Assegurar o ensino claro das verdades básicas
apresentadas pela doutrina moral da Igreja
De 10 a 19
de outubro foi realizada a visita “ad Limina Apostolorum”, dos Bispos
brasileiros pertencentes aos Regionais Sul 3 e Sul 4 da CNBB.
João Paulo II recebeu´os
em audiências particulares e num encontro coletivo, que teve lugar após a Santa
Missa concelebrada na sua Capela particular, no Palácio Apostólico do Vaticano,
na manhã do dia 18 de outubro. O Regional Sul 3, no Estado do Rio Grande do
Sul, é formado pela Província Eclesiástica de Porto Alegre, com uma
Arquidiocese e 14 Dioceses sufragâneas: Uruguaiana, Santa Maria, Frederico
Westphalen, Pelotas, Vacaria, Santo Ângelo, Caxias do Sul, Passo Fundo, Cruz
Alta, Santa Cruz do Sul, Cachoeira do Sul, Bagé, Rio Grande e Erexim. Por sua
vez, o Regional Sul 4, no Estado de Santa Catarina, abrange a Província
Eclesiástica de Florianópolis, com uma Arquidiocese e 7 Dioceses sufragâneas:
Chapecó, Rio do Sul, Joaçaba, Lages, Caçador, Tubarão e Joinville. Juntamente
com estes Bispos dos dois Regionais da CNBB, encontravam´se o Arcebispo de
Vitória (Espírito Santo), D. Silvestre L. Scandian, o Bispo de União da Vitória
(Paraná), D. Walter Ebejer, e o Abade do Mosteiro São Bento (Rio de Janeiro),
D. José Palmeiro Mendes. Durante o encontro coletivo, o Santo Padre foi saudado
pelo Arcebispo de Porto Alegre, D. Altamiro Rossato.
Apresentamos a seguir o
texto do discurso de João Paulo II:
Amados Irmãos no
Episcopado
1. Apresento´vos as
minhas sinceras boas´vindas por ocasião da vossa visita à Cidade Eterna e aos
sepulcros dos Apóstolos Pedro e Paulo. A vós está confiada a responsabilidade
pela Igreja nas Dioceses de um País que, no limiar do Século XXI, estará
celebrando o V Centenário do seu descobrimento, devendo ela, portanto, estar
preparada para os imensos desafios que o Povo de Deus espera dos seus Pastores.
Por isso, esta vossa visita “ad Limina” está revestida de denso significado
histórico: os caminhos de Deus são insondáveis, mas, respeitando´se o curso
normal dos acontecimentos, a Providência vos chama a iluminar as futuras
gerações de brasileiros, como arautos da Verdade, “se perseverardes fundados e
firmes na fé, e inabaláveis na esperança que vos dá o Evangelho” (Col 1, 23).
Com reconhecimento para com Deus, penso nos dias cheios de graça, em 1991,
quando, respondendo ao vosso convite fraterno, pude realizar a minha segunda
Visita Pastoral à Igreja que está no Brasil. Conservo ainda viva a grata
recordação do testemunho de fé de muitos homens, mulheres e crianças, do
acolhimento sincero e cheio de alegria tido em toda a geografia do vosso imenso
País. Em todos, pude entrever verdadeiras ânsias de bem e de verdade, e um
clima de confiança e de respeito pelos seus Pastores. Pelas cartas que
continuamente chegam a Roma em busca de luz, conforto e ajuda, manifestando
sincera devoção pelo Sucessor de Pedro, sinto a “alma” do brasileiro. Vós
mesmos, quando me escreveis, abris o coração expondo lealmente a situação e a
vida das vossas Igrejas particulares. É meu vivo desejo encorajar´vos e
sustentar a vossa obra muitas vezes fatigosa e cheia de desafios. Com a ajuda
de Deus haveis de superar as vossas provas, se estiverdes unidos por um
espírito fraterno e se testemunhardes abertamente a vossa comunhão com o Papa e
com os Irmãos no episcopado Saúdo de coração o Senhor Arcebispo D. Altamiro
Rossato que, em representação das Províncias eclesiásticas, que compõem os
Regionais Sul 3 e Sul 4, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, quis expor o
quadro geral das vossas Dioceses, com seus anseios e suas preocupações. Muito
obrigado! Que a luz do Divino Consolador vos inspire sempre enquanto
desempenhais, com fé e confiança na Providência, vosso múnus episcopal.
