CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII
FULGENS CORONA(*)
INDICAÇÃO DO ANO MARIANO
Aos
veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos,
Bispos e outros Ordinários,
em paz e
comunhão com a Sé Apostólica
1. A
refulgente coroa de glória com que a puríssima fronte da virgem Mãe de Deus foi
cingida por Deus mais nos parece resplandecer se recordarmos o dia em que, há
cem anos, nosso predecessor de feliz memória, Pio IX, rodeado de um imponente
cortejo de cardeais e de bispos, declarou, proclamou e definiu solenemente com
infalível autoridade "que a doutrina que defende que a beatíssima virgem
Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original desde o primeiro
instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e
em atenção aos merecimentos de Jesus Cristo salvador do gênero humano, foi
revelada por Deus e que, por isso, deve ser admitida com fé firme e constante
por todos os fiéis".(1)
2. A
Igreja universal que, de há tanto tempo, esperava esta decisão pontifícia, recebeu-a
com a maior alegria; e, despertada desta forma, a devoção dos fiéis para com a
virgem Mãe de Deus, que faz florescer no mais alto grau os costumes dos
cristãos, fortaleceu-se; surgiram igualmente, com grande ardor, novos estudos
em que apareceram na sua mais brilhante luz a dignidade e a santidade da Mãe de
Deus.
3. Parece
até que a mesma beatíssima virgem Maria quis confirmar de uma forma prodigiosa
a determinação que o vigário do seu divino Filho tinha sancionado, com o
aplauso da Igreja universal. Com efeito, não tinham ainda passado quatro anos,
quando a virgem Mãe de Deus, com juvenil e inocente semblante, se apresentou,
de vestido e manto cândidos e cingida com uma faixa azul, a uma inocente e
simples menina, na gruta de Massabielle, próxima de uma povoação, nas faldas
dos Pireneus; à inocente menina que insistentemente perguntava o seu nome, a
celeste visão, levantando os olhos ao céu e com um suave sorriso, responde:
"Eu sou a Imaculada Conceição".
4. Assim o
compreenderam, como é natural, os fiéis que afluíram de todas as partes do
mundo em piedosas peregrinações à gruta de Lourdes, reavivaram a sua fé,
intensificaram a sua piedade e procuraram conformar sua vida com os preceitos
cristãos. Ali alcançaram, muitas vezes, milagres que suscitaram a admiração de
todos e confirmaram a religião católica como única aprovada por Deus.
5. Assim o
compreenderam de forma peculiar os romanos pontífices, que enriqueceram com
privilégios espirituais e com benefícios da sua benevolência o maravilhoso
templo que a piedade do clero e do povo aí levantou poucos anos depois.
CAPÍTULO
I
6. Na
verdade, naquela carta apostólica citada, com que o nosso predecessor decretou
que este ponto da doutrina cristã devia ser firme e fielmente admitido por
todos os féis, não fez outra coisa mais do que recolher diligentemente e
consagrar, com a sua autoridade, a voz dos santos Padres e de toda a Igreja, a
qual, desde a antiguidade, tinha como que sobrevoado o curso dos séculos
sucessivos.
7. Em
primeiro lugar, o fundamento desta doutrina encontra-se nas Sagradas
Escrituras, na qual Deus criador de todas as coisas, depois da miserável queda
de Adão, dirige à tentadora e corruptora serpente estas palavras que muitos
santos Padres, Doutores da Igreja e autorizados intérpretes aplicam à virgem
Mãe de Deus: "Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua
descendência e a dela..." (Gn 3,15). Ora, se, por algum tempo, a
bem-aventurada virgem Maria fosse privada da graça divina, como inquinada, na
sua concepção, pela mancha hereditária do pecado, ao menos naquele momento,
embora brevíssimo, não haveria entre ela e a serpente aquela perpétua inimizade
de que se fala, desde a mais antiga tradição até à solene definição da
Imaculada Conceição, mas, ao contrário, haveria certa sujeição.
