CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII
FULGENS RADIATUR
SOBRE O XIV CENTENÁRIO DA MORTE
DE SÃO BENTO PATRIARCA DOS
MONGES DO OCIDENTE
Aos
veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes, Bispos
e demais
Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica
INTRODUÇÃO
S. BENTO,
ASTRO BRILHANTE DA IGREJA E DA CIVILIZAÇÃO
1.
Fulgurante de luz, Bento de Núrcia, glória da Itália e de toda a Igreja,
resplandece como astro na cerração da noite. Quem pacientemente estudar a sua
gloriosa vida e adentrar, à luz da história, o tempestuoso tempo em que viveu,
há de sentir, indubitavelmente, a realidade da promessa que o Senhor deixou aos
apóstolos e a sociedade que fundara: "Estarei convosco, todos os dias, até
a consumação dos tempos" (Mt 27,20). Sentença e promessa que jamais
perderá, por certo, a sua atualidade, porque se envolve no curso dos séculos,
que a divina Providência governa e encaminha. Com efeito, quando são mais
audazes e agressivos os inimigos da religião e mais temerosos os baixios em que
se agita a nau vaticana de Pedro, quando tudo, finalmente, se vai, a
desmoronar, e já pereceu de todo a esperança humana, então, precisamente, o
amigo que não falta, o divino consolador, dispensador dos tesouros celestiais,
Jesus Cristo, aparece para reconstituir as fileiras abaladas, com novos
contingentes de atletas, que saiam a defender em campo a república cristã, que
a reintegrem como antigamente e que, se puder ser, com o auxílio da graça, a
enriqueçam de novas conquistas.
2. Entre
esses atletas, refulge com luz particular "Bento, que duplamente o foi:
por graça e de nome".(1)
Por especialíssimo desígnio da Providência, salientava-se nas trevas do século
o santo patriarca, à hora precisa em que a situação da Igreja e dos povos
atravessava uma crise profunda. O império romano, que atingira o apogeu da
glória, estendendo-se, por efeito duma política justa e moderada, aos povos
mais diversos, a ponto de afirmar um dos seus escritores "que melhor que
império chamarse-lhe-ia padroado da terra",(2)
como tudo que é humano, tinha declinado para o ocaso. Debilitado e corrompido
por dentro, esfacelado, por fora, pelas repetidas incursões dos bárbaros que
desciam do setentrião, o Ocidente afundava-se na mais completa ruína. Nesta
horrível procela, cheia de perigos e destroços, donde surgiria à humanidade a
esperança de auxílio, a garantia de salvar da voragem, intactas ao menos, as
relíquias do seu patrimônio? Da Igreja católica. Com efeito, todos os
empreendimentos e instituições, baseados unicamente no arbítrio dos homens, que
reciprocamente se sucedem e engrandecem, no rodar do tempo, vêem, em virtude da
própria fragilidade essencial, decair e arruinar-se. A Igreja, porém, possui,
derivante do próprio fundador, a propriedade de fruir da vida divina, dum vigor
incessante que lhe permite sair da luta com os homens e as coisas sempre
vencedora, apta para arrancar, ainda do entulho, uma idade nova e mais feliz e
reagregar os povos, com o influxo dos princípios cristãos, numa sociedade
rejuvenescida.
3. Por
isso, na provável ocorrência do XIV centenário da morte do santo patriarca, em
que coroado de méritos e esgotado de trabalhos despendidos em prol de Deus e
dos homens, venturosamente passou deste exílio da terra à pátria celeste,
houvemos por bem, veneráveis irmãos, salientar, ainda que resumidamente, nesta
nossa carta encíclica o momentoso papel que desempenhou na reintegração e
reforma das coisas do seu tempo.
I. A
FIGURA HISTÓRICA DO PATRIARCA
4. Filho
de nobres pais e natural da província de Núrcia,(3)
"foi plenificado no seu espírito de todas as virtudes"(4)
e defendeu a Igreja, admiravelmente, com sua prudência e virtude. Com efeito,
enquanto o mundo se atolava e empobrecia no vício, enquanto a Europa e a Itália
pareciam um miserável teatro de guerra e de povos em luta, e até as próprias
instituições monásticas, manchadas com o pó da terra não dispunham já daquela
porção de vitalidade e energia indispensáveis para resistir com vantagem às
insinuações da corrupção, Bento estabeleceu na Igreja, com sua obra e vida, uma
corrente perene de juventude, renovando a severidade dos costumes e
robustecendo, de leis mais santas e vigorosas, a vida claustral. Mas isto não é
tudo. Porque, a peso de trabalho e de esforço seu e seus sequazes, converteu
aqueles povos rudes e ferozes, incutindo-lhes hábitos civis e cristãos,
convertendo-os para a virtude, o trabalho e para as tranqüilas ocupações da
arte e da ciência e unindo-os todos por laços de amor fraterno e caridade.
