Comissão Nacional dos Diáconos - CNBB

 

ABUSO SEXUAL COMETIDO POR PADRES

Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, SDV

 

     A notícia de abuso sexual de religiosas praticado por padres não me causou nenhum espanto. Durante as minhas andanças por esse Brasil, assessorando cursos, encontros, retiros, assembléias de Pastoral Vocacional e da Vida Religiosa, pude ouvir muitos "desabafos", inclusive de algumas vítimas. Convém ressaltar que tal abuso não é cometido somente contra freiras, mas igualmente contra outras mulheres, tanto casadas como solteiras. O problema acontece também com os padres homossexuais que abusam de homens, de jovens e de adolescentes, sobretudo dos coroinhas. As conseqüências deste último caso já se fazem notar em certos lugares.

     O Setor Vocações e Ministérios da CNBB e a Organização dos Seminários e Institutos do Brasil (OSIB) vêem alertando para este e outros problemas já há um bom tempo. O último grito foi dado por mim e Pe. Vitor Hugo Mendes na última reunião conjunta da Presidência e da Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB. Infelizmente, quase sempre, os nossos gritos terminam sendo vozes que "clamam no deserto".

     Por detrás deste e de outros problemas graves estão algumas situações que precisam ser consideradas com toda a seriedade possível. A seguir manifesto a minha opinião pessoal sobre o assunto. A análise deve ser vista no contexto do fato em questão, a fim de se evitar colocar no mesmo "caldeirão" todos os padres e toda a formação presbiteral.

 

1. O mais forte é acobertado

     Este fato do abuso sexual cometido por padres é antes de tudo uma denúncia grave. Certos setores da Igreja costumam acobertar fatos graves, achando que se pode "tapar o sol com a peneira". Não coloco aqui em discussão a preocupação de não provocar escândalos nos fiéis ou de salvaguardar a honra e a dignidade de quem foi envolvido. Isso é necessário e compreensível. O que questiono é o fato que, mesmo internamente, com os meios disponíveis, justos e corretos, não se procure averiguar melhor o problema, deixando a coisa correr. O que escandaliza é o pouco caso com o qual situações sérias e graves são tratadas. Com isso fica muito claro que, no fundo, o que se pretende é "proteger" o mais forte. Neste caso, o homem, o "macho", o padre. Quando freiras e mulheres são violentadas, abafa-se o caso inclusive com suborno, com promessas e até com ameaças. O caso morre ali, a vítima, muitas vezes pobre e indefesa, não têm como se defender. Com isso dá-se o caso por encerrado, não se encara de frente o problema e as coisas ficam como estão. Não se trata, é claro, de agir com punições rigorosas, expulsões ou coisas assim. Mas de sermos menos hipócritas, mais cristãos, abordando a questão com seneridade, com seriedade, na tentativa de verificar a raiz de problema e de, sem falsos pudores, encontrarmos saídas para diminuir o sofrimento de muita gente, inclusive dos próprios padres.

     Cabe salientar que, mesmo se tratando somente de "algumas situações negativas", isso tudo tem um preço. E o preço mais alto quem geralmente paga é a mulher, violada em sua dignidade, tratada como objeto e obrigada a permanecer no anonimato. Mesmo que tivesse sido apenas um único caso, isso já seria motivo de séria reflexão, pois uma só mulher abusada sexualmente é filha de Deus, é gente. E nada justifica tal violência.

 

2. O machismo está na raiz da questão

     Este problema de exploração da mulher, por parte de certos padres, tem raízes mais profundas e antigas. Minha experiência diz que a causa está no machismo que ainda impera dentro da nossa Igreja e da nossa Sociedade. Muitos padres trazem para o seminário a herança de um machismo presente nas famílias e no ambiente social. Além do mais, as recentes e aceleradas mudanças no convívio social contribuíram para agravar tal situação. Hoje está em baixa o espírito de gratuidade, de serviço e de renúncia. A onda é "curtir", transformando tudo em peça descartável. Há uma banalização generalizada do ser humano e, consequentemente, da sexualidade e do celibato. O imediatismo é a grande conquista. Tudo isso é absorvido pelo jovens, mesmo pelos que entram nos seminários e por aqueles que já foram ordenados.

