O estado do Vaticano
Para poder compreender
melhor o que é o Vaticano, é preciso conhecer um pouco sobre a história da
Igreja no último século. Usamos aqui os textos de D.Estevão Bettencourt
(História da Igreja; PR,394,1995, Ed.Lumen Christi, RJ) A origem do poder
temporal do Papa vem dos primórdios da Igreja. Em 330 o imperador romano
Constantino, convertido ao Cristianismo (era filho de Santa Helena), proibiu a
perseguição aos cristãos (Edito de Milão) e transferiu a capital do Império
para o oriente, na cidade de Constantinopla, a antiga Bizâncio, hoje Istambul na
Turquia. Isto mudou a história do mundo. Roma, no ocidente, ficou sendo
governada por um conselho municipal, o Senado, e funcionários encarregados de
julgar as causas judiciárias e cobrar impostos. Bizâncio esquecia de Roma cada
vem mais, abandonando´a às ameaças e invasões dos bárbaros, numa vida cada vez
mais difícil. Por causa desta situação ia crescendo em importância e veneração
a figura do Bispo de Roma, considerado pela população cristã como o pai comum
em que todos confiavam. Assim, o Papa foi se tornando o tutor do bem público,
além de pai espiritual. Por exemplo, no ano 452 o Papa São Leão Magno (400´460)
foi encontrar´se com o bárbaro Átila (´o flagelo de Deus´) e seu exército huno,
que iam devastar Roma e o sul da Itália. Assim o Papa conseguiu mantê´los em
Mântua, e não destruir a cidade. Depois fez o mesmo com Genserico, outro
bárbaro. Por causa do prestígio do Papa e da Igreja, que salvou o ocidente de
ser destruído pelos bárbaros, acontecia muitas vezes que príncipes e nobres, ao
entrar para um mosteiro, ou ao morrer, doavam seus bens ao Papa.. Foi se
formando assim o chamado Patrimônio de São Pedro na península itálica e nas
ilhas adjacentes. Esses territórios, cada vez maiores, davam ao Papa uma certa
independência diante do Imperador em Bizâncio, e colocavam sob sua jurisdição,
religiosa e civil, grande número de cidadãos, que trabalhavam nos territórios
da Igreja ou que deles se beneficiavam. E assim o Papa se tornava cada vez mais
o protetor do Ocidente, enquanto os representantes dos imperadores bizantinos,
que ficavam na cidade italiana de Ravena (os exarcas), eram impotentes ou
indiferentes diante das calamidades da época. Dizia o povo: ´É bom viver sob o
báculo´. No século VII os acontecimentos agravaram´se: duas potências hostis
pressionavam a Igreja; os bizantinos favoreciam as heresias sobre a Pessoa de
Jesus Cristo (monofisismo e monotelitismo) e contra o culto das imagens
(iconoclasmo), e os imperadores tiravam terras da jurisdição eclesiástica do
Papa. Por outro lado, no norte da Itália, os lombardos, pagãos ou heréticos
(arianos) ameaçavam saquear Roma e região, configurando´se assim um perigo
civil e religioso.
Para a defesa os Papas
pediram auxílio ao rei dos francos, um povo novo na Europa, mas que, a partir
do batismo do seu rei e rainha (Clóvis e Clotilde), em 496, se tornaram
cristãos e de grande valor cultural.Em 732, o mordomo dos francos, Carlos
Magno, fiel à Igreja, tinha afastado o novo perigo mulçumano, vencendo os
árabes em Poitiers, na França. Ao mesmo tempo, o império bizantino entrava em
decadência e não oferecia segurança aos cristãos do ocidente. Então, o Papa
Estevão II recorreu a Carlos Magno para se proteger dos lombardos ameaçadores.
Pepino o Breve, franco, pai de Carlos Magno, em 756, atendeu ao Papa, por amor
à fé e aos interesses da Igreja; venceu os lombardos e confirmou o Papa na
posse do Patrimônio de São Pedro, como era a vontade do povo. Podemos dizer que
nascia assim, por grandeza da piedade cristã dos nobres da Itália e dos
francos, o Estado Pontifício, independente de Bizâncio, o que não lhe agradou.