5. Na flor
dos anos ainda, foi enviado a Roma para o estudo das disciplinas liberais.(5)
Teve ocasião de ver aí, com imensa tristeza, o pulular das heresias, que
arrastavam no vórtice subversivo do erro muitos dos espíritos mais belos; o
rebaixamento dos costumes públicos e privados; o atoleiro sensual em que se
revolvia a mocidade galante e mundana do seu tempo, de tal modo que se podia
dizer, em verdade, da sociedade romana: "Está morrendo e ri. E, por isso,
em todas as partes do mundo, às nossas gargalhadas se tem seguido as
lágrimas".(6)
Ele, porém, prevenido da graça de Deus, "guardou-se do contágio... e, ao
ver que muitos se perdiam no sorvedouro do vício, puxou atrás o pé que já havia
colocado na entrada do mundo. ...E pondo de lado o estudo das letras,
desertando da casa e dos bens paternos, demandou, com o desejo só de agradar a
Deus, o hábito da vida perfeita".(7)
Rejeitando, pois, os encantos duma vida mundana e fácil, renunciando, e com
prazer, à perspectiva aliciante duma posição categorizada, a que, não sem
motivos, podia aspirar, deixou Roma e foi-se meter em lugar silvestre e
apertado onde, com mais liberdade, se pudesse entregar à contemplação das
coisas celestiais. Chegou, assim, ao sítio que se chama Subiaco e recolhendo-se
aí em estreita gruta, começou a fazer vida mais de anjo que de homem.
6.
"Escondido com Cristo em Deus" (cf. Cl 3, 3), todo se deu, por espaço
de três anos, a se treinar na perfeição evangélica a que, por uma quase espécie
de divino instinto, era chamado. Fugir das coisas da terra e apetecer somente,
com sagrado ardor, as do Céu; levar as noites e os dias, em suaves colóquios
com Deus e em efusão de incendiadíssimas preces pela salvação da sua alma e do
próximo; coibir e pôr freio aos instintos sensuais com castigos e macerações da
carne, tal foi a convenção solene que a si mesmo se impôs. Desse novo modo de
vida colhia tamanha suavidade e prazer, que entrou, então, em maior asco dos
deleites que anteriormente experimentara nas venturas do século. Acometido,
certo dia, pelo inimigo do gênero humano, com furiosa tentação da carne, como
de ânimo nobre e ousado que era, lhe resistiu com toda a energia de sua vontade,
e, rojando-se entre puas de cardos e urtigas que ali cresciam, com este
sedativo voluntário aplacou o ardor libidinoso. Triunfou, por este processo, de
si mesmo e mereceu ser confirmado em graça, em prêmio de tão grande virtude.
"Daí por diante, como depois contava a seus discípulos, de tal modo
ficaram nele subjugados os apetites, que jamais lhes sentiu o mínimo desforço.
Liberto, assim, dos apuros da tentação, podia, em verdade, tornar-se mestre de
virtudes".(8)
7. Nesse
refúgio solitário e pacífico, em que por longo tempo viveu, se adestrou Bento
na prática da virtude e reformulação dos costumes, lançando com solidez os
alicerces sobre os quais havia de erguer, mais tarde, o grandioso edifício da
perfeição cristã. E, como sabeis perfeitamente, veneráveis irmãos, toda a obra
de apostolado religioso e empresa santa há-de gorar, infalivelmente, se não
provier de ânimo dotado daqueles predicados cristãos, únicos que possuem o
condão de, com o auxílio da graça, encaminhar os empreendimentos humanos à
glória de Deus e à salvação das almas. Dessa verdade estava Bento inteiramente
certo e convencido. Pelo que, antes de acometer a realização do grandioso plano
a que a divina providência o destinava, todo se empenhou em reproduzir
primorosamente em si aquele ideal de vida evangélica de que desejava imbuir os
outros, e que perfeitamente alcançou, com aturada oração.
8. E como
a fama da sua vida andasse já na boca dos povos vizinhos e se fosse divulgando
de dia em dia, não só os monges das redondezas acorriam a alistar-se sob a sua
direção, mas os habitantes das redondezas vinham, às turmas, escutá-lo,
admirar-lhe as egrégias virtudes e, enfim, presenciar os prodígios que
freqüentemente operava mediante a graça do Senhor. Começou, então, aquela
vívida luz, que irradiava da sombria gruta de Subiaco, a difundir-se e brilhar
por lugares distantes. "De maneira que, já os nobres e religiosos da
cidade de Roma afluíam à gruta, a suplicar ao santo que lhes educasse os filhos
na escola do Senhor".(9)
9. Compreendeu,
então, Bento perfeitamente que eram chegados os tempos, predefinidos nos planos
da Providência, de se lançar na fundação duma nova família religiosa e de a
modelar, com esmero, nos moldes da perfeição evangélica. Não lhe faltaram, logo
de princípio, felizes esperanças. Muitos foram "os que reuniu em sua volta
ao serviço de Deus Onipotente, ... a ponto de, com a ajuda de nosso Senhor
Jesus Cristo, aí construir doze mosteiros, distribuindo doze monges e um padre
espiritual por cada um e retendo consigo os que julgou conveniente preparar
ainda melhor".(10)
10.
