VOCAÇÃO DO DIÁCONO

 

Diácono José Durán y Durán

Palmares, PE, 23/01/2000.

Presidente da Comissão Nacional de Diáconos

Fonte: Comissão Nacional dos Diáconos - CNBB

 

          Na nossa Igreja no Brasil esta vocação é ainda desconhecida pela maioria dos católicos. Os diáconos no Brasil são pouco mais de mil. Se pensarmos que no Brasil existem mais de oito mil paróquias, quer dizer, que sete mil não tem diáconos, não conhecem esta vocação, e provavelmente nunca ouviram falar de diácono.

          Certamente a maioria conhece e sabe que o diácono é aquele que vai ser padre. Neste caso a vocação não é de ser diácono, mas de ser padre. A vocação de padre é bem conhecida. Mas ser diácono para permanecer sempre diácono, o que na Igreja chamamos de "diácono permanente", é uma novidade para muitos. E maior novidade ainda, mesmo que disto já faz mais de trinta e cinco anos, é quando são informados de que diácono agora na Igreja pode ser também um homem casado.

          Esta vocação existiu na Igreja desde o tempo dos Apóstolos: "Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, surgiram murmurações dos helenistas contra os hebreus. Isto porque, diziam aqueles, suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Os Doze convocaram então a multidão dos discípulos e disseram: "Não é conveniente que abandonemos a Palavra de Deus para servir às mesas. Procurai, antes, entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos desta tarefa. Quanto a nós, permaneceremos assíduos à oração e ao ministério da Palavra. A proposta agradou a toda a multidão. E escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Felipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos apóstolos e, tendo orado, impuseram-lhes as mãos." (At. 6, 1-6)

          Vejam, a vocação do diácono surge com duas missões principais: primeiro para servir aos mais necessitados da comunidade nas suas necessidades materiais. E em segundo lugar, para ajudar aos apóstolos a exercerem o ministério próprio deles.

          Hoje podemos dizer que estamos em situação parecida com a das primeiras comunidades cristãs. Muitos católicos não são atendidos nem nas suas necessidades materiais, nem nas suas necessidades espirituais. A maioria das comunidades católicas do Brasil estão privadas da celebração da Eucaristia. Basta lembrar que 70000 (setenta mil) comunidades celebram a Eucaristia somente algumas vezes por ano. Na maioria a organização para atender aos necessitados não existe. Muitos de nossos bispos, como os apóstolos no início, se esforçam para atender a todos, mas terminam acumulando uma sobre carga de funções e trabalhos, que os prejudica na saúde e no exercício do seu ministério próprio e específico. Os primeiros colaboradores dos bispos, os presbíteros, sofrem do mesmo mal que os bispos.

          Os diáconos, depois do século IV, tinham deixado de ser diáconos permanentes, e os presbíteros acumularam todas as tarefas e ministérios. O Concilio Vaticano II, tendo bem na vista o quadro das comunidades católicas no mundo, não só no Brasil, e prevendo os novos rumos que a Igreja deveria tomar para cumprir a sua missão, trouxe de volta o ministério diaconal como vocação.

          O Concílio, e depois as diversas orientações dos papas e das Conferências Episcopais, deixaram livre cada bispo, para iniciar o chamado de homens para o ministério de diácono, quando acharem oportuno nas dioceses. Por este motivo é que ainda encontramos no Brasil a maioria das dioceses e das paróquias sem diáconos.

          Mas então esta vocação, este "chamado", é o bispo quem faz? Toda vocação vem de Deus. Toda vocação é um dom de Deus. "Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações"(Jr 1,4-5). Deus chama através do "grito dos excluídos". "As viúvas estavam sendo esquecidas". Hoje temos os sem terra, sem casa, sem alimento, sem saúde, sem trabalho, sem sacramentos...Quantos não estão sendo esquecidos hoje nas nossas comunidades?

