EXORTAÇAO APOSTÓLICA
PÓS-SYNODAL
ECCLESIA IN AFRICA
DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
AOS RELIGIOSOS E RELIGIOSAS
E A TODOS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A IGREJA EM ÁFRICA
E A SUA MISSÃO EVANGELIZADORA
RUMO AO ANO 2000
INTRODUÇÃO
1. A
Igreja que está em África, celebrou com alegria e esperança, durante quatro
semanas, a sua fé em Cristo ressuscitado, no curso de uma Assembleia Especial
do Sínodo dos Bispos. Permanece viva ainda a sua recordação na memória da
Comunidade Eclesial inteira.
Fiéis à
tradição dos primeiros séculos do cristianismo em África, os Pastores deste
continente, em comunhão com o Sucessor do apóstolo Pedro e os membros do
Colégio Episcopal vindos doutras regiões do mundo, realizaram um Sínodo que se
revelou um acontecimento de esperança e de ressurreição, no momento mesmo em
que as vicissitudes humanas pareciam antes impelir a África para o desânimo e o
desespero.
Os Padres
Sinodais, assistidos por qualificados representantes do clero, dos religiosos e
do laicado, examinaram profunda e realisticamente as luzes e as sombras, os
desafios e as perspectivas da evangelização em África ao aproximar-se do
terceiro milénio da fé cristã.
Os membros
da Assembleia Sinodal solicitaram-me que levasse ao conhecimento de toda a Igreja
os frutos das suas reflexões e das suas preces, dos seus debates e das suas
partilhas.1 Com alegria e gratidão ao Senhor, acolhi esse pedido, e hoje mesmo
quando, em comunhão com os Pastores e os fiéis da Igreja Católica no continente
africano, abro a fase celebrativa da Assembleia Especial para a África, torno
público o texto desta Exortação Apostólica pós-sinodal, fruto de um intenso e
prolongado trabalho colegial.
Mas, antes
de entrar na exposição daquilo que maturou ao longo do Sínodo, julgo oportuno
repassar, ainda que rapidamente, as várias fases de um acontecimento de
importância tão decisiva para a Igreja em África.
O Concílio
2. O
Concílio Ecuménico Vaticano II pode certamente considerar-se, do ponto de vista
da história da salvação, como a pedra angular deste século, já quase a
desembocar no terceiro milénio. No contexto daquele grande acontecimento, a
Igreja de Deus que está em África pôde, por sua vez, viver autênticos momentos
de graça. Com efeito, a ideia de um encontro de Bispos da África, sob forma a
determinar, para discutir acerca da evangelização do Continente, remonta ao
período do Concílio. Este acontecimento histórico foi verdadeiramente o cadinho
da colegialidade e uma expressão peculiar da comunhão afectiva e efectiva
do Episcopado mundial. Nessa ocasião, os Bispos procuraram individuar os
instrumentos apropriados para melhor compartilharem e tornarem eficaz a sua
solicitude por todas as Igrejas (cf. 2 Cor 11,28) e, com tal finalidade,
começaram a propor as estruturas adequadas a nível nacional, regional e
continental.
O Simpósio
das Conferências Episcopais de África e Madagáscar
3. Foi em
tal clima que os Bispos de África e Madagáscar, presentes no Concílio,
decidiram instituir um Secretariado Geral próprio, com a missão de coordenar as
suas intervenções de modo a apresentarem em Aula, quanto possível, um ponto de
vista comum. Esta cooperação inicial entre os Bispos da África
institucionalizou-se, depois, com a criação em Kampala do Simpósio das
Conferências Episcopais de África e Madagáscar (S.C.E.A.M.). Tal se
verificou por ocasião da visita do Papa Paulo VI ao Uganda, nos meses de Julho
e Agosto de 1969, primeira visita à África de um Pontífice dos tempos modernos.
A
convocação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos
4. As
Assembleias Gerais do Sínodo dos Bispos, que se têm sucedido periodicamente
desde 1967, ofereceram à Igreja que está em África preciosas ocasiões para
fazer ouvir a própria voz no âmbito universal da Igreja. Assim, na segunda
Assembleia Geral Ordinária (1971), os Padres Sinodais de África aproveitaram de
bom grado a ocasião que se lhes deparava, para pedir maior justiça no mundo. A
terceira Assembleia Geral Ordinária sobre a evangelização no mundo
contemporâneo (1974) consentiu que fossem examinados de forma particular os
problemas da evangelização em África. Foi nessa altura que os Bispos do
Continente, presentes no Sínodo, publicaram uma importante mensagem, intitulada
« Promoção da evangelização na corresponsabilidade ».2 Pouco tempo depois, durante
o Ano Santo de 1975, o S.C.E.A.M. convocou a sua própria Assembleia Plenária,
em Roma, para aprofundar o tema da evangelização.
5. Desde
1977 até 1983, vários Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, teólogos e
leigos exprimiram o desejo de um Concílio ou então um Sínodo
Africano, cujo objectivo seria a análise do andamento da evangelização em
África tendo em vista as grandes opções a realizar para o futuro do Continente.
Acolhi favoravelmente e encorajei a iniciativa de uma « deliberação, sob forma a
definir », do Episcopado Africano inteiro, « para examinar os problemas
religiosos comuns a todo o Continente ».3 Consequentemente o S.C.E.A.M.
empenhou-se na procura dos caminhos e meios para levar a bom termo tal projecto
de um Encontro continental. Organizou-se uma consulta às Conferências
Episcopais e a cada um dos Bispos de África e Madagáscar, após a qual pude
convocar a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos. Em 6 de
Janeiro de 1989, no contexto da Solenidade da Epifania — momento litúrgico
durante o qual a Igreja sente uma renovada consciência da universalidade da sua
missão e do consequente dever de levar a luz de Cristo a todos os povos —,
anunciei ter tomado a decisão desta « iniciativa de grande importância para a
difusão do Evangelho ». E especifiquei que o fiz, acolhendo a solicitação
expressa, muitas vezes e há diverso tempo, pelos Bispos da África, por
sacerdotes, teólogos e expoentes do laicado, « para que fosse promovida uma
orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas
contíguas ».4
Um
acontecimento de graça
6. A
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi um momento de
graça histórico: o Senhor visitou o seu povo que está em África. Com
efeito, este Continente vive hoje aquilo que se pode definir um sinal dos
tempos, um momento propício, um dia de salvação para a
África. Parece chegada uma « hora da África », uma hora favorável que
insistentemente convida os mensageiros de Cristo a fazerem-se ao largo e
lançarem as redes para a pesca (cf. Lc 5,4). Como nos primórdios do
cristianismo, um alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, feliz por ter
recebido a fé mediante o Baptismo, prosseguiu o seu caminho tornando-se
testemunha de Cristo (cf. Act 8,27-39), assim hoje a Igreja em África,
cheia de alegria e gratidão pela fé recebida, deve prosseguir a sua missão
evangelizadora, para atrair ao Senhor os povos do Continente, ensinando-lhes a
cumprir tudo quanto Ele mandou (cf. Mt 28,20).
A partir
da solene liturgia eucarística de abertura, a 10 de Abril de 1994, que celebrei
na Basílica Vaticana, juntamente com trinta e cinco Cardeais, um Patriarca,
trinta e nove Arcebispos, cento e quarenta e seis Bispos e noventa Sacerdotes,
a Igreja, Família de Deus,5 povo dos crentes, congregou-se em redor do túmulo
de Pedro. A África estava presente com a diversidade dos seus ritos, unida a
todo o Povo de Deus: ela dançava na sua alegria, exprimindo a sua fé na vida,
ao som do batuque e de outros instrumentos musicais africanos. Nessa ocasião, a
África sentiu que era, segundo a expressão de Paulo VI, « uma nova pátria de
Cristo »,6 terra amada pelo eterno Pai.7 Eis porque eu próprio saudei aquele
momento de graça com as palavras do Salmista: « Este é o dia que o Senhor fez;
alegremo-nos e exultemos nele » (Sal 118117,24).
Destinatários
da Exortação
7. Com
esta Exortação Apostólica pós-sinodal, em comunhão com a Assembleia Especial
para a África do Sínodo dos Bispos, desejo dirigir-me em primeiro lugar aos
Pastores e fiéis católicos, e depois aos irmãos das outras Confissões cristãs,
àqueles que professam as grandes religiões monoteístas, em particular aos
seguidores da religião tradicional africana, e a todos os homens de boa vontade
que, de um modo ou doutro, têm a peito o desenvolvimento espiritual e material
da África ou detêm nas suas mãos os destinos deste grande Continente.
Em
primeiro lugar, como é natural, tenho em mente os próprios Africanos e todos
aqueles que habitam no Continente; penso, em particular, aos filhos e filhas da
Igreja Católica: Bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas, membros dos
Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, catequistas
e todos aqueles que fazem do serviço aos irmãos o ideal da sua existência.
Desejo confirmá-los na fé (cf. Lc 22,32) e exortá-los a perseverar na
esperança que dá Cristo ressuscitado, vencendo toda a tentação de desânimo.
Plano da
Exortação
8. A
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos examinou a fundo o tema
que lhe fora proposto: « A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo
ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act 1,8) ». Esta
Exortação procurará, consequentemente, seguir de perto o mesmo itinerário.
Começará pelo momento histórico, verdadeiro kairós, em que se realizou o
Sínodo, examinando os objectivos, a preparação, e o desenvolvimento do mesmo.
Deter- -se-á sobre a situação actual da Igreja em África, recordando as
diversas fases de empenhamento missionário. Afrontará, depois, os vários
aspectos da missão evangelizadora, que reclamam particular atenção da
Igreja no momento presente: a evangelização, a inculturação, o diálogo, a
justiça e a paz, os meios de comunicação social. A menção das urgências e
dos desafios, que interpelam a Igreja em África na vigília já do ano
2000, permitirá esboçar as tarefas da testemunha de Cristo em África, em
ordem a um contributo mais eficaz para a edificação do Reino de Deus. Deste
modo será possível, no fim, delinear os compromissos da Igreja em África como
Igreja missionária: uma Igreja de missão que se torna ela própria missionária.
« Vós sereis minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Act 1,8).
CAPÍTULO I
UM
HISTÓRICO MOMENTO ECLESIAL
9. « Esta
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos é um acontecimento
providencial pelo qual devemos dar graças e glorificar o Pai omnipotente e
misericordioso, por seu Filho, no Espírito Santo ».8 Foi com estas palavras,
proferidas durante a primeira Congregação Geral, que os Padres abriram
solenemente a discussão relativa ao tema do Sínodo. Já numa ocasião anterior,
eu mesmo tinha expresso idêntica convicção, reconhecendo que « a Assembleia
Especial é um acontecimento eclesial de primária grandeza para a África, um kairós,
um momento de graça, no qual Deus manifesta a sua salvação. Toda a Igreja é
convidada a viver plenamente este tempo de graça, a aceitar e difundir a Boa
Nova. O esforço de preparação para o Sínodo irá beneficiar não apenas a própria
celebração sinodal, mas redundará já agora em benefício das Igrejas locais
que peregrinam em África, cuja fé e testemunho se reforçam, tornando-se
elas cada vez mais maduras ».9
Profissão
de fé
10. Este
momento de graça concretizou-se, antes de mais, numa solene profissão de fé.
Congregados ao redor do Túmulo de Pedro para a inauguração da Assembleia Especial,
os Padres do Sínodo proclamaram a sua fé, a fé de Pedro que, retorquindo à
pergunta de Cristo « Também vós quereis retirar-vos? », respondeu: « Senhor,
para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos
e sabemos que és o Santo de Deus » (Jo 6,67-69). Os Bispos da África, na
pessoa dos quais a Igreja Católica encontrava naqueles dias uma singular
expressão junto do Túmulo do Apóstolo, reiteraram que criam firmemente que a
omnipotência e a misericórdia do único Deus se manifestaram sobretudo na
Encarnação redentora do Filho de Deus, Filho que é consubstancial ao Pai na
unidade do Espírito Santo, e que, nesta unidade trinitária, recebe em plenitude
glória e honra. Esta — afirmaram os Padres — é a nossa fé, esta é a fé da Igreja,
esta é a fé de todas as Igrejas locais que, disseminadas pelo Continente
Africano, caminham para a casa de Deus.
Esta fé em
Jesus Cristo foi manifestada, de modo constante, forte e unânime, nas
intervenções dos Padres do Sínodo ao longo de toda a Assembleia Especial. Com a
força desta fé, os Bispos da África confiaram o seu Continente a Cristo Senhor,
convictos de que só Ele, com o seu Evangelho e com a sua Igreja, pode salvar a
África das dificuldades actuais e curá-la dos seus numerosos males.10
11. Ao
mesmo tempo, por ocasião da abertura solene da Assembleia Especial, os Bispos
da África proclamaram publicamente a sua fé na « única Igreja de Cristo, que no
Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica ».11 Estes atributos
indicam traços essenciais da Igreja e da sua missão. E ela « não os confere a
si mesma; é Cristo quem, pelo Espírito Santo, dá à sua Igreja ser una, santa,
católica e apostólica, e é ainda Ele quem a chama a realizar cada uma destas
qualidades ».12
Todos
aqueles que tiveram o privilégio de assistir à celebração da Assembleia
Especial para a África, congratularam-se por ver que os católicos africanos
estão a assumir cada vez maiores responsabilidades nas suas Igrejas locais e
esforçam-se por compreender sempre melhor o que significa ser simultaneamente
católico e africano. A celebração da Assembleia Especial manifestou ao mundo
inteiro que, na comunhão eclesial, existem legitimamente as Igrejas locais da
África, que têm o direito de conservar e desenvolver « tradições próprias, sem
detrimento do primado da Cátedra de Pedro, que preside à universal assembleia
da caridade, protege as legítimas diversidades e vigia para que as
particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem ».13
Sínodo de
ressurreição, Sínodo de esperança
12. Por
singular desígnio da Providência, a solene inauguração da Assembleia Especial
para a África do Sínodo dos Bispos teve lugar no segundo Domingo de Páscoa,
isto é, na conclusão da Oitava de Páscoa. Os Padres Sinodais, naquele dia
reunidos na Basílica Vaticana, estavam bem conscientes do facto de a alegria da
sua Igreja brotar do mesmo acontecimento que tinha enchido de júbilo os
corações dos Apóstolos no dia de Páscoa: a ressurreição do Senhor Jesus (cf. Lc
24,40-41). Estavam profundamente conscientes da presença do Senhor
ressuscitado no seu meio, que lhes dizia como aos Apóstolos: « A paz esteja
convosco » (Jo 20,21.26). Eles estavam conscientes da sua promessa de
permanecer com a sua Igreja para sempre (cf. Mt 28,20), e, portanto,
também durante a realização da Assembleia Sinodal. Este clima pascal em que a
Assembleia Especial iniciou os seus trabalhos, com os membros unidos na
celebração da sua fé em Cristo ressuscitado, espontaneamente trazia ao meu
espírito as palavras dirigidas por Jesus ao apóstolo Tomé: « Bem-aventurados os
que, sem terem visto, acreditam! » (Jo 20,29).
13. Foi,
realmente, o Sínodo da ressurreição e da esperança, como declararam, com
alegria e entusiasmo, os Padres Sinodais nas primeiras frases da sua Mensagem,
dirigida ao Povo de Deus. São palavras que de bom grado faço minhas: « Como
Maria Madalena na manhã da ressurreição, como os discípulos de Emaús com o
coração ardente e a mente esclarecida, a Assembleia Especial para a África do
Sínodo dos Bispos proclama: Cristo, nossa esperança, ressuscitou. Ele
alcançou-nos, Ele caminhou connosco. Ele comentou-nos a Escritura; eis aqui
o que Ele nos disse: "Eu sou o Primeiro e o Último, O que vive; Eu estava
morto, mas eis-Me vivo pelos séculos, e Eu detenho as chaves da morte e da
região dos mortos" (Ap 1,17-18). (...) E como S. João em Patmos, em
tempos particularmente difíceis, recebeu profecias de esperança para o Povo de
Deus, nós também anunciamos a esperança. Neste momento mesmo em que tantos
ódios fratricidas, provocados por interesses políticos, dilaceram os nossos
povos, no momento em que o peso da dívida internacional ou da desvalorização da
moeda os oprimem, nós, Bispos da África, juntamente com todos os participantes
neste Santo Sínodo, unidos ao Santo Padre e a todos os nossos Irmãos no
Episcopado que nos elegeram, queremos pronunciar uma palavra de esperança e de
conforto para ti, Família de Deus que estás em África; para ti, Família de Deus
espalhada por todo o mundo: Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos!
».14
14. Exorto
todo o Povo de Deus em África a acolher, com espírito confiante, a mensagem de
esperança que lhes foi dirigida pela Assembleia Sinodal. Durante os seus
debates, os Padres do Sínodo, plenamente conscientes de serem portadores das
expectativas não só dos católicos africanos, mas de todos os homens e mulheres
daquele Continente, afrontaram com clareza os inúmeros males que oprimem a
África de hoje. Exploraram, em toda a sua complexidade e extensão, aquilo que a
Igreja é chamada a realizar para favorecer a mudança desejada, mas fizeram-no
numa atitude livre de pessimismos ou de desespero. Não obstante o panorama
prevalentemente negativo que numerosas regiões da África apresentam hoje, e
apesar das dolorosas experiências que não poucos países atravessam, a Igreja
tem o dever de afirmar vigorosamente que é possível superar estas dificuldades.
Ela deve fortalecer, em todos os Africanos, a esperança numa verdadeira
libertação. A sua confiança está fundada, em última instância, na certeza da
promessa divina que nos assegura que a nossa história não está fechada em si
mesma, mas aberta ao Reino de Deus. Eis porque não se podem justificar o
desespero nem o pessimismo, quando se pensa no futuro da África ou de qualquer
outra parte do mundo.
Colegialidade
afectiva e efectiva
15. Antes
de entrar na explanação dos vários argumentos, queria pôr em relevo como o
Sínodo dos Bispos constitui um instrumento verdadeiramente propício para
favorecer a comunhão eclesial. Quando, quase no final do Concílio Vaticano II,
o Papa Paulo VI, de veneranda memória, instituiu o Sínodo, indicou claramente
que uma das suas finalidades essenciais haveria de ser a de exprimir e
promover, sob a guia do Sucessor de Pedro, a comunhão recíproca dos Bispos
dispersos pelo mundo.15 O princípio subjacente à instituição do Sínodo dos
Bispos é simples: quanto mais firme for a comunhão dos Bispos entre si, tanto
mais rica se revelará a comunhão da própria Igreja no seu conjunto. A Igreja em
África é testemunha da verdade destas palavras, porque fez a experiência do
entusiasmo e dos resultados concretos que acompanharam os preparativos da
Assembleia do Sínodo dos Bispos a ela dedicada.
16. Por
ocasião do meu primeiro encontro com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo
dos Bispos, que se reunira tendo em vista a Assembleia Especial para a África,
indiquei a razão pela qual pareceu oportuno convocar esta Assembleia: a
promoção de « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano
e nas ilhas contíguas ».16 Com esta expressão, pretendia abraçar os intuitos e
objectivos principais para os quais se deveria orientar a dita Assembleia. Para
esclarecer ainda melhor as minhas expectativas, acrescentei que as reflexões
preparatórias da Assembleia deveriam abarcar « todos os aspectos importantes da
vida da Igreja em África e, em particular, deveriam abranger a evangelização, a
inculturação, o diálogo, a solicitude pastoral no campo social e os meios de
comunicação social ».17
17.
Durante as minhas visitas pastorais a África, frequentemente me referi à
Assembleia Especial e aos principais objectivos para que fora convocada. Quando
tomei parte, pela primeira vez em terra africana, numa reunião do Conselho do
Sínodo, não deixei de sublinhar a minha convicção de que uma Assembleia Sinodal
não pode reduzir-se a uma consulta sobre argumentos práticos. A sua verdadeira razão
de ser está no facto de a Igreja não poder crescer senão reforçando a
comunhão entre os seus membros, a começar pelos seus Pastores.18
Cada
Assembleia Sinodal manifesta e desenvolve a solidariedade entre os responsáveis
das Igrejas particulares no cumprimento da sua missão para além dos confins das
respectivas dioceses. Como ensinou o Concílio Vaticano II, « os Bispos, como
legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do colégio episcopal,
considerem-se unidos sempre entre si e mostrem-se solícitos de todas as
Igrejas, pois cada um, por instituição divina e por exigência do múnus
apostólico, é responsável por toda a Igreja, juntamente com os outros Bispos
».19
18. O tema
que confiei à Assembleia Especial — « A Igreja em África e a sua missão
evangelizadora rumo ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act
1,8) » — manifesta o meu desejo de que esta Igreja viva o tempo que falta até
ao Grande Jubileu como um « novo Advento », tempo de expectativa e de
preparação. De facto, considero a preparação para o ano 2000 como uma das
chaves de interpretação do meu Pontificado.20
As
Assembleias Sinodais que se sucederam neste arco de quase trinta anos — as
Assembleias Gerais e as Especiais continentais, regionais ou nacionais —
colocam-se todas nesta perspectiva de preparação do Grande Jubileu. O facto de
a evangelização ser o tema de todas estas Assembleias Sinodais indica quão viva
seja hoje na Igreja a consciência da missão salvífica recebida de Cristo. Esta
tomada de consciência manifesta-se, com singular evidência, nas Exortações
Apostólicas pós-sinodais dedicadas à evangelização, à catequese, à família, à
penitência e à reconciliação na vida da Igreja e da humanidade inteira, à vocação
e missão dos leigos, à formação dos presbíteros.