Contudo, enquanto a iniciativa procedia com venturosos prenúncios de futuro,
toda se coroando já de copioso fruto e desabrochando em promessas de mais e
melhor, Bento sentiu, com profunda tristeza, cair-lhe sobre a tenra e
promissora seara o furacão da procela, que a inveja e cupidez humana tinham
levantado. Não se guiava Bento do conselho dos homens, mas de Deus e, receando
viesse a redundar em dano dos seus o rancor e ciladas que só contra si
maquinavam, agregando aos mosteiros, que já havia fundado, novo contingente de
irmãos e provendo-os de superiores, foi demandar com alguns religiosos outras
paragens.(11)
Confiado em Deus e em seu auxílio certo e oportuno, encaminhou-se, pois, para
as bandas do sul e chegou ao local "que se chama Cassino, nas abas dum
monte do mesmo nome, onde outrora se erguera um templo consagrado, pelos
costumes e ignorância dos gentios, ao oráculo de Apolo. Tinha esse, em roda, um
bosque dedicado ao demônio, onde, ainda ao tempo do Santo, acorria a dementada
multidão dos infiéis com sacrílegos sacrifícios. Chegando aí o homem de Deus,
derribou o ídolo, demoliu o altar, pôs fogo ao bosque, e consagrou o templo à
honra de S. Martinho e o altar do deus a s. João Batista. Depois, voltou-se à
pregação e levava à verdadeira fé as populações que viviam em roda".(12)
11. Foi Cassino,
como todos sabem, a casa principal do santo patriarca e o mais glorioso teatro
de suas virtudes e santidade. Do alto daquele monte, quando a treva da
ignorância e do vício, alastrando, ameaçava tudo subverter, ergueu-se um astro
novo que iluminou os povos perdidos por dévios caminhos, conduzindo-os ao culto
da verdade e da justiça. De modo que se pode dizer, com razão, que foi o
sagrado cenóbio de Cassino refúgio seguro das ciências e da virtude e, para
tempos tão calamitosos, "sustentáculo da Igreja e baluarte da fé".(13)
12. Aí
elevou Bento a vida monástica àquele ideal de perfeição que, por muito tempo,
rezando, meditando, experimentando, tinha procurado alcançar. Parece, com
efeito, que estava já predestinado para ele nos planos da Providência o múnus
especial de transplantar, do oriente ao ocidente, os hábitos e as regras da
vida cenobítica e de os acomodar, com felicidade, à índole e exigências dos
povos da Itália e da Europa. À vida puramente ascética, que nos cenóbios do
Oriente tanto se havia engrandecido, reuniu um zelo operoso, a vida ativa, que
torna possível "comunicar aos outros as coisas contempladas",(14)
colher abundantes frutos espirituais no campo do apostolado e não impede de,
simultaneamente, dourar a aspereza dos cômoros com a alegria das searas
lourejantes. O que esta vida solitária tinha de mais rude, de inconveniente
para a maioria e de perigoso, por vezes, para alguns, foi suavizado e polido
pela fraternal convivência das casas beneditinas, onde, na oração e no
trabalho, no estudo das letras sagradas e profanas, o venturoso repouso da vida
claustral não conhece os danos do ócio e da preguiça; onde o trabalho e ação,
longe de fatigarem o espírito ou perderem-no em ocupações inúteis, lhe
proporcionam uma paz inalterável e o elevam à contemplação das coisas
superiores; onde, finalmente, aos excessivos rigores disciplinares, às
macerações e prolongadas penitências se antepõe o amor de Deus e uma caridade
obsequiosa e fraternal para com todos. Com efeito, "temperou a sua Regra
de modo que os fortes desejassem ir mais além e os fracos a não temessem por
severa... Empenhava-se mais em governar os seus com amor, que em dominá-los
pelo medo". (15)
E é assim que se conta que, encontrando, uma vez, certo anacoreta metido numa
estreita cova e preso com grilhões, não fosse voltar ao mundo e ao pecado, o
censurou benignamente, por estas palavras: "Se és, em verdade, servo de
Deus, não te prendas em cadeias de ferro mas nas de Cristo".(16)
13. Deste
modo, à legislação particularíssima da vida eremítica, dependente, quase
sempre, do arbítrio dos superiores locais e, por conseguinte, vaga e
inconstante, sucedeu a Regra beneditina, um monumento luminoso de sabedoria
antiga e cristã, onde os direitos e os deveres dos monges, e o seu ministério
evangélico, se encontram definidos com inteligência e com amor, e que possuiu e
possui ainda o condão de encaminhar muitas almas pelas sendas do bem e da
virtude. Na Regra beneditina, com efeito, andam harmonicamente conjugadas a
prudência e a simplicidade, a humildade cristã com o exercício das virtudes
mais árduas. A severidade e a moderação dão-se de mãos e a própria obediência
se enobrece com uma liberdade sã. Uma indulgência sorridente e compreensiva
suaviza o rigor dos corretivos, e a recreação elegante e caridosa a austeridade
do silêncio. Mantém-se inteiramente de pé a disciplina, mas a obediência
infunde nas almas a tranqüilidade e a paz. Numa palavra, a autoridade é
exercida e os fracos não carecem de auxílio.(17)
14. Não
admira, portanto, que a Regra monástica, "elaborada por S. Bento, singular
de elegância e discrição" (18)
tenha sido nos nossos dias unanimemente exaltada. Persuadidos de que seremos
úteis e agradáveis à numerosa família do santo patriarca, ao clero e ao povo
católico achamos por bem, também nós, expor, ainda que resumidamente, as suas
características fundamentais.
