EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
ECCLESIA IN ASIA
DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
AOS RELIGIOSOS E RELIGIOSAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE JESUS CRISTO SALVADOR
E A SUA MISSÃO DE AMOR E SERVIÇO
NA ÁSIA:
« PARA QUE TENHAM VIDA
E A TENHAM EM ABUNDÂNCIA » (Jo 10, 10)
INTRODUÇÃO
As
maravilhas do plano de Deus, na Ásia
1. A
Igreja na Asia canta os louvores do « Deus da nossa salvação » (Sal
6867, 20) por ter escolhido iniciar o seu plano salvador em terra asiática, através
de homens e mulheres deste continente. De facto, foi na Ásia que Deus deu
início à revelação e cumprimento do seu desígnio de salvação. Guiou os
Patriarcas (cf. Gen 12) e chamou Moisés para conduzir o seu povo para a
liberdade (cf. Ex 3, 10). Falou ao seu povo eleito através de muitos
profetas, juízes, reis e corajosas mulheres de fé. Na « plenitude dos tempos »
(Gal 4, 4), enviou o seu Filho unigénito, Jesus Cristo Salvador, que
encarnou com corpo semelhante ao de um asiático! Exultando pela bondade dos
povos do Continente, pelas suas culturas e vitalidade religiosa, mas ao mesmo
tempo consciente do dom único da fé que ela recebeu para benefício de todos, a
Igreja na Ásia não pode deixar de proclamar: « Louvai o Senhor porque Ele é
bom, porque é eterno o seu amor » (Sal 118117, 1).
Uma vez
que Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou dos mortos na Terra Santa, esta
pequena porção da Ásia Ocidental tornou-se uma terra de promessa e de esperança
para todo o género humano. Jesus conheceu e amou esta terra. Assumiu como
próprios a história, os sofrimentos e as esperanças do seu povo. Amou a sua
gente e abraçou as tradições e herança judaicas. De facto, muito tempo antes
Deus escolhera este povo e revelou-Se a ele preparando a vinda do Salvador. E
desta terra, pela pregação do Evangelho com o poder do Espírito Santo, a Igreja
estendeu-se até fazer « discípulos de todas as nações » (Mt 28, 19). Com
a Igreja espalhada por todo o mundo, a Igreja da Ásia cruzará o limiar do
Terceiro Milénio Cristão, cheia de admiração por tudo o que Deus operou desde o
início até agora, e bem consciente de que, « assim como no primeiro milénio a
Cruz foi implantada no solo da Europa e, no segundo milénio, o mesmo ocorreu na
América e na África, nós rezaremos para que, no terceiro milénio cristão, uma
grande colheita de fé possa ser feita neste continente tão vasto e vivo ».1
Preparação
da Assembleia Especial
2. Na
Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, apresentei um programa
para a Igreja acolher bem o terceiro milénio de cristianismo, um programa
centrado nos desafios da nova evangelização. Um aspecto importante desse plano
era a realização de Sínodos Continentais onde os Bispos pudessem tratar
a questão da evangelização de acordo com a situação particular e as necessidades
de cada continente. Esta série de Sínodos, ligados entre si pelo tema da nova
evangelização, demonstrou-se uma parte importante da preparação da Igreja para
o Grande Jubileu do Ano 2000.
Na
referida Carta Apostólica, ao mencionar a Assembleia Especial para a Ásia do
Sínodo dos Bispos, observei que é nesta parte do mundo onde aparece « mais
acentuada a questão do encontro do cristianismo com as antiquíssimas culturas e
religiões locais. Grande desafio, este, para a evangelização, dado que sistemas
religiosos como o budismo ou o induísmo se propõem com um claro carácter
soteriológico ».2 E realmente um mistério o motivo pelo qual o
Salvador do mundo, nascido na Ásia, tenha permanecido até agora largamente
desconhecido para a população do continente. O Sínodo haveria de ser uma
ocasião providencial para a Igreja da Ásia reflectir primariamente neste
mistério e renovar o compromisso para com a missão de tornar Jesus Cristo
melhor conhecido a todos. Dois meses depois da publicação da Carta Apostólica Tertio
millennio adveniente, ao dirigir-me à VI Assembleia Plenária da Federação
das Conferências Episcopais da Ásia, em Manila nas Filipinas, durante as
memoráveis celebrações da X Jornada Mundial da Juventude, lembrei aos Bispos: «
Se a Igreja da Ásia deve realizar o seu destino providencial, então uma
evangelização entendida como o jubiloso, paciente e progressivo anúncio da
Morte salvífica e Ressurreição de Jesus Cristo há-de ser a vossa prioridade
absoluta ».3
A resposta
positiva dos Bispos e das Igrejas particulares à ideia de uma Assembleia
Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos foi evidente ao longo de toda a fase
preparatória. Os Bispos comunicaram seus desejos e opiniões sobre cada ponto
com franqueza e profundo conhecimento da situação do Continente. Fizeram-no com
plena consciência do vínculo de comunhão que partilham com a Igreja Universal.
Em sintonia com a ideia original da Carta Apostólica Tertio millennio
adveniente e seguindo as propostas do Conselho Pré-Sinodal que ponderara o
parecer dos Bispos e Igrejas particulares do Continente asiático, escolhi como
tema do Sínodo: « Jesus Cristo Salvador e a sua missão de amor e serviço na
Ásia: "Para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo
10, 10) ». Com esta formulação particular do tema, pretendi que o Sínodo
pudesse « ilustrar e aprofundar a verdade sobre Cristo como único Mediador
entre Deus e os homens e único Redentor do mundo, distinguindo-O bem dos
fundadores de outras grandes religiões ».4 Ao aproximarmo-nos do
Grande Jubileu, a Igreja na Ásia precisa de estar em condições de proclamar com
renovado vigor: Ecce natus est nobis Salvator mundi, « Eis o Salvador do
mundo nascido para nós », ... nascido na Ásia!
A
celebração da Assembleia Especial
3. Pela
graça de Deus, a Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos teve
lugar de 18 de Abril a 14 de Maio de 1998 no Vaticano. Realizou-se depois das
Assembleias Especiais para a África (1994) e para a América (1997),
seguindo-se-lhe no final do ano de 1998 a Assembleia Especial para a Oceânia. Durante
quase um mês, os Padres Sinodais e outros participantes, reunidos à volta do
Sucessor de Pedro e partilhando o dom da comunhão hierárquica, deram voz e
rosto à Igreja da Ásia. Foi realmente um momento de graça especial! 5
Anteriores reuniões de Bispos asiáticos tinham contribuído para preparar o
Sínodo e tornar possível uma atmosfera de intensa comunhão eclesial e fraterna.
Foram de particular relevo, a tal respeito, as precedentes Assembleias
Plenárias e Seminários patrocinados pela Federação das Conferências Episcopais
da Ásia e seus departamentos, que faziam com que se encontrassem periodicamente
grande número de Bispos asiáticos, cimentando entre eles laços pessoais e
ministeriais. Tive o privilégio de tomar parte nalguns destes encontros, presidindo
na mesma altura às solenes Celebrações Eucarísticas de abertura ou
encerramento. Em tais ocasiões, pude observar directamente a experiência de
diálogo entre as Igrejas particulares, incluindo as Igrejas Orientais, na
pessoa dos seus Pastores. Estas e outras assembleias regionais dos Bispos da
Ásia serviram providencialmente de preparação remota para a Assembleia Sinodal.
A própria
celebração do Sínodo confirmou a importância do diálogo como uma forma
característica da vida da Igreja na Ásia. Comprovou-se que uma sincera e
leal partilha de experiências, ideias e propostas é o caminho para um genuíno
encontro de almas, uma comunhão de mentes e corações que, no amor, se respeitam
e transcendem as diferenças. Particularmente comovente foi o encontro das novas
Igrejas com as antigas Igrejas cujas origens remontam aos Apóstolos.
Experimentámos a alegria incomparável que sentiam os Bispos das Igrejas
particulares no Myanmar [ex-Birmânia], Vietname, Laos, Camboja, Mongólia,
Sibéria e nas novas Repúblicas da Ásia Central, por poderem sentar-se ao lado
de seus Irmãos, que há muito tempo também os desejavam encontrar e dialogar com
eles. Contudo havia também uma sensação de tristeza pelo facto de não poderem
estar presentes os Bispos da China continental. A sua ausência constituiu uma
lembrança constante dos sacrifícios e sofrimentos heróicos que a Igreja
continua a suportar em muitas partes da Ásia.
A
experiência de diálogo dos Bispos e do Sucessor de Pedro, a quem está confiada
a tarefa de fortalecer os seus irmãos (cf. Lc 22, 32), foi
verdadeiramente uma confirmação na fé e na missão. Dia após dia, a Aula do
Sínodo e as salas de grupo enchiam-se com relatórios de fé profunda, amor de
auto-imolação, inabalável esperança, compromisso à custa de longos sofrimentos,
coragem constante, perdão misericordioso, manifestando-se eloquentemente em
tudo isso a verdade das palavras de Jesus: « Eu estarei sempre convosco » (Mt
28, 20). O Sínodo constituiu um momento de graça, porque foi um encontro com o
Salvador que continua a estar presente na sua Igreja pelo poder do Espírito
Santo, palpável num diálogo fraterno de vida, comunhão e missão.
Partilha
dos frutos da Assembleia Especial
4. Através
desta Exortação Apostólica Pós-Sinodal, desejo partilhar com a Igreja presente
na Ásia e no mundo inteiro os frutos desta Assembleia Especial. Este documento
procura transmitir a riqueza deste grande acontecimento espiritual de comunhão
e colegialidade episcopal. O Sínodo foi uma evocação celebrativa dos
caminhos asiáticos do cristianismo. Os Padres Sinodais recordaram a primeira
Comunidade Cristã, a primitiva Igreja, pequenino rebanho de Jesus neste
Continente imenso (cf. Lc 12, 32). Recordaram o que a Igreja recebeu e
ouviu desde o início (cf. Ap 3, 3), e, depois de o recordar, celebraram
a « imensa bondade » (Sal 145144, 7) de Deus, que nunca falha. O Sínodo
foi também uma ocasião para reconhecer as tradições religiosas e civilizações
antigas, as profundas filosofias e sabedoria que fizeram da Ásia aquilo que ela
é hoje. E sobretudo foram lembrados os próprios povos da Ásia, que constituem a
verdadeira riqueza e esperança do futuro do Continente. Durante o Sínodo,
aqueles que estiveram presentes foram testemunhas dum encontro
extraordinariamente frutuoso entre as antigas e as novas culturas e
civilizações da Ásia, um panorama maravilhoso na sua diversidade e
convergência, especialmente quando símbolos, cânticos, danças e cores
apareceram juntos, em harmoniosa combinação, à volta da Mesa do Senhor, nas
Liturgias Eucarísticas de abertura e encerramento.
Uma
celebração ditada, não pela vaidade de realizações humanas, mas pela
consciência do que o Altíssimo tem feito pela Igreja da Ásia (cf. Lc 1,
49). Recordando a humilde condição da Comunidade católica e ainda as fraquezas
dos seus membros, o Sínodo foi também uma chamada à conversão, para que
a Igreja da Ásia pudesse tornar-se mais digna ainda das graças que
continuamente lhe têm sido oferecidas por Deus.
Para além
de comemoração e celebração, o Sínodo foi também uma ardente afirmação de fé
em Jesus Cristo Salvador. Agradecidos pelo dom da fé, os Padres Sinodais
concluíram que não há melhor meio para celebrar a fé do que afirmá-la na sua
integridade, e reflectir como relacioná-la com o contexto no qual ela tem de
ser proclamada e professada na Ásia de hoje. Frequentemente puseram em realce
que a fé está já a ser proclamada com confiança e coragem no Continente, embora
no meio de grandes dificuldades. Em nome dos muitos milhões de homens e
mulheres da Ásia que põem a sua confiança apenas no Senhor, os Padres Sinodais
confessaram: « Nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus » (Jo 6,
69). Diante das muitas e dolorosas questões suscitadas pelo sofrimento, a
violência, a discriminação e a pobreza a que a maioria dos povos asiáticos está
sujeita, aqueles rezaram: « Eu creio! Ajuda a minha incredulidade » (Mc 9,
24).
Em 1995,
convidei os Bispos da Ásia, reunidos em Manila, a « abrirem de par em par as
portas da Ásia a Cristo ».6 Revigorados pelo mistério de comunhão
com os inumeráveis e muitas vezes desconhecidos mártires da fé na Ásia e
confirmados na esperança pela presença contínua do Espírito Santo, os Padres
Sinodais corajosamente chamaram todos os discípulos de Cristo da Ásia a um
renovado compromisso pela missão. Durante a Assembleia Sinodal, os
Bispos e demais participantes foram testemunhas do génio, do ardor e zelo
espiritual, que seguramente farão da Ásia a terra duma abundante colheita no
milénio vindouro.
CAPÍTULO I
O CONTEXTO
ASIÁTICO
A Ásia,
terra natal de Jesus e da Igreja
5. A
encarnação do Filho de Deus, que toda a Igreja comemorará solenemente no Grande
Jubileu do Ano 2000, deu-se num contexto histórico e geográfico definido. Este
contexto exerceu uma importante influência na vida e missão do Redentor
enquanto homem. « Em Jesus de Nazaré, Deus assumiu as características próprias
da natureza humana, incluindo a pertença obrigatória do indivíduo a um povo
concreto e a uma determinada terra. (...) A dimensão concreta e física da terra
e as suas coordenadas geográficas fazem parte da verdade da carne humana
assumida pelo Verbo ».7 Por conseguinte, o conhecimento do mundo
onde o Salvador « habitou entre nós » (Jo 1, 14) é uma chave importante
para a compreensão mais exacta do desígnio do Eterno Pai e da imensidão do seu
amor por toda a criatura: « Porque Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o
seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida
eterna » (Jo 3, 16).
Da mesma
forma, a Igreja vive e cumpre a sua missão nas circunstâncias actuais de tempo
e lugar. É essencial um conhecimento crítico das diversas e complexas
realidades da Ásia, se o Povo de Deus neste Continente quiser corresponder ao
desígnio duma nova evangelização que Deus tem sobre ele. Os Padres Sinodais
afirmaram insistentemente que a missão de amor e serviço da Igreja na Ásia está
condicionada por dois factores: por um lado, a compreensão de si própria como
uma comunidade de discípulos de Jesus Cristo congregada à volta dos seus
Pastores, e, por outro, as realidades sociais, políticas, religiosas, culturais
e económicas da Ásia.8 A situação da Ásia foi examinada
detalhadamente durante o Sínodo por aqueles que vivem em contacto diário com as
realidades, extremamente diversificadas, de tão imenso Continente. O que se
segue é, em síntese, o resultado das reflexões dos Padres Sinodais.
Realidades
religiosas e culturais
6. A Ásia
é o continente mais vasto da terra e a casa de aproximadamente dois terços da
população mundial, contando a China e a Índia quase metade da população total
do globo. A característica mais notável do Continente é a variedade das suas
populações, que são « herdeiras de antigas culturas, religiões e tradições ».9
Não podemos deixar de ficar maravilhados perante a imensidão da população da
Ásia e o complexo mosaico das suas múltiplas culturas, línguas, crenças e
tradições, que abrangem uma parte substancial da história e do património da
família humana.
A Ásia é
também o berço das maiores religiões do mundo: judaísmo, cristianismo,
islamismo e hinduísmo. É a terra natal de muitas outras tradições espirituais
como o budismo, taoísmo, confucionismo, zoroastrismo, jainismo, sikhismo e
xintoísmo. São milhões também os que vivem comprometidos com religiões
tradicionais ou tribais, com variados graus de um complexo ritual e de ensino
religioso formal. A Igreja nutre o mais profundo respeito por estas tradições e
deseja empenhar-se num diálogo sincero com os seus seguidores. Os valores
religiosos, que ensinam, aguardam pelo seu pleno cumprimento em Jesus Cristo.
O povo da
Ásia ufana-se dos seus valores religiosos e culturais, tais como amor ao
silêncio e contemplação, simplicidade, harmonia, desprendimento, não-violência,
espírito de sacrifício, disciplina, vida frugal, sede de saber e indagação
filosófica.10 Tem em grande apreço os valores do respeito pela vida,
compaixão por todos os seres, cuidado com a natureza, piedade filial pelos
familiares, idosos e antepassados, e um sentido muito vivo de comunidade.11
De maneira particular, considera a família como uma fonte vital de energia,
como uma comunidade tecida intimamente por um poderoso sentimento de
solidariedade.12 Os povos asiáticos são conhecidos pelo seu espírito
de tolerância religiosa e de coexistência pacífica. Sem negar a existência de
dolorosas tensões e violentos conflitos, pode-se tranquilamente afirmar que a
Ásia demonstrou frequentemente uma notável capacidade de adaptação e uma
abertura natural ao mútuo enriquecimento das pessoas no meio de uma pluralidade
de religiões e culturas. Além disso, apesar da influência da modernidade e da
secularização, as religiões asiáticas estão a mostrar sinais de grande
vitalidade e uma boa capacidade de renovação, como se vê pelos movimentos
reformistas no âmbito dos diversos grupos religiosos. Muitas pessoas, sobretudo
jovens, sentem um profundo desejo de valores espirituais, como bem o demonstra
o aparecimento de novos movimentos religiosos.
Tudo isto
aponta para uma natural percepção espiritual e sabedoria moral no espírito
asiático e constitui o centro à volta do qual se formou um sentido crescente de
« ser asiático ». Este « ser asiático » identificou-se e foi-se consolidando,
não no confronto e oposição, mas no espírito de complementaridade e harmonia.
Nesta trama feita de complementaridade e harmonia, a Igreja há-de comunicar o Evangelho
de modo tal que seja simultaneamente fiel à sua própria Tradição e ao espírito
asiático.
Realidades
económicas e sociais
7. Quanto
ao andamento do progresso económico, são muito diversas as situações no
continente asiático, impedindo uma simples classificação. Alguns países são
superdesenvolvidos, outros estão a desenvolver-se graças a efectivas políticas
económicas, e outros ainda encontram-se em degradante pobreza, contando-se de
facto entre as nações mais pobres da terra. Com o processo de desenvolvimento,
foram também ganhando terreno, sobretudo nas áreas urbanas, o materialismo e o
secularismo. Estas ideologias, que minam os valores sociais e religiosos
tradicionais, ameaçam as culturas da Ásia, com um dano incalculável.
Os Padres
Sinodais falaram das rápidas mudanças, que se estão a verificar nas sociedades
asiáticas, e dos aspectos positivos e negativos das mesmas. Dentre elas
conta-se o fenómeno da urbanização e o aparecimento de imensos aglomerados
urbanos, frequentemente com largas áreas deprimidas, onde prolifera o crime
organizado, o terrorismo, a prostituição e a exploração das faixas débeis da
sociedade. Também a migração é um fenómeno social saliente, expondo milhões de
pessoas a situações penosas económica, cultural e moralmente. As pessoas
emigram, quer dentro da Ásia quer da Ásia para outros continentes, por muitas
razões, sendo algumas delas a pobreza, a guerra e os conflitos étnicos, a
negação dos seus direitos humanos e liberdades fundamentais. A constituição de
complexos industriais gigantes é outra causa de emigração interna e externa,
com efeitos devastantes sobre a vida e valores familiares. Também se fez menção
da construção de potentes instalações nucleares, escolhidas pelo seu custo e
eficiência mas com pouco respeito pela saúde das populações e pela integridade
do ambiente.
A
realidade do turismo justifica também especial atenção. Embora sendo uma
actividade legítima com seus próprios valores culturais e educativos, o turismo
exerce, nalguns casos, uma influência devastadora no cenário moral e físico de
muitos países asiáticos, patente na degradação de jovens e até crianças pela
prostituição.13 O cuidado pastoral tanto dos migrantes como dos
turistas é difícil e complexo, sobretudo na Ásia onde faltam as estruturas
básicas para o efeito. Ao planear a pastoral, a todos os níveis, é necessário
tomar estas realidades em consideração. Neste contexto, devemos não esquecer os
migrantes das Igrejas Católicas Orientais que necessitam de cuidados pastorais
de acordo com as suas próprias tradições eclesiásticas.14
Vários
países asiáticos enfrentam dificuldades relacionadas com o crescimento da
população, que não é « simplesmente um problema demográfico e económico, mas
sobretudo um problema moral ».15 É claro para todos que a questão da
população está estritamente ligada com a promoção humana, mas abundam falsas
soluções que atentam contra o carácter inviolável e a dignidade da vida, e
constituem um desafio especial para a Igreja da Ásia. Talvez neste momento
venha a propósito lembrar a contribuição da Igreja para a defesa e promoção da
vida, através de cuidados sanitários, do desenvolvimento social e da educação,
para benefício das pessoas, sobretudo dos pobres. Era oportuno que esta
Assembleia Especial para a Ásia prestasse homenagem à falecida Madre Teresa de
Calcutá, « que se tornou conhecida em todo o mundo pelo seu amor e generosa
solicitude pelos mais pobres dos pobres ».16 Ela permanece como um
ícone do serviço à vida que a Igreja está a oferecer à Ásia, contrastando
corajosamente com muitas forças ocultas em acção na sociedade.
Um certo
número de Padres Sinodais sublinhou as influências externas que estão a
penetrar nas culturas asiáticas. Vão surgindo formas novas de comportamento
resultantes da orientação dos mass-media e dos tipos de literatura, música e
filmes que estão a proliferar no Continente. Sem negar que os meios de
comunicação social podem ser uma grande força para o bem,17 não se
pode ignorar o impacto negativo que frequentemente produzem. De facto, os seus
efeitos benéficos podem ser sobrepujados pelo modo como são controlados e
utilizados por pessoas com interesses política, económica e ideologicamente
discutíveis. Em consequência disso, os aspectos negativos dos mass-media e
espectáculos estão a ameaçar os valores tradicionais, e de modo particular a
sacralidade do matrimónio e a estabilidade da família. O efeito de imagens de
violência, hedonismo, individualismo e materialismo desenfreado « é
impressionante no íntimo das culturas asiáticas, no carácter religioso das pessoas,
famílias e sociedades inteiras ».18 Esta é uma situação que oferece
um grande desafio à Igreja e à proclamação da sua mensagem.
A
realidade persistente de pobreza e exploração de pessoas é objecto da mais
premente preocupação. Na Ásia, há milhões de pessoas oprimidas, que, durante
séculos, foram postas económica, cultural e politicamente à margem da
sociedade.19 Ao reflectirem sobre a situação da mulher nas
sociedades asiáticas, os Padres Sinodais observaram que, « embora o despertar
da consciência da mulher para a sua dignidade e os seus direitos seja um dos
sinais dos tempos mais significativos, a pobreza e a exploração da mulher
continua a ser um problema sério por toda a Ásia ».20 O
analfabetismo feminino é muito superior ao masculino; e as crianças de sexo
feminino sofrem maior probabilidade de ser abortadas ou mesmo assassinadas
depois do nascimento. Existem também milhões de indígenas ou populações tribais
por toda a Ásia que vivem segregados social, cultural e politicamente da
população dominante.21 Foi tranquilizador ouvir os Bispos dizerem ao
Sínodo que, nalguns casos, estas questões estão a ser objecto de maior atenção
a nível nacional, regional e internacional, e que a Igreja está activamente
empenhada a perorar esta séria situação.
Os Padres
Sinodais puseram em destaque que esta reflexão, necessariamente breve, sobre as
realidades económicas e sociais da Ásia não seria completa se não se
reconhecesse também o vasto crescimento económico que, nas últimas décadas,
caracterizou muitas sociedades asiáticas: uma nova geração de operários
especializados, cientistas, técnicos está crescendo diariamente, e o seu grande
número é de bom auspício para o desenvolvimento da Ásia. Apesar disso, nem tudo
é estável e seguro em tal progresso, como ficou patente na recente e profunda
crise financeira sofrida por numerosos países asiáticos. O futuro da Ásia
reside na cooperação, tanto no âmbito interno como com as nações de outros
continentes, mas há-de ser sempre edificado sobre o que os asiáticos fazem em
ordem ao seu próprio desenvolvimento.
