CARTA ENCÍCLICA
FIDES ET RATIO
DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE FÉ E RAZÃO
Venerados Irmãos
no Episcopado,
saúde e Bênção
Apostólica!
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as
duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da
verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a
verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e
amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo
14, 8; 1 Jo 3, 2).
INTRODUÇÃO
«CONHECE-TE A TI
MESMO »
1. Tanto no Oriente como no
Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a
humanidade a encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com
ela. É um caminho que se realizou — nem podia ser de outro modo — no âmbito da
autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo,
tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se
torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria
existência. O que chega a ser objecto do nosso conhecimento, torna-se por isso
mesmo parte da nossa vida. A recomendação conhece-te
a ti mesmo estava esculpida no dintel do templo de Delfos, para
testemunhar uma verdade basilar que deve ser assumida como regra mínima de todo
o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua
qualificação de « homem », ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo ».
Aliás, basta um simples olhar pela
história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em
diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões
fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque
existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? Estas
perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos
Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na
pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e
nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão
e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de
sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais
perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode
sê-lo, a este caminho de pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom
da verdade última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do
mundo, para anunciar que Jesus Cristo é « o caminho, a verdade e a vida » (Jo 14, 6). De entre os vários serviços que
ela deve oferecer à humanidade, há um cuja responsabilidade lhe cabe de modo
absolutamente peculiar: é a diaconia da
verdade. (1) Por um lado, esta missão torna a comunidade crente
participante do esforço comum que a humanidade realiza para alcançar a verdade,
(2) e, por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das certezas adquiridas,
ciente todavia de que cada verdade alcançada é apenas mais uma etapa rumo
àquela verdade plena que se há--de manifestar na última revelação de Deus: «
Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a
face. Hoje conheço de maneira imperfeita, então conhecerei exactamente » (1 Cor 13, 12).
3. Variados são os recursos que o
homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez
mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é
colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma
das tarefas mais nobres da humanidade. O termo filosofia significa, segundo a
etimologia grega, « amor à sabedoria ». Efectivamente a filosofia nasceu e
começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o
porquê das coisas e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que
o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o
porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão, embora as respostas,
que esta aos poucos vai dando, se integrem num horizonte que evidencia a
complementaridade das diferentes culturas onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia
teve na formação e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos
esquecer a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a
existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria
sabedoria natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a
exprimir-se e a maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade de
tudo isto é a existência duma forma basilar de conhecimento filosófico, que
perdura até aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados em que
as várias legislações nacionais e internacionais se inspiram para regular a
vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que,
por detrás dum único termo, se escondem significados diferentes. Por isso, é
necessária uma explicitação preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir a
verdade última da existência, o homem procura adquirir aqueles conhecimentos
universais que lhe permitam uma melhor compreensão de si mesmo e progredir na
sua realização. Os conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação
da criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo
e relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte
daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de conhecimentos
sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a
pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do
intelecto humano permite elaborar, através da actividade filosófica, uma forma
de pensamento rigoroso, e assim construir, com coerência lógica entre as
afirmações e coesão orgânica dos conteúdos, um conhecimento sistemático. Graças
a tal processo, alcançaram-se, em contextos culturais diversos e em diferentes
épocas históricas, resultados que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas
de pensamento. Historicamente isto gerou muitas vezes a tentação de identificar
uma única corrente com o pensamento filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é
claro que entra em jogo uma certa «soberba filosófica », que pretende arvorar
em leitura universal a própria perspectiva e visão imperfeita. Na realidade,
cada sistema filosófico, sempre
no respeito da sua integridade e livre de qualquer instrumentalização, deve
reconhecer a prioridade do pensar filosófico
de que teve origem e ao qual deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não
obstante a mudança dos tempos e os progressos do saber, reconhecer um núcleo de
conhecimentos filosóficos, cuja presença é constante na história do pensamento.
Pense-se, só como exemplo, nos princípios de não-contradição, finalidade,
causalidade, e ainda na concepção da pessoa como sujeito livre e inteligente, e
na sua capacidade de conhecer Deus, a verdade, o bem; pense-se, além disso, em
algumas normas morais fundamentais que geralmente são aceites por todos. Estes
e outros temas indicam que, para além das correntes de pensamento, existe um
conjunto de conhecimentos, nos quais é possível ver uma espécie de património
espiritual da humanidade. É como se nos encontrássemos perante uma filosofia implícita, em virtude da qual
cada um sente que possui estes princípios, embora de forma genérica e não
reflectida. Estes conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa
medida por todos, deveriam constituir uma espécie de ponto de referência para
as diversas escolas filosóficas. Quando a razão consegue intuir e formular os
princípios primeiros e universais do ser, e deles deduzir correcta e
coerentemente conclusões de ordem lógica e deontológica, então pode-se
considerar uma razão recta, ou, como era chamada pelos antigos, orthòs logos, recta ratio.
5. A Igreja, por sua vez, não pode
deixar de apreciar o esforço da razão na consecução de objectivos que tornem
cada vez mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê, na filosofia, o
caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao
mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a
compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem
ainda.
Na sequência de iniciativas análogas
dos meus Predecessores, desejo também eu debruçar-me sobre esta actividade
peculiar da razão. Faço-o movido pela constatação, sobretudo em nossos dias, de
que a busca da verdade última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia
moderna possui, sem dúvida, o grande mérito de ter concentrado a sua atenção
sobre o homem. Partindo daí, uma razão cheia de interrogativos levou por diante
o seu desejo de conhecer sempre mais ampla e profundamente. Desta forma, foram
construídos sistemas de pensamento complexos, que deram os seus frutos nos
diversos âmbitos do conhecimento, favorecendo o progresso da cultura e da
história. A antropologia, a lógica, as ciências da natureza, a história, a
linguística, de algum modo todo o universo do saber foi abarcado. Todavia, os
resultados positivos alcançados não devem levar a transcurar o facto de que
essa mesma razão, porque ocupada a investigar de maneira unilateral o homem
como objecto, parece ter-se esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se
também para uma realidade que o transcende. Sem referência a esta, cada um fica
ao sabor do livre arbítrio, e a sua condição de pessoa acaba por ser avaliada
com critérios pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado experimental, na
errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica. Foi assim que a
razão, sob o peso de tanto saber, em vez de exprimir melhor a tensão para a
verdade, curvou-se sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o passar do tempo,
de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser. A
filosofia moderna, esquecendo-se de orientar a sua pesquisa para o ser,
concentrou a própria investigação sobre o conhecimento humano. Em vez de se
apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a verdade, preferiu
sublinhar as suas limitações e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de
agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se
nas areias movediças dum cepticismo geral. E, mais recentemente, ganharam
relevo diversas doutrinas que tendem a desvalorizar até mesmo aquelas verdades
que o homem estava certo de ter alcançado. A legítima pluralidade de posições
cedeu o lugar a um pluralismo indefinido, fundado no pressuposto de que todas
as posições são equivalentes: trata-se de um dos sintomas mais difusos, no
contexto actual, de desconfiança na verdade. E esta ressalva vale também para
certas concepções de vida originárias do Oriente: é que negam à verdade o seu
carácter exclusivo, ao partirem do pressuposto de que ela se manifesta de modo
igual em doutrinas diversas ou mesmo contraditórias entre si. Neste horizonte,
tudo fica reduzido a mera opinião. Dá a impressão de um movimento ondulatório:
enquanto, por um lado, a razão filosófica conseguiu avançar pela estrada que a
torna cada vez mais atenta à existência humana e às suas formas de expressão,
por outro tende a desenvolver considerações existenciais, hermenêuticas ou
linguísticas, que prescindem da questão radical relativa à verdade da vida
pessoal, do ser e de Deus. Como consequência, despontaram, não só em alguns
filósofos mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança
generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa
modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar
pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana,
pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da
filosofia respostas definitivas a tais questões.
6. Credenciada pelo facto de ser
depositária da revelação de Jesus Cristo, a Igreja deseja reafirmar a
necessidade da reflexão sobre a verdade. Foi por este motivo que decidi
dirigir-me a vós, venerados Irmãos no Episcopado, com quem partilho a missão de
anunciar « abertamente a verdade » (2 Cor 4,
2), e dirigir-me também aos teólogos e filósofos a quem compete o dever de
investigar os diversos aspectos da verdade, e ainda a quantos andam à procura
duma resposta, para comunicar algumas reflexões sobre o caminho que conduz à
verdadeira sabedoria, a fim de que todo aquele que tiver no coração o amor por
ela possa tomar a estrada certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para
a sua fadiga e também satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes
de mais, pela certeza de que os Bispos, como assinala o Concílio Vaticano II,
são « testemunhas da verdade divina e católica » (3). Por isso, testemunhar a
verdade é um encargo que nos foi confiado a nós, os Bispos; não podemos
renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos. Reafirmando a verdade
da fé, podemos restituir ao homem de hoje uma genuína confiança nas suas
capacidades cognoscitivas e oferecer à filosofia um estímulo para poder
recuperar e promover a sua plena dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a
escrever estas reflexões Na carta encíclica Veritatis
splendor, chamei a atenção para « algumas verdades fundamentais da
doutrina católica que, no contexto actual, correm o risco de serem deformadas
ou negadas ». (4) Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão,
concentrando a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu fundamento
em relação com a fé.
De facto, não se pode negar que este período, de mudanças rápidas e complexas,
deixa sobretudo os jovens, a quem pertence e de quem depende o futuro, na
sensação de estarem privados de pontos de referência autênticos. A necessidade
de um alicerce sobre o qual construir a existência pessoal e social faz-se
sentir de maneira premente, principalmente quando se é obrigado a constatar o
carácter fragmentário de propostas que elevam o efémero ao nível de valor,
iludindo assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da
existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase até à borda do
precipício, sem saber o que os espera. Isto depende também do facto de, às
vezes, quem era chamado por vocação a exprimir em formas culturais o fruto da
sua reflexão, ter desviado o olhar da verdade, preferindo o sucesso imediato ao
esforço duma paciente investigação sobre aquilo que merece ser vivido. A filosofia,
que tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e a cultura através do
apelo perene à busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação
originária. É por isso que senti a necessidade e o dever de intervir sobre este
tema, para que, no limiar do terceiro milénio da era cristã, a humanidade tome
consciência mais clara dos grandes recursos que lhe foram concedidos, e se
empenhe com renovada coragem no cumprimento do plano de salvação, no qual está
inserida a sua história.
CAPÍTULO I
A REVELAÇÃO
DA SABEDORIA DE
DEUS
1. Jesus, revelador do Pai
7. Na base de toda a reflexão feita
pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua
origem no próprio Deus (cf. 2 Cor
4, 1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem, não provém de uma reflexão
sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1 Tes 2, 13). Na origem do nosso ser
crentes existe um encontro, único no seu género, que assinala a abertura de um
mistério escondido durante tantos séculos (cf. 1
Cor 2, 7; Rom 16,
25-26), mas agora revelado: « Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria,
revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9), segundo o qual os homens, por
meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se
tornam participantes da natureza divina ». (5) Trata-se de uma iniciativa
completamente gratuita, que parte de Deus e vem ao encontro da humanidade para
a salvar. Enquanto fonte de amor, Deus deseja dar-Se a conhecer, e o
conhecimento que o homem adquire d'Ele leva à plenitude qualquer outro
conhecimento verdadeiro que a sua mente seja capaz de alcançar sobre o sentido
da própria existência.
8. Retomando quase literalmente a
doutrina presente na constituição Dei Filius
do Concílio Vaticano I e tendo em conta os princípios propostos pelo
Concílio de Trento, a constituição Dei
Verbum do Vaticano II continuou aquele caminho plurissecular de compreensão da fé, reflectindo sobre a
Revelação à luz da doutrina bíblica e de toda a tradição patrística. No
primeiro Concílio do Vaticano, os Padres tinham sublinhado o carácter
sobrenatural da revelação de Deus. A crítica racionalista que então se fazia
sentir contra a fé, baseada em teses erradas mas muito difusas, insistia sobre
a negação de qualquer conhecimento que não fosse fruto das capacidades naturais
da razão. Isto obrigara o Concílio a reafirmar vigorosamente que, além do
conhecimento da razão humana, por sua natureza, capaz de chegar ao Criador,
existe um conhecimento que é peculiar da fé. Este conhecimento exprime uma
verdade que se funda precisamente no facto de Deus que Se revela, e é uma
verdade certíssima porque Deus não Se engana nem quer enganar. (6)
9. Por isso, o Concílio Vaticano I
ensina que a verdade alcançada pela via da reflexão filosófica e a verdade da
Revelação não se confundem, nem uma torna a outra supérflua: « Existem duas
ordens de conhecimento, diversas não apenas pelo seu princípio, mas também pelo
objecto. Pelo seu princípio, porque, se num conhecemos pela razão natural, no
outro fazêmo-lo por meio da fé divina; pelo objecto, porque, além das verdades
que a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os mistérios
escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos forem revelados do Alto
». (7) A fé, que se fundamenta no testemunho de Deus e conta com a ajuda
sobrenatural da graça, pertence efectivamente a uma ordem de conhecimento
diversa da do conhecimento filosófico. De facto, este assenta sobre a percepção
dos sentidos, sobre a experiência, e move-se apenas com a luz do intelecto. A
filosofia e as ciências situam-se na ordem da razão natural, enquanto a fé,
iluminada e guiada pelo Espírito, reconhece na mensagem da salvação a «
plenitude de graça e de verdade » (cf. Jo 1,
14) que Deus quis revelar na história, de maneira definitiva, por meio do seu
Filho Jesus Cristo (cf. 1 Jo 5,
9; Jo 5, 31-32).
10. No Concílio Vaticano II, os
Padres, fixando a atenção sobre Jesus revelador, ilustraram o carácter
salvífico da revelação de Deus na história e exprimiram a sua natureza do
seguinte modo: « Em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Col 1, 15; 1 Tim 1, 17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como
amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15) e convive com eles (cf. Bar 3, 38), para os convidar e admitir à
comunhão com Ele. Esta economia da Revelação realiza-se por meio de acções e
palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras,
realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina
e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez,
declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade
profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens
manifesta-se-nos, por esta Revelação, em Cristo, que é simultaneamente o
mediador e a plenitude de toda a revelação ». (8)
11. Assim, a revelação de Deus
entrou no tempo e na história. Mais, a encarnação de Jesus Cristo realiza-se na
« plenitude dos tempos » (Gal 4,
4). À distância de dois mil anos deste acontecimento, sinto o dever de
reafirmar intensamente que, « no cristianismo, o tempo tem uma importância
fundamental ». (9) Com efeito, é nele que tem lugar toda a obra da criação e da
salvação, e sobretudo merece destaque o facto de que, com a encarnação do Filho
de Deus, vivemos e antecipamos desde já aquilo que se seguirá ao fim dos tempos
(cf. Heb 1, 2).
A verdade que Deus confiou ao homem
a respeito de Si mesmo e da sua vida insere-se, portanto, no tempo e na
história. Sem dúvida, aquela foi pronunciada uma vez por todas no mistério de
Jesus de Nazaré. Afirma-o, com palavras muito expressivas, a constituição Dei Verbum: « Depois de ter falado muitas
vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que
são os últimos, através de seu Filho (Heb 1,
1-2). Com efeito, enviou o seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos
os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus
(cf. Jo 1, 1-18). Jesus Cristo,
Verbo feito carne, enviado como homem para os homens, "fala, portanto, as
palavras de Deus" (Jo 3, 34)
e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cf. Jo 5, 36; 17, 4). Por isso, Ele — vê-l'O a
Ele é ver o Pai (cf. Jo 14, 9) —,
com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras,
sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, e
enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o
testemunho divino a Revelação ». (10)
Assim, a história constitui um
caminho que o Povo de Deus há-de percorrer inteiramente, de tal modo que a
verdade revelada possa exprimir em plenitude os seus conteúdos, graças à acção
incessante do Espírito Santo (cf. Jo 16,
13). Ensina-o também a constituição Dei
Verbum, quando afirma que « a Igreja, no decurso dos séculos, tende
continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as
palavras de Deus ». (11)
12. A história torna-se, assim, o
lugar onde podemos constatar a acção de Deus em favor da humanidade. Ele vem
ter connosco, servindo-Se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil de
verificar, ou seja, o nosso contexto quotidiano, fora do qual não
conseguiríamos entender-nos.
A encarnação do Filho de Deus
permite ver realizada uma síntese definitiva que a mente humana, por si mesma,
nem sequer poderia imaginar: o Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no
fragmento, Deus assume o rosto do homem. Deste modo, a verdade expressa na
revelação de Cristo deixou de estar circunscrita a um restrito âmbito
territorial e cultural, abrindo-se a todo o homem e mulher que a queira acolher
como palavra definitivamente válida para dar sentido à existência. Agora todos
têm acesso ao Pai, em Cristo; de facto, com a sua morte e ressurreição, Ele
concedeu-nos a vida divina que o primeiro Adão tinha rejeitado (cf. Rom 5, 12-15). Com esta Revelação, é
oferecida ao homem a verdade última a respeito da própria vida e do destino da
história: « Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado
se esclarece verdadeiramente », afirma a constituição Gaudium et spes. (12) Fora desta
perspectiva, o mistério da existência pessoal permanece um enigma insolúvel.
Onde poderia o homem procurar resposta para questões tão dramáticas como a dor,
o sofrimento do inocente e a morte, a não ser na luz que dimana do mistério da
paixão, morte e ressurreição de Cristo?
2. A razão perante o mistério
13. Entretanto, não se pode esquecer
que a Revelação permanece envolvida no mistério. Jesus, com toda a sua vida,
revela seguramente o rosto do Pai, porque Ele veio para manifestar os segredos
de Deus; (13) e contudo, o conhecimento que possuímos daquele rosto, está
marcado sempre pelo carácter parcial e limitado da nossa compreensão. Somente a
fé permite entrar dentro do mistério, proporcionando uma sua compreensão
coerente.
O Concílio ensina que, « a Deus que
revela, é devida a obediência da fé ». (14) Com esta breve mas densa afirmação,
é indicada uma verdade fundamental do cristianismo. Diz-se, em primeiro lugar,
que a fé é uma resposta de obediência a Deus. Isto implica que Ele seja
reconhecido na sua divindade, transcendência e liberdade suprema. Deus que Se
dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também
a credibilidade dos conteúdos que revela. Pela fé, o homem presta assentimento a esse testemunho divino.
Isto significa que reconhece plena e integralmente a verdade de tudo o que foi
revelado, porque é o próprio Deus que o garante. Esta verdade, oferecida ao
homem sem que ele a possa exigir, insere-se no horizonte da comunicação
interpessoal e impele a razão a abrir-se a esta e a acolher o seu sentido
profundo. É por isso que o acto pelo qual nos entregamos a Deus, sempre foi
considerado pela Igreja como um momento de opção fundamental, que envolve a
pessoa inteira. Inteligência e vontade põem em acção o melhor da sua natureza
espiritual, para consentir que o sujeito realize um acto no pleno exercício da
sua liberdade pessoal. (15) Na fé, portanto, não basta a liberdade estar
presente, exige-se que entre em acção. Mais, é a fé que permite a cada um
exprimir, do melhor modo, a sua própria liberdade. Por outras palavras, a
liberdade não se realiza nas opções contra Deus. Na verdade, como poderia ser
considerado um uso autêntico da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que
permite a realização de si mesmo? No acreditar é que a pessoa realiza o acto
mais significativo da sua existência; de facto, nele a liberdade alcança a
certeza da verdade e decide viver nela.
Em auxílio da razão, que procura a
compreensão do mistério, vêm também os sinais presentes na Revelação. Estes
servem para conduzir mais longe a busca da verdade e permitir que a mente possa
autonomamente investigar inclusive dentro do mistério. De qualquer modo, se,
por um lado, esses sinais dão maior força à razão, porque lhe permitem
pesquisar dentro do mistério com os seus próprios meios, de que ela justamente
se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a transcender a sua realidade de
sinais para apreender o significado ulterior de que eles são portadores.
Portanto, já há neles uma verdade escondida, para a qual encaminham a mente e
da qual esta não pode prescindir sem destruir o próprio sinal que lhe foi
proposto.
Chega-se, assim, ao horizonte sacramental da Revelação e de forma
particular ao sinal eucarístico, onde a união indivisível entre a realidade e o
respectivo significado permite identificar a profundidade do mistério. Na
Eucaristia, Cristo está verdadeiramente presente e vivo, actua pelo seu
Espírito, mas, como justamente diz S. Tomás, « nada vês nem compreendes, mas
t'o afirma a fé mais viva, para além das leis da Terra. Sob espécies
diferentes, que não passam de sinais, é que está o dom de Deus ». (16) Temos um
eco disto mesmo nas seguintes palavras do filósofo Pascal: « Como Jesus Cristo
passou despercebido no meio dos homens, assim a sua verdade permanece, entre as
opiniões comuns, sem diferença exterior. O mesmo se dá com a Eucaristia
relativamente ao pão comum ».(17)
Em resumo, o conhecimento da fé não
anula o mistério; torna-o apenas mais evidente e apresenta-o como um facto
essencial para a vida do homem: Cristo Senhor, « na própria revelação do
mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua
vocação sublime », (18) que é participar no mistério da vida trinitária de
Deus. (19)
14. A doutrina do primeiro e segundo
Concílio do Vaticano abre um horizonte verdadeiramente novo também ao saber
filosófico. A Revelação coloca dentro da história um ponto de referência de que
o homem não pode prescindir, se quiser chegar a compreender o mistério da sua
existência; mas, por outro lado, este conhecimento apela constantemente para o
mistério de Deus que a mente não consegue abarcar, mas apenas receber e acolher
na fé. Entre estes dois momentos, a razão possui o seu espaço peculiar que lhe
permite investigar e compreender, sem ser limitada por nada mais que a sua
finitude ante o mistério infinito de Deus.
A Revelação introduz, portanto, na
nossa história uma verdade universal e última que leva a mente do homem a nunca
mais se deter; antes, impele-a a ampliar continuamente os espaços do próprio
conhecimento até sentir que realizou tudo o que estava ao seu alcance, sem nada
descurar. Ajuda-nos, nesta reflexão, uma das inteligências mais fecundas e
significativas da história da humanidade, à qual obrigatoriamente fazem
referência a filosofia e a teologia: Santo Anselmo. Na sua obra, Proslogion, o Arcebispo de Cantuária
exprime-se assim: « Detendo-me com frequência e atenção a pensar neste
problema, sucedia umas vezes que me parecia estar para agarrar o que buscava,
outras vezes, pelo contrário, furtava-se completamente ao meu pensamento; até
que finalmente, desesperado de o poder achar, decidi deixar de procurar algo
que me era impossível encontrar. Mas, quando quis afastar de mim tal pensamento
para que a sua ocupação da minha mente não me alheasse de outros problemas de
que podia tirar algum proveito, foi então que começou a apresentar-se cada vez
mais teimoso. (...) Mas, pobre de mim, um dos pobres filhos de Eva, longe de
Deus, o que é que comecei a fazer e o que é que consegui? O que é que visava e
a que ponto cheguei? A que é que aspirava e por que é que suspiro? (...) Ó
Senhor, Vós não sois apenas algo acerca do qual não se pode pensar nada de
maior (non solum es quo maius cogitari
nequit), mas sois maior de tudo o que se possa pensar (quiddam maius quam cogitari possit) (...).
Se não fôsseis o que sois, poder-se-ia pensar algo maior do que Vós, mas isso é
impossível ». (20)
15. A verdade da revelação cristã,
que se encontra em Jesus de Nazaré, permite a quemquer que seja perceber o «
mistério » da própria vida. Enquanto verdade suprema, ao mesmo tempo que
respeita a autonomia da criatura e a sua liberdade, obriga-a a abrir-se à
transcendência. Aqui, a relação entre liberdade e verdade atinge o seu máximo
grau, podendo-se compreender plenamente esta palavra do Senhor: « Conhecereis a
verdade e a verdade libertar-vos-á » (Jo 8,
32).
A revelação cristã é a verdadeira
estrela de orientação para o homem, que avança por entre os condicionalismos da
mentalidade imanentista e os reducionismos duma lógica tecnocrática; é a última
possibilidade oferecida por Deus, para reencontrar em plenitude aquele projecto
primordial de amor que teve início com a criação. Ao homem ansioso de conhecer
a verdade — se ainda é capaz de ver para além de si mesmo e levantar os olhos
acima dos seus próprios projectos — é-lhe concedida a possibilidade de
recuperar a genuína relação com a sua vida, seguindo a estrada da verdade.