15. As
comunidades monásticas estão organizadas à maneira das famílias cristãs. Têm à
frente um abade, o chefe de família, o pai, por assim dizer, de cuja paternal
solicitude inteiramente depende a direção total do mosteiro. "Julgamos
conveniente - diz Bento - para conservação da caridade da luz e da paz, que
todos os negócios relativos à direção do mosteiro estejam dependentes do poder
do abade".(19)
De modo que todos e cada um em particular têm o dever, em consciência, de se
sujeitarem religiosamente à sua direção(20)
e de reverência na pessoa dele à autoridade divina. O abade, porém, considere
atentamente que há de prestar ao Juiz supremo (21)
conta rigorosa do rebanho que recebeu para dirigir e animar no progresso da
virtude, de tal sorte se conduza nesta importantíssima tarefa que, no final,
quando, na presença temerosa de Deus, se proceder a juízo, venha a ser
merecidamente coroado.(22)
Além disso, todas as vezes que surgir no mosteiro negócio grave a tratar, o
abade, antes de qualquer decisão, convocará a conselho os irmãos, que
livremente manifestem a sua opinião.(23)
16. Surgiu
aqui, no princípio, uma dificuldade grave e intricada, na questão relativa a
escolha dos candidatos. Vinham bater às portas do mosteiro indivíduos de todas
as categorias sociais, na mais completa promiscuidade de nacionalidade, raça e
classe: romanos e bárbaros, livres e servos, vencidos e vencedores,
aristocratas de alta linhagem patrícia e humildes filhos da plebe. Bento
resolve o problema, com serenidade de espírito, aplicando-lhe o princípio da
caridade fraterna, "porque, quer gire nas nossas veias o sangue orgulhoso
dos patrícios, quer o humilde e obscuro do escravo, todos somos um em Cristo,
servindo na mesma milícia o mesmo estandarte. Seja igual para todos, portanto,
a caridade, respeitando-se em tudo o merecimento e virtude de cada um".(24)
Aos que entrarem no seu Instituto exige "que possuam em comum todas as
coisas", (25)
não contrariadamente ou por força, mas espontaneamente, por amor. Todo
religioso deve prender-se, por voto de estabilidade, ao claustro do seu
mosteiro. Poderá, desse modo, consagrar-se, com mais eficácia, à oração, ao
estudo dos livros; (26)
ao cultivo dos campos,(27)
às artes manuais, (28)
e aos trabalhos de apostolado religioso. Com efeito, "sendo a ociosidade
inimiga da alma, convém que o religioso se ocupe, a horas determinadas, no
trabalho manual...".(29)
Todavia, o que acima de tudo havemos de colocar, sobre o que se deve zelar com
todo o cuidado e diligência, "é que nada se prega ao ofício divino".(30)
E embora "tenhamos de fé que está Deus presente em todos os lugares,
devemos crer com mais firmeza esta verdade no ofício divino. Considerando,
pois, as maneiras que devemos guardar na presença da Divindade e dos anjos,
salmodiemos de modo que a nossa voz e a nossa alma vibrem a uníssono". (31)
17. Desses
princípios e regras que tivemos por bem salientar da Regra beneditina,
facilmente se conclui e avalia a sabedoria, a oportunidade, a admirável
congruência desta Regra com a natureza humana, a sua importância e gravidade.