8. Além
disso, como a santíssima Virgem é saudada com as palavras "cheia de
graça" (Lc 1,28) - isto é kekaritoméne e "bendita entre todas
as mulheres", claramente se manifesta com essas palavras, como aliás
sempre a tradição católica entendeu, que, com essa singular e solene saudação,
nunca até então ouvida, se quer significar que a Mãe de Deus foi a sede de
todas as graças divinas, e ornada com todos os carismas do Espírito Santo, e,
mais ainda, com o tesouro quase infinito e inexaurível abismo deles, de tal
forma que nunca esteve sujeita à maldição.2)
9. Os
santos Padres, desde os primeiros anos da Igreja, claramente ensinaram esta
doutrina, sem que nenhum a contradissesse, e afirmaram que a santíssima virgem
Maria foi "lírio entre espinhos, terra absolutamente intacta, imaculada,
sempre bendita, livre de todo contágio do pecado, lenho incorruptível, fonte
sempre límpida, a única e a só filha da vida e não da morte, o germe não da ira
mas da graça, completamente ilibada, santa, alheia a toda espécie de pecado,
mais bela que a beleza, mais santa que a santidade, a única santa, superior a
todos, com exceção de Deus, por natureza mais bela, mais formosa, mais santa
que os próprios querubins, serafins e todo o exército dos anjos".(3)
10.
Considerados diligentemente, como convém, esses louvores da bem-aventurada
virgem Maria, quem ousará duvidar de que aquela que é mais pura que os anjos,
que sempre permaneceu pura(4),
estivesse sujeita a qualquer espécie de pecado, em qualquer momento, por mínimo
que fosse? Com toda a razão s. Efrém se dirige ao divino Filho dela com estas
palavras: "Na realidade, só vós e vossa Mãe é que sois completamente
belos. Não há em vós, Senhor, e nem em vossa Mãe mancha alguma".(5)
Com essas palavras, claramente se vê que entre todos os santos e santas,
somente de uma se pode dizer, quando se fala de qualquer mancha do pecado, que
nem sequer é possível a questão, e que este singularíssimo privilégio, a mais
ninguém concedido, o alcançou do Senhor, porque foi elevada à dignidade de Mãe
de Deus. Com efeito, esta excelsa missão que foi solenemente reconhecida e
sancionada no Concílio de Éfeso contra a heresia de Nestório,(6)
e acima da qual nenhuma outra maior parece existir, exige a graça divina em
toda a sua plenitude e a alma libertada de qualquer mancha e requer, depois de
Cristo, a mais alta dignidade e santidade. Na verdade, dessa sublime missão da
Mãe de Deus, nascem, como duma misteriosa e limpidíssima fonte, todos os
privilégios e graças que adornam, duma forma admirável e numa abundância
extraordinária, a sua alma e a sua vida. Por isso, com razão declara s. Tomás
de Aquino: "A bem-aventurada virgem Maria, pelo fato de ser Mãe de Deus,
tem do bem infinito, que é Deus, certa dignidade infinita".(7)
E um ilustre escritor desenvolve e explica esse mesmo pensamento, com estas
palavras: "A bem-aventurada virgem Maria... é Mãe de Deus: por isso, é
puríssima e santíssima, de tal maneira que, depois de Deus, não podemos
conceber outra pureza maior".(8)
11. Mas se
considerarmos atentamente as coisas e principalmente se atendermos ao
profundíssimo e suavíssimo amor com que Deus, sem dúvida, amou e continua a
amar a Mãe de seu unigênito Filho, como poderemos pensar sequer que ela esteve,
ainda que por brevíssimo tempo, sujeita ao pecado e privada da graça? Na
realidade, Deus podia conceder-lhe, em atenção aos merecimentos do Redentor,
esse singular privilégio; por isso, nem sequer podemos pensar que não o tenha
feito. Convinha, na verdade, que a Mãe do Redentor fosse o mais digna possível
dele. Ora, se Maria fosse manchada com o pecado original, ainda que só no
primeiro instante da sua concepção, não seria digna, porque estaria sujeita ao
triste domínio do demônio.
