Pastores Dabo Vobis
EXORTAÇÃO
APOSTÓLICA PÓS SINODAL PASTORES DABO VOBIS DE SUA SANTIDADE JOÃO PAULO II AO
EPISCOPADO AO CLERO E AOS FIÉIS SOBRE A FORMAÇÃO DOS SACERDOTES NAS
CIRCUNSTÂNCIAS ACTUAIS INTRODUÇÃO
1. «Dar´vos´ei pastores
segundo o Meu coração» (Jer 3, 15).
Com estas palavras do
profeta Jeremias, Deus promete ao seu povo que jamais o deixará privado de
pastores que o reúnam e guiem: «Eu estabelecerei para elas (as minhas ovelhas)
pastores, que as apascentarão, de sorte que não mais deverão temer ou
amedrontar´se» (Jer 23, 4). A Igreja, Povo de Deus, experimenta continuamente a
realização deste anúncio profético e, na alegria, continua a dar graças ao
Senhor. Ela sabe que o próprio Jesus Cristo é o cumprimento vivo, supremo e
definitivo da promessa de Deus: «Eu sou o Bom Pastor» (Jo 10, 11). Ele, «o
grande Pastor das ovelhas» (Heb 13, 20), confiou aos apóstolos e aos seus sucessores
o ministério de apascentar o rebanho de Deus (cf. Jo 21, 15´17; 1 Ped 5, 2).
Sem sacerdotes, de facto, a Igreja não poderia viver aquela fundamental
obediência que está no próprio coração da sua existência e da sua missão na
história ´ a obediência à ordem de Jesus : «Ide, pois, ensinai todas as nações»
(Mt 28, 19) e «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19; cf. 1 Cor 11, 24), ou
seja, a ordem de anunciar o Evangelho e de renovar todos os dias o sacrifício
do seu Corpo entregue e do seu Sangue derramado pela vida do mundo. Pela fé,
sabemos que a promessa do Senhor não pode deixar de cumprir´se. Esta promessa é
exactamente a razão e a força que faz a Igreja alegrar´se perante o
florescimento e o aumento numérico das vocações sacerdotais, que hoje se regista
em algumas partes do mundo, e representa o fundamento e o estímulo para um seu
acto de maior fé e de esperança mais viva, diante da grave escassez de
sacerdotes que pesa noutras partes. Todos somos chamados a partilhar a
confiança plena no ininterrupto cumprimento da promessa de Deus, que os Padres
sinodais quiseram testemunhar de modo claro e veemente: «O Sínodo, com plena
confiança na promessa de Cristo que disse ´Eis que estarei convosco todos os
dias até ao fim do mundo´ (Mt 28, 20) e ciente da actividade constante do
Espírito Santo na Igreja, intimamente crê que nunca faltarão completamente na
Igreja os ministros sagrados (...) Apesar de se verificar escassez de clero em
várias regiões, a acção do Pai, que suscita as vocações, jamais cessará na Igreja»
[1]. Como afirmei na conclusão do Sínodo, perante a crise das vocações
sacerdotais, «a primeira resposta que a Igreja dá consiste num acto de
confiança total no Espírito Santo. Estamos profundamente convictos de que este
abandono confiante não há´de decepcionar, entretanto permanecermos fiéis à
graça recebida»
[2]. . Permanecer fiéis à
graça recebida! De facto, o dom de Deus não anula a liberdade do homem, antes a
suscita, desenvolve e exige. Por este motivo, a confiança total na
incondicionada fidelidade de Deus à Sua promessa está ligada na Igreja à grave
responsabilidade de colaborar com a acção de Deus que chama, de contribuir para
criar e manter as condições nas quais a boa semente , semeada pelo Senhor,
possa criar raízes e dar frutos abundantes. A Igreja nunca pode deixar de pedir
ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (cf. Mt 9, 38), de
dirigir uma clara e corajosa proposta vocacional às novas gerações, de as
ajudar a discernir a verdade do chamamento de Deus e a corresponder´lhe com
generosidade, e de reservar um cuidado particular à formação dos candidatos ao
presbiterado. Na verdade, a formação dos futuros sacerdotes, tanto diocesanos
como religiosos, e o assíduo cuidado, mantido ao longo de toda a vida, em vista
da sua santificação pessoal no ministério e da actualização constante no seu
empenho pastoral, é considerado pela Igreja como uma das tarefas de maior
delicadeza e importância para o futuro da evangelização da humanidade. Esta
obra formadora da Igreja é uma continuação no tempo da obra de Cristo, que o
evangelista Marcos indica com as seguintes palavras: «Jesus subiu a um monte e
chamou os que Ele quis. E foram ter com Ele. Elegeu doze para andarem com Ele e
para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios» (Mc 3, 13´15). Pode
afirmar´se que, na sua história, a Igreja reviveu sempre, embora com
intensidades e modalidades diversas, esta página do Evangelho, mediante a obra
formadora reservada aos candidatos ao presbiterado e aos próprios sacerdotes.
Hoje, porém, a Igreja sente´se chamada a reviver com um novo empenho tudo
quanto o Mestre fez com os seus apóstolos, solicitada como é pelas profundas e
rápidas transformações das sociedades e das culturas do nosso tempo, pela
multiplicidade e diversidade dos contextos em que anuncia e testemunha o
Evangelho, pelo favorável desenvolvimento numérico das vocações sacerdotais que
se regista em diversas Dioceses do mundo, pela urgência de uma nova constatação
dos conteúdos e dos métodos da formação sacerdotal, pela preocupação dos Bispos
e das suas comunidades com a persistente escassez de clero, pela absoluta
necessidade de que a ´nova evangelização´ tenha nos sacerdotes os seus
primeiros ´novos evangelizadores´. Foi precisamente neste contexto histórico e
cultural que se colocou a última Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos
Bispos, dedicada à ´Formação dos Sacerdotes nas circunstâncias actuais´, com a
intenção de, à distância de vinte e cinco anos do final do Concílio, dar
cumprimento à doutrina conciliar sobre esta matéria e torná´la mais actual e
incisiva nas circunstâncias hodiernas [3].
3. Em continuidade com os
textos do Concílio Vaticano II, sobre a ordem dos presbíteros e a sua formação
[4], e procurando aplicar às várias situações a rica e respeitável doutrina, a
Igreja enfrentou várias vezes os problemas da vida, do ministério e da formação
dos sacerdotes. As ocasiões mais solenes foram os Sínodos dos Bispos. Já na a
primeira Assembleia Geral, realizada em Outubro de 1967, o Sínodo dedicou cinco
congregações gerais ao tema da renovação dos Seminários. Este trabalho deu
impulso decisivo à elaboração, pela Congregação para a Educação Católica, do
documento ´Normas Fundamentais para a Formação Sacerdotal´ [5]. Foi sobretudo a
Segunda Assembleia Geral Ordinária de 1971 a dedicar metade dos seus trabalhos
ao sacerdócio ministerial. Os frutos deste longo confronto sinodal, retomados e
condensados em algumas ´recomendações´ confiadas ao meu predecessor, o Papa
Paulo VI, e lidas na abertura do Sínodo de 1974, diziam respeito principalmente
à doutrina sobre o sacerdócio ministerial e a alguns aspectos da
espiritualidade e do ministério sacerdotal. Também em muitas outras ocasiões, o
Magistério da Igreja continuou a testemunhar a sua solicitude pela vida e pelo
ministério dos sacerdotes. Pode dizer´se que, nos anos do pós´Concílio, não
houve intervenção magisterial que, em alguma medida, não tenha contemplado, de
modo explícito ou implícito, o sentido da presença dos sacerdotes na
comunidade, o seu papel e a sua necessidade para a Igreja e para a vida do
mundo. Nestes anos mais recentes e de várias partes, chamou´se a atenção para a
necessidade de voltar ao tema do sacerdócio, enfrentando´o de um ponto de vista
relativamente novo e mais adaptado às presentes circunstâncias eclesiais e
culturais. O acento deslocou´se do problema da identidade do padre para os
problemas relacionados com o itinerário formativo ao presbiterado e com a
qualidade de vida dos sacerdotes. Na realidade, as novas gerações dos chamados
ao sacerdócio ministerial apresentam características notavelmente distintas
relativamente às dos seus imediatos predecessores, e vivem num mundo, em muitos
aspectos, novo e em contínua e rápida evolução. E não se pode deixar de ter em
conta tudo isto na programação e na realização dos itinerários educativos para
o sacerdócio ministerial. Além disso, os sacerdotes já empenhados, há um tempo
mais ou menos longo, no exercício do ministério, parecem hoje sofrer de
excessiva dispersão nas sempre crescentes actividades pastorais e, perante as
dificuldades da sociedade e da cultura contemporânea, sentem´se constrangidos a
repensar o seu estilo de vida e as prioridades das tarefas pastorais, enquanto
cada vez mais se dão conta da necessidade de uma formação permanente. Por isso
as preocupações e as reflexões deste Sínodo dos Bispos de 1990 foram dedicadas
ao incremento das vocações ao presbiterado, à sua formação para que os
candidatos conheçam e sigam Jesus preparando´se para celebrar e viver o
sacramento da Ordem que os configura a Cristo Cabeça e Pastor, Servo e Esposo
da Igreja, à especificação dos itinerários de formação permanente capazes de
ajudar de modo realista e eficaz o ministério e a vida espiritual dos
sacerdotes. Pretendia´se também responder a um pedido feito pelo Sínodo
precedente sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. É que os
próprios leigos tinham solicitado o empenho dos sacerdotes na formação, para
serem oportunamente ajudados no cumprimento da sua missão eclesial. Na verdade,
«quanto mais se desenvolve o apostolado dos leigos, tanto mais fortemente é
sentida a necessidade de ter sacerdotes que sejam bem formados, sacerdotes
santos. Assim, a própria vida do Povo de Deus manifesta o ensinamento do
Concílio Vaticano II sobre a relação entre o sacerdócio comum e o sacerdócio
ministerial ou hierárquico. Pois, no mistério da Igreja, a hierarquia tem um
carácter ministerial (cf. Lumen gentium, 10). Quanto mais se aprofunda o
sentido da vocação própria dos leigos, tanto mais se evidencia o que é próprio do
sacerdócio» [6].
4. Na vivência eclesial
típica do Sínodo, isto é, «uma singular experiência de comunhão episcopal na
universalidade, que reforça o sentido da Igreja universal, a responsabilidade
dos Bispos perante a Igreja universal e a sua missão, em comunhão afectiva e
efectiva à volta de Pedro» [7], fez´se sentir, clara e diligente, a voz das
diversas Igrejas particulares, e neste Sínodo, pela primeira vez, a de algumas
Igrejas do Leste, proclamando a sua fé no cumprimento da promessa de Deus ´ «Dar´vos´ei
pastores segundo o Meu coração» (Jer 3, 15) ´, e renovando o seu empenho
pastoral no cuidado das vocações e na formação dos sacerdotes, conscientes de
que delas depende o futuro da Igreja, o seu desenvolvimento e a sua missão
universal de salvação. Retomando agora o rico património das reflexões,
orientações e indicações que prepararam e acompanharam os trabalhos dos Padres
sinodais, com esta Exortação Apostólica Pós´Sinodal uno à deles a minha voz de
Bispo de Roma e de Sucessor de Pedro e dirijo´a ao coração de todos e cada um
dos fiéis, em particular ao coração dos sacerdotes e de quantos estão
comprometidos no delicado ministério da sua formação. Sim, com todos os
sacerdotes e com cada um deles, tanto diocesanos como religiosos, desejo
encontrar´me através desta Exortação. Com os lábios e o coração dos Padres
sinodais faço minhas as palavras e os sentimentos da ´Mensagem final do Sínodo
ao Povo de Deus´: «Com a alma reconhecida e cheia de admiração, dirigimo´nos a
vós, que sois os nossos primeiros cooperadores no serviço apostólico. A vossa
obra na Igreja é verdadeiramente necessária e insubstituível. Vós suportais o
peso do ministério sacerdotal e tendes contacto quotidiano com os fiéis. Sois
os ministros da Eucaristia, os dispensadores da misericórdia divina no
sacramento da Penitência, os consoladores das almas, os guias de todos os fiéis
nas tempestuosas dificuldades da vida. Saudamo´vos de todo o coração,
exprimimo´vos a nossa gratidão e exortamo´vos a perseverar nesta via com ânimo
alegre e pronto. Não cedais ao desencorajamento. A obra não é nossa, mas de
Deus. Aquele que nos chamou e nos convidou permanece connosco todos os dias da
nossa vida. Nós, de facto, somos embaixadores de Cristo» [8].
CAPÍTULO I
ESCOLHIDO DE ENTRE OS
HOMENS
A formação sacerdotal
perante os desafios do final do segundo milénio
O sacerdote no seu tempo
5. ´Todo o sumo
sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído a favor dos homens nas
coisas que dizem respeito a Deus´ (Heb 5, l). A Carta aos Hebreus afirma claramente
a ´humanidade´ do ministro de Deus: ele vem dos homens e está ao serviço dos
homens, imitando Jesus Cristo, ´Ele mesmo provado em todas as coisas, excepto
no pecado´ (Heb 4, 15). Deus chama sempre os seus sacerdotes a partir de
determinados contextos humanos e eclesiais, com os quais estão inevitavelmente
conotados e aos quais são mandados para o serviço do Evangelho de Cristo. Por
este motivo o Sínodo ´contextualizou´ o tema dos sacerdotes, inserindo´o na
Igreja e na sociedade de hoje em dia e abrindo´o às perspectivas do terceiro
milénio, como de resto resulta da própria formulação do tema: ´A formação dos
sacerdotes nas circunstâncias actuais´. Certamente, há uma fisionomia essencial
do sacerdote que não muda:o padre de amanhã, não menos que o de hoje, deverá
assemelhar´se a Cristo. Quando vivia sobre a terra, Jesus ofereceu em Si mesmo
o rosto definitivo do presbítero, realizando um sacerdócio ministerial do qual
os apóstolos foram os primeiros a ser investidos; aquele é destinado a
perdurar, a reproduzir´se incessantemente em todos os períodos da história. O
presbítero do terceiro milénio será, neste sentido, o continuador dos padres
que, nos precedentes milénios, animaram a vida da Igreja. Também no ano Dois
Mil, a vocação sacerdotal continuará a ser o chamamento a viver o único e
permanente sacerdócio de Cristo´ [9]. Mas é igualmente certo que a vida e o
ministério do sacerdote se deve ´adaptar a cada época e a cada ambiente de vida
(...) Da nossa parte, devemos, por isso, procurar abrir´nos o mais possível à
superior iluminação do Espírito Santo, para descobrir as orientações da
sociedade contemporânea, reconhecer as necessidades espirituais mais profundas,
determinar as tarefas concretas mais importantes, os métodos pastorais a
adoptar, e, assim, responder de modo adequado às expectativas humanas´ [10].
Devendo conjugar a verdade permanente do ministério presbiteral com as
solicitações e as características de hoje, os Padres sinodais procuraram
responder a algumas perguntas necessárias: que problemas e, ao mesmo tempo, que
estímulos positivos, o actual contexto sócio´cultural e eclesial suscita nas
crianças, nos adolescentes e nos jovens que devem amadurecer um projecto de
vida sacerdotal, para toda a existência? Que dificuldades e que novas possibilidades
oferece o nosso tempo para o exercício de um ministério sacerdotal coerente com
o dom do Sacramento recebido e com a exigência de uma vida espiritual
correspondente? Proponho´vos agora alguns elementos de análise da situação que
os Padres sinodais desenvolveram, bem consciente, porém, de que a grande
variedade das circunstâncias sócio´culturais e eclesiais presentes nos diversos
países aconselha a assinalar só os fenómenos mais profundos e mais difundidos,
em particular os que se relacionam com os problemas educativos e com a formação
sacerdotal.
O Evangelho hoje:
esperanças e obstáculos
6. Múltiplos factores
parecem favorecer nos homens de hoje uma consciência mais amadurecida da
dignidade da pessoa e uma nova abertura aos valores religiosos, ao Evangelho e
ao ministério sacerdotal. No âmbito da sociedade, encontramos, apesar de tantas
contradições, uma sede de justiça e de paz mais forte e generalizada um sentido
mais vivo do cuidado do homem pela criação e pelo respeito da natureza, uma procura
mais aberta da verdade e da tutela da dignidade humana, um empenho crescente,
em muitas faixas da população mundial, por uma mais concreta solidariedade
internacional e por uma nova ordem planetária, na liberdade e na justiça. Ao
mesmo tempo que se desenvolve sempre mais o potencial de energias oferecido
pelas ciências e pelas técnicas e se difunde a informação e a cultura, cresce
também, a exigência ética, isto é, a exigência do sentido existencial e,
consequentemente, de uma objectiva escala de valores que permita estabelecer as
possibilidades e os limites do progresso. No campo mais estritamente religioso
e cristão, caiem os preconceitos ideológicos e a violenta obstrução ao anúncio
dos valores espirituais e religiosos, enquanto surgem novas e inesperadas
possibilidades para a evangelização e o reflorescimento da vida eclesial em
muitas partes do mundo. Nota´se, com efeito, uma crescente difusão do
conhecimento das Sagradas Escrituras; uma vitalidade e força expansiva de
muitas Igrejas jovens com um papel cada vez mais importante na defesa e na
promoção dos valores da pessoa e da vida humana; um esplêndido testemunho do
martírio por parte das Igrejas do Centro´Leste europeu, como também o da
fidelidade e coragem de outras Igrejas, que são ainda constrangidas a suportar
perseguições e tribulações pela fé [11]. O desejo de Deus e de uma relação viva
e significativa com Ele apresenta´se hoje tão forte que, onde falta o autêntico
anúncio do Evangelho de Jesus, favorece a difusão de formas de religiosidade sem
Deus e de inúmeras seitas. A expansão destas, inclusive em alguns ambientes
tradicionalmente cristãos, é, para todos os filhos da Igreja e para os
sacerdotes em particular, um constante motivo de exame de consciência sobre a
credibilidade do seu testemunho do Evangelho, mas, ao mesmo tempo, é um sinal
de quão profunda e generalizada ainda hoje é a procura de Deus.
7. Com estes e outros
factores positivos, encontram´se, porém, entrelaçados muitos elementos
problemáticos ou negativos. Apresenta´se ainda muito difundido, o racionalismo
que, em nome de uma concepção redutora da ´ciência´, torna insensível a razão
humana ao encontro com a Revelação e com a transcendência divina. Regista´se
uma defesa exasperada da subjectividade da pessoa, que tende a fechá´la no
individualismo, incapaz de verdadeiras relações humanas. Assim muitos,
sobretudo entre os adolescentes e os jovens, procuram compensar esta solidão
com substitutos de vária natureza, a través de formas mais ou menos agudas de
hedonismo e de fuga às responsabilidades; prisioneiros do instante fugaz,
procuram ´consumir´ experiências individuais o mais fortes e gratificantes
possível no plano das emoções e das sensações imediatas, encontrando´se, porém,
inevitavelmente indiferentes e como que paralisados frente ao apelo de um
projecto de vida que inclua uma dimensão espiritual e religiosa e um
compromisso de solidariedade. Além disso, difunde´se por toda a parte, mesmo
depois da queda das ideologias que tinham feito do materialismo um dogma e da
recusa da religião um programa, uma espécie de ateísmo prático e existencial,
que coincide com uma visão secularista da vida e do destino do homem. Este
homem, ´todo voltado para si mesmo, que se considera não só centro de todo o
interesse, mas ousa dizer´se princípio e razão de toda a realidade´ [12],
encontra´se sempre mais empobrecido daquele ´suplemento de alma´ que lhe é
tanto mais necessário quanto mais uma larga disponibilidade de bens materiais e
de recursos o ilude na autosuficiência. Já não é necessário combater Deus,
pensa´se simplesmente poder prescindir d´Ele. Neste quadro, refira´se, em
particular, a desagregação da realidade familiar e o obscurecimento ou a
falsificação do verdadeiro sentido da sexualidade humana: são fenómenos que
incidem de modo fortemente negativo sobre a educação dos jovens e sobre a sua
disponibilidade para toda e qualquer vocação religiosa. Além disso, deve
notar´se o agravamento das injustiças sociais e a concentração das riquezas nas
mãos de poucos, como fruto de um capitalismo desumano, [13] que alarga cada vez
mais a distância entre povos opulentos e povos indigentes: são deste modo
introduzidas, na convivência humana, tensões e inquietações que perturbam
profundamente a vida das pessoas e das comunidades. Também no âmbito eclesial,
se registam fenómenos preocupantes e negativos que têm influência directa sobre
a vida e o ministério dos sacerdotes. Assim, a ignorância religiosa que
permanece em muitos crentes; a escassa incidência da catequese, sufocada pelas
mais difusas e persuasivas mensagens dos meios de comunicação de massa; o
pluralismo teológico, cultural e pastoral mal compreendido que, embora partindo
muitas vezes de boas intenções, acaba por tornar difícil o diálogo ecuménico e
por atentar contra a necessária unidade da fé; o persistir de um sentido de
desconfiança e quase insensibilidade para com o magistério hierárquico; as
iniciativas unilaterais e redutoras das riquezas da mensagem evangélica, que
transformam o anúncio e o testemunho da fé num exclusivo factor de libertação
humana e social ou num alienante refúgio na superstição e na religiosidade sem
Deus [14]. Um fenómeno de grande relevo, ainda que relativamente recente em
muitos países de antiga tradição cristã, é a presença de consistentes núcleos
de raças e de religiões diferentes num mesmo território. Desenvolve´se, assim,
cada vez mais a sociedade multirracial e multirreligiosa. Se isto, por um lado,
pode ser ocasião para um exercício de diálogo mais frequente e frutuoso, para
uma abertura de mentalidade, para experiências de acolhimento e de justa
tolerância, por outro pode ser causa de confusão e relativismo, sobretudo em
pessoas e populações de fé menos amadurecida. A estes factores, e em estreita
ligação com o crescimento do individualismo, acrescenta´se o fenómeno da
subjectivização da fé. Com efeito, num crescente número de cristãos nota´se uma
menor sensibilidade ao conjunto global e objectivo da doutrina da fé, em favor
de uma adesão subjectiva ao que agrada, que corresponde à própria experiência,
que não incomoda os próprios hábitos. Até o apelo à inviolabilidade da
consciência individual, legítimo em si mesmo, não deixa de assumir, neste
contexto, um perigoso carácter de ambiguidade. Daqui deriva também o fenómeno
de pertenças à Igreja cada vez mais parciais e condicionadas, que exercem
influência negativa sobre o ressurgimento de novas vocações ao sacerdócio,
sobre a própria autoconsciência do sacerdote e sobre o seu ministério na
comunidade. Enfim, em muitas realidades eclesiais, é, ainda hoje, a escassa
presença e disponibilidade das forças sacerdotais a criar os problemas mais
graves. Os fiéis estão abandonados, por vezes durante longos períodos, sem o
adequado apoio pastoral: disso se vem a ressentir o crescimento da vida cristã
no seu conjunto, e sobretudo, a sua capacidade de se tornarem ulteriormente
promotores de evangelização.
Os jovens perante a
vocação e a formação sacerdotal
8. As numerosas
contradições e potencialidades que marcam as nossas sociedades e culturas e, ao
mesmo tempo, as nossas comunidades eclesiais, são percebidas, vividas e
experimentadas com uma intensidade muito particular pelo mundo dos jovens, com
repercussões imediatas e incisivas sobre o seu caminho educativo. Deste modo, a
aparição e o desenvolvimento da vocação sacerdotal nas crianças, nos
adolescentes e nos jovens debate´se simultaneamente com obstáculos e
solicitações. É muito forte sobre os jovens o fascínio da chamada ´sociedade de
consumo´, que os torna submissos e prisioneiros de uma interpretação
individualista, materialista e hedonista da existência humana. O ´bem´estar´,
entendido materialmente, tende a impor´se como único ideal de vida, um
bem´estar que se obtém a qualquer preço: daqui, a recusa de tudo o que exige
sacrifício e a renúncia a procurar e a viver os valores espirituais e
religiosos. A ´preocupação´ exclusiva do ter suplanta o primado do ser, com a
consequência de se interpretarem e viverem os valores pessoais e interpessoais
não segundo a lógica do dom e da gratuidade, mas segundo a lógica da posse egoísta
e da instrumentalização do outro. Isto reflecte´se particularmente sobre a
visão da sexualidade humana, que perde a sua dignidade de serviço à comunhão e
à doação entre as pessoas, para ficar reduzida simplesmente a um bem de
consumo. Assim, a experiência afectiva de muitos jovens resolve´se não num
crescimento harmonioso e alegre da própria personalidade que se abre ao outro
no dom de si mesmo, mas numa grave involução psicológica e ética, que não
poderá deixar de ter graves condicionamentos sobre o amanhã dos jovens. Na raiz
destas tendências, está em muitos deles uma experiência distorcida da
liberdade: em vez de ser obediência à verdade objectiva e universal, a
liberdade é vivida como adesão cega às forças do instinto e à vontade de poder
de cada um. Torna´se, então de algum modo, natural, no plano da mentalidade e
do comportamento, o desmoronar´se do consenso sobre os princípios éticos e, no
plano religioso, se não sempre a recusa explícita de Deus, pelo menos uma larga
indiferença e, em todo o caso, uma vida que, mesmo nos seus momentos mais
significativos e nas suas opções mais decisivas, acaba por ser construidacomo
se Deus não existisse. Num tal contexto, torna´se difícil não só a realização,
mas inclusive a própria compreensão do sentido de uma vocação ao sacerdócio,
que é um específico testemunho do primado do ser sobre o ter, é reconhecimento
do sentido da vida como dom livre e responsável de si mesmo aos outros, como
disponibilidade para colocar´se inteiramente como sacerdote ao serviço do Evangelho
e do Reino de Deus. Também no âmbito eclesial o mundo dos jovens constitui,
tantas vezes, um ´problema´. Dado que neles, ainda mais que nos adultos, está
presente uma forte tendência para a subjectivização da fé cristã e uma pertença
apenas parcial e condicionada à vida e à missão da Igreja, torna´se difícil,
por uma série de razões, lançar na comunidade eclesial, uma pastoral juvenil
actualizada e corajosa: corre´se o risco de deixar os jovens entregues a si
mesmos, na sua fragilidade psicológica, insatisfeitos e críticos perante um
mundo de adultos que, não vivendo de modo coerente e maduro a sua fé, não se
lhes apresentam como modelos credíveis. Torna´se então evidente a dificuldade
de propor aos jovens uma experiência integral e envolvente de vida cristã e
eclesial. e de os educar para ela. Assim a perspectiva da vocação ao sacerdócio
permanece longínqua dos seus interesses concretos e vivos.
9. Todavia não faltam
situações e estímulos positivos, que suscitam e alimentam no coração dos
adolescentes e dos jovens uma nova disponibilidade, isto é, uma procura
verdadeira e própria de valores éticos e espirituais que, pela sua natureza,
oferecem o terreno propício para um itinerário vocacional en vista do dom total
de si a Cristo e à Igreja no sacerdócio. É de acentuar, antes de mais, como se
atenuaram alguns fenómenos que, num passado recente, tinham provocado não
poucos problemas, tais como a contestação radical, os impulsos anárquicos, as
reivindicações utópicas, as formas indiscriminadas de socialização, a
violência. Deve reconhecer´se, além disso, que os jovens de hoje, com a força e
a pujança típicas da idade, são portadores dos ideais que fazem caminho na
história: a sede da liberdade, o reconhecimento do valor incomensurável da
pessoa, a necessidade da autenticidade e da transparência, um novo conceito e
estilo de reciprocidade nas relações entre homem e mulher, a procura sincera e
apaixonada de um mundo mais justo, solidário e unido, a abertura e o diálogo
com todos, o empenho a favor da paz. O desenvolvimento, tão rico e vivo em
muitos jovens do nosso tempo, de numerosas e variadas formas de voluntariado
presente nas situações mais esquecidas e difíceis da nossa sociedade,
representa hoje um recurso educativo particularmente importante, porque estimula
e ajuda os jovens a um estilo de vida mais desinteressado, aberto e solidário
com os pobres. Isto pode facilitar a compreensão, o desejo e o acolhimento de
uma vocação para o serviço estável e total aos outros, no caminho da plena
consagração a Deus por uma vida sacerdotal. A queda recente das ideologias, o
modo fortemente crítico de situar´se frente ao mundo dos adultos que nem sempre
oferecem um testemunho de vida apoiado em valores morais e transcendentes, a
própria experiência dos companheiros que procuram evasões na droga e na
violência, muito contribui para tornar mais aguda e iniludível a pergunta
fundamental sobre os valores que são verdadeiramente capazes de dar plenitude
de significado à vida, ao sofrimento e à morte. Em muitos jovens, torna´se mais
explícita a questão religiosa e a necessidade de espiritualidade: daqui o
desejo de oração, o retorno a uma leitura mais pessoal e frequente da Palavra
de Deus e ao estudo da teologia. Tal como sucede no âmbito do voluntariado
social, também no da comunidade eclesial, os jovens se tornam cada vez mais
activos e protagonistas, sobretudo pela participação nas várias agregações,
desde as tradicionais uma vez renovadas, às mais recentes: a experiência de uma
Igreja solicitada para a ´nova evangelização´ pela fidelidade ao Espírito que a
anima e pelas exigências do mundo afastado de Cristo mas necessitado d´Ele,
como também a experiência de uma Igreja cada vez mais solidária com o homem e
com os povos na defesa e promoção da dignidade pessoal e dos direitos humanos
de todos e de cada um, abre o coração e a vida da juventude a ideais
fascinantes e comprometedores, que podem encontrar a sua concreta realização no
seguimento de Cristo e do sacerdócio. Naturalmente não de pode prescindir desta
situação humana e eclesial, caracterizada por uma forte ambivalência, seja na
pastoral das vocações e na obra de formação dos futuros sacerdotes, seja no
âmbito da vida e do ministério dos sacerdotes e da sua formação permanente.
Assim, se se podem compreender as várias formas de ´crises´, às quais os
sacerdotes de hoje estão sujeitos no exercício do ministério, na sua vida
espiritual e na própria interpretação da natureza e do significado do
sacerdócio ministerial, devem´se todavia assinalar com alegria e esperança as novas
potencialidades que o actual momento histórico oferece àqueles para o
cumprimento da sua missão.
O discernimento
evangélico
10. A complexa situação
actual, rapidamente evocada em traços largos e de modo exemplificativo,
necessita de ser conhecida, e sobretudo interpretada. Só assim se poderá
responder de modo adequado à questão fundamental: como formar sacerdotes que
estejam verdadeiramente à altura destes tempos, capazes de evangelizar o mundo
de hoje? [15]. É importante o conhecimento da situação. Não basta, porém, um
simples levantamento dos factos; ocorre uma investigação «científica» para se
delinear um quadro preciso e concreto das reais circunstâncias sócio´culturais
e eclesiais. Ainda mais importante é a interpretação da situação. Essa é exigida
pela ambivalência e por vezes contradição com que está marcada a situação, que
regista, profundamente entrelaçadas, dificuldades e potencialidades, elementos
negativos e razões de esperança, obstáculos e aberturas, como o campo
evangélico no qual estão semeados e ´convivem´ o bom trigo e a cizânia (cf. Mt
13,24´30). Nem sempre é fácil uma leitura interpretativa que saiba distinguir
entre o bem e o mal, entre sinais de esperança e ameaças. Na formação dos
sacerdotes, não se trata única e simplesmente de acolher os factores positivos
e de rejeitar frontalmente os negativos. Mas tem´se de submeter os próprios
factores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos
outros nem entrem em oposição entre si, absolutizando´se e combatendo´se mutuamente.
O mesmo se diga dos factores negativos : não são de rejeitar em bloco e sem
distinções, porque em cada um deles pode ocultar´se algum valor que espera ser
liberto e reconduzido à sua verdade plena. Para o crente, a interpretação da
situação histórica encontra o seu princípio cognoscitivo e o critério das
opções operativas consequentes, numa realidade nova e original, ou seja, no
discernimento evangélico; é a interpretação que se verifica à luz e com a força
do Evangelho, do Evangelho vivo e pessoal de Jesus Cristo, e com o dom do
Espírito Santo. Deste modo, o discernimento evangélico vê, na situação
histórica e nas suas vicissitudes e circunstâncias, não um simples ´dado´ a
registar com precisão, frente ao qual é possível permanecer na indiferença ou
na passividade, mas uma ´tarefa´, um desafio à liberdade responsável quer do
indivíduo quer da comunidade. É um ´desafio´ que está ligado a um ´apelo´, que
Deus faz ressoar na própria situação histórica: também nele e através dele,
Deus chama o crente , e antes ainda a Igreja, a fazer com que ´o Evangelho da
vocação e do sacerdócio´ exprima a sua verdade perene nas novas circunstâncias
da vida. Também à formação dos sacerdotes são de aplicar as palavras do
Concílio Vaticano II: ´É dever permanente da Igreja auscultar os sinais dos
tempos e interpretá´ los à luz do Evangelho de modo que, de uma forma adaptada
a cada geração, ela possa responder às perenes interrogações dos homens sobre o
sentido da vida presente e futura e sobre a sua relação recíproca. É necessário,
de facto, conhecer e compreender o mundo em que vivemos e também as suas
esperanças, as suas aspirações e a sua índole por vezes dramática´ [16]. Este
discernimento evangélico tem o seu fundamento na confiança no amor de Jesus
Cristo, que sempre e incansavelmente toma o cuidado da sua Igreja (cf. Ef 5,
29), Ele que é o Senhor e Mestre, a chave, o centro e o fim de toda a história
humana [17]; nutre´se da luz e da força do Espírito Santo, que suscita por toda
a parte e em qualquer circunstância a obediência da fé, a coragem alegre do
seguimento de Cristo, o dom da sabedoria que tudo julga e não é julgada por
ninguém (cf. 1 Cor 2, 15); repousa sobre a fidelidade do Pai às suas promessas.
Deste modo, a Igreja sente que pode enfrentar as dificuldades e os desafios
deste novo período da história e garantir, já no presente e para o futuro,
sacerdotes bem, formados que sejam convictos e fervorosos ministros da ´nova
evangelização´, servidores fiéis e generosos de Jesus Cristo e dos homens. Não
ignoramos as dificuldades. Não são poucas nem pequenas. Mas, para vencê´las,
está a nossa esperança, a nossa fé no indefectível amor de Cristo, a nossa
certeza da insubstituibilidade do ministério sacerdotal na vida da Igreja e do
mundo.