     Chegando no seminário, o machismo não é superado, mas, dependendo do caso, até se agrava, uma vez que certas "pedagogias" formativas, adotadas por aí, ainda carregam consigo uma visão totalmente negativa da mulher. Esta continua sendo vista como objeto de cama e mesa, mesmo que tal visão seja "adocicada" pelo disfarce da concepção "mulher-rainha-do-lar". Por isso será normal que depois os padres achem algo natural o abuso sexual. A mulher - pensam e dizem eles - foi feita para isso mesmo. Quem já se encontrou algumas vezes em uma roda de padres, sabe como são certas conversas a respeito da mulher.

Aliás, setores e personagens da Igreja, certos moralistas, filósofos e teólogos católicos, durante séculos, pregaram a inferioridade da mulher, justificando, ainda que não explicitamente, certos abusos contra ela. Bastem dois exemplos de santos famosos. São Jerônimo teria deixado escrito: "A mulher é a porta por onde passa o diabo, é a estrada da iniqüidade, picada de escorpião, é uma raça pestífera; quando alguém se aproxima dela, ela o excita e acende o fogo das paixões". Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, chegou a sentenciar: "A mulher é a melhor companheira do homem somente para a função de procriação; porque, para qualquer outra atividade, outro homem é melhor". Essa mentalidade domina a maioria absoluta dos padres. Inclusive de muitos daqueles que se consideram "avançados" e "modernos". É o que vejo e constato por aí.

 

3. A precariedade da formação presbiteral

     Outro problema que concorre para o agravamento desta situação é a precariedade da formação presbiteral. Apesar do grande esforço e da valiosa contribuição da OSIB, na maioria dos lugares a formação presbiteral deixa muito a desejar. Faltam formadores, faltam pessoas capacitadas, há pessoas responsáveis pela formação sobrecarregadas com tantas outras atividades, muita improvisação e fragmentação do processo formativo. Para muitas autoridades eclesiásticas a formação é vista apenas pelo ângulo acadêmico, sem nenhuma preocupação pelas outras dimensões, como aquela humano-afetiva. Em certas regiões o critério único de admissão ao seminário e para a ordenação é a falta de padres. A escassez vai justificando tudo. As Diretrizes Gerais para a formação dos presbíteros (Doc. 55 da CNBB), mesmo aprovadas por Roma, ficam esquecidas na gaveta. O mesmo se diga para o Decreto sobre os Egressos. Candidatos são acolhidos e ordenados depois de deixarem ou de terem sido expulsos de um seminário e por graves problemas. Os encarregados nem sequer fazem consultas ao seminário de proveniência.

     Continua-se exigindo o celibato para os padres diocesanos, mas sem procurar saber se o candidato, além da vocação para o ministério ordenado, tem vocação para uma vida celibatária "por causa do Reino". Muitas vezes, durante o período da formação presbiteral, a temática do celibato não é abordada com seriedade. Em alguns casos ela é vista apenas racionalmente, de modo periférico, sem interpelação nenhuma para o "coração", ou seja, para a totalidade da vida da pessoa. São comuns os casos de ordenações, mesmo depois que o candidato manifestou publicamente não acreditar e não aceitar o celibato. Toda opção tem o seu preço. Se a Igreja, com motivações teológicas, cristológicas, eclesiológicas, deseja a continuidade do celibato, todos os seus pastores, sem exceção, devem ter consciência e ciência de que muitos jovens chegam ao seminário com a vontade de ser padre, mas sem vocação para o celibato. Neste caso, coerente com o princípio anterior, devem ter a coragem de negar a ordenação. O que não é possível é continuar "fechando um olho" para não ver o óbvio.

Hoje é comum aprovar ordenações baseando-se no fato que o seminarista gosta de batina, nunca dispensa o clergyman e obedece fielmente como um cordeirinho. Se não critica publicamente o papa e faz externamente, sem discutir, o que o bispo manda, já está aprovado. Gostando de paramentos ricos, de muita louvação e seguindo rigorosamente, sem vacilar, as rubricas litúrgicas, pode-se considerar alguém com tudo para a ordenação. Os responsáveis, porém, esquecem que a batina, a obediência cega e as bajulações e os rigorismos costumam esconder problemas profundos que só estouram depois.