12. Nem se
diga que por esse motivo se diminui a redenção de Cristo, porque não se
estenderia a toda a descendência de Adão, e que, por isso, algo seria tirado ao
múnus e à dignidade do Divino Redentor. Se considerarmos profunda e
diligentemente essa questão, na realidade, facilmente verificamos que Cristo
Senhor nosso, de fato, remiu, e de forma perfeitíssima, sua Mãe, pois que Deus
a preservou de toda a mancha hereditária do pecado, no primeiro momento da sua
conceição, em atenção aos merecimentos de Cristo. Por isso, a infinita
dignidade de Jesus Cristo e o múnus da sua redenção universal não diminuem nem
se enfraquecem com essa questão doutrinal, mas, ao contrário, muito se elevam.
13. É,
portanto, injusta a crítica e a censura que, por esse motivo, fazem não poucos
acatólicos e protestantes à nossa devoção para com a virgem Mãe de Deus, como
se tirássemos alguma coisa do culto devido somente a Deus e a Jesus Cristo;
muito ao contrário, tudo que for de honra e veneração a nossa Mãe celeste, sem
dúvida que redunda em glória para o seu divino Filho, não só porque dele vêm,
como de primeira fonte, todas as graças e dons, mesmo excelsos, mas ainda
porque "os pais são a glória dos filhos" (Pr 17,6).
14. Por
isso mesmo, desde os mais remotos tempos da Igreja, esse ponto de doutrina mais
se esclareceu e cada vez mais se confirmou, quer entre os pastores sagrados,
quer na convicção e no espírito dos féis. Atestam-no, como dissemos, os
escritos dos santos Padres, os concílios e os atos dos romanos pontífices;
testemunham-no, enfim, as antigas liturgias, cujos livros, desde os mais
antigos, consideram essa festa como legada pelos nossos antepassados.
15.
Finalmente, também em todas as comunidades dos cristãos orientais, que de há
longos anos se separaram da unidade da Igreja católica, nunca faltaram nem
faltam aqueles que, embora eivados de preconceitos e opiniões adversas,
acolheram esta doutrina e todos os anos celebram a festa da Virgem imaculada.
Certamente, nada disso se daria se não tivessem recebido esta verdade dos
tempos mais antigos, isto é, antes de se terem separado do único redil.
16. Ao
completar-se, pois, um século desde que o pontífice máximo, Pio IX, de imortal
memória, definiu solenemente esse singular privilégio da virgem Mãe de Deus,
apraz-nos resumir e concluir toda a questão com estas palavras do mesmo
pontífice, quando afirmou que esta doutrina, segundo o juízo dos Padres, foi
consignada na Sagrada Escritura, por eles mesmos transmitida, expressa por
tantos e tão graves testemunhos e celebrada por tantos monumentos célebres da
veneranda antigüidade e finalmente proposta pelo mais alto e autorizado juízo
da Igreja, (9)
de forma que nada é mais doce e mais querido para os sagrados pastores e para
os féis do "que honrar, venerar, invocar e pregar, por toda a parte, com o
mais fervoroso ardor, a virgem Mãe de Deus concebida sem pecado original".
(10)
17.
Parece-nos, portanto, que essa preciosíssima pérola, com que foi enriquecido,
há cem anos, o sagrado diadema da bem-aventurada virgem Maria, hoje brilha com
luz mais esplendorosa, tendo-nos cabido a feliz sorte, por disposição da divina
Providência, de definir, no ano jubilar de 1950 de que conservamos gratíssima
recordação na alma, que a Mãe de Deus foi elevada ao céu em corpo e alma; dessa
forma pudemos corresponder aos votos do povo cristão formulados já, de forma
particular, quando foi definida solenemente a imaculada conceição da Virgem. Já
então, na verdade, como escrevemos na Constituição Apostólica "Munificentissimus
Deus"; os corações dos fiéis se sentiram animados da mais viva
esperança de que o dogma da assunção corpórea da virgem Maria ao céu seria, o
mais depressa possível, definido pelo supremo magistério eclesiástico.(11)
18.