CAPÍTULO II
CONSAGROU´ME COM A UNÇÃO
E ME ENVIOU
A natureza e missão do
sacerdócio ministerial
O olhar sobre o sacerdote
11. ´Estavam postos sobre
Ele os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga´ (Lc 4, 20).Tudo quanto
o evangelista Lucas diz dos que estavam presentes, naquele sábado, na sinagoga
de Nazaré, escutando o comentário feito por Jesus ao livro do profeta Isaías,
por Ele mesmo acabado de ler, se pode aplicar a todos os cristãos,continuamente
chamados a reconhecer em Jesus de Nazaré o cumprimento definitivo do anúncio
profético:´Começou então a dizer:´Hoje se cumpriu o passo da Escritura que
acabais de ouvir com os vossos próprios ouvidos´ (Lc 4, 21). E o ´passo da
Escritura´ era este: ´O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me
consagrou com a unção e me enviou a anunciar aos pobres a Boa Nova, a proclamar
a liberdade aos prisioneiros, e a vista aos cegos; a pôr em liberdade os
oprimidos e pregar um ano de graça do Senhor´ (Lc 4,18´19; cf. Is 61, 1´2).
Jesus auto´apresenta´se, por conseguinte, como cheio do Espírito, ´consagrado
com a unção´, ´enviado a anunciar aos pobres a Boa Nova´: é o Messias, o
Messias sacerdote, profeta e rei. É este o rosto de Cristo, no qual os olhos da
fé e do amor dos cristãos devem permanecer fixos. Precisamente a partir desta ´contemplação´
e tendo´a como ponto de referência, os Padres Sinodais reflectiram sobre o
problema formação dos sacerdotes nas circunstâncias actuais. Tal problema não
pode encontrar resposta sem uma prévia reflexão sobre a meta para a qual se
orienta o caminho formativo: o sacerdócio ministerial, mais concretamente o
sacerdócio ministerial enquanto participação na Igreja do mesmo sacerdócio de
Jesus Cristo. O conhecimento da natureza e da missão do sacerdócio ministerial
é o pressuposto irrecusável, e ao mesmo tempo o guia mais seguro bem como o
estímulo mais premente para desenvolver na Igreja a acção pastoral de promoção
e discernimento das vocações sacerdotais e da formação dos chamados ao
ministério ordenado. O recto e aprofundado conhecimento da natureza e da missão
do sacerdócio ministerial é o caminho a seguir, e o Sínodo efectivamente
segui´o, para sair da crise sobre a identidade do sacerdote: ´Esta crise ´
dizia no meu Discurso final ao Sínodo ´ nasceu nos anos imediatamente
sucessivos ao Concílio. Fundamentava´se numa compreensão errada, por vezes
mesmo deliberadamente tendenciosa, da doutrina do magistério conciliar. Aqui se
encontra indubitavelmente uma das causas do grande número de perdas então
sofridas pela Igreja, perdas essas que feriram gravemente o serviço pastoral e
as vocações ao sacerdócio, e em particular as vocações missionárias. É como se
o Sínodo de 1990, descobrindo, através de tantas intervenções que escutámos
nesta Aula, toda a profundidade da identidade sacerdotal, viesse infundir esperança
depois destas dolorosas perdas. Tais intervenções manifestaram a consciência do
ligame ontológico específico que une o sacerdote a Cristo, Sumo Sacerdote e Bom
Pastor. Esta identidade está inerente à natureza da formação que deve ser
ministrada com vista ao sacerdócio, e por conseguinte a toda a vida sacerdotal.
Era precisamente este o objectivo do Sínodo´ [18]. Por isso o Sínodo considerou
necessário chamar a atenção, de modo sintético e fundamental, para a natureza e
a missão do sacerdócio ministerial, tais como a fé da Igreja as vem
reconhecendo ao longo dos séculos da sua história e o Concílio Vaticano II as
apresentou aos homens do nosso tempo [19].
Na Igreja mistério,
comunhão e missão
12. ´A identidade
sacerdotal ´ escreveram os Padres Sinodais ´ como toda e qualquer identidade
cristã, encontra na Santíssima Trindade a sua própria fonte´ [20], que se
revela e autocomunica aos homens em Cristo, constituindo nele e por meio do
Espírito a Igreja como ´gérmen e início do Reino´ [21]. A Exortação
Christifideles laici sintetizando a doutrina conciliar, apresenta a Igreja como
mistério, comunhão e missão: ela ´é mistério porque o amor e a vida do Pai, do
Filho e do Espírito Santo constituem o dom absolutamente gratuito oferecido a
quantos nasceram da água e do Espírito (cf. Jo 3, 5), chamados a reviver a
própria comunhão de Deus e a manifestá´la e comunicá´la na história (missão)´
[22]. É no interior do mistério da Igreja como comunhão trinitária em tensão
missionária, que se revela a identidade cristã de cada um e, portanto, a
específica identidade do sacerdote e do seu ministério. O presbítero, de facto,
em virtude da consagração que recebe pelo sacramento da Ordem, é enviado pelo
Pai, através de Jesus Cristo, ao qual como Cabeça e Pastor do seu povo é
configurado de modo especial para viver e actuar, na força do Espírito Santo,
ao serviço da Igreja e para a salvação do mundo [23]. Assim se pode compreender
a conotação essencialmente ´relacional´ da identidade do presbítero: mediante o
sacerdócio, que brota das profundezas do mistério de Deus, ou seja, do amor do
Pai, da graça de Jesus Cristo e do dom de unidade do Espírito Santo, o
presbítero é inserido sacramentalmente na comunhão com o Bispo e com os outros
presbíteros [24], para servir o Povo de Deus que é a Igreja e atrair todos a
Cristo, segundo a Oração do próprio Senhor: ´Pai Santo, guarda em teu nome
aqueles que me deste, para que sejam um só como nós (...) Como tu, ó Pai estás
em mim e eu em ti, assim eles estejam em nós para que o mundo acredite que Tu
me enviaste´ (Jo 17, 11.21). Não se pode, então, definir a natureza e a missão
do sacerdócio ministerial, senão nesta múltipla e rica trama de relações, que
brotam da Trindade Santíssima e se prolongam na comunhão da Igreja como sinal e
instrumento, em Cristo, da união com Deus e da unidade de todo o género humano
[26]. Neste contexto, a eclesiologia de comunhão se torna decisiva para
explicar a identidade do presbítero, a sua dignidade original, a sua vocação e
missão no seio do Povo de Deus e do mundo. De facto, a referência à Igreja é
necessária, mesmo se não prioritária, na definição da identidade do presbítero.
Enquanto mistério, a Igreja é essencialmente relativa a Jesus Cristo: é, de
facto, a plenitude, o Corpo, a Esposa d´Ele. É o ´sinal´ e o ´memorial´ vivo da
sua permanente presença e acção entre nós e para nós. Por isso o presbítero
encontra a verdade plena da sua identidade no facto de ser uma derivação, uma
participação específica e uma continuação do próprio Cristo sumo e único Sacerdote
da nova e eterna Aliança: ele é uma imagem viva e transparente de Cristo
Sacerdote . O sacerdócio de Cristo, expressão da sua absoluta ´novidade´ na
história da salvação, constitui a fonte única e o insubstituível paradigma do
sacerdócio do cristão, e, especialmente, do presbítero. A referência a Cristo
é, então, a chave absolutamente necessária para a compreensão das realidades
sacerdotais.
A relação fundamental com
Cristo Cabeça e Pastor
13. Jesus Cristo revelou
em Si mesmo a face perfeita e definitiva do sacerdócio da nova aliança [26]:
fê´lo em toda a sua vida terrena mas sobretudo no evento central da sua paixão,
morte e ressurreição. Como escreve o autor da Carta aos Hebreus, Jesus, sendo
homem como nós e ao mesmo tempo o Filho unigénito de Deus, é, no seu próprio
ser, o mediador perfeito entre o Pai e a humanidade (cf. Heb 8, 9), Aquele que
abre o acesso imediato a Deus, graças ao dom do Espírito: ´Deus enviou aos
nossos corações o Espírito de Seu Filho que clama: Abba, ó Pai!´ (Gal 4, 6; cf. Rom 8, 15). Jesus
leva à plena actuação o seu ser mediador através da oferta de Si mesmo na cruz,
pela qual nos abre, de uma vez por todas, o acesso ao santuário celeste, à casa
do Pai (cf. Heb 9, 24´28). De fronte a Jesus, Moisés e todos os ´mediadores´ do
Antigo Testamento entre Deus e o seu povo ´ os reis, os sacerdotes e os
profetas ´ aparecem apenas como ´figuras´ e ´sombras dos bens futuros´ e não
como ´a própria realidade´ ( cf. Heb 10, 1). Jesus é o Bom Pastor pré´anunciado
(cf. Ez 34), Aquele que conhece as suas ovelhas uma a uma, que dá a sua vida
por elas e que a todos quer reunir num só rebanho sob um único pastor (cf. Jo
10, 11´16). É o pastor que veio ´não para ser servido mas para servir´ (Mt 20,
28), que, na acção pascal do lava´pés (Jo 13, 1´20), deixa aos seus o modelo de
serviço que deverão realizar uns aos outros, e que livremente se oferece como
´cordeiro inocente´ imolado para a nossa redenção (cf. Jo 1, 36; Ap 5, 6.12).
Com o único e definitivo sacrifício da cruz, Jesus comunica a todos os seus
discípulos a dignidade e a missão de sacerdotes da nova e eterna Aliança.
Cumpre´se assim a promessa que Deus fizera a Israel: ´Sereis para mim um reino
de sacerdotes e uma nação santa´ (Ex 19, 6). É todo o povo da nova Aliança ´
escreve S. Pedro ´ a ser constituído como ´um edifício espiritual´, um
´sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por
meio de Jesus Cristo´ (1 Ped 2, 5). Os baptizados são as ´pedras vivas´, que
constroem o edifício espiritual, unindo´se a Cristo ´pedra viva (...) escolhida
e preciosa diante de Deus´ (1 Ped 2, 4´5). O novo povo sacerdotal, que é a
Igreja, não só tem em Cristo a sua própria e autêntica imagem, mas d´Ele recebe
também uma participação real e ontológica do seu eterno e único sacerdócio, ao
qual o mesmo povo se deve conformar em toda a sua vida.
14. Para o serviço deste
sacerdócio universal da Nova Aliança, Jesus chama a Si, no decurso da sua
missão terrena, alguns discípulos (cf. Lc 10, 1´12) e, com um mandato
específico e autorizado, chama e constitui os Doze, para que ´estivessem com
Ele, e para os enviar a pregar, e para que tivessem o poder de expulsar os
demónios´ (Mc 3, 14´15). Por isso, já durante o seu ministério público (cf. Mt
16, 18) e depois em plenitude após a morte e ressurreição (cf. Mt 28, 16´20; Jo
20; 21), Jesus confere a Pedro e aos Doze poderes particulares relativamente à
futura comunidade e à evangelização de todos os povos. Depois de os ter chamado
a segui´Lo, tem´nos a seu lado e vive com eles, proporcionando´lhes com o
exemplo e com a palavra a sua doutrina de salvação e, por fim, envia´os a todos
os homens. Para levar a cabo esta missão, Cristo confere aos Apóstolos, em
virtude de uma específica efusão pascal do Espírito Santo, a mesma autoridade
messiânica que lhe vem do Pai e lhe é conferida em plenitude na ressurreição:
´Foi´me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai todas as
nações baptizando´as em nome do Pai,do Filho e do Espírito Santo, ensinando´as
a observar tudo o que vos mandei. E eis que estou convosco todos os dias até ao
fim do mundo´ (Mt 28, 18´20). O Senhor estabelece assim uma estreita conexão
entre o ministério confiado aos Apóstolos e a sua própria missão: ´quem vos
acolhe acolhe´me a Mim, e quem me acolhe acolhe Aquele que Me enviou´ (Mt 10,
40); ´quem vos ouve a Mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza. E quem Me
depreza, despreza Aquele que Me enviou´ (Lc 10, 16). Mais ainda, o quarto
evangelho, à luz do acontecimento pascal da morte e ressurreição, afirma com
grande força e clareza: ´como o Pai Me enviou, assim Eu vos envio´ (Jo 20, 21;
cf. 13, 20; 17, 18). Como Jesus tem uma missão que Lhe vem directamente de Deus
e que concretiza a própria autoridade de Deus (cf. Mt 7, 29; 21, 23; Mc 1, 27;
11, 28; Lc 20, 2; 24, 19), assim também os apóstolos têm uma missão que lhes
vem de Jesus. E como ´o Filho nada pode fazer por Si mesmo´ (Jo 5, 19), pois a
doutrina que prega não é d´Ele mas d´Aquele que O enviou (cf. Jo 7, 16), assim
também Cristo diz aos apóstolos: ´sem Mim nada podereis fazer´ (Jo 15, 5): a
sua missão não é deles, mas é a própria missão de Jesus. E isto é possível não
a partir de forças humanas, mas só com o dom de Cristo e do Seu Espírito
mediante o ´sacramento´: ´Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados,
ser´lhes´ão perdoados, e a quem os retiverdes, ser´lhes´ão retidos´ (Jo 20,
22´23). Assim, não por qualquer mérito particular deles, mas apenas pela
participação da graça de Cristo, os apóstolos prolongam na história até à
consumação dos tempos, a mesma missão de salvação de Jesus em favor dos homens.
Sinal e pressuposto da autenticidade e da fecundidade desta missão é a unidade
dos apóstolos com Jesus e, n´Ele, entre si mesmos e o Pai, tal como testemunha
a Oração sacerdotal do Senhor, síntese da sua missão (cf. Jo 17, 20´23).
15. Por sua vez, os
Apóstolos constituídos pelo Senhor associarão progressivamente à sua missão, de
formas diversas mas no fim convergentes, outros homens como Bispos, Presbíteros
e Diáconos para cumprir o mandato de Jesus ressuscitado que os enviou a todos
os homens de todos os tempos. O Novo Testamento é unânime no sublinhar que foi
o próprio Espírito de Cristo a introduzir no ministério, estes homens,
escolhidos de entre os irmãos. Por meio do gesto da imposição das mãos (cf. Act
6, 6; 1 Tim 4, 14; 5, 22; 2 Tim 1, 6), que transmite o dom do Espírito, eles
são chamados e habilitados a continuar o mesmo ministério de reconciliar, de
apascentar o rebanho de Deus, e de ensinar (cf. Act 20, 28; 1 Ped 5, 2).
Portanto os presbíteros são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e
sumo Pastor, actualizando o seu estilo de vida e tornando´secomo que a Sua
transparência no meio do rebanho a eles confiado. Assim se lê, de modo claro e
preciso, na Primeira Carta de Pedro: ´recomendo aos presbíteros que estão entre
vós, eu presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e
participante da glória que se deve manifestar: apascentai o rebanho de Deus que
vos foi confiado, olhando por ele não constrangidos, mas de boa vontade segundo
Deus, não por ganância, mas por dedicação; não como dominadores sobre aqueles
que vos foram confiados, antes tornando´vos modelo do rebanho. E quando
aparecer o supremo Pastor recebereis a coroa eterna da glória´ (1 Ped 5, 1´4).
Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de
Jesus Cristo Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra com autoridade, repetem
os seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o Baptismo, a
Penitência e a Eucaristia, exercitam a sua amável solicitude, até ao dom total
de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de
Cristo no Espírito. Numa palavra, os presbíteros existem e agem para o anúncio
do Evangelho ao mundo e para a edificação da Igreja em nome e na pessoa de
Cristo Cabeça e Pastor [27]. Este é o modo típico e próprio pelo qual os
ministros ordenados participam do único sacerdócio de Cristo. O Espírito Santo,
mediante a unção sacramental da Ordem, configura´os, por um título novo e
específico, a Jesus Cabeça e Pastor, confirma e anima´os com a sua caridade
pastoral e coloca´os na Igreja na condição de servidores do anúncio do
Evangelho a toda a criatura, e da plenitude de vida cristã para todos os
baptizados. A verdade do presbítero tal qual emerge da Palavra de Deus, ou
seja, do próprio Jesus Cristo e do seu desígnio constitutivo da Igreja, é assim
cantada, com jubilosa gratidão, pela Liturgia no Prefácio da Missa do Crisma:
´Com a unção do Espírito Santo, constituístes o Vosso Filho Pontífice da nova e
eterna Aliança, e quisestes que o seu único sacerdócio fosse perpetuado na
Igreja. Ele comunica o sacerdócio real a todo o povo dos redimidos e com amor
de predilecção escolhe alguns de entre os irmãos que, mediante a imposição das
mãos, faz participantes do seu ministério de salvação. Vós quereis que em seu
nome renovem o sacrifício redentor, preparem para vossos filhos o banquete
pascal, e, servos primorosos do vosso povo, o alimentem com a vossa palavra e o
santifiquem com os sacramentos. Vós lhes propondes Cristo como modelo, para
que, oferecendo a vida por vós e pelos irmãos, se esforcem por se conformar à
imagem de vosso Filho e dêem testemunho de fidelidade e de amor generoso´.
Ao serviço da Igreja e do
mundo
16. O sacerdote tem como
referência fundamental a relação com Jesus Cristo Cabeça e Pastor: ele, de
facto, participa de modo específico e autorizado, na ´consagração/unção´ e na
´missão´ de Cristo (cf. Lc 4, 18´19). Mas, intimamente ligada àquela,
encontra´se a relação com a Igreja. Não se trata de ´relações´ simplesmente
justapostas, mas profundamente unidas numa espécie de mútua imanência. A
referência à Igreja inscreve´se na única e mesma referência do sacerdote a
Cristo, no sentido que é a ´representação sacramental´ de Cristo a fundamentar
e animar a relação e referência do sacerdote à Igreja. Neste sentido,
escreveram os Padres Sinodais: ´Enquanto representa Cristo Cabeça, Pastor e
Esposo da Igreja, o sacerdote coloca´se não apenas na Igreja, mas também
perante a Igreja. O sacerdócio, enquanto unido à Palavra de Deus e aos sinais
sacramentais a cujo serviço se encontra, pertence aos elementos constitutivos
da Igreja. O ministério do presbítero existe em favor da Igreja; é para a
promoção do exercício do sacerdócio comum de todo o Povo de Deus; ordena´se não
apenas para a Igreja particular, mas também para a Igreja universal (cf.
Presbyterorum ordinis, 10), em comunhão com o Bispo, com Pedro e sob a
autoridade de Pedro. Mediante o sacerdócio do Bispo, o sacerdócio da segunda
ordem incorpora´se na estrutura apostólica da Igreja. Desta forma, o
presbítero, como os apóstolos, exerce funções de embaixador de Cristo (cf. 2
Cor 5, 20). Nisto se fundamenta a índole missionária de todos e cada um dos
sacerdotes´ [28]. O ministério ordenado surge, portanto, com a Igreja e tem nos
Bispos, e em referência e comunhão com eles nos presbíteros, uma relação
particular com o ministério dos Apóstolos, ao qual efectivamente ´sucede´ ainda
que, relativamente a esse, assuma diferentes modalidades de existência. Não se
deve, pois, pensar no sacerdócio ordenado como se fosse anterior à própria
Igreja, porque ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja; nem
muito menos se pode pensar como posterior à comunidade eclesial, de modo que
esta pudesse ser concebida como já constituída independentemente de tal
sacerdócio. A relação do sacerdote com Jesus Cristo e, n´Ele, com a Sua Igreja
situa´se no próprio ser do presbítero, em virtude da sua consagração/unção
sacramental, e no seu agir, isto é, na sua missão ou ministério. Em particular,
´o sacerdote ministro é servo de Cristo presente na Igreja mistério, comunhão e
missão. Pelo facto de participar da ´unção´ e da ´missão´ de Cristo, ele pode
prolongar na Igreja a sua oração, a sua palavra, o seu sacrifício e a sua acção
salvífica. É, portanto, servidor da Igreja mistério porque actua os sinais
eclesiais e sacramentais da presença de Cristo ressuscitado. É servidor da
Igreja comunhão porque ´ unido ao Bispo e em estreita relação com o presbitério
´ constrói a unidade da comunidade eclesial na harmonia das diferentes
vocações, carismas e serviços. É finalmente servidor da Igreja missão porque
faz com que a comunidade se torne anunciadora e testemunha do Evangelho´ [29].
Assim, pela sua própria natureza e missão sacramental, o sacerdote surge, na
estrutura da Igreja como sinal da prioridade absoluta e gratuidade da graça,
que à Igreja é oferecida por Cristo ressuscitado. Através do sacerdócio
ministerial, a Igreja toma consciência, na fé, de não vir de si mesma, mas da
graça de Cristo no Espírito Santo. Os apóstolos e seus sucessores, como
detentores de uma autoridade que lhes vem de Cristo Cabeça e Pastor, são
colocados ´ juntamente com o seu ministério ´ perante a Igreja como
prolongamento visível e sinal sacramental de Cristo no seu próprio estar diante
da Igreja e do mundo, como origem permanente e sempre nova da salvação, ´Ele
que é o salvador do seu corpo´ (Ef 5, 23).
17. O ministério
ordenado, em virtude da sua própria natureza, pode ser exercido somente na
medida em que o presbítero estiver unido a Cristo mediante a inserção
sacramental na ordem presbiteral e, conseguinte, enquanto se encontrar em
comunhão hierárquica com o próprio Bispo. O ministério ordenado tem uma radical
´forma comunitária´ e pode apenas ser assumido como ´obra colectiva´ [30].
Sobre esta natureza de comunhão do sacerdócio se deteve longamente o Concílio
[31], examinando distintamente a relação do presbítero com o seu Bispo, com os
demais presbíteros e com os próprios leigos. O ministério do presbítero é,
antes de mais, comunhão e colaboração responsável e necessária no ministério do
Bispo, na solicitude pela Igreja universal e por cada Igreja particular para
cujo serviço eles constituem, juntamente com o Bispo, um único presbitério.
Cada sacerdote, seja diocesano ou religioso, está unido aos outros membros
deste presbitério, na base do sacramento da Ordem, por particulares vínculos de
caridade apostólica, de ministério e de fraternidade. De facto, todos os
presbíteros, quer diocesanos quer religiosos, participam do único sacerdócio de
Cristo Cabeça e Pastor, trabalham para a mesma causa, isto é, ´a edificação do
Corpo de Cristo, que, especialmente em nossos dias, requer múltiplas
actividades e novas adaptações´ [32], e se enriquece, no decurso dos séculos,
de carismas sempre novos.
Finalmente os
presbíteros, dado que a sua figura e o seu papel na Igreja não substitui, mas
antes promovem o sacerdócio baptismal de todo o Povo de Deus, conduzindo´o à
sua plena actuação eclesial, encontram´se numa relação positiva e promotora com
os leigos. Eles estão ao serviço da fé, esperança e caridade destes. Reconhecem
e sustentam a sua dignidade de filhos de Deus como amigos e irmãos, ajudando´os
a exercitar em plenitude o seu papel específico no âmbito da missão da Igreja
[33].
O sacerdócio ministerial
conferido pelo sacramento da Ordem e o comum ou ´real´ dos fiéis, que diferem
entre si essencialmente e não apenas em grau [34], estão coordenados entre si,
ambos derivando ´ em forma diversa ´ do único sacerdócio de Cristo. O
sacerdócio ministerial, de facto, não significa, de per si, um maior grau de
santidade relativamente ao sacerdócio comum dos fiéis; mas, através dele, é
outorgado aos presbíteros, por Cristo no Espírito, um dom particular para que
possam ajudar o Povo de Deus a exercitar com fidelidade e plenitude o
sacerdócio comum que lhes é conferido [35].
18. Como sublinha o
Concílio, ´o dom espiritual que os presbíteros receberam na ordenação não os
prepara para uma missão limitada e restrita, mas, pelo contrário, para uma
imensa e universal missão de salvação até aos últimos confins da terra, dado
que todo e qualquer ministério sacerdotal participa da mesma amplitude
universal da missão confiada por Cristo aos Apóstolos´ [36]. Pela própria
natureza do seu ministério, eles devem, portanto, ser penetrados e animados de
um profundo espírito missionário, ´daquele espírito verdadeiramente católico
que os habitua a olhar para além dos confins da própria diocese, nação ou rito,
e ajudar as necessidades de toda a Igreja, dispostos a pregar o Evangelho em
toda a parte´ [37]. Além disso, precisamente porque no âmbito da vida da Igreja
é o homem da comunhão, o presbítero deve ser, no relacionamento com todas as
pessoas, o homem da missão e do diálogo. Profundamente radicado na verdade e na
caridade de Cristo e animado do desejo e do imperativo de anunciar a todos a
sua salvação, ele é chamado a encetar um relacionamento de fraternidade, de
serviço, de procura comum da verdade, de promoção da justiça e da paz, com
todos os homens. Em primeiro lugar, com os irmãos das outras Igrejas e
confissões cristãs; mas também com os fiéis das outras religiões; com os homens
de boa vontade, de forma especial com os pobres e os mais débeis, com todos
aqueles que anseiam, mesmo sem o saber ou o exprimir, pela verdade e pela
salvação de Cristo, segundo a palavra de Jesus: ´não são os que têm saúde que
precisam de médico, mas os doentes; não vim para chamar os justos, mas sim os
pecadores´ ( Mc 2, 17).
Hoje, de uma forma
particular, a prioritária tarefa pastoral da nova evangelização, que diz
respeito a todo o Povo de Deus e postula um novo ardor, novos métodos e uma
nova expressão para o anúncio e o testemunho do Evangelho, exige sacerdotes,
radical e integralmente imersos no mistério de Cristo, e capazes de realizar um
novo estilo de vida pastoral, marcado por uma profunda comunhão com o Papa, os
Bispos e entre si próprios, e por uma fecunda colaboração com os leigos, no
respeito e na promoção dos diversos papéis, carismas e ministérios no interior
da comunidade eclesial [38]. ´Cumpriu´se hoje o passo da escritura que acabais
de ouvir´ (Lc 4, 21). Escutemos uma vez mais estas palavras de Jesus, à luz do
sacerdócio ministerial que apresentamos na sua natureza e missão. O ´hoje´ de
que fala Jesus, precisamente porque pertence ´ definindo´a à ´plenitude dos
tempos´, ou seja, ao tempo da salvação plena e definitiva, indica o tempo da
Igreja. A consagração e a missão de Cristo ´ ´O Espírito do Senhor me consagrou
com a unção e me enviou a anunciar aos pobres a Boa Nova´ (Lc 4, 18)´ são a
raiz viva de onde germina a consagração e a missão da Igreja, ´plenitude´ de
Cristo (cf. Ef 1, 23): com a regeneração baptismal se infunde sobre todos os
crentes o Espírito do Senhor, que os consagra em ordem a formarem um templo
espiritual e um sacerdócio santo e os envia a dar a conhecer os prodígios
d´Aquele que os chamou das trevas à sua luz admirável (cf. 1 Ped 2, 4´10). O
presbítero participa na missão e consagração de Cristo de modo específico e de
plena autoridade, ou seja, mediante o sacramento da Ordem, em virtude do qual é
configurado, no seu ser, a Jesus Cristo Cabeça e Pastor, e partilha a missão de
´anunciar aos pobres a Boa Nova´ em nome e na pessoa do próprio Cristo. Na sua
Mensagem final, os Padres sinodais compendiaram em breves mas ricas palavras a
´verdade´, melhor, o ´mistério´ e o ´dom´ do sacerdócio ministerial, afirmando:
´A nossa identidade tem a sua fonte mais remota na caridade do Pai. Ao Filho,
por Ele enviado, Sumo Sacerdote e Bom Pastor, estamos unidos sacramentalmente
com o sacerdócio ministerial por acção do Espírito Santo. A vida e o ministério
do sacerdote são a continuação da vida e da acção do próprio Cristo. Esta é a
nossa identidade, a nossa verdadeira dignidade, a fonte da nossa alegria, a
certeza da nossa vida´ [39].
CAPÍTULO III
O ESPÍRITO DO SENHOR ESTÁ
SOBRE MIM
A vida espiritual do
Sacerdote
Uma vocação ´específica´
à santidade
19. ´O Espírito do Senhor
está sobre mim´ (Lc 4, 18). O Espírito não está simplesmente ´sobre´ o Messias,
mas ´enche´o´, penetra´o, atinge´o no seu ser e operar. De facto, o Espírito é
o princípio da consagração e da missão do Messias: ´por isso me consagrou, e me
enviou a anunciar a Boa Nova aos pobres´ (Lc 4, 18). Em virtude do Espírito,
Jesus pertence total e exclusivamente a Deus, participa da infinita santidade
de Deus que O chama, elege e envia. Assim o Espírito do Senhor se revela fonte
de santidade e apelo à santificação. Este mesmo ´Espírito do Senhor´ está
´sobre´ a totalidade do Povo de Deus, que é constituído como povo ´consagrado´
a Deus e por Deus ´enviado´ para o anúncio do Evangelho que salva. Os membros
do Povo de Deus estão ´inebriados´ e ´assinalados´ pelo Espírito (cf. 1 Cor 12,
13; 2 Cor 1, 21´22; Ef 1, 13; 4, 3), e chamados à santidade. Em particular, o
Espírito revela´nos e nos comunica a vocação fundamental que o Pai desde a
eternidade dirige a todos: a vocação a ser ´santos e imaculados na sua presença
na caridade´, em virtude da predestinação para ´sermos seus filhos adoptivos
por obra de Jesus Cristo´ (Ef 1, 4´5). Mais. Revelando e comunicando´nos esta
vocação, o Espírito se torna em nós princípio e garantia da sua própria
realização; Ele, o Espírito do Filho (cf. Gal 4, 6), conforma´nos a Jesus
Cristo e nos torna participantes da sua vida filial, ou seja, do seu amor ao
Pai e aos irmãos. ´Se vivemos do Espírito, caminhemos segundo o Espírito´ (Gal
5, 25). Com estas palavras, o apóstolo Paulo recorda´nos que a existência
cristã é ´vida espiritual´, quer dizer, vida animada e guiada pelo Espírito em
ordem à santidade e à perfeição da caridade. A afirmação do Concílio: ´Todos os
fiéis de qualquer estado ou condição são chamados à plenitude da vida cristã e
à perfeição da caridade´ [40] encontra particular aplicação no caso dos
presbíteros: estes são chamados não só enquanto baptizados, mas também e
especificamente enquanto presbíteros, ou seja, por um título novo e de um modo
original, derivado do sacramento da Ordem.
20. Acerca da ´vida
espiritual´ dos presbíteros e do dom e responsabilidade de serem santos,
oferece´nos o Decreto Conciliar sobre o ministério e a vida sacerdotal uma
síntese rica e estimulante: ´Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são
configurados a Cristo Sacerdote como ministros da Cabeça, para a construção e
edificação do seu Corpo, que é a Igreja, na qualidade de colaboradores da Ordem
episcopal. Já desde a consagração do Baptismo, receberam , tal como todos os
fiéis, o sinal e o dom de tão insigne vocação e graça, para que, mesmo na fraqueza
da condição humana, possam e devam alcançar a perfeição, segundo quanto foi
dito pelo Senhor:´sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste´ (Mt 5,
48). Mas os sacerdotes são especialmente obrigados a buscar esta perfeição,
visto que, consagrados de modo particular a Deus pela recepção da Ordem, se
tornaram instrumentos vivos do sacerdócio eterno de Cristo, a fim de
prosseguirem no tempo a Sua obra admirável que restaurou com divina eficácia a
humanidade inteira. Dado, portanto, que cada sacerdote, no modo que lhe é
próprio, age em nome e na pessoa do próprio Cristo, ele usufrui também de uma
graça especial, em virtude da qual, enquanto se encontra ao serviço das pessoas
que lhe foram confiadas e de todo o Povo de Deus, possa alcançar de maneira mais
conveniente a perfeição d´Aquele de quem é representante, e cure a debilidade
humana da carne a santidade d´Aquele que por nós se fez pontífice ´santo,
inocente, separado dos pecadores´ (Heb 7, 26)´ [41]. O Concílio afirma, antes
de mais, a vocação ´comum´ à santidade. Esta vocação radica´se no Baptismo, que
caracteriza o presbítero como um ´fiel´ (christifidelis), como ´irmão entre
irmãos´ inserido e unido com o Povo de Deus, na alegria de partilhar os dons da
salvação (cf. Ef 4, 4´6) e no compromisso comum de caminhar ´segundo o
Espírito´, seguindo o único Mestre e Senhor. Recordemos o célebre dito de Santo
Agostinho: ´Para vós sou Bispo, convosco sou cristão. Aquele é o nome de um
cargo assumido, este de graça; aquele é um nome de perigo, este um nome de
salvação´ [42]. Com a mesma clareza, o texto conciliar fala também de uma
vocação ´específica´ à santidade, mais precisamente de uma vocação que se
fundamenta no sacramento da Ordem, na qualidade de sacramento próprio e
específico do sacerdote, portanto por força de uma nova consagração a Deus
mediante a ordenação. A esta vocação específica alude ainda o mesmo Santo
Agostinho, quando à afirmação ´para vós sou Bispo, convosco sou cristão´
acrescenta as seguintes palavras: ´Se, portanto, é para mim causa de maior
alegria o ter sido resgatado convosco do que o ter sido posto à vossa frente,
seguindo o mandato do Senhor, dedicar´me´ei com o máximo empenho a servir´vos,
para não me tornar ingrato com Quem me resgatou por aquele preço que me fez
servidor vosso e convosco´ [43]. O texto do Concílio vai mais além, pondo em
destaque alguns elementos necessários para definir o conteúdo da
´especificidade´ da vida espiritual dos presbíteros. Trata´se de elementos que
se relacionam com a ´consagração´ própria dos presbíteros, a qual os configura
a Jesus Cristo Cabeça e Pastor da Igreja; com a ´missão´ ou ministério típico
dos próprios presbíteros, que os habilita e compromete a serem ´instrumentos
vivos de Cristo eterno Sacerdote´ e a agir ´em nome e na pessoa do próprio
Cristo´; com a sua ´vida´ inteira, vocacionada para manifestar e testemunhar de
modo original a ´radicalidade evangélica´ [44].