          O relato dos Atos dos Apóstolos diz que os Doze reuniram a multidão dos discípulos e pediram para procurar homens em número suficiente, "repletos do Espírito e de sabedoria". Considero muito importante ter presente três aspectos neste processo de escolha: primeiro, que os apóstolos delegam a comunidade para que procurem; em segundo lugar pedem para procurar a quantidade de ministros suficiente para atender as necessidades; e terceiro, são homens já preparados para o ministério. A comunidade era valorizada. A comunidade sabia escolher. Certamente as comunidades eram menores e melhor catequizadas. Então esta vocação, este "chamado" , é a comunidade quem faz? O que podemos perceber da experiência das primeiras comunidades cristãs é que elas reconhecem os dons e carismas que Deus dá aos seus membros.

          Os apóstolos, depois de orar, impuseram-lhes as mãos. Temos aqui o quadro completo do chamado vocacional do diácono. Deus chama, "emprestando" sua voz aos necessitados. A comunidade participa da indicação e escolha, reconhecendo o carisma. O discípulo responde ao chamado impelido pelo Espírito. O bispo, impõe as mãos. Ordena o diácono com o sacramento da Ordem. Oficialmente constitui ao diácono como ministro da Igreja, para servir a Igreja, colaborando com o ministério do bispo.

          Deus chama hoje, no mundo inteiro, homens solteiros, outros viúvos, outros pertencentes a institutos de vida consagrada e a sociedades de vida apostólica, e a maioria, homens casados, profissionais, queridos pela comunidade, com grande experiência de fé e vida comunitária, para se consagrarem ao serviço da Igreja e do mundo, mediante a imposição das mãos do bispo, sendo assim ministros ordenados, que recebem o sacramento da ordem, no caso dos casados, com o consentimento e o apoio da esposa, para dar testemunho de Cristo-Servo, no âmbito da própria família, da comunidade cristã e do ambiente profissional e social onde vivem.

          Como podemos perceber a vocação do diácono tem três dimensões: profissional, familiar e eclesial. O diácono tem que viver a sua vocação num equilíbrio constante entre os três ambientes. No diácono o prioritário é a família, depois a profissão e depois o ministério comunitário. Esta é uma ótica nova de perceber o ministério, onde se deixa de lado a idéia de que o mais importante é o "sobrenatural", o "sagrado", o "sacramental", em "detrimento" das realidades "profanas". Não estamos "fora" do mundo, mas no mundo para servi-lo e transformá-lo.

          A vocação do diácono se realiza na família, no trabalho e na vida da comunidade. O diácono não é só diácono quando está no altar. O diácono é diácono imerso nas realidades do dia a dia, na história concreta que lhe toca viver.

          Sempre achei muito boita a imagem que um diácono francês utilizou para definir ao diácono e a sua vocação. O diácono é como um iceberg cuja grande massa está submersa, invisível. Este é o ser profundo do diácono, imerso no Mistério da Igreja, imerso na vida cotidiana, ao serviço do amor. Para percebe-lo, identifica-lo, visibiliza-lo, tem que aparecer um momento no seu ministério litúrgico.

          São homens escolhidos por Deus, que generosamente respondem à vocação, confirmados na sua vocação pelo bispo e pela comunidade, cheios do Espírito Santo, e conduzidos por este mesmo Espírito se entregam à realização da missão da Igreja no ministério do serviço, de forma permanente, isto é, sempre e para sempre, como colaboradores dos bispos, realizando à sua missão sempre em unidade com o presbitério.

          A sua missão é a mesma missão da Igreja: evangelizar para construir o Reino de Deus. Porém, o diácono realiza esta missão destacando a dimensão do serviço. A sua missão específica é fazer com que toda a Igreja seja uma Igreja servidora, para que sejam vividas e testemunhadas as palavras de Cristo: "...o Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por todos,"(Mt 20,28)

          A identidade e o papel do diácono na Igreja, é ser sinal de Cristo-Servo, e animadores da "diaconía" da Igreja, da vocação ao serviço de cada comunidade eclesial e de cada cristão. O diácono tem a graça particular de detectar os necessitados e fazer surgir os diferentes serviços seja dentro da comunidade, como da comunidade para o mundo.

