As Heresias Cristológicas
D.ESTEVÃO BETTENCOURT, OSB
Após verificar que o
Filho de Deus é verdadeiro Deus com o Pai e o Espírito Santo, a atenção dos
teólogos devia voltar´se mais detidamente para a questão: como Jesus pode ser
autêntico Deus e autêntico homem? Como se relacionam entre si a Divindade e a
humanidade de Jesus? A resposta a estas perguntas exigiu grande esforço por
parte dos estudiosos, que a formularam em quatro etapas:
1) a fase apolinarista;
2) a fase nestoriana;
3) a fase monofisita;
4) a fase monotelita.
A seguir, estudaremos as
três primeiras destas etapas.
O Apolinarismo
Em plena controvérsia
ariana, o Bispo Apolinário de Laodicéia (Síria), 310´390, mostrava´se fervoroso
defensor do Credo niceno contra os arianos, mas afirmava que em Cristo a
natureza humana carecia de alma humana; tomava ao pé da letra as palavras de S.
João 1,14: “O Lógos se fez carne”, entendendo carne no sentido estrito, com
exclusão de alma. O Lógos de Deus faria as vezes de alma humana em Jesus, isto
é, seria responsável pelas funções vitais da natureza humana assumida pelo
Lógos. Os argumentos em favor desta tese eram os seguintes: duas naturezas
completas (Divindade e humanidade) não podem tornar´se um ser único; se Jesus
as tivesse, Ele teria duas pessoas ou dois eu ´ o que seria monstruoso. Além
disto, dizia, onde há um homem completo, há também o pecado; ora o pecado tem
origem na vontade; por conseguinte, Jesus não podia ter vontade humana nem a
alma espiritual, que é a sede da vontade. Apolinário expôs suas idéias no livro
“Encarnação do Verbo de Deus”, que ele apresentou ao Imperador Joviano e que os
seus discípulos difundiram. ´ Foram condenadas num sínodo de Alexandria em 362;
depois, pelo Papa S. Dâmaso em 377 e 382 e, especialmente, pelo Concílio de
Constantinopla I (381). Verificando a oposição que lhe faziam bons teólogos,
Apolinário limitou´se a negar a presença de mente (nous) humana em Jesus. S.
Gregório de Nissa († 394) e outros autores lhe responderam mediante belo
princípio: “O que não foi assumido pelo Verbo, não foi redimido” ´ o que quer
dizer: Deus quer santificar e salvar a natureza humana pelo próprio mistério da
Encarnação ou pela união da Divindade com a humanidade; se pois, a humanidade
estava mutilada em Jesus, ela não foi inteiramente salva. Em Antioquia,
fundou´se uma comunidade apolinarista, tendo à frente o Bispo Vital. Por volta
de 420 esta foi reabsorvida pela Igreja ortodoxa, mas nem todos os seus membros
abandonaram o erro, que reviveu, de certo modo, na heresia monofisita.
O Nestorianismo.
Afirmada a existência da
natureza humana completa em Jesus, os teólogos puderam estudar mais detidamente
o modo como humanidade e Divindade se relacionaram em Cristo. Antes, porém, de
entrar em particulares, devemos mencionar as duas principais escolas teológicas
da antigüidade: a alexandrina e a antioquena, que muito influíram na elaboração
da Cristologia. A escola alexandrina era herdeira de forte tendência mística;
procurava exaltar o divino e o transcendental nos artigos da fé. Interpretava a
S. Escritura em sentido alegórico, tentando desvendar os mistérios divinos
contidos nas Sagradas Letras. Em assuntos cristológicos, portanto, era
inclinada a realçar o divino, com detrimento do humano. Ao contrário, a escola
antioquena era mais dada à filosofia e à razão: voltava´se mais para o humano,
sem negar o divino. Interpretava a S. Escritura em sentido literal e tendia a
salientar em Jesus os predicados humanos mais do que os atributos divinos. Era
mais racional, ao passo que a de Alexandria era mais mística. Dito isto, voltemos
à história do dogma cristológico. A primeira tentativa de solução foi
encabeçada por Nestório, elevado à cátedra episcopal de Constantinopla em 428.