Podem-se aplicar a esta situação as seguintes palavras do Deuteronómio: « A lei
que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance. Não
está no céu, para que digas: "Quem subirá por nós ao céu e no-la irá
buscar?" Não está tão pouco do outro lado do mar, para que digas: "Quem
atravessará o mar para no-la buscar e no-la fazer ouvir para que a
observemos?" Não, ela está muito perto de ti: está na tua boca e no teu
coração; e tu podes cumpri-la » (30, 11-14). Temos um eco deste texto no famoso
pensamento do filósofo e teólogo Santo Agostinho: « Noli foras ire, in te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas
». (21)
À luz destas considerações, impõe-se
uma primeira conclusão: a verdade que a Revelação nos dá a conhecer não é o
fruto maduro ou o ponto culminante dum pensamento elaborado pela razão. Pelo
contrário, aquela apresenta-se com a característica da gratuidade, obriga a
pensá-la, e pede para ser acolhida, como expressão de amor. Esta verdade
revelada é a presença antecipada na nossa história daquela visão última e
definitiva de Deus, que está reservada para quantos acreditam n'Ele ou O
procuram de coração sincero. Assim, o fim último da existência pessoal é
objecto de estudo quer da filosofia, quer da teologia. Embora com meios e
conteúdos diversos, ambas apontam para aquele « caminho da vida » (Sal 1615, 11) que, segundo nos diz a fé,
tem o seu termo último de chegada na alegria plena e duradoura da contemplação
de Deus Uno e Trino.
CAPÍTULO II
CREDO UT INTELLEGAM
1.
« A sabedoria sabe e compreende todas as coisas» (Sab9, 11)
16. Quão profunda seja a ligação
entre o conhecimento da fé e o da razão, já a Sagrada Escritura no-lo indica
com elementos de uma clareza surpreendente. Comprovam-no sobretudo os Livros Sapienciais. O que impressiona na
leitura, feita sem preconceitos, dessas páginas da Sagrada Escritura é o facto
de estes textos conterem não apenas a fé de Israel, mas também o tesouro de
civilizações e culturas já desaparecidas. Como se de um desígnio particular se
tratasse, o Egipto e a Mesopotâmia fazem ouvir novamente a sua voz, e alguns
traços comuns das culturas do Antigo Oriente ressurgem nestas páginas ricas de
intuições singularmente profundas.
Não é por acaso que o autor sagrado,
ao querer descrever o homem sábio, o apresenta como aquele que ama e busca a
verdade: « Feliz o homem que é constante na sabedoria, e que discorre com a sua
inteligência; que repassa no seu coração os caminhos da sabedoria, e que
penetra no conhecimento dos seus segredos; vai atrás dela como quem lhe segue o
rasto, e permanece nos seus caminhos; olha pelas suas janelas, e escuta às suas
portas; repousa junto da sua morada, e fixa um pilar nas suas paredes; levanta
a sua tenda junto dela, e estabelece ali agradável morada; coloca os seus
filhos debaixo da sua protecção, e ele mesmo morará debaixo dos seus ramos; à
sua sombra estará defendido do calor, e repousará na sua glória » (Sir 14, 20-27).
Para o autor inspirado, como se vê,
o desejo de conhecer é uma característica comum a todos os homens. Graças à
inteligência, é dada a todos, crentes e descrentes, a possibilidade de «
saciarem-se nas águas profundas » do conhecimento (cf. Prov 20, 5). Seguramente, no Antigo
Israel, o conhecimento do mundo e dos seus fenómenos não se realizava pela via
da abstracção, como já o fazia o filósofo jónico ou o sábio egípcio. E menos
ainda podia o bom israelita conceber o conhecimento nos parâmetros próprios da
época moderna, mais propensa à subdivisão do saber. Apesar disso, o mundo
bíblico fez confluir, para o grande mar da teoria do conhecimento, o seu
contributo original.
Qual? O carácter peculiar do texto
bíblico reside na convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível
entre o conhecimento da razão e o da fé. O mundo e o que nele acontece, assim
como a história e as diversas vicissitudes da nação são realidades observadas,
analisadas e julgadas com os meios próprios da razão, mas sem deixar a fé
alheia a este processo. Esta não intervém para humilhar a autonomia da razão,
nem para reduzir o seu espaço de acção, mas apenas para fazer compreender ao homem
que, em tais acontecimentos, Se torna visível e actua o Deus de Israel. Assim,
não é possível conhecer profundamente o mundo e os factos da história, sem ao
mesmo tempo professar a fé em Deus que neles actua. A fé aperfeiçoa o olhar
interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a
presença operante da Providência. A tal propósito, é significativa uma
expressão do livro dos Provérbios: « A mente do homem dispõe o seu caminho, mas
é o Senhor quem dirige os seus passos » (16, 9). É como se dissesse que o
homem, pela luz da razão, pode reconhecer a sua estrada, mas percorrê-la de
maneira decidida, sem obstáculos e até ao fim, ele só o consegue se, de ânimo
recto, integrar a sua pesquisa no horizonte da fé. Por isso, a razão e a fé não
podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de
conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus.
17. Não há motivo para existir
concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu
espaço próprio de realização. Aponta nesta direcção o livro dos Provérbios,
quando exclama: « A glória de Deus é encobrir as coisas, e a glória dos reis é
investigá-las » (25, 2). Deus e o homem estão colocados, em seu respectivo
mundo, numa relação única. Em Deus reside a origem de tudo, n'Ele se encerra a
plenitude do mistério, e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário,
compete o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está a sua
nobreza. Um novo ladrilho é colocado neste mosaico pelo Salmista, quando diz: «
Quão insondáveis para mim, ó Deus, vossos pensamentos! Quão imenso o seu
número! Quisera contá-los, são mais que as areias; se pudesse chegar ao fim,
estaria ainda convosco » (139/ 138, 17-18). O desejo de conhecer é tão grande e
comporta tal dinamismo que o coração do homem, ao tocar o limite
intransponível, suspira pela riqueza infinita que se encontra para além deste,
por intuir que nela está contida a resposta cabal para toda a questão ainda sem
resposta.
18. Podemos, pois, dizer que Israel,
com a sua reflexão, soube abrir à razão o caminho para o mistério. Na revelação
de Deus, pôde sondar em profundidade aquilo que a razão estava procurando
alcançar sem o conseguir. A partir desta forma mais profunda de conhecimento, o
Povo Eleito compreendeu que a razão deve respeitar algumas regras fundamentais,
para manifestar do melhor modo possível a própria natureza. A primeira regra é
ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que não permite descanso;
a segunda nasce da consciência de que não se pode percorrer tal caminho com o
orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de conquista pessoal; a terceira
regra funda-se no « temor de Deus », de quem a razão deve reconhecer tanto a
transcendência soberana como o amor solícito no governo do mundo.
Quando o homem se afasta destas
regras, corre o risco de falimento e acaba por encontrar-se na condição do «
insensato ». Segundo a Bíblia, nesta insensatez encerra-se uma ameaça à vida. É
que o insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de facto, não
é capaz de fixar o olhar nas realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr
ordem na sua mente (cf. Prov 1,
7) e de assumir uma atitude correcta para consigo mesmo e o ambiente
circundante. Quando, depois, chega a afirmar que « Deus não existe » (cf. Sal 1413, 1), isso revela, com absoluta
clareza, quanto seja deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele
da verdade plena a respeito das coisas, da sua origem e do seu destino.
19. Encontramos, no livro da
Sabedoria, alguns textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto.
Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da
natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande
parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua
inteligência, é capaz de « conhecer a constituição do universo e a força dos
elementos (...), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos
animais mansos e os instintos dos animais ferozes » (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz
de filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo.
Retomando o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste
contexto, o autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza,
pode-se chegar ao Criador: « Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por
analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor » (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível da
revelação divina, constituído pelo maravilhoso « livro da natureza »; lendo-o
com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do
Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como
criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de um meio adequado,
como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre e pelo seu
pecado.
20. Nesta perspectiva, a razão é
valorizada, mas não superexaltada. O que ela alcança pode ser verdade, mas só
adquire pleno significado se o seu conteúdo for situado num horizonte mais
amplo, o da fé: « O Senhor é quem dirige os passos do homem; como poderá o
homem compreender o seu próprio destino? » (Prov
20, 24). A fé, segundo o Antigo Testamento, liberta a razão, na
medida em que lhe permite alcançar coerentemente o seu objecto de conhecimento
e situá-lo naquela ordem suprema onde tudo adquire sentido. Em resumo, pela
razão o homem alcança a verdade, porque, iluminado pela fé, descobre o sentido
profundo de tudo e, particularmente, da própria existência. Justamente, pois, o
autor sagrado coloca o início do verdadeiro conhecimento no temor de Deus: « O
temor do Senhor é o princípio da sabedoria » (Prov
1, 7; cf. Sir 1, 14).
2. « Adquire a sabedoria, adquire a inteligência
» (Prov 4, 5)
21. Segundo o Antigo Testamento, o
conhecimento não se baseia apenas numa atenta observação do homem, do mundo e
da história, mas supõe como indispensável também uma relação com a fé e os
conteúdos da Revelação. Aqui se concentram os desafios que o Povo Eleito teve
de enfrentar e a que deu resposta. Ao reflectir sobre esta sua condição, o
homem bíblico descobriu que não se podia compreender senão como « ser em
relação »: relação consigo mesmo, com o povo, com o mundo e com Deus. Esta
abertura ao mistério, que provinha da Revelação, acabou por ser, para ele, a
fonte dum verdadeiro conhecimento, que permitiu à sua razão aventurar-se em
espaços infinitos, recebendo inesperadas possibilidades de compreensão.
Segundo o autor sagrado, o esforço
da investigação não estava isento da fadiga causada pelo embate nas limitações
da razão. Sente-se isso mesmo, por exemplo, nas palavras com que o livro dos
Provérbios denuncia o cansaço provado ao tentar compreender os misteriosos
desígnios de Deus (cf. 30, 1-6). Todavia, apesar da fadiga, o crente não
desiste. E a força para continuar o seu caminho rumo à verdade provém da
certeza de que Deus o criou como um « explorador » (cf. Coel 1, 13), cuja missão é não deixar nada
sem tentar, não obstante a contínua chantagem da dúvida. Apoiando-se em Deus, o
crente permanece, em todo o lado e sempre, inclinado para o que é belo, bom e
verdadeiro.
22. S. Paulo, no primeiro capítulo
da carta aos Romanos, ajuda-nos a avaliar melhor quanto seja incisiva a
reflexão dos Livros Sapienciais. Desenvolvendo com linguagem popular uma
argumentação filosófica, o Apóstolo exprime uma verdade profunda: através da
criação, os « olhos da mente » podem chegar ao conhecimento de Deus.
Efectivamente, através das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu « poder » e
a sua « divindade » (cf. Rom 1,
20). Deste modo, é atribuída à razão humana uma capacidade tal que parece quase
superar os seus próprios limites naturais: não só ultrapassa o âmbito do
conhecimento sensorial, visto que lhe é possível reflectir criticamente sobre o
mesmo, mas, raciocinando a partir dos dados dos sentidos, pode chegar também à
causa que está na origem de toda a realidade sensível. Em terminologia
filosófica, podemos dizer que, neste significativo texto paulino, está afirmada
a capacidade metafísica do homem.
Segundo o Apóstolo, no projecto
originário da criação estava prevista a capacidade de a razão ultrapassar
comodamente o dado sensível para alcançar a origem mesma de tudo: o Criador.
Como resultado da desobediência com que o homem escolheu colocar-se em plena e
absoluta autonomia relativamente Àquele que o tinha criado, perdeu tal
facilidade de acesso a Deus criador.
O livro do Génesis descreve de
maneira figurada esta condição do homem, quando narra que Deus o colocou no
jardim do Éden, tendo no centro « a árvore da ciência do bem e do mal » (2,
17). O símbolo é claro: o homem não era capaz de discernir e decidir, por si
só, aquilo que era bem e o que era mal, mas devia apelar-se a um princípio
superior. A cegueira do orgulho iludiu os nossos primeiros pais de que eram
soberanos e autónomos, podendo prescindir do conhecimento vindo de Deus. Nesta
desobediência original, eles implicaram todo o homem e mulher, causando à razão
traumas sérios que haveriam de dificultar-lhe, daí em diante, o caminho para a
verdade plena. Agora a capacidade humana de conhecer a verdade aparece ofuscada
pela aversão contra Aquele que é fonte e origem da verdade. O próprio apóstolo
S. Paulo nos revela como, por causa do pecado, os pensamentos dos homens se
tornaram « vãos » e os seus arrazoados tortuosos e falsos (cf. Rom 1, 21-22). Os olhos da mente deixaram
de ser capazes de ver claramente: a razão foi progressivamente ficando
prisioneira de si mesma. A vinda de Cristo foi o acontecimento de salvação que
redimiu a razão da sua fraqueza, libertando-a dos grilhões onde ela mesma se
tinha algemado.
23. Deste modo, a relação do cristão
com a filosofia requer um discernimento radical. No Novo Testamento,
especialmente nas cartas de S. Paulo, aparece claramente este dado: a
contraposição entre « a sabedoria deste mundo » e a sabedoria de Deus revelada
em Jesus Cristo. A profundidade da sabedoria revelada rompe o círculo dos
nossos esquemas de reflexão habituais, que não são minimamente capazes de
exprimi-la de forma adequada.
O início da primeira carta aos
Coríntios apresenta radicalmente este dilema. O Filho de Deus crucificado é o
acontecimento histórico contra o qual se desfaz toda a tentativa da mente para
construir, sobre razões puramente humanas, uma justificação suficiente do
sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que desafia qualquer
filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de facto, qualquer
tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está
destinada à falência. « Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o
investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria
deste mundo? » (1 Cor 1, 20) —
interroga-se enfaticamente o Apóstolo. Para aquilo que Deus quer realizar, não
basta a simples sabedoria do homem sábio, requer-se um passo decisivo que leve
ao acolhimento duma novidade radical: « O que é louco segundo o mundo é que
Deus escolheu para confundir os sábios (...). O que é vil e desprezível no
mundo, é que Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para
destruir as que são » (1 Cor 1,
27-28). A sabedoria do homem recusa ver na própria fragilidade o pressuposto da
sua força; mas S. Paulo não hesita em afirmar: « Quando me sinto fraco, então é
que sou forte » (2 Cor 12, 10). O
homem não consegue compreender como possa a morte ser fonte de vida e de amor,
mas Deus, para revelar o mistério do seu desígnio salvador, escolheu
precisamente o que a razão considera « loucura » e « escândalo ». Usando a
linguagem dos filósofos do seu tempo, Paulo chega ao clímax da sua doutrina e
do paradoxo que quer exprimir: « Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que
nada são, para destruir as que são » (cf. 1
Cor 1, 28). Para exprimir o carácter gratuito do amor revelado na
cruz de Cristo, o Apóstolo não tem medo de usar a linguagem mais radical que os
filósofos empregavam nas suas reflexões a respeito de Deus. A razão não pode
esgotar o mistério de amor que a Cruz representa, mas a Cruz pode dar à razão a
resposta última que esta procura. S. Paulo coloca, não a sabedoria das
palavras, mas a Palavra da Sabedoria como critério, simultaneamente, de verdade
e de salvação.
Por conseguinte, a sabedoria da Cruz
supera qualquer limite cultural que se lhe queira impor, obrigando a abrir-se à
universalidade da verdade de que é portadora. Como é grande o desafio lançado à
nossa razão e como são enormes as vantagens que terá, se ela se render! A
filosofia, que por si mesma já é capaz de reconhecer a necessidade do homem se
transcender continuamente na busca da verdade, pode, ajudada pela fé, abrir-se
para, na « loucura » da Cruz, acolher como genuína a crítica a quantos se
iludem de possuir a verdade, encalhando-a nas sirtes dum sistema próprio. A
relação entre a fé e a filosofia encontra, na pregação de Cristo crucificado e
ressuscitado, o escolho contra o qual pode naufragar, mas também para além do
qual pode desembocar no oceano ilimitado da verdade. Aqui é evidente a
fronteira entre a razão e a fé, mas torna-se claro também o espaço onde as duas
se podem encontrar.
CAPÍTULO III
INTELLEGO UT CREDAM
1.
Caminhar à procura da verdade
24. Nos Actos dos Apóstolos, o
evangelista Lucas narra a chegada de Paulo a Atenas, numa das suas viagens
missionárias. A cidade dos filósofos estava cheia de estátuas, que
representavam vários ídolos; e chamou-lhe a atenção um altar, que Paulo
prontamente aproveitou como motivo e base comum para iniciar o anúncio do
querigma: « Atenienses — disse ele —, vejo que sois, em tudo, os mais
religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos
monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: "Ao Deus
desconhecido". Pois bem! O que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio
» (Act 17, 22-23). Partindo
daqui, S. Paulo fala-lhes de Deus enquanto criador, como Aquele que tudo
transcende e a tudo dá vida. Depois continua o seu discurso, dizendo: « Fez a
partir de um só homem, todo o género humano, para habitar em toda a face da
Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim
de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo, mesmo tacteando,
embora não Se encontre longe de cada um de nós » (Act 17, 26-27).
O Apóstolo põe em destaque uma
verdade que a Igreja sempre guardou no seu tesouro: no mais fundo do coração do
homem, foi semeado o desejo e a nostalgia de Deus. Recorda-o a liturgia de Sexta-feira
Santa, quando, convidando a rezar pelos que não crêem, diz: « Deus eterno e
omnipotente, criastes os homens para que Vos procurem, de modo que só em Vós
descansa o seu coração ». (22) Existe, portanto, um caminho que o homem, se
quiser, pode percorrer; o seu ponto de partida está na capacidade de a razão
superar o contingente para se estender até ao infinito.
De vários modos e em tempos
diversos, o homem demonstrou que conseguia dar voz a este seu desejo íntimo. A
literatura, a música, a pintura, a escultura, a arquitectura e outras
realizações da sua inteligência criadora tornaram-se canais de que ele se
serviu para exprimir esta sua ansiosa procura. Mas foi sobretudo a filosofia
que, de modo peculiar, recolheu este movimento, exprimindo, com os meios e
segundo as modalidades científicas que lhe são próprias, este desejo universal
do homem.
25. « Todos os homens desejam saber
», (23) e o objecto próprio deste desejo é a verdade. A própria vida quotidiana
demonstra o interesse que tem cada um em descobrir, para além do que ouve, a
realidade das coisas. Em toda a criação visível, o homem é o único ser que é
capaz não só de saber, mas também de saber que sabe, e por isso se interessa
pela verdade real daquilo que vê. Ninguém pode sinceramente ficar indiferente
quanto à verdade do seu saber. Se descobre que é falso, rejeita-o; se, pelo
contrário, consegue certificar-se da sua verdade, sente-se satisfeito. É a
lição que nos dá Santo Agostinho, quando escreve: « Encontrei muitos com
desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado
». (24) Considera-se, justamente, que uma pessoa alcançou a idade adulta,
quando consegue discernir, por seus próprios meios, entre aquilo que é
verdadeiro e o que é falso, formando um juízo pessoal sobre a realidade
objectiva das coisas. Está aqui o motivo de muitas pesquisas, particularmente
no campo das ciências, que levaram, nos últimos séculos, a resultados tão
significativos, favorecendo realmente o progresso da humanidade inteira.
E a pesquisa é tão importante no
campo teórico, como no âmbito prático: ao referir-me a este, desejo aludir à
procura da verdade a respeito do bem que se deve realizar. Com efeito, graças
precisamente ao agir ético, a pessoa, se actuar segundo a sua livre e recta
vontade, entra pela estrada da felicidade e encaminha-se para a perfeição.
Também neste caso, está em questão a verdade. Reafirmei esta convicção na carta
encíclica Veritatis splendor: «
Não há moral sem liberdade (...). Se existe o direito de ser respeitado no próprio
caminho em busca da verdade, há ainda antes a obrigação moral grave para cada
um de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida ». (25)
Por isso, é necessário que os
valores escolhidos e procurados na vida sejam verdadeiros, porque só estes é
que podem aperfeiçoar a pessoa, realizando a sua natureza. Não é fechando-se em
si mesmo que o homem encontra esta verdade dos valores, mas abrindo-se para a
receber mesmo de dimensões que o transcendem. Esta é uma condição necessária
para que cada um se torne ele mesmo e cresça como pessoa adulta e madura.
26. Ao princípio, a verdade
apresenta-se ao homem sob forma interrogativa: A
vida tem um sentido? Para onde se dirige? À primeira vista, a
existência pessoal poderia aparecer radicalmente sem sentido. Não é preciso
recorrer aos filósofos do absurdo, nem às perguntas provocatórias que se
encontram no livro de Job para duvidar do sentido da vida. A experiência
quotidiana do sofrimento, pessoal e alheio, e a observação de muitos factos,
que à luz da razão se revelam inexplicáveis, bastam para tornar iniludível um
problema tão dramático como é a questão do sentido da vida. (26) A isto se deve
acrescentar que a primeira verdade absolutamente certa da nossa existência,
para além do facto de existirmos, é a inevitabilidade da morte. Perante um dado
tão desconcertante como este, impõe-se a busca de uma resposta exaustiva. Cada
um quer, e deve, conhecer a verdade sobre o seu fim. Quer saber se a morte será
o termo definitivo da sua existência, ou se algo permanece para além da morte;
se pode esperar uma vida posterior, ou não. É significativo que o pensamento
filosófico tenha recebido, da morte de Sócrates, uma orientação decisiva que o
marcou durante mais de dois milénios. Certamente não é por acaso que os filósofos,
perante a realidade da morte, sempre voltam a pôr-se este problema, associado à
questão do sentido da vida e da imortalidade.
27. A tais questões, não pode
esquivar-se ninguém — nem o filósofo, nem o homem comum. E, da resposta que se
lhes der, deriva uma orientação decisiva da investigação: a possibilidade, ou
não, de alcançar uma verdade universal. Por si mesma qualquer verdade, mesmo
parcial, se realmente é verdade, apresenta-se como universal e absoluta. Aquilo
que é verdadeiro deve ser verdadeiro sempre e para todos. Contudo, para além
desta universalidade, o homem procura um absoluto que seja capaz de dar
resposta e sentido a toda a sua pesquisa: algo de definitivo, que sirva de
fundamento a tudo o mais. Por outras palavras, procura uma explicação
definitiva, um valor supremo, para além do qual não existam, nem possam
existir, ulteriores perguntas ou apelos. As hipóteses podem seduzir, mas não
saciam. Para todos, chega o momento em que, admitam-no ou não, há necessidade
de ancorar a existência a uma verdade reconhecida como definitiva, que forneça
uma certeza livre de qualquer dúvida.
Os filósofos procuraram, ao longo
dos séculos, descobrir e exprimir tal verdade, criando um sistema ou uma escola
de pensamento. Mas, para além dos sistemas filosóficos, existem outras
expressões nas quais o homem procura formular a sua « filosofia »: trata-se de
convicções ou experiências pessoais, tradições familiares e culturais, ou
itinerários existenciais vividos sob a autoridade de um mestre. A cada uma
destas manifestações, subjaz sempre vivo o desejo de alcançar a certeza da
verdade e do seu valor absoluto.
2. Os diferentes rostos da verdade do homem
28. Há que reconhecer que a busca da
verdade nem sempre se desenrola com a referida transparência e coerência de
raciocínio. Muitas vezes, as limitações naturais da razão e a inconstância do
coração ofuscam e desviam a pesquisa pessoal. Outros interesses de vária ordem
podem sobrepor-se à verdade. Acontece também que o próprio homem a evite,
quando começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo
quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência. Com efeito,
nunca poderia fundar a sua vida sobre a dúvida, a incerteza ou a mentira; tal
existência estaria constantemente ameaçada pelo medo e a angústia. Assim,
pode-se definir o homem como aquele que
procura a verdade.
29. É impensável que uma busca, tão
profundamente radicada na natureza humana, possa ser completamente inútil e vã.
A própria capacidade de procurar a verdade e fazer perguntas implica já uma
primeira resposta. O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse
totalmente ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder
chegar a uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De facto,
assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de
ter uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo
fenómeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma
resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a
intuição inicial, só porque não alcançou o seu objectivo; dirá antes, e
justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada.
O mesmo deve valer também para a
busca da verdade no âmbito das questões últimas. A sede de verdade está tão
radicada no coração do homem que, se tivesse de prescindir dela, a sua
existência ficaria comprometida. Basta observar a vida de todos os dias para
constatar como dentro de cada um de nós se sente o tormento de algumas questões
essenciais e, ao mesmo tempo, se guarda na alma, pelo menos, o esboço das
respectivas respostas. São respostas de cuja verdade estamos convencidos, até
porque notamos que não diferem substancialmente das respostas a que muitos
outros chegaram. Por certo, nem toda a verdade adquirida possui o mesmo valor;
todavia, o conjunto dos resultados alcançados confirma a capacidade que o ser
humano, em princípio, tem de chegar à verdade.
30. Convém, agora, fazer uma rápida
menção das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que
assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é
a ordem própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso
ocupam as verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da
capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades
religiosas, que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão
contidas nas respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições,
às questões últimas. (27)
Quanto às verdades filosóficas, é
necessário especificar que não se limitam só às doutrinas, por vezes efémeras,
dos filósofos profissionais. Como já disse, todo o homem é, de certa forma, um
filósofo e possui as suas próprias concepções filosóficas, pelas quais orienta
a sua vida. De diversos modos, consegue formar uma visão global e uma resposta
sobre o sentido da própria existência: e, à luz disso, interpreta a própria
vida pessoal e regula o seu comportamento. É aqui que deveria colocar-se a questão
da relação entre as verdades filosófico-religiosas e a verdade revelada em
Jesus Cristo. Antes de responder a tal questão, é preciso ter em conta outro
dado da filosofia.
