CONGREGAÇÃO
PARA A DOUTRINA DA FÉ
"DOMINUS IESUS"
SOBRE A UNICIDADE E A
UNIVERSALIDADE SALVÍFICA DE JESUS CRISTO E DA IGREJA
O
Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida, a 16 de Junho de 2000, ao
abaixo-assinado Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com
ciência certa e com a sua autoridade apostólica ratificou e confirmou esta
Declaração, decidida em Sessão Plenária, e mandou que fosse publicada.
Dado em Roma, sede da Congregação para
a Doutrina da Fé, 6 de Agosto 2000, Festa da Transfiguração do Senhor.
INTRODUÇÃO
1. O Senhor Jesus, antes de subir
ao Céu, confiou aos seus discípulos o mandato de anunciar o Evangelho a todo o
mundo e de baptizar todas as nações: « Ide a todo o mundo e pregai o Evangelho
a todas as criaturas. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não
acreditar será condenado » (Mc 16,15-16); « Todo o poder Me foi no céu
e na terra. Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizai-as em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos
mandei. E Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos » (Mt 28,18-20;
cf. ainda Lc
24,46-48; Jo 17,18; 20,21; Actos 1,8).
A missão universal da Igreja
nasce do mandato de Jesus Cristo e realiza-se, através dos séculos, com a
proclamação do mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e do mistério da
encarnação do Filho, como acontecimento de salvação para toda a humanidade. São
estes os conteúdos fundamentais da profissão de fé cristã: « Creio em um só Deus,
Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e
invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por
nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito
Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem. Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras; e subiu aos Céus, onde está sentado à direita do Pai.
De novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu
Reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do
Pai. Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas.
Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só baptismo para
a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo
que há-de vir ».1
2. A Igreja, ao longo dos
séculos, proclamou e testemunhou com fidelidade o Evangelho de Jesus. Ao
terminar o segundo milénio, porém, esta missão ainda está longe de se cumprir.2
Daí a grande actualidade do grito do Apóstolo Paulo sobre o dever missionário
de todo o baptizado: « Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória,
é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! » (1 Cor 9,16).
Assim se explica a especial atenção que o Magistério tem posto na motivação e
apoio da missão evangelizadora da Igreja, nomeadamente no que diz respeito às
tradições religiosas do mundo.3
Tendo em conta os valores que
essas tradições testemunham e oferecem à humanidade, com uma atitude aberta e
positiva, a Declaração conciliar sobre a relação da Igreja com as religiões não
cristãs afirma: « A Igreja Católica não rejeita absolutamente nada daquilo que
há de verdadeiro e santo nessas religiões. Considera com sincero respeito esses
modos de agir e de viver, esses preceitos e doutrinas que, embora em muitos
pontos estejam em discordância com aquilo que ela afirma e ensina, muitas vezes
reflectem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens ».4
Prosseguindo na mesma linha, o empenho eclesial de anunciar Jesus Cristo, «
caminho, verdade e vida » (Jo 14,6), hoje também encontra ajuda na
prática do diálogo inter-religioso, que certamente não substitui, mas acompanha
a missio
ad gentes, graças àquele « mistério de unidade », de que « resulta
que todos os homens e mulheres que foram salvos participam, embora de maneira
diferente, no mesmo mistério de salvação em Jesus Cristo por meio do seu
Espírito ».5 Este diálogo, que faz parte da missão evangelizadora da
Igreja,6 comporta uma atitude de compreensão e uma relação de
recíproco conhecimento e de mútuo enriquecimento, na obediência à verdade e no
respeito da liberdade.7
3. No exercício e
aprofundamento teórico do diálogo entre a fé cristã e as demais tradições
religiosas surgem novos problemas, que se tenta solucionar, seguindo novas
pistas de investigação, adiantando propostas e sugerindo comportamentos, que
carecem de um cuidadoso discernimento. Neste esforço, a presente Declaração
entende recordar aos Bispos, aos teólogos e a todos os fiéis católicos alguns
conteúdos doutrinais imprescindíveis, que podem ajudar a reflexão teológica a
amadurecer soluções de acordo com o dado da fé e em correspondência com as
urgências culturais do nosso tempo.
A linguagem expositiva da
Declaração está em linha com a sua finalidade. Não se pretende tratar de forma
orgânica a problemática da unicidade e universalidade salvífica do mistério de
Jesus Cristo e da Igreja, nem apresentar soluções aos problemas e questões
teológicos que são objecto de livre debate, mas voltar a expor a doutrina da fé
católica em propósito, indicando, ao mesmo tempo, alguns problemas fundamentais
que se mantêm abertos a ulteriores aprofundamentos, e confutar algumas posições
erróneas ou ambíguas. É por isso que a Declaração retoma a doutrina contida nos
anteriores documentos do Magistério, para reafirmar as verdades que constituem
o património de fé da Igreja.
4. O perene anúncio
missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista,
que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas de facto,
mas também de
iure (ou de principio). Daí que se considerem
superadas, por exemplo, verdades como o carácter definitivo e completo da
revelação de Jesus Cristo, a natureza da fé cristã em relação com a crença nas
outras religiões, o carácter inspirado dos livros da Sagrada Escritura, a
unidade pessoal entre o Verbo eterno e Jesus de Nazaré, a unidade da economia
do Verbo Encarnado e do Espírito Santo, a unicidade e universalidade salvífica
do mistério de Jesus Cristo, a mediação salvífica universal da Igreja, a não
separação, embora com distinção, do Reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja, a
subsistência na Igreja Católica da única Igreja de Cristo.
Na raiz destas afirmações
encontram-se certos pressupostos, de natureza tanto filosófica como teológica,
que dificultam a compreensão e a aceitação da verdade revelada. Podem
indicar-se alguns: a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade
divina, nem mesmo através da revelação cristã; uma atitude relativista perante a
verdade, segundo a qual, o que é verdadeiro para alguns não o é para outros; a
contraposição radical que se põe entre a mentalidade lógica ocidental e a
mentalidade simbólica oriental; o subjectivismo de quem, considerando a razão
como única fonte de conhecimento, se sente « incapaz de levantar o olhar para o
alto e de ousar atingir a verdade do ser »;8 a dificuldade de ver e
aceitar na história a presença de acontecimentos definitivos e escatológicos; o
vazio metafísico do evento da encarnação histórica do Logos eterno, reduzido a
um simples aparecer de Deus na história; o eclectismo de quem, na investigação
teológica, toma ideias provenientes de diferentes contextos filosóficos e
religiosos, sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua
compatibilidade com a verdade cristã; a tendência, enfim, a ler e interpretar a
Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja.
Na base destes pressupostos,
que se apresentam com matizes diferentes, por vezes como afirmações e outras vezes
como hipóteses, elaboram-se propostas teológicas, em que a revelação cristã e o
mistério de Jesus Cristo e da Igreja perdem o seu carácter de verdade absoluta
e de universalidade salvífica, ou ao menos se projecta sobre elas uma sombra de
dúvida e de insegurança.