Realidades
políticas
8. A
Igreja precisa sempre de ter uma compreensão exacta da situação política nos
diversos países onde ela procura cumprir a sua missão. Na Ásia, actualmente o
panorama político é muito complexo, ostentando um leque de ideologias que varia
desde formas democráticas de governo até formas teocráticas. Ditaduras
militares e ideologias ateias estão muito presentes. Alguns países reconhecem
uma religião oficial de Estado, que deixa pouca ou nenhuma liberdade religiosa
às minorias e aos seguidores de outras religiões. Outros Estados, embora não
explicitamente teocráticos, reduzem as minorias a cidadãos de segunda classe
com menor salvaguarda dos seus direitos fundamentais. Nalguns lugares, não é
permitido aos cristãos praticarem livremente a sua fé nem anunciar Jesus aos
outros.22 São perseguidos e é-lhes negado o seu justo lugar na
sociedade. Os Padres Sinodais recordaram de maneira particular o povo da China,
manifestando a veemente esperança de que todos os seus irmãos e irmãs chineses
católicos tenham um dia a possibilidade de cumprir livremente a sua religião e
professar visivelmente a sua plena comunhão com a Sé de Pedro.23
Ao mesmo
tempo que manifestavam apreço pelo progresso que muitos países asiáticos estão
a realizar nas suas diferentes formas de governo, os Padres Sinodais chamaram a
atenção para a larga corrupção que existe a vários níveis tanto do governo como
da sociedade.24 E frequentemente as pessoas vêem-se abandonadas na
sua própria defesa contra políticos, juízes, administradores e funcionários
corruptos. Mas, por toda a Ásia vai crescendo a consciência da capacidade do
povo para mudar estruturas injustas. Existem novas reivindicações de maior
justiça social, de mais participação no governo e na vida económica, de iguais
oportunidades na educação, e duma justa partilha dos recursos da nação. De
forma crescente as pessoas vão-se tornando conscientes da sua dignidade e
direitos humanos, e mais determinadas a salvaguardá-los. Longamente adormecidos,
grupos étnica, social e culturalmente minoritários estão a procurar o modo de
se tornarem agentes do seu próprio desenvolvimento social. O Espírito de Deus
ajuda e sustenta os esforços das pessoas para transformar a sociedade de tal
modo que o anseio humano duma vida em abundância possa ser satisfeito como Deus
quer (cf. Jo 10, 10).
A Igreja
da Ásia: passado e presente
9. A
história eclesial na Ásia é tão antiga como a própria Igreja, porque foi neste
Continente que Jesus derramou o Espírito Santo sobre os seus discípulos e os
enviou até aos confins da terra para proclamarem a Boa Nova e congregarem os
crentes em comunidades. « Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós
» (Jo 20, 21; veja-se também Mt 28, 18-20; Mc 16, 15-18; Lc
24, 47; Act 1, 8). Obedecendo ao mandato do Senhor, os Apóstolos
pregaram a Palavra e fundaram Igrejas. Pode servir de ajuda lembrar aqui alguns
elementos desta história fascinante e complexa.
Partindo
de Jerusalém, a Igreja dilatou-se até Antioquia, Roma e mais além. Chegou à
Etiópia a sul, à Cita a norte, e à Índia a oriente, onde, segundo a tradição,
esteve o apóstolo S. Tomé pelo ano 52 e fundou Igrejas no sul da Índia. O
espírito missionário da Comunidade Síria Oriental dos séculos III e IV, com
centro em Edessa, foi notável. As comunidades ascéticas da Síria foram uma
força considerável de evangelização na Ásia desde o século III em diante. Elas
deram energia espiritual à Igreja, sobretudo durante os tempos de perseguição.
A Arménia foi a primeira nação em bloco a abraçar o cristianismo; isto deu-se
no final do século III, preparando-se ela agora para celebrar os 1700 anos do
seu baptismo. Pelo fim do século V, a mensagem cristã chegou aos Reinos Árabes,
mas por diversas razões, sendo uma delas as divisões entre cristãos, a mensagem
não conseguiu lançar raízes entre estes povos.
Comerciantes
persas levaram a Boa Nova até à China no século V. A primeira igreja cristã foi
lá construída no início do século VII. Durante a dinastia T'ang (618-907), a
Igreja floresceu por cerca de duzentos anos. O declínio desta entusiasta Igreja
da China, nos fins do primeiro milénio, é um dos capítulos mais tristes da
história do Povo de Deus no Continente.
No século
XIII, a Boa Nova foi anunciada aos Mongóis e aos Turcos e novamente aos Chineses.
Mas o cristianismo quase desapareceu nestas regiões por numerosos motivos,
contando-se entre eles o ressurgimento do islamismo, o isolamento geográfico, a
falta de uma adaptação apropriada às culturas locais e, talvez acima de tudo, a
falta de preparação para ir ao encontro das grandes religiões da Ásia. O fim do
século XIV viu uma diminuição drástica da Igreja na Ásia, à excepção da
comunidade isolada no sul da Índia. A Igreja da Ásia tem de esperar uma nova
era de esforço missionário.
O trabalho
apostólico de S. Francisco Xavier, a fundação da Congregação Propaganda Fide
pelo Papa Gregório XV, e as orientações dadas aos missionários para respeitarem
e estimarem as culturas locais, tudo contribuiu para se obter resultados muito
positivos no decurso do século XVI e XVII. No século XIX, houve novamente um
ressurgimento da actividade missionária. Várias congregações religiosas
empenharam-se completamente nesta tarefa. A Congregação Propaganda Fide
foi reorganizada. A insistência maior foi posta sobre a edificação das Igrejas
locais. Obras educativas e caritativas andavam de mãos dadas com a pregação do
Evangelho. Consequentemente a Boa Nova continuou a estender-se a um número
sempre maior de pessoas, sobretudo entre os pobres e marginalizados, mas também,
aqui e além, no meio de elites sociais e intelectuais. Fizeram-se novas
tentativas para inculturar a Boa Nova, embora se revelassem ainda
insuficientes. Não obstante a sua presença por longos séculos e os seus
múltiplos esforços apostólicos, a Igreja em muitos lugares é ainda considerada
como estranha à Ásia, tendo mesmo sido associada muitas vezes, na mente das
pessoas, com os poderes coloniais.
Esta era a
situação nas vésperas do Concílio Vaticano II; mas, graças ao impulso dado pelo
Concílio, despertou uma nova compreensão da missão e, com ela, uma grande
esperança. A universalidade do plano divino da salvação, a natureza missionária
da Igreja e a responsabilidade de todos e cada um na Igreja por esta tarefa,
tão fortemente reafirmadas no Decreto conciliar sobre a actividade missionária
da Igreja Ad gentes, tornou-se a estrutura de um novo compromisso.
Durante a Assembleia Especial, os Padres Sinodais deram testemunho do recente
crescimento da comunidade eclesial no meio dos mais diversos povos e em várias
partes do Continente, e apelaram para novos esforços missionários nos anos
vindouros, especialmente com as novas possibilidades abertas à proclamação do
Evangelho na Região Siberiana e nos países da Ásia Central que conquistaram
recentemente a sua independência como Casaquistão, Usbequistão, Quirguistão,
Tajiquistão e Turquemenistão.25
Uma
análise das comunidades católicas na Ásia mostra uma variedade magnífica quer
pela sua origem e desenvolvimento histórico, quer por causa das diferentes
tradições espirituais e litúrgicas dos vários ritos. Mas, todas elas estão
unidas na proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo através do testemunho cristão
e das obras de caridade e de solidariedade humana. Enquanto algumas Igrejas
particulares cumprem a sua missão em paz e liberdade, outras encontram-se em
situações de violência e conflito ou sentem-se ameaçadas por grupos vários, por
motivos religiosos ou de outra espécie. No mundo cultural imensamente
diversificado da Ásia, a Igreja enfrenta múltiplos desafios filosóficos,
teológicos e pastorais. A sua missão torna-se mais difícil pelo facto de ser
uma minoria, com a única excepção das Filipinas, onde os católicos são a
maioria.
Independentemente
das circunstâncias, a Igreja na Ásia encontra-se no meio de pessoas que mostram
um forte anseio de Deus. A Igreja reconhece que este anseio só pode ser
plenamente satisfeito por Jesus Cristo, a Boa Nova de Deus para todas as
nações. Os Padres Sinodais insistiram muito que esta Exortação Apostólica
Pós-Sinodal focasse a sua atenção sobre tal anseio e encorajasse a Igreja da
Ásia a proclamar vigorosamente, por palavras e obras, que Jesus Cristo é o
Salvador.
O Espírito
de Deus, sempre activo na história da Igreja da Ásia, continua a guiá-la. Os
numerosos elementos positivos que se encontram nas Igrejas locais, postos
frequentemente em evidência no Sínodo, reforçam a nossa expectativa de uma «
nova primavera de vida cristã ».26 Um sólido motivo de esperança é o
número crescente de leigos, melhor formados e cheios de entusiasmo e de Espírito,
que estão cada vez mais conscientes da sua vocação específica dentro da
comunidade eclesial. Dentre eles, merecem especial reconhecimento e louvor os
leigos catequistas.27 Também os movimentos apostólicos e
carismáticos são um dom do Espírito, trazendo nova vida e vigor à formação de
homens e mulheres leigos, de famílias e de jovens.28 Associações e
movimentos eclesiais, devotados à promoção da dignidade humana e da justiça,
tornam acessível e palpável a universalidade da mensagem evangélica da nossa
adopção como filhos de Deus (cf. Rom 8, 15-16).
Ao mesmo
tempo, há Igrejas que vivem em circunstâncias muito difíceis, « passando por
grandes provações na prática da sua fé ».29 Os Padres Sinodais
ficaram comovidos com as narrações do testemunho heróico, perseverança
inabalável e crescimento constante da Igreja Católica na China, com os esforços
feitos pela Igreja da Coreia do Sul para prestar assistência ao povo da Coreia
do Norte, a firmeza humilde da comunidade católica no Vietname, o isolamento de
cristãos em muitos lugares do Laos e de Myanmar, a difícil coexistência com a
maioria nalguns Estados predominantemente islâmicos.30 O Sínodo
prestou uma especial atenção à situação da Igreja na Terra Santa e na Cidade
Santa de Jerusalém, « o coração do cristianismo »,31 cidade amada
por todos os filhos de Abraão. Os Padres Sinodais exprimiram a convicção de que
a paz na região, e mesmo no mundo, depende em grande medida da paz e
reconciliação que há tanto tempo desapareceu de Jerusalém.32
Não posso
dar por terminada esta análise da situação da Igreja na Ásia, embora longe de
ser completa, sem mencionar os Santos e Mártires da Ásia — quer os que como tal
foram reconhecidos, quer aqueles que são conhecidos apenas de Deus —, cujo
exemplo é uma fonte de « riqueza espiritual e um grande instrumento de
evangelização ».33 Falam, silenciosa mas vigorosamente, da
importância da santidade de vida e da prontidão em oferecer a própria vida pelo
Evangelho. Eles são os mestres e protectores, a glória da Igreja da Ásia, no seu
trabalho de evangelização. Com a Igreja inteira, peço ao Senhor que envie
muitos trabalhadores prontos para ceifarem a messe de almas, que vejo já madura
e abundante (cf. Mt 9, 37-38). Recordo, neste momento, o que escrevi na
Encíclica Redemptoris missio: « Deus abre à Igreja os horizontes duma
humanidade mais preparada para a sementeira evangélica ».34 Esta
perspectiva de novos e promissores horizontes, vejo-a desenhando-se na Ásia,
onde Jesus nasceu e o cristianismo começou.
CAPÍTULO
II
JESUS
SALVADOR: UM DOM PARA A ÁSIA
O dom da
fé
10. À
medida que se ia desenrolando o debate sinodal sobre as complexas realidades da
Ásia, tornava-se sempre mais evidente para todos que a única contribuição da
Igreja para os habitantes do continente é a proclamação de Jesus Cristo,
verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o mesmo e único Salvador para todos os
povos.35 Aquilo que distingue a Igreja de outras comunidades
religiosas é a sua fé em Jesus Cristo; e ela não pode esconder esta preciosa
luz da fé debaixo do alqueire (cf. Mt 5, 15), pelo que a sua missão é
partilhar esta luz com todos. A Igreja « quer oferecer a vida nova que
encontrou em Jesus Cristo a todos os povos da Ásia que procuram a plenitude de
vida, a fim de que possam instaurar a mesma comunhão com o Pai e com o seu
Filho Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo ».36 Esta fé em Jesus
Cristo é o que anima a acção evangelizadora da Igreja na Ásia, levada a cabo
muitas vezes em circunstâncias difíceis e até perigosas. Os Padres Sinodais
observaram que proclamar Jesus como o único Salvador pode apresentar
dificuldades particulares nas suas culturas, uma vez que muitas religiões
asiáticas ensinam suas próprias manifestações divinas portadoras de salvação.
Os desafios enfrentados nos seus esforços evangelizadores, longe de desanimar
os Padres Sinodais, foram um incentivo ainda maior para se empenharem em
transmitir « a fé que a Igreja da Ásia herdou dos Apóstolos e partilha com a
Igreja de todas as gerações e lugares ».37 Com efeito, eles
declararam-se convictos de que « o coração da Igreja da Ásia permanecerá
inquieto até quando a Ásia inteira encontrar o seu repouso na paz de Cristo, o
Senhor Ressuscitado ».38
A fé da
Igreja em Jesus é um dom recebido, e um dom que deve ser partilhado; é o maior
dom que a Igreja pode oferecer à Ásia. Partilhar a verdade de Jesus Cristo com
os demais é dever sagrado de todos os que receberam o dom da fé. Na Encíclica Redemptoris
missio, escrevi que « a Igreja, e nela cada cristão, não pode esconder nem
guardar para si esta novidade e riqueza, recebida da bondade divina para ser
comunicada a todos os homens ».39 Acrescentando logo a seguir: «
Aqueles que estão incorporados na Igreja Católica devem sentir-se privilegiados
e, por isso mesmo, mais comprometidos em testemunhar a fé e a vida cristã
como serviço aos irmãos e resposta devida a Deus ».40
Profundamente
convencidos disto, os Padres Sinodais sentiram-se igualmente conscientes da sua
responsabilidade pessoal de compreender, através do estudo, oração e reflexão,
a verdade eterna de Jesus, para levarem a sua força e vitalidade aos desafios
actuais e futuros da evangelização na Ásia.
Jesus
Cristo, o Deus humanado que salva
11. As
Escrituras atestam que Jesus viveu uma existência autenticamente humana. Jesus,
que proclamamos como o único Salvador, caminhou sobre a terra como o Deus
humanado, na posse plena da natureza humana; era como nós em tudo, à excepção
do pecado. Nascido duma Virgem Mãe, nos arredores humildes de Belém, achou-Se
sem recursos como outros meninos, e até sofreu o destino de um refugiado,
escapando à ira de um chefe cruel (cf. Mt 2, 13-15). Viveu submisso a
pais humanos, que nem sempre entenderam as suas atitudes, mas confiou-Se a eles
e obedeceu-lhes amorosamente (cf. Lc 2, 41-52). Constantemente em
oração, Jesus viveu em íntima relação com Deus, a Quem Se dirigia com a palavra
Abba, « Pai », para espanto dos seus ouvintes (cf. Jo 8, 34-59).
Aproximou-Se
dos pobres, marginalizados e humildes, dizendo que eram verdadeiramente
bem-aventurados, pois Deus estava com eles. Comeu com os pecadores,
assegurando-lhes que há um lugar para eles à mesa do Pai, quando se afastam dos
seus maus caminhos e regressam a Ele. Tocando os impuros e deixando que O
tocassem, Jesus fez-lhes sentir a proximidade de Deus. Chorou por um amigo
morto, restituiu vivo o filho morto à sua mãe viúva, declarou bem-vindas as
crianças e lavou os pés aos seus discípulos. Nunca a compaixão divina tinha
sido acessível tão imediatamente.
O doente,
o paralítico, o cego, o surdo e o mudo, todos experimentaram cura e perdão ao
tocá-Lo. Como seus companheiros e colaboradores mais íntimos, Ele escolheu um
grupo insólito no qual se misturavam pescadores com cobradores de impostos,
zelotas com pessoas ignorantes da Lei, e mulheres também. Uma nova família se
foi criando sob o amor surpreendente do Pai que tudo abraça. Jesus pregou com
simplicidade, servindo-Se de exemplos da vida diária para falar do amor de Deus
e do seu Reino; e o povo reconheceu que Ele falou com autoridade.
Mas, foi
acusado de ser blasfemo, um violador da Lei sagrada, um estorvo público que
devia ser eliminado. Depois de um julgamento baseado em testemunhas falsas (cf.
Mc 14, 15), foi condenado a morrer como um criminoso na cruz e,
abandonado e humilhado, pareceu um falhado. Foi sepultado à pressa num túmulo
emprestado. Mas no terceiro dia depois da sua morte e apesar das guardas que
estavam de vigia, o túmulo foi encontrado vazio! Jesus, ressuscitado dos
mortos, em seguida apareceu aos seus discípulos, antes de voltar para o Pai,
que O tinha enviado. Com todos os cristãos, acreditamos que esta vida muito
particular, num determinado sentido tão normal e simples mas noutro
completamente maravilhosa e tão envolvida em mistério, introduziu na história
humana o Reino de Deus e « aplicou o seu poder sobre todas as facetas da vida e
da sociedade humana, prisioneiras do pecado e da morte ».41 Através
das suas palavras e acções, especialmente pelo seu sofrimento, morte e
ressurreição, Jesus realizou o desígnio que o Pai tinha de reconciliar consigo
a humanidade, porque o pecado original tinha criado uma ruptura no
relacionamento entre o Criador e a sua criação. Na Cruz, carregou sobre Si
mesmo os pecados do mundo — passado, presente e futuro. S. Paulo recorda que
estávamos mortos em consequência dos nossos pecados, mas a sua morte
devolveu-nos novamente à vida: Deus « vivificou-vos com Ele, perdoando-vos
todos os vossos pecados; cancelando a acta escrita contra nós, cujas
prescrições nos condenavam; aboliu-a inteiramente, cravando-a na Cruz » (Col
2, 13-14). Assim, a salvação ficou concluída duma vez por todas. Jesus é o
nosso Salvador no sentido mais pleno da palavra, porque as suas palavras e
obras, especialmente a sua ressurreição dos mortos, revelaram que Ele é o Filho
de Deus, o Verbo preexistente que reina para sempre como Senhor e Messias.
A pessoa e
missão do Filho de Deus
12. O «
escândalo » do cristianismo é o facto de acreditar que o Deus Santíssimo,
Omnipotente e Omnisciente assumiu para Si próprio a nossa natureza humana, e
suportou o sofrimento e a morte para conquistar a salvação para todo o povo
(cf. 1 Cor 1, 23). A fé que recebemos ensina que Jesus Cristo revelou e
cumpriu o plano que o Pai tinha de salvar o mundo e a humanidade inteira, por
causa « do que Ele é » e « daquilo que Ele fez para ser o que é
». « O que Ele é » e « aquilo que Ele fez » só adquire o seu
significado pleno quando se coloca dentro do mistério de Deus Uno e Trino. Tem
sido uma constante do meu pontificado lembrar aos crentes a comunhão de vida da
Santíssima Trindade e a unidade das três Pessoas divinas no plano da criação e
da redenção. As Encíclicas Redemptor hominis, Dives in misericordia,
e Dominum et vivificantem debruçam-se sobre o Filho, o Pai e o Espírito
Santo, respectivamente, e suas funções no plano divino de salvação. Mas, não
podemos isolar ou separar uma Pessoa das outras, dado que cada uma delas Se
revela apenas no âmbito da comunhão de vida e acção da Trindade. A acção
salvadora de Jesus tem a sua origem na comunhão do Pai, e abre o caminho a
todos os que acreditam n'Ele para entrarem em comunhão íntima com a Trindade e,
na Trindade, uns com os outros.
« Quem Me
vê, vê o Pai », reclama Jesus (Jo 14, 9). Somente n'Ele habita
corporalmente a plenitude da divindade (cf. Col 2, 9), constituindo-O
como a única e absoluta Palavra salvadora de Deus (cf. Heb 1, 1-4).
Enquanto Palavra definitiva do Pai, Jesus torna conhecido o mais plenamente
possível Deus e o seu desígnio salvador. « Ninguém vem ao Pai senão por Mim »,
disse Jesus (Jo 14, 6). Ele é « o Caminho, a Verdade e a Vida » ( Jo
14, 6), porque — como Ele mesmo explica — « o Pai que está em Mim é que faz as
obras » (Jo 14, 10). Só na pessoa de Jesus, a palavra divina de salvação
aparece em toda a sua plenitude, introduzindo nos últimos tempos (cf. Heb
1, 1-2). Por isso, nos primeiros dias da Igreja, Pedro pôde proclamar: « Não há
salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado
aos homens que nos possa salvar » (Act 4, 12).
A missão
do Salvador atingiu o seu ponto culminante no Mistério Pascal. Na Cruz, ao «
estender os braços entre o céu e a terra, como sinal indelével da (...) aliança
»,42 Jesus lançou o seu apelo final pedindo ao Pai que perdoasse os
pecados da humanidade: « Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem » (Lc
23, 34). Jesus destruiu o pecado em virtude do seu amor para com o Pai e a
humanidade inteira. Ele assumiu sobre Si próprio todas as feridas feitas à
humanidade pelo pecado, e ofereceu a libertação através da conversão. Os
primeiros frutos disto são evidentes na pessoa do ladrão arrependido, suspenso
a seu lado noutra cruz (cf. Lc 23, 43). A sua última expressão foi o
grito do Filho fiel: « Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito » (Lc
23, 46). Neste acto supremo de amor, Jesus confiou toda a sua vida e missão nas
mãos do Pai que O tinha enviado. Entregou assim ao Pai a criação inteira e toda
a humanidade, para ser finalmente recebida por Ele com amor compassivo.
Tudo o que
o Filho é e realizou, foi aceite pelo Pai, que ofereceu estes dons ao mundo no
próprio momento em que ressuscitou Jesus dos mortos e O sentou à sua mão
direita, onde o pecado e a morte já não têm qualquer poder. Com o Sacrifício
Pascal de Jesus, o Pai ofereceu irrevogavelmente reconciliação e vida em
abundância ao mundo. Este dom extraordinário só poderia vir através do seu
Filho amado, o único que era capaz de corresponder plenamente ao amor do Pai,
recusado com o pecado. Em Jesus Cristo, pelo poder do Espírito Santo, ficámos a
saber que Deus não Se encontra distante, nem acima, nem fora do homem, mas está
muito perto, antes unido a cada pessoa e à humanidade inteira em todas as
situações da vida. Esta é a mensagem que o cristianismo oferece ao mundo, sendo
uma fonte de consolação e esperança incomparável para todos os crentes.
Jesus Cristo:
a verdade da humanidade
13. Como
pode a humanidade de Jesus e o mistério inefável da encarnação do Filho do
eterno Pai iluminar a condição humana? O Filho encarnado de Deus não só revela
completamente o Pai e o seu plano de salvação, mas também « revela plenamente o
homem a si próprio ».43 As suas palavras e acções, e sobretudo a sua
morte e ressurreição, revelam a profundidade do que significa ser homem.
Através de Jesus, o homem pode finalmente conhecer a verdade acerca de si
mesmo. A vida perfeitamente humana de Jesus, completamente devotada ao amor e
serviço do Pai e do homem, revela que a vocação de todo o ser humano é receber
amor e, em troca, dar amor. Admiramos, em Jesus, a capacidade inexaurível do
coração humano para amar a Deus e o homem, mesmo quando isso acarreta grande
sofrimento. Mas sobretudo é na cruz que Jesus quebra o poder da resistência
auto-destruidora ao amor, que o pecado nos impõe. Por sua vez, o Pai responde
ressuscitando Jesus como o primogénito de todos os que estão predestinados a
ser conformes à imagem do seu Filho (cf. Rom 8, 29). Naquele instante,
Jesus tornou-Se de uma vez por todas simultaneamente revelação e realização
duma humanidade re-criada e renovada de acordo com o plano de Deus. Assim em
Jesus descobrimos a grandeza e a dignidade de cada pessoa no coração de Deus,
que criou o homem à sua própria imagem (cf. Gen 1, 26), e encontramos a
origem da nova criação em que nos transformámos pela sua graça.
O Concílio
Vaticano II ensinou que, « pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-Se
de certo modo a cada homem ».44 Nesta profunda intuição, os Padres
Sinodais viram a suprema fonte de esperança e força para o povo da Ásia, nas
suas lutas e incertezas. Quando homens e mulheres respondem com fé viva à
oferta do amor de Deus, a sua presença gera amor e paz, transformando o coração
humano a partir de dentro. Na Encíclica Redemptor hominis, escrevi que «
a redenção do mundo — aquele tremendo mistério de amor em que a criação foi
renovada — é, na sua raiz mais profunda, a plenitude da justiça num coração
humano — o Coração do Filho primogénito —, a fim de que ela possa tornar-se
justiça dos corações de muitos homens, os quais, precisamente no Filho
primogénito, foram predestinados desde toda a eternidade para se tornarem filhos
de Deus e chamados à graça, chamados ao amor ».45
Assim, a
missão de Jesus não só restaurou a comunhão entre Deus e a humanidade, mas
estabeleceu também uma nova comunhão entre os seres humanos, alienados uns dos
outros por causa do pecado. Para além de todas as divisões, Jesus dá às pessoas
a possibilidade de viverem como irmãos e irmãs, reconhecendo todos um único
Pai, Aquele que está nos céus (cf. Mt 23, 9). N'Ele, surgiu uma nova
harmonia, onde « não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há homem
nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus » (Gal 3, 28).