Afirmava que o Lógos habitava na humanidade de Jesus como um homem se acha num
templo ou numa veste; haveria duas pessoas, em Jesus ´ uma divina e outra
humana ´ unidas entre si por um vinculo afetivo ou moral. Por conseguinte,
Maria não seria a Mãe de Deus (Theotókos), como diziam os antigos, mas apenas
Mãe de Cristo (Christokós); ela teria gerado o homem Jesus, ao qual se uniu a
segunda pessoa da SS. Trindade com a sua Divindade. Nestório propunha suas
idéias em pregações ao povo, nas quais substituía o título “Mãe de Deus” por
“Mãe de Cristo” As suas concepções suscitaram reação não só em Constantinopla,
mas em outras regiões também, especialmente em Alexandria, onde S. Cirilo era
Bispo ardoroso. Este escreveu em 429 aos bispos e aos monges do Egito,
condenando a doutrina de Nestório. As duas correntes se dirigiram ao Papa
Celestino I, que rejeitou a doutrina de Nestório num sínodo de 430. Deu ordem a
S. Cirilo para que intimasse Nestório a retirar suas teorias no prazo de dez
dias, sob pena de exílio; Cirilo enviou ao Patriarca de Constantinopla uma
lista de doze anatematismos que condenavam o nestorianismo. Nestório não se
quis dobrar, de mais a mais que podia contar com o apoio do Imperador; além do
mais, tinha muitos seguidores na escola antioquena, entre os quais o próprio
Bispo João de Antioquia. Em 431, o Imperador Teodósio II, instado por Nestório,
convocou para Éfeso o terceiro Concílio Ecumênico a fim de solucionar a questão
discutida. S. Cirilo, como representante do Papa Celestino I, abriu a
assembléia diante de 153 Bispos. Logo na primeira sessão, foram apresentados os
argumentos da literatura antiga favoráveis ao título Theotókos, que acabou
sendo solenemente proclamado; daí se seguia que em Jesus havia uma só pessoa (a
Divina); Maria se tornara Mãe de Deus pelo fato de que Deus quisera assumir a
natureza humana no seu seio. Quatro dias após esta sessão, isto é, a 26/06/431
chegou a Éfeso o Patriarca Jogo de Antioquia, com 43 Bispos seus seguidores,
todos favoráveis a Nestório; não quiseram unir´se ao Concílio presidido por S.
Cirilo, representante do Papa; por isto formaram um conciliábulo, qual depôs
Cirilo. O Imperador acompanhava tudo de perto e sentia´se indeciso. S. Cirilo
então mobilizou todos os seus recursos, para mover Teodósio II em favor da reta
doutrina; nisto foi ajudado por Pulquéria, piedosa e influente irmã mais velha
do Imperador. Este finalmente apoiou a sentença de Cirilo e exilou Nestório.
Todavia os antioquenos não se renderam de imediato; acusavam Cirilo de
arianismo a apolinarismo. Após dois anos de litígio, em 433 puseram´se de
acordo sobre uma fórmula de fé que. professava um só Cristo e Maria como
Theotókos. O Nestorianismo, porém, não se extinguiu. Os seus adeptos, expulsos
do Império Bizantino, foram procurar refúgio na Pérsia, onde fundaram a Igreja
Nestoriana. Esta teve notável expansão até a China e a Índia Meridional; mas do
século XIV em diante foi definhando por causa das incursões dos mongóis; em
grande parte, os nestorianos voltaram à comunhão da Igreja universal (são hoje
os cristãos caldeus e os cristãos de São Tomé). Em nossos dias muitos
estudiosos têm procurado reabilitar a pessoa e a obra de Nestório, que parece
ser autor de uma apologia intitulada “Tratado de Heraclides de Damasco”:
pode´se crer que tenha tido reta intenção ; mas certamente sustentou posições
errôneas por se ter apegado demasiadamente à Escola Antioquena.
