MISSÃO DO DIÁCONO COMO MINISTRO DA CARIDADE,

NUM CONTEXTO DE MISÉRIA E ABUNDÂNCIA

 

Diác. José Durán y Durán

Presidente da CND

 

II Encontro Inter-regional de diáconos, esposas e candidatos, do NE I,II,III,IV e V

XIV Encontro Regional Nordeste II.Maceió - AL, 04 a 06 de maio de 2001.

 

Fonte: Comissão Nacional de Diáconos - CNBB

 

        O contexto da realidade social e eclesial em que fomos chamados por Deus para exercer o nosso ministério, já tivemos ocasião de explicitá-lo no texto que está servindo para preparar o III Congresso Nacional de Diáconos do Brasil. Nosso tema será ampliação de alguns aspectos que no subsídio são tratados apenas sucintamente. Queremos ampliar a reflexão, trazendo alguns elementos que nos ajudem a perceber melhor o contexto em que vivemos de grandes desigualdades na Igreja.

         "O abismo da desigualdade social e econômica entre países ricos e pobres, do qual falam recentes documentos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do Clube de Roma, reproduz-se também no nível religioso e eclesial: as Igrejas do Terceiro Mundo são Igrejas periféricas em relação às Igrejas do centro, e no interior das próprias Igrejas periféricas se reproduz também a desigualdade entre centro e periferia".(1)

         A realidade é que no mundo há ricos cada vez mais ricos e em número menor, e pobres cada vez mais pobres e em número maior. A realidade é que a Igreja não está do lado do número maior. A Igreja faz documentos, mas vive a exclusão. A ausência e omissão da nossa Igreja nas lutas sociais, ficou patente no nosso subsídio sobre O ministério da caridade.

         A Igreja está cada vez mais optando pelos incluídos. O grande apoio aos movimentos e o reforço ao sistema paroquial são indicadores inequívocos desta tendência.

        Bastaria lembrar alguns aspectos: serve-se mais e melhor às comunidades que tem condições de sustentar ao padre. Nas nossas comunidades, quem é que se beneficia da educação católica, da catequese, dos cursos de formação, subsídios, livros, retiros, encontros,...? São evidentes as desigualdades na nossa Igreja tanto no campo pastoral como no campo da formação bíblica, catequética, moral e espiritual. Sem falar do campo do planejamento, decisão e administração.

         Podemos continuar indiferentes diante da distância entre Igreja do Norte e do Sul? Entre comunidades do centro e da periferia, da cidade e do campo?

        Somos herdeiros de uma eclesiologia e prática pastoral elitista. Quais foram os resultados desta pastoral tradicional da Igreja entre os ricos? Será que a Igreja conseguiu que os ricos vivam uma fé mais profunda, solidária e comprometida? Ou contemplamos com assombro que estes, aos quais tradicionalmente a Igreja dedicou sua atenção preferencial em recursos, pessoas, meios, paróquias, colégios e universidades, retiros e publicações, são os que hoje defendem estruturas assimétricas e não solidárias, ou não fazem nada para mudá-las, muitos deles estando metidos na corrupção e vivendo dentro de uma grande permissividade moral? Qual é o resultado evangélico do esforço envidado para evangelizar os ricos, sábios e influentes da sociedade?(2)

        O problema do relacionamento pobres e ricos acompanha o mundo e a Igreja desde sempre. Na história da Igreja vemos que há uma alternância entre uns que querem seguir o modelo do Novo Testamento ficando livre das propriedades o do poder (econômico, político, cultural), como Jesus e os apóstolos. E outros que preferem recorrer aos poderes. Ora a pergunta é: vamos seguir a trilha de Jesus e dos apóstolos, ou vamos entrar no jogo dos que querem acreditar nos poderosos, no lugar de acreditar nos pobres? Vamos lembrar que "o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor".

         O Papa João Paulo II dirá: "devemos procurar que os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como "em sua casa".(3)

        Este é o grande desafio para a missão do diácono na Igreja hoje. A pergunta que aflora expontânea é: o que vamos fazer para que os pobres se sintam em cada comunidade cristã como em sua casa? A resposta: fazer que cada comunidade cristã seja a casa dos pobres.

        O Pe. Comblin, publicou um artigo em que defende que o livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito para os ricos. Esta óptica é interessante para nós hoje. O contexto das comunidades nascentes tem muitos pontos em comum com o contexto das nossas comunidades hoje, especialmente a situação contrastante entre miséria e abundância, com uma maioria vivendo na miséria.

        Nesse contexto Lucas destaca a generosidade de Barnabé, condena Ananias e Safira, elogia as boas obras e esmolas de Tabita, destaca Cornélio como exemplo de bom rico, narra a conversão do administrador geral do reino da Etiópia, a hospitalidade de Lídia, rica comerciante de púrpura.

