teu ensinamento, porém, seja conforme a sã doutrina...(Tt
2,1). ´...mostra´te em tudo modelo de bom comportamento: pela integridade da
doutrina,...´(Tt 2,7). ´Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com
constância e firmeza...(Tt 3,8). Na sua grande preocupação com a sã doutrina,
S.Paulo diz aos gálatas, com toda severidade: ´Não há dois evangelhos: há
pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de
Cristo. Mas, ainda que alguém ´ nós, ou um anjo baixado do céu ´ vos anunciasse
um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema
[maldito]. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina
diferente da que recebestes, seja ele excomungado!´(Gal 1,7´10).
Ao longo da sua história
a Igreja realizou 21 Concílios Ecumênicos (universais) para manter intacta essa
´sã doutrina´. Foram muitas vezes momentos difíceis para a Igreja, porque, por
não aceitar a verdade muitos irmãos se separaram da unidade católica; mas foram
momentos de luzes para a caminhada da Igreja. Falando desses Concílios, disse o
Papa João Paulo II: ´Os grandes Concílios foram momentos de graça para a vida
da Igreja universal ... Eles representam um ponto de referência indiscutível
para a Igreja universal´. ´Esses foram momentos de graça, através dos quais o
Espírito de Deus concedeu luzes abundantes sobre os mistérios fundamentais da
fé cristã´ (LR, nº 28, 13/7/96). É sobretudo nos Concílios que a Igreja exerce
a sua infalibilidade em matéria de fé e de moral. Não se conhece na história da
Igreja (de 2000 anos!) uma verdade da fé que um dos Concílios, legítimos, tenha
ensinado e que outro tenha revogado. Essa ocorrência doutrinária é uma prova da
infalibilidade, já que o Espírito Santo, o grande Mestre da Igreja, não se
contradiz. Ele não pode revelar à Igreja uma verdade hoje, que seja diferente,
na essência, daquilo que Ele revelou ontem.
Um dia Jesus disse aos
Apóstolos : ´Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado
no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será desligado no céu´ (Mt
18,18).
Essa mesma grande
promessa que Ele já tinha feito a Pedro, como Cabeça visível da Igreja (cf Mt
16,18), estende para todo o Colégio Apostólico unido e submisso a Pedro. E
ainda mais, Jesus disse aos Apóstolos: ´Quem vos ouve, a Mim ouve, e quem vos
rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou´ (Lc
10,16). Depois dessa promessa, como não entender a infalibilidade da Igreja?
Jesus garante que a palavra da Igreja é a Sua palavra. Quem rejeita o
ensinamento dos Apóstolos, rejeita o próprio Senhor e o Pai que o enviou. Isto
é muitíssimo sério. Rejeitar o que ensina a Igreja é rejeitar o que Jesus
ensina, é rejeitar o que o Pai ensina; é rejeitar Jesus e o Pai.
Antes de voltar ao Céu,
na Ascensão, Jesus disse aos Apóstolos (à Igreja):
´Toda autoridade me foi
dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações ... Ensinai´as a
observar tudo o que vos prescrevi´ (Mt 28, 19´20).
Jesus envia a Igreja, que
nascia com os Apóstolos, a ´ensinar a todas as nações´ a Sua doutrina. Sabemos
que Deus sempre dá a graça necessária para se poder cumprir uma missão que Ele
ordena. A graça, neste caso, foi a assistência do Espírito Santo para que a
Igreja ensinasse sem erro. Antes de subir ao céu o Senhor garantiu:
´Eis que estarei convosco
todos os dias até o fim do mundo´ (Mt 28,20).
Esta é a última frase do
Evangelho de S. Mateus, e ela nos garante que o próprio Senhor está no seio da
sua Igreja, através do Espírito Santo, prometido e enviado em Pentecostes, para
impedi´la de errar em matéria fundamental para a salvação dos homens. Para
aceitar que a Igreja, nesses 2000 anos possa ter errado o ´caminho da
salvação´, e desvirtuado o Evangelho, como querem os protestantes, seria
preciso aceitar antes, que Jesus a abandonou, e não cumpriu a Promessa de estar
sempre com a Igreja até o fim do mundo. Mas isto jamais; Jesus é fiel e ama a
sua Igreja como Esposa, com amor indissolúvel, pela qual deu a Sua vida. Disse
São Paulo que ´Cristo amou a Igreja e se entregou por ela´ (Ef 5,25).
Como então, admitir que a
Igreja errou o caminho da salvação como quiseram os protagonistas da Reforma
Protestante? É muito importante notar o que São Paulo disse a S. Timóteo: ´Deus
quer que todos se salvem, e cheguem ao conhecimento da verdade´ (1 Tm 2,4).
Para o Apóstolo, chegar à
salvação é o mesmo que ´chegar ao conhecimento da verdade´. É essa verdade (a
sã doutrina), que Jesus confiou aos Apóstolos, e lhes incumbiu de ensinar a
todas as nações, que leva à salvação.
Em seguida S. Paulo vai
dizei ao seu discípulo fiel que: ´A Igreja do Deus vivo é a coluna e o
sustentáculo da verdade´ (1 Tm 3,15). Dizer que a Igreja é a ´coluna e o
sustentáculo da verdade´, é o mesmo que dizer que sem ela a verdade não fica de
pé, não se sustenta. É o mesmo que dizer que a Igreja é infalível, através do
seu Magistério. Sem ela a doutrina de Jesus não teria chegado intacta até nós.
Como disse Teilhard de Chardin: ´Sem a Igreja, o Cristo se evapora, se esfacela
ou se anula´. São Paulo e os demais apóstolos tiveram uma grande preocupação
com a ´sã doutrina´, o sagrado depósito que receberam diretamente de Cristo e
passaram a seus sucessores. Jesus insistiu sobre a importância da Verdade.
Disse a Pilatos, que Ele veio ao mundo ´para dar testemunho da verdade´ (Jo
18,37).
Aos judeus que nele
creram ele disse:
´Se permanecerdes na
minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará´ (Jo 8,32). Aos discípulos Ele afirmou:
´Eu sou a Verdade´ (Jo
14,6). Na oração sacerdotal Ele pede ao Pai: ´Santifica´os na verdade´ (Jo
17,17). São Paulo alerta os tessalonicenses que aqueles que se perderem diante
das tribulações que a Igreja terá que atravessar antes da volta do Senhor, será
´por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar´(2Tes
2,10). ´Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito
à verdade, mas consentiram no mal´ (2 Tes 2,12). São Paulo deixa claro aqui que
se perderão aqueles que diante das falsas doutrinas, preferirem os ensinamentos
dos homens à verdade de Deus, ensinada pela Igreja. ´Não deram crédito à
verdade´. É preciso relembrar aqui, mais uma vez o que disse o Apóstolo: ´A
Igreja do Deus vivo é a coluna e o sustentáculo da verdade´(1Tm3,15). Não
existe portanto ninguém, e nenhuma outra instituição, fora da Igreja católica,
que detenha a verdade infalível, em matéria de fé e de moral.
Todas essas passagens
mostram a importância da verdade, a qual vivida, liberta do mal e salva. É essa
verdade que Jesus garantiu à Igreja ensinar sem erro até o fim do mundo.} E o
nosso Catecismo, com todas as letras, confirma isso: ´Deus quer a salvação pelo
conhecimento da verdade. A salvação está na verdade. Os que obedecerem à moção
do Espírito de verdade já estão no caminho da salvação; mas a Igreja, a quem
esta verdade foi confiada, deve ir ao encontro do seu anseio levando´lhes a
mesma verdade´ (CIC, 851). Sobre onde está a verdade de Deus, nos ensina Santo
Ireneu (†202), desde o segundo século da Igreja: ´Sendo nossas provas de tal
monta, não é preciso ir procurar alhures a verdade, tão fácil de se haurir na
Igreja, pois os apóstolos, como num rico celeiro, aí depuseram a verdade, em
sua plenitude, a fim de que todo o que desejar tire dela a bebida da vida. Nela
está o acesso à vida; todos os demais são salteadores e ladrões. Por isto é
necessário evitá´los, e de outro lado amar com extremo amor tudo o que é da
Igreja, retendo fortemente a tradição da verdade´(Contra as Heresias,
liv.1.III,1,1´2; 3,1´3; 4,1).
O mesmo Santo Ireneu, no
combate acirrado contra os hereges gnósticos, falava da infelicidade dos que
abandonam a verdade e a Igreja:
´A pregação da Igreja
apresenta por todos os lados firme solidez, perseverando idêntica e
beneficiando´se, como pudemos mostrar, com o testemunho dos profetas, apóstolos
e seus discípulos, testemunho este que engloba o começo, o meio e o fim, isto
é, a totalidade da ´economia´ de Deus e de sua operação infalivelmente ordenada
à salvação do homem, fundamento de nossa fé. Eis porque esta fé, que recebemos
da Igreja, guardamos com cuidado, como um depósito de grande valor, encerrado
em vaso excelente e que, sob a ação do Espírito de Deus, se renova e faz
renovar o próprio vaso que a contém. Pois como fora entregue o divino sopro ao
barro modelado, foi confiado à Igreja o ´Dom de Deus´(Jo 4,10), afim de que
todos os seus membros pudessem dele participar e ser por ele vivificados. À
Igreja foi entregue a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor da
incorruptibilidade, confirmação de nossa fé e escada de nossa ascensão para Deus:
´na Igreja´, foi dito, ´Deus colocou apóstolos, profetas, doutores´ (1Cor12,1)
e tudo o mais que pertence à operação do Espírito. Deste Espírito se excluem os
que, recusando´se a aderir à Igreja, se privam a si mesmos da vida, por suas
falsas doutrinas e depravadas ações. Porque onde está a Igreja está o Espirito
de Deus, e onde está o Espírito de Deus está a Igreja e toda graça. Ora, o
Espírito é Verdade. Assim, os que dele não participam são também os que não
estão sendo nutridos e vivificados pelos peitos da Mãe, os que não têm parte na
fonte límpida que brota do Corpo de Cristo, os que ´escavam cisternas
dessecadas´(Jr2,13), buracos na terra, os que bebem a água poluída do pantanal.