I. O CARÁCTER PLENO E DEFINITIVO
DA REVELAÇÃO DE JESUS CRISTO
5. Para fazer frente a essa
mentalidade relativista, que se vai difundindo cada vez mais, há que reafirmar,
antes de mais, o carácter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo.
Deve, de facto, crer-se firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus
Cristo, Filho de Deus Encarnado, que é « o caminho, a verdade e a vida » (cf. Jo 14,6),
dá-se a revelação da plenitude da verdade divina: « Ninguém conhece o Filho
senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o
queira revelar » (Mt 11,27); « A Deus, ninguém jamais O viu. O próprio Filho
Único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer » (Jo 1,18); « É em Cristo que
habita corporalmente toda a plenitude da divindade e n'Ele participais da sua
plenitude » (Col 2,9).
Fiel à palavra de Deus, o
Concílio Vaticano II ensina: « A verdade profunda, tanto a respeito de Deus
como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de
Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação ».9
E sublinha: « Jesus Cristo, portanto, Verbo Encarnado, enviado como “homem aos
homens”, “fala as palavras de Deus” (Jo 3,34) e consuma a obra da salvação que
o Pai Lhe confiou (cf. Jo 5,36; 17,4). Por isso, Ele — ao qual
quem vê, vê o Pai (Jo 14,9) — com a sua total presença e
manifestação pessoal, com as palavras e as obras, com os sinais e com os
milagres e, sobretudo, com a sua morte e gloriosa ressurreição de entre os
mortos, enfim, com o envio do Espírito de Verdade, completa perfeitamente a
revelação e a confirma com o seu testemunho divino [...]. A economia cristã,
portanto, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não mais se deve
esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor
Jesus Cristo (cf. 1 Tim 6,14 e Tit 2,13) ».10
Por isso, a Encíclica Redemptoris
missio relembra à Igreja a missão de proclamar o Evangelho, como
plenitude da verdade: « Nesta Palavra definitiva da sua revelação, Deus deu-Se
a conhecer do modo mais pleno: Ele disse à humanidade quem é. E esta
auto-revelação definitiva de Deus é o motivo fundamental pelo qual a Igreja é,
por sua natureza, missionária. Não pode deixar de proclamar o Evangelho, ou
seja, a plenitude da verdade que Deus nos deu a conhecer acerca de Si mesmo ».11
Só a revelação de Jesus Cristo, portanto, « introduz na nossa história uma
verdade universal e última, que leva a mente do homem a nunca mais se deter ».12
6. É, por conseguinte,
contrária à fé da Igreja a tese que defende o carácter limitado, incompleto e
imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é
presente nas outras religiões. A razão de fundo de uma tal afirmação
basear-se-ia no facto de a verdade sobre Deus não poder ser compreendida nem
expressa na sua globalidade e inteireza por nenhuma religião histórica e,
portanto, nem pelo cristianismo e nem sequer por Jesus Cristo.
Semelhante posição está em
total contradição com as precedentes afirmações de fé, segundo as quais, temos
em Jesus Cristo a revelação plena e completa do mistério salvífico de Deus.
Portanto, as palavras, as obras e o inteiro facto histórico de Jesus, se bem
que limitados enquanto realidades humanas, têm, todavia, como sujeito a Pessoa
divina do Verbo Encarnado, « verdadeiro Deus e verdadeiro homem »,13
e assim comportam o carácter definitivo e completo da revelação dos caminhos
salvíficos de Deus, embora a profundidade do mistério divino em si mesmo
permaneça transcendente e inesgotável. A verdade sobre Deus não é abolida nem
diminuída pelo facto que é proferida numa linguagem humana. É, invés, única,
plena e completa, porque quem fala e actua é o Filho de Deus Encarnado. Daí a
exigência da fé em se professar que o Verbo feito carne é, em todo o seu
mistério que vai da encarnação à glorificação, a fonte, participada mas real, e
a consumação de toda a revelação salvífica de Deus à humanidade,14 e
que o Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo, ensinará aos Apóstolos e, por
meio deles, à Igreja inteira de todos os tempos, esta « verdade total » (Jo 16,
13).
7. A melhor resposta à
revelação de Deus é a « obediência da fé (Rom 1,5; cf. Rom 16,26;
2 Cor 10,5-6),
com a qual o homem se entrega livre e totalmente a Deus, oferecendo a Deus
“revelador a submissão plena da inteligência e da vontade” e dando
voluntariamente assentimento à revelação feita por Ele ».15 A fé é
um dom da graça: « Porque para professar esta fé, é necessária a graça de Deus
que previne e ajuda, e os outros auxílios internos do Espírito Santo, o qual
mova e converta para Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê “a todos a
suavidade no aderir e dar crédito à verdade” ».16
A obediência da fé comporta a
aceitação da verdade da revelação de Cristo, garantida por Deus, que é a própria
Verdade:17 « A fé é, antes de mais, uma adesão pessoal do homem a
Deus; ao mesmo tempo e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade que
Deus revelou ».18 A fé, portanto, « dom de Deus » e «
virtude sobrenatural por Ele infundida »,19 comporta uma dupla
adesão: a Deus, que revela, e à verdade revelada por Ele, pela confiança que se
tem na pessoa que o afirma. Por isso « não se deve acreditar em mais ninguém, a
não ser em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo ».20
Deve, portanto, manter-se
firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras
religiões. Se fé é aceitar na graça a verdade revelada, « que permite penetrar
no seio do mistério, favorecendo a sua inteligência coerente »,21 a
crença nas outras religiões é o conjunto de experiência e pensamento, que
constitui os tesouros humanos de sabedoria e de religiosidade, que o homem na
sua procura da verdade ideou e pôs em prática em referência ao Divino e ao
Absoluto.22
Nem sempre se tem presente
essa distinção na reflexão hodierna, sendo frequente identificar a fé teologal,
que é aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, com crença nas outras
religiões, que é experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e
ainda carecida do assentimento a Deus que Se revela. Essa é uma das razões
porque se tende reduzir, e por vezes até anular, as diferenças entre o
cristianismo e as outras religiões.
