ENSINAMENTOS
DE
SÃO
JOÃO DA CRUZ
1045. Não se contentar com o que
diz o confessor é orgulho e falta de fé.
1046. Sofrer e ser desprezado por
Vós.
1047. Sem o amor nada são todas as
obras reunidas.
1048. O mais leve movimento de uma
alma animada de puro amor é mais proveitoso à Igreja do que todas as demais
obras reunidas.
1049. Meus são os Céus e minha é a
Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus são os pecadores. Os
Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todos as coisas são minhas. O próprio Deus é
meu e para mim, pois Cristo é meu e todo para mim. (Sobre a Eucaristia)
1050. Não faça coisa alguma, nem diga
palavra alguma, que Cristo não faria ou não diria se encontrasse nas mesmas
circunstâncias.
1051. Nada peça a não ser a cruz,
e precisamente sem consolação, pois isso é perfeito.
1052. Renuncie aos desejos e
encontrará o que o seu coração deseja.
1053. Quem não procura a Cruz de
Cristo não procura a glória de Cristo.
1054. Quem se queixa ou murmura
não é cristão perfeito, nem mesmo um bom cristão.
1055. Um coração puro encontra em
tudo o conhecimento de Deus.
1056. As criaturas são os
vestígios das pegadas de Deus, pelas quais se reconhece sua grandeza, poder e
sabedoria.
1057. Os incomensuráveis bens de
Deus só podem ser acolhidos por um coração vazio.
1058. Senhor, quero padecer e ser
desprezado por amor de Vós.
1059. A pessoa que está presa por
algum afeto a alguma coisa, mesmo pequena, não alcançará a união com Deus,
mesmo que tenha muitas virtudes. Pouco importa se o passarinho está com um fio
grosso ou fino... ficará sempre preso e não poderá voar.
1060. O Verbo Filho de Deus,
juntamente com o Pai e o Espírito Santo, está essencial e realmente escondido
no íntimo de cada ser.
1061. É em teu próprio ser que
podes desejá-Lo e adorá-Lo - não o procures fora de ti porque te distrairás e
cansarás. Não o encontrarás nem gozarás dele com maior segurança, nem mais
depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti mesmo.
1062. Se está em mim aquele a quem
minha alma ama, como não o encontro nem o sinto? É por estar ele escondido. Mas
não te escondas também; assim podes encontrá-Lo e senti-Lo...
1063. Para O encontrares, convém,
pois, que esqueças todas as tuas coisas e te desligues de todas as criaturas, e
te escondas no aposento interior do teu espírito. Fecha a porta sobre ti (isto
é, tua vontade a todas as coisas) e ora a teu Pai em segredo.
1064. A alma que verdadeiramente
ama a Deus, não deixa de fazer o que pode para achar o Filho de Deus, seu
Amado. Mesmo depois de haver empregado todos os esforços, não se contenta e
julga não ter feito nada.
1065. Quem deseja a Deus não pode
achar consolo na companhia de criatura alguma. Pelo contrário tudo lhe causa
grande solidão, enquanto não encontra seu Amado.
1066. Se a alma procura
desapegar-se de todas as coisas e permanecer vazia e despojada de tudo - tendo
feito tudo o que era de sua parte - é impossível que Deus deixe de fazer a
dele, de comunicar-se a ela pelo menos em segredo e no silêncio.
1067. O que pretendes e o que mais
desejas, não o conseguirás, nem por esse caminho que percorres, nem por meio de
alta contemplação, mas sim na humildade e simplicidade de todo o teu ser.
1068. Para buscar a Deus,
requer-se um coração despojado e forte, livre de tudo o que não é puramente
Deus.
1069. O estado de união consiste
na transformação total da vontade humana na divina, de modo que nela nada haja
de contrário a essa vontade, mas seja sempre movida, em tudo, pela vontade de
Deus. Por isso dizemos que, nesse estado, as duas vontades formam uma só - a de
Deus.
1070. Para possuir Deus
plenamente, é preciso nada ter; porque se o coração pertence a ele, não pode
voltar-se para outro.
1071. Quando a pessoa abre e se
liberta de todo condicionamento, e une perfeitamente sua vontade à de Deus,
transforma-se naquele que lhe comunica o ser sobrenatural, de tal maneira que
se parece com o próprio Deus e se deixa possuir totalmente por ele.
1072. O amor consiste em
despojar-se e desapegar-se, por Deus, de tudo o que não é ele.