Em plena
comunhão com a Igreja Universal
19. Desde
o início da preparação da Assembleia Especial que tive bem vivo o desejo,
plenamente compartilhado pelo Conselho da Secretaria Geral, de fazer com que este
Sínodo fosse autêntica e inequivocamente africano. Mas, simultaneamente, era de
importância fundamental que a Assembleia Especial fosse celebrada em plena
comunhão com a Igreja Universal. E, de fa- cto, a Assembleia sempre teve em
consideração a Igreja Universal. Reciprocamente, quando chegou o momento de
publicar os Lineamenta, não deixei de convidar os meus Irmãos no
Episcopado e todo o Povo de Deus, espalhado pelo mundo, a recordarem na oração
a Assembleia Especial para a África e a sentirem-se implicados nas actividades
promovidas em ordem a tal acontecimento.
Esta
Assembleia, como frequentemente tive ocasião de afirmar, reveste uma notável
importância para a Igreja Universal, não só por causa do interesse que a sua
convocação suscitou por todo o lado, mas também pela natureza mesma da comunhão
eclesial, que transcende qualquer fronteira de tempo e espaço. De facto, a
Assembleia Especial inspirou muita oração e boas obras, pelas quais os fiéis e
as comunidades da Igreja nos outros continentes acompanharam o desenrolar do
Sínodo. E como duvidar de que, no mistério da comunhão eclesial, tenham vindo
também em apoio dele as orações dos Santos no Céu?
Quando
estabeleci que a primeira fase dos trabalhos da Assembleia Especial tivesse
lugar em Roma, fi-lo para sublinhar mais eloquentemente ainda a comunhão que
liga a Igreja que está em África à Igreja Universal, de modo a evidenciar o
empenho de todos os fiéis a favor da África.
20. A
solene concelebração eucarística de abertura do Sínodo, que presidi na Basílica
de S. Pedro, pôs em relevo de modo maravilhoso e emocionante a universalidade
da Igreja. Esta universalidade, « que não é uniformidade, mas comunhão de
diferenças compatíveis com o Evangelho »,21 foi vivida por todos os Bispos.
Todos eles, enquanto membros do corpo episcopal que sucede ao Colégio
Apostólico, tinham consciência de terem sido consagrados não só em benefício
duma diocese, mas para a salvação do mundo inteiro.22
Dou graças
a Deus Todo-Poderoso pela ocasião que nos deu de experimentar, por meio da
Assembleia Especial, o que comporta uma autêntica catolicidade. « Em virtude
desta mesma catolicidade, cada uma das partes traz às outras e a toda a Igreja
os seus dons particulares ».23
Uma
mensagem pertinente e credível
21.
Segundo os Padres Sinodais, a questão principal que a Igreja em África deve
enfrentar, consiste em descrever, com toda a clareza possível, aquilo que ela
tem de ser e realizar em plenitude, para que a sua mensagem seja pertinente e
credível.24 Todos os debates na Assembleia fizeram referência a esta exigência,
verdadeiramente essencial e fundamental, um autêntico desafio para a Igreja
em África.
É verdade,
sem dúvida, « que o Espírito Santo é o agente principal de evangelização: é Ele
que impele a anunciar o Evangelho, como é Ele que, no íntimo das consciências,
leva a aceitar a Palavra da salvação ».25 Mas, uma vez reafirmada esta verdade,
a Assembleia Especial quis justamente acrescentar que a evangelização é também
uma missão que o Senhor Jesus confiou à sua Igreja, sob a guia e a força do
Espírito Santo. É necessária a nossa cooperação através da oração fervorosa,
duma grande reflexão, de projectos adequados e da mobilização de todos os
recursos.26
O debate
sinodal sobre o tema da pertinência e credibilidade da mensagem
da Igreja em África não podia deixar de implicar uma reflexão sobre a credibilidade
dos próprios arautos dessa mensagem. Os Padres enfrentaram a questão de
modo directo, com profunda sinceridade, sem qualquer indulgência. Disto se
ocupara já o Papa Paulo VI que, com palavras memoráveis, recordara: « Ouve-se
repetir, com frequência hoje em dia, que este nosso século tem sede de
autenticidade. A propósito dos jovens, sobretudo, afirma-se que eles têm horror
ao fictício, àquilo que é falso, e que procuram, acima de tudo, a verdade e a
transparência. Estes sinais dos tempos deveriam encontrar-nos
vigilantes. Tacitamente ou em altos brados, mas sempre com grande vigor, eles
fazem-nos a pergunta: acreditais verdadeiramente naquilo que anunciais? Viveis
aquilo em que acreditais? Pregais vós verdadeiramente aquilo que viveis? Mais
do que nunca, portanto, o testemunho da vida tornou-se uma condição essencial
para a eficácia profunda da pregação. Sob este ângulo, somos, até certo ponto,
responsáveis pelo avanço do Evangelho que nós proclamamos ».27
Eis
porque, referindo-me à missão evangelizadora da Igreja no campo da justiça e da
paz, afirmei: « A Igreja está consciente, hoje mais que nunca, de que a sua
mensagem social encontrará credibilidade primeiro no testemunho das obras e
só depois na sua coerência e lógica interna ».28
22. Como
não recordar, aqui, que já a oitava Assembleia Plenária do S.C.E.A.M.,
realizada em Lagos, na Nigéria, no ano 1987, tinha examinado, com notável
clareza, a questão da credibilidade e pertinência da mensagem da Igreja em
África?! A referida Assembleia declarara que a credibilidade da Igreja em
África dependia de Bispos e sacerdotes capazes de dar testemunho de uma vida
exemplar, seguindo as pegadas de Cristo; de religiosos realmente fiéis, autênticas
testemunhas pelo seu modo de viver os conselhos evangélicos; de um laicado
dinâmico, com pais profundamente crentes, educadores conscientes das suas
responsabilidades, dirigentes políticos animados de profundo sentido moral.29
Família de
Deus em caminho sinodal
23. No dia
23 de Junho de 1989, dirigindo-me aos membros do Conselho da Secretaria Geral,
falei com grande insistência sobre a participação, na preparação da Assembleia
Especial, de todo o Povo de Deus, a todos os níveis, especialmente em África. «
Se for bem preparada — disse —, a Assembleia do Sínodo permitirá envolver todos
os níveis da comunidade cristã: indivíduos, pequenas comunidades, paróquias,
dioceses e organizações locais, nacionais e internacionais ».30
Desde o
início do meu Pontificado até à inauguração da Assembleia Especial para a
África do Sínodo dos Bispos, pude efectuar dez visitas pastorais ao Continente
Africano, abrangendo trinta e seis nações. Por ocasião das viagens apostólicas
sucessivas à convocação da Assembleia Especial, os temas do Sínodo e da
necessidade de todos os fiéis se prepararem para a Assembleia Sinodal sempre
estiveram presentes, de forma saliente, nos meus encontros com o Povo de Deus
em África. Vali-me também das visitas ad limina dos Bispos daquele
Continente para solicitar a colaboração de todos na preparação da Assembleia
Especial para a África. Além disso, em três diferentes ocasiões, realizei,
junto com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo, sessões de trabalho em
terra africana: em Yamoussoukro na Costa do Marfim (1990), na cidade de
Luanda em Angola (1992), e em Kampala no Uganda (1993), sempre com o objectivo
de convidar os Africanos a tomarem parte activa e unânime na preparação da
Assembleia Sinodal.
24. A
apresentação dos Lineamenta em Lomé, a 25 de Julho de 1990, por ocasião
da nona Assembleia Geral do S.C.E.A.M., constituiu, sem dúvida, uma etapa nova
e importante do caminho preparatório para a Assembleia Especial. Pode-se
justamente afirmar que a publicação dos Lineamenta desencadeou
decididamente os preparativos do Sínodo, em todas as Igrejas particulares da
África. A Assembleia do S.C.E.A.M., em Lomé, adoptou uma Oração pela
Assembleia Especial e pediu que fosse rezada, publica e privadamente, em
todas as paróquias africanas até à celebração do Sínodo. Esta iniciativa do
S.C.E.A.M. foi verdadeiramente feliz e não passou despercebida na Igreja
Universal.
Em
seguida, para favorecer a difusão dos Lineamenta, numerosas Conferências
Episcopais e dioceses fizeram traduzir o documento nas suas línguas, como, por
exemplo, em suaíle, árabe, malgaxe, e outras línguas. « Publicações,
conferências e simpósios sobre os temas do Sínodo foram organizados por
diversas Conferências Episcopais, Institutos de Teologia e Seminários,
Associações de Institutos de Vida Consagrada, dioceses, alguns jornais e
periódicos importantes, Bispos e teólogos ».31
25. Elevo
fervorosas acções de graças a Deus Omnipotente pelo cuidado singular com que
foram redigidos os Lineamenta e o Instrumentum laboris 32 do
Sínodo. Foi um trabalho afrontado e realizado por africanos, Bispos e peritos,
a começar da Comissão Preliminar do Sínodo, nos meses de Janeiro a Março de
1989. A Comissão seria, depois, revezada pelo Conselho da Secretaria Geral da
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, que fora por mim
instituído a 20 de Junho de 1989.
Estou
profundamente grato, ainda, ao grupo de trabalho que tão bem cuidou as
liturgias eucarísticas de abertura e encerramento do Sínodo. Contando entre os
seus membros, teólogos, liturgistas e peritos em cânticos e instrumentos
africanos de expressão litúrgica, o grupo quis, como era desejo meu, fazer com
que aquelas cerimónias fossem marcadas por nítido carácter africano.
26. Agora
devo acrescentar que a resposta dos Africanos ao meu apelo a participarem na
preparação do Sínodo foi verdadeiramente admirável. O acolhimento reservado aos
Lineamenta, tanto dentro como fora das comunidades eclesiais africanas,
superou largamente toda e qualquer previsão. Muitas Igrejas locais serviram-se
dos Lineamenta para mobilizar os fiéis, e podemos, desde já, afirmar com
certeza que os frutos do Sínodo começam a manifestar-se num novo compromisso e
numa renovada tomada de consciência por parte dos cristãos da África.33
Ao longo
das várias fases de preparação da Assembleia Especial, numerosos membros da
Igreja em África — clero, religiosos, religiosas, leigos — inseriram-se de
foram exemplar no itinerário sinodal, « caminhando juntos », pondo cada um os
próprios talentos ao serviço da Igreja e rezando juntos fervorosamente pelo bom
êxito do Sínodo. Mais de uma vez, os Padres do Sínodo assinalaram, ao longo da
Assembleia Sinodal, que o seu trabalho fora facilitado precisamente pela «
preparação solícita e minuciosa deste Sínodo, realizada com o envolvimento
activo da Igreja em África, a todos os níveis ».34
Deus quer
salvar a África
27. O
Apóstolo dos Gentios diz-nos que Deus « quer que todos os homens se salvem e
conheçam a verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os
homens, Jesus Cristo Homem, que Se deu em resgate por todos » (1 Tim 2,4-6).
Uma vez que Deus chama todos os homens a um único e mesmo destino, que é
divino, « devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se
associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido ».35 O amor
redentor de Deus abraça a humanidade inteira: toda a raça, tribo e nação; por
conseguinte, abraça também as populações do Continente Africano. A Providência
divina quis que a África estivesse presente, durante a Paixão de Cristo, na pessoa
de Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a ajudar o Senhor a levar a
Cruz (cf. Mc 15,21).
28. A
liturgia do sexto Domingo de Páscoa de 1994, vivida na solene Celebração
Eucarística da conclusão da Fase de Trabalho da Assembleia Especial, proporcionou-me
a ocasião de desenvolver uma reflexão sobre o desígnio salvífico de Deus a
respeito da África. Uma das leituras bíblicas, tirada dos Actos dos Apóstolos,
evocava um acontecimento que pode ser considerado como o primeiro passo na
missão da Igreja ao encontro dos pagãos: o relato da visita feita por
Pedro, sob o impulso do Espírito Santo, à casa de um pagão, o centurião
Cornélio. Até àquele momento, o Evangelho fora proclamado sobretudo aos
hebreus. Depois de ter hesitado bastante, Pedro, iluminado pelo Espírito,
decidiu ir à casa de um pagão. Chegado lá, teve a alegre surpresa de constatar
o facto de que o centurião esperava Cristo e o Baptismo. O livro dos Actos dos
Apóstolos assim o narra: « Os fiéis circuncisos que tinham vindo com Pedro, ficaram
maravilhados ao verem que o dom do Espírito Santo fora derramado também sobre
os pagãos, pois ouviam-nos falar em línguas e glorificar a Deus » (10,45-46).
Em casa de
Cornélio, reproduziu-se de algum modo o milagre do Pentecostes. Pedro disse
então: « Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que
qualquer nação que O teme e põe em prática a justiça, Lhe é agradável. (...)
Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo
como nós? » (Act 10,34-35.47).
Começou
assim a missão da Igreja ad gentes, da qual Paulo de Tarso se tornará o
principal arauto. Os primeiros missionários chegados ao coração de África
sentiram seguramente uma admiração semelhante à experimentada pelos cristãos
dos tempos apostólicos, perante a efusão do Espírito Santo.
29. O
desígnio que Deus tem de salvar a África, está na origem da difusão da Igreja
neste Continente. Ora, sendo a Igreja, segundo a vontade de Cristo, por sua
natureza missionária, segue- -se daí que a Igreja em África é chamada a assumir
ela própria um papel activo ao serviço do projecto salvador de Deus. Por isso,
disse que « a Igreja em África é Igreja missionária e em missão ».36
A
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos teve a missão de
examinar os meios pelos quais os Africanos poderão realizar melhor o mandato
que o Senhor ressuscitado deu aos seus discípulos: « Ide, pois, ensinai todas
as nações » (Mt 28,19).
CAPÍTULO
II
A IGREJA
EM ÁFRICA
I. Breve
história da evangelização no continente
30. No dia
da abertura da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, primeira
assembleia do género na história, os Padres Sinodais recordaram algumas das
maravilhas operadas por Deus ao longo da evangelização da África. É uma
história que remonta à época do próprio nascimento da Igreja. A difusão do
Evangelho deu-se em diversas fases. Os primeiros séculos do cristianismo viram
a evangelização do Egipto e da África do Norte. Uma segunda fase, envolvendo as
regiões daquele Continente situadas ao sul do Saara, teve lugar nos séculos XV
e XVI. Uma terceira fase, caracterizada por um extraordinário esforço
missionário, teve início no século XIX.
Primeira
fase
31. Numa
mensagem aos Bispos e a todos os povos da África, em ordem à promoção do
bem-estar material e espiritual do Continente, o meu venerado predecessor Paulo
VI recordou, com palavras memoráveis, o glorioso esplendor do passado cristão
da África: « Pensamos nas Igrejas cristãs de África, cuja origem vem dos tempos
apostólicos e está ligada, segundo a tradição, ao nome e ensinamento do
evangelista Marcos. Pensamos no coro inumerável de santos, mártires,
confessores, virgens, que a elas pertencem. Na realidade, desde o século II ao
século IV, a vida cristã, nas regiões setentrionais de África, foi intensíssima
e esteve na vanguarda, tanto do estudo teológico como da expressão literária.
Saltam-nos à memória os nomes dos grandes doutores e escritores, como Orígenes,
Santo Atanásio e S. Cirilo, luminares da Escola Alexandrina; e, na outra
extremidade mediterrânica da África, Tertuliano, S. Cipriano, e sobretudo Santo
Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. Recordemos os
grandes santos do deserto, Paulo, Antão e Pacómio, primeiros fundadores do
monaquismo, que depois havia de difundir-se a seu exemplo, no Oriente e no
Ocidente. E, entre tantos outros, não podemos deixar de mencionar S. Frumêncio,
chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado Bispo por Santo Atanásio, foi o
apóstolo da Etiópia ».37 Durante estes primeiros séculos da Igreja em África,
também algumas mulheres deram testemunho de Cristo. De entre elas, obrigatória
é a menção particular das Santas Felicidade e Perpétua, Santa Mónica, e Santa
Tecla.
« Estes
exemplos luminosos e as figuras dos Santos Papas africanos Vítor I, Melquíades e
Gelásio I, pertencem ao património comum da Igreja; e os escritos dos autores
cristãos da África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento histórico
da salvação, à luz da Palavra de Deus. Ao recordar as antigas glórias da África
cristã, desejaríamos exprimir o nosso profundo respeito pelas Igrejas, com as
quais ainda não estamos em plena comunhão: a Igreja Grega do Patriarcado de
Alexandria, a Igreja Copta do Egipto e a Igreja da Etiópia, que têm em comum
com a Igreja Católica a origem e a herança doutrinal e espiritual dos grandes
santos e Padres da Igreja, não somente da sua terra, mas de toda a Igreja
Antiga. Elas trabalharam e sofreram muito para manter vivo o nome cristão na
África, através das vicissitudes dos tempos ».38 Essas Igrejas dão ainda hoje o
testemunho da vitalidade cristã, que elas recebem das suas raízes apostólicas,
particularmente no Egipto e na Etiópia, e, até ao século XVII, na Núbia. No
resto do Continente, começava então uma nova etapa de evangelização.
Segunda
fase
32. Nos séculos
XV e XVI, a exploração da costa africana pelos portugueses foi rapidamente
acompanhada pela evangelização das regiões da África situadas ao sul do Saara.
Tal esforço incluía, entre outras zonas, as regiões do actual Benin, S. Tomé,
Angola, Moçambique, e Madagáscar.
No dia 7
de Junho de 1992, Domingo de Pentecostes, em Luanda, por ocasião da comemoração
dos 500 anos da evangelização de Angola, entre outras coisas, afirmei: « Os
Actos dos Apóstolos descrevem nominalmente os habitantes dos sítios que tomaram
parte directamente no nascimento da Igreja pelo sopro do Espírito Santo. Eis o
que todos diziam: "Ouvimo-los anunciar em nossas línguas as maravilhas de
Deus" (Act 2,11). Há quinhentos anos, a este coro de línguas
vieram-se juntar os povos de Angola. Naquele instante, na vossa pátria
africana, renovou-se o Pentecostes de Jerusalém. Os vossos antepassados ouviram
a mensagem da Boa Nova, que é a língua do Espírito. Os seus corações acolheram
pela primeira vez esta palavra e inclinaram as suas cabeças nas fontes da água
baptismal, onde o homem, por obra do Espírito Santo, morre junto com Cristo
crucificado e renasce para uma nova vida na sua ressurreição (...). Foi
certamente o mesmo Espírito que impeliu aqueles homens de fé, os primeiros
missionários, que em 1491 aportaram à foz do rio Zaire, em Pinda, iniciando uma
autêntica epopeia missionária. Foi o Espírito Santo, que age a seu modo no
coração de cada homem, que moveu o grande rei do Congo, Nzinga-a-Nkuwu, a pedir
missionários para anunciar o Evangelho. Foi o Espírito Santo que animou a vida
daqueles quatro primeiros cristãos angolanos que, regressados da Europa,
testemunhavam o valor da fé cristã. Depois dos primeiros missionários, muitos
outros vieram de Portugal e de outros países da Europa para continuar, ampliar
e consolidar a obra começada ».39
Durante
esse período, erigiu-se um certo número de sedes episcopais, e uma das
primícias deste empenho missionário foi a sagração de D. Henrique — filho de D.
Afonso I, rei do Congo — como bispo titular de Utica, feita em Roma por Leão X,
no ano 1518. D. Henrique tornou-se assim o primeiro bispo autóctone da África
negra.
Foi por
aquele tempo, mais concretamente no ano 1622, que o meu predecessor Gregório XV
erigiu, de modo estável, a Congregação De Propaganda Fide, com a
finalidade de desenvolver e organizar melhor as missões.
Por
dificuldades de vário género, a segunda fase de evangelização da África
terminou no século XVIII com a extinção de quase todas as missões situadas ao
sul do Saara.
Terceira
fase
33. A
terceira fase de evangelização sistemática da África começou no século XIX,
período caracterizado por um esforço extraordinário, promovido por grandes
apóstolos e animadores da missão africana. Foi um período de rápido
crescimento, como demonstram claramente as estatísticas apresentadas na
Assembleia Sinodal pela Congregação para a Evangelização dos Povos.40 A África
respondeu, com grande generosidade, ao chamamento de Cristo. Nestes últimos
decénios, numerosos países africanos celebraram o primeiro centenário do início
da sua evangelização. O crescimento da Igreja em África, de há cem anos para
cá, constitui verdadeiramente um prodígio da graça de Deus.
A glória e
o esplendor do período contemporâneo da evangelização neste Continente são
ilustrados de forma admirável pelos santos que a África moderna deu à Igreja. O
Papa Paulo VI pôde exprimir eloquentemente esta realidade, quando canonizou os
mártires do Uganda na Basílica de S. Pedro, por ocasião do Dia Mundial das
Missões de 1964: « Estes mártires africanos acrescentam ao álbum dos
vencedores, chamado Martirológio, uma página ao mesmo tempo trágica e
grandiosa, verdadeiramente digna de figurar ao lado das célebres narrações da
África Antiga. (...) A África, orvalhada com o sangue destes mártires, que são
os primeiros desta nova era (e queira Deus que sejam os últimos — tão grande e
precioso é o seu holocausto!), a África renasce livre e resgatada ».41
34. A
lista dos santos que a África dá à Igreja, lista que é o seu maior título de
honra, continua a crescer. Como poderemos deixar de mencionar, entre os mais
recentes, Clementina Anwarite, virgem e mártir do Zaire, que beatifiquei em
terra africana no ano 1985, Vitória Rasoamanarivo de Madagáscar, e Josefina
Bakhita do Sudão, beatificadas também elas durante o meu Pontificado? E como
não recordar o Beato Isídoro Bakanja, mártir do Zaire, que tive o privilégio de
elevar às honras dos altares durante a Assembleia Especial para a África?