Parece, pois, que todos os fiéis podem levantar o pensamento e o coração mais
profunda e eficazmente ao próprio mistério da imaculada conceição da Virgem. Na
verdade, pela estreitíssima relação existente entre esses dois mistérios,
depois de promulgada solenemente e posta em toda a sua luz a assunção da Virgem
ao céu - o que constitui como que a coroa e o complemento do outro privilégio
mariano - manifestou-se, com maior clareza e esplendor, a sabedoria, a harmonia
daquele plano divino com que Deus quis que a bem-aventurada virgem Maria fosse
preservada de toda a mancha original.
19. Por
isso, devido a esses dois insignes privilégios concedidos a nossa Senhora,
tanto o início da sua vida como o seu ocaso se iluminaram com brilhantíssima
luz; à perfeita inocência da alma preservada de toda a mancha, corresponde, de
forma admirável e maravilhosa, a mais perfeita glorificação do seu corpo
virginal; e como esteve Maria junto com seu Filho unigênito na luta contra a
serpente infernal, assim juntamente com ele participou do glorioso triunfo
sobre o pecado e suas tristes conseqüências.
CAPÍTULO
II
20.
Entretanto, essa celebração secular não deve apenas fortalecer no ânimo de
todos os fiéis a fé católica e a piedade ardente para com a virgem Mãe de Deus,
mas também levar especialmente os costumes dos cristãos à imitação da Virgem.
Como todas as mães experimentam profundos sentimentos quando descobrem que as
feições do seu filho reproduzem alguma semelhança com as suas, assim Maria,
nossa dulcíssima Mãe, não pode ter maior desejo, nem maior alegria do que ver
reproduzidos nos pensamentos, nas palavras e nas obras daqueles que ela recebeu
por filhos aos pés da cruz do seu Unigênito os traços e as virtudes de sua
alma.
21. Mas
para que a piedade não permaneça apenas uma palavra vã, nem se torne uma
simples imagem falaz da religião, nem um sentimento fraco e caduco de um
momento, antes seja sincera, verdadeira e eficaz, deve estimular-nos todos,
segundo as condições de cada um, à conquista da virtude. É necessário que,
antes de mais nada, a todos excite àquela inocência e integridade de costumes
que foge e aborrece até a mais pequena mancha de pecado, já que comemoramos o
mistério da santíssima Virgem, cuja concepção foi imaculada e isenta de toda a
culpa original.
22.
Parece-nos que a santíssima Virgem, a qual em todo o curso de sua vida, nunca
se afastou em nada dos preceitos e dos exemplos de seu divino Filho - quer nas
alegrias de que foi suavemente inundada, quer nas tribulações e nas dores mais
atrozes que a constituíram rainha dos mártires -, parece-nos, repetimos, que a
todos e a cada um de nós diga aquelas palavras que proferiu nas bodas de Caná,
apontando Jesus Cristo aos servos do banquete; "Fazei tudo o que ele vos
disser" (Jo 2,5). Parece que cabe a nós repetir a todos hoje essa mesma
exortação num sentido ainda mais vasto, visto que é de absoluta evidência que a
raiz de todos os males com que são atormentados os homens, com tanta aspereza e
veemência angustiados os povos e as nações, provém do fato de que muitos
"abandonaram a fonte de água viva e abriram cisternas para si, cisternas
desconjuntadas, que não podem conter água" (Jr 2,13) e abandonaram aquele
que unicamente é o "caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6). Se,
portanto, se errou, é necessário voltar ao caminho reto; se as trevas dos erros
perturbaram as mentes, devem ser, sem demora, dissipadas pela luz da verdade;
se aquela morte, que é a verdadeira morte, se apoderou das almas, é necessário
recuperar a vida com vivo e eficaz desejo; referimo-nos àquela vida celeste que
não conhece ocaso porque tem sua origem em Cristo Jesus, com quem gozaremos nos
céus a bem-aventurança eterna, se com ânimo confiante e fiel o seguirmos nesta
terra de exílio.