1073. Embora seja certo que uma
alma, segundo sua maior ou menor capacidade, pode chegar à união com Deus, ela,
porém, tem modos diversos de conquistá-Lo conforme ele mesmo conceder.
1074. Como acontece aos
bem-aventurados no céu: uns vêem mais a Deus e outros menos; mas todos o
contemplam e todos estão felizes, porque cada um pode satisfazer a própria
capacidade.
1075. O centro da alma é Deus.
Quando a pessoa se encontra com ele, em todas as suas faculdades, energias e
desejos, terá atingido o cerne e a raiz mais profunda de si mesma, que é Deus.
1076. O demônio teme a alma unida
a Deus como ao próprio Deus.
1077. Para atingir o estado
sublime de união com Deus, é indispensável atravessar a noite escura da
mortificação dos desejos desregrados e da renúncia a todos os prazeres deste
mundo.
1078. Quem não procura senão a
Deus, não anda nas trevas, por mais fraco e pobre que seja.
1079. Afeiçoar-se ao mesmo tempo a
Deus e à criatura são coisas contrárias: não podem coexistir numa só pessoa.
1080. A alma, presa pelos encantos
de qualquer criatura, torna-se sumamente desagradável a Deus, e não pode, de
forma alguma, transformar-se na verdadeira beleza que é Deus.
1081. Deus é inacessível. Não
repares, portanto, no que as tuas faculdades podem compreender, nem teus
sentidos experimentar, para que não te satisfaças com menos e assim perderes a
presteza necessária para chegar a ele.
1082. As visões e apreensões dos
sentidos não têm proporção alguma com Deus: não podem servir de meio para a
união com ele.
1083. O afeto e o apego da alma à
criatura torna-a semelhante a esta mesma criatura. Quanto maior a afeição,
maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor tornar aquele que ama
semelhante ao amado.
1084. Os apetites causam à alma um
duplo prejuízo: primeiro, privam-na do espírito de Deus; segundo, a afadigam,
atormentam, obscurecem, mancham e a enfraquecem. Estes dois efeitos são
causados por qualquer ato desordenado.
1085. Que comparação se pode
estabelecer entre a fome, causada por todas as criaturas, e a fartura que
proporciona o espírito divino?
1086. Para buscar a Deus,
requer-se um coração despojado e forte, livre de tudo o que não é puramente
Deus.
1087. Dar tudo pelo Tudo.
1088. Quando a pessoa ama alguma
coisa fora de Deus, torna-se incapaz de se transformar nele e de se unir a ele.
1089. A alma não receberá a
fartura incriada de Deus, enquanto não tiver perdido aquela fome material de seus
apetites; pois a fome e a fartura não podem coexistir numa única pessoa.
1090. A criatura atormenta, o
espírito de Deus gera alegria.
1091. Quem tiver alguma afeição
desregrada não pode confiar nas próprias capacidades, nem em dons recebidos de
Deus, julgando que não ficará cego e insensível e não cairá no mal.
1092. Os prazeres não dominados
chegam ao ponto de obstruir numa pessoa a vida divina, porque não os matou
primeiro, mas os deixou viver.
1093. Como a prática de uma só
virtude aumenta e fortalece todas as outras, assim, sob a ação de um único
vício, todos os vícios crescem e multiplicam suas conseqüências.
1094. A mosca que pousa no mel,
não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer, sente-se impedida em
sua liberdade e contemplação.
1095. Qualquer prazer desordenado
causa na alma cinco danos: inquieta, perturba, macula, enfraquece, embaraça.
1096. A pessoa que caminha para
Deus e não afasta de si as preocupações, nem domina suas paixões, caminha como
quem empurra um carro encosta acima.
1097. Venceu verdadeiramente todas
as coisas aquele a quem nem o gosto delas leva ao gozo, nem o seu amargor causa
tristeza.
1098. O caminho da vida é de muito
pouco ativismo e barulho. Requer mais mortificação da vontade do que muito
saber. Caminhará mais quem carregar consigo menos coisas e desejos.
1099. Mesmo que realizes muitas
coisas, não progredirás na perfeição, se não aprenderes a negar a tua vontade e
a sujeitar-te, deixando a preocupação de ti próprio e das tuas coisas.
1100. Então, se conhecerá quem ama
verdadeiramente a Deus: aquele que não se contenta com coisa alguma fora dele.
1101. Na verdade, a satisfação do
coração não se acha na posse das coisas e sim no despojamento de todas elas, na
pobreza de espírito.