Um ministério de unidade
2. Os relatórios
qüinqüenais oferecem um quadro objetivo do estado das vossas Dioceses, dos
gratos progressos e também de alguns desenvolvimentos que requerem uma
cuidadosa ponderação. O que acontece hoje na Igreja, em qualquer lugar, tem
repercussões na sociedade em seu conjunto. Num mundo que se encaminha para a
unidade, a responsabilidade de todos por todos tornou´se uma experiência direta.
Desempenhai então o vosso ministério episcopal com consciência e com
habilidade; que ele seja cada vez mais também ministério de unidade da Igreja
universal, contribuindo assim à unidade da doutrina, da fé e da moral, tal como
esta vincula o Magistério. A Igreja, com efeito, conserva uma verdade, uma
doutrina, uma sabedoria e uma experiência, das quais as pessoas têm necessidade
para percorrer o caminho da sua verdadeira libertação, e alcançar o seu bem
autêntico. Este é o contexto em que se deve compreender a Encíclica Veritatis
splendor que eu quis publicar, movido pela urgência de reapresentar à luz do
Evangelho o ensinamento autorizado da Igreja ante a confusão malsã que muitas
pessoas sentem acerca das questões fundamentais do bem e do mal, daquilo que é
correto e daquilo que é errado. A reafirmação do ensinamento moral da Igreja ´
que é constante e contudo sempre novo ´ é a resposta necessária do Magistério à
difundida crise ética que atinge a sociedade contemporânea. Comoveu´me de
maneira particular, no recente encontro com a juventude européia em Loreto, ver
tantos jovens procurarem ansiosamente amar e servir Cristo na Sua Igreja. Estou
certo, porque já tive ocasião de conhecer o seu próprio dinamismo interior, que
assim é na vossa Pátria. Esses homens e mulheres do Terceiro Milênio esperam
que os seus Bispos e os seus sacerdotes os ajudem a viver segundo a verdade que
representa o dom precioso que Cristo lhes reservou (cf. Gál. 5, 1). Os fiéis
olham para os Bispos da Igreja como para “doutores autênticos, isto é,
investidos da autoridade de Cristo, que ao povo a eles confiado pregam a fé”
(Cons. dog. Lumen gentium, 25). Como Pastores experientes, estais profundamente
conscientes da intensidade das conseqüências desta crise na vida quotidiana das
pessoas, e também conheceis a vossa própria responsabilidade, que consiste em
oferecer orientações pastorais que estejam em conformidade com a mente de
Cristo e da Igreja. Face ao desafio, sem dúvida doloroso, do abandono da Fé e
da Moral nos países cristãos, devemos renovar continuamente em nós aquele
carisma da vigilância, que levou Santo Agostinho a recordar´nos a seriedade das
nossas responsabilidades, quando afirmava: “Além de ser cristão... sou também
responsável, e por isso devo prestar contas a Deus do meu ministério” (Sermo
46: Sobre os Pastores, 2).