31. O homem não foi criado para
viver sozinho. Nasce e cresce numa família, para depois se inserir, pelo seu
trabalho, na sociedade. Assim a pessoa aparece integrada, desde o seu
nascimento, em várias tradições; delas recebe não apenas a linguagem e a
formação cultural, mas também muitas verdades nas quais acredita quase
instintivamente. Entretanto, o crescimento e a maturação pessoal implicam que
tais verdades possam ser postas em dúvida e avaliadas através da actividade
crítica própria do pensamento. Isto não impede que, uma vez passada esta fase,
aquelas mesmas verdades sejam « recuperadas » com base na experiência feita ou
em virtude de sucessiva ponderação. Apesar disso, na vida duma pessoa, são
muito mais numerosas as verdades simplesmente acreditadas que aquelas
adquiridas por verificação pessoal. Na realidade, quem seria capaz de avaliar
criticamente os inumeráveis resultados das ciências, sobre os quais se
fundamenta a vida moderna? Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo
de informações, recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por
princípio, são aceites como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer
novamente todos os caminhos de experiência e pensamento, pelos quais se foram
acumulando os tesouros de sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto, o
homem, ser que busca a verdade, é também aquele
que vive de crenças.
32. Cada um, quando crê, confia nos
conhecimentos adquiridos por outras pessoas. Neste acto, pode-se individuar uma
significativa tensão: por um lado, o conhecimento por crença apresenta-se como
uma forma imperfeita de conhecimento, que precisa de se aperfeiçoar
progressivamente por meio da evidência alcançada pela própria pessoa; por outro
lado, a crença é muitas vezes mais rica, humanamente, do que a simples
evidência, porque inclui a relação interpessoal, pondo em jogo não apenas as
capacidades cognoscitivas do próprio sujeito, mas também a sua capacidade mais
radical de confiar noutras pessoas, iniciando com elas um relacionamento mais
estável e íntimo.
Importa sublinhar que as verdades
procuradas nesta relação interpessoal não são primariamente de ordem empírica
ou de ordem filosófica. O que se busca é sobretudo a verdade da própria pessoa:
aquilo que ela é e o que manifesta do seu próprio íntimo. De facto, a perfeição
do homem não se reduz apenas à aquisição do conhecimento abstracto da verdade,
mas consiste também numa relação viva de doação e fidelidade ao outro. Nesta
fidelidade que leva à doação, o homem encontra plena certeza e segurança. Ao
mesmo tempo, porém, o conhecimento por crença, que se fundamenta na confiança
interpessoal, tem a ver também com a verdade: de facto, acreditando, o homem
confia na verdade que o outro lhe manifesta.
Quantos exemplos se poderiam aduzir
para ilustrar este dado! O primeiro que me vem ao pensamento é o testemunho dos
mártires. Com efeito, o mártir é a testemunha mais genuína da verdade da
existência. Ele sabe que, no seu encontro com Jesus Cristo, alcançou a verdade
a respeito da sua vida, e nada nem ninguém poderá jamais arrancar-lhe esta
certeza. Nem o sofrimento, nem a morte violenta poderão fazê-lo retroceder da
adesão à verdade que descobriu no encontro com Cristo. Por isso mesmo é que,
até agora, o testemunho dos mártires atrai, gera consenso, é escutado e
seguido. Esta é a razão pela qual se tem confiança na sua palavra: descobre-se
neles a evidência dum amor que não precisa de longas demonstrações para ser
convincente, porque fala daquilo que cada um, no mais fundo de si mesmo, já
sente como verdadeiro e que há tanto tempo procurava. Em resumo, o mártir
provoca em nós uma profunda confiança, porque diz aquilo que já sentimos e
torna evidente aquilo que nós mesmos queríamos ter a força de dizer.
33. Deste modo, foi possível
completar progressivamente os dados do problema. O homem, por sua natureza,
procura a verdade. Esta busca não se destina apenas à conquista de verdades
parciais, físicas ou científicas; não busca só o verdadeiro bem em cada um das
suas decisões. Mas a sua pesquisa aponta para uma verdade superior, que seja
capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que não
pode desembocar senão no absoluto. (28) Graças às capacidades de que está
dotado o seu pensamento, o homem pode encontrar e reconhecer uma tal verdade.
Sendo esta vital e essencial para a sua existência, chega-se a ela não só por
via racional, mas também através de um abandono fiducial a outras pessoas que
possam garantir a certeza e autenticidade da verdade. A capacidade e a decisão
de confiar o próprio ser e existência a outra pessoa constituem, sem dúvida, um
dos actos antropologicamente mais significativos e expressivos.
É bom não esquecer que também a
razão, na sua busca, tem necessidade de ser apoiada por um diálogo confiante e
uma amizade sincera. O clima de suspeita e desconfiança, que por vezes envolve
a pesquisa especulativa, ignora o ensinamento dos filósofos antigos, que punham
a amizade como um dos contextos mais adequados para o recto filosofar.
Do que ficou dito conclui-se que o
homem se encontra num caminho de busca, humanamente infindável: busca da
verdade e busca duma pessoa em quem poder confiar. A fé cristã vem em sua
ajuda, dando-lhe a possibilidade concreta de ver realizado o objectivo dessa
busca. De facto, superando o nível da simples crença, ela introduz o homem
naquela ordem da graça que lhe consente participar no mistério de Cristo, onde
lhe é oferecido o conhecimento verdadeiro e coerente de Deus Uno e Trino. Deste
modo, em Jesus Cristo, que é a Verdade, a fé reconhece o apelo último dirigido
à humanidade, para que possa tornar realidade o que experimenta como desejo e nostalgia.
34. Esta verdade, que Deus nos
revela em Jesus Cristo, não está em contraste com as verdades que se alcançam
filosofando. Pelo contrário, as duas ordens de conhecimento conduzem à verdade
na sua plenitude. A unidade da verdade já é um postulado fundamental da razão
humana, expresso no princípio de não-contradição. A Revelação dá a certeza
desta unidade, ao mostrar que Deus criador é também o Deus da história da
salvação. Deus que fundamenta e garante o carácter inteligível e racional da
ordem natural das coisas, sobre o qual os cientistas se apoiam confiadamente,
(29) é o mesmo que Se revela como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta
unidade da verdade, natural e revelada, encontra a sua identificação viva e
pessoal em Cristo, como recorda o apóstolo Paulo: « A verdade que existe em
Jesus » (Ef 4, 21; cf. Col 1, 15-20). Ele é a Palavra eterna, na qual tudo foi criado, e
ao mesmo tempo é a Palavra encarnada que,
com toda a sua pessoa,30 revela o Pai (cf. Jo
1, 14.18). Aquilo que a razão humana procura « sem o conhecer » (cf.
Act 17, 23), só pode ser
encontrado por meio de Cristo: de facto, o que n'Ele se revela é a « verdade
plena » (cf. Jo 1, 14-16) de todo
o ser que, n'Ele e por Ele, foi criado e, por isso mesmo, n'Ele encontra a sua
realização (cf. Col 1, 17).
35. Tendo estas considerações gerais
como pano de fundo, é necessário agora examinar, de maneira mais directa, a
relação entre a verdade revelada e a filosofia. Tal relação requer uma dupla
consideração, visto que a verdade que nos vem da Revelação tem de ser,
simultaneamente, compreendida pela luz da razão. Só nesta dupla acepção é que
será possível especificar a justa relação da verdade revelada com o saber
filosófico. Por isso, vamos considerar, em primeiro lugar, as relações entre a
fé e a filosofia ao longo da história, donde será possível individuar alguns
princípios, que constituem os pontos de referência aos quais recorrer para
estabelecer a correcta relação entre as duas ordens de conhecimento.
CAPÍTULO IV
A RELAÇÃO ENTRE A
FÉ E A RAZÃO
1. As etapas significativas do encontro entre a fé e a
razão
36. Os Actos dos Apóstolos
testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com
as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve
com « alguns filósofos epicuristas e estóicos » (17, 18). A análise exegética
do discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares,
predominantemente de origem estóica. Certamente isso não se deu por acaso; os
primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar
apenas « Moisés e os profetas » nos seus discursos, mas tinham de servir-se
também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada
homem (cf. Rom 1, 19-21; 2, 14-15; Act 14,
16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha
degenerado em idolatria (cf. Rom 1,
21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento
dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos
mistéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência divina.
De facto, um dos cuidados que mais a
peito tiveram os filósofos do pensamento clássico, foi purificar de formas
mitológicas a concepção que os homens tinham de Deus. Bem sabemos que a
religião grega, como grande parte das religiões cósmicas, era politeísta,
chegando a divinizar até coisas e fenómenos da natureza. As tentativas do homem
para compreender a origem dos deuses e, nestes, a do universo tiveram a sua
primeira expressão na poesia. As teogonias permanecem, até hoje, o primeiro
testemunho desta investigação do homem. Os pais da filosofia tiveram por missão
mostrar a ligação entre a razão e a religião. Estendendo o olhar para os
princípios universais, deixaram de contentar-se com os mitos antigos e procuraram
dar fundamento racional à sua crença na divindade. Embocou-se assim uma estrada
que, saindo das antigas tradições particulares, levava a um desenvolvimento que
correspondia às exigências da razão universal. O fim que tal desenvolvimento
tinha em vista era a verificação crítica daquilo em que se acreditava. A
primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção da divindade. As
superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a religião, pelo menos
em parte, foi purificada pela análise racional. Foi nesta base que os Padres da
Igreja instituíram um diálogo fecundo com os filósofos antigos, abrindo a
estrada ao anúncio e à compreensão do Deus de Jesus Cristo.
37. Quando se menciona este
movimento de aproximação dos cristãos à filosofia, é obrigatório recordar
também a cautela com que eles olhavam outros elementos do mundo cultural pagão,
como, por exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto sabedoria prática e escola de
vida, podia facilmente ser confundida com um conhecimento de tipo superior, esotérico,
reservado a poucos iluminados. É, sem dúvida, a especulações esotéricas deste
género que pensa S. Paulo, quando adverte os Colossenses: « Vede que ninguém
vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos
elementos do mundo, e não em Cristo » (2, 8). Como são actuais estas palavras
do Apóstolo, quando as referimos às diversas formas de esoterismo que hoje se
difundem mesmo entre alguns crentes, privados do necessário sentido crítico!
Seguindo as pegadas de S. Paulo, outros escritores dos primeiros séculos,
particularmente Santo Ireneu e Tertuliano, puseram reservas a uma orientação
cultural que pretendia subordinar a verdade da Revelação à interpretação dos
filósofos.
38. Como vemos, o encontro do
cristianismo com a filosofia não foi fácil nem imediato. A exercitação desta e
a frequência das respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros
cristãos como transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e
mais urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser
proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do
coração e ao pedido do Baptismo. De qualquer modo, isso não significa que
ignorassem a obrigação de aprofundar a compreensão da fé e suas motivações; antes
pelo contrário. É injusta e pretextuosa a crítica de Celso, quando acusa os
cristãos de serem gente « iletrada e rude ». (31) A explicação deste seu
desinteresse inicial tem de ser procurada noutro lado. Na realidade, o encontro
com o Evangelho oferecia uma resposta tão satisfatória à questão do sentido da
vida, até então insolúvel, que frequentar os filósofos parecia-lhes uma coisa
sem interesse e, em certos aspectos, superada.
Isto é, hoje, ainda mais claro, se
se pensa ao contributo dado pelo cristianismo, quando defende o acesso à
verdade como um direito universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e
sexuais, o cristianismo tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de
todos os homens diante de Deus. A primeira consequência deste conceito
registou-se no tema da verdade, ficando decididamente superado o carácter
elitista que a sua busca tinha no pensamento dos antigos: se o acesso à verdade
é um bem que permite chegar a Deus, todos devem estar em condições de poder
percorrer esta estrada. As vias para chegar à verdade continuam a ser muitas;
mas, dado que a verdade cristã tem valor salvífico, cada uma delas só pode ser
percorrida se conduzir à meta final, ou seja, à revelação de Jesus Cristo.
Como pioneiro dum encontro positivo
com o pensamento filosófico, sempre marcado por um prudente discernimento, há
que recordar S. Justino. Apesar da grande estima que continuava a ter pela
filosofia grega depois da sua conversão, afirmava decidida e claramente que
tinha encontrado, no cristianismo, « a única filosofia segura e vantajosa ».
(32) De forma semelhante, Clemente de Alexandria chamava ao Evangelho « a
verdadeira filosofia », (33) e, em analogia com a lei mosaica, via a filosofia
como uma instrução propedêutica à fé cristã (34) e uma preparação ao Evangelho.
(35) Uma vez que « a filosofia anela por aquela sabedoria que consiste na
rectidão da alma e da palavra e na pureza da vida, está aberta à sabedoria e
tudo faz para a alcançar. No nosso meio, designam-se por filósofos os que amam
a sabedoria que é criadora e mestra de tudo, isto é, o conhecimento do Filho de
Deus ».(36) Segundo este pensador alexandrino, a filosofia grega não tem como
primeiro objectivo completar ou corroborar a verdade cristã; a sua função é,
sobretudo, a defesa da fé: « A doutrina do Salvador é perfeita em si mesma e
não precisa de apoio, porque é a força e a sabedoria de Deus. A filosofia grega
não torna mais forte a verdade com o seu contributo, mas, porque torna
impotente o ataque da sofística e desarma os assaltos traiçoeiros contra a
verdade, foi justamente chamada sebe e muro de vedação da vinha ».(37)
39. Entretanto, na história deste
desenvolvimento, é possível constatar a assunção crítica do pensamento
filosófico por parte dos pensadores cristãos. No meio dos primeiros exemplos
encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra os ataques lançados pelo
filósofo Celso, ele recorre à filosofia platónica para argumentar e
responder-lhe. Citando vários elementos do pensamento platónico, começa a
elaborar uma primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a designação
mesma de teologia e a sua concepção como discurso racional sobre Deus ainda
estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia aristotélica, por exemplo, o
termo designava a parte mais nobre e o verdadeiro apogeu do discurso
filosófico. Mas, à luz da revelação cristã, o que anteriormente indicava uma
doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado totalmente
novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para exprimir a verdadeira doutrina acerca de Deus. Este
pensamento cristão novo, que estava a desenvolver-se, servia-se da filosofia,
mas ao mesmo tempo tendia a distinguir-se nitidamente dela. A história revela
que o próprio pensamento platónico, quando foi assumido pela teologia, sofreu
profundas transformações, especialmente em conceitos como a imortalidade da
alma, a divinização do homem e a origem do mal.
40. Nesta obra de cristianização do
pensamento platónico e neoplatónico, merecem menção particular os Padres
Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo Agostinho. O grande
Doutor ocidental contactara diversas escolas filosóficas, mas todas o tinham
desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da fé cristã, então teve a força de
realizar aquela conversão radical a que os filósofos anteriormente contactados
não tinham conseguido induzi-lo. Ele mesmo refere o motivo: « Preferindo a
doutrina católica, já sentia, então, que era mais razoável e menos enganoso
sermos obrigados a crer o que não demonstrava, quer houvesse prova, mesmo que
esta não estivesse ao alcance de qualquer pessoa, quer a não houvesse. Seria
isto mais sensato do que zombarem da crença os maniqueístas, apoiados em
temerária promessa de ciência, para depois nos mandarem acreditar em inúmeras
fábulas tão absurdas que as não podiam provar ». (38) Quanto aos platónicos,
que ocupavam lugar privilegiado nos pontos de referimento de Agostinho, este
censurava-os porque, embora conhecessem o fim para onde se devia tender,
tinham, porém, ignorado o caminho que lá conduzia: o Verbo encarnado. (39) O
Bispo de Hipona conseguiu elaborar a primeira grande síntese do pensamento
filosófico e teológico, nela confluindo correntes do pensamento grego e latino.
Também nele a grande unidade do saber, que tinha o seu fundamento no pensamento
bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada pela profundidade do pensamento
especulativo. A síntese feita por Santo Agostinho permanecerá como a forma mais
elevada de reflexão filosófica e teológica que o Ocidente, durante séculos,
conheceu. Com uma história pessoal intensa e ajudado por uma admirável
santidade de vida, ele foi capaz de introduzir, nas suas obras, muitos dados
que, apelando-se à experiência, antecipavam já futuros desenvolvimentos de
algumas correntes filosóficas.
41. De diversas formas, pois, os
Padres do Oriente e do Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas.
Isto não significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem com os
sistemas a que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: « Que têm em comum
Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja? », (40) é um sintoma claro da
consciência crítica com que os pensadores cristãos encararam, desde as origens,
o problema da relação entre a fé e a filosofia, vendo-o globalmente, tanto nos
seus aspectos positivos como nas suas limitações. Não eram pensadores ingénuos.
Precisamente porque viviam de forma intensa o conteúdo da fé, eles conseguiam
chegar às formas mais profundas da reflexão. Por isso, é injusto e redutivo
limitar o seu trabalho a mera transposição das verdades de fé para categorias
filosóficas. Eles fizeram muito mais; conseguiram explicitar plenamente aquilo
que resultava ainda implícito e preliminar no pensamento dos grandes filósofos
antigos. (41) Estes, conforme já disse, tiveram a função de mostrar o modo como
a razão, livre dos vínculos externos, podia escapar do beco sem saída dos
mitos, para melhor se abrir à transcendência. Uma razão purificada e recta era
capaz de se elevar aos níveis mais elevados da reflexão, dando fundamento sólido
à percepção do ser, do transcendente e do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade
operada pelos Padres. Acolheram a razão na sua plena abertura ao absoluto e,
nela, enxertaram a riqueza vinda da Revelação. O encontro não foi apenas
questão de culturas, uma das quais talvez seduzida pelo fascínio da outra; mas
verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro entre a criatura e o seu
Criador. Ultrapassando o fim mesmo para o qual inconscientemente tendia por
força da sua natureza, a razão pôde alcançar o sumo bem e a suma verdade na
pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem as filosofias, os Padres não tiveram
medo de reconhecer tanto os elementos comuns como as diferenças que aquelas
apresentavam relativamente à Revelação. A percepção das convergências não ofuscava
neles o reconhecimento das diferenças.
42. Na teologia escolástica, o papel
da razão educada filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da
interpretação anselmiana do intelectus fidei.
Segundo o santo Arcebispo de Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência
à investigação própria da razão. De facto, esta não é chamada a exprimir um
juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idónea. A sua
tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos
permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo
sublinha o facto de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama:
quanto mais ama, mais deseja conhecer. Quem vive para a verdade, tende para uma
forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior por aquilo que
conhece, embora admita que ainda não fizera tudo aquilo que estaria no seu
desejo: « Ad te videndum factus sum; et
nondum feci propter quod factus sum ». (42) Assim, o desejo da
verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida
pela constatação de que a sua capacidade é sempre maior do que aquilo que
alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está o termo do
seu caminho: « Penso efectivamente que, quem investiga uma coisa
incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a
máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela
inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há de tão incompreensível e
inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja
essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões
necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir
traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da
sua certeza. Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira
racional que é incompreensível (rationabiliter
comprehendit incomprehensibile esse) o modo como a sabedoria suprema
sabe aquilo que fez (...) , quem explicará como ela mesma se conhece e exprime,
dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode saber? ». (43)
Confirma-se assim, uma vez mais, a
harmonia fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a
fé requer que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez
a razão, no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé
apresenta.
2. A novidade perene do pensamento de S. Tomás de Aquino
43. Neste longo caminho, ocupa um
lugar absolutamente especial S. Tomás, não só pelo conteúdo da sua doutrina,
mas também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do
seu tempo. Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os
tesouros da filosofia antiga, e mais directamente da filosofia aristotélica,
ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe
entre a razão e a fé. A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus:
argumentava ele; por isso, não se podem contradizer entre si. (44)
Indo mais longe, S. Tomás reconhece
que a natureza, objecto próprio da filosofia, pode contribuir para a
compreensão da revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas
solicita-a e confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição,
(45) assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé,
fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência do pecado,
e recebe a força necessária para elevar-se até ao conhecimento do mistério de
Deus Uno e Trino. Embora sublinhando o carácter sobrenatural da fé, o Doutor
Angélico não esqueceu o valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu
penetrar profundamente e especificar o sentido de tal racionabilidade.
Efectivamente, a fé é de algum modo « exercitação do pensamento »; a razão do
homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento aos conteúdos de
fé; é que estes são alcançados por decisão livre e consciente. (46)
Precisamente por este motivo é que
S. Tomás foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo
quanto ao recto modo de fazer teologia. Neste contexto, apraz-me recordar o que
escreveu o meu Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, por ocasião do sétimo
centenário da morte do Doutor Angélico: « Sem dúvida, S. Tomás possuiu, no
máximo grau, a coragem da verdade, a liberdade de espírito quando enfrentava os
novos problemas, a honestidade intelectual de quem não admite a contaminação do
cristianismo pela filosofia profana, mas tão pouco defende a rejeição
apriorística desta. Por isso, passou à história do pensamento cristão como um
pioneiro no novo caminho da filosofia e da cultura universal. O ponto central e
como que a essência da solução que ele deu ao problema novamente posto da
contraposição entre razão e fé, com a genialidade do seu intuito profético, foi
o da conciliação entre a secularidade do mundo e a radicalidade do Evangelho,
evitando, por um lado, aquela tendência anti-natural que nega o mundo e seus
valores, mas, por outro, sem faltar às exigências supremas e inabaláveis da
ordem sobrenatural ». (47)
44. Entre as grandes intuições de S.
Tomás, conta-se a de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer,
como sapiência, a ciência humana. Desde as primeiras páginas da Summa
theologiæ, (48) o Aquinate quis mostrar o primado daquela sapiência que é dom
do Espírito Santo e que introduz no conhecimento das realidades divinas. A sua
teologia permite compreender a peculiaridade da sapiência na sua ligação íntima
com a fé e o conhecimento de Deus: conhece por conaturalidade, pressupõe a fé e
chega a formular rectamente o seu juízo a partir da verdade da própria fé: « A
sapiência elencada entre os dons do Espírito Santo é distinta da mencionada
entre as virtudes intelectuais. De facto, esta segunda adquire-se pelo estudo;
aquela, pelo contrário, "provém do alto", como diz S. Tiago. Mas é
também distinta da fé, porque esta aceita a verdade divina tal como é, enquanto
é próprio do dom da sapiência julgar segundo a verdade divina ». (49)
Mas, ao reconhecer a prioridade
desta sapiência, o Doutor Angélico não esquece a existência de mais duas formas
complementares de sabedoria: a filosófica,
que se baseia sobre a capacidade que tem o intelecto, dentro dos próprios
limites naturais, de investigar a realidade; e a sabedoria teológica, que se fundamenta na Revelação
e examina os conteúdos da fé, alcançando o próprio mistério de Deus.
Intimamente convencido de que « omne verum a quocumque dicatur a Spiritu Sancto est
», (50) S. Tomás amou desinteressadamente a verdade. Procurou-a por todo o lado
onde pudesse manifestar-se, colocando em relevo a sua universalidade. Nele, o
Magistério da Igreja viu e apreciou a paixão pela verdade; o seu pensamento,
precisamente porque se mantém sempre no horizonte da verdade universal,
objectiva e transcendente, atingiu « alturas que a inteligência humana jamais
poderia ter pensado ».(51) É, pois, com razão que S. Tomás pode ser definido «
apóstolo da verdade ».(52) Porque se consagrou sem reservas à verdade, no seu
realismo soube reconhecer a sua objectividade. A sua filosofia é
verdadeiramente uma filosofia do ser, e não do simples aparecer.
3. O drama da separação da fé e da razão
45. Quando surgiram as primeiras
universidades, a teologia começou a relacionar-se mais directamente com outras
formas da pesquisa e do saber científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás,
embora admitindo uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia, foram os
primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam
para se debruçar eficazmente sobre os respectivos campos de investigação.
Todavia, a partir da baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois
conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação. Devido ao
espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores, radicalizaram-se as
posições, chegando-se, de facto, a uma filosofia separada e absolutamente
autónoma dos conteúdos da fé. Entre as várias consequências de tal separação,
sobressai a difidência cada vez mais forte contra a própria razão. Alguns
começaram a professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para
reservar mais espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência
racional à mesma.
Em resumo, tudo o que o pensamento
patrístico e medieval tinha concebido e actuado como uma unidade profunda,
geradora dum conhecimento capaz de chegar às formas mais altas da especulação,
foi realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa de um conhecimento
racional, separado e alternativo da fé.
46. As radicalizações mais
influentes são bem conhecidas e visíveis, sobretudo na história do Ocidente.