1102. Uma só coisa é necessária:
saber realmente renunciar-se interior e exteriormente, abraçando o sofrimento e
o mais completo aniquilamento, por amor a Cristo.
1103. Quem souber morrer a tudo
terá vida em tudo.
1104. Além das verdades reveladas pela
Igreja quanto à substância de nossa fé, não há mais o que revelar. Por isso é
necessário não só rejeitar qualquer novidade, mas também acautelar-se para não
admitir as que aparecem sutilmente misturadas à substância dos dogmas.
1105. Visões, revelações,
sentimentos celestes e tudo quanto se pode imaginar de mais elevado, não valem
tanto como o menor ato de humildade.
1106. Quando o homem caminha
revestido de fé, o mal não o atinge porque, com a fé, muito mais do que com
todas as outras virtudes, está bem protegido contra o demônio, que é o mais
forte e astuto inimigo.
1107. A constância de ânimo, com
paz e tranqüilidade, não só enriquece a pessoa, como a ajuda muito a julgar
melhor as adversidades, dando-lhes a solução conveniente.
1108. Toda a posse é contrária à
esperança.
1109. A virtude está no que não se
sente, isto é, na humildade profunda e na renúncia de si mesmo e de tudo quanto
é próprio e bem arraigado no ser; e em desejar não merecer nenhuma
consideração.
1110. Quanto maior a esperança,
tanto maior a união com Deus, porque em relação a Deus, quanto mais se espera,
tanto mais se alcança. E mais espera, quem mais despojado está.
1111. O amor não consiste em
sentir grande coisas, mas em despojar-se e sofrer pelo Amado.
1112. Para onde quer que se
oriente uma paixão, para lá se orienta também toda a pessoa e suas energias:
todas estarão escravizadas por esta paixão.
1113. Por causa de prazeres
passageiros, sofrem-se grandes tormentos eternos.
1114. Guardando as portas do
espírito, isto é, os sentidos, guarda-se e aumenta-se sua tranqüilidade e
pureza.
1115. Se renunciares a uma
satisfação, o Senhor te dará cem vezes mais aqui na terra, no plano espiritual
e temporal. Mas se te deixas seduzir pelo prazer sensível, recolherás o
cêntuplo em aflições e amarguras.
1116. É necessário ao cristão
perceber que o valor das suas boas obras, jejuns, esmolas, penitências etc.,
não se funda tanto na quantidade e qualidade, mas na intensidade do amor de
Deus com que as prática.
1117. Quanto mais se acredita em Deus
e se serve a ele sem testemunhos e sinais, tanto mais ele é exaltado pelo
homem.
1118. A perfeição consiste no
perfeito amor a Deus e na renúncia de si mesmo. Não se pode, portanto, deixar
de ter o conhecimento de Deus e o conhecimento próprio.
1119. O amor não cansa nem se
cansa.
1120. Onde não há amor, põe amor e
colherás amor.
1121. Para quem ama, a morte não
pode ser amarga, pois nela se encontram todas as doçuras e alegrias do amor.
Sua lembrança, não é triste, mas traz alegria. Não apavora, nem causa
sofrimento, pois é o término de todas as dores e o início de todo bem.
1122. Para se progredir, o que
mais se necessita é saber calar diante de Deus... a linguagem que ele melhor
ouve é a do silêncio de amor.
1123. Que felicidade o homem poder
libertar-se de sua sensualidade! Isto não pode ser bem compreendido, a meu ver,
senão por quem o experimentou. Só então se verá claramente como era miserável a
escravidão em que se estava.
1124. Quando vires teus desejos
apagados, tuas afeições na aridez e angústia, e tuas faculdades incapazes de
qualquer exercício interior, não sofras por isso; considera-te feliz por
estares assim. É Deus que te vai livrando de ti mesmo, e tirando-te das mãos
todas as coisas que possuis.
1125. O progresso da pessoa é
maior quando ela caminha às escuras e sem saber.
1126. As comunicações
verdadeiramente divinas têm a propriedade de, ao mesmo tempo, elevar e
humilhar. Neste caminho, descer é subir, e subir é descer, pois "quem se
humilha será exaltado, e quem se exalta será humilhado" (Lc 18,14).
1127. A pessoa deve ter em grande
estima as lutas interiores e exteriores que Deus envia. Pois são muito poucos
os que merecem ser consumados por sofrimentos e os que sofrem a fim de chegar
ao ápice da união.
1128. O desamparo é comparado a uma
lima; e, padecendo nas trevas, chega-se à grande luz.