23. Isso
nos ensina e exorta a bem-aventurada virgem Maria, nossa dulcíssima Mãe, que
nos ama com verdadeiro amor, sem dúvida, mais do que todas as mães terrestres.
Como sabeis, veneráveis irmãos, os homens de hoje têm grande necessidade dessas
exortações e convites para que voltem para Cristo e se conformem diligente e
eficazmente com seus ensinamentos, quando tantos tentam desarraigar da sua alma
a fé cristã, ora astuciosamente e com insídias ocultas, ora com uma propaganda
e exaltação clara e obstinada de seus erros, propalados com tanta ostentação
como se fossem glória do progresso e do esplendor deste século. Mas, rejeitada
a nossa santa religião e negadas as determinações divinas que sancionam o bem e
o mal, é sumamente evidente que para quase nada servem as leis e como que fica
reduzida ao mínimo a autoridade pública; por via de conseqüência os homens,
perdidas a esperança e a certeza dos bens imortais, com essas enganadoras
doutrinas, procuram imoderadamente, por sua própria natureza, os bens terrenos,
cobiçam avidamente os do próximo e, quando a ocasião e a possibilidade se lhes
proporcionar, apoderar-se-ão deles, mesmo pela força. Daqui nascem os ódios, as
invejas, as rivalidades e as discórdias entre os cidadãos; daqui vem a
perturbação da vida pública e privada, e gradualmente se arruinam os
fundamentos do Estado que dificilmente poderão ser mantidos e reforçados pela
autoridade das leis civis e dos governantes; daqui, finalmente, deriva a
depravação dos costumes pelos espetáculos licenciosos, pelos livros, jornais e
crimes sem conta.
24.
Reconhecemos que, nesse campo, a autoridade do Estado não pode fazer muito; na
verdade, a sanação de todos esses males só pode encontrar-se noutra fonte mais
elevada; é necessário recorrer a uma força mais forte que a humana, para que
esclareça com a luz celeste os ânimos, penetre-os e os renove com a divina
graça e os torne melhores com o seu auxílio.
25. Só
então poderemos esperar que volte a florescer, por toda parte, a vida cristã;
que os verdadeiros princípios sobre os quais se funda a sociedade se consolidem
o mais possível; que reine entre as várias classes sociais uma mútua, reta e
sincera valorização das coisas, juntamente com a justiça e a caridade; que
desapareçam os ódios, cujos germes dão origem a novas misérias e muitas vezes impelem
os ânimos exacerbados ao derramamento de sangue; que, finalmente, atenuados e
aplacados os contrastes existentes entre as várias classes da sociedade, se
harmonizem com imparcialidade os justos direitos de ambas as partes e possam
coexistir e conformar-se com o mútuo consentimento e o devido respeito, para
vantagem comum.
26. Sem
dúvida, só a lei cristã, para cujo cumprimento ativo e frutuoso nos chama a
virgem Mãe de Deus, poderá realizar tudo isso, com firmeza e segurança, desde
que se ponha em prática. Tendo na devida consideração essas coisas, veneráveis
irmãos, convidamo-vos todos e cada um, com a presente carta encíclica, a que,
segundo as vossas funções, exorteis o clero e o povo que vos foi confiado a
celebrar o ano mariano, que desejamos seja festejado por toda a parte, a partir
do próximo mês de dezembro até ao mesmo mês do ano que vem, por ocasião do
primeiro centenário, no qual a virgem Maria Mãe de Deus refulgiu com uma nova
pérola, entre o aplauso do povo cristão, quando, como dissemos, o nosso
predecessor, de imortal memória, Pio IX, decretou e sancionou solenemente a
Imaculada concepção dela. Confiamos plenamente que esta celebração mariana
produzirá aqueles muito desejados e salutares frutos por que todos vivamente
suspiramos.