Com efeito, enquanto nessa escura e convulsionada época da história o cultivo
da terra, o amor do trabalho e da arte, o estudo das ciências e das letras,
tanto religiosas como profanas, eram lançados, por uma espécie de desdém geral
e sintomático, ao abandono, dos mosteiros beneditinos sai uma plêiade luminosa
de agricultores, de artistas, de sábios, que nos salvaram incólumes os
monumentos da velha literatura, conciliaram os velhos e os novos povos, em
guerras constantes, reduzindo-os da barbárie renascente, das correrias, do
saque, à moderação da moral humana e cristã, à abnegação do trabalho, à luz da
verdade; reconstituíram, enfim, uma civilização enformada nos princípios do
Evangelho.
18. Isso,
porém, não é tudo. A base, a diretriz, por assim dizer, suprema de toda a vida
beneditina, é que todo trabalho, seja ele qual for, intelectual ou manual,
seja, antes de mais, para o monge veículo que o eleve a Jesus Cristo e centelha
que o inflame no seu amor perfeitíssimo. Não podem, com efeito, as coisas da
terra, nem do universo, satisfazer as exigências espirituais do homem, que Deus
criou para si. Possuem apenas a propriedade, que o mesmo Deus lhes infundiu ao
criá-las, de nos elevarem até ele pela escala ascendente das existências. Por
essa razão, é absolutamente necessário "que nada se anteponha ao amor de
Cristo",(32)
"que nada nos seja mais caro que o seu amor",(33)
que, numa palavra, "nada absolutamente se anteponha ao amor de Cristo, que
se digne conduzir-nos à posse da vida eterna".(34)
19. A este
ardentíssimo amor de Jesus Cristo é necessário que corresponda o amor do
próximo, porque a todos, indistintamente, devemos o ósculo fraterno da paz e o
tributo solícito do nosso arrimo. Donde, enquanto a intriga e o ódio
convulsionavam e lançavam os povos nos campos de batalha e, nessa confusão
cósmica dos homens e das coisas, erguiam ao alto o facho sangrento da morte, do
roubo, da miséria e das lágrimas, Bento legava a seus filhos este preceito santíssimo:
"no recebimento dos pobres e viajantes estrangeiros, ponha-se particular
cuidado e solicitude, porque é na pessoa destes que principalmente se recebe a
Cristo".(35)
E "todos os hóspedes que se apresentarem no mosteiro se recebam como se
fossem Cristo, porque ele há de dizer: fui hóspede e recebeste-me".(36)
E mais ainda: "antes de tudo, haja o maior cuidado no tratamento dos
doentes, sirvam-se com tal diligência como se fossem realmente Cristo, porque
ele disse: estive doente e me viestes visitar".(37)
Tendo rematado, assim, a sua obra, na mais perfeita caridade de Deus e dos
homens, e antevendo já com alegria e coroado de méritos a ventura suprema do
Paraíso, "ordenou, seis dias antes de morrer, que lhe cavassem a
sepultura. E sendo logo tomado de febre, começou a esgotar-se grandemente com o
ardor do mal. Crescendo o cansaço, dia a dia, fez-se, no terceiro, conduzir
pelos discípulos ao oratório e, armando-se aí da comunhão do corpo e sangue do
Senhor, rendeu de pé, sustentado nos braços dos discípulos, a alma a Deus,
entre murmúrios de orações".(38)
II.
BENEMERÊNCIAS DE S. BENTO
E DA SUA
ORDEM PARA A IGREJA E A CIVILIZAÇÃO
20. Depois
de passar o santo Patriarca desta vida, com trânsito feliz, a Ordem, que
fundara, enformada e conduzida pelo exemplo sempre vivo de suas virtudes e
encorajada pela sua intercessão paternal, longe de decair e esmorecer,
expandiu-se, largamente, nos anos subseqüentes.
21. Qual
tenha sido a ação poderosamente reconstrutiva dos monges, na idade média, quais
os serviços por eles prestados nos séculos seguintes, todo historiador
imparcial, que explore serenamente os fatos, o há de reconhecer. Efetivamente,
os beneditinos, além de terem sido como salientamos já - quase os únicos que
nessa época tenebrosa, ignorante e dissolvente, se deram ao trabalho de nos
conservarem intactos os amarelecidos códices da literatura antiga,
transcrevendo-os e comentando-os pacientemente, foram também eles, sobretudo,
que pelo exercício das artes, das ciências e do magistério proporcionaram à
cultura e ao ensino impulso notável. Assim como se pode dizer que a Igreja
católica deve o brilhante desenvolvimento e firmeza dos seus três primeiros
séculos ao sagrado sangue dos mártires e que foi devido à ciência e energia dos
santos padres, que, no seguinte, conservou intacta do contágio demolidor das
heresias a pureza imaculada de seus dogmas, podemos igualmente afirmar que, ao
desmoronar-se o império romano e surgirem as invasões dos bárbaros, foi
providencial a aparição da ordem beneditina e de seus florentíssimos mosteiros,
destinados a indenizar a Igreja das perdas sofridas, pacificando pela pregação
do evangelho os novos povos, harmonizando-os fraternalmente entre si num
esforço reconstrutivo, enformando-os, enfim, daquele conjunto de virtudes que
derivam dos preceitos do Salvador. À marcha das legiões romanas, que rolavam
pelas vias consulares a fim de subjugarem ao império de Roma os povos
distantes, sucedeu, com efeito, o exército pacífico dos monges, desprovidos de
"forças materiais, mas armados do poder que vem de Deus" (2Cor 10,4),
enviados pelo sumos pontífice a dilatar o reinado de Jesus Cristo até aos
confins da terra, não com a espada, o pavor do saque, da carnificina, mas com a
cruz e o arado, com o amor e a verdade.