« Outras
causas vão maturando. A Igreja em África deve providenciar à redacção do seu
próprio Martirológio, juntando às magníficas figuras dos primeiros séculos
(...) os mártires e os santos das épocas recentes ».42
Defronte
ao crescimento admirável da Igreja em África nos últimos cem anos, diante dos
frutos de santidade que se obtiveram, não há senão uma explicação possível:
tudo isso é dom de Deus, porque nenhum esforço humano teria conseguido realizar
semelhante obra, num período relativamente tão breve. Contudo, não há lugar
para triunfalismos humanos. Lembrando o glorioso esplendor da Igreja neste
Continente, os Padres Sinodais quiseram apenas celebrar as maravilhas operadas
por Deus para a libertação e salvação da África.
« Tudo
isto veio do Senhor,
e é
admirável aos nossos olhos »
(Sal
118117,23).
« O
Todo-Poderoso fez em Mim maravilhas,
Santo é o
seu Nome » (Lc 1,49).
Homenagem
aos missionários
35. O
crescimento esplendoroso e as realizações da Igreja em África devem-se, em
grande parte, à dedicação heróica e desinteressada de gerações de missionários.
Isto todos o reconhecem. A terra abençoada da África está literalmente semeada
de sepulturas de valorosos arautos do Evangelho.
Quando os
Bispos da África se encontraram em Roma para a Assembleia Especial, estavam bem
conscientes da dívida de gratidão que o Continente tem para com os seus
antepassados na fé.
No
discurso dirigido à primeira Assembleia do S.C.E.A.M., em Kampala, no dia 31 de
Julho de 1969, o Papa Paulo VI fez referência a esta dívida de gratidão: « Vós,
Africanos, sois já os missionários de vós mesmos. A Igreja de Cristo está
verdadeiramente plantada nesta terra abençoada (cf. Decr. Ad gentes, 6).
Temos um dever a cumprir: devemos evocar a lembrança daqueles que em África,
antes de vós e ainda hoje convosco, pregaram o Evangelho, como nos adverte a
Sagrada Escritura: "Lembrai-vos daqueles que vos pregaram a palavra de
Deus, considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé" (Heb
13,7). É uma história que não devemos esquecer, porque confere à Igreja local a
nota da sua autenticidade e nobreza — a nota "apostólica"; essa
história é um drama de caridade, de heroísmo, de sacrifício, que faz grande e
santa, desde as origens, a Igreja africana »43
36. A
Assembleia Especial satisfez condignamente esta dívida de gratidão, por ocasião
da sua primeira Congregação Geral, quando declarou: « Cabe aqui prestar uma
vibrante homenagem aos missionários, homens e mulheres de todos os
Institutos Religiosos e Seculares, bem como a todos os países que, durante os
cerca de 2000 anos de evangelização do Continente Africano, (...) se entregaram
devotadamente à transmissão da chama da fé cristã. (...) Eis porque nós,
felizes herdeiros dessa aventura maravilhosa, devemos dar graças a Deus, numa
circunstância tão solene como esta ».44
Na Mensagem
ao Povo de Deus, os Padres Sinodais renovaram com vigor a homenagem aos
missionários, sem esquecerem de prestar homenagem também aos filhos e filhas da
África, especialmente aos catequistas e aos intérpretes, que colaboraram com
eles.45
37. Devido
à grande epopeia missionária de que foi palco o Continente Africano, sobretudo
durante os últimos dois séculos, é que pudemos encontrar-nos em Roma para
celebrar a Assembleia Especial para a África. A semente, que a seu tempo foi
lançada, produziu frutos abundantes. Os meus Irmãos no Episcopado, filhos dos
povos da África, são disso mesmo um testemunho eloquente. Juntamente com os
seus presbíteros, carregam já sobre os ombros grande parte do trabalho de
evangelização. Atestam-no também os numerosos filhos e filhas da África, que
aderem às antigas Congregações missionárias ou entram nos novos Institutos
nascidos em terra africana, recolhendo em suas mãos a chama da consagração
total ao serviço de Deus e do Evangelho.
Radicação
e crescimento da Igreja
38. O
facto de o número dos católicos em África, no espaço de quase dois séculos, ter
crescido tão rapidamente, constitui por si mesmo um resultado notável sob
qualquer ponto de vista. De modo particular, confirmam a consolidação da Igreja
no Continente elementos como o sensível e rápido aumento do número das circunscrições
eclesiásticas, o crescimento do clero autóctone, dos seminaristas e dos
candidatos nos Institutos de Vida Consagrada, a progressiva extensão da rede
dos catequistas, cujo contributo para a difusão do Evangelho entre as
populações africanas é bem conhecido de todos. Fundamental relevo tem, enfim, a
alta percentagem de Bispos nativos que compõem já a Hierarquia no Continente.
Os Padres
Sinodais registaram numerosos e significativos passos, realizados pela Igreja
em África nos campos da inculturação e do diálogo ecuménico.46 As notáveis e
meritórias realizações no campo da educação são universalmente reconhecidas.
Embora os
católicos representem apenas catorze por cento da população africana, as
instituições católicas no campo da saúde representam dezassete por cento do
total das estruturas sanitárias de todo o Continente.
As
iniciativas, corajosamente empreendidas pelas jovens Igrejas da África para
levar o Evangelho « até aos confins do mundo » (Act 1,8), são
seguramente dignas de realce. Os Institutos missionários surgidos em África têm
crescido numericamente e começaram já a fornecer pessoal não só para os países
do Continente, mas ainda para outras regiões da terra. Sacerdotes diocesanos de
África, cujo número está lentamente a crescer, começam a ficar disponíveis por
períodos limitados, como presbíteros fidei donum que vão trabalhar
noutras dioceses pobres de pessoal, na própria nação ou fora. As províncias
africanas dos Institutos Religiosos de direito pontifício, tanto masculinos
como femininos, viram também elas aumentar os seus membros. Deste modo, a
Igreja coloca-se ao serviço dos povos africanos; além disso, ela aceita entrar
no « intercâmbio de dons » com outras Igrejas particulares no âmbito alargado
do Povo de Deus. Tudo isto manifesta, de modo tangível, a maturidade alcançada
pela Igreja em África: foi isto que tornou possível a celebração da Assembleia
Especial do Sínodo dos Bispos.
Como se
apresenta a África?
39. Há
pouco menos de trinta anos, vários países africanos tornavam-se independentes
das potências coloniais. Isto suscitou grandes expectativas no que respeita ao
progresso político, económico, social e cultural daqueles povos. Apesar de, «
nalguns países, a situação interna não se ter ainda infelizmente consolidado e
a violência ter tido muitas vezes o predomínio, não se pode admitir uma
condenação geral que envolva todo um povo ou toda uma nação, pior ainda, todo
um continente ».47
40. Mas
qual é, hoje, a situação real do Continente Africano no seu todo, sobretudo do
ponto de vista da missão evangelizadora da Igreja? A este propósito, os Padres
Sinodais começaram por colocar uma pergunta: « Num continente saturado de más
notícias, como poderá a mensagem cristã ser "Boa Nova" para o nosso
povo? No meio do desespero que tudo invade, onde estão a esperança e o
optimismo que o Evangelho oferece? A evangelização promove muitos dos valores
essenciais que tanta falta fazem ao nosso continente: esperança, paz, alegria,
harmonia, amor e unidade ».48
Depois de
terem justamente sublinhado que a África é um imenso continente com situações
muito diversas, pelo que é preciso evitar generalizações tanto na avaliação dos
problemas como ao sugerir soluções, a Assembleia Sinodal, com pena, teve de
constatar: « Uma situação comum é, sem dúvida, o facto da África estar saturada
de problemas: em quase todas as nossas nações existem condições de miséria
espantosa, má administração dos poucos recursos disponíveis, instabilidade
política e desorientação social. O resultado está à vista: desolação, guerras e
desespero. Num mundo controlado pelas nações ricas e poderosas, a África
tornou-se praticamente um apêndice sem importância, muitas vezes esquecida e
abandonada por todos ».49
41.
Segundo muitos Padres Sinodais, a África actual pode ser comparada àquele homem
que descia de Jerusalém para Jericó; ele cai nas mãos dos salteadores que,
depois de o despojarem e encherem de pancada, o abandonaram, deixando-o meio
morto (cf. Lc 10,30-37). A África é um continente onde inumeráveis seres
humanos — homens e mulheres, crianças e jovens — jazem, de algum modo,
prostrados à margem da estrada, doentes, feridos, indefesos, marginalizados e
abandonados. Têm extrema necessidade de bons Samaritanos que venham em sua
ajuda.
Eu faço
votos de que a Igreja continue paciente e incansavelmente a sua obra de bom
Samaritano. Na verdade, regimes, hoje desaparecidos, sujeitaram, durante um
longo período, os Africanos a dura prova, enfraquecendo a sua capacidade de
reacção: o homem ferido deve recobrar todos os recursos da sua humanidade. Os
filhos e filhas de África têm necessidade de presença respeitadora e de
solicitude pastoral, que os ajude a retomarem as suas próprias energias para
colocá-las ao serviço do bem comum.
Valores
positivos da cultura africana
42. Apesar
das suas grandes riquezas naturais, a África permanece numa situação económica
de pobreza. Possui, todavia, uma rica variedade de valores culturais e de
inestimáveis qualidades humanas, que pode oferecer às Igrejas e à humanidade
inteira. Os Padres Sinodais puseram em evidência alguns desses valores
culturais, que constituem seguramente uma preparação providencial à transmissão
do Evangelho; são valores que podem favorecer uma evolução positiva na
dramática situação do Continente, e dar início àquela reanimação global de que
depende o desejado progresso das diversas nações.
Os
Africanos têm um profundo sentido religioso, o sentido do sagrado, o sentido da
existência de Deus criador e de um mundo espiritual. A realidade do pecado, nas
suas formas individuais e sociais, é bem percebida pela consciência daqueles
povos, como sentida é também a necessidade de ritos de purificação e expiação.
43. Na
cultura e na tradição africana, o papel da família é considerado por todo o
lado como fundamental. Aberto a este sentido da família, do amor e respeito
pela vida, o africano ama os filhos, que são recebidos alegremente como um dom
de Deus. « Os filhos e filhas de África amam a vida. É precisamente o
amor pela vida que os leva a atribuir tão grande importância à veneração dos
antepassados. Eles crêem instintivamente que os mortos continuam a viver e
permanecem em comunhão com eles. Não é isto, de algum modo, uma preparação à
fé na comunhão dos Santos?! Os povos da África respeitam a vida desde que é
concebida até nascer. Alegram-se com esta vida. Rejeitam a ideia de que ela
possa ser aniquilada, mesmo quando a isso quereriam induzi-los as chamadas
"civilizações avançadas". E as práticas hostis à vida são-lhes
impostas por meio de sistemas económicos ao serviço do egoísmo dos ricos ».50
Os Africanos demonstram respeito pela vida até ao seu termo natural, e reservam
um lugar no seio da família para os anciãos e os parentes.
As
culturas africanas têm um sentido muito vivo da solidariedade e da vida
comunitária. Em África, não se concebe uma festa que não seja compartilhada por
toda a povoação. De facto, a vida comunitária nas sociedades africanas é
expressão da família alargada. Com votos ardentes, rezo — e peço para rezarem —
a fim de que a África conserve sempre esta preciosa herança cultural e para que
não sucumba nunca à tentação do individualismo, tão estranho às suas melhores
tradições.
Algumas
opções dos povos africanos
44. Sem
minimizar de forma alguma os aspectos trágicos da situação africana, atrás
evocados, vale a pena lembrar aqui algumas realizações positivas dos povos do
Continente, que merecem ser louvadas e encorajadas. Na sua Mensagem ao
Povo de Deus, os Padres Sinodais recordaram com alegria, por exemplo, a
instauração do processo democrático em muitos países africanos, e fizeram votos
de que tal se consolide, e sejam rapidamente afastados os obstáculos e
resistências ao Estado de direito, graças à colaboração de todos os
protagonistas e ao seu sentido do bem comum.51
Os «
ventos de mudança » sopram vigorosamente em muitos lugares do Continente, e o
povo pede, com insistência cada vez maior, o reconhecimento e a promoção dos
direitos e liberdades do homem. A tal propósito, assinalo com satisfação que a
Igreja em África, fiel à sua vocação, se coloca decididamente ao lado dos oprimidos,
dos povos sem voz e marginalizados. Encorajo-a firmemente a que continue a
prestar tal testemunho. A opção preferencial pelos pobres é « uma forma
especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a
tradição da Igreja. (...) A estimulante preocupação pelos pobres — os quais,
segundo a fórmula significativa, são "os pobres do Senhor" — deve
traduzir-se, a todos os níveis, em actos concretos até chegar decididamente a
uma série de reformas necessárias ».52
45. Não
obstante a sua pobreza e os poucos meios de que dispõe, a Igreja em África
reveste um papel de primeiro plano no que respeita ao desenvolvimento humano
integral; as suas notáveis realizações neste campo gozam frequentemente do
reconhecimento dos Governos e dos peritos internacionais.
A
Assembleia Especial para a África exprimiu profunda gratidão a « todos os
cristãos e a todos os homens de boa vontade que trabalham, nos campos da
assistência e da promoção, com a nossa Cáritas ou as nossas organizações
de desenvolvimento ».53 A assistência que eles, como bons Samaritanos, dão às
vítimas africanas das guerras e catástrofes, aos refugiados e deslocados,
merece admiração, reconhecimento e apoio da parte de todos.
Por fim,
tenho de exprimir viva gratidão à Igreja em África pelo papel que ela
desempenhou, ao longo dos anos, a favor da paz e da reconciliação, em numerosas
situações de conflito, perturbação política ou guerra civil.
II.
Problemas actuais da Igreja em África
46. Os
Bispos da África têm pela frente duas questões essenciais: como há-de a Igreja
levar por diante a sua missão evangelizadora neste aproximar-se do ano 2000?
Como poderão os cristãos africanos tornar-se testemunhas cada vez mais fiéis do
Senhor Jesus? Para oferecer respostas adequadas a tais questões, os Bispos,
antes e durante a Assembleia Especial, passaram em revista os principais
desafios que a comunidade eclesial africana tem hoje de enfrentar.
Evangelização
em profundidade
47. O
primeiro e fundamental dado, posto em evidência pelos Padres Sinodais, é a sede
de Deus dos povos africanos. Para não desiludirem semelhante expectativa, os
membros da Igreja devem, antes de mais nada, aprofundar a sua fé.54 Com efeito,
a Igreja, precisamente porque é evangelizadora, deve « começar por se
evangelizar a si mesma ».55 Importa que ela assuma o desafio contido neste «
mesmo tema: a Igreja que se evangeliza por uma conversão e uma renovação
constante, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade ».56
O Sínodo
assinalou a urgência de proclamar a Boa Nova, na África, a milhões de pessoas
ainda não evangelizadas. Certamente a Igreja respeita e estima as religiões não
cristãs, professadas por tantas e tantas pessoas no Continente Africano, pois
elas constituem a expressão viva da alma de largos sectores da população; todavia
« nem o respeito e a estima para com essas religiões, nem a complexidade dos
problemas levantados são para a Igreja um motivo para ela calar, diante dos não
cristãos, o anúncio de Jesus Cristo. Pelo contrário, ela pensa que essas
multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo (cf. Ef
3,8), nas quais nós acreditamos que toda a humanidade pode encontrar, numa
plenitude inimaginável, tudo aquilo que ela às apalpadelas procura a respeito
de Deus, do homem, do seu destino, da vida e da morte, da verdade ».57
48. Com
razão, afirmam os Padres Sinodais que « o profundo interesse por uma
inculturação verdadeira e equilibrada do Evangelho se torna necessário para
evitar a confusão e a alienação na nossa sociedade, a braços com uma rápida evolução
».58 Durante a visita ao Malawi, eu mesmo tive ocasião de dizer: «
Proponho-vos hoje um desafio — o desafio a rejeitardes um modo de viver que
não corresponda às vossas melhores tradições locais e à vossa fé cristã. Muitos
na África olham para além da África, para a chamada "liberdade do modo
moderno de viver". Hoje exorto-vos calorosamente a olhar para vós
mesmos. Vede as riquezas das vossas tradições, olhai a fé que celebramos
nesta Assembleia. Haveis de encontrar aqui a liberdade genuína; aqui encontrareis
Cristo que vos guiará para a verdade ».59
Superação
das divisões
49. Outro
desafio, evidenciado pelos Padres Sinodais, refere-se às diversas formas de
divisão, que se hão-de resolver com a prática sincera do diálogo.60 Justamente
foi assinalado que a coexistência de grupos étnicos, tradições, línguas e mesmo
religiões diversas, dentro das fronteiras herdadas das potências coloniais,
encontra frequentemente obstáculos, devido a graves hostilidades recíprocas. «
As oposições tribais põem por vezes em perigo se não a paz, pelo menos a
consecução do bem comum da sociedade no seu conjunto, e criam também
dificuldades para a vida das Igrejas e o acolhimento dos Pastores de outras
etnias ».61 Eis porque a Igreja em África se sente interpelada pelo preciso dever
de reduzir tais fracturas. Também sob este ponto de vista, a Assembleia
Especial sublinhou a importância do diálogo ecuménico com as outras Igrejas e
comunidades eclesiais, e ainda do diálogo com a religião tradicional africana e
com o islamismo. Os Padres interrogaram-se, ainda, sobre os meios possíveis
para alcançar essa meta.
Matrimónio
e vocações
50. Um
desafio importante, sublinhado quase unanimamente pelas Conferências Episcopais
da África nas respostas aos Lineamenta, concerne ao matrimónio cristão e
à vida familiar.62 A importância do valor em causa é altíssima: de facto, « o
futuro do mundo e da Igreja passa através da família ».63
Outra
tarefa fundamental, que a Assembleia Especial pôs em evidência, é o cuidado
pelas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada: importa discerni-las com
sabedoria, fazê-las acompanhar por formadores capazes, controlar a qualidade da
formação oferecida. Da solicitude empregue na solução deste problema, depende a
realização da esperança de um florescimento de vocações missionárias africanas,
à medida das exigências do anúncio do Evangelho em toda a parte do Continente e
ainda para além dos seus confins.
Dificuldades
sócio-políticas
51. « Na
África, a necessidade de aplicar o Evangelho à vida concreta é muito sentida.
Como se poderia anunciar Cristo naquele imenso continente, esquecendo que é uma
das áreas mais pobres do mundo? Como se poderia deixar de ter em consideração a
história feita de sofrimentos de uma terra, onde muitas nações se debatem ainda
hoje com a fome, a guerra, as tensões raciais e tribais, a instabilidade
política e a violação dos direitos humanos? Tudo isto constitui um desafio para
a evangelização ».64
Todos os
documentos preparatórios, bem como os debates no decorrer da Assembleia,
puseram largamente em evidência o facto de fazerem parte dos desafios
fundamentais examinados pelo Sínodo questões como o aumento da pobreza em
África, a urbanização, a dívida internacional, o comércio das armas, o problema
dos refugiados e deslocados, os problemas demográficos e as ameaças que pesam
sobre a família, a emancipação das mulheres, a propagação da SIDA, a
sobrevivência em alguns lugares da prática da escravatura, o etnocentrismo e as
oposições tribais.
Intromissão
dos mass-media
52. Por
fim, a Assembleia Especial ocupou-se dos meios de comunicação social — questão
de enorme importância, dado que se trata simultaneamente de instrumentos de
evangelização e de meios de difusão de uma nova cultura que precisa de ser
evangelizada.65 Os Padres Sinodais constataram a triste realidade de que « os
países em vias de desenvolvimento, em vez de se transformarem em nações
autónomas, preocupadas com a própria caminhada para a justa participação nos
bens e nos serviços destinados a todos, tornam-se peças de um mecanismo, partes
de uma engrenagem gigantesca. Isto verifica-se com frequência também no domínio
dos meios de comunicação social, os quais, sendo na sua maior parte geridos por
centros situados na parte norte do mundo, nem sempre têm na devida conta as
prioridades e os problemas próprios desses países e não respeitam a sua
fisionomia cultural; e não é raro eles imporem, pelo contrário, uma visão
deformada da vida e do homem, deixando assim de corresponderem às exigências do
verdadeiro desenvolvimento ».66
III.
Formação dos obreiros da evangelização
53. Com
que recursos conseguirá a Igreja em África responder aos desafios agora
mencionados? « O mais importante recurso, depois da graça de Cristo, é o seu
povo. O Povo de Deus — tomado no sentido teológico da Lumen gentium, um
povo que abrange os membros do Corpo de Cristo na sua totalidade — recebeu o
mandato, que é ao mesmo tempo uma honra e um dever, de proclamar a mensagem
evangélica. (...) A comunidade inteira precisa de ser preparada, motivada e
reforçada em ordem à evangelização, cada qual segundo a sua função específica
no seio da Igreja ».67 Por isso, o Sínodo pôs fortemente a tónica sobre a
formação dos obreiros da evangelização em África. Lembrei já a necessidade da
formação condigna dos candidatos ao sacerdócio e de quantos são chamados à vida
consagrada. A Assembleia prestou a devida atenção também à formação dos fiéis
leigos, reconhecendo o seu papel insubstituível na evangelização da África. Em
particular e justamente, acentuou-se a formação dos catequistas leigos.
54.
Impõe-se aqui uma última pergunta: a Igreja em África formou suficientemente os
leigos para assumirem, com competência, as suas responsabilidades civis e para
considerarem os problemas de ordem sócio-política à luz do Evangelho e da fé em
Deus? Este é seguramente um dever que interpela os cristãos: exercer sobre o
tecido social uma influência que leve a transformar não só as mentalidades, mas
também as próprias estruturas da sociedade, de modo que aí se espelhem melhor
os desígnios de Deus acerca da família humana. Por isso mesmo, invoquei para os
leigos uma formação completa que os ajude a levar uma vida plenamente coerente.