27. Para
mais fácil e eficazmente conseguir esse fim, desejamos que se promovam, em
todas as dioceses, conferências e discursos apropriados para esclarecer mais as
mentes sobre esse ponto da doutrina cristã, de forma que a fé do povo se
intensifique e nele se acenda cada vez mais a devoção à virgem Mãe de Deus;
assim todos sigam intensa e decididamente os exemplos da nossa Mãe celeste.
28. E
porque em todas as cidades, vilas e aldeias onde floresce o cristianismo existe
sempre uma capela ou, ao menos, um altar no qual resplandece, de modo
particular, a imagem de nossa Senhora exposta à veneração do povo cristão,
desejamos, veneráveis irmãos, que os fiéis para lá se dirijam com a maior
freqüência e elevem, num só coração e numa só voz, orações públicas à nossa
suavíssima Mãe.
29. Mas
onde existir um templo particularmente dedicado à virgem Mãe de Deus - o que se
dá em quase todas as dioceses - a ele acorram, em determinados dias do ano,
piedosas multidões de peregrinos, com edificantes manifestações públicas da fé
comum e do amor para com a Virgem santíssima. Sem dúvida, que isso se realizará
principalmente na gruta de Lourdes, onde se venera a Virgem imaculada com tão
fervorosa piedade.
30. Mas
que esta cidade de Roma preceda a todas, pois que desde os primeiros tempos do
cristianismo teve um particular culto à Mãe celeste e sua padroeira. Aqui
existem muitas igrejas, como é de todos conhecido, nas quais nossa Senhora é
apresentada à piedade dos romanos, mas entre todas, sem dúvida, sobressai a
Basílica Liberiana, onde ainda refulge o mosaico do nosso predecessor, de feliz
memória, Sixto III, insigne monumento da divina maternidade da virgem Maria,
onde benignamente sorri a imagem da "Salvação do povo romano". Que
ali acorram especialmente os cidadãos romanos a orar e todos, diante da sagrada
imagem, levantem súplicas, pedindo sobretudo que Roma, centro do orbe católico,
seja a mestra de todos na fé, na devoção e na santidade. A vós, sobretudo,
filhos de Roma, dirigimos as palavras do nosso predecessor de santa memória, Leão
Magno: "Na verdade, embora todas as igrejas espalhadas sobre a terra devam
florescer em todas as virtudes, vós especialmente deveis exceder os outros
povos no mérito da piedade, vós que, fundados sobre a própria base da rocha
apostólica e remidos com todos os outros por nosso Senhor Jesus Cristo, fostes
instruídos, de preferência aos outros, pelo bem-aventurado apóstolo
Pedro".(12)
31. Muitas
são as graças que, nas presentes circunstâncias, todos devem implorar da
proteção da bem-aventurada Virgem, da sua intercessão e do seu poder mediador.
Peçam, principalmente, que os próprios costumes, como dissemos, cada vez mais
se conformem com os ensinamentos cristãos, auxiliados com a divina graça, pois
que a fé sem obras é morta (Tg 2,20.26), e ninguém pode fazer coisa alguma para
o bem público, como é necessário, se primeiro não brilhar na virtude, como
exemplo a todos os outros.
32. Peçam,
com insistência, que a juventude generosa e pujante cresça sã e pura e não
permita se contamine com o ar corrompido do século e murche nos vícios a
ridente flor da sua idade; que sejam dirigidos por um guia seguro as
inclinações desregradas e os seus impulsos ardentes, e, fugindo de todas as
ciladas, não se deixem cair nas coisas prejudiciais e más, antes levantem os
seus corações para o que é belo, santo, amável e excelso.
33. Peçam,
em oração comum, que a idade viril e madura se distinga de todas pela
honestidade e fortaleza cristãs; que o lar doméstico resplandeça com fidelidade
imolada, floresça com os filhos educados reta e santamente e se fortaleça na
concórdia e no mútuo auxílio.
34.
Implorem, finalmente, que se alegre a velhice com os frutos de uma vida vivida
na prática do bem, de forma que, em se aproximando o seu fim, não tenha nada a
temer, não se sinta atormentada com os remorsos ou angústias da consciência nem
tenha motivo algum de se envergonhar, mas, ao contrário, confie firmemente que
há de receber, depressa, o prêmio de suas longas canseiras.