Jesus é a nossa paz, « Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de
inimizade que os separava » (Ef 2, 14). Em tudo o que disse e fez, Jesus
foi a voz, as mãos e os braços do Pai, congregando todos os filhos de Deus numa
única família de amor. Rezou para que os seus discípulos pudessem viver em
comunhão, tal como Ele está em comunhão com o Pai (cf. Jo 17, 11). Entre
as suas últimas palavras, ouvímo-Lo dizer: « Como o Pai Me amou também Eu vos
amei; permanecei no meu amor. (...) O meu mandamento é este: Que vos ameis uns
aos outros, como Eu vos amei » (Jo 15, 9.12). Enviado pelo Deus da
comunhão, Jesus estabeleceu a comunhão entre o céu e a terra em sua própria
pessoa, visto que Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A fé
diz-nos que « agradou a Deus que residisse n'Ele toda a plenitude, e por Ele
fossem reconciliadas consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua
cruz, tanto as da terra como as dos céus » (Col 1, 19-20). Deste modo, a
salvação pôde fundar-se na pessoa do Filho de Deus feito homem e na missão
unicamente confiada a Ele enquanto Filho, uma missão de serviço e de amor pela
vida de todos. Juntamente com a Igreja espalhada pelo mundo, a Igreja da Ásia
proclama esta verdade de fé: « Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os
homens, Jesus Cristo Homem, que Se deu em resgate por todos » (1 Tim 2,
5-6).
O carácter
único e universal da salvação de Jesus
14. Os
Padres Sinodais reafirmaram que o Verbo preexistente, o Filho de Deus gerado
desde toda a eternidade, « já estava presente na criação, na história e em cada
anseio humano de bem ».46 Por meio do Verbo, presente no cosmo já
antes da Encarnação, foi feito o mundo (cf. Jo 1, 1-4.10; Col 1, 15-20).
Mas enquanto Verbo encarnado que viveu, morreu e ressuscitou dos mortos, Jesus
Cristo é agora proclamado como o cumprimento de toda a criação, de toda a
história e de todo o anseio humano de uma vida em abundância.47
Ressuscitado dos mortos, Jesus Cristo « está unido, duma forma nova e
misteriosa, a cada elemento e ao conjunto da criação ».48 N'Ele, «
encontram a sua plenitude e realização os valores autênticos de todas as
tradições religiosas e culturais, tais como misericórdia e submissão à vontade
de Deus, compaixão e integridade, não-violência e justiça, piedade filial e
harmonia com a criação ».49 Desde o primeiro instante do tempo até
ao seu termo, Jesus é o único Mediador universal. Mesmo a todos aqueles que não
professam explicitamente a fé n'Ele como Salvador, também lhes chega a salvação
como uma graça de Jesus Cristo, através da comunicação do Espírito Santo.
Acreditamos
que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o único Salvador,
porque só Ele — o Filho — realizou o plano universal de salvação do Pai.
Enquanto manifestação definitiva do mistério do amor do Pai por todos, Jesus é
realmente único, e « é precisamente esta singularidade única de Cristo que Lhe
confere um significado absoluto e universal, pelo qual, enquanto está na
história, é o centro e o fim da mesma história ».50
Não há
indivíduo, nação ou cultura que fique insensível ao apelo de Jesus, que fala
verdadeiramente a partir do âmago da condição humana. « É a sua própria vida
que fala, a sua humanidade, a sua fidelidade à verdade e o seu amor que a todos
abraça. Fala, ainda, a sua morte na cruz, isto é, a imperscrutável profundidade
do seu sofrimento e do seu abandono ».51 Contemplando Jesus na sua
natureza humana, os povos da Ásia encontram as suas questões mais profundas
respondidas, as suas esperanças realizadas, a sua dignidade exaltada, e o seu
desespero vencido. Jesus é a Boa Nova para os homens e mulheres de todo o tempo
e lugar, que andam à procura do significado da existência e da verdade da sua
própria humanidade.
CAPÍTULO
III
O ESPÍRITO
SANTO: SENHOR QUE DÁ A VIDA
O Espírito
de Deus na criação e na história
15. Se é
verdade que o significado salvífico de Jesus só pode ser compreendido no
contexto da revelação que Ele fez do plano de salvação da Trindade, conclui-se
daí que o Espírito Santo é uma parte absolutamente vital do mistério de Jesus e
da salvação que Ele traz. Os Padres Sinodais referiram-se frequentemente ao
papel do Espírito Santo na história da salvação, fazendo notar que uma errada
separação entre o Redentor e o Espírito Santo meteria em risco a verdade de
Jesus como o único Salvador de todos.
Na
tradição cristã, o Espírito Santo sempre esteve associado com a vida e com a
doação da vida. O Símbolo niceno-constantinopolitano chama ao Espírito Santo «
Senhor que dá a vida ». Por isso, não admira que muitas interpretações da
narração da criação, no Génesis, tenham visto o Espírito Santo no vento
impetuoso que soprava sobre as águas (cf. Gen 1, 2). O Espírito Santo
esteve presente desde o primeiro instante da criação, a primeira manifestação
do amor de Deus Uno e Trino, e continua presente no mundo como força que lhe dá
vida.52 Uma vez que a criação é o princípio da história, o Espírito
constitui, em determinado sentido, um poder que actua secretamente na história,
guiando-a pelos caminhos da verdade e do bem.
A
revelação da pessoa do Espírito Santo, o amor recíproco entre o Pai e o Filho,
é peculiar do Novo Testamento. No pensamento cristão, Ele é visto como a
nascente da vida para todas as criaturas. A criação é uma livre comunicação de
amor de Deus, pela qual, do nada, fez existir todas as coisas. Nada há de
criado, que não seja cumulado daquele intercâmbio incessante de amor que
caracteriza a vida mais íntima da Trindade, isto é, cumulado do Espírito Santo:
« O Espírito do Senhor enche o universo » (Sab 1, 7). A presença do
Espírito na criação produz ordem, harmonia e recíproca dependência entre tudo o
que existe.
Criados à
imagem de Deus, os homens tornam-se morada do Espírito duma forma nova quando
são elevados à dignidade da adopção divina (cf. Gal 4, 5). Renascidos
pelo Baptismo, experimentam a presença e o poder do Espírito, não tanto como
Autor da Vida, mas como Aquele que purifica e salva, produzindo frutos de «
caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão,
temperança » (Gal 5, 22-23). Estes frutos do Espírito são sinal de que «
o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos
foi concedido » (Rom 5, 5). Quando livremente aceite, este amor torna os
homens e mulheres instrumentos visíveis da actividade incessante do Espírito
invisível. É sobretudo esta nova capacidade de dar e receber amor que dá
testemunho da presença e força interior do Espírito Santo. Em consequência da
transformação e re-criação por Ele operada no coração das pessoas, o Espírito
influencia as sociedades e culturas humanas.53 « Com efeito, Ele
está na base dos ideais nobres e das iniciativas benfeitoras da humanidade
peregrina: "com admirável providência, o Espírito de Deus dirige o curso
dos tempos e renova a face da terra" ».54
Seguindo o
exemplo do Concílio Vaticano II, os Padres Sinodais chamaram a atenção para a
acção múltipla e diversificada do Espírito Santo, que continuamente espalha as
sementes da verdade no meio de todos os povos, das suas religiões, culturas e
filosofias.55 Isto significa que estas religiões, culturas e
filosofias são capazes de ajudar as pessoas, individual e colectivamente, a
lutarem contra o mal e a servirem a vida e tudo o mais que seja bom. As forças
de morte isolam as pessoas, sociedades e comunidades religiosas umas das
outras, gerando suspeita e rivalidade que levam ao conflito. O Espírito Santo,
pelo contrário, sustenta as pessoas na sua busca de entendimento e aceitação
recíproca. Por isso, o Sínodo justamente viu o Espírito de Deus como o
principal agente do diálogo da Igreja com todos os povos, culturas e religiões.
O Espírito
Santo e a encarnação do Verbo
16. Sob a
guia do Espírito, a história da salvação desenrola-se no palco do mundo, e
mesmo no universo, de acordo com o plano eterno do Pai. Este plano, iniciado
pelo Espírito desde a origem mesma da criação, foi revelado no Antigo
Testamento e levado a cumprimento pela graça de Jesus Cristo, e é continuado,
na nova criação, pelo mesmo Espírito até que o Senhor volte na glória, no final
dos tempos.56 A encarnação do Filho de Deus é a obra suprema do
Espírito Santo: « A concepção e o nascimento de Jesus Cristo são a obra maior
realizada pelo Espírito Santo na história da criação e da salvação: a graça
suprema — "a graça da união" — fonte de todas as outras graças ».57
A encarnação é o acontecimento pelo qual Deus agregou a Si mesmo, em nova e
definitiva união, não apenas o homem mas também toda a criação e a história
inteira.58
Tendo sido
concebido no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo (cf. Lc
1, 35; Mt 1, 20), Jesus de Nazaré, o Messias e o único Salvador, viveu
cheio do Espírito Santo. Este desceu sobre Ele no baptismo (cf. Mc 1,
10) e conduziu-O ao deserto para Se fortalecer antes do seu ministério público
(cf. Mc 1, 12; Lc 4, 1; Mt 4, 1). Na sinagoga de Nazaré,
deu início ao seu ministério profético, aplicando a Si próprio a visão de
Isaías onde se fala da unção do Espírito que leva a pregar a Boa Nova aos
pobres, a libertação aos cativos e um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,
18-19). Pelo poder do Espírito, Jesus curou os enfermos e expulsou os demónios,
como sinal de que o Reino de Deus tinha chegado (cf. Mt 12, 28). Depois
de ressuscitar dos mortos, Ele concedeu aos discípulos o Espírito Santo que
tinha prometido enviar sobre a Igreja quando voltasse para o Pai (cf. Jo
20, 22-23).
Tudo isto
mostra como a missão salvífica de Jesus apresenta a marca inconfundível da
presença do Espírito: vida, vida nova. Entre o envio do Filho
pelo Pai e o envio do Espírito pelo Pai e o Filho, existe uma ligação
íntima e vital.59 A acção do Espírito na criação e na história
humana adquire cabalmente um novo significado na acção realizada na vida e
missão de Jesus. As « sementes do Verbo » espalhadas pelo Espírito preparam a
criação inteira, a história e o homem para a plena maturação em Cristo.60
Os Padres
Sinodais manifestaram a sua preocupação pela tendência em separar a actividade
do Espírito Santo da de Jesus Salvador. Como resposta a tal preocupação,
apraz-me repetir aqui o que escrevi na Encíclica Redemptoris missio: O
Espírito « não é de modo algum uma alternativa a Cristo, nem vem preencher uma
espécie de vazio, como algumas vezes se sugere existir, entre Cristo e o Logos.
Tudo quanto o Espírito opera no coração dos homens e na história dos povos, nas
culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica, e não pode
deixar de referir-se a Cristo, Verbo feito carne pela acção do Espírito,
"a fim de, como Homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular em Si
todas as coisas" ».61
Por
conseguinte, a presença universal do Espírito Santo não pode servir como
desculpa para deixar de proclamar explicitamente Jesus Cristo como Salvador, o
único Salvador. Pelo contrário, a presença universal do Espírito é inseparável
da salvação universal que temos em Jesus. A presença do Espírito na criação e
na história aponta para Jesus Cristo, no Qual criação e história foram
redimidas e plenificadas. A presença e acção do Espírito, tanto antes da
encarnação como no momento culminante do Pentecostes, sempre aponta para Jesus
e para a salvação que Ele trouxe. Do mesmo modo, também a presença universal do
Espírito Santo nunca pode ser separada da sua actividade no âmbito do Corpo de
Cristo, a Igreja.62
O Espírito
Santo e o Corpo de Cristo
17. O
Espírito Santo preserva infalivelmente os laços de comunhão entre Jesus e a sua
Igreja. Habitando na Igreja como num templo (cf. 1 Cor 3, 16), o
Espírito, antes de mais, guia-a para a plenitude da verdade sobre Jesus.
Depois, é o Espírito que dá poderes à Igreja para continuar a missão de Jesus,
em primeiro lugar dando testemunho do próprio Jesus, realizando assim o que Ele
tinha prometido antes da sua morte e ressurreição, isto é, que enviaria o Espírito
aos seus discípulos para que pudessem dar testemunho d'Ele (cf. Jo
15, 26-27). Obra do Espírito na Igreja é também o atestar que os crentes são
filhos adoptivos de Deus, que hão-de herdar a salvação, a desejada plenitude de
comunhão com o Pai (cf. Rom 8, 15-17). Dotando a Igreja de diferentes
carismas e dons, o Espírito fá-la crescer em comunhão como um único corpo
formado por muitos membros diversos (cf. 1 Cor 12, 4; Ef 4,
11-16). O Espírito congrega na unidade toda a variedade de pessoas, com seus
diferentes costumes, recursos e talentos, fazendo da Igreja um sinal da
comunhão de toda a humanidade sob a chefia de Cristo.63 O Espírito
forma a Igreja como uma comunidade de testemunhas, que, com o seu estímulo, dão
testemunho de Jesus Salvador (cf. Act 1, 8). Neste sentido, o Espírito
Santo é o primeiro agente da evangelização. A partir disto, os Padres Sinodais
chegariam a concluir que, tal como o ministério terreno de Jesus foi realizado
com a força do Espírito Santo, assim « o mesmo Espírito foi dado à Igreja pelo
Pai e o Filho no Pentecostes, para levar a termo a missão de amor e serviço de
Jesus na Ásia ».64
O plano do
Pai para a salvação do homem não terminou com a morte e ressurreição de Jesus.
Pelo dom do Espírito de Cristo, os frutos da sua missão salvadora foram
oferecidos pela Igreja a todos os povos de todos os tempos, através da
proclamação do Evangelho e do serviço amoroso à família humana. Como observa o
Concílio Vaticano II, a Igreja « é impelida pelo Espírito Santo a cooperar para
que o desígnio de Deus, que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o
mundo, se realize totalmente ».65 Fortalecida pelo Espírito para
realizar a salvação de Cristo na terra, a Igreja é a semente do Reino de Deus e
suspira ardentemente pela sua vinda final. A sua identidade e missão são
inseparáveis do Reino de Deus, que Jesus anunciou e inaugurou com tudo o que
disse e fez, sobretudo com a sua morte e ressurreição. O Espírito lembra à
Igreja que não é fim em si mesma: em tudo o que ela é e faz, existe para servir
Cristo e a salvação do mundo. Na actual economia da salvação, as actividades do
Espírito Santo na criação, na história e na Igreja são, todas elas, parte de um
desígnio eterno da Trindade sobre tudo o que existe.
O Espírito
Santo e a missão da Igreja na Ásia
18. O
Espírito que Se movia sobre a Ásia no tempo dos Patriarcas e dos profetas e,
ainda mais vigorosamente, no tempo de Jesus Cristo e da Igreja antiga, move-Se
agora entre os cristãos asiáticos, fortalecendo o testemunho da sua fé no meio
dos povos, culturas e religiões do Continente. Tal como o esplêndido diálogo de
amor entre Deus e o homem foi preparado pelo Espírito e realizado em terra
asiática no mistério de Cristo, assim também o diálogo entre o Salvador e os
povos do Continente continua hoje pelo poder do mesmo Espírito Santo, em acção
na Igreja. Neste processo, Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos
e leigas têm todos um papel essencial a desempenhar, recordando-se destas
palavras de Jesus que são simultaneamente uma promessa e um mandato: « Ides
receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas
testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do
mundo » (Act 1, 8).
A Igreja
está convencida de que, no mais íntimo dos povos, culturas e religiões da Ásia,
há sede de « água viva » (cf. Jo 4, 10-15), uma sede que o próprio
Espírito criou e que só Jesus Salvador pode saciar plenamente. A Igreja vê o
Espírito Santo continuar a preparar os povos da Ásia para o diálogo de salvação
com o Salvador de todos. Guiada pelo Espírito na sua missão de serviço e de
amor, a Igreja pode proporcionar um encontro entre Jesus Cristo e os povos da
Ásia que suspiram pela vida em plenitude. Somente neste encontro se funda a
possibilidade de ter aquela água viva que jorra para a vida eterna,
nomeadamente o conhecimento do único Deus verdadeiro e de Jesus Cristo que Ele
enviou (cf. Jo 17, 3).
A Igreja
bem sabe que só pode cumprir a sua missão obedecendo às inspirações do Espírito
Santo. Destinada a ser um sinal e instrumento autêntico da acção do Espírito
nas complexas realidades da Ásia, ela deve discernir, nas mais diversas
circunstâncias do Continente, o apelo do Espírito para testemunhar, de forma
nova e efectiva, Jesus Salvador. A verdade plena de Jesus e a salvação por Ele
alcançada são sempre um dom, nunca o resultado do esforço humano. « O próprio
Espírito atesta em união com o nosso espírito que somos filhos de Deus; filhos
e igualmente herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo » (Rom
8, 16-17). Por isso, a Igreja clama sem cessar: « Vinde, Espírito Santo; enchei
os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor ». Este é o
fogo que Jesus lança sobre a terra. A Igreja da Ásia compartilha o seu ardente
desejo de ver este fogo ateado (cf. Lc 12, 49). Com tais sentimentos, os
Padres Sinodais procuraram discernir as áreas principais de missão para a
Igreja na Ásia ao cruzar o limiar do novo milénio.
CAPÍTULO
IV
JESUS
SALVADOR: O DOM A ANUNCIAR
A primazia
do anúncio
19. Nas
vésperas do Terceiro Milénio, ressoa de novo no coração de cada cristão a voz
de Cristo Ressuscitado: « Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra. Ide,
pois, e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho
mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28,
18-20). Certos da ajuda incessante do próprio Jesus e da presença e força do
Espírito, os Apóstolos saíram, imediatamente depois do Pentecostes, para
cumprir tal mandato: « Eles, partindo, foram pregar por toda a parte, e o
Senhor cooperava com eles » (Mc 16, 20). Aquilo que anunciaram, pode
resumir-se nestas palavras de S. Paulo: « Não nos pregamos a nós próprios, mas
a Cristo Jesus, o Senhor; e nós não somos senão vossos servos, por amor de
Jesus » (2 Cor 4, 5). Abençoada com o dom da fé, a Igreja continua, dois
mil anos depois, a sair ao encontro dos povos do mundo para partilhar com eles
a Boa Nova de Jesus Cristo. É uma comunidade ardente de zelo missionário, a fim
de tornar Jesus conhecido, amado e seguido.
Não pode
haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor. O
Concílio Vaticano II e o Magistério posterior, refutando certa confusão sobre a
verdadeira natureza da missão da Igreja, tem repetidamente sublinhado a
primazia do anúncio de Jesus Cristo em qualquer trabalho de evangelização.
Neste sentido, o Papa Paulo VI escreveu explicitamente que « não haverá nunca
evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino,
o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados ».66
Foi o que fizeram gerações e gerações de cristãos, ao longo dos séculos. Com
compreensível orgulho, os Padres Sinodais recordaram como « muitas comunidades
cristãs da Ásia preservaram a sua fé, no decurso dos séculos, contra grandes
controvérsias e mantiveram a sua herança espiritual com heróica perseverança.
Para elas, partilhar este imenso tesouro é motivo de grande alegria e urgência
».67
Ao mesmo tempo
os participantes na Assembleia Especial afirmaram repetidamente que é
necessário um renovado compromisso em prol da proclamação de Jesus Cristo,
precisamente no Continente que conheceu o início deste anúncio há dois mil
anos. À vista de tanta gente da Asia que nunca se encontrou, de forma clara e
consciente, com a pessoa de Jesus, tornam-se ainda mais incisivas as seguintes
palavras do apóstolo Paulo: « Todo o que invocar o nome do Senhor será salvo.
Mas como hão-de invocar Aquele em quem não acreditaram? E como hão-de acreditar
n'Aquele de que não ouviram falar? E como ouvirão se ninguém lhes prega? » (Rom
10, 13-14). A grande questão que a Igreja da Ásia tem agora pela frente é como
partilhar com os nossos irmãos e irmãs asiáticos o tesouro que possuímos como
um dom onde se encerram todos os dons, ou seja, a Boa Nova de Jesus Cristo?
Anunciar
Jesus Cristo na Ásia
20. A
Igreja na Ásia sente maior impaciência na sua missão de levar este anúncio, ao
pensar que « existe já, nas pessoas e nos povos, pela acção do Espírito, uma
ânsia — mesmo se inconsciente — de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem,
do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte ».68 Esta
insistência no anúncio não é ditada por impulso sectário, nem espírito de
proselitismo nem ainda qualquer sentido de superioridade. A Igreja evangeliza
por obediência ao mandato de Cristo, na certeza de que toda a pessoa tem o
direito de ouvir a Boa Nova de Deus, que Se revela e dá em Cristo.69
Dar testemunho de Jesus Cristo é o maior serviço que a Igreja pode oferecer aos
povos da Ásia, porque é a resposta ao seu anelo profundo de Absoluto, e
desvenda as verdades e valores que hão-de assegurar o seu desenvolvimento
humano integral.
Bem ciente
da complexidade das numerosas situações da Ásia, tão diversificada, e «
anunciando a verdade na caridade » (cf. Ef 4, 15), a Igreja proclama a
Boa Nova com amoroso respeito e estima pelos seus ouvintes. Um anúncio, que
respeite os direitos das consciências, não viola a liberdade, já que a fé
requer sempre uma resposta livre por parte do indivíduo.70 Todavia,
tal respeito não exclui a necessidade de anunciar explicitamente o Evangelho em
toda a sua amplitude. Há que sublinhar, especialmente no contexto rico de
culturas e religiões da Ásia, que « nem o respeito e a estima para com essas
religiões, nem a complexidade dos problemas levantados são motivo para a Igreja
calar, diante dos não cristãos, o anúncio de Jesus Cristo ».71 Ao
visitar a Índia em 1986, afirmei claramente que « a aproximação da Igreja às outras
religiões é ditada por autêntico respeito. (...) Este respeito é duplo:
respeito pelo homem na sua procura de resposta às perguntas mais profundas da
sua vida, e respeito pela acção do Espírito no homem ».72 De facto,
os Padres Sinodais reconheceram de boa vontade, nas sociedades, culturas e
religiões asiáticas, a acção do Espírito, pela qual o Pai prepara os corações
das pessoas para a plenitude de vida em Cristo.73
Apesar
disso, já durante as consultações que precederam o Sínodo, muitos Bispos asiáticos
referiram-se a dificuldades no anúncio de Jesus como o único Salvador.
No decurso da Assembleia, a situação foi descrita desta forma: « Alguns dos
seguidores das grandes religiões da Ásia não sentem problema em aceitar Jesus
como uma manifestação da Divindade ou do Absoluto, ou como um "ser
iluminado". Mas, é difícil para eles vê-l'O como a única manifestação da
Divindade ».74 De facto, o esforço por partilhar o dom da fé em
Jesus como o único Salvador apresenta-se carregado de dificuldades filosóficas,
culturais e teológicas, sobretudo à luz das crenças de grandes religiões da
Ásia profundamente permeadas por específicos valores culturais e visões do
mundo.
Na opinião
dos Padres Sinodais, a dificuldade é criada pelo facto de Jesus ser muitas
vezes considerado como alheio à Ásia. É paradoxal que muitos asiáticos tendam a
ver Jesus — nascido no continente asiático — como uma figura ocidental em vez
de asiática. Era inevitável que o anúncio do Evangelho, feito por missionários
ocidentais, estivesse influenciado pelas culturas donde vieram. Os Padres
Sinodais reconheceram-no um facto sempre presente na história da evangelização,
aproveitando a ocasião para « testemunhar de modo muito especial o seu
agradecimento a todos os missionários — homens e mulheres, religiosos e leigos,
estrangeiros e autóctones — que lhes trouxeram a mensagem de Jesus Cristo e o
dom da fé. Uma palavra especial de gratidão deve ser expressa ainda a todas as
Igrejas particulares que enviaram e continuam a enviar missionários para a Ásia
».75
Os
evangelizadores podem tirar proveito da experiência de S. Paulo que se empenhou
em dialogar com os valores filosóficos, culturais e religiosos dos seus
ouvintes (cf. Act 14, 13-17; 17, 22-31). Mesmo os Concílios Ecuménicos,
que formularam doutrinas vinculantes para toda a Igreja, tiveram de lançar mão
dos recursos linguísticos, filosóficos e culturais disponíveis. Assim, estes
recursos tornaram-se um bem partilhado pela Igreja inteira, capazes de exprimir
a sua doutrina cristológica de modo apropriado e universal. Fazem parte da
herança de fé que deve ser assumida e incessantemente partilhada no encontro
com as várias culturas.76 Por isso mesmo, a tarefa de anunciar Jesus
de modo tal que permita aos povos asiáticos identificarem-se com Ele, continuando
eles fiéis simultaneamente à doutrina teológica da Igreja e às suas próprias
origens asiáticas, permanece o maior desafio.