Não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se
desenvolveu num progressivo afastamento da revelação cristã até chegar
explicitamente à contraposição. No século passado, este movimento tocou o seu
apogeu. Alguns representantes do idealismo procuraram, de diversos modos,
transformar a fé e os seus conteúdos, inclusive o mistério da morte e
ressurreição de Jesus Cristo, em estruturas dialécticas racionalmente
compreensíveis. Mas a esta concepção, opuseram-se diversas formas de humanismo
ateu, elaboradas filosoficamente, que apontaram a fé como prejudicial e
alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão. Não tiveram medo de se
apresentar como novas religiões, dando base a projectos que desembocaram, no
plano político e social, em sistemas totalitários traumáticos para a
humanidade.
No âmbito da investigação
científica, foi-se impondo uma mentalidade positivista, que não apenas se
afastou de toda a referência à visão cristã do mundo, mas sobretudo deixou cair
qualquer alusão à visão metafísica e moral. Por causa disso, certos cientistas,
privados de qualquer referimento ético, correm o risco de não manterem, ao
centro do seu interesse, a pessoa e a globalidade da sua vida. Mais, alguns
deles, cientes das potencialidades contidas no progresso tecnológico, parecem
ceder à lógica do mercado e ainda à tentação dum poder demiúrgico sobre a
natureza e o próprio ser humano.
Como consequência da crise do
racionalismo, apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer
um certo fascínio sobre os nossos contemporâneos. Os seus seguidores defendem a
pesquisa como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de
alcançar a meta da verdade. Na interpretação niilista, a existência é somente
uma oportunidade para sensações e experiências onde o efémero detém o primado.
O niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve
assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.
47. Por outro lado, é preciso não
esquecer que, na cultura moderna, foi alterada a própria função da filosofia.
De sabedoria e saber universal que era, foi-se progressivamente reduzindo a uma
das muitas áreas do saber humano; mais, sob alguns dos seus aspectos, ficou
reduzida a um papel completamente marginal. Entretanto, foram-se consolidando
sempre mais outras formas de racionalidade, pondo assim em evidência o carácter
marginal do saber filosófico. Em vez de apontarem para a contemplação da
verdade e a busca do fim último e do sentido da vida, essas formas de
racionalidade são orientadas, ou pelo menos orientáveis, como « razão
instrumental » ao serviço de fins utilitaristas, de prazer ou de poder.
Quanto seja perigoso absolutizar
esta estrada, fi-lo notar já na minha primeira carta encíclica, ao escrever: «
O homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz, ou
seja, pelo resultado do trabalho das suas mãos e, ainda mais, pelo resultado do
trabalho da sua inteligência e das tendências da sua vontade. Os frutos desta
multiforme actividade do homem, com grande rapidez e de modo muitas vezes
imprevisível, passam a ser não tanto objecto de "alienação", no
sentido de que são simplesmente tirados àqueles que os produzem, como sobretudo,
pelo menos parcialmente, num círculo consequente e indirecto dos seus efeitos,
tais frutos voltam-se contra o próprio homem. Eles são de facto dirigidos, ou
podem sê-lo, contra o homem. Nisto parece consistir o acto principal do drama
da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais ampla e universal.
Assim, o homem vive mergulhado cada vez mais no medo. Teme que os seus
produtos, naturalmente não todos nem a maior parte, mas alguns e precisamente
aqueles que encerram uma especial porção da sua genialidade e da sua
iniciativa, possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo ». (53)
Na sequência destas transformações
culturais, alguns filósofos, abandonando a busca da verdade por si mesma,
assumiram como único objectivo a obtenção da certeza subjectiva ou da utilidade
prática. Em consequência, deu-se o obscurecimento da verdadeira dignidade da
razão, impossibilitada de conhecer a verdade e de procurar o absoluto.
48. Assim, o dado saliente desta
última parte da história da filosofia é a constatação duma progressiva
separação entre a fé e a razão filosófica. É verdade que, observando bem, mesmo
na reflexão filosófica daqueles que contribuíram para ampliar a distância entre
fé e razão, se manifestam às vezes gérmenes preciosos de pensamento que, se
aprofundados e desenvolvidos com mente e coração recto, podem fazer descobrir o
caminho da verdade. Estes gérmenes de pensamento podem-se encontrar, por
exemplo, nas profundas análises sobre a percepção e a experiência, a imaginação
e o inconsciente, sobre a personalidade e a intersubjectividade, a liberdade e
os valores, o tempo e a história. Inclusive o tema da morte pode tornar-se,
para todo o pensador, um severo apelo a procurar dentro de si mesmo o sentido
autêntico da própria existência. Todavia isto não pode fazer esquecer a
necessidade que a actual relação entre fé e razão tem de um cuidadoso esforço
de discernimento, porque tanto a razão como a fé ficaram reciprocamente mais
pobres e débeis. A razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais
com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em
maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser
uma proposta universal. É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão
débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de
ser reduzida a um mito ou superstição. Da mesma maneira, uma razão que não
tenha pela frente uma fé adulta não é estimulada a fixar o olhar sobre a
novidade e radicalidade do ser.
À luz disto, creio justificado o meu
apelo veemente e incisivo para que a fé e a filosofia recuperem aquela unidade
profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no
respeito da recíproca autonomia. Ao desassombro (parresia) da fé deve corresponder a audácia da razão.
CAPÍTULO V
INTERVENÇÕES DO
MAGISTÉRIO
EM MATÉRIA
FILOSÓFICA
1. O discernimento do Magistério como diaconia da
verdade
49. A Igreja não propõe uma
filosofia própria, nem canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de
outras. (54) A razão profunda desta reserva está no facto de que a filosofia,
mesmo quando entra em relação com a teologia, deve proceder segundo os seus
métodos e regras; caso contrário, não haveria garantia de permanecer orientada
para a verdade, tendendo para a mesma através dum processo racionalmente
controlável. Pouca ajuda daria uma filosofia que não agisse à luz da razão,
segundo princípios próprios e específicas metodologias. Fundamentalmente, a
raiz da autonomia de que goza a filosofia, há que individuá-la no facto de a
razão estar orientada, por sua natureza, para a verdade e dotada em si mesma
dos meios necessários para a alcançar. Uma filosofia, ciente deste seu «
estatuto constitutivo », não pode deixar de respeitar as exigências e
evidências próprias da verdade revelada.
E, todavia, vimos, na história, os
extravios e erros em que várias vezes incorreu o pensamento filosófico,
sobretudo moderno. Não é função nem competência do Magistério intervir para
colmar as lacunas dum discurso filosófico carente. Mas, já é sua obrigação
reagir, de forma clara e vigorosa, quando teses filosóficas discutíveis ameaçam
a recta compreensão do dado revelado e quando se difundem teorias falsas e
sectárias que semeiam erros graves, perturbando a simplicidade e a pureza da fé
do povo de Deus.
50. Por conseguinte, o Magistério
eclesiástico pode, e deve, exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento
crítico sobre filosofias e afirmações que contradigam a doutrina cristã. (55)
Ao Magistério compete, antes de mais, indicar os pressupostos e as conclusões
filosóficas que são incompatíveis com a verdade revelada, formulando assim as
exigências que, do ponto de vista da fé, se impõem à filosofia. Além disso, no
desenvolvimento do saber filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento;
ora, este pluralismo impõe ao Magistério a responsabilidade de exprimir o seu
juízo sobre a compatibilidade ou incompatibilidade das concepções de base,
defendidas por essas escolas, com as exigências próprias da palavra de Deus e
da reflexão teológica.
A Igreja tem o dever de indicar
aquilo que pode existir, num sistema filosófico, de incompatível com a sua fé.
Na verdade, muitos conteúdos filosóficos — relativos, por exemplo, a Deus, ao
homem, à sua liberdade e ao seu comportamento ético —, têm a ver directamente
com a Igreja, porque tocam na verdade revelada que ela guarda. Quando nós,
Bispos, realizamos o referido discernimento, temos a obrigação de ser «
testemunhas da verdade », no cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que
todo o filósofo devia prezar, em benefício da recta ratio, ou seja, da razão
que reflecte correctamente sobre a verdade.
51. Em todo o caso, tal
discernimento não deve ser visto primariamente de forma negativa, como se a
intenção do Magistério fosse eliminar ou reduzir qualquer possibilidade de
mediação; ao contrário, as suas intervenções visam em primeiro lugar suscitar,
promover e encorajar o pensamento filosófico. Os filósofos são, aliás, os
primeiros a compreender a exigência de autocrítica, de correcção de eventuais
erros, e a necessidade de ultrapassar os limites demasiado estreitos em que a
sua reflexão foi concebida. De modo particular, deve-se considerar que a
verdade é uma só, embora as suas expressões acusem os vestígios da história e
sejam, além disso, obra duma razão humana ferida e enfraquecida pelo pecado.
Daqui se conclui que nenhuma forma histórica da filosofia pode, legitimamente,
ter a pretensão de abraçar a totalidade da verdade ou de possuir a explicação
cabal do ser humano, do mundo e da relação do homem com Deus.
E hoje, com esta multiplicação de
sistemas, métodos, conceitos e argumentos filosóficos, muitas vezes
extremamente fragmentários, impõe-se ainda com maior urgência um discernimento
crítico à luz da fé. Este discernimento não é fácil, porque, se já é custoso
reconhecer as capacidades naturais e inalienáveis da razão com as suas
limitações constitutivas e históricas, mais problemático ainda se pode tornar
às vezes o discernimento de cada uma das propostas filosóficas para verificar,
do ponto de vista da fé, o que apresentam de válido e fecundo e o que existe
nelas de errado ou perigoso. De qualquer modo, a Igreja sabe que os « tesouros
da sabedoria e da ciência » estão escondidos em Cristo (Col 2, 3); por isso, ela intervém,
estimulando a reflexão filosófica, para que não se obstrua a estrada que leva
ao conhecimento do mistério.
52. Não foi só recentemente que o
Magistério da Igreja interveio para manifestar o seu pensamento a respeito de
determinadas doutrinas filosóficas. A título de exemplo, basta recordar, no
decurso dos séculos, as tomadas de posição acerca das teorias que defendiam a
preexistência das almas, (56) e ainda sobre as diversas formas de idolatria e
esoterismo supersticioso, contidas em teses astrológicas; (57) sem esquecer os
textos mais sistemáticos contra algumas teses do averroísmo latino,
incompatíveis com a fé cristã. (58)
Se a palavra do Magistério se fez
ouvir mais frequentemente a partir da segunda metade do século passado, foi
porque, naquele período, numerosos católicos sentiram o dever de contrapor uma
filosofia própria às várias correntes do pensamento moderno. Daqui resultou,
para o Magistério da Igreja, a obrigação de vigiar a fim de que tais filosofias
não degenerassem, por sua vez, em formas erróneas e negativas. Acabaram assim
censurados os dois extremos: dum lado, o fideísmo
(59) e o tradicionalismo radical,(60)
pela sua falta de confiança nas capacidades naturais da razão; e, do outro, o racionalismo (61) e o ontologismo, (62) porque atribuíam à razão
natural aquilo que apenas se pode conhecer pela luz da fé. Os conteúdos
positivos deste debate foram formalizados na constituição dogmática Dei Filius, por meio da qual um concílio
ecuménico — o Vaticano I — intervinha, pela primeira vez e de forma solene,
sobre as relações entre razão e fé. A doutrina contida neste texto marcou,
intensa e positivamente, a investigação filosófica de muitos crentes e
constitui ainda hoje um ponto normativo de referência para uma correcta e
coerente reflexão cristã neste âmbito particular.
53. Mais do que teses filosóficas
isoladas, as tomadas de posição do Magistério ocuparam-se da necessidade do
conhecimento racional — e por conseguinte, em última análise, do conhecimento
filosófico — para a compreensão da fé. O Concílio Vaticano I, sintetizando e
confirmando solenemente os ensinamentos que o Magistério pontifício tinha
proposto aos fiéis de maneira ordinária e constante, pôs em evidência como são
inseparáveis e ao mesmo tempo irredutíveis entre si o conhecimento natural de
Deus e a Revelação, a razão e a fé. O Concílio partia da exigência fundamental
— pressuposta também pela Revelação — da cognoscibilidade natural da existência
de Deus, princípio e fim de todas as coisas, (63) para concluir com a solene
afirmação já citada: « Existem duas ordens de conhecimento, distintas não
apenas pelo seu princípio, mas também pelo seu objecto ». (64) É que era
preciso afirmar, contra qualquer forma de racionalismo, a distinção entre os
mistérios da fé e as conclusões filosóficas, e ainda a transcendência e
precedência daqueles sobre estas; por outro lado, contra as tentações
fideístas, tornava-se necessário corroborar a unidade da verdade e também o
contributo positivo que o conhecimento racional pode, e deve, dar para o
conhecimento da fé: « Mas, embora a fé esteja acima da razão, não poderá
existir nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão, porque o mesmo Deus
que revela os mistérios e comunica a fé, foi quem colocou também, no espírito
humano, a luz da razão. E Deus não poderia negar-Se a Si mesmo, pondo a verdade
em contradição com a verdade ».(65)
54. Neste século, o Magistério
voltou várias vezes ao mesmo assunto, alertando contra a tentação racionalista.
É neste horizonte que se devem colocar as intervenções do Papa S. Pio X, pondo
em relevo como, na base do modernismo, havia posições filosóficas de linha
fenomenista, agnóstica e imanentista.(66) E não se pode esquecer a importância
que teve a rejeição católica da filosofia marxista e do comunismo ateu.(67)
Sucessivamente, o Papa Pio XII fez
ouvir a sua voz quando, na carta encíclica Humani
generis, preveniu contra interpretações erróneas que andavam ligadas
com as teses do evolucionismo, do existencialismo e do historicismo. Explicava
ele que estas teses não foram elaboradas nem eram propostas por teólogos, mas
tinham a sua origem « fora do redil de Cristo »; (68) acrescentava, porém, que
tais extravios não deviam ser liminarmente rejeitados, mas examinados
criticamente: « Ora, estas tendências, que se afastam em medida desigual da
recta via, não podem ser ignoradas ou transcuradas pelos filósofos e teólogos
católicos, que têm o grave dever de defender a verdade divina e humana, e de
fazê-la penetrar na mente dos homens. Pelo contrário, devem conhecer bem estas
opiniões, quer porque as doenças não podem ser curadas, se primeiro não são bem
conhecidas, quer porque algumas vezes mesmo nas afirmações falsas se esconde um
pouco de verdade, quer finalmente porque os próprios erros forçam a nossa mente
a investigar e a perscrutar, com maior diligência, certas verdades filosóficas
e teológicas ».(69)
Por último, também a Congregação da
Doutrina da Fé, no cumprimento do seu múnus específico ao serviço do magistério
universal do Romano Pontífice, (70) teve de intervir para sublinhar o perigo
que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos da libertação, de
teses e metodologias provenientes do marxismo. (71)
Vemos assim que, no passado, o
Magistério exerceu reiteradamente e sob diversas modalidades o discernimento em
matéria filosófica. Aquilo que os meus Venerados Predecessores enunciaram,
constitui um contributo precioso que não pode ser esquecido.
55. Se observarmos a situação
actual, constatamos que os problemas retornam, mas com peculiaridades novas. Já
não se trata de questões que interessam apenas a indivíduos ou grupos, mas de
convicções tão generalizadas no ambiente que se tornam, em certa medida,
mentalidade comum. Tal é, por exemplo, a desconfiança radical na razão, que
evidenciam as conclusões mais recentes de muitos estudos filosóficos. De várias
partes ouviu-se falar, a este respeito, de « fim da metafísica »: querem que a
filosofia se contente com tarefas mais modestas, tais como a mera interpretação
dos factos ou apenas a investigação sobre determinados campos do saber humano
ou das suas estruturas.
Também, na teologia, voltam a
assomar as tentações de outrora. Por exemplo, em algumas teologias
contemporâneas comparece novamente um certo racionalismo,
principalmente quando asserções, consideradas filosoficamente fundadas, são tomadas
como normativas para a investigação teológica. Isto sucede sobretudo quando o
teólogo, por falta de competência filosófica, se deixa condicionar de modo
acrítico por afirmações que já entraram na linguagem e cultura corrente, mas
carecem de suficiente base racional. (72)
Não faltam também perigosas recaídas
no fideísmo, que não reconhece a
importância do conhecimento racional e do discurso filosófico para a
compreensão da fé, melhor, para a própria possibilidade de acreditar em Deus.
Uma expressão, hoje generalizada, desta tendência fideísta é o « biblicismo »,
que tende a fazer da leitura da Sagrada Escritura, ou da sua exegese, o único
referencial da verdade. Assim, acaba-se por identificar a palavra de Deus só
com a Sagrada Escritura, anulando deste modo a doutrina da Igreja que o
Concílio Ecuménico Vaticano II expressamente reafirmou. Com efeito, a
constituição Dei Verbum, depois
de recordar que a palavra de Deus está presente tanto nos textos sagrados como
na Tradição, (73) afirma sem rodeios: « A Sagrada Tradição e a Sagrada
Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à
Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus Pastores na
doutrina dos Apóstolos ».(74) Portanto, a Sagrada Escritura não constitui, para
a Igreja, a sua única referência; a « regra suprema da sua fé » (75) provém
efectivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a
Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três
não podem subsistir de maneira independente.(76)
Além disso, não se deve subestimar o
perigo que existe quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura com
a aplicação de uma única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese
mais ampla que permita o acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno
dos textos. Os que se dedicam ao estudo da Sagrada Escritura nunca devem
esquecer que as diversas metodologias hermenêuticas têm também na sua base uma
concepção filosófica: é preciso examiná-las com grande discernimento, antes de
as aplicar aos textos sagrados.
Outras formas de fideísmo latente
podem-se identificar na pouca consideração que é reservada à teologia
especulativa, e ainda no desprezo pela filosofia clássica, de cujas noções
provieram os termos para exprimir tanto a compreensão da fé como as próprias
formulações dogmáticas. O Papa Pio XII, de veneranda memória, alertou contra
este esquecimento da tradição filosófica e abandono das terminologias
tradicionais. (77)
56. Constata-se, enfim, uma generalizada
desconfiança relativamente a asserções globais e absolutas sobretudo da parte
de quem pensa que a verdade resulte do consenso, e não da conformidade do
intelecto com a realidade objectiva. Compreende-se que, num mundo subdividido
em tantos campos de especializações, se torne difícil reconhecer aquele sentido
total e último da vida que tradicionalmente a filosofia procurava. Mas nem por
isso posso, à luz da fé que reconhece em Jesus Cristo tal sentido último,
deixar de encorajar os filósofos, cristãos ou não, a terem confiança nas
capacidades da razão humana e a não prefixarem metas demasiado modestas à sua
investigação filosófica. A lição da história deste milénio, quase a terminar,
testemunha que a estrada a seguir é esta: não perder a paixão pela verdade
última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia de descobrir novos
percursos. É a fé que incita a razão a sair de qualquer isolamento e a abraçar
de bom grado qualquer risco por tudo o que é belo, bom e verdadeiro. Deste
modo, a fé torna-se advogada convicta e convincente da razão.
2. Solicitude da Igreja pela filosofia
57. O Magistério, porém, não se
limitou a pôr em destaque os erros e desvios das doutrinas filosóficas. Mas,
com igual cuidado, quis confirmar os princípios fundamentais para uma genuína
renovação do pensamento filosófico, indicando mesmo percursos concretos a
seguir. Nesta linha, o Papa Leão XIII, com a carta encíclica Æterni Patris, realizou um passo de
alcance verdadeiramente histórico na vida da Igreja. Efectivamente aquela constitui,
até ao dia de hoje, o único documento pontifício dedicado, a esse nível,
inteiramente à filosofia. O grande Pontífice retomou e desenvolveu a doutrina
do Concílio Vaticano I sobre a relação entre fé e razão, mostrando como o
pensamento filosófico é um contributo fundamental para a fé e para a ciência
teológica. (78) Passado mais de um século, muitas indicações, lá contidas, nada
perderam do seu interesse tanto do ponto de vista prático como pedagógico; a
primeira de todas é a que diz respeito ao valor incomparável da filosofia de S.
Tomás. A reposição do pensamento do Doutor Angélico era vista pelo Papa Leão
XIII como a melhor estrada para se recuperar um uso da filosofia conforme às
exigências da fé. S. Tomás, escrevia ele, « ao mesmo tempo que, como é devido,
distingue perfeitamente a fé da razão, une-as a ambas com laços de amizade
recíproca: conserva os direitos próprios de cada uma e salvaguarda a sua
dignidade ».(79)
58. São conhecidas as felizes
consequências que teve este convite pontifício. Os estudos sobre o pensamento
de S. Tomás e doutros autores escolásticos receberam novo incentivo. Foi dado
um forte impulso aos estudos históricos, de que resultou uma nova descoberta
das riquezas do pensamento medieval, até então amplamente desconhecidas, e
constituíram-se novas escolas tomistas. Com a aplicação da metodologia
histórica, fizeram-se grandes progressos no conhecimento da obra de S. Tomás, e
muitos foram os estudiosos que corajosamente introduziram a tradição tomista
nas discussões dos problemas filosóficos e teológicos daquele tempo. Os
teólogos católicos mais influentes deste século, a cuja reflexão e pesquisa
muito deve o Concílio Vaticano II, são filhos de tal renovação da filosofia
tomista. E assim a Igreja pôde, no decurso do século XX, dispor dum vigoroso
grupo de pensadores, formados na escola do Doutor Angélico.
59. Contudo, a renovação tomista e
neotomista não foi o único sinal de retoma do pensamento filosófico na cultura
de inspiração cristã. Já antes, e contemporâneamente ao convite do Papa Leão
XIII, tinham surgido vários filósofos católicos que, valendo-se de correntes de
pensamento mais recentes e com uma metodologia própria, geraram obras
filosóficas de grande influência e valor duradouro. Houve quem tivesse
organizado sínteses de nível tão alto que nada tinham a invejar aos grandes
sistemas do idealismo, e quem pusesse as bases epistemológicas para uma nova
exposição da fé, à luz de uma renovada compreensão da consciência moral; houve
quem tivesse elaborado uma filosofia que, partindo da análise da imanência,
abria o caminho para o transcendente, e quem tentasse traduzir as exigências da
fé no horizonte da metodologia fenomenológica. Em suma, partindo de diversas
perspectivas, continuou-se a elaborar formas de reflexão filosófica, que
visavam manter viva a grande tradição do pensamento cristão na unidade de fé e
razão.
60. O Concílio Ecuménico Vaticano
II, por sua vez, apresenta uma doutrina muito rica e fecunda a propósito da
filosofia. Não posso esquecer, sobretudo no contexto desta carta encíclica, que
um capítulo inteiro da constituição Gaudium
et spes constitui uma espécie de compêndio de antropologia bíblica,
fonte de inspiração também para a filosofia. Naquelas páginas, trata-se do
valor da pessoa humana criada à imagem de Deus, indicam-se os motivos da sua
dignidade e superioridade relativamente ao resto da criação, e mostra-se a
capacidade transcendente da sua razão. (80) Na referida Constituição conciliar,
considera-se também o problema do ateísmo e denunciam-se, juntamente com suas
causas, os erros desta visão filosófica, sobretudo no que diz respeito à
dignidade inalienável da pessoa e da sua liberdade. (81) E um profundo
significado filosófico reveste também o ponto culminante daquelas páginas, que
transcrevia já na minha primeira carta encíclica, a Redemptor hominis, e mantive como um dos pontos de
referência constante no meu magistério: « Na realidade, o mistério do homem só
no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro
homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo,
novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o
homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime ». (82)
O Concílio ocupou-se também do
estudo da filosofia, ao qual se devem dedicar os candidatos ao sacerdócio; são
recomendações que se podem generalizar a todo o ensino cristão. Afirma-se num
dos documentos conciliares: « As disciplinas filosóficas sejam ensinadas de
forma que os alunos possam adquirir, antes de mais, um conhecimento sólido e
coerente do homem, do mundo e de Deus, apoiados num património filosófico
perenemente válido, tendo em conta as investigações filosóficas dos tempos
actuais »(83)
Estas directrizes foram depois
retomadas e especificadas noutros documentos do Magistério, com o intuito de
garantir uma sólida formação filosófica sobretudo àqueles que se preparam para
os estudos teológicos. Também eu sublinhei, em várias ocasiões, a importância
desta formação filosófica para todos os que, um dia, terão de enfrentar, na
vida pastoral, as questões do mundo actual e individuar as causas de
determinados comportamentos, a fim de lhes dar pronta resposta. (84)
61. Se foi necessário intervir, em
diversas circunstâncias, sobre este tema, reiterando o valor das intuições do
Doutor Angélico e insistindo a favor da aquisição do seu pensamento, isso ficou
a dever-se também ao facto de não terem sido sempre observadas as directrizes
do Magistério, com a solicitude desejada. De facto, nos anos posteriores ao
Concílio Vaticano II, pôde observar-se, em muitas escolas católicas, um certo
declínio nesta matéria, devido à menor estima sentida não apenas pela filosofia
escolástica, mas pelo estudo da filosofia em geral. Com surpresa e mágoa, tenho
de constatar que vários teólogos compartilham este desinteresse pelo estudo da
filosofia.