35. Peçam
ainda, recorrendo à Mãe de Deus, pão para os famintos, justiça para os
oprimidos, pátria para os refugiados e exilados, um teto hospitaleiro para os
que não têm casa, a liberdade para aqueles que injustamente foram lançados no
cárcere ou nos campos de concentração, o suspirado regresso à pátria daqueles
que estão ainda prisioneiros, suspirando e gemendo, não obstante a guerra tenha
terminado há tantos anos; a alegria da luz resplandecente para os que são cegos
no corpo e na alma; e para aqueles que vivem separados pelo ódio, pela inveja e
pela discórdia, que obtenham, por meio da oração, a caridade fraterna, a união
dos ânimos e a tranqüilidade operosa, que é fundada na verdade, na justiça e em
relações amistosas.
36.
Desejamos, de modo especial, veneráveis irmãos, que, com as ardentes súplicas
que serão elevadas a Deus, na próxima celebração do ano mariano, se peça
intensamente, sob a proteção da Mãe do divino Redentor e nossa Mãe dulcíssima,
que a Igreja católica possa finalmente gozar, por toda a parte, daquela
liberdade de que sempre se serviu, como ensina a história, para vantagem dos
povos, para alcançar concórdia dos cidadãos, das nações das gentes e nunca para
sua ruína ou divisão de ânimos.
37. Todos
conhecem as tribulações em que vive a Igreja em alguns lugares, com que
mentiras, calúnias e usurpações é atormentada; todos sabem como em algumas
regiões os bispos são miseramente dispersos, encarcerados sem motivo, ou de tal
forma dificultados que não podem exercer livremente, como convém, o seu
ministério pastoral; todos sabem, finalmente, que naquelas regiões não é
permitido ter escolas próprias, nem se pode, publicamente, por meio da
imprensa, ensinar, defender, propagar a doutrina cristã e educar
convenientemente a juventude, segundo seus ensinamentos. Aquelas exortações
que, muitas vezes, sobre este ponto vos dirigimos, sempre que se nos ofereceu a
ocasião, insistentemente vo-las repetimos agora, por meio desta carta encíclica,
com esta confiança de que, neste ano mariano, sejam elevadas ardentes preces à
poderosíssima virgem Mãe de Deus e nossa doce Mãe, para que sejam reconhecidos
aberta e sinceramente por todos aqueles sagrados direitos que pertencem à
Igreja e que são exigidos pelo respeito devido à liberdade e à civilização, com
suma vantagem para cada um e incremento da comum concórdia.
38.
Desejamos, que estas nossas palavras, ditadas por um profundo sentimento de
caridade, cheguem principalmente àqueles que, obrigados ao silêncio e rodeados
de toda espécie de insídias, vêem, com a alma cheia de dor, sua comunidade
cristã aflita, perturbada e privada de todo o auxílio humano. Que também estes
diletíssimos irmãos filhos nossos, em estreitíssima união conosco e com os outros
fiéis, interponham junto do Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação
(cf. 2Cor 1,3) o poderosíssimo patrocínio da virgem Mãe de Deus e Mãe nossa e
lhe peçam o celeste auxílio e as divinas consolações. Perseverando, com
invencível ânimo, na fé dos antepassados, façam próprias, nestas graves
circunstâncias, as seguintes palavras do Doutor Melífluo, como distintivo da
fortaleza cristã: "Permaneceremos na fé e combateremos até à morte, se for
necessário, pela (Igreja) nossa mãe, com as armas que nos são permitidas: não
com escudos e espadas, mas com a oração e as lágrimas a Deus".(13)
39. Além
disso, convidamos também aqueles que estão separados de nós pelo antigo cisma e
que, de resto, amamos com ânimo paterno, a unirem-se a estas orações comuns e a
estas súplicas, porquanto bem sabemos que também eles têm em suma veneração a
grande Mãe de Jesus Cristo e celebram a sua conceição imaculada. Que a mesma
bem-aventurada virgem Maria olhe para todos aqueles cristãos unidos ao menos
pelos vínculos da caridade, e se voltem para ela os olhos suplicantes, os
ânimos, as orações, impetrando aquela luz que ilumina as mentes com brilho
sobrenatural e pedindo aquela unidade, com a qual se faça, afinal, um só
rebanho sob um só Pastor (cf. Jo 10,16).