A configuração a Jesus
Cristo Cabeça e Pastor e a caridade pastoral
21. Mediante a
consagração sacramental, o sacerdote é configurado a Jesus Cristo enquanto
Cabeça e Pastor da Igreja e recebe o dom de um ´poder espiritual´ que é
participação da autoridade com a qual Jesus Cristo pelo Seu Espírito conduz a
Igreja [45]. Graças a esta consagração, operada pelo Espírito na efusão
sacramental da Ordem, a vida espiritual do sacerdote fica assinalada, plasmada,
conotada por aquelas atitudes e comportamentos que são próprios de Jesus Cristo
Cabeça e Pastor e se compendiam na sua caridade pastoral. Jesus Cristo é Cabeça
da Igreja, seu Corpo. É ´Cabeça´ no sentido novo e original de ser ´servo´,
segundo as suas próprias palavras: ´O Filho do Homem não veio para ser servido,
mas para servir e dar a própria vida em resgate por todos´ (Mc 10, 45). O
serviço de Jesus atinge a plenitude com a morte na cruz, ou seja, com o dum
total de si mesmo, na humildade e no amor: ´Despojou´se a si próprio, assumindo
a condição de servo e tornando´se igual aos homens; aparecendo em forma humana,
humilhou´se a si mesmo fazendo´se obediente até à morte e morte de cruz´ (Fil
2, 7´8). A autoridade de Jesus Cristo Cabeça coincide, portanto, com o seu
serviço, o seu dom, a sua entrega total, humilde e amorosa pela Igreja. E tudo
isto em perfeita obediência ao Pai: Ele é o único verdadeiro servo sofredor,
conjuntamente Sacerdote e Vítima. É a partir deste preciso tipo de autoridade,
quer dizer, do serviço à Igreja, que a existência espiritual de todos e cada um
dos sacerdotes é animada e vivificada, exactamente como exigência da sua
configuração a Jesus Cristo Cabeça e Servo da Igreja [46]. Assim Santo
Agostinho alertava um bispo no dia da sua ordenação: ´Quem é posto à frente do
povo deve ser o primeiro a dar´se conta de que é servo de todos. E não desdenhe
de o ser, repito, não desdenhe de ser servo de todos, pois não desdenhou de se
tornar nosso servo Aquele que é Senhor dos senhores´ [47]. A vida espiritual
dos ministros do Novo Testamento deve levar, portanto, a marca desta atitude
essencial de serviço ao Povo de Deus (cf. Mt 20, 24´28; Mc 10, 43´44), destituído
de qualquer presunção ou desejo de ´assenhoriar´se´ do rebanho a ele confiado
(cf. 1 Ped 5, 2´3). Um serviço feito de ânimo alegre, de boa vontade e segundo
Deus: deste modo os ministros, os ´anciãos´ da comunidade, isto é, os
presbíteros, poderão ser «modelo» do rebanho que, por sua vez, é chamado a
assumir, frente ao mundo inteiro, essa atitude sacerdotal de serviço à
plenitude da vida do homem e à sua libertação integral.
22. A imagem de Jesus
Cristo Pastor da Igreja, seu rebanho, retoma e repropõe, com novos e mais
sugestivos matizes, os mesmos conteúdos da de Jesus Cristo Cabeça e servo.
Tornando realidade o anúncio profético do Messias Salvador, cantado
jubilosamente pelo Salmista e pelo profeta Ezequiel (cf. Sal 22; Ez 34, 11´31),
Jesus auto´apresenta´se como ´o Bom Pastor´ (Jo 10, 11.14) não só de Israel mas
de todos os homens (Jo 10, 16). E a sua vida é uma ininterrupta manifestação,
melhor, uma quotidiana realização da sua ´caridade pastoral´: sente compaixão
pelas multidões porque estão cansadas e esgotadas como ovelhas sem pastor (cf.
Mt 9, 35´36); procura as dispersas e tresmalhadas (cf. Mt 18, 12´14) e festeja
o tê´las reencontrado, recolhe´as e defende´as, conhece´as e as chama uma a uma
pelo seu nome (cf. Jo 10, 3), condu´las aos pastos verdejantes e às águas
refrescantes (cf. Sal 22), para elas põe a mesa, alimentando´as com a Sua
própria vida. Esta vida a oferece o Bom Pastor com a sua morte e ressurreição,
como canta a liturgia romana da Igreja: ´Ressuscitou o bom Pastor que deu a
vida pelas suas ovelhas, e pelo Seu rebanho se entregou à morte. Aleluia´ [48].
Pedro chama a Jesus o ´Príncipe dos Pastores´ (1 Ped 5, 4), porque a sua obra e
missão continuam na Igreja através dos Apóstolos (cf. Jo 21, 15´17) e seus
sucessores (cf. 1 Ped 5, 1´4), e através dos presbíteros. Em virtude da sua
consagração, estes são configurados a Jesus Bom Pastor e são chamados a imitar
e a reviver a sua própria caridade pastoral. A entrega de Cristo à sua Igreja,
fruto do seu amor, está conotada com aquela dedicação original que é própria do
esposo no seu relacionamento com a esposa, como por mais de uma vez sugerem os
textos sagrados. Jesus é o verdadeiro Esposo que oferece o vinho da salvação à
Igreja (cf. Jo 2, 1´11). Ele, que é ´cabeça da Igreja (...) e salvador do seu
corpo´ (Ef 5, 23), ´amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de a
tornar santa, purificando´a por meio do banho da água acompanhado da palavra,
de modo a fazer aparecer diante de si a Igreja resplandecente, sem mancha nem
ruga ou qualquer coisa de semelhante, mas santa e imaculada´ (Ef 5, 25´27). A
Igreja é efectivamente o Corpo, no qual está presente e operante Jesus Cristo
Cabeça, mas é também a Esposa, que surge como nova Eva do lado aberto do
Redentor sobre a cruz: por isto mesmo, Cristo está ´diante´ da Igreja,
´alimenta´a e cuida dela´ (Ef 5, 29) com o dom da sua vida. O sacerdote é
chamado a ser imagem viva de Jesus Cristo, Esposo da Igreja [49]: certamente
ele permanece sempre parte da comunidade como crente, juntamente com todos os
outros irmãos e irmãs convocados pelo Espírito, mas por força da sua
incorporação a Cristo Cabeça e Pastor, encontra´se na referida posição de
esposo perante a comunidade. ´Enquanto representa a Cristo Cabeça, Pastor e
Esposo da Igreja, o sacerdote coloca´se não só na Igreja mas perante a Igreja´
[50]. Portanto ele é chamado, na sua vida espiritual, a reviver o amor de
Cristo Esposo na sua relação com a Igreja Esposa. A sua vida deve iluminar´se e
orientar´se também por este tratamento nupcial que lhe exige ser testemunha do
amor nupcial de Cristo, ser, por conseguinte, capaz de amar a gente com um
coração novo, grande e puro,com um autêntico esquecimento de si mesmo, com
dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de ´ciúme´ divino
(cf. 2 Cor 11, 2), com uma ternura que reveste inclusivamente os matizes do
afecto materno, capaz de assumir as ´dores de parto´ até que ´Cristo seja
formado´ nos fiéis (cf. Gal 4, 19).
23. O princípio interior,
a virtude que orienta e anima a vida espiritual do presbítero, enquanto
configurado a Cristo Cabeça e Pastor, é a caridade pastoral, participação da
própria caridade pastoral de Cristo Jesus: dom gratuito do Espírito Santo, e ao
mesmo tempo tarefa e apelo a uma resposta livre e responsável do sacerdote.
O conteúdo essencial da
caridade pastoral é o dom de si, o total dom de si mesmo à Igreja, à imagem e
com o sentido de partilha do dom de Cristo. ´A caridade pastoral é aquela
virtude pela qual nós imitamos Cristo na entrega de si mesmo e no seu serviço.
Não é apenas aquilo que fazemos, mas o dom de nós mesmos que manifesta o amor
de Cristo pelo seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de
pensar e de agir, o modo de nos relacionarmos com as pessoas. E não deixa de
ser particularmente exigente para nós´ [51].
O dom de si mesmo, raiz e
síntese da caridade pastoral, tem como destinatária a Igreja. Assim foi com
Cristo que ´amou a sua Igreja e se entregou por ela´ (Ef 5, 25); assim deve ser
com o presbítero. Pela caridade pastoral, que assinala o exercício do
ministério sacerdotal como ´amoris officium´ [52], ´o sacerdote que acolhe a
vocação ao ministério, está em condições de fazer disto uma escolha de amor,
pela qual a Igreja e as almas se tornam o seu principal interesse e, com tal
espiritualidade concreta, se torna capaz de amar a Igreja universal e a porção
dela que lhe é confiada, com todo o entusiasmo de um esposo na sua relação com
a esposa´ [53]. O dom de si mesmo não tem fronteiras, porque é marcado pelo
mesmo dinamismo apostólico e missionário de Cristo Bom Pastor, que disse:´Tenho
ainda outras ovelhas que não são deste redil; também as devo conduzir;
escutarão a minha voz e então haverá um só rebanho e um só pastor´ (Jo 10, 16).
No interior da comunidade
eclesial, a caridade pastoral do sacerdote preconiza e exige de um modo
particular e específico o seu relacionamento pessoal com o presbitério, unido
no e com o Bispo, como explicitamente escreve o Concílio: ´a caridade pastoral
exige que os presbíteros, para que não corram em vão, trabalhem sempre em união
com os Bispos e com os outros irmãos no sacerdócio´ [54].
O dom de si à Igreja tem
a ver com ela, enquanto Corpo e Esposa de Jesus Cristo. Por isso a caridade do
padre se refere primariamente a Jesus Cristo: só se amar e servir a Cristo
Cabeça e Esposo, a caridade se torna fonte, critério, medida, impulso de amor e
de serviço do sacerdote para com a Igreja corpo e esposa de Cristo. É esta a
consciência clara e viva do apóstolo Paulo, que, aos cristãos da Igreja de
Corinto, escreve: ´quanto a nós, somos vossos servos por amor de Jesus´ (2 Cor
4, 5). É esta sobretudo a doutrina explícita e programática de Jesus quqndo
confia a Pedro o ministério de apascentar o rebanho, só depois da sua tríplice
afirmação de amor, melhor dito, de um amor de predilecção: ´Perguntou´lhe pela
terceira vez: ´Simão, filho de João, tu amas´me?´. E Pedro respondeu: ´Senhor,
tu sabes tudo; tu sabes que te amo´. Replicou´lhe Jesus:´Apascenta as minhas
ovelhas´´(Jo 21, 17).
A caridade pastoral, que
tem a sua fonte específica no sacramento da Ordem, encontra a sua plena
expressão e supremo alimento na Eucaristia: ´Esta caridade pastoral ´ diz´nos o
Concílio ´ brota sobretudo do sacrifício eucarístico, o qual constitui,
portanto, o centro e a raiz de toda a vida do presbítero, de modo que a alma
sacerdotal se esforçará por espelhar em si mesma o que é realizado sobre o
altar do sacrifício´ [55]. É na Eucaristia, de facto, que é re´presentado, ou
seja, de novo tornado presente o sacrifício da cruz, o dom total de Cristo à
sua Igreja, o dom do seu Corpo entregue e do seu Sangue derramado, qual
testemunho supremo do seu ser Cabeça e Pastor, Servo e Esposo da Igreja.
Precisamente por isto, a caridade pastoral do sacerdote não apenas brota da
Eucaristia, mas encontra na celebração desta a sua mais alta realização, da
mesma forma que da Eucaristia recebe a graça e a responsabilidade de conotar em
sentido ´sacrificial´ a sua inteira existência.
Esta mesma caridade
pastoral constitui o princípio interior e dinâmico capaz de unificar as
múltiplas e diferentes actividades do sacerdote. Graças a ela, pode encontrar
resposta a exigência permanente e essencial de unidade entre a vida interior e
tantas actividades e responsabilidades do ministério, exigência sempre mais
urgente num contexto sócio´cultural e eclesial fortemente assinalado pela
complexidade, desagregação e dispersão. Somente a concentração de cada instante
e de cada gesto à volta da opção fundamental e qualificante de ´dar a vida pelo
rebanho´ pode garantir esta unidade vital, indispensável para a harmonia e para
o equilíbrio espiritual do sacerdote: ´A unidade de vida ´ recorda o Concílio ´
pode ser conseguida pelos presbíteros seguindo, no desempenho do próprio
ministério, o exemplo de Cristo Senhor, cujo alimento era o cumprimento da
vontade d´Aquele que o tinha enviado a realizar a sua obra (...) Assim,
representando o Bom Pastor, no mesmo exercício pastoral da caridade,
encontrarão o vínculo da perfeição sacerdotal que tornará efectiva a unidade
entre a sua vida e actividade´ [56].
A vida espiritual no
exercício do ministério
24. O Espírito do Senhor
consagrou Cristo e enviou´o a anunciar o Evangelho (cf. Lc 4, 18). A missão não
representa um elemento exterior e justaposto à consagração, mas constitui a sua
meta intrínseca e vital: a consagração é para a missão. Assim, não só a
consagração mas também a missão está sob o signo do Espírito, sob o seu influxo
santificador.
Assim aconteceu com
Jesus. Assim foi o caso dos apóstolos e dos seus sucessores. Assim é com a
Igreja inteira e, dentro dela, com os presbíteros: todos recebem o Espírito
como dom e apelo de santificação, no âmbito e através do cumprimento da missão
[57].
Existe, portanto, uma
íntima conexão entre a vida espiritual do presbítero e o exercício do seu
ministério [58], que o Concílio exprime da maneira seguinte: ´Exercitando o
ministério do Espírito e da justiça (cf. 2 Cor 3, 8´9), os presbíteros são
consolidados na vida do Espírito, na condição, porém, que sejam dóceis aos
ensinamentos do Espírito de Cristo que os vivifica e guia. De facto, os
presbíteros são orientados para a perfeição da vida por força das próprias
acções que desenvolvem quotidianamente, como também de todo o seu ministério
que exercitam em estreita união com o Bispo e entre si. Mas a própria santidade
dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho eficaz do
seu ministério´ [59].
´Vive o mistério que é
colocado em tuas mãos´! É este o convite e também a interpelação que a Igreja
dirige ao presbítero no rito da ordenação, no momento em que lhe são entregues
as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico. O ´mistério´ de que o
presbítero é ´dispensador´ (cf. 1 Cor 4, 1) é, no fundo, o próprio Jesus Cristo
que, no Espírito, é fonte de santidade e apelo à santificação. O ´mistério´
exige ser inserido na vida real do presbítero. Por isso mesmo, exige grande
vigilância e consciencialização viva. É ainda o rito da ordenação a fazer
preceder as palavras recordadas da recomendação: ´Toma consciência daquilo que farás´.
Já Paulo alertava o bispo Timóteo: ´Não transcures o dom espiritual que está em
ti´ (1 Tim 4, 14; cf. 2 Tim 1, 6).
A relação entre a vida
espiritual e o exercício do ministério sacerdotal pode encontrar uma explicação
adequada, também a partir da caridade pastoral concedida pelo sacramento da
Ordem. O ministério do sacerdote, precisamente porque é uma participação no
ministério salvífico de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, não pode deixar de
reexprimir e reviver aquela sua caridade pastoral que é, ao mesmo tempo, a
fonte e o espírito do seu serviço e do dom de si próprio. Na sua realidade
objectiva, o ministério sacerdotal é ´amoris officium´, segundo a citada
expressão de Santo Agostinho: precisamente esta realidade objectiva se coloca
como fundamento e apelo para um ´ethos´ correspondente, que não pode ser senão
aquele de viver o amor, como salienta o mesmo Santo: ´Sit amoris officium
pascere dominicum gregem´ [60]. Tal ethos, e portanto a vida espiritual, outra
coisa não é senão o acolhimento na consciência e na liberdade, e
consequentemente na mente, no coração, nas decisões e nas acções, da ´verdade´
do ministério sacerdotal como amoris officium.
25. É essencial para
avida espiritual, que se desenvolve através do exercício do ministério, que o
sacerdote renove continuamente e aprofunde sempre mais a consciência de ser
ministro de Jesus Cristo em virtude da consagração sacramental e da
configuração ao mesmo Cristo Cabeça e Pastor da Igreja.
Essa consciência não só
corresponde à verdadeira natureza da missão que o sacerdote exerce em favor da
Igreja e da humanidade, mas decide também a vida espiritual do presbítero que
leva a cabo aquela missão. Efectivamente o Sacerdote não é escolhido por Cristo
como uma ´coisa´, mas como uma ´pessoa´: ele não é um instrumento inerte e
passivo, mas um ´instrumento vivo´, como diz o Concílio, precisamente no ponto
onde fala da obrigação de tender para esta perfeição [61]. É ainda o Concílio a
designar os sacerdotes como ´companheiros e colaboradores´ de Deus «santo e santificador»
[62].
Neste sentido, no
exercício do ministério está profundamente comprometida a pessoa consciente,
livre e responsável do sacerdote. O ligame a Jesus Cristo, que a configuração e
a consagração do sacramento da Ordem asseguram, fundamenta e exige no sacerdote
uma ulterior conexão que lhe é proporcionada pela ´intenção´, ou seja, pela
vontade consciente e livre de fazer, mediante o gesto ministerial, aquilo que é
intenção da Igreja. Uma tal ligação tende, pela sua própria natureza, a
tornar´se o mais ampla e profunda possível, implicando a mente, os sentimentos,
a vida, ou seja, uma série de disposições morais e espirituais correspondentes
aos gestos ministeriais do padre.
Não há dúvida que o
exercício do ministério sacerdotal, especialmente a celebração dos sacramentos,
recebe a sua eficácia de salvação da própria acção de Cristo Jesus, tornada
presente nos sacramentos. Mas por um desígnio divino, que pretende exaltar a
absoluta gratuidade da salvação, fazendo do homem ao mesmo tempo um ´salvado´ e
um ´salvador´ ´ sempre e só com Jesus Cristo, a eficácia do exercício do
ministério é condicionada também pela maior ou menor receptividade e
participação humana [63]. Particularmente, a maior ou menor santidade do
ministro influi sobre o anúncio da Palavra, a celebração dos Sacramentos, e a
condução da comunidade na Caridade. Afirma´o claramente o Concílio: ´A mesma
santidade dos presbíteros (...) contribui muitíssimo para o desempenho eficaz
do seu ministério: com efeito, se é verdade que a graça de Deus pode realizar a
obra de salvação mesmo por meio de ministros indignos, apesar de tudo, Deus
prefere ordinariamente manifestar as suas grandezas por meio daqueles que,
mostrando´se mais dóceis aos impulsos e direcção do Espírito Santo, possam
dizer com o Apóstolo, graças à sua íntima união com Cristo e à santidade de
vida: ´Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim´ (Gal 2, 20)´ [64].
A consciência de ser
ministro de Jesus Cristo Cabeça e Pastor implica também a certeza grata e
alegre de uma singular graça recebida da parte d´Ele: a de ter sido escolhido
gratuitamente pelo Senhor como instrumento vivo da obra de salvação. Esta
escolha testemunha o amor de Jesus Cristo pelo sacerdote. Precisamente este
amor, como e mais do que qualquer outro amor, exige correspondência. Depois da
ressurreição, Jesus coloca a Pedro a questão fundamental sobre o amor: ´Simão,
filho de João, amas´me tu mais do que estes?´ E à resposta de Pedro, segue a
entrega da missão: ´Apascenta os meus cordeiros´ (Jo 21, 15). Jesus pergunta a
Pedro se o ama, antes e com o fim de lhe poder entregar o rebanho. Mas, na
realidade, é o amor livre e prévio de Jesus a originar a solicitação ao
apóstolo e a subsequente entrega das ´suas´ ovelhas. Desta forma, o gesto
ministerial, enquanto leva a amar e a servir a Igreja , impele a amadurecer
cada vez mais no amor e no serviço a Jesus Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da
Igreja, um amor que se configura sempre como resposta ao amor prévio, livre e
gratuito de Deus em Cristo. Por sua vez, o crescimento do amor a Jesus Cristo
determina o crescimento do amor pela Igreja: ´Somos vossos pastores (pascimus
vobis), e convosco somos alimentados (pascimur vobiscum). O Senhor nos dê a
força de amar´vos a tal ponto que possamos morrer por vós, de facto ou com o
coração (aut effectu aut affectu)´ [65].
26. Graças aos preciosos
ensinamentos do Concílio Vaticano II [66], podemos individuar as condições e as
exigências, as modalidades e os frutos do íntimo relacionamento que existe
entre a vida espiritual do sacerdote e o exercício do seu tríplice ministério:
da Palavra, dos Sacramentos e do serviço da Caridade.
Antes de mais, o
Sacerdote é ministro da Palavra de Deus, é consagrado e enviado a anunciar a
todos o Evangelho do Reino, chamando cada homem à obediência da fé e conduzindo
os crentes a um conhecimento e comunhão sempre mais profundos do mistério de
Deus, revelado e comunicado a nós em Cristo. Por isso, o próprio sacerdote deve
ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de
Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida
necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o coração dócil e orante, a
fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele
uma nova mentalidade ´ ´o pensamento de Cristo´ (1 Cor 2, 16) ´ de modo que as
suas palavras, as suas opções e atitudes sejam cada vez mais uma transparência,
um anúncio e um testemunho do Evangelho. Só ´permanecendo´ na Palavra, o
presbítero se tornará perfeito discípulo do Senhor, conhecerá a verdade e será
realmente livre, superando todo e qualquer condicionalismo adverso ou estranho
ao Evangelho (cf. Jo 8, 31´32). O sacerdote deve ser o primeiro ´crente´ na
Palavra, com plena consciência de que as palavras do seu ministério não são
suas, mas d´Aquele que o enviou. Desta Palavra, ele não é dono: é servo. Desta
Palavra, ele não é o único possuidor: é devedor relativamente ao Povo de Deus.
Precisamente porque evangeliza e para que possa evangelizar, o sacerdote, como
a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser
evangelizado [67]. Ele anuncia a Palavra na sua qualidade de ´ministro´,
participante da autoridade profética de Cristo e da Igreja. Por isso, para ter
em si mesmo e dar aos fiéis a garantia de transmitir o Evangelho na sua
integridade, presbítero é chamado a cultivar uma sensibilidade, um amor e uma
disponibilidade particular relativamente à Tradição viva da Igreja e do seu
Magistério: estes não são estranhos à Palavra, servem antes a sua recta
interpretação e conservam´lhe o autêntico sentido [68].
É sobretudo na celebração
dos Sacramentos e na Liturgia das Horas que o sacerdote é chamado a viver e a
testemunhar a unidade profunda entre o exercício do ministério e a sua vida
espiritual: o dom da graça oferecido à Igreja torna´se princípio de santidade e
apelo de santificação. Também para o sacerdote, o lugar verdadeiramente
central, quer no ministério quer na vida espiritual, é ocupado pela Eucaristia,
pois nela se ´encerra todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio
Cristo, nossa Páscoa e Pão vivo que dá aos homens a vida, mediante a sua carne
vivificada pelo Espírito Santo; assim são eles convidados e levados a oferecer,
juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas´
[69].
A vida espiritual do
presbítero recebe conotações particulares dos diversos sacramentos, e em
particular da graça específica e própria de cada um deles. Aquela, de facto, é
estruturada e plasmada pelas múltiplas características e exigências dos
diversos sacramentos celebrados e vividos.
Gostaria de reservar uma
palavra especial para o sacramento da Penitência, do qual os sacerdotes são
ministros, mas devem ser também beneficiários, tornando´se testemunhas da
misericórdia de Deus pelos pecadores. Retomo quanto escrevi na Exortação
Reconciliatio et Paenitentia: ´A vida espiritual e pastoral do sacerdote, como
a dos seus irmãos leigos e religiosos, depende, na sua qualidade e no seu
fervor, da prática pessoal assídua e conscienciosa do sacramento da Penitência.
A celebração da Eucaristia e o ministério dos outros sacramentos, o zelo
pastoral, o relacionamento com os fiéis, a comunhão com os irmãos no
sacerdócio, a colaboração com o Bispo, a vida de oração, numa palavra, toda a
existência sacerdotal sofre uma inexorável decadência, caso lhe venha a faltar,
por negligência ou por qualquer outro motivo, o recurso periódico e inspirado
por uma verdadeira fé e devoção ao sacramento da Penitência. Num sacerdote que
deixasse de se confessar ou se confessasse mal, o seu ser padre e o exercício
do seu sacerdócio bem cedo ressentir´se´iam, e disso se daria conta a própria
comunidade da qual ele é pastor´ [70].
Enfim, o sacerdote é
chamado a reviver a autoridade e o serviço de Jesus Cristo Cabeça e Pastor da
Igreja, animando e guiando a comunidade eclesial, ou seja, ´reunindo a família
de Deus como fraternidade animada na unidade´, conduzindo´a ao Pai ´por meio de
Cristo no Espírito Santo´ [71]. Este ´munus regendi´ é tarefa muito delicada e
complexa, que inclui, para além da atenção às pessoas singulares e às
diferentes vocações, a capacidade de coordenar todos os dons e carismas que o
Espírito suscita na comunidade, verificando´os e valorizando´os para a
edificação da Igreja, sempre em união com os Bispos. Trata´se de um ministério
que requer do sacerdote uma vida espiritual intensa, rica daquelas qualidades e
virtudes típicas da pessoa que ´preside´ e ´guia´ uma comunidade, do ´ancião´
no sentido mais nobre e rico do termo: a fidelidade, a coerência, a sapiência,
o acolhimento de todos, a afável bondade, a autorizada firmeza quanto às coisas
essenciais, a libertação de pontos de vista demasiado subjectivos, o
desprendimento pessoal, a paciência, o gosto pela tarefa diária, a confiança no
trabalho escondido da graça que se manifesta nos simples e nos pobres (cf. Tit
1, 7´8).
A existência sacerdotal e
a radicalidade evangélica
27. ´O Espírito do Senhor
está sobre mim´ (Lc 4, 18).O Espírito Santo, infundido pelo sacramento da
Ordem, é fonte de santidade e apelo à santificação, não só porque configura o
sacerdote a Cristo Cabeça e Pastor da Igreja e lhe confia a missão profética,
sacerdotal e régia a desempenhar em nome e na pessoa de Cristo, mas também
porque anima e vivifica a sua existência quotidiana, enriquecendo´a com dons e
exigências,com virtudes e impulsos, que se compendiam na caridade pastoral.
Esta é a síntese unificante dos valores e virtudes evangélicas e
simultaneamente a força que sustenta o seu desenvolvimento até à perfeição
cristã [72].
Para todos os cristãos,
sem exclusão de ninguém, a radicalidade evangélica é uma exigência fundamental
e irrecusável, que brota do apelo de Cristo a segui´Lo e imitá´Lo, em virtude
da íntima comunhão de vida com Ele operada pelo Espírito (cf. Mt 8, 18´27; 10,
37´42; Mc 8, 34´38; 10, 17´21; Lc 9, 57´62). Essa mesma exigência, com maior
razão, se põe aos sacerdotes, não só porque estão na Igreja, mas também porque
se encontram à frente da Igreja, enquanto configurados a Cristo Cabeça e
Pastor, habilitados e comprometidos com o ministério ordenado, e vivificados
pela caridade pastoral. Ora, no âmbito e como manifestação da radicalidade
evangélica, encontra´se um rico florescimento de múltiplas virtudes e
exigências éticas que se tornam decisivas para a vida pastoral e espiritual do
sacerdote, como, por exemplo, a fé, a humildade perante o mistério de Deus, a
misericórdia e a prudência. Expressão privilegiada da radicalidade são os
diversos ´conselhos evangélicos´, que Jesus propõe no Sermão da Montanha (cf. Mt
5´7), e, entre estes, os conselhos, intimamente coordenados entre si, da
obediência, pobreza e castidade [73]: o sacerdote é chamado a vivê´los segundo
as modalidades, e mais profundamente segundo as finalidades e significado
original, que derivam e exprimem a identidade própria do presbítero.
28. ´Entre as virtudes
que se afiguram mais necessárias no ministério dos presbíteros, convém recordar
aquela disposição de ânimo pela qual estão sempre prontos a procurar não a
própria vontade, mas a d´Aquele que os enviou (cf. Jo 4, 34; 5, 30; 6, 38)´
[74]. Trata´se da obediência que, no caso da vida espiritual do sacerdote,
reveste algumas características particulares.
É, antes de mais, uma
obediência ´apostólica´, no sentido que reconhece, ama e serve a Igreja na sua
estrutura hierárquica. Não existe, efectivamente ministério sacerdotal senão na
comunhão com o Sumo Pontífice e com o Colégio Episcopal, e de uma forma
particular com o próprio Bispo diocesano, aos quais se deve guardar ´o filial
respeito e a obediência´ prometidos no rito da ordenação. Esta ´submissão´ a
quantos estão investidos da autoridade eclesial não tem nada de humilhante,
antes deriva da liberdade responsável do presbítero, que acolhe não só as
exigências de uma vida eclesial orgânica e organizada, mas também aquela graça
de discernimento e de responsabilidade nas decisões eclesiais, que Jesus
garantiu aos apóstolos e seus sucessores, a fim de ser conservado com
fidelidade o mistério da Igreja e para que a coesão da comunidade cristã seja
servida no seu unitário caminho para a salvação.
A obediência cristã
autêntica, rectamente motivada e vivida sem servilismos, ajuda o presbítero a
exercitar com evangélica transparência a autoridade que lhe é confiada perante
o Povo de Deus: sem autoritarismos ou preferências demagógicas. Só quem sabe
obedecer em Cristo, sabe como requerer, segundo o Evangelho, a obediência de
outrem.
A obediência presbiteral
reveste, além disso, uma exigência ´comunitária´: não se trata da obediência de
um indivíduo singular que como tal se relaciona com a autoridade, mas pelo
contrário, de uma obediência profundamente inserida na unidade do presbitério
que, como tal, é chamado a viver a colaboração harmoniosa com o Bispo e, por
meio dele, com o Sucessor de Pedro [75].
Este aspecto da
obediência do sacerdote requer uma notável ascese, seja no sentido de um hábito
a não se prender demasiado às próprias preferências ou a pontos de vista
particulares, seja na linha de deixar espaço aos irmãos no sacerdócio para que
possam valorizar os seus talentos e capacidades, fora de qualquer ciúme, inveja
ou rivalidade. A do sacerdote é uma obediência vivida em comum, que parte da
pertença a um único presbitério e que, sempre no interior dele e com ele,
exprime orientações e opções corresponsáveis.
Finalmente, a obediência
sacerdotal possui um particular carácter de ´pastoralidade´. A saber, vive´se
num clima de constante disponibilidade para se deixar agarrar, como que
´devorar´, pelas necessidades e exigências do rebanho. Estas últimas devem
revestir uma justa racionalidade, e por vezes terão de ser seleccionadas e
sujeitas a controle, mas é inegável que a vida do presbítero é ´ocupada´ de
modo pleno pela fome de Evangelho, de fé, de esperança e de amor de Deus, e do
seu mistério, a qual mais ou menos conscientemente está presente no Povo de
Deus a ele confiado.
29. Entre os conselhos
evangélicos ´ diz o Concílio ´ ´brilha este precioso dom da graça divina, dado
pelo Pai a alguns (cf. Mt 19, 11; 1 Cor 7, 7), de se dedicarem unicamente a Deus,
mais facilmente e com um coração indiviso (cf. 1 Cor 7, 32´34), na virgindade e
no celibato. Esta continência perfeita pelo Reino dos céus foi sempre tida em
grande estima pela Igreja, como sinal e incentivo da caridade e como fonte
privilegiada de fecundidade espiritual no mundo´ [76]. Na virgindade e no
celibato, a castidade mantém o seu significado originário, o de uma sexualidade
humana vivida como autêntica manifestação e precioso serviço ao amor de
comunhão e de entrega interpessoal. Este mesmo significado subsiste plenamente
na virgindade, que realiza, mesmo na renúncia ao matrimónio, o ´significado
nupcial´ do corpo mediante uma comunhão e uma entrega pessoal a Jesus Cristo e
à Igreja, que prefiguram e antecipam a comunhão e entrega perfeita e definitiva
do além: ´Na virgindade o homem está inclusive corporalmente em atitude de
espera das núpcias escatológicas de Cristo com a Igreja, dando´se integralmente
à Igreja na esperança de que Cristo a ela se entregue na plena verdade da vida
eterna´ [77].
A esta luz se podem
compreender facilmente e apreciar melhor os motivos da opção multissecular que
a Igreja do Ocidente tomou e manteve, não obstante todas as dificuldades e
objecções surgidas ao longo dos séculos, de conferir a Ordem presbiteral apenas
a homens que dêem provas de serem chamados por Deus ao dom da castidade no
celibato absoluto e perpétuo.
Os Padres sinodais
exprimiram com força e clareza o seu pensamento através de uma importante
declaração, que merece ser integral e literalmente referida: ´Sem pôr em causa
a disciplina das Igrejas Orientais, o Sínodo, convicto de que a castidade
perfeita no celibato sacerdotal é um carisma, recorda aos presbíteros que ela
constitui um inestimável dom de Deus à Igreja e representa um valor profético
para o mundo actual. Este Sínodo, nova e veementemente, afirma tudo quanto a
Igreja latina e alguns ritos orientais preconizam, a saber, que o sacerdócio
seja conferido somente àqueles homens que receberam de Deus o dom da vocação à
castidade celibatária (sem prejuízo da tradição de algumas Igrejas Orientais e
dos casos particulares de clérigos já casados provenientes de conversões ao
catolicismo, ao qual se aplica a excepção prevista na Encíclica de Paulo VI
sobre o celibato sacerdotal, nº 42). O Sínodo não quer deixar dúvidas na mente
de ninguém sobre a firme vontade da Igreja de manter a lei que exige o celibato
livremente escolhido e perpétuo para os candidatos à ordenação sacerdotal no
rito latino. O Sínodo solicita que o celibato seja apresentado e explicado na
sua plena riqueza bíblica, teológica e espiritual, como dom precioso de Deus à
sua Igreja e como sinal do Reino que não é deste mundo, sinal também do amor de
Deus por este mundo e ainda do amor indiviso do sacerdote a Deus e ao Seu povo,
de modo que o celibato seja visto como enriquecimento positivo do sacerdócio´
[78].
É particularmente
importante que o sacerdote compreenda a motivação teológica da lei eclesiástica
do celibato. Enquanto lei, exprime a vontade da Igreja, antes mesmo que seja
expressa a vontade do sujeito através da sua disponibilidade. Mas a vontade da
Igreja encontra a sua motivação última na conexão que o celibato tem com a
Ordenação sagrada, a qual configura o sacerdote a Cristo Jesus, Cabeça e Esposo
da Igreja. Esta como Esposa de Cristo quer ser amada pelo sacerdote do modo
total e exclusivo com que Jesus Cristo Cabeça e Esposo a amou. O celibato
sacerdotal, é então, o dom de si em e com Cristo à sua Igreja e exprime o
serviço do presbítero à Igreja no e com o Senhor.
Para uma adequada vida
espiritual do sacerdote, é preciso que o celibato seja considerado e vivido não
como um elemento isolado ou puramente negativo, mas como um aspecto de
orientação positiva, específica e característica do sacerdote: este, deixando
pai e mãe, segue Jesus Bom Pastor, numa comunhão apostólica ao serviço do Povo
de Deus. O celibato é, portanto, para ser acolhido por uma livre e amorosa
decisão a renovar continuamente, como dom inestimável de Deus, como ´estímulo
da caridade pastoral´ [79], como singular participação na paternidade de Deus e
na fecundidade da Igreja, e como testemunho do Reino escatológico perante o
mundo. Para viver todas as exigências morais, pastorais e espirituais do
celibato sacerdotal, é absolutamente necessária a oração humilde e confiante,
como adverte o Concílio: ´No mundo de hoje, quanto mais a continência perfeita
é considerada impossível por tantas pessoas, com tanta maior humildade e
perseverança devem os presbíteros implorar, juntamente com a Igreja, a graça da
fidelidade que nunca é negada a quem a requer, recorrendo ao mesmo tempo aos
meios sobrenaturais e naturais de que todos dispõem´ [80]. Será ainda a oração,
unida aos sacramentos da Igreja e ao empenhamento ascético, a infundir
esperança nas dificuldades, confiança e coragem no retomar o caminho.