A fé, a esperança e a caridade não podem deixar de orientar o comportamento do
autêntico discípulo de Cristo, em toda a sua actividade, situação e
responsabilidade. Visto que evangelizar significa « levar a Boa Nova a todas as
parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo
transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade »,68 os
cristãos devem ser formados para viver as implicações sociais do Evangelho, de
tal modo que o seu testemunho se torne um desafio profético perante tudo aquilo
que lese o verdadeiro bem dos homens e mulheres da África ou de qualquer outro
continente.
CAPÍTULO
III
EVANGELIZAÇÃO
E INCULTURAÇÃO
Missão da
Igreja
55. « Ide
pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura » (Mc 16,15):
tal é o mandato que Jesus ressuscitado, antes de subir ao Pai, deixou aos
Apóstolos. « E eles, partindo, foram pregar por toda a parte » (Mc 16,20).
« A tarefa
de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja. (...)
Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a
sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar ».69 Nascida da
acção evangelizadora de Jesus e dos Doze, a Igreja é, por sua vez, «
depositária da Boa Nova que há-de ser anunciada (...). A Igreja começa por se
evangelizar a si mesma ». Depois, « a própria Igreja envia evangelizadores. É
ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva ».70 Como o Apóstolo dos
Gentios, a Igreja pode dizer: « Se anuncio o Evangelho (...), é uma obrigação
que me foi imposta: ai de mim se não evangelizar! » (1 Cor 9,16).
A Igreja
anuncia a Boa Nova não só através da proclamação da palavra que recebeu
do Senhor, mas também mediante o testemunho de vida, pelo qual os
discípulos de Cristo dão razão da fé, da esperança e do amor que neles existe
(cf. 1 Ped 3,15).
Este
testemunho que o cristão presta a Cristo e ao Evangelho pode ir até ao sacrifício
supremo: o martírio (cf. Mc 8,35). Na verdade, a Igreja e o cristão
anunciam Aquele que é « sinal de contradição » (Lc 2,34). Proclamam «
Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios » (1
Cor 1,23). Como já disse atrás, para além dos mártires ilustres dos
primeiros séculos, a África pode gloriar-se dos seus mártires e santos da época
moderna.
A
evangelização tem como finalidade « transformar a partir de dentro e tornar
nova a própria humanidade ».71 No Filho Unigénito e por meio d'Ele, serão
renovadas as relações dos homens com Deus, com os outros homens, e com toda a
criação. Por isso, o anúncio do Evangelho pode contribuir para a transformação
interior de todas as pessoas de boa vontade, que têm o coração aberto à acção do
Espírito Santo.
56.
Testemunhar o Evangelho com a palavra e as obras: eis a incumbência que a
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos recebeu e que agora
transmite à Igreja do Continente. « Vós sereis minhas testemunhas » (Act 1,8):
o que está em jogo é isto; e estes hão-de ser os frutos do Sínodo em cada
âmbito da vida humana em África.
Nascida da
pregação de corajosos Bispos e sacerdotes missionários, eficazmente ajudados
pelos catequistas — « esse exército com tantos méritos na obra das missões
entre pagãos »72 —, a Igreja em África, terra que se tornou « nova pátria de
Cristo »,73 é já responsável pela missão no Continente e no mundo: « Africanos,
vós sois já missionários de vós mesmos » — disse em Kampala o meu predecessor
Paulo VI.74 Dado que a grande maioria dos habitantes do Continente Africano não
recebeu ainda o anúncio da Boa Nova da salvação, o Sínodo recomenda que sejam
estimuladas as vocações missionárias e pede que seja favorecida e activamente
apoiada a oferta de orações, sacrifícios e ajudas concretas a favor do trabalho
missionário da Igreja.75
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57. « O
Sínodo recorda que evangelizar é anunciar, pela palavra e pela vida, a Boa Nova
de Jesus Cristo, crucificado, morto e ressuscitado, caminho, verdade e vida
».76 À África oprimida por todo o lado por gérmens de ódio e violência, por
conflitos e guerras, os evangelizadores devem proclamar a esperança da vida,
radicada no mistério pascal. Precisamente quando a sua vida parecia,
humanamente falando, condenada à derrota, é que Jesus instituiu a Eucaristia, «
penhor da futura glória »,77 para perpetuar no tempo e no espaço a sua vitória
sobre a morte. Por isso mesmo, a Assembleia Especial para a África, neste
período em que o Continente Africano, sob determinados aspectos, se encontra em
condições críticas, quis apresentar-se como « Sínodo da ressurreição, Sínodo
da esperança (...): Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos!
».78 A África não está votada à morte, mas destinada à vida!
É
necessário, portanto, « que a nova evangelização seja centrada no encontro com a
pessoa viva de Cristo ».79 « O primeiro anúncio deve ter como meta levar a
fazer a experiência inquietante e encantadora de Jesus Cristo, que chama e
arrasta atrás de Si numa aventura de fé ».80 Tarefa esta, singularmente
facilitada pelo facto de que « o Africano crê em Deus criador a partir da sua
vida e da sua religião tradicional. E assim está aberto também à plena e
definitiva revelação de Deus em Jesus Cristo, o Deus-connosco, a Palavra feita
carne. Jesus, a Boa Nova, é Deus que salva o Africano (...) da opressão e da
escravatura ».81
A
evangelização deve atingir « o homem e a sociedade em todos os níveis da sua
existência. Aquela exprime-se, portanto, em actividades diversas, nomeadamente
nas que foram tomadas especificamente em consideração pelo Sínodo: anúncio,
inculturação, diálogo, justiça e paz, meios de comunicação social ».82
Para que
esta missão tenha êxito pleno, é preciso fazer com que, « na evangelização,
seja persistente o recurso ao Espírito Santo, de forma que se realize um
contínuo Pentecostes, onde Maria, como no primeiro Pentecostes, tenha o seu
lugar ».83 Com efeito, a força do Espírito Santo guia a Igreja para a verdade
total (cf. Jo 16,13), e fá-la ir ao encontro do mundo para testemunhar Cristo
com resoluta firmeza.
58. A
palavra que sai da boca de Deus é viva e eficaz, e nunca volta a Ele sem ter
produzido o seu efeito (cf. Is 55,11; Heb 4,12-13). Portanto, é
preciso proclamá-la sem cessar, insistir « oportuna e inoportunamente (...),
com bondade e doutrina » (2 Tim 4,2). Confiada primariamente à Igreja, a
Palavra de Deus escrita « não é de interpretação particular » (2 Ped 1,20);
compete à Igreja oferecer a sua autêntica interpretação.84
Para fazer
com que a Palavra de Deus seja conhecida, amada, meditada e conservada no
coração dos fiéis (cf. Lc 2,19.51), é necessário intensificar os
esforços para facilitar o acesso à Sagrada Escritura, sobretudo através de
traduções integrais ou parciais da Bíblia, feitas na medida do possível em
colaboração com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais e acompanhadas por
indicações de leituras para a oração, o estudo em família ou em comunidade.
Além disso, há que promover a formação bíblica dos membros do clero, dos
religiosos, dos catequistas, e dos próprios leigos em geral; predispor
adequadas Celebrações da Palavra; favorecer o apostolado bíblico, com a ajuda
do Centro Bíblico para a África e Madagáscar e de outras estruturas idênticas
que hão-de ser encorajadas a todo o nível. Em resumo, dever-se-á procurar
colocar a Sagrada Escritura na mão de todos os fiéis, logo desde a sua
infância.85
Urgência e
necessidade da inculturação
59. Os
Padres Sinodais sublinharam, mais de uma vez, a importância particular que
reveste para a evangelização a inculturação, ou seja, aquele processo pelo qual
« o ensinamento catequético "se encarna" nas diferentes
culturas ».86 A inculturação compreende uma dupla dimensão: por um lado, « a
íntima transformação dos valores culturais autênticos pela sua integração no
cristianismo » e, por outro, « o enraizamento do cristianismo nas várias
culturas ».87 O Sínodo considera a inculturação uma prioridade e uma urgência
na vida das Igrejas particulares, para a real radicação do Evangelho em
África,88 « uma exigência da evangelização »,89 « uma caminhada rumo a uma
plena evangelização »,90 um dos maiores desafios para a Igreja no Continente ao
avizinhar-se do terceiro milénio.91
Fundamentos
teológicos
60. « Ao
chegar a plenitude dos tempos » (Gal 4,4), o Verbo, segunda Pessoa da
Santíssima Trindade, Filho unigénito de Deus, « encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria, e Se fez homem ».92 É o sublime mistério da Encarnação
do Verbo, um mistério que teve lugar na história: em circunstâncias de
tempo e lugar bem definidas, no seio de um povo com a sua própria cultura, que
Deus tinha escolhido e acompanhado ao longo da história da salvação com o fim
de mostrar naquilo que por ele realizava, quanto pretendia fazer por todo o
género humano.
Prova
evidente do amor de Deus pelos homens (cf. Rm 5,8), Jesus Cristo, com a
sua vida, com a Boa Nova anunciada aos pobres, com a paixão, morte e gloriosa
ressurreição, realizou a remissão dos nossos pecados e a nossa reconciliação
com Deus, seu Pai e, graças a Ele, nosso Pai. A Palavra que a Igreja anuncia, é
precisamente o Verbo de Deus feito homem, Ele mesmo sujeito e objecto dessa
Palavra. A Boa Nova é Jesus Cristo.
Tal como «
o Verbo Se fez carne e veio habitar entre nós » (Jo 1,14), assim
também a Boa Nova, a palavra de Jesus Cristo anunciada às nações, deve
entranhar-se no ambiente de vida dos seus ouvintes. A inculturação é
precisamente esta inserção da mensagem evangélica nas culturas.93 Com efeito, a
encarnação do Filho de Deus, exactamente porque integral e concreta,94 foi
também encarnação numa cultura específica.
61. Dada a
estreita e orgânica relação que existe entre Jesus Cristo e a palavra que a
Igreja anuncia, a inculturação da mensagem revelada não poderá deixar de seguir
a « lógica » própria do mistério da Redenção. Com efeito, a Encarnação
do Verbo não constitui um momento isolado, mas tende para « a Hora » de Jesus e
o mistério pascal: « Se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, fica ele
só; mas, se morrer, dá muito fruto » (Jo 12,24). « Eu – disse Jesus –
quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim » (Jo 12,32). Este
auto-despojamento, esta kenosi que é necessária para a exaltação —
itinerário de Jesus e de cada um dos seus discípulos (cf. Flp 2,6-9) — é
esclarecedora para o encontro das culturas com Cristo e o seu Evangelho. «
Cada cultura tem necessidade de ser transfigurada pelos valores do Evangelho à
luz do mistério da Páscoa ».95
À luz do
mistério da Encarnação e da Redenção é que se deve realizar o discernimento dos
valores e contra-valores das culturas. Tal como o Verbo de Deus Se tornou
semelhante a nós em tudo, excepto no pecado, assim a inculturação da Boa Nova
assume todos os valores humanos autênticos, purificando-os do pecado e
restituindo-os ao seu significado pleno.
A
inculturação mantém ainda laços profundos com o mistério do Pentecostes. Graças
à efusão e à acção do Espírito que unifica dons e talentos, todos os povos da
terra, ao entrarem na Igreja, vivem um novo Pentecostes, professam em sua
língua a única fé em Jesus Cristo e proclamam as maravilhas que o Senhor neles
operou. O Espírito, que já no plano natural é fonte originária da sabedoria dos
povos, guia com uma iluminação sobrenatural a Igreja para o conhecimento da
Verdade total. Por sua vez, a Igreja, assumindo os valores das diversas culturas,
torna-se sponsa ornata monilibus suis, a noiva que se adorna com suas
jóias (cf. Is 61,10).
Critérios
e âmbitos da inculturação
62.
Trata-se de uma tarefa difícil e delicada, porque está em causa a fidelidade da
Igreja ao Evangelho e à Tradição Apostólica, na evolução constante das
culturas. Por isso, justamente observaram os Padres Sinodais: « Perante as
rápidas transformações culturais, sociais, económicas e políticas, as nossas
Igrejas locais deverão trabalhar num processo de inculturação sempre renovado,
respeitando os dois critérios seguintes: a compatibilidade com a mensagem
cristã e a comunhão com a Igreja Universal. (...) Em todo o caso, ter-se-á o
cuidado de evitar qualquer sincretismo ».96
« Enquanto
caminhada rumo a uma plena evangelização, a inculturação quer colocar o homem
em condições de acolher Jesus Cristo na integridade do próprio ser pessoal,
cultural, económico e político, de maneira que ele possa viver uma vida santa,
em total união com Deus Pai, sob a acção do Espírito Santo ».97
Ao dar
graças a Deus pelos frutos que os esforços de inculturação já trouxeram à vida
das Igrejas do Continente, particularmente às antigas Igrejas Orientais de
África, o Sínodo recomendou « aos Bispos e às Conferências Episcopais terem
presente que a inculturação engloba todos os domínios da vida da Igreja e da
evangelização: teologia, liturgia, vida e estruturas da Igreja. Tudo isto
realça a necessidade da investigação no domínio das culturas africanas em toda
a sua complexidade ». Por isso mesmo, o Sínodo convidou os Pastores « a
explorarem ao máximo as inúmeras possibilidades que a disciplina actual da
Igreja já oferece a este propósito ».98
Igreja
como Família de Deus
63. O
Sínodo não se limitou a falar da inculturação, mas aplicou-a concretamente
também, assumindo como ideia-chave para a evangelização da África, a noção de Igreja
como Família de Deus.99 Nela reconheceram os Padres Sinodais uma
expressão da natureza da Igreja, particularmente apropriada para a África. Com
efeito, a imagem acentua a atenção pelo outro, a solidariedade, as calorosas
relações de acolhimento, de diálogo e de mútua confiança.100 A nova
evangelização tenderá, portanto, a edificar a Igreja como família, excluindo
todo o etnocentrismo e excessivo particularismo, procurando, pelo contrário,
promover a reconciliação e uma verdadeira comunhão entre as diversas etnias,
favorecendo a solidariedade e a partilha de recursos e pessoas entre as Igrejas
particulares, sem indevidas considerações de ordem étnica.101 « Deseja-se
vivamente que os teólogos elaborem a teologia da Igreja-Família com toda a
riqueza que nesse conceito se encerra, mostrando a sua complementaridade com
outras imagens da Igreja ».102
Isto supõe
uma reflexão profunda sobre o património bíblico e tradicional que o Concílio Vaticano
II recolheu na Constituição dogmática Lumen gentium. Este admirável
documento expõe a doutrina sobre a Igreja, recorrendo a imagens extraídas da
Sagrada Escritura, tais como Corpo Místico, povo de Deus, templo do Espírito,
rebanho e redil, casa onde Deus habita com os homens. Segundo o Concílio, a
Igreja é esposa de Cristo e mãe nossa, cidade santa e primícia do Reino futuro.
É necessário ter em conta estas sugestivas imagens ao desenvolver, por proposta
do Sínodo, uma eclesiologia centrada no conceito de Igreja-Família de Deus.103
Poder-se-á então apreciar, em toda a sua riqueza e densidade, a afirmação que
serve de ponto de partida à Constituição conciliar: « A Igreja, em Cristo, é
como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da
unidade de todo o género humano ».104
Campos de
aplicação
64. Na
prática, sem prejuízo algum para as tradições próprias de cada Igreja, Latina
ou Oriental, « deverá ser continuada a inculturação da liturgia, sob a
condição de nada modificar nos elementos essenciais desta, para que o povo fiel
possa compreender e viver melhor as celebrações litúrgicas ».105
O Sínodo
reafirmou também o princípio de que, mesmo no caso de a doutrina se apresentar
dificilmente assimilável não obstante um período longo de evangelização, ou
então quando a sua prática puser sérios problemas pastorais sobretudo na vida
sacramental, é necessário permanecer fiel ao ensinamento da Igreja e,
simultaneamente, respeitar as pessoas na justiça e com verdadeira caridade
pastoral. Suposto isto, o Sínodo fez votos de que as Conferências Episcopais,
em colaboração com as Universidades e os Institutos Católicos, criem comissões
de estudo, sobretudo no que se refere ao Matrimónio, à veneração dos
antepassados e ao mundo dos espíritos, com o objectivo de examinar
profundamente todos os aspectos culturais dos problemas que se levantem do
ponto de vista teológico, sacramental, ritual e canónico.106
Diálogo
65. « A
atitude de diálogo é o modo de ser do cristão tanto na comunidade, como com os
outros crentes e com os homens e mulheres de boa vontade ».107 O diálogo
há-de ser praticado, antes de mais, no seio da Igreja-família, a todos os
níveis: entre Bispos, Conferências Episcopais ou Assembleias da Hierarquia e Sé
Apostólica, entre as Conferências ou Assembleias Episcopais das várias nações
do próprio Continente e as dos outros continentes, e, em cada Igreja
particular, entre o Bispo, o presbitério, as pessoas consagradas, os obreiros
pastorais e os fiéis leigos; e bem assim entre os diferentes ritos, no seio da
própria Igreja. Será preocupação do S.C.E.A.M. dotar-se « de estruturas e meios
que assegurem o exercício deste diálogo »,108 especialmente para favorecer uma
solidariedade pastoral orgânica.
« Unidos a
Cristo no seu testemunho em África, os católicos são convidados a desenvolver
um diálogo ecuménico com todos os irmãos baptizados das outras
Confissões cristãs, a fim de que se realize a unidade pela qual Cristo rezou,
de maneira que o seu serviço às populações do Continente torne o Evangelho mais
credível aos olhos daqueles e daquelas que procuram a Deus ».109 Esse diálogo
poder-se-á concretizar em iniciativas como a tradução ecuménica da Bíblia, o
aprofundamento teológico de um ou outro aspecto da fé cristã, ou ainda
oferecendo juntos um testemunho evangélico em prol da justiça, da paz e do
respeito da dignidade humana. Por isso, procurar-se-á criar comissões nacionais
e diocesanas para o ecumenismo.110 Os cristãos são conjuntamente responsáveis
pelo testemunho a prestar ao Evangelho no Continente. Os progressos ecuménicos
têm também como objectivo dar maior eficácia a esse testemunho.
66. « Este
esforço do diálogo deve abranger igualmente todos os muçulmanos de boa vontade.
Os cristãos não devem esquecer-se de que muitos muçulmanos procuram imitar a fé
de Abraão e viver as exigências do Decálogo ».111 A este propósito, a Mensagem
do Sínodo sublinha que o Deus vivo, Criador do céu e da terra e Senhor da
história, é o Pai da grande família humana, que formamos. Como tal, Ele quer
que Lhe prestemos testemunho no respeito dos valores e das tradições religiosas
próprias de cada um, trabalhando juntos pela promoção humana e pelo
desenvolvimento a todos os níveis. Longe de pretender ser Alguém em nome do
qual se matam outros homens, Ele empenha os crentes a pôrem-se juntos ao
serviço da vida, na justiça e na paz.112 Particular atenção, pois, há-de ser
dada ao diálogo islâmico-cristão para que respeite, de uma parte e doutra, o
exercício da liberdade religiosa com tudo o que isso comporta, nomeadamente as
manifestações exteriores e públicas da fé.113 Cristãos e muçulmanos são
chamados a empenharem-se na promoção de um diálogo imune dos riscos causados
por um falso irenismo ou um fundamentalismo militante, e a levantarem a sua voz
contra políticas e práticas desleais, como também contra qualquer falta de
reciprocidade no que toca à liberdade religiosa.114
67. Quanto
à religião tradicional africana, um diálogo sereno e prudente poderá, por um
lado, proteger de influências negativas que, frequentemente, condicionam o modo
de viver de muitos católicos, e, por outro, assegurar a assimilação de valores
positivos, como a crença num Ser Supremo, Eterno, Criador, Providente e Justo
Juiz, que se harmonizam bem com o conteúdo da fé. Podem mesmo ser considerados como
uma preparação ao Evangelho, porque contêm preciosas semina Verbi [sementes
do Verbo], capazes de levar, como já sucedeu no passado, um grande número de
pessoas a « abrir-se à plenitude da Revelação em Jesus Cristo, através da
proclamação do Evangelho ».115
Portanto
há que olhar com grande respeito e estima quantos seguem a religião
tradicional, evitando qualquer palavra inadequada ou irreverente. Com essa
finalidade, nas casas de formação sacerdotal e religiosa, hão-de ser dadas
oportunas elucidações sobre a religião tradicional.116
Desenvolvimento
humano integral
68. O
desenvolvimento humano integral — desenvolvimento do homem todo e de todo o
homem, especialmente de quem é mais pobre e marginalizado na comunidade — tem a
ver com o âmago da evangelização. « Entre evangelização e promoção humana,
desenvolvimento e libertação, existem, de facto, laços profundos: laços de
ordem antropológica, dado que o homem que há-de ser evangelizado não é um ser
abstracto mas antes um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e
económicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o
plano da Criação do plano da Redenção, onde se apontam, para além do mais,
situações bem concretas de injustiça que há-de ser combatida, e de justiça a
ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica qual é a ordem da
caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo do amor sem
promover, na justiça e na paz, o verdadeiro, autêntico desenvolvimento do
homem? ».117
Assim,
quando inaugurou o ministério público na sinagoga de Nazaré, o Senhor Jesus,
para ilustrar a sua missão, escolheu o texto messiânico do livro de Isaías: « O
Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova
aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, o
recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de
graça do Senhor » (Lc 4,18-19; cf. Is 61,1-2).
O Senhor,
portanto, considera-Se enviado a aliviar a miséria dos homens e a combater toda
a forma de marginalização. Veio libertar o homem; veio assumir as nossas
enfermidades e carregar os nossos males: de facto, « todo o ministério de Jesus
está ligado à atenção a todos os que, à sua volta, eram afectados pelo
sofrimento: pessoas enlutadas, paralíticos, leprosos, cegos, surdos, mudos...