Eles fogem da Igreja para não serem desmascarados e rejeitam o Espírito para
não serem instruídos. Tornando´se estranhos à verdade, é fatal que se
precipitem em todo erro e pelo erro sejam sacudidos; fatal que pensem a cada
momento diversamente sobre as mesmas coisas, nunca tendo doutrina estável,
sendo sofistas de palavras mais que discípulos da verdade. Porque não estão
fundados sobre a única Rocha, mas sobre a areia, a areia dos muitos saibros´
(Contra as Heresias, liv.III,24,1). Na mesma linha de pensamento de Santo
Ireneu, afirmava também o grande Santo Epifânio (†403), grande batalhador
contra as heresias:
´ ´Há um caminho real´,
que é a Igreja católica, e uma só senda da verdade. Toda heresia, pelo
contrário, tendo deixado uma vez o caminho real, desviando´se para a direita ou
para a esquerda, e abandonada a si mesma por algum tempo, cada vez mais se
afunda em erros. Eia, pois, servos de Deus e filhos da Igreja santa de Deus,
que conheceis a regra segura da fé, não deixeis que vozes estranhas vos apartem
dela nem que vos confundam as pretensões das erroneamente chamadas ciências´
(Haer.59,c. 12s). Também São Vicente de Lerins (†450) da mesma época dos
anteriores citados, também ele combatente da heresia pelagiana, afirma:
´Perguntando eu com toda
atenção e diligência a numerosos varões, eminentes em santidade e doutrina, que
norma poderia achar, segura, enquanto possível genérica e regular, para
distinguir a verdade da fé católica da falsidade da heresia, eis a resposta
constante de todos eles: quem quiser descobrir as fraudes dos hereges
nascentes, evitar seus laços e permanecer sadio e íntegro na sadia fé, há de
resguardá´la, sob o auxílio divino, duplamente: primeiro com a utoridade da Lei
divina, e segundo, com a tradição da Igreja Católica´ (Commonitorium). Santo
Agostinho (†430), também deixa o seu testemunho: ´Parece´me salutar fazer essas
recomendações aos jovens estudiosos, inteligentes e tementes a Deus, que
procuram a vida bem´aventurada: que não se arrisquem sob o pretexto de tender à
vida feliz e que não se dediquem temerariamente a seguir doutrina alguma das que
se praticam fora da Igreja de Cristo´. Na última vez que Jesus esteve com os
seus Apóstolos, na última Ceia, na hora do adeus, antes de sofrer a sua paixão,
garantiu´lhes a infalibilidade para conhecer e ensinar a verdade que salva.
Desde o capítulo 13 até o 17 São João narra no seu Evangelho tudo o que
aconteceu naquela Ceia memorável onde o Senhor instituiu o Sacerdócio e a
Eucaristia. Esses cinco capítulos (13 a 17) revestem´se de uma importância
especial, já que são as ´últimas palavras e recomendações´ de Jesus à Igreja. É
fácil compreender a sublimidade desta hora. Pois bem, nesta noite sagrada o
Senhor lhes garante a infalibilidade por três vezes, segundo narra São João,
testemunha ocular daqueles acontecimentos. Jesus começa dizendo aos Apóstolos:
´Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Advogado, para que fique eternamente
convosco. É o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o
vê, nem o conhece; mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará
em vós´(Jo 14,16´17).
Que garantia maior de
infalibilidade Jesus poderia ter dado à Sua Igreja, do que deixando nela o seu
próprio Espírito, que Ele chama de Espírito da Verdade? Se Ele permanecerá com
a Igreja, como ela poderia errar em matérias essenciais `a salvação? É preciso
notar que Jesus disse que o Espírito Santo seria dado ´para que fique
eternamente convosco´. E garantiu ainda que Ele ficaria com a Igreja e estaria
na Igreja. ´Permanecerá convosco e estará em vós´. Para aceitarmos que a Igreja
tenha errado o caminho da verdade, como quiseram Lutero e seus seguidores,
depois de 1517 anos, seria preciso antes concordar que o Espírito Santo, ´o
Espírito da Verdade´, tenha abandonado a Igreja. Mas isto jamais poderia ter
acontecido, pois Ele foi dado para ficar ´eternamente convosco´. As promessas
de Jesus para a Sua Igreja são infalíveis, porque Jesus não é um farsante e nem
um mentiroso. Naquela hora memorável que antecedia a Sua paixão, Ele não estava
brincando com os seus Apóstolos e com a Sua Igreja. Ele se despedia dela com as
suas últimas e mais importantes promessas, para em seguida sofrer, por amor a
ela, a sua dolorosa paixão. Infelizmente o orgulho e a soberba espiritual cegam
os olhos da alma e não deixam que suas vítimas enxerguem essa verdade. Em que
pese os pecados dos seus filhos, mesmo assim, a Igreja jamais perdeu o domínio
da verdade. Infalibilidade, é preciso repetir mais uma vez, não quer dizer
impecabilidade. Naquela mesma noite memorável Jesus diz mais uma vez aos
Apóstolos:
´Disse´vos estas coisas
enquanto estou convosco. Mas o Advogado, o Espírito Santo que o Pai enviará em
meu nome, ensinar´vos´á TODAS as coisas, e vos recordará TUDO o que vos tenho
dito´ (Jo 14,25´26). Que garantia maior de infabilidade Jesus poderia ter dado
à Igreja do que essa Promessa de que o Espírito Santo ´ensinar´vos´à todas as
coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito´? Como, então, a Igreja
poderia se enganar? Para aceitar a Reforma Protestante, que negou ´quinze
séculos´ de caminhada da Igreja, guiada dia a dia pelo Espírito Santo, seria
preciso aceitar antes, que Jesus enganou a Sua Igreja, mentiu para ela e não
cumpriu a promessa de assistí´la sempre com a Verdade. Mas isto nunca! Jesus é
o Esposo da Igreja; Ele deu a sua vida por ela (Ef 5,25), e jamais a abandonou
nem a abandonará até o fim dos tempos. ´Eis que estou convosco todos os dias
até o fim do mundo!´ (Mt 28,18).
A Reforma protestante
negou os dogmas, os sacramentos, a Igreja como instituição divina, a Sagrada
Tradição, o Sagrado Magistério, a Sagrada Hierarquia, as sagradas devoções
católicas, enfim, toda a Tradição apostólica (de quinze séculos !),
testemunhada pelo sangue dos Mártires e dos Confessores e confirmada pelos
Papas. Será que os Apóstolos se enganaram? Será que os mártires, testemunhas de
Cristo com o próprio sangue, se enganaram? Será que os Santos Padres nos
mentiram? Será que os santos doutores erraram o caminho da fé?... É
interessante notar que hoje muitos pastores protestantes estão se convertendo
ao Catolicismo. A Revista americana ´Sursum Corda!´ Special Edition 1996
informa que nos últimos dez anos cerca de cincoenta pastores americanos se
converteram, sendo que muitos outros estão a caminho da Igreja Católica. As
três causas mais frequentes apontadas por eles são: 1 ´ o subjetivismo
doutrinário que reina entre as várias denominações protestantes, em
consequência do princípio ´a Bíblia como única fonte da fé´, e do seu ´livre
exame´ por cada crente, o que dá margem a muitas interpretações diferentes para
uma mesma questão de fé e de moral; 2 ´ o re´estudo dos escritos dos Santos
Padres, aqueles que contribuíram decididamente para a formulação correta da
doutrina católica: a Santíssima Trindade, Jesus Cristo, a Igreja, os
Sacramentos, a graça, etc..., e que vão desde os apóstolos até S. Gregório
Magno (†604) no Ocidente, e até S. João Damasceno (†749) no Oriente; 3 ´ a
definição do Cânon da Bíblia, isto é dos seus livros, que não é deduzida da
própria Bíblia, mas da Tradição oral da Igreja. É a Igreja que abona a Bíblia e
não o contrário. A análise profunda desses pontos têm mostrado a muitos
pastores os enganos do protestantismo (PR, n.419,abril de 97, pp.146 a 160). Aí
está a garantia de tudo que a Igreja ensina e que o Espírito Santo, o Seu
Mestre, lhe ensinou nestes 20 séculos: os dogmas do Credo, as verdades sobre a
Virgem Maria, os Sacramentos, a Moral católica, etc. Repito mais uma vez, com
toda a convicção: negar que os ensinamentos do Magistério da Igreja são
verdadeiros, é o mesmo que negar as promessas de Jesus aos Apóstolos na última
Ceia.
Enfim, pela terceira vez,
naquela Ceia inesquecível, o Senhor afirma mais uma vez à sua Igreja, de
maneira mais forte ainda: ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos, mas não as
podeis suportar agora. Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade,
ensinar´vos´á TODA a verdade...´(Jo 16,12). Que promessa maravilhosa de Jesus
para a Igreja! ´O Espírito da Verdade ensinar´vos´á TODA a verdade´. Naquela
hora Jesus sabia que os Apóstolos já não tinham mais condições psicológicas
para aprenderem novos ensinamentos. ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos´.
Isso mostra claro que Jesus não ensinou tudo para os Apóstolos, mas deixou o
Espírito Santo para conduzi´los ´a toda a verdade´. Com o passar dos anos e dos
séculos, com muita oração, meditação, Concílios e provações, o Espírito Santo
foi guiando, e vai guiando hoje, a Igreja, a descobrir, lentamente, ´toda a
verdade´. Não apenas uma parte da verdade, mas ´TODA a verdade´. São Vicente de
Lerins (†450), afirmava: ´É necessário que cresçam e vigorosamente progridam a
compreensão, a ciência e a sabedoria da parte de cada um e de todos, seja de um
só homem como de toda a Igreja, à medida que passam as idades e os séculos´
(Communitorium). Vemos assim que, de maneira muito marcante, na última noite, na
hora solene do Adeus, Jesus garantiu à Igreja a assistência infalível do
´Espírito da Verdade´ para conduzi´la sempre à verdade que liberta e salva. ´Eu
rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Advogado, para que fique eternamente
convosco´( Jo 14,16). O grande Santo Ireneu (†202), que combateu com zelo as
heresias do seu tempo, nos assegura: ´É realmente verdadeira e firme a pregação
da Igreja, onde aparece a única via de salvação em todo o mundo. Com efeito à
Igreja foi confiada a luz de Deus, e portanto a ´sabedoria´ de Deus, pela qual
Ele salva os homens.... Por toda a parte a Igreja anuncia a verdade: ela é o
candelabro de sete luzes ( Ap 2,1) que transporta a luz de Cristo...convém
refugiar´se na Igreja e ser educado em seu grêmio, nutrido com as santas
Escrituras do Senhor. Pois a Igreja está plantada neste mundo como o Paraíso.´
( Contra as Heresias, liv. V, cap. 20). Meu irmão católico, saiba que Jesus não
poderia ter deixado um tesouro maior para a Igreja do que a sua doutrina, o
´depósito da fé´, com a garantia de que jamais ele seria corrompido, por causa
da assistência do Espírito Santo. É por isso que podemos garantir, em Nome do
Espírito Santo, que o Catecismo da Igreja, os documentos dos Concílios, os
ensinamentos dos Papas, são a mais pura verdade de Deus. É por isso que o
Apóstolo garante:
´A Igreja é a coluna e o
sustentáculo da verdade´ (1Tm 3,15). O bom católico, o católico fiel e
convicto, não pode duvidar de nada que a Santa Igreja Católica ensina. São maus
filhos da Igreja aqueles que discordam dos seus ensinamentos oficiais.