A
apresentação de Jesus Cristo como o único Salvador necessita de seguir uma pedagogia
que introduza a pessoa passo a passo até chegar à plena apropriação do
mistério. Obviamente, a evangelização inicial dos não cristãos e o anúncio
posterior de Jesus aos crentes terá de ser diferente na sua abordagem. No
anúncio inicial, por exemplo, « a apresentação de Jesus Cristo poderia aparecer
como a realização dos desejos expressos nas mitologias e tradições dos povos
asiáticos ».77 Geralmente há que preferir os métodos narrativos,
mais parecidos com as formas culturais asiáticas. Com efeito, o anúncio de
Jesus Cristo pode fazer-se mais eficazmente narrando a sua história, como fazem
os Evangelhos. E o uso de termos ontológicos, que hão-de ser sempre supostos e
usados para se apresentar Jesus, pode ser contrabalançado pelo uso de
categorias mais relacionais, históricas e cósmicas. Como observaram os Padres
Sinodais, a Igreja deve permanecer aberta a novos e imprevistos caminhos pelos
quais o rosto de Jesus possa ser apresentado aos habitantes da Ásia.78
O Sínodo
recomendou que a catequese, etapa posterior ao anúncio, devia seguir « uma
pedagogia evocativa, usando narrações, parábolas e símbolos, tão
característicos da metodologia asiática no campo do ensino ».79 O
próprio ministério de Jesus mostra claramente o valor do contacto pessoal,
que exige ao evangelizador que tenha a peito a situação do ouvinte, para lhe
oferecer um anúncio adaptado ao seu nível de maturidade e numa forma e
linguagem apropriadas. Nesta perspectiva, os Padres Sinodais sublinharam várias
vezes a necessidade de um modo de evangelizar que toque a sensibilidade das
pessoas asiáticas, sugerindo algumas imagens de Jesus que seriam inteligíveis
para a mentalidade e as culturas asiáticas e, ao mesmo tempo, fiéis à Sagrada
Escritura e à Tradição. Contam-se entre elas « Jesus Cristo como mestre de
sabedoria, médico, libertador, guia espiritual, ser iluminado, amigo compassivo
do pobre, bom samaritano, bom pastor, ser obediente ».80 Jesus
poderia ser apresentado como a Sabedoria encarnada de Deus, cuja graça faz
frutificar as « sementes » da Sabedoria divina já presentes nas vidas, religiões
e povos da Ásia.81 No meio de povos asiáticos que vivem a braços com
tantos sofrimentos, seria melhor proclamar Jesus como o Salvador « que pode dar
significado a quantos suportam penas e sofrimentos sem sentido ».82
A fé que a
Igreja oferece em dom aos seus filhos e filhas asiáticos não se pode confinar
dentro dos limites de compreensão e expressão duma mera cultura humana, porque
transcende tais limites e desafia realmente todas as culturas a elevarem-se
para novas luzes de compreensão e expressão. Porém, ao mesmo tempo, os Padres
Sinodais estavam cientes da necessidade premente que as Igrejas locais da Ásia
têm de apresentar o mistério de Cristo às respectivas populações segundo os
seus modelos culturais e formas de pensamento. Eles puseram em destaque que uma
tal inculturação da fé no seu Continente implica redescobrir a fisionomia
asiática de Jesus e identificar os meios pelos quais estas culturas possam
compreender o significado salvífico universal do mistério de Jesus e da sua
Igreja.83 O profundo conhecimento dos povos e suas culturas,
demonstrado por homens como João de Montecorvino, Mateus Ricci e Roberto de
Nobili, precisa de ser imitado no tempo actual.
O desafio
da inculturação
21. A
cultura é o espaço vital onde a pessoa humana se encontra face a face com o
Evangelho. Se uma cultura é o resultado da vida e actividade dum grupo humano,
também as pessoas pertencentes a este grupo são modeladas em larga medida pela
cultura onde vivem. Dado que pessoas e sociedade mudam, também a cultura muda
com elas. Se uma cultura se transforma, as pessoas e a sociedade são
transformadas por ela. A partir desta perspectiva, torna-se mais claro por que
evangelização e inculturação aparecem natural e intimamente ligadas uma com a
outra. O Evangelho e a evangelização não são certamente identificáveis com a
cultura; são independentes dela. Mas o Reino de Deus irrompe em pessoas que
estão profundamente ligadas a uma cultura, e a edificação do Reino não pode
deixar de servir-se de elementos das culturas humanas. Por isso, Paulo VI
definiu a ruptura entre o Evangelho e a cultura como o drama do nosso tempo,
com um impacto profundo tanto na evangelização como na cultura.84
Neste
processo que leva a Igreja a encontrar-se com as diversas culturas do mundo,
ela não só transmite as suas verdades e valores renovando intimamente as
culturas, mas aproveita também das várias culturas os elementos positivos que
nelas se encontram já. Este é o caminho obrigatório para os evangelizadores
apresentarem a fé cristã e tornarem-na parte da herança cultural de um povo.
Inversamente, as diversas culturas, quando purificadas e renovadas pela luz do
Evangelho, podem tornar-se verdadeiras expressões de fé cristã. « Por sua vez,
a Igreja, com a inculturação, torna-se um sinal mais transparente daquilo que
realmente ela é, e um instrumento mais apto para a missão ».85 Este
compromisso com as culturas esteve sempre presente na peregrinação da Igreja ao
longo da história; mas hoje reveste-se de uma urgência particular na situação
pluriétnica, plurirreligiosa e pluricultural da Ásia, onde o cristianismo
muitas vezes é visto ainda como religião estrangeira.
Neste
momento, é bom lembrar a verdade repetidamente afirmada durante o Sínodo de que
o Espírito Santo é o primeiro agente da inculturação da fé cristã na Ásia.86
O mesmo Espírito Santo que nos guia para a verdade total, torna possível um
diálogo frutuoso com os valores culturais e religiosos dos diversos povos, no
meio dos quais Ele se encontra já em certa medida presente, dando aos homens e
mulheres de coração sincero a força para vencerem o mal e as insídias do
maligno e oferecendo realmente a todos, embora de um modo que só Deus conhece,
a possibilidade de terem parte no Mistério Pascal.87 A presença do
Espírito garante que o diálogo se desenrole com verdade, lealdade, humildade e
respeito.88 « Ao oferecer aos outros a Boa Nova da Redenção, a
Igreja esforça-se por compreender a sua cultura. Procura conhecer as
mentalidades e os corações dos seus ouvintes, os seus valores e costumes, os
seus problemas e dificuldades, as suas esperanças e sonhos. Uma vez que conhece
e compreende estes vários aspectos da cultura, então ela pode começar o diálogo
da salvação; pode oferecer, de modo respeitoso, com clareza e convicção, a Boa
Nova da Redenção a todos aqueles que livremente desejarem ouvir e responder ».89
Por isso, o povo da Ásia, que deseja assumir a fé cristã segundo a sua maneira
própria de asiáticos, pode estar certo de que as suas esperanças, expectativas,
inquietações e sofrimentos não só são partilhadas por Jesus, mas tornam-se
verdadeiramente o ponto pelo qual o dom da fé e o poder do Espírito penetram no
âmago mais profundo das suas vidas.
Compete
aos Pastores, em virtude do seu carisma, conduzir este diálogo com
discernimento. De igual modo, os peritos em ciências sagradas e profanas têm um
papel importante a desempenhar no processo de inculturação. Mas, o processo
deve envolver todo o Povo de Deus, já que a vida da Igreja inteira deve
mostrar exteriormente a fé que está a ser anunciada e recebida. Para garantir
que isso se verifique como convém, os Padres Sinodais identificaram algumas
áreas que merecem particular atenção: reflexão teológica, liturgia, a formação
de sacerdotes e religiosos, catequese e espiritualidade.90
Áreas-chave
de inculturação
22. O
Sínodo encorajou os teólogos no cumprimento do seu delicado trabalho de
desenvolver uma teologia inculturada, especialmente na área da cristologia.91
Lá foi observado que « este trabalho teológico tem de ser realizado com
coragem, fidelidade à Sagrada Escritura e à Tradição da Igreja, sincera adesão
ao Magistério e conhecimento das realidades pastorais ».92 Desejo
também incitar os teólogos a trabalharem em espírito de união com os Pastores e
o povo, que — cada um em união com os outros, e nunca um separado dos outros —
« reflecte aquele sentido da fé, que é necessário nunca perder de vista ».93
O trabalho teológico deve procurar sempre respeitar a sensibilidade dos
cristãos, para que, graças a um crescimento gradual para formas inculturadas de
exprimir a fé, o povo nunca seja confundido nem escandalizado. Em todo o caso,
a inculturação há-de ser marcada pela compatibilidade com o Evangelho e a
comunhão com a fé da Igreja universal, em plena concordância com a Tradição da
Igreja e com o intuito de fortalecer a fé do povo.94 O teste de uma
inculturação verdadeira é verificar se o povo adere mais à sua fé cristã,
porque a vê melhor com os olhos da sua própria cultura.
A liturgia
é a fonte e o vértice de toda a vida e missão cristã.95 É
decisivamente um meio de evangelização, sobretudo na Ásia, onde os seguidores
das diferentes religiões são muito sensíveis ao culto, festas religiosas e
devoções populares.96 Na sua maior parte, a liturgia das Igrejas
Orientais tem sido inculturada com bom êxito ao longo de séculos de interacção
com a cultura circundante, mas as Igrejas de formação mais recente precisam de
assegurar que a liturgia se torne uma fonte ainda maior de nutrimento para os
seus povos, através de um uso claro e efectivo de elementos tirados das
culturas locais. Mas, para a inculturação litúrgica, não basta fixar a atenção
sobre os valores, símbolos e rituais da cultura tradicional; é preciso atender
também às mudanças causadas na consciência e nos comportamentos pelas culturas
secularistas e consumistas emergentes, que estão a afectar o sentido asiático
do culto e da oração. Nem se podem descuidar, numa inculturação litúrgica
genuinamente asiática, as necessidades específicas dos pobres, migrantes,
refugiados, jovens e mulheres.
As
Conferências Nacionais e Regionais dos Bispos têm necessidade de trabalhar de
forma mais estreita com a Congregação do Culto Divino e Disciplina dos
Sacramentos na busca de meios efectivos para fomentar formas de culto
apropriadas ao contexto asiático.97 Tal cooperação é essencial
porque a Liturgia Sagrada exprime e celebra a única fé professada por todos e,
sendo herança de toda a Igreja, não pode ser determinada pelas Igrejas locais
isoladamente da Igreja universal.
Os Padres
Sinodais assinalaram de forma particular a importância da palavra da Bíblia na
transmissão da mensagem de salvação aos povos da Ásia, porque neste Continente
a palavra é muito importante para a salvaguarda e comunicação da experiência
religiosa.98 Daqui se deduz que é necessário desenvolver um efectivo
apostolado bíblico a fim de assegurar que o texto sagrado seja mais amplamente
difundido e mais intensa e devotamente usado entre os membros da Igreja da
Ásia. Os Padres Sinodais incitaram a fazer dela a base de todo o anúncio
missionário, catequese, pregação e géneros de espiritualidade.99 Há
necessidade de estimular e apoiar iniciativas para traduzir a Bíblia para as
línguas locais. A formação bíblica deveria ser considerada um meio importante
para educar as pessoas na fé e habilitá-las para a tarefa do anúncio. Cursos
sobre a Bíblia, de orientação pastoral, com a devida ênfase na aplicação dos
seus ensinamentos às complexas realidades da vida asiática, devem ser
incorporados nos programas de formação para o clero, as pessoas de vida
consagrada e o laicado. 100 A Sagrada Escritura deveria ser dada a
conhecer também entre os seguidores doutras religiões; a Palavra de Deus
possui, inerente a si mesma, um poder que toca o coração das pessoas, visto
que, através das Escrituras, o Espírito Santo revela o plano de Deus para a
salvação do mundo. Além disso, o estilo narrativo presente em muitos livros da
Bíblia tem afinidades com os textos religiosos próprios da Ásia. 101
Outro
aspecto-chave do processo de inculturação é a formação dos evangelizadores,
de que depende em grande parte o futuro do mesmo. No passado, a formação seguiu
frequentemente o estilo, os métodos e programas importados do Ocidente; os
Padres Sinodais, ao mesmo tempo que manifestavam o seu apreço pelo serviço
prestado por este modo de formação, reconheceram, como evolução positiva, os
esforços que se têm feito recentemente para adaptar a formação dos
evangelizadores ao contexto cultural da Ásia. Juntamente com um sólido
fundamento nos estudos bíblicos e patrísticos, os seminaristas deveriam adquirir
uma detalhada e firme compreensão do património teológico e filosófico da
Igreja, como recomendei na Encíclica Fides et ratio. 102
Tendo esta preparação por base, ser-lhes-á proveitoso o contacto com as
tradições filosóficas e religiosas asiáticas. 103 Os Padres Sinodais
encorajaram também os professores e orientadores dos Seminários a procurarem
uma profunda compreensão dos elementos de espiritualidade e oração próprios do
continente asiático, e a comprometerem-se mais profundamente na luta dos povos
asiáticos por uma vida mais abundante. 104 Tendo isso em vista, foi
realçada a necessidade de assegurar a formação apropriada dos orientadores dos
Seminários. 105 O Sínodo falou também da formação das pessoas de
vida consagrada, deixando claro que a sua espiritualidade e estilo de vida
há-de ser sensível à herança religiosa e cultural da gente com quem vivem e a
quem servem, sempre pressupondo o necessário discernimento do que é, ou não,
conforme ao Evangelho. 106 Além disso, visto que a inculturação do Evangelho
envolve todo o povo de Deus, o papel do laicado é de suprema importância. São
sobretudo os leigos os que são chamados a transformar a sociedade, em
colaboração com os Bispos, clero e religiosos, infundindo o « pensamento de
Cristo » na mentalidade, costumes, leis e estruturas do mundo secular onde
vivem. 107 Uma inculturação do Evangelho alargada a todos os níveis
da sociedade asiática dependerá imenso da formação adequada que as Igrejas
locais poderem dar ao laicado.
Vida
cristã como anúncio
23. Quanto
mais a Comunidade cristã estiver arraigada na experiência de Deus que brota
duma fé viva, tanto mais será capaz de anunciar credivelmente aos outros a
realização do Reino de Deus em Cristo. Isso será o resultado da escuta fiel da
palavra de Deus, da oração e contemplação, da celebração do mistério de Jesus
nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e do exemplo dado de verdadeira
comunhão de vida e integridade de amor. O coração da Igreja particular deve
permanecer fixo na contemplação de Jesus Cristo, Deus feito homem, e
esforçar-se constantemente por chegar a uma união cada vez mais íntima com Ele,
cuja missão ela continua. A missão é acção contemplativa e contemplação
activa. Por isso, um missionário que não possua uma profunda experiência de
Deus na oração e na contemplação terá pouca influência espiritual e reduzido
sucesso missionário. Trata-se de uma conclusão extraída do meu próprio
ministério sacerdotal; e, como escrevi noutro lugar, o meu contacto com
representantes das tradições espirituais não cristãs, de modo particular as da
Ásia, veio confirmar a minha convicção de que o futuro da missão depende em
grande parte da contemplação. 108 Na Ásia, berço de grandes
religiões onde indivíduos e mesmo populações inteiras têm sede do Divino, a
Igreja é chamada a ser uma comunidade orante, profundamente espiritual, mesmo
quando directamente ocupada em assuntos humanos e sociais. Todos os cristãos
necessitam duma verdadeira espiritualidade missionária feita de oração e
contemplação.
Uma pessoa
verdadeiramente religiosa ganha prontamente respeito e aceitação na Ásia. É que
a oração, o jejum e as várias formas de ascetismo são tidas em grande estima; e
a renúncia, o desapego, a humildade, a simplicidade e o silêncio são
considerados grandes valores pelos seguidores de outras religiões. Para que a
oração não apareça desunida da promoção humana, os Padres Sinodais insistiram
em que « as obras de justiça, de caridade e de solidariedade façam parte duma
autêntica vida de oração e contemplação, e de facto só uma tal espiritualidade
poderá ser a fonte boa da nossa obra evangelizadora ». 109
Plenamente convictos da importância de testemunhas autênticas para a
evangelização da Ásia, os Padres Sinodais declararam: « A Boa Nova de Jesus
Cristo só pode ser proclamada por aqueles que se deixarem conquistar e inspirar
pelo amor do Pai a seus filhos, manifestado na pessoa de Jesus Cristo. Este
anúncio é uma missão que necessita de homens e mulheres santos que desejam,
através de suas vidas, tornar conhecido e amado o Salvador. Um fogo só pode ser
aceso por algo que já esteja incendiado. Do mesmo modo, também só é possível
realizar, na Ásia, um frutuoso anúncio da Boa Nova da salvação, se Bispos,
clero, pessoas de vida consagrada e laicado estiverem, eles próprios, abrasados
pelo amor de Cristo e inflamados de zelo por tornarem-No mais largamente
conhecido, mais profundamente amado e mais intimamente imitado ». 110
Os cristãos que falam de Cristo devem manifestar na vida a mensagem que
proclamam.
A
propósito disto, há uma circunstância particular no contexto asiático que
merece a nossa atenção: a Igreja sabe que o testemunho silencioso de vida
permanece ainda o único meio de proclamar o Reino de Deus em muitos lugares da
Ásia, onde é proibido o anúncio explícito, e a liberdade religiosa é negada ou
sistematicamente restringida. A Igreja abraça conscientemente este tipo de
testemunho, considerando-o como parte da cruz que deve carregar (cf. Lc
9, 23), embora não cesse de implorar e incitar os Governos a reconhecerem a
liberdade religiosa como um direito humano fundamental. Vale a pena repetir
aqui as palavras do Concílio Vaticano II: « A pessoa humana tem direito à
liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem
estar livres de coacção, por parte quer dos indivíduos, quer dos grupos sociais
ou de qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa,
ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de
proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros,
dentro dos devidos limites ». 111 Em alguns países asiáticos, esta
declaração tem ainda de ser reconhecida e posta em prática.
É claro,
portanto, que o anúncio de Jesus Cristo na Ásia apresenta aspectos vários e
complexos tanto no conteúdo como no método. Os Padres Sinodais estavam bem
cientes da legítima variedade de modelos para o anúncio de Jesus, tomando
providências para que a própria fé seja respeitada em toda a sua integridade ao
longo do processo da sua recepção e partilha. O Sínodo observou que « a
evangelização é, hoje, uma realidade rica e dinâmica. Possui vários aspectos e
elementos: testemunho, diálogo, anúncio, catequese, conversão, baptismo,
inserção na comunidade eclesial, a implantação da Igreja, inculturação e
promoção humana integral. Alguns destes elementos comparecem juntos, enquanto
outros constituem fases sucessivas do processo global de evangelização ».
112 Mas, em todo o trabalho de evangelização há que anunciar a verdade
completa de Jesus Cristo. Pôr em destaque determinados aspectos do mistério
inexaurível de Jesus é simultaneamente legítimo e necessário para iniciar
gradualmente uma pessoa no conhecimento de Cristo, mas isso não deve levar a
comprometer a integridade da fé. No fim, a aceitação da fé por um indivíduo
deve estar assente numa compreensão segura da pessoa de Jesus Cristo, tal como
é apresentada pela Igreja em todo o tempo e lugar, o Senhor de todos, que é « o
mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade » (Heb 13, 8).
CAPÍTULO V
COMUNHÃO E
DIÁLOGO AO SERVIÇO DA MISSÃO
Comunhão e
missão, de mãos dadas
24. De
acordo com o desígnio eterno do Pai, a Igreja, que foi prefigurada desde o
princípio do mundo, preparada na Antiga Aliança, instituída por Jesus Cristo e
apresentada ao mundo pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes, « prossegue a
sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus »,
113 enquanto se esforça por chegar à sua perfeição na glória dos céus.
Dado que Deus deseja « que todo o género humano forme um só Povo de Deus, se
una num só corpo de Cristo, e se edifique num só templo do Espírito Santo »,
114 a Igreja é, no mundo, « o plano visível do amor de Deus pela
humanidade, o sacramento da salvação ». 115 Por conseguinte, a
Igreja não pode ser entendida meramente como uma organização social ou uma
agência humana de assistência social. Apesar de incluir nela homens e mulheres
pecadores, a Igreja deve ser vista como o lugar privilegiado de encontro entre
Deus e o homem, onde Deus escolheu revelar o mistério da sua vida íntima e
realizar o seu plano de salvação do mundo.
O mistério
do desígnio amoroso de Deus torna-se presente e activo na comunidade de homens
e mulheres que, pelo baptismo, foram sepultados com Cristo na morte, para que,
como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim eles pudessem
caminhar numa vida nova (cf. Rom 6, 4). No âmago do mistério da Igreja,
está o vínculo de comunhão que une Cristo Esposo a todos os baptizados. Por
meio desta comunhão viva e vivificante, « os cristãos deixam de pertencer a si
mesmos, tornando-se propriedade de Cristo ». 116 Unidos ao Filho
pelo vínculo amoroso do Espírito, os cristãos estão unidos ao Pai, e desta
comunhão brota a comunhão que eles partilham entre si por Cristo no Espírito
Santo. 117 Assim, a primeira finalidade da Igreja é ser o sacramento
da união íntima da pessoa humana com Deus, e, porque a comunhão das
pessoas entre si está enraizada nesta união com Deus, a Igreja é também o
sacramento da unidade da raça humana. 118 Na Igreja, esta
unidade já começou; e ao mesmo tempo ela é « sinal e instrumento » da plena
realização da unidade que há-de vir. 119
Uma
exigência essencial da vida em Cristo é frutificar, pelo que, quem entra em
comunhão com o Senhor, supõe-se que produza fruto: « Quem está em Mim e Eu nele,
esse dá muito fruto » (Jo 15, 5). Tanto é assim que a pessoa que não
produz frutos, perde a comunhão: « Toda a vara que em Mim não dá fruto, Ele [o
Pai] corta-a » (Jo 15, 2). A comunhão com Jesus, que faz crescer a
comunhão dos cristãos entre si, é condição indispensável para produzir fruto; e
a comunhão com os outros, que é dom de Cristo e do seu Espírito, é o fruto mais
esplêndido que os ramos podem dar. Neste sentido, comunhão e missão estão
inseparavelmente ligadas entre si. Compenetram-se e integram-se mutuamente, ao
ponto de « a comunhão representar a fonte e, simultaneamente, o fruto da
missão: a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão ». 120
Servindo-se
da teologia de comunhão, o Concílio Vaticano II pôde descrever a Igreja como o
Povo peregrino de Deus com o qual todos os povos estão de algum modo
relacionados. 121 Baseados nisto, os Padres Sinodais puseram em
realce o vínculo misterioso que existe entre a Igreja e os seguidores de outras
religiões asiáticas, observando que eles estão « relacionados com [a Igreja]
segundo graus e modos diversos ». 122 No meio de povos, culturas e
religiões tão diversos, « a vida da Igreja como comunhão assume ainda maior
importância ». 123 Com efeito, o serviço da Igreja a favor da
unidade tem uma relevância específica na Ásia, onde existem muitas tensões,
divisões e conflitos, provocados por diferenças étnicas, sociais, culturais,
linguísticas, económicas e religiosas. Num contexto assim, as Igrejas locais da
Ásia, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm necessidade de fomentar uma
maior comunhão de mente e coração, através duma estreita colaboração entre elas
próprias. De importância vital para a sua missão evangelizadora, são também as
suas relações com as outras Igrejas Cristãs e Comunidades Eclesiais, e com os
seguidores de outras religiões. 124 Por isso, o Sínodo renovou o
compromisso da Igreja da Ásia na sua missão de aperfeiçoar quer as relações
ecuménicas quer o diálogo interreligioso, reconhecendo que edificar a unidade,
trabalhar pela reconciliação, forjar laços de solidariedade, promover o diálogo
entre religiões e culturas, extirpar preconceitos e gerar confiança entre as
pessoas pertence à essência da missão evangelizadora da Igreja no Continente.
Tudo isto exige, por parte da Comunidade Católica, um sincero exame de
consciência, a coragem para buscar a reconciliação e um renovado compromisso a
favor do diálogo. No limiar do terceiro milénio, é evidente que a eficácia
evangelizadora da Igreja exige que ela se esforce cuidadosamente por servir a
causa da unidade em todas as suas dimensões. Comunhão e missão caminham de mãos
dadas.
Comunhão
dentro da Igreja
25.