30. Da pobreza evangélica
deram os Padres sinodais uma descrição concisa e profunda, apresentando´a como
´submissão de todos os bens ao Bem supremo de Deus e do Seu Reino´ [81]. Na
realidade, só quem contempla e vive o mistério de Deus como único e sumo Bem,
como verdadeira e definitiva Riqueza, pode compreender e realizar a pobreza,
que não é certamente desprezo e recusa dos bens materiais, mas é uso grato e
cordial destes bens e conjuntamente uma alegre renúncia a eles com grande
liberdade interior, ou seja, em ordem a Deus e aos seus desígnios.
A pobreza do presbítero,
por força da sua configuração sacramental a Cristo Cabeça e Pastor, assume
precisas conotações pastorais, sobre as quais, retomando e desenvolvendo a
doutrina conciliar [82], se detiveram os Padres sinodais. Entre outras coisas,
escrevem: ´Os sacerdotes, a exemplo de Cristo que, rico como era, se fez pobre
por nosso amor (cf. 2 Cor 8, 9), devem considerar os pobres e os mais fracos
como a eles confiados de uma maneira especial, e devem ser capazes de
testemunhar a pobreza com uma vida simples e austera, sendo já habituados a
renunciar generosamente às coisas supérfluas (Optatam totius, 9; C.I.C, cán.
282)´ [83].
É verdade que o ´operário
é digno do seu salário´ (Lc 10, 7) e que ´o Senhor determinou que aqueles que
anunciam o Evangelho vivam do Evangelho´ (1 Cor 9, 14), mas é também verdade
que este direito do apostolado não pode de forma alguma confundir´se com
qualquer pretensão de submeter o serviço do Evangelho e da Igreja às vantagens
e interesses que daí possam derivar. Só a pobreza assegura ao presbítero a
disponibilidade para ser enviado onde o seu trabalho se torna mais útil e
urgente, mesmo com sacrifício pessoal. É condição e premissa indispensável para
a docilidade do apóstolo ao Espírito, que o torna pronto a ´ir´ sem laços nem
amarras, seguindo apenas a vontade do Mestre (cf. Lc 9, 57´62; Mc 10, 17´22).
Pessoalmente inserido na
vida da comunidade e responsável por ela, o sacerdote deve dar também o testemunho
de uma total ´transparência´ na administração dos bens da própria comunidade,
que ele jamais deve tratar como se fossem património próprio, mas como algo de
que deve dar contas a Deus e aos irmãos, sobretudo aos pobres. A consciência de
pertencer a um presbitério, impulsionará depois o sacerdote no desempenho de
favorecer seja uma distribuição mais equitativa dos bens entre os irmãos no
sacerdócio, seja mesmo uma certa comunhão de bens (cf. Act 2, 42´47).
A liberdade interior, que
a pobreza evangélica guarda e alimenta, habilita o padre a estar ao lado dos
mais débeis, a tornar´se solidário com os seus esforços pela construção de uma
sociedade mais justa, a ser mais sensível e capaz de compreensão e
discernimento dos fenómenos que dizem respeito ao aspecto económico e social da
vida, a promover a opção preferencial pelos pobres: esta, sem excluir ninguém
do anúncio e do dom da salvação, sabe inclinar´se perante os simples, os
pecadores, os marginalizados de qualquer espécie, de acordo com o modelo
oferecido por Jesus no desenvolvimento do seu ministério profético e sacerdotal
(cf. Lc 4, 18).
Não deve ser esquecido
também o significado profético da pobreza sacerdotal, particularmente urgente
no seio de sociedades opulentas e consumistas: ´ O sacerdote verdadeiramente
pobre é certamente um sinal concreto do desprendimento, da renúncia e da não
submissão à tirania do mundo contemporâneo que coloca toda a sua confiança no
dinheiro e na segurança material´ [84].
Jesus Cristo, que na cruz
leva à perfeição a sua caridade pastoral por um abissal despojamento interior e
exterior, é o modelo e a fonte das virtudes da obediência, castidade e pobreza,
que o présbítero é chamado a viver como expressão do seu amor pastoral pelos
irmãos. De acordo com o que Paulo escreve aos cristãos de Filipos, o sacerdote
deve possuir os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, despojando´se do seu
próprio ´eu´ para encontrar, na caridade obediente, casta e pobre, a via mestra
da união com Deus e da unidade com os irmãos (cf. Fil 2, 5).
A pertença e a dedicação
à Igreja particular
31. Como toda a vida
espiritual autenticamente cristã, também a vida do sacerdote possui uma
essencial e irrenunciável dimensão eclesial: é participação na santidade da
própria Igreja, que no Credo professamos como ´Comunhão dos Santos´. A
santidade do cristão deriva da da Igreja, exprime´a e ao mesmo tempo
enriquece´a. Esta dimensão eclesial reveste modalidades, finalidades e
significados particulares na vida espiritual do presbítero, em virtude da sua relação
específica com a Igreja, sempre a partir da sua configuração a Cristo Cabeça e
Pastor, do seu ministério ordenado, da sua caridade pastoral.
Nesta perspectiva, é
preciso considerar como valor espiritual do presbítero a sua integração e
dedicação a uma Igreja particular. Estas, na verdade, não são motivadas apenas
por razões organizativas e disciplinares. Pelo contrário, o relacionamento com
o Bispo no único presbitério, a partilha da sua solicitude eclesial, a
dedicação ao cuidado evangélico do Povo de Deus, nas concretas condições
históricas e ambientais da Igreja particular são elementos de que não se pode
prescindir ao delinear o perfil próprio do sacerdote e da sua vida espiritual.
Neste sentido, a ´incardinação´ não se esgota num vínculo puramente jurídico,
mas comporta uma série de atitudes e opções espirituais e pastorais que
contribuem para conferir uma fisionomia específica à figura vocacional do
presbítero.
É necessário que o
sacerdote tenha a consciência de que o seu ´estar numa Igreja particular´
constitui por natureza um elemento qualificante para viver uma espiritualidade
cristã. Nesse sentido, o presbítero encontra, precisamente na sua pertença e
dedicação à Igreja particular, uma fonte de significados, de critérios de
discernimento e acção, que configuram quer a sua missão pastoral quer a sua
vida espiritual.
Para o caminho da
perfeição podem contribuir também outras inspirações ou a referência a outras
tradições de vida espiritual, capazes de enriquecer a vida espiritual dos
presbíteros e de dotar o presbitério de preciosos dons espirituais. É este o
caso de muitas agregações eclesiais antigas e modernas, que no seu âmbito
acolhem também sacerdotes: das sociedades de vida apostólica aos institutos
seculares presbiterais, das várias formas de comunhão e partilha espiritual aos
movimentos eclesiais. Os sacerdotes, que pertencem a ordens e congregações
religiosas, são uma riqueza espiritual para todo o presbitério diocesano, ao
qual proporcionam o contributo de carismas específicos e ministérios
qualificados, estimulando com a sua presença a Igreja particular a viver mais
intensamente a sua abertura universal [85].
A pertença do sacerdote à
Igreja particular e a sua dedicação até ao dom da própria vida pela edificação
da Igreja ´na pessoa´ de Cristo Cabeça e Pastor, ao serviço de toda a
comunidade cristã, em cordial e filial referência ao Bispo, deve air reforçada
na assunção de qualquer carisma que venha a fazer parte da existência
sacerdotal ou se coloque a seu lado [86].
Para que a abundância dos
dons do Espírito seja acolhida na alegria e feita frutificar para a glória de
Deus e para o bem da Igreja inteira, exige´se da parte de todos, em primeiro
lugar, o conhecimento e o discernimento dos carismas próprios e de outrem, e o
seu exercício sempre acompanhado pela humildade cristã, pela coragem da
autocrítica, pela intenção, predominante sobre qualquer outra preocupação de
contribuir para a edificação da inteira comunidade, a cujo serviço está posto
todo e qualquer carisma particular. Requer´se, portanto, de todos um sincero
esforço de recíproca estima, de mútuo respeito e de coordenada valorização de
todas as positivas e legítimas diversidades presentes no presbitério. Tudo isto
faz parte também da vida espiritual e da contínua ascese do sacerdote.
32. A pertença e a
dedicação à Igreja particular não confinam a esta, a actividade e a vida do
sacerdote: não podem, de facto, ser confinadas, pela própria natureza quer da
Igreja particular, [87], quer do ministério sacerdotal. A este respeito, diz o
Concílio: ´O dom espiritual que os presbíteros receberam na ordenação não os
prepara para uma missão limitada e restrita, mas sim para a imensa e universal
missão da salvação ´até aos confins da terra´ (Act 1, 8); de facto, todo o
ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada
por Cristo aos apóstolos´ [88].
Daqui se conclui que a
vida espiritual dos padres deve estar profundamente assinalada pelo anseio e
pelo dinamismo missionário. Compete´lhes, no exercício do ministério e no
testemunho de vida, plasmar a comunidade a eles confiada como comunidade
autenticamente missionária. Como escrevi na Encíclica Redemptoris missio,
´todos os sacerdotes devem ter um coração e uma mentalidade missionária, devem
estar abertos às necessidades da Igreja e do mundo, atentos aos mais afastados
e, sobretudo, aos grupos não cristãos do próprio ambiente. Na oração e, em
particular, no sacrifício eucarístico, sintam a solicitude de toda a Igreja por
toda a humanidade´ [89].
Se este espírito
missionário animar generosamente a vida dos sacerdotes, aparecerá facilitada a
resposta àquela exigência cada vez mais grave hoje na Igreja, que nasce de uma
desigual distribuição do clero. Neste sentido, já o Concílio foi
suficientemente preciso e incisivo: ´Tenham presente os presbíteros que devem
tomar a peito a solicitude por todas as Igrejas. Para tal, os presbíteros
daquelas dioceses que possuem maior abundância de vocações mostrem´se de boa
vontade preparados para, com o prévio consentimento ou convite do próprio
Ordinário, exercer o seu ministério nas regiões, missões ou obras que sofram
escassez de clero´ [90].
´Renova neles a efusão do
Teu Espírito de santidade´
33. ´O Espírito do Senhor
está sobre mim; por isso me consagrou e me enviou a anunciar aos pobres a Boa
Nova´ (Lc 4, 18). Jesus faz ressoar ainda hoje, no nosso coração de sacerdotes,
as palavras que pronunciou na sinagoga de Nazaré. A nossa fé, de facto,
revela´nos a presença operante do Espírito de Cristo no nosso ser, no nosso
agir e no nosso viver tal como o configurou, habilitou e plasmou o sacramento
da Ordem.
Sim, o Espírito do Senhor
é o grande protagonista da nossa vida espiritual. Ele cria o ´coração novo´,
anima e guia´o com a ´nova lei´ da caridade, da caridade pastoral. No desenvolvimento
da vida espiritual, é fundamental a consciência de que nunca falta ao sacerdote
a graça do Espírito Santo, como dom totalmente gratuito e tarefa
responsabilizadora. A consciência do dom infunde e sustém a inabalável
confiança do padre nas dificuldades, nas tentações, nas fraquezas que se
encontram no seu caminho espiritual.
Reproponho a todos os
sacerdotes aquilo que já numa outra ocasião disse a muitos deles: ´a vocação
sacerdotal é essencialmente uma chamada à santidade na forma que nasce do
sacramento da Ordem. A santidade é intimidade com Deus, é imitação de Cristo
pobre, casto e humilde; é amor sem reserva às almas e entrega pelo seu próprio
bem; é amor à Igreja que é santa e nos quer santos, porque assim é a missão que
Cristo lhe confiou. Cada um de vós deve ser santo também para ajudar os irmãos
a seguir a sua vocação à santidade.
Como não reflectir (...)
sobre o papel essencial que o Espírito Santo desempenha na específica chamada à
santidade, que é própria do ministério sacerdotal? Recordemos as palavras do
rito da ordenação sacerdotal que são consideradas centrais na fórmula
sacramental: ´Concedei, Pai Omnipotente a estes vossos filhos a dignidade do
presbiterado. Renovai neles a efusão do vosso Espírito de santidade; cumpram
fielmente, Senhor, o ministério do segundo grau sacerdotal de Vós recebido e
com o seu exemplo guiem a todos para uma íntegra conduta de vida´.
Mediante a Ordenação,
caríssimos, recebestes o mesmo Espírito de Cristo que vos torna semelhantes a
Ele, a fim de que possais agir em seu nome e viver em vós os seus próprios
sentimentos. Esta comunhão íntima com o Espírito de Cristo, enquanto garante a
eficácia da acção sacramental que vós realizais ´in persona Christi´, exige
também exprimir´se no fervor da oração, na caridade pastoral de um ministério
incansavelmente orientado para a salvação dos irmãos. Requer, numa palavra, a
vossa santificação pessoal´ [91].
CAPÍTULO IV
VINDE VER
A vocação sacerdotal na
pastoral da Igreja
Procurar, seguir,
permanecer
34. ´Vinde ver´ (Jo 1,
39). Desta forma responde Jesus aos dois discípulos de João Baptista, que lhe
perguntavam onde habitava. Nestas palavras, encontramos o significado da
vocação.
Eis como o evangelista
narra o chamamento de André e de Pedro: ´No dia seguinte, João estava ainda lá
com dois dos seus discípulos e, lançando o olhar para Jesus que passava, disse:
´Eis o Cordeiro de Deus!´. E os dois discípulos ouvindo´o falar daquela
maneira, seguiram Jesus. Jesus voltou´se então e, vendo que o seguiam, disse:
´Que procurais?´ Responderam´lhe: ´Rabbi, (que significa Mestre) onde moras?´
Disse´lhes: ´Vinde ver´. Foram então e viram onde morava e permaneceram com Ele
naquele dia. Era pelas quatro horas da tarde.
Um dos dois que tinham
escutado as palavras de João e que O tinham seguido era André, irmão de Simão
Pedro. Encontrou em primeiro lugar o seu irmão Simão e disse´lhe: ´Encontrámos
o Messias (que significa Cristo)´ e levou´o a Jesus. Jesus, fixando nele o
olhar disse: ´Tu és Simão, filho de João. Chamar´te´ás Cefas (que quer dizer
Pedro´)´ (Jo 1, 35´42).
Esta página do Evangelho
é uma das muitas da Sagrada Escritura onde se descreve o ´mistério´ da vocação,
no nosso caso o mistério da vocação para ser apóstolo de Jesus. A página de São
João, que tem também um significado para a vocação cristã enquanto tal, reveste
um valor emblemático no caso da vocação sacerdotal. A Igreja, comunidade dos
discípulos de Jesus, é chamada a fixar o seu olhar sobre esta cena que, de
certo modo, se renova continuamente na história. É convidada a aprofundar o
sentido original e pessoal da vocação para o seguimento de Cristo no ministério
sacerdotal e o laço indissociável entre a graça divina e a responsabilidade
humana, encerrado e revelado nos dois termos que mais vezes encontramos no Evangelho:
vem e segue´me (cf. Mt 19, 21). É solicitada a decifrar e a percorrer o
dinamismo próprio da vocação, o seu desenvolvimento gradual e concreto nas
fases do procurar Jesus, do segui´Lo e do permanecer com Ele.
A Igreja identifica neste
´Evangelho da vocação´ o paradigma, a força e o impulso da sua pastoral
vocacional, ou seja, da sua missão destinada a cuidar do nascimento,
discernimento e acompanhamento das vocações, particularmente das vocações ao
sacerdócio. Precisamente porque ´a falta de sacerdotes é por certo a tristeza
de cada Igreja´ [92], a pastoral vocacional exige, sobretudo hoje, ser assumida
com um novo, vigoroso e mais decidido compromisso por parte de todos os membros
da Igreja, na consciência de que aquela não é um elemento secundário ou
acessório, nem um momento isolado ou sectorial, quase uma simples ´parte´,
ainda que relevante, da pastoral global da Igreja: é sim, como repetidamente
afirmaram os Padres sinodais, uma actividade intimamente inserida na pastoral
geral de cada Igreja [93], um cuidado que deve ser integrado e plenamente
identificado com a ´cura de almas´ dita ordinária, [94] a, uma dimensão
conatural e essencial da pastoral da Igreja, ou seja, da sua vida e da sua
missão [95].
Sim, a dimensão
vocacional é conatural e essencial à pastoral da Igreja. A razão está no facto
de que a vocação define, em certo sentido, o ser profundo da Igreja, ainda
antes do seu operar. No próprio nome da Igreja, Ecclesia, está indicada a sua
íntima fisionomia vocacional, porque ela é verdadeiramente ´convocação´,
assembleia dos chamados: ´A todos aqueles que olham com fé para Jesus, como
autor da salvação e princípio da unidade e da paz, Deus convocou´os e
constituiu com eles a Igreja, para que seja para todos e cada um o sacramento
visível desta unidade salvífica´ [96].
Uma leitura propriamente
teológica da vocação sacerdotal e da pastoral que lhe diz respeito pode brotar
apenas da leitura do mistério da Igreja como mysterium vocationis.
A Igreja e o dom da
vocação
35. Cada vocação cristã
encontra o seu fundamento na eleição prévia e gratuita por parte do Pai ,´que
nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais nos céus em Cristo. Nele
nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados na sua
presença na caridade, predestinando´nos para sermos seus filhos adoptivos por
Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade´ (Ef 1, 3´5).
Toda a vocação cristã vem
de Deus, é dom divino. Todavia, ela nunca é oferecida fora ou independentemente
da Igreja, mas passa sempre na Igreja e mediante a Igreja, porque, como nos
recorda o Concílio Vaticano II, ´aprouve a Deus santificar e salvar os homens,
não individualmente, e excluída qualquer ligação entre eles, mas
constituindo´os em povo, que O conhecesse na verdade e santamente O servisse´
[97].
A Igreja não só abarca em
si todas as vocações que Deus lhe oferece, no seu caminho de salvação, mas ela
própria se configura como mistério de vocação, qual luminoso e vivo reflexo do
mistério da Santíssima Trindade. Na realidade, a Igreja, ´povo reunido pela
unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo´ [98], leva em si o mistério do
Pai que, não chamado nem enviado por ninguém (cf. Rom 11, 33´35), a todos chama
a santificar o Seu nome e a cumprir a Sua vontade; guarda em si o mistério do
Filho que é chamado e enviado pelo Pai a anunciar a todos o Reino de Deus e que
a todos chama ao seu seguimento; é depositária do mistério do Espírito Santo
que consagra para a missão aqueles que o Pai chama mediante o Seu Filho Jesus
Cristo.
Deste modo a Igreja, que
pori nata constituição é ´vocação´, é geradora e educadora de vocações. É´o no
seu ser de ´sacramento´, enquanto ´sinal´ e ´instrumento´ no qual ressoa e se
realiza a vocação de cada cristão; é´o no seu operar, ou seja, no desempenho do
seu ministério de anúncio da Palavra, de celebração dos Sacramentos e de
serviço e testemunho da Caridade.
Agorapode´se compreender
a essencial dimensão eclesial da vocação cristã: ela não só deriva ´da´ Igreja
e da sua mediação, não só se faz reconhecer e realiza ´na´ Igreja, mas se
configura ´ no fundamental serviço a Deus ´ também e necessariamente como
serviço ´à´ Igreja. A vocação cristã, em qualquer das suas formas, é um dom
destinado à edificação da Igreja, ao crescimento do Reino de Deus no mundo
[99].
O que dizemos de todas as
vocações cristãs encontra uma realização específica na vocação sacerdotal: esta
é chamada, através do sacramento da Ordem, recebido na Igreja, a pôr´se ao
serviço do Povo de Deus com uma peculiar pertença e configuração a Jesus Cristo
e com a autoridade de actuar ´no nome e na pessoa´ d´Ele, Cabeça e Pastor da
Igreja.
Nesta perspectiva, se
entende o que dizem os Padres sinodais: ´A vocação de cada sacerdote subsiste
na Igreja e para a Igreja: para ela se realiza uma semelhante vocação. Daqui se
segue que cada presbítero recebe a vocação do Senhor, através da Igreja, como
um dom gratuito, uma gratia gratis data (charisma). Pertence ao Bispo ou ao
Superior competente não só submeter a exame a idoneidade e a vocação do candidato,
mas também reconhecê´la. Esta dimensão eclesiástica é inerente à vocação para o
ministério presbiteral como tal. O candidato ao presbiterado deve receber a
vocação, não impondo as próprias condições pessoais, mas aceitando as normas e
as condições que a própria Igreja, pela sua parte de responsabilidade, coloca´
[100].
O diálogo vocacional: a
iniciativa de Deus e a resposta do homem
36. A história de cada
vocação sacerdotal, como aliás de qualquer outra vocação cristã, é a história
de um inefável diálogo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus que chama e a
liberdade do homem que no amor responde a Deus. Estes dois aspectos
indissociáveis da vocação, o dom gratuito de Deus e a liberdade responsável do
homem, emergem de modo tão extraordinário quanto eficaz das brevíssimas
palavras com as quais o evangelista Marcos apresenta a vocação dos Doze: Jesus
´subiu depois ao monte, chamou a si aqueles que quis e eles foram ter com Ele´
(Mc 3, 13). De um lado está a decisão absolutamente livre de Jesus, do outro o
´ir´ dos doze, ou seja, o ´seguir´ Jesus.
É este o paradigma
constante, o dado irrecusável de cada vocação: a dos profetas, a dos apóstolos,
dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, de toda e qualquer pessoa.
Mas inteiramente
prioritária, mais, prévia e decisiva é a intervenção livre e gratuita de Deus
que chama. A iniciativa do chamamento pertence a Ele. É esta, por exemplo, a
experiência do profeta Jeremias: ´Foi´me dirigida a Palavra do Senhor: ´Antes
de te formares no ventre materno, eu te conhecia, antes que viesses à luz eu te
tinha consagrado; constituí´te profeta das nações´´(Jer 1, 4´5). É a mesma
verdade apresentada pelo apóstolo Paulo que fundamenta toda a vocação na eterna
eleição de Cristo, levada a cabo ´antes da criação do mundo´ e ´segundo o
beneplácito da sua vontade´ (Ef 1, 5). O absoluto primado da graça na vocação
encontra a sua perfeita proclamação na palavra de Jesus: ´Não fostes vós que Me
escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos estabeleci para que vades e deis
fruto e o vosso fruto permaneça´ (Jo 15, 16).
Se a vocação sacerdotal
testemunha de modo inequívoco o primado da graça, a livre e soberana decisão de
Deus de chamar o homem exige absoluto respeito, não pode de modo algum ser
forçada por qualquer pretensão humana, não pode ser substituída por qualquer
decisão humana. A vocação é um dom da graça divina e jamais um direito do
homem, da mesma forma que ´não se pode considerar a vida sacerdotal como uma
promoção simplesmente humana, nem a missão do ministro como um simples projecto
pessoal´ [101]. Fica assim radicalmente excluída qualquer vaidade ou presunção
dos chamados (cf. Heb 5,4´5). Todo o espaço espiritual do seu coração é tomado
por uma maravilhada e comovida gratidão, por uma confiança e esperança
inabaláveis, porque os chamados sabem que estão assentes não nas próprias
forças, mas sobre a incondicional fidelidade de Deus que chama.
´Chamou aqueles que quis
e estes foram ter com Ele´ (Mc 3, 1). Este ´ir´, que se identifica com o
´seguir´ Jesus, exprime a resposta livre dos Doze ao chamamento do Mestre. Foi
assim o caso de Pedro e de André: ´E disse´lhes: ´segui´me e farei de vós
pescadores de homens´. E eles, imediatamente deixando as redes, seguiram´no´
(Mt 4, 19´20). Idêntica foi a experiência de Tiago e João (cf. Mt 4, 21´22). É
sempre assim: na vocação, resplandece conjuntamente o amor gratuito de Deus e a
exaltação mais alta possível da liberdade do homem ´ a da adesão ao chamamento
de Deus e do confiar´se a Ele.
Na realidade, graça e
liberdade não se opõem entre si. Pelo contrário, a graça anima e sustenta a
liberdade humana, livrando´a da escravidão do pecado (cf. Jo 8, 34´36), sanando
e elevando´a na sua capacidade de abertura e de acolhimento do dom de Deus. E
se não se pode atentar contra a iniciativa absolutamente gratuita de Deus que
chama, também não pode atentar contra a extrema seriedade com que o homem é
desafiado na sua liberdade. Assim, ao ´vem e segue´me´ de Jesus, o jovem rico
opõe uma recusa, sinal ´ mesmo que negativo ´ da sua liberdade: ´mas ele,
entristecido por aquelas palavras, retirou´se abatido porque possuía muitos
bens´ (Mc 10, 22).
A liberdade, portanto, é
essencial à vocação, uma liberdade que na resposta positiva se qualifica como
adesão pessoal profunda, como doação de amor, ou melhor, de reentrega ao Doador
que é Deus que chama, como oblação. ´O chamamento ´ dizia Paulo VI ´ avalia´se
pela resposta. Não pode haver vocações que não sejam livres; se elas não forem
realmente oferta espontânea de si mesmo, conscientes, generosas, totais (...)
Oblações, digamos: aqui se encontra praticamente o verdadeiro problema (...) É
a voz humilde e penetrante de Cristo que diz, hoje como ontem, e mais do que
ontem: ´vem!´. A liberdade é colocada na sua base suprema: exactamente a da
oblação, da generosidade, do sacrifício´ [102].
A oblação livre que
constitui o núcleo íntimo e mais precioso da resposta do homem a Deus que
chama, encontra o seu incomparável modelo, mais, a sua raiz viva na libérrima
oblação de Jesus Cristo, o primeiro dos chamados, à vontade do Pai: ´Por isso,
ao entrar no mundo, Cristo disse: ´Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas
preparaste´me um corpo (...) Então eu disse: Eis que venho (...) para fazer, ó
Deus, a tua vontade´ (Heb 10, 5´7).
Em íntima comunhão com
Cristo, Maria, a Virgem Mãe, foi a criatura que, mais do que qualquer outra,
viveu a plena verdade da vocação, porque ninguém como ela respondeu com um amor
tão grande ao amor imenso de Deus [103].
37. ´Mas ele,
entristecido por aquelas palavras, retirou´se angustiado porque possuía muitos
bens´ (Mc 10, 22). O jovem rico do Evangelho, que não segue o chamamento de
Jesus recorda´nos os obstáculos que podem bloquear ou apagar a resposta livre
do homem: não apenas os bens materiais podem fechar o coração humano aos valores
do espírito e às radicais exigências do Reino de Deus, mas também algumas
condições sociais e culturais do nosso tempo podem constituir não poucas
ameaças e impor visões distorcidas e falsas acerca da verdadeira natureza da
vocação, tornando difícil, se não mesmo impossível, o seu acolhimento e a sua
própria compreensão.
Muitos possuem de Deus
uma idéia tão genérica e confusa a ponto de se perderem em formas de
religiosidade sem Deus, nas quais a vontade divina é concebida como um destino
imutável e inelutável, face ao qual o homem nada mais pode fazer que se adequar
e resignar´se com plena passividade. Mas não é este o rosto de Deus que Jesus
Cristo veio revelar´nos: Deus, de facto, é o Pai que com amor eterno e prévio
chama o homem e o posiciona num diálogo maravilhoso e permanente com Ele,
convidando´o a partilhar, como filho, a sua própria vida divina. É claro que,
com uma visão errada de Deus, o homem nem sequer pode reconhecer a verdade de
si mesmo, pelo que a vocação não pode ser reconhecida nem muito menos vivida no
seu autêntico valor: pode quando muito ser sentida como um peso imposto e
insuportável.
Também certas idéias
incorrectas sobre o homem, frequentemente apoiadas em pretensos argumentos
filosóficos ou ´científicos´, induzem´no por vezes a interpretar a própria
existência e liberdade como totalmente determinadas e condicionadas por
factores externos, de ordem educacional, psicológica, cultural ou ambiental.
Outras vezes, a liberdade é entendida em termos de absoluta autonomia, pretende
ser a única e incontestável fonte das opções pessoais, classifica´se como
afirmação de si a todo o custo. Mas dessa forma se fecha o caminho para
entender e viver a vocação como livre diálogo de amor, que nasce da comunicação
de Deus ao homem e se conclui no dom sincero de si próprio.
No contexto actual, não
falta ainda a tendência para pensar de modo individualista e intimista o
relacionamento do homem com Deus, como se o chamamento de Deus atingisse cada
pessoa directamente sem qualquer mediação comunitária, visando uma vantagem ou
a própria salvação do indivíduo chamado e não a dedicação total a Deus no
serviço da comunidade. Assim encontramos uma outra profunda e ao mesmo tempo
subtil ameaça, que torna impossível reconhecer e aceitar com alegria a dimensão
eclesial inscrita na origem em toda a vocação cristã, e na presbiteral de modo
especial: de facto, como nos recorda o Concílio, o sacerdócio ministerial
adquire o seu autêntico significado e realiza a plena verdade de si mesmo no
servir e fazer crescer a comunidade cristã e o sacerdócio comum dos fiéis
[104].
O contexto cultural
recordado agora, cujo influxo não está ausente do meio dos próprios cristãos, e
particularmente dos jovens, ajuda a compreender o difundir´se da crise das
mesmas vocações sacerdotais, originada e acompanhada pela mais radical crise de
fé. Declararam´no explicitamente os Padres sinodais, reconhecendo que a crise
das vocações ao presbiterado tem profundas raízes no ambiente cultural e na
mentalidade e práxis dos cristãos [105].
Daqui a urgência de que a
pastoral vocacional da Igreja incida de modo decidido e prioritário na
reconstrução da ´mentalidade cristã´, tal como é gerada e sustentada pela fé. É
absolutamente necessária uma evangelização que não se canse de apresentar o
verdadeiro rosto de Deus, o Pai que em Jesus Cristo chama cada um de nós, e o
sentido genuíno da própria liberdade humana, qual princípio e força do dom
responsável de si mesmo. Só dessa maneira serão colocadas as bases
indispensáveis para que cada vocação, incluindo a sacerdotal, possa ser
descoberta na sua verdade, amada na sua beleza e vivida com dedicação total e
alegria profunda.
Conteúdos e meios da
pastoral vocacional
38. Certamente a vocação
é um mistério imperscrutável, que coinvolve o relacionamento que Deus instaura
com o homem na sua unicidade e irrepetibilidade, um mistério que deve ser
percebido e sentido como um apelo que espera uma resposta nas profundezas da
consciência, naquele ´sacrário do homem onde ele se encontra a sós com Deus,
cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser´ [106]. Mas isto não elimina a
dimensão comunitária e especificamente eclesial da vocação: a Igreja está
realmente presente e operante na vocação de cada sacerdote.
No serviço à vocação
sacerdotal e ao seu itinerário, ou seja, no nascimento, discernimento, e
acompanhamento da vocação, a Igreja pode encontrar um modelo em André, um dos
dois primeiros discípulos que se puseram a seguir Jesus. É ele mesmo que conta
ao irmão o que lhe acontecera: ´Encontrámos o Messias(que significa Cristo)´
(Jo 1, 41). E a narração desta descoberta abre o caminho para o encontro: ´E
levou´o a Jesus´ (Jo 1, 42). Não há dúvidas sobre a iniciativa absolutamente
livre e sobre a decisão soberana de Jesus. É Jesus que chama Simão e lhe dá um
nome novo: ´Jesus fixando nele o olhar disse: ´Tu és Simão, filho de João; vais
chamar´te Cefas (que quer dizer Pedro)´´ (Jo 1, 42). Mas André não deixou de
ter a sua iniciativa: na verdade, solicitou o encontro do irmão com Jesus.
´E levou´o a Jesus´. Está
aqui, em certo sentido, o coração de toda a pastoral vocacional da Igreja, pela
qual ela tem em atenção o nascimento e o crescimento das vocações, servindo´se
dos dons e das responsabilidades, dos carismas e do ministério recebido de
Cristo e do seu Espírito. Como povo sacerdotal, profético e real, ela está
empenhada em promover e servir o florescimento e a maturação das vocações
sacerdotais com a oração e a vida sacramental, com o anúncio da palavra e a
educação da fé, com a orientação e o testemunho da caridade.
A Igreja, na sua
dignidade e responsabilidade de povo sacerdotal, tem na oração e na celebração
da liturgia, os elementos essenciais e primários da pastoral vocacional. A
oração cristã, de facto, nutrindo´se da Palavra de Deus, cria o espaço ideal para
que cada um possa descobrir a verdade do ser e a identidade do projecto de vida
pessoal e irrepetível que o Pai lhe confia. É necessário, portanto, educar em
particular as crianças e jovens para que sejam fiéis à oração e à meditação da
Palavra de Deus: no silêncio e na escuta poderão ouvir o chamamento do Senhor
ao sacerdócio e segui´lo com prontidão e generosidade.
A Igreja deve acolher
cada dia o convite persuasivo e exigente de Jesus, que pede para ´rezar ao
Senhor da messe para que mande operários para a sua messe´ (Mt 9,38).
Obedecendo ao mandamento de Cristo, a Igreja realiza, antes de mais nada, uma
humilde profissão de fé: ao rezar pela vocações, ao mesmo tempo que toma
consciência de toda a sua urgência para a própria vida e missão, reconhece que
elas são um dom de Deus e, como tal, se devem pedir com uma súplica confiante e
incessante. Esta oração,fulcro de toda a pastoral vocacional, deve todavia
comprometer não apenas os indivíduos, mas também as inteiras comunidades
eclesiais. Ninguém duvida da importância das iniciativas individuais de oração,
dos momentos especiais reservados a esta invocação, a começar pelo Dia Mundial
de Oração pelas Vocações, e do empenhamento específico de pessoas e grupos
particularmente sensíveis ao problema das vocações sacerdotais. Mas, hoje mais
do que nunca, a expectativa orante de novas vocações deve tornar´se um hábito
constante e largamente partilhado na comunidade cristã e em toda e qualquer
realidade eclesial. Poder´se´á assim reviver a experiência dos apóstolos que no
Cenáculo, unidos com Maria, esperam em oração a efusão do Espírito (cf. Act 1,
14), o Qual não deixará mais de suscitar no Povo de Deus ´dignos ministros do
altar, anunciadores fortes e humildes da palavra que nos salva´ [107].