Nesta época, o Papa Estevão II sagrou Pepino o Breve rei dos francos, como já
era o costume da época e, em 800, seu filho Carlos Magno, recebeu do Papa Leão
III a coroa de Imperador do Império Romano, restaurado no Ocidente com o título
de Império sacro ou cristão. Na verdade, isto não foi uma usurpação da Igreja,
mas apenas a oficialização de uma situação que de fato já era real, uma vez que
o Papa já era o soberano do Estado Pontifício, embora não possuísse um título.
Por outro lado, os mordomos francos já governavam o reino, embora não fossem
chamados de reis. Tudo isto foi a conclusão de um processo histórico que
começou em 330. Este Estado Pontifício durou desde 756 até 1870, isto é, 1114
anos, quando acabou no movimento de unificação da península itálica. Nesses 11
séculos, ocorreram obras grandiosas por partes dos Papas e, infelizmente, houve
também certos abusos políticos e luxo mundano, principalmente na época da
Renascença. A Igreja já pediu, inclusive, perdão desses pecados de seus filhos.
É a realidade da parábola do ´joio e do trigo´ na vida da Igreja. No século XIX
começou o movimento de unificação da Itália, comandada por Vitor Emanuel II
(1849´1870), do Piemonte´Sardenha. Os territórios do Estado Pontifício foram
invadidos, e Vitor Emanuel II foi proclamado ´rei da Itália´ em 27/3/1861, com
a sua capital em Florença. Em 1861 o Estado Pontifício foi despojado de dois
terços do seu território, reduzido a Roma e à parte mais antiga do Patrimônio de
São Pedro. Caiu, então, o poder temporal do Papa, o que teve o mérito de
liberar o Papa das preocupações da administração de um Estado. São os caminhos
da Providência divina. Foi importante o Estado Pontifício para manter a ordem e
a fé na Europa, após a queda de Roma na mão dos bárbaros. O Estado Pontifício
caiu definitivamente quando apareceram diante de Roma 60 mil piemonteses,
comandados pelo general Cardona. A defesa pontifícia, sob o general Kanzier, só
contava com 10 mil soldados, de modo que a resistência era impossível. Depois
de alguns golpes de artilharia piemontesa, Pio IX mandou capitular aos
20/09/1870. Os protestos de Pio IX, auxiliado pelo Cardeal Antonelli, de nada
adiantaram para mudar a situação. Em junho de 1871 Vítor Emanuel estabeleceu
sua residência no Quirinal, onde moravam os Papas, ficando o Pontífice no
Vaticano. Note que a Igreja perdeu, pela força, todo o Estado Pontifício que
cobria boa parte da Itália de hoje. Podemos então dizer que a Igreja ficou
pobre, em face do que tinha, mesmo materialmente. Eram territórios que lhe
pertenciam legitimamente. Isto aconteceu poucos meses depois que fora definido
pelo Concílio do Vaticano I (junho 1870) o primado de magistério e jurisdição
do Romano Pontífice, e a sua infalibilidade em matéria de fé e de moral.
Reconhecera´se o papel capital do Papa no plano espiritual. A Igreja perdia no
campo material, mas ganhava no campo espiritual. Em março de 1871 o rei Vitor
Emanuel publicou a ´Lei das garantias´, que declarava inviolável a pessoa do Papa
e lhe reconhecia as honras de soberano; concedia´lhe os palácios do Vaticano,
do Latrão e de Castel Gandolfo com uma renda anual de 3.225.000 liras. O rei se
empenhava por garantir a livre administração pontifícia, inclusive a realização
de futuros conclaves e Concílios Ecumênicos. Pio IX rejeitou a Lei das
garantias, assim como a renda anual, pois a aceitação equivaleria a reconhecer
a usurpação; confiava na solidariedade dos fiéis, que para o futuro, como tinha
sido até então, para suprir as despesas da Igreja.