Reunidos em torno do Sucessor de Pedro, rezando e trabalhando juntos, os Bispos
participantes nesta Assembleia Sinodal Especial para a Ásia personificaram, por
assim dizer, a comunhão eclesial em toda a rica diversidade das Igrejas
particulares a que presidem na caridade. A minha presença nas Sessões Gerais do
Sínodo foi uma feliz oportunidade de partilhar as alegrias e esperanças, as dificuldades
e ânsias dos Bispos, e ao mesmo tempo um exercício, intensa e profundamente
sentido, do meu próprio ministério. De facto, é dentro da perspectiva da
comunhão eclesial que a autoridade do Sucessor de Pedro se evidencia mais
claramente, não tanto nem primariamente como poder jurídico sobre as Igrejas
locais, como sobretudo uma primazia pastoral ao serviço da unidade de fé e de
vida de todo o Povo de Deus. Bem cientes de que « o único ministério do Ofício
Petrino é garantir e fomentar a unidade da Igreja », 125 os Padres
Sinodais agradeceram o serviço que os Dicastérios da Cúria Romana e o serviço
diplomático da Santa Sé prestam às Igrejas locais, em espírito de comunhão e
colegialidade. 126 Um aspecto essencial deste serviço é o respeito e
sensibilidade que estes colaboradores íntimos do Sucessor de Pedro mostram pela
legítima diversidade das Igrejas locais e pela variedade de culturas e povos
com que estão em contacto.
Cada
Igreja particular deve estar assente no testemunho de comunhão
eclesial, que constitui a sua verdadeira natureza como Igreja. Os Padres
Sinodais optaram por descrever a diocese como uma comunhão de comunidades
reunidas à volta do Pastor, onde clero, pessoas consagradas e laicado estão
empenhados num « diálogo de vida e coração », apoiado pela graça do Espírito
Santo. 127 É primariamente na diocese que a imagem duma comunhão de
comunidades pode ser concretizada no meio das complexas realidades sociais,
políticas, religiosas, culturais e económicas da Ásia. A comunhão eclesial
implica que cada Igreja local se torne, segundo as palavras dos Padres
Sinodais, uma « Igreja participativa », isto é, uma Igreja onde todos vivam a
sua própria vocação e desempenhem a própria missão. Para se construir a «
comunhão para a missão » e a « missão de comunhão », é preciso reconhecer,
dinamizar e pôr efectivamente em prática os carismas específicos de cada
membro. 128 De modo particular, há necessidade de encorajar um maior
envolvimento do laicado e das pessoas consagradas na planificação pastoral e nas
decisões tomadas através de estruturas de participação tais como Conselhos
Pastorais e Assembleias Paroquiais. 129
Em cada
diocese, a paróquia continua a ser o lugar onde ordinariamente o fiel se
reúne para crescer na fé, viver o mistério da comunhão eclesial e tomar parte
na missão da Igreja. Por isso, os Padres Sinodais incitaram os Pastores a
inventar meios novos e eficazes para apascentarem os fiéis, para que assim
todos, sobretudo os pobres, se sintam verdadeiramente parte da paróquia e do
conjunto do Povo de Deus. Planear a pastoral com os fiéis leigos deveria ser
uma característica normal de todas as paróquias. 130 O Sínodo
indicou de modo particular os jovens como aqueles a quem « a paróquia deveria
proporcionar maiores oportunidades de amizade e comunhão (...) por meio de
organizações de apostolado juvenil e grupos de jovens ». 131 Ninguém
deveria ser excluído a priori de participar plenamente da vida e missão
da paróquia, por causa da sua origem social, económica, política, cultural ou
educativa. Da mesma forma que cada discípulo de Cristo possui um dom para
oferecer à comunidade, assim a comunidade deveria colocar toda a sua boa
vontade em receber e beneficiar do dom de cada um.
Neste
contexto e valendo-se da sua experiência pastoral, os Padres Sinodais
sublinharam o valor das comunidades eclesiais de base, como meio eficaz
para promover a comunhão e a participação nas paróquias e dioceses, e como uma
autêntica força de evangelização. 132 Estes grupos pequenos ajudam o
fiel a viver em comunidades de fé, oração e amizade semelhantes às dos
primeiros cristãos (cf. Act 2, 44-47; 4, 32-35). Visam ajudar os seus
membros a viverem o Evangelho com espírito de amor e serviço fraterno, sendo
por isso mesmo um sólido ponto de partida para construir uma nova sociedade,
expressão de uma civilização do amor. Com o Sínodo, eu encorajo a Igreja
na Ásia, onde for possível, a encarar estas comunidades de base como um aspecto
positivo da actividade evangelizadora da Igreja. No entanto, elas só serão
verdadeiramente eficazes, se — como escreveu o Papa Paulo VI — viverem em união
com a Igreja particular e universal, em comunhão sincera com os Pastores e o
Magistério da Igreja, comprometidas com a expansão missionária, sem cederem ao
isolamento nem à exploração ideológica. 133 A presença destas
pequenas comunidades não põe de lado as instituições e estruturas já
existentes, que continuam a ser necessárias para a Igreja realizar a sua
missão.
O Sínodo
reconheceu também o contributo dos movimentos de renovação para a
construção da comunhão, criando oportunidades para uma experiência mais íntima
de Deus, através da fé e dos sacramentos, e fomentando a conversão da vida.
134 É responsabilidade dos Pastores orientar, acompanhar e estimular
estes grupos, de maneira que estejam bem integrados na vida e missão da
paróquia e da diocese. Os elementos destas associações e movimentos ofereçam o
seu apoio à Igreja local e evitem de se apresentarem a si mesmos como
alternativa das estruturas diocesanas e da vida paroquial. A comunhão cresce
mais vigorosamente, quando os dirigentes locais destes movimentos trabalham
juntamente com os Pastores, em espírito de caridade, para o bem de todos (cf. 1
Cor 1, 13).
Solidariedade
entre as Igrejas
26. Esta
comunhão ad intra contribui para a solidariedade entre as próprias
Igrejas particulares. A solicitude pelas necessidades locais é legítima e
indispensável, mas a comunhão exige que as Igrejas particulares permaneçam
abertas umas às outras e colaborem reciprocamente, de maneira que, na sua
diversidade, saibam defender e manifestar claramente o vínculo de comunhão com
a Igreja universal. A comunhão reclama mútuo entendimento e coordenação no
planeamento da missão, sem prejuízo da autonomia nem dos direitos das Igrejas
segundo as suas respectivas tradições teológicas, litúrgicas e espirituais.
Contudo, a história mostra como as divisões feriram às vezes a comunhão das
Igrejas na Ásia. Ao longo dos séculos, as relações entre Igrejas particulares
com jurisdições eclesiásticas, tradições litúrgicas e estilos missionários
diferentes foram, por vezes, tensas e difíceis. Os Bispos presentes no Sínodo
reconheceram que ainda hoje, no interior de cada uma e entre as Igrejas
particulares da Ásia, existem às vezes lamentáveis divisões, devidas
frequentemente a diferenças de ritual, língua, raça, casta e ideologia. Algumas
feridas foram parcialmente tratadas, mas não estão ainda completamente curadas.
Reconhecendo que, quando se debilita a comunhão, sofre o testemunho da Igreja e
o trabalho missionário, os Padres Sinodais propuseram passos concretos para
fortalecer as relações entre as Igrejas particulares da Ásia. Assim como há
necessidade de gestos espirituais de apoio e estímulo, sugeriram uma
distribuição mais equitativa de sacerdotes, uma solidariedade financeira mais
efectiva, intercâmbios culturais e teológicos, e oportunidades sempre
crescentes de consórcio entre dioceses. 135
As
associações regionais e continentais de Bispos, com destaque para o Conselho
dos Patriarcas Católicos do Médio Oriente e para a Federação das Conferências
Episcopais da Ásia, têm ajudado a fomentar a união entre as Igrejas locais e
proporcionado encontros de cooperação para se resolverem problemas pastorais.
De igual modo, existem muitos centros de teologia, espiritualidade e actividade
pastoral, através da Ásia, que promovem a comunhão e a cooperação prática.
136 Todos devem cuidar de que estas promissoras iniciativas cresçam cada
vez mais para bem tanto da Igreja como da sociedade na Ásia.
As Igrejas
Católicas Orientais
27. A
situação das Igrejas Católicas Orientais, sobretudo no Médio Oriente e
na Índia, merece particular atenção. Desde os tempos apostólicos, aquelas têm
sido guardiães de uma preciosa herança espiritual, litúrgica e teológica. As
suas tradições e ritos, nascidos de uma profunda inculturação da fé no
território de muitos países asiáticos, merecem o maior respeito. Com os Padres
Sinodais, convido cada um a reconhecer os legítimos costumes e a legítima
liberdade destas Igrejas em matéria disciplinar e litúrgica, como estipulado
pelo Código dos Cânones das Igrejas Orientais. 137 Como ensina o
Concílio Vaticano II, há urgente necessidade de ultrapassar medos e equívocos
que foram surgindo ao longo do tempo quer nas Igrejas Católicas Orientais entre
si, quer entre elas e a Igreja Latina, especialmente no que diz respeito ao
cuidado pastoral dos seus fiéis, mesmo fora dos seus próprios territórios.
138 Como filhos duma única Igreja, renascidos para a vida nova em Cristo,
os crentes são chamados a resolver tudo num espírito de união de objectivos, de
confiança e de caridade sem fim. Não se deve deixar que os conflitos criem
divisão, mas, antes, sejam tratados num espírito de confiança e respeito, visto
que o bem não pode brotar senão do amor. 139
Estas
veneráveis Igrejas estão directamente empenhadas no diálogo ecuménico com as
Igrejas Ortodoxas irmãs, e os Padres Sinodais incitaram-nas a prosseguir nesse
caminho. 140 Têm tido também valiosas experiências de diálogo
interreligioso, especialmente com o islamismo. Isto pode ser útil para as
demais Igrejas na Ásia e noutras partes. É claro que as Igrejas Orientais
Católicas possuem uma grande riqueza de tradição e experiência, que pode
beneficiar imenso toda a Igreja.
Partilhando
esperanças e sofrimentos
28. Os
Padres Sinodais estavam cientes também da necessidade duma efectiva comunhão e
colaboração com as Igrejas locais presentes nos territórios asiáticos da
ex-União Soviética, que estão a reconstruir-se no meio de penosas
circunstâncias herdadas de um período difícil da sua história. A Igreja
acompanha-as na oração, compartilhando os seus sofrimentos e recém-fundadas
esperanças. Encorajo toda a Igreja a prestar apoio moral, espiritual e
material, e pessoal, ordenado ou não, necessário para ajudar estas comunidades
na sua missão de partilharem com os povos destas terras o amor de Deus,
revelado em Jesus Cristo. 141
Em muitas
partes da Ásia, os nossos irmãos e irmãs continuam a viver a sua fé no meio de
restrições senão mesmo total negação da liberdade. Os Padres Sinodais
manifestaram especial preocupação e solicitude por estes membros da Igreja
que sofrem. Com os Bispos da Ásia, exorto os nossos irmãos e irmãs destas
Igrejas que vivem em condições difíceis a juntarem os seus sofrimentos aos do
Senhor crucificado, porque, nós e eles, sabemos que só a cruz, quando suportada
com fé e amor, é caminho de ressurreição e de vida nova para a humanidade.
Animo as diversas Conferências Episcopais da Ásia a constituírem um serviço
específico para ajudar estas Igrejas; e prometo a continuação da solidariedade
e interessamento da Santa Sé por todos quantos sofrem perseguição pela sua fé
em Cristo. 142 Faço apelo aos Governos e dirigentes das Nações para
que adoptem e ponham em prática políticas que garantam a liberdade religiosa
para todos os seus cidadãos.
Em muitas
ocasiões, os Padres Sinodais voltaram o pensamento para a Igreja católica da
China continental e rezaram para que chegue brevemente o dia em que os nossos
amados irmãos e irmãs chineses possam livremente praticar a sua fé em plena
comunhão com a Sé de Pedro e a Igreja universal. A vós, queridos irmãos e irmãs
chineses, faço esta calorosa exortação: nunca deixeis que privação ou
sofrimento algum diminua a vossa devoção a Cristo ou a dedicação à vossa grande
nação. 143 O Sínodo manifestou também cordial solidariedade à Igreja
católica da Coreia e apoiou « os esforços feitos pelos católicos para dar
assistência ao povo da Coreia do Norte, privado dos recursos mínimos de
sobrevivência, e provocar a reconciliação entre as duas parcelas de um único
povo, com a mesma língua e herança cultural ». 144
De igual
modo, a reflexão sinodal fixou-se com frequência na Igreja de Jerusalém, que
ocupa um lugar especial no coração dos cristãos. De facto, no coração de
milhões de crentes espalhados pelo mundo, para quem Jerusalém constitui um
lugar único e querido, encontram um eco particular estas palavras de Isaías: «
Alegrai-vos com Jerusalém, regozijai-vos com ela, todos vós que a amais, (...)
e saboreareis com delícia a plenitude da sua glória » (66, 10.11). Jerusalém,
cidade de reconciliação dos homens com Deus e de uns com os outros, foi muitas
vezes também um lugar de conflito e divisão. Os Padres Sinodais convidaram as
Igrejas particulares a permanecerem solidárias com a Igreja de Jerusalém,
compartilhando as suas tribulações, rezando por ela e colaborando com o seu
serviço em prol da paz, da justiça e da reconciliação entre os dois povos e as
três religiões presentes na Cidade Santa. 145 Renovo o apelo, que
tenho feito muitas vezes aos dirigentes políticos e religiosos e às pessoas de
boa vontade, para que busquem caminhos que assegurem a paz e a integridade de
Jerusalém. Como escrevi, é meu ardente desejo ir até lá em religiosa
peregrinação, à semelhança do meu predecessor Papa Paulo VI, para rezar na Cidade
Santa, onde Jesus Cristo viveu, morreu e ressuscitou, e visitar o lugar donde
partiram os Apóstolos, com o poder do Espírito Santo, para anunciar ao mundo o
Evangelho de Jesus Cristo. 146
Uma missão
de diálogo
29. Os
vários Sínodos « continentais », que têm ajudado a preparar a Igreja para o
Grande Jubileu do Ano 2000, tiveram como tema comum a nova evangelização.
É essencial um novo tempo de anúncio do Evangelho, não só porque, depois de
dois mil anos, a maior parte da família humana ainda não reconhece Cristo, mas
também porque a situação em que a própria Igreja e o mundo se encontram no
limiar do novo milénio está particularmente modificada quanto à crença
religiosa e às verdades morais daí derivadas. Quase por todo o lado, há
tendência para se criar progresso e prosperidade sem qualquer referimento a
Deus e para reduzir a dimensão religiosa da pessoa humana à esfera privada. Uma
sociedade, privada da verdade mais basilar sobre o homem, nomeadamente a sua
relação com o Criador e com a redenção trazida por Cristo no Espírito Santo,
pode somente extraviar-se cada vez mais das verdadeiras fontes da vida, do amor
e da felicidade. Este século violento, que caminha rapidamente para o seu
termo, gerou terríveis testemunhos do que pode acontecer quando a verdade e o
bem são sacrificados à ambição do poder e da fama. A nova evangelização, como
um apelo à conversão, à graça e à sabedoria, é a única esperança genuína para
um mundo melhor e um futuro mais risonho. A questão não é saber se a Igreja tem
algo de essencial a dizer aos homens e mulheres do nosso tempo, mas como será
possível dizê-lo clara e convictamente.
Quando
decorria o Concílio Vaticano II, o meu predecessor Papa Paulo VI declarou, na
Encíclica Ecclesiam suam, que a questão da relação entre a Igreja e o
mundo moderno constituía uma das preocupações mais importantes do nosso tempo.
Escrevia ele que « a sua realidade e urgência era tal que criou um peso na
nossa alma, um estímulo, uma chamada ». 147 A partir do Concílio, a
Igreja tem mostrado constantemente que deseja prosseguir esta relação num
espírito de diálogo. Esta opção pelo diálogo, porém, não é uma mera estratégia
para a coexistência pacífica entre os povos; é uma parte essencial da missão da
Igreja, porque tem a sua origem no amoroso diálogo de salvação do Pai com a
humanidade, através do Filho no poder do Espírito Santo. A Igreja só pode
realizar a sua missão por caminho igual àquele de que Deus Se serviu em Jesus
Cristo: fez-Se homem, partilhou a nossa vida humana e falou uma linguagem humana
para comunicar a sua mensagem salvífica. O diálogo que a Igreja propõe,
fundamenta-se na lógica da Encarnação. Por isso, apenas um amor zeloso e uma
solidariedade desinteressada move a Igreja no seu diálogo com os homens e
mulheres da Ásia, que procuram a verdade no amor.
Na sua
qualidade de sacramento da unidade de toda a humanidade, a Igreja não pode
deixar de entrar em diálogo com todos os povos, em todo o tempo e lugar. De
acordo com a missão que recebeu, ela aventura-se pelo mundo ao encontro dos
vários povos, ciente de ser um « pequenino rebanho » dentro da multidão imensa
da humanidade (cf. Lc 12, 32), mas também de ser fermento na massa do
mundo (cf. Mt 13, 33). Os seus esforços em dialogar são dirigidos
primeiramente àqueles que partilham a sua fé em Jesus Cristo, Senhor e
Salvador. Mas alargam-se, para além do mundo cristão, aos seguidores de outras
tradições religiosas, tendo por base os anseios religiosos presentes em todo o
coração humano. O diálogo ecuménico e o diálogo interreligioso constituem uma
verdadeira vocação para a Igreja.
Diálogo
ecuménico
30. O
diálogo ecuménico é um desafio e um apelo à conversão lançado a toda a Igreja,
e de modo especial à Igreja da Ásia onde o povo espera dos cristãos um sinal
mais claro de unidade. Para todas as pessoas se reunirem sob a graça de Deus, é
necessário restabelecer a comunhão entre aqueles que, pela fé, aceitaram Jesus
Cristo como Senhor. Pediu-o o próprio Jesus, o Qual não cessa de convocar os
seus discípulos para a unidade visível, para que o mundo possa acreditar que o
Pai O enviou (cf. Jo 17, 21). 148 Mas, a vontade do Senhor de
que a sua Igreja viva unida, aguarda ainda por uma resposta completa e corajosa
dos seus discípulos.
Precisamente
na Ásia, onde o número de cristãos é proporcionalmente pequeno, a divisão torna
o trabalho missionário ainda mais difícil. Os Padres Sinodais confessaram que «
o escândalo do cristianismo dividido é um grande obstáculo para a evangelização
da Ásia ». 149 De facto, a divisão entre os cristãos é vista como um
contra-testemunho de Jesus Cristo, sobretudo na Ásia onde tantos buscam
harmonia e unidade precisamente através das suas religiões e culturas. Por
isso, a Igreja católica da Ásia sente-se particularmente impelida a trabalhar
pela unidade com os outros cristãos, sabendo que a busca da comunhão plena
requer, de cada um, caridade, discernimento, coragem e esperança. « O
ecumenismo, para ser autêntico e frutuoso, exige, por parte dos fiéis
católicos, algumas disposições fundamentais: em primeiro lugar, a caridade,
para que transpareça nela simpatia e um desejo vivo de cooperar, onde for
possível, com os fiéis de outras Igrejas e Comunidades eclesiais; em segundo
lugar, a fidelidade à Igreja católica, sem ignorar nem negar as negligências
manifestadas pelo comportamento de alguns dos seus membros; em terceiro lugar,
o espírito de discernimento, para apreciar aquilo que é bom e digno de louvor;
por último, é pedida uma sincera vontade de purificação e de renovamento ».
150
Ao mesmo
tempo que reconheciam as dificuldades ainda existentes nas relações entre os
cristãos, nas quais se incluem não só preconceitos herdados do passado, mas
também juízos radicados em profundas convicções que tocam na consciência,
151 os Padres Sinodais indicaram também sinais de melhores relações entre
algumas Igrejas Cristãs e Comunidades Eclesiais da Ásia. Os cristãos católicos
e ortodoxos, por exemplo, reconhecem frequentemente uma unidade cultural entre
eles, e a sensação de partilhar importantes elementos duma tradição eclesial
comum. Isto cria uma base sólida para continuar um diálogo ecuménico frutuoso
no próximo milénio, que, como esperamos e rezamos, há-de pôr fim
definitivamente às divisões do milénio que está para concluir.
A nível
prático, o Sínodo propôs que as Conferências Episcopais nacionais da Ásia
convidem outras Igrejas cristãs a tomar parte num processo, feito de oração e
deliberação, que sonde as possibilidades de novas estruturas e associações
ecuménicas para promover a unidade cristã. A sugestão sinodal de que a Semana
de Oração pela Unidade dos Cristãos seja frutuosamente celebrada, é proveitosa
também. Os Bispos foram animados a estabelecer e vigiar pelos centros de oração
e diálogo; e há necessidade de incluir, no currículo dos Seminários, casas de
formação e instituições educativas, uma adequada formação para o diálogo
ecuménico.
Diálogo
interreligioso
31. Na
Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, referi que a chegada do
novo milénio oferece uma grande oportunidade para o diálogo interreligioso e
para encontros com os dirigentes das grandes religiões mundiais. 152
O contacto, diálogo e cooperação com os seguidores de outras religiões foi um
dever que o Concílio Vaticano II legou a toda a Igreja como uma obrigação e um
desafio. Os princípios desta busca de relações positivas com outras tradições
religiosas estão expostos na Declaração conciliar Nostra ætate,
promulgada no dia 28 de Outubro de 1965, a Carta Magna para o diálogo
interreligioso do nosso tempo. Do ponto de vista cristão, o diálogo
interreligioso é mais do que um simples meio para favorecer o conhecimento e
enriquecimento mútuo; é uma parte da missão evangelizadora da Igreja, uma
expressão da missão ad gentes. 153 O que move os cristãos ao
diálogo interreligioso é a firme convicção de que a plenitude da salvação vem
apenas de Cristo, e que a Igreja, comunidade à qual a mesma está entregue, é o meio
ordinário de salvação. 154 Repito aqui o que escrevi à V
Assembleia Plenária da Federação das Conferências Episcopais da Ásia: « Ainda
que a Igreja reconheça de bom grado quanto há de verdadeiro e de santo nas
tradições religiosas do budismo, do hinduísmo e do islamismo, como reflexo
daquela verdade que ilumina todos os homens, isto não diminui o seu dever e
determinação de proclamar sem hesitações Jesus Cristo, que é o "caminho, a
verdade e a vida" (Jo 14, 6). (...) O facto de os seguidores de
outras religiões poderem receber a graça de Deus e ser salvos por Cristo,
independentemente dos meios ordinários por Ele estabelecidos, não cancela de
maneira alguma o apelo à fé e ao baptismo, que Deus quer para todos os povos ».
155
No
processo de diálogo, como escrevi na Encíclica Redemptoris missio, « não
deve haver qualquer abdicação dos princípios, nem falso irenismo, mas o
testemunho recíproco em ordem a um progresso comum no caminho da procura e da
experiência religiosa, e simultaneamente em vista do superamento de
preconceitos, intolerâncias e malentendidos ». 156 Só pessoas
dotadas duma fé cristã matura e convicta é que são qualificadas para se
empenharem num diálogo interreligioso autêntico. « Apenas cristãos imersos
profundamente no mistério de Cristo e felizes na sua comunidade de fé podem,
sem riscos indevidos e com esperança de bons frutos, comprometer-se no diálogo
interreligioso ». 157 Por conseguinte, é importante que a Igreja da
Ásia proporcione modelos idóneos de diálogo interreligioso — evangelização em
diálogo e diálogo para a evangelização — e conveniente instrução a quantos nele
estão envolvidos.
Depois de
sublinharem a necessidade de uma fé firme em Cristo para participar no diálogo
interreligioso, os Padres Sinodais passaram a falar da necessidade de um diálogo
de vida e coração. Os discípulos de Cristo devem ter o coração manso e
humilde do seu Mestre, não orgulhoso nem arrogante, quando encontram os seus
interlocutores de diálogo (cf. Mt 11, 29). « As relações interreligiosas
terão melhor êxito num contexto de sinceridade para com os outros crentes, de
prontidão em escutá-los e vontade de respeitar e compreender os outros nas suas
diferenças. Para tudo isto, é indispensável o amor aos outros. Daí resultaria
colaboração, harmonia e mútuo enriquecimento ». 158
Como guia
para quantos estão empenhados neste processo, o Sínodo sugeriu que fosse
redigido um Directório para o diálogo interreligioso. 159 Visto que
a Igreja está sondando novos caminhos de encontro com as outras religiões,
apraz-me mencionar formas de diálogo já efectuadas com bons resultados:
intercâmbio de estudos entre peritos nas diversas tradições religiosas ou
representantes destas tradições, iniciativas comuns em prol do desenvolvimento
humano integral e em defesa dos valores humanos e religiosos. 160
Volto a afirmar a grande importância que tem, para o processo de diálogo, a
revitalização da oração e da contemplação. Homens e mulheres de vida consagrada
podem contribuir real e significativamente para o diálogo interreligioso, dando
testemunho do vigor das grandes tradições cristãs de ascetismo e misticismo.