(cf. Mt 8,17) ».118 « É impossível aceitar que a obra de evangelização
possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves, debatidos
sobremaneira hoje em dia, relativos à justiça, à libertação, ao desenvolvimento
e à paz no mundo »:119 a libertação, que a evangelização anuncia, « não pode
ser limitada à simples e restrita dimensão económica, política, social e
cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas
dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, o próprio Absoluto de Deus
».120
Justamente
afirma o Concílio Vaticano II: « Procurando o seu fim salvífico, a Igreja não
se limita a comunicar ao homem a vida divina; mas espalha sobre todo o mundo os
reflexos da sua luz, sobretudo enquanto cura e eleva a dignidade da pessoa
humana, consolida a coesão da sociedade e dá um sentido mais profundo à
actividade quotidiana dos homens. A Igreja pensa, assim, que, por meio de cada
um dos seus membros e por toda a sua comunidade, muito pode ajudar para tornar
mais humana a família dos homens e a sua história ».121 A Igreja anuncia e
começa a actuar o Reino de Deus seguindo os passos de Jesus, uma vez que « a
natureza do Reino é a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus
».122 Deste modo, « o Reino é fonte de libertação plena e de salvação total
para os homens: com estes, portanto, a Igreja caminha e vive real e intimamente
solidária com a sua história ».123
69. A
história dos homens assume o seu sentido mais autêntico na Encarnação do Verbo
de Deus, que é o fundamento da dignidade humana recuperada. Por Cristo,
« imagem do Deus invisível e primogénito de toda a criação » (Col 1,15),
é que o homem foi redimido; melhor, « pela sua Encarnação, o Filho de Deus,
uniu-Se de certo modo a cada homem ».124 Como não clamar com S. Leão Magno: «
Reconhece, ó cristão, a tua dignidade »?125
Anunciar
Cristo é, pois, revelar ao homem a sua dignidade inalienável, que Deus
resgatou através da encarnação do seu Filho unigénito. Assim prossegue o
Concílio Vaticano II: « Tendo a Igreja, por sua parte, a missão de manifestar o
mistério de Deus, último fim do homem, ela descobre ao mesmo tempo ao homem o
sentido da sua existência, a verdade profunda acerca dele mesmo ».126
Dotado de
uma dignidade tão incomparável, o homem não pode viver em condições
infra-humanas de vida social, económica, cultural e política. Está aqui o
fundamento teológico da luta pela defesa da dignidade pessoal, pela justiça e a
paz social, pela promoção humana, a libertação e o desenvolvimento do homem
todo e de todo o homem. E aqui está também a razão pela qual, tendo em conta
esta dignidade, o progresso dos povos — no âmbito de cada nação e nas relações
internacionais — deverá realizar-se de maneira solidária, como justamente
observava o meu predecessor Paulo VI.127 Nesta perspectiva, ele pôde
sentenciar: « O desenvolvimento é o novo nome da paz ».128 Assim, pode-se dizer
com justa razão que « o desenvolvimento integral supõe o respeito da dignidade
humana, que só pode realizar-se na justiça e na paz ».129
Fazer-se
voz dos sem voz
70.
Fortalecidos pela fé e a esperança na força salvadora de Jesus, os Padres do
Sínodo concluíram os trabalhos, renovando o compromisso de assumirem o desafio
de ser instrumentos da salvação nos diversos âmbitos da vida dos povos
africanos. « A Igreja — declararam — deve continuar a cumprir a sua missão
profética, e ser voz dos sem voz »,130 a fim de que, por toda a parte, a
dignidade humana seja reconhecida a toda a pessoa, e o homem esteja sempre no
centro de todos os programas governamentais. O Sínodo « interpela a consciência
dos Chefes de Estado e dos responsáveis pela vida pública, para que garantam
sempre mais a libertação e o desenvolvimento dos seus povos ».131 Só por tal
preço se constrói a paz entre as nações.
A
evangelização deve promover todas as iniciativas que contribuam para
desenvolver e nobilitar o homem na sua existência espiritual e material.
Trata-se do desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, considerado não só
isoladamente, mas também e de modo especial no horizonte de um progresso
solidário e harmonioso de todos os membros de uma nação e de todos os povos da
terra.132
Em suma, a
evangelização deve denunciar e combater tudo quanto degrada e destrói o homem.
« O exercício do ministério da evangelização no campo social, que é um
aspecto do múnus profético da Igreja, compreende também a denúncia dos
males e das injustiças. Mas convém esclarecer que o anúncio é sempre mais
importante do que a denúncia; e esta não pode prescindir daquele, pois é isso
que lhe dá a verdadeira solidez e a força da sua motivação mais alta ».133
Meios de
comunicação social
71. «
Desde sempre, Deus Se caracteriza pelo seu desejo de comunicar. E fá-lo de
diversas maneiras. Comunica o ser a toda a criatura, animada ou inanimada. De
modo particular com o homem, estabelece relações privilegiadas. "Depois de
ter, em diversas ocasiões e de muitas maneiras, falado outrora aos nossos pais
pelos profetas, Deus, nestes tempos que são os últimos, falou-nos pelo
Filho" (Heb 1,1-2) ».134 O Verbo de Deus é, por sua natureza,
palavra, diálogo e comunicação. Ele veio restaurar, por um lado, a comunicação
e as relações entre Deus e os homens, e, por outro, as relações dos homens
entre si.
Os
mass-media foram considerados pelo Sínodo sob dois aspectos importantes e
complementares: como um universo cultural novo e em expansão, e como um
conjunto de meios ao serviço da comunicação. Fundamentalmente eles constituem
uma nova cultura que tem a sua linguagem própria e, sobretudo, os seus valores
e contra-valores específicos. Por este motivo, têm necessidade, como todas as
culturas, de ser evangelizados.135
De facto,
em nossos dias, os mass-media constituem por si mesmos não só um mundo à parte,
mas uma cultura e uma civilização diversa. E a Igreja é convidada a levar a Boa
Nova da salvação também a esse mundo. Os arautos do Evangelho devem, pois, entrar
aí para se deixarem permear por essa nova civilização e cultura, com
o objectivo de saberem servir-se convenientemente dela. « O primeiro
areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a
unificar a humanidade, transformando-a — como se costuma dizer — numa
"aldeia global". Os meios de comunicação social alcançaram tamanha
importância que são para muitos o principal instrumento de informação e
formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e
sociais ».136
A formação
no uso dos mass-media é, portanto, uma necessidade, não só para quem anuncia
o Evangelho, que deve, para além do mais, possuir o estilo da
comunicação, mas também para o leitor, o receptor e o telespectador que,
preparados para compreenderem o género da comunicação, hão-de saber acolher os
dados fornecidos, com discernimento e espírito crítico.
Na África,
onde a transmissão oral é uma das características da sua cultura, tal
formação reveste importância capital. Precisamente este tipo de comunicação
deve recordar aos Pastores, especialmente aos Bispos e aos sacerdotes, que a
Igreja é enviada para falar, para pregar o Evangelho por palavras e
gestos. Por isso, ela não pode calar sob risco de faltar à sua missão, a
não ser que, em certas circunstâncias, o próprio silêncio seja já um modo de
falar e testemunhar. Portanto, devemos anunciar sempre e em toda a ocasião,
oportuna e inoportunamente (cf. 2 Tim 4,2), com o fim de edificar na
caridade e na verdade.
CAPÍTULO
IV
NA
PERSPECTIVA DO TERCEIRO MILÉNIO CRISTÃO
I. Os
desafios actuais
72. A
Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi convocada para dar
ocasião à Igreja de Deus, espalhada pelo Continente, de reflectir sobre a sua
missão evangelizadora na perspectiva do terceiro milénio e predispor, como tive
o cuidado de lembrar, « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o
território africano e nas ilhas contíguas ».137 Como foi já assinalado, tal
missão comporta urgências e desafios, resultantes das profundas e rápidas
mudanças nas sociedades africanas e das consequências da consolidação de
uma civilização à escala mundial.
A
necessidade do Baptismo
73. A
primeira urgência é, naturalmente, a evangelização. Por um lado, a Igreja deve
assimilar e viver cada vez melhor a mensagem de que foi constituída depositária
pelo Senhor. Por outro, deve testemunhar e anunciar esta mensagem a quantos
ainda não conhecem Jesus Cristo. De facto, foi a pensar neles que o Senhor
disse aos Apóstolos: « Ide, pois, ensinai todas as nações » (Mt 28,19).
Como
sucedeu no Pentecostes, a pregação do querigma tem como finalidade
natural levar o ouvinte à metanoia e ao Baptismo: « O anúncio da
Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e
sincera a Cristo e ao Evangelho, mediante a fé ».138 Por outro lado, a
conversão a Cristo « está conexa com o Baptismo: está-o não só por ser práxis
comum da Igreja, mas por vontade de Cristo, que enviou a sua Igreja a fazer
discípulos em todas as nações e a baptizá-los (cf. Mt 28,19); está-o
ainda por intrínseca exigência da recepção em plenitude da vida nova n'Ele:
"Em verdade, em verdade, te digo — ensina Jesus a Nicodemos — quem
não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus" (Jo
3,5). O Baptismo, de facto, regenera-nos para a vida de filhos de Deus;
une-nos a Jesus Cristo e unge-nos no Espírito Santo: aquele não é um simples
selo da conversão, uma espécie de sinal exterior que a comprova e
atesta; mas é o sacramento que significa e opera este novo nascimento do
Espírito, instaura vínculos reais e indivisíveis com a Trindade, torna-nos
membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja ».139 Portanto, um itinerário de
conversão que não chegasse ao Baptismo, ter-se-ia detido a meio da estrada.
Na
verdade, os homens de boa vontade que, sem culpa alguma da sua parte, não são
alcançados pelo anúncio evangélico, mas vivem de harmonia com a sua consciência
segundo a lei de Deus, serão salvos por Cristo e em Cristo. Para todo o ser
humano, de facto, existe sempre em acto o chamamento de Deus, que
aguarda ser identificado e acolhido (cf. 1 Tim 2,4). É precisamente para
favorecer esse acolhimento que é pedido aos discípulos de Cristo que não se
dêem paz enquanto não for levado a todos o feliz anúncio da salvação.
Urgência
da evangelização
74. Com
efeito, está estabelecido que o Nome de Jesus Cristo é o único no qual podemos
ser salvos (cf. Act 4,12). Visto que, na África, há milhões de pessoas ainda
não evangelizadas, a Igreja encontra-se perante a tarefa, necessária e urgente,
de proclamar a Boa Nova a todos, e de levar os que a escutam até ao Baptismo
e à vida cristã. « A urgência da actividade missionária deriva da radical
novidade de vida, trazida por Cristo e vivida pelos seus discípulos. Esta
nova vida é dom de Deus, sendo pedido ao homem que a acolha e desenvolva, se
quiser realizar-se segundo a sua vocação integral em conformidade com Cristo
».140 Esta vida nova, na originalidade radical do Evangelho, comporta também
rupturas relativamente aos costumes e à cultura de qualquer povo da terra,
visto que o Evangelho não será nunca um produto interno de determinado país,
mas sempre vem « de fora », vem do Alto. Para os baptizados, o grande desafio
permanecerá sempre a coerência de uma existência cristã conforme aos
compromissos do Baptismo, que significa morte ao pecado e ressurreição
quotidiana para uma vida nova (cf. Rm 6,4-5). Sem tal coerência,
dificilmente os discípulos de Cristo poderão ser « sal da terra » e «
luz do mundo » (Mt 5,13.14). Se a Igreja em África se empenhar,
vigorosa e decididamente, por este caminho, a Cruz poderá ser plantada em toda
a parte do Continente para a salvação dos povos que não tenham medo de abrir as
portas ao Redentor.
Importância
da formação
75. Em
todos os sectores da vida eclesial, tem capital importância a formação. De
facto, ninguém poderá conhecer realmente as verdades de fé que nunca teve
oportunidade de aprender, nem será capaz de realizar actos para os quais nunca
foi iniciado. Eis porque « a comunidade inteira precisa de ser preparada,
motivada e reforçada em vista da evangelização, cada qual segundo a sua função
específica no seio da Igreja ».141 Isto aplica-se aos Bispos, aos presbíteros,
aos membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida
Apostólica, aos membros dos Institutos Seculares, e a todos os fiéis leigos.
A formação
missionária não pode deixar de ocupar um lugar privilegiado. Ela é « obra da
Igreja local, com a ajuda dos missionários e dos seus Institutos, bem como dos
cristãos das jovens Igrejas. Este trabalho não deve ser visto como marginal,
mas sim central na vida cristã ».142
O programa
de formação há-de incluir, de modo particular, a preparação dos leigos para
desempenharem plenamente o seu papel de animação cristã da ordem temporal
(política, cultural, económica, social), que é empenho característico da
vocação secular do laicado. A tal propósito, não se há-de deixar de encorajar
leigos competentes e motivados a empenharem-se na acção política,143 onde
poderão, através de um digno exercício dos cargos públicos, « atender ao bem
comum e, ao mesmo tempo, abrir caminho ao Evangelho ».144
Aprofundar
a fé
76. A
Igreja em África, para ser evangelizadora, deve « começar por se evangelizar a
si mesma. (...) Tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve
acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus
imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, a Igreja precisa de ouvir,
incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus ».145
Em África,
hoje, « a formação da fé (...) fica- -se, muitas vezes, pela fase elementar, e
as seitas facilmente se aproveitam desta ignorância ».146 Torna-se, assim,
urgente um sério aprofundamento da fé, porque a rápida evolução da sociedade
fez surgir novos desafios, ligados particularmente com os fenómenos de
desenraizamento familiar, urbanização, desemprego, e ainda com as múltiplas
seduções materialistas, uma certa secularização, e aquela espécie de trauma intelectual
provocado pela avalanche de ideias insuficientemente ponderadas, difusas pelos
mass-media.147
A força do
testemunho
77. A
formação deve procurar dar aos cristãos não apenas uma habilitação técnica para
transmitir melhor os conteúdos da fé, mas também uma convicção pessoal profunda
para os testemunhar eficazmente na vida. Assim, todos aqueles que são chamados
a proclamar o Evangelho, esforçar-se-ão por agir com docilidade total ao
Espírito, o qual, « hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos
evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele ».148 « As técnicas de
evangelização são boas, obviamente; mas ainda as mais aperfeiçoadas não
poderiam substituir a acção discreta do Espírito Santo. A preparação mais
apurada do evangelizador nada faz sem Ele. De igual modo, a dialéctica mais
convincente, sem Ele permanece impotente para com o espírito dos homens. E,
ainda, os mais elaborados esquemas com base sociológica e psicológica, sem Ele,
em breve se demonstram desprovidos de valor ».149
Um
verdadeiro testemunho por parte dos crentes é, hoje, essencial em África, para
proclamar de forma autêntica a fé. De modo particular, é preciso que eles
ofereçam o testemunho de um amor recíproco sincero. « A vida eterna é "que
Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem
enviaste" (Jo 17,3). O fim último da missão é fazer participar na
comunhão que existe entre o Pai e o Filho: os discípulos devem viver a unidade
entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo conheça e creia (cf.
Jo 17,21-23). Trata-se de um texto de grande alcance missionário,
fazendo-nos entender que somos missionários sobretudo por aquilo que se é, como
Igreja que vive profundamente a unidade no amor, e não tanto por aquilo que
se diz ou faz ».150
Inculturar
a fé
78. Devido
à profunda convicção de que «a síntese entre cultura e fé não é só uma
exigência da cultura, mas também da fé », porque « uma fé que não se torna
cultura é uma fé não plenamente acolhida, nem inteiramente pensada, nem
fielmente vivida »,151 a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos
considerou a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas
particulares em África: só assim pode o Evangelho lançar sólidas raízes nas
comunidades cristãs do Continente. Na esteira do Concílio Vaticano II,152 os
Padres Sinodais interpretaram a inculturação como um processo que abrange a
vida cristã em toda a sua extensão — teologia, liturgia, costumes, estruturas —
obviamente sem lesar o direito divino e a grande disciplina da Igreja,
corroborada ao longo dos séculos por frutos extraordinários de virtude e
heroísmo.153
O desafio
da inculturação em África consiste em fazer com que os discípulos de Cristo
possam assimilar cada vez melhor a mensagem evangélica, continuando, no
entanto, fiéis a todos os valores africanos autênticos. Inculturar a fé em
todos os sectores da vida cristã e humana apresenta-se como uma tarefa árdua,
para cujo cumprimento é necessária a assistência do Espírito do Senhor que guia
a Igreja para a verdade total (cf. Jo 16,13).
Uma
comunidade reconciliada
79. O
desafio do diálogo é, fundamentalmente, o desafio da transformação das relações
entre os homens, entre as nações e entre os povos, na vida religiosa, política,
económica, social e cultural. É o desafio do amor de Cristo por todos os
homens, amor que o seu discípulo deve reproduzir na sua vida: « É por isto que
todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros » (Jo 13,35).
« A
evangelização continua o diálogo de Deus com a humanidade, um diálogo que
atinge o seu ápice na pessoa de Jesus Cristo ».154 Por meio da Cruz, Ele
destruiu em Si mesmo a inimizade (cf. Ef 2,16) que divide e afasta os
homens uns dos outros.
Ora,
apesar da civilização contemporânea lembrar uma « aldeia global », em África,
como aliás noutras partes do mundo, o espírito de diálogo, de paz e
reconciliação está ainda longe de habitar no coração de todos os homens. As
guerras, os conflitos, os comportamentos racistas e xenófobos ainda dominam
demasiadamente o mundo das relações humanas.
A Igreja
em África pressente a exigência de se tornar lugar de autêntica reconciliação
para todos, graças ao testemunho dado pelos seus filhos e filhas. Deste modo,
mutuamente perdoados e reconciliados, eles poderão levar ao mundo o perdão e a
reconciliação, que Cristo, nossa Paz (cf. Ef 2,14), oferece à
humanidade, através da sua Igreja. Caso contrário, o mundo assemelhar-se-á cada
vez mais a um campo de batalha, no qual contam apenas os interesses egoístas e
onde predomina a lei da força, que afasta inexoravelmente a humanidade
da suspirada civilização do amor.
II. A
família
Evangelizar
a família
80. « O
futuro do mundo e da Igreja passa através da família ».155 Com efeito, a
família é a primeira célula não apenas da comunidade eclesial viva, mas também
da sociedade. Na África, de modo particular, a família representa a base sobre
a qual está construído o edifício da sociedade. Por isso mesmo, o Sínodo
considera a evangelização da família africana como uma das maiores prioridades,
se se quer que ela assuma, por sua vez, o papel de sujeito activo na
perspectiva da evangelização das famílias pelas famílias.
Do ponto
de vista pastoral, isso constitui um verdadeiro desafio, dadas as dificuldades
de ordem política, económica, social e cultural que os núcleos familiares em
África têm de enfrentar no contexto das grandes mudanças da sociedade
contemporânea. Embora adoptando os valores positivos da modernidade, a família
africana deverá, pois, salvaguardar os seus próprios valores essenciais.
A Sagrada
Família como modelo
81. A tal
propósito, a Sagrada Família que, segundo o Evangelho (cf. Mt 2,14-15),
viveu durante algum tempo na África, é « protótipo e exemplo de todas as
famílias cristãs »,156 modelo e fonte espiritual para cada família
cristã.157
Para usar
as palavras do Papa Paulo VI, peregrino na Terra Santa, « Nazaré é a escola em
que se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. (...)
Aqui, nesta escola, se compreende a necessidade de ter uma disciplina
espiritual, se se quer (...) ser discípulo de Cristo ».158 Nesta sua profunda
meditação sobre o mistério de Nazaré, Paulo VI convida a fixar uma tríplice
lição: lição de silêncio, de vida familiar, de trabalho. Na
casa de Nazaré, cada um vive a própria missão em perfeita harmonia com os
outros membros da Sagrada Família.
Dignidade
e função do homem e da mulher
82. A
dignidade do homem e da mulher deriva do facto de que, quando Deus criou o
homem, « criou-o à imagem de Deus; Ele os criou varão e mulher » (Gn 1,27).
Tanto o homem como a mulher são criados « à imagem de Deus », isto é, dotados
de inteligência e vontade, e consequentemente de liberdade. Prova-o a narração
sobre o pecado dos primeiros pais (cf. Gn 3). O Salmista canta a
dignidade incomparável do homem assim: « Pouco lhe falta para que seja um ser
divino; de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe domínio sobre as obras das
vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés » (Sal 8,6-7).
Criados os
dois à imagem de Deus, o homem e a mulher, embora diferentes, são essencialmente
iguais sob o ponto de vista da natureza humana. « Ambos, desde o início,
são pessoas, ao contrário dos outros seres vivos do mundo que os circunda. A
mulher é um outro "eu" na comum humanidade »,159 e cada um constitui
um auxiliar para o outro (cf. Gn 2,18-25).
« Ao criar
o homem, "varão e mulher", Deus dá a dignidade pessoal, por igual, ao
homem e à mulher, enriquecendo-os de direitos inalienáveis e de
responsabilidades que são próprias da pessoa humana ».160 O Sínodo deplorou
certos costumes africanos e determinadas práticas « que privam as mulheres dos
seus direitos e do respeito que lhes é devido »,161 e pediu que a Igreja no
Continente se esforce por promover a salvaguarda de tais direitos.