Desde 1870 até o fim da
Questão Romana (11/02/1929), os Papas se consideraram prisioneiros no Vaticano,
por cerca de 60 anos. Esse período foi de relacionamento difícil entre a Igreja
e o governo Italiano. Apesar de toda a pressão contrária, os Papas desses 60
anos, Pio IX (1846´1878), Leão XIII (1878´1903), São Pio X (1903´1914), Bento
XV(1914´1922) e Pio XI (1922´1939), julgaram que não podiam abrir mão da
soberania territorial da Igreja em relação às demais nações, com direito a um
território próprio, ainda que muito pequeno, a fim de que tivesse condições de
cumprir a missão que Cristo lhe deu. Depois das tendências nacionalistas dos
séculos XVII/XVIII, onde muitos governantes queriam como que assumir o lugar do
papa nas suas nações, Roma tornou´se um ponto de convergência dos bispos e dos
fiéis do mundo inteiro. Um Concílio Ecumênico e quatro grandes assembléias de
bispos e fiéis realizaram´se sob Pio IX: 1) a primeira por ocasião da definição
da Imaculada Conceição em 1854; 2) a segunda em Pentecostes (08/06) de 1862,
quando foram canonizados 26 mártires japoneses, dos quais 23 franciscanos e 3
jesuítas. Mais de 300 bispos então reunidos protestaram contra as violências
cometidas contra a Santa Sé, redigiram um documento, que de várias partes do
mundo recebeu adesões, justificando o poder temporal do Papa para o livre
exercício do seu pontificado; 3) aos 29/06/1867 comemorou´se o 18º centenário
do martírio dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, com a presença de mais de 500
bispos e cerca de 10.000 peregrinos; 4) a quarta assembléia foi a mais
concorrida: em 1877, ano anterior ao da morte do Papa, celebrou´se o 50º
aniversário da sua ordenação episcopal. O Pontífice, já muito idoso, despojado
de todo poder temporal, foi alvo de especial deferência dos peregrinos, que lhe
levaram dons naturais e dinheiro no valor de 7 milhões de francos; amavam´no
sinceramente, considerando´o ´o mártir´, ´a cruz da cruz´. (PR, 394,1995).
Antes que Vítor Emanuel II morresse (09/01/1878), Pio IX absolveu´o da excomunhão,
permitindo que recebesse os últimos sacramentos. Apesar das suas façanhas, o
rei nutrira sempre no fundo da alma os sentimentos religiosos. Benito
Mussolini, o chefe do Governo italiano, em 1929, percebeu a grande conveniência
política de conciliar a ltália com o Vaticano. As negociações levaram dois anos
e meio, terminando com a assinatura do Tratado do Latrão aos 11/02/1929, que
encerrava sessenta anos de disputas entre o Vaticano e o governo da Itália.
Este Tratado reconhecia a absoluta soberania do Papa sobre a pequena Cidade do
Vaticano, que é o menor de todos os Estados independentes: 0,44 km2, quando a
República de San Marino tem 61 km2 e a de Andorra 465 km2. Ao Vaticano teria o
direito de representação diplomática ativa e passiva. O Papa, de seu lado,
reconhecia o reino da ltália sob a dinastia de Savoia e com a capital em Roma
(reconhecia, portanto, a perda dos antigos territórios pontifícios). Além da
Cidade do Vaticano, o Pontífice dispõe de ´lugares extraterritoriais´, como as
principais basílicas de Roma, edifícios da Cúria, a Vila de Castel Gandolfo...