161
O
memorável encontro, que teve lugar em Assis, a cidade de S. Francisco, no dia 27
de Outubro de 1986, entre a Igreja Católica e os representantes das outras
religiões mundiais demonstra que homens e mulheres religiosos, sem abandonarem
as suas próprias tradições, podem apesar disso comprometer-se a rezar e
trabalhar pela paz e o bem da humanidade. 162 A Igreja deve
continuar a esforçar-se por defender e fomentar, a todos os níveis, este
espírito de encontro e cooperação entre as religiões.
A comunhão
e o diálogo são dois aspectos essenciais da missão da Igreja, que tem o seu
modelo infinitamente transcendente no mistério da Santíssima Trindade, da Qual
provém e à Qual deve retornar toda a missão. Uma das maiores prendas de
aniversário, que os membros da Igreja, e de modo especial os seus Pastores,
podem oferecer ao Senhor da história nos dois mil anos da sua Encarnação, é um
reforço do espírito de unidade e comunhão, a todos os níveis da vida
eclesial, um renovado « santo orgulho » na fidelidade perseverante da Igreja
àquilo que tem sido transmitido, uma nova confiança na graça e missão inalterável
que a envia para o meio dos povos do mundo como testemunha do amor e
misericórdia salvífica de Deus. Só se o Povo de Deus reconhecer o grande dom
que possui em Cristo, é que será capaz de comunicar tal dom aos outros através
do anúncio e do diálogo.
CAPÍTULO
VI
O SERVIÇO
DE PROMOÇÃO HUMANA
A doutrina
social da Igreja
32. No seu
serviço à família humana, a Igreja estende a mão a todos os homens e mulheres
sem distinção, procurando construir com eles uma civilização de amor, fundada
sobre os valores universais da paz, da justiça, da solidariedade e da
liberdade, que encontram a sua plenitude em Cristo. Como disse, de forma
memorável, o Concílio Vaticano II, « as alegrias e as esperanças, as tristezas
e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que
sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos
discípulos de Cristo. E não há realidade alguma verdadeiramente humana que não
encontre eco no seu coração ». 163 A Igreja, no caso da Ásia com a
sua multidão de pobres e oprimidos, é chamada a viver uma comunhão de vida tal
que a apresente particularmente comprometida num serviço de amor aos pobres e
abandonados.
Se, nos
tempos recentes, o Magistério da Igreja tem insistido cada vez mais na necessidade
de promover o desenvolvimento autêntico e integral da pessoa humana, 164
fê-lo para dar resposta quer à situação real da população mundial, quer à
convicção crescente de que a hostilizarem o bem-estar humano são muitas vezes,
não propriamente acções de indivíduos, mas as estruturas da vida social,
política e económica. O desequilíbrio palpável no fosso, sempre maior, entre
aqueles que beneficiam da crescente capacidade mundial de produzir riqueza e
aqueles que são deixados à margem do progresso, reclama uma mudança radical
tanto da mentalidade como das estruturas a favor da pessoa humana. O
grande desafio moral, que se coloca às nações e à comunidade
internacional relativamente ao desenvolvimento, é ter a coragem de uma nova
solidariedade, capaz de dar passos engenhosos e eficazes para vencer quer o
subdesenvolvimento desumanizante, quer o « sobredesenvolvimento » que tende a
reduzir a pessoa a mera unidade económica numa rede consumista sempre mais
opressiva. Para provocar esta mudança, « a Igreja não tem soluções técnicas
para oferecer », mas « dá a sua primeira contribuição para a solução do urgente
problema do desenvolvimento, quando proclama a verdade acerca de Cristo, de si
mesma e do homem, aplicando-a a uma situação concreta ». 165 Afinal
de contas, o desenvolvimento humano nunca é uma mera questão técnica e
económica; mas é fundamentalmente uma questão humana e moral.
A doutrina
social da Igreja, que propõe um conjunto de princípios de reflexão, critérios
de discernimento e directrizes de acção, 166 é dirigida em primeiro
lugar aos membros da Igreja. É essencial que o fiel, comprometido na promoção
humana, tenha domínio firme deste precioso corpo de doutrina e faça dele parte
integrante da sua missão evangelizadora. Por isso, os Padres Sinodais realçaram
a importância de proporcionar aos fiéis — em todas as actividades educativas, e
de modo especial nos Seminários e casas de formação — uma sólida preparação em
doutrina social da Igreja. 167 Os dirigentes cristãos na Igreja e na
sociedade, particularmente os leigos com responsabilidades na vida pública,
necessitam de estar bem formados nesta doutrina, para que possam inspirar e
vivificar a sociedade civil e as suas estruturas com o fermento do Evangelho.
168 A doutrina social da Igreja não pretende apenas alertar estes
dirigentes cristãos para os seus deveres, mas também dar-lhes orientações para
a acção em favor do desenvolvimento humano, e libertá-los de falsas noções da
pessoa e actividade humana.
A
dignidade da pessoa humana
33. Os
primeiros agentes e destinatários do desenvolvimento são os seres humanos, não
a riqueza nem a tecnologia. Por isso, o género de desenvolvimento que a Igreja
promove, aponta para além das questões de economia e tecnologia. Principia e
termina na integridade da pessoa humana criada à imagem de Deus e dotada da
dignidade que Deus lhe deu e de direitos humanos inalienáveis. As várias
declarações internacionais sobre os direitos humanos e tantas iniciativas, que
os mesmos inspiraram, são sinal de uma crescente atenção mundial à dignidade da
pessoa humana. Infelizmente, tais declarações acabam muitas vezes por ser
violadas na prática. Cinquenta anos depois da proclamação solene da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, muitas pessoas estão ainda sujeitas às formas
mais degradantes de exploração e manipulação, que as convertem em verdadeiros
escravos dos mais poderosos, sejam eles uma ideologia, um poder económico, um
sistema político opressivo, uma tecnocracia científica ou a invadência dos
mass-media. 169
Os Padres
Sinodais estavam bem cientes da contínua violação dos direitos humanos em
muitas partes do mundo, e de modo particular na Ásia onde « largos milhões de
pessoas são vítimas de discriminação, exploração, pobreza e marginalização ».
170 Eles manifestaram a necessidade de todo o povo de Deus na Ásia chegar
a uma maior consciência do desafio inevitável e irrenunciável que é a defesa
dos direitos humanos e a promoção da justiça e da paz.
Amor
preferencial pelos pobres
34. Ao
procurar promover a dignidade humana, a Igreja mostra um amor preferencial
pelos pobres e marginalizados, porque o Senhor identificou-Se de forma especial
com eles (cf. Mt 25, 40). Este amor não exclui ninguém; simplesmente
individua uma prioridade de serviço, que goza do testemunho favorável de toda a
tradição da Igreja. « Este amor preferencial pelos pobres, com as decisões que
ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos,
de mendigos, sem-tecto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de
um futuro melhor; não se pode deixar de ter em conta a existência destas
realidades. Ignorá-las seria tornar-nos como o "rico epulão", que
fingia não conhecer o pobre Lázaro que jazia ao seu portão (cf. Lc 16,
19-31) ». 171 Isto é particularmente verdade quando se pensa na
Ásia, um continente de abundantes recursos e grandes civilizações, mas onde se
encontram algumas das nações mais pobres da terra, e onde mais de metade da
população sofre privações, pobreza e exploração. 172 A melhor razão
que os pobres da Ásia e do mundo encontrarão para esperar, será sempre o
mandamento evangélico de nos amarmos uns aos outros como Cristo nos amou (cf. Jo
13, 34); e a Igreja da Ásia não pode deixar de cumprir seriamente, em palavras
e obras, este mandamento para com os pobres.
A solidariedade
com os pobres tornar-se-á mais crível, se os próprios cristãos viverem de forma
simples, seguindo o exemplo de Jesus. Simplicidade de vida, fé profunda e
sincero amor por todos, especialmente pelos pobres e marginalizados, são sinais
luminosos do Evangelho em acção. Os Padres Sinodais pediram aos católicos
asiáticos que adoptem um estilo de vida coerente com a doutrina do Evangelho,
de maneira que possam cumprir melhor a sua missão eclesial, e a própria Igreja
se torne uma Igreja dos pobres e para os pobres. 173
No seu
amor pelos pobres da Ásia, a Igreja volta-se especialmente para os migrantes,
as populações indígenas e tribais, as mulheres e as crianças, visto que
frequentemente são vítimas das piores formas de exploração. Também um número
incalculável de pessoas sofre discriminação por causa da sua cultura, cor,
raça, casta, situação económica, ou modo de pensar. Entre eles, contam-se
quantos são maltratados por causa da sua conversão ao cristianismo. 174
Uno-me ao apelo feito pelos Padres Sinodais a todas as nações para que
reconheçam o direito à liberdade de consciência e de religião e os restantes
direitos humanos básicos. 175
Actualmente
a Ásia está experimentando um fluxo sem precedentes de refugiados, pessoas em
busca de asilo, imigrantes e trabalhadores estrangeiros. Nos países de chegada,
tais indivíduos sentem-se frequentemente desamparados, alienados culturalmente,
linguisticamente impreparados, e vulneráveis economicamente. Precisam de apoio
e cuidado para preservarem a própria dignidade humana e a sua herança cultural
e religiosa. 176 Apesar dos seus recursos limitados, a Igreja da
Ásia procura generosamente ser uma casa acolhedora para quantos se sentem
cansados e oprimidos, sabendo que eles, no Coração de Jesus onde ninguém é
estrangeiro, encontrarão repouso (cf. Mt 11, 28-29).
Em quase
todos os países asiáticos, há populações aborígenes consideráveis, algumas
delas ocupando o ínfimo grau económico. O Sínodo assinalou mais de uma vez que
frequentemente as populações indígenas ou tribais se sentem atraídas pela
pessoa de Jesus Cristo e pela Igreja enquanto comunidade de amor e serviço.
177 Aqui jaz um imenso campo de acção, tanto no sector da educação e da
assistência sanitária como no âmbito da promoção e participação social. A
Comunidade católica precisa de intensificar a acção pastoral no meio deles,
prestando atenção aos seus interesses e às questões de justiça que afectam a
sua vida. Isto supõe uma atitude de profundo respeito pela sua religião
tradicional e seus valores; e inclui também a necessidade de ajudá-los a
ajudarem-se a si próprios, de maneira que possam eles mesmos trabalhar para
melhorar a sua situação e tornar-se evangelizadores da sua própria cultura e
sociedade. 178
Ninguém
pode ficar indiferente ao sofrimento de tantas crianças na Ásia, que caiem
vítimas de exploração e violência intoleráveis, não só devido a crimes
praticados por indivíduos, mas muitas vezes como consequência directa de
estruturas sociais perversas. Os Padres Sinodais identificaram o trabalho
infantil, a pedofilia e o fenómeno da droga como males sociais que mais
directamente afectam as crianças, deixando claro que são acompanhados por
outros males, como a pobreza, males esses concebidos como programas de
desenvolvimento nacional. 179 A Igreja deve fazer tudo o que puder
para vencer estes males, agir em favor dos explorados, e procurar conduzir os
pequeninos ao amor de Jesus, porque deles é o Reino de Deus (cf. Lc 18,
16). 180
O Sínodo
exprimiu particular preocupação pelas mulheres, cuja situação permanece um
sério problema na Ásia, onde a discriminação e a violência contra elas estão
frequentemente instaladas em casa, no lugar de trabalho e mesmo no sistema
legal. O analfabetismo é muito mais generalizado entre as mulheres, e muitas
são tratadas como simples mercadoria usada na prostituição, turismo e agências
de divertimento. 181 No seu combate contra todas as formas de
injustiça e discriminação, as mulheres devem achar uma aliada na Comunidade
cristã e, por esta razão, o Sínodo propôs que as Igrejas locais da Ásia
promovam, onde for possível, os direitos humanos com iniciativas a favor da
mulher. O objectivo deve ser provocar uma mudança de atitude, através da
própria compreensão do papel do homem e da mulher na família, na sociedade e na
Igreja, por meio de uma maior consciência da original complementaridade entre o
homem e a mulher, e mediante uma maior valorização da dimensão feminina em
todas as realidades humanas. A contribuição da mulher tem sido muitas vezes
depreciada ou ignorada, do que resultou um empobrecimento espiritual da
humanidade. A Igreja da Ásia quer defender, mais visível e eficazmente, a
dignidade e liberdade da mulher, valorizando o seu papel na vida da Igreja,
inclusive na sua vida intelectual, e criando também maiores oportunidades para
elas estarem presentes e activas na missão de amor e serviço da Igreja.
182
O
Evangelho da vida
35. A luta
em prol do desenvolvimento humano começa pelo serviço a favor da própria vida.
A vida é o grande dom que Deus nos confiou: Ele confiou-no-la como um projecto
e uma responsabilidade. Por isso, nós somos os guardiães da vida, não seus
proprietários. Recebemos o dom livremente e, em atitude de gratidão, não
devemos jamais cessar de o respeitar e defender, desde o seu início até ao
termo natural. Desde o momento da concepção, a vida humana supõe a acção
criadora de Deus e permanece para sempre numa especial ligação com o Criador,
que é a fonte da vida e o seu único fim. Não há verdadeiro progresso, nem
sociedade civil autêntica, nem real promoção humana, sem o respeito pela vida
humana, especialmente pela vida daqueles que não têm voz para se defenderem a
si próprios. A vida de cada pessoa, quer a de uma criança no ventre de sua mãe,
quer a de alguém que está doente, é deficiente ou idoso, é um dom para todos.
Os Padres
Sinodais reafirmaram, com cordial adesão, a doutrina acerca da sacralidade da
vida humana, ensinada pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério posterior,
nomeadamente a Encíclica Evangelium vitæ. Uno-me aqui ao apelo que
dirigiram aos fiéis dos seus países — onde frequentemente a questão demográfica
é usada como argumento para a necessidade de introduzir o aborto e programas de
controle artificial da população —, para que se oponham à « cultura de morte ».
183 Eles podem mostrar a sua fidelidade a Deus e o seu compromisso com a
verdadeira promoção humana, apoiando e participando em programas que defendam a
vida dos que são impotentes para se defenderem a si próprios.
Serviço de
saúde
36.
Seguindo os passos de Jesus Cristo, que teve compaixão de todos e curou « todas
as enfermidades e moléstias » (Mt 9, 35), a Igreja da Ásia está decidida
a empenhar-se cada vez mais no cuidado dos doentes, visto que este é parte
vital da missão que ela tem para oferecer a graça salvífica de Cristo a todas
as pessoas. Como o bom samaritano da parábola (cf. Lc 10, 29-37), a
Igreja deseja cuidar dos doentes e deficientes de modo concreto, 184
sobretudo nos lugares onde as pessoas estão privadas da assistência médica
elementar por causa da pobreza e marginalização.
Em
numerosas ocasiões durante as minhas visitas à Igreja nas várias partes do
mundo, fiquei profundamente impressionado pelo extraordinário testemunho
cristão dado por religiosos e pessoas consagradas, médicos, enfermeiros e outro
pessoal do serviço de saúde, especialmente aqueles que trabalham com os
deficientes, no âmbito dos cuidados terminais, ou lutam contra a difusão de
novas doenças como a SIDA. De forma sempre crescente, o pessoal que trabalha no
serviço cristão de saúde é chamado a ser generoso e altruísta para olhar pelas
vítimas da dependência da droga e da SIDA, que muitas vezes são desprezadas e
abandonadas pela sociedade. 185 Há muitas instituições médicas
católicas na Ásia, que estão a enfrentar pressões de políticas do serviço
público de saúde não baseadas em princípios cristãos, e muitas delas são
sobrecarregadas por exigências financeiras sempre maiores. Apesar destes
problemas, o altruísmo exemplar e o devotado profissionalismo do pessoal aí
empenhado permite proporcionar um admirável e valioso serviço à comunidade e um
sinal, particularmente visível e eficaz, do amor inexaurível de Deus. O pessoal
do serviço de saúde deve ser estimulado e apoiado no bem que fazem. O seu
empenhamento e eficácia permanente são o meio melhor para assegurar a
penetração profunda dos valores e princípios cristãos nos sistemas de serviço
de saúde neste Continente, transformando-os a partir de dentro. 186
Educação
37. Por
toda a Ásia, o envolvimento da Igreja na educação é amplo e bem visível, sendo,
portanto, um elemento-chave da sua presença no meio dos povos do continente. Em
muitos países, as escolas católicas jogam um papel importante na evangelização,
inculturando a fé, ensinando hábitos de sinceridade e respeito, e fomentando o
entendimento interreligioso. Muitas vezes as escolas da Igreja oferecem as
únicas oportunidades educativas para as meninas, as minorias tribais, os pobres
do campo e as crianças menos privilegiadas. Os Padres Sinodais estavam
persuadidos da necessidade de ampliar e desenvolver o apostolado da educação na
Ásia, com uma atenção particular aos mais desfavorecidos, para que todos sejam
ajudados a ocupar o seu justo lugar como cidadãos de pleno direito na
sociedade. 187 Como observaram os Padres Sinodais, isto significa
que o sistema de educação católica deve orientar-se ainda mais nitidamente para
a promoção humana, proporcionando um ambiente onde os estudantes recebam não só
os elementos formais de escolaridade mas, mais amplamente, uma formação humana
integral baseada nos ensinamentos de Cristo. 188 As escolas
católicas hão-de continuar a ser lugares onde a fé possa ser livremente
proposta e recebida. De igual modo, as universidades católicas, para além de
manterem a excelência académica por que são já bem conhecidas, devem conservar
uma clara identidade cristã para serem o fermento cristão na sociedade
asiática. 189
Construção
da paz
38. No
final do século vinte, o mundo encontra-se ainda ameaçado por forças que geram
conflitos e guerras, e a Ásia não está por certo isenta delas. Entre estas
forças, contam-se a intolerância e a marginalização de qualquer espécie que
seja — social, cultural, política e mesmo religiosa. Dia a dia, novas
violências são infligidas a indivíduos e nações inteiras, estando esta cultura
de morte ligada com o recurso injustificado à violência como meio para resolver
as tensões. Frente à situação de terríveis conflitos em tantas partes do mundo,
a Igreja é chamada a empenhar-se profundamente nos esforços internacionais e
interreligiosos para se alcançar a paz, a justiça e a reconciliação. Ela
continua a insistir na resolução negociada e pacífica dos conflitos, e aguarda
o dia em que as nações deixarão de lado a guerra como instrumento para fazer
reivindicações ou meio para resolver divergências. A Igreja está convencida de
que a guerra cria mais problemas do que resolve, que o diálogo é o único
caminho justo e nobre para se chegar a acordo e à reconciliação, e que a arte
paciente e sábia de fazer a paz é particularmente abençoada por Deus.
Particularmente
inquietante na Ásia, é a corrida contínua à aquisição de armas de destruição de
massa, uma despesa imoral e devastante em orçamentos nacionais que, nalguns
casos, ainda não consegue satisfazer as necessidades básicas da população. Os
Padres Sinodais falaram também do número imenso de minas semeadas em terra
asiática, que mutilaram ou mataram centenas de milhares de pessoas inocentes, e
ao mesmo tempo roubaram terra fértil que poderia, caso contrário, ser usada
para a produção de alimentos. 190 É responsabilidade de todos,
especialmente dos governantes das nações, trabalhar mais decididamente em prol
do desarmamento. O Sínodo pediu a interrupção do fabrico, venda e uso de armas
nucleares, químicas e biológicas, e exigiu que os responsáveis pela colocação
das minas prestem agora assistência no trabalho de bonificação dos terrenos.
191 E, acima de tudo, os Padres Sinodais pediram a Deus, o único a
conhecer as profundezas de cada consciência humana, que infunda sentimentos de
paz no coração de quantos se sentem tentados a seguir o caminho da violência,
para que se realize a visão bíblica: « Das suas espadas, [os povos] forjarão
relhas de arados, e das suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada
contra outra nação, e não se adestrarão mais para a guerra » (Is 2, 4).
O Sínodo
ouviu muitos testemunhos relativos aos sofrimentos do povo do Iraque,
assegurando que muitos iraquenos, sobretudo crianças, morreram devido à falta
de remédios e de outros artigos básicos, por causa da continuação do embargo.
Com os Padres Sinodais, exprimo uma vez mais a minha solidariedade ao povo do
Iraque, e estou particularmente unido na oração e na esperança com os filhos e
filhas da Igreja naquele país. O Sínodo pediu a Deus para que iluminasse as
mentes e corações de quantos têm a responsabilidade de encontrar uma justa
solução para a crise, a fim de que, a um povo já duramente provado, sejam
poupados ulteriores sofrimentos e penas. 192
Globalização
39. Ao
considerarem a questão da promoção humana na Ásia, os Padres Sinodais reconheceram
a importância do processo de globalização económica. Ao mesmo tempo que
reconheciam vários dos seus efeitos positivos, sublinharam que tem contribuído
também para prejudicar os pobres, 193 tendendo a impelir os países
mais pobres para a periferia das relações económicas e políticas
internacionais. Muitas nações asiáticas não estão preparadas para se integrarem
numa economia global de mercado. E existe também o outro aspecto, de certo modo
mais significativo, que é a globalização cultural, que os actuais meios
de comunicação social tornaram possível e que está arrastando rapidamente as
sociedades asiáticas para uma cultura global consumista, que é simultaneamente
secularista e materialista. O resultado é a corrosão da família tradicional e
dos valores sociais que serviram até agora de suporte a pessoas e sociedades.
Tudo isto põe em evidência que os aspectos éticos e morais da globalização
precisam de ser guiados mais directamente pelos dirigentes das nações e pelas
organizações interessadas na promoção humana.
A Igreja
insiste na necessidade de « uma globalização sem marginalização ». 194
Com os Padres Sinodais, convido as Igrejas particulares de toda a parte, e
especialmente as dos países ocidentais, a trabalharem para assegurar que a
doutrina social da Igreja tenha o devido impacto sobre a formulação de normas
éticas e jurídicas que regulem o livre mercado mundial e os meios de
comunicação social. Os dirigentes e profissionais católicos pressionem os
Governos e as instituições de finanças e de comércio, para que reconheçam e
respeitem tais normas. 195
Dívida
externa
40. Além
disso a Igreja, na sua luta pela justiça num mundo marcado por desigualdades
sócio-económicas, não pode ignorar o pesado fardo da dívida contraída por
muitas nações asiáticas em vias de desenvolvimento, com o consequente impacto
sobre o seu presente e futuro. Em muitos casos, estes países são forçados a
cortar as despesas para necessidades vitais, como alimentação, saúde, habitação
e educação, para satisfazerem as suas dívidas a agências financeiras
internacionais e bancos. Isto significa que muitas pessoas estão condenadas a
condições de vida que são uma afronta à dignidade humana. Embora ciente da
complexidade técnica desta matéria, o Sínodo declarou que a sua resolução põe à
prova a capacidade de indivíduos, sociedades e Governos avaliarem a pessoa e as
vidas de milhões de seres humanos acima das considerações de vantagens
financeiras e materiais. 196
A
aproximação do Grande Jubileu do Ano 2000 é um tempo oportuno para as Conferências
Episcopais de todo o mundo, especialmente as das nações mais ricas, incitarem
as agências financeiras internacionais e os bancos a individuarem meios que
melhorem esta situação da dívida internacional. Entre os mais óbvios deles,
aparecem a renegociação da dívida, com uma substancial redução ou puro e
simples cancelamento, e também contratos de empreendimentos e investimentos
para assistir as economias dos países mais pobres. 197 Ao mesmo
tempo, os Padres Sinodais dirigiram-se também aos países devedores, salientando
a necessidade de se desenvolver um sentido de responsabilidade nacional,
lembrando-lhes a importância de planear uma economia sólida e de uma acção
transparente e honesta de governo, e convidando-os a empenharem-se numa
decidida campanha contra a corrupção. 198 Eles apelaram aos cristãos
da Ásia para condenarem todas as formas de corrupção e apropriação indevida de
fundos públicos por aqueles que detêm o poder político. 199 Os
cidadãos dos países endividados foram muitas vezes vítimas de desperdício e
ineficácia na própria pátria, antes de caírem vítimas da dívida internacional.
O meio
ambiente
41. Quando
o interesse pelo progresso económico e tecnológico não é acompanhado de igual
atenção pelo equilíbrio do ecossistema, a nossa terra fica inevitavelmente
sujeita a sérios danos ecológicos, com consequente dano para o bem-estar dos
homens. A falta flagrante de respeito pelo ambiente natural persistirá enquanto
a terra e suas potencialidades forem vistas meramente como objecto de uso e
consumo imediato, algo a ser manipulado pelo insaciável desejo de lucro.
