CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII
EVANGELII PRAECONES
SOBRE O FOMENTO DAS MISSÕES
Aos
veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos,
Bispos e outros Ordinários locais
em paz e
comunhão com a Sé Apostólica
INTRODUÇÃO
1. Ao
decorrer o vigésimo quinto aniversário da publicação da encíclica "Rerum
Ecclesiae",(1)
em que nosso predecessor de imortal memória Pio XI procurou com normas
sapientíssimas promover o desenvolvimento das missões católicas, de novo se
apresentam ao nosso espírito, de modo vivíssimo, os arautos do evangelho, que
nos imensos campos das missões se afadigam "para que a palavra de Deus se
propague e seja glorificada" (2Ts 3,1). E, ao considerarmos quão grande
progresso neste intervalo de tempo obteve esta tão santa causa, invade-nos
grande alegria. Como tivemos ocasião de lembrar em 24 de junho de 1944, falando
aos diretores das Pontifícias Obras Missionárias, "a atividade
missionária, tanto nos países já iluminados pela luz do evangelho, como no
próprio campo das Missões, atingiu tal intensidade, tal amplitude externa e tal
vigor interno, como não se encontram talvez em nenhuma época da história das
missões".(2)
2.
Parece-nos contudo sumamente oportuno nestes tempos procelosos e ameaçadores,
em que muitos povos se sentem divididos por interesses opostos, recomendar de
novo a causa das missões, pois os pregoeiros do evangelho são mensageiros da
bondade humana e cristã, e a todos exortam à fraternidade e compreensão mútua,
capaz de superar os conflitos dos povos e as fronteiras das nações.
3. Nesse
sentido dizíamos, entre outras coisas, na citada alocução,: "...O vosso
caráter internacional e a vossa colaboração fraterna colocam em plena luz
aquele sinal distintivo da Igreja católica, que é a negação e contradição viva
da discórdia em que se agitam e se debatem as nações, queremos dizer, a
universalidade da fé e do amor, que está acima de todos os campos de batalha e
de todas as fronteiras, acima de todos os continentes e de todos os oceanos,
universalidade que vos incita e estimula a atingir a suspirada meta de fazer
coincidir com os confins do mundo os confins do reino de Deus".(3)
4. Tomando
ocasião dos cinco lustros decorridos desde a publicação da encíclica Rerum
Ecclesiae, é com verdadeiro prazer que tributamos merecidos louvores ao
fecundo trabalho realizado, e que exortamos a todos a continuarem com renovado
entusiasmo a grande obra encetada. A todos, isto é, aos nossos veneráveis
irmãos no episcopado, aos missionários, aos sacerdotes e aos fiéis, tanto aos
que trabalham nos territórios de missões como aos que em qualquer parte da
terra com suas orações, com a educação e o auxílio que prestam aos candidatos
às missões, ou, finalmente, com suas esmolas, colaboram nesta obra
importantíssima.
1.
Progressos
5. Em
primeiro lugar compraz-nos recordar brevemente os progressos obtidos. No ano de
1926 as missões eram 400, atualmente são perto de 600; o número dos habitantes
católicos desses territórios não chegava a 15 milhões, enquanto hoje atinge
perto de 28 milhões. Os sacerdotes, estrangeiros e nativos, eram então cerca de
14.800, hoje ultrapassam 26.800. Naquela data eram estrangeiros todos os bispos
missionários; decorridos 25 anos, 88 missões estão confiadas ao clero nativo e,
com o estabelecimento, em muitas regiões, da hierarquia eclesiástica, e a
nomeação de bispos indígenas, manifesta-se mais claramente que a Igreja de
Jesus Cristo é verdadeiramente católica e não se pode considerar como
estrangeira em nenhuma parte do mundo.
6. Para
aduzir alguns exemplos: foi constituída, segundo as normas canônicas, a
hierarquia eclesiástica na China e em várias regiões da África; celebraram-se
três concílios plenários de suma importância, o primeiro na Indochina em 1934,
o segundo na Austrália em 1937, o terceiro na Índia, no ano passado; os
seminários menores multiplicaram-se enormemente; os alunos dos seminários
maiores, apenas 1770 vinte e cinco anos atrás, são hoje 4.300; construíram-se
muitos seminários regionais; foi fundado em Roma, junto ao Colégio Urbano da
Propagação da Fé, o "Instituto missionário"; em Roma e em outras
partes, foram inauguradas várias cátedras de missiologia; igualmente em Roma,
foi fundado o Colégio de S. Pedro, no qual sacerdotes indígenas completam com
maior esmero a sua formação nas ciências sagradas, nas virtudes e no
apostolado; foram fundadas nas missões duas universidades; os ginásios ou colégios
superiores, que antes eram cerca de 1.600, hoje passam de 5.000; as escolas
primárias e secundárias quase duplicaram de número; e o mesmo se pode afirmar
dos ambulatórios ou dispensários e hospitais, em que se atende a todo o gênero
de doentes, até mesmo aos leprosos. Podem-se enumerar ainda os seguintes dados:
a União missionária do clero nestes 25 anos tomou novo impulso; iniciou-se a
Agência "Fides", com o encargo de obter, selecionar e divulgar
notícias de interesse religioso; quase em toda parte aumentam e se espalham com
profusão livros e revistas sobre as missões; não poucos foram os Congressos
missionários realizados, entre os quais o de Roma, na segunda metade do ano
santo, que mostrou esplendidamente quanto se tem feito no setor missionário; não
há muito celebrou-se com grande concorrência e muita piedade o congresso
eucarístico de Kumasi, na Costa do Ouro (África); em favor da Obra da Santa
Infância designamos um dia especial cada ano para orações e coleta de esmolas.(4)
Todos esses fatos demonstram claramente que o apostolado missionário se adapta
eficaz e oportunamente às novas circunstâncias e às crescentes necessidades dos
tempos.
7. Nem se
há de passar em silêncio que, nesses vinte e cinco anos, foram constituídas
cinco novas delegações apostólicas dependentes da Sagrada Congregação da
Propagação da Fé, além dos muitos territórios de missões sujeitos aos núncios e
internúncios apostólicos. Com prazer atestamos que da presença e operosidade
desses prelados já se colheram abundantes frutos, principalmente no sentido de
se coordenarem melhor os trabalhos dos missionários. Para isso contribuíram
grandemente esses nossos legados, já visitando cada uma das missões, já tomando
parte, com autoridade nossa, nas reuniões episcopais, a fim de fazerem
convergir para utilidade comum a prudência e experiência de cada um dos
ordinários, deliberando conjuntamente sobre os meios de apostolado mais
realizáveis e eficazes. Essa fraternidade de fé e de ação teve também outro
resultado: o de elevar a estima da religião cristã por parte das autoridades
civis e dos infiéis.