Ponto culminante e fonte
de toda a vida da Igreja [108], e em particular da oração cristã, a liturgia
desempenha também um papel indispensável e uma incidência privilegiada na
pastoral das vocações. Aquela, de facto, constitui uma experiência viva do dom
de Deus e uma grande escola para a resposta ao seu chamamento. Como tal, cada
celebração litúrgica, e em primeiro lugar a Eucaristia, nos revela o rosto de
Deus, nos faz comungar do mistério da Páscoa, ou seja, da ´hora´ para a qual
Jesus veio ao mundo e livre e voluntariamente se encaminhou em obediência ao
chamamento do Pai (cf. Jo 13, 1), nos manifesta a fisionomia da Igreja como
povo de sacerdotes e comunidade bem organizada na variedade e complementaridade
dos carismas e das vocações. O sacrifício redentor de Cristo, que a Igreja
celebra no mistério eucarístico, confere um valor particularmente precioso ao
sofrimento vivido em união com o Senhor Jesus. Os Padres sinodais
convidaram´nos a não esquecer nunca que ´através da oferta dos sofrimentos, tão
presentes na vida dos homens, o cristão doente se oferece a si próprio como
vítima a Deus à imagem de Cristo, o qual por todos nós se consagrou a si mesmo
(cf. Jo 17, 19)´, e que ´a oferta dos sofrimentos segundo tal intenção é uma
grande ajuda para a promoção das vocações´ [109].
39. No exercício da sua
missão profética, a Igreja sente como premente e irrecusável a tarefa de
anunciar e testemunhar o sentido cristão da vocação, poderemos mesmo dizer o
´Evangelho da vocação´. Interpela´nos, também neste campo, a urgência das palavras
do Apóstolo:´Ai de mim se não evangelizar!´(1 Cor 9, 16). Tal advertência
ressoa, antes de mais, em nós pastores e diz respeito, juntamente connosco, a
todos os educadores na Igreja. A pregação e a catequese devem sempre manifestar
a sua intrínseca dimensão vocacional: a palavra de Deus ilumina os crentes na
avaliação da vida como resposta ao chamamento de Deus e leva´os a acolher na fé
o dom da vocação pessoal.
Mas tudo isto, apesar de
importante e essencial, não basta: é precisa ´uma pregação directa sobre o
mistério da vocação na Igreja, sobre o valor do sacerdócio ministerial, e sobre
a sua urgente necessidade para o Povo de Deus´ [110]. Uma catequese orgânica e
proporcionada a todas as componentes da Igreja, além de dissipar dúvidas e
refutar idéias unilaterais e distorcidas sobre o ministério sacerdotal, abre os
corações dos crentes à expectativa do dom e cria condições aptas ao nascimento
de novas vocações. É chegado o tempo de falar corajosamente da vida sacerdotal
como um valor inestimável e como forma esplêndida e privilegiada de vida
cristã. Os educadores, especialmente os sacerdotes, não devem ter medo de
propor de modo explícito e premente a vocação ao presbiterado como
possibilidade real para aqueles jovens que demonstram possuir os dons e
capacidades a ela correspondentes. Não se deve ter receio de lhes condicionar
ou limitar a liberdade; pelo contrário, uma proposta precisa, feita no momento
certo, pode revelar´se decisiva para provocar nos jovens uma resposta livre e
autêntica. De resto, a história da Igreja como a de tantas vocações
sacerdotais, desabrochadas mesmo em tenra idade, atestam amplamente a
providencial presença e palavra de um padre: não só da palavra mas também da
presença, isto é, de um testemunho concreto e alegre capaz de fazer despertar
interrogações e de conduzir a mesmo decisões definitivas.
40. Como povo real, a
Igreja reconhece´se radicada e animada pela ´lei do Espírito que dá vida´ (Rom
8, 2), que é essencialmente a lei régia da caridade (cf. Tg 2, 8) ou a lei perfeita
da liberdade (cf. Tg 1, 25). Ela cumpre, por isso, a sua missão quando guia
cada fiel para descobrir e para viver a própria vocação na liberdade e levá´la
a bom termo na caridade.
Na sua tarefa educativa,
a Igreja interessa´se, com atenção privilegiada, por suscitar nas crianças, nos
adolescentes e nos jovens o desejo e a decisão de um seguimento integral e
comprometido com Jesus Cristo. O trabalho educacional, mesmo que diga respeito
a toda a comunidade cristã enquanto tal, deve orientar´se para a pessoa
singular: Deus, de facto, com o seu chamamento, atinge o coração de cada homem,
e o Espírito, que mora no íntimo de cada discípulo (cf. 1 Jo 3, 24), dá´se a
cada cristão com carismas diversos e particulares manifestações. Cada um,
portanto, deve ser ajudado a acolher o dom que, precisamente a ele como pessoa
irrepetível e única, é confiado, e a escutar as palavras que o Espírito de Deus
lhe dirige singularmente.
Nesta perspectiva, o
cuidado pelas vocações ao sacerdócio saberá exprimir´se também numa firme e
persuasiva proposta de direcção espiritual. É preciso redescobrir a grande
tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão
preciosos frutos, na vida da Igreja: esse acompanhamento pode, em determinados
casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas não substituído, por formas
de análise ou de ajuda psicológica [111]. As crianças, os adolescentes e os
jovens sejam convidados a descobrir e a apreciar o dom da direcção espiritual,
e a solicitá´lo com confiante insistência aos seus educadores na fé. Os
sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a
esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de
ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas
e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito
na iluminação e guia dos chamados.
Objectivo da educação do
cristão é atingir, sob o influxo do Espírito, ´a plena maturidade de Cristo´
(Ef 4, 13). Isto verifica´se quando, imitando e partilhando a Sua caridade, se
faz da própria vida um serviço de amor (cf. Jo 13, 14´15), oferecendo a Deus um
culto espiritual que Lhe seja agradável (cf. Rom 12, 1) e doando´se aos irmãos.
O serviço de amor é o sentido fundamental de toda a vocação, que encontra uma
realização específica na vocação do sacerdote: efectivamente ele é chamado a
reviver, na forma mais radical possível, a caridade pastoral de Jesus, isto é,
o amor do Bom Pastor que ´dá a vida pelas ovelhas´ (Jo 10,11).
Por isso, uma autêntica
pastoral vocacional nunca se cansará de educar as crianças, os adolescentes e
os jovens para a atracção pelo compromisso, para o sentido do serviço gratuito,
para o valor do sacrifício, para a doação incondicionada de si mesmo. Torna´se
então particularmente útil a experiência do voluntariado, para o qual está a
crescer a sensibilidade de tantos jovens: se for um voluntariado
evangelicamente motivado, capaz de educar para o discernimento das carências,
vivido cada dia com dedicação e fidelidade, aberto à eventualidade de um
compromisso definitivo na vida consagrada, alimentado pela oração, poderá mais
seguramente sustentar uma vida de compromisso desinteressado e gratuito, e
tornará quem a ele se dedica mais sensível à voz de Deus que o pode chamar ao
sacerdócio. Com diferença do jovem rico, o empenhado no voluntariado poderia
aceitar o convite, cheio de amor, que Jesus lhe dirige (cf. Mc 10, 21) ; e
podê´lo´ia aceitar, porque os seus únicos bens consistem já no doar´se aos
outros e no ´perder´ a sua vida.
Todos somos responsáveis
pelas vocações sacerdotais
41. A vocação sacerdotal
é um dom de Deus, que constitui certamente um grande bem para aquele que é o
seu primeiro destinatário. Mas é também um dom para a Igreja inteira, um bem
para a sua vida e missão. A Igreja, portanto, é chamada a proteger este dom, a
estimá´lo e amá´lo: ela é responsável pelo nascimento e pela maturação das
vocações sacerdotais. Em consequência disso, a pastoral vocacional tem como
sujeito activo, como protagonista, a comunidade eclesial enquanto tal, nas suas
diversas expressões: da Igreja universal à Igreja particular, e, analogamente,
desta à paróquia e a todas as componentes do Povo de Deus.
É grande a urgência,
sobretudo hoje, que se difunda e se radique a convicção de que todos os membros
da Igreja, sem excepção, têm a graça e a responsabilidade do cuidado pelas
vocações. O Concílio Vaticano II é explícito, ao afirmar que ´o dever de
fomentar as vocações sacerdotais pertence a toda a comunidade cristã, que as
deve promover sobretudo mediante uma vida plenamentente cristã´ [112]. Só na
base desta convicção, a pastoral das vocações poderá manifestar o seu rosto
verdadeiramente eclesial, desenvolvendo uma acção concorde, servindo´se também
de organismos específicos e de adequados instrumentos de comunhão e de
corresponsabilidade.
A primeira
responsabilidade da pastoral orientada para as vocações sacerdotais é do Bispo
[113], que é chamado a vivê´la em primeira pessoa ainda, que possa e deva
suscitar múltiplas colaborações. Ele é pai e amigo no seu presbitério, e é sua,
antes de mais, a solicitude de ´dar continuidade´ ao carisma e ao ministério
presbiteral, associando´lhe novos efectivos pela imposição das mãos. Ele
cuidará que a dimensão vocacional esteja sempre presente em todos os âmbitos da
pastoral ordinária, melhor, seja plenamente integrada e como que identificada
com ela. Cabe´lhe a tarefa de promover e coordenar as várias iniciativas
vocacionais [114].
O Bispo sabe que pode
contar, em primeiro lugar, com a colaboração do seu presbitério. Todos os
sacerdotes são solidários com ele e corresponsáveis na procura e promoção das
vocações presbiterais. De facto, como afirma o Concílio, ´cabe aos sacerdotes,
como educadores da fé, cuidar por si, ou por meio de outros, para que cada fiel
seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação ´ [115]. É esta
´uma função que faz parte da própria missão sacerdotal, em virtude da qual o
presbítero é feito participante da solicitude de toda a Igreja, para que jamais
faltem na terra operários para o Povo de Deus´ [116]. A própria vida dos
padres, a sua dedicação incondicional ao rebanho de Deus, o seu testemunho de
amoroso serviço ao Senhor e à sua Igreja ´ testemunho assinalado pela opção da
cruz acolhida na esperança e na alegria pascal ´, a sua concórdia fraterna e o
seu zelo pela evangelização do mundo são o primeiro e mais persuasivo factor de
fecundidade vocacional [117].
Uma responsabilidade
particularíssima está confiada à família cristã que, em virtude do sacramento
do matrimónio, participa, de modo próprio e original, na missão educativa da
Igreja mestra e mãe. Como disseram os Padres sinodais, ´a família cristã ´ que
é verdadeiramente ´como que a igreja doméstica´ (Lumen gentium, 11) ´ sempre
ofereceu e continua a oferecer as condições favoráveis para o desabrochar das
vocações. Porque a imagem da família cristã se encontra hoje em perigo, deve
atribuir´se grande importância à pastoral familiar, de modo que as próprias
famílias, ao acolher generosamente o dom da vida humana, sejam ´como que o
primeiro seminário´ (Optatam totius, 2) onde os filhos possam adquirir desde o
início o sentido da piedade e da oração, e o amor à Igreja´ [118]. Em
continuidade e sintonia com a obra dos pais e da família, deve colocar´se a
escola, que é chamada a viver a sua identidade de ´comunidade educadora´ com
uma proposta cultural também capaz de irradiar luz sobre a dimensão vocacional
como valor conatural e fundamental da pessoa humana. Nesse sentido, se for
oportunamente enriquecida de espírito cristão (seja através de significativas
presenças eclesiais na escola estatal, segundo as várias leis nacionais, seja
sobretudo no caso da escola católica), pode infundir no ânimo das crianças e
dos jovens o desejo de cumprir a vontade de Deus no estado de vida mais idóneo
para cada um, sem nunca excluir a vocação ao ministério sacerdotal´ [119].
Também os leigos, em
particular, os catequistas, professores, educadores, animadores da pastoral
juvenil, cada um segundo os recursos e modalidades próprias, têm uma grande
importância na pastoral das vocações sacerdotais: quanto mais aprofundarem o
sentido da sua vocação e missão na Igreja, tanto melhor poderão reconhecer o
valor e carácter insubstituível da vocação e da missão presbiteral.
No âmbito das comunidades
diocesanas e paroquiais, são de estimar e promover aqueles grupos vocacionais
cujos membros oferecem o seu contributo de oração e de sacrifício pelas
vocações sacerdotais e religiosas, senão mesmo de sustento moral e material.
Deveremos recordar aqui
também os grupos, movimentos e associações de fiéis leigos que o Espírito Santo
faz surgir e crescer na Igreja, em ordem a uma presença cristã mais missionária
no mundo. Estas diversas agregações de leigos estão´se revelando como campo particularmente
fértil para a manifestação de vocações consagradas, verdadeiros e próprios
lugares de proposta e de crescimento vocacional. Muitos jovens, de facto,
precisamente no âmbito e graças a estes grupos, advertiram o chamamento do
Senhor a segui´Lo no caminho do sacerdócio ministerial [120] e responderam com
reconfortante generosidade. São, portanto, de valorizar, para que, em comunhão
com toda a Igreja e para seu crescimento, dêem o seu específico contributo para
o desenvolvimento da pastoral vocacional.
As várias componentes e
os diversos membros da Igreja empenhados na pastoral vocacional tornarão tanto
mais eficaz a sua obra quanto mais estimularem a comunidade eclesial como tal,
a começar pela paróquia, a sentir que o problema das vocações sacerdotais não
pode ser minimamente delegado em alguns ´encarregados´ (os sacerdotes em geral,
e mais especialmente os sacerdotes dos seminários), porque, sendo ´um problema
vital que se coloca no próprio coração da Igreja´ [121], deve estar no centro
do amor de cada cristão pela Igreja.
CAPÍTULO V
ESTABELECEU DOZE QUE
ESTIVESSEM COM ELE
A formação dos candidatos
ao sacerdócio
Viver no seguimento de
Cristo como os apóstolos
42. ´Subiu ao monte,
chamou para junto de si aqueles que entendeu e eles foram ter com Ele.
Estabeleceu doze que estivessem com Ele e também para os enviar a pregar e para
que tivessem o poder de expulsar demónios´ (Mc 3, 13´15).
´Que estivessem com Ele´:
nestas palavras, não é difícil ler o ´acompanhamento vocacional´ dos apóstolos
por parte de Jesus. Depois de os ter chamado e antes de os enviar, melhor, para
os poder enviar a pregar, o Senhor pede´lhes um ´tempo´ de formação, destinado
a desenvolver uma relação de comunhão e de amizade profunda Consigo mesmo. A
estes, reserva Ele uma catequese mais aprofundada relativamente à do povo (cf.
Mt 13, 11) e quer´los testemunhas da Sua silenciosa oração ao Pai (cf. Jo 17,
1´26; Lc 22, 39´45).
Na sua solicitude
relativamente às vocações sacerdotais, a Igreja de todos os tempos inspira´se
no exemplo de Cristo. Foram, e em boa parte são ainda agora, muito diversas as
formas concretas, segundo as quais a Igreja se foi empenhando na pastoral
vocacional, destinada não só a discernir, mas também a ´acompanhar´ as vocações
ao sacerdócio. Mas o espírito, que as deve animar e sustentar, permanece
idêntico: o de conduzir ao sacerdócio só aqueles que foram chamados e levá´los
adequadamente formados, ou seja, com uma consciente e livre resposta de adesão
e envolvimento de toda a sua pessoa com Jesus Cristo que chama à intimidade de
vida com Ele e à partilha da sua missão de salvação. Neste sentido, o
´seminário´ nas suas diversificadas formas, e de modo análogo a ´casa de
formação´ dos sacerdotes religiosos, antes de ser um lugar, um espaço material,
representa um espaço espiritual, um itinerário de vida, uma atmosfera que
favorece e assegura um processo formativo, de modo que aquele que é chamado por
Deus ao sacerdócio possa tornar´se, pelo sacramento da Ordem, uma imagem viva
de Cristo Cabeça e Pastor da Igreja. Na sua Mensagem final, os Padres sinodais
intuíram de modo imediato e profundo o significado original e qualificante da
formação dos candidatos ao sacerdócio, ao afirmarem que ´viver em seminário,
escola do Evangelho, significa viver o seguimento de Cristo como os apóstolos,
significa deixar´se iniciar por Ele no serviço do Pai e dos homens, sob a
orientação do Espírito Santo; significa deixar´se configurar a Cristo Bom
Pastor, para um melhor serviço sacerdotal na Igreja e no mundo. Formar´se para o
sacerdócio significa habituar´se a dar uma resposta pessoal à questão
fundamental de Cristo: ´Tu amas´me?´. A resposta, para o futuro sacerdote, não
pode ser senão o dom total da sua própria vida´ [122].
Trata´se de traduzir este
espírito, que não poderá jamais esmorecer na Igreja, nas condições sociais,
psicológicas, políticas e culturais do mundo actual, aliás tão variadas quanto
complexas, como testemunharam os Padres sinodais relativamente às diferentes
Igrejas particulares. Com uma incidência carregada de notória preocupação mas
também de grande esperança, eles puderam conhecer e reflectir longamente sobre
o esforço de investigação e de actualização dos métodos de formação dos
candidatos ao sacerdócio, presente em todas as suas Igrejas.
Esta Exortação pretende
recolher o fruto dos trabalhos sinodais, estabelecendo alguns dados adquiridos,
mostrando algumas metas irrennunciáveis, colocando à disposição de todos a
riqueza de experiências e de itinerários formativos já experimentados
positivamente. Ao longo das suas páginas, considera´se de forma distinta a
formação ´inicial´ e a formação ´permanente´, sem nunca esquecer, no entanto, o
laço profundo que as une e que deve fazer das duas um único itinerário orgânico
de vida cristã e sacerdotal. A Exortação detém´se nas diversas dimensões da
formação humana, intelectual, espiritual e pastoral, como também nos ambientes
e nos responsáveis pela própria formação dos candidatos ao sacerdócio.
I. AS DIMENSÕES DA
FORMAÇÃO SACERDOTAL
A formação humana,
fundamento de toda a formação sacerdotal
43. ´Sem uma oportuna
formação humana, toda a formação sacerdotal ficaria privada do seu necessário
fundamento´ [123]. Esta afirmação dos Padres sinodais exprime não apenas um
dado, quotidianamente sugerido pela razão e confirmado pela experiência, mas
também uma exigência que encontra a sua motivação mais profunda e específica na
própria natureza do presbítero e do seu ministério. Com efeito, chamado a ser
´imagem viva de Jesus Cristo Cabeça e Pastor da Igreja, ele deve procurar
reflectir em si mesmo, na medida do possível, aquela perfeição humana que
resplandece no Filho de Deus feito homem e que transparece com particular
eficácia nas suas atitudes com os outros, tal como os evangelistas as
apresentam. O ministério do sacerdote é, sim, o de anunciar a Palavra, de
celebrar os sacramento, conduzir na caridade a comunidade cristã, ´em nome e na
pessoa de Cristo´, mas isto, dirigindo´se sempre a homens concretos: ´todo o
sumo sacerdote, tomado de entre os homens, é constituído em favor dos homens
nas coisas que dizem respeito a ?Deus´ (Heb 5,1). Por isso mesmo, a formação
humana dos padres revela a sua particular importância relativamente aos
destinatários da sua missão: precisamente para que o seu ministério seja
humanamente mais credível e aceitável, é necessário que ele modele a sua
personalidade humana de modo a torná´la ponte e não obstáculo para os outros,
no encontro com Jesus Cristo Redentor do homem; é preciso que, a exemplo de
Jesus, que´sabia o que existe no interior de cada homem´ (Jo 2, 25; cf. 8,
3´11), o sacerdote seja capaz de conhecer em profundidade a alma humana, intuír
dificuldades e problemas, facilitar o encontro e o diálogo, obter confiança e
colaboração, exprimir juízos serenos e objectivos.
Portanto, não só para uma
justa e indispensável maturação e realização de si mesmo, mas também com vista
ao ministério, os futuros presbíteros devem cultivar uma série de qualidades
humanas necessárias à construção de personalidades equilibradas, fortes e
livres, capazes de comportar o peso das responsabilidades pastorais. É precisa,
pois, a educação para o amor à verdade, a lealdade, o respeito por cada pessoa,
o sentido da justiça, a fidelidade à palavra dada, a verdadeira compaixão, a
coerência, e, particularmente, para o equilíbrio de juízos e comportamentos
[124]. Um programa simples e empenhativo para esta formação humana é proposto
pelo apóstolo Paulo aos Filipenses: ´Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo,
puro, amável, honrado, o que é virtude e digno de louvor, é o que deveis ter no
pensamento´ (Fil 4, 8). É interessante notar como Paulo, precisamente nestas
qualidades profundamente humanas, se apresente a si próprio como modelo para os
seus fiéis: ´O que aprendestes ´ prossegue imediatamente ´ recebestes, escutastes
e vistes em mim, é o que deveis fazer´ (Fil 4, 9).
De particular
importância, se afigura a capacidade de relacionamento com os outros, elemento
verdadeiramente essencial para quem é chamado a ser responsável por uma
comunidade e a ser ´homem de comunhão´. Isto exige que o sacerdote não seja
arrogante nem briguento mas afável, hospitaleiro, sincero nas palavras e no
coração, [125] prudente e discreto, generoso e disponível para o serviço, capaz
de oferecer pessoalmente e de suscitar em todos relações francas e fraternas,
pronto a compreender, perdoar e consolar (cf. também 1 Tim 3, 1´5; Tit 1, 7´9).
A humanidade de hoje, muitas vezes condenada a situações de massificação e de
solidão, nomeadamente nas grandes concentrações urbanas, torna´se cada vez mais
sensível ao valor da comunhão: este constitui hoje um dos sinais mais
eloquentes e uma das vias mais eficazes para a mensagem evangélica.
Neste contexto se insere,
como momento qualificante e decisivo, a formação do candidato ao sacerdócio
para uma maturidade afectiva, resultante de uma educação para o amor verdadeiro
e responsável.
44. A maturidade afectiva
supõe a consciência do lugar central do amor na existência humana. Na
realidade, como escrevi na Encíclica Redemptor hominis, ´o homem não pode viver
sem amor. Permanece para si mesmo um ser incompreensível, a sua vida fica
privada de sentido, se não lhe for revelado o amor, se não se encontra com o
amor, se não o experimenta e não o faz seu, se não participa nele vivamente´
[126].
Trata´se de um amor que
compromete a pessoa inteira, nas suas dimensões e componentes físicas,
psíquicas e espirituais, e se exprime no ´significado nupcial´ do corpo humano,
graças ao qual a pessoa faz entrega de si mesma a outra e a acolhe. Para a
compreensão e realização desta ´verdade´ do amor humano, tende a educação
sexual rectamente entendida. Efectivamente, devemos dar´nos conta de uma
situação social e cultural difundida ´que ´banaliza´ em grande parte a
sexualidade humana porque a interpreta e a vive de modo redutor e empobrecido,
relacionando´a unicamente com o corpo e com o prazer egoísta´ [127].
Frequentemente as próprias situações familiares, de onde provêem as vocações
sacerdotais, revelam a este respeito não poucas carências, e por vezes até
graves desequilíbrios.
Num tal contexto,
torna´se mais difícil, mas também mais urgente, uma educação para a sexualidade
que seja verdadeira e plenamente pessoal e que, portanto, dê lugar à estima e
ao amor pela castidade, como ´virtude que desenvolve a autêntica maturidade da
pessoa e que a torna capaz de respeitar e promover o ´significado nupcial´ do
corpo´ [128].
Ora a educação para o
amor responsável e a maturidade afectiva da pessoa tornam´se absolutamente
necessárias para quem, como o presbítero, é chamado ao celibato, ou seja, a
oferecer, pela graça do Espírito e com a resposta livre da própria vontade, a
totalidade do seu amor e da sua solicitude a Jesus Cristo e à Igreja. Em vista
do compromisso celibatário, a maturidade afectiva deve saber incluir, no âmbito
das relações humanas de serena amizade e de profunda fraternidade, um grande
amor vivo e pessoal a Jesus Cristo. Como escreveram os Padres sinodais, ´é de
capital importância no suscitar a maturidade afectiva o amor de Cristo,
prolongado numa dedicação universal. Assim o candidato, chamado ao celibato,
encontrará na maturidade afectiva um fulcro seguro para viver a castidade na
fidelidade e na alegria´ [129].
Pois que o carisma do
celibato, mesmo quando é autêntico e provado, deixa intactas as tendências da
afectividade e as excitações do instinto, os candidatos ao sacerdócio precisam
de uma maturidade afectiva capaz de prudência, de renúncia a tudo o que a pode
atacar, de vigilância sobre o corpo e o espírito, estima e respeito pelas
relações interpessoais com homens e mulheres. Uma ajuda preciosa pode ser dada
por uma adequada educação para a verdadeira amizade, à imagem dos vínculos de
fraterno afecto que o próprio Cristo viveu na sua existência (cf. Jo 11, 5).
A maturidade humana em
geral, e a afectiva em particular, exigem uma formação clara e sólida para uma
liberdade que se configura como obediência convicta e cordial à ´verdade´ do
próprio ser, e ao ´significado´ do próprio existir, ou seja, ao ´dom sincero de
si mesmo´ como caminho e fundamental conteúdo da autêntica realização do
próprio ser´ [130]. Assim entendida, a liberdade requer que a pessoa seja
verdadeiramente dona de si mesma, decidida a combater e a superar as diversas
formas de egoísmo e de individualismo, que atacam a vida de cada um, pronta a
abrir´se aos outros, generosa na dedicação e no serviço do próximo. Isto é
importante para a resposta a dar à vocação, e de uma forma especial à
sacerdotal, e para a fidelidade a essa vocação bem como aos compromissos com
ela conexos, mesmo nos momentos difíceis. Neste itinerário educativo para uma
amadurecida liberdade responsável, um auxílio pode vir da própria vida
comunitária do Seminário [131].
Intimamente ligada à
formação para a liberdade responsável, está a educação da consciência moral:
esta, enquanto solicita do íntimo do próprio ´eu´ a obediência às obrigações
morais, revela o significado profundo de tal obediência, isto é, o de ser uma
resposta consciente e livre, e por conseguinte amorosa, às exigências de Deus e
do Seu amor. ´A maturidade humana do sacerdote ´ escrevem os Padres sinodais ´
deve incluir especialmente a formação da sua consciência. O candidato, de
facto, para poder fielmente satisfazer às suas obrigações para com Deus e a
Igreja e para poder sapientemente orientar as consciências dos fiéis, deve ser
habituado a escutar a voz de Deus que lhe fala no íntimo do coração e a aderir
com amor e firmeza à sua vontade´ [132].
A formação espiritual: em
comunhão com Deus e à procura de Cristo
45. A própria formação
humana, se desenvolvida no contexto de uma antropologia que respeite a
totalidade da verdade sobre o homem, abre´se e completa´se na formação
espiritual. Cada homem, criado por Deus e redimido pelo sangue de Cristo, é
chamado a ser regenerado ´pela água e pelo Espírito´ (cf. Jo 3, 5) e a
tornar´se ´filho no Filho´. Está neste desígnio eficaz de Deus, o fundamento da
dimensão constitutivamente religiosa do ser humano, aliás intuída e reconhecida
pela simples razão: o homem está aberto ao transcendente, ao absoluto; possui
um coração que vive inquieto enquanto não repousa no Senhor [133].
É desta fundamental e
indispensável exigência religiosa que parte e se desenrola o processo educativo
de uma vida espiritual, entendida como relação e comunicação com Deus. Segundo
a revelação e a experiência cristã, a formação espiritual possui a
inconfundível originalidade que provém da ´novidade´ evangélica. Efectivamente
´essa formação é obra do Espírito e compromete a pessoa na sua totalidade;
introduz na comunhão profunda com Jesus Cristo, Bom Pastor; conduz a uma
submissão de toda a vida ao Espírito numa atitude filial para com o Pai, e numa
ligação fiel à Igreja. A formação espiritual radica na experiência da cruz para
poder introduzir, em profunda comunhão, na totalidade do mistério pascal´
[134].
Como se pode ver,
trata´se de uma formação espiritual que é comum a todos os fiéis, mas que exige
ser estruturada segundo aqueles significados e conotações que derivam da
identidade do presbítero e do seu ministério. E como para cada fiel, a formação
espiritual se deve considerar central e unificante relativamente ao ser e ao
viver do cristão, ou seja, da nova criatura em Cristo que caminha segundo o
Espírito, assim, para cada sacerdote, a formação espiritual constitui o coração
que unifica e vivifica o seu ´ser padre´ e o seu ´agir de padre´. Neste
contexto, os Padres do Sínodo afirmam que ´sem a formação espiritual, a
formação pastoral desenrolar´se´ia privada de qualquer fundamento´ [135] e que
a formação espiritual constitui ´como que o elemento de maior importância na
formação sacerdotal´ [136].
O conteúdo essencial da
formação espiritual num preciso itinerário para o sacerdócio, é claramente
expresso pelo decreto conciliar Optatam totius: ´A formação espiritual (...)
seja ministrada de tal modo que os alunos aprendam a viver em íntima comunhão e
familiaridade com o Pai por meio do seu Filho Jesus Cristo no Espírito Santo.
Destinados a configurar´se a Cristo Sacerdote por meio da ordenação,
habituem´se também a viver intimamente unidos a Ele, como amigos, em toda a sua
vida. Vivam o mistério pascal de Cristo, de modo a saberem um dia iniciar nele
o povo que lhes será confiado. Sejam ensinados a procurar Cristo por meio da
fiel meditação da Palavra de Deus; pela participação activa nos mistérios sacrossantos
da Igreja, sobretudo na Eucaristia, e na Liturgia das Horas; por meio do Bispo
que os envia e dos homens a quem são enviados, especialmente os pobres,
simples, doentes, pecadores e descrentes. Com confiança filial, amem e venerem
a Santíssima Virgem Maria que foi entregue por Jesus moribundo na cruz, como
Mãe, ao seu discípulo´ [137].
46. O texto conciliar
merece uma cuidada meditação, da qual se podem facilmente extrair alguns
valores fundamentais e exigências do caminho espiritual do candidato ao
sacerdócio.
Impõe´se, antes de mais
nada, o valor e a exigência de ´viver intimamente unidos´ a Jesus Cristo. A
união ao Senhor Jesus, que se fundamenta no Baptismo e se alimenta com a
Eucaristia, exige exprimir´se na vida de cada dia, renovando´a radicalmente. A
íntima comunhão com a Santíssima Trindade, ou seja, a vida nova da graça que
nos torna filhos de Deus, constitui a ´novidade´ do crente: uma novidade que
envolve o ser e o operar. Constitui o ´mistério´ da existência cristã que está
sob o influxo do Espírito: deve constituir, por conseguinte, o ´ethos´ da vida
do cristão. Jesus ensinou´nos este maravilhoso conteúdo da vida cristã, que é
ao mesmo tempo o coração da vida espiritual, com a alegoria da videira e dos
sarmentos: ´Eu sou a verdadeira videira e o meu Pai é o agricultor (...)
permanecei em mim e eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto se não estiver
unido à videira, assim também vós se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira
e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque
sem mim nada podereis fazer´ (Jo 15, 1.4´5).
Na cultura actual, não
faltam, é certo, valores espirituais e religiosos, e o homem, apesar de toda a
aparência em contrário, permanece incansavelmente um faminto e sedento de Deus.
Porém, muitas vezes a religião cristã arrisca´se a ser considerada uma religião
entre muitas outras, senão mesmo a ser reduzida a uma pura ética social ao
serviço do homem. Assim nem sempre emerge a sua desconcertante ´novidade´ na
história: ela é ´mistério´, é o evento do Filho de Deus, que se faz homem, e dá
a quantos o acolhem ´o poder de se tornarem filhos de Deus´ (Jo 1, 12), é o
anúncio, mais, é o dom da aliança pessoal de amor e de vida de Deus com o
homem. Só se os futuros sacerdotes, por meio de uma adequada formação
espiritual, tiverem de facto uma consciência profunda e experiência crescente
deste ´mistério´, poderão comunicar aos outros tão surpreendente e beatificante
anúncio (cf. 1 Jo 1,1´4).
O texto conciliar, ainda
que consciente da absoluta transcendência do mistério cristão, conota a íntima
comunhão dos futuros sacerdotes com Jesus, com o matiz da amizade. Esta não é
uma absurda presunção do homem. É simplesmente o dom inestimável de Cristo, que
disse aos seus apóstolos: ´Já não vos chamo servos porque o servo não sabe o
que faz o seu senhor; chamo´vos amigos porque tudo o que ouvi de meu Pai vo´lo
dei a conhecer´ (Jo 15,15).
O trecho referido
indicando um segundo grande valor espiritual: a procura de Jesus. ´Ensinem´se a
procurar Cristo´. E este, juntamente com o quaerere Deum, um tema clássico da
espiritualidade cristã, que encontra uma aplicação específica no âmbito da
vocação dos apóstolos. João, ao narrar o seguimento de Jesus dos dois primeiros
discípulos, põe em claro o lugar ocupado por esta ´procura´. É o próprio Jesus
que põe a pergunta: ´Que procurais?´ E os dois respondem: ´Mestre, onde
moras?´. Prossegue o evangelista: ´Disse´lhes: ´vinde ver´. Foram e viram onde
habitava e naquele dia ficaram com ele´ (Jo 1, 37´39). Em certo sentido, a vida
espiritual de quem se prepara para o sacerdócio é dominada por esta procura:
por esta e pelo ´encontrar´ o Mestre, para o seguir e permanecer em comunhão
com Ele. Também no ministério e na vida sacerdotal, esta procura deverá
continuar, tão inesgotável é o mistério da imitação e da participação na vida
de Cristo. Assim como deverá continuar este ´encontrar´ o Mestre, para
transmiti´lo aos outros, melhor ainda, para despertar nos outros o desejo de
procurar o Mestre. Mas isto só é verdadeiramente possível se for proposta aos
outros uma ´experiência´ de vida, uma experiência que mereça ser partilhada.
Foi este o caminho seguido por André para conduzir o irmão, Simão, a Jesus:
André, escreve o evangelista João, ´encontrou em primeiro lugar Simão, seu irmão,
e disse´lhe: encontrámos o Messias (que significa Cristo) e conduziu´o a Jesus´
(Jo 1, 41´42). E assim também Simão será chamado como apóstolo, para o
seguimento do Messias: ´Jesus, fixando nele o olhar, disse: ´Tu és Simão filho
de João; chamar´te´ás Cefas (que quer dizer Pedro)´´ (Jo 1,42).
Mas que significa na vida
espiritual procurar Cristo? E onde encontrá´Lo? ´Mestre, onde moras?´. O
decreto conciliar Optatam totius indica um tríplice caminho a percorrer: a fiel
meditação da Palavra de Deus, a activa participação nos mistérios sacrossantos
da Igreja, o serviço da caridade aos simples. São três grandes valores e
exigências que definem ulteriormente o conteúdo da formação espiritual do
candidato ao sacerdócio.