Na base desta indiferença, há
diversas razões. Em primeiro lugar, aquela falta de confiança na razão que se
manifesta em grande parte da filosofia contemporânea, abandonando em larga
escala a investigação metafísica das questões últimas do homem para concentrar
a sua atenção sobre problemas particulares e regionais, às vezes puramente
formais. Depois, há que acrescentar o equívoco que se gerou sobretudo a
respeito das « ciências humanas ». O Concílio Vaticano II afirmou, várias
vezes, o valor positivo da pesquisa científica para um conhecimento mais
profundo do mistério do homem. (85) Mas, o convite dirigido aos teólogos para
conhecerem estas ciências e, se vier a propósito, aplicá-las correctamente nos
seus estudos, não deve ser interpretado como uma implícita autorização para
marginalizar a filosofia, pondo-a de parte na formação pastoral e na præparatio fidei. E, finalmente, não se
pode esquecer o interesse novamente sentido pela inculturação da fé. Em
particular, a vida das jovens Igrejas permitiu descobrir, ao lado de formas
elevadas de pensamento, a presença de múltiplas expressões de sabedoria
popular. Isto constitui um autêntico património de cultura e de tradições.
Todavia, o estudo dos costumes tradicionais deve ser acompanhado
simultaneamente pela pesquisa filosófica. Será esta que possibilitará fazer
sobressair os traços positivos da sabedoria popular, criando a necessária
ligação com o anúncio do Evangelho.(86)
62. Desejo insistir novamente que o
estudo da filosofia reveste um carácter fundamental e indispensável na
estrutura dos estudos teológicos e na formação dos candidatos ao sacerdócio.
Não é por acaso que o currículo dos estudos teológicos é antecedido por um
período de tempo especialmente consagrado ao estudo da filosofia. Esta decisão,
confirmada pelo Concílio Ecuménico Lateranense V, (87) tem as suas raízes na
experiência maturada durante a Idade Média, quando foi posta em relevo a
importância de uma harmonia construtiva entre o saber filosófico e o teológico.
Esta organização dos estudos influenciou, facilitou e promoveu, embora de forma
indirecta, uma boa parte do progresso da filosofia moderna. Temos um exemplo
significativo na influência exercida pelas Disputationes
metaphysicæ de Francisco Suárez, que eram seguidas até mesmo nas
universidades luteranas da Alemanha. Pelo contrário, o abandono desta
metodologia foi causa de graves carências, tanto na formação sacerdotal como na
investigação teológica. Basta considerar, por exemplo, como a sua negligência
no âmbito do pensamento e da cultura moderna levou ao encerramento de toda a
forma de diálogo ou à recepção indiscriminada de qualquer filosofia.
Nutro profunda esperança de que
estas dificuldades serão superadas mercê de uma sábia formação filosófica e
teológica, que nunca deve faltar na Igreja.
63. Em virtude das razões aduzidas,
senti a urgência de confirmar, por meio desta carta encíclica, o grande
interesse que a Igreja tem pela filosofia; ou melhor, a ligação íntima do trabalho
teológico com a investigação filosófica da verdade. Daqui nasce o dever que o
Magistério tem de discernir e estimular um pensamento filosófico que não esteja
em dissonância com a fé. A minha missão é propor alguns princípios e pontos de
referência, que considero necessários para se poder instaurar uma relação
harmoniosa e eficaz entre a teologia e a filosofia. À luz deles, será possível
discernir com maior clareza se e como deve a teologia relacionar-se com os
diversos sistemas ou asserções filosóficas que o mundo actual apresenta.
CAPÍTULO VI
INTERACÇÃO DA
TEOLOGIA
COM A FILOSOFIA
1. A ciência da fé e as exigências da razão filosófica
64. A palavra de Deus destina-se a
todo o homem, de qualquer época e lugar da terra; e o homem, por natureza, é
filósofo. Por sua vez, a teologia, enquanto elaboração reflexiva e científica
da compreensão da palavra divina à luz da fé, não pode deixar de recorrer às
filosofias que vão surgindo ao longo da história, tanto para algumas das suas
formas de proceder como para realizar funções mais específicas. Sem pretender
indicar aos teólogos metodologias particulares — porque tal não compete ao
Magistério —, desejo, porém, lembrar algumas funções próprias da teologia,
onde, por causa da própria natureza da Palavra revelada, se exige o recurso ao
pensamento filosófico.
65. A teologia está organizada,
enquanto ciência da fé, à luz dum duplo princípio metodológico: auditus fidei e
intellectus fidei. Com o
primeiro, recolhe os conteúdos da Revelação tal como se foram explicitando
progressivamente na Sagrada Tradição, na Sagrada Escritura e no Magistério vivo
da Igreja. (88) Pelo segundo, a teologia quer responder às exigências próprias
do pensamento, através da reflexão especulativa.
Quanto à preparação para um correcto
auditus fidei, a filosofia
proporciona à teologia a sua ajuda peculiar, quando examina a estrutura do
conhecimento e da comunicação pessoal, e sobretudo as várias formas e funções
da linguagem. Igualmente importante é a contribuição da filosofia para uma
compreensão mais coerente da Tradição eclesial, das intervenções do Magistério
e das sentenças dos grandes mestres da teologia: estes, de facto, exprimem-se
frequentemente por conceitos e formas de pensamento conotados com determinada
tradição filosófica. Neste caso, pede-se ao teólogo não só que exponha
conceitos e termos através dos quais a Igreja possa reflectir e elaborar a sua
doutrina, mas que conheça profundamente também os sistemas filosóficos que
tenham, porventura, influenciado as noções e a terminologia, a fim de se chegar
a interpretações correctas e coerentes.
66. Relativamente ao intellectus fidei, importa considerar,
antes de mais, que a Verdade divina, « que nos é proposta nas Sagradas
Escrituras, interpretadas correctamente pela doutrina da Igreja », (89) goza de
uma inteligibilidade própria, logicamente tão coerente que se deve propor como
um autêntico saber. O intellectus fidei explicita
esta verdade, não só quando investiga as estruturas lógicas e conceptuais das
proposições em que se articula a doutrina da Igreja, mas também e sobretudo
quando põe em realce o significado salvífico de tais proposições para o
indivíduo e para a humanidade. É pelo conjunto destas proposições que o crente
chega a conhecer a história da salvação, que culmina na pessoa de Jesus Cristo
e no seu mistério pascal; ele participa deste mistério, com a sua adesão de fé.
A teologia
dogmática deve ser capaz de articular o sentido universal do
mistério de Deus, Uno e Trino, e da economia da salvação, quer de modo
narrativo, quer sobretudo de forma argumentativa. Por outras palavras, deve
fazê-lo mediante expressões conceptuais, formuladas de modo crítico e
universalmente acessível. De facto, sem o contributo da filosofia não seria
possível ilustrar certos conteúdos teológicos como, por exemplo, a linguagem
sobre Deus, as relações pessoais no seio da Santíssima Trindade, a acção
criadora de Deus no mundo, a relação entre Deus e o homem, a identidade de
Cristo que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. E o mesmo se diga de diversos
temas da teologia moral, onde é preciso recorrer, de imediato, a conceitos como
lei moral, consciência, liberdade, responsabilidade pessoal, culpa, etc., cuja
definição provém da ética filosófica.
Por isso, é necessário que a razão
do crente tenha um conhecimento natural, verdadeiro e coerente das coisas
criadas, do mundo e do homem, que são também objecto da revelação divina; mais
ainda, ela deve ser capaz de articular este conhecimento de maneira conceptual
e argumentativa. Assim, a teologia dogmática especulativa pressupõe e implica
uma filosofia do homem, do mundo e, mais radicalmente, do próprio ser, fundada
sobre a verdade objectiva.
67. A teologia fundamental, pelo seu próprio carácter de
disciplina que tem por função dar razão da fé (cf. 1 Ped 3, 15), deverá procurar justificar e explicitar a
relação entre a fé e a reflexão filosófica. Já o Concílio Vaticano I,
reafirmando o ensinamento paulino (cf. Rom 1,
19-20), chamara a atenção para o facto de existirem verdades que se podem
conhecer de modo natural e, consequentemente, filosófico. O seu conhecimento
constitui um pressuposto necessário para acolher a revelação de Deus. Quando a
teologia fundamental estuda a Revelação e a sua credibilidade com o relativo
acto de fé, deverá mostrar como emergem, à luz do conhecimento pela fé, algumas
verdades que a razão, autonomamente, já encontra ao longo do seu caminho de
pesquisa. A essas verdades, a Revelação confere-lhes plenitude de sentido,
orientando-as para a riqueza do mistério revelado, onde encontram o seu fim último.
Basta pensar, por exemplo, ao conhecimento natural de Deus, à possibilidade de
distinguir a revelação divina de outros fenómenos, ou ao conhecimento da sua
credibilidade, à capacidade que tem a linguagem humana de falar, de modo
significativo e verdadeiro, mesmo do que ultrapassa a experiência humana. Por
todas estas verdades, a mente é levada a reconhecer a existência duma via
realmente propedêutica à fé, que pode desembocar no acolhimento da Revelação,
sem faltar minimamente aos seus próprios princípios e autonomia. (90)
Da mesma forma, a teologia
fundamental deverá manifestar a compatibilidade intrínseca entre a fé e a sua
exigência essencial de se explicitar através de uma razão capaz de dar com
plena liberdade o seu consentimento. Assim, a fé saberá « mostrar plenamente o
caminho a uma razão em busca sincera da verdade. Deste modo a fé, dom de Deus,
apesar de não se basear na razão, decerto não pode existir sem ela; ao mesmo
tempo, surge a necessidade de que a razão se fortifique na fé, para descobrir
os horizontes aos quais, sozinha, não poderia chegar ». (91)
68. A teologia moral tem, possivelmente, uma necessidade ainda
maior do contributo filosófico. Na Nova Aliança, a vida humana está
efectivamente muito menos regulada por prescrições do que na Antiga. A vida no
Espírito conduz os crentes a uma liberdade e responsabilidade que ultrapassam a
própria Lei. No entanto, o Evangelho e os escritos apostólicos não deixam de
propor ora princípios gerais de conduta cristã, ora ensinamentos e preceitos específicos;
para aplicá-los às circunstâncias concretas da vida individual e social, o
cristão tem necessidade de valer-se plenamente da sua consciência e da força do
seu raciocínio. Por outras palavras, a teologia moral deve recorrer a uma visão
filosófica correcta tanto da natureza humana e da sociedade, como dos
princípios gerais duma decisão ética.
69. Talvez se possa objectar que, na
situação actual, o teólogo, mais do que à filosofia, deveria recorrer à ajuda
de outras formas do saber humano, concretamente à história e sobretudo às
ciências, de que todos admiram os progressos extraordinários recentemente
alcançados. Outros, impelidos por uma maior sensibilidade à relação entre fé e
culturas, defendem que a teologia deveria dar preferência às sabedorias
tradicionais, em vez de uma filosofia de origem grega e eurocêntrica. Outros
ainda, partindo duma concepção errada do pluralismo de culturas, negam
simplesmente o valor universal do património filosófico abraçado pela Igreja.
Os aspectos sublinhados, já presentes
aliás na doutrina conciliar, (92) contêm uma parte de verdade. O referimento às
ciências, útil em muitos casos porque permite um conhecimento mais completo do
objecto de estudo, não deve, porém, fazer esquecer a necessidade que há da
mediação duma reflexão tipicamente filosófica, crítica e aberta ao universal,
solicitada também por um fecundo intercâmbio entre as culturas. A minha
preocupação é pôr em destaque o dever de não se ficar pelo caso isolado e
concreto, descuidando assim a tarefa primária que é manifestar o carácter
universal do conteúdo de fé. Além disso, não se deve esquecer que a peculiar
contribuição do pensamento filosófico permite discernir, tanto nas diversas
concepções da vida como nas culturas, « não o que os homens pensam, mas qual é
a verdade objectiva ». (93) Não as diversas opiniões humanas, mas somente a
verdade pode servir de ajuda à filosofia.
70. Além do mais, o tema da relação
com as culturas merece uma reflexão específica, apesar de necessariamente não
exaustiva, pelas implicações que daí derivam para as vertentes filosófica e
teológica. O processo de encontro e comparação com as culturas é uma
experiência que a Igreja viveu desde os começos da pregação do Evangelho. O
mandato de Cristo aos discípulos para irem, a toda a parte « até aos confins do
mundo » (Act 1, 8), transmitir a
verdade revelada por Ele, fez com que a comunidade cristã pudesse bem cedo
dar-se conta da universalidade do anúncio e dos obstáculos resultantes da
diversidade das culturas. Um trecho da carta de S. Paulo aos cristãos de Éfeso
oferece uma válida ajuda para compreender como a Comunidade Primitiva enfrentou
este problema. Escreve o Apóstolo: « Agora porém, vós, que outrora estáveis
longe, pelo Sangue de Cristo vos aproximastes. Ele é a nossa paz, Ele que de
dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava » (2,
13-14).
Iluminada por este texto, a nossa
reflexão pode debruçar-se sobre a transformação que se operou nos gentios
quando abraçaram a fé. As barreiras que separam as diversas culturas caem
diante da riqueza da salvação, realizada por Cristo. Agora, em Cristo, a
promessa de Deus torna-se uma oferta universal: não limitada já à dimensão
particular de um povo, da sua língua ou dos seus costumes, mas alargada a
todos, como um património ao qual cada um pode livremente ter acesso. Dos mais
diversos lugares e tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na
unidade da família dos filhos de Deus. Cristo faz com que dois povos se tornem
« um só ». Os que « estavam longe » ficaram « próximo », graças à novidade
gerada pelo mistério pascal. Jesus abate os muros de divisão e realiza a
unificação, de um modo original e supremo, por meio da participação no seu
mistério. Esta unidade é tão profunda que a Igreja pode dizer com S. Paulo: «
Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros
da família de Deus » (Ef 2, 19).
Nesta asserção tão simples, está
contida uma grande verdade: o encontro da fé com as diversas culturas deu vida
a uma nova realidade. Na verdade, quando as culturas estão profundamente
radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o testemunho da abertura,
própria do homem, ao universal e à transcendência. É por isso que elas
apresentam perspectivas distintas da verdade, que são de evidente utilidade
para o homem, porque lhe fazem vislumbrar valores capazes de tornar a sua
existência sempre mais humana. (94) Por outro lado, na medida em que evocam os
valores das tradições antigas, as culturas trazem consigo — embora de modo
implícito, mas nem por isso menos real — a referência à manifestação de Deus na
natureza, como se viu antes nos textos sapienciais e no ensinamento de S.
Paulo.
71. Uma vez que as culturas estão
intimamente relacionadas com os homens e a sua história, partilham das mesmas
dinâmicas do tempo humano. E, consequentemente, registam transformações e
progressos com os encontros que os homens promovem e com as recíprocas
transmissões dos seus modelos de vida. As culturas alimentam-se com a
comunicação de valores, e a sua vitalidade e subsistência dependem da sua
capacidade de permanecerem abertas para acolher a novidade. Como se explicam
tais dinâmicas? Todo o homem está integrado numa cultura; depende dela, e sobre
ela influi. É simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido. Em
cada manifestação da sua vida, o homem traz consigo algo que o caracteriza no
meio da criação: a sua constante abertura ao mistério e o seu desejo
inexaurível de conhecimento. Em consequência, cada cultura traz gravada em si
mesma e deixa transparecer a tensão para uma plenitude. Pode-se, portanto,
dizer que a cultura contém em si própria a possibilidade de acolher a revelação
divina.
Também o modo como os cristãos vivem
a fé, está imbuído da cultura do ambiente circundante, e vai progressivamente
contribuindo, por sua vez, para modelar as características do mesmo. Os
cristãos transmitem, a cada cultura, a verdade imutável que Deus revelou na
história e na cultura dum povo. Ao longo dos séculos, continua a reproduzir-se
o mesmo fenómeno testemunhado pelos peregrinos presentes em Jerusalém, no dia
de Pentecostes. Ao escutarem os Apóstolos, perguntavam-se: « Mas quê! Essa
gente que está a falar não é da Galileia? Que se passa, então, para que cada um
de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da
Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los anunciar nas
nossas línguas as maravilhas de Deus! » (Act
2, 7-11). O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de
cada um dos destinatários a adesão da fé, não os impede de conservar a própria
identidade cultural. Isto não provoca qualquer divisão, pois o povo dos
baptizados distingue-se por uma universalidade que é capaz de acolher todas as
culturas, fazendo com que aquilo que nelas está implícito se desenvolva até à
sua explanação plena na verdade.
Em consequência disto, uma cultura
nunca pode servir de critério de juízo e, menos ainda, de critério último de
verdade a respeito da revelação de Deus. O Evangelho não é contrário a esta ou
àquela cultura, como se quisesse, ao encontrar-se com ela, privá-la daquilo que
lhe pertence, e a obrigasse a assumir formas extrínsecas que lhe são estranhas.
Pelo contrário, o anúncio que o crente leva ao mundo e às culturas é uma forma
real de libertação de toda a desordem introduzida pelo pecado e,
simultaneamente, uma chamada à verdade plena. Neste encontro, as culturas não
são privadas de nada, antes são estimuladas a abrirem-se à novidade da verdade
evangélica, de que recebem impulso para novos progressos.
72. O facto da missão evangelizadora
ter encontrado em primeiro lugar no seu caminho a filosofia grega, não constitui
de forma alguma impedimento para outros relacionamentos. Hoje, à medida que o
Evangelho entra em contacto com áreas culturais que estiveram até agora fora do
âmbito de irradiação do cristianismo, novas tarefas se abrem à inculturação.
Colocam-se à nossa geração problemas análogos aos que a Igreja teve de
enfrentar nos primeiros séculos.
O meu pensamento vai espontaneamente
até às terras do Oriente, tão ricas de tradições religiosas e filosóficas muito
antigas. Entre elas, ocupa um lugar especial a Índia. Um grande ímpeto
espiritual leva o pensamento indiano a procurar uma experiência que, libertando
o espírito dos condicionamentos de tempo e espaço, tenha valor de absoluto. No
dinamismo desta busca de libertação, situam-se grandes sistemas metafísicos.
Compete aos cristãos de hoje,
sobretudo aos da Índia, a tarefa de extrair deste rico património os elementos
compatíveis com a sua fé, para se obter um enriquecimento do pensamento
cristão. Nesta obra de discernimento, que tem a sua fonte de inspiração na declaração
conciliar Nostra aetate, deverão
ter em consideração um certo número de critérios. O primeiro é a universalidade
do espírito humano, cujas exigências fundamentais são idênticas nas mais
distintas culturas. O segundo, derivado do anterior, consiste no seguinte:
quando a Igreja entra em contacto com grandes culturas que nunca tinha
encontrado antes, não pode pôr de parte o que adquiriu pela inculturação no
pensamento greco-latino. Rejeitar uma tal herança seria contrariar o desígnio
providencial de Deus, que conduz a sua Igreja pelos caminhos do tempo e da
história. Aliás, este critério é válido para a Igreja de todos os tempos —
também para a Igreja de amanhã, que se sentirá enriquecida com as aquisições
resultantes do encontro em nossos dias com as culturas orientais, e desta
herança há-de tirar, por sua vez, indicações novas para entrar frutuosamente em
diálogo com as culturas que a humanidade fizer florir no seu caminho rumo ao
futuro. Em terceiro lugar, há-de precaver-se por não confundir a legítima
reivindicação de especificidade e originalidade do pensamento indiano, com a
ideia de que uma tradição cultural deve enclausurar-se na sua diferença e
afirmar-se pela sua oposição às outras tradições — ideia essa que seria
contrária precisamente à natureza do espírito humano.
O que fica dito para a Índia, vale
também para a herança das grandes culturas da China, do Japão e demais países
da Ásia, bem como das riquezas das culturas tradicionais da África,
transmitidas sobretudo por via oral.
73. À luz destas considerações, a
justa relação que se deve instaurar entre a teologia e a filosofia há-de ser
pautada por uma reciprocidade circular. Quanto à teologia, o seu ponto de
partida e fonte primeira terá de ser sempre a palavra de Deus revelada na
história, ao passo que o objectivo final só poderá ser uma compreensão cada vez
mais profunda dessa mesma palavra por parte das sucessivas gerações. Visto que
a palavra de Deus é Verdade (cf. Jo 17,
17), uma melhor compreensão dela só tem a beneficiar com a busca humana da
verdade, ou seja, o filosofar, no respeito das leis que lhe são próprias. Não
se trata simplesmente de utilizar, no raciocínio teológico, qualquer conceito
ou parcela dum sistema filosófico; o facto decisivo é que a razão do crente
exerce as suas capacidades de reflexão na busca da verdade, dentro dum
movimento que, partindo da palavra de Deus, procura alcançar uma melhor
compreensão da mesma. É claro, de resto, que a razão, movendo-se dentro destes
dois pólos — palavra de Deus e melhor conhecimento desta —, encontra-se
prevenida, e de algum modo guiada, para evitar percursos que poderiam
conduzi-la fora da Verdade revelada e, em última análise, fora pura e
simplesmente da verdade; mais ainda, ela sente-se estimulada a explorar
caminhos que, sozinha, nem sequer suspeitaria de poder percorrer. Esta relação
de reciprocidade circular com a Palavra de Deus enriquece a filosofia, porque a
razão descobre horizontes novos e inesperados.
74. A prova da fecundidade de tal
relação é oferecida pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se
distinguiram também como grandes filósofos, deixando escritos de tamanho valor
especulativo que justificam ser colocados ao lado dos grandes mestres da
filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da Igreja, de entre os
quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S.
Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande
tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino. A relação
entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na
investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais
me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman,
António Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no âmbito
oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov'ev, Pavel A.
Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij. Ao referir estes autores, ao
lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar
aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos
significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens
da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do
itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir para o
avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados conseguidos para o
serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica
encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da
Igreja e da humanidade.
2. Diferentes estádios da filosofia
75. Como consta da história das
relações entre a fé e a filosofia, apontada acima brevemente, podem
distinguir-se diversos estádios da filosofia relativamente à fé cristã. O primeiro
é a filosofia totalmente independente da
revelação evangélica: é o estádio da filosofia, existente
historicamente nas épocas que precederam o nascimento do Redentor, e, mesmo
depois dele, nas regiões onde o Evangelho ainda não chegou. Nesta situação, a
filosofia apresenta a legítima aspiração de ser um empreendimento autónomo, ou seja, que procede segundo as
suas próprias leis, valendo-se simplesmente das forças da razão. Embora cientes
dos graves limites devidos à debilidade congénita da razão humana, uma tal
aspiração deve ser apoiada e fortalecida. De facto, o trabalho filosófico, como
busca da verdade no âmbito natural, pelo menos implicitamente permanece aberto
ao sobrenatural.
E, mesmo quando é o próprio discurso
teológico que se serve de conceitos e argumentações filosóficas, a exigência de
correcta autonomia do pensamento há-de ser respeitada. Com efeito, a
argumentação conduzida segundo rigorosos critérios racionais é garantia para a
obtenção de resultados universalmente válidos. Também aqui se verifica o
princípio segundo o qual a graça não destrói, mas aperfeiçoa a natureza: a
anuência de fé, que envolve a inteligência e a vontade, não destrói mas
aperfeiçoa o livre arbítrio do crente, que acolhe em si próprio o dado
revelado.
Desta exigência em si mesma
correcta, afasta-se nitidamente a teoria da chamada filosofia « separada »,
sustentada por vários filósofos modernos. Mais do que afirmação da justa
autonomia do filosofar, ela constitui a reivindicação duma auto-suficiência do
pensamento que é claramente ilegítima: rejeitar as contribuições de verdade
vindas da revelação divina significa efectivamente impedir o acesso a um
conhecimento mais profundo da verdade, danificando precisamente a filosofia.
76. Um segundo estádio da filosofia
é aquilo que muitos designam com a expressão filosofia
cristã. A denominação, em si mesma, é legítima, mas não deve dar
margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia oficial da
Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela designação,
deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão
filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere
simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua
pesquisa, quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã,
pretende-se abraçar todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico
que não seriam alcançados sem a contribuição, directa ou indirecta, da fé
cristã.
Assim, a filosofia cristã contém
dois aspectos: um subjectivo, que consiste na purificação da razão por parte da
fé. Esta, enquanto virtude teologal, liberta a razão da presunção — uma típica
tentação a que os filósofos facilmente estão sujeitos. Já S. Paulo e os Padres
da Igreja, e mais recentemente filósofos, como Pascal e Kierkegaard, a
estigmatizaram. Com a humildade, o filósofo adquire também a coragem para
enfrentar algumas questões que dificilmente poderia resolver sem ter em
consideração os dados recebidos da Revelação. Basta pensar, por exemplo, aos
problemas do mal e do sofrimento, à identidade pessoal de Deus e à questão
acerca do sentido da vida, ou, mais diretamente, à pergunta metafísica radical:
« Porque existe o ser? ».