Dignidade
e função do Matrimónio
83. Deus,
Pai, Filho e Espírito Santo, é Amor (cf. 1 Jo 4,8). « A comunhão entre
Deus e os homens encontra o seu definitivo cumprimento em Jesus Cristo, o
Esposo que ama e Se doa como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como seu
corpo. Ele revela a verdade originária do Matrimónio, a verdade do
"princípio" e, libertando o homem da dureza do seu coração, torna-o
capaz de a realizar inteiramente. Esta revelação chega à sua definitiva
plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo a
natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de Si mesmo sobre a cruz
pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício, descobre-se inteiramente aquele
desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua
criação; o Matrimónio dos baptizados torna-se assim o símbolo real da Nova e
Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo ».162
O amor
recíproco dos esposos baptizados manifesta o Amor de Cristo e da Igreja. Sinal
do Amor de Cristo, o Matrimónio é um sacramento da Nova Aliança: « Os
esposos são para a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu
sobre a Cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da
qual o sacramento os faz participar. Deste acontecimento de salvação, o
Matrimónio, como todo o sacramento, é memorial, actualização e profecia ».163
O
Matrimónio cristão é, pois, um estado de vida, um caminho de santidade cristã,
uma vocação que deve conduzir à ressurreição gloriosa e ao Reino, onde « nem os
homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos » (Mt 22,30). Por isso,
o Matrimónio exige um amor indissolúvel; graças a esta sua estabilidade, pode
contribuir eficazmente para realizar em plenitude a vocação baptismal dos
esposos.
Salvar a
família africana
84. Na
aula do Sínodo, foram muitas as intervenções que puseram em evidência as
ameaças que gravam actualmente sobre a família africana. As preocupações dos
Padres Sinodais eram tanto mais justificadas quanto o documento preparatório de
uma Conferência das Nações Unidas, realizada em Setembro de 1994 no Cairo, em
terra africana, parecia claramente querer adoptar resoluções em contraste com
não poucos valores familiares africanos. Fazendo próprias as preocupações, que
eu anteriormente tinha manifestado aos promotores da referida Conferência e aos
Chefes de Estado do mundo inteiro,164 eles lançaram um premente apelo para que
fosse salvaguardada a família: « Não permitais — clamaram eles — que a família
africana seja humilhada precisamente na sua própria terra! Não permitais que o
Ano Internacional da Família se torne o ano da destruição da família! ».165
A família
aberta à sociedade
85. O
Matrimónio, por sua natureza, transcende o casal, dada a sua especial missão de
perpetuar a humanidade. Do mesmo modo, por natureza, a família estende-se para
além dos limites do lar doméstico: ela está orientada para a sociedade. « A
família possui vínculos vitais e orgânicos com a sociedade, porque constitui o
seu fundamento e alimento contínuo, mediante o dever de serviço à vida: saem,
de facto, da família os cidadãos, e é na família que eles encontram a primeira
escola daquelas virtudes sociais, que são a alma da vida e do desenvolvimento
da mesma sociedade. Assim, por força da sua natureza e vocação, longe de
fechar-se em si mesma, a família abre-se às outras famílias e à sociedade,
assumindo a sua tarefa social ».166
Nesta
linha, a Assembleia Especial para a África afirma que o fim da evangelização é
edificar a Igreja como Família de Deus, antecipação, mesmo se imperfeita, do
Reino sobre a terra. As famílias cristãs de África tornar-se-ão, desse modo,
verdadeiras « igrejas domésticas », contribuindo para o progresso da sociedade
na direcção de uma vida mais fraterna. Assim se realizará a transformação das
sociedades africanas, por meio do Evangelho!
CAPÍTULO V
« VÓS
SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS » EM ÁFRICA
Testemunho
e santidade
86. Os
desafios apontados mostram como fora oportuna a Assembleia Especial para a
África do Sínodo dos Bispos: a tarefa da Igreja no Continente é imensa; para a
enfrentar é necessária a colaboração de todos. O testemunho constitui o
elemento central. Cristo interpela os seus discípulos em África e confia-lhes o
mandato que deu aos Apóstolos no dia da Ascensão: « Vós sereis minhas
testemunhas » (Act 1,8) em África.
87. O
anúncio da Boa Nova, pela palavra e pelas obras, abre o coração das pessoas ao
desejo da santidade, da configuração com Cristo. Na primeira Carta aos
Coríntios, S. Paulo dirige-se « aos [que foram] santificados em Jesus Cristo,
chamados à santidade, com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de
Jesus Cristo Senhor deles e nosso » (1,2). É que a pregação do Evangelho tem
como objectivo a construção da Igreja de Deus, na perspectiva do advento do
Reino, que Cristo entregará ao Pai no fim dos tempos (cf. 1 Cor 15,24).
Ora « a
entrada no Reino de Deus exige uma mudança de mentalidade (metanoia) e
de comportamento, um testemunho de vida por palavras e obras que tem o seu
alimento na recepção dos sacramentos, nomeadamente a Eucaristia, dentro da
Igreja, sacramento de salvação ».167
Também a
inculturação, pela qual a fé penetra na vida das pessoas e das suas comunidades
de origem, constitui um caminho para a santidade. Como, na encarnação, Cristo
assumiu a natureza humana excluindo apenas o pecado, analogamente, por meio da
inculturação, a mensagem cristã assimila os valores da sociedade em que é
anunciada, deixando de fora quanto esteja marcado pelo pecado. Na medida em que
a comunidade eclesial saiba integrar os valores positivos de uma determinada
cultura, torna-se instrumento da sua abertura às dimensões da santidade cristã.
Uma inculturação, sabiamente conduzida, purifica e eleva as culturas dos vários
povos.
Sob este
ponto de vista, é chamada a desempenhar um papel importante a liturgia. Esta,
enquanto modo eficaz de proclamar e viver os mistérios da salvação, pode
contribuir validamente para elevar e enriquecer específicas manifestações da
cultura de um povo. Será, pois, responsabilidade da autoridade competente
procurar, segundo modelos ricos de beleza artística, a inculturação daqueles elementos
litúrgicos que, à luz das normas vigentes, possam ser modificados.168
I.
Obreiros da evangelização
88. A
evangelização tem necessidade de obreiros. De facto, « como hão-de invocar
Aquele [o Senhor] em quem não acreditaram? E como hão- -de acreditar n'Aquele
que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E como pregarão se não
forem enviados? » (Rm 10,14-15). O anúncio do Evangelho só pode
realizar-se plenamente com o contributo de todos os crentes, nos vários níveis
da Igreja, universal ou local.
A esta, à
Igreja local colocada sob a responsabilidade do Bispo, compete de modo
particular a coordenação dos esforços da evangelização, congregando os fiéis,
confirmando-os na fé através da acção dos presbíteros e dos catequistas,
amparando-os no cumprimento da respectiva missão. Com este objectivo, a diocese
proverá à instituição das estruturas necessárias de encontro, de diálogo, de
programação. Valendo-se delas, o Bispo poderá orientar convenientemente o
trabalho dos sacerdotes, religiosos e leigos, acolhendo os dons e carismas de
cada um para os colocar ao serviço de uma pastoral actualizada e incisiva.
Neste sentido, serão muitos úteis os vários Conselhos previstos nas normas
vigentes de Direito Canónico.
Comunidades
eclesiais vivas
89. Os
Padres Sinodais reconheceram logo que a Igreja-Família só poderá oferecer
plenamente a sua medida de Igreja, se se ramificar em comunidades
suficientemente pequenas para permitir estreitas relações humanas. As
características dessas comunidades foram sintetizadas pela Assembleia deste
modo: hão-de ser lugares onde se proveja, primariamente, à evangelização
própria, para depois levar a Boa Nova aos outros; por isso, deverão ser lugares
de oração e escuta da Palavra de Deus, de responsabilização dos próprios membros,
de iniciação à vida eclesial, de reflexão sobre os vários problema humanos à
luz do Evangelho. Sobretudo, procurar-se-á viver nelas o amor universal de
Cristo, que transcende as barreiras e as alianças naturais dos clãs, das tribos
ou de outros grupos de interesses.169
Laicado
90. Os
leigos hão-de ser ajudados a tomar cada vez maior consciência do papel que
devem ocupar na Igreja, honrando assim a missão que lhes é peculiar enquanto
baptizados e crismados, em conformidade com o ensinamento da Exortação
Apostólica pós-sinodal Christifideles laici 170 e da Encíclica Redemptoris
missio.171 Para tal, têm de ser preparados, através de apropriados centros
ou escolas de formação bíblica e pastoral. Numa linha idêntica, os cristãos que
ocupam lugares de responsabilidade têm de ser cuidadosamente preparados para a
sua tarefa política, económica e social, através de uma sólida formação na
doutrina social da Igreja, para serem fiéis testemunhas do Evangelho no seu
âmbito de acção.172
Catequistas
91. « O
papel dos catequistas tem sido e continua a ser determinante na implantação e
expansão da Igreja em África. O Sínodo recomenda que os catequistas não somente
recebam uma perfeita preparação inicial (...), mas que continuem a receber uma
formação doutrinal bem como apoio moral e espiritual ».173 Por isso, tanto os
Bispos como os sacerdotes tenham a peito os seus catequistas, procurando que
lhes sejam asseguradas dignas condições de vida e de trabalho, de modo que
possam cumprir bem a sua missão. A sua missão seja reconhecida e honrada no
seio da comunidade cristã.
A família
92. O
Sínodo lançou um apelo explícito a cada família cristã para que se torne « um
lugar privilegiado de testemunho evangélico »,174 uma verdadeira « igreja
doméstica »,175 uma comunidade que acredita e evangeliza,176 uma comunidade em
diálogo com Deus 177 e generosamente aberta ao serviço do homem.178 « É no seio
da família que os pais são, pela palavra e pelo exemplo, para os seus filhos,
os primeiros arautos da fé ».179 « É aqui que se exerce, de modo privilegiado, o
sacerdócio baptismal do pai, da mãe, dos filhos, de todos os membros da
família, "na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no
testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade efectiva". O
lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e "uma escola de
enriquecimento humano" ».180
Os pais
cuidarão da educação cristã dos filhos. Com a ajuda concreta de famílias
cristãs sólidas, serenas e comprometidas, as dioceses programarão o apostolado
familiar no quadro da pastoral de conjunto. Enquanto « igreja doméstica »,
construída sobre as sólidas bases culturais e os ricos valores da tradição
familiar africana, a família cristã é chamada a ser uma válida célula de
testemunho cristão na sociedade, caracterizada por mudanças rápidas e
profundas. O Sínodo sentiu este apelo com particular urgência no contexto do
Ano da Família, que a Igreja estava então a celebrar juntamente com toda a
comunidade internacional.
Jovens
93. A
Igreja em África sabe bem que a juventude não é só o presente, mas sobretudo o
futuro da humanidade. Por isso, é necessário ajudar os jovens a superarem os
obstáculos que reprimem o seu desenvolvimento: o analfabetismo, a ociosidade, a
fome, a droga.181 Para afrontar estes desafios, dever-se-á chamar os jovens a
serem evangelizadores do seu ambiente. Não há ninguém que o possa fazer melhor
que eles. É necessário que a pastoral da juventude esteja presente
explicitamente na pastoral global das dioceses e das paróquias, de modo a dar
aos jovens a ocasião de descobrirem bem depressa o valor do dom de si mesmo,
caminho essencial para o desenvolvimento da pessoa.182 Vem a propósito lembrar
que a celebração da Jornada Mundial da Juventude se revela um meio privilegiado
de pastoral juvenil, que favorece a sua formação através da oração, do estudo e
da reflexão.
Homens e
mulheres consagrados
94. « Numa
Igreja Família de Deus, a vida consagrada tem um papel particular, não
só para indicar a todos o apelo à santidade, mas também para testemunhar a vida
fraterna na comunidade. Por conseguinte, as pessoas consagradas são convidadas
a responder à sua vocação, num espírito de comunhão e colaboração com os
respectivos Bispos, com o clero e com os leigos ».183
Nas
condições actuais da missão em África, é urgente promover as vocações
religiosas à vida contemplativa e activa, efectuando, primeiro, escolhas
prudentes e provendo a dar-lhes, depois, uma sólida formação humana, espiritual
e doutrinal, apostólica e missionária, bíblica e teológica. Esta formação há-de
continuar ao longo dos anos, perseverante e periódica. Na fundação de novos
Institutos Religiosos, deve-se proceder com grande prudência e claro
discernimento, fazendo referência aos critérios indicados pelo Concílio
Vaticano II e às normas canónicas vigentes.184 Uma vez fundados, os Institutos
Religiosos hão-de ser ajudados a adquirir personalidade jurídica e a atingir a
autonomia na gestão tanto das próprias obras como das respectivas entradas
financeiras.
A
Assembleia Sinodal, depois de ter advertido « os Institutos Religiosos que não
mantêm casas em África » a não se considerarem autorizados a « procurar lá
novas vocações sem prévio diálogo com o Ordinário do lugar »,185 exortou os
responsáveis das Igrejas locais, como também os dos Institutos de Vida
Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, a promoverem entre si o diálogo
com a criação, no espírito da Igreja Família, de grupos mistos de deliberação,
como testemunho de fraternidade e sinal de unidade ao serviço da missão
comum.186 Nesta perspectiva, acolhi também o convite dos Padres Sinodais a
rever, se necessário, qualquer ponto do documento Mutuae relationes,187
para uma melhor definição do papel da vida religiosa na Igreja local.188
Futuros
sacerdotes
95. « Hoje
mais que nunca — afirmaram os Padres Sinodais —, será nossa preocupação formar
os futuros sacerdotes nos verdadeiros valores culturais dos respectivos
países, educando-os no sentido da honestidade, responsabilidade, e fidelidade à
palavra dada. Serão formados de maneira a revestir as qualidades de representantes
de Cristo, verdadeiros servidores e animadores de comunidades cristãs, (...) de
forma que sejam sacerdotes espiritualmente sólidos, disponíveis e devotados à
causa do Evangelho, e capazes de administrar com transparência os bens da
Igreja e de levar uma vida simples, em conformidade com o seu ambiente ».189
Embora respeitando as tradições próprias das Igrejas Orientais, os seminaristas
sejam formados de forma que « adquiram uma verdadeira maturidade afectiva e
tenham ideias claras e uma convicção íntima sobre a indissociabilidade do
celibato e da castidade do sacerdote »;190 além disso, « recebam uma formação
adequada sobre o sentido e o lugar da consagração a Cristo no sacerdócio ».191
Diáconos
96. Nos
lugares onde as condições pastorais se prestarem à estima e compreensão deste
antigo ministério da Igreja, as Conferências e as Assembleias Episcopais
estudarão os modos mais adequados de promover e encorajar o diaconado
permanente « como ministério ordenado e também como meio de evangelização ».192
Onde já existam os diáconos, trabalhar-se-á por lhes oferecer uma actualização
orgânica e completa.
Sacerdotes
97.
Profundamente reconhecida a todos os sacerdotes, diocesanos ou membros dos
Institutos, pela obra apostólica que realizam, e consciente das exigências
postas pela evangelização dos povos de África e Madagáscar, a Assembleia
Sinodal exortou-os a viverem na « fidelidade à sua vocação, no dom total de si
mesmos à missão e em plena comunhão com o próprio Bispo ».193 Será dever dos
Bispos cuidar da formação permanente dos sacerdotes, sobretudo nos primeiros
anos de ministério,194 ajudando-os especialmente a aprofundar o sentido do
celibato sagrado e a perseverar na fiel adesão ao mesmo, sabendo apreciar « tão
insigne dom, que lhes foi dado pelo Pai e tão claramente é exal- tado pelo
Senhor, tendo diante dos olhos os grandes mistérios que nele são significados e
nele se realizam ».195 Nesse itinerário de formação, há-de ser prestada também
atenção aos valores culturais sãos do ambiente de vida dos sacerdotes. Além
disso, é oportuno recordar que o Concílio Vaticano II encorajou, entre os
presbíteros, « uma certa vida comum », ou seja, uma certa comunidade de vida
segundo as formas sugeridas pelas necessidades pessoais e pastorais concretas.
Isso contribuirá para fomentar a vida espiritual e intelectual, a acção
apostólica e pastoral, a caridade e a solicitude recíproca, especialmente no
caso dos sacerdotes de idade, doentes ou em dificuldade.196
Bispos
98. Os
próprios Bispos colocarão todo o cuidado em apascentar a Igreja que Deus para
Si adquiriu com o Sangue do próprio Filho, no cumprimento do encargo que lhes
foi confiado pelo Espírito Santo (cf. Act 20,28). Empenhados, segundo a
recomendação conciliar, no cumprimento do seu « múnus apostólico como testemunhas
de Cristo diante de todos os homens »,197 os Bispos exercerão pessoalmente, em
colaboração confiante com o presbitério e demais obreiros pastorais, o
insubstituível serviço da unidade na caridade, atendendo com solicitude às
tarefas de ensino, santificação e governo pastoral. Além disso, não deixarão de
prover ao aprofundamento da sua cultura teológica e ao corroboramento da sua
vida espiritual, tomando parte, quanto possível, nos tempos de actualização e
formação organizados pelas Conferências Episcopais ou pela Sé Apostólica.198 De
modo particular, não hão-de esquecer nunca aquela advertência de S. Gregório
Magno, segundo a qual o pastor é luz dos seus féis, sobretudo através de uma
conduta moral exemplar e impregnada de santidade.199
II.
Estruturas de evangelização
99. É
motivo de alegria e consolação constatar que « os fiéis leigos estão cada vez
mais comprometidos com a missão da Igreja em África e Madagáscar », devido
especialmente « ao dinamismo dos movimentos de acção católica, das associações
de apostolado e dos novos movimentos de espiritualidade ». Os Padres do Sínodo
formularam votos calorosos de que « este impulso prossiga e se desenvolva a
todos os níveis do laicado, quer se tratem de adultos, quer de jovens e
crianças ».200
Paróquias
100. A
paróquia é, por sua natureza, o lugar habitual de vida e culto dos fiéis. Aí,
podem exprimir e concretizar as iniciativas, que a fé e a caridade cristã
sugerirem à comunidade dos crentes. A paróquia é o lugar onde se manifesta a comunhão
dos diversos grupos e movimentos, que nela encontram suporte espiritual e
apoio material. Sacerdotes e leigos colocarão todo o seu empenho para que a
vida da paróquia seja harmoniosa, no contexto de uma Igreja Família, onde todos
sejam « assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e
às orações » (Act 2,42).
Movimentos
e associações
101. A
união fraterna para um testemunho vivo do Evangelho há-de ser também a
finalidade dos movimentos apostólicos e associações de carácter religioso. Os
fiéis leigos, com efeito, encontram neles uma ocasião privilegiada para ser
fermento na massa (cf. Mt 13,33), especialmente no referente à ordenação
das coisas temporais segundo Deus e à luta pela promoção da dignidade humana,
da justiça e da paz.
Escolas
102. « As
escolas católicas são, ao mesmo tempo, lugares de evangelização, de educação
integral, de inculturação, e de aprendizagem do diálogo de vida entre jovens de
religiões e meios sociais diferentes ».201 A Igreja em África e Madagáscar
oferecerá, pois, o seu contributo para a promoção da « escola para todos » 202
no âmbito da escola católica, sem transcurar « a educação cristã dos alunos das
escolas não católicas ». Quanto aos universitários, a Igreja esforçar-se-á por
lhes « fornecer um programa de formação religiosa correspondente ao seu nível
de estudo ».203 Tudo isto, obviamente, supõe a preparação humana, cultural e
religiosa dos próprios educadores.
Universidades
e Institutos Superiores
103. « As
Universidades e os Institutos Superiores Católicos em África desempenham um
papel importante na proclamação da Palavra salvífica de Deus. Eles são sinal do
crescimento da Igreja, enquanto, nas suas investigações, integram as verdades e
as experiências da fé, e ajudam a interiorizá-las. Assim, estes centros de estudo
servem a Igreja, fornecendo-lhe pessoal bem preparado; estudando importantes
questões teológicas e sociais; desenvolvendo a teologia africana; promovendo o
trabalho de inculturação, especialmente na celebração litúrgica; publicando
livros e divulgando o pensamento católico; realizando as pesquisas que lhes são
confiadas pelos Bispos; contribuindo para o estudo científico das culturas
».204
Nestes
tempos de perturbações sociais generalizadas sobre o Continente, a fé cristã
pode iluminar eficazmente a sociedade africana. « Os centros culturais
católicos oferecem à Igreja singulares possibilidades de presença e acção
no campo das mutações culturais. Eles constituem, com efeito, uma espécie de
fórum público que permite fazer conhecer largamente, num diálogo criativo, as
convicções cristãs sobre o homem, a mulher, a família, o trabalho, a economia,
a sociedade, a política, a vida internacional, o meio ambiente ».205 Tornam-se
assim um lugar de escuta, respeito e tolerância.
Meios
materiais
104.
Precisamente nesta perspectiva, os Padres Sinodais puseram em relevo a
exigência de que cada comunidade cristã seja posta em condições de prover por
si só, na medida do possível, às suas necessidades.206 Além de pessoal
qualificado, a evangelização requer também meios materiais e financeiros
notáveis, e as dioceses, não raro, estão bem longe de poder dispor deles em
medida suficiente. É, portanto, urgente que as Igrejas particulares de África
se proponham o objectivo de chegar quanto antes a prover elas mesmas às suas
necessidades, assegurando desse modo a sua auto-suficiência. Por conseguinte,
convido encarecidamente as Conferências Episcopais, as dioceses e todas as
comunidades cristãs das Igrejas do Continente, a empenharem-se, no que for da
sua competência, para que esta auto-suficiência se torne cada vez mais uma
realidade. Ao mesmo tempo, faço apelo às Igrejas irmãs de todo o mundo, para
que sustentem mais generosamente as Obras Missionárias Pontifícias de tal forma
que, através dos seus organismos de ajuda, possam oferecer às dioceses
carenciadas auxílios económicos destinados a projectos de investimento, capazes
de produzir recursos que conduzam ao seu progressivo auto-financiamento.207
Além disso, não se deve esquecer que uma Igreja só pode chegar à
auto-suficiência material e financeira, se o povo que lhe está confiado não
sofrer condições de miséria extrema.