O Monofisismo
A luta contra o
Nestorianismo, que admitia em Jesus duas naturezas e duas pessoas, deu ocasião
ao surto do extremo oposto, que é o monofisismo ou monofisitismo (“em Jesus há
uma só natureza e uma só pessoa: a divina”). O primeiro arauto desta tese foi
Eutiques, arquimandrita de Constantinopla: reconhecia que Jesus constava
originariamente da natureza divina e da humana, mas afirmava que a natureza
divina absorveu a humana, divinizando´a; após a Encarnação, só se poderia falar
de uma natureza em Jesus: a divina. Esta doutrina tornou´se a heresia mais
popular e mais poderosa da antigüidade, pois, para os orientais, a divinização
da humanidade em Cristo era o modelo do que deve acontecer com cada cristão.
Eutiques foi condenado como herege no Sínodo de Constantinopla em 448, sob o
Patriarca Flaviano. Todavia não cedeu e reclamou contra uma pretensa injustiça,
pois tencionava combater o Nestorianismo. Conseguiu assim ganhar os favores da
corte. Solicitado pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, Teodósio II Imperador
convocou em 449 novo Concílio Ecumênico para Éfeso, confiando a presidência do
mesmo a Dióscoro, que era partidário de Estiques. Dióscoro, tendo aberto o
Concílio negou a presidência aos legados papais; não permitiu que fosse lida a
Carta do Papa S. Leão Magno, que propunha a reta doutrina: as duas naturezas em
Cristo não se misturam nem confundem, mas cada qual exerce a sua atividade
própria em comunhão com a outra; assim Cristo teve realmente fome, sede e
cansaço, como homem, e pôde ressuscitar mortos como Deus. ´ Esse Concílio de
Éfeso proclamou a ortodoxia de Eutiques; depôs Flaviano, Patriarca de
Constantinopla, e outros Bispos contrários à tese monofisita... Todavia os seus
decretos foram de curta duração. Os Bispos de diversas regiões o repudiaram
como ilegítimo ou, segundo a expressão do Papa São Leão Magno, como “latrocínio
de Éfeso”; pediam novo Concílio que de fato foi convocado após a morte de
Teodósio II pela Imperatriz Pulquéria (irmã de Teodósio) e pelo general
Marcião, que em 450 foi feito Imperador e se casou com Pulquéria. O novo
Concílio, desta vez legítimo, reuniu´se em Caledônia, diante de Constantinopla,
em 451; foi o mais concorrido da antigüidade, pois dele participaram mais de
600 membros, entre os quais três legados papais. A assembléia rejeitou o
“latrocínio de Éfeso”; depôs Dióscoro e aclamou solenemente a Epístola
Dogmática do Papa São Leão a Flaviano; esta serviu de base a uma confissão de
fé, que rejeitava os extremos do Nestorianismo e do Monofisismo, propondo em
Cristo uma só pessoa e duas naturezas: “Ensinamos e professamos um Único e
idêntico Cristo... em duas naturezas, não confusas e não transformadas, não
divididas, não separadas, pois a união das naturezas não suprimiu as
diferenças; antes, cada uma das naturezas conservou as suas propriedades e se
uniu com a outra numa Única pessoa e numa Única hipóstase”. Assim terminou a
fase principal das disputas cristológicas: em Cristo não há duas naturezas e
duas pessoas, pois isto destruiria a realidade da Encarnação e da obra
redentora de Cristo; mas também não há uma só natureza e uma só pessoa, pois
Cristo agiu como verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte para transfigurar
estas nossas realidades. Havia, pois, uma só pessoa (um só eu) divina, que,
além de dispor da natureza divina desde toda a eternidade, assumiu a natureza
humana no seio de Maria Virgem e viveu na terra agindo ora como Deus, ora como