Temos, depois, o aspecto objectivo,
que diz respeito aos conteúdos: a Revelação propõe claramente algumas verdades
que, embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente nunca
seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria.
Colocam-se, neste horizonte, questões como o conceito de um Deus pessoal, livre
e criador, que tanta importância teve para o progresso do pensamento filosófico
e, de modo particular, para a filosofia do ser. Pertence ao mesmo âmbito a
realidade do pecado, tal como é vista pela luz da fé, e que ajuda a filosofia a
enquadrar adequadamente o problema do mal. Também a concepção da pessoa como
ser espiritual é uma originalidade peculiar da fé: o anúncio cristão da
dignidade, igualdade e liberdade dos homens influiu seguramente sobre a
reflexão filosófica, realizada pelos filósofos modernos. Nos tempos mais
recentes, pode-se mencionar a descoberta da importância que tem, também para a
filosofia, o acontecimento histórico, centro da revelação cristã. Não foi por
acaso que aquele se tornou perne de uma filosofia da história, que se apresenta
como um novo capítulo da busca humana da verdade.
Entre os elementos objectivos da
filosofia cristã, inclui-se também a necessidade de explorar a racionalidade de
algumas verdades expressas pela Sagrada Escritura, tais como a possibilidade de
uma vocação sobrenatural do homem, e também o próprio pecado original. São
tarefas que induzem a razão a reconhecer que existe a verdade e o racional,
muito para além dos limites estreitos onde ela seria tentada a encerrar-se.
Estas temáticas ampliam, de facto, o âmbito do racional.
Ao reflectirem sobre estes
conteúdos, os filósofos não se tornaram teólogos, já que não procuraram
compreender e ilustrar as verdades da fé a partir da Revelação; continuaram a
trabalhar no seu próprio terreno e com a sua metodologia puramente racional,
mas alargando a sua investigação a novos âmbitos da verdade. Pode-se dizer que,
sem este influxo estimulante da palavra de Deus, boa parte da filosofia moderna
e contemporânea não existiria. O dado mantém toda a sua relevância, mesmo
diante da constatação decepcionante de não poucos pensadores destes últimos
séculos que abandonaram a ortodoxia cristã.
77. Outro estádio significativo da
filosofia verifica-se quando é a própria
teologia que chama em causa a
filosofia. Na verdade, a teologia sempre teve, e continua a ter,
necessidade da contribuição filosófica. Realizado pela razão crítica à luz da
fé, o trabalho teológico pressupõe e exige, ao longo de toda a sua pesquisa,
uma razão conceptual e argumentativamente educada e formada. Além disso, a
teologia precisa da filosofia como interlocutora, para verificar a
inteligibilidade e a verdade universal das suas afirmações. Não foi por acaso
que os Padres da Igreja e os teólogos medievais assumiram, para tal função
explicativa, filosofias não cristãs. Este facto histórico indica o valor da autonomia que a filosofia conserva mesmo
neste terceiro estádio, mas mostra igualmente as transformações necessárias e
profundas que ela deve sofrer.
É precisamente no sentido de uma
contribuição indispensável e nobre que a filosofia foi chamada, desde a Idade
Patrística, ancilla theologiæ. De
facto, o título não foi atribuído para indicar uma submissão servil ou um papel
puramente funcional da filosofia relativamente à teologia; mas no mesmo sentido
em que Aristóteles falava das ciências experimentais como « servas » da «
filosofia primeira ». A expressão, hoje dificilmente utilizável devido aos
princípios de autonomia antes mencionados, foi usada ao longo da história para
indicar a necessidade da relação entre as duas ciências e a impossibilidade de
uma sua separação.
Se o teólogo se recusasse a utilizar
a filosofia, arriscar-se-ia a fazer filosofia sem o saber e a fechar-se em
estruturas de pensamento pouco idóneas à compreensão da fé. Se o filósofo, por
sua vez, excluísse todo o contacto com a teologia, ver-se-ia na obrigação de
apoderar-se por conta própria dos conteúdos da fé cristã, como aconteceu com
alguns filósofos modernos. Tanto num caso como noutro, surgiria o perigo da
destruição dos princípios básicos de autonomia que cada ciência justamente quer
ver garantidos.
O estádio da filosofia agora
considerado, devido às implicações que comporta na compreensão da Revelação,
está, como acontece com a teologia, mais directamente colocado sob a autoridade
do Magistério e do seu discernimento, como expus mais acima. Das verdades de fé
derivam, efectivamente, determinadas exigências que a filosofia deve respeitar,
quando entra em relação com a teologia.
78. À luz destas reflexões, é fácil
compreender porque tenha o Magistério louvado reiteradamente os méritos do
pensamento de S. Tomás, e o tenha proposto como guia e modelo dos estudos
teológicos. O que interessava não era tomar posição sobre questões propriamente
filosóficas, nem impor a adesão a teses particulares; o objectivo do Magistério
era, e continua a ser, mostrar como S. Tomás é um autêntico modelo para quantos
buscam a verdade. De facto, na sua reflexão, a exigência da razão e a força da
fé encontraram a síntese mais elevada que o pensamento jamais alcançou,
enquanto soube defender a novidade radical trazida pela Revelação, sem nunca
humilhar o caminho próprio da razão.
79. Ao explicitar melhor os
conteúdos do Magistério precedente, é minha intenção, nesta última parte,
indicar algumas exigências que a teologia — e, ainda antes, a palavra de Deus —
coloca, hoje, ao pensamento filosófico e às filosofias actuais. Como já
assinalei, o filósofo deve proceder segundo as próprias regras e basear-se
sobre os próprios princípios; todavia, a verdade é uma só. A Revelação, com os
seus conteúdos, não poderá nunca humilhar a razão nas suas descobertas e na sua
legítima autonomia; a razão, por sua vez, não deverá perder nunca a sua
capacidade de interrogar-se e de interrogar, consciente de não poder arvorar-se
em valor absoluto e exclusivo. A verdade revelada, projectando plena luz sobre
o ser a partir do esplendor que lhe vem do próprio Ser subsistente, iluminará o
caminho da reflexão filosófica. Em resumo, a revelação cristã torna-se o
verdadeiro ponto de enlace e confronto entre o pensar filosófico e o teológico,
no seu recíproco intercâmbio. Espera-se, pois, que teólogos e filósofos se
deixem guiar unicamente pela autoridade da verdade, para que seja elaborada uma
filosofia de harmonia com a palavra de Deus. Esta filosofia será o terreno de
encontro entre as culturas e a fé cristã, o espaço de entendimento entre
crentes e não crentes. Ajudará os crentes a convencerem-se mais intimamente de
que a profundidade e a autenticidade da fé saem favorecidas quando esta se une
ao pensamento e não renuncia a ele. Mais uma vez, encontramos nos Padres a
lição que nos guia nesta convicção: « Crer, nada mais é senão pensar
consentindo [...]. Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê [...]. A
fé, se não for pensada, nada é ». (95) Mais: « Se se tira o assentimento,
tira-se a fé, pois, sem o assentimento, realmente não se crê ». (96)
CAPÍTULO VII
EXIGÊNCIAS E
TAREFAS ACTUAIS
1. As exigências irrenunciáveis da palavra de Deus
80. A Sagrada Escritura contém, de
forma explícita ou implícita, toda uma série de elementos que permite alcançar
uma perspectiva de notável densidade filosófica acerca do homem e do mundo. Os
cristãos foram gradualmente tomando consciência da riqueza contida naquelas
páginas sagradas. Delas se conclui que a realidade que experimentamos, não é o
absoluto: não é incriada, nem se autogerou. Só Deus é o Absoluto. Nas páginas
da Bíblia, o homem é visto como imago Dei,
que contém indicações precisas sobre o seu ser, a sua liberdade e a
imortalidade do seu espírito. Uma vez que o mundo criado não é autosuficiente,
qualquer ilusão de autonomia que ignore a essencial dependência de Deus de toda
criatura — incluindo o homem — leva a dramas que destroem a busca racional da
harmonia e do sentido da existência humana.
Também o problema do mal moral — a
forma mais trágica do mal — é considerado na Bíblia, dizendo-nos que este não
pode ser reduzido a uma mera deficiência devida à matéria, mas é uma ferida que
provém de uma manifestação desordenada da liberdade humana. Finalmente, a
palavra de Deus apresenta o problema do sentido da existência e revela a
resposta para o mesmo, encaminhando o homem para Jesus Cristo, o Verbo de Deus
encarnado, que realiza em plenitude a existência humana. Poder-se-iam ainda
explicitar outros aspectos da leitura do texto sagrado; de qualquer modo, o que
sobressai é a rejeição de toda a forma de relativismo, materialismo, panteísmo.
A convicção fundamental desta «
filosofia » presente na Bíblia é que a vida humana e o mundo têm um sentido e
caminham para a sua plenitude, que se verifica em Jesus Cristo. O mistério da
Encarnação permanecerá sempre o centro de referência para se poder compreender
o enigma da existência humana, do mundo criado, e mesmo de Deus. A filosofia
encontra, neste mistério, os desafios extremos, porque a razão é chamada a
assumir uma lógica que destrói as barreiras onde ela mesma corre o risco de se
fechar. Somente aqui, porém, o sentido da existência alcança o seu ponto
culminante. Com efeito, torna-se inteligível a essência íntima de Deus e do
homem: no mistério do Verbo encarnado, são salvaguardadas a natureza divina e a
natureza humana, com sua respectiva autonomia, e simultaneamente manifesta-se
aquele vínculo único que as coloca em mútuo relacionamento, sem confusão. (97)
81. Deve ter-se em conta que um dos
dados mais salientes da nossa situação actual consiste na « crise de sentido ».
Os pontos de vista, muitas vezes de carácter científico, sobre a vida e o mundo
multiplicaram-se tanto que estamos efectivamente assistindo à afirmação
crescente do fenómeno da fragmentação do saber. É precisamente isto que torna
difícil e frequentemente vã a procura de um sentido. E, mais dramático ainda,
neste emaranhado de dados e de factos, em que se vive e que parece constituir a
própria trama da existência, tantos se interrogam se ainda tem sentido pôr-se a
questão do sentido. A pluralidade das teorias que se disputam a resposta, ou os
diversos modos de ver e interpretar o mundo e a vida do homem não fazem senão
agravar esta dúvida radical, que facilmente desemboca num estado de cepticismo
e indiferença ou nas diversas expressões do niilismo.
Em consequência disto, o espírito
humano fica muitas vezes ocupado por uma forma de pensamento ambíguo, que o
leva a encerrar-se ainda mais em si próprio, dentro dos limites da própria
imanência, sem qualquer referência ao transcendente. Privada da questão do
sentido da existência, uma filosofia incorreria no grave perigo de relegar a
razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca
da verdade.
Para estar em consonância com a
palavra de Deus ocorre, antes de mais, que a filosofia volte a encontrar a sua dimensão sapiencial de procura do sentido
último e global da vida. Esta primeira exigência, por sinal, constitui um
estímulo utilíssimo para a filosofia se conformar com a sua própria natureza.
Deste modo, ela não será apenas aquela instância crítica decisiva que indica,
às várias partes do saber científico, o seu fundamento e os seus limites, mas
representará também a instância última de unificação do saber e do agir humano,
levando-os a convergirem para um fim e um sentido definitivos. Esta dimensão
sapiencial é ainda mais indispensável hoje, uma vez que o imenso crescimento do
poder técnico da humanidade requer uma renovada e viva consciência dos valores
últimos. Se viesse a faltar a estes meios técnicos a sua orientação para um fim
não meramente utilitarista, poderiam rapidamente revelar-se desumanos e
transformar-se mesmo em potenciais destrutores do género humano. (98)
A palavra de Deus revela o fim
último do homem, e dá um sentido global à sua acção no mundo. Por isso, ela
convida a filosofia a empenhar-se na busca do fundamento natural desse sentido,
que é a religiosidade constitutiva de cada pessoa. Uma filosofia que quisesse
negar a possibilidade de um sentido último e global, seria não apenas
imprópria, mas errónea.
82. De resto, este papel sapiencial
não poderia ser desempenhado por uma filosofia que não fosse, ela própria, um
autêntico e verdadeiro saber, isto é, debruçado não só sobre os aspectos
particulares e relativos — sejam eles funcionais, formais ou úteis — da
realidade, mas sobre a verdade total e definitiva desta, ou seja, sobre o
próprio ser do objecto de conhecimento. Daqui, uma segunda exigência: verificar
a capacidade do homem chegar ao conhecimento
da verdade; mais, um conhecimento que alcance a verdade objectiva
por meio daquela adæquatio rei et
intellectus, a que se referem os Doutores da Escolástica. (99) Esta
exigência, própria da fé, foi explicitamente reafirmada pelo Concílio Vaticano
II: « A inteligência, de facto, não se limita ao domínio dos fenómenos; embora,
em consequência do pecado, esteja parcialmente obscurecida e debilitada, ela é
capaz de atingir com certeza a realidade inteligível ». (100)
Uma filosofia, radicalmente
fenomenista ou relativista, revelar-se-ia inadequada para ajudar no
aprofundamento da riqueza contida na palavra de Deus. De facto, a Sagrada
Escritura sempre pressupõe que o homem, mesmo quando culpável de duplicidade e
mentira, é capaz de conhecer e captar a verdade clara e simples. Nos Livros
Sagrados, e de modo particular no Novo Testamento, encontram-se textos e
afirmações de alcance propriamente ontológico. Os autores inspirados, com
efeito, quiseram formular afirmações verdadeiras, isto é, capazes de exprimir a
realidade objectiva. Não se pode dizer que a tradição católica tenha cometido
um erro, quando entendeu alguns textos de S. João e de S. Paulo como afirmações
sobre o ser mesmo de Cristo. Ora, quando a teologia procura compreender e
explicar estas afirmações, tem necessidade do auxílio duma filosofia que não
renegue a possibilidade de um conhecimento objectivamente verdadeiro, embora
sempre passível de aperfeiçoamento. Isto vale também para os juízos da consciência
moral, que a Sagrada Escritura supõe ser objectivamente verdadeiros. (101)
83. As duas exigências, já
referidas, implicam uma terceira: ocorre uma filosofia de alcance autenticamente metafísico, isto é, capaz
de transcender os dados empíricos para chegar, na sua busca da verdade, a algo
de absoluto, definitivo, básico. Trata-se duma exigência implícita tanto no
conhecimento de tipo sapiencial, como de carácter analítico; de modo
particular, é uma exigência própria do conhecimento do bem moral, cujo fundamento
último é o sumo Bem, o próprio Deus. Não é minha intenção falar aqui da
metafísica enquanto escola específica ou particular corrente histórica; desejo
somente afirmar que a realidade e a verdade transcendem o elemento factível e
empírico, e quero reivindicar a capacidade que o homem possui de conhecer esta
dimensão transcendente e metafísica de forma verdadeira e certa, mesmo se
imperfeita e analógica. Neste sentido, a metafísica não deve ser vista como
alternativa à antropologia, pois é precisamente ela que permite dar fundamento
ao conceito da dignidade da pessoa, assente na sua condição espiritual. De modo
particular, a pessoa constitui um âmbito privilegiado para o encontro com o ser
e, consequentemente, com a reflexão metafísica.
Em toda a parte onde o homem
descobre a presença dum apelo ao absoluto e ao transcendente, lá se abre uma
fresta para a dimensão metafísica do real: na verdade, na beleza, nos valores
morais, na pessoa do outro, no ser, em Deus. Um grande desafio, que nos espera
no final deste milénio, é saber realizar a passagem, tão necessária como
urgente, do fenómeno ao fundamento. Não é possível deter-se
simplesmente na experiência; mesmo quando esta exprime e manifesta a
interioridade do homem e a sua espiritualidade, é necessário que a reflexão
especulativa alcance a substância espiritual e o fundamento que a sustenta.
Portanto, um pensamento filosófico que rejeitasse qualquer abertura metafísica,
seria radicalmente inadequado para desempenhar um papel de mediação na
compreensão da Revelação.
A palavra de Deus alude
continuamente a realidades que ultrapassam a experiência e até mesmo o
pensamento do homem; mas, este « mistério » não poderia ser revelado, nem a
teologia poderia de modo algum torná-lo inteligível, (102) se o conhecimento
humano se limitasse exclusivamente ao mundo da experiência sensível. Por isso,
a metafísica constitui uma intermediária privilegiada na pesquisa teológica.
Uma teologia, privada do horizonte metafísico, não conseguiria chegar além da
análise da experiência religiosa, não permitindo ao intellectus fidei exprimir coerentemente o valor universal e
transcendente da verdade revelada.
Se insisto tanto na componente
metafísica, é porque estou convencido de que este é o caminho obrigatório para
superar a situação de crise que aflige actualmente grandes sectores da
filosofia e, desta forma, corrigir alguns comportamentos errados, difusos na
nossa sociedade.
84. A importância da instância
metafísica torna-se ainda mais evidente, quando se considera o progresso actual
das ciências hermenêuticas e das diferentes análises da linguagem. Os
resultados alcançados por estes estudos podem ser muito úteis para a
compreensão da fé, enquanto manifestam a estrutura do nosso pensar e falar, e o
sentido presente na linguagem. Existem, porém, especialistas destas ciências
que tendem, nas suas pesquisas, a deter-se no modo como se compreende e exprime
a realidade, prescindindo de verificar a possibilidade de a razão descobrir a
essência da mesma. Como não individuar neste comportamento uma confirmação da
crise de confiança, que a nossa época está a atravessar, acerca das capacidades
da razão? Além disso, quando estas teses, baseando-se em convicções
apriorísticas, tendem a ofuscar os conteúdos da fé ou a negar a sua validade
universal, então não só humilham a razão, mas colocam-se por si mesmas fora de
jogo. De facto, a fé pressupõe claramente que a linguagem humana seja capaz de
exprimir de modo universal — embora em termos analógicos, mas nem por isso
menos significativos — a realidade divina e transcendente. (103) Se assim não
fosse, a palavra de Deus, que é sempre palavra divina em linguagem humana, não
seria capaz de exprimir nada sobre Deus. A interpretação desta Palavra não pode
remeter-nos apenas de uma interpretação para outra, sem nunca nos fazer chegar
a uma afirmação absolutamente verdadeira; caso contrário, não haveria revelação
de Deus, mas só a expressão de noções humanas sobre Ele e sobre aquilo que
presumivelmente Ele pensa de nós.
85. Bem sei que, aos olhos de muitos
dos que actualmente se entregam à pesquisa filosófica, podem parecer árduas
estas exigências postas pela palavra de Deus à filosofia. Por isso mesmo,
retomando aquilo que, já há algumas gerações, os Sumos Pontífices não cessam de
ensinar e que o próprio Concílio Vaticano II confirmou, quero exprimir
vigorosamente a convicção de que o homem é capaz de alcançar uma visão unitária
e orgânica do saber. Esta é uma das tarefas que o pensamento cristão deverá
assumir durante o próximo milénio da era cristã. A subdivisão do saber,
enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a consequente fragmentação
do seu sentido, impede a unidade interior do homem de hoje. Como poderia a
Igreja deixar de preocupar-se? Os Pastores recebem esta função sapiencial
directamente do Evangelho, e não podem eximir-se do dever de concretizá-la.
Considero que todos os que
actualmente desejam responder, como filósofos, às exigências que a palavra de
Deus põe ao pensamento humano, deveriam elaborar o seu raciocínio sobre a base
destes postulados, numa coerente continuidade com aquela grande tradição que,
partindo dos antigos, passa pelos Padres da Igreja e os mestres da escolástica
até chegar a englobar as conquistas fundamentais do pensamento moderno e
contemporâneo. Se conseguir recorrer a esta tradição e inspirar-se nela, o
filósofo não deixará de se mostrar fiel à exigência de autonomia do pensamento
filosófico.
Neste sentido, é muito importante
que, no contexto actual, alguns filósofos se façam promotores da descoberta do
papel determinante que tem a tradição para uma forma correcta de conhecimento.
De facto, o recurso à tradição não é uma mera lembrança do passado; mas
constitui sobretudo o reconhecimento dum património cultural que pertence a
toda a humanidade. Poder-se-ia mesmo dizer que somos nós que pertencemos à
tradição, e por isso não podemos dispor dela a nosso bel-prazer. É precisamente
este enraizamento na tradição que hoje nos permite poder exprimir um pensamento
original, novo e aberto para o futuro. Esta observação é ainda mais pertinente
para a teologia, não só porque ela possui a Tradição viva da Igreja como fonte
originária, (104) mas também porque ela, em virtude disso mesmo, deve ser capaz
de recuperar quer a profunda tradição teológica que marcou as épocas precedentes,
quer a tradição perene daquela filosofia que, pela sua real sabedoria,
conseguiu superar as fronteiras do espaço e do tempo.
86. A insistência sobre a
necessidade duma estreita relação de continuidade entre a reflexão filosófica
actual e a reflexão elaborada na tradição cristã visa prevenir do perigo que se
esconde em algumas correntes de pensamento, hoje particularmente difusas.
Embora brevemente, considero oportuno deter-me sobre elas, para pôr em relevo
os seus erros e consequentes riscos para a actividade filosófica.
A primeira aparece sob o nome de ecletismo, termo com o qual se designa o
comportamento de quem, na pesquisa, na doutrina e na argumentação, mesmo
teológica, costuma assumir ideias tomadas isoladamente de distintas filosofias,
sem se preocupar com a sua coerência e conexão sistemática, nem com o seu
contexto histórico. Deste modo, a pessoa fica impossibilitada de discernir
entre a parte de verdade dum pensamento e aquilo que nele pode ser errado ou
inadequado. Também é possível individuar uma forma extrema de ecletismo no
abuso retórico dos termos filosóficos, às vezes praticado por alguns teólogos.
Este género de instrumentalização não favorece a busca da verdade, nem educa a
razão — tanto teológica, como filosófica — a argumentar de forma séria e
científica. O estudo rigoroso e profundo das doutrinas filosóficas, da
linguagem que lhes é peculiar, e do contexto onde surgiram, ajuda a superar os
riscos do ecletismo e permite uma adequada integração daquelas na argumentação
teológica.
87. O ecletismo é um erro de método,
mas poderia também ocultar em si as teses próprias do historicismo. Para compreender
correctamente uma doutrina do passado, é necessário que esteja inserida no seu
contexto histórico e cultural. Diversamente, o historicismo toma como sua tese
fundamental estabelecer a verdade duma filosofia com base na sua adequação a um
determinado período e função histórica. Deste modo nega-se, pelo menos
implicitamente, a validade perene da verdade. O que era verdade numa época,
afirma o historicista, pode já não sê-lo noutra. Em resumo, a história do
pensamento, para ele, reduz-se a uma espécie de achado arqueológico, a que
recorre a fim de pôr em evidência posições do passado, em grande parte já
superadas e sem significado para o tempo presente. Ora, apesar de a formulação
estar de certo modo ligada ao tempo e à cultura, deve-se considerar que a
verdade ou o erro nela expressos podem ser, não obstante a distância
espácio-temporal, reconhecidos e avaliados como tais.
Na reflexão teológica, o
historicismo tende a maior parte das vezes a apresentar-se sob uma forma de «
modernismo ». Com a justa preocupação de tornar o discurso teológico actual e
assimilável para o homem contemporâneo, faz-se apenas uso das asserções e
termos filosóficos mais recentes, descuidando exigências críticas que, à luz da
tradição, dever-se-iam eventualmente colocar. Esta forma de modernismo, pelo
simples facto de trocar a actualidade pela verdade, revela-se incapaz de
satisfazer as exigências de verdade a que a teologia é chamada a dar resposta.
88. Outro perigo a ser considerado é
o cientificismo. Esta concepção
filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas
daquelas que são próprias das ciências positivas, relegando para o âmbito da pura
imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e
estético. No passado, a mesma ideia aparecia expressa no positivismo e no
neopositivismo, que consideravam destituídas de sentido as afirmações de
carácter metafísico. A crítica epistemológica desacreditou esta posição; mas,
vemo-las agora renascer sob as novas vestes do cientificismo. Na sua
perspectiva, os valores são reduzidos a simples produtos da emotividade, e a
noção de ser é posta de lado para dar lugar ao facto puro e simples. A ciência,
prepara-se assim para dominar todos os aspectos da existência humana, através
do progresso tecnológico. Os sucessos inegáveis no âmbito da pesquisa
científica e da tecnologia contemporânea contribuíram para a difusão da
mentalidade cientificista, que parece não conhecer fronteiras, quando vemos
como penetrou nas diversas culturas e as mudanças radicais que aí provocou.
Infelizmente, deve-se constatar que
o cientificismo considera tudo o que se refere à questão do sentido da vida
como fazendo parte do domínio do irracional ou da fantasia. Ainda mais
decepcionante é a perspectiva apresentada por esta corrente de pensamento a
respeito dos outros grandes problemas da filosofia que, quando não passam
simplesmente ignorados, são analisados com base em analogias superficiais,
destituídas de fundamentação racional. Isto leva ao empobrecimento da reflexão
humana, subtraindo-lhe aqueles problemas fundamentais que o animal rationale se tem colocado
constantemente, desde o início da sua existência sobre a terra. Na mesma linha,
ao pôr de lado a crítica que nasce da avaliação ética, a mentalidade
cientificista conseguiu fazer com que muitos aceitassem a ideia de que aquilo
que se pode realizar tecnicamente, torna-se por isso mesmo também moralmente
admissível.