Relação essencial entre a
verdade e a liberdade
3. No âmago da mensagem
da Veritatis splendor está a reafirmação da relação essencial entre a verdade e
a liberdade (cf n. 32). A verdade universal acerca do bem da pessoa humana e as
normas sempre válidas que asseguram a proteção daquele bem, são realmente
acessíveis à razão humana; com efeito, podemos participar no conhecimento de
Deus acerca daquilo que devemos ser e fazer, a fim de alcançarmos o objetivo
para o qual fomos criados. Ajudar os homens e as mulheres a redescobrirem “a
conexão inseparável entre verdade e liberdade” (ib. 99) é a premente exigência
do nosso ministério pastoral, tanto individual como coletivo. Ao assegurarmos o
ensino claro das verdades básicas apresentadas pela doutrina moral da Igreja,
estaremos promovendo uma nova afirmação da dignidade da pessoa humana, uma
correta compreensão da consciência, que corresponde à única base sólida para o
exercício da liberdade humana, bem como um fundamento para a vida em comum, na
solidariedade e na harmonia cívica. Tudo isto é um serviço fundamental em favor
do bem comum. Como pode a sociedade moderna libertar´se da decadência crescente
do seu comportamento destruidor ´ inclusive na violação dos direitos da pessoa
humana ´, sem recuperar o caráter inviolável das normas morais que devem,
sempre e em todos os lugares, orientar a conduta humana (cf. ib. 84)? É sabido
como a nossa época adquiriu uma percepção particularmente viva da liberdade. Esta
percepção, porém, encontrou múltiplas expressões, que, às vezes, se afastam da
verdade do homem. Em algumas correntes de pensamento chegou´se a exaltar a
liberdade até torná´la um absoluto. Atribuíram´se à consciência individual as
prerrogativas da instância suprema do juízo moral. A exigência da verdade
desapareceu a ponto de se ter chegado a uma concepção radicalmente subjetiva do
juízo moral. Quando se perde a idéia de uma verdade universal sobre o bem,
tende´se a conceder à consciência do indivíduo o privilégio de estabelecer
autonomamente os critérios do bem e do mal e agir em conseqüência. Esta visão
identifica´se com uma ética individualista, na qual cada um se vê confrontado
com a “sua verdade”, diferente da verdade dos outros; por isso, se compreendem
as dificuldades encontradas na recente Conferência sobre a Mulher em Pequim,
por uma afirmação clara e inequívoca dos valores universais inscritos no
coração de cada homem. Sempre, mas especialmente no contexto cultural atual,
será nosso dever afirmar a referência à dignidade humana como fundamento da
liberdade, da justiça e da paz e ainda a salvaguarda da família, o conceito de
maternidade e a responsabilidade dos pais na educação dos filhos. Estes temas
são demasiado importantes para serem deixados de lado. A Igreja nunca cessará
de alertar os fiéis, e todos os homens de boa vontade, de quaisquer atentados à
dignidade do homem e da mulher, proclamando sempre com a devida coragem
pastoral os valores perenes da Lei Natural, confirmados por Cristo no Evangelho.
Liberdade e consciência
bem formada
4. Algumas tendências
culturais hodiernas estão na origem de muitas orientações éticas; que colocam
no centro do seu pensamento um suposto conflito entre liberdade e lei. São
doutrinas que atribuem a indivíduos ou grupos sociais a faculdade de decidir o
bem e o mal. Esta reivindicação errônea de autonomia também exerceu o seu
influxo no âmbito da teologia moral católica, e alguns chegaram a teorizar uma
completa soberania da razão face às normas morais relativas à reta ordenação da
vida neste mundo. Em conseqüência, chegou´se ao ponto de negar, em contraste
com o ensinamento da Sagrada Escritura e a constante doutrina da Igreja, que a
Lei Natural tenha a Deus como autor, e que o homem, mediante a sua razão, participe
da lei eterna, que não é estabelecida por ele (cf. VS, 36). Uma autonomia assim
concebida, nega à Igreja e ao seu Magistério uma competência doutrinal
específica sobre normas morais concretas relacionadas com o chamado “bem
humano”. É preciso, porém, recordar constantemente que a liberdade, entendida
como arbítrio, separada da verdade e do bem, a liberdade separada dos
Mandamentos de Deus, torna´se uma ameaça para o homem e para a mulher, e leva à
escravidão, voltando´se contra o indivíduo e contra a sociedade. A Igreja, que
sempre correu na defesa dos direitos do homem, não se pode calar, mesmo a risco
de perder a popularidade. O Concílio ensina´nos: “Nenhuma lei humana pode
assegurar a dignidade da pessoa e a liberdade do homem, como o faz o Evangelho
de Cristo, confiado à Igreja” (Cons. pas. Gaudium et spes, 41). Dou graças a Deus
pelas notícias recentes acerca das novas iniciativas no campo dos meios de
comunicação social, tanto por parte da Igreja quanto de grupos particulares,
para anunciar, com renovado ardor missionário, a Verdade revelada. Não basta,
porém, falar às grandes massas muitas vezes polivalentes, se não se encaram
individualmente as pessoas, sabendo que Cristo derramou todo o seu
preciosíssimo Sangue por cada uma em particular. A liberdade precisa ser guiada
pela consciência bem formada, que esteja em condições de distinguir o bem e o
mal moral e saiba escolher o bem em todas as situações. A liberdade não é
relativismo moral, mas funda´se em critérios morais claros e transparentes. Os
brasileiros, hoje, devem ser bem orientados pelos seus Pastores, para
resistirem às tendências que lhes chegam de várias partes acerca da modernidade
e da libertação as quais, na realidade, muitas vezes são destituídas de
verdadeiros princípios morais.