Discordar da Igreja nesses pontos é o mesmo que discordar de Jesus e desconfiar
da assistência infalível que o Espírito Santo presta à Igreja, por promessa de
Jesus. Longe, muito longe de nós esta terrível tentação. Quando a Igreja nos
ensina qualquer verdade de fé ou de Moral, é porque ela estudou muito a fundo a
questão, orou muito sobre isto, perscrutou o que o Espírito Santo lhe tinha a
dizer, antes de nos ensinar. As verdades reveladas, muitas vezes incompreensíveis
para quem não estudou teologia, não devem ser para nós motivo de discordância
ou de desconfiança, por se tratarem de dogmas. Pelo contrário, todo e qualquer
ensinamento do Magistério da Igreja deve ser recebido com gratidão e alegria, e
imediatamente colocado em prática, como algo vindo a nós do próprio Jesus. É
lamentável que muitos católicos se deixem abalar quando pessoas de outras
religiões neguem as verdades de nossa fé, solidamente consolidadas. Eis aí uma
questão que nos deve fazer estudar e aprofundar a nossa fé. São Pedro já dizia
aos cristãos do seu tempo: ´Estai preparados para apresentar aos outros a razão
da vossa esperança´ (1Pe3,15). Gostaria de insistir neste ponto: mesmo que eu
não compreenda bem aquilo que a Igreja nos ensina, devo acatar de imediato, e
buscar compreender o que significa o que nos foi ensinado. Certa vez o Cardeal
Ratzinguer disse que os dogmas de nossa fé não são cadeias, ao contrário, são
´janelas que se abrem para o infinito´. É lamentável que vez ou outra surja um
teólogo moderno (mais moderno do que verdadeiramente teólogo!), ousando
desafiar a perenidade do dogma ou contestando a sua verdade. É preciso
compreender que infalibilidade não quer dizer impecabilidade. Sabemos que há
pecados entre os membros da Igreja, contra a sua vontade, mas isto não impede
que ela seja infalível quando conduz os seus filhos no caminho da verdade que
salva. Mediante o Espírito Santo, enviado por Jesus à Igreja, de maneira
permanente, Ele garante ao Papa não cometer erros de doutrina, quando ensina
´ex´cátedra´, isto é, em caráter decisivo e definitivo, alguma matéria de fé ou
moral. Sobre os pecados dos filhos da Igreja, de todos os tempos, Santo
Agostinho nos ensina a não nos deixarmos abater por causa deles: ´Não vos
enganeis irmãos. Se não quereis sofrer uma decepção e desejais amar vossos
irmãos com sinceridade, sabeis que todos os estados e profissões da Igreja têm
sua porcentagem de farsantes... Há cristãos falsos, mas há também os
irrepreensíveis´. A infalibilidade não se estende aos assuntos científicos:
física, química, matemática, astronomia, etc. Somente nos assuntos de fé e de
moral, propostos aos fiéis como obrigatórios, é a que Igreja goza da
assistência infalível do Espírito Santo. Exemplos disso são os dogmas
proclamados pelos Papas ou por algum Concílio. Por exemplo, em 1854, o Papa Pio
IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora; em 1950, o Papa
Pio XII proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de corpo e de
alma; em 22/05/94, o Papa João Paulo II pronunciou em caráter definitivo e
irrevogável, através da Carta Apostólica ´Ordinatio Sacerdotalis´, a proibição
de ordenação sacerdotal de mulheres: Assim se expressou o Papa, nesse caso:
´Para que seja excluída qualquer dúvida em assunto de máxima importância, que
pertence à própria constituição da Igreja divina, em virtude do meu ministério
de confirmar os irmãos (Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a
faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve
ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja´. Esta, por
exemplo, é uma matéria cuja discussão na Igreja está encerrada, para sempre, já
que temos uma declaração ´definitiva´ do Papa sobre o assunto. Infelizmente,
logo após esta declaração do Papa, muitos dentro da Igreja mostraram a sua
discordância. Foi necessário, inclusive, que a ´Sagrada Congregação da Fé´, se
pronunciasse dizendo que se tratava de uma definição ´ex´cáthedra´ do Sumo
Pontífice, e que, como tal, não admite contestação ou recorrência. A
infalibilidade do Papa foi definida no Concílio Vaticano I, em 1870, embora a
Igreja, desde os seus primórdios já acreditasse nisso:
´Aderindo fielmente à
tradição recebida desde o princípio da fé cristã..., declaramos e definimos,
como dogma de fé divinamente revelado, que o Pontífice Romano, quando fala
´ex´cáthedra´, isto é quando, no desempenho do seu múnus de pastor e doutor de
todos os cristãos, define, com a sua suprema autoridade Apostólica, doutrina
respeitante à fé e à moral, que deva ser crida pela Igreja universal, pois
possui, em virtude da assistência divina, que lhe foi prometida na pessoa do
Bem´aventurado Pedro, a infalibilidade de que o Divino Redentor revestiu a sua
Igreja, ao definir doutrina atinente à fé e à moral; e que, portanto, as
definições do Romano Pontífice são irrefragáveis por si mesmas, e não em
virtude do consenso da Igreja´( De Ecclesia Christi, c.IV). O Concílio Vaticano
II, quase 100 anos depois, reafirmou este mesmo dogma, dizendo que: ´O Romano
pontífice, cabeça do Colégio Episcopal, goza desta infalibilidade em virtude do
seu ofício, quando define uma doutrina de fé ou de costumes, como Supremo
Pastor e Doutor de todos os cristãos, confirmando na fé os irmãos (cf Lc
22,32). Por isso, as suas definições são irreformáveis só por si, sem
necessidade do consentimento da Igreja, uma vez que são pronunciadas sob a
assistência do Espírito Santo, prometida ao Papa na pessoa de Pedro; não
precisam da aprovação de ninguém, nem admitem qualquer apelo a outro juízo. É
que nestes casos, o Romano Pontífice não dá uma opinião como qualquer pessoa
privada, mas propõe ou defende a doutrina da fé como Mestre Supremo da Igreja
Universal, dotado pessoalmente do carisma da infalibilidade que pertence à
própria Igreja (LG 25). É preciso ter em mente que uma definição papal nunca é
uma decisão rápida, pouco pensada, ou que dispense longos anos de estudo e
oração. Essas definições são a conclusão de um processo lento, durante o qual
uma verdade contida no depósito da Revelação vai se tornando ´visível´ à
hierarquia e ao povo de Deus. É apenas a proclamação explícita de uma verdade
que ainda não era conhecida mas que já pertencia ao depósito da fé. O que leva
algumas vezes o Magistério da Igreja a fazer a proclamação de uma verdade de
fé, é o surgimento de alguma heresia ou contestação a essa verdade já aceita
pela Igreja. Portanto, as definições ´ex´cathedra´, pronunciadas pelo Papa, são
raras. O Magistério ordinário da Igreja, exercido pelos bispos quando ensinam
em comunhão com o Papa é o caminho normal pelo qual a Igreja nos ensina. Não é
necessário que uma verdade seja solenemente definida pelo sucessor de Pedro,
para que pertença ao depósito da fé; basta que esta verdade tenha sido sempre e
em toda parte professada pelos cristãos. São Vicente de Lerins (†450), dizia
que: ´O que todos em toda parte e sempre acreditaram, isso é verdadeira e
propriamente católico´(Communitorium). Três condições são necessárias para que
uma definição do Papa tenha caráter de dogma, sentença infalível:
1. É necessário que ele
fale ´ex´cathedra´, isto é, de maneira decisiva, como Pastor e Mestre dos
cristãos, e não apenas de modo particular. Ele não é obrigado a consultar algum
Concílio e ninguém, embora possa fazê´lo, e quase sempre o faz.
2. A matéria a ser
definida se refira apenas à fé e à moral; isto é, se relacione com a crença e o
comportamento dos cristãos.
3. Que o Sumo Pontífice
queira proferir uma sentença definitória e definitiva, irrevogável, imutável,
sobre o assunto em questão. Somente a sentença final é objeto da
infalibilidade, e não os argumentos e as conclusões derivadas da sentença
proclamada. E não há uma fórmula única de redação para a definição dogmática.
Os termos normalmente usados pelos Papas são:´pronunciamos´, ´definimos´,
´decretamos´, ´declaramos´, etc. Em 8/12/1854, ao proclamar o dogma da
Imaculada Conceição de Maria, o Papa Pio IX, na Bula ´Inefabilis Deus´ disse:
´Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual, por uma
graça e um privilégio especial de Deus Todo Poderoso e em virtude dos méritos
de Jesus Cristo, salvador do mundo, a bem´aventurada Virgem Maria foi
preservada de toda mancha do pecado original no primeiro instante de sua
Conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser crida firmemente
e constantemente por todos os fiéis´. Note que o Papa afirma que essa verdade
´foi revelada por Deus´; isto é, sempre esteve no depósito da fé, embora não
apareça de maneira explícita na Bíblia. Na proclamação do dogma da Assunção de Maria
ao céu, o Papa Pio XII na Constituição Apostólica ´Munificientíssimus Deus´,
proclamou diante de 36 Cardeais, 555 Patriarcas, Bispos, Arcebispos, e perante
cerca de um milhão de fiéis, no dia 1/11/1950: ´Depois de haver mais uma vez
elevado a Deus nossas súplicas e invocado as luzes do Espírito Santo ...
pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma de fé revelado por Deus que: a
Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida
terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma´. Também aqui o Papa
repete a expressão ´foi revelado por Deus´. Alguém poderia perguntar como foi
revelado por Deus, se isto não está explicitamente na Bíblia? Pode não estar na
Revelação da Palavra de Deus escrita, mas está na Revelação oral como nos
mostra a vida da Igreja. Aqueles que rejeitaram a Tradição oral não conseguem
entender isto. Quando um documento do Papa não permite aos teólogos saber se
nele consta uma definição ´ex´cathedra´, neste caso se julga que não se trata
de sentença obrigatoriamente imposta à fé dos cristãos, embora possa haver
grave obrigação de se crer na proposição feita, em vista da autoridade do
Pastor. Poucas vezes na história da Igreja os Papas tiveram a necessidade de se
pronunciar ´ex´cathedra´. Podemos relatar, em ordem cronológica a lista das
definições pontifícias. Resumiremos a seguir o que foi apresentado por D.
Estevão Bettencourt, na revista ´Pergunte e Responderemos´ (nº 381, pp. 67 a
72, 1994).
1 ´ Em 449, a carta do
Papa São Leão Magno a Flaviano, bispo de Constantinopla, expunha a sã doutrina
sobre o mistério da Encarnação ´em Cristo há uma só Pessoa (a Divina) e duas
naturezas´ (divina e humana). Esta carta foi enviada pelo Papa ao Concílio
Ecumênico de Calcedônia, no ano 451 e os Padres conciliares a consideraram como
um documento definitivo e obrigatório para todos os fiéis. O Papa reprimia
assim a heresia chamada monofisitismo ou monofisismo.
2 ´ Em 680, a carta do
Papa S. Agatão ´aos imperadores´ afirmava, em termos definitivos, haver em
Cristo duas vontades distintas, a Divina e a humana, sendo porém que a vontade
humana ficava em tudo moralmente submissa à vontade divina. Assim o Papa
reprimia a heresia do monotelitismo, que afirmava haver em Cristo apenas uma
vontade, a divina. O documento foi enviado pelo Papa à assembléia do Concílio
de Constantinopla III (680/681), a qual a aceitou com aplausos.