89. Portador de perigos não menores
é o pragmatismo, atitude mental
própria de quem, ao fazer as suas opções, exclui o recurso a reflexões
abstractas ou a avaliações fundadas sobre princípios éticos. As consequências
práticas, que derivam desta linha de pensamento, são notáveis. De modo
particular, tem vindo a ganhar terreno uma concepção da democracia que não
contempla o referimento a fundamentos de ordem axiológica e, por isso mesmo,
imutáveis: a admissibilidade, ou não, de determinado comportamento é decidida
com base no voto da maioria parlamentar. (105) A consequência de semelhante
posição é clara: as grandes decisões morais do homem ficam efectivamente
subordinadas às deliberações que os órgãos institucionais vão assumindo pouco a
pouco. Mais, a própria antropologia fica fortemente condicionada com a proposta
duma visão unidimensional do ser humano, da qual se excluem os grandes dilemas
éticos e as análises existenciais sobre o sentido do sofrimento e do
sacrifício, da vida e da morte.
90. As teses examinadas até aqui
conduzem, por sua vez, a uma concepção mais geral, que parece constituir, hoje,
o horizonte comum de muitas filosofias que não querem saber do sentido do ser.
Estou a referir-me à leitura niilista, que é a rejeição de qualquer fundamento
e simultaneamente a negação de toda a verdade objectiva. O niilismo, antes mesmo de estar em
contraste com as exigências e os conteúdos próprios da palavra de Deus, é
negação da humanidade do homem e também da sua identidade. De facto, é preciso
ter em conta que o olvido do ser implica inevitavelmente a perda de contacto
com a verdade objectiva e, consequentemente, com o fundamento sobre o qual se
apoia a dignidade do homem. Deste modo, abre-se espaço à possibilidade de
apagar, da face do homem, os traços que revelam a sua semelhança com Deus,
conduzindo-o progressivamente a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero
da solidão. Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender
torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou juntas
miseravelmente perecem. (106)
91. Ao comentar as correntes de
pensamento acima lembradas, não foi minha intenção apresentar um quadro
completo da situação actual da filosofia: aliás, esta dificilmente poderia ser
integrada numa visão unitária. Faço questão de assinalar que a herança do saber
e da sabedoria se enriqueceu efectivamente em diversos campos. Basta citar a
lógica, a filosofia da linguagem, a epistemologia, a filosofia da natureza, a
antropologia, a análise profunda das vias afectivas do conhecimento, a
perspectiva existencial aplicada à análise da liberdade. Por outro lado, a
afirmação do princípio de imanência, que está no âmago da pretensão
racionalista, suscitou, a partir do século passado, reacções que levaram a pôr
radicalmente em questão postulados considerados indiscutíveis. Nasceram assim
correntes irracionalistas, ao mesmo tempo que a crítica punha em evidência a
inutilidade da exigência de auto-fundamentação absoluta da razão.
A nossa época foi definida por
certos pensadores como a época da « pós-modernidade ». Este termo, não
raramente usado em contextos muito distanciados entre si, designa a aparição de
um conjunto de factores novos, que, pela sua extensão e eficácia, se revelaram
capazes de determinar mudanças significativas e duradouras. Assim, o termo foi
primeiramente usado no campo de fenómenos de ordem estética, social,
tecnológica. Depois, estendeu-se ao âmbito filosófico, permanecendo, porém,
marcado por certa ambiguidade, quer porque a avaliação do que se define como «
pós-moderno » é umas vezes positivo e outras negativo, quer porque não existe
consenso sobre o delicado problema da delimitação das várias épocas históricas.
Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de pensamento que fazem referência à
pós-modernidade merecem adequada atenção. Segundo algumas delas, de facto, o
tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente
aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do
provisório e do efémero. Muitos autores, na sua crítica demolidora de toda a
certeza e ignorando as devidas distinções, contestam inclusivamente as certezas
da fé.
De algum modo, este niilismo
encontra confirmação na terrível experiência do mal que caracterizou a nossa
época. O optimismo racionalista que via na história o avanço vitorioso da
razão, fonte de felicidade e de liberdade, não pôde resistir face à
dramaticidade de tal experiência, a ponto de uma das maiores ameaças, neste
final de século, ser a tentação do desespero.
Verdade é que uma certa mentalidade
positivista continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas
científicas e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por
si mesmo a garantir o domínio total do seu destino.
2. Tarefas actuais da teologia
92. Enquanto compreensão da
Revelação, a teologia, nas sucessivas épocas históricas, sempre sentiu como
próprio dever escutar as solicitações das várias culturas, para permeá-las
depois, através duma coerente conceptualização, com o conteúdo da fé. Também
hoje lhe compete uma dupla tarefa. Por um lado, deve cumprir a missão que o
Concílio Vaticano II lhe confiou: renovar as suas metodologias, tendo em vista
um serviço mais eficaz à evangelização. Nesta perspectiva, como não pensar às
palavras pronunciadas pelo Sumo Pontífice João XXIII, na abertura do Concílio?
Dizia ele: « Correspondendo à viva expectativa de quantos amam sinceramente a
religião cristã, católica e apostólica, é necessário que esta doutrina seja
conhecida mais ampla e profundamente e que nela sejam instruídas e formadas
mais plenamente as consciências; é preciso que esta doutrina certa e imutável,
que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada segundo as
exigências do nosso tempo ». (107)
Mas, por outro lado, a teologia deve
manter o olhar fixo sobre a verdade última que lhe foi confiada por meio da
Revelação, não se contentando nem se detendo em etapas intermédias. O teólogo
recorde-se de que o seu trabalho corresponde « ao dinamismo interior próprio da
fé » e que o objecto específico da sua indagação é « a Verdade, o Deus vivo e o
seu desígnio de salvação revelado em Jesus Cristo ». (108) Esta tarefa, que diz
respeito em primeiro lugar à teologia, interpela também a filosofia. De facto,
a quantidade imensa de problemas, que hoje aparece, requer um trabalho comum,
embora desenvolvido com metodologias diversas, para que a verdade possa
novamente ser conhecida e anunciada. A Verdade, que é Cristo, impõe-se como
autoridade universal que rege, estimula e faz crescer (cf. Ef 4, 15) tanto a teologia como a
filosofia.
O facto de acreditar na
possibilidade de se conhecer uma verdade universalmente válida não é de forma
alguma fonte de intolerância; pelo contrário, é condição necessária para um
diálogo sincero e autêntico entre as pessoas. Só com esta condição será
possível superar as divisões e percorrer juntos o caminho que conduz à verdade
total, seguindo por sendas que só Espírito do Senhor ressuscitado conhece.
(109) O modo como se configura hoje concretamente a exigência de unidade, tendo
em vista as tarefas actuais da teologia, é o que desejo agora indicar.
93. O objectivo fundamental, que a
teologia persegue, é apresentar a
compreensão da Revelação e o conteúdo da fé. Assim, o verdadeiro
centro da sua reflexão há-de ser a contemplação do próprio mistério de Deus Uno
e Trino. E a este chega-se reflectindo sobre o mistério da encarnação do Filho
de Deus: sobre o facto de Ele Se fazer homem e, depois, caminhar até à paixão e
à morte, mistério este que desembocará na sua gloriosa ressurreição e ascensão
à direita do Pai, donde enviará o Espírito de verdade para constituir e animar
a sua Igreja. Neste horizonte, a obrigação primeira da teologia é a compreensão
da kenosi de Deus, mistério
verdadeiramente grande para a mente humana, porque lhe parece insustentável que
o sofrimento e a morte possam exprimir o amor que se dá sem pedir nada em
troca. Nesta perspectiva, impõe-se como exigência fundamental e urgente uma
análise atenta dos textos: os textos bíblicos primeiro, e depois os que exprimem
a Tradição viva da Igreja. A este respeito, surgem hoje alguns problemas, novos
só em parte, cuja solução coerente não poderá ser encontrada sem o contributo
da filosofia.
94. Um primeiro aspecto problemático
refere-se à relação entre o significado e a verdade. Como qualquer outro texto,
também as fontes que o teólogo interpreta transmitem, antes de mais, um
significado, que tem de ser individuado e exposto. Ora, este significado
apresenta-se como a verdade acerca de Deus, que é comunicada pelo próprio Deus
por meio do texto sagrado. Assim, a linguagem de Deus toma corpo na linguagem
humana, comunicando a verdade sobre Ele mesmo com aquela « condescendência »
admirável que reflecte a lógica da Encarnação. (110) Por isso, ao interpretar
as fontes da Revelação, é necessário que o teólogo se interrogue sobre qual
seja a verdade profunda e genuína que os textos querem comunicar, embora dentro
dos limites da linguagem.
Quanto aos textos bíblicos, e em
particular os Evangelhos, a sua verdade não se reduz seguramente à narração de
simples acontecimentos históricos ou à revelação de factos neutros, como
pretendia o positivismo historicista. (111) Pelo contrário, esses textos expõem
acontecimentos, cuja verdade está para além da mera ocorrência histórica: está
no seu significado para e dentro da história da salvação. Esta
verdade adquire a sua plena explicitação na leitura perene que a Igreja faz dos
referidos textos ao longo dos séculos, mantendo inalterado o seu significado
originário. Portanto, é urgente que se interroguem, filosoficamente também,
sobre a relação que há entre o facto e o seu significado; relação essa que
constitui o sentido específico da história.
95. A palavra de Deus não se destina
apenas a um povo ou só a uma época. De igual modo, também os enunciados
dogmáticos formulam uma verdade permanente e definitiva, ainda que às vezes se
possa notar neles a cultura do período em que foram definidos. Surge, assim, a
pergunta sobre como seja possível conciliar o carácter absoluto e universal da
verdade com o inevitável condicionamento histórico e cultural das fórmulas que
a exprimem. Como disse anteriormente, as teses do historicismo não são
defendíveis. Pelo contrário, a aplicação duma hermenêutica aberta à questão
metafísica é capaz de mostrar como se passa das circunstâncias históricas e
contingentes, onde maturaram os textos, à verdade por eles expressa que está
para além desses condicionalismos.
Com a sua linguagem histórica e
limitada, o homem pode exprimir verdades que transcendem o fenómeno linguístico.
De facto, a verdade nunca pode estar limitada a um tempo, nem a uma cultura; é
conhecida na história, mas supera a própria história.
96. Esta consideração permite
vislumbrar a solução de outro problema: o da perene validade dos conceitos
usados nas definições conciliares. Já o meu venerado Predecessor Pio XII
enfrentara a questão, na carta encíclica Humani
generis. (112)
A reflexão sobre este assunto não é
fácil, porque tem-se de atender cuidadosamente ao sentido que as palavras
adquirem nas diversas culturas e nas diferentes épocas. Entretanto, a história
do pensamento mostra que certos conceitos básicos mantêm, através da evolução e
da variedade das culturas, o seu valor cognoscitivo universal e,
consequentemente, a verdade das proposições que os exprimem. (113) Se assim não
fosse, a filosofia e as ciências não poderiam comunicar entre si, nem ser
recebidas por culturas diferentes daquelas onde foram pensadas e elaboradas. O
problema hermenêutico é real, mas tem solução. O valor objectivo de muitos
conceitos não exclui, aliás, que o seu significado frequentemente seja
imperfeito. A reflexão filosófica poderia ser de grande ajuda neste campo.
Possa ela prestar o seu contributo particular no aprofundamento da relação
entre linguagem conceptual e verdade, e na proposta de caminhos adequados para
uma sua correcta compreensão.
97. Se uma tarefa importante da
teologia é a interpretação das fontes, mais delicado e exigente ainda é o
trabalho seguinte: a compreensão da verdade
revelada, ou seja, a elaboração do intellectus
fidei. Como já aludi, o intellectus
fidei requer o contributo duma filosofia do ser que, antes de mais,
permita à teologia dogmática realizar
adequadamente as suas funções. O pragmatismo dogmático dos inícios deste
século, segundo o qual as verdades da fé nada mais seriam do que regras de
comportamento, foi já refutado e rejeitado; (114) apesar disso, persiste sempre
a tentação de compreender estas verdades de forma puramente funcional. Neste
caso, cair-se-ia num esquema inadequado, redutivo e desprovido da necessária
incisividade especulativa. Por exemplo, uma cristologia que partisse
unilateralmente « de baixo », como hoje se costuma dizer, ou uma eclesiologia
elaborada unicamente a partir do modelo das sociedades civis dificilmente poderiam
evitar o perigo de tal reducionismo.
Se o intellectus fidei quer integrar toda a riqueza da tradição
teológica, tem de recorrer à filosofia do ser. Esta deverá ser capaz de propor
o problema do ser segundo as exigências e as contribuições de toda a tradição
filosófica, incluindo a mais recente, evitando cair em estéreis repetições de
esquemas antiquados. No quadro da tradição metafísica cristã, a filosofia do
ser é uma filosofia dinâmica que vê a realidade nas suas estruturas
ontológicas, causais e inter-relacionais. A sua força e perenidade derivam do
facto de se basear precisamente sobre o acto do ser, o que lhe permite uma
abertura plena e global a toda a realidade, superando todo e qualquer limite
até alcançar Aquele que tudo leva à perfeição. (115) Na teologia, que recebe os
seus princípios da Revelação como nova fonte de conhecimento, esta perspectiva
é confirmada através da relação íntima entre fé e racionalidade metafísica.
98. Idênticas considerações podem
ser feitas a propósito da teologia moral.
A recuperação da filosofia é urgente também para a compreensão da fé que diz
respeito ao agir dos crentes. Diante dos desafios que se levantam actualmente
no campo social, económico, político e científico, a consciência ética do homem
desorientou-se. Na carta encíclica Veritatis
splendor, pus em evidência que muitos problemas do mundo
contemporâneo derivam de uma « crise em torno da verdade. Perdida a ideia duma
verdade universal sobre o bem, cognoscível pela razão humana, mudou também
inevitavelmente a concepção de consciência: esta deixa de ser considerada na
sua realidade original, ou seja, como um acto da inteligência da pessoa, a quem
cabe aplicar o conhecimento universal do bem a uma determinada situação e
exprimir assim um juízo sobre a conduta justa a ter aqui e agora; tende-se a
conceder à consciência do indivíduo o privilégio de estabelecer autonomamente
os critérios do bem e do mal, e de agir em consequência. Esta visão
identifica-se com uma ética individualista, na qual cada um se vê confrontado com
a sua verdade, diferente da verdade dos outros ». (116)
Ao longo de toda a encíclica agora
citada, sublinhei claramente o papel fundamental que compete à verdade no campo
da moral. Ora esta verdade, na maior parte dos problemas éticos mais urgentes,
requer, da teologia moral, uma cuidadosa reflexão que saiba pôr em evidência as
suas raízes na palavra de Deus. Para poder desempenhar esta sua missão, a
teologia moral deve recorrer a uma ética filosófica que tenha em vista a
verdade do bem, isto é, uma ética que não seja subjectivista nem utilitarista.
Tal ética implica e pressupõe uma antropologia filosófica e uma metafísica do
bem. A teologia moral, valendo-se desta visão unitária que está necessariamente
ligada à santidade cristã e à prática das virtudes humanas e sobrenaturais,
será capaz de enfrentar os vários problemas que lhe dizem respeito — tais como
a paz, a justiça social, a família, a defesa da vida e do ambiente natural — de
forma mais adequada e eficaz.
99. Na Igreja, o trabalho teológico
está, primariamente, ao serviço do anúncio da fé e da catequese. (117) O
anúncio, ou querigma, chama à conversão, propondo a verdade de Cristo que tem o
seu ponto culminante no Mistério Pascal: na verdade, só em Cristo é possível
conhecer a plenitude da verdade que salva (cf. Act
4, 12; 1 Tim 2, 4-6).
Neste contexto, é fácil compreender
a razão por que, além da teologia, assuma também grande relevo a referência à catequese: é que esta possui implicações
filosóficas que têm de ser aprofundadas à luz da fé. A doutrina ensinada na
catequese pretende formar a pessoa. Por isso a catequese, que é também
comunicação linguística, deve apresentar a doutrina da Igreja na sua
integridade, (118) mostrando a ligação que ela tem com a vida dos crentes.
(119) Realiza-se, assim, uma singular união entre doutrina e vida, que é
impossível conseguir de outro modo. De facto, aquilo que se comunica na
catequese não é um corpo de verdades conceptuais, mas o mistério do Deus vivo.
(120)
A reflexão filosófica muito pode
contribuir para esclarecer a relação entre verdade e vida, entre acontecimento
e verdade doutrinal, e sobretudo a relação entre verdade transcendente e
linguagem humanamente inteligível. (121) A reciprocidade que se cria entre as
disciplinas teológicas e os resultados alcançados pelas diversas correntes
filosóficas, pode traduzir-se numa real fecundidade para a comunicação da fé e
para uma sua compreensão mais profunda.
CONCLUSÃO
100. Passados mais de cem anos da
publicação da encíclica Æterni Patris de
Leão XIII, à qual me referi várias vezes nestas páginas, pareceu-me necessário
abordar novamente e de forma mais sistemática o discurso sobre o tema da
relação entre a fé e a filosofia. É óbvia a importância que o pensamento
filosófico tem no progresso das culturas e na orientação dos comportamentos
pessoais e sociais. Embora isso nem sempre se note de forma explícita, ele
exerce também uma grande influência sobre a teologia e suas diversas
disciplinas. Por estes motivos, considerei justo e necessário sublinhar o valor
que a filosofia tem para a compreensão da fé, e as limitações em que aquela se
vê, quando esquece ou rejeita as verdades da Revelação. De facto, a Igreja
continua profundamente convencida de que fé e razão « se ajudam mutuamente »,
(122) exercendo, uma em prol da outra, a função tanto de discernimento crítico
e purificador, como de estímulo para progredir na investigação e no
aprofundamento.
101. Se detivermos o nosso olhar
sobre a história do pensamento, sobretudo no Ocidente, é fácil constatar a
riqueza que sobreveio, para o progresso da humanidade, do encontro da filosofia
com a teologia e do intercâmbio das suas respectivas conquistas. A teologia,
que recebeu o dom duma abertura e originalidade que lhe permite existir como
ciência da fé, fez seguramente com que a razão permanecesse aberta diante da
novidade radical que a revelação de Deus traz consigo. E isto foi, sem dúvida
alguma, uma vantagem para a filosofia, que, assim, viu abrirem-se novos
horizontes apontando para sucessivos significados que a razão está chamada a
aprofundar.
Precisamente à luz desta
constatação, tal como reafirmei o dever que tem a teologia de recuperar a sua
genuína relação com a filosofia, da mesma forma sinto a obrigação de sublinhar
que é conveniente para o bem e o progresso do pensamento que também a filosofia
recupere a sua relação com a teologia. Nesta, encontrará não a reflexão dum
mero indivíduo, que, embora profunda e rica, sempre traz consigo as limitações
de perspectiva próprias do pensamento de um só, mas a riqueza duma reflexão
comum. De facto, quando indaga sobre a verdade, a teologia, por sua natureza, é
sustentada pela nota da eclesialidade
(123) e pela tradição do Povo de Deus, com sua riqueza multiforme de
conhecimentos e de culturas na unidade da fé.
102. Com tal insistência sobre a
importância e as autênticas dimensões do pensamento filosófico, a Igreja
promove a defesa da dignidade humana e, simultaneamente, o anúncio da mensagem
evangélica. Ora, para estas tarefas, não existe, hoje, preparação mais urgente
do que esta: levar os homens à descoberta da sua capacidade de conhecer a
verdade (124) e do seu anseio pelo sentido último e definitivo da existência. À
luz destas exigências profundas, inscritas por Deus na natureza humana, aparece
mais claro também o significado humano e humanizante da palavra de Deus. Graças
à mediação de uma filosofia que se tornou também verdadeira sabedoria, o homem
contemporâneo chegará a reconhecer que será tanto mais homem quanto mais se
abrir a Cristo, acreditando no Evangelho.
103. Além disso, a filosofia é como
que o espelho onde se reflecte a cultura dos povos. Uma filosofia que se
desenvolve de harmonia com a fé aceitando o estímulo das exigências teológicas,
faz parte daquela « evangelização da cultura » que Paulo VI propôs como um dos objectivos
fundamentais da evangelização. (125) Pensando na nova evangelização, cuja urgência não me canso de recordar,
faço apelo aos filósofos para que saibam aprofundar aquelas dimensões de
verdade, bem e beleza, a que dá acesso a palavra de Deus. Isto torna-se ainda
mais urgente, ao considerar os desafios que o novo milénio parece trazer
consigo: eles tocam de modo particular as regiões e as culturas de antiga
tradição cristã. Este cuidado deve considerar-se também um contributo
fundamental e original para o avanço da nova evangelização.
104. O pensamento filosófico é
frequentemente o único terreno comum de entendimento e diálogo com quem não
partilha a nossa fé. O movimento filosófico contemporâneo exige o empenhamento
solícito e competente de filósofos crentes que sejam capazes de individuar as
expectativas, possibilidades e problemáticas deste momento histórico.
Discorrendo à luz da razão e segundo as suas regras, o filósofo cristão, sempre
guiado naturalmente pela leitura superior que lhe vem da palavra de Deus, pode
criar uma reflexão que seja compreensível e sensata mesmo para quem ainda não
possua a verdade plena que a revelação divina manifesta. Este terreno comum de
entendimento e diálogo é ainda mais importante hoje, se se pensa que os
problemas mais urgentes da humanidade — como, por exemplo, o problema
ecológico, o problema da paz ou da convivência das raças e das culturas — podem
ter solução à luz duma colaboração clara e honesta dos cristãos com os fiéis
doutras religiões e com todos os que, mesmo não aderindo a qualquer crença
religiosa, têm a peito a renovação da humanidade. Afirmou-o o Concílio Vaticano
II: « Por nossa parte, o desejo de um tal diálogo, guiado apenas pelo amor pela
verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém: nem aqueles que
cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda conhecerem o seu Autor,
nem aqueles que se opõem à Igreja e, de várias maneiras, a perseguem ». (126)
Uma filosofia, na qual já resplandeça algo da verdade de Cristo, única resposta
definitiva aos problemas do homem, (127) será um apoio eficaz para aquela ética
verdadeira e simultaneamente universal de que, hoje, a humanidade tem
necessidade.
105. Não posso concluir esta carta
encíclica sem dirigir um último apelo, em primeiro lugar aos teólogos, para que prestem particular
atenção às implicações filosóficas da palavra de Deus e realizem uma reflexão
onde sobressaia a densidade especulativa e prática da ciência teológica. Desejo
agradecer-lhes o seu serviço eclesial. A estrita conexão entre a sabedoria
teológica e o saber filosófico é uma das riquezas mais originais da tradição
cristã no aprofundamento da verdade revelada. Por isso, exorto-os a recuperarem
e a porem em evidência o melhor possível a dimensão metafísica da verdade, para
desse modo entrarem num diálogo crítico e exigente quer com o pensamento
filosófico contemporâneo, quer com toda a tradição filosófica, esteja esta em
sintonia ou contradição com a palavra de Deus. Tenham sempre presente a
indicação dum grande mestre do pensamento e da espiritualidade, S. Boaventura,
que, ao introduzir o leitor na sua obra Itinerarium
mentis in Deum, convidava-o a ter consciência de que « a leitura não
é suficiente sem a compunção, o conhecimento sem a devoção, a investigação sem
o arrebatamento do enlevo, a prudência sem a capacidade de abandonar-se à
alegria, a actividade separada da religiosidade, o saber separado da caridade,
a inteligência sem a humildade, o estudo sem o suporte da graça divina, a
reflexão sem a sabedoria inspirada por Deus ». (128)
Dirijo o meu apelo também a quantos
têm a responsabilidade da formação
sacerdotal, tanto académica como pastoral, para que cuidem, com
particular atenção, da preparação filosófica daquele que deverá anunciar o
Evangelho ao homem de hoje, e mais ainda se se vai dedicar à investigação e ao
ensino da teologia. Procurem organizar o seu trabalho à luz das prescrições do
Concílio Vaticano II (129) e sucessivas determinações, que mostram a tarefa
indeclinável e urgente, que cabe a todos nós, de contribuir para uma genuína e
profunda comunicação das verdades da fé. Não se esqueça a grave
responsabilidade de uma preparação prévia e condigna do corpo docente,
destinado ao ensino da filosofia nos Seminários e nas Faculdades Eclesiásticas.
(130) É necessário que uma tal docência possua a conveniente preparação
científica, proponha de maneira sistemática o grande património da tradição
cristã, e seja efectuada com o devido discernimento face às exigências actuais
da Igreja e do mundo.