Num acordo separado, o Estado italiano se comprometia à pagar a Santa Sé a
quantia de 1.750 milhões de liras a título de indenização, o que era irrisório
perto da perda do Estado Pontifício antigo. Em carta escrita em 15/6/1887,
afirmava o Papa Leão XIII: ´A suprema autoridade pontifícia, instituída por
Jesus Cristo e conferida a São Pedro e aos seus sucessores legítimos, os
Pontífices Romanos, não pode, por sua natureza mesma e por vontade do seu
Divino Fundador, estar sujeita a algum poder terrestre; ao contrário, ela deve
gozar da mais plena liberdade no exercício de suas funções... É necessário que
o Sumo Pontífice seja colocado em condições de independência tais que não
somente a sua liberdade não seja entravada por quem quer que seja, mas se torne
mesmo evidente a todos que ela não é tolhida. ´(L’Osservatore Romano
12/02/1929; PR 394/1995).
O Papa Pio XI disse a
mesma coisa aos professores e alunos da Universidade de Milão: ´Em virtude da
divina responsabilidade de que está investido o Pontífice Romano, qualquer que
seja o seu nome e qualquer que seja a época em que viva, não pode estar
subordinado a poder algum.´(La Documentation Catholique´,1929, col. 472; PR
394/1995, pag. 7) ´Não se conhece, ao menos até os nossos dias, outra forma de
soberania verdadeira e própria que não seja a soberania territorial... A
soberania territorial, qualquer que seja a sua modalidade, é condição que todos
reconhecem indispensável à verdadeira soberania jurisdicional´(La Documentation
Catholique, 1929, col. 469; PR 394/1995). É preciso entender que para a Igreja,
a plena autonomia do Sumo Pontífice não é uma questão política, mas uma questão
religiosa, para o livre exercício do ministério apostólico e instauração do
Reino de Deus na terra. Desde 20/04/1849, o Papa Pio IX já afirmava: ´É
evidente que os fiéis, os povos, e as nações, os reis, nunca se voltarão para o
Bispo de Roma com plena confiança e obediência quando o virem súdito de um
soberano ou de um Governo, e souberem que não está em plena posse de sua
liberdade. Pois então poderão sempre suspeitar e recear que o Pontífice, em
seus atos, sofra a influência do soberano e do Governo em cujo território ele
resida. E, em vista desse pretexto, acontecerá muitas vezes que as
determinações do Papa não serão executadas´.(PR 394/1995) O que confirma o
acerto dessas palavras do Papa, é, por exemplo, o que o imperador Frederico II
da Prússia escrevia a seu amigo Voltaire, inimigo da Igreja, em carta de
9/7/1777: ´Quando o principado civil dos Papas tiver desmoronado, então seremos
vitoriosos e a cortina cairá. Daremos uma boa pensão ao Santo Padre. E que
acontecerá então? A França, a Espanha, a Polônia, em uma palavra: todas as
potências católicas já não haverão de reconhecer um Vigário de Jesus Cristo
subordinado ao braço do Imperador. Cada qual desses países criará um
patriarcado em seu próprio território... Aos poucos afastar´se´ão da unidade da
Igreja, e cada um acabará por ter em seu reino a religião própria como tem a
sua língua própria´( Voltaire, Oeuvres complêtes XII, Paris 1817, pag. 64; PR
394/1995). O Papa Pio XI, por ocasião do Tratado do Latrão, quis explicar o
porque da insistência de cinco Pontífices em não aceitar simplesmente a perda
do Estado da lgreja, mesmo que com os poderes tão reduzidos: ´Podemos dizer que
não há uma linha, uma expressão do Tratado (do Latrão) que não tenham sido, ao
menos durante uns trinta meses, objeto particular de nossos estudos, de nossas
meditações e, mais ainda, de nossas orações, que pedimos outrossim a grande
número de almas santas e mais amadas por Deus. Quanto a nós, sabíamos de
antemão que não conseguiríamos contentar a todos, coisa que geralmente nem o
próprio Deus consegue... Alguns talvez achem exíguo demais o território
temporal. Podemos responder, sem entrar em pormenores e precisões pouco
oportunas, que é realmente pouco, muito pouco; foi deliberadamente que pedimos
o menos possível nessa matéria, depois de ter refletido, meditado e orado
bastante. E isso, por vários motivos, que nos parecem válidos e sérios. Antes
do mais, quisemos mostrar que somos sempre o Pai que trata com seus filhos; em
outros termos: quisemos manifestar nossa intenção de não tornar as coisas mais
complicadas e, sim, mais simples e mais fáceis. Além disto, queríamos acalmar e
dissipar toda espécie de inquietação; queríamos tornar totalmente injusta,
absolutamente infundada, qualquer recriminação levantada em nome de...iríamos
dizer: uma superstição de integridade territorial do país (Itália). Em terceiro
lugar, quisemos demonstrar de modo peremptório que espécie nenhuma de ambição
terrestre inspira o Vigário de Jesus Cristo, mas unicamente a consciência de
que não é possível não pedir, pois uma certa soberania territorial é a condição
universal reconhecida como indispensável a todo autêntico poder de jurisdição.