8. Existe também quem avance a hipótese do valor
inspirado dos textos sagrados de outras religiões. Certamente deve admitir-se
que alguns elementos presentes neles são de facto instrumentos, através dos
quais, multidões de pessoas puderam, através dos séculos, e podem ainda hoje
alimentar e manter a sua relação religiosa com Deus. Por isso, o Concílio
Vaticano II, referindo-se aos modos de agir, aos preceitos e doutrinas das
outras religiões, afirma — como cima se recordou — que, « embora em muitos
pontos estejam em discordância com aquilo que [a Igreja] afirma e ensina,
muitas vezes reflectem um raio daquela Verdade, que ilumina todos os homens ».23
A tradição da Igreja, porém,
reserva o qualificativo de textos inspirados aos livros canónicos do
Antigo e Novo Testamento, enquanto inspirados pelo Espírito Santo.24
Fiel a esta tradição, a Constituição dogmática sobre a divina Revelação do
Concílio Vaticano II ensina: « Com efeito, a Santa Mãe Igreja, por fé
apostólica, tem como sagrados e canónicos os livros inteiros do Antigo e do
Novo Testamento com todas as suas partes, porque escritos por inspiração do
Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 2 Tim 3,16; 2 Pedro 1,19-21;
3,15-16), têm Deus por autor e, como tais, foram confiados à própria Igreja ».25
Tais livros « ensinam com firmeza, com fidelidade e sem erro, a verdade que
Deus, por causa da nossa salvação, quis consignar nas Sagradas Letras ».26
Embora querendo congregar em
Cristo todas as gentes e comunicar-lhes a plenitude da sua revelação e do seu
amor, Deus não deixa de Se tornar presente sob variadas formas « quer aos
indivíduos, quer aos povos, através das suas riquezas espirituais, das quais a
principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm “lacunas,
insuficiências e erros” ».27 Portanto, os livros sagrados das outras
religiões, que sem dúvida alimentam e orientam a existência dos seus sequazes,
recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça neles
presentes.
II. O LOGOS ENCARNADO
E O ESPÍRITO SANTO NA OBRA DA
SALVAÇÃO
9. Na reflexão teológica
contemporânea é frequente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré,
considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de
modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e
salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia
assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de
Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria para alguns um dos tantos
vultos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em
termos de salvação com a humanidade.
Além disso, para justificar,
de um lado, a universalidade da salvação cristã e, do outro, o facto do
pluralismo religioso, há quem proponha uma economia do Verbo eterno, válida
também fora da Igreja e sem relação com ela, e uma economia do Verbo Encarnado.
A primeira teria um plus-valor de universalidade em relação à segunda, que
seria limitada aos cristãos, se bem que com uma presença de Deus mais plena.
10. Semelhantes teses estão
em profundo contraste com a fé cristã. Deve, de facto, crer-se firmemente na
doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o
Filho e o Verbo do Pai. O Verbo, que « estava no princípio junto de Deus » (Jo 1,2),
é o mesmo « que Se fez carne » (Jo 1,14). Em Jesus « o Cristo, o Filho do
Deus vivo » (Mt 16,16) « habita corporalmente toda a plenitude da
divindade » (Col 2,9). Ele é « o Filho unigénito, que está no seio do Pai
» (Jo 1,18),
o seu « Filho muito amado, no qual temos a redenção [...]. Aprouve a Deus que
n'Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas
as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas
na terra e nos céus » (Col 1,13-14.19-20).
Fiel à Sagrada Escritura e
refutando interpretações erróneas e redutivas, o primeiro Concílio de Niceia
definiu solenemente a própria fé em « Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado
unigénito do Pai, ou seja, da substância do Pai; Deus de Deus, luz da luz, Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por
meio do qual foram criadas todas as coisas do céu e da terra. Por nós homens e
pela nossa salvação, desceu do céu, encarnou e Se fez homem, sofreu e
ressuscitou ao terceiro dia, voltou a subir ao céu, donde virá para julgar os
vivos e os mortos ».28 Seguindo os ensinamentos dos Padres, também o
Concílio de Calcedónia professou « que o único e idêntico Filho, nosso Senhor
Jesus Cristo, é Ele mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade,
verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem [...], consubstancial ao Pai
segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade [...]; gerado
do Pai antes dos séculos segundo a divindade e, nos últimos dias, Ele mesmo por
nós e pela nossa salvação, de Maria, a virgem Mãe de Deus, segundo a humanidade
».29
Por isso, o Concílio Vaticano
II afirma que Cristo, « novo Adão », « imagem de Deus invisível » (Col 1,15),
« é o homem perfeito, que restituiu à descendência de Adão a semelhança divina,
deformada desde o primeiro pecado [...]. Cordeiro inocente, pelo seu sangue
voluntariamente derramado, mereceu-nos a vida e n'Ele Deus nos reconciliou
consigo e connosco, libertando-nos da escravidão do diabo e do pecado, de tal
sorte que cada um pode dizer com o Apóstolo: o Filho de Deus “amou-me e
entregou-Se a Si mesmo por mim” (Gal 2,20) ».30
A esse respeito, João Paulo II
declarou explicitamente: « É contrário à fé cristã introduzir qualquer
separação entre o Verbo e Jesus Cristo [...]: Jesus é o Verbo Encarnado, pessoa
una e indivisa [...]. Cristo não é diferente de Jesus de Nazaré; e este é o
Verbo de Deus, feito homem para a salvação de todos [...]. À medida que formos
descobrindo e valorizando os diversos tipos de dons, e sobretudo as riquezas
espirituais, que Deus distribuiu a cada povo, não podemos separá-los de Jesus
Cristo, o qual está no centro da economia salvadora ».31
É igualmente contra a fé
católica introduzir uma separação entre a acção salvífica do Logos, enquanto
tal, e a do Verbo feito carne. Con a encarnação, todas as acções salvíficas do
Verbo de Deus fazem-se sempre em unidade com a natureza humana, que Ele assumiu
para a salvação de todos os homens. O único sujeito que opera nas duas
naturezas — humana e divina — é a única pessoa do Verbo.32
Portanto, não é compatível
com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma actividade salvífica ao Logos
como tal na sua divindade, que se realizasse « à margem » e « para além » da
humanidade de Cristo, também depois da encarnação.33
11. Do mesmo modo, deve crer-se
firmemente na doutrina de fé sobre a unicidade da economia salvífica
querida por Deus Uno e Trino, em cuja fonte e em cujo centro se encontra o
mistério da encarnação do Verbo, mediador da graça divina no plano da criação e
da redenção (cf. Col 1,15-20), « recapitulador de todas as coisas » (cf. Ef 1,10),
« tornado para nós justiça, santificação e redenção » (1 Cor 1,30). De facto, o
mistério de Cristo tem uma sua unidade intrínseca, que vai da eleição eterna em
Deus até à parusia: « N'Ele [o Pai] nos escolheu, antes da criação do mundo,
para sermos, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d'Ele » (Ef 1,4);
« Foi também n'Ele que fomos feitos herdeiros, segundo os desígnios de quem
tudo realiza conforme decide a sua vontade » (Ef 1,11); « Pois àqueles que
de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu
Filho, a fim de que Ele fosse o Primogénito de muitos irmãos. E aqueles que
predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e,
àqueles que justificou, também os glorificou » (Rom 8,29-30).
O Magistério da Igreja, fiel
à revelação divina, afirma que Jesus Cristo é o mediador e o redentor
universal: « O Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, encarnou,
a fim de, como homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular todas as
coisas. O Senhor [...] é aquele a quem o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e
colocou à sua direita, constituindo-O juiz dos vivos e dos mortos ».34
Esta mediação salvífica implica também a unicidade do sacrifício redentor de
Cristo, sumo e eterno Sacerdote (cf. Hebr 6,20; 9,11; 10,12-14).
