DOGMA da Virgindade
de Maria,
verdade de fé
L'Osservatore
Romano, Ed. Port. n.28, 13/07/1996,
pag. 12(348)
1.
A Igreja tem constantemente considerado a virgindade de Maria uma verdade de
fé, acolhendo e aprofundando o testemunho dos Evangelhos, de Lucas, de Mateus
e, provavelmente, também de João. No episódio da Anunciação, o evangelista
Lucas chama Maria de “virgem”, referindo-se tanto à sua intenção de perseverar
na virgindade como ao desígnio divino que concilia esse propósito com a sua
prodigiosa maternidade. A afirmação da concepção virginal devido à ação do
Espírito Santo, exclui qualquer hipótese de partenogénese natural e rejeita as
tentativas de explicar a narração de Lucas como esclarecimento dum tema judaico
ou como derivação duma lenda mitológica pagã. A estrutura do texto lucano (cf. Lc. 1,26-38; 2. 19.51) resiste a
qualquer interpretação redutiva. A sua coerência não permite sustentar de modo
válido mutilações dos termos ou das expressões que afirmam a concepção virginal
operada pelo Espírito Santo.
2.
O evangelista Mateus, referindo o anúncio do anjo a José, afirma de igual modo como
Lucas a concepção operada “pelo Espírito Santo” (Mt. 1,20), com exclusão de relações conjugais. A geração virginal de
Jesus, além disso, é comunicada a José num segundo momento: não se trata para
ele de um convite a dar um consentimento prévio à concepção do Filho de Maria,
fruto da intervenção sobrenatural do Espírito Santo e da cooperação só da Mãe.
Ele é apenas chamado a aceitar livremente o seu papel de esposo da Virgem e a
missão paterna em relação à criança. Mateus apresenta a origem virginal de Jesus
como cumprimento da profecia de lsaias: “Eis que a Virgem conceberá e dará à
luz um filho; e chamá-lo-ão Emmanuel, que quer dizer “Deus conosco” " (Mt. 1,23; cf. Is. 7,14). Desse modo, Mateus leva a concluir que a concepção
virginal foi objeto de reflexão na primeira comunidade cristã, que compreendeu
a sua conformidade com o desígnio divino de salvação e o nexo com a identidade
de Jesus, “Deus conosco”.
3.
Ao contrário de Lucas e de Mateus, o Evangelho de Marcos não fala da concepção
nem do nascimento de Jesus; contudo, é digno de nota o fato de Marcos jamais
mencionar José, esposo de Maria. Jesus é chamado “o filho de Maria” da gente de
Nazaré ou então, noutro contexto, “o Filho de Deus” em várias ocasiões (3,
11;5, 7; cf, 1,11; 9. 7; 14, 61-62; 15,39). Estes dados estão em harmonia com a
fé no mistério da sua geração virginal. Tal verdade, segundo uma recente
descoberta exegética, estaria explicitamente contida também no versículo 13 do
Prólogo do Evangelho de João, que algumas autorizadas vozes antigas (por
exemplo Ireneu e Tertuliano) apresentam, não na sua forma plural usual, mas no
singular: “Ele, que não do sangue nem da vontade da carne, nem do querer do
homem, mas de Deus foi gerado”. Esta versão no singular faria do Prólogo
joanino uma das maiores afirmações da geração virginal de Jesus, inserida no
contexto do mistério da Encarnação. A afirmação paradoxal de Paulo: “Ao chegar
a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher... para que
recebêssemos a adoção de filhos” (Gál. 4,
4-5), abre o caminho ao interrogativo acerca da personalidade desse Filho e,
portanto, acerca do seu nascimento virginal. Este testemunho uniforme dos
Evangelhos atesta como a fé na concepção virginal de Jesus está solidamente
arraigada em diversos ambientes da Igreja primitiva. E isto destitui de
qualquer fundamento algumas interpretações recentes, que entendem a concepção
virginal em sentido não físico ou biológico mas apenas simbólico ou metafórico:
este designaria Jesus como dom de Deus à humanidade. A mesma coisa se deve
dizer quanto à opinião apresentada por outros, segundo os quais a narração da
concepção virginal seria, ao contrário, um theologoumenon,
isto é, um modo de exprimir uma doutrina teológica, a da filiação divina de
Jesus, ou seria uma sua representação mitológica. Como acabamos de ver, os
Evangelhos contêm a afirmação explícita duma concepção virginal de ordem
biológica, operada pelo Espírito Santo, e essa verdade foi assumida pela Igreja
desde as primeiras formulações da fé (cf. Catecismo
da Igreja Católica, 496).