3 ´ Em 1302, o Papa
Bonifácio VIII, através da Bula ´Unam Sanctam´, ´declara, afirma, define e
pronuncia que toda criatura humana está sujeita ao Romano Pontífice´. Esta
sentença deve ser entendida no quadro histórico da época, e quer dizer que o
Papa tem jurisdição sobre toda e qualquer criatura humana ´ratione peccati´,
isto é, na medida em que as atividades de determinada pessoa dizem respeito à
vida eterna, e não nas atividades administrativas dos governos civis.
4 ´ Em 1336, através da
Constituição ´Benedictus Deus´, o Papa Bento XII definiu que, logo após a morte
corporal, as almas totalmente puras são admitidas à contemplação da essência de
Deus face à face.
5 ´ Em 1520, através da
Bula ´Exsurge Domine´, o Papa Leão X condenou 41 proposições de Lutero como
heréticas.
6 ´ Em 1653, através da
Constituição Apostólica ´Cum Occasione´ o Papa Inocêncio X reprovava as cinco
proposições extraídas da obra ´Augustinus´ de Cornélio Jansenius, definindo´as
como heréticas.
O jansenismo (de
Cornelius Jansenius), influenciado pelas idéias de Lutero sobre o pecado
original, ensinava um conceito pessimista sobre a natureza, julgando´a
escravizada à concupiscência e ao pecado; em conseqüência, admitiam que o homem
só pode praticar o bem em virtude de irresistível influxo da graça de Deus. O
pessimismo Jansenista ainda era acentuado pela tese de que Cristo não remiu
todos os homens, mas apenas os predestinados. Essas heresias foram condenadas
por Inocêncio X.
7 ´ Em 1687, através da
Constituição ´Caelestis Pastor´, o Papa Inocêncio XI condenou como heréticas 68
proposições de Miguel de Molinos (†1696), sobre o Quietismo, que era uma
tendência mística que coincidia a perfeição espiritual com tranqüilidade e
passividade da alma, de modo que o cristão não desejava mais a sua bem
aventurança eterna, nem a aquisição da virtude; qualquer tendência nele estaria
extinta. A alma colocada neste estado de aniquilamento não pecaria mais, e não
seriam mais necessárias as orações vocais, as práticas de piedade e a luta
contra as tentações.
8 ´ Em 1699, através da
Constituição ´Cumm alias´, o Papa Inocêncio XII condenou 23 proposições de
François de Salignac Fènelon, da obra ´Explications des máximes des Saints sur
la vie intérieure´, que pretendiam renovar o Quietismo, apresentando´o como
modalidade de puríssimo amor a Deus.
9 ´ Em 1713, através da
Constituição ´Unigenitus´, o Papa Clemente XI condenou 101 afirmações do livro
´Reflexions Moralis´ de Pascássio Quesnel (†1719). Era de novo o Jansenismo,
com suas concepções pessimistas. É relevante lembrar aqui que foi na crise
jansenista que se deram as aparições do Sagrado Coração de Jesus (1673´1675) à
Santa Margarida Maria Alocoque, que sobretudo lembrava ao mundo a misericórdia
de Deus e o Amor de Cristo que se fez homem, em oposição às teses do jansenismo
pessimista.
10 ´ Em 1794, através da
Constituição ´Auctorem Fidei´, o Papa Pio VI condenava 85 teses heréticas
promulgadas em 1786 pelo Sínodo de Pistoria (Toscana), que eram a expressão
radical do nacionalismo e do despotismo de Estado que haviam começado a crescer
nos tempos de Felipe IV, o Belo, da França. Essa mentalidade levava os
soberanos católicos a pretender criar Igrejas regionais, independentes do Papa,
subordinando a Igreja ao Estado. Entre outras coisas pretendia a abolição da
devoção ao Sagrado Coração de Jesus, das procissões, das imagens, das
indulgências, das espórtulas da Missa e outros serviços religiosos, redução das
Ordens e Congregações Religiosas a um tipo só, jansenista.
11 ´ Em 1854, pela bula
´Inefabilis Deus´, o Papa Pio XI definiu o dogma da Imaculada Conceição de
Maria.
12 ´ Em 1950, pela
Constituição ´Munificientíssimus Deus´, o Papa Pio XII definiu o dogma da
Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de corpo e alma. É preciso dizer aqui que os
demais documentos do Magistério da Igreja e, de modo especial do Papa, mesmo
que não sejam pronunciamentos ´ex´cáthedra´, pertencem ao magistério ordinário
da Igreja, ao qual os fiéis católicos devem o devido respeito, como ensina o
Concílio Vaticano II: ´Religiosa submissão da vontade e da inteligência devem
de modo particular, ser prestada ao autêntico Magistério do Romano Pontífice,
mesmo quando não fala ´ex´cathedra´. E isto de tal modo que seu magistério
supremo seja reverentemente reconhecido, suas sentenças sinceramente acolhidas,
sempre de acordo com a sua mente e vontade´ (LG, 25). São Tomás de Aquino
afirma, por exemplo, que: ´Ao canonizar os santos, o Sumo Pontífice é de modo
particular guiado pela inspiração do Espírito Santo´. As verdades da fé
ensinadas pela Igreja, são pronunciadas pelo seu Magistério, que pode ser
classificado em duas dimensões: ´ Magistério Ordinário: que é o ensinamento dos
Bispos do mundo inteiro concordes entre si sobre os artigos da fé e de moral,
em perfeita comunhão com o Papa. Magistério Extraordinário: que é exercido em
casos especiais, e que tem duas expressões: as definições dos Concílios
Ecumênicos (universais), e as definições o Sumo Pontífice quando fala
´ex´cathedra´. É empregado normalmente quando há dúvidas, contestações, sobre
algum artigo da fé. É preciso lembrar, no entanto, que não é preciso que haja
sempre uma definição solene do Papa para que exista um dogma de fé. Todo o
Credo é dogmático. O último Concílio deixou claro que: ´A infalibilidade da
qual quis o Divino Redentor estivesse sua Igreja dotada ao definir doutrina de
Fé e de Moral, tem a mesma extensão do depósito da Revelação Divina, que deve
ser santamente guardado e fielmente exposto´(LG,25). Essas palavras da ´Lumen
Gentium´ ensinam´nos que a validade dos ensinamentos do Magistério da Igreja
tem o mesmo peso que o da Tradição Apostólica e da Bíblia, devidamente
interpretada pelo Magistério. Enfim, a Igreja sabe que a sua missão é continuar
a obra de Cristo e ensinar a sua Verdade. É o que disse o Concílio último:
´Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito
Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo que veio
ao mundo para dar testemunho da verdade (Jo 18,37), para salvar e não para
condenar, para servir e não para ser servido ´ (Mt 20,28), (GS,3). Santo
Ambrósio (†397) , o grande bispo que batizou Santo Agostinho, expressou muito
bem toda a importância da verdade de fé ensinada pela Igreja: ´No início se
davam sinais aos não crentes. A nós, porém, na plenitude da Igreja, importa
compreender a verdade. Já não por sinais, mas pela fé´. Mais do que nunca hoje
a Igreja precisa dar este testemunho da verdade, pois parece que chegaram
aqueles tempos que São Paulo anunciou: ´Porque virá tempo em que os homens já
não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões,
ajuntarão para si mestres. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas´
(2Tm 4,1´4). São Paulo chama esses falsos ensinamentos de ´doutrinas estranhas´
(1Tm 1,3), ´diabólicas´ (1Tm 4,1). São Pedro, já no seu tempo alertava as
comunidades primitivas da Igreja para o perigo das ´seitas´ e falsos doutores,
e que novamente hoje se multiplicam. ´Assim como houve entre o povo falsos
profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão
disfarçadamente seitas perniciosas´ (1Pe 2,1). Para enfrentar o perigo das
seitas, que segundo o nosso Papa, se ´espalham como uma mancha de óleo pela
América Latina´, só mesmo levando o povo católico a conhecer a verdade de
Cristo confiada à Igreja. É urgente levar o povo ao ´conhecimento da verdade´
(1Tm 2,4), para que seja protegido dos ´falsos profetas´ (Mt 7,15) e dos ´lobos
cruéis´ (At 20,28). Somente ´apegados à doutrina da fé´ (Tt1,9), ´na
integridade dessa doutrina´ (Tt 2,7), e ´perseverando no ensinamento dos
Apóstolos´ ( At 2,4), o nosso bom povo católico, muitas vezes ignorante dos
fundamentos da fé que professa, poderá deixar de ser ´como crianças ao sabor
das ondas, agitadas por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade
dos homens e de seus artífices enganadores´ (Ef 4,14). Urge levar a este povo
´alimento sólido´ (Hb 5,11s) que sutenta a fé adulta preparada para o ´bom
combate´ (2Tm4,7). O grande místico São João da Cruz (1542´1591), companheiro
de lutas de Santa Teresa, nos tempos da Reforma protestante, nos deixou uma
palavra muito forte sobre a importância de se ter a Igreja como norma da
verdade revelada por Deus: ´Além das verdades reveladas pela Igreja quanto `a
substância de nossa fé, não há mais o que revelar. Por isso é necessário não só
rejeitar qualquer novidade, mas também acautelar´se para não admitir as que
aparecem sutilmente misturadas às substâncias dos dogmas.´
Igreja Una e Santa
Falando da Igreja o
Concílio nos ensina que:
´Esta é a ÚNICA Igreja de
Cristo que no símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica´ (LG, 8).
Esses atributos indicam os traços essenciais, característicos, da Igreja e da
sua missão, e foi Cristo que assim o quis para ela. Sem essas quatro condições
não existe a igreja de Cristo, pois foram dadas por Ele mesmo. São essas
características da Igreja que garantem a sua credibilidade de dois mil anos, e
a certeza de sua missão divina.
A unidade e unicidade da
Igreja vem da própria unidade da Trindade Santa. O único povo de Deus no Antigo
Testamento (Israel), se prolonga no único povo de Deus no Novo Testamento ( a
Igreja). Cristo tem um só Corpo e uma só Esposa, daí vem a exigência monogâmica
do matrimônio cristão, que é espelho da união de Cristo com a sua única Esposa.
´ Deste mistério, o modelo Supremo e o princípio é a unidade de um só Deus na
Trindade de Pessoas, Pai e Filho no Espírito Santo´ (UR ,2).
Jesus, com a sua cruz,
reconciliou os homens todos com Deus, restabelecendo a união de todos com o Pai
em uma só ´família de Deus´(Ef 2,20). É o Espírito Santo que realiza essa
unidade, habitando em cada batizado, os une intimamente a Cristo num só Corpo,
formando um só Povo. São Clemente de Alexandria (†215) expressou bem esse
mistério dizendo:
´Que estupendo mistério!