8. O que
resumidamente expusemos sobre os progressos obtidos pela causa missionária
nesses 25 anos foi-nos dado contemplá-lo no decurso do ano santo, ao confluírem
a Roma, para impetrar a bênção de Deus e nossa, multidões de fiéis das
longínquas plagas agora evangelizadas. Todos esses progressos nos impelem, com
o apóstolo, quando escrevia aos romanos, a desejar também nós... "conceder
graças espirituais que vos confirmem, isto é, consolarmo-nos em vós, por causa
da fé que nos é comum" (Rm 1,11-12).
9.
Parece-nos ouvir o divino Mestre repetir a todos aquela consoladora exortação:
"Levantai os olhos e contemplai os campos, que começam a alvejar para a
ceifa" (Jo 4,35). E à insuficiência dos arautos da doutrina cristã para
atenderem às necessidades atuais das missões, corresponde outra recomendação do
divino Redentor: "A messe é deveras grande e os operários poucos. Rogai ao
Senhor que envie operários à sua messe" (Mt 9,37-38).
10. Com
imenso prazer reconhecemos que vai felizmente crescendo, com grande esperança
para a Igreja, o número daqueles que se sentem divinamente inspirados para
propagar o evangelho em todas as regiões da terra; mas muitíssimo falta ainda,
e, portanto, muito resta que pedir a Deus. Considerando os inumeráveis povos
ainda fora do único redil e do único porto de salvação, dirigimos ao supremo
Príncipe dos pastores a súplica do Eclesiástico: "Assim como... perante
eles fostes glorificado em nós, assim perante nós vós sereis exaltado neles,
para que vos conheçam como nós conhecemos e saibam que não existe Deus senão
vós" (Eclo 36,4-5).
2. Perseguições
11. Esses
progressos salutares da causa missionária são fruto não só de imensos trabalhos
dos semeadores da palavra divina, mas também de muito sangue derrama do em
generoso martírio. Não faltaram, nesses 25 anos, terríveis perseguições à Igreja
nalgumas nações, em que ela se encontrava em seus primórdios; nem faltam hoje
regiões do extremo Oriente purpureadas no sangue de mártires. Chegam-nos
notícias de que não poucos fiéis, como também religiosas, missionários,
sacerdotes indígenas e até alguns bispos - precisamente porque se mantiveram e
se mantêm heroicamente constantes na própria fé - foram expulsos de suas casas
e privados de seus bens. Uns andam passando fome no exílio, outros estão
encerrados em prisões ou em campos de concentração, outros ainda foram
cruelmente trucidados.
12.
Enche-se de indizível tristeza o nosso coração, ao pensarmos nas angústias, nos
sofrimentos e na morte desses queridíssimos filhos. Acompanhamo-los não só com
paternal amor, mas com paterna veneração, pois sabemos que o altíssimo ofício
de missionário é muitas vézes exaltado à dignidade do martírio. Jesus Cristo, o
primeiro mártir, predisse: "Se me perseguiram, perseguir-vosão também a
vós" (Jo 15,20), "sereis oprimidos neste mundo, mas tende confiança,
eu venci o mundo" (Jo 16,33), "se o grão de trigo lançado à terra não
morrer, ficará só; mas se morrer produzirá muito fruto" (Jo
12,24-25).
13. Os
arautos e pregoeiros da doutrina e moral cristãs, que longe dos lares pátrios
tombam feridos de morte no desempenho do seu santíssimo ministério, são como
sementes, das quais, a um sinal de Deus, hão de germinar frutos
abundantíssimos. Por isso s. Paulo afirmava: "Gloriamo-nos das
tribulações" (Rm 5,3), e S. Cipriano, bispo mártir, consolava e exortava
os cristãos do seu tempo com estas palavras: "O Senhor quis que nos
alegrássemos e exultássemos nas perseguições, porque nas perseguições se
concedem coroas de fé, se provam os soldados de Deus e se abrem aos mártires as
portas do céu. Não foi para pensar só na paz que demos o nosso nome à milícia
de Deus, nem para afastar e rejeitar a luta, uma vez que o Senhor foi o
primeiro a exercitar-se nela, como mestre de humildade, paciência e sofrimento,
cumprindo ele primeiro o que nos ensinava, e sofrendo primeiro o que nos exortava
a sofrermos".(5)
14. Também
os semeadores do evangelho, que hoje se afadigam em plagas longínquas,
propugnam a mesma causa, que se propugnava na primitiva Igreja. Encontram-se
quase nas mesmas condições em que se encontravam em Roma os que - juntamente
com os príncipes dos apóstolos, Pedro e Paulo - introduziram o evangelho na
cidadela do império romano. Quem quer que reflita que a Igreja naqueles
primórdios estava desprovida de qualquer poderio humano e era ademais oprimida
de calamidades e perseguições não pode deixar de admirar como um punhado inerme
de cristãos conseguiu vencer o maior poder que porventura houve na terra. O que
então aconteceu, sucederá também agora. Como o jovem Davi, confiado mais no
auxílio divino do que na sua funda, prostrou o gigante Golias envolto na
armadura de ferro, assim a Igreja instituída por Jesus Cristo não poderá nunca
ser vencida por qualquer poder da terra, mas há de superar impávida todas as
perseguições. Sabemos que esta força inquebrantável tem sua origem na
indefectível promessa divina; não podemos porém deixar de manifestar nosso
agradecimento a todos aqueles que muito destemidamente testemunharam a fé em
Jesus Cristo e na sua Igreja, coluna e fundamento da verdade (cf. 1Tm 3,5), e
exortamo-los a que se mantenham firmes no caminho tomado.
15. De tal
fortaleza e intrepidez recebemos freqüentes notícias, que nos confortam imensamente.
Se não faltou quem, sob pretexto de amor e fidelidade à própria pátria,
pretendesse separar desta cidade eterna e desta Sé Apostólica os filhos da
Igreja católica, bem puderam e podem eles responder que a ninguém cedem no amor
à pátria, mas que exigem se lhes respeite lealmente o direito a uma liberdade
justa.
3. O
trabalho a realizar
16. É
preciso ter bem presente o que acima dissemos: o que há ainda por fazer no
campo das missões requer enorme esforço de trabalho e muitos operários. Lembremo-nos
de que os nossos irmãos "que jazem nas trevas e nas sombras" (Sl
106,10) formam multidão imensa de aproximadamente um bilhão de homens. Parece
ainda ressoar o lamento do amantíssimo coração de Jesus: "Tenho outras
ovelhas que não são deste redil, e é preciso reconduzi-las, e ouvirão a minha
voz e far-se-á um só rebanho e um só pastor" (Jo 10,16).
17. Como
bem sabeis, veneráveis irmãos, não faltam pastores que procuram afastar as
ovelhas deste único redil e porto de salvação, e sabeis que tal perigo em
certas regiões se vai tornando cada vez maior. Pensando na imensa multidão de
homens que ainda carecem da luz do evangelho, e considerando o perigo
gravíssimo em que tantos são lançados pelo materialismo ateu e por certa
doutrina que se diz cristã, mas que está eivada dos erros do comunismo,
vemo-nos ansiosamente impelidos a promover com todas as forças e em toda parte
as obras de apostolado, e tomamos como dirigida a nós a exortação do profeta:
"Clama, não cesses de clamar; como tuba faze ouvir a tua voz" (Is
58,1).