12. Há ainda quem sustente a
hipótese de uma economia do Espírito Santo com um carácter mais universal que a
do Verbo Encarnado, crucificado e ressuscitado. Também essa afirmação é
contrária à fé católica, que, ao contrário, considera a encarnação salvífica do
Verbo um acontecimento trinitário. No Novo Testamento o mistério de Jesus,
Verbo Encarnado, constitui o lugar da presença do Espírito Santo e o principio
da sua efusão na humanidade, não só nos tempos messiânicos (cf. Act 2,32-36;
Jo 7,39;
20,22; 1
Cor 15,45), mas também nos que precederam a sua entrada na história
(cf. 1
Cor 10,4; 1 Pedro 1,10-12).
O Concílio Vaticano II
repropôs à consciência da fé da Igreja essa verdade fundamental. Ao expor o
plano salvífico do Pai sobre a humanidade inteira, o Concílio liga estreitamente,
desde o princípio, o mistério de Cristo com o do Espírito.35 Toda a
obra de edificação da Igreja por parte de Jesus Cristo Cabeça, no decorrer dos
séculos, é vista como uma realização que Ele faz em comunhão com o seu
Espírito.36
Além disso, a acção salvífica
de Jesus Cristo, com e pelo seu Espírito, estende-se, para além dos confins
visíveis da Igreja, a toda a humanidade. Falando do mistério pascal, em que
Cristo agora já associa vitalmente a Si no Espírito o crente e lhe dá a
esperança da ressurreição, o Concílio afirma: « E isto vale não apenas para
aqueles que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no
coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu
por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber divina, nós
devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus
conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal ».37
É claro, portanto, o laço
entre o mistério salvífico do Verbo Encarnado e o do Espírito, que mais não faz
que actuar a influência salvífica do Filho feito homem na vida de todos os
homens, chamados por Deus a uma única meta, quer tenham precedido
historicamente o Verbo feito homem, quer vivam depois da sua vinda na história:
de todos eles é animador o Espírito do Pai, que o Filho do homem doa com
liberalidade (cf. Jo 3,34).
Por isso, o recente
Magistério da Igreja recordou com firmeza e clareza a verdade de uma única
economia divina: « A presença e acção do Espírito não atingem apenas os
indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas, as
religiões [...]. Cristo ressuscitado, pela virtude do seu Espírito, actua já no
coração dos homens [...]. É ainda o Espírito que infunde as “sementes do
Verbo”, presentes nos ritos e nas culturas, e as faz maturar em Cristo ».38
Embora reconhecendo a função histórico-salvífica do Espírito em todo o universo
e na inteira história da humanidade,39 o Magistério, todavia afirma:
« Este Espírito é o mesmo que operou na encarnação, na vida, morte e
ressurreição de Jesus e opera na Igreja. Não é, portanto, alternativo a Cristo,
nem preenche uma espécie de vazio, como por vezes se julga que exista entre
Cristo e o Logos. O que o Espírito realiza no coração dos homens e na história
dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica e
não pode deixar de referir-se a Cristo, Verbo feito carne pela acção do
Espírito, “a fim de, como Homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular
em Si todas as coisas” ».40
Concluindo, a acção do
Espírito não se coloca fora ou ao lado da de Cristo. Trata-se de uma única
economia salvífica de Deus Uno e Trino, realizada no mistério da encarnação,
morte e ressurreição do Filho de Deus, actuada com a cooperação do Espírito Santo
e estendida, no seu alcance salvífico, à inteira humanidade e ao universo: « Os
homens só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo, e sob a acção
do Espírito ».41
III. UNICIDADE E UNIVERSALIDADE
DO MISTÉRIO SALVÍFICO DE JESUS
CRISTO
13. É igualmente frequente a
tese que nega a unicidade e a universalidade salvífica do mistério de Jesus
Cristo. Tal posição não tem nenhum fundamento bíblico. Deve, invés, crer-se
firmemente, como dado perene da fé da Igreja, a verdade de Jesus
Cristo, Filho de Deus, Senhor e único salvador, que no seu evento de
encarnação, morte e ressurreição realizou a história da salvação, a qual tem
n'Ele a sua plenitude e o seu centro.
Os testemunhos
neo-testamentários afirmam-no claramente: « O Pai enviou o seu Filho como
salvador do mundo » (1 Jo 4,14); « Eis o cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo » (Jo 1,29). No seu discurso perante o
sinédrio, Pedro, para justificar a cura do homem que era aleijado desde o
nascimento, cura realizada no nome de Jesus (cf. Actos 3,1-8), proclama: « E
não há salvação em nenhum outro, pois não existe debaixo do Céu outro nome dado
aos homens, pelo qual tenhamos de ser salvos » (Actos 4,12). O mesmo
Apóstolo acrescenta ainda que Jesus Cristo « é o Senhor de todos »; « foi
constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos »; pelo que « todo o que
acredita n'Ele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados » (cf. Actos 10,36.42.43).
Paulo, dirigindo-se à
comunidade de Corinto, escreve: « Porque, embora digam haver deuses no céu e na
terra, — na verdade são muitos esses deuses e esses senhores — para nós há um
só Deus: o Pai, de quem tudo procede e para o qual fomos criados; e há um só
Senhor, Jesus Cristo, pelo qual tudo existe e pelo qual também nós existimos »
(1 Cor 8,5-6).
Também o Apóstolo João afirma: « Deus amou de tal maneira o mundo que entregou
o seu Filho único, para que todo o homem que acredita n'Ele não se perca, mas
tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o
mundo, mas para este ser salvo por seu intermédio » (Jo 3,16-17). No Novo
Testamento, a vontade salvífica universal de Deus está estritamente ligada à
única mediação de Cristo: « [Deus] quer que todos os homens se salvem e cheguem
ao conhecimento da verdade. Pois Deus é um só, e um só também o Mediador entre
Deus e os homens: esse homem, que é Cristo Jesus, que Se entregou à morte para
resgatar a todos » (1 Tim 2,4-6).
É sobre esta consciência do
dom de salvação único e universal dado pelo Pai por meio de Jesus Cristo no
Espírito (cf. Ef 1,3-14), que os primeiros cristãos se dirigiram a Israel,
mostrando que a salvação se alcançava para além da Lei, e enfrentaram o mundo
pagão de então, que aspirava à salvação através de uma pluralidade de deuses
salvadores. Este património de fé voltou a ser proposto pelo recente Magistério
da Igreja: « A Igreja crê que Cristo, morto e ressuscitado por todos (cf. 2 Cor 5,15),
oferece à humanidade, pelo seu Espírito, luz e forças que lhe permitem
corresponder à sua altíssima vocação. Ela crê que não há debaixo do céu outro
nome dado aos homens pelo qual eles devam ser salvos (cf. Actos 4,12). Ela crê também
que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu
Senhor e Mestre ».42
14. Deve, portanto, crer-se
firmemente como verdade de fé católica que a vontade salvífica
universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no
mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus.