22. Onde
quer que chegasse este exército inerme de agricultores, de artistas, de
teólogos, de sábios, de pregoeiros do Evangelho, marcava bem fundo o rastro das
suas pisadas, em oficinas que se erguiam, alegres de arte e de trabalho, em
relhas que se multiplicavam, desabrochando o seio das florestas na promessa
verde dos campos, em novos grupos de povos civilizados, arrancados aos costumes
da selva pelo exemplo e pregação dos monges. Apóstolos sem-conta calcorrearam,
transbordantes de caridade divina, as regiões turbulentas e ignoradas da
Europa, regando-as, generosamente, de suor e de sangue, levando às populações
pacíficas a luz das verdades e da moral cristã. Podemos realmente dizer que
Roma, engrandecida com a extensão de suas conquistas, levando as guerras de seu
império à terra e ao mar, "menos deve à braveza dos soldados que a
moderação da paz cristã".(39)
Com efeito, desde a Inglaterra, a França, a Holanda, a Alemanha, a Dinamarca, a
Frísia, a Escandinávia, até a Hungria, nenhum povo há que se não orgulhe do
apostolado dos monges, os não considere como glória nacional e ilustres
iniciadores da sua cultura. Quantos bispos, saídos do claustro, não governaram
sabiamente suas dioceses, ou já constituídas ou por eles criadas, fecundando-as
com o seu labor! Quantos mestres, quantos doutores exímios, fundando escolas
que ficaram célebres depois, iluminando os espíritos obscurecidos no erro e
contribuindo para desenvolvimento e progresso da cultura religiosa e profana!
Quantos varões santíssimos, finalmente, que, ingressando na ordem beneditina,
se adestraram no exercício da perfeição evangélica e intensamente propagaram o
reino de Jesus Cristo, com o exemplo e com admiráveis prodígios que operavam
mediante a graça divina.
23. Muitos
deles, como perfeitamente sabeis, veneráveis irmãos, ascenderam às honras do
episcopado ou se imortalizaram com a tiara dos pontífices. Recordar aqui o nome
de tantos apóstolos, bispos, santos e pontífices que a Igreja tem inscritos a
letras de ouro em seus anais, seria excessivamente longo e, aliás, inútil,
porque a vívida luz que os nimba, a incomparável importância que tiveram na
história, bastam por si a patenteá-los.
III.
ENSINAMENTOS "DA REGRA BENEDITINA"
PARA
O MUNDO CONTEMPORÂNEO
24.
Julgamos, pois, particularmente oportuno que todos, nesta ocorrência
centenária, recordem e refletidamente considerem o objeto desta nossa carta, a
fim de mais facilmente se prepararem para celebrar e exaltar estes gloriosos
fastos da Igreja e abraçar, também, de vontade generosa e eficaz, os
ensinamentos que eles encerram.
25.
Porque, nem só os velhos tempos tiveram motivos de esperar do santo patriarca e
da sua ordem os inumeráveis benefícios da sua ação. Os contemporâneos têm a
aprender dele muitas e importantes lições. Em primeiro lugar, os seus próprios
filhos, numerosíssimos, aprendam a caminhar corajosamente - o que de resto não
duvidamos - na trilha luminosa de seus passos e a assimilar, na prática da vida
cotidiana, os princípios de santidade e de virtude que lhes legou. Assim, hão
de não só corresponder, por certo com mais rendimento e vontade, ao chamamento
divino que seguiram por uma quase espécie de instinto celeste, quando lhes
amanheceu na alma a graça da vocação religiosa, mas também, de consciência
serena e com tranqüilidade, poderão trabalhar mais eficazmente para a comum
utilidade da família cristã.