A “Nova Evangelização” e
a vida moral
5. A Evangelização é, sem
dúvida, o desafio mais forte e sublime, que a Igreja é chamada a enfrentar. O
momento que estamos vivendo é mais o de um incitamento à “Nova Evangelização”,
nova no seu ardor, nos seus métodos e na sua expressão. Mas esta evangelização
“comporta também o anúncio e a proposta moral” (VS, 107) vivida na santidade de
tantos membros do Povo de Deus. No contexto da Nova Evangelização, que deve
gerar e nutrir a fé, podemos compreender o lugar que na Igreja compete à
reflexão que a Teologia deve desenvolver sobre a vida moral, assim como podemos
apresentar a missão e a responsabilidade própria dos teólogos moralistas. Se a
Nova Evangelização deve tornar´se preocupação de todos, nestes especialmente
recai uma grave responsabilidade. Para que a Igreja possa cumprir a sua missão
profética, é necessária uma reflexão cada vez mais profunda da fé, sob a guia
do Espírito Santo. É ao serviço desta reflexão e busca que se coloca a vocação
do teólogo na Igreja. Por isso, faço minhas aquelas precisações relativas ao
Magistério da Igreja, cuja tarefa é “discernir, mediante juízos normativos para
a consciência dos fiéis, os atos que são em si mesmos conformes às exigências
da fé e promovem a sua expressão na vida, e aqueles que, pelo contrário, por
sua malícia intrínseca são incompatíveis com tais exigências” (Ins. da Congr.
para a Doutrina da Fé, “Donum veritatis”, 24´V´1990, 16). A todos os que
ensinam a Teologia Moral, por mandato dos legítimos Pastores, desejo recordar o
grave dever de instruir os fiéis ´ especialmente os futuros sacerdotes ´ com o
ensinamento que a Igreja declara com autoridade. De modo particular, todos nós
devemos empenhar´nos na organização do estudo da teologia, e num
desenvolvimento fecundo das Faculdades e dos Institutos Superiores de Teologia.
Na Exortação Apostólica pós´sinodal “pastores dabo vobis”, expressei os
princípios fundamentais da formação científico´intelectual e espiritual dos
candidatos ao sacerdócio: “A formação intelectual dos candidatos ao sacerdócio
encontra a sua específica justificação na própria natureza do ministério
ordenado e manifesta a sua urgência atual de fronte ao desafio da ´Nova
Evangelização´, à qual o Senhor chama a Igreja no limiar do terceiro milênio”
(n. 51). Recomendo´vos, sobretudo, uma particular vigilância naquilo que se
refere à formação dos vossos seminaristas no campo da Teologia Moral. Serão
eles os futuros formadores de consciências cristãs, como confessores, diretores
espirituais e animadores de comunidades. Devem, portanto, ser preparados a
desempenhar esta importante função do seu sacerdócio, em total sintonia com a
doutrina da Igreja. Por isso, é indispensável que manuais e professores de
Teologia Moral sejam cuidadosamente escolhidos, para não se introduzir nos
seminários e faculdades eclesiásticas de teologia, qualquer forma de
dissidência, que seria prejudicial em um campo tão fundamental. O que interessa
na formação teológica dos futuros sacerdotes, dos professores e de quantos
colaboram no ensino da religião, é não só a qualidade científica da própria
preparação intelectual, mas, também, o “sentire cum Ecclesia” entre professores
e estudantes. Nunca é demais precisar, que cabe de modo especial aos teólogos
moralistas expor a doutrina da Igreja, dando exemplo de uma leal adesão interna
e externa, ao ensinamento do Magistério, tanto no campo do Dogma como da Moral
(cf. VS, 110). Há uma responsabilidade intelectual, espiritual e pastoral dos
teólogos que devem ensinar a doutrina da Igreja sem alterá´la em nada. A
discordância com a doutrina moral manifestada por contestações e polêmicas,
através dos meios de comunicação social, é contrária à comunhão eclesial e à
sua reta compreensão da constituição hierárqtúca do Povo de Deus. Uma oposição
ao ensinarnento do Magistério da Igreja não pode ser considerada expressão da
liberdade cristã e da diversidade dos dons do Espírito: todos os fiéis ´
leigos, religiosos ou sacerdotes ´ têm o direito de receber a Doutrina Católica
na sua pureza e integridade que, neste caso, os Pastores devem fazer respeitar.