Tendo presente este dado de
fé, a teologia hoje, meditando na presença de outras experiências religiosas e
no seu significado no plano salvífico de Deus, é convidada a explorar se e como
também figuras e elementos positivos de outras religiões reentram no plano
divino de salvação. Neste empenho de reflexão abre-se à investigação teológica
um vasto campo de trabalho sob a guia do Magistério da Igreja. O Concílio
Vaticano II, de facto, afirmou que « a única mediação do Redentor não exclui,
antes suscita nas criaturas uma cooperação múltipla, que é participação na
fonte única ».43 Há que aprofundar o conteúdo desta mediação
participada, que deve ser todavia regulada pelo princípio da única mediação de
Cristo: « Se não se excluem mediações participadas de diverso tipo e ordem,
todavia elas recebem significado e valor unicamente da de Cristo, e não podem ser
entendidas como paralelas ou complementares desta ».44 Seriam,
invés, contrárias à fé cristã e católica as propostas de solução que apresentam
uma acção salvífica de Deus fora da única mediação de Cristo.
15. Não é raro que se
proponha evitar na teologia termos como « unicidade », « universalidade », «
absoluto », cujo uso daria a impressão de se dar uma ênfase excessiva ao
significado e valor do evento salvífico de Jesus Cristo em relação às demais
religiões. Ora, essa linguagem não faz mais que exprimir a fidelidade ao dado
revelado, uma vez que constitui uma evolução das próprias fontes da fé. Desde o
início, efectivamente, a comunidade dos crentes atribuiu a Jesus um valor
salvífico de tal ordem, que apenas Ele, como Filho de Deus feito homem,
crucificado e ressuscitado, por missão recebida do Pai e no poder do Espírito
Santo, tem por finalidade dar a revelação (cf. Mt 11,27) e a vida divina
(cf. Jo 1,12;
5,25-26;
17,2) à humanidade inteira e a cada homem.
Neste sentido, pode e deve
dizer-se
que Jesus Cristo tem para o género humano e para a sua história um significado
e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais,
absolutos. Jesus é, de facto, o Verbo de Deus feito homem para a salvação de
todos. Recebendo esta consciência de fé, o Concílio Vaticano II ensina: « O
Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, encarnou, a fim de, como
homem perfeito, salvar a todos e recapitular todas as coisas. O Senhor é o fim
da história humana, “o ponto para o qual tendem os desejos da história e da
civilização”, o centro da humanidade, a alegria de todos os corações e a
plenitude das suas aspirações. É aquele a quem o Pai ressuscitou dos mortos,
exaltou e colocou à sua direita, constituindo-O juiz dos vivos e dos
mortos ».45 « Precisamente esta singularidade única de Cristo é que
Lhe confere um significado absoluto e universal, pelo qual, enquanto está na
História, é o centro e o fim desta mesma História: “Eu sou o Alfa e o Ómega, o
Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22,13) ».46
IV. UNICIDADE E UNIDADE DA IGREJA
16. O Senhor Jesus, único
Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a
Igreja como mistério
salvífico: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja n'Ele (cf. Jo 15,1ss.;
Gal 3,28;
Ef 4,15-16;
Actos 9,5);
por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja,
unida de modo inseparável ao seu Senhor. Jesus Cristo, com efeito, continua a
estar presente e a operar a salvação na Igreja e através da Igreja (cf. Col 1,24-27),47
que é o seu Corpo (cf. 1 Cor 12,12-13.27; Col 1,18).48 E,
assim como a cabeça e os membros de um corpo vivo, embora não se identifiquem,
são inseparáveis, Cristo e a Igreja não podem confundir-se nem mesmo separar-se,
constituindo invés um único « Cristo total ».49 Uma tal
inseparabilidade é expressa no Novo Testamento também com a analogia da Igreja Esposa de
Cristo (cf. 2
Cor 11,2; Ef 5,25-29; Ap 21,2.9).50
Assim, e em relação com a
unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se
firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele
fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua
Esposa: « uma só Igreja católica e apostólica ».51 Por outro lado, as
promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (cf. Mt 16,18; 28,20) e de guiá-la
com o seu Espírito (cf. Jo 16,13) comportam que, segundo a fé
católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da
Igreja, jamais virão a faltar.52
Os fiéis são obrigados a
professar que existe uma continuidade histórica — radicada na
sucessão apostólica53 — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja
Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois
da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o
a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.);
levantando-a
para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja,
como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in]
na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão
com ele ».54 Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II
quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de
Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só
na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de
santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas
e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja
Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmar-se que « o seu valor deriva
da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57
17. Existe portanto uma única
Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de
Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele.58 As Igrejas que, embora
não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta
por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida
Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares.59 Por isso, também
nestas Igrejas está presente e actua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a
plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica
do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objectivamente tem e
exerce sobre toda a Igreja.60
As Comunidades eclesiais,
invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra
substância do mistério eucarístico,61 não são Igrejas em sentido
próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas Comunidades estão pelo Baptismo
incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que
imperfeita, com a Igreja.62 O Baptismo, efectivamente, tende por si
ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de
fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja.63
« Os fiéis não podem, por
conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma — diferenciada e,
de certo modo, também unitária — das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes
é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma,
tornando-se,
assim, um mero objecto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades
».64 « Os elementos desta Igreja já realizada existem, reunidos na
sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades
».65 « Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora
pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da
salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito Se não recusa a
servir-Se
delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da
graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».66
A falta de unidade entre os
cristãos é certamente uma ferida para a Igreja; não no sentido de
estar privada da sua unidade, mas « porque a divisão é um obstáculo à plena
realização da sua universalidade na história ».67
V. A IGREJA, REINO DE DEUS E
REINO DE CRISTO
18. A missão da Igreja é a «
de anunciar o Reino de Cristo e de Deus e de instaurá-lo entre todos os povos;
desse Reino ela é na terra o germe e o início ».68 Por um lado, a
Igreja é « sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e
da unidade do género humano »;69 ela é, portanto, sinal e
instrumento do Reino: chamada a anunciá-lo e a instaurá-lo. Por outro, a Igreja é o
« povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo »;70
ela é portanto « o Reino de Cristo já presente em mistério »,71
constituindo assim o seu germe e início. O Reino de Deus tem,
de facto, uma dimensão escatológica: é uma realidade presente no tempo, mas a
sua plena realização dar-se-á apenas quando a história terminar ou se
consumar.72
Dos textos bíblicos e dos
testemunhos patrísticos, bem como dos documentos do Magistério da Igreja, não
se tiram significados unívocos para as expressões Reino dos Céus, Reino de
Deus e Reino de Cristo, nem para a relação das mesmas com a Igreja,
sendo esta um mistério que não se pode encerrar totalmente num conceito humano.