4.
A fé expressa nos Evangelhos é confirmada, sem interrupções, na tradição
sucessiva. As fórmulas de fé dos primeiros autores cristãos postulam a
afirmação do nascimento virginal: Aristides, Justino, Ireneu, Tertuliano estão
de acordo com Santo Inácio de Antioquia, que proclama Jesus “verdadeiramente
nascido de uma virgem” (Smirn. 12). Estes
autores querem falar duma real e histórica geração virginal de Jesus, e estão
longe de afirmar uma virgindade apenas moral ou um vago dom de graça, que se
manifestou no nascimento da criança’. As solenes definições de fé dos Concílios
ecumênicos e do Magistério Pontifício, que se seguiram às primeiras breves
fórmulas de fé, estão em perfeita consonância com essa verdade. O Concílio de
Caledônia (451), na sua profissão de fé, redigida com cuidado e pelo conteúdo
infalivelmente definido, afirma que Cristo foi “gerado [... ] segundo a
humanidade, nos últimos dias, para nós e para a nossa salvação, de Maria
Virgem, Mãe de Deus” (DS, 301). Do
mesmo modo, o III Concílio de Constantinopla (681) proclama que Jesus Cristo
foi “gerado [...] segundo a humanidade, pelo Espírito Santo e por Maria Virgem,
aquela que é propriamente e com toda a verdade Mãe de Deus” (DS, 555). Outros Concílios ecumênicos
(Constantinopolitano II, Lateranense IV e Lionense II) declaram Maria “sempre
virgem”, pondo em relevo a sua virgindade perpétua (DS, 423, 801, 852). Essas
afirmações foram retomadas pelo Concílio Vaticano II, evidenciando o fato que
Maria “acreditando e obedecendo, gerou na terra, sem ter conhecido varão, por
obra e graça do Espírito Santo, o Filho do Pai” (LG, 63). Às definições conciliares devem-se acrescentar as do
Magistério Pontifício relativas à imaculada concepção da “Bem-aventurada Virgem
Maria” (DS, 2803) e da Assunção da
“Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem” (DS, 3903).
5.
Ainda que as definições do Magistério, com exceção do Concílio Lateranense de
649, querido pelo Papa Martinho I, não estabeleçam com precisão o sentido do
apelativo “virgem”, é claro que esse termo é usado no seu sentido habitual: a
abstenção voluntária dos atos sexuais e a preservação da integridade corporal.
Em todo o caso, a integridade física é considerada essencial à verdade de fé da
conceição virginal de Jesus (cf. Catecismo
da Igreja Católica, 496). A designação de Maria como “Santa, sempre Virgem,
Imaculada” suscita a atenção sobre o vínculo entre santidade e virgindade.
Maria quis uma vida virginal, porque animada pelo desejo de dar inteiramente o
seu coração a Deus. A expressão usada na definição da Assunção, “a Imaculada
Mãe de Deus sempre Virgem” sugere também a conexão entre a virgindade e a
maternidade de Maria: duas prerrogativas unidas de maneira milagrosa na geração
de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Assim a virgindade de Maria está
intimamente ligada à sua maternidade divina e perfeita santidade.
L'Osservatore
Romano, Ed. Port. n.28, 13/07/1996,
pag. 12(348)
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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