Por conseguinte, um
mínimo de território que baste para o exercício da jurisdição, o território sem
o qual não poderia subsistir... Parece´nos, em suma, ver as coisas tais como
elas se realizavam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo
estritamente necessário para poder deter a alma unida a si. O mesmo se deu com
outros santos: seu corpo estava reduzido ao estrito necessário para servir à
alma, para continuar a vida humana e, com a vida, sua atividade benfazeja.
Tornar´se´á claro a todos, esperamo´lo, que o Sumo Pontífice não possui como
território material senão o que Ihe é indispensável para o exercício de um
poder espiritual confiado a homens em proveito de homens. Não hesitamos em
dizer que nos comprazemos neste estado de coisas; comprazemo´nos por ver o
domínio material reduzido a limites tão restritos que... os homens o devem
considerar como que espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e
realmente divina que ele é destinado a sustentar e favorecer´ (L’Osservatore
Romano de 13 de fevereiro de 1929; PR, 394/1995). As palavras acima definem bem
a mente da lgreja a respeito do poder temporal. Em última análise, vê´se que o
Papa considera a sua soberania territorial como o corpo imprescindível ao
exercício das atividades de uma alma ou como condição indispensável para o
cumprimento de sua missão; assim como a alma neste mundo não age normalmente
sem corpo, assim a tarefa espiritual da lgreja seria impedida, caso Ihe
faltasse tal suporte temporal. O Papa exerce autoridade sobre mais de um bilhão
de almas espalhadas no mundo inteiro. Por isso há a necessidade de que o
Governo e o Chefe Supremo da Igreja devem ser independentes de qualquer
soberano político. Um exemplo triste na história da Igreja, por causa do poder
do Papa estar sujeito de certa forma a uma nação, foi o ´Exílio do Avinhão´,
quando, de 1309 a 1376, os reis franceses conseguiram que os Papas residissem
em Avinhão (França), carecendo de soberania temporal, sujeito à influência do
governo francês. Nesse período os Papas foram perdendo parte da sua grande
autoridade moral perante a opinião pública internacional. Muitos cristãos, e
santos, fervorosos alarmavam´se com a situação. Foi o caso, por exemplo, do rei
Carlos IV da Alemanha, o poeta Petrarca, Santa Brígida e Santa Catarina de
Sena. Esses temiam que se a situação se prolongasse por muito tempo o Papado
deixaria de ter o prestígio sobrenatural e universal (católico) que precisa
sempre ter. Para dar apenas um exemplo desta díficil situação, neste período, o
Papa João XII (1316´1334) excomungou o rei Luiz IV da Baviera, por suas
pretensões cesaropapistas (querer ser o chefe da Igreja no seu Estado). Então,
este rei respondeu que o Papa servia aos interesses dos Valois da França; e
logo criou um anti´Papa (Nicolau V), alegando que a França tinha o ´seu´ Papa.
Isto tudo mostra a necessidade do Papa ter independência e soberania política
entre todas as nações.