CAPÍTULO
VI
EDIFICAR O
REINO DE DEUS
Reino de
justiça e de paz
105. O
mandato, que Jesus conferiu aos discípulos ao subir ao céu, é dirigido à Igreja
de Deus de todos os tempos e lugares. A Igreja Família de Deus em África deve
testemunhar Cristo, também pela promoção da justiça e da paz no Continente e no
mundo inteiro. « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos
de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque
deles é o Reino dos Céus » (Mt 5,9-10) — diz o Senhor. O testemunho da
Igreja deve ser acompanhado pelo empenho convicto de cada um dos membros do
Povo de Deus a favor da justiça e da solidariedade. Isto é particularmente
importante no caso dos leigos que desempenham funções públicas, já que tal
testemunho exige um estado de espírito constante e um estilo de vida de
harmonia com a fé cristã.
A dimensão
eclesial do testemunho
106. Os
Padres Sinodais, ao sublinharem a dimensão eclesial do testemunho, declararam
solenemente: « A Igreja deve continuar a cumprir a sua missão profética, e ser
a voz dos sem voz ».208
Mas, para
o actuar de modo eficaz, a Igreja, enquanto comunidade de fé, deve ser uma
vigorosa testemunha da justiça e da paz nas suas próprias estruturas e nas
relações entre os seus membros. Corajosamente afirma a Mensagem do Sínodo: «
As Igrejas de África reconheceram também que, no seu próprio seio, a justiça
nem sempre foi respeitada no confronto daqueles que estão ao seu serviço. Se a
Igreja deve testemunhar a justiça, ela reconhece que todo aquele que ouse falar
de justiça aos homens, deve esforçar-se ele mesmo por ser justo aos seus olhos.
É preciso, pois, examinar com atenção os procedimentos, os bens e o estilo de
vida da Igreja ».209
O seu
apostolado, no referente à promoção da justiça e, de modo particular, à defesa
dos direitos humanos fundamentais, não pode ser deixado à improvisação.
Consciente do facto de que, em numerosos países da África, são perpetradas
flagrantes violações da dignidade e dos direitos do homem, peço às Conferências
Episcopais que estabeleçam, onde ainda não existirem, Comissões « Justiça e Paz
», aos vários níveis da vida eclesial. Elas deverão sensibilizar as comunidades
cristãs para as suas responsabilidades evangélicas na defesa dos direitos
humanos.210
107. Se o
anúncio da justiça e da paz é parte integrante da tarefa de evangelização,
consequentemente a promoção desses valores deverá fazer parte também do
programa pastoral de cada comunidade cristã. É por isso que insisto sobre a
necessidade de formar adequadamente todos os obreiros pastorais para tal
apostolado: « A formação do clero, dos religiosos e dos leigos, dada nos
próprios campos do seu apostolado, acentuará a doutrina social da Igreja. Cada
um, segundo o seu estado de vida, tomará consciência dos seus direitos e dos
seus deveres, aprenderá o sentido e o serviço do bem comum, e ainda os
critérios de uma gestão honesta dos bens públicos e de uma correcta presença na
vida política, para que possam intervir, com credibilidade, diante das
injustiças sociais ».211
Como corpo
organizado no seio da comunidade e da nação, a Igreja tem o direito e o dever
de participar plenamente, com todos os meios à sua disposição, na edificação de
uma sociedade justa e pacífica. Impõe-se recordar aqui o seu apostolado nos
campos da educação, da saúde, da sensibilização social e de outros programas de
assistência. Na medida em que contribui, com estas suas actividades, para
diminuir a ignorância, melhorar a saúde pública e favorecer maior participação
de todos nos problemas da sociedade, em espírito de liberdade e
corresponsabilidade, a Igreja cria as condições para o progresso da justiça e
da paz.
O sal da
terra
108. Na
época actual, no contexto de uma sociedade pluralista, é sobretudo através do
empenhamento dos católicos na vida pública que a Igreja pode exercer uma
influência eficaz. Da parte dos católicos, sejam eles de profissão liberal ou
professores, empresários ou funcionários, das forças de segurança ou políticos,
espera-se que dêem testemunho de bondade, verdade, justiça e amor de Deus nas
suas actividades quotidianas. « O dever do fiel leigo (...) é ser sal e luz do
mundo (...), particularmente, lá onde ele é o único a poder intervir ».212
Colaborar
com os outros crentes
109. A
obrigação de se empenhar a favor do desenvolvimento dos povos não é um dever
apenas individual, e menos ainda individualista, como se fosse
possível consegui-lo com os esforços isolados de cada um. Trata-se de um
imperativo tanto para cada homem e cada mulher, como para as
sociedades e as nações; de modo particular, é um imperativo para a Igreja
Católica e para as outras Igrejas e Comunidades eclesiais, com as quais os
católicos estão dispostos a colaborar neste campo.213 Nesse sentido, como os
católicos convidam os irmãos cristãos a participarem nas suas iniciativas,
assim, acolhendo os convites que lhes são feitos, se declaram prontos a
colaborar nas iniciativas por eles promovidas. Com o fim de favorecer o
desenvolvimento integral do homem, muito podem conseguir os católicos unidos
com os crentes das outras religiões, como, aliás, já sucede em diversos
lugares.214
Uma boa
gestão da vida pública
110. Os
Padres do Sínodo foram unânimes em reconhecer que o maior desafio para realizar
a justiça e a paz, na África, consiste em administrar bem a vida pública, nos
campos mutuamente conexos da política e da economia. Certos problemas têm
origem fora do Continente e, por isso mesmo, não estão totalmente sob o controlo
dos governantes e responsáveis nacionais. Mas a Assembleia Sinodal reconheceu
que muitos problemas do Continente são consequência de um modo de governar
frequentemente viciado pela corrupção. É necessária uma consciência bem
desperta, junto com uma firme determinação da vontade, para pôr em acto aquelas
soluções que já não é possível adiar mais.
Construir
a nação
111. Na
vertente política, o árduo processo da construção de unidades nacionais
encontra particulares obstáculos, no Continente Africano, dado que a maior
parte dos Estados são entidades políticas relativamente recentes. Conciliar
profundas diferenças, superar antigos ressentimentos de natureza étnica e
integrar-se numa ordem mundial complexa: tudo isto exige grande habilidade na
arte de governar. Por esta razão, a Assembleia Sinodal elevou ao Senhor
fervorosa prece a fim de que surjam, em África, políticos — homens e
mulheres — santos; para que hajam santos Chefes de Estado, que amem
profundamente o seu próprio povo e desejem mais servir que servir-se.215
A senda do
direito
112. Os
alicerces de um bom governo devem estar assentes sobre a base sólida das leis,
que protegem os direitos e definem os deveres dos cidadãos.216 Com grande
tristeza, tenho de constatar que várias nações africanas sofrem ainda sob
regimes autoritários e opressivos que negam aos súbditos a liberdade pessoal e
os direitos humanos fundamentais, de modo particular a liberdade de associação
e de expressão política, e o direito de escolher os próprios governantes por
meio de eleições livres e imparciais. Tais injustiças políticas provocam
tensões que frequentemente degeneram em conflitos armados e guerras internas,
trazendo consigo graves consequências como carestias, epidemias, destruições,
para não falar dos extermínios, do escândalo e da tragédia dos refugiados. Por
este motivo, o Sínodo justamente defendeu que uma autêntica democracia, no
respeito do pluralismo, é « uma das principais estradas pelas quais a Igreja
caminha com o povo. (...) O leigo cristão, comprometido nas lutas democráticas
segundo o espírito do Evangelho, é o sinal duma Igreja que se quer presente na
construção de um Estado de direito, por toda a parte da África ».217
Gerir o
património comum
113. Além
disso, o Sínodo faz apelo aos Governos africanos para que adoptem políticas
capazes de favorecer o crescimento económico e os investimentos, em ordem à
criação de novos postos de trabalho.218 Isto comporta o empenho de prosseguir
sãs políticas económicas, estabelecendo correctas prioridades na exploração e
distribuição dos recursos por vezes escassos, de forma a prover às carências
fundamentais das pessoas e assegurar uma repartição honesta e equitativa dos
benefícios e dos encargos. Os Governos têm, em particular, o indeclinável dever
de proteger o património comum contra todas as formas de delapidação e
apropriação indevida por parte de cidadãos carentes de sentido patriótico ou de
estrangeiros sem escrúpulos. Compete ainda aos Governos empreender adequadas
iniciativas para melhorar as condições do comércio internacional.
Os
problemas económicos da África são agravados ainda pela desonestidade de alguns
governantes corruptos, que, coniventes com interesses privados locais ou
estrangeiros, desviam para proveito próprio os recursos nacionais, transferindo
dinheiro público para contas privadas em Bancos no estrangeiro. Trata-se de
verdadeiros e próprios furtos, qualquer que seja a sua cobertura legal. Faço
ardentes votos de que os Organismos Internacionais e pessoas íntegras dos
países africanos ou de outros países do mundo saibam preparar os meios
jurídicos adequados para fazer regressar os capitais indevidamente subtraídos.
Também na concessão de empréstimos é importante informar-se sobre a
responsabilidade e transparência dos destinatários.219
A dimensão
internacional
114.
Enquanto Assembleia de Bispos da Igreja Universal presidida pelo Sucessor de
Pedro, o Sínodo foi uma ocasião providencial para avaliar, de forma positiva, o
lugar e o papel da África no contexto da Igreja Universal e da comunidade
mundial. Tornando-se este mundo em que vivemos cada vez mais interdependente,
os destinos e os problemas das diversas regiões vão aparecendo sempre mais
interligados. A Igreja, enquanto família de Deus sobre a terra, deve ser o
sinal vivo e o instrumento eficaz da solidariedade universal, tendo em vista a
edificação de uma comunidade de justiça e paz de dimensões cósmicas. Só surgirá
um mundo melhor, se for construído sobre os alicerces sólidos de sãos
princípios éticos e espirituais.
Na
situação mundial actual, as nações africanas contam-se entre as mais
desfavorecidas. É necessário que os países ricos tomem clara consciência do seu
dever de sustentar os esforços dos países que lutam para sair da pobreza e da
miséria. Aliás, é do próprio interesse das nações ricas optarem pelo caminho da
solidariedade, porque só assim será possível garantir à humanidade paz e
harmonia duradouras. Consequentemente, a Igreja que vive em países
desenvolvidos, não pode ignorar a sua responsabilidade acrescida que deriva do
compromisso cristão em prol da justiça e da caridade: visto que todos, homens e
mulheres, trazem em si mesmos a imagem de Deus e são chamados a fazer parte da
mesma família, redimida pelo Sangue de Cristo, deve ser garantido a cada um o
justo acesso aos recursos da terra, que Deus pôs à disposição de todos.220
Não é
difícil entrever as numerosas implicações práticas, que tal impostação
comporta. Em primeiro lugar, há que trabalhar por melhores relações
sócio-políticas entre as nações, assegurando condições de maior justiça e dignidade
àquelas que há menos tempo alcançaram a independência e entraram na comunidade
internacional. Depois, é preciso prestar ouvidos, com profunda sintonia, ao
grito angustiado das nações pobres, que pedem ajuda em âmbitos de particular
importância: a desnutrição, a deterioração generalizada da qualidade de vida, a
insuficiência dos meios para a formação dos jovens, a carência dos serviços
previdenciais e sociais elementares com a consequente persistência de doenças
endémicas, a difusão do terrível flagelo da SIDA, o peso gravoso e às vezes
insuportável da dívida internacional, o horror das guerras fratricidas
alimentadas por um tráfico de armas sem escrúpulos, o espectáculo vergonhoso e
lastimável dos deslocados e refugiados. Eis alguns campos onde são necessárias
intervenções imediatas, que permanecem oportunas, mesmo se se prevêem
insuficientes no quadro global dos problemas.
I. Motivos
de preocupação
Devolver a
esperança aos jovens
115. A
situação económica de pobreza tem um impacto especialmente negativo sobre os
jovens. Entram na vida dos adultos com escasso entusiasmo, devido a um presente
marcado por não poucas frustrações, e, com esperança ainda menor, olham para o
futuro que a seus olhos se desenha negro e triste. Por isso, tendem a fugir das
zonas rurais transcuradas e concentram-se nas cidades, que, no fundo, pouco de
melhor têm para lhes oferecer. Muitos deles saem para o estrangeiro como se
fossem para um exílio, e vivem lá uma existência precária de refugiados
económicos. Unido aos Padres do Sínodo, sinto o dever de defender a sua causa:
é necessário e urgente encontrar uma solução para a sua impaciência de
participar na vida da nação e da Igreja.221
Ao mesmo
tempo, porém, desejo dirigir aos próprios jovens um apelo: Queridos jovens, o
Sínodo pede-vos para assumirdes o desenvolvimento das vossas nações, amardes a
cultura do vosso povo e trabalhardes para a sua revitalização, através da
fidelidade à vossa herança cultural, com o aperfeiçoamento do espírito
científico e técnico e, sobretudo, pelo testemunho da fé cristã.222
O flagelo
da SIDA
116. Neste
horizonte de pobreza geral e serviços de saúde inadequados, o Sínodo tomou em
consideração o trágico flagelo da SIDA, que semeia sofrimento e morte em
numerosas zonas da África. Constatando o papel que comportamentos sexuais
irresponsáveis desempenham na difusão dessa doença, formulou esta firme
recomendação: « A amizade, a alegria, a felicidade, a paz que o matrimónio
cristão e a fidelidade proporcionam, bem como a segurança que a castidade
oferece, devem ser continuamente apresentados aos fiéis, particularmente aos
jovens ».223
A luta
contra a SIDA deve ser assumida por todos. Dando eco à voz dos Padres Sinodais,
também eu peço aos obreiros pastorais que levem aos irmãos e irmãs atingidos
pela SIDA todo o conforto possível, tanto material como moral e espiritual. Aos
cientistas e aos responsáveis políticos de todo o mundo peço, com grande
insistência, que, movidos pelo amor e pelo respeito devido a cada pessoa
humana, não olhem a despesas na busca dos meios capazes de pôr fim a este
flagelo.
« Das
espadas, forjai relhas de arado » (cf. Is 2,4): nunca mais a
guerra!
117. A
tragédia das guerras que dilaceram a África, foi descrita pelos Padres Sinodais
com palavras incisivas: « Há alguns decénios que a África é teatro de guerras
fratricidas que dizimam as populações e destroem as suas riquezas naturais e
culturais ».224 Tão tormentoso fenómeno, além de causas exteriores à África,
tem também causas internas como « o tribalismo, o nepotismo, o racismo, a intolerância
religiosa, a sede de poder, levada ao extremo nos regimes totalitários que
calcam impunemente os direitos e a dignidade do homem. As populações oprimidas
e reduzidas ao silêncio suportam, como vítimas inocentes e resignadas, todas
estas situações de injustiça ».225
Não posso
deixar de unir a minha voz à dos membros da Assembleia Sinodal para deplorar as
situações de indescritível sofrimento, provocadas por tantos conflitos em acto
ou latentes, e para pedir a quantos tenham possibilidades de o fazer que se
empenhem plenamente em pôr termo a semelhantes tragédias.
Além
disso, exorto, unido aos Padres Sinodais, a um efectivo empenho por promover
condições de maior justiça social e de exercício mais equitativo do poder, no
Continente, para preparar assim o terreno para a paz. « Se queres a paz,
trabalha pela justiça ».226 É preferível — e inclusive mais fácil — prevenir as
guerras que tentar pará-las depois de terem sido desencadeadas. É tempo que os
povos quebrem as suas espadas para delas forjarem relhas de arado, e as suas
lanças para com elas fazerem foices (cf. Is 2,4).
118. A
Igreja em África — particularmente através de alguns dos seus responsáveis —
esteve na primeira linha da busca de soluções negociadas para conflitos
armados, surgidos em numerosas zonas do Continente. Esta missão de pacificação
deverá continuar, estimulada por aquilo que o Senhor promete nas
Bem-aventuranças: « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados
filhos de Deus » (Mt 5,9).
Aqueles
que alimentam as guerras em África, por meio do tráfico de armas, são cúmplices
de odiosos crimes contra a humanidade. A este propósito, faço minhas as
recomendações do Sínodo que, depois de ter declarado que « o comércio de armas
que semeia a morte é um escândalo », fez apelo a todos os países que vendem
armas à África implorando-lhes que « acabem com este comércio », e pediu aos
Governos africanos que « renunciem aos excessivos gastos militares, a fim de
consagrarem maiores recursos à educação, à saúde e ao bem-estar dos seus povos ».227
A África
deve continuar a procurar meios pacíficos e eficazes para que os regimes
militares passem o poder aos civis. Contudo, é verdade igualmente que os
militares estão chamados a desempenhar a sua função peculiar no país. Por isso,
o Sínodo ao mesmo tempo que elogia « os irmãos militares pelo serviço que
prestam em nome dos respectivos povos »,228 logo os adverte seriamente de que «
deverão responder diante de Deus por todo o acto de violência contra a vida dos
inocentes ».229
Refugiados
e deslocados
119. Um
dos frutos mais amargos das guerras e das dificuldades económicas é o triste
fenómeno dos refugiados e deslocados, fenómeno que atingiu, como recorda o
Sínodo, dimensões trágicas. A solução ideal acha-se no restabelecimento de uma
paz justa, na reconciliação e no desenvolvimento económico. É urgente, pois,
que as organizações nacionais, regionais e internacionais resolvam, de forma
equitativa e duradoura, os problemas dos refugiados e deslocados.230
Entretanto, porém, dado que o Continente continua a sofrer migrações de
refugiados em massa, lanço um premente apelo a fim de que lhes seja levado
auxílio material e oferecido apoio pastoral nos lugares onde se encontram, em
África ou noutros continentes.
O peso da
dívida internacional
120. A
questão da dívida das nações pobres às ricas é objecto de grande preocupação
para a Igreja, como resulta de numerosos documentos oficiais e de várias
intervenções da Santa Sé em diversas ocasiões.231
Retomando
agora as palavras dos Padres Sinodais, sinto, em primeiro lugar, o dever de
exortar « os Chefes de Estado e os seus Governos, em África, a que não oprimam
o povo com dívidas internas e externas ».232 Em seguida, dirijo um premente
apelo « ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial, bem como a todos os
credores, para que amortizem as dívidas que sufocam os países africanos ».233
Peço, enfim, com insistência « às Conferências Episcopais dos países
industrializados para se fazerem advogados desta causa junto dos seus Governos
e dos organismos envolvidos ».234 A situação de numerosos países africanos é
tão dramática que não consente atitudes de indiferença ou desinteresse.
Dignidade
da mulher africana
121. Um
dos sinais típicos da nossa época é a crescente tomada de consciência da
dignidade da mulher e do seu papel específico na Igreja e na sociedade em
geral. « Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os
criou varão e mulher » (Gn 1,27).
Eu mesmo
afirmei, em várias ocasiões, a igualdade fundamental e a complementaridade
enriquecedora, que existe entre o homem e a mulher.235 O Sínodo aplicou estes
princípios à condição das mulheres em África. Os seus direitos e deveres
relativamente à edificação da família e à plena participação no desenvolvimento
da Igreja e da sociedade foram vigorosamente salientados. Concretamente no que
se refere ao âmbito eclesial, é oportuno que as mulheres, uma vez adequadamente
formadas, se tornem participantes, segundo níveis apropriados, da actividade
apostólica da Igreja.
Na medida
em que estejam ainda presentes nas sociedades africanas, a Igreja deplora e
condena todos « os costumes e práticas que privam as mulheres dos seus direitos
e do respeito que lhes é devido ».236 Muito desejável é que as Conferências
Episcopais instituam comissões especiais para aprofundar o estudo dos problemas
da mulher, em colaboração com as agências governamentais interessadas, onde
seja possível.237
II.
Comunicar a boa nova
Seguir
Cristo, Comunicador por excelência
122. O
Sínodo teve muito a dizer sobre o tema da comunicação social no campo da
evangelização da África, à luz das actuais circunstâncias. O ponto teológico de
partida é Cristo, o Comunicador por excelência, que participa àqueles que crêem
n'Ele a verdade, a vida e o amor partilhado com o Pai celeste e o Espírito
Santo. Por isso, « a Igreja toma consciência do dever de promover a comunicação
social ad intra e ad extra. É sua intenção favorecer a
comunicação no seu seio, por uma melhor difusão da informação entre os seus
membros ».238 Isto facilitar-lhe-á a comunicação ao mundo da Boa Nova do amor
de Deus, revelado em Jesus Cristo.
Formas
tradicionais de comunicação
123. As
formas tradicionais de comunicação social não devem, em caso algum, ser
subestimadas. Em numerosos ambientes africanos, revelam-se ainda muito úteis e
eficazes. Além disso, são « menos caras e mais acessíveis ».239 Nelas se
incluem os cânticos e a música, as mímicas e o teatro, os provérbios e os
contos. Enquanto veículos da sabedoria e do espírito popular, constituem uma
fonte preciosa de conteúdos e de inspiração, inclusive para os meios modernos.
Evangelização
do mundo dos meios de comunicação
124. Os
modernos mass-media não constituem apenas instrumentos de comunicação; são
também um mundo a evangelizar. Quanto às mensagens por eles transmitidas, é
preciso certificar-se de que sejam propostas no respeito do bem, do verdadeiro
e do belo. Dando eco à preocupação dos Padres do Sínodo, exprimo a minha
inquietude quanto ao conteúdo moral de muitíssimos programas que os meios de
comunicação social difundem no Continente Africano; de modo particular,
acautelo contra a pornografia e a violência, com que se procura invadir as
nações pobres. Por outro lado, justamente o Sínodo deplorou « o retrato tão
negativo que os mass-media fazem do africano e pede a sua imediata cessação
».240
Todo o
cristão se deve preocupar por que os meios de comunicação sejam veículo de
evangelização. Mas o cristão que actua como profissional neste sector, tem um
papel especial a desempenhar. De facto, é sua obrigação fazer com que os princípios
cristãos influam no exer- cício da profissão, inclusive no sector técnico e
administrativo. Para que possam desempenhar adequadamente tal missão, é preciso
proporcionar-lhes uma sã formação humana, religiosa e espiritual.
