L´Osservatore Romano, ed. port. n.19, 10/05/1997, pag.
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1. Depois de ter confiado
João a Maria com as palavras: ´Mulher, eis aí o teu filho!´, Jesus, do alto da
cruz, dirige´se ao discípulo predileto, dizendo´lhe: ´Eis aí a tua Mãe!´ (Jo.
19, 26´27). Com esta expressão, Ele revela a Maria o vértice da sua
maternidade: enquanto Mãe do Salvador, Ela é a mãe também dos remidos, de todos
os membros do Corpo Místico do Filho.
A Virgem acolhe no
silêncio a elevação a este máximo grau da sua maternidade de graça, tendo já
dado uma resposta de fé com o seu ´sim´ na Anunciação.
Jesus não só recomenda a
João que cuide de Maria com particular amor, mas confia´lhe para que a
reconheça como a própria mãe.
Durante a última Ceia, ´o
discípulo a quem Jesus amava´ escutou o mandamento do Mestre: ´Que vos ameis
uns aos outros, como Eu vos amei´ (Jo. 15, 12) e, reclinando a cabeça no peito
do Senhor, recebeu d’Ele um singular sinal de amor. Essas experiências
prepararam´no para perceber melhor, nas palavras de Jesus, o convite a acolher
Aquela que lhe é dada como mãe e a amá´la como Ele com ardor filial.
Oxalá todos descubram nas
palavras de Jesus: ´Eis aí a tua Mãe!´, o convite a aceitar Maria como mãe,
respondendo como verdadeiros filhos ao seu amor materno.
2. À luz dessa entrega ao
discípulo predileto, pode´se compreender o sentido autêntico do culto mariano
na comunidade eclesial. Este, de fato, põe os cristãos na relação filial de
Jesus com a Sua mãe, colocando´os na condição de crescerem na intimidade com
ambos.
O culto que a Igreja
presta à Virgem não é apenas fruto duma iniciativa espontânea dos crentes,
diante do valor excepcional da sua pessoa e da importância do seu papel na obra
da salvação, mas baseia´se na vontade de Cristo.
As palavras ´Eis aí a tua
mãe!´ exprimem a intenção de Jesus de suscitar nos discípulos uma atitude de
amor e confiança para com Maria, conduzindo´os a reconhecer n’Ela a própria
mãe, a mãe de todos os crentes.
Na escola da Virgem os
discípulos aprendem, como João, a conhecer profundamente o Senhor e a realizar
uma íntima e perseverante relação de amor com Ele. Descobrem, além disso, a
alegria de se confiarem ao amor materno da Mãe, vivendo como filhos afetuosos e
dóceis.
A história da piedade
cristã ensina que Maria é a via que leva a Cristo, e que a devoção filial para
com Ela nada tira à intimidade com Jesus, antes, a aumenta e a conduz a
altíssimos níveis de perfeição.
Os inúmeros santuários
marianos espalhados pelo mundo estão a testemunhar as maravilhas operadas pela
Graça, por intercessão de Maria, mãe do Senhor e nossa mãe.
Recorrendo a Ela,
atraídos pela sua ternura, também os homens e as mulheres do nosso tempo
encontram Jesus, Salvador e Senhor da vida deles.
Sobretudo os pobres,
provados no íntimo, nos afetos e nos bens, ao encontrarem refúgio e paz junto
da Mãe de Deus, redescobrem que a verdadeira riqueza consiste para todos na
graça da conversão e do seguimento de Cristo.
3. O texto evangélico,
segundo o original grego, prossegue: ´Desde aquela hora o discípulo acolheu´a
entre os seus bens´ (Jo. 19, 27) pondo, assim, em realce a pronta e generosa
adesão de João às palavras de Jesus e informando´nos acerca do comportamento,
por ele mantido durante a vida toda, como fiel guardião e dócil filho da
Virgem.
A hora do acolhimento é a
da realização da obra de salvação. Precisamente nesse contexto, têm início a
maternidade espiritual de Maria e a primeira manifestação do novo ligame entre
Ela e os discípulos do Senhor.
João acolheu a Mãe ´entre
os seus bens´. Esta expressão bastante genérica parece evidenciar a sua
iniciativa, cheia de respeito e de amor, não só de hospedar Maria em sua casa,
mas sobretudo de viver a vida espiritual em comunhão com Ela. Com efeito, a
expressão grega, literalmente traduzida ´entre os seus bens´, não indica tanto
os bens materiais pois João ´ como observa Santo Agostinho (In loan. Evang.
tract. 119, 3) ´ ´não possuía nada´, quanto os bens espirituais ou dons
recebidos de Cristo: a graça (Jo. 1, 16), a Palavra (Jo. 12, 48; 17, 8), o
Espírito (Jo. 7, 39; 14, 17), a Eucaristia (Jo. 6, 32´58)... Entre estes dons,
que lhe derivam do fato de ser amado por Jesus, o discípulo acolhe Maria como
mãe, estabelecendo com Ela uma profunda comunhão de vida (cf. RM, 45, nota
130). Possa cada cristão, a exemplo do discípulo predileto, ´receber Maria em
sua casa´, dar´lhe espaço na própria existência quotidiana, reconhecendo o seu
papel providencial no caminho da salvação.
* L´Osservatore Romano, ed. port. n.19, 10/05/1997, pag. 12(216)
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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