          Para realizar esta vocação atual, necessária e profética, o diácono tem que enfrentar inúmeros desafios. Além dos grandes desafios próprios da vida familiar e profissional, tem que superar os desafios do ministério diaconal no âmbito da comunidade eclesial. O desafio de não ser conhecido, nem reconhecido. O desafio de não ser ouvido nem considerado. O desafio de "não contar", de "não ter peso", de "não servir para muita coisa", de "não poder fazer muita coisa", de "não ter poder". O desafio de ser "posto de lado". De "ser esquecido". De "não ter espaço". Em fim, o desafio de realizar um ministério essencialmente de serviço, dentro de uma estrutura eclesial clerical.

          Mas é na espiritualidade do Cristo-Servo, que ele encontra forças e sentido para o seu ministério. O Cristo que serve até dar a vida é a fonte da sua luta profética. A cruz é para ele um dom, "privilégio para fazer o coração do servo pulsar no ritmo do Coração Redentor".

          Porém, Deus suscita estas vocações como um dom para a Igreja, para que ela responda à sua missão hoje. Os diáconos no Brasil e no mundo são chamados para socorrer crianças abandonadas, famintos, desempregados, drogados, exilados, migrantes...a viver a caridade, a tornar realidade a solidariedade, e fazer com que o povo de Deus trabalhe pela transformação da sociedade.

          Assim o diácono mediante o serviço da Palavra, da Liturgia e da Caridade, vai levando todos os membros da Igreja a viver em plenitude o serviço, tornando a Igreja um autêntico sinal de Cristo-Servo que continua a realizar a sua obra de salvação nos dias de hoje. O diácono é construtor e animador de um novo rosto de Igreja. Uma Igreja acolhedora, serviçal, caritativa, solidária, ministerial, de comunhão e participação.

           Cabe aos nossos pastores, mas também como vimos, às comunidades, investir nesta nova vocação. São milhões de católicos aguardando uma catequese melhor, uma assistência sacramental digna do batismo recebido, precisando de comunidades organizadas e engajadas no trabalho solidário com os excluídos.Com toda certeza no meio do povo de Deus existem os vocacionados ao diaconato na quantidade necessária para servir dignamente ao povo de Deus. É necessário "exigir" os direitos. "Reclamar" o que nos é devido. É necessário "chamar" e enviar.

          Mas ao final, Deus chama o diácono para que? Esta é sempre a pergunta que todos fazem. E é lógico, porque não há chamado sem missão e missão específica. Podemos dizer que em primeiro lugar Deus chama o diácono para "ser" sinal de Cristo Servo. Isto é com a sua vida deve mostrar que ele como Cristo é antes de mais nada um servidor de todos. Em segundo lugar, Deus chama o diácono para ajudar a que todos os membros da Igreja vivam a diaconía de Cristo, isto é, o serviço que Cristo viveu. Para que toda a Igreja seja servidora. Para que a Igreja realize o serviço que Jesus lhe encomendou de anunciar a Boa Nova e batizar a todos os povos.

          Uma vocação nova para uma nova evangelização. Uma vocação nova para fazer surgir muitas vocações novas tanto para ministérios mais antigos como para os muitos ministérios novos que a realidade da vida está exigindo na nossa época. Uma vocação atual, cheia de desafios, e por isso mesmo atrativa para os que tem coragem de dar a vida por Cristo e seus irmãos.

          Desta forma, como nas primeiras comunidades, os diáconos estão hoje, ajudando a que toda a Igreja ajude aos mais necessitados dentro e fora da comunidade, e ao mesmo tempo, estão ajudando aos bispos e presbíteros a que eles realizem cada vez melhor o seu ministério.

 

Fonte: Comissão Nacional dos Diáconos - CNBB

 

Perguntas mais freqüentes sobre o diaconato

O diácono na liturgia

Estatísticas Brasileiras sobre os Diáconos 

Diretrizes para o diaconato permanente

Vocação do Diácono

Missão do Diácono 

Abuso sexual cometidos por padres

Discurso do Papa João Paulo II durante o jubileu dos diáconos

Ministério Diaconal na Igreja

Desafios e Perspectivas do Diaconato

Copyright  2001 -  Paróquia do Divino Espírito Santo - Maceió/AL