Podem existir, portanto, diversas explicações teológicas dessas expressões, mas
nenhuma dessas possíveis explicações pode negar ou esvaziar de maneira nenhuma
a conexão íntima entre Cristo, o Reino e a Igreja. Pois, « o Reino de Deus, que
conhecemos pela Revelação não pode ser separado de Cristo nem da Igreja... Se
separarmos o Reino, de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus, por Ele pregado,
acabando por se distorcer quer o sentido do Reino, que corre o risco de se
transformar numa meta puramente humana ou ideológica, quer a identidade de
Cristo, que deixa de aparecer como o Senhor, a quem tudo se deve submeter (cf. 1 Cor 15,27).
De igual modo, não podemos separar o Reino, da Igreja. Com certeza que esta não
é fim em si própria, uma vez que se ordena ao Reino de Deus, do qual é
princípio, sinal e instrumento. Mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a
Igreja todavia está unida indissoluvelmente a ambos ».73
19. Afirmar a relação
inseparável entre Igreja e Reino não significa porém esquecer que o Reino de
Deus — mesmo considerado na sua fase histórica — não se identifica com a Igreja
na sua realidade visível e social. Não se deve, de facto, excluir « a obra de
Cristo e do Espírito fora dos confins visíveis da Igreja ».74 Daí
que se deva também considerar que « o Reino diz respeito a todos: às pessoas, à
sociedade, ao mundo inteiro. Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e
favorecer o dinamismo divino, que está presente na história humana e a
transforma. Construir
o Reino quer dizer trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas
formas. Em resumo, o Reino de Deus é a manifestação e a actuação
do seu desígnio de salvação, em toda a sua plenitude ».75
Ao considerar as relações
entre Reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja hão-de evitar-se
sempre as acentuações unilaterais, como são as « concepções que
propositadamente colocam o acento no Reino, auto-denominando-se
de “reino-cêntricas”,
pretendendo com isso fazer ressaltar a imagem de uma Igreja que não pensa em
si, mas dedica-se totalmente a testemunhar e servir o Reino. É uma “Igreja
para os outros” — dizem — como Cristo é o “homem para os outros” [...]. Ao lado
de aspectos positivos, essas concepções revelam frequentemente outros
negativos. Antes demais, silenciam o que se refere a Cristo: o Reino, de que
falam, baseia-se num “teo-centrismo”, porque — como dizem — Cristo
não pode ser entendido por quem não possui a fé n'Ele, enquanto que povos,
culturas e religiões se podem encontrar na mesma e única realidade divina,
qualquer que seja o seu nome. Pela mesma razão, privilegiam o mistério da
criação, que se reflecte na variedade de culturas e crenças, mas omitem o
mistério da redenção. Mais ainda, o Reino, tal como o entendem eles, acaba por
marginalizar ou desvalorizar a Igreja, como reacção a um suposto «
eclesiocentrismo » do passado, por considerarem a Igreja apenas um sinal, aliás
passível de ambiguidade ».76 Tais teses são contrárias à fé
católica, por negarem a unicidade da relação de Cristo e da Igreja com o Reino
de Deus.
VI. A IGREJA E AS RELIGIÕES
NO QUE CONCERNE A SALVAÇÃO
20. De quanto acima se
recordou, resultam ainda alguns pontos necessários para o percurso que a
reflexão teológica deve seguir no aprofundamento da relação da Igreja e das religiões
com a salvação.
Antes de mais, deve crer-se
firmemente que a « Igreja, peregrina na terra, é necessária para a
salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação; ora, Ele torna-se-nos
presente no seu Corpo que é a Igreja; e, ao inculcar por palavras explícitas a
necessidade da fé e do Baptismo (cf. Mc 16,16; Jo 3,5), corroborou ao mesmo
tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Baptismo tal como
por uma porta ».77 Esta doutrina não se contrapõe à vontade
salvífica universal de Deus (cf. 1 Tim 2,4); daí « a necessidade de manter
unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para
todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa salvação ».78
A Igreja é « sacramento
universal de salvação »,79 porque, sempre unida de modo misterioso e
subordinada a Jesus Cristo Salvador, sua Cabeça, tem no plano de Deus uma
relação imprescindível com a salvação de cada homem.80 Para aqueles
que não são formal e visivelmente membros da Igreja, « a salvação de Cristo
torna-se
acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação
com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina
convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de
Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo ».81
Tem uma relação com a Igreja, que por sua vez « tem a sua origem na missão do
Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai ».82
21. Quanto ao modo como
a graça salvífica de Deus, dada sempre através de Cristo no Espírito e em
relação misteriosa com a Igreja, atinge os não cristãos, o Concílio Vaticano II
limitou-se
a afirmar que Deus a dá « por caminhos só por Ele conhecidos ».83 A
teologia esforça-se por aprofundar a questão. Há que encorajar esse esforço
teológico, que sem dúvida serve para aumentar a compreensão dos desígnios
salvíficos de Deus e dos caminhos que os realizam. Todavia, de quanto acima foi
dito sobre a mediação de Jesus Cristo e sobre a « relação única e singular »84
que a Igreja tem com o Reino de Deus entre os homens — que é substancialmente o
Reino de Cristo Salvador universal —, seria obviamente contrário à fé católica
considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos
constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à
Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com
ela para o Reino escatológico de Deus.
Não há dúvida que as diversas
tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que procedem
de Deus,85 e que fazem parte de « quanto o Espírito opera no coração
dos homens e na história dos povos, nas culturas e religiões ».86
Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel
de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os
corações dos homens a se abrirem à acção de Deus.87 Não se lhes pode
porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria
dos sacramentos cristãos.88 Por outro lado, não se pode ignorar que
certos ritos, enquanto dependentes da superstição ou de outros erros (cf. 1 Cor 10,20-21),
são mais propriamente um obstáculo à salvação.89
22. Com a vinda de Jesus
Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de
salvação para toda a humanidade (cf. Act 17,30-31).90 Esta
verdade de fé nada tira ao facto de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um
sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade
indiferentista « imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que
“tanto vale uma religião como outra” ».91 Se é verdade que os
adeptos das outras religiões podem receber a graça divina, também é verdade que
objectivamente
se encontram numa situação gravemente deficitária, se comparada com
a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação.92 Há
que lembrar, todavia, « a todos os filhos da Igreja que a grandeza da sua
condição não é para atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de
Cristo; se não corresponderem a essa graça, por pensamentos, palavras e obras,
em vez de se salvarem, incorrerão num juízo mais severo ».93
Compreende-se,
portanto, que, em obediência ao mandato do Senhor (cf. Mt 28,19-20) e como exigência do
amor para com todos os homens, a Igreja « anuncia e tem o dever de anunciar
constantemente a Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6),
no qual os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus
reconciliou todas as coisas consigo ».94
A missão ad gentes, também no diálogo
inter-religioso,
« mantém hoje, como sempre, a sua validade e necessidade ».95 Com
efeito, « Deus “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da
verdade” (1
Tim 2,4): quer a salvação de todos através do conhecimento da
verdade. A salvação encontra-se na verdade. Os que obedecem à moção do
Espírito de verdade já se encontram no caminho da salvação; mas a Igreja, a
quem foi confiada essa verdade, deve ir ao encontro do seu desejo e oferecer-lha.