18.
Recomendamos a Deus, de modo especial, os missionários que trabalham nas
regiões do interior da América Latina, pois bem sabemos a que perigos e
insídias estão expostos, devido aos erros disseminados pelos acatólicos.
4. O
missionário
19. Para
que a ação dos missionários se torne cada vez mais eficaz e para que não se
perca em vão nem uma só gota do seu suor e do seu sangue, queremos traçar aqui
brevemente alguns princípios e normas que lhes devem reger a atividade.
20. Convém
advertir, de início, que quem é chamado por divina inspiração para a vida
missionária é designado para uma obra grandiosa e de incomparável elevação.
Consagra a própria vida para dilatar o reino de Deus até aos confins da terra.
Não busca o que é seu, mas o que é de Jesus Cristo (cf. Fl 2,21). Pode
aplicar-se a si, de modo particular, as belíssimas expressões do Apóstolo:
"somos embaixadores de Jesus Cristo" (2Cor 5,20), "vivendo em
carne mortal, não pelejamos segundo a carne" (2Cor 10,3), "fiz-me
enfermo com os enfermos, para ganhar os enfermos" (1Cor 9,22). Deve, pois,
considerar como segunda pátria a região, a que vem trazer a luz do evangelho e
amá-la conforme a caridade exige. Não procure lucros terrenos, nem os
interesses da própria nação ou instituto religioso, mas unicamente o bem das
almas. Deve sim amar intensamente a própria nação e a própria ordem, mas com
amor ainda maior deve amar a Igreja. E lembre-se que nada do que for obstáculo
ao bem da Igreja, poderá ser proveito para a sua ordem.
21. É preciso,
além disso, que os candidatos às missões, enquanto se preparam na pátria, não
só recebam a devida formação eclesiástica, mas adquiram também aqueles
conhecimentos teóricos e práticos que lhes serão de grandíssima utilidade,
quando entre estrangeiros forem pregadores do evangelho. Aprendam portanto as
línguas que lhes serão necessárias, tenham conhecimentos suficientes de
medicina, agricultura, etnografia, história, geografia e outras ciências
congêneres.
5. A
finalidade das missões
22. A
primeira finalidade das missões é, porém, como todos sabem, que a luz do
cristianismo brilhe com maior esplendor ante os novos povos e faça surgir
dentre eles novos cristãos. Mas é preciso também que procurem desde logo - e o
tenham sempre presente como fito - estabelecer solidamente a Igreja entre os
povos evangelizados, dando-lhes uma hierarquia própria, formada de elementos
nativos.
23. Na
carta que enviamos, no dia 9 de agosto do ano passado, ao nosso dileto filho, o
cardeal Pedro Fumasoni Biondi, prefeito da Sagrada Congregação "De
Propaganda Fide", escrevíamos: "A Igreja não tem a mínima intenção de
dominar os povos ou de se apoderar das coisas temporais, pois o seu único anelo
é levar a todos os povos a luz sobrenatural da fé, promover a civilização e a
fraterna concórdia entre as nações".(6)
24. E na
carta apostólica Maximum illud (7),
do nosso antecessor de imortal memória Bento XV, escrita no ano de 1919, como
na encíclica Rerum Ecclesiae (8)
do nosso imediato predecessor de feliz recordação, Pio XI, proclamava-se que as
missões católicas deviam ter como fim supremo implantar a Igreja em novas terras.
E em 1944, dirigindo-nos, como dissemos, aos diretores das Obras missionárias,
afirmávamos: "A grande finalidade das missões é estabelecer a Igreja em
novas terras, dando lhe tão profundas raízes que possa, quanto antes, viver e
florescer sem o auxílio das organizações missionárias. As organizações
missionárias não são fins de si mesmas: procuram com empenho o estabelecimento
da Igreja em novas terras, mas uma vez que o obtêm, retiram-se para outros
empreendimentos".(9)
"A atividade missionária não se limita ao consolidamento de posições já
conquistadas, a sua meta é transformar todo o mundo numa terra santificada.
Pretendem os missionários levar através de todas as regiões, até à última e
mais remota choupana e até o último e mais remoto habitante do mundo, o reino
do divino Redentor ressuscitado, 'ao qual foi dado todo o poder no céu e na
terra'" (cf. Mt 28,18).(10)
6. O clero
indígena
25. É
evidente que a Igreja não se pode estabelecer convenientemente nas novas
regiões, sem organização adequada e principalmente sem clero indígena a altura
das necessidades locais. Apraz-nos repetir aqui os ponderados e sábios
ensinamentos da encíclica "Rerum Ecclesiae": "...Se cada
um de vós deve procurar obter o maior número de sacerdotes indígenas, deve
também procurar formá-los na santidade requerida pela vida sacerdotal e naquele
espírito apostólico cheio de zelo pela salvação dos próprios irmãos, que os
torne prontos a dar a vida pelos membros da sua tribo e nação". (11)
26.
"Suponhamos que, por motivo de guerra ou de outros acontecimentos
políticos, em algum território de missão se substitua um governo por outro e se
exija ou se decrete o afastamento dos missionários de determinado país;
suponhamos - o que mais dificilmente acontecerá - que as populações nativas,
atingindo maior grau de civilização e uma espécie de maioridade cultural,
decidam, para tornar-se independentes, excluir do seu território os
representantes, as tropas e os missionários das nações colonizadoras e que isso
não se possa levar a efeito sem o recurso à violência. Que ruína desastrosa
ameaçaria então a Igreja em tais regiões, se não se tivesse providenciado às
necessidades dos convertidos, estendendo por todo o território uma como rede de
sacerdotes nativos".(12)
27.
Contemplando em não poucos países do extremo oriente a verificação dessas
previsões do nosso imediato predecessor, entristecemo-nos profundamente. Onde
existiam missões florescentíssimas e então alvejantes para a messe (cf. Jo
4,35) vivem-se hoje dias da maior angústia. Seja-nos permitido esperar que os
povos da Coréia e da China, dotados de natural bondade e delicadeza e herdeiros
do esplendor de civilizações muito antigas, se vejam livres quanto antes, não
só de tempestuosos conflitos bélicos, mas também da doutrina funesta que nega
os bens celestes para inculcar só os da terra. E oxalá estimem, como é justo, a
caridade cristã e a virtude dos missionários estrangeiros e dos sacerdotes
indígenas, que com os seus trabalhos e com o risco da própria vida pretendem
apenas o verdadeiro bem do povo.
28. Damos
a Deus imensas graças por haver em ambas as nações um clero nativo escolhido e
já numeroso, esperança da Igreja, e por bastantes dioceses estarem já entregues
a bispos do país. É glória dos missionários estrangeiros ter-se podido chegar a
este resultado.