47. Elemento essencial da
formação espiritual é a leitura meditada e orante da Palavra de Deus (lectio
divina), é a escuta humilde e cheia de amor d´Aquele que fala. É, de facto, à
luz e pela força da Palavra de Deus, que pode ser descoberta, compreendida,
amada e seguida a própria vocação e levada a cabo a própria missão, a ponto de
que a inteira existência encontra o seu significado unitário e radical no ser
ponto de chegada da Palavra de Deus que chama o homem e o ponto de partida da
palavra do homem que responde a Deus. A familiaridade com a Palavra de Deus
facilitará o itinerário de conversão não apenas no sentido de se separar do mal
para aderir ao bem, mas também no sentido de se alimentar no coração os
pensamentos de Deus, de modo que a fé, qual resposta à Palavra, se torne o novo
critério de juízo e avaliação dos homens e das coisas, dos acontecimentos e dos
problemas.
Contanto que a Palavra de
Deus seja abordada e acolhida na sua verdadeira natureza, ela leva a encontrar
o próprio Deus, Deus que fala ao homem; leva a encontrar Cristo, Verbo de Deus,
a Verdade que ao mesmo tempo é Caminho e Vida (cf. Jo 14, 6). Trata´se de ler
as ´escrituras´ escutando as ´palavras´, a ´Palavra´ de Deus, como nos recorda
o Concílio: ´As Sagradas Escrituras contêm a Palavra de Deus, e, porque
inspiradas, são verdadeiramente Palavra de Deus´ [138].E ainda noutro passo:
´Com esta revelação, de facto, Deus invisível (cf. Col 1, 15; 1 Tim 1, 7), no
seu imenso amor fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14´15) e
convive com eles (cf. Bar 3, 38), para os convidar e admitir à comunhão com
Ele´ [139].
O conhecimento amoroso e
a familiaridade orante com a Palavra de Deus revestem um significado específico
no ministério profético do sacerdote, para cujo adequado desenvolvimento se
tornam uma condição imprescindível, sobretudo no contexto da ´nova
evangelização´, à qual a Igreja é hoje chamada. O Concílio adverte: ´É
necessário que todos os clérigos, e sobretudo os sacerdotes de Cristo e outros
que, como os diáconos e os catequistas, servem legitimamente ao ministério da
Palavra, mantenham um contacto íntimo com as Escrituras mediante a leitura
assídua e o estudo diligente, a fim de que nenhum deles se torne ´pregador vão
e superficial da Palavra de Deus, por não a ouvir de dentro´ (SANTO AGOSTINHO,
Sermão 179, 1: PL 38, 966)´ [140].
A primeira e fundamental
forma de resposta à Palavra é a oração, que representa, sem qualquer sombra de
dúvida, um valor e uma exigência primária na formação espiritual. Esta deve
levar os candidatos ao sacerdócio a conhecerem e experimentarem o sentido
autêntico da oração cristã, isto é, o de ser um encontro vivo e pessoal com o
Pai pelo Filho unigénito e sob a acção do Espírito Santo, um diálogo que se faz
participação do colóquio filial que Jesus tem com o Pai. Um aspecto não por
certo secundário da missão do padre é o de ser ´educador para a oração´. Mas só
se ele foi formado e continua a formar´se na escola de Jesus orante, é que
poderá formar os outros na mesma escola. Isto mesmo lhe pedem os homens : ´O
sacerdote é o homem de Deus, aquele que pertence a Deus e faz pensar em Deus.
Quando a Carta aos Hebreus fala de Cristo, apresenta´O como um ´sumo sacerdote
misericordioso e fiel nas coisas que dizem respeito a Deus´ (Heb 2, 17) (...)
Os cristãos esperam encontrar no sacerdote não só um homem que os acolhe, que
os escuta com todo o gosto e lhes testemunha uma sincera simpatia, mas também e
sobretudo um homem que os ajuda a ver Deus, a subir em direcção a Ele. É
necessário, portanto, que o sacerdote seja formado para uma profunda intimidade
com Deus. Aqueles que se preparam para o sacerdócio devem compreender que todo
o valor da sua vida sacerdotal dependerá do dom que souberem fazer de si mesmos
a Cristo e, por meio de Cristo, ao Pai´ [141].
Num contexto de agitação
e ruído como o da nossa sociedade, uma necessária pedagogia para a oração é a
educação para o sentido profundamente humano e para o valor religioso do
silêncio, qual atmosfera espiritual indispensável para se perceber a presença
de Deus e para se deixar conquistar por ela (cf. 1 Re 19,11´14).
48. O ponto culminante da
oração cristã é a Eucaristia, que, por sua vez, se sitúa como ´cume e fonte´
dos Sacramentos e da Liturgia das Horas. Para a formação espiritual de todo e
qualquer cristão, e especialmente do sacerdote, é inteiramente necessária a
educação litúrgica, no pleno sentido de uma inserção vital no mistério pascal
de Jesus Cristo morto e ressuscitado, presente e operante nos sacramentos da
Igreja. A comunhão com Deus, fulcro de toda a vida espiritual, é dom e fruto
dos sacramentos; e ao mesmo tempo é tarefa e responsabilidade que os
sacramentos confiam à liberdade do crente, para que viva esta mesma comunhão
nas decisões, opções, atitudes e acções da sua existência quotidiana. Nesse
sentido, a ´graça´, que torna ´nova´ a vida cristã, é a graça de Jesus Cristo
morto e ressuscitado, que continua a derramar o seu Espírito Santo e a
santificar nos Sacramentos; tal como a ´nova lei´, que deve guiar e regular a
existência do cristão, a graça é inscrita pelos sacramentos no ´coração novo´.
Ela é ainda lei de caridade para com Deus e os irmãos, qual resposta e
prolongamento do amor de Deus pelo homem, significado e comunicado pelos
sacramentos. Pode´se compreender imediatamente o valor de uma participação
´plena, consciente e activa´ [142], nas celebrações sacramentais, para o dom e
a tarefa daquela ´caridade pastoral´ que constitui a alma do ministério
sacerdotal.
Isto vale sobretudo para
a participação na Eucaristia, memorial da morte sacrificial de Cristo e da sua
gloriosa ressurreição, ´sacramento de piedade, sinal de unidade e vínculo de
caridade´ [143], banquete pascal no qual ´se recebe Cristo, a alma se enche de
graça e nos é dado o penhor da glória futura´ [144]. Ora os padres, na sua
qualidade de ministros das coisas sagradas, são sobretudo os ministros do
sacrifício da Missa [145]: o seu papel é absolutamente insubstituível, pois sem
sacerdote não pode haver oferta eucarística.
Isto explica a
importância especial da Eucaristia na vida e ministério sacerdotal, e
consequentemente na formação espiritual dos candidatos ao sacerdócio. Com
grande simplicidade e no propósito de ser extremamente concreto, repito:
´Convém, portanto, que os seminaristas participem diariamente na celebração
eucarística, de tal modo que depois assumam como regra da sua vida sacerdotal
esta celebração quotidiana. Eles deverão ser também educados no sentido de
considerar a celebração eucarística como o momento essencial do seu dia a dia,
no qual participarão activamente, jamais se contentando com uma mera
assistência rotineira. Enfim,os candidatos ao sacerdócio devem ser formados nas
íntimas disposições que a Eucaristia promove: o reconhecimento pelos benefícios
recebidos do Alto, pois a Eucaristia é acção de graças; a atitude oblativa que os
impele a unir à oferta eucarística de Cristo, a própria oferta pessoal; a
caridade alimentada por um sacramento que é sinal de unidade e de partilha; o
desejo de contemplação e de adoração diante de Cristo realmente presente sob as
espécies eucarísticas´ [146].
Imperioso e muito urgente
é o apelo a redescobrir, no âmbito da formação espiritual, a beleza e a alegria
do sacramento da Penitência. Numa cultura que, com renovadas e cada vez mais
subtis formas de autojustificação, se arrisca a perder fatalmente o ´sentido do
pecado´, e, em consequência, a alegria consoladora do pedido de perdão (cf. Sal
51, 14) e do encontro com Deus ´rico de misericórdia´ (Ef 2, 4), urge educar os
futuros presbíteros para a virtude da penitência, que é sapientemente alimentada
pela Igreja nas suas celebrações e nos tempos do ano litúrgico e que encontra a
sua plenitude no acramento da Reconciliação. Daqui brotam o sentido da ascese e
da disciplina interior, o espírito de sacrifício e de renúncia, a aceitação da
fadiga e da cruz. Trata´se de elementos da vida espiritual que muitas vezes se
revelam particularmente árduos para tantos candidatos ao sacerdócio criados em
condições relativamente cómodas e abastadas e por isso tornados menos dispostos
e sensíveis a estes mesmos elementos pelos modelos de comportamento e pelos
ideais veiculados pelos meios de comunicação social, mesmo nos países onde as
condições de vida são mais limitadas e a situação juvenil se apresenta mais
austera. Por isso, mas sobretudo para realizar, segundo o exemplo de Cristo Bom
Pastor, a ´radical entrega da si mesmo´, própria dos sacerdotes, os Padres
sinodais escreveram: ´É necessário inculcar o sentido da cruz que está no
coração do mistério pascal. Graças a esta identificação com Cristo crucificado,
enquanto servo, o mundo pode reencontrar o valor da austeridade,da dor e mesmo
do martírio, no interior da actual cultura embebida de secularismo, de avidez e
de hedonismo´ [147].
49. A formação espiritual
comporta ainda o procurar Cristo nos homens. A vida espiritual é, de facto,
vida interior, vida de intimidade com Deus, vida de oração e de contemplação.
Mas precisamente o encontro com Deus e com o seu amor de Pai de todos, implica
a exigência indeclinável do encontro com o próximo, do dom de si aos outros, no
serviço humilde e desinteressado que Jesus propôs a todos como programa de
vida, ao lavar os pés aos apóstolos: ´Dei´vos o exemplo, para que tal como eu
fiz, assim façais vós também´ (Jo 13,15).
A formação para o dom
generoso e gratuito de si mesmo, favorecido também pela forma comunitária
normalmente assumida na preparação para o sacerdócio, representa uma condição
irrecusável para quem é chamado a fazer´se epifania e transparência do Bom
Pastor que dá a vida (cf. Jo 10, 11.15). Sob este aspecto, a formação
espiritual possui e deve desenvolver a sua intrínseca dimensão pastoral ou
caritativa, e pode utilmente servir´se também de uma justa, ou seja, sólida e
terna devoção ao Coração de Cristo, como sublinharam os Padres sinodais:
´Formar os futuros sacerdotes na espiritualidade do Coração do Senhor, implica
levar uma vida que corresponda ao amor e ao afecto de Cristo Sacerdote e Bom
Pastor: ao seu amor para com o Pai no Espírito Santo, ao seu amor para com os
homens até entregar em imolação a sua própria vida´ [148].
O presbítero é, portanto,
o homem da caridade, e é chamado a educar os outros para a imitação de Cristo e
para o Seu mandamento novo do amor fraterno (cf. Jo 15, 12). Mas isto implica
que ele próprio se deixe continuamente educar pelo Espírito para a caridade de
Cristo. Nesse sentido, a preparação para o sacerdócio não pode deixar de
implicar uma séria formação para a caridade, particularmente para o amor
preferencial pelos ´pobres´, nos quais a fé descobre a presença de Jesus (cf.
Mt 25, 40), e para o amor misericordioso pelos pecadores.
Na perspectiva da
caridade, que consiste no dom de si mesmo por amor, encontra o seu lugar, na
formação espiritual do futuro sacerdote, a educação para a obediência, para o
celibato e para a pobreza [149]. Vai neste sentido o convite do Concílio: ´Que
os alunos saibam de modo bem claro que não são destinados ao mando nem às
honras, mas que se devem ocupar totalmente no serviço de Deus e no ministério
pastoral. Sejam educados com particular solicitude para a obediência
sacerdotal, na pobreza de vida e para uma abnegação de si mesmos, de tal
maneira que se habituem a renunciar generosamente mesmo àquilo que, sendo
lícito, não é conveniente, e a viver em conformidade com Cristo crucificado´
[150].
50. A formação espiritual
de quem é chamado a viver o celibato deve reservar uma atenção particular na
preparação do futuro sacerdote para conhecer, estimar, amar e viver o celibato
na sua verdadeira natureza e nos seus verdadeiros fins, portanto nas suas
motivações evangélicas, espirituais e pastorais. Pressuposto e conteúdo desta
preparação é a virtude da castidade que qualifica todas as relações humanas e
que leva ´a experimentar e a manifestar (...) um amor sincero, humano e
fraterno, pessoal e capaz de sacrifícios, a exemplo de Cristo, para com todos e
cada um´ [151].
O celibato dos sacerdotes
conota a castidade de algumas características em virtudedas quais eles, ´por
amor do reino dos céus, renunciando à vida conjugal (cf. Mt 19, 12), aderem com
amor indivisível ao Senhor muito em conformidade com a nova Aliança, dão
testemunho da ressurreição da vida futura (cf. Lc 20, 36), e obtêm um auxílio
muitíssimo útil para o exercício contínuo daquela perfeita caridade pela qual
podem no ministério sacerdotal fazer´se tudo para todos´ [152]. Numa tal ordem
de idéias, não se deve considerar o celibato sacerdotal como simples norma
jurídica, nem como condição meramente exterior para ser admitido à ordenação,
mas antes como valor profundamente conexo com a Ordenação sacra, que configura
a Cristo Bom Pastor e Esposo da Igreja, e portanto como a escolha de um amor
maior e indivisível a Cristo e à sua Igreja, na disponibilidade plena e alegre
do coração para o ministério pastoral. O celibato deve considerar´se como uma
graça especial, como um dom: ´nem a todos é dado compreender, mas somente
àqueles a quem foi concedido´ (Mt 19, 11). Certamente uma graça que não
dispensa, antes exige com particular energia a resposta consciente e livre da
parte de quem a recebe. Este carisma do Espírito encerra também a força para
que aquele que o recebe permaneça fiel por toda a vida e cumpra com
generosidade e com alegria os compromissos que lhe estão inerentes. Na formação
para o celibato sacerdotal deverá ser assegurada a consciência do ´precioso dom
de Deus´ [153], a qual conduzirá à oração e à vigilância para que esse dom seja
protegido de tudo o que o possa ameaçar.
Vivendo o celibato, o
sacerdote poderá desempenhar melhor o seu ministério no meio do Povo de Deus.
Em particular, enquanto testemunha do valor evangélico da virgindade, poderá
apoiar os esposos cristãos a viverem em plenitude o ´grande sacramento´ do amor
de Cristo Esposo pela Igreja sua Esposa, ao mesmo tempo que a sua fidelidade no
celibato constituirá uma ajuda para a fidelidade dos esposos [154].
A importância e a
delicadeza da preparação para o celibato sacerdotal, especialmente nas actuais
condições sociais e culturais, levaram os Padres sinodais a uma série de apelos
cuja validade permanente é, aliás, confirmada pela sapiência da Igreja mãe.
Reproponho´os autorizadamente, como critérios a seguir na formação para a
castidade no celibato: ´Os bispos, juntamente com os reitores e directores
espirituais dos seminários estabeleçam princípios, proporcionem critérios e
dêem ajuda para o discernimento nesta matéria. De máxima importância na
formação para a castidade no celibato, são a solicitude do Bispo e a vida
fraterna entre os sacerdotes. No seminário, ou seja, no seu programa de
formação, o celibato deve ser apresentado com clareza, sem qualquer ambiguidade
e de modo positivo. O seminarista deve possuir grande maturidade psíquica e
sexual, bem como uma vida assídua e autêntica de oração e deve colocar´se sob a
guia de um director espiritual. Este deve ajudar o seminarista para que ele
mesmo chegue a uma decisão madura e livre, que se fundamente na estima da
amizade sacerdotal e da autodisciplina, como também na aceitação da solidão e
num recto equilíbrio pessoal físico e psicológico. Para isto, os seminaristas
conheçam bem a doutrina do Concílio Vaticano II, a Encíclica Sacerdotalis
Caelibatus e a Instrução sobre a formação para o celibato sacerdotal, emanada
da Congregação para a Educação Católica em 1974. Para que o seminarista possa
abraçar com decisão livre o celibato sacerdotal pelo Reino dos céus, é
necessário que conheça a natureza cristã e verdadeiramente humana bem como os
fins da sexualidade no matrimónio e no celibato. É preciso também instruir e
educar os fiéis leigos acerca das motivações evangélicas, espirituais e pastorais
próprias do celibato sacerdotal de modo que ajudem os presbíteros com a
amizade, a compreensão e a colaboração´ [155].
A formação intelectual: a
inteligência da fé
51. A formação
intelectual, embora possua a sua especificidade, liga´se profundamente com a
formação humana e espiritual, a ponto de constituir uma sua expressão
necessária: configura´se efectivamente como uma exigência irreprimível da
inteligência pela qual o homem ´participa da luz da inteligência de Deus´ e
procura adquirir uma sabedoria que, por sua vez, se abre e orienta para o
conhecimento e a adesão a Deus [156].
A formação intelectual
dos candidatos ao sacerdócio encontra a sua específica justificação na própria
natureza do ministério ordenado e manifesta a sua urgência actual de fronte ao
desafio da ´nova evangelização´, à qual o Senhor chama a Igreja no limiar do
terceiro milénio. ´Se já cada cristão ´escrevem os Padres sinodais ´ deve estar
pronto a defender a fé e a dar a razão da esperança que vive em nós´ (cf. 1 Ped
3, 15), com muito maior razão os candidatos ao sacerdócio e os presbíteros
devem manifestar um diligente cuidado pelo valor da formação intelectual na
educação e na actividade pastoral, dado que, para a salvação dos irmãos e
irmãs, devem procurar um conhecimento cada vez mais profundo dos mistérios
divinos´ [157]. Além disso, a situação actual, profundamente marcada pela
indiferença religiosa e ao mesmo tempo por uma difusa desconfiança
relativamente às reais capacidades da razão para atingir a verdade objectiva e
universal, e pelos problemas e questões inéditos provocados pelas descobertas
científicas e tecnológicas, exige prementemente um nível excelente de formação
intelectual, que torne os sacerdotes capazes de anunciar, exactamente num tal
contexto, o imutável Evangelho de Cristo, e torná´lo digno de credibilidade
diante das legítimas exigências da razão humana. Acrescente´se ainda que o
actual fenómeno do pluralismo, bem acentuado não só no âmbito da sociedade
humana mas também no da própria comunidade eclesial, requer uma particular
atitude de discernimento crítico: é um ulterior motivo, que demonstra a
necessidade de uma formação intelectual o mais séria possível.
Esta motivação ´pastoral´
da formação intelectual confirma quanto se disse já sobre a unidade do processo
educativo, nas suas diferentes dimensões. A obrigação do estudo, que preenche
uma grande parte da vida de quem se prepara para o sacerdócio, não constitui de
modo algum uma componente exterior e secundária do crescimento humano, cristão,
espiritual e vocacional: na realidade, por meio do estudo, particularmente da
teologia, o futuro sacerdote adere à palavra de Deus, cresce na sua vida
espiritual e dispõe´se a desempenhar o seu ministério pastoral. É este o
objectivo unitário e multifacetado do estudo teológico preconizado pelo
Concílio [158] e reproposto pelo Instrumentum laboris do Sínodo: ´Para que
possa ser pastoralmente eficaz, a formação intelectual deve ser integrada num
caminho espiritual marcado pela experiência pessoal de Deus, de modo a poder superar
uma pura ciência conceptual e chegar àquela inteligência do coração que sabe
´ver´ primeiro o mistério de Deus e depois é capaz de comunicá´lo aos irmãos´
[159].
52. Um momento essencial
da formação intelectual é o estudo da Filosofia que leva a uma compreensão e
interpretação mais profunda da pessoa, da sua liberdade, das suas relações com
o mundo e com Deus. Aquela revela´se de grande importância, não apenas pelo
nexo que existe entre os argumentos filosóficos e os mistérios da salvação
estudados em teologia, à luz superior da fé [160], mas também face a uma
situação cultural bastante generalizada que exalta o subjectivismo como
critério e medida da verdade: somente uma sã filosofia pode ajudar os
candidatos ao sacerdócio a desenvolverem uma consciência reflexiva da relação
constitutiva existente entre o espírito humano e a verdade, essa verdade que se
nos revela plenamente em Jesus Cristo. Nem é de subestimar a importância da
filosofia no sentido de garantir aquela ´certeza da verdade´, a única que pode
estar na base da entrega pessoal a Jesus Cristo e à Igreja. Não será difícil
compreender como algumas questões muito concretas, quais são a identidade do
sacerdote e o seu compromisso apostólico e missionário, se encontrem
profundamente ligadas à questão, nada abstracta, da própria verdade: se não se
está certo da verdade, como é possível pôr em jogo a própria vida inteira e ter
força para interpelar a sério a vida dos outros?
A filosofia ajuda imenso
o candidato a enriquecer a sua formação intelectual com o ´culto da verdade´,
isto é, uma espécie de veneração amorosa pela verdade, que leva a reconhecer
que esta não é criada e medida pelo homem, mas é confiada ao homem como dom da
Verdade suprema, Deus; que, mesmo com limites e por vezes com dificuldade, a
razão humana pode atingir a verdade objectiva e universal, inclusive aquela que
diz respeito a Deus e ao sentido radical da existência; que a própria fé não
pode prescindir da razão e do afã de ´pensar´ os seus conteúdos, como
testemunhava a grande mente de Agostinho: ´Desejei ver com a inteligência o que
acreditei, e muito tive que discutir e esforçar´me´ [161].
Para uma compreensão mais
profunda do homem, bem como dos fenómenos e das linhas evolutivas da sociedade,
em ordem ao exercício o mais ´incarnado´ possível do ministério pastoral, podem
ser de grande utilidade as chamadas ´ciências do homem´ como a sociologia, a
psicologia, a pedagogia, a ciência da economia e da política, a ciência da
comunicação social. Embora sejam do âmbito bem preciso das ciências positivas
ou descritivas, estas ajudam o futuro sacerdote a prolongar a
´contemporaneidade´ vivida por Cristo. ´Cristo ´dizia Paulo VI ´ fez´se
contemporâneo a alguns homens e falou a sua linguagem. A fidelidade ao mesmo
Cristo exige que esta contemporaneidade continue´ [162].
53. A formação
intelectual do futuro sacerdote baseia´se e constrói´se sobretudo sobre o
estudo da sacra doctrina, da teologia. O valor e a autenticidade da formação
teológica dependem do respeito escrupuloso pela própria natureza da teologia,
que os Padres sinodais compendiaram do seguinte modo: ´A verdadeira teologia
provém da fé e quer conduzir à fé´ [163]. É esta a concepção que a Igreja, e o
seu Magistério de uma forma especial, têm constantemente proposto. É esta a linha
seguida pelos grandes teólogos que, ao longo dos séculos, vêm enriquecendo o
pensamento da Igreja. S.Tomás é bem explícito ao afirmar que a fé é como que o
habitus da teologia, ou seja, o seu princípio operativo permanente, [164] e que
toda a teologia se ordena para a alimentação da fé [165].
Portanto o teólogo é
antes de mais um crente, um homem de fé. Mas é um crente e fá´lo sobre a
própria fé (fides quaerens intellectum), que se interroga com o fim de atingir
uma compreensão mais profunda da própria fé. Os dois aspectos, a fé e a
reflexão madura, estão profundamente conexos, entrelaçados: precisamente a sua
íntima coordenação e compenetração decide a verdadeira natureza da teologia, e,
consequentemente decide, os conteúdos, modalidades e espírito, segundo o qual a
sacra doctrina deve ser elaborada e estudada.
Porque a fé, ponto de
partida e de chegada da teologia, realiza uma relação pessoal do crente com
Jesus Cristo na Igreja, também a teologia possui intrínsecas conotações
cristológicas e eclesiais, que o candidato ao sacerdócio deve conscientemente
assumir, não só pelas implicações que dizem respeito à sua vida pessoal, mas
também por aquelas que tocam o seu ministério pastoral. Se é acolhimento da
Palavra de Deus, a fé gera um ´sim´ radical do crente a Jesus Cristo, Palavra
plena e definitiva de Deus ao mundo (cf. Heb 1, 1´2). Em consequência disto, a
reflexão teológica encontra o próprio centro na adesão a Jesus Cristo,
Sabedoria de Deus: a própria reflexão madura deve considerar´se uma participação
no ´pensamento´ de Cristo (cf. 1 Cor 2, 16), na forma humana de uma ciência
(scientia fidei). Ao mesmo tempo, a fé insere o crente na Igreja e torna´o
participante na vida desta, enquanto comunidade de fé. Por conseguinte, a
teologia possui uma dimensão eclesial porque é uma reflexão madura sobre a fé
da Igreja, realizada pelo teólogo que é membro da Igreja [166].
Estas perspectivas
cristológicas e eclesiais, que são conaturais à teologia, ajudam a desenvolver
nos candidatos ao sacerdócio, juntamente com o rigor científico, um grande e
vivo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja: este amor, ao mesmo tempo que nutre a
sua vida espiritual, orienta´os para o generoso desempenho do seu ministério.
No fim de contas, era precisamente esta a intenção do Concílio Vaticano II ao
solicitar a reorganização dos estudos eclesiásticos, dispondo melhor as várias
disciplinas filosóficas e teológicas e fazendo com que elas ´se coordenem de
forma apta e concorram de modo harmónico para que a mente dos alunos se abra ao
mistério de Cristo, que atinge toda a história do género humano, continuamente
penetra a vida da Igreja e se actua principalmente através do ministério
sacerdotal´ [167].
A formação intelectual
teológica e a vida espiritual, particularmente a vida de oração, encontram´se e
reforçam´se mutuamente, sem nada tirar nem à seriedade da investigação nem ao
sabor espiritual da oração. S. Boaventura adverte´nos: ´Ninguém pense que lhe
baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o
assombro, a observação sem a exultação, a actividade sem a piedade, a ciência
sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a
investigação sem a sabedoria da inspiração divina´ [168].
54. A formação teológica
é uma obra complexa e, por isso, exigente. Ela deve levar o candidato ao
sacerdócio a possuir uma visão das verdades reveladas por Deus em Jesus Cristo
e da experiência de fé da Igreja que seja completa e unitária: daqui a dúplice
exigência de conhecer ´todas´ as verdades cristãs, sem fazer opções arbitrárias
e de as conhecer de modo orgânico. Isto requer que o aluno seja ajudado a
realizar uma síntese que constitua o fruto dos dados fornecidos por todas as
disciplinas teológicas, cuja especificidade adquire um autêntico valor apenas na
sua profunda coordenação.
Na sua reflexão
amadurecida sobre a fé, a teologia move´se em duas direcções. A primeira é a do
estudo da Palavra de Deus: a palavra escrita nos Livros Santos, celebrada e
vivida pela Tradição viva da Igreja,e interpretada com autoridade pelo seu
Magistério. Daqui o estudo da Sagrada Escritura, ´que deve ser como que a alma
de toda a teologia´ [169], o estudo dos Padres da Igreja e da Liturgia, da
História da Igreja e da doutrina do Magistério. A segunda direcção é a do
homem, interlocutor de Deus: o homem chamado a ´crer´, a ´viver´, a ´comunicar´
aos outros a fides e o ethos cristão. Daqui o estudo da dogmática, da teologia
moral, da teologia espiritual, do direito canónico e da teologia pastoral.
A referência ao homem
crente leva a teologia a ter uma particular atenção, por um lado, à instância
permanente e fundamental da relação fé´razão, por outro, a algumas exigências
mais ligadas com a situação social e cultural de hoje. No primeiro caso, está o
estudo da teologia fundamental, que tem por objecto o facto da revelação cristã
e a sua transmissão na Igreja. No segundo, temos as disciplinas que conheceram
e conhecem um mais decidido desenvolvimento como resposta a problemas hoje
sentidos mais fortemente. Assim o estudo da doutrina social da Igreja, que
´pertence ao campo da teologia, e especialmente da teologia moral´ [170], e que
é de ter em conta entre as ´componentes essenciais´ da ´nova evangelização´, de
que constitui um instrumento [171]. Da mesma forma, o estudo da missão e do
ecumenismo, do judaísmo, do islamismo e das outras religiões não cristãs.
55. A formação teológica
actual deve prestar atenção a alguns problemas que muitas vezes levantam
dificuldades, tensões, confusões no interior da vida da Igreja. Pense´se no relacionamento
entre as tomadas de posição do Magistério e as discussões teológicas, que nem
sempre se processa como deveria ser, ou seja, sob o signo da colaboração.
Certamente, ´o Magistério vivo da Igreja e a teologia, mesmo tendo dons e
funções diferentes, têm em última análise o mesmo fim: conservar o Povo de Deus
na verdade que liberta fazendo dele, assim, «luz das nações». Este serviço à
comunidade eclesial põe em relação recíproca o teólogo com o Magistério. Este
último ensina autenticamente a doutrina dos apóstolos, e beneficiando do
trabalho teológico, refuta as objecções e as deformações da fé, propondo, além
disso, com a autoridade recebida de Jesus Cristo, novos aprofundamentos,
explicitações e aplicações da doutrina revelada. A teologia, por sua vez,
adquire de modo reflexivo, uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de
Deus, contida na Sagrada Escritura e transmitida fielmente pela Tradição viva
da Igreja sob a orientação do Magistério, procura esclarecer o ensinamento da
Revelação diante das solicitações da razão, e lhes confere, enfim,uma forma
orgânica e sistemática´ [172]. Porém, no momento em que, por uma série de
motivos, esta colaboração esmorece, é preciso não se deixar levar por equívocos
ou confusões, sabendo distinguir cuidadosamente ´entre a doutrina comum da
Igreja e as opiniões dos teólogos ou as tendências que depressa passam (as
chamadas ´modas´)´ [173]. Não existe um magistério ´paralelo´, porque o único
Magistério é o de Pedro e dos apóstolos, do Papa e dos Bispos [174].
Outro problema, sentido
sobretudo onde os estudos seminarísticos são confiados a instituições
académicas, diz respeito à relação entre o rigor científico da teologia e o seu
objectivo pastoral, e, por conseguinte, à natureza pastoral da teologia.
Trata´se, na realidade, de duas características da teologia e do seu ensino,
não se opõem entre si, antes concorrem ambas, ainda que em perspectivas
diversas, para uma ´inteligência da fé´ mais completa. Efectivamente a
pastoralidade da teologia não significa uma teologia menos doutrinal, ou
inclusivamente destituída da sua cientificidade; significa antes que essa
teologia habilita os futuros sacerdotes a anunciar a mensagem evangélica
através dos modos culturais do seu tempo e a considerar a acção pastoral segundo
uma autêntica visão teológica. E assim, por um lado, um estudo respeitador da
cientificidade rigorosa de cada uma das disciplinas teológicas contribuirá para
uma mais completa e profunda formação do pastor de almas como mestre da fé; por
outro, a adequada sensibilidade ao objectivo pastoral tornará verdadeiramente
formativo para os futuros sacerdotes o estudo sério e científico da teologia.
Um ulterior problema é
posto pela exigência, hoje fortemente sentida, da evangelização das culturas e
da inculturação da mensagem da fé. Este é um problema eminentemente pastoral,
que deve entrar com maior amplitude e sensibilidade na formação dos candidatos
ao sacerdócio: ´Nas actuais circunstâncias em que, em várias regiões do mundo,
a religião cristã é considerada como algo de estranho às culturas quer antigas
quer modernas, é de grande importância que em toda a formação intelectual e
humana se considere como necessária e essencial a dimensão da inculturação´
[175]. Mas isto exige primariamente que se tenha uma teologia autêntica,
inspirada nos princípios católicos sobre a inculturação. Estes princípios estão
ligados ao mistério da incarnação do Verbo de Deus e à antropologia cristã e
iluminam o sentido autêntico da inculturação: esta, diante das mais diversas e
por vezes contrastantes culturas presentes nas várias partes do mundo, pretende
ser uma obediência ao mandato de Cristo de pregar o Evangelho a todas as gentes
até aos extremos confins da terra. Uma tal obediência não significa sincretismo
nem simples adaptação do anúncio evangélico, mas que o Evangelho penetra
vitalmente nas culturas, se incarna nelas, superando os elementos culturais das
mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã, e elevando os seus
valores ao mistério da salvação que provém de Cristo [176]. O problema da
inculturação pode ter um interesse específico quando os próprios candidatos ao
sacerdócio provêem de culturas autóctones: terão necessidade, então, de
caminhos adequados de formação, seja para superarem o perigo de ser menos
exigentes e de desenvolver uma educação mais superficial dos valores humanos,
cristãos e sacerdotais, seja para valorizarem os elementos bons e autênticos
das suas culturas e tradições [177].
56. Seguindo os
ensinamentos e orientações do Concílio Vaticano II e as indicações aplicativas
da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, determinou´se na Igreja uma
vasta actualização do ensino das disciplinas filosóficas e sobretudo teológicas
nos seminários. Apesar de ainda carecida em alguns casos de posteriores correcções
e desenvolvimentos, essa actualização contribuiu no seu conjunto para valorizar
cada vez mais a proposta educativa, no âmbito da formação intelectual. A este
respeito, ´os Padres sinodais afirmaram novamente com frequência e clareza a
necessidade, melhor, a urgência de que seja aplicado nos seminários e nas casas
de formação o Plano fundamental de Estudos, tanto o universal, como o de cada
Nação ou Conferência Episcopal´ [178].
É necessário contrariar
decididamente a tendência a reduzir a seriedade e exigência dos estudos, que se
manifesta em alguns contextos eclesiais, como consequência já de uma preparação
de base insuficiente e lacunosa dos alunos que iniciam o currículo filosófico e
teológico. É a própria situação contemporânea a exigir que os mestres estejam
cada vez mais à altura da complexidade dos tempos e em condições de afrontar
com competência, clareza e profundidade de argumentação as carências de sentido
dos homens de hoje, às quais apenas o Evangelho de Jesus Cristo dá resposta
cabal.
A formação pastoral:
comungar da caridade de Cristo Bom Pastor
57. Toda a formação dos
candidatos ao sacerdócio é destinada a dispô´los de modo particular para
comungar da caridade de Cristo, Bom Pastor. Portanto, nos seus diversos
aspectos, esta formação deve ter um carácter essencialmente pastoral. Afirma´o
claramente o decreto conciliar Optatam totius, relativamente aos seminários
maiores: ´a educação dos alunos deve tender para o objectivo de formar
verdadeiros pastores de almas segundo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo
mestre, sacerdote e pastor. Por isso os aqueles sejam preparados: para o
ministério da Palavra, para que a Palavra de Deus revelada seja por eles cada
vez melhor entendida, apropriem´se dela pela meditação, e saibam comunicá´la por
palavras e com a vida; para o ministério do culto e da santificação, para que
pregando e celebrando as acções litúrgicas saibam exercitar a obra da salvação
por meio do sacrifício eucarístico e dos sacramentos; para o ministério de
pastores, para que saibam apresentar aos homens Cristo que ´não veio para ser
servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos´(Mc 10, 45; cf.