Há um único Pai do universo, um único Logos do universo e também um único
Espírito Santo, idêntico em todo lugar; há também uma única virgem que se
tornou mãe, e me agrada chamá´la Igreja´ (CIC nº 813).
São Paulo também expressa
de muitas maneiras a unidade da Igreja. Aos corintios ele afirma:
´Por isso, se um membro
sofre, todos os membros padecem com ele; ou se um membro é honrado, todos os
membros se regozijam com ele´ (1Cor 12,26).
Na Igreja portanto, não
há lugar para ciúmes, competições e rivalidades, pois formamos um só Corpo de
Cristo. ´Ora vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus
membros´ (1Cor 12,27).
Aos gálatas o Apóstolo
afirma a mesma unidade, que deve vencer todas as divisões humanas, que são as
piores chagas na Igreja: ´Todos vós, com efeito, que fostes batizados em
Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo , não
há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus´ (Gal 3,27´28).
De modo muito especial é
pelo Batismo e pela Eucaristia que Cristo nos faz unidos a Ele. Pelo Batismo
participamos verdadeiramente de Sua morte e Ressurreição, de uma forma
misteriosa mas real (cf Rom 6,3s); e pela Eucaristia o Senhor nos faz
participar realmente do Seu Corpo. Por ela nos tornamos consangüíneos e
concorpóreos com Jesus. Aí então somos, pelo Espírito Santo, levados à comunhão
íntima com Cristo e com todos os irmãos, formando um só Corpo.
A diversidade de membros
do Corpo místico não destrói a sua unidade. É a ´unidade na diversidade´, como
ensina São Paulo: ´Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons,
repartindo a cada um como lhe apraz. Porque, como o corpo é um tendo muitos
membros, e todos os membros do corpo, embora muitos formam um só corpo, assim
também é Cristo. Em um só Espírito fomos todos batizados para formar, um só
corpo...´ (1Cor 12,11´12).
São Paulo insiste neste
ponto também aos romanos:
´Pois, como em um só
corpo temos muitos membros e cada um dos nossos membros tem diferente função,
assim nós, embora sejamos muitos membros, formamos um só corpo em Cristo, e
cada um de nós é membro um do outro´ (Rom 12,4´5). Essa maravilha de Deus para
a Igreja, isto é, a ´unidade na diversidade´, tem, entre outras vantagens, a de
alimentar a caridade recíproca entre os membros do mesmo corpo. Cada um na
Igreja recebe de Deus um dom próprio que o capacita ao serviço aos irmãos e à
Igreja, de modo que ninguém se torne auto´suficiente e possa achar que tem
condições de fazer tudo sozinho, sem precisar da ajuda dos outros. Deus fez a
Igreja como uma Comunidade, uma família, onde cada um serve e é servido pelos
outros. É o que São Paulo ensina quando diz que ´cada um de nós é membro um do
outro´ (Rom 12,5). Sem essa colaboração mútua, que faz a caridade ser
exercitada e crescer, nenhuma comunidade é forte, viva e edificante. É no
somatório das riquezas que Deus deu a cada um, que a Igreja se torna rica e
salvífica para o mundo. É nesse sentido que o Apóstolo diz aos corintios: ´Se o
corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde
estaria o olfato? ... O olho não pode dizer à mão: ´Eu não preciso de ti ´; nem
a cabeça aos pés: ´Não necessito de vós´ (1Cor 12, 17´21). É relevante perceber
que o Apóstolo afirma que ´os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os
outros´ (V.25). Ninguém na Igreja pode querer fazer algo sozinho, de maneira
auto´suficiente e presunçosa; seria a própria negação da natureza que Deus quis
para a Igreja. Quando dependemos uns dos outros para fazer a evangelização
acontecer, então somos, de fato, Igreja. Essa dependência mútua, muitas vezes
difícil de ser vivida por causa dos defeitos de cada um, exercita a humildade
de cada um dos membros. O Apóstolo pede aos romanos; ´Adiantai´vos a honrar uns
aos outros´ (Rom 12,10). ´Recomendo a todos e a cada um: não façam de si
próprios uma opinião maior do que convém´ (Rom 12,3). ´Que vossa caridade não seja
fingida´ (V.9). Nada pior para um membro do Corpo de Cristo do que a presunção;
isto é, achar´se melhor do que os outros; ou, pior ainda, ´indispensável´ para
a comunidade e o serviço da Igreja. Nada é mais importante para a Igreja do que
a sua unidade. O Senhor, antes de sofrer a Paixão, na sua Oração sacerdotal,
rogou ao Pai com toda ênfase:
´Pai santo, guarda´os em
teu nome... a fim de que sejam um como nós´ (Jo 17,11). ´Para que todos sejam
um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam
em nós e o mundo creia que tu me enviaste´ (V.21). É importantíssimo notar o
que Jesus diz nesta oração. Se não houver unidade entre os que anunciam o seu
nome, o mundo não poderá crer que Ele é o enviado do Pai para salvar os homens.
Unidade e conversão dos fiéis estão intimamente relacionadas por Jesus. Por
isso, como diz o Papa João Paulo II, a quebra da unidade é o maior escândalo
hoje para o cristianismo. ´Dei´lhes a glória que me deste, para que sejam um,
como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e
o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim´ (V.22´23).
Não podemos nos esquecer jamais dessa palavra do Senhor: ´para que sejam
perfeitos na unidade´. Tudo estará perdido na Igreja se a unidade não for
guardada com todo carinho. Mas ela é o fruto doce de uma comunidade humilde,
simples, serviçal, onde cada um morreu para si mesmo, sem que ninguém queira
aparecer, se exibir, e todos saibam perdoar e compreender os mais fracos. São
Paulo recomenda aos efésios ´conservar a unidade do espírito no vínculo da paz´
(Ef 4,3). Esse vínculo da paz é a caridade que é ´o vínculo da perfeição´ (Cl
3,14). Essa era a grande preocupação do Apóstolo: Aos efésios ele pede:
´Exorto´vos, pois ´ que
leveis uma vida digna da vocação a qual fostes chamados, com toda a humildade e
amabilidade, com grandeza de alma, suportando´vos mutuamente na caridade. Sede
solícitos em conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz´ (Ef 4,1´3). O
Apóstolo é realista; ele sabe que não é fácil a vida em comunidade, onde os
defeitos de cada um geram problemas e divisões. Em nome da ´unidade do
Espírito´, ele suplica que os fiéis ´suportem´se mutuamente´. Aos filipenses
ele pede também: ´Tornais então completa a minha alegria: aspirai à mesma
coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. Nada
façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o
outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é
do outro´ (Fil 2,1´4). Essas palavras do Apóstolo mostram bem o que fere a
unidade: competições e vangloria; e dá o remédio: humildade. Aos corintios São
Paulo pede: ´Eu vos exorto, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo;
guardai a concórdia uns com os outros, de sorte que não haja divisões entre
vós, sede, estreitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo modo de pensar´
(1Cor 1,10). Aos romanos ele insiste: ´O Deus da perseverança e da consolação
vos conceda terdes os mesmos sentimentos uns para com os outros, a exemplo de
Cristo Jesus, a fim de que, com um só coração e uma só voz, glorifiqueis a
Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo´ (Rom 15,5). Como poderemos glorificar a
Deus num só coração e numa só voz se as nossas almas estiverem divididas? As feridas
da unidade da Igreja sempre foram e sempre serão as mais dolorosas e
prejudiciais para a sua vida. Muitas separações e cismas .aconteceram por causa
dos pecados dos homens, como dizia Orígenes(184´254): ´Onde estão os pecados,
aí está a multiplicidade, aí o cisma, aí as heresias, aí as controvérsias.
Onde, porém, a virtude, aí a unidade, aí a comunhão, em força da qual os
crentes eram um só coração e uma só alma (At 4,32)´ (CIC nº 817). Talvez
ninguém melhor do que São Cipriano (†258), bispo de Cartago, tenha escrito
sobre a importância da unidade da Igreja. Nos seus escritos ele mostra como o
demônio age para dividir a Igreja. Ouçamos o que ele ensina:
´ O inimigo, desmascarado
e derrotado pela vinda de Cristo, ... trama nova emboscada para iludir os incautos,
sob o rótulo do próprio nome de cristãos. Inventa heresias e cismas para
subverter a fé, corromper a verdade e quebrar a unidade...Rouba homens da
própria Igreja e os imerge, inconscientes, em outras trevas, deixando´os pensar
que se aproximam da luz e escapam à noite do século. Continuam a se dizerem
cristãos sem guardarem a boa nova de Cristo, os seus preceitos e as suas leis!
Julgam ter luz e caminham nas trevas! O inimigo sedutor e mentiroso que, nas
palavras do apóstolo, se transforma em anjo de luz, apresentando seus ministros
como ministros da justiça, anunciando a noite como o dia, a perdição como
salvação,...o Anticristo sob o nome de Cristo, lhes escurece e frustra a
verdade pela sutileza, propondo como verdadeiras coisas ilusórias. Isto se dá,
caríssimos irmãos, porque não mais se volta à origem da verdade, não se vai
mais à sua fonte, nem se guarda a doutrina do magistério celeste´ ( Sobre a
Unidade da Igreja). E o grande bispo de Cartago pergunta, desde o terceiro
século: ´Julga conservar a fé, quem não conserva esta unidade recomendada por
Paulo? (Ef 4,4´6). Confia estar na Igreja, quem abandona a cátedra de Pedro
sobre a qual está fundada a Igreja? E continua a discorrer sobre a importância
capital da unidade da Igreja. Vale a pena ler com atenção os seus escritos de
mais de 17 séculos: ´Principalmente nós, que presidimos a Igreja como bispos,
devemos manter e defender firmemente esta unidade, dando provas da união e
indivisibilidade do episcopado...O episcopado é único e dele possui por inteiro
cada bispo a sua porção. A Igreja é uma só, embora abranja uma multidão pelo
contínuo aumento de sua fecundidade. Assim como há uma luz nos muitos raios do
sol, uma árvore em muitos ramos, um só tronco fundamentado em raízes tenazes,
muitos rios de uma única fonte, assim também esta multidão guarda a unidade de
origem, se bem que pareça dividida por causa da inumerável profusão dos que
nascem. A unidade da luz não comporta que se separe um raio do centro solar; um
ramo quebrado da árvore não cresce, cortado da fonte o rio seca imediatamente.
Do mesmo modo a Igreja do Senhor, como luz derramada estende os seus raios em
todo o mundo, e é uma única luz que se difunde sem perder a própria unidade.