1129. O que busca satisfação em
alguma coisa, não está livre para que Deus o plenifique de seu inefável sabor.
1130. Não basta conseguir
libertar-se das criaturas; é preciso libertar-se e despojar-se totalmente
também do prazer que se possa experimentar nas coisas espirituais.
1131. A pessoa que se priva do
sensível, torna-se mais disponível para receber as graças e os dons de Deus.
1132. Para o homem de coração
puro, tudo se transforma em mensagem divina.
1133. Deus quer mais de ti um
mínimo de obediência e docilidade, do que todas as ações que realizas por ele.
1134. Ainda que estejas no
sofrimento, não queiras fazer a tua vontade, pois terás assim o dobro de
sofrimentos.
1135. Mesmo carregado de grandes e
molestas tentações, o homem pode ir a Deus, desde que sua razão e vontade não
consintam nelas.
1136. O pássaro que se deixa
prender pelo visco, tem que desprender-se e limpar-se. De duas maneiras sofre
quem satisfaz seus desejos: desprender-se; e, depois de desprendido,
purificar-se.
1137. Afastam-se muito de Deus os
que o representam sob qualquer forma, seja como fogo consumidor, ou luz
esplêndida, ou outros aspectos, buscando nessas imagens alguma semelhança do
que ele é.
1138. A procura de gostos
sensíveis causa ao homem espiritual muitos prejuízos interiores e exteriores.
1139. Sofrer por Deus é melhor que
fazer milagres.
1140. Embora a alma esteja no céu,
se a vontade não se conformar com isso, não estará contente; assim nos acontece
com Deus (ainda que esteja sempre conosco), se temos o coração afeiçoado a
outra coisa fora dele.
1141. É humilde quem se esconde no
seu nada e sabe abandonar-se em Deus.
1142. É sobremaneira conveniente à
alma, que quer adiantar-se no recolhimento a na perfeição, olhar em que mãos se
põe; porque qual o mestre, tal o discípulo.
1143. Põe a atenção amorosamente
em Deus, sem ambição de querer sentir ou entender coisa particular a seu
respeito.
1144. Quando a alma deseja a Deus
com toda a sinceridade, já possui o seu Amado.
1145. Para chegares a saborear
tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma.
1146. Para chegares a possuir
tudo, não queiras possuir coisa alguma.
1147. Para chegares a ser tudo,
não queiras ser coisa alguma.
1148. Para chegares a saber tudo,
não queiras saber coisa alguma.
1149.Para chegares ao que não
gostas, hás de ir por onde não gostas.
1150.Para chegares ao que não
sabes, hás de ir por onde não sabes.
1151. Para vires ao que não
possuis, hás de ir por onde não possuis.
1152. Para chegares ao que não és,
hás de ir por onde não és.
1153. Guiemo-nos, pois, agora pela
doutrina de Cristo-homem, de sua Igreja e seus ministros; e por este caminho,
humano e visível, encontraremos remédios para nossa ignorância e fraqueza espiritual.
1154. Quando tiveres algum
aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala-te.
1155. Na cruz, quando sofria o
maior abandono sensível, Cristo realizou a maior obra que superou os grandes
milagres e prodígios operados em toda a sua vida: a reconciliação do gênero
humano com Deus, pela graça.
1156. Queira tornar-te, no
padecer, algo semelhante a este nosso grande Deus, humilhado e crucificado,
pois que esta vida só tem razão de ser se for para imitá-lo.
1157. A luz da fé comunica à alma
toda a sabedoria de Deus; isto é, o próprio Filho de Deus é quem se comunica à
alma na pura fé.
1158. Há muito que aprofundar em
Cristo, sendo ele, qual abundante mina com muitas cavidades cheias de ricos veios:
por mais que se cave, nunca se chega ao fim, nem se consegue esgotar.
1159. Ao criar todas as coisas,
Deus as achou muito boas, porque as criou no Verbo, seu Filho.
1160. Tenha a alma o desejo
contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida,
meditando-a para saber imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele
próprio agiria.
1161. Não é bem orientado o
espírito que quer caminhar por doçuras e facilidades, fugindo de imitar a
Cristo.
1162. A pessoa crucificada
interior e exteriormente com Cristo, viverá feliz e satisfeita e, na paciência,
possuirá a sua alma.
1163. Fortalece o teu coração
contra todas as coisas que te inclinam ao que não é Deus, e sê amigo da paixão
de Cristo.