29. Mas, a
esse propósito, julgamos útil notar um ponto, que nos parece não dever
esquecer-se quando se entregam a bispos e sacerdotes naturais missões antes
confiadas a clero de fora. O instituto religioso, cujos membros cultivaram com
seus suores esse campo do Senhor, quando, por decreto do Conselho supremo da
Propagação da Fé, entrega a outros obreiros a vinha já carregada de abundantes
frutos, não deve por isso abandoná-lo completamente; mas fará coisa muito útil
se continuar a ajudar o novo bispo, escolhido na própria nação. Como na maior
parte das dioceses do mundo há religiosos que ajudam o Ordinário, assim também
nas regiões de missões, ainda que esses religiosos sejam originários de outros
países, não deixarão de combater o santo combate como tropas auxiliares e assim
se realizará perfeitamente o que disse o divino Mestre junto do poço de Sicar:
"O ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna, para
que o semeador se alegre juntamente com quem colhe" (Jo 4,36).
7. A Ação
Católica nas missões
30.
Desejamos, além disso, com essa encíclica não só exortar os missionários, mas
também esses leigos que "de coração grande e ânimo pronto" (2Mc 1,3)
militam nos esquadrões da Ação católica e prestam auxílio aos
missionários.
31.
Pode-se afirmar que este auxílio dos leigos, que chamamos hoje Ação católica,
não faltou desde as origens da Igreja; e mais, que prestou notáveis serviços
aos apóstolos e outros propagadores do evangelho e permitiu à religião cristã
apreciáveis aumentos. Por isso o apóstolo das gentes menciona Apolo, Lídia,
Áquila, Priscila e Filemon e acrescenta, dirigindo-se aos Filipenses:
"Peço-te também a ti, generoso colaborador, que ajudes essas que lutaram
pelo evangelho, comigo e com Clemente e com os restantes colaboradores meus,
cujos nomes estão no livro da vida" (Fl 4,3).
32. Do
mesmo modo, é sabido de todos que a doutrina cristã não foi só propagada por
bispos e sacerdotes, mas também por funcionários, soldados e simples
particulares pelas estradas consulares. Numerosos milhares de fiéis cristãos,
cujos nomes não conhecemos hoje, pouco depois de receberem a fé católica,
ardendo no desejo de propagar a nova religião, esforçaram-se por abrir o
caminho à verdade evangélica; assim se explica que, ao cabo de uns cem anos, já
o nome e a virtude cristãs tinham chegado a todas as principais cidades do
império romano.
33. S.
Justino, Minúcio Félix, Aristides, o cônsul Acílio Glaber, o patrício Flávio
Clemente, s. Tarcísio e outros inumeráveis santos e santas mártires, por terem
robustecido e fecundado o desenvolvimento da Igreja com os seus trabalhos e o
seu sangue, podem se chamar de alguma sorte vanguardistas e precursores da Ação
católica. Vem aqui a propósito citar a belíssima frase do autor da epístola a
Diogneto, que ainda hoje parece cheia de atualidade: "Os cristãos...
habitam as próprias pátrias mas como de passagem..., toda região estrangeira é
pátria para eles, e toda pátria lugar de peregrinação". (13)
34.
Sucedendo-se na Idade Média as invasões bárbaras, vemos homens e senhoras
nobres e até humildes operários e incansáveis mulheres do povo esforçarem-se
sem descanso por ganhar profundamente os seus compatriotas para a religião de
Jesus Cristo, por lhes ajustar os costumes, e por, diante do perigo, porem a
salvo a religião e o Estado. Junto ao nosso imortal predecessor Leão Magno, que
resistiu fortemente a Átila, invasor da Itália, estavam, segundo a tradição,
dois consulares romanos. Quando as terríveis hordas dos hunos cercavam Paris, a
santa virgem Genoveva, que se deliciava na oração ininterrupta e na penitência
rigorosa, com admirável caridade valeu quanto pôde às almas e também aos corpos
dos seus concidadãos. Teodolinda, rainha dos lombardos, levou seu povo a
abraçar a religião cristã. Na Espanha, o rei Recaredo esforçou-se por
reconduzir os súditos da heresia ariana à verdadeira fé. Na França, não só
aparecem bispos - como Remígio de Reims, Cesário de Arles, Gregório de Zburs,
Eígio de Beauvais e outros muitos que se notabilizaram pela virtude e zelo, mas
também rainhas que ensinaram aos ignorantes a verdade cristã, que deram de
comer, aliviaram ou reanimaram doentes, famintos e toda a espécie de
necessitados: assim, por exemplo, Clotilde tanto aproximou o espírito de Clóvis
da religião católica que o levou, afinal, à purificação do batismo; Radegunda e
Batilda ocuparam-se dos doentes com a maior caridade e curaram até leprosos. Na
Inglaterra, a rainha Berta recebeu o apóstolo daquela nação, s. Agostinho, e
persuadiu o marido Edelberto a aceitar de boa vontade os preceitos evangélicos.
E quando os Anglo-Saxões, nobres e ínfimos plebeus, homens e mulheres, velhos e
novos, receberam a fé cristã, logo, levados pelo certo instinto do amor divino,
se ligaram a esta Sé Apostólica com laços apertadíssimos de amor filial, de
fidelidade e de respeito.
35. É maravilhoso,
também, o espetáculo que apresenta a Alemanha, quando fecundada pelas excursões
apostólicas e pelo suor generoso de S. Bonifácio e seus companheiros. Os filhos
e filhas desse povo forte e generoso, num grande movimento espiritual, puseram
à disposição dos monges, dos sacerdotes e dos bispos uma cooperação zelosa e
ativa, para que brilhasse cada vez mais naquelas regiões vastíssimas a luz da
verdade evangélica e para que os mandamentos e a virtude cristã mais e mais
avançassem, produzindo frutos de salvação.
36. Em
tempo nenhum, portanto, deixou a Igreja católica de realizar novos progressos e
de levar os povos a maior prosperidade social, e isto, não só pelo incansável
trabalho do clero, mas também pela cooperação pedida aos leigos. Assim, todos
conhecem a atividade da rainha s. Isabel na Hungria, do rei s. Fernando em
Castela e de s. Luís IX em França; com santidade de vida e ação perseverante,
comunicaram força renovadora às várias classes da sociedade, fundando
instituições benéficas, fazendo chegar a verdadeira religião a toda parte,
defendendo valorosamente a Igreja e sobretudo indo a frente de todos pelo
exemplo. São conhecidos também os ótimos serviços prestados pelas beneméritas
confrarias de leigos na Idade Média; nelas se reuniam os artífices e operários
de ambos os sexos, que, embora vivendo no século, não deixavam por isso de ter
diante dos olhos um ideal de perfeição evangélica, que procuravam pessoalmente
atingir e para o qual se esforçavam, em união com o clero, por orientar a todos
os demais.