homem, mas sempre e somente com o seu eu divino. O encerramento do Concílio de
Calcedônia não significou a extinção do monofisismo. Além da atração que esta
doutrina exercia sobre os fiéis (especialmente os monges), propondo´lhes a
humanidade divinizada de Cristo como modelo, motivos políticos explicam essa
persistência da heresia; com efeito, na Síria e no Egito certos cristãos viam
no Monofisismo a expressão de suas tendências nacionalistas, opostas ao
helenismo e à dominação bizantina. Por isto os monofisitas continuaram a lutar
contra o Imperador, que havia exilado Dióscoro e Eutiques e ameaçado de punição
os adeptos destes: ocuparam sedes episcopais; inclusive a de Jerusalém (ao
menos temporariamente). No século VII a situação se agravou, pois os muçulmanos
ocuparam a Palestina, a Síria e o Egito, impedindo a ação de Bizâncio em prol
da ortodoxia nesses países. Em conseqüência, os monofisitas foram constituindo
Igrejas nacionais: a armena, a síria, a mesopotâmica, a egípcia e a etíope, que
subsistem até hoje com cerca de 10 milhões de fiéis. No Egito, os monofisitas
tomaram o nome de coptas, nome que guarda as três consoantes da palavra grega
Aigyptos (g ou k, p, t ); são os antigos egípcios. Os ortodoxos se chamam
melquitas (de melek, Imperador), pois guardam a doutrina ortodoxa patrocinada
pelo Imperador em Calcedônia. Há coptas que se uniram a Roma em 1742, enquanto
os outros permanecem monofisitas, mas professam quase o mesmo Credo que os
católicos. Na Abissínia os monofisitas também são chamados coptas pois
receberam forte influência do Egito. ´ Dentre os melquitas, grande parte aderiu
ao cisma bizantino, separando´se de Roma em 1054; certos grupos, porém, estão
hoje unidos à Igreja universal; ver capítulo 21. Na Síria e nos países
vizinhos, os monofisitas foram chamados jacobitas, nome derivado de um dos seus
primeiros chefes: Jacó Baradai (= o homem da coberta de cavalo, alusão às suas
vestes maltrapilhas). Jacó, bispo de Edessa (541´578), trabalhou com zelo e
êxito para consolidar as Comunidades monofisitas, As quais deu por cabeça o
Patriarca Sérgio de Antioquia (544). A história das disputas cristológicas
prosseguirá no capítulo seguinte.
O Henotikón e o
Teopasquismo
Vinte a cinco anos após o Concílio de Calcedônia, em 476, deu´se nova investida dos monofisitas contra a ortodoxia. Com efeito; os Patriarcas Pedro Mongo, de Alexandria, e Acácio de Constantinopla, adeptos do monofisismo, redigiram um Símbolo de fé que condenava tanto Nestório quanto Eutiques; rejeitava o Concílio de Calcedônia e afirmava que as normas de fé deveriam ser o símbolo niceno´constantinopolitano e as definições do Concílio de Éfeso (431). Tal fórmula de 476 podia ser interpretada de diversas maneiras. O. Imperador Zenão promulgou esse símbolo de fé, dito Henotikón (Edito de União), com o vigor de lei do Estado. Assim esperava atingir a unidade religiosa dentro do Império. Infelizmente, porém, causou mais acesas divisões. Muitos católicos e os monofisitas mais extremados recusaram obedecer ao Imperador por causa da ambigüidade do Henotikón. Ao saber das manobras do Imperador, o Papa Félix III enviou legados a Constantinopla para pedir a Zenão, e ao Patriarca Acácio fidelidade ao Concílio de Calcedônia. Como fossem vãs essas solicitações, o Papa resolveu depor Acácio, Patriarca de Constantinopla. Tal medida era muito grave, pois significava ruptura com os cristãos orientais em geral e com o Imperador, que os queria dirigir no sentido do monofisismo. O Papa, porém, foi corajoso