200 É obrigação dos cristãos e de quantos olham para Deus como Criador
proteger o meio ambiente, recuperando o sentido de veneração por todas as
criaturas de Deus. É vontade do Criador que o homem se ocupe da natureza, não
como um bárbaro explorador, mas como administrador inteligente e responsável.
201 Os Padres Sinodais advogaram de maneira especial uma maior
responsabilidade por parte dos governantes das nações, legisladores,
empresários e todos os que estão directamente envolvidos na administração dos
recursos da terra. 202 Eles sublinharam a necessidade de educar as
pessoas, especialmente os jovens, para a responsabilidade ambiental,
instruindo-as no cargo de administradores que Deus confiou à humanidade sobre a
criação. A protecção do meio ambiente não é só uma questão técnica, mas
também e sobretudo uma questão ética. Todos têm obrigação moral de olhar
pelo meio ambiente, não apenas para vantagem própria, mas também em proveito
das gerações futuras.
Ao
concluir estas reflexões, vale a pena recordar que os Padres Sinodais, ao
chamarem os cristãos para se comprometerem e sacrificarem ao serviço do
desenvolvimento humano, fizeram-no movidos por algumas das intuições mais
profundas da tradição bíblica e eclesiástica. O antigo Israel insistiu
apaixonadamente sobre o vínculo inquebrantável entre o culto de Deus e o
cuidado pelo débil, que a Sagrada Escritura, tipicamente, exemplifica como « a
viúva, o estrangeiro e o órfão » (cf. Ex 22, 21-22; Dt 10, 18;
27, 19), que eram, na sociedade de então, os mais vulneráveis à ameaça de
injustiça. Mais tarde, no tempo dos Profetas, ouvimos o grito pela justiça,
pela recta ordenação da sociedade humana, sem o que não pode haver verdadeiro
culto de Deus (cf. Is 1, 10-17; Am 5, 21-24). Assim no apelo dos
Padres Sinodais, ouvimos um eco dos Profetas, que foram cheios do Espírito do
Senhor que deseja « misericórdia e não sacrifícios » (Os 6, 6). Jesus
fez suas estas palavras (cf. Mt 9, 13), e o mesmo se diga dos Santos em
todo o tempo e lugar. Considera estas palavras de S. João Crisóstomo: « Queres
honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros,
isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com
vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez. Aquele que
disse: "Isto é o meu Corpo", confirmando o facto com a sua palavra,
também afirmou: "Vistes-Me com fome e não Me destes de comer" (...).
De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele
morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e
depois ornamenta a sua mesa com o que sobra ». 203 No apelo do
Sínodo a favor do desenvolvimento humano e da justiça nas questões humanas,
ouve-se ressoar uma voz que é, simultaneamente, antiga e nova. É antiga, porque
surge das profundezas da nossa Tradição cristã, que aponta para aquela harmonia
profunda querida pelo Criador; é nova, porque toca a situação imediata de
tantos povos da Ásia actual.
CAPÍTULO
VII
TESTEMUNHAS
DO EVANGELHO
Uma Igreja
que testemunha
42. O
Concílio Vaticano II ensinou claramente que toda a Igreja é missionária, e que
o trabalho de evangelização é dever de todo o Povo de Deus. 204 Uma
vez que o Povo de Deus como um todo é instado a pregar o Evangelho, a
evangelização nunca é um acto individual e isolado; é sempre uma tarefa
eclesial que necessita de ser levada a cabo em comunhão com toda a comunidade
de fé. A missão é una e indivisa, coincidindo a sua origem e o seu termo final;
mas, no seu âmbito, existem responsabilidades diversas e vários tipos de
actividade. 205 De qualquer modo, é claro que não pode haver
verdadeiro anúncio do Evangelho, a não ser que os cristãos ofereçam também o
testemunho de uma vida de acordo com a mensagem que pregam: « A primeira forma
de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da
comunidade eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. (...) Mas
todos na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo
testemunho, que é, em muitos casos, o único modo possível de ser missionário ».
206 Hoje de modo especial, há necessidade de um genuíno testemunho
cristão, porque « o homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que
nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos factos
do que nas teorias ». 207 Isto é certamente verdade no contexto
asiático, onde as pessoas se deixam persuadir mais pela santidade de vida do
que por argumentos intelectuais. Assim, a experiência de fé e dos dons do
Espírito Santo torna-se a base de todo o trabalho missionário, tanto nas
cidades como nas aldeias, nas escolas ou nos hospitais, em contacto com os
deficientes, os migrantes ou os povos indígenas, ou na luta pela justiça e
pelos direitos humanos. Cada situação oferece ocasião para os cristãos tornarem
patente a força que a verdade de Cristo dá à sua vida. Por isso, inspirada por
muitos missionários que no passado deram heróico testemunho do amor de Deus
entre os povos do Continente, a Igreja na Ásia esforça-se agora por
testemunhar, com zelo não inferior, Jesus Cristo e o seu Evangelho. A missão
cristã o exige!
Conscientes
do carácter essencialmente missionário da Igreja e esperançados numa nova
efusão do dinamismo do Espírito Santo aquando da entrada da Igreja no novo
milénio, os Padres Sinodais pediram-me que esta Exortação Apostólica
Pós-Sinodal oferecesse algumas directrizes e critérios para aqueles que labutam
no vasto campo da evangelização na Ásia.
Pastores
43. O
Espírito Santo é que torna a Igreja capaz de cumprir a missão que lhe foi
confiada por Cristo. Antes de enviar os discípulos como suas testemunhas, Jesus
deu-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 20, 22), que operava através deles e
tocava o coração dos que os ouviam (cf. Act 2, 37). O mesmo se pode
dizer daqueles que Jesus envia hoje. Num certo nível, todos os baptizados, pela
graça do sacramento do Baptismo, ficam incumbidos de tomar parte na missão
salvadora de Cristo, sendo habilitados para isso mesmo pelo amor de Deus que
foi derramado nos seus corações pelo Espírito Santo que lhes foi concedido (cf.
Rom 5, 5). A outro nível, porém, esta missão comum é realizada através
de uma variedade de funções e carismas específicos na Igreja. A
responsabilidade principal pela missão da Igreja foi confiada por Cristo aos
Apóstolos e seus sucessores. Em virtude da Ordenação Episcopal e da comunhão
hierárquica com a Cabeça do Colégio Episcopal, os Bispos recebem o mandato e a
autoridade para ensinar, governar e santificar o Povo de Deus. Por vontade do próprio
Cristo, dentro do Colégio dos Bispos, o Sucessor de Pedro — a rocha sobre a
qual a Igreja está construída (cf. Mt 16, 18) — exerce um ministério
especial de unidade. Por isso, os Bispos hão-de cumprir o seu ministério em
união com o Sucessor de Pedro, garante da verdade dos seus ensinamentos e da
sua plena comunhão na Igreja.
Associados
aos Bispos no trabalho de proclamar o Evangelho, os presbíteros são chamados
pela Ordenação a serem pastores do rebanho, pregadores da Boa Nova da salvação
e ministros dos sacramentos. Para servirem a Igreja como Cristo quer, os Bispos
e os presbíteros necessitam de uma formação sólida e contínua, que lhes
proporcione ocasiões para uma renovação humana, espiritual e pastoral, tais
como cursos de teologia, de espiritualidade e de ciências humanas. 208
Os povos da Ásia precisam de ver os clérigos, não simplesmente como obreiros da
caridade e administradores institucionalizados, mas como homens cuja mente e
coração se encontram fixos nas coisas profundas do Espírito (cf. Rom 8,
5). O respeito que os povos asiáticos têm por quantos estão constituídos em
autoridade, há-de ser correspondido por uma clara rectidão moral por parte
daqueles que possuem responsabilidades ministeriais na Igreja. Pela sua vida de
oração, zeloso serviço e estilo de vida exemplar, os clérigos testemunham
vigorosamente o Evangelho nas comunidades que pastoreiam em nome de Cristo.
Peço encarecidamente que os Ministros Ordenados das Igrejas na Ásia vivam e
trabalhem em espírito de comunhão e colaboração com os Bispos e todos os fiéis,
dando testemunho do amor que Jesus afirmou ser o verdadeiro sinal dos seus
discípulos (cf. Jo 13, 35).
De modo
especial, desejo sublinhar a preocupação do Sínodo quanto à preparação dos que
dirigem e ensinam nos Seminários e nas Faculdades de Teologia. 209
Depois de uma completa preparação nas ciências sagradas e matérias
relacionadas, deveriam receber uma formação específica que focasse a
espiritualidade sacerdotal, a arte da direcção espiritual e outros aspectos da
difícil e delicada tarefa que os espera na educação dos futuros sacerdotes.
Trata-se de um apostolado de forma nenhuma secundário para o bem-estar e a
vitalidade da Igreja.
A vida
consagrada e as Sociedades Missionárias
44. Na
Exortação Apostólica Pós-Sinodal Vita consecrata, pus em destaque a
conexão íntima entre vida consagrada e missão. No seu tríplice aspecto de confessio
Trinitatis, signum fraternitatis e servitium caritatis, a
vida consagrada evidencia o amor de Deus no mundo, pelo testemunho específico
da missão salvadora que Jesus cumpriu com a sua consagração total ao Pai. Ao
reconhecer que toda a acção na Igreja se apoia na oração e na comunhão com
Deus, a Igreja na Ásia vê com profundo respeito e apreço as comunidades
religiosas contemplativas como fonte especial de força e inspiração. Na linha
das recomendações do Padres Sinodais, desejo encorajar fortemente a
constituição, onde for possível, de comunidades monásticas e contemplativas.
Deste modo, como nos lembra o Concílio Vaticano II, a obra de edificação da
cidade terrena terá o seu fundamento no Senhor e para Ele se orientará; caso
contrário, os construtores trabalhariam em vão. 210
A busca de
Deus, a vida de comunhão e o serviço aos outros são as três características
principais da vida consagrada, que pode oferecer um testemunho cristão atraente
aos povos da Ásia actual. A Assembleia Especial para a Ásia incitou as pessoas
de vida consagrada a serem testemunhas da vocação universal à santidade,
tornando-se, tanto para os cristãos como para os não cristãos, um exemplo
inspirador de doação amorosa a todos, de modo especial aos mais pequenos dos
seus irmãos e irmãs. Num mundo onde frequentemente fica ofuscado o sentido da
presença de Deus, as pessoas consagradas hão-de dar um testemunho profético
convicto da primazia de Deus e da vida eterna. Vivendo em comunidade, dão
testemunho dos valores da fraternidade cristã e da força transformadora da Boa
Nova. 211 Todos os que abraçaram a vida consagrada são chamados a
tornar-se guias na busca de Deus, busca essa que sempre atormentou o coração
humano e que é particularmente visível em muitas formas de espiritualidade e de
ascetismo da Ásia. 212 De facto, em muitas tradições religiosas da
Ásia, os homens e mulheres votados à vida contemplativa e ascética gozam de grande
respeito e o seu testemunho tem uma força persuasiva especial; a sua
existência, vivida em comunidade e irradiando um testemunho pacífico e
silencioso, pode inspirar as pessoas a trabalharem por uma maior harmonia na
sociedade. O mesmo se espera dos homens e mulheres consagrados na tradição
cristã. O seu exemplo silencioso de pobreza e abnegação, de pureza e
sinceridade, de imolação na obediência pode tornar-se um testemunho eloquente
capaz de tocar as pessoas de boa vontade e conduzir a um diálogo frutuoso com
as culturas e religiões circundantes, e com os pobres e indefesos. Isto faz da
vida consagrada um meio privilegiado para uma evangelização eficaz. 213
Os Padres
Sinodais reconheceram o papel vital que as Ordens e Congregações religiosas, e
os Institutos Missionários e as Sociedades de Vida Apostólica desempenharam, ao
longo dos séculos passados, na evangelização da Ásia. Por esta estupenda
contribuição, o Sínodo manifestou-lhes a gratidão da Igreja, incitando-os a não
desfalecerem no seu empenho missionário. 214 Uno-me aos Padres
Sinodais neste convite feito aos consagrados para revigorarem o seu zelo de
proclamar a verdade salvadora de Cristo. Todos hão-de ter uma adequada formação
e preparação, que deverá estar centrada em Cristo e ser fiel ao seu carisma
fundacional, com particular destaque para a santidade e testemunho pessoal; a
sua espiritualidade e estilo de vida deveriam ser sensíveis à herança religiosa
das pessoas com quem vivem e a quem servem. 215 Quanto ao seu
carisma específico, deveriam integrar-se no plano pastoral da diocese onde
trabalham. Por sua vez, as Igrejas locais devem estimular a consciência do
ideal de vida religiosa e consagrada, promovendo tais vocações. Isto exige que
cada diocese prepare um programa pastoral para as vocações, destinando até
alguns padres e religiosos para trabalharem a tempo inteiro com a juventude, a
fim de ajudar os jovens a escutar e discernir o chamamento de Deus. 216
No âmbito
da comunhão da Igreja universal, não posso deixar de apelar à Igreja da Ásia
para enviar alhures missionários, apesar de ela mesma necessitar de operários
na sua vinha. Alegra-me constatar que têm sido recentemente fundados, em vários
países asiáticos, Institutos missionários de Vida Apostólica, como expressão do
carácter missionário da Igreja e da responsabilidade que têm as Igrejas
particulares da Ásia de pregar o Evangelho por todo o mundo. 217 Os
Padres Sinodais recomendaram « a constituição dentro de cada Igreja local da
Ásia, se tal ainda não existir, de Sociedades Missionárias de Vida Apostólica,
caracterizadas pelo seu compromisso especial para com a missão ad gentes, ad
exteros e ad vitam ». 218 Certamente uma tal iniciativa
dará abundantes frutos, não só nas Igrejas que recebem missionários, mas também
naquelas que os enviam.
O laicado
45. Como
foi claramente indicado pelo Concílio Vaticano II, a vocação dos leigos
situa-os no mundo, onde realizam as mais diversas tarefas, para aí difundirem o
Evangelho de Jesus Cristo. 219 Por graça e missão recebida no
Baptismo e na Confirmação, todos os leigos são missionários; o campo do seu
trabalho missionário é o vasto e complexo mundo da política, da economia, da
indústria, da educação, dos meios de comunicação social, da ciência, da
tecnologia, das artes e do desporto. Em muitos países asiáticos, os leigos
comportam-se como verdadeiros missionários, atingindo milhões de compatriotas
asiáticos, que nunca tiveram contacto com os sacerdotes ou os religiosos.
220 Desejo exprimir-lhes a gratidão da Igreja inteira, e encorajar todos
os leigos a assumirem o seu papel específico, na vida e missão do Povo de Deus,
como testemunhas de Cristo onde quer que estejam.
Cabe aos
Pastores garantir que os fiéis leigos sejam formados como evangelizadores
capazes de enfrentar os desafios do mundo actual, não com a sabedoria e
eficácia própria do mundo, mas com um coração renovado e robustecido com a
verdade de Cristo. 221 Dando testemunho do Evangelho nos vários
sectores da vida social, eles podem desempenhar um papel único no combate
contra a injustiça e a opressão; e também para isso devem ser preparados
adequadamente. Com tal finalidade, uno-me de boa vontade à proposta dos Padres
Sinodais para se constituírem, a nível diocesano ou nacional, centros de
formação para leigos que hão-de prepará-los para o seu trabalho missionário
como testemunhas de Cristo na Ásia de hoje. 222
Os Padres
Sinodais manifestaram grande desejo de que a Igreja seja cada vez mais
participativa e aberta, de modo que ninguém se sinta excluído, e concluíram que
há uma necessidade particularmente urgente de uma participação mais ampla da
mulher na vida e missão da Igreja na Ásia. « A mulher tem uma aptidão muito
particular para transmitir a fé, de maneira que Jesus mesmo recorreu a ela para
a evangelização. Assim acontece com a Samaritana, com quem Jesus Se encontra
junto do "poço de Jacob", escolhendo-a para a primeira expansão da
nova fé em território não judaico ». 223 Para valorizar o seu
serviço na Igreja, deveria haver maiores oportunidades de elas frequentarem
cursos de teologia e outras áreas de estudo; e os homens, nos Seminários e nas
casas de formação, precisam de ser preparados para considerarem as mulheres
como cooperadoras no apostolado. 224 As mulheres deveriam ser mais
directamente envolvidas nos programas pastorais, nos Conselhos Pastorais
diocesanos e paroquiais, e nos Sínodos diocesanos. As suas capacidades e
serviços sejam plenamente apreciados na assistência sanitária, na educação, na
preparação dos fiéis para os sacramentos, na construção da comunidade e da paz.
Como indicaram os Padres Sinodais, a presença da mulher na missão de amor e
serviço da Igreja contribui enormemente para levar Jesus, compassivo, médico e
reconciliador, ao povo asiático, especialmente aos pobres e marginalizados.
225
A família
46. A família
é o lugar normal onde o jovem cresce até à maturidade pessoal e social. É
também a transmissora da herança da própria humanidade, porque, através da sua
vida, aquela passa de geração em geração. A família ocupa um lugar muito
importante nas culturas asiáticas; e, como observaram os Padres Sinodais,
valores familiares como o respeito filial, o amor e o cuidado dos idosos e dos
doentes, o amor pelas crianças e a harmonia são tidos em grande estima em todas
as culturas do Continente e religiões tradicionais.
Do ponto
de vista cristão, a família é uma espécie de « Igreja doméstica ». 226
A família cristã, à semelhança da Igreja no seu conjunto, deveria ser um lugar
onde a verdade do Evangelho fosse a regra de vida e o dom que os seus membros
oferecem à comunidade mais alargada. Por isso, ela não é simplesmente objecto
dos cuidados pastorais da Igreja, mas um dos mais eficazes agentes da
evangelização da Igreja. As famílias cristãs são hoje chamadas a testemunhar o
Evangelho em tempos e circunstâncias difíceis, já que elas próprias estão
ameaçadas por um batalhão de forças contrárias. 227 Para ser agente
de evangelização num tempo assim, a família cristã necessita de ser
genuinamente « uma Igreja doméstica », vivendo humilde e amorosamente a vocação
cristã.
Como
apontavam os Padres Sinodais, isto significa que a família deve tomar parte
activa na vida paroquial, participando nos Sacramentos, especialmente na
Eucaristia e no sacramento da Penitência, e comprometendo-se ao serviço dos
outros. Mas significa também que os pais se devem esforçar por fazer, dos
momentos em que a família está reunida, uma ocasião para rezar, para ler e
meditar a Bíblia, para celebrações especiais presididas por eles próprios e
para uma saudável recreação. Isto ajudará a família cristã a tornar-se um
centro de evangelização, onde cada membro experimenta o amor de Deus e
comunica-o aos outros. 228 Os Padres Sinodais reconheceram
igualmente que os filhos têm um papel na evangelização, quer no seio da própria
família quer na comunidade mais alargada. 229 Convencido de que « o
futuro da Igreja e do mundo passa através da família », 230 proponho
uma vez mais para estudo e implementação aquilo que publiquei sobre o tema da
família na Exortação Apostólica Familiaris consortio, resultante da V
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos de 1980.
Os jovens
47. Os
Padres Sinodais mostraram-se particularmente sensíveis ao tema da juventude na
Igreja. Os problemas muito complexos, que os jovens enfrentam hoje neste mundo
em mudança da Ásia, obrigam a Igreja a recordar-lhes a sua responsabilidade
pelo futuro da sociedade e da Igreja, dando-lhes coragem e apoio a todo o
momento esperando que eles abracem tal responsabilidade. A Igreja oferece-lhes
a verdade do Evangelho como um mistério cheio de alegria e libertação, mas que
precisa de ser conhecido, vivido e partilhado com coragem e convicção.
Se os
jovens devem ser realmente agentes eficazes de missão, a Igreja tem de
dedicar-lhes um cuidado pastoral apropriado. 231 Em sintonia com os
Padres Sinodais, recomendo que cada diocese da Ásia, onde for possível, designe
capelães ou directores jovens para dinamizarem a formação espiritual e o
apostolado da juventude. As escolas católicas e as paróquias têm um papel vital
na formação integral dos jovens, procurando conduzi-los por um caminho de
verdadeiro discipulado e desenvolvendo neles aquelas qualidades humanas que a
missão requer. O apostolado juvenil organizado e os grupos de jovens podem
fomentar a experiência da amizade cristã, que é tão importante para o jovem. A
paróquia, as associações e os movimentos podem ajudá-los a lutarem melhor
contra as pressões sociais, oferecendo-lhes não só um crescimento mais
amadurecido na vida cristã, mas também assistência quanto a orientação
profissional, preparação vocacional e direcção espiritual.
A formação
cristã dos jovens da Ásia deverá ter em conta que estes não são apenas objecto
do cuidado pastoral da Igreja, mas também « agentes e cooperadores na missão da
Igreja nas suas diversas obras apostólicas de amor e serviço ». 232
Por isso, nas paróquias e dioceses, os jovens e as jovens deveriam ser
convidados a tomarem parte na organização das actividades que lhes dizem
respeito. A sua própria frescura e entusiasmo, o seu espírito de solidariedade
e de esperança podem torná-los construtores de paz num mundo dividido; e, neste
sentido, é encorajador ver os jovens envolvidos em programas de intercâmbio
entre Igrejas particulares dos países asiáticos, e mesmo de outros Continentes,
para promoverem o diálogo interreligioso e intercultural.
Comunicações
sociais
48. Numa
era de globalização, « os meios de comunicação social alcançaram tamanha
importância que são para muitos o principal instrumento de informação e
formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e
sociais. Principalmente as novas gerações crescem num mundo condicionado pelos
mass-media ». 233 O mundo vai assistindo ao aparecimento duma nova
cultura, que « nasce, menos dos conteúdos do que do próprio facto de existirem
novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes
psicológicas ». 234 O papel excepcional, desempenhado pelos meios de
comunicação social na configuração do mundo, das suas culturas e formas de
pensamento, levou a mudanças rápidas e amplas nas sociedades asiáticas.
Inevitavelmente,
também a missão evangelizadora da Igreja foi afectada profundamente pelo
impacto dos mass-media. Considerando a influência sempre maior que têm mesmo
nas regiões mais remotas da Ásia, podem ser de grande ajuda no anúncio do
Evangelho em todos os recantos do Continente. Porém, « não é suficiente usá-los
para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário
integrar a mensagem nesta "nova cultura", criada pelas modernas
comunicações »; 235 por isso, a Igreja precisa de encontrar formas
de integrar cuidadosamente os mass-media nos seus planos e actividades
pastorais, para que, através do seu uso efectivo, a força do Evangelho possa
estender-se ainda mais aos indivíduos e povos inteiros, e impregnar a cultura
asiática com os valores do Reino.
Dou eco ao
elogio feito pelos Padres Sinodais à Rádio Veritas Asia, a única
estação continental de rádio para a Igreja na Ásia, pelos trinta anos
aproximadamente de evangelização através das suas transmissões. Há que
congregar esforços para potenciar este excelente instrumento de missão, através
de uma adequada programação linguística, e da disponibilização de colaboradores
e ajuda financeira por parte das Conferências Episcopais e das dioceses da
Ásia. 236 Além da Rádio, existem também as publicações católicas e
as agências de notícias que podem ajudar a difundir informação e a oferecer uma
contínua educação e formação religiosa por todo o Continente. Nos lugares onde
os cristãos estão em minoria, isso pode ser um importante meio para apoiar e
educar para um sentido de identidade católica e para dar a conhecer os
princípios morais católicos. 237
Acolho as
recomendações dos Padres Sinodais relativas à evangelização através das
comunicações sociais, o « areópago da era moderna », na esperança de que possa
servir para a promoção humana e a divulgação da verdade de Cristo e do
ensinamento da Igreja. 238 Poderia ajudar a constituição em cada
diocese, se possível, de um serviço de comunicações e de informação. A educação
sobre os meios de comunicação social, incluindo a avaliação crítica da sua
produção, deve fazer parte da formação de sacerdotes, seminaristas, religiosos,
catequistas, profissionais leigos, estudantes das escolas católicas e
comunidades paroquiais. Tendo em conta a influência enorme e o impacto
extraordinário de tais meios, os católicos hão-de trabalhar com os membros de
outras Igrejas e Comunidades Eclesiais e com os seguidores doutras religiões,
para assegurar um lugar para os valores espirituais e morais nos mass-media.
Juntamente com os Padres sinodais, encorajo o desenvolvimento de planos
pastorais de comunicações a nível nacional e diocesano, conforme as indicações
da Instrução Pastoral TATIS NOVæ, com particular atenção às
circunstâncias que prevalecem na Ásia.