106. O meu apelo dirige-se ainda aos
filósofos e a quantos ensinam a filosofia, para que, na
esteira duma tradição filosófica perenemente válida, tenham a coragem de
recuperar as dimensões de autêntica sabedoria e de verdade, inclusive
metafísica, do pensamento filosófico. Deixem-se interpelar pelas exigências que
nascem da palavra de Deus, e tenham a força de elaborar o seu discurso racional
e argumentativo de resposta a tal interpelação. Vivam em permanente tensão para
a verdade e atentos ao bem que existe em tudo o que é verdadeiro. Poderão,
assim, formular aquela ética genuína de que a humanidade tem urgente
necessidade, sobretudo nestes anos. A Igreja acompanha com atenção e simpatia
as suas investigações; podem, pois, estar seguros do respeito que ela nutre
pela justa autonomia da sua ciência. De modo particular, quero encorajar os
crentes empenhados no campo da filosofia para que iluminem os diversos âmbitos
da actividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna mais segura
e perspicaz com o apoio que recebe da fé.
Não posso, enfim, deixar de dirigir
uma palavra também aos cientistas,
que nos proporcionam, com as suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do
universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes,
animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O
caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não
cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a
estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito
deve do seu progresso actual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus
esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se
unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e
imprescindível da pessoa humana. O cientista está bem cônscio de que « a busca
da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do
homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do
objecto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao
Mistério ». (131)
107. A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem,
que Cristo salvou no mistério do seu amor, e sobre a sua busca constante de
verdade e de sentido. Iludindo-o, vários sistemas filosóficos convenceram-no de
que ele é senhor absoluto de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o
seu destino e o seu futuro, confiando apenas em si próprio e nas suas forças.
Ora, esta nunca poderá ser a grandeza do homem. Para a sua realização, será
determinante apenas a opção de viver na verdade, construindo a própria casa à
sombra da Sabedoria e nela habitando. Só neste horizonte da verdade poderá
compreender, com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e
ao conhecimento de Deus como suprema realização de si mesmo.
108. Por último, o meu pensamento
dirige-se para Aquela que a oração da Igreja invoca como Sede da Sabedoria. A sua vida é uma
verdadeira parábola, capaz de iluminar a reflexão que desenvolvi. De facto,
pode-se entrever uma profunda analogia entre a vocação da bem-aventurada Virgem
Maria e a vocação da filosofia genuína. Como a Virgem foi chamada a oferecer
toda a sua humanidade e feminilidade para que o Verbo de Deus pudesse encarnar
e fazer-Se um de nós, também a filosofia é chamada a dar o seu contributo
racional e crítico para que a teologia, enquanto compreensão da fé, seja
fecunda e eficaz. E como Maria, ao prestar o seu consentimento ao anúncio de
Gabriel, nada perdeu da sua verdadeira humanidade e liberdade, assim também o
pensamento filosófico, quando acolhe a interpelação que recebe da verdade do
Evangelho, nada perde da sua autonomia, antes vê toda a sua indagação elevada à
mais alta realização. Os santos monges da antiguidade cristã tinham
compreendido bem esta verdade, quando designavam Maria como « a mesa
intelectual da fé ». (132) N'Ela, viam a imagem coerente da verdadeira
filosofia, e estavam convencidos de que deviam philosophari
in Maria.
Que a Sede da Sabedoria seja o porto
seguro para quantos consagram a sua vida à procura da sabedoria! O caminho para
a sabedoria, fim último e autêntico de todo o verdadeiro saber, possa ver-se
livre de qualquer obstáculo por intercessão d'Aquela que, depois de gerar a
Verdade e tê-La conservado no seu coração, comunicou-A para sempre à humanidade
inteira.
Dado em Roma, junto de S. Pedro,
no dia 14 de Setembro — Festa da Exaltação da Santa Cruz — de 1998, vigésimo
ano de Pontificado.
NOTAS
BIBLIOGRÁFICAS
(1) Na minha primeira encíclica, a Redemptor hominis, já tinha escrito: «
Tornámo-nos participantes de tal missão de Cristo profeta, e, em virtude desta
mesma missão e juntamente com Ele, servimos a verdade divina na Igreja. A
responsabilidade por esta verdade implica também amá-la e procurar obter a sua
mais exacta compreensão, a fim de a tornarmos mais próxima de nós mesmos e dos
outros, com toda a sua força salvífica, com o seu esplendor, com a sua
profundidade e simultaneamente a sua simplicidade » [N. 19: AAS 71 (1979), 306].
(2) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium
et spes, 16.
(3) Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 25.
(4) N. 4: AAS 85 (1993), 1136.
(5) Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
2.
(6) Cf. Const. dogm. sobre a fé
católica Dei Filius, III: DS 3008.
(7) Ibid.,
IV: DS 3015; citado também em
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 59.
(8) Const. dogm. sobre a revelação
divina Dei Verbum, 2.
(9) João Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de
Novembro de 1994), 10: AAS 87
(1995), 11.
(10) N. 4.
(11) N. 8.
(12) N. 22.
(13) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
4.
(14) Ibid., 5.
(15) O Concílio Vaticano I, ao qual
se refere a sentença anteriormente citada, ensina que a obediência da fé exige
o empenhamento da inteligência e da vontade: « Dado que o homem depende
totalmente de Deus, enquanto seu Criador e Senhor, e a razão criada está
submetida completamente à verdade incriada, somos obrigados, quando Deus Se
revela, a prestar-Lhe, mediante a fé, a plena submissão da nossa inteligência e
da nossa vontade » [Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008].
(16) Sequência, na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de
Cristo.
(17) Pensées (ed. L. Brunschvicg), 789.
(18) Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium
et spes, 22.
(19) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
2.
(20) Proémio e nn. 1 e 15: PL 158, 223-224.226.235.
(21) De vera religione, XXXIX, 72: CCL 32, 234.
(22) « Ut te semper desiderando
quærerent et inveniendo quiescerent »: Missale
Romanum.
(23) Aristóteles, Metafísica, I, 1.
(24) Confessiones, X, 23, 33: CCL
27,173.
(25) N. 34: AAS 85 (1993), 1161.
(26) Cf. João Paulo II, Carta ap. Salvifici doloris (11 de Fevereiro de
1984), 9: AAS 76 (1984), 209-210.
(27) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl.
sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra ætate, 2.
(28) Desenvolvo, há muito tempo,
esta argumentação, tendo-a expresso em diversas ocasiões: « "Quem é o
homem, e para que serve? E que bem ou que mal pode ele fazer?" (Sir 18, 8) (...) Estas perguntas estão no
coração de cada homem, como bem demonstra o génio poético de todos os tempos e
de todos os povos, que, quase como profecia da humanidade, repropõe
continuamente a séria pergunta que
torna o homem verdadeiramente tal. Exprimem a urgência de encontrar um porquê
da existência, de todos os seus instantes, tanto das suas etapas salientes e
decisivas como dos seus momentos mais comuns. Em tais perguntas, é testemunhada
a razão profunda da existência humana, pois nelas a inteligência e a vontade do
homem são solicitadas a procurar livremente a solução capaz de oferecer um
sentido pleno à vida. Estes interrogativos, portanto, constituem a expressão
mais elevada da natureza do homem; por conseguinte, a resposta a eles mede a
profundidade do seu empenho na própria existência. Em particular, quando o porquê das coisas é procurado a fundo em
busca da resposta última e mais exauriente, então a razão humana atinge o seu
vértice e abre-se à religiosidade. De facto, a religiosidade representa a
expressão mais elevada da pessoa humana, porque é o ápice da sua natureza
racional. Brota da profunda aspiração do homem à verdade, e está na base da
busca livre e pessoal que ele faz do divino » [Alocução da Audiência Geral de
quarta-feira, 19 de Outubro de 1983, 1-2: L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa, de 23 de Outubro de 1983), 12].
(29) « [Galileu] declarou
explicitamente que as duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca
contradizer-se, "procedendo igualmente do Verbo divino a Escritura santa e
a natureza, a primeira como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como
executora fidelíssima das ordens de Deus", segundo ele escreveu na sua
carta ao Padre Benedetto Castelli, a 21 de Dezembro de 1613. O Concílio
Vaticano II não se exprime diferentemente; retoma mesmo expressões semelhantes,
quando ensina: "A investigação metódica em todos os campos do saber,
quando levada a cabo (...) segundo as normas morais, nunca será realmente
oposta à fé, já que as realidades
profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus" (Gaudium et spes, 36). Galileu manifesta, na sua investigação
científica, a presença do Criador que o estimula, que Se antecipa às suas
intuições e as ajuda, operando no mais profundo do seu espírito » [João Paulo
II, Discurso à Pontifícia Academia das Ciências, a 10 de Novembro de 1979: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa, de
25 de Novembro de 1979), 6].
(30) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
4.
(31) Orígenes, Contra Celso 3, 55: SC 136, 130.
(32) Diálogo com Trifão, 8, 1: PG
6, 492.
(33) Stromata I, 18, 90, 1: SC
30, 115.
(34)
Cf. ibid. I, 16, 80, 5: SC 30, 108.
(35)
Cf. ibid. I, 5, 28, 1: SC 30, 65.
(36)
Ibid., VI, 7, 55, 1-2: PG 9, 277.
(37)
Ibid., I, 20, 100, 1: SC 30, 124.
(38) Santo Agostinho, Confessiones VI, 5, 7: CCL 27, 77-78.
(39) Cf. ibid. VII, 9, 13-14: CCL 27,
101-102.
(40) « Quid ergo Athenis et
Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ? » [De
præscriptione hereticorum, VII, 9: SC
46, 98].
(41) Cf. Congr. da Educação
Católica, Instr. sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10
de Novembro de 1989), 25: AAS 82
(1990), 617-618.
(42) Santo Anselmo, Proslogion, 1: PL 158, 226.
(43) Idem, Monologion, 64: PL 158, 210.
(44) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa contra gentiles, I, VII.
(45) « Cum enim gratia non tollat
naturam, sed perficiat » [Idem, Summa theologiæ,
I, 1, 8 ad 2].
(46) Cf. João Paulo II, Discurso aos
participantes no IX Congresso Tomista Internacional (29 de Setembro de 1990): L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28
de Outubro de 1990), 9.
(47) Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro de 1974),
8: AAS 66 (1974), 680.
(48) « Præterea, hæc doctrina per
studium acquiritur. Sapientia autem per infusionem habetur, unde inter septem
dona Spiritus Sancti connumeratur » [Summa
theologiæ, I, 1, 6].
(49) Ibid., II, II, 45, 1 ad 2; cf. também II, II, 45, 2.
(50) Ibid., I, II, 109, 1 ad 1, que cita a conhecida frase do
Ambrosiaster, In prima Cor 12,3: PL 17, 258.
(51) Leão XIII, Carta enc. ÆTERNI PATRIS (4 de Agosto de 1879): ASS 11 (1878-1879), 109.
(52) Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro de 1974),
8: AAS 66 (1974), 683.
(53) Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979),
15: AAS 71 (1979), 286.
(54) Cf. Pio XII, Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 566.
(55) Cf. Conc. Ecum. Vat. I,
Primeira const. dogm. sobre a Igreja de Cristo Pastor
TERNUS: DS 3070; Conc.
Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen
gentium, 25c.
(56) Cf. Sínodo de Constantinopla, DS 403.
(57) Cf. Concílio de Toledo I, DS 205; Concílio de Braga I, DS 459-460; Sisto V, Bula Cœli et terræ Creator (5 de Janeiro de
1586): Bullarium Romanum 44
(Roma, 1747), 176-179; Urbano VIII, Inscrutabilis
iudiciorum (1 de Abril de 1631): Bullarium
Romanum 61 (Roma, 1758), 268-270.
(58) Cf. Conc. Ecum. de Viena, Decr.
Fidei catholicæ: DS 902; Conc.
Ecum. Lateranense V, Bula Apostolici
regiminis: DS 1440.
(59) Cf. Theses a Ludovico Eugenio Bautain iussu sui Episcopi subscriptæ (8
de Setembro de 1840): DS 2751-2756;
Theses a Ludovico Eugenio Bautain ex mandato
S. Congr. Episcoporum et Religiosorum subscriptæ (26 de Abril de
1844): DS 2765-2769.
(60)
Cf. S. Congr. Indicis, Decr. Theses
contra traditionalismum Augustini Bonnety (11 de Junho de 1855): DS 2811-2814.
(61) Cf. Pio IX, Breve Eximiam tuam (15 de Junho de 1857): DS 2828-2831; Breve Gravissimas inter (11 de Dezembro de
1862): DS 2850-2861.
(62) Cf. S. Congr. do Santo Ofício,
Decr. Errores ontologistarum (18
de Setembro de 1861): DS 2841-2847.
(63) Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const.
dogm. sobre a fé católica Dei Filius,
II: DS 3004; e cân. 2-§1: DS 3026.
(64) Ibid., IV: DS 3015,
citado em Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et spes,
59.
(65) Conc. Ecum. Vat. I, Const.
dogm. sobre a fé católica Dei Filius,
IV: DS 3017.
(66) Cf. Carta enc. Pascendi dominici gregis (8 de Setembro de
1907): ASS 40 (1907), 596-597.
(67) Cf. Pio XI, Carta enc. Divini Redemptoris (19 de Março de 1937): AAS 29 (1937), 65-106.
(68) Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 562-563.
(69) Ibid.: o.c.,
563-564.
(70) Cf. João Paulo II, Const. ap. Pastor Bonus (28 de Junho de 1988) arts.
48-49: AAS 80 (1988), 873; Congr.
da Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo Donum veritatis (24 de Maio de 1990), 18: AAS 82 (1990), 1558.
(71) Cf. Instr. sobre alguns aspectos
da « teologia da libertação » Libertatis
nuntius (6 de Agosto de 1984), VII-X: AAS 76 (1984), 890-903.
(72) Com sua palavra clara e de
grande autoridade, o Concílio Vaticano I tinha já condenado este erro, ao
afirmar, por um lado, que, « relativamente à fé (...), a Igreja Católica
preconiza que é uma virtude sobrenatural pela qual, sob a inspiração divina e
com a ajuda da graça, acreditamos que são verdadeiras as coisas por Ele
reveladas, não por causa da verdade intrínseca das coisas percebida pela luz
natural da razão, mas por causa da autoridade do próprio Deus que as revela, o
qual não pode enganar-Se nem enganar » [Const. dogm. sobre a doutrina católica Dei Filius, III: DS 3008; e cân. 3-§ 2: DS 3032]. E, por outro lado, o Concílio
declarava que a razão nunca « chega a ser capaz de penetrar [tais mistérios],
nem as verdades que formam o seu objecto específico » [ibid., IV: DS 3016]. Daqui tirava a seguinte conclusão prática: « Os
fiéis cristãos não só não têm o direito de defender, como legítimas conclusões
da ciência, as opiniões reconhecidas contrárias à doutrina da fé, especialmente
quando estão condenadas pela Igreja, mas são estritamente obrigados a
considerá-las como erros, que apenas têm uma ilusória aparência de verdade » [ibid., IV: DS 3018].
(73) Cf. nn. 9-10.
(74) Const. dogm. sobre a revelação
divina Dei Verbum, 10.
(75)
Ibid., 21.
(76)
Cf. ibid., 10.
(77) Cf. Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 565-567.571-573.
(78) Cf. Carta enc. ÆTERNI PATRIS (4 de Agosto de 1879): ASS 11 (1878-1879), 97-115.
(79)
Ibid.: o.c., 109.
(80)
Cf. nn. 14-15.
(81)
Cf. ibid., 20-21.
(82) Ibid., 22; cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 8:
AAS 71 (1979), 271-272.
(83) Decr. sobre a formação
sacerdotal Optatam totius, 15.
(84) Cf. João Paulo II, Const. ap. Sapientia christiana (15 de Abril de
1979), arts. 79-80: AAS 71
(1979), 495-496; Exort. ap. pós-sinodal Pastores
dabo vobis (25 de Março de 1992), 52: AAS 84 (1992), 750-751. Vejam-se também algumas reflexões
sobre a filosofia de S. Tomás: Discurso na Pontifícia Universidade de S. Tomás
(17 de Novembro de 1979): L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 25 de Novembro de 1979), 1; Discurso aos
participantes no VIII Congresso Tomista Internacional (13 de Setembro de 1980):
L'Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 28 de Setembro de 1980), 4; Discurso aos participantes no
Congresso Internacional da Sociedade S. Tomás de Aquino sobre « A doutrina
tomista da alma » (4 de Janeiro de 1986): L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 12 de Janeiro de 1986), 9. E ainda: S.
Congr. da Educação Católica, Ratio
fundamentalis institutionis sacerdotalis (6 de Janeiro de 1970),
70-75: AAS 62 (1970), 366-368;
Decr. Sacra theologia (20 de
Janeiro de 1972): AAS 64 (1972),
583-586.
(85) Cf. Const. past. sobre a Igreja
no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
57.62.
(86) Cf. ibid., 44.
(87) Cf. Bula Apostolici regimini sollicitudo, Sessão
VIII: Conc. Rcum. Decreta (1991),
605-606.
(88) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
10.
(89) S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ, II-II, 5, 3 ad 2.
(90) « A busca das condições, nas
quais o homem faz por si próprio as primeiras perguntas fundamentais acerca do
sentido da vida, do fim que lhe deseja dar e daquilo que o espera depois da
morte, constitui para a Teologia Fundamental o preâmbulo necessário, para que,
também hoje, a fé possa mostrar plenamente o caminho a uma razão em busca
sincera da verdade » [João Paulo II, Carta aos participantes no Congresso
Internacional de Teologia Fundamental por ocasião do 125o aniversário da
promulgação da Const. dogm. « Dei Filius » (30 de Setembro de 1995), 4: L'Osservatore Romano, (ed. portuguesa de 7
de Outubro de 1995), 10].
(91)
Ibid., 4: o.c., 10.
(92) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium
et spes, 15; Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 22.
(93) S. Tomás de Aquino, De Cœlo 1, 22.
(94) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium
et spes, 53-59.
(95) S. Agostinho, De prædestinatione Sanctorum 2, 5: PL 44, 963.
(96) Idem, De fide, spe et caritate, 7: CCL 64, 61.
(97) Cf. Conc. Ecum. de Calcedónia, Symbolum, definitio: DS 302.
(98) Cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979),
15: AAS 71 (1979), 286-289.
(99) Veja-se, por exemplo, S. Tomás
de Aquino, Summa theologiæ, I,
16, 1; S. Boaventura, Coll. in Hex.,
3, 8, 1.
(100) Const. past. sobre a Igreja no
mundo contemporâneo Gaudium et spes,
15.
(101) Cf. João Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993),
57-61: AAS 85 (1993), 1179-1182.
(102) Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const.
dogm. sobre a fé católica Dei Filius,
IV: DS 3016.
(103) Cf. Conc. Ecum. Lateranense
IV, De errore abbatis Ioachim,
II: DS 806.
(104) Cf. Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a revelação divina Dei
Verbum, 24; Decr. sobre a formação sacerdotal Optatam totius, 16.
(105) Cf. João Paulo II, Carta enc. Evangelium vitæ (25 de Março de 1995), 69:
AAS 87 (1995), 481.
(106) Neste mesmo sentido, escrevi
na minha primeira encíclica, comentando a frase « conhecereis a verdade, e a
verdade tornar-vos-á livres » do Evangelho de S. João (8, 32): « Estas palavras
encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma advertência: a
exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma
autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer
verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade
que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda
hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que
traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem
daquilo que limita, diminui e como que despedaça pelas próprias raízes essa
liberdade, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência » [Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979),
12: AAS 71 (1979), 280-281].
(107) Discurso de abertura do
Concílio (11 de Outubro de 1962): AAS 54 (1962), 792.
(108) Congr. da Doutrina da Fé,
Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo Donum
veritatis (24 de Maio de 1990), 7-8: AAS 82 (1990), 1552-1553.
(109) Escrevi na encíclica Dominum et vivificantem, comentando Jo 16, 12-13: « Jesus apresenta o Consolador,
o Espírito da Verdade, como Aquele que "ensinará e recordará", como
Aquele que "dará testemunho" d'Ele; agora diz: "Ele vos guiará
para a verdade total". Este "guiar para a verdade total", em
relação com aquilo que "os Apóstolos por agora não estão em condições de
compreender", está necessariamente em ligação com o despojamento de
Cristo, por meio da sua paixão e morte de cruz, que então, quando Ele
pronunciava estas palavras, já estava iminente. Mas, em seguida, torna-se bem
claro que aquele "guiar para a verdade total" tem a ver não apenas
com o scandalum crucis, mas
também com tudo o que Cristo "fez e ensinou" (Act 1, 1). Com efeito, o mysterium Christi na sua globalidade exige
a fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente na realidade do
mistério revelado. O "guiar para a verdade total" realiza-se, pois,
na fé e mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e é fruto da sua acção no
homem. O Espírito Santo deve ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do
espírito humano » [n. 6: AAS 78
(1986), 815-816].
(110) Cf. Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm. sobre a revelação divina Dei
Verbum, 13.
(111) Cf. Pontifícia Comissão
Bíblica, Instr. sobre a verdade histórica dos Evangelhos (21 de Abril de 1964):
AAS 56 (1964), 713.
(112) « É claro que a Igreja não
pode estar ligada a qualquer sistema filosófico efémero; aquelas noções e
termos que, segundo o consenso geral, foram compostos ao longo de vários
séculos pelos doutores católicos para se chegar a um certo conhecimento e
compreensão do dogma, sem dúvida que não se apoiam sobre fundamento tão caduco.
Apoiam-se, ao contrário, em princípios e noções ditadas por um verdadeiro
conhecimento da criação; e, para deduzirem estes conhecimentos, a verdade
revelada, como se fosse uma estrela, iluminou a mente humana por meio da
Igreja. Por isso, não há de que maravilhar-se se alguma destas noções acabou
não apenas por ser usada em Concílios Ecuménicos, mas foi aí de tal modo
ratificada que não é lícito abandoná-la » [Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 566-567; cf. Comissão
Teológica Internacional, Doc. Interpretationis
problema (Outubro de 1989): Enchiridion
Vaticanum, XI, nn. 2717-2811].
(113) « Quanto ao próprio
significado das fórmulas dogmáticas, este permanece, na Igreja, sempre
verdadeiro e coerente, mesmo quando se torna mais claro e melhor compreendido.
Por isso, os fiéis devem rejeitar a opinião segundo a qual as fórmulas
dogmáticas (ou uma parte delas) não podem manifestar exactamente a verdade, mas
apenas aproximações variáveis que, de certa forma, não passam de deformações e
alterações da mesma » [S. Congr. da Doutrina da Fé, Decl. sobre a defesa da
doutrina católica acerca da Igreja Mysterium
Ecclesiæ (24 de Junho de 1973), 5: AAS
65 (1973), 403].
(114)
Cf. Congr. S. Officii, Decr. Lamentabili (3 de Julho
de 1907), 26: ASS 40 (1907), 473.
(115) Cf. João Paulo II, Discurso na
Pontifícia Universidade de S. Tomás (17 de Novembro de 1979), 6: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25
de Novembro de 1979), 8.
(116) N. 32: AAS 85 (1993), 1159-1160.
(117) Cf. João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendæ (16 de Outubro de
1979), 30: AAS 71 (1979),
1302-1303; Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo
Donum veritatis (24 de Maio de
1990), 7: AAS 82 (1990),
1552-1553.
(118) Cf. João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendæ (16 de Outubro de
1979), 30: AAS 71 (1979),
1302-1303.
(119)
Cf. ibid., 22: o.c., 1295-1296.
(120)
Cf. ibid., 7: o.c., 1282.
(121)
Cf. ibid., 59: o.c., 1325.
(122) Conc. Ecum. Vat. I, Const.
dogm. sobre a fé católica Dei Filius,
IV: DS 3019.
(123) « Ninguém pode tratar a
teologia como se fosse uma simples colectânea dos próprios conceitos pessoais;
mas cada um deve ter a consciência de permanecer em íntima união com aquela
missão de ensinar a verdade, de que é responsável a Igreja » [João Paulo II,
Carta enc. Redemptor hominis (4
de Março de 1979), 19: AAS 71
(1979), 308].
(124) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl.
sobre a liberdade religiosa Dignitatis
humanæ, 1-3.
(125) Cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de
1975), 20: AAS 68 (1976), 18-19.
(126) Const. past. sobre a Igreja no
mundo contemporâneo Gaudium et spes,
92.
(127) Cf. ibid., 10.
(128) Prólogo, 4: Opera omnia, t. V (Florença 1891), 296.
(129) Cf. Decr. sobre a formação
sacerdotal Optatam totius, 15.
(130) Cf. João Paulo II, Const. ap. Sapientia christiana (15 de Abril de
1979), arts. 67-68: AAS 71
(1979), 491-492.
(131) João Paulo II, Discurso na
Universidade de Cracóvia, por ocasião dos 600 anos da Alma Mater Jaghelónica (8
de Junho de 1997), 4: L'Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 21 de Junho de 1997), 6.
(132) « 'e noerà tes pìsteos tràpeza
» [Pseudo-Epifânio, Homilia em louvor de
Santa Maria Mãe de Deus: PG 43,
493] .
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