Estes pressupostos tomam´se ainda mais atuais à hora de considerarmos o influxo
do Magistério da Igreja articulado para expor, sob a luz do Evangelho, o
caminho comum rumo ao desenvolvimento e à libertação integral do homem. É
óbvio, que a foitnulação de jtúzos morais sobre situações, estruturas e
sistemas sociais requer atenta e diligente ponderação como, de resto, a Igreja
repetidamente tem´se pronunciado na defesa e promoção dos direitos do homem, e
eu mesmo o reafirmei na Encíclica Centesimus annus (cf. 22). Mas será sempre
conveniente destacar as palavras que dirigi aos seminaristas de Brasfiia na
minha última Viagem Pastoral à vossa terra: “Tende sempre como guia, para os
estudos, o Magistério autêntico e universal da Igreja. Só quando o Magistério é
docilmente aceito, com espírito de fé (...), é que se podem evitar as tentações
do deslumbramento superficial perante correntes e modas teológicas que deturpam
e obscurecem a Verdade” (Discurso, 15´X´1991, 4). Uma análise sociológica não
pode ser nunca a instância suprema na elaboração do discurso teológico. Se
estabelece uma elaboração objetiva de dados e de fatos, nas suas conexões e na
sua causalidade, ela poderá ser um instrumento útil para se conhecer melhor a
realidade humana, mas é a Revelação em si mesma, e só ela, que pode oferecer ao
teólogo as luzes necessárias para a compreensão sempre mais profunda da verdade
sobre o homem, que se encontra intimamente relacionada com a verdade de Deus e
sobre Deus. Só assim poder´se´á evitar os riscos de instrumentalização
ideológica da teologia. Por isso, a Igreja deseja ´ como foi declarado
oportunamente ´ que os professores dos Centros de formação eclesiástica, “aos
quais vem confiada a formação do clero, sejam escolhidos entre os melhores e
possuam uma sólida doutrina e uma conveniente experiência pastoral, unidas a
uma boa formação espiritual e pedagógica”; ao mesmo tempo, “é necessário
promover uma colaboração estrita com os professores de moral, de dogmática e de
pastoral para garantir a coerência, a unidade, a solidez do ensino”
(Orientações para o Estudo e o Ensino da Doutrina Social da Igreja na Formação
Sacerdotal, Roma [l988], 67). A vós, queridos irmãos no episcopado, vos foi
confiado vigiar sobre a transmissão do ensinamento teológico, e recorrer às
medidas oportunas para que os fiéis possam ser preservados de toda a doutrina e
teoria a ele contrárias. Nesta tarefa, os Bispos são ajudados pelos teólogos,
mas as opiniões teológicas não constituem a regra nem a norma do seu
ensinamento; vige aqui o principio segundo o qual o ensinamento do Magistério ´
graças à assistência divina vale mais que a argumentação meramente humana. Mais
ainda, o pluralismo teológico, invocado às vezes sem critério, “não é legítimo
a não ser na medida em que é salvaguardada a unidade da fé, no seu significado
objetivo” (Ins. DV, 34).