Jo 13, 12´17) e para ganhar a muitos, fazendo´se servo de todos (cf. 1 Cor 9,
19). [179]
O texto conciliar insiste
na profunda coordenação existente entre os diversos aspectos da formação
humana, espiritual e intelectual, e, ao mesmo tempo, na sua específica
finalidade pastoral. Nessa linha de idéias, o objectivo pastoral assegura à
formação humana, espiritual e intelectual determinados conteúdos e
características específicas, da mesma forma que unifica e caracteriza a inteira
formação dos futuros sacerdotes.
Como qualquer outra
formação, também a formação pastoral se desenvolve através da reflexão madura e
da aplicação operativa, e aprofunda as suas raízes vivas num espírito que
constitui o fulcro e a força de impulso e de desenvolvimento de tudo.
Exige´se, portanto, o
estudo de uma verdadeira e autêntica disciplina teológica: a teologia pastoral
ou prática, que é uma reflexão científica sobre a Igreja no seu edificar´se
quotidiano, com a força do Espírito, dentro da história; sobre a Igreja,
portanto, como ´sacramento universal da salvação´ [180], como sinal e
instrumento vivo da salvação de Jesus Cristo na Palavra, nos Sacramentos e no
serviço da Caridade. A pastoral não é apenas uma arte nem um complexo de
exortações, de experiências ou de métodos; possui uma plena dignidade
teológica, porque recebe da fé os princípios e critérios de acção pastoral da
Igreja na história, de uma Igreja que se ´gera´ em cada dia a si mesma, segundo
a expressão feliz de S. Beda o Venerável:´Nam et ecclesia quotidie gignit
ecclesiam´ [181]. Entre estes princípios e critérios, se encontra aquele
particularmente importante do discernimento evangélico das situações
sócio´culturais e eclesiais, no seio das quais se desenrola a acção pastoral.
O estudo da teologia
pastoral deve iluminar a aplicação operativa, mediante a dedicação a alguns
serviços pastorais que os candidatos ao sacerdócio, com a necessária
gradualidade e sempre de harmonia com os outros compromissos formativos, devem
exercer: trata´se de «experiências» pastorais que podem confluír num verdadeiro
e autêntico ´tirocínio pastoral´ que se pode prolongar por algum tempo e exige
ser observado de maneira metódica.
Mas o estudo e a
actividade pastoral remetem para uma fonte interior que a formação terá o
cuidado de defender e valorizar: é a comunhão cada vez mais profunda com a
caridade pastoral de Jesus, a qual, como constituiu o princípio e a força do
seu agir salvífico, assim, graças à efusão do Espírito Santo no sacramento da
Ordem, deve constituir o princípio e a força do ministério do presbítero.
Trata´se efectivamente de uma formação destinada não apenas a assegurar uma
competência pastoral científica e uma habilitação operativa, mas sobretudo a
garantir o crescimento de um modo de ser em comunhão com os mesmos sentimentos
e comportamentos de Cristo, Bom Pastor: ´Tende entre vós os mesmos sentimentos
que existiram em Jesus Cristo´ (Fil 2, 5).
58. Assim compreendida, a
formação pastoral não pode certamente reduzir´se a uma simples aprendizagem,
orientada para a familiarização com qualquer técnica pastoral. A proposta
educativa do seminário se encarrega de uma verdadeira e autêntica iniciação à
sensibilidade de pastor, à assunção consciente e amadurecida das suas
responsabilidades, ao hábito interior de avaliar os problemas e de estabelecer
as prioridades e meios de solução, sempre na base de claras motivações de fé e
segundo as exigências teológicas da própria pastoral.
Através da experiência
inicial e gradual no ministério, os futuros sacerdotes poderão ser inseridos na
viva tradição pastoral da sua Igreja particular, aprenderão a abrir o horizonte
da sua mente e do seu coração à dimensão missionária da vida eclesial,
exercitar´se´ão em algumas formas primeiras de colaboração entre eles mesmos e
com os presbíteros, para junto dos quais serão enviados. A estes últimos cabe,
em união com a proposta do seminário, uma responsabilidade educativa pastoral
de muita importância.
Na escolha dos lugares e
serviços adaptados ao exercício pastoral, deve reservar´se uma especial atenção
à paróquia [182], célula vital das experiências pastorais sectoriais e
especializadas, na qual virão a encontrar´se de fronte aos problemas
particulares do seu futuro ministério. Os Padres sinodais ofereceram uma série
de exemplos concretos, como as visitas aos doentes; o cuidado pelos emigrados,
exilados, nómadas; o zelo da caridade que se traduz em diversas obras sociais.
Particularmente escrevem: ´É necessário que o presbítero seja testemunha da
caridade do próprio Cristo que ´passou a vida fazendo o bem´ (Act 10,38); ele
deve também ser o sinal visível da solicitude da Igreja que é Mãe e Mestra. E
dado que hoje o homem é ferido por tantas desgraças, especialmente as pessoas
vítimas de pobreza desumana, violência cega e poder abusivo, é preciso que o
homem de Deus, bem preparado para toda a espécie de boas obras (cf. 2 Tim 3,
17), reivindique os direitos e a dignidade do homem. Tenha cuidado, porém, em
não aderir a falsas ideologias, nem esquecer, ao pretender promover a
perfeição, que o mundo é redimido apenas pela cruz de Cristo´ [183].
O conjunto destas e de
outras actividades pastorais educa o futuro sacerdote para viver como ´serviço´
a sua própria missão de ´autoridade´ na comunidade, afastando´se de qualquer
atitude de superioridade ou de exercício de um poder que não seja sempre e só
justificado pela caridade pastoral.
Para uma adequada
formação é preciso que as diversas experiências dos candidatos ao sacerdócio
assumam um claro carácter ´ministerial´, ficando intimamente relacionadas com
todas as exigências próprias da preparação ao presbiterado (não certamente em
prejuízo do estudo), e com referência ao serviço do anúncio da Palavra, do
culto e da presidência. Estes serviços podem tornar´se a tradução concreta dos
ministérios do Leitorado e Acolitado, e do Diaconado.
59. Dado que a acção
pastoral se destina por sua natureza a animar a Igreja que é essencialmente
´mistério´, ´comunhão´ e missão, a formação pastoral deverá conhecer e viver
estas dimensões eclesiais no exercício do ministério.
Revela´se fundamental a
consciência de que a Igreja é ´mistério´, obra divina, fruto do Espírito de
Cristo, sinal eficaz da graça, presença da Trindade na comunidade cristã: uma
tal consciência, longe de atenuar o sentido de responsabilidade próprio do
pastor, torna´lo´á ainda mais convicto de que o crescimento da Igreja é obra
gratuita do Espírito e que o seu serviço ´ confiado pela graça divina à livre
responsabilidade humana ´ é o serviço evangélico do ´servo inútil´ (cf. Lc 17,
10).
A seguir, a consciência
da Igreja como ´comunhão´ preparará o candidato ao sacerdócio para realizar uma
pastoral comunitária, em cordial colaboração com os diversos sujeitos
eclesiais: sacerdotes e Bispo, sacerdotes diocesanos e religiosos, sacerdotes e
leigos. Mas uma tal colaboração supõe a consciência e a estima dos diversos
dons e carismas, das várias vocações e responsabilidades que o Espírito oferece
e confia aos membros do Corpo de Cristo; exige um sentido vivo e preciso da
própria identidade e da dos outros na Igreja; requer muita confiança,
paciência, doçura, capacidade de compreensão e de espera; enraíza´se sobretudo
num amor à Igreja maior que o amor a si próprio ou aos grupos a que se
pertence. Particularmente importante é preparar os futuros sacerdotes para a
colaboração com os leigos. ´Estejam prontos ´ diz o Concílio ´ a escutar o
parecer dos leigos, considerando com interesse fraterno as suas aspirações e
aproveitando a sua experiência e competência nos diversos campos da actividade
humana, de modo a poder juntamente com eles reconhecer os sinais dos tempos´
[184]. Também este Sínodo insistiu na solicitude pastoral pelos leigos: ´É
preciso que o aluno seja capaz de propor e de introduzir os leigos,
nomeadamente os jovens, nas diferentes vocações (ao matrimónio, aos serviços
sociais, ao apostolado,aos ministérios e responsabilidades da actividade
pastoral, à vida consagrada, à condução da vida política e social, à pesquisa
científica, ao ensino). Sobretudo é necessário ensinar e ajudar os leigos na
sua vocação de permear e transformar o mundo com a luz do Evangelho,
reconhecendo e respeitando a sua função´ [185].
Finalmente, a consciência
da Igreja como ´comunhão´ missionária ajudará o candidato ao sacerdócio a amar
e viver a essencial dimensão missionária da Igreja e das diversas actividades
pastorais; a estar aberto e disponível para todas as possibilidades hoje
oferecidas ao anúncio do Evangelho, sem esquecer o precioso serviço que para
tal pode e deve ser prestado pelos meios de comunicação social [186]; a
preparar´se para um ministério que lhe pode solicitar a concreta
disponibilidade ao Espírito Santo e ao Bispo para ser mandado a pregar o
Evangelho para além dos confins da sua terra [187].
II. OS AMBIENTES DA
FORMAÇÃO SACERDOTAL
A comunidade formativa do
Seminário Maior
60. A necessidade do
Seminário Maior ´ e da análoga Casa Religiosa ´ para a formação dos candidatos
ao sacerdócio, defendida com autoridade pelo Concílio Vaticano II [188], foi
reafirmada pelo Sínodo com estas palavras: ´A instituição do Seminário Maior
como lugar idealde formação deve certamente confirmar´se como espaço normal,
mesmo material, de uma vida comunitária e hierárquica, mais, como casa própria
para a formação dos candidatos ao sacerdócio, com superiores verdadeiramente
consagrados a este servício. Esta instituição deu muitíssimos frutos ao longo
dos séculos e continua a dá´los em todo o mundo´ [189].
O Seminário apresenta´se
como um tempo e um espaço; mas configura´se sobretudo como uma comunidade
educativa em caminhada: é a comunidade promovida pelo Bispo para oferecer, a
quem é chamado pelo Senhor a servir como os apóstolos, a possibilidade de reviver
a experiência formativa que o Senhor reservou aos Doze. Na realidade, uma
prolongada e íntima permanência de vida com Jesus é apresentada no Evangelho
como premissa necessária para o ministério apostólico. Esta permanência requer
dos Doze a realização, de modo particularmente claro e específico, da
separação, em certa medida proposta a todos os discípulos, do ambiente de
origem, do trabalho habitual, dos afectos, até dos mais queridos (cf. Mc 1,
16´20; 10, 28; Lc 9, 23.57´62; 14, 25´27). Já mais de uma vez apresentámos a
tradição de Marcos que sublinha a ligação profunda que une os apóstolos a
Cristo, e entre si: antes de serem enviados a pregar e a fazer curas, são
chamados a ´estar com Ele´ (Mc 3, 14).
A identidade profunda do
Seminário é a de ser, a seu modo, uma continuação na Igreja da mesma comunidade
apostólica reunida à volta de Jesus, escutando a sua palavra, caminhando para a
experiência da Páscoa, esperando o dom do Espírito para a missão. Esta
identidade constitui o ideal normativo que estimula o seminário, nas mais
diversas formas e nas múltiplas vicissitudes que, enquanto instituição humana,
vive na história, a que encontre uma concreta realização, fiel aos valores
evangélicos em que se inspira e capaz de responder às situações e necessidades
dos tempos.
O seminário é, em si
mesmo, uma experiência original da vida da Igreja: nele o Bispo torna´se
presente por meio do ministério do reitor e do serviço de corresponsabilidade
por ele animado com os outros educadores, em ordem a um crescimento pastoral e
apostólico dos alunos. Os vários membros da comunidade do Seminário, reunidos
pelo Espírito numa única fraternidade, colaboram, cada qual segundo os dons de
que dispõe, para o crescimento de todos na fé e na caridade a fim de se
preparem adequadamente para o sacerdócio, e por conseguinte, prolongarem na
Igreja e na história a presença salvífica de Jesus Cristo, o Bom Pastor.
Já na sua vertente
humana, o Seminário Maior deve tender a tornar´se uma ´comunidade impregnada de
uma profunda amizade e caridade de modo a poder ser considerada uma verdadeira
família, que vive na alegria´ [190]. Na sua face cristã, o Seminário deve
configurar´se ´ dizem os Padres sinodais ´ como ´comunidade eclesial´,como
´comunidade dos discípulos do Senhor, na qual se celebra uma mesma Liturgia
(que permeia a vida de espírito de oração), formada dia a dia na leitura e na
meditação da Palavra de Deus, no sacramento da Eucaristia, e no exercício da
justiça e da caridade fraterna; uma comunidade onde, no progresso da vida comunitária
e na vida de cada membro, resplandece o Espírito de Cristo e o amor para com a
Igreja´ [191]. Como confirmação e desenvolvimento concreto da essencial
dimensão eclesial do Seminário, acrescentam os Padres sinodais: ´Enquanto
comunidade eclesial, seja diocesana, seja interdiocesana, seja mesmo religiosa,
o Seminário alimente o sentido da união dos candidatos com o seu Bispo e
Presbitério, de modo que participem das suas esperanças, das suas angústias, e
saibam estender esta abertura às necessidades da Igreja universal´ [192].
É essencial para a
formação dos candidatos ao sacerdócio e ao ministério pastoral, o qual por sua
natureza é eclesial, que o seminário seja sentido não de um modo exterior e
superficial,quer dizer, como simples lugar de habitação e de estudo, mas de um
modo interior e profundo: como comunidade, uma comunidade especificamente
eclesial, uma comunidade que revive a experiência do grupo dos Doze unidos a
Jesus [193].
61. O Seminário é, pois,
uma comunidade eclesial educativa, mais, uma particular comunidade educante. E
é o fim específico a determinar´lhe a fisionomia, ou seja, o acompanhamento
vocacional dos futuros sacerdotes, e portanto o discernimento da sua vocação, a
ajuda para lhe corresponder e a preparação para receber o sacramento da Ordem
com as graças e as responsabilidades próprias, pelas quais o sacerdote é
configurado a Jesus Cristo Cabeça e Pastor e é habilitado e comprometido a
partilhar a Sua missão de salvação na Igreja e no mundo.
Enquanto comunidade
educante, a inteira vida do seminário, nas suas mais diversas expressões, está
empenhada na formação humana, espiritual, intelectual e pastoral dos futuros
presbíteros: trata´se de uma formação que, embora assuma tantos aspectos comuns
à formação humana e cristã de todos os membros da Igreja, apresenta conteúdos,
modalidades e características que decorrem especificamente do seu fim
principal, que é o de preparar para o sacerdócio.
Ora os conteúdos e as
formas da obra educativa exigem que o seminário tenha uma precisa programação,
isto é, um programa de vida que se caracterize seja pela sua
organicidade´unidade, seja pela sua sintonia ou correspondência com o único fim
que justifica a existência do Seminário: a preparação dos futuros presbíteros.
Neste sentido, os Padres
sinodais escrevem: ´Enquanto comunidade educativa, (o Seminário) deve obedecer
a um programa claramente definido que, como nota característica, tenha a
unidade de direcção manifestada pela figura do Reitor e dos colaboradores, na
coerência do regulamento de vida, da actividade formativa e das exigências
fundamentais da vida comunitária, a qual comporta também os aspectos essenciais
da tarefa formativa. Este programa deve estar clara e decididamente ao serviço
da única finalidade específica que justifica a existência do Seminário, a
saber, a formação dos futuros presbíteros, pastores da Igreja´ [194]. E para
que a programação seja verdadeiramente adequada e eficaz, é necessário que as
grandes linhas programáticas se concretizem mais detalhadamente, mediante
algumas regras particulares, destinadas a ordenar a vida comunitária,
estabelecendo alguns instrumentos e ritmos temporais precisos.
Um outro aspecto é de
sublinhar aqui: a obra educativa, por natureza, é o acompanhamento de pessoas
históricas, concretas que caminham para a escolha e adesão a determinados
ideais de vida. Precisamente por isso, a obra educativa deve saber
harmonicamente conciliar a proposta clara da meta a atingir, a exigência de
caminhar com seriedade em direcção a essa meta, a atenção ao ´caminhante´, ou
seja, ao sujeito concreto empenhado nesta aventura, e depois a uma série de
situações, de problemas e de dificuldades, de ritmos diversificados de caminho
e de crescimento. Isto exige uma sapiente elasticidade, que não significa, de
facto, transigência sobre os valores nem sobre o empenhamento consciente e
livre, mas amor verdadeiro e respeito sincero por quem, nas suas condições
pessoais, está caminhando para o sacerdócio. Isto vale não só relativamente à
pessoa singular, mas também relativamente aos diversos contextos sociais e
culturais onde se encontram os seminários e à diferente história que tem cada
um deles. Neste sentido, a tarefa educativa exige uma contínua renovação. Isto
mesmo foi salientado pelos Padres, relativamente à configuração dos seminários:
´ressalvada a validade das formas clássicas de Seminário, o Sínodo deseja que o
trabalho de consulta das Conferências Episcopais sobre as necessidades actuais
da formação prossiga como se estabeleceu no Decreto Optatam totius nº 1, e no
Sínodo de 1967. Revejam´se oportunamente as Rationes de cada nação ou rito,
seja por ocasião das consultas das Conferências Episcopais, seja nas visitas
apostólicas aos seminários das diversas nações, para nelas integrar diversas
formas de formação aprovadas que devem responder às necessidades dos povos de
cultura chamada indígena, das vocações de homens adultos, vocações para as
missões, etc´ [195].
62. A finalidade e a
configuração educativa do Seminário Maior exige que os candidatos ao sacerdócio
entrem aí já com alguma preparação prévia. Tal preparação não colocava
problemas particulares, pelo menos até alguns decénios atrás, no tempo em que
os candidatos ao sacerdócio provinham habitualmente dos seminários menores e a
vida cristã das comunidades oferecia facilmente a todos, indistintamente, uma
discreta instrução e educação cristã.
A situação, em muitas
partes, está alterada. Verifica´se uma forte discrepância entre o estilo de
vida e a preparação de base das crianças, dos adolescentes e jovens, mesmo que
cristãos e por vezes comprometidos na vida da Igreja, por um lado, e, por
outro, o estilo de vida do seminário e as suas exigências formativas. Neste
contexto e em comunhão com os Padres sinodais, peço que haja um período
adequado de preparação que preceda a formação do Seminário. ´É útil que haja um
período de preparação humana, cristã, intelectual e espiritual para os
candidatos ao Seminário Maior. Estes candidatos devem, porém, apresentar
algumas qualidades determinadas: recta intenção, um grau suficiente de
maturidade humana, um conhecimento bastante amplo da doutrina da fé, alguma
introdução aos métodos de oração, e costumes conformes à tradição cristã.
Possuam também atitudes próprias da sua região, pelas quais é expresso o
esforço de encontrar Deus e a fé (cf. Evangelii nuntiandi, 48)´ [196].
´Um conhecimento bastante
amplo da doutrina da fé´, de que falam os Padres sinodais, é a primeira
exigência da teologia: não se pode desenvolver uma ´intelligentia fidei´, se
não se conhece a ´fides´ no seu conteúdo. Tal lacuna poderá ser facilmente
colmada pelo próximo Catecismo Universal.
Embora se vá tornando
comum a convicção da necessidade dessa preparação prévia ao Seminário Maior,
verifica´se todavia uma diferente avaliação dos seus conteúdos e das suas
características, ou seja, do fim preponderante, se de formação espiritual para
o discernimento vocacional, se de formação intelectual e cultural. Por outro
lado, não se podem esquecer as muitas e profundas diferenças que existem tanto
relativamente à pessoa dos candidatos, como às diversas regiões e países. Isto
sugere ainda uma fase de estudo e experimentação, para que se possam definir,
de modo mais oportuno e significativo, os diversos elementos desta preparação
prévia ou ´período propedêutico´: o tempo, o lugar, a forma, os temas deste
período que, além do mais, se deve coordenar com os anos seguintes da formação
no Seminário.
Neste sentido, assumo e
reproponho ao Dicastério competente o pedido formulado pelos Padres sinodais:
´O Sínodo pede que a Congregação para a Educação Católica recolha todas as
informações sobre experiências iniciais feitas ou que se estejam fazendo. Em
tempo oportuno, a Congregação comunique às Conferências Episcopais as
informações sobre este argumento´ [197].
O Seminário Menor e as
outras formas de acompanhamento vocacional
63. Como atesta uma larga
experiência, a vocação sacerdotal tem muitas vezes o seu primeiro momento de
manifestação, nos anos da pré´adolescência ou nos primeiríssimos anos da
juventude. E até em pessoas que chegam a decidir a entrada no Seminário mais
adiante no tempo, não é raro constatar a presença da chamada de Deus em
períodos muito anteriores. A história da Igreja é um testemunho contínuo de
chamadas que o Senhor dirige mesmo em tenra idade. São Tomás, por exemplo,
explica a predilecção de Jesus pelo apóstolo João ´pela sua tenra idade´,
tirando daí a seguinte conclusão: ´isto nos faz compreender como Deus ame de
modo especial aqueles que se entregam ao seu serviço já desde a juventude´
[198].
A Igreja toma ao seu
cuidado estes germes de vocação, semeados no coração dos pequenos,
proporcionando´lhes, através da instituição dos Seminários Menores, um
solícito, ainda que inicial, discernimento e acompanhamento. Em várias partes
do mundo, estes Seminários continuam a desenvolver uma preciosa obra educativa,
destinada a proteger e fazer desabrochar os germes da vocação sacerdotal, a fim
de que os alunos a possam mais facilmente reconhecer e se tornem capazes de lhe
corresponder. A sua proposta educativa tende a favorecer, de modo tempestivo e
gradual, aquela formação humana, cultural e espiritual que conduzirá o jovem a
empreender o caminho para o Seminário Maior com uma base adequada e sólida.
´Preparar´se para seguir
Cristo Redentor com ânimo generoso e coração puro´: é este o objectivo do
Seminário Menor indicado pelo Concílio, no Decreto Optatam totius, que traça
desta forma o seu perfil educativo: os alunos ´sob a orientação paterna dos
superiores, com a colaboração oportuna dos pais, levem uma vida plenamente
conforme à idade, espírito e evolução dos adolescentes, segundo as normas da sã
psicologia, sem omitir a conveniente experiência das coisas humanas e o
contacto com a própria família´ [199].
O Seminário Menor poderá
ser, na Diocese, também um ponto de referência da pastoral vocacional, com
oportunas formas de acolhimento e oferta de ocasiões informativas para aqueles
adolescentes que estão à descoberta da vocação ou que, já determinados a
segui´la, se vêem obrigados a adiar a entrada no Seminário por diferentes
circunstâncias, familiares ou escolares.
64. Onde o Seminário
Menor ´ que ´em muitas regiões parece necessário e muito útil´ ´ não encontre
possibilidades de concretização, é necessário providenciar a constituição de
outras ´instituições´ [200], como poderiam ser os grupos vocacionais para
adolescentes e jovens. Embora não sendo de natureza permanente, tais grupos
poderão proporcionar, num contexto comunitário, uma orientação sistemática para
a descoberta e crescimento vocacional. Mesmo vivendo em família e frequentando
a comunidade cristã, que os ajuda no seu itinerário formativo, estes
adolescentes e jovens não deverão ser deixados sós. Eles têm necessidade de um
grupo particular ou uma comunidade que lhes ofereça um ponto de referência para
de realizarem o itinerário vocacional que o dom do Espírito Santo neles
iniciou.
Como sempre aconteceu na
história da Igreja, e com algumas características de reconfortante novidade e
frequência nas circunstâncias actuais, deveremos registar o fenómeno das
vocações sacerdotais que se verificam em idade adulta, já depois de uma longa
experiência de vida laical e de empenhamento profissional. Nem sempre é
possível, e muitas vezes nem sequer é conveniente, convidar os adultos a seguir
o itinerário educativo do Seminário Maior. Deve´se antes providenciar, depois
de um cuidadoso discernimento acerca da autenticidade de tais vocações, no
sentido de programar uma forma específica de acompanhamento formativo que
consiga assegurar, por meio de oportunas adaptações, a necessária formação
espiritual e intelectual [201]. Um recto relacionamento com os outros
candidatos ao sacerdócio e períodos de presença na comunidade do Seminário
Maior poderão garantir a plena integração destas vocações no único presbitério,
e a sua íntima e cordial comunhão com ele.
III. OS PROTAGONISTAS DA
FORMAÇÃO SACERDOTAL
A Igreja e o Bispo
65. Uma vez que a
formação dos candidatos ao sacerdócio pertence à pastoral vocacional da Igreja,
deve dizer´se que é a Igreja, enquanto tal, o sujeito comunitário que tem a
graça e a responsabilidade de acompanhar todos aqueles que o Senhor chama a ser
seus ministros no sacerdócio.
Precisamente neste
sentido, a leitura do mistério da Igreja ajuda´nos a precisar melhor o lugar e
a função que os seus diversos membros, seja individualmente seja como membros
do corpo, têm na formação do candidato ao presbiterado.
A Igreja é, por sua
íntima natureza, a ´memória´, o ´sacramento´ da presença e da acção de Jesus
Cristo no meio de nós e por nós. É à sua presença salvífica que se deve a
chamada ao sacerdócio: não só a chamada, mas também o acompanhamento para que o
vocacionado possa reconhecer a graça do Senhor e possa dar´lhe uma resposta com
liberdade e amor. É o Espírito de Jesus que ilumina e dá força no discernimento
do caminho vocacional. Não existe uma autêntica obra formativa para o
sacerdócio sem o influxo do Espírito de Cristo. Cada formador humano deve estar
plenamente consciente disso. Como não ver um ´recurso´ totalmente gratuito e
radicalmente eficaz, que tem o seu ´peso´ decisivo no empenhamento formativo em
ordem ao sacerdócio? E como não alegrar´se perante a dignidade de todo o
formador humano, que, em certo sentido, se configura como representante visível
de Cristo para o candidato ao sacerdócio? Se a formação para o sacerdócio é
essencialmente a preparação do futuro ´pastor´ à imagem de Jesus Cristo Bom
Pastor, quem melhor que o próprio Cristo, mediante a efusão do seu Espírito,
pode conceder e levar ao amadurecimento aquela mesma caridade pastoral que Ele
viveu até ao dom total de Si (cf. Jo 15, 13; 10, 11) e quer que seja revivida
por todos os presbíteros?
O primeiro representante
de Cristo na formação dos sacerdotes é o Bispo. Poder´se´ia dizer do Bispo, de
cada bispo, quanto nos diz o evangelista Marcos no texto, já várias vezes
citado: ´Chamou a Si aqueles que quis e eles foram ter com Ele. Constituiu Doze
de entre eles que estivessem com Ele, e também para os enviar´ (Mc 3, 13´14).
Na realidade, a chamada interior do Espírito precisa de ser reconhecida como
autêntico chamamento pelo Bispo. Se todos podem ´ir ter´ com o Bispo enquanto
Pastor e Pai de todos, podem fazê´lo de uma forma particular os seus
presbíteros pela comum participação do mesmo sacerdócio e ministério: o Bispo,
diz o Concílio, deve considerá´los e tratá´los como ´irmãos e amigos´ [202]. O
mesmo se pode dizer analogamente de quantos se preparam para o sacerdócio. A
propósito do ´estar com ele´, com o Bispo, revelar´se´á muito significativo
para as suas responsabilidades formativas com os candidatos ao sacerdócio, que
o Bispo os visite frequentemente e de certa maneira ´esteja´ com eles.
A presença do Bispo
adquire um valor particular, não só porque ajuda a comunidade do Seminário a
viver a sua inserção na Igreja particular e a sua comunhão com o Pastor que a
guia, mas também porque estimula e dá autenticidade àquele fim pastoral que
constitui a especificidade da completa formação dos candidatos ao sacerdócio.
Sobretudo com a sua presença e partilha com os candidatos ao sacerdócio de tudo
o que diz respeito ao caminho pastoral da Igreja particular, o Bispo oferece um
contributo fundamental para a formação do ´sentido de Igreja´, como valor
espiritual e pastoral central no exercício do ministério sacerdotal.
A comunidade educativa do
Seminário
66. A comunidade
educativa do Seminário articula´se à volta de diversos formadores: o reitor, o
director ou padre espiritual, os superiores e os professores. Estes devem
sentir´se profundamente unidos ao Bispo, que, a título diferente e de vários
modos, representam, e devem viver entre si em convicta e cordial comunhão e
colaboração: esta unidade dos educadores não só torna possível uma adequada
realização do programa educativo, mas sobretudo oferece aos candidatos ao
sacerdócio o exemplo significativo e a concreta introdução naquela comunhão
eclesial que constitui um valor fundamental da vida cristã e do ministério
pastoral.
É evidente que uma grande
parte da eficácia formativa depende da personalidade madura e forte dos
formadores,tanto sob o aspecto humano como evangélico. Por isso se torna
particularmente importante, por um lado, a escolha cuidadosa dos formadores, e
por outro, o estímulo destes para que constantemente procurem ser mais idóneos
para o encargo que lhes foi confiado. Conscientes de que, precisamente na
escolha e na formação dos formadores, reside o futuro da preparação dos
candidatos ao sacerdócio, os Padres sinodais detiveram´se longamente a precisar
a identidade dos educadores. Concretamente escreveram: ´A tarefa da formação
dos candidatos ao sacerdócio certamente exige não só uma preparação especial
dos formadores, que seja verdadeiramente técnica, pedagógica, espiritual,
humana e teológica, mas também o espírito de comunhão e de colaboração na
unidade para desenvolver o programa, de modo que seja salvaguardada a unidade
na acção pastoral do Seminário sob a orientação do reitor. O grupo dos
formadores dê testemunho de uma vida verdadeiramente evangélica e de total
dedicação ao Senhor. É oportuno que goze de uma certa estabilidade e tenha
residência habitual no seio da comunidade do Seminário. Esteja intimamente
unida ao Bispo, como primeiro responsável da formação dos sacerdotes´ [203].
Os Bispos devem ser os
primeiros a sentir a sua grave responsabilidade na formação daqueles que serão
encarregados da educação dos futuros presbíteros. Para este ministério, devem
ser escolhidos sacerdotes de vida exemplar e na posse de diversas qualidades:
´maturidade humana e espiritual, experiência pastoral, competência
profissional, estabilidade na própria vocação, capacidade de colaboração,
preparação doutrinal nas ciências humanas (especialmente em psicologia)
adequada ao cargo e o conhecimento dos modos de trabalhar em grupo´ [204].
Ressalvadas as distinções
entre o foro interno e o externo, a oportuna liberdade de escolha dos
confessores e a prudência e discrição convenientes ao ministério do director
espiritual, a comunidade presbiteral dos educadores sinta´se solidária na
responsabilidade de educar os candidatos ao sacerdócio. A ela, e sempre tendo
como ponto de referência a autorizada avaliação conjunta do Bispo e do reitor,
compete em primeiro lugar a tarefa de promover e verificar a idoneidade dos
candidatos quanto a dotes humanos, espirituais e intelectuais, tendo como
pontos fundamentais de referência o espírito de oração, a assimilação profunda
da doutrina da fé, a capacidade para a autêntica fraternidade e o carisma do
celibato [205].
Tendo presentes ´ como
aliás os Padres sinodais recordaram ´ as indicações da Exortação Christifideles
laici, e da Carta Apostólica Mulieris dignitatem, [206] que põem em relevo um
saudável influxo da espiritualidade laical e do carisma da feminilidade em todo
e qualquer itinerário educativo, é oportuno incluir, de forma prudente e
adaptada aos vários contextos culturais, a colaboração de leigos, homens e
mulheres, no trabalho formativo dos futuros sacerdotes. Devem ser escolhidos
com cuidado, no quadro das leis da Igreja e segundo as suas comprovadas
competências. Da sua colaboração, oportunamente coordenada e integrada nas
responsabilidades educativas primárias dos formadores dos futuros presbíteros,
é lícito esperar´se benéficos frutos para o crescimento equilibrado do sentido
de Igreja e para uma percepção mais clara da própria identidade sacerdotal por
parte dos candidatos ao presbiterado [207].
Os professores de
teologia
67. Todos quantos
introduzem e acompanham os futuros sacerdotes na sacra doctrina, por meio do
ensino da teologia, assumem uma particular responsabilidade educativa, que a
experiência demonstra ser muitas vezes mais decisiva, no desenvolvimento da
personalidade presbiteral, que a dos outros educadores.
A responsabilidade dos professores de teologia, ainda antes de ter em conta a relação docente que devem criar com os candidatos ao sacerdócio, diz respeito à concepção que eles mesmos devem possuir da natureza da teologia e do ministério sacerdotal, bem como ao espírito e estilo segundo o qual devem desenvolver o ensino da teologia. Neste sentido, os Padres sinodais afirmaram justamente que ´o teólogo deve estar plenamente consciente de que no seu ensino não se afirma por si mesmo, mas deve abrir e comunicar a inteligência da fé fundamentalmente em nome do Senhor e da Igreja. Deste modo o teólogo, mesmo valendo´se de todas as possibilidades científicas, desempenha a sua tarefa mandatado pela Igreja e colabora com o Bispo na tarefa de ensinar. E porque teólogos e Bispos estão ao serviço da mesma Igreja, na tarefa de promover a fé, devem desenvolver e cultivar uma confiança recíproca, e neste espírito, superar também as tensões e conflitos (cf. mais amplo ?desenvolvimento na Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre A Vocação eclesial do teólogo)´ [208].
O professor de teologia,
como qualquer outro educador, deve permanecer em comunhão e colaborar
cordialmente com todas as outras pessoas empenhadas na formação dos futuros
sacerdotes e apresentar com rigor científico, generosidade, humildade e paixão,
o seu contributo original e qualificado, que não é apenas a simples comunicação
de uma doutrina ´ mesmo sendo a sacra doctrina ´, mas é sobretudo a oferta da
perspectiva que unifica no desígnio de Deus, os diversos conhecimentos humanos
e as várias expressões de vida.
Em particular, a
especificidade e o êxito formativo dos professores de teologia mede´se pelo
facto de eles serem, antes de mais, ´homens de fé e cheios de amor pela Igreja,
convencidos de que o sujeito adequado do conhecimento do mistério cristão
continua a ser a Igreja enquanto tal, persuadindo´se, portanto, de que a sua
tarefa de ensinar é um autêntico ministério eclesial, serem ricos de sentido
pastoral para discernir não só os conteúdos mas também as formas adequadas para
o exercício deste ministério. Particularmente se requer dos professores a
fidelidade plena ao Magistério. De facto, ensinam em nome da Igreja e por isso
são testemunhas da fé´ [209].
A comunidade de origem e
as associações e movimentos juvenis
68. As comunidades de
onde provém o candidato ao sacerdócio, mesmo com a necessária separação que a opção
vocacional implica, continuam a exercer um influxo não indiferente na formação
do futuro sacerdote. Devem, por isso, estar conscientes da sua específica quota
parte de responsabilidade.