no cumprimento do dever de preservar a reta fé. A ruptura durou 35 anos (484´519). Foi chamada “cisma acaciano”, durante o qual o monofisismo se propagou amplamente entre os orientais. Zenão morreu em 491, tendo por sucessor o Imperador Anastásio (491´518), também simpático aos monofisitas. Por isto, as conversações que o Papa encaminhou com o monarca, foram infrutíferas. A situação se tornou ainda mais sombria por causa da questão teopasquita. Com efeito; a liturgia grega cantava a Triságion (três vezes santo) nos seguintes termos: “Santo (hágios) Deus, Santo Forte, Santo imortal, tem piedade de nós”. Ora o bispo monofisita Pedro Fulão de Antioquia acrescentou´lhe as palavras “que foste pregado na cruz por cause de nós”. O Imperador Anastásio mandou recitar a fórmula ampliada em Constantinopla; donde resultou grande agitação. Diziam alguns monges e fiéis: “Um16 da Santíssima Trindade padeceu na carne”; foram chamados teopasquitas17. A fórmula em foco podia ser entendida segundo a ortodoxia: a segunda Pessoa da SS. Trindade, tendo´se feito homem, padeceu na carne de Jesus. Mas, como a origem desses dizeres era monofisita, os ortodoxos desconfiaram dos mesmos, de mais a mais que os monofisitas lhes favoreciam calorosamente. Morto o Imperador Anastásio, sucedeu´lhe Justino (518´527), que se empenhou por restabelecer a comunhão com a Sé de Roma. O Papa Hormisdas (514´523) acolheu o propósito de Bizâncio e mandou legados a esta cidade com uma fórmula de união dita “Livro da Fé do Papa Hormisdas”: esta proclamava o símbolo de fé calcedonense e as cartas dogmáticas de Leão Magno; renovava o anátema sobre Nestório, Eutiques, Dióscoro e outros chefes monofisitas; além disto, declarava que, conforme a promessa de Cristo a Pedro em Mt 16,16´19, a fé católica se conservava intacta na Sé de Roma; por isto os fiéis deviam obediência às decisões tomadas por esta. Era assim professado o primado do Papa em 515. O Patriarca João II, de Constantinopla, os bispos e os monges presentes nesta cidade assinaram tal fórmula. Estava terminado o cisma. O monofisismo perdeu muito da sua voga, mas as controvérsias continuaram.
Os Três Capítulos
O Imperador Justiniano
(527´565) foi homem de grande ideal, que tencionou dar ao Império um período de
fausto como não o tivera até então. Era, ao mesmo tempo, prepotente, de modo
que exerceu forte cesaropapismo. Compreende´se então que as controvérsias
teológicas tenham merecido sua zelosa atenção. O Imperador, querendo conciliar
os ânimos, só fez provocar maiores tumultos. O bispo Teodoro Asquida de
Cesaréia, muito influente na corte, sugeriu ao Imperador que condenasse três
nomes de autores antioquenos tidos como inspiradores do nestorianismo; dizia
que bastaria essa medida para obter a volta dos monofisitas A comunhão da
Igreja Universal. Esses três nomes constituíram Três Capítulos, a saber: 1)
Teodoro de Mopsuéstia († 428), sua pessoa e seus escritos; 2) os escritos de
Teodoreto de Ciro († 458) contra Cirilo e o Concílio de Éfeso; 3) a carta do
bispo Ibas de Edessa († 435) ao bispo Mário de Ardashir em defesa de Teodoro de
Mopsuéstia e contra os anatematismos de Cirilo. O Imperador acolheu a proposta
e publicou um edito que anatematizava os Três Capítulos em 543. Este decreto
dividiu os ânimos, pois não se viam claramente os erros pretensamente cometidos
pelos três autores. Justiniano, porém, obrigou o Patriarca Menas e os bispos
orientais a assinar o anitema. Os ocidentais deviam seguir´lhes o exemplo,