Os valores morais
6. Diante de uma
sociedade que parece insistir em viver independente dos valores morais,
caracterizando atitudes não apenas contrárias, mas indiferentes a tais valores,
resultando naquilo que comumente se chama “civilização da morte”, a Igreja não
se cansa de defender com firmeza essas normas morais que, sendo universais e
imutáveis, porque oriundas da Lei da própria natureza, constituem a condição
para a existência da liberdade. A cultura da morte a Igreja propõe a cultura do
amor. Só na observância de tais normas, que proíbem todo o mal intrínseco e
regulam a justa e pacífica convivência humana, tornam´se possíveis o bom
desenvolvimento da estrutura social, o bem público como tal e a harmonia
pessoal do ser humano. É exatamente por isso que as palavras do apóstolo Paulo
tornam´se tão atuais em nossos dias: “Prega a palavra, insiste oportuna e
inoportunamente... porque haverá tempo em que os homens já não suportarão a sã
doutrina” (2 Tm 4, 2´3). Assim, a missão da Igreja deverá ser sempre a de
interpretar a norma moral, propondo´a a todos os homens e mulheres de boa
vontade, sem esconder as suas exigências e compromissos... Mesmo quando a verdadeira
doutrina é impopular não nos será lícito buscar uma fácil popularidade! É
evidente que, em sua perene diligência para com os fiéis, a Igreja, Mãe e
Mestra, tem sempre em mente as situações conflituosas e extremamente complexas
da vida do homem e da sociedade contemporânea, cujo caminho moral torna´se com
freqüência cansativo pelas dificuldades, debilidades e situações dolorosas (cf.
VS, 95). Porém, em sua solicitude pastoral, a Igreja não pode esquecer que a
genuína compaixão e a verdadeira compreensão significam o amor pela pessoa,
pelo Bem Supremo e pela autêntica liberdade que não é possível separar de uma
opção fundamental pelo Sumo Bem. Não será enfraquecendo a verdade moral e
negligenciando os verdadeiros valores que a Igreja cumprirá a sua missão em
favor do homem A Igreja, obediente ao Senhor, que veio não para julgar mas para
salvar, deve manifestar a misericórdia para com as pessoas sem, contudo,
renunciar ao princípio da verdade e da coerência, pelo qual não se pode chamar
bem ao mal e mal ao bem. Não diminuir em nada a doutrina salvadora de Cristo
constitui eminente forma de caridade para com as almas. Não podemos deixar de
ter diante dos olhos, ao longo de todos os séculos, que a força da Igreja está
no testemunho dos santos, isto é, daqueles que tornaram como própria a verdade
de Cristo. À pergunta “que hei de fazer de bom para alcançar a vida eterna” (Mt
19,16), a Igreja responde com Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,
5) . Certamente a todos nós, mas especialmente a vós Bispos de Santa Catarina,
vêm à memória aqueles dias da Beatificação da Madre Paulina que a Providência
me concedeu a graça de realizar. Dizia´vos, naquela ocasião, que a “Igreja no
Brasil (...) precisa, hoje, mais do que nunca, de santos” (Homilia, 18´X´1991,
5). Mas é precisamente por isto, que a sociedade moderna tem uma extrema
necessidade de Verdade, porque só sobre o fundamento da Verdade se pode
construir, de modo seguro, o edifício da vida moral e ascética. Só da Verdade
nasce a moralidade autêntica, objetiva e universal.
O papel de Maria na
Igreja
7. Caros irmãos no
Episcopado, ao concluir este encontro, quereria confirmar´vos no vosso serviço
pessoal à Igreja, esta Mãe de cujo regaço temos “aprendido tudo”, e que
prefigura a Jerusalém do alto já presente no meio de nós. Dentre todos os
santos, Maria Santíssima compartilha a nossa condição humana, mas numa total
transparência à graça de Deus. Compreende o homem pecador e ama´o com amor de
Mãe. E por isso mesmo está do lado da verdade e compartilha o peso da Igreja ao
recordar a todos e sempre as exigências da Fé. Com esperança, peço à Virgem
Maria, a quem dais o belo nome de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, que
interceda todos os dias por vós junto de seu Filho, a fim de que vossa missão
vos dê muita alegria. De coração concedo a minha Bênção Apostólica a vós, aos
sacerdotes, religiosos e religiosas e aos fiéis a vós confiados bem como ao
vosso País, para que possa ser exemplo e testemunho da Nova Evangelização de
uma América Latina renovada em Cristo.
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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