Precisamente porque acredita no plano universal de salvação, a Igreja deve ser
missionária ».96 O diálogo, portanto, embora faça parte da missão
evangelizadora, é apenas uma das acções da Igreja na sua missão ad gentes.97
A paridade,
que é um pressuposto do diálogo, refere-se à igual dignidade pessoal das partes,
não aos conteúdos doutrinais e muito menos a Jesus Cristo — que é o próprio
Deus feito Homem — em relação com os fundadores das outras religiões. A Igreja,
com efeito, movida pela caridade e pelo respeito da liberdade,98
deve empenhar-se, antes de mais, em anunciar a todos os homens a verdade,
definitivamente revelada pelo Senhor, e em proclamar a necessidade da conversão
a Jesus Cristo e da adesão à Igreja através do Baptismo e dos outros
sacramentos, para participar de modo pleno na comunhão com Deus Pai, Filho e
Espírito Santo. Aliás, a certeza da vontade salvífica universal de Deus não
diminui, antes aumenta, o dever e a urgência do anúncio da salvação e da
conversão ao Senhor Jesus Cristo.
CONCLUSÃO
23. A presente Declaração, ao
relembrar e esclarecer algumas verdades de fé, quis seguir o exemplo do
Apóstolo Paulo aos fiéis de Corinto: « Pois eu transmiti-vos em primeiro lugar o
mesmo que havia recebido » (1 Cor 15,3). Perante certas propostas
problemáticas ou mesmo erróneas, a reflexão teológica é chamada a reconfirmar a
fé da Igreja e a dar razão da sua esperança de forma convincente e eficaz.
Os Padres do Concílio
Vaticano II, debruçando-se sobre o tema da verdadeira religião,
afirmaram: « Acreditamos que esta única verdadeira religião se verifica na
Igreja Católica e Apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou a missão de a
difundir a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: “Ide, pois, fazer discípulos
de todas as nações, baptizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo e ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28,19-20).
Por sua vez, todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo no
que se refere a Deus e à sua Igreja, e a abraçá-la e pô-la em prática, uma vez
conhecida ».99
A revelação de Cristo continuará
a ser na história « a verdadeira estrela de orientação » 100 para
toda a humanidade: « A Verdade, que é Cristo, impõe-se como autoridade
universal ». 101 O mistério cristão, com efeito, supera qualquer
barreira de tempo e de espaço e realiza a unidade da família humana: « Dos mais
diversos lugares e tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na
unidade da família dos filhos de Deus [...]. Jesus abate os muros de divisão e
realiza a unificação, de um modo original e supremo, por meio da participação
no seu mistério. Esta unidade é tão profunda que a Igreja pode dizer com São
Paulo: “Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos
e membros da família de Deus” (Ef 2,19) ». 102
O Sumo Pontífice João Paulo II, na
Audiência concedida, a 16 de Junho de 2000, ao abaixo-assinado Cardeal Prefeito
da Congregação para a Doutrina da Fé, com ciência certa e com a sua autoridade
apostólica ratificou e confirmou esta Declaração, decidida em Sessão Plenária,
e mandou que fosse publicada.
Dado em
Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de Agosto 2000, Festa da
Transfiguração do Senhor.
Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
Tarcisio Bertone, S.D.B.
Arcebispo emérito de Vercelli
Secretário
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) Conc. de Costantinopla I, Symbolum Constantinopolitanum: Denz., n. 150.
(2) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 1: AAS 83 (1991) 249-340.
(3) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes e
Decl. Nostra
aetate; cf. ainda Paulo VI, Exort.
apost. Evangelii
nuntiandi: AAS 68 (1976) 5-76; João
Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio.
(4) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2.
(5) Pont. Cons. para o Diálogo Inter-religioso e Congr. para a Evangelização dos Povos, Instr.
Diálogo e
anúncio, n. 29: AAS 84 (1992) 414-446; cf. Conc. Vaticano
II,
Const. past. Gaudium et spes, n. 22.
(6) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 55.
(7) Cf. Pont. Cons. para
o Diálogo Inter-religioso e
Congr. para a Evangelização dos Povos, Instr.
Diálogo e
anúncio, n. 9.
(8) João Paulo II, Carta Enc. Fides et
ratio, n. 5: AAS
91 (1999) 5-88.
(9) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 2.
(10) Ibid., n. 4.
(11) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n.
5.
(12) João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 14.
(13) Conc. de Calcedonia, Symbolum Chalcedonense: Denz., n. 301. Cf. S. Atanásio de Alexandria, De
Incarnatione, 54, 3: SC 199, 458.
(14) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum,
n. 4.
(15) Ibid., n. 5.
(16) Ibid.
(17) Cf. Catecismo da Igreja Católica,
n. 144.
(18) Ibid., n. 150.
(19) Ibid., n. 153.
(20) Ibid., n. 178.
(21) João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 13.
(22) Cf. ibid.,
nn. 31-32.
(23) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2. Cf. ainda Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n.
9, onde se fala de elementos de bem, presentes « nos usos e culturas
particulares dos povos »; Const. dogm. Lumen gentium, n. 16, onde se acena a
elementos de bem e de verdade, presentes entre os não cristãos, que podem ser
considerados uma preparação para a aceitação do Evangelho.
(24) Cf. Conc. de Trento, Decr. de libris sacris et de
traditionibus recipiendis: Denz.,
n. 1501; Conc. Vaticano I, Const.
dogm. Dei
Filius, cap. 2: Denz.,
n. 3006.
(25) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 11.
(26) Ibid.
(27) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 55. Cf.
ainda n. 56. Cf. Paulo VI, Exort.
apost. Evangelii
nuntiandi, n. 53.
(28) Conc. de Niceia I, Symbolum Nicaenum: Denz., n. 125.
(29) Conc. de Calcedónia, Symbolum Chalcedonense: Denz., n. 301.
(30) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et
spes, n. 22.
(31) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 6.
(32) Cf. S. Leão Magno, Tomus ad Flavianum: Denz., n. 294.
(33) Cf. S. Leão Magno, Litterae « Promisisse me memini » ad
Leonem I imp.: Denz., n.
318: « In tantam unitatem ab ipso conceptu Virginis deitate et humanitate
conserta, ut nec sine homine divina, nec sine Deo agerentur humana ». Cf. ainda
ibid.:
Denz., n. 317.