37. Ora,
as condições, que se realizavam nos primeiros tempos da Igreja, reproduzem-se
hoje na maioria das regiões missionadas; ou, pelo menos, os problemas que as
afligem agora são os mesmos a que noutro tempo e lugar foi preciso encontrar solução.
Por isso, é absolutamente necessário que os leigos das missões associem ao
apostolado hierárquico do clero a sua atividade incansável, formada nas hostes
cerradas da Ação católica. O trabalho dos catequistas é necessário, sem dúvida;
mas não menos necessária é a atividade vigilante de outros que, sem pretenderem
qualquer paga, mas levados só pelo amor de Deus, se põem à disposição dos
missionários, ajudando-os no seu trabalho.
38.
Desejamos, portanto, que em toda parte, na medida do possível, se constituam
associações católicas de homens e mulheres, de estudantes, de operários, de
artífices e de desportistas, e além disso outras organizações e piedosos
agrupamentos, que se possam chamar tropas auxiliares dos missionários. Mas, ao
fundá-las e ao dar-lhes vida, tenha-se mais conta da honestidade, da virtude e
do ardor que do número dos sócios.
39.
Deve-se notar também que não há melhor meio para conciliar aos missionários a
confiança dos pais e mães de família do que lhes tomar cuidado solícito dos
filhos. Estes, orientando o espírito pela verdade cristã e pautando os costumes
pela norma da virtude, concorrerão não só para a honra da própria família, mas
também para o vigor e brilho de toda a sociedade; e terão freqüentemente o bom
papel de restituir o vigor antigo à vida da comunidade cristã, acaso
debilitada.
40. Apesar
de a Ação católica, como é sabido, dever exercitar principalmente sua atividade
em promover obras de apostolado, nada impede os que foram recebidos nos seus
quadros de fazerem também parte de associações cujo fim é ajustar a vida social
e política aos princípios do evangelho; mais ainda: não só como cidadãos, mas
também como católicos, gozam do direito de o fazer; e têm até esse dever.
8. A
escola e a imprensa
41. E como
a juventude, sobretudo a que se dá às letras e aos estudos superiores, há de
fornecer os mentores do futuro, ninguém deixará de reconhecer quanto importa
que haja particular cuidado das escolas primárias, secundárias e
universitárias. Com ânimo paternal exortamos, portanto, os superiores das
missões a que as desenvolvam com todo o empenho, quanto for possível, sem se
pouparem a trabalhos nem a despesas.
42. De
fato, esses centros educativos têm principalmente a utilidade de fomentar
relações frutuosas entre os missionários e os pagãos de todas as classes, e de
facilitar principalmente à juventude, moldável como a cera, a compreensão,
estima e aceitação da doutrina católica. Essa mocidade instruída há de chegar,
como todos sabem, a dirigir o Estado; e a massa do povo segui-la-á como a
chefes e mestres. O apóstolo das gentes manifestou também, diante da assembléia
dos sábios, a altíssima sabedoria do evangelho, quando anunciou o Deus
desconhecido no Areópago de Atenas. Se, porém, como resultado deste apostolado
do ensino, não vierem a ser muitos os que se convertam completamente, mais
numerosos hão de ser aqueles que se sintam invadidos de suave atrativo para a
beleza sublime da nossa religião e para a caridade dos seus adeptos.
43. São,
além disso, as escolas e colégios instituições utilíssimas para se refutarem os
erros de toda sorte, que hoje grassam cada vez mais e, às claras ou
solapadamente, se insinuam de modo especial nas almas juvenis, devido à ação
dos acatólicos e dos comunistas.
44. Nem é
menos útil editar e divulgar escritos sobre problemas atuais. Julgamos que não
vale a pena determo-nos neste ponto; entra pelos olhos de todos a importância
dos jornais, revistas e livros seja para apresentarem na devida luz a verdade e
a virtude e para a inculcarem às almas, seja para descobrirem os enganos
propostos sob aparência de verdade, seja ainda para refutarem as falsidades que
ora atacam a religião, ora deformam com grande prejuízo das almas questões
sociais candentes. Por isso, louvamos muito os pastores que têm a peito
divulgar o mais possível tais publicações bem orientadas. Não é pouco o já
realizado neste campo, mas muito mais está ainda por fazer.
9.
Assistência sanitária
45.
Apraz-nos agora recomendar, com a maior instância, obras e iniciativas que valem
a doenças e tribulações de toda espécie; referimo-nos aos hospitais, aos
leprosários, aos postos de distribuição de remédios, aos asilos de velhos, às
maternidades, aos orfanatos e aos refúgios para necessitados. Estas obras, que
nos parecem as mais belas flores do jardim cultivado pelos semeadores da
palavra evangélica, apresentam-nos, por assim dizer, nova visão do divino
Redentor, que "passou fazendo o bem e sarando a todos" (At
10,38).
46. Sem
dúvida essas maravilhas de caridade preparam com a maior eficácia os espíritos
pagãos e levam-nos a abraçar a religião cristã; e são também o seguimento da
ordem de Jesus dada aos apóstolos: "Em qualquer cidade em que entrardes, e
vos receberem, curai os doentes que nela houver, e dizei-lhes: 'aproximou-se de
vós o reino de Deus'" (Lc 10,8-9). 47. Mas é preciso que os religiosos e
religiosas chamados para este frutuoso trabalho, adquiram, antes de partir, a
preparação intelectual e moral hoje requeridas. Sabemos que não faltam
religiosas, possuidoras de diplomas oficiais, que estudaram doenças horríveis
como a lepra e lhes encontraram remédios apropriados. Merecem bem justos
louvores. A elas, como a todos os missionários que trabalham dedicadamente nos
leprosários, abençoamos nós com amor paternal, admirando caridade tão
heróica.
48. Quanto
à medicina e à cirurgia, será muito conveniente solicitar o auxílio de leigos
diplomados, que aceitem de boa vontade abandonar a própria pátria a fim de se
porem à disposição dos missionários. Mas é necessário que se recomendem pela sã
doutrina e pela virtude.
10.
Assistência social
49.
Passamos agora a outro ponto que não é de menor importância ou gravidade;
queremos aludir à questão social, que se deve resolver segundo a justiça e a
caridade. Enquanto as máximas dos comunistas, que hoje correm por toda parte,
enganam facilmente as inteligências simples e incultas, parecem ressoar outra
vez aos nossos ouvidos as palavras de Jesus Cristo: "Compadeço-me da
multidão" (Mc 8,2). É absolutamente necessário que os princípios justos,
ensinados pela Igreja nesta matéria, sejam seriamente aplicados. É
absolutamente necessário preservar todos os povos desses erros perniciosos; ou,
se já estão imbuídos deles, libertá-los de tais doutrinas funestas que propõem
o gozo deste mundo como fim único e necessário desta vida mortal; doutrinas
essas que entregam todas as coisas ao poder e arbítrio do Estado, para que as
possua e administre diminuindo a dignidade da pessoa humana a ponto de a
aniquilar quase totalmente. É absolutamente necessário ensinar a todos, em
particular e em público, que tendemos como exilados para uma pátria imortal; e
que estamos destinados para uma vida e felicidade eternas, a que havemos de ser
levados pela verdade e pela virtude. Só Cristo é o defensor da justiça e o consolador
terníssimo da dor humana, inevitável nesta vida; só ele nos mostra o porto da
paz, da justiça e do gozo eterno, ao qual todos os que fomos remidos pelo
sangue divino devemos chegar, ao fim do caminho desta vida na terra.