26. Além
disso, qualquer classe social, que se debruce, estudiosa e atentamente, sobre a
vida e Regra do santo patriarca, não poderá deixar de lhe sentir o poderoso
impulso renovador e de espontaneamente reconhecer que o nosso tempo, oprimido
com tantas ruínas e ameaçado de tantos perigos, poderá haurir nessa fonte o
preservativo necessário. Antes de mais, recorde-se e maduramente se considere
que os princípios augustos da religião, as normas da moral e as bases da
sociedade estariam mais seguros e mais firmes; e que, debilitados ou
subvertidos estes, tudo o que se prende com a ordem, com a paz, com o progresso
dos cidadãos e dos povos, se há de ir, quase necessariamente, desmoronando. Já
um espírito pagão, mas culto e inteligente, notou esta verdade, tão belamente
demonstrada pela história da Ordem Beneditina: "Vós, pontífices - dizia
ele - defendeis mais fortemente a cidade com a religião do que com as
muralhas". (40)
E ainda: "Se abolirem (a religião e a moral), seguir-se-á a insegurança da
vida e a desordem; se vier a extinguir-se a piedade para com os deuses, ignoro
se a fé, a sociedade humana e a mais excelente de todas as virtudes, a justiça,
poderão ainda subsistir".(41)
27.
Portanto, é absolutamente fundamental prestar culto ao Nume supremo e obedecer,
pública e particularmente, às suas leis santíssimas. Sem elas, poder algum
humano terá jamais freios para coibir e domar o conflito das paixões públicas.
Pertence exclusivamente à religião o privilégio de dar estabilidade e firmeza
aos princípios do honesto e do justo.
28. Mas há
ainda mais, que nos adverte e ensina o Patriarca santíssimo, e de que o nosso
tempo anda sobremaneira indigente; e vem a ser que, além do culto de adoração e
honra que devemos a Deus, o devemos amar com amor de filhos. E como o estado
atual deste amor é realmente de miserável decadência e entorpecimento, não
admira que os homens, mais preocupados com o que é da terra do que com o que é
do céu, desavenham em contendas, donde se originam guerras e ódios implacáveis.
De fato, sendo Deus o autor da nossa vida e provindo-nos dele benefícios
sem-conta, é dever de todos nós retribuir-lhe com perfeito amor, e
consagrar-lhe integralmente tudo o que somos e possuímos. Deste amor divino há
de derivar, como de nascente, a caridade fraterna para com todos os homens,
independentemente da raça, nacionalidade ou classe, como se realmente fôssemos
todos irmãos em Jesus Cristo. De modo que de todos os povos e classes se forme
uma única família cristã, que o egoísmo dos interesses individuais não dissolva,
mas a mútua conjugação de esforços confirme e solidarize. Se os princípios de
que outrora se valeu Bento para reconstituir e morigerar a sociedade caída e
conturbada do seu tempo, fossem hoje largamente aplicados, não temos dúvida de
que também o nosso século se havia de reerguer do pavoroso naufrágio, indenizar
dos danos que sofreu nos homens e nas coisas, curar-se, enfim, dos imensos
males de que está prostrado.
29. Sabeis
também, veneráveis irmãos, que o glorioso legislador nos ensina ainda - o que é
hoje, afinal, geralmente aceite, mas que nem sempre na prática tem tido a
aplicação conveniente - a saber: que o trabalho humano, longe de ser desprovido
de dignidade, molesto e odioso, é, pelo contrário, uma fonte de alegria, de
felicidade e de nobreza. Uma vida operosa, cheia, como se diz, na lide
incessante do campo, da oficina ou do estudo, não deprime o espírito,
nobilita-o; não escraviza, dá-nos, pelo contrário, a sensação forte da
superioridade, do domínio sobre quanto nos rodeia e em que nos ocupamos. Também
Jesus Cristo, adentro das paredes da casa paterna, se dignou trabalhar na
oficina de seu pai, santificando, deste modo, com seu divino suor, o esforço do
homem. Advirtam, pois, todos os que, para ganhar o pão de cada dia, se entregam
a faina rude da oficina ou da fábrica, ao labor da pena ou da cátedra, que é
nobilíssima a sua condição, que lhes faculta os cômodos duma vida honrada e
contribui para o bem-estar da comunidade civil. Façam-no, todavia, como queria
o santo Patriarca Bento, com a mente e o coração elevados para o céu,
voluntariamente, amorosamente. Façam-no, ainda quando defendem os seus direitos
legítimos, não com pesar do bem alheio, em greves e revoltas, mas com paz, com
ordem. Recordem-se da sentença do Senhor: "Comerás o pão no suor do teu
rosto" (Gn 3,19) e pensem que é preceito para todos de expiação e de
obediência.
30. Não
esqueçamos nunca, sobretudo, que as coisas materiais e transitórias em que nos
ocupamos pelo vigor do nosso espírito ou do nosso braço, devem ser incentivo de
adiantarmos, todos os dias, mais um passo na conquista das celestes e
permanentes, únicas em que poderemos encontrar a paz verdadeira, a quietação
imperturbável, a felicidade eterna.