Ela desdobra os ramos por toda a terra, com grande fecundidade; estende´se ao
longo dos rios, com toda liberalidade, e no entanto é uma na cabeça, uma pela
origem, uma só mãe imensamente fecunda. Nascemos todos de seu ventre, somos
nutridos com seu leite e animados por seu espírito.´
A esposa de Cristo não
pode ser adulterada, ela é incorrupta e pura, não conhece mais que uma só casa,
guarda com casto pudor a santidade do único tálamo. Ela nos conserva para Deus,
entrega ao Reino os filhos que gerou. Quem se aparta da Igreja e se junta a uma
adúltera, separa´se das promessas da Igreja. Quem deixa a Igreja de Cristo não
alcançará os prêmios de Cristo. É um estranho, um profano, um inimigo. Não pode
ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Se alguém se pôde salvar dos
que ficaram fora da arca de Noé, também se salvará os que estiverem fora da
Igreja. O Senhor nos admoesta e diz: ´Quem não está comigo está contra mim, e
quem não ajunta comigo, dispersa´( Mt 12,30). Torna´se adversário de Cristo
quem rompe a paz e a concórdia de Cristo; aquele que noutra parte recolhe, fora
da Igreja, dispersa a Igreja de Cristo.´ A Igreja católica olha com respeito os
cristãos que estão fora dos seus limites. O Catecismo nos ensina algo muito
importante sobre isso: ´Os que hoje em dia nascem em comunidades que surgiram
de tais rupturas e estão imbuídos da fé em Cristo não podem ser arguidos de
pecado de separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e
amor... Justificados pela fé recebida no Batismo, estão incorporados em Cristo,
e por isso com razão são chamados com o nome de cristãos, e merecidamente
reconhecidos pelos filhos da igreja católica como irmãos no Senhor´ (UR,3),
(CIC nº 818). A Igreja também reconhece que: ´Muitos elementos de santificação
e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja Católica´: a palavra
escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons
do Espírito Santo´ (UR, 3). O Catecismo ainda afirma que: ´O Espírito Santo de
Cristo serve´se dessas igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação
cuja força vem da plenitude da graça e da verdade que Cristo confiou à Igreja
Católica. Todos esses bens provêm de Cristo e levam a Ele e impelem à ´unidade
católica´ (LG, 8).
Essas palavras não querem
de forma alguma dizer que podemos aceitar essa triste realidade dos irmãos
separados da fé católica, ´como se tudo estivesse bem´. Não. O verdadeiro
ecumenismo nunca será uma forçada justaposição de muitas igrejas, mas o
reconhecimento de que só há uma Igreja fundada por Jesus e que contém com
garantia todo o ´depósito da fé´ e ´a plenitude dos meios da salvação´.
Infelizmente ocorreram rupturas na unidade da Igreja. São os cismas; a quebra
da comunhão com o Papa, sem que haja necessariamente uma heresia. É a divisão
do Corpo místico; é como que o rasgar a túnica inconsútil (sem costura) de
Cristo. Aquele manto que os soldados sortearam (Mt 27,35), sem rasgá´lo, sempre
foi visto pela Igreja como um símbolo forte da unidade querida por Cristo para
ela. ´Repartiram entre si minhas vestes e sobre Meu manto lançaram a sorte´ (Sl
21,19). Essa túnica de Cristo foi rasgada várias vezes na história da Igreja, e
esses foram os momentos de maior sofrimento para ela. No entanto, consola´nos
as palavras de Santo Hilário de Poitiers (†367): ´Foi sempre privilégio da Igreja
vencer quando é ferida, progredir quando é abandonada, crescer em ciência
quando é atacada´. Foi exatamente nos tempos de lutas contra as piores
heresias, surgidas dentro da própria Igreja, que ela desenvolveu a solidez de
sua doutrina tal qual a temos hoje e professamos no Credo. Cristo e os
Apóstolos já tinham alertado os discípulos para o perigo dos falsos doutores e
falsos profetas. No Sermão da Montanha, Jesus avisou desde cedo: ´Cuidado com
os falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são
lobos arrebatadores´(Mt 7,15). Ao se despedir dos anciãos e bispos de Éfeso,
São Paulo recomendava:
´Cuidai de vós mesmos e
do rebanho que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja
de Deus, que Ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois da minha
partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho.
Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas, com o
intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai... ´( At 20,28). Note que
São Paulo diz que é de dentro do próprio rebanho que surgirão os lobos. Com a
mesma ênfase São Pedro alertou: ´Assim como houve entre o povo falsos profetas,
assim também, haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente
seitas perniciosas´(2 Pe 2,1). É muito importante notar que Pedro já falava das
´seitas perniciosas´, que hoje são tão abundantes. As piores heresias que
surgiram na vida da Igreja foram enfrentadas e vencidas nos Concílios. Nos
primeiros séculos a Igreja foi perturbada fortemente pelo gnosticismo dualista
que acreditava que a matéria era obra do mal e que portanto Jesus jamais
poderia ter assumido de fato um corpo humano material. Negava assim a
Encarnação e a salvação dos homens pela morte e ressurreição de Jesus. Era o
também chamado docetismo, que ensinava hereticamente que a encarnação do Verbo
tinha sido apenas aparente. Esta heresia, que penetrou na Igreja vindo da
Pérsia, foi combatida pelos próprios Apóstolos (cf Col 2,9; 1Jo 4,2; 2Jo7) e
principalmente por Santo Ireneu († 202).Talvez tenha sido a pior heresia dos
primeiros tempos. Ainda nos séculos II e III surgiram as heresias do tipo
monarquianista (adopcionismo, subordinacionismo), que negavam a Santíssima
Trindade, não aceitando as três Pessoas divinas como distintas.O Filho e o
Espírito Santo seriam apenas manifestações do próprio Pai, ou subordinadas ao
Pai, e não Pessoas igualmente divinas e distintas, na única Trindade.
Depois das heresias
Trinitárias, surgiram as heresias Cristológicas: 1´ Arianismo ´ Ário, de
Alexandria († 334), defendia que Cristo era apenas uma criatura do Pai; a maior
de todas, através da qual o Pai tinha criado as demais. Foi combatida por Santo
Atanásio e condenada no primeiro Concílio da Igreja, o de Nicéia (325), que
ensinou ser Jesus ´Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus
verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai´. 2´ Apolinarismo ´
Apolinário (300´390), bispo de Laodicéia, defendia que Cristo não tinha uma
alma humana; era Deus, mas com uma natureza humana mutilada. Foi combatido
principalmente pelos Santos Padres São Gregório de Nazianzo (329´390) e São
Gregório de Nissa (†394), segundo o princípio de que ´o que não foi assumido
pelo Verbo não foi redimido´. 3´ Macedonismo ´ Macedônio, bispo de
Constantinopla, defendia que o Espírito Santo não era Deus, mas mera criatura
do Pai. Esta heresia foi condenada no Concílio de Constantinopla II (381), que
ensinou ser o Espírito Santo uma Pessoa divina. ´Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho;e com o Pai e o Filho é
adorado e glorificado´ (Símbolo Niceno´Constantinopolitano). 4´ Nestorianismo ´
Nestório (†426), patriarca de Constantinopla, que defendia herroneamente que em
Jesus havia duas pessoas (humana e divina) e duas naturezas; Maria seria apenas
a mãe de Jesus homem, mas não Mãe de Deus (como querem os protestantes), como
se existissem dois Eu(s) em Jesus. Desde o primeiro século os cristãos chamavam
Maria de ´Theotokos´ (Mãe de Deus). Essa heresia foi condenada no Concílio de
Éfeso (431), principalmente pelo trabalho de S.Cirilo de Alexandria(†444). O
Concílio ensinou que em Jesus há uma só Pessoa (divina), o Eu de Jesus é
divino, mas há duas naturezas( humana e divina) unidas e distintas,
harmoniosamente, nesta única Pessoa, que é a do Verbo. Confirmou firmemente a
crença dos cristãos desde os primeiros século, de que Maria é a Santa
´THEOTOKOS´. 5´ Monofisismo ´ Defendida por Êutiques de Constantinopla e
Dionísio de Alexandria, foi uma réplica exagerada ao Nestorianismo, caindo em
erro oposto; dizia que em Jesus havia apenas uma Pessoa e uma Natureza.
Defendia que a natureza divina teria absorvido a humana, e assim Jesus não
seria perfeitamente homem. Esta heresia foi condenada no Concílio de Calcedônia
(451), que reafirmou haver em Jesus uma só Pessoa (divina), mas nela há duas
naturezas(divina e humana). 6´ Monotelitismo ou Monoenergismo ´ Sérgio,
patriarca de Constantinopla (sec.VII), defendia que em Jesus havia uma só
Pessoa, duas naturezas, mas uma só vontade(´theletes´, em grego) e uma só
operação. Isto também negava que Jesus fosse perfeitamente homem. Essa heresia
foi condenada no Concílio de Constantinopla III (681); que ensinou haver em
Jesus uma só Pessoa, duas naturezas, duas vontades e operações. Isto quer dizer
que Jesus é inteiramente Deus e inteiramente homem. Na terra, quando queria
agia como Deus (milagres), mas redimiu os homens assumindo totalmente,
integralmente, a natureza humana. Diz a carta aos hebreus que Jesus:
´...passou pelas mesmas
provações que nós, com exceção do pecado´(Hb 4,15). ´...em tudo semelhante aos
seus irmãos´(Hb 2,17). Aqui estão alguns casos de cismas que ocorreram na
Igreja: no ano de 431 houve o cisma dos Nestorianos, seguidores de Nestório,
bispo de Constantinopla, que não aceitaram as decisões do Concílio de Éfeso. Em
451 houve o cisma dos Monofisitas, que não aceitaram as decisões do Concílio de
Calcedônia sobre as duas naturezas distintas de Jesus. Em 1054 houve o grande
cisma de Miguel Cerulário e dos orientais ortodoxos; em 1517, o de Martinho
Lutero e do Protestantismo; em 1534, o de Henrique VIII, rei da Inglaterra, e o
Anglicanismo. Aqui no Brasil houve o cisma em 06/07/1945 que originou as
Igrejas Católicas Brasileiras. Nos cismas nem sempre está presente a heresia,
que é uma doutrina contrária à verdade revelada por Deus e proposta pela
Igreja. O herege é aquele que não aceita a correção da Igreja e permanece
intransigente no seu engano. É interessante notarmos aqui uma observação de
Santo Agostinho: ´Não penses que as heresias são produto de mentes obtusas. É
necessário uma mente brilhante para conceber e gerar uma heresia. Quanto maior
o brilho da mente, maiores suas aberrações´. Os hereges ´formais´ são os que
cometem pessoalmente o pecado da heresia e do cisma, e excluem´se da comunhão
da Igreja, embora conservem o caráter batismal. Os hereges e cismáticos
´materiais´ são os que nascem no seio de comunidades heréticas e cismáticas mas
não são autores de heresia e cisma. Esses pertencem à comunhão imperfeita com a
única Igreja de Cristo. Muitas vezes se pergunta sobre a salvação dos adultos
que morram sem o Batismo ou morram com o Batismo recebido fora da perfeita
comunhão com a Igreja Católica. Sabemos que o Sacramento do Batismo é o caminho
normal que Deus quis para a salvação de todos (cf Mc 16,16). Mas, logo no
início do cristianismo a Igreja reconheceu outros meios, que são o martírio e o
´desejo explícito´ de Batismo. A partir do século XVI a Igreja passou a admitir
também o ´desejo implícito de Batismo´; isto é: se uma pessoa é pagã, mas vive
de boa fé, mesmo segundo crenças não católicas, e é tão dócil a Deus que, se
soubesse da necessidade do Batismo para a sua salvação, ela o pediria, neste
caso o desejo do Batismo está implícito na vida da pessoa e, por isso, ela pode
ser salva.