50. Mas,
por outro lado, é dever também de todos mitigar, suavizar e aligeirar, quanto
possível, as angústias, misérias e dores desta vida que afligem os nossos
irmãos.
51. A
caridade, é certo que pode remediar parcialmente muitas injustiças sociais, mas
não basta. É preciso, antes de mais, que a justiça vigore, reine, e se
aplique.
52. A este
propósito convém citar o que dissemos no ano de 1942, pelo Natal, dirigindo-nos
ao sacro colégio e aos prelados: "A Igreja, assim como condenou os vários
sistemas do socialismo marxista, assim os volta a condenar ainda, como é seu
dever e como o pede a eterna salvação dos homens, posta em grave perigo por
esses raciocínios falazes e maquinações insidiosas. Mas a Igreja não pode
ignorar ou deixar de reconhecer que os operários, ao procurarem melhorar a sua
condição, encontram-se de frente muitas vezes a alguma coisa que longe de ser
conforme à natureza, contrasta com a ordem de Deus e com o objetivo que ele
assinalou aos bens terrenos. Por mais falsos, condenáveis e perigosos que
tenham sido e sejam os caminhos seguidos nas reivindicações, quem, sobretudo se
é sacerdote ou cristão, poderá fechar os ouvidos ao grito que se levanta do
fundo da alma e clama justiça e espírito de fraternidade no mundo de um Deus
justo? Não o notar ou nada dizer seria pecado diante de Deus e seria, além
disso, contrário ao sentir do apóstolo, que, se recomenda decisão contra o
erro, ensina também que devemos atender com a maior benignidade os que erram,
examinar-lhes as razões, alimentar-lhes as esperanças e satisfazer os
anseios... A dignidade da pessoa humana exige pois, ordinariamente, como
fundamento natural para viver, o direito ao uso dos bens da terra; a tal
direito corresponde a obrigação fundamental de facultar uma propriedade
privada, possivelmente a todos. As normas jurídicas positivas reguladoras da
propriedade privada podem mudar e conceder uso mais ou menos circunscrito dos
bens; mas, se querem contribuir para a pacificação da comunidade, deverão
obstar a que o operário, que é ou será pai de família, seja condenado a uma
dependência ou escravidão econômica, inconciliáveis com os seus direitos de
pessoa. Quer essa servidão derive da prepotência do capital privado, quer venha
do poder do Estado, o efeito não muda; antes, pelo contrário, sob a pressão de
um Estado que tudo domina, e regula por completo a vida pública e privada,
penetrando até no campo do pensamento e da consciência, semelhante falta de
liberdade pode ter conseqüências ainda mais funestas, como a experiência o
manifesta e testemunha". (14)
53. A vós,
veneráveis irmãos, que exerceis vossa esclarecida atividade nos territórios das
missões católicas, a vós compete procurar diligentemente que esses princípios e
normas sejam aplicados. Considerando as condições peculiares do lugar, e
trocando mutuamente impressões nas assembléias de bispos, nos sínodos e noutras
reuniões, esforçai-vos o mais possível por fundar a tempo agrupamentos,
associações e instituições econômicas e sociais requeridas pela época e pela
índole do vosso povo. É sem dúvida um dever pastoral, para que vosso rebanho
não venha a ser impelido para fora do caminho reto, iludido por novos erros que
se apresentam com o engodo de justiça e de verdade. Procurem ir à frente de
todos, nesta causa construtiva, os propagadores do evangelho, que trabalham
ativamente ao vosso lado, e conseguirão deste modo a certeza de que não foi
dito deles que "os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da
luz" (Lc 16,8). Será porém conveniente recrutarem quanto possível leigos
católicos bem preparados, honestos e hábeis, que tomem à sua conta lançar e
desenvolver tais iniciativas.
11. Contra
o exclusivismo territorial e jurisdicional
54. Em
tempos antigos, nem o grandíssimo campo do apostolado missionário se dividia em
circunscrições eclesiásticas definidas, nem estava confiado aos cuidados
simultâneos de ordens ou congregações religiosas e do clero indígena em
aumento. Todos, porém, sabem que é precisamente isto o que hoje acontece, de
lei geral; e dá-se também às vezes o caso de algumas regiões estarem confiadas
a religiosos de província particular dum instituto. Reconhecemos de bom grado a
vantagem deste estado de coisas, pois facilita a organização das missões. Mas
também pode originar seríssimos inconvenientes, a que é preciso prover quanto
possível. Já os nossos predecessores trataram este assunto em cartas especiais
(15)
e assentaram normas prudentes. Apraz-nos hoje renová-las e confirmá-las,
exortando-vos paternalmente, "pelo exemplar zelo da religião e da salvação
das almas que vos anima, a que as recebais com docilidade e obediência pronta.
Os territórios confiados pela Sé Apostólica ao vosso diligente cuidado, para os
ganhardes para Cristo Senhor nosso, são ordinariamente de grande extensão. Pode
portanto o número dos missionários, pertencentes ao vosso próprio instituto,
ser muito inferior às necessidades. Em tal caso não deixeis de imitar o exemplo
das dioceses já organizadas. Como nessas se vêem os bispos ajudados por
religiosos de várias famílias, clérigos ou leigos, e também por religiosas
diversas, do mesmo modo vós não deveis hesitar em convidar e receber para a
tarefa comum missionários que não sejam do vosso instituto, que vos ajudarão a
propagar a fé, a educar a juventude indígena, e em outras empresas semelhantes.
É justo que as ordens e congregações religiosas se prezem das missões que têm
entre pagãos e das conquistas já obtidas para o reino de Cristo; mas não se
esqueçam também que os territórios das missões não lhes pertencem em virtude de
qualquer direito exclusivo e perpétuo, mas que os possuem ao arbítrio da Santa
Sé. Esta conserva o direito e o dever de velar para que sejam devida e
plenamente cultivados. Nem, por conseguinte, cumpriria o pontífice romano o seu
dever apostólico, se se limitasse apenas a distribuir territórios de maior ou
menor extensão a este ou aquele instituto; mas - o que mais importa - deve
sempre e com toda a diligência procurar que esses institutos enviem às regiões
que receberam missionários tais em número e sobretudo em qualidade, que possam
bastar para um trabalho eficaz de completa evangelização da verdade".(16)
12.
Respeito a tudo o que há de bom na civilização e nos costumes dos diferentes
povos
55.
Falta-nos ainda tocar um ponto, que muito desejamos fique bem claro para todos.
