A existência do Diabo
Audiência do Papa Paulo VI do dia 15
de novembro de 1972 ´ Alocução ´Livrai´nos do mal´
Publicado no L’Osservatore Romano, ed.
port. em 24/11/1972.
´Atualmente, quais são as maiores necessidades da
Igreja? Não deveis considerar a nossa resposta simplista, ou até supersticiosa
e irreal: uma das maiores necessidades é a defesa daquele mal, a que chamamos
Demônio. Antes de esclarecermos o nosso pensamento, convidamos o vosso a abrir´se
à luz da fé sobre a visão da vida humana, visão que, deste observatório, se
alarga imensamente e penetra em singulares profundidades. E, para dizer a
verdade, o quadro que somos convidados a contemplar com realismo global é muito
lindo. É o quadro da criação, a obra de Deus, que o próprio Deus, como espelho
exterior da sua sabedoria e do Seu poder, admirou na sua beleza substancial
(cf. Gn 1,10 ss.). Além disso, é muito interessante o quadro da história
dramática da humanidade, da qual emerge a da redenção, a de Cristo, da nossa
salvação, com os seus magníficos tesouros de revelação, de profecia, de
santidade, de vida elevada a nível sobrenatural, de promessas eternas (cf. Ef
1,10). Se soubermos contemplar este quadro, não poderemos deixar de ficar encantados
(Santo Agostinho, Solilóquios); tudo tem um sentido, tudo tem um fim, tudo tem
uma ordem e tudo deixa entrever uma Presença´Transcendência, um Pensamento, uma
Vida e, finalmente, um Amor, de tal modo que o universo, por aquilo que é e por
aquilo que não é, se apresenta como uma preparação entusiasmante e inebriante
para alguma coisa ainda mais bela e mais perfeita (cf. ICor 2,9; Rm 8,19´23). A
visão cristã do cosmo e da vida é, portanto, triunfalmente otimista; e esta
visão justifica a nossa alegria e o nosso reconhecimento pela vida, motivo por
que, celebrando a glória de Deus, cantamos a nossa felicidade.
Ensinamento Bíblico
Esta visão, porém, é completa, é exata? Não nos
importamos, porventura com as deficiências que se encontram no mundo, com o
comportamento anormal das coisas em relação à nossa existência, com a dor, com
a morte, com a maldade, com a crueldade, com o pecado, numa palavra, com o mal?
E não vemos quanto mal existe no mundo especialmente quanto à moral, ou seja,
contra o homem e, simultaneamente, embora de modo diverso, contra Deus? Não
constitui isto um triste espetáculo, um mistério inexplicável? E não somos nós,
exatamente nós, cultores do Verbo, os cantores do Bem, nós crentes, os mais
sensíveis, os mais perturbados, perante a observação e a prática do mal?
Encontramo´lo no reino da natureza, onde muitas das suas manifestações, segundo
nos parece, denunciam a desordem. Depois, encontramo´lo no âmbito humano, onde
se manifestam a fraqueza, a fragilidade, a dor, a morte, e ainda coisas piores;
observa´se uma dupla lei contrastante, que, por um lado, quereria o bem, e, por
outro, se inclina para o mal, tormento este que São Paulo põe em humilde
evidência para demonstrar a necessidade e a felicidade de uma graça salvadora,
ou seja, da salvação trazida por Cristo (Rm 7); já o poeta pagão Ovidio tinha
denunciado este conflito interior no próprio coração do homem: ´Video meliora
proboque, deteriora sequor´(Ovídio Met.7, 19). Encontramos o pecado, perversão
da liberdade humana e causa profunda da morte, porque é um afastamento de Deus,
fonte da vida (cf. Rm 5,12) e, também, a ocasião e o efeito de uma intervenção,
em nós e no nosso mundo, de um agente obscuro e inimigo, o Demônio. O mal já
não é apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual,
pervertido e perversor. Trata´se de uma realidade terrível, misteriosa e
medonha. Sai do âmbito dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos quem se recusa
a reconhecer a existência desta realidade; ou melhor, quem faz dela um princípio
em si mesmo, como se não tivesse, como todas as criaturas, origem em Deus, ou a
explica como uma pseudo´realidade, como uma personificação conceitual e
fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças. O problema do mal,
visto na sua complexidade em relação à nossa racionalidade, torna´se uma
obsessão. Constituí a maior dificuldade para a nossa compreensão religiosa do
cosmo. Foi por isso que Santo Agostinho penou durante vários anos: ´Quaerebam
unde malum, et non erat exitus´, procurava de onde vinha o mal e não encontrava
a explicação. (Confissões, VII,5 ss) Vejamos, então, a importância que adquire
a advertência do mal para a nossa justa concepção; é o próprio Cristo quem nos
faz sentir esta importância. Primeiro, no desenvolvimento da história, haverá
quem não recorde a página, tão densa de significado, da tríplice tentação? E
ainda, em muitos episódios evangélicos, nos quais o Demônio se encontra com o
Senhor e aparece nos seus ensinamentos (cf. Mt 1,43)? E como não haveríamos de
recordar que Jesus Cristo, referindo´se três vezes ao Demônio como seu
adversário, o qualifica como ´príncipe deste mundo´ (Jo 12,31; 14,30; 16,11)? E
a ameaça desta nociva presença é indicada em muitas passagens do Novo
Testamento. São Paulo chama´lhe ´deus deste mundo´ (2Cor 4,4) e previne´nos
contra as lutas ocultas, que nós cristãos devemos travar não só com o Demônio,
mas com a sua tremenda pluralidade: ´Revesti´vos da armadura de Deus para que
possais resistir às ciladas do Demônio. Porque nós não temos de lutar (só)
contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, contra os Dominadores
deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares´ (Ef
6,11´12). Diversas passagens do Evangelho dizem´nos que não se trata de um só
demônio, mas de muitos (cf. Lc 11,21; Mc 5,9), um dos quais é o principal:
Satanás, que significa o adversário, o inimigo; e, ao lado dele, estão muitos
outros, todos criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas;
constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual
conhecemos pouco (cf. DS 800).
O Inimigo Oculto
Conhecemos, todavia, muitas coisas deste mundo
diabólico, que dizem respeito à nossa vida e a toda a história humana. O
Demônio é a origem da primeira desgraça da humanidade; foi o tentador pérfido e
fatal do primeiro pecado, o pecado original (cf. Gn 3; Sb 1,24). Com aquela
falta de Adão, o Demônio adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a
redenção de Cristo nos pode libertar. Trata´se de uma história que ainda hoje
existe: recordemos os exorcismo do batismo e as freqüentes referências da
Sagrada Escritura e da Liturgia ao agressivo e opressivo ´domínio das trevas´
(Lc 22,53). Ele é o inimigo número um, o tentador por excelência. Sabemos,
portanto, que este ser mesquinho, perturbador, existe realmente e que ainda
atua com astúcia traiçoeira; é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na
história humana. Deve´se recordar a significativa parábola evangélica do trigo
e da cizânia, síntese e explicação do ilogismo que parece presidir às nossas
contrastantes vicissitudes: ´Inimicus homo hoc fecit´ (Mt 13,2). É o assassino
desde o princípio... e ´pai da mentira´, como o define Cristo (cf. Jo,44´45); é
o insidiador sofista do equilíbrio moral do homem. Ele é o pérfido e astuto
encantador, que sabe insinuar´se em nós através dos sentidos, da fantasia, da
concupiscência, da lógica utópica, ou de desordenados contatos sociais na
realização de nossa obra, para introduzir neles desvios, tão nocivos quanto, na
aparência, conformes às nossas estruturas físicas ou psíquicas, ou às nossas
profundas aspirações instintivas. Este capítulo, relativo ao Demônio e ao
influxo que ele pode exercer sobre cada pessoa, assim como sobre comunidades,
sobre inteiras sociedades, ou sobre acontecimentos, é um capitulo muito
importante da doutrina católica, que deve ser estudado novamente, dado que hoje
o é pouco. Algumas pessoas julgam encontrar nos estudos da psicanálise ou da
psiquiatria, ou em práticas evangélicas, no principio da sua vida pública, de
espiritismo, hoje tão difundidas em alguns países, uma compensação suficiente.