 

4. Criados em redomas de vidro

     Convém lembrar ainda um fato doloroso, bem real. Muitos padres, depois da ordenação, são deixados à própria sorte. Mesmo porque criou-se, ao longo dos séculos, uma certa convicção de que eles, sendo "homens de Deus", portadores da "graça de estado", estão imunizados contra tudo. Acontece, porém, que a realidade é bem outra. Hoje o padre, dentro da estrutura eclesiástica que temos, é jogado, após a ordenação, num mundo complexo para o qual ele não foi preparado para ser pastor. Tantas vezes é obrigado a conviver com a solidão, pois, nos seminários vivia em verdadeiros "redomas" que "protegiam" os seminaristas de qualquer perigo e tentação. Recentemente encontrei casos em que os seminaristas não podem ter contato com as "pessoas de fora". Não fazem experiências pastorais. Somente depois de ordenados, amparados pela "graça de estado" (sic!), são lançados "no mundo".

De repente o seminarista protegido, agora padre, se vê diante dos desafios, completamente perdido, tendo que enfrentar situações difíceis Não sabe por onde começar, por onde passar, de que lado ficar e nem por onde sair. A afetividade é a primeira a ser atingida. Ele não foi educado para a relação. Tem medo de tudo. Nesta situação muitos não resistem e acabam encontrando escapatórias pouco honestas, entre as quais aquela de apelar para uma relação ambígua, irresponsável, desumana com outras pessoas, sem excluir o nível da genitalidade.

 

5. Visão reducionista da relação homem-mulher

     Por fim, uma outra questão bastante séria. Além do preconceito contra a mulher, muitos padres carregam consigo também uma visão bastante reducionista da relação homem-mulher. Fruto da concepção maniqueísta que se entranhou na Igreja. Entendem tal relação apenas no nível erótico ou, pior ainda, genital. Tudo fica reduzido ao sexo, à genitália, ao coito. A interação masculino-feminino é entendida como na pornografia e na prostituição. Por isso são incapazes de cultivar uma relação sadia, natural, normal, com o feminino e com a mulher. Logo apelam para o "tudo ou nada". Comigo já aconteceu de ser interpelado por um padre nos seguintes termos: "Não sei como você pode ser amigo de uma mulher, sem fazer amor, sem terminar na cama com ela". Falta a magnifica experiência e a compreensão de uma relação masculino-feminino que vai além do erógeno e que é indispensável para humanizar as pessoas, também os padres e as freiras. Isso tem se agravado ainda mais com a triste tentativa de eliminar das casas de formação, dos seminários e dos institutos, a presença indispensável "do carisma da feminilidade" (Pastores Dabo Vobis, 66).

Espero que o "vazamento" do relatório da religiosa americana Maria O'Donoghue leve os bispos, os superiores, as superioras, os formadores, as formadoras, a encararem com a devida coragem e competência toda esta problemática. Talvez o barulho da mídia nos obrigue a não mais fazer vista grossa, a ter que não só admitir o problema, mas a buscar soluções justas, humanas, evangélicas. E isso para que "a corda não continue arrebentando do lado mais fraco". Pois, nestes casos, são sempre os fracos (aqui as mulheres) que pagam o preço alto e injusto. No fim das contas, com um certo cinismo e arrogância, ouve-se frases como essa: "A culpa é da freira; quem mandou ela tentar o padre?". Ou ainda o caso daquele superior, que avisado por uma provincial sobre o comportamento tarado de seus religiosos, respondeu nos seguintes termos: "Irmã, você tome conta das suas novilhas, porque os meus garrotes estão soltos". Respostas ridículas, levianas, infelizmente herdadas de personalidades ilustres como Eusébio de Cesaréia, o qual certa vez teria dito: "A mulher é a flecha do diabo pela qual ele arrasta num instante o homem à luxúria".

Fonte: Comissão Nacional dos Diáconos - CNBB

 

 

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