A Cidade do Vaticano
A cidade do Vaticano,
geograficamente situada dentro de Roma, é mínima territorialmente. Quando
começou a discussão da Questão Romana, muitos diziam que em caso da restauração
da soberania temporal da Igreja, ela deveria ter apenas um Estado do tamanho da
República de São Marinho (60,57 Km quadrados); ora, o Estado Pontifício
renasceu com apenas 0,44 Km quadrados que tem hoje o Vaticano. Esse território
é apenas uma carcaça, um pequeno corpo, onde a alma possa viver. Os objetos
contidos no Museu do Vaticano foram, em grande parte, doados aos Papas por
cristãos honestos e fiéis, e pertencem ao patrimônio da humanidade; os Papas
não vêem motivo para não conservar esse acervo cultural muito importante. Não é
a pura venda desses objetos, de muito valor para todos os cristãos, que resolveria
o problema da miséria do mundo. Não há motivo, portanto, para se falar,
maldosamente, da ´riqueza do Vaticano´. Qualquer chefe de Estado de qualquer
pequeno país tem à sua disposição, no mínimo um avião. Os empresários o
possuem; no entanto, o Papa não o possui. Além disso, é preciso dizer que o
Vaticano mantém representação diplomática na maioria dos países do mundo, e
isto tem, evidentemente, um custo. Como manter a Igreja funcionando, sem
recursos mínimos?
Os Bens da Santa Sé
A Santa Sé, além do
território de 0,44 Km quadrados, correspondente ao Estado do Vaticano, possui
dois tipos de bens imóveis em Roma: 1 ´ as que gozam de estatuto próprio
definido pelo Tratado de Latrão, em 1929; e 2 ´ as que estão sujeitas ao Estado
italiano para fins de impostos e taxas. Estão isentos de impostos, face ao
Tratado de Latrão, os seguintes bens: As basílicas patriarcais de São João de
Latrão, de Santa Maria Maior e de São Paulo de fora dos muros (art. 13); ´ o
edifício de São Calisto no Trastevere (cap. 13); ´ a residência pontifícia de
Castel Gandolfo com as suas dependências (cap.14); ´ os imóveis situados na
parte norte do Gianicolo que têm vista para o Vaticano e pertencem à Sagrada
Congregação para a Evangelização dos Povos e outras instituições eclesiásticas
(art. 14); ´ os edifícios anexos à basílica dos SS. Apóstolos e às igrejas de
S. André della Vale e de S. Carlos Catinari (art. 14); ´ as sedes da
Universidade Gregoriana, do Instituto Bíblico, do Instituto Oriental, do
Instituto de Arqueologia Cristã, do Seminário Russo, do Colégio Lombardo, os
dois palácios de Santo Apolinário e a casa de Retiros dos SS. João e Paulo
(art. 16). Isto é o que restou de todo o antigo Estado Pontifício que cobria
boa parte da Itália. Sem isto os orgãos da Igreja não têm como funcionar.
A verdadeira riqueza da
Igreja
A Igreja é de fato
riquíssima, e acumulou nos seus vinte séculos um tesouro incalculável! Na
verdade ela é rica desde a sua origem, porque o seu Criador e mentor é o
próprio Deus; é Dele que vem toda a sua riqueza. Ela é o próprio Corpo de
Cristo (1Cor12,27). Mas ela é rica também, porque é a ´Igreja dos Santos´, como
disse George Bernanos. Os Santos são a sua grande riqueza, como que reprodução
do próprio Cristo. Ela é a Igreja de Pedro de Cafarnaum, que deixou as redes
para seguir o Senhor e morreu de cabeça para baixo, sob Nero, por amor a ela; é
a Igreja de Paulo de Tarso, que rodou o mundo até Roma, para ali ser
martirizado por ela. Ela é a Igreja dos Santos Apóstolos, revestidos do próprio
Cristo, um a um martirizados pela sua fidelidade ao Senhor... Ela é a Igreja
dos Santos Inocentes que, ainda na tenra idade, derramaram o seu sangue
inocente pelo menino Deus... Ela é a rica Igreja dos Santos Padres: Agostinho