Os
mártires
49. Por
mais importantes que sejam os programas de formação e as estratégias de
evangelização, em última análise é o martírio que revela ao mundo a
verdadeira essência da mensagem cristã. A própria palavra « mártir »
significa testemunha, e os que derramaram o próprio sangue por Cristo deram o
testemunho supremo do verdadeiro valor do Evangelho. Na Bula de proclamação do
Grande Jubileu do Ano 2000, Incarnationis mysterium, sublinhei a
importância vital de fazer memória dos mártires: « Do ponto de vista
psicológico, o martírio é a prova mais eloquente da verdade da fé, que consegue
dar um rosto humano inclusive à morte mais violenta e manifestar a sua beleza
mesmo nas perseguições mais atrozes ». 239 Ao longo dos tempos, a
Ásia deu à Igreja e ao mundo uma grande multidão destes heróis da fé, e do
coração da Ásia levanta-se o grande canto de louvor: « Te martyrum
candidatus laudat exercitus ». Este é o canto daqueles que morreram por
Cristo no solo asiático nos primeiros séculos da Igreja, mas é também o grito
de alegria de homens e mulheres de tempos mais recentes, como S. Paulo Miki e
companheiros, S. Lourenço Ruiz e companheiros, S. André Dung Lac e
companheiros, S. André Kim Taegon e companheiros. Que a grande multidão de
mártires da Ásia, antigos e recentes, nunca deixe de ensinar à Igreja asiática
o que significa dar testemunho do Cordeiro, em cujo sangue eles lavaram os seus
vestidos (cf. Ap 7, 14)! Que eles permaneçam como testemunhas
invencíveis da verdade que, em todo o tempo e lugar, os cristãos são chamados a
proclamar, ou seja, a verdade do poder da Cruz do Senhor! E que o sangue
dos mártires da Ásia seja, agora e sempre, semente de vida nova para a Igreja
em todos os cantos do Continente!
CONCLUSÃO
Gratidão e
encorajamento
50. No
termo desta Exortação Apostólica Pós-Sinodal, que, procurando discernir a
palavra do Espírito às Igrejas que estão na Ásia (cf. Ap 1, 11), vem
comunicar os frutos da Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos,
desejo manifestar a gratidão da Igreja a todos vós, queridos irmãos e irmãs da
Ásia, que contribuístes de muitos modos para o bom êxito deste importante
acontecimento eclesial. Em primeiro lugar e acima de tudo, louvamos novamente a
Deus pela riqueza de culturas, línguas, tradições e sensibilidades religiosas
deste grande Continente: Bendito seja Deus pelos povos da Ásia, tão ricos na
sua diversidade e unidos no seu anseio de paz e vida em abundância.
Especialmente agora, na proximidade imediata dos dois mil anos do nascimento de
Jesus Cristo, agradecemos a Deus por ter escolhido a Ásia como lugar da morada
terrena do seu Filho encarnado, o Salvador do mundo.
Não posso
deixar de testemunhar o meu apreço aos Bispos da Ásia pelo seu profundo amor a
Jesus Cristo, à Igreja e aos povos da Ásia, pelo seu testemunho de comunhão e
pela sua dedicação generosa à tarefa da evangelização. Agradeço a todos os que
formam a grande família da Igreja na Ásia: o clero, os religiosos e religiosas
e outras pessoas consagradas, os missionários, o laicado, as famílias, os
jovens, os povos indígenas, os trabalhadores, os pobres e atribulados. No fundo
do meu coração, há um lugar especial para quantos são perseguidos, na Ásia,
pela sua fé em Cristo. Eles são as colunas ocultas da Igreja; falando deles, o próprio
Jesus pronuncia estas palavras de conforto: « Vós sois bem-aventurados no Reino
dos Céus » (cf. Mt 5, 10).
As
seguintes palavras de Jesus Cristo tranquilizem a Igreja da Ásia: « Não temas,
pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino » (Lc 12,
32). Aqueles que crêem em Cristo são ainda uma pequena minoria neste Continente
tão vasto e populoso. Mas, apesar de serem uma tímida minoria, eles possuem uma
fé viva, estão cheios de esperança e vitalidade que só o amor pode originar. De
forma humilde e corajosa, têm influído nas culturas e sociedades da Ásia,
especialmente na vida dos pobres e desamparados, muito dos quais nem partilham
a fé católica. Eles são um exemplo para que os cristãos de todo o mundo estejam
prontos a partilhar o tesouro da Boa Nova « oportuna e inoportunamente » (2
Tim 4, 2). Fortalecem-se com a força admirável do Espírito Santo, já que,
apesar da escassez geral de membros da Igreja na Ásia, Ele garante que a
presença eclesial se torne o fermento que, oculta e silenciosamente, faz
levedar toda a massa (cf. Mt 13, 33).
Os povos
da Ásia necessitam de Jesus Cristo e do seu Evangelho. A Ásia está sedenta de
água viva, que só Jesus lhe pode dar (cf. Jo 4, 10-15). Por isso, os
discípulos de Cristo na Ásia devem ser generosos nos seus esforços para
cumprirem a missão que receberam do Senhor, o Qual prometeu estar com eles até
ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20). Confiando no Senhor que não abandonará
os que chamou, a Igreja na Ásia encaminha-se alegremente para o Terceiro
Milénio. A sua única alegria é a que nasce da partilha com a multidão dos povos
asiáticos do dom imenso que ela mesma recebeu: o amor de Jesus Salvador. A
única ambição dela é continuar a sua missão de serviço e de amor, para que
todos os asiáticos « tenham vida e a tenham em abundância » (Jo 10, 10).
Súplica à
Mãe de Cristo
51. Diante
de missão tão desafiadora, voltemos o nosso olhar para Maria, a Mãe do
Redentor, pela qual, como afirmaram os Padres Sinodais, os cristãos asiáticos
têm um grande amor e afecto, venerando-A como sua própria Mãe e Mãe de Cristo.
240 Por toda a Ásia, existem centenas de santuários e templos marianos,
onde se congregam não só os fiéis católicos, mas também crentes doutras
religiões.
A Maria,
modelo de todos os discípulos e Estrela luminosa da Evangelização, confio a
Igreja da Ásia no limiar do Terceiro Milénio da era cristã, com a plena
confiança de que os d'Ela são ouvidos que sempre nos escutam, o seu é um
coração que sempre nos acolhe, e as suas são preces que nunca falham:
O Santa Maria,
Filha do Deus Altíssimo,
Virgem Mãe
do Salvador e Mãe de todos nós,
olhai, com
bondade, para a Igreja do vosso Filho
plantada
em solo asiático.
Sede o seu
guia e modelo, enquanto ela prossegue
a missão
de amor e serviço do vosso Filho,
na Ásia.
Vós aceitastes
plena e livremente
o
chamamento do Pai
para
serdes a Mãe de Deus:
ensinai-nos
a arrancar de nossos corações
tudo o que
não for de Deus,
para que
possamos também ficar
cheios do
Espírito Santo, que vem do Alto.
Vós
meditastes os desígnios misteriosos de Deus
no
silêncio do vosso coração:
ajudai-nos
a discernir, dia após dia,
os sinais
da poderosa mão de Deus.
Fostes
apressadamente visitar Isabel,
e ajudá-la
nos seus dias de expectação:
alcançai-nos
o mesmo espírito de zelo e de serviço
na nossa
tarefa evangelizadora.
Levantastes
a voz para cantar
os
louvores do Senhor:
guiai-nos
no anúncio jubiloso da fé
em Cristo
nosso Salvador.
Vós
sentistes compaixão ao ver a necessidade
e pedistes
ao vosso Filho para ir em sua ajuda:
ensinai-nos
a nunca ter medo
de falar
do mundo a Jesus
e de Jesus
ao mundo.
Vós
estáveis ao pé da Cruz
quando o
vosso Filho exalou o último suspiro:
ficai
connosco enquanto procuramos viver
em união
de espírito e de serviço
com todos
aqueles que sofrem.
Vós
orastes com os discípulos na Sala de Cima:
ajudai-nos
a acolher o Espírito
e a ir
para onde quer que Ele nos conduza.
Protegei a
Igreja de todas as forças que a ameaçam.
Ajudai-a a
ser uma verdadeira imagem
da
Santíssima Trindade.
Pedi que,
através do amor e serviço da Igreja,
todos os
povos asiáticos
cheguem a
conhecer o vosso Filho
Jesus
Cristo, o único Salvador do mundo,
e
experimentem assim a alegria da vida
em toda a
sua plenitude.
O Virgem
Maria, Mãe da Nova Criação
e Mãe da
Ásia,
rogai por
nós, vossos filhos, agora e sempre!
Dado em
Nova Deli, na Índia, no dia 6 de Novembro do ano 1999, vigésimo segundo de
Pontificado.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
As
maravilhas do plano de Deus, na Asia
Preparação
da Assembleia Especial
A
celebração da Assembleia Especial
Partilha
dos frutos da Assembleia Especial
CAPÍTULO I
O CONTEXTO
ASIÁTICO
A Ásia,
terra natal de Jesus e da Igreja
Realidades
religiosas e culturais
Realidades
económicas e sociais
Realidades
políticas
A Igreja
da Ásia: passado e presente
CAPÍTULO
II
JESUS
SALVADOR: UM DOM PARA A ÁSIA
O dom da
fé
Jesus
Cristo, o Deus humanado que salva
A pessoa e
missão do Filho de Deus
Jesus
Cristo: a verdade da humanidade
O carácter
único e universal da salvação de Jesus
CAPÍTULO
III
O ESPÍRITO
SANTO: SENHOR QUE DÁ A VIDA
O Espírito
de Deus na criação e na história
O Espírito
Santo e a encarnação do Verbo
O Espírito
Santo e o Corpo de Cristo
O Espírito
Santo e a missão da Igreja na Ásia
CAPÍTULO
IV
JESUS
SALVADOR: O DOM A ANUNCIAR
A primazia
do anúncio
Anunciar
Jesus Cristo na Ásia
O desafio
da inculturação
Areas-chave
de inculturação
Vida
cristã como anúncio
CAPÍTULO V
COMUNHÃO
E DIÁLOGO AO SERVIÇO DA MISSÃO
Comunhão e
missão, de mãos dadas
Comunhão
dentro da Igreja
Solidariedade
entre as Igrejas
As Igrejas
Católicas Orientais
Partilhando
esperanças e sofrimentos
Uma missão
de diálogo
Diálogo
ecuménico
Diálogo
interreligioso
CAPÍTULO
VI
O SERVIÇO
DE PROMOÇÃO HUMANA
A doutrina
social da Igreja
A
dignidade da pessoa humana
Amor
preferencial pelos pobres
O
Evangelho da vida
Serviço de
saúde
Educação
Construção
da paz
Globalização
Dívida
externa
O meio
ambiente
CAPÍTULO
VII
TESTEMUNHAS
DO EVANGELHO
Uma Igreja
que testemunha
Pastores
A vida
consagrada e as Sociedades Missionárias
O laicado
A família
Os jovens
Comunicações
sociais
Os
mártires
CONCLUSÃO
Gratidão e
encorajamento
Súplica à
Mãe de Cristo
(1) João
Paulo II, Discurso à VI Assembleia Plenária da Federação das Conferências
Episcopais da Ásia (FABC) (Manila, 15 de Janeiro de 1995), 11: L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 21 de Janeiro de 1995), 37.
(2) Carta
ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro de 1994), 38: AAS
87 (1995), 30.
(3) N. 11:
L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 21 de Janeiro de 1995), 37.
(4) João
Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro de
1994), 38: AAS 87 (1995), 30.
(5) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Mensagem final, 2.
(6)
Discurso à VI Assembleia Plenária da Federação das Conferências Episcopais da
Ásia (FABC) (Manila, 15 de Janeiro de 1995), 10: L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 21 de Janeiro de 1995), 37.
(7) João
Paulo II, Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história
da salvação (29 de Junho de 1999), 3: L'Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 10 de Julho de 1999), 352.
(8) Cf. propositio
3.
(9) Propositio
1.
(10) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Lineamenta, 3.
(11) Cf. ibid., 3.
(12) Cf. propositio 32.
(13) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Instrumentum laboris,
9.
(14) Cf. propositiones
36 e 50.
(15) Propositio
44.
(16) Propositio
27.
(17) Cf. propositio
45.
(18)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Instrumentum laboris,
9.
(19) Cf. propositio
39.
(20) Propositio
35.
(21) Cf. propositio
38.
(22) Cf. propositio
22.
(23) Cf. propositio
52.
(24) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Lineamenta, 6.
(25) Cf. propositio
56.
(26) João
Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro de
1994), 18: AAS 87 (1995), 16.
(27) Cf. propositio
29.
(28) Cf. propositiones
29 e 31.
(29) Propositio
51.
(30) Cf. propositiones
51, 52 e 53.
(31) Propositio
57.
(32) Cf. ibid.,
57.
(33) Propositio
54.
(34) N. 3:
AAS 83 (1991), 252.
(35) Cf. propositio
5.
(36)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, II parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25
de Abril de 1998), 202.
(37)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 3.
(38) Propositio
8.
(39) N.
11: AAS 83 (1991), 260.
(40) Ibid.,
11: o. c., 260.
(41)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 3.
(42) Missal
Romano: Oração Eucarística I das Missas da Reconciliação.
(43) João
Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 10: AAS
71 (1979), 274.
(44)
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.
(45) N. 9:
AAS 71 (1979), 272-273.
(46)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem,
3.
(47) Cf. ibid., 3.
(48) Ibid., 3.
(49) Propositio
5.
(50) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 6: AAS
83 (1991), 255.
(51) João
Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 7: AAS
71 (1979), 269.
(52) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Dominum et vivificantem (18 de Maio de 1986),
54: AAS 78 (1986), 875.
(53) Cf. ibid.,
59: o. c., 885.
(54) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 28: AAS
83 (1991), 274; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et spes, 26.
(55) Cf. propositio
11; Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad
gentes, 4 e 15; Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 17;
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 11,
22 e 38; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de
1990), 28: AAS 83 (1991), 273-274.
(56) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, II parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25
de Abril de 1998), 202.
(57) João
Paulo II, Carta enc. Dominum et vivificantem (18 de Maio de 1986), 50: AAS
78 (1986), 870; cf. S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ, III, 2, 10-12;
6, 6; 7, 13.
(58) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Dominum et vivificantem (18 de Maio de 1986),
50: AAS 78 (1986), 870.
(59) Cf. ibid.,
24: o. c., 832.
(60) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
28: AAS 83 (1991), 274.
(61) N.
29: AAS 83 (1991), 275; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 45.
(62) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
29: AAS 83 (1991), 275.
(63) Cf.
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 13.
(64) Propositio
12.
(65)
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 17.
(66)
Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 22: AAS
68 (1976), 20.
(67) Propositio
8.
(68) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 45: AAS
83 (1991), 292.
(69) Cf. ibid., 46: o. c., 292-293.
(70) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a
liberdade religiosa Dignitatis humanæ, 3-4; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris
missio (7 de Dezembro de 1990), 39: AAS 83 (1991), 287; propositio
40.
(71) Paulo
VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 53: AAS
68 (1976), 41-42.
(72)
Discurso aos representantes das religiões não cristãs (Madrasta, 5 de Fevereiro
de 1986), 2: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16 de Fevereiro de
1986), 74.
(73) Cf. propositiones
11 e 12; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de
1990), 28: AAS 83 (1991), 273-274.
(74)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, II parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25
de Abril de 1998), 203.
(75) Propositio
58.
(76) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 72: AAS
91 (1999), 61.
(77)
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem,
15.
(78) Cf. ibid., 15.
(79) Ibid., 15.
(80) Propositio
6.
(81) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 6.
(82) Ibid.,
6.
(83) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, III parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2
de Maio de 1998), 213.
(84) Cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de
Dezembro de 1975), 20: AAS 68 (1976), 18-19.
(85) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 52: AAS
83 (1991), 300.
(86) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 9.
(87) Cf.
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium
et spes, 22; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de
Dezembro de 1990), 28: AAS 83 (1991), 273-274.
(88) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
56: AAS 83 (1991), 304.
(89) João
Paulo II, Homilia na Missa para os católicos do Bengala Ocidental (Calcutá, 4
de Fevereiro de 1986), 3; L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16 de
Fevereiro de 1986), 73.
(90) Cf. propositio
43.
(91) Cf. propositio
7.
(92) Ibid.,
7.
(93) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 54: AAS
83 (1991), 302.
(94) Cf. ibid., 54: o. c., 301.
(95) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a
sagrada liturgia Sacrosanctum concilium, 10; Assembleia Especial para a
Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem, 14.
(96) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 14; propositio 43.
(97) Cf. propositio
43.
(98) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post
disceptationem, 13.
(99) Cf. propositio
17.
(100) Cf. propositio
18.
(101) Cf. propositio
17.
(102) Nn.
60, 62 e 105: AAS 91 (1999), 52-53, 54 e 85-86.
(103) Cf. propositio
24.
(104) Cf. propositio
25.
(105) Cf. ibid.,
25.
(106) Cf. propositio
27.
(107) Cf. propositio
29.
(108) Cf.
Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 91: AAS 83
(1991), 338.
(109) Propositio
19.
(110) Propositio
8.
(111)
Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanæ, 2.
(112) Propositio
6.
(113) S.
Agostinho, De civitate Dei, XVIII, 51, 2: PL 41, 614; cf. Conc.
Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8.
(114)
Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad
gentes, 7; cf. Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 17.
(115)
Paulo VI, Discurso ao Colégio Cardinalício (22 de Junho de 1973): AAS 65
(1973), 391.
(116) João
Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de
1988), 18: AAS 81 (1989), 421.
(117) Cf. ibid., 18: o. c., 421; Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 4.
(118) Cf. Catecismo
da Igreja Católica, 775.
(119) Cf. ibid.,
775.
(120) João
Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de
1988), 32: AAS 81 (1989), 452.
(121) Cf.
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 16.
(122) Propositio
13.
(123) Ibid.,
13.
(124) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, III parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2
de Maio de 1998), 213.
(125) Propositio
13; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium,
22.
(126) Cf. propositio
13.
(127) Cf. propositio
15; Congr. da Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns
aspectos da Igreja como comunhão Communionis notio (28 de Maio de 1992),
3-10: AAS 85 (1993), 839-844.
(128) Cf. propositio
15.
(129) Cf. ibid.,
15.
(130) Cf. propositio
16.
(131) Propositio
34.
(132) Cf. propositio
30; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de
1990), 51: AAS 83 (1991), 298.
(133) Cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de
Dezembro de 1975), 58: AAS 68 (1976), 46-49; João Paulo II, Carta enc. Redemptoris
missio (7 de Dezembro de 1990), 51: AAS 83 (1991), 299.
(134) Cf. propositio
31.
(135) Cf. propositio
14.
(136) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, III parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2
de Maio de 1998), 213.
(137) Cf. propositio
50.
(138) Cf. propositiones
36 e 50.
(139) Cf.
João Paulo II, Discurso ao Sínodo dos Bispos da Igreja Sírio-Malabar (8 de
Janeiro de 1996), 6: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20 de
Janeiro de 1996), 29.
(140) Cf. propositio
50.
(141) Cf. propositio
56.
(142) Cf. propositio
51.
(143) Cf. propositio
52.
(144) Propositio
53.
(145) Cf. propositio
57.
(146) Cf.
Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história da salvação
(29 de Junho de 1999), 7: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 10 de
Julho de 1999), 353.
(147)
Carta enc. Ecclesiam suam (6 de Agosto de 1964): AAS 56 (1964),
613.
(148) Cf. propositio
42.
(149) Ibid.,
42.
(150) João
Paulo II, Discurso na Audiência Geral (26 de Julho de 1995), 4: L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 29 de Julho de 1995), 364.
(151) Cf.
João Paulo II, Discurso na Audiência Geral (20 de Janeiro de 1982), 2: L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 24 de Janeiro de 1982), 44.
(152) Cf.
n. 53: AAS 87 (1995), 37.
(153) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
55: AAS 83 (1991), 302.
(154) Cf. ibid., 55: o. c., 304.
(155) N. 4: AAS 83 (1991), 101-102.
(156) N. 56: AAS 83 (1991), 304.
(157) Propositio
41.
(158) Ibid.,
41.
(159) Cf. ibid.,
41.
(160) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
57: AAS 83 (1991), 305.
(161) Cf.
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de Março de
1996), 8: AAS 88 (1996), 383.
(162) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de
1987), 47: AAS 80 (1988), 582.
(163)
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 1.
(164) Em
muitos meios, o ponto de partida foi a Encíclica Rerum novarum do Papa
Leão XIII (15 de Maio de 1891), que introduziu uma série de declarações solenes
da Igreja acerca de vários aspectos da questão social. Entre estas, conta-se a
Encíclica Populorum progressio (26 de Março de 1967), que o Papa Paulo
VI publicou em resposta a indicações do Concílio Vaticano II e à nova situação
do mundo. Para comemorar o trigésimo aniversário desta Encíclica, lancei a
Encíclica Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), na qual,
prosseguindo o Magistério mais recente, convidei todos os fiéis a sentirem-se,
eles próprios, chamados a uma missão de serviço que inclui necessariamente a
promoção do desenvolvimento humano integral.
(165) João
Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
41: AAS 80 (1988) 570-571.
(166) Cf.
Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a liberdade cristã e a libertação Libertatis
conscientia (22 de Março de 1986), 72: AAS 79 (1987), 586.
(167) Cf. propositio
22.
(168) Cf. propositio
21.
(169) Cf.
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de
Dezembro de 1988), 5: AAS 81 (1989), 400-402; Carta enc. Evangelium
vitæ (25 de Março de 1995), 18: AAS 87 (1995), 419-420.
(170) Propositio
22; cf. propositio 39.
(171) João
Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
42: AAS 80 (1988), 573; cf. Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a
liberdade cristã e a libertação Libertatis conscientia (22 de Março de
1986), 68: AAS 79 (1987), 583.
(172) Cf. propositio
44.
(173) Cf. ibid.,
44.
(174) Cf. propositio
39.
(175) Cf. propositio
22.
(176) Cf. propositio
36.
(177) Cf. propositio
38.
(178) Cf. ibid.,
38.
(179) Cf. propositio
33.
(180) Cf. ibid.,
33.
(181) Cf. propositio
35.
(182) Cf. ibid., 35.
(183) Propositio 32.
(184) Cf.
João Paulo II, Carta ap. Salvifici doloris (11 de Fevereiro de 1984),
28-29: AAS 76 (1984), 242-244.
(185) Cf. propositio
20.
(186) Cf. ibid.,
20.
(187) Cf. propositio
21.
(188) Cf. ibid.,
21.
(189) Cf. ibid.,
21.
(190) Cf. propositio
23.
(191) Cf. ibid.,
23.
(192) Cf. propositio
55.
(193) Cf. propositio
49.
(194) João
Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 1998), 3: AAS
90 (1998), 50.
(195) Cf. propositio
49.
(196) Cf. propositio
48.
(197) Cf. ibid.,
48; João Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro
de 1994), 51: AAS 87 (1995), 36.
(198) Cf. propositio
48.
(199) Cf. propositio
22; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro
de 1987), 44: AAS 80 (1988), 576-577.
(200) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 15: AAS
71 (1979), 287.
(201) Cf. ibid., 15: o. c., 287.
(202) Cf. propositio 47.
(203) Homilias
sobre o Evangelho de S. Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509.
(204) Cf.
Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 2 e 35.
(205) Cf.
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990),
31: AAS 83 (1991), 277.
(206) Ibid., 42: o. c., 289.
(207) Ibid., 42: o. c., 289.
(208) Cf. propositio
25.
(209) Cf. ibid.,
25.
(210) Cf.
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 46.
(211) Cf. propositio
27.
(212) Cf.
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de Março de
1996), 103: AAS 88 (1996), 479.
(213) Cf.
Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 69: AAS
68 (1976), 59.
(214) Cf. propositio 27.
(215) Cf. ibid., 27.
(216) Cf. ibid., 27.
(217) Cf. propositio 28.
(218) Ibid.,
28.
(219) Cf.
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 31.
(220) Cf. propositio
29.
(221) Cf. ibid.,
29.
(222) Cf. ibid.,
29.
(223) João
Paulo II, Discurso na Audiência Geral (13 de Julho de 1994), 4: L'Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 16 de Julho de 1994), 404.
(224) Cf. propositio
35.
(225) Cf.
ibid., 35.
(226)
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 11.
(227) Cf.
Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio ante
disceptationem, III parte: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2
de Maio de 1998), 213.
(228) Cf.
propositio 32.
(229) Cf.
propositio 33.
(230) João
Paulo II, Discurso à Confederação dos Consultores Familiares Cristãos (29 de
Novembro de 1980), 4: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 21 de
Dezembro de 1980), 777.
(231) Cf.
propositio 34.
(232) Ibid.,
34.
(233) João
Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 37: AAS
83 (1991), 285.
(234) Ibid., 37: o. c., 285.
(235) Ibid., 37; o. c., 285.
(236) Cf. propositio
45.
(237) Cf. ibid.,
45.
(238) Cf. ibid.,
45.
(239) N.
13: AAS 91 (1999), 142.
(240) Cf. propositio
59.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
Page: http://www.vatican.va