tendo o Papa Vigilio à frente. Este relutou; por isto o Imperador mandou
buscá´lo de Roma para Constantinopla. Um ano após sua chegada, Vigílio em 548
escreveu o ludicatum, em que condenava os Três Capítulos, ressalvando, porém, a
autoridade do Concílio de Calcedônia O gesto do Papa causou indignação entre os
ocidentais, principalmente no Norte da África, pois era uma estrondosa vitória
do cesaropapismo. Em conseqüência, o Papa e o Imperador em 550 decidiram
convocar um Concílio Ecumênico para resolver o caso; entrementes nenhuma
inovação seria praticada. Todavia em julho de 551 Justiniano repetiu o anátema
sobre os Três Capítulos ´ o que provocou ruptura com o Papa Vigílio, que teve
de procurar asilo em igrejas de Constantinopla e Calcedônia. A respeito do
Concílio, o Papa e o Imperador já não concordavam entre si. Por isto Justiniano
convocou o Concílio por sua exclusiva iniciativa. Reunido sob a presidência de
Eutíquio, novo Patriarca de Bizâncio, renovou a condenação dos Três Capítulos
(maio e junho de 553). Vigílio então em 13/05/553, no decurso do próprio
Concílio, publicou o Constitutum que se opunha à condenação dos Três Capítulos.
Justiniano não aceitou a nova posição do Papa e mandou cancelar o nome de
Vigílio nas orações da Liturgia. Finalmente, sob o peso das pressões e da
doença, o Papa em dezembro de 553 retirou o seu Constitutum e aderiu às
decisões do Concílio de Constantinopla de 553. Num segundo Constitutum de
23/02/554, expôs as razões da sua atitude. Em conseqüência, o Imperador
permitiu´lhe voltar para Roma; todavia morreu em viagem (555). Era vítima da
sua inconstância de caráter.
Os Papas que lhe
sucederam, a começar por Pelágio I (556´561), reconheceram o Concílio de 553
como ecumênico; é o de Constantinopla II. As dioceses do Ocidente aos poucos
também o foram reconhecendo, embora tivessem consciência de que significava uma
humilhação para o Papado. Notemos que as hesitações do Papa Vigílio não
versavam sobre assuntos de fé propriamente dita, mas sobre a oportunidade ou
não de se condenarem três nomes de escritores antigos. ´ O episódio também é
interessante por evidenciar quanto era prestigiada a Sé Romana; o Imperador
quis absolutamente ganhar o consenso do Papa Vigílio; por isto mandou buscá´lo
em Roma e pressionou´o repetidamente para que subscrevesse ao decreto imperial,
como se este precisasse da assinatura do Papa para ser válido.
Monergetismo e
monotelitismo
Os monofisitas insistiam
em se auto´afirmar. Por isto a heresia reapareceu no século VII sob nova forma.
O Patriarca Sérgio de Constantinopla desde 619 ensinava que em Jesus havia uma
só enérgeia ou uma só capacidade de agir (monergetismo); a capacidade humana
estaria absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O Imperador
Heráclio (610´641) aceitou a nova fórmula e conseguiu assim reconciliar grupos
monofisitas com o Império.
Todavia o monge
palestinense Sofrônio resolveu resistir à nova doutrina, denunciando´a como
monofisismo velado. O Patriarca Sérgio de Constantinopla deixou então de falar
de uma só faculdade operativa, para afirmar uma só vontade (a Divina tendo
absorvido a humana) em Jesus (monotelitismo). Muito habilmente Sérgio tentou
ganhar os favores do Papa Honório I (625´638); este, tendo recebido informações
unilaterais, escreveu duas cartas ao Patriarca de Constantinopla, em que aderia
genericamente à sua posição, embora não compartilhasse propriamente nem o
monergismo nem o monofisismo; para evitar escândalos ordenava que não se
falasse de uma ou duas energias.