Uso dos
meios de comunicação social
125. A
Igreja de hoje pode dispor de uma certa variedade de meios de comunicação
social, tanto tradicionais como modernos. É seu dever fazer o melhor uso deles
para difundir a mensagem da salvação. Pelo que diz respeito à Igreja em África,
numerosos obstáculos lhe dificultam o acesso a esses meios, não sendo o último
o seu elevado preço. Em muitas partes, além disso, existem normas
governamentais que impõem, a tal respeito, um controle indevido. É necessário
realizar todos os esforços para remover esses obstáculos: os meios de
comunicação, privados ou públicos que sejam, devem estar ao serviço de todas as
pessoas, sem excepção. Convido, pois, as Igrejas particulares de África a
realizarem tudo o que esteja ao seu alcance para conseguir tal objectivo.241
Colaboração
e coordenação dos mass-media
126. Os
meios de comunicação, sobretudo nas suas formas mais modernas, exercem uma
influência que supera qualquer fronteira; neste âmbito, torna-se, pois,
necessária uma estreita coordenação que consinta uma colaboração mais eficaz a
todos os níveis: diocesano, nacional, continental e universal. Na África, a
Igreja tem muita necessidade da solidariedade das Igrejas irmãs dos países mais
ricos e avançados do ponto de vista tecnológico. Sempre neste Continente, alguns
programas de colaboração continental já em acção, como por exemplo o « Comité
Episcopal Pan-Africano de Comunicações Sociais », deveriam ser encorajados e
revitalizados. E, como sugeriu o Sínodo, será preciso estabelecer uma
colaboração mais estreita noutros sectores como a formação profissional, as
estruturas produtoras da rádio e da televisão, e as emissoras de alcance
continental.242
CAPÍTULO
VII
« VÓS
SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS ATÉ AOS CONFINS DO MUNDO »
127.
Durante a Assembleia Especial, os Padres Sinodais examinaram profundamente a
situação africana no seu conjunto, para encorajar a um testemunho de Cristo
cada vez mais concreto e credível, no seio de cada Igreja local, de cada nação,
de cada região, e no Continente Africano inteiro. Em todas as reflexões e
recomendações feitas pela Assembleia Especial, transparece preponderante o
desejo de testemunhar Cristo. Nisto, vi presente o espírito do que disse
a um grupo de Bispos, em África: « Respeitando, preservando e favorecendo os
valores próprios e as riquezas da herança cultural do vosso povo, vós sereis
capazes de guiá-lo para uma melhor compreensão do mistério de Cristo, que deve
ser vivido nas nobres, concretas e quotidianas experiências da vida africana.
Não se trata de adulterar a Palavra de Deus ou de esvaziar a Cruz do seu poder
(cf. 1 Cor 1,17), mas antes de levar Cristo precisamente ao coração da
vida africana e de erguer até Cristo a vida africana inteira. Assim, não só o
cristianismo aparece importante para a África, mas o próprio Cristo, nos
membros do seu Corpo, é africano ».243
Abertos à
missão
128. A
Igreja em África não está chamada a testemunhar Cristo apenas no continente; de
facto, também a ela é dirigida a palavra do Senhor ressuscitado: « Vós sereis
minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Act 1,8). Por isso
mesmo, durante os debates sobre o tema do Sínodo, os Padres evitaram
cuidadosamente toda a tendência de isolamento por parte da Igreja em África. A
Assembleia Especial sempre permaneceu na perspectiva do mandato missionário,
que a Igreja recebeu de Cristo para O testemunhar pelo mundo inteiro.244 Os
Padres Sinodais reconheceram o chamamento que Deus dirige à África para que
exerça cabalmente, à escala mundial, o seu papel no plano da salvação do género
humano (cf. 1 Tim 2,4).
129.
Precisamente em função deste compromisso pela catolicidade da Igreja, já os Lineamenta
da Assembleia Especial para a África declaravam: « Nenhuma Igreja
particular, nem mesmo a mais pobre, poderá ser dispensada da obrigação de
partilhar os seus recursos espirituais, temporais e humanos com outras Igreja
particulares e com a Igreja Universal (cf. Act 2,44-45) ».245 Por seu
lado, a Assembleia Especial sublinhou intensamente a responsabilidade da África
pela missão « até aos confins do mundo », nos seguintes termos: « A frase
profética de Paulo VI — "vós, Africanos, sois chamados a ser missionários
de vós mesmos" — há-de ser entendida deste modo: "sois missionários
pelo mundo inteiro" (...). Às Igrejas particulares da África, foi lançado
um apelo para a missão fora dos limites das próprias dioceses ».246
130.
Aprovando com alegria e gratidão esta declaração da Assembleia Especial, desejo
repetir a todos os meus irmãos Bispos da África as palavras que disse, há
alguns anos: « A obrigação que a Igreja de África tem de ser missionária no seu
próprio interior e de evangelizar o continente, requer a cooperação entre as
Igrejas particulares no contexto de cada país africano, no contexto das
diferentes nações do continente e também de outros continentes. É assim que a
África se integrará plenamente na actividade missionária ».247 E num apelo
dirigido anteriormente a todas as Igrejas particulares, de fundação recente ou
antiga, eu dizia que « o mundo vai-se unificando cada vez mais, o espírito
evangélico deve levar à supressão de barreiras culturais e nacionalistas,
evitando qualquer isolamento ».248
A corajosa
determinação, manifestada pela Assembleia Especial, de comprometer as jovens
Igrejas de África na missão « até aos confins do mundo », reflecte o desejo de
seguir, o mais generosamente possível, uma das importantes directrizes do
Concílio Vaticano II: « Para que este zelo missionário comece a florescer entre
os naturais do país, convém absolutamente que as Igrejas jovens participem
efectivamente na missão universal da Igreja, enviando elas também missionários
a anunciar o Evangelho por toda a terra, ainda que elas sofram de falta de
clero. A comunhão com a Igreja inteira estará, de certo modo, consumada quando,
também elas, tomarem parte activa na acção missionária junto de outros povos
».249
Solidariedade
pastoral orgânica
131. No
início desta Exortação, frisei que, ao anunciar a convocação da Assembleia
Especial para a África do Sínodo dos Bispos, tinha em vista a promoção de « uma
solidariedade pastoral orgânica no âmbito de todo o continente africano e das
ilhas contíguas ».250 Tenho a satisfação de constatar que a Assembleia demandou
corajosamente tal objectivo. Os debates no Sínodo revelaram a atenção e
generosidade dos Bispos por esta solidariedade pastoral e pela partilha dos
seus recursos com outros, mesmo quando eles próprios tinham falta de
missionários.
132. A
propósito disto e precisamente aos meus irmãos Bispos que « são directamente
responsáveis comigo pela evangelização do mundo, quer como membros do Colégio
Episcopal, quer como Pastores das Igrejas particulares »,251 desejo dirigir uma
palavra especial. Na dedicação quotidiana ao rebanho que lhes está confiado,
não devem nunca perder de vista as necessidades da Igreja no seu conjunto.
Enquanto Bispos católicos, eles não podem deixar de sentir aquela
solicitude por todas as Igrejas, que ardia no coração do Apóstolo (cf. 2 Cor
11,28). Não podem deixar de a sentir, sobretudo quando reflectem e decidem juntos
como membros das respectivas Conferências Episcopais, que, através dos
organismos de interligação a nível regional e continental, são capazes de
perceber e avaliar melhor as urgências pastorais que se levantam noutras partes
do mundo. Os Bispos realizam, depois, uma sublime expressão de solidariedade
apostólica no Sínodo: este, « entre os assuntos de importância geral, deve
atender de modo especial à actividade missionária, que é o principal e o mais
sagrado dever da Igreja ».252
133. Além
disso, a Assembleia Especial fez justamente notar que, para preparar uma
solidariedade pastoral de conjunto em África, é necessário promover a renovação
da formação dos sacerdotes. Nunca será demais meditar estas palavras do
Concílio Vaticano II: « O dom espiritual, recebido pelos presbíteros na
ordenação, não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para
a missão imensa e universal da salvação, "até aos confins do mundo" (Act
1,8) ».253
Por este
motivo, eu próprio exortei os sacerdotes a « estarem concretamente disponíveis
ao Espírito Santo e ao Bispo, para serem enviados a pregar o Evangelho para
além das fronteiras do seu país. Isto exigir-lhes-á não apenas maturidade na
vocação, mas também uma capacidade fora do comum para se afastarem da própria
pátria, etnia e família, bem como uma particular idoneidade para se inserirem,
com inteligência e respeito, nas outras culturas ».254
Sinto-me
profundamente grato a Deus por saber que sacerdotes africanos, em número sempre
maior, têm respondido ao apelo de ser testemunhas « até aos confins do mundo ».
Espero ardentemente que esta tendência seja estimulada e consolidada em todas
as Igrejas particulares da África.
134. Outro
motivo de grande conforto é saber que os Institutos Missionários, presentes em
África há muito tempo, « acolhem hoje, numa medida sempre maior, candidatos
provenientes das jovens Igrejas que eles fundaram »,255 permitindo, assim, a
estas mesmas Igrejas participarem na actividade missionária da Igreja
Universal. Igualmente exprimo a minha grata complacência aos novos Institutos
Missionários que surgiram no Continente e que hoje enviam os seus membros ad
gentes. É um desenvolvimento providencial e maravilhoso, que manifesta a
maturidade e o dinamismo da Igreja que está em África.
135. De
modo particular, desejo fazer minha a recomendação explícita dos Padres
Sinodais a que se estabeleçam as quatro Obras Missionárias Pontifícias em cada
Igreja particular e em cada país, como meio para realizar uma solidariedade
pastoral orgânica em prol da missão « até aos confins do mundo ». Obras do
Papa e do Colégio Episcopal, elas ocupam, com todo o direito, o primeiro lugar,
« uma vez que são meios quer para dar aos católicos um sentido verdadeiramente
universal e missionário logo desde a infância, quer para promover colectas
eficazes de subsídios para bem de todas as missões, segundo as necessidades de
cada uma ».256 Um fruto significativo da sua actividade é o « suscitar vocações
ad gentes por toda a vida, tanto nas Igrejas antigas com nas mais
jovens. Recomendo que orientem cada vez mais para esse fim, o seu serviço de
animação ».257
Santidade
e missão
136. O
Sínodo reafirmou que todos os filhos e filhas da África são chamados à
santidade e a ser testemunhas de Cristo em qualquer canto do mundo. « A lição
da história confirma que, pela acção do Espírito Santo, a evangelização se
realiza sobretudo por meio do testemunho de caridade, do testemunho de
santidade ».258 Por isso, desejo repetir a todos os cristãos da África as
palavras que escrevi, há alguns anos: « Todo o missionário só o é
autenticamente, se se empenhar no caminho da santidade. (...) Todo o fiel é
chamado à santidade e à missão. (...) O renovado impulso para a missão ad
gentes exige missionários santos. Não basta renovar os métodos pastorais,
nem organizar e coordenar melhor as forças eclesiais, nem explorar com maior
perspicácia as bases bíblicas e teológicas da fé: é preciso suscitar um novo
"ardor de santidade" entre os missionários e em toda a comunidade
cristã ».259
Agora,
como então, dirijo-me aos cristãos das jovens Igrejas para os colocar diante
das suas responsabilidades: « Vós sois hoje a esperança desta nossa Igreja, que
tem já dois mil anos: sendo jovens na fé, deveis ser como os primeiros
cristãos, irradiando entusiasmo e coragem, numa generosa dedicação a Deus e ao
próximo; numa palavra, deveis seguir pelo caminho da santidade. Só assim
podereis ser sinal de Deus no mundo e reviver em vossos países a epopeia
missionária da Igreja primitiva. E sereis também fermento de espírito
missionário para as Igrejas mais antigas ».260
137. A
Igreja que está em África, partilha com a Igreja Universal « a vocação sublime
de realizar, em primeiro lugar em si mesma, a unidade do género humano para
além das diferenças étnicas, culturais, nacionais, sociais e outras, para
significar precisamente a caducidade destas diferenças abolidas pela cruz de
Cristo ».261 Correspondendo à sua vocação de ser no mundo o povo redimido e
reconciliado, a Igreja contribui para o fomento de uma coexistência fraterna
entre os povos, transcendendo as distinções de raça e nação.
Dada a
vocação específica confiada à Igreja pelo seu divino Fundador, peço
insistentemente à Comunidade católica em África que ofereça à humanidade
inteira um autêntico testemunho do universalismo cristão que brota da
paternidade de Deus. « Todos os homens criados em Deus têm a mesma origem; qualquer
que seja a sua dispersão geográfica ou a acentuação das suas diferenças, no
decurso da história, eles estão destinados a formar uma só família,
segundo o desígnio de Deus estabelecido "ao princípio" ».262 A Igreja
em África é chamada a ir amorosamente ao encontro de todo o ser humano,
acreditando com vigor que « pela sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-Se de
certo modo a cada homem ».263
De forma
particular, a África deve oferecer o próprio contributo para o movimento
ecuménico, cuja urgência, em vista do terceiro milénio, de novo sublinhei
recentemente na Carta encíclica Ut unum sint.264 Aquela pode certamente
prestar uma ajuda importante também no diálogo entre as religiões, sobretudo
cultivando relações amistosas com os muçulmanos e promovendo um deferente
respeito pelos valores da religião tradicional africana.
Praticar a
solidariedade
138. Ao
testemunhar Cristo « até aos confins do mundo », a Igreja em África sentir-se-á
motivada, seguramente, pela convicção do « valor positivo e moral » que
representa « a consciência crescente da interdependência entre os homens
e as nações. O facto de os homens e as mulheres, em várias partes do mundo,
sentirem como próprias as injustiças e as violações dos direitos humanos
cometidas em países longínquos, que talvez nunca visitem, é mais um sinal de
uma realidade interiorizada pela consciência, adquirindo assim uma
conotação moral ».265
Faço votos
de que os cristãos em África se tornem cada vez mais conscientes desta
interdependência entre os indivíduos e entre as nações, e estejam prontos a
corresponder-lhe pela prática da virtude da solidariedade. O fruto da
solidariedade é a paz, bem tão precioso para os povos e as nações de qualquer
canto do mundo. Com efeito, precisamente através de meios capazes de promover e
reforçar a solidariedade, a Igreja pode prestar um contributo específico e
determinante para uma verdadeira cultura da paz.
139.
Relacionando-se, sem qualquer discriminação, com os povos do mundo, em diálogo
com as várias culturas, a Igreja aproxima uns dos outros, e ajuda cada qual a
assumir na fé os valores autênticos dos outros.
Pronta a
cooperar com todo o homem de boa vontade e com a comunidade internacional, a
Igreja em África não procura vantagens para si própria. A solidariedade que
manifesta, « tende a superar-se a si mesma, a revestir as dimensões especificamente
cristãs da gratuidade total, do perdão e da reconciliação ».266 A Igreja
procura contribuir para a conversão da humanidade, levando-a a abrir-se ao
plano salvífico de Deus por meio do testemunho evangélico, acompanhado pela
actividade caritativa ao serviço dos pobres e dos marginalizados. E ao fazê-lo,
não perde nunca de vista o primado do transcendente e daquelas realidades
espirituais que constituem as primícias da salvação eterna do homem.
Durante os
debates relativos à solidariedade da Igreja com os povos e as nações, os Padres
Sinodais sempre estiveram conscientes de que « o progresso terreno se deve
cuidadosamente distinguir do crescimento do Reino de Cristo », mas, « na medida
em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa
muito ao Reino de Deus ».267 Por isso mesmo, a Igreja em África está convencida
— e o trabalho da Assembleia Especial demonstrou-o claramente — que a
expectativa do regresso final de Cristo « nunca poderá ser uma desculpa para
nos desinteressarmos dos homens, na sua situação pessoal concreta e na sua vida
social, nacional e internacional »,268 já que as condições terrenas influenciam
a peregrinação do homem rumo à eternidade.
CONCLUSÃO
Rumo ao
novo milénio cristão
140.
Reunidos ao redor da Virgem Maria como que em novo Pentecostes, os membros da
Assembleia Especial examinaram profundamente a missão evangelizadora da Igreja
em África, no limiar do terceiro milénio. Ao concluir esta Exortação
Apostólica pós-sinodal, onde se apresentam os frutos dessa Assembleia à Igreja
que está em África, Madagáscar e ilhas contíguas, e a toda a Igreja Católica,
dou graças a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos concedeu o privilégio
de viver esse autêntico « momento de graça » que foi o Sínodo. Estou
profundamente agradecido ao Povo de Deus em África por tudo quanto fez pela
Assembleia Especial. Este Sínodo foi preparado com zelo e entusiasmo, como atestam
as respostas ao questionário anexo ao documento preliminar (Lineamenta),
e as reflexões recolhidas no documento de trabalho (Instrumentum laboris).
As comunidades cristãs da África rezaram fervorosamente pelo bom êxito dos
trabalhos da Assembleia Especial, que foi largamente abençoada pelo Senhor.
141. Uma
vez que o Sínodo foi convocado para consentir que a Igreja em África assumisse,
de maneira tão eficaz quanto possível, a sua missão evangelizadora com vista ao
terceiro milénio cristão, com esta Exortação convido o Povo de Deus em África —
Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos — a orientar-se resolutamente
para o Grande Jubileu, que será celebrado dentro de poucos anos. No caso dos
povos de África, a melhor preparação para o novo milénio não pode ser senão o
firme compromisso de actuarem, com grande fidelidade, as decisões e orientações
que, com a autoridade apostólica de Sucessor de Pedro, apresento nesta
Exortação. Trata-se de decisões e orientações que se inscrevem na genuína linha
dos ensinamentos e directrizes da Igreja e, especialmente, do Concílio Vaticano
II que foi a principal fonte de inspiração da Assembleia Especial para a
África.
142. O meu
convite ao Povo de Deus que está em África para se preparar para o Grande
Jubileu do ano 2000, pretende ser também um vibrante apelo à alegria cristã.
« A grande alegria anunciada pelo Anjo, na noite de Natal, é
verdadeiramente para todo o povo (cf. Lc 2,10). (...) Foi-o, em primeiro
lugar, para a Virgem Maria, que tinha recebido o seu anúncio do anjo Gabriel, e
o seu Magnificat constituia já o hino de exultação de todos os humildes.
Os mistérios gozosos, todas as vezes que rezámos o Terço, tornam a colocar-nos
perante o inefável acontecimento que é centro e ápice da História: a vinda à
terra do Emanuel, o Deus-connosco ».269
É o
bimilenário de tal acontecimento, rico de alegria, que nos preparamos para
celebrar com o próximo Grande Jubileu. Naturalmente a África — que « constitui,
em certo sentido, a "segunda pátria" de Jesus de Nazaré, [porque] foi
lá que Ele, menino pequeno, encontrou refúgio contra a crueldade de Herodes »
270 — é chamada à alegria. Ao mesmo tempo, « tudo deverá apontar para o
objectivo prioritário do Jubileu que é o revigoramento da fé e do testemunho
dos cristãos ».271
143. Por
causa das numerosas dificuldades, crises e conflitos que geram tanta miséria e
sofrimento no Continente, há Africanos que, por vezes, são tentados a pensar
que o Senhor os tenha abandonado, que Ele os tenha esquecido (cf. Is 49,14)!
Mas « Deus responde com as palavras do grande Profeta: "Acaso pode uma
mulher esquecer-se do menino que amamenta, não ter carinho pelo fruto das suas
entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu
te gravei nas palmas das minhas mãos" (Is 49,15-16). Sim, nas
palmas das mãos de Cristo, trespassadas pelos cravos da crucifixão! O nome de
cada um de vós, [Africanos], está escrito nestas mãos. Portanto, com grande
confiança, digamos: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; n'Ele
confiou o meu coração; fui socorrido e, por isso, o meu coração exulta" (Sal
2827,7) ».272
Oração a
Maria, Mãe da Igreja
144.
Reconhecido pela graça deste Sínodo, dirijo-me a Maria, Estrela da
evangelização, e, com o terceiro milénio já próximo, confio-Lhe a África e a sua
missão evangelizadora. Dirijo-me a Ela com os pensamentos e sentimentos
expressos na oração que os meus irmãos Bispos compuseram, na conclusão da Fase
de trabalho do Sínodo, em Roma:
Ó Maria,
Mãe de Deus e Mãe da Igreja,
graças a
Vós, no dia da Anunciação,
ao
alvorecer dos novos tempos,
todo o
género humano com as suas culturas,
se alegrou
por se saber capaz do Evangelho.
Na vigília
de um novo Pentecostes
para a
Igreja de África,
Madagáscar
e ilhas contíguas,
o Povo de
Deus com os seus Pastores
dirige-se
a Vós e, juntamente convosco, implora:
a efusão
do Espírito Santo
faça das
culturas africanas
lugares de
comunhão na diversidade,
transformando
os habitantes
deste
grande Continente
em filhos
generosos da Igreja,
que é
Família do Pai
Fraternidade
do Filho,
Imagem da
Trindade,
gérmen e
início na terra
daquele
Reino eterno
que terá a
sua plenitude
na Cidade
que tem Deus como construtor:
Cidade de
justiça, de amor e de paz.
Dado em
Yaoundé, Camarões, no dia 14 de Setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, do
ano 1995, décimo sétimo de Pontificado.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
Page: http://www.vatican.va