IV
RESTAURAÇÃO DO MOSTEIRO DE MONTECASSINO:
DÍVIDA
DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
31. Tendo
o furacão da guerra assolado, como sabeis, veneráveis irmãos, as regiões do
Lácio e da Campânia, subiu também ao vértice do sagrado monte de Cassino. E
ainda que nada do que estava ao nosso alcance tenhamos omitido para obviar aos irreparáveis
estragos infligidos à santíssima religião, à arte e a própria civilização, o
grandioso cenóbio, todavia, que tinha chegado até nós, através dos séculos,
como farol luminoso vencendo a treva, foi arrasado, totalmente destruído. Ao
contemplarmos as cidades, vilas e aldeias circunjacentes, reduzidas a ruínas e
destroços, é quase para dizer que o velho Arquicenóbio, berço da ordem
beneditina, quis partilhar do luto e da desgraça dos que realmente podia
considerar seus filhos; quase nada mais resta de pé a não ser o sagrado hipogeu
onde se conservam os restos do santo patriarca.
32. Onde
se erguiam magníficos monumentos de arte, apenas restam hoje paredes em ruínas,
montões de escombros e de entulho, que a vegetação selvagem vai amortalhando de
verde, ao lado da pequena habitação que se levantou, há pouco, para abrigo dos
monges. No entanto, não podemos duvidar de que, completando-se, na presente
conjuntura, catorze séculos depois que o santíssimo Patriarca passou à
bem-aventurança após haver dado início e remate a tão gloriosa obra, não
podemos duvidar de que todos os homens de bem, de ânimo generoso e, sobretudo,
os que dispõem de maiores possibilidades pecuniárias, hão de colaborar na
restituição do antiquíssimo mosteiro a seu passado esplendor. É uma dívida da
sociedade contemporânea à ordem beneditina. Porque, se efetivamente nos podemos
gloriar do adiantamento da nossa cultura, se ainda sentimos prazer na leitura
dos velhos escritores, devemo-lo - necessário confessá-lo - a Bento e a seus
filhos. Estamos, pois, persuadidos de que a nossa esperança e os nossos votos
vão ter perfeita correspondência. De modo que se não limite, apenas, esta obra
a reconstrução material do mosteiro, mas seja augúrio de mais venturosos tempos
para a expansão e progresso sempre renovado da Ordem e da oportuníssima Regra
beneditina.
33.
Animados desta suavíssima esperança, a vós, veneráveis irmãos, a todos os que
estão comados ao vosso zelo apostólico, à numerosíssima família dos monges que
se gloriam de haver por pai e mestre o santo Patriarca, do mais íntimo da alma
concedemos a bênção apostólica, penhor de celestiais graças e testemunho da
nossa benevolência.
Dado em
Roma, junto de São Pedro, na festa de São Bento, no dia 21 de março de 1947, IX
ano de nosso pontificado.
PIO PP.
XII
Notas
(1)
S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,126.
(2) Cf. Cic., De Off., II, 8.
(3) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL
66,126.
(4) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,150.
(5) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,126.
(6) Salviano, De Gub. mundi, VIII,1; PL
53,130.
(7) S. Greg. M., Lib. Dial., Prol.; PL
66,126.
(8) S. Greg. M. Lib. Dial., III, 3; PL
66,132.
(9) Ib., PL 66,140.
(10) Ib., PL 66,140.
(11) Ib., PL 66,148.
(12) Ib., PL 66,152.
(13)
Pio X, Carta Apost. Archicoenobium Cassinense, de 10 de fev. de 1913.
(14) S.Tomás, S. theol., II-II, q.188, a. 6.
(15) Mabillon, Annales Ord. S. B., Lucae 1739, t.
I, p.107.
(16) S. Greg., Lib. Dial.,III,16; PL
79, 261.
(17) Cf. Bossuet. Panég. de S. Benoit-Oeuvres
compl., vol..12, Paris,1863, p.165.
(18) S. Greg. M., Lib. Dial., II, 36; PL
66, 200.
(19) Reg. S. Bened., c. 65.
(20) Ib., c. 3.
(21) Ib., c. 2.
(22) Ib., c. 2.
(23) Ib., c. 3.
(24) Ib., c. 2.
(25) Ib., c. 33.
(26) Ib., c. 48.
(27) Ib., c. 48.
(28)
Ib., c. 57.
(29) Ib., c. 48.
(30) Ib., c. 43.
(31) Ib., c. 19.
(32) Ib., c. 4.
(33) Ib., c. 5.
(34) Ib., c. 72.
(35). Ib., c. 53.
(36) Ib., c. 53.
(37) Ib., c. 36.
(38) Greg., M., Lib. Dial., 11, 37; PL
67, 202.
(39)
S. Leão M., Sermo I in natali Ap. Petri et Pauli; PL 54,
423.
(40)
CIC De Natura Deor., II, c. 40.
(41)
Ib., I, c. 2.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
Page: http://www.vatican.va
Copyright 2003 – Paróquia Divino Espírito Santo – Maceió/AL
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