A Igreja, desde a origem até hoje, sempre seguiu a norma prudentíssima de não
permitir que o evangelho destrua, nos vários povos que o recebem, qualquer
parcela da bondade e beleza que enriquece a índole e o gênio de cada um. A
Igreja, quando civiliza os povos sob inspiração da religião cristã, não procede
como quem corta, lança por terra e extermina uma floresta luxuriante, mas sim,
como quem enxerta árvores bravas com qualidades escolhidas, para que elas
venham a dar frutos mais saborosos e sazonados.
56. A
natureza humana, apesar de contaminada hereditariamente pelo pecado de Adão,
conserva todavia em si alguma coisa naturalmente cristã, (17)
a qual, sendo iluminada pela divina luz e alimentada pela graça, se elevará à
categoria de virtude perfeita e de vida sobrenatural.
57. Por
isso, a Igreja católica não desprezou nem lançou fora as doutrinas dos pagãos,
mas, pelo contrário, purificou-as de todo erro e impureza, desenvolveu-as, e
aperfeiçoou-as com a sabedoria cristã. Assim fez também com as artes e a
cultura, que a tão alto grau tinham chegado entre alguns povos: recebeu-as
acolhedora, desenvolveu-as com afã e elevou-as a um apogeu talvez nunca
atingido. Os costumes particulares dos povos, não os reprimiu violentamente nem
as suas instituições tradicionais, mas tudo santificou; e até, embora
transformando o espírito e o conteúdo dos dias festivos, soube aplicá-los à
celebração das memórias dos mártires e dos sagrados mistérios. A esse respeito,
escreve com muita razão s. Basílio: "Como... os tintureiros primeiro
preparam o pano e depois o impregnam da cor de púrpura ou qualquer outra, assim
nós, para conservarmos fixa e para sempre inapagável a glória da virtude,
devemos preparar-nos com os estudos profanos para, depois, chegarmos a possuir
a ciência sagrada e revelada: uma vez habituados a suportar o sol refletido na
água, atrever-nos-emos a fitar a própria luz... Se é verdade que a vida própria
da árvore consiste em produzir fruto abundante a seus tempos, não deixam as
folhas de lhe dar beleza e movimento; assim também o fruto primário da alma é a
verdade em si mesma, mas não lhe fica mal um revestimento de sabedoria humana,
como folhas a darem sombra e realce ao fruto. Por isso se diz que o celebérrimo
Moisés, considerado o maior sábio de todos os homens, cultivou primeiro o
espírito nas ciências dos egípcios, e só depois chegou à contemplação daquele
que é. Coisa semelhante se refere de Daniel: aprendeu primeiro em Babilônia a
ciência dos caldeus, antes de penetrar as doutrinas sagradas".(18)
58. E nós
mesmos, na nossa primeira encíclica Summi
pontificatus, escrevemos: "Inumeráveis pesquisas e indagações dos
pregoeiros da palavra divina, levadas a cabo através dos tempos com sacrifício,
dedicação e amor, propuseram-se fazer compreender mais completa e dignamente as
civilizações dos vários povos e desenvolver nestes os dotes e valores
espirituais para assim tornarem entre eles mais fecunda, assimilável e vital a
pregação do evangelho de Cristo. Tudo quanto em tais usos e costumes não está
indissoluvelmente ligado a erros religiosos encontrará sempre benévolo exame e
será até, quanto possível, protegido e desenvolvido".(19)
59. No
discurso que fizemos no ano de 1944 aos diretores das Pontifícias Obras
Missionárias, dissemos entre outras coisas: "O apóstolo é mensageiro do
evangelho e pregoeiro de Jesus Cristo. Não tem o encargo de transplantar a
civilização especificamente européia para as terras de missões. Mas deve
preparar esses povos, que se orgulham às vezes de civilizações milenárias, para
acolherem e assimilarem os elementos de vida e de moral cristã, que fácil e
naturalmente se adaptam a toda a verdadeira cultura profana e lhe conferem a
plena capacidade e força de assegurar e garantir a dignidade e felicidade
humanas. Os católicos indígenas embora sejam em primeiro lugar membros da
família de Deus e cidadãos do seu reino (Ef 2,19), não deixam contudo de ser
também cidadãos da própria pátria terrena".(20)
13.
Exposições missionárias dos anos santos de 1925 e 1950
60. O
nosso predecessor de feliz memória Pio XI, no ano jubilar de 1925, mandou
organizar uma grandiosa exposição missionária, cujo resultado felicíssimo assim
descreveu: "Parece obra suscitada por Deus, para termos novo testemunho e
quase experiência da viva união da sua Igreja, que abraça na unidade a terra
inteira... Realmente a exposição mostrou-se e ainda se mostra como um grande,
imenso livro". (21)
61. Nós,
levados do mesmo propósito, para tornarmos o mais possível conhecidos os
méritos insignes das missões, sobretudo no campo da alta cultura, mandamos
durante o ano santo passado juntar número abundante de documentos e expô-los,
como sabeis, perto do palácio Vaticano. Assim puderam muitos contemplar
abundantes provas da renovação cristã das belas artes, promovida pelos
missionários, quer entre povos civilizados quer entre outros menos
desenvolvidos.
62. Teve a
vantagem de deixar bem claro quanto contribuiu o trabalho dos pregoeiros do
evangelho para o progresso das artes liberais e dos estudos universitários;
mostrou também que a Igreja não contraria o gênio próprio de cada povo, mas,
pelo contrário, o leva à perfeição mais alta.
63.
Agradecemos a Deus terem todos recebido com interesse e favor essa realização,
manifestadora do revigoramento e expansão da obra missionária. Pois o espírito
do evangelho, graças ao zelo dos seus propagadores, conseguiu penetrar o
espírito de povos pagãos muito distantes e variados, a ponto de estes
apresentarem já claras provas de renascimento artístico. O que mostra de novo
que só a fé cristã, arraigada na alma e manifestada na vida, é capaz de elevar
as inteligências até realizarem essas obras requintadas, louvor imorredouro da
Igreja católica e adorno esplêndido do culto.
14. A
União missionária do clero e as Obras Pontifícias de cooperação
missionária
64. Bem
vos recordais de que na encíclica Rerum Ecclesiae se recomenda
instantemente a União missionária do clero, cujo fim é arregimentar membros de
ambos os cleros e os seminaristas para, em ativa união, propagarem a causa das
missões católicas. Nós que, segundo dissemos, seguimos com grande alegria os
notáveis progressos desta União, desejamos com ardor que ela se desenvolva mais
ainda e estimule sempre, tanto nos sacerdotes como no povo a eles entregue, o
zelo pelas obras missionárias. Essa União é, de certo modo, a fonte que rega,
como campos floridos, as obras pontifícias da Propagação da Fé, de São Pedro
apóstolo para o clero indígena e da Santa Infância. Não há razão para nos
demorarmos a salientar o valor, necessidade e notáveis serviços de tais obras,
que nossos predecessores enriqueceram com tesouros de numerosas indulgências.