        O livro dos Atos, quer exortar e advertir os ricos. Sua preocupação concentra-se nas pessoas da alta sociedade, enquanto destinatárias da evangelização.

        Comblin, muito realisticamente vai defender que sempre há lugar para os ricos na comunidade cristã. Que eles são necessários não só pelos valores materiais, mas também pelos valores culturais e capacidades que adquiriram. O desafio é como colocar essa riqueza ao serviço dos cristãos? De que maneira os ricos contemporâneos poderiam colocar os seus talentos a serviço dos pobres?(4)

        Destacaria aqui alguns pontos da missão do diácono:

  • Ajudar os ricos a fazerem doações que alterem o nível de vida; (esmola sendo sacrifício).

  • Ajudar a colocar dons, talentos, carismas, educação, capacidade profissional, etc., ao serviço do povo, ao serviço dos pobres.

  • Despertar para a percepção de que "estamos no mesmo barco", mesmo se alguns viajam na 1ª e outros na 3ª classe.

  • Alertar para o compromisso de todos de cuidar da ecologia humana.

  • Anunciar o Deus da vida e da alegria.

  • Vivenciar o destino universal dos bens da terra.

         A missão do diácono é a missão da Igreja. A missão da Igreja é evangelizar. Iluminar com a luz de Cristo cada época da história.(5)Tornar presente o amor de Cristo para cada homem em cada época. Para realizar esta missão, a Igreja se organiza como Povo de Deus em missão. Dentro da organização há aqueles aos quais são confiados ministérios permanentes. Isto é serviços que o caraterizam e aos quais consagram a vida. Entre eles os diáconos. Ministros ordenados para o serviço de santificar, ensinar e pastorear, com ênfase especial no ministério da caridade. Ele é o ministro da caridade. O ministro que anima, organiza, articula a caridade da Igreja.

        O ministério da caridade identifica ao diácono de modo específico, mas não exclusivo. O que nos lembra sempre que todos os batizados tem a sua participação no ministério da caridade. Mas alguém é ministro quando tem o carisma e o encargo oficial para exercitar o ministério.

        A missão sempre é exercida num contexto. Cristo, o enviado do Pai, realiza a sua missão no conturbado contexto da Palestina dominada pelo Império Romano.

        A missão da Igreja, no início deste novo milênio, é a mesma missão de Cristo, mas no contexto mundial. Um mundo globalizado, ameaçado de destruição atômica, de destruição ambiental. De grandes blocos políticos, econômicos e religiosos antagônicos. Ao mesmo tempo com recursos científicos e tecnológicos capazes de projetar um mundo de mais possibilidades e qualidade de vida.

         Em quanto noventa por cento da população mundial vive mal, dez por cento vive na abundância. O que produz este contexto é que o homem tanto o que vive na miséria como o que vive na abundância colocou a sua esperança no deus Mamon.

        A missão do diácono, junto com toda a Igreja é anunciar Jesus Cristo, o Deus Amor, Partilha, Solidariedade.

A missão do diácono como ministro da caridade tem dois contextos. Ambos marcados, a maioria das vezes, pela miséria e pela abundância.

       Primeiro o contexto da comunidade cristã. Segundo o contexto da comunidade cristã em relação à sociedade, ao mundo. No contexto interno, o grande desafio é sermos comunidades fraternas. Onde se viva a comunhão fraterna. (cf. At 2, 42). Mesmo que a maioria das nossas comunidades são comunidades sociologicamente de pobres, ainda podemos encontrar casos como o que encontrei numa das minhas leituras: Há alguns anos, em Santo Domingos, um sacerdote decidiu negar a comunhão, em sua paróquia, a uma senhora da alta sociedade dominicana que havia gastado uma fortuna em um adorno supérfluo para o jardim de sua casa. O pároco tinha sólidos argumentos para esta atitude. Enquanto esta "cristã" rica esbanjava dinheiro em um enfeite de jardim, quase toda a comunidade paroquial debatia-se entre barracões de zinco, desemprego, jornadas de miséria, analfabetismo, doenças, etc. Ele disse à mulher rica: "Você cometeu uma grave injustiça, é um pecado público!... e não posso aceitá-la assim, sem mais, à comunhão".(6)

     O grande desafio é como recuperar a comunidade de dimensões humanas, e como recuperar a dimensão social da Eucaristia. Como tornar realidade nas nossas comunidades a Doutrina Social da Igreja.