Receia´se cair em velhas teorias maniqueístas, ou em divagações fantásticas e
supersticiosas. Hoje, algumas pessoas preferem mostrar´se fortes, livres de
preconceitos, assumir ares de positivistas, mas depois dão crédito a muitas
superstições de magia ou populares, ou pior, abrem a própria alma ´ a própria
alma batizada, visitada tantas vezes pela presença eucarística e habitada pelo
Espírito Santo ´ às experiências licenciosas dos sentidos, às experiências
deletérias dos estupefacientes, assim como às seduções ideológicas dos erros na
moda, fendas estas por onde o maligno pode facilmente penetrar e alterar a
mentalidade humana. Não quer dizer que todo o pecado seja devido diretamente à
ação diabólica; mas também é verdade que aquele que não vigia, com certo rigor
moral, a si mesmo (cf. Mt 12,45; Ef 6,11), se expõe ao influxo do ´mysterium
iniquitatis´, ao qual São Paulo se refere (2Ts 2,3´12) e que torna problemática
a alternativa da nossa salvação. A nossa doutrina torna´se incerta, obscurecida
como está pelas próprias trevas que circundam o Demônio. Mas a nossa
curiosidade, excitada pela certeza da sua doutrina múltipla, torna´se legitima
com duas perguntas: Há sinais da presença da ação diabólica e quais são eles?
Quais são os meios de defesa contra um perigo tão traiçoeiro?
A Ação do Demônio
A resposta à primeira pergunta, requer muito
cuidado embora os sinais do Maligno às vezes pareçam tornar´se evidentes
(Tertuliano, Apologia, 23). Podemos admitir a sua atuação sinistra onde a
negação de Deus se torna radical, sutil ou absurda; onde o engano se revela
hipócrita, contra a evidência da verdade; onde o amor é anulado por um egoísmo
frio e cruel; onde o nome de Cristo é empregado com ódio consciente e rebelde
(cf. ICor 16,22; 12,3); onde o espírito do Evangelho é falsificado e
desmentido; onde o desespero se manifesta como a última palavra, etc. Mas é um
diagnóstico demasiado amplo e difícil, que agora não ousamos aprofundar nem
autenticar; que não é desprovido de dramático interesse para todos, e ao qual
até a literatura moderna dedicou páginas famosas (*). O problema do mal
continua a ser um dos maiores e permanentes problemas para o espírito humano,
até depois da resposta vitoriosa que Jesus Cristo dá a respeito dele. ´Sabemos
´ escreve o evangelista São João ´ que todo aquele que foi gerado por Deus
guarda´o, e o Maligno não o toca´ (IJo 5,19).
A Defesa do Cristão
A outra pergunta, que defesa, que remédio, há para combater a ação do Demônio, a resposta é mais fácil de ser formulada, embora seja difícil pô´la em prática. Poderemos dizer que tudo aquilo que nos defende do pecado nos protege, por isso mesmo, contra o inimigo invisível. A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza. E, depois, todos devem recordar o que a pedagogia apostólica simbolizou na armadura de um soldado, ou seja, as virtudes que podem tornar o cristão invulnerável (cf. Rm 13,13; Ef 6,11´14´17; lTs 5,8). O cristão deve ser militante; deve ser vigilante e forte (lPd 5,8); e algumas vezes, deve recorrer a algum exército ascético especial, para afastar determinadas invasões diabólicas; Jesus ensina´o, indicando o remédio ´na oração e no jejum´ (Mc 9,29). E o apóstolo indica a linha mestra que se deve seguir: ´Não te deixes vencer pelo mal; vence o mal com o bem´ (Rm 12,21; Mt 13,29).
Conscientes, portanto, das presentes adversidades
em que hoje se encontram as almas, a Igreja e o mundo, procuraremos dar sentido
e eficácia à usual invocação da nossa oração principal: ´Pai nosso...
livrai´nos do mal´.
Contribua para isso a nossa Bênção apostólica.
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Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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