Muito nos agrada que se recolham esmolas dos fiéis, sobretudo no dia das
missões; mas desejamos mais ainda que todos orem a Deus onipotente, fomentem e
auxiliem as vocações missionárias e desenvolvam as obras pontifícias referidas,
principalmente alistando-se nelas. Não ignorais, é claro, veneráveis irmãos,
que foi instituída há pouco por nós uma festa especial de crianças para
auxiliar com orações e esmolas a Obra da Santa Infância. Oxalá se habituem
assim os nossos filhinhos a rezar instantemente a Deus pela salvação dos
infiéis; e oxalá nas suas almas, ainda inocentes, cresçam os germes da vocação
missionária.
65.
Merecem também louvores tantas e tão bonitas iniciativas que com a mesma
finalidade e zelo tão intenso promovem os institutos religiosos para sustentar
de toda forma as Pontifícias Obras Missionárias; e queremos mostrar também
nossa gratidão às associações de senhoras que se dedicam a confeccionar
paramentos litúrgicos e roupa de altar. Finalmente queremos assegurar a todos
os nossos muito amados ministros da Igreja que o zelo do povo cristão em
promover a salvação dos infiéis produz esplêndido reflorescimento de fé e que
ao aumento do zelo missionário corresponderá sempre igual aumento de
piedade.
15. Apelo
ao mundo católico
66. Não
queremos por fim terminar esta encíclica sem manifestarmos ao clero e aos fiéis
nosso vivo interesse, e mais ainda nosso agradecimento profundo. Pois sabemos
que ainda este ano aumentou notavelmente o auxílio prestado pelos nossos filhos
às missões. E é bem verdade que vossa caridade não pode aplicar-se melhor do
que no alargamento do reino de Cristo e em levar a salvação a tantas almas sem
fé; porque o Senhor "deu ordens a cada um sobre o seu próximo" (Eclo
17,12).
67. A esse
propósito, apraz-nos insistir agora com novo empenho no que escrevemos a 9 de
Agosto de 1950 na carta dirigida ao nosso amado filho, cardeal presbítero da
santa Igreja romana, Pedro Fumasoni Biondi, prefeito da Sagrada Congregação
"De Propaganda Fide": "Perseverem todos os féis no propósito de
fomentar as missões, multipliquem os meios de as ajudar, elevem sem cessar
preces a Deus e ajudem os chamados para o trabalho missionário dando-lhes,
quanto puderem, os auxílios necessários.
68. A
Igreja é o corpo místico de Cristo, no qual, "se um membro sofre, todos os
membros sofrem também" (1Cor 12,26). Por isso, sofrendo hoje vários desses
membros dores cruéis e encontrando-se até cobertos de feridas, todos os fiéis
têm o dever sagrado de se unir com eles em comunhão de forças e de espírito. Em
algumas missões, a violência bélica aniquilou horrivelmente Igrejas, escolas e
hospitais. Para reparar esses prejuízos e reedificar tantos edifícios, todo o
orbe católico na sua dedicação ardente pelas missões dará generosamente o
necessário".(22).
69.
Conheceis muito bem, veneráveis irmãos, que o gênero humano quase todo tende
hoje rapidamente a separar-se em dois opostos campos de batalha, por Cristo ou
contra Cristo. Vê-se agora num momento decisivo, de que há de sair ou a
salvação de Cristo ou tremenda ruína. A veemente atividade e zelo dos
pregoeiros do evangelho procura, é certo, dilatar o reino de Cristo; mas há
outros pregoeiros que, reduzindo tudo à materialidade e rejeitando toda a
esperança de eternidade feliz, procuram reduzir os homens à condição
indigníssima.
70. Mais
um motivo para a Igreja católica, mãe extremosa de todos os homens, convocar os
seus filhos sem exceção para ajudarem quanto puderem os semeadores da verdade
evangélica com esmolas, orações e interesse pelas vocações missionárias. Como
mãe, insiste ainda para que revistam entranhas de misericórdia (cf. Cl 3,12),
participem no trabalho apostólico - se não de fato ao menos de coração - e,
numa palavra, não consintam que fique inútil o desejo do benigníssimo coração
de Jesus que "veio... procurar e salvar o que perecera" (Lc 19,10).
Se ajudarem a iluminar com a luz suave da fé cristã ao menos um lar, saibam que
contribuem para a efusão de graça que há de prosseguir sempre sem limites; se
ajudarem a formar ao menos um padre, terão parte abundantíssima no fruto de
imensas missas e nos méritos do trabalho e da santificação própria dele. De
fato, todos os fiéis formam uma só e grandíssima família, cujos membros
comunicam entre si as riquezas da Igreja militante, padecente e triunfante.
Meio incomparável parece, portanto, o dogma da comunhão dos santos para
inculcar ao povo cristão a utilidade e importância das missões.
CONCLUSÃO
71. Depois
de exprimirmos esses votos paternais e de proclamarmos essas normas, esperamos
que todos os católicos tomem o 25° aniversário da encíclica Rerum Eclesiae
como incitamento para fazerem mais e melhor pelas missões.
72.
Entretanto, confiados nesta doce esperança, a cada um de vós, veneráveis
irmãos, ao clero e a todo o povo, especialmente àqueles que promovem esta
santíssima causa - ou na pátria com orações e esmolas, ou em países
estrangeiros com o trabalho direto - concedemos a bênção apostólica, penhor dos
dons celestes e testemunho do nosso paternal amor.
Dado em
Roma, junto de São Pedro, no dia 2 de junho, na festa de santo Eugênio I, no
ano de 1951, XIII do nosso pontificado.
PIO PP.
XII
Notas
(1)
AAS 18(1926), p. 65s.
(2)
AAS 36(1944), p. 209.
(3)
AAS 36(1944), p. 267.
(4)
Epist. Praeses Consilii, AAS 43(951), pp. 88-89.
(5)
S. Cipriano, Epist. 56, PL 4, 351A.
(6)
Epist. Perlibenti equidem; AAS 42(1950), p. 727.
(7) AAS 11 (1919), p. 440s.
(8) AAS 18 (1926), p. 65s.
(9)
AAS 36 (1944), p. 210.
(10)
Ibidem, p. 208.
(11)
AAS 18(1926), p. 76. 26.
(12)
Ibidem, p. 75.
(13) Epist. ad Diognetum, V,5; ed. Funk I,
399.
(14) AAS 35(1943), p 16-17.
((16) AAS 18(1926), pp. 81-82.
(17) Cf. Tertuliano., Apologet., c. XVII; PL 1,
377A.
(18)
S. Basílio, Ad Adolescentes 2; PG 31, 567A.
(19) AAS 31(1939), p. 429.
(20) AAS 36(1944), p. 210.
(21)
Alocução de 10 de Janeiro de 1926.
(22)
AAS 42(1950), p. 727-728.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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