de Hipona, que enfrentou o pelagianismo, o arianismo e o maniqueísmo; Atanásio,
que enfrentou o arianismo; Irineu, que enfrentou o gnosticismo; Inácio de
Antioquia, que enfrentou os leões; Policarpo, que enfrentou a fogueira,...Tomás
de Aquino, que escreveu a Suma´Teológica e transformou a Filosofia; Teresa
D’Avila e João da Cruz, que reformaram os Carmelos masculino e feminino;
Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim; Basílio, Gregório de Nissa,
Gregório de Nazianzo, Afonso de Ligório, Francisco de Assis, João Bosco, e
tantos outros que mudaram a face da terra... Sim, é uma Igreja riquíssima! Ela
é a Igreja daqueles que, de tanto amor por ela, derramaram o seu sangue nas
arenas romanas, nas espadas dos imperadores, nos cárceres comunistas e
nazistas... Pedro, Paulo, Tiago,... Inácio de Antioquia, Policarpo, Sebastião,
Perpétua, Felicidade, Cecília,... Maximiliano Kolbe,... e tantos outros
gigantes que fizeram do seu sangue ´a semente de novos cristãos´ (Tertuliano,
†220). Ela é a Igreja das belas ordens religiosas de Bento, Domingos, Agostinho,
Benedito, Francisco, Inácio de Loyola, Camilo de Lélis, ... Ela é a Igreja das
Santas Virgens: Maria, Ana, Inez, Cecília, Luzia, Teresinha, Mazzarello, Clara
de Assis,... que formam um verdadeiro exército de Esposas do Senhor.
Sim, é uma Igreja
riquíssima !
Além de ser a rica Igreja
dos Santos, dos Profetas, dos Mártires, dos Apóstolos, das Virgens, dos
Confessores... é também a Igreja dos Papas. É a Igreja de João Paulo I com o
seu sorriso inesquecível; de João XXIII, do Concílio Vaticano II, de Paulo VI
com o seu apaixonado amor à Igreja; de Gregório, que a posteridade chamou de
Magno, e que criou o canto que recebeu o seu nome. Ela é a grande e rica Igreja
de Leão Magno, detendo as grandes heresias às portas da Igreja, enfrentando os
bárbaros Átila e Genserico às portas de Roma. É a Casa de Pedro, que é o
princípio de tudo e a Pedra sobre a qual os outros se sucederam. É a Igreja
dessa cadeia viva e ininterrupta de 265 Pontífices, o ´doce Cristo na Terra´,
como dizia S. Catarina de Sena. Todos os Santos se inclinaram diante do Papa, e
nenhum foi nada sem ele. Paulo, o apóstolo dos gentios, foi ao encontro de
Pedro; Francisco, o enamorado da Pobreza, ajoelhou´se diante de Inocêncio III;
Teresinha suplicou a Leão XIII que a deixasse entrar no Carmelo aos quinze anos
... Que outra Igreja teve um Pio IX que proclamou Maria Imaculada; e José,
Padroeiro Universal da Igreja? Que outra Igreja tem um João Paulo II, filho de
operário, operário, ator de teatro, esquiador, sacerdote, poliglota, bispo,
diplomata, cardeal ´ Cardeal da Igreja do Silêncio e da Polônia Mártir? A
Igreja é riquíssima, de fato, pois é a Igreja dos Santos e dos Papas. É a
Igreja dos Sacramentos que o Senhor derramou do seu Coração ferido pela lança
no alto da Cruz. É a Igreja da salvação universal de todos os homens... É a
barca de Pedro que salva do dilúvio do pecado! Esta é a verdadeira fortuna da
Igreja, acumulada no sangue dos Mártires, na fidelidade dos Confessores, na
riqueza dos Padres, no discernimento dos Doutores, na pureza das Virgens, no
sangue dos Inocentes, na palavra dos Apóstolos e Profetas, no zelo dos
Patriarcas, na lei dos Profetas e na infalibilidade dos Papas.
Sim, é riquíssima!...
Quanto ao resto, é
dispensável falar; pois, basta lembrar que o seu território hoje, não passa de
um pequeno pedaço de terra com menos de 30 ha
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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