      Nesse contexto de uma "assembléia eucarística" formada por ricos e pobres, o diácono terá a missão de mostrar os caminhos e as iniciativas para chegar a uma comunhão fraterna. Saúde, trabalho, moradia, educação, alimentação, devem ser áreas dos cuidados de todos os irmãos. De forma que se possa chegar a dizer: não há necessitados entre eles.

        No contexto de uma "assembléia eucarística" formada na sua grande maioria de pobres, não deixa de ser a missão praticamente a mesma. Já os santos Padres falavam que nem os pobres podem ser dispensados da realização da comunhão fraterna, através do jejum e das suas contribuições.

        Esta comunidade, tanto num contexto como noutro, deverá ser orientada para uma efetiva e eficiente ação de transformação no mundo. A solidariedade vivida nas nossas comunidades, deverá ser a força e a luz para os novos modelos de solidariedade na sociedade. Só um testemunho forte e genuíno, poderá incidir no comportamento da sociedade. As comunidades cristãs devem ser sinais vivos e evidentes do jeito novo de sociedade que Cristo veio trazer, e que confiou a Igreja de levar para toda a humanidade. A missão do diácono é contribuir para que a comunidade seja este sinal vivo e brilhante capaz de iluminar e transformar. A missão do diácono é garantir que a comunidade tenha uma participação ativa nas mais diversas iniciativas em favor da solidariedade e da paz.

        A missão do diácono será garantir o cuidado dos pobres. Garantir que a administração tenha sua finalidade preservada. Garantir que as obras de assistência social sejam realizadas num plano emergencial e nunca como uma rotina inconseqüente.

        A missão do diácono é suscitar e detectar os ministros para que todas as dimensões do ministério da caridade sejam organizadas e cumpram o seu objetivo.

        Um aspecto muito importante do ministério do diácono é, ajudar à Igreja, à comunidade, a tomar consciência de que é uma comunidade de serviço, e ajudar à comunidade a viver a missão de serviço. A Igreja toda deve ser consciente do seu ser e missão; a Igreja toda deve viver sua missão de serviço interna e externamente. Porém, o diácono teria como atribuição ser o "sentinela", como a atribuição de Ezequiel ao profeta, que alerta dos perigos do poder-dominação, em todos os âmbitos da vida da Igreja, que continuamente alerta a comunidade para que "entre vocês não seja como entre os poderosos". O seu serviço, a sua missão, é fazer com que a Igreja não perca este seu aspeto essencial de serva. Ele é, entre os três pastores, aquele que cuida de um aspeto do pastoreio que é responsabilidade dos três. Ele cuida para que o rebanho não vai para os pastos dos ídolos, não vão servir ao dinheiro, para que ninguém sirva como "escravo", mas como "livre"; para que todos sejam "servos de Deus", "servos de Cristo", "servos do Espírito Santo", para que todos sejam servos dos "servos de Deus" e servos de todos os homens.

        No início deste novo milênio, permanece em toda a sua validade o que os bispos diziam em Puebla: "O carisma do diácono, sinal sacramental de 'Cristo Servo", tem grande eficácia para a realização de uma Igreja servidora e pobre, que exerce sua função missionária com vistas à libertação integral do homem". (n. 697)

        Ao mesmo tempo, o Papa João Paulo II, nos incentiva a uma "fantasia da caridade", esperando "que o século e o milênio que estão começando hão de ver a dedicação a que pode levar a caridade para com os mais pobres".(7)

Para que isto realmente aconteça, o diácono deverá trabalhar firme nas seguintes frentes:

  • Para que seja superado o modelo capitalista que domina a sociedade.

  • Pelas comunidades de dimensões humanas.

  • Na parceria com outras instituições em favor da paz e da justiça no mundo.

  • Para que as estruturas da Igreja e a vida das comunidades sejam um testemunho vivo de fraternidade, igualdade, comunhão e participação.

  • Para que todos os cristãos trabalhem em conjunto.

  A missão do diácono será trabalhar para que as desigualdades dentro e fora da Igreja desapareçam. A sua missão, como parceiro da missão do próprio Deus, é fazer com que vivamos na terra a vida trinitária.

 (1) VICTOR CODINA, O credo dos pobres, São Paulo, Paulinas, 1997, p. 51.
 (2) Cf. Ibidem, pp. 60-61.
 (3) NMI 50.
 (4) Cf. Ricos e pobres nos Atos dos Apóstolos, VIDA PASTORAL, Paulus,
     maio-junho de 2001, pp. 2-9.
 (5) LUIS PEREZ AGUIRRE, A Igreja em crise, São Paulo, Ática, 1996, p. 83.
 (6) Cf. NMI 50.
 (7) CF. NMI 49.

 

Fonte: Comissão Nacional dos Diáconos - CNBB

 

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