1164. Nunca tomes o homem por
exemplo no que tiveres que fazer, o santo que seja, porque o demônio porá
diante de ti as suas imperfeições; imita, porém, a Cristo que é sumamente
perfeito e sumamente santo e nunca errarás.
1165. Se quiseres chegar a possuir
Cristo, jamais o busques sem a Cruz.
1166. O Filho de Deus se compraz
na alma, isto é, permanece na alma, como em lugar onde acha grandes delícias,
porque este mesmo lugar - a própria alma - também acha nele verdadeiramente seu
gozo.
1167. Deus só coloca sua graça e
predileção numa alma, na medida da vontade e do amor da mesma alma.
1168. Adquire-se a sabedoria
através do amor, do silêncio e da mortificação; grande sabedoria é saber calar
e não inserir-se em ditos ou fatos e na vida alheia.
1169. Quando a alma se acha livre
e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la.
Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua suavidade e
tranqüilidade, que ela nunca perde nem jamais lhe falta.
1170. Ora, não há maior grandeza
para a alma do que ser igualada a Deus. Por isso, ele se serve somente do amor
da alma, pois é próprio do Amor igualar o que ama com o objeto amado.
1171. Considerem isto os que são
muito ativos: bem maior proveito fariam à Igreja, e maior satisfação dariam a
Deus - além do bom exemplo que proporcionariam a si mesmos - se gastassem ao
menos a metade do tempo empregado nessas boas obras, em permanecer com Deus na
oração.
1172. Tal é a alma que está
enamorada de Deus. Não pretende vantagem ou prêmio algum a não ser perder tudo
e a si mesma, voluntariamente, por Deus, e nisto encontra todo o seu lucro.
1173. Não basta que Deus nos ame
para dar-nos virtudes; é preciso que, de nossa parte, também o amemos, a fim de
podermos recebê-las e conservá-las.
1174. É próprio do perfeito amor
nada querer admitir ou tomar para si, nem atribuir-se coisa alguma, mas tudo
referir ao Amado. Se nos amores da terra é assim, quanto mais no amor de Deus.
1175. Para Deus, amar a alma é, de
certa maneira, integrá-la em si mesmo, igualando-a consigo; ama, então, essa
alma, nele e com ele, com o próprio amor com que se ama.
1176. Quando Deus vê a alma ornada
de graça a seus olhos, muito se inclina a conceder-lhe ainda maior graça, em
razão de permanecer dentro dela com agrado.
1177. O olhar de Deus produz na
alma quatro bens, isto é, a purifica, a favorece, a enriquece e a ilumina. É
como o sol que, dardejando na terra os seus raios, seca, aquece, embeleza e faz
resplandecer os objetos.
1178. Logo que a alma se
desembaraça das suas potências, esvaziando-as de tudo quanto é inferior, e de
toda a posse , e as deixa em completa solidão, Deus as ocupa imediatamente .
1179. O padecer é, para a alma, o
meio para penetrar mais intimamente na espessura da deleitosa sabedoria de
Deus, porque o mais puro padecer traz mais íntimo e puro entender, e,
consequentemente, mais puro e sublime gozo.
1180. Não fujas dos sofrimentos,
porque neles está a tua saúde.
1181. Ó grande Deus de amor e
Senhor! quantas riquezas pondes naquele que não ama nem gosta senão de vós,
pois a vós mesmo vos dais e fazeis uma só coisa com ele por amor!
1182. A alma que quer que Deus se
lhe entregue inteiramente, há de se entregar toda sem reservar nada para si.
1183. Amado meu, tudo o que é
difícil e trabalhoso o quero para mim, e tudo o que é suave e saboroso o quero para
ti.
1184. Na união com o Amado, a alma
verdadeiramente se rejubila e louva a Deus, com o mesmo Deus, e assim este
louvor é perfeitíssimo e muito agradável a ele.
1185. Só Deus é quem move as potências
das almas, postas no estado de união, para aquelas obras conforme à sua santa
vontade e divinos decretos, sem que possam agir de outro modo. E assim as obras
e súplicas dessas almas são sempre eficazes. Tais eram as da gloriosíssima
Virgem Nossa Senhora, elevada, desde o princípio, a este sublime estado; jamais
teve impressa na alma a imagem de alguma criatura, nem se moveu por ela; mas
sempre agiu sob a moção do Espírito Santo.
1186. Oh! que bens serão aqueles
que gozaremos com o olhar da SANTÍSSIMA TRINDADE!
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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