O Catecismo da Igreja diz
assim: ´Para os catecúmenos que morrem antes de seu Batismo, seu desejo
explícito de recebe´lo, juntamente com o arrependimento dos seus pecados e com
a caridade, garante´lhes a salvação que não puderam receber pelo Sacramento´
(nº 1259). ´Todo homem que, desconhecendo o Evangelho de Cristo e a sua Igreja,
procura a verdade e prática a vontade de Deus segundo o seu conhecimento dela,
pode ser salvo. Pode´se supor que tais pessoas teriam desejado explicitamente o
batismo se tivessem tido o conhecimento da necessidade dele´ (nº 1260). O
Concílio Vaticano II confirma essa doutrina precisamente. Diz a ´Lumen
Gentium´: ´O Salvador quer que todos os homens se salvem. Aqueles, portanto,
que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus de
coração sincero e tentam sob o influxo da graça cumprir por obras a sua vontade
conhecida através dos ditames da consciência, podem conseguir a salvação
eterna. A Divina Providência não nega os auxílios necessários à salvação
àqueles que sem culpa ainda não chegaram ao conhecimento expresso de Deus, e se
esforçam, não sem a divina graça, por levar uma vida reta´ (LG 16). Embora
reconheça tudo isso, a Igreja católica tem consciência de que ela possui, como
disse o Papa João Paulo II, ´por vontade expressa de Deus, a plenitude dos
meios da salvação´, ou seja ´todos os instrumentos da graça´(UR,3 e 4). Nossos
irmãos separados da fé católica que já nasceram nas igrejas ditas evangélicas
não podem ser culpados pela separação havida no passado; contudo, estão
desprovidos de muitos meios de salvação e santificação que Jesus nos deixou:
Sacramentos, devoção a Maria, aos santos, sacramentais, etc. É preciso lembrar
aqui que quando a Igreja Católica se refere às igrejas protestantes, ela pensa
naquelas tradicionais e históricas (luterana, presbiteriana, batista,
anglicana, ortodoxa, congregacionalista, etc), e não nesta multidão incontável
de seitas que se multiplicam a cada dia, de maneira incontrolável e independente.
O ecumenismo é buscado com as igrejas protestantes históricas; não com as
seitas. A ´Lumen Gentium´ deixa bem claro que: ´A única Igreja de Cristo ... é
aquela que nosso Salvador, depois da sua Ressurreição, entregou a Pedro para
apascentar e confiou a ele e aos demais Apóstolos para propagá´la e regê´la...
Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste
na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão
com ele´ (LG, 8). Diz ainda o decreto do Concílio sobre o Ecumenismo: ´Pois
somente através da Igreja católica de Cristo, auxílio geral de salvação, pode
ser atingida toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos que o Senhor
confiou todos os bens do Novo Testamento ao único Colégio Apostólico, de que
Pedro é o chefe, a fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo, ao qual é
necessário que se incorporem plenamente todos os que, de alguma forma, já
pertencem ao Povo de Deus´ (UR,3). A unidade da Igreja se revela também por
vários fatores: doutrina, liturgia, governo, sucessão apostólica, etc. A Igreja
possui uma única doutrina, um único Credo, a profissão de uma única fé recebida
dos Apóstolos. Ninguém pode se dizer católico se não crê nessas verdades da fé.
Especialmente hoje, com o novo Catecismo aprovado pelo Papa em 1992, ficou
ainda mais claro e visível para a Igreja no mundo todo, a mesma doutrina, tanto
em termos dos dogmas quanto da moral. A celebração litúrgica, sobretudo dos
sacramentos, é outro ponto forte de unidade da Igreja. Em qualquer parte do
planeta vivemos o mesmo Calendário Litúrgico, a mesma Missa, as mesmas festas
litúrgicas, com pequenas variações.
Outro fator de unidade é
a sagrada hierarquia implantada por Jesus. A sucessão apostólica, através do
Sacramento da Ordem, garante a ordem fraterna na Igreja e é a salvaguarda da
unidade. O principal fator, a ´pedra da unidade´ é o Papa, ao qual são
submissos todos os bispos, sacerdotes e leigos. Os grandes filhos da Igreja
sempre se guiaram por este lema: ´Cum Petro et sub Petro.´ Essa providência do
Senhor nunca faltou à Igreja. Já tivemos 264 Papas, e a Igreja sempre teve a
sua Cabeça Visível. É o Vigário de Cristo na terra; ou, como disse Santa
Catarina de Sena, o ´doce Cristo na terra.´ Já tivemos até cerca de 50 anti´papas,
papas ilegítimos, fruto das fraquezas humanas, mas não ficamos sem o Papa
verdadeiro, em que pese todos os pecados dos homens.
A Igreja e
Escatologia
Escatologia é o
estudo sobre os “últimos acontecimentos”.
A palavra vem do grego eschatón (= último). Se refere ao término da história da
salvação. Sem isto não compreendemos a vida da Igreja. Os romanos diziam: “em
tudo que faças, considera o fim, pois é o fim que dita o itinerário a
percorrer”.
São José é o Patrono da Igreja
O Papa Pio
IX, no dia 8 de dezembro de 1870, declarou o glorioso São José, Padroeiro da
Igreja Católica. Este mesmo Papa, em 08/12/1854, já tinha proclamado
solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Através de Decreto
da Congregação dos Sagrados Ritos, o Papa atendeu à solicitação do episcopado
do mundo todo, que estava então reunido no Concílio Vaticano I ( 08/12/1869 a 20/10/1870),
os quais rogaram ao Santo Padre que se dignasse constituir São José Padroeiro
da Igreja Católica. Assim se expressou a Sagrada Congregação dos Ritos:
"Assim
como Deus constituira o antigo José, filho do antigo patriarca Jacó, para
presidir em toda a terra do Egito, a fim de conservar o trigo para os povos;
assim, chegada a plenitude dos tempos, estando para enviar à terra o seu
Unigênito Filho para redenção do mundo, escolheu outro José, de quem o primeiro
era figura; constituiu-o Senhor e Príncipe de sua casa e de sua possessão, e
elegeu-o custódio de seus principais tesouros. José teve, de fato, por esposa a
Imaculada Virgem Maria, da qual por virtude do Espírito Santo, nasceu Nosso
Senhor Jesus Cristo, que, junto aos homens, se dignou ser julgado filho de
José, e lhe foi submisso. E José, não só viu Aquele que tantos reis e profetas
desejaram ver, mas conversou com Ele, estreitou-O ao peito com paternal afeto,
beijou-O; e, além disso, com extremoso cuidado, alimentou Aquele que devia ser
nutrição espiritual e alimento de vida eterna para o povo fiel. Por esta
excelsa dignidade, concedida por Deus a seu fidelíssimo Servo, a Igreja, após a
Virgem Santíssima, sua Esposa, teve sempre em grande honra e cumulou de
louvores o Beatíssimo José, e nas angústias lhe implorou a intercessão. Ora,
estando a Igreja, nestes tristíssimos tempos, perseguida em toda parte por
inimigos e opressa por tão graves calamidades, a ponto de julgarem os ímpios
que as portas do abismo prevaleceram contra Ela, os Bispos de todo o mundo
católico, em seu nome e no dos fiéis confiados a seus cuidados, rogaram ao Sumo
Pontífice que se dignasse constituir São José Padroeiro da Igreja Católica.
Tendo pois eles, no Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano I, renovado com maior
insistência os mesmos pedidos e desejos, o Santo Padre Pio IX, comovido com a
presente e lutuosa condição dos tempos, querendo de modo especial colocar-se a
si mesmo e aos fiéis sob o poderosíssimo Patrocínio do Santo Patriarca José e
satisfazer os desejos dos Bispos, declarou-o solenemente Padroeiro da Igreja
Católica. Elevou a sua festa, que caí a 19 de março a rito duplo de primeira
classe. E, além disso ordenou que esta declaração, feita com o presente decreto
da Sagrada Congregação dos Ritos, fosse publicado no dia consagrado à Imaculada
Virgem Mãe de Deus, Esposa do castíssimo José". Eram, como sempre, tempos
difíceis para a Igreja. O Papa convocara o Concílio Vaticano I para enfrentar o
brado da Revolução Francesa (1789) contra a fé, no endeusamento da razão e do nacionalismo.
O século XIX começou marcado pelo materialismo racionalista e pelo ateísmo,
fora da Igreja; dentro dela as tendências conciliaristas e de separatismo, que
enfraqueciam a autoridade do Papa e a unidade da Igreja. Mais uma vez a Barca
de Pedro era ameaçada pelas ondas do século. Então a Igreja recomendou-se ao
"Pai" terreno do Senhor. Aquele que cuidara tão bem da Cabeça da
Igreja, ainda Menino, cuidaria também de todo o seu Corpo Místico. Trinta anos
depois, o Papa Leão XIII, no dia 15/8/1899, assinava a Encíclica "Quanquam
Pluries" sobre São José, nos tempos difíceis da virada do século. Ouçamos
o Papa: "Nos tempos calamitosos, especialmente quando o poder das trevas
parece tudo usar em prejuízo da cristandade, a Igreja costuma sempre invocar súplice
a Deus, autor e vingador seu, com maior fervor e perseverança, interpondo
também a mediação do Santo, em cujo patrocínio mais confia para encontrar
socorro, entre os quais se acha em primeiro lugar a Augusta Virgem Mãe de
Deus". "Ora, bem sabeis Veneráveis Irmãos que os tempos presentes não
são menos desastrosos do que tantos outros, e tristíssimos, atravessados pela
cristandade. De fato, vemos perecer em muitos o princípio de todas as virtudes
cristãs, de fé, extinguir-se a caridade, depravar-se nas idéias e costumes a
nova geração, perfeitamente hostilizar-se por toda a parte a Igreja de Jesus
Cristo, atacar-se atrozmente o Pontificado, e com audácia cada vez mais
imprudente arrancarem - se os próprios fundamentos da religião". "Nós
propomos... para tornar Deus mais favorável às nossas preces e para que Ele,
recebendo as súplicas de mais intercessores, dê mais pronto e amplo socorro à
sua Igreja, julgamos sumamente conveniente que o povo cristão se habitue a
invocar com singular devoção e confiança, juntamente com a Virgem Mãe de Deus,
o seu castíssimo esposo São José: temos motivos particulares para crer que seja
isto aceito e agradável à própria Virgem. E, a respeito desse assunto, do qual
pela primeira vez tratamos em público, bem conhecemos que a piedade do povo
cristão não só é favorável, mas tem progredido também por iniciativa própria;
pois vemos já gradativamente promovido e estendido o culto de São José por zelo
dos Romanos Pontífices, nas épocas anteriores, universalmente aumentado e com
indubitável incremento nestes últimos tempos, em especial depois que Pio IX,
nosso antecessor de feliz memória, declarou às súplicas de muitos bispos,
Padroeiro da Igreja Católica o Santíssimo Patriarca. Não obstante, por ser
muito necessário que seu culto lance raízes nas instituições católicas e nos
costumes, queremos que o povo cristão receba, antes de tudo, de nossa voz e
autoridade novo estímulo". Vemos assim que, nas horas mais difíceis de sua
caminhada a Igreja sempre recorre à Sua Mãe Santíssima, que nunca a desamparou;
e, em seguida ao seu esposo castíssimo São José. E Leão XIII explica as razões
da grandeza de São José por "ser ele esposo de Maria e pai adotivo de
Jesus". "Daí derivou toda a sua grandeza, graça, santidade e glória.