Levando adiante a causa
de Sérgio, o Imperador Heráclio em 638 promulgou a profissão de fé dita
“Ectese”, redigida pelo Patriarca, que reafirmava o monotelitismo. Os bispos
orientais a aceitaram quase unanimemente, ao passo que os sucessores do Papa
Honório (morto em 638) a condenaram.
O Imperador Constante II
(641´648), sobrinho de Heráclio, retirou a “Ectese”, mas, aconselhado pelo
Patriarca Paulo de Constantinopla, publicou novo edito dogmático, chamado
Typos, em 648, que proibia falar de uma ou duas vontades em Cristo. O monarca
tencionava assim pôr fim à contenda. Ora no Ocidente o Papa Martinho I
(649´653), percebendo a sutileza dos bizantinos, reuniu um Concílio no Latrão
(Roma) em 649, o qual declarou que em Cristo havia dois modos de operar e duas
vontades naturais, e puniu com a excomunhão os fautores das novas idéias. O
Imperador, indignado, mandou prender o Papa e leva´lo para Constantinopla
(653); aí foi humilhado como traidor e, por fim, exilado para a Criméia, onde
morreu de maus tratos. Vários cristãos orientais foram tratados de modo
semelhante por resistirem ao. Imperador, merecendo especial destaque o abade
São Máximo o Confessor, que foi cruelmente martirizado.
Constantino IV Pogonato
(668´685), filho de Constante II, procurou a paz e, para tanto, decidiu
convocar um Concílio Ecumênico, idéia que o Papa Agatão (678´681) aprovou com
solicitude. Tal foi o sexto Concílio Ecumênico, o de Constantinopla III,
celebrado de novembro de 680 a setembro de 681, com a presença de 170
participantes. Os conciliares elaboraram uma profissão de fé, que completava a
de Calcedônia:
“Nós professamos, segundo
a doutrina dos Santos Padres, duas vontades naturais e dois modos naturais de
operar, indivisos e inalterados, inseparados e não misturados, duas vontades
diversas, não, porém, no sentido de que uma esteja em oposição à outra, mas no
sentido de que a vontade humana seque e se subordina à divina “
Isto quer dizer que em
Jesus havia duas faculdades de querer ´ a divina e a humana ´ de tal modo,
porém, que a vontade humana se sujeitava à divina, como atesta a oração no
horto das Oliveiras, conforme Mc 14,36.
O Concílio condenou os
defensores do monotelitismo e o próprio Papa Honório, tido como fautor de tal
doutrina. ´ A condenação de Honório suscitou longos debates entre historiadores
e teólogos modernos. Na verdade, pode´se tranqüilamente dizer o seguinte:
O Papa Honório,
intervindo na controvérsia, não quis proferir definições ex cathedra, nem quis
discutir como teólogo. Unilateralmente informado por Sérgio, julgou que a
discussão a respeito de uma ou duas vontades em Cristo era mero litígio de
palavras, como estava nos hábitos dos bizantinos; por isto julgou que podia
aprovar a posição de Sérgio sem afetar a reta fé. A expressão “uma vontade”,
aliás, foi explicada pelo próprio Honório em sua carta a Sérgio, no sentido de
conformidade do querer humano com o divino. Quanto às faculdades de operar
(energeias), Honório esclareceu, seu ponto de vista referindo´se à epístola
dogmática de São Leão a Flaviano, que diz: ambas as naturezas operam na única
pessoa de Cristo, não misturadas, não separadas e não confusas, aquilo que é
próprio de cada uma delas. ´ Donde se vê que o juízo proferido sobre Honório
pelo Concílio de 681 foi severo demais; a Sé de Roma nunca o aprovou
integralmente.
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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