40. Que a
estas preces comuns se juntem depois as piedosas obras de penitência; o amor da
oração, de fato, faz que o "animo seja sustentado e se prepare para as
coisas árduas e se levante para as divinas; a penitência faz-nos alcançar o
domínio de nós mesmos, especialmente sobre o corpo que, por causa do pecado
original, é fortemente rebelde à razão e à lei evangélica. É evidente que essas
virtudes estão estreitamente unidas entre si, sustentando-se reciprocamente,
conspirando para o mesmo fim: desapegar das coisas caducas o homem, nascido
para o céu, e elevá-lo quase a uma celeste comunicação com Deus".(14)
41. E como
ainda não brilhou entre os povos e nas almas uma paz sólida, sincera e
tranqüila, esforcem-se todos os fiéis, orando piedosamente, por alcançá-la e
consolidá-la plena e felizmente de forma que, como a bem-aventurada Virgem nos
deu o Príncipe da paz (cf. Is 9,6), com seu patrocínio e com sua tutela, una
também entre si os homens em amigável concórdia; só então se poderá gozar da
prosperidade serena que é possível obter no breve curso da vida, isto é, quando
não estiverem separados por mútuas invejas, dilacerados miseramente por
discórdias, nem obrigados violentamente por ameaças e falsos conselhos a
lutarem uns contra os outros, mas, unidos fraternalmente, se dêem entre si o
ósculo daquela paz que é "tranqüila liberdade"(15)
e que, guiados pela justiça e auxiliados pela caridade, faz das diversas
classes de cidadãos, dos vários povos e nações uma só família unida e concorde
como convém.
42. Que o
divino Redentor, com o auxílio e proteção de sua amorosíssima Mãe, queira, em
mais ampla forma, levar a uma completa realização estes nossos ardentíssimos
votos, aos quais corresponderão, como piedosamente confiamos, as preces, não só
de todos os nossos filhos, mas também de todos aqueles que têm no coração os
interesses da civilização cristã e o progresso da humanidade.
Finalmente,
que a bênção que a todos e a cada um de vós, veneráveis irmãos, bem como ao
vosso clero e e aos vossos féis, damos, com toda a efusão da nossa alma, seja o
penhor dos divinos favores e o testemunho do nosso fraterno afeto.
Dado em
Roma, junto de São Pedro, no dia 8 de setembro, festa da natividade de Nossa
Senhora, do ano de 1953. XV do nosso pontificado.
PIO PP.
XII
Notas
(*)
Pio PP XII, Carta enc. Fulgens corona anunciando a celebração do Ano
Mariano comemorativo do primeiro centenário da definição do dogma da Imaculada
Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria.
(1)
Bula dogm. Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1854).
(2)
Bula "Ineffabilis Deus".
(3)
Ibid., passim.
(4)
Cf. ibid.
(5)
Carmina nisibena, ed. Bickell,123.
(6)
Cf. Pio XI, enc. Lux veritatis: AAS 23(1931), p. 493ss.
(7) Cf. Summa Theol., I, q. 25, a 6 ad 4.
(8) Corn. a Lapide, in Matth., I,16.
(9)
Bula "Ineffabilis Deus".
(10)
Ibidem.
(11)
AAS, 42 (1950), p. 754.
(12) Serm, III, 14; Migne, PL 54,147-148.
(13)
S. Bernardo, Epist. 221, 3; Migne, PL 182, 36,387.
(14) Leão XIII, Enc. Octobri mense (dia 22
de setembro, a.1891); Acta Leonis XIII, XI, p. 312.
(15)
Cícero, Phil., II, 44.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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