(34) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et
spes, n. 45. Cf. ainda Conc. de Trento, Decr. De peccato originali, n. 3: Denz., n. 1513.
(35) Cf. Conc.
Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 3-4.
(36) Cf. ibid., n. 7. Cf. S. Ireneu, o qual
afirmava que na Igreja « foi estabelecida a comunhão com Cristo, ou seja, com o
Espírito Santo » (Adversus Haereses III, 24, 1: SC 211, 472).
(37) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et
spes, n. 22.
(38) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 28. Quanto
às « sementes do Verbo » cf. ainda S. Justino, 2 Apologia 8,1-2;
10,1-3;
13,3-6:
ed. E.J. Goodspeed, pp. 84; 85; 88-89.
(39) Cf. ibid.,
nn. 28-29.
(40) Ibid., n. 29.
(41) Ibid., n. 5.
(42) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et
spes, n. 10. Cf. S. Agostinho, que afirma que fora
de Cristo, « caminho universal de salvação, que nunca faltou ao género humano,
nunca ninguém foi libertado, ninguém é libertado, ninguém será libertado »: De Civitate
Dei 10, 32, 2: CCL 47, 312.
(43) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 62.
(44) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n.
5.
(45) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et
spes, n. 45. A necessária e absoluta
singularidade e universalidade de Cristo na história humana é bem expressa por
S. Ireneu quando contempla a proeminência de Jesus como Primogénito: « Nos
céus, como primogénito do pensamento do Pai, o Verbo perfeito conduz
pessoalmente todas as coisas e legisla; sobre a terra, como primogénito da
Virgem, homem justo e santo, servo de Deus, bom e agradável a Deus, perfeito em
tudo; enfim, salvando dos infernos todos os que o seguem, como primogénito dos
mortos, é cabeça e fonte da vida de Deus » (Demonstratio, 39: SC 406, 138).
(46) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 6.
(47) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen
gentium, n. 14.
(48) Cf. ibid., n. 7.
(49) Cf. S. Agostinho, Enarrat. in Psalmos, Ps. 90,
Sermo 2,1:
CCL
39, 1266; S. Gregório Magno, Moralia in
Iob, Praefatio, 6, 14: PL 75, 525; S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 48, a. 2 ad 1.
(50) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen
gentium, n. 6.
(51) Símbolo da fé: Denz., n. 48. Cf. Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam:
Denz., n. 870-872; Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen
gentium, n. 8.
(52) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis
redintegratio, n. 4; João
Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 11: AAS 87 (1995) 921-982.
(53) Cf. Conc.
Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 20; cf. ainda S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 3, 1-3: SC 211, 20-44; S. Cipriano, Epist. 33,
1: CCL
3B, 164-165; S.
Agostinho, Contra advers. legis et prophet., 1, 20, 39: CCL
49, 70.
(54) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 8.
(55) Ibid., cf. João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n.
13. Conc. Vaticano II,
Const. Dogm. Lumen gentium, n. 15 e Decr. Unitatis redintegratio, n.
3.
(56) É, portanto, contrária
ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a
deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a
única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades
eclesiais não católicas. « O Concílio, invés, adoptou a palavra “subsistit”
precisamente para esclarecer que existe uma só “subsistência” da verdadeira
Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas “elementa
Ecclesiae”, que — por serem elementos da própria Igreja — tendem e conduzem
para a Igreja Católica » [Congr. para a
Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume “Igreja: carisma e poder”
do P. Leonardo Boff: AAS 77 (1985) 756-762].
(57) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(58) Cf. Congr. Para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1: AAS 65 (1973) 396-408.
(59) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis
redintegratio, nn. 14 e 15; Congr.
para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17: AAS
85 (1993) 838-850.
(60) Cf. Conc. Vaticano I, Const. dogm. Pastor
aeternus: Denz., n.
3053-3064;
Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen
gentium, n. 22.
(61) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis
redintegratio, n. 22.
(62) Cf. ibid., n. 3.
(63) Cf. ibid., n. 22.
(64) Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1.
(65) João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 14.
(66) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(67) Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17.
Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis
redintegratio, n. 4.
(68) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 5.
(69) Ibid., n. 1.
(70) Ibid., n. 4. Cf. S. Cipriano, De Dominica oratione 23: CCL
3A, 105.
(71) Conc.
Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 3.
(72) Cf. ibid., n. 9. Cf ainda a oração dirigida a
Deus, que se lê na Didaché 9, 4: SC 248, 176: « A tua Igreja
se reúna, dos confins da terra, no teu Reino », e ibid., 10, 5: SC
248, 180: « Lembra-te, Senhor, da tua Igreja...e, santificada, congrega-a
dos quatro ventos no teu Reino, que para ela preparaste ».
(73) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 18; cf. Exort. apost.
Ecclesia in Asia, n. 17:
in « L'Osservatore Romano », 7-11-1999. O Reino é de tal modo inseparável de
Cristo que, em certo sentido, identifica-se com Ele (cf. Orígenes, In Mt. Hom., 14,7: PG 13, 1197; Tertuliano, Adversus Marcionem, IV,
33,8: CCL
1, 634).
(74) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 18.
(75) Ibid., n. 15.
(76) Ibid., n. 17.
(77) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14. Cf.
Decr. Ad
gentes, n. 7; Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.
(78) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 9. Cf. Catecismo da
Igreja Católica, nn. 846-847.
(79) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 48.
(80) Cf. S. Cipriano, De catholicae ecclesiae unitate,
6: CCL
3, 253-254;
S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 24,
1: SC
211, 472-474.
(81) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 10.
(82) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 2. É no sentido aqui
explicado que se deve interpretar a conhecida fórmula extra Ecclesiam nullus omnino salvatur (cf.
Conc. Lateranense IV, Cap. 1. De fide catholica: DS 802). Cf. ainda Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de
Boston: Denz., n. 3866-3872.
(83) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 7.
(84) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 18.
(85) São as sementes do Verbo
divino (semina
Verbi), que a Igreja reconhece com alegria e respeito (cf. Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 11; Decl. Nostra aetate, n. 2).
(86) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 29.
(87) Cf. ibid.; Catecismo da Igreja Católica,
n. 843.
(88) Cf. Conc. de Trento, Decr. De
sacramentis, can. 8, de sacramentis in genere: Denz., n. 1608.
(89) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55.
(90) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen
gentium, n. 17; João Paulo
II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 11.
(91) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 36.
(92) Cf. Pio XII, Carta Enc. Mystici
corporis, Denz., n.
3821.
(93) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14.
(94) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2.
(95) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 7.
(96) Catecismo da Igreja Católica,
n. 851; cf. ainda nn. 849-856.
(97) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris
missio, n. 55; Exort. apost. Ecclesia in Asia, n. 31.
(98) Cf. Conc. Vaticano II, Decl. Dignitatis humanae, n. 1.
(99) Ibid.
(100) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n.
15.
(101) Ibid., n. 92.
(102) Ibid., n. 70.
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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