É certo que a dignidade de Mãe de Deus se eleva tão alto que nada existe de
mais sublime. Mas, porque entre a bem-aventurada Virgem e José estreitou-se o
laço conjugal, não é possível duvidar que da altíssima dignidade, pela qual a
Mãe de Deus é imensamente superior a todas as criaturas, ele se aproximou mais
que qualquer outro. Pois o conúbio é a máxima sociedade e amizade, à qual se
une a comunhão dos bens. Por essa razão, se Deus deu à Virgem, como esposo,
José, Ele o deu não só para companheiro de vida, testemunha da virgindade e
tutor da honestidade, mas também para que participasse, por meio do vínculo
conjugal, de sua excelsa grandeza". "Assim ele sobressai entre todos
pela augusta dignidade, porque foi, por divina disposição, Custódio, e aos
olhos dos homens, pai do Filho de Deus. Donde se seguia que o Verbo de Deus
modestamente se sujeitava a José, obedecia-lhe, prestava-lhe honra e
reverências devidas pelos filhos a seus pais". E o Papa destaca a missão
que Deus confiou a José: "Ora, a casa divina que José, quase com pátrio
poder, governava, era o berço da Igreja nascente. A Virgem Santíssima, por ser
Mãe de Jesus Cristo, e também Mãe de todos os cristãos, por Ela gerados em meio
às atrocíssimas penas do Redentor no Calvário; como Jesus Cristo é, de certo
modo o primogênito dos cristãos, seus irmãos por adoção e redenção. Daí resulta
ser confiada, de modo especial, ao Beatíssimo Patriarca a multidão dos
cristãos, da qual se compõe a Igreja, isto é, a inúmera família espalhada por
todo o mundo e sobre o qual tem, como esposo da Virgem e pai adotivo de Jesus
Cristo, uma autoridade paterna. É pois conveniente e sumamente digno para o
bem-aventurado José que, assim como costumava proteger santamente em todo o
evento a família de Nazaré, agora assista e defenda, com seu celeste
patrocínio, a Igreja de Cristo". O Papa Leão XIII fez questão de compor
uma Oração a São José pela Santa Igreja, a seguir transcrita.
ORAÇÃO A
SÃO JOSÉ
"A
vós, São José, recorremos em nossa tribulação e, depois de ter implorado o
auxílio de Vossa Santíssima Esposa, cheios de confiança solicitamos o vosso
patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade, que os uniu à Virgem Imaculada,
Mãe de Deus, pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente vos
suplicamos que lanceis um olhar benigno para a herança que Jesus conquistou com
seu sangue,e nos socorrais em nossas necessidades com o vosso auxílio e poder.
Protegei, ó Guarda providente da Divina Família, a raça eleita de Jesus Cristo.
Afastai para longe de nós, ó Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício.
Assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o
poder das trevas; assim como outrora salvastes da morte a vida do Menino Jesus,
assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus contra as ciladas de seus
inimigos e contra toda adversidade. Amparai a cada um de nós com o vosso
constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo, e sustentados com vosso
auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente e obter no céu a
eterna bem-aventurança. Assim seja. Em 25/07/1920, no 50º aniversário da
proclamação do Patriarca São José como Padroeiro da Igreja Universal, por Pio
IX, em 1870, o Papa Bento XV ratificou a necessidade da devoção a São José.
Assim se expressou Bento XV: "Se considerarmos as hodiernas calamidades
que afligem o gênero humano, torna-se mais evidente ainda a oportunidade de
intensificar o tal culto [ a São José] e difundí-lo ainda mais entre o povo
cristão". "Nós, com grande solicitude, lhes propomos de modo
particular São José, que o sigam como guia especial e o honrem como celeste
Padroeiro". "Assim florescendo a devoção dos fiéis a São José,
aumentará também, como necessária consequência, o culto à Sagrada Família de
Nazaré, da qual foi o augusto Chefe, jorrando estas duas devoções espontaneamente
uma da outra. Por São José vamos diretamente a Maria, e por Maria à fonte de
toda a santidade, Jesus Cristo, que consagrou as virtudes domésticas com a sua
obediência a São José e Maria". "Nós portanto, cheios de confiança no
patrocínio dAquele, a cuja providente vigilância Deus se comprazeu em confiar a
custódia do seu Unigênito Encarnado e da Virgem Santíssima, vivamente exortamos
a todos os Bispos do orbe católico, para que, em tempos tão tormentosos para a
Igreja, induzam os fiéis a implorar com maior empenho, o poderoso auxílio de
São José. E sendo várias as formas aprovadas por esta Sé Apostólica para
venerar o Santo Patriarca, especialmente em todas as quartas-feiras do ano e do
mês inteiro que lhe é consagrado [ março], queremos que, à instância de cada
Bispo, todas estas devoções sejam praticadas em toda diocese, na medida do
possível. Mas de modo particular, por ser Ele merecidamente considerado como o
mais eficaz Protetor dos moribundos, tendo expirado com a assistência de Jesus
e de Maria, os Pastores terão o cuidado de inculcar e favorecer, com todo o
prestígio de sua autoridade, as Pias Associações instituídas para rogar a São
José em favor dos moribundos, como a da "Boa Morte", do
"Trânsito de São José pelos agonizantes de cada dia"." Vemos assim
como a Igreja tem em alta conta a proteção intercessora de São José. Hoje a
Igreja vive os mesmos tempos difíceis que levaram Pio IX, Leão XIII e Bento XV
a invocarem São José com tanta confiança e necessidade. Mais do que antes a fé
está ameaçada pelo racionalismo, relativismo moral e religioso, permissividade
sexual, proliferação das seitas, falsas religiões - especialmente as de origem
oriental e a Nova Era . Novamente é preciso invocar o Patrono da Igreja
Universal. Em uma aparição a Santa Margarida de Cortona, disse Jesus:
"Filha, se desejas fazer-me algo agradável, rogo-te não deixeis passar um
dia sem render algum tributo de louvor e de bênção ao meu Pai adotivo São José,
porque me é caríssimo". Santo Afonso de Ligório garantia que todo dom ou privilégio
que Deus concedeu a outro Santo também o concedeu a São José. São Francisco de
Sales diz que "São José ultrapassou, na pureza, os Anjos da mais alta
hierarquia". São Jerônimo diz que : "José mereceu o nome de
"Justo", porque possuia de modo perfeito todas as virtudes". De
fato, podemos concluir que, se José foi escolhido para Esposo de Maria, a mais
santa de todas as mulheres, é porque ele era o mais santo de todos os homens.
Se houvesse alguém mais santo que José, certamente seria este escolhido por
Jesus para Esposo de Sua Mãe Maria. São Bernardo diz de São José: "De sua
vocação, considerai a multiplicidade, a excelência, a sublimidade dos dons
sobrenaturais com que foi enriquecido por Deus". Os Santos Padres e
Doutores da Igreja concordam em dizer que São José foi escolhido para esposo de
Maria pelo próprio Deus. O Papa Pio IX, antes mesmo de proclamar S. José
Patrono da Igreja, já dizia : "É racional colocar o Corpo Místico do
Salvador, a Igreja, sob a poderosa proteção dAquele que velou sobre Jesus e
Maria. Os sustentáculos da Igreja nascente, José e Maria, retomem nos corações
o lugar que jamais deveriam ter perdidos, e o mundo será salvo outra vez".
Se na terra São José foi o protetor do próprio Menino-Deus, deve ser agora o
Patrono (protetor, defensor, guarda) do seu Corpo Místico, a Igreja. É
eloqüente o testemunho de Santa Teresa de Ávila, doutora da Igreja, devotíssima
de São José. No "Livro da Vida", sua autobiografia, ela escreveu :
"Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e muito me encomendei a
ele. Claramente vi que dessa necessidade, como de outras maiores referentes à
honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que
eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que
tenha deixado de obter. Coisa admirável são os grandes favores que Deus me tem
feito por intermédio desse bem-aventurado santo, e os perigos de que me tem
livrado, tanto do corpo como da alma. A outros santos parece o Senhor ter dado
graça para socorrer numa determinada necessidade. Ao glorioso São José tenho
experiência de que socorre em todas. O Senhor quer dar a entender com isso como
lhe foi submisso na terra, onde São José, como pai adotivo, o podia mandar,
assim no céu atende a todos os seus pedidos. Por experiência, o mesmo viram
outras pessoas a quem eu aconselhava encomendar-se a ele. A todos quisera
persuadir que fossem devotos desse glorioso santo, pela experiência que tenho
de quantos bens alcança de Deus...De alguns anos para cá, no dia de sua festa,
sempre lhe peço algum favor especial. Nunca deixei de ser atendida".
Este testemunho de uma grande Santa Doutora da Igreja dispensa comentários, e
precisa ser lido e relido como muita atenção. Próximo de Jesus e de Maria, São
José é Estrela de primeira grandeza no Céu e intercede pela Igreja sem cessar,
assim como, na terra, velava sem se descuidar, do Filho de Deus a ele confiado.
Nos recomendemos todos a ele, todos os dias.
ORAÇÃO A
SÃO JOSÉ
"Ó
glorioso São José, digno de ser amado, invocado e venerado com especialidade
entre todos os santos, pelo primor de vossas virtudes, eminência de vossa
glória e poder de vossa intercessão, perante a Santíssima Trindade, perante
Jesus Vosso Filho adotivo, e perante Maria, Vossa Santíssima Esposa, minha Mãe
terníssima, tomo-vos hoje por meu advogado junto de ambos, por meu protetor e
pai, proponho firmemente nunca esquecer-me de Vós, honrar-Vos todos os dias que
Deus me conceder e, fazer quanto em mim estiver para inspirar vossa devoção aos
que estão sob o meu encargo. Dignai-vos vo-lo peço ó pai do meu coração,
conceder-me a vossa especial proteção e admitir-me entre os vossos mais
fervorosos servos. Em todas as minhas ações assisti-me, junto de Jesus e Maria
favorecei-me, e na hora da morte não me falteis, por piedade. Amém".
Glorioso São José, rogai por nós!
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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