Em primeiro lugar,
deveremos mencionar a família: os pais cristãos, como também os irmãos e irmãs
e outros membros do núcleo familiar, não devem nunca procurar reconduzir o
futuro presbítero aos estreitos limites de uma lógica demasiadamente humana, se
não mesmo mundana, ainda que sustentada por um sincero afecto (cf. Mc 3,
20´21.31´35). Animados eles mesmos do propósito de ´cumprir a vontade de Deus´,
saberão acompanhar o caminho formativo com a oração, o respeito, o bom exemplo
das virtudes domésticas, e a ajuda espiritual e material, sobretudo nos
momentos difíceis. A experiência ensina´nos que, em muitos casos, esta
multifacetada ajuda se afigurou decisiva para o candidato ao sacerdócio. Mesmo
no caso de pais e familiares indiferentes ou contrários à opção vocacional, o
confronto claro e sereno com as suas posições e os estímulos que daí derivam
podem constituir uma preciosa ajuda, para que a vocação sacerdotal amadureça de
modo consciente e decidido.
Em conexão o profunda com
as famílias, está a comunidade paroquial, e umas e outra se interligam no plano
de educação para a fé; muitas vezes a paróquia, com uma específica pastoral
juvenil e vocacional, desempenha um papel de suplência relativamente à família.
Sobretudo enquanto realização local mais imediata do mistério da Igreja, a
paróquia oferece um contributo original e particularmente precioso para a
formação do futuro sacerdote. A comunidade paroquial deve continuar a sentir
como parte viva de si mesma o jovem a caminho do sacerdócio, deve acompanhá´lo
com a oração, acolhê´lo cordialmente nos períodos de férias, respeitar e
favorecer o desenvolvimento da sua identidade presbiteral, oferecendo´lhe
ocasiões oportunas e estímulos fortes para pôr à prova a sua vocação para a
missão sacerdotal.
Também as associações e
movimentos juvenis, sinal e confirmação da vitalidade que o Espírito assegura à
Igreja, podem e devem contribuir para a formação dos candidatos ao sacerdócio,
em particular daqueles que procedem da experiência cristã, espiritual e
apostólica dessas entidades agregadoras. Os jovens que receberam a sua formação
de base em tais agregações e a elas se referem para a sua experiência de
Igreja, não deverão sentir´se convidados a cortar com o seu passado e a
interromper as relações com o ambiente que contribuiu para concretizar a sua
vocação, nem deverão apagar os traços característicos da espiritualidade que aí
aprenderam e viveram, em tudo aquilo que de bom, edificante e enriquecedor
essas agregações contêm [210]. Também para eles, este ambiente de origem
continua a ser fonte de ajuda e apoio na caminhada formativa para o sacerdócio.
As ocasiões de educação
para a fé e de crescimento cristão e eclesial, que o Espírito oferece a tantos
jovens, através de múltiplas formas de grupos, movimentos e associações de
variada inspiração evangélica, devem ser sentidas e vividas como o dom de uma
alma alimentadora dentro da instituição do Seminário e ao seu serviço. Um
movimento ou uma espiritualidade particular, de facto, ´não constitui uma
estrutura alternativa à instituição. É, sim, a fonte de uma presença que
continuamente regenera a sua autenticidade existencial e histórica. O sacerdote
pode, por isso, encontrar num movimento a luz e o calor que o tornam capaz da
fidelidade ao seu Bispo, pronto para as incumbências da instituição e atento à
disciplina eclesiástica, de modo que seja mais fértil a vibração da sua fé e o
gosto da sua fidelidade´ [211].
É por conseguinte
necessário que, na nova comunidade do Seminário, na qual estão reunidos pelo
Bispo, os jovens provenientes de associações e de movimentos eclesiais aprendam
´ o respeito pelas outras vias espirituais e o espírito de diálogo e
cooperação´, tenham como ponto de referência coerente e cordial as indicações
formativas do Bispo e dos educadores do Seminário, entregando´se com tranquila
confiança à sua orientação e às suas avaliações [212]. Esta atitude, de facto,
prepara e de certo modo antecipa a genuína opção presbiteral de serviço a todo
o Povo de Deus, na comunhão fraterna do presbitério e na obediência ao Bispo.
A participação do
seminarista e do presbítero diocesano em espiritualidades particulares ou
agregações eclesiais é certamente, em si mesma, um factor benéfico de
crescimento e de fraternidade sacerdotal. Mas esta participação não deve
obstaculizar, antes deverá ajudar o exercício do ministério e a vida espiritual
que são próprios do sacerdote diocesano, o qual ´permanece sempre o pastor de
todos em conjunto´. Não é só o ´permanente´, disponível para todos, mas preside
ao encontro de todos ´ em particular se está à frente das paróquias ´ a fim de
que todos encontrem o acolhimento que têm direito de esperar na comunidade e na
Eucaristia que os reúne, qualquer que seja a sua sensibilidade religiosa ou o
compromisso pastoral´ [213].
O próprio candidato
69. Não se pode esquecer,
finalmente, que o próprio candidato ao sacerdócio deve ser considerado
protagonista necessário e insubstituível na sua formação: toda e qualquer
formação, naturalmente incluindo a sacerdotal, é no fim de contas uma
auto´formação. Ninguém, de facto, nos pode substituir na liberdade responsável
que temos como pessoas individuais.
Certamente também o
futuro sacerdote, e ele antes de mais ninguém, deve crescer na consciência de
que o protagonista por antonomásia da sua formação é o Espírito Santo que, com
o dom do coração novo, configura e assimila a Jesus Cristo Bom Pastor: nesse
sentido, o candidato afirmará a sua liberdade da maneira mais radical, ao
acolher a acção formadora do Espírito. Mas acolher esta acção significa também,
da parte do candidato ao sacerdócio, acolher as ´mediações´ humanas de que o
Espírito se serve. Por isso mesmo, a acção dos vários educadores só se revela
verdadeira e plenamente eficaz se o futuro sacerdote lhe oferece a sua pessoal,
convicta e cordial colaboração.
CAPÍTULO VI
EXORTO´TE A QUE REANIMES
O DOM DE DEUS QUE ESTÁ EM TI
A formação permanente dos
sacerdotes
As razões teológicas da
formação permanente
70. ´Exorto´te a que
reanimes o dom de Deus que está em ti´ (2 Tim l, 6).
As palavras do Apóstolo
ao bispo Timóteo podem legitimamente aplicar´se àquela formação permanente, à
qual são chamados todos os sacerdotes por força do ´dom de Deus´ que receberam
na sagrada ordenação. Elas introduzem´nos na compreensão da verdade plena e da
originalidade inconfundível da formação permanente dos presbíteros. Nisto somos
ajudados também por um outro texto de Paulo, que escreve ao mesmo Timóteo: ´Não
descuides o dom espiritual que recebeste e que te foi concedido por uma
intervenção profética, com a imposição das mãos dos presbíteros. Atende a estas
coisas e ocupa´te nelas com todo o empenho, a fim de que o teu aproveitamento
seja manifesto a todos. Cuida de ti mesmo e do teu ensino; insiste nestas
coisas, porque, fazendo isto, salvar´te´ás a ti mesmo e aos outros que te
escutam´ (1 Tim 4, 14´16).
O Apóstolo pede a Timóteo
para ´reanimar´, ou seja, para reacender o dom divino, como se faz com o fogo
sob as cinzas, no sentido de acolhê´lo sem nunca perder ou esquecer aquela
´novidade permanente´ que é própria de todo o dom de Deus, d´Aquele que faz
novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5) e, portanto, de vivê´lo na sua inesgotável
pujança e beleza original.
Mas aquele ´reanimar´ não
é só sucesso o de uma tarefa confiada à responsabilidade de Timóteo, nem apenas
o resultado de um empenhamento da sua memória e vontade. É o efeito de um
dinamismo de graça intrínseco ao dom de Deus: é o próprio Deus, portanto, a
reanimar o Seu próprio dom, melhor, a libertar toda a extraordinária riqueza de
graça e responsabilidade que nele está encerrada.
Com a efusão sacramental
do Espírito Santo que consagra e envia, o presbítero é configurado a Jesus
Cristo Cabeça e Pastor da Igreja e é mandado a exercer o ministério pastoral.
Assim, o sacerdote é assinalado para sempre e de modo indelével no seu ser como
ministro de Jesus e da Igreja, é inserido numa condição permanente e
irreversível de vida, e é encarregado dum ministério pastoral que, radicado no
ser, compromete toda a sua existência e é também ele permanente. O sacramento
da Ordem confere ao sacerdote a graça sacramental que o torna participante não
só do ´poder´ e do ´ministério´ salvífico de Jesus, mas também do seu ´amor´
pastoral; ao mesmo tempo assegura ao sacerdote todas aquelas graças actuais que
lhe serão dadas sempre que forem necessárias e úteis para o digno e perfeito
cumprimento do ministério recebido.
A formação permanente
encontra, assim, o seu fundamento próprio e a sua motivação original no
dinamismo do sacramento da Ordem.
É certo que não faltam
razões mesmo puramente humanas que solicitem o sacerdote a realizar a formação
permanente. Esta é uma exigência da sua realização progressiva: cada vida é um
caminho incessante em direcção à maturidade, e esta passa através da formação
contínua. Além disso, é uma exigência do ministério sacerdotal, visto
simplesmente na sua natureza genérica e comum a qualquer profissão, ou seja,
como um serviço prestado aos outros: hoje não existe profissão, compromisso ou
trabalho que não exija uma contínua actualização, se quiser ser credível e
eficaz. A exigência de ´acertar o passo´ com o caminho da história é outra
razão humana que justifica a formação permanente.
Mas estas e outras razões
são assumidas e especificadas pelas razões teológicas já recordadas e que se
podem aprofundar ulteriormente.
O sacramento da Ordem,
pela sua natureza de ´sinal´ que é própria de todos os sacramentos, pode
considerar´se, como realmente é, Palavra de Deus: é Palavra de Deus que chama e
envia, é a expressão mais forte da vocação e da missão do sacerdote. Mediante o
Sacramento da Ordem, Deus chama «coram Ecclesia» o candidato ´ao´ sacerdócio. O
´vem e segue´me´ de Jesus encontra a sua proclamação plena e definitiva na
celebração do sacramento da sua Igreja: manifesta´se e comunica´se através da
voz dela, que ressoa nos lábios do Bispo que reza e impõe as mãos. E o
sacerdote responde, na fé, ao chamamento de Jesus: ´venho e sigo´te´. A partir
desse momento, tem início aquela resposta que, como escolha fundamental, deve
exprimir´se e reafirmar´se ao longo dos anos do sacerdócio em numerosíssimas
outras respostas, todas elas radicadas e vivificadas pelo ´sim´ da Ordem
sagrada.
Neste sentido, pode
falar´se duma vocação ´no´ sacerdócio. Na realidade, Deus continua a chamar e a
enviar, revelando o seu desígnio salvífico no desenrolar histórico da vida do
sacerdote e das vissicitudes da Igreja e da sociedade. É precisamente desta
perspectiva que emerge o significado da formação permanente: ela é necessária
para discernir e seguir esse contínuo chamamento ou vontade de Deus. Assim, o
apóstolo Pedro é chamado a seguir Jesus já depois de o Senhor ressuscitado lhe
ter confiado a sua grei: ´Respondeu´lhe Jesus: ´Apascenta as minhas ovelhas. Em
verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e
andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e
outro te cingirá e te levará para onde tu não queres´. E disse isto para
indicar o género de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E, dito isto,
acrescentou: ´Segue´me´ ´ (Jo 2l, 17´19). É, portanto, um ´segue´me´ que
acompanha a vida e a missão do apóstolo. É um ´segue´me´ que acompanha.
o apelo e a exigência de
fidelidade até à morte (cf. Jo 21, 22), um ´segue´me´ que pode significar uma
sequela Christi até ao dom total de si no martírio [214].
Os Padres sinodais
expressaram a razão que justifica a necessidade da formação permanente e, ao
mesmo tempo, revela a sua natureza profunda, designando´a como ´fidelidade´ ao
ministério sacerdotal e como ´processo de contínua conversão´ [215]. É o
Espírito Santo, infundido pelo sacramento, que sustém o presbítero nesta
fidelidade e que o acompanha e estimula neste caminho de incessante conversão.
O dom do Espírito não dispensa, antes solicita a liberdade do sacerdote, para
que coopere responsavelmente e assuma a formação permanente como um dever que
lhe é confiado. Assim esta é expressão e exigência da fidelidade dele ao seu
ministério, ou melhor, ao seu próprio ser. É, portanto, amor a Jesus Cristo e
coerência consigo mesmo. Mas constitui também um acto de amor ao Povo de Deus,
ao serviço do qual o sacerdote está posto. É ainda um acto de verdadeira e
própria justiça: ele é devedor ao Povo de Deus, chamado como é a reconhecer e a
promover aquele seu ´direito´ fundamental de ser destinatário da Palavra de
Deus, dos Sacramentos e do serviço da Caridade, que são o conteúdo original e
irrenunciável do ministério pastoral do padre. A formação permanente é
necessária para que ele esteja em condições de responder condignamente a tal
direito do Povo de Deus.
Alma e forma da formação
permanente do sacerdote é a caridade pastoral: o Espírito Santo, que infunde a
caridade pastoral, introduz e acompanha´o no conhecimento sempre mais profundo
do mistério de Cristo, que é insondável na sua riqueza (cf. Ef 3, 14´19), e,
por conseguinte, no conhecimento do mistério do sacerdócio cristão. A mesma
caridade pastoral impele o presbítero a conhecer cada vez mais as esperanças,
as necessidades, os problemas, as sensibilidades dos destinatários do seu
ministério: destinatários envolvidos nas suas concretas situações pessoais,
familiares, e sociais.
A tudo isto tende a
formação permanente, vista como consciente e livre proposta em ordem ao
dinamismo da caridade pastoral e do Espírito Santo, que é a sua primeira fonte
e alimento contínuo. Neste sentido, a formação permanente é uma exigência
intrínseca ao dom e ao ministério sacramental recebido e revela´se necessária
em todos os tempos. Hoje, porém, ela é particularmente urgente, não só pela
rápida mudança das condições sociais e culturais dos homens e dos povos, no meio
dos quais se exerce o ministério pastoral, mas também por aquela ´nova
evangelização´ que constitui a tarefa essencial e inadiável da Igreja no final
do segundo milénio.
As diversas dimensões da
formação permanente
71. A formação permanente
dos sacerdotes, sejam diocesanos ou religiosos, é a continuação natural e
absolutamente necessária daquele processo de estruturação da personalidade
presbiteral, que se iniciou e desenvolveu no Seminário ou na Casa religiosa com
o itinerário formativo em vista da Ordenação.
É de particular
importância observar e respeitar a intrínseca ligação que existe entre a
formação que precede o sacerdócio e a que se lhe segue. Se, de facto, existisse
uma descontinuidade ou até discrepâncias entre estas duas fases formativas, surgiriam
imediatamente graves consequências sobre a actividade pastoral e sobre a
comunhão fraterna entre os presbíteros, em particular entre os de idades
diferentes. A formação permanente não é uma repetição da que foi adquirida no
Seminário, simple smente revista ou ampliada com novas sugestões aplicativas.
Ela desenvolve´se com conteúdos e sobretudo através de métodos relativamente
novos, como um facto vital unitário que, no seu progresso ´ mergulhando as
raízes na formação do Seminário ´, requer adaptações, actualizações e
modificações, sem, contudo, sofrer rupturas ou soluções de continuidade.
E vice´versa, já desde o
Seminário Maior é preciso preparar a futura formação permanente, e abrir para
ela o espírito e o desejo dos futuros presbíteros, demonstrando a sua
necessidade, as suas vantagens e o seu objectivo, e assegurando as condições da
sua realização.
Precisamente porque a
formação permanente é uma continuação da do Seminário, o seu fim não pode ser
uma pura atitude, por assim dizer, profissional, obtida com a aprendizagem de
algumas técnicas pastorais novas. Deve ser, antes, o manter vivo um geral e
integral processo de contínuo amadurecimento, mediante o aprofundamento quer de
alguma das dimensões da formação ´ humana, espiritual, intelectual e pastoral ´
quer da sua íntima e viva conexão específica, a partir da caridade pastoral e
em referência a ela.
72. Um primeiro
aprofundamento diz respeito à dimensão humana da formação sacerdotal. No
contacto quotidiano com os homens, partilhando a sua vida de cada dia, o
sacerdote deve aumentar e aprofundar aquela sensibilidade humana que lhe
permite compreender as necessidades e acolher os pedidos, intuír as questões
não expressas, partilhar as esperanças, as alegrias e as fadigas do viver
comum, ser capaz de encontrar a todos e de dialogar com todos. Sobretudo
conhecendo e partilhando, isto é, fazendo sua a experiência humana da dor na
multiplicidade das suas manifestações, desde a indigência à doença, da
marginalização à ignorância, à solidão, à pobreza material e moral, o padre
enriquece a própria humanidade e torna´a mais autêntica e transparente, num
crescente e apaixonado amor pelo homem.
No amadurecimento da sua
formação humana, presbítero recebe uma particular ajuda da graça de Jesus
Cristo: a caridade do Bom Pastor, de facto, exprimiu´se não só com o dom da
salvação aos homens, mas também com a partilha da sua vida, da qual o Verbo,
que se fez ´carne´(cf. Jo 1, 14), quis conhecer a alegria e o sofrimento,
experimentar a fadiga, partilhar as emoções, consolar a dor. Vivendo como homem
entre e com os homens, Jesus Cristo oferece a mais absoluta, genuína e perfeita
expressão de humanidade: vemo´l´O a fazer festa nas bodas de Caná, a frequentar
uma família de amigos, a comover´se com a multidão faminta que O segue, a
restituir aos pais os seus filhos doentes ou mortos, a chorar a morte de
Lázaro...
Do sacerdote, cada vez
mais amadurecido na sua sensibilidade humana, o Povo de Deus deve poder dizer
algo de análogo ao que o autor da Carta aos Hebreus escreve de Jesus: ´Não
temos um sumo sacerdote que não possa compadecer´se das nossas fraquezas. Pelo
contrário, Ele mesmo foi provado em tudo,à nossa semelhança, excepto no pecado´
(Heb 4, l5).
A formação na sua
dimensão espiritual é uma exigência da vida nova e evangélica, à qual o
presbítero é chamado, de um modo específico, pelo Espírito Santo infundido no
sacramento da Ordem. O Espírito, consagrando´o e configurando´o a Jesus Cristo
Cabeça e Pastor, cria uma ligação que, situada no próprio ser do sacerdote,
precisa de ser assimilada e vivida de maneira pessoal, isto é, consciente e
livre, mediante uma comunhão de vida e de amor cada vez mais rica e uma
partilha sempre mais ampla e radical dos sentimentos e das atitudes de Jesus
Cristo. Neste ligame entre o Senhor Jesus e o padre, ligame ontológico e
psicológico, sacramental e moral, está o fundamento e, ao mesmo tempo, a força
para aquela ´vida segundo o Espírito´ e aquela ´radicalidade evangélica´, à
qual é chamado todo o sacerdote, e que é favorecida pela formação permanente no
seu aspecto espiritual. Esta formação mostra´se também necessária à
autenticidade e fecundidade do ministério sacerdotal. ´Exercitas a cura de
almas?´, perguntava S. Carlos Borromeu no seu discurso dirigido aos sacerdotes,
e respondia deste modo: ´Não descuides por causa disso o cuidado de ti mesmo, e
não te dês aos outros até ao ponto de não restar nada de ti, para ti próprio.
Certamente, deves ter presente a recordação das almas de quem és pastor, mas
não te esqueças de ti mesmo. Compreendei, irmãos, que nada é tão necessário a
todas as pessoas eclesiásticas como a meditação que precede, acompanha e segue
todas as nossas acções: cantarei, diz o profeta, e meditarei (cf. Sal 100, 1).
Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes. Se celebras a
Missa, medita no que ofereces. Se recitas os salmos em coro, medita a quem e de
que coisa falas. Se guias as almas, medita com que sangue foram lavadas; e tudo
se faça entre vós na caridade(1 Cor 16, 14). Assim poderemos superar as
dificuldades que encontramos, e são inumeráveis, cada dia. De resto, isto é´nos
pedido pela tarefa que nos foi confiada. Se assim fizermos, teremos a força
para gerar Cristo em nós e nos outros´ [216].
Em particular, a vida de
oração deve ser continuamente ´renovada´ no sacerdote. A experiência, de facto,
ensina que na oração não se vive dos rendimentos: em cada dia é preciso não só
reconquistar a fidelidade exterior aos momentos de oração, sobretudo aos que se
destinam à celebração da Liturgia das Horas e àqueles deixados à escolha
pessoal livres de prazos e horários de serviço litúrgico, mas também e
especialmente reeducar à contínua procura de um verdadeiro encontro pessoal com
Jesus, de um confiante colóquio com o Pai, de uma profunda experiência do Espírito.
Quando o apóstolo Paulo
diz de todos os crentes que devem chegar ´ a formar o homem perfeito, à medida
da estatura completa de Cristo´ (Ef 4, 13), isto aplica´se de modo específico
aos sacerdotes chamados à perfeição da caridade e, portanto, à santidade, até
porque o seu próprio ministério pastoral pede que eles sejam modelos vivos para
todos os fiéis.
Também a dimensão
intelectual da formação precisa de ser continuada e aprofundada durante toda a
vida do presbítero em particular mediante um estudo e actualização cultural
séria e empenhada. Participante da missão profética de Jesus e inserido no
mistério da Igreja Mestra da verdade, ele é chamado a revelar aos homens, em
Jesus Cristo, o rosto de Deus e, com isso, o verdadeiro rosto do homem [217].
Mas isto exige que o próprio sacerdote procure esse rosto e O contemple com
veneração e amor (cf. Sal 26, 8; 41, 2): só assim o pode dar a conhecer aos
outros. Em particular, a continuação do estudo teológico mostra´se necessária
para que ele possa desempenhar com fidelidade o ministério da Palavra,
anunciando´a sem confusões nem ambiguidades, distinguindo´a das simples
opiniões humanas, mesmo se famosas e muito difusas. Assim poderá
verdadeiramente colocar´se ao serviço do Povo de Deus, ajudando´o a dar as
razões da esperança cristã a quem as pedir (cf. 1 Ped 3, 15). Além disso,´o
sacerdote, aplicando´se com consciência e constância ao estudo teológico, está
em condições de assimilar de forma segura e pessoal a genuína riqueza eclesial.
Pode, portanto, cumprir a missão que o empenha na resposta às dificuldades
acerca da autêntica doutrina católica, e superar a inclinação própria e a dos
outros para a divergência e a atitude negativa a respeito do Magistério e da
Tradição´ [218].
O aspecto pastoral da
formação permanente está bem expresso nas palavras do apóstolo Pedro: ´Como
bons dispenseiros das graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos
outros os dons que recebeu´ (1 Ped 4, 10). Para viver em cada dia segundo os
dons recebidos, é preciso que o sacerdote esteja cada vez mais aberto para
acolher a caridade pastoral de Jesus Cristo, que lhe foi dada pelo Seu Espírito
no sacramento recebido. Assim como toda a actividade do Senhor foi o fruto e o
sinal da caridade pastoral, assim deve ser também a actividade ministerial do
padre. A caridade pastoral é um dom e, ao mesmo tempo, uma tarefa, uma graça e
uma responsabilidade à qual é preciso ser fiel, ou seja, é preciso acolhê´la e
viver o seu dinamismo até às exigências mais radicais. Esta mesma caridade
pastoral, como se disse, impele e estimula o presbítero a conhecer cada vez
melhor a condição real dos homens aos quais é enviado, a discernir os apelos do
Espírito nas circunstâncias históricas em que está inserido, a procurar os
métodos mais adaptados e as formas mais úteis para exercer hoje o seu
ministério. Assim, a caridade pastoral anima e sustenta os esforços humanos do
sacerdote em vista de uma acção pastoral que seja actual, credível e eficaz.
Mas isto exige uma permanente formação pastoral.
O caminho para a
maturidade não requer só que o sacerdote continue a aprofundar as diversas
dimensões da sua formação, mas também e sobretudo que saiba integrar cada vez
mais harmoniosamente entre si estas mesmas dimensões, chegando progressivamente
à unidade interior: isso tornar´se´á possível pela caridade pastoral. Esta, de
facto, não só coordena e unifica os diferentes aspectos mas especifica´os,
conotando´os como aspectos da formação do sacerdote enquanto tal, ou seja,
enquanto transparência, imagem viva, ministro de Jesus Bom Pastor.
A formação permanente
ajuda´o a vencer a tentação de reduzir o seu ministério a um activismo que se
torna fim em si mesmo,a uma impessoal prestação de coisas mesmo espirituais ou
sagradas, a um mero emprego ao serviço da organização eclesiástica. Só a
formação permanente ajuda o padre a guardar com amor vigilante o ´mistério´ que
traz em si para o bem da Igreja e da humanidade.
O significado profundo da
formação permanente
73. As diferentes e
complementares dimensões da formação permanente ajudam´nos a compreender o seu
significado profundo: ela tende a ajudar o padre a ser e a fazer o padre no
espírito e segundo o estilo de Jesus Bom Pastor.
A verdade é algo a
construir! Assim nos adverte S. Tiago: ´Sede cumpridores da palavra e não meros
ouvintes, enganando´vos a vós próprios´ (Tg 1, 22). Os sacerdotes são chamados
a ´fazer a verdade´ do seu ser, ou seja, a viver ´na caridade´(cf. Ef 4, 15) a
sua identidade e o seu ministério na Igreja e para a Igreja. São chamados a
tomar consciência cada vez mais viva do dom de Deus e a fazer dele contínua
memória. É este o convite de Paulo a Timóteo: ´Guarda o bom depósito pela
virtude do Espírito Santo que habita em nós´ (2 Tim 1, 14).
No contexto eclesiológico
várias vezes recordado, pode considerar´se o significado profundo da formação
permanente do sacerdote em ordem à sua presença e acção na Igreja mysterium,
communio et missio.
Dentro da Igreja
´mistério´, ele é chamado, mediante a formação permanente, a conservar e
desenvolver na fé a consciência da verdade inteira e surpreendente do seu ser:
ele é ministro de Cristo e administrador dos mistérios de Deus (cf. 1 Cor 4,
1). Paulo pede expressamente aos cristãos que o considerem segundo esta
identidade; mas ele mesmo, em primeiro lugar, vive na consciência do dom
sublime recebido do Senhor. Assim deve acontecer com cada sacerdote, se quiser
permanecer na verdade do seu ser. Mas isto apenas é possível na fé, só olhando
com os olhos de Cristo.
Neste sentido, se pode
dizer que a formação permanente tende a fazer com que o padre seja um crente e
se torne sempre mais crente: que veja sempre verdade própria, com os olhos de
Cristo. Ele deve guardar esta verdade com amor grato e alegre. Deve renovar a
sua fé, quando exerce o ministério sacerdotal: sentir´se ministro de Jesus
Cristo, sacramento do amor de Deus pelo homem, todas as vezes que é meio e
instrumento vivo da concessão da graça de Deus aos homens. Deve reconhecer esta
mesma verdade nos irmãos do presbitério: é o princípio da estima e do amor para
aos outros sacerdotes.
74. A formação permanente
ajuda o sacerdote, dentro da Igreja ´comunhão´, a amadurecer a consciência de
que o seu ministério é, em última instância, ordenado a reunir a família de
Deus como fraternidade animada pela caridade e a conduzí´la ao Pai por meio de
Cristo no Espírito Santo [219].
O presbítero deve crescer
no conhecimento da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus: ele não está
apenas ´à frente´ da Igreja, mas e primariamente ´na´ Igreja. É irmão entre irmãos.
Agraciado pelo baptismo, com a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus no
Filho unigénito, o sacerdote é membro do mesmo e único Corpo de Cristo (cf. Ef
4, 16). A consciência desta comunhão desemboca na necessidade de suscitar e
desenvolver a corresponsabilidade na comum e única missão de salvação, com a
pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito
oferece aos crentes para a edificação da Igreja. É sobretudo na realização do
ministério pastoral, por sua natureza ordenada ao bem do Povo de Deus, que o
padre deve viver e testemunhar a sua profunda comunhão com todos, como escrevia
Paulo VI: ´É preciso fazer´se irmão dos homens no mesmo acto em que queremos
ser seus pastores, pais e mestres. O clima do diálogo é a amizade; ou melhor, o
serviço´ [220].
De modo mais específico,
o sacerdote é chamado a amadurecer a consciência de ser membro da Igreja
particular, na qual está incardinado, ou seja, inserido por uma ligação ao
mesmo tempo jurídica, espiritual e pastoral. Essa consciência supõe e faz
crescer um amor particular à própria Igreja. Esta, na realidade, é o termo vivo
e permanente da caridade pastoral que deve acompanhar a vida do padre e que o
leva a partilhar a história ou a experiência de vida desta Igreja particular nas
suas riquezas e fragilidades, nas suas dificuldades e esperanças, a trabalhar
nela para o seu crescimento. Cada qual unido aos outros présbíteros deve,
portanto, sentir´se enriquecido pela Igreja particular e empenhado activamente
na sua edificação, prolongando aquela acção pastoral que distinguiu os irmãos
que o precederam. Uma exigência insuprimível da caridade pastoral à própria
Igreja particular e do seu amanhã ministerial é a solici tude que o sacerdote
deve ter para encontrar, por assim dizer, alguém que o substitua no sacerdócio.
O padre deve amadurecer
na consciência da comunhão que subsiste entre as várias Igrejas particulares,
uma comunhão radicada no seu próprio ser de Igrejas que vivem in loco a Igreja
única e universal de Cristo. Uma tal consciência de comunhão inter´eclesial
favorecerá o ´intercâmbio de dons´, a começar pelos dons vivos e pessoais que
são os próprios sacerdotes. Daqui a disponibilidade, ou melhor, o empenho
generoso na realização de uma equitativa distribuição do clero [221]. Entre
estas Igrejas particulares são de recordar as que, ´privadas da liberdade, não
podem ter vocações próprias´, como também as ´Igrejas recentemente saídas da
perseguição e as Igrejas pobres às quais foram já dadas ajudas, durante muito
tempo e por parte de muitos, e continuam ainda a ser ajudadas com ânimo grande
e fraterno´ [222].
Dentro da comunhão
eclesial, o sacerdote é particularmente chamado a crescer, na sua formação
permanente, no e com o próprio presbitério unido ao Bispo. Na sua verdade plena,
o presbitério é um mysterium: de facto, é uma realidade sobrenatural porque se
radica no sacramento da Ordem. Este é a sua fonte, a sua origem. É o ´lugar´ do
seu nascimento e crescimento. Com efeito, ´os presbíteros, mediante o
sacramento da Ordem, estão ligados a Cristo único Sacerdote por um vínculo
pessoal e indissolúvel. A Ordem é´lhes conferida como pessoas singulares, mas
são inseridos na comunhão de todo o presbitério com o Bispo (Lumen gentium, 28;
Presbyterorum ordinis, 7 e 8)´ [223].
Esta origem sacramental
reflecte´se e prolonga´se no âmbito do exercício do ministério presbiteral: do
mysterium ao ministerium. ´A unidade dos presbíteros com o Bispo e entre si não
se acrescenta de fora à natureza própria do seu serviço, mas exprime a sua essência
enquanto é o cuidado de Cristo Sacerdote pelo Povo reunido na unidade da
Santíssima Trindade´ [224]. Esta unidade presbiteral, vivida no espírito da
caridade pastoral, torna os sacerdotes testemunhas de Jesus Cristo, que pediu
ao Pai ´para que todos sejam um só´ (Jo 17, 21).
A fisionomia do
presbitério é, portanto, a de uma verdadeira família, de uma fraternidade,
cujos laços não são da carne nem do sangue mas os da graça sacramental da
Ordem: uma graça que assume e eleva as relações humanas, psicológicas,
afectivas e espirituais entre os sacerdotes; uma graça que se expande, penetra,
se revela e concretiza nas mais variadas formas de ajuda recíproca, não só
espirituais mas também materiais. A fraternidade presbiteral não exclui
ninguém, mas pode e deve ter as suas preferências: são as preferências
evangélicas, reservadas a quem tem maior necessidade de ajuda ou encorajamento.
Assim essa fraternidade ´tem um cuidado especial pelos jovens presbíteros, tem
um cordial e fraterno diálogo com os de meia idade e os de idade avançada e com
os que, por razões diversas, experimentam dificuldades; e também aos sacerdotes
que abandonaram esta forma de vida ou que não a seguem, não os abandona, pelo
contrário, acompanha´os ainda mais com fraterna solicitude´ [225].
Do único presbitério
fazem também parte, a título diferente, os presbíteros religiosos que residem e
trabalham na Igreja particular. A sua presença constitui um enriquecimento para
todos; e os e os vários carismas particulares, por eles vividos, enquanto são
um apelo a que os presbíteros cresçam na compreensão do próprio sacerdócio,
contribuem para estimular e acompanhar a formação permanente dos sacerdotes. O
dom da vida religiosa, na estrutura diocesana, quando é acompanhado de sincera
estima e de justo respeito pela particularidade de cada instituto e de cada
tradição espiritual, alarga o horizonte do testemunho cristão e contribui de
vários modos para enriquecer a espiritualidade sacerdotal, sobretudo no que se
refere à correcta relação e ao recíproco influxo entre os valores da Igreja
particular e da universalidade do Povo de Deus. Por seu lado, os religiosos
estarão atentos para garantirem um espírito de verdadeira comunhão eclesial,
uma participação cordial no caminho da diocese e nas opções pastorais do Bispo,
pondo voluntariamente à disposição o próprio carisma para a edificação de todos
na caridade [226].
Enfim, no contexto da
Igreja comunhão e do presbitério, pode´se enfrentar melhor o problema da
solidão do sacerdote, sobre o qual reflectiram os Padres sinodais. Há uma
solidão que faz parte da experiência de todos e que é algo de absolutamente
normal. Mas há também aquela solidão que nasce de dificuldades várias e que,
por sua vez, provoca ulteriores contrariedades. Neste sentido, ´a activa participação
no presbitério diocesano, os contactos regulares com o Bispo e com os outros
sacerdotes, a mútua colaboração, a vida comum ou fraterna entre colegas, como
também a amizade e a cordialidade com os fiéis leigos actuantes nas paróquias
são meios muito úteis para ultrapassar os efeitos da solidão que algumas vezes
o sacerdote pode experimentar´ [227].
A solidão, porém, não
cria só dificuldades, oferece também oportunidades positivas para a vida
sacerdotal: ´aceite com espírito de oferta e procurada na intimidade com Jesus
Cristo Senhor, a solidão pode ser uma oportunidade para a oração e o estudo,
como também uma ajuda para a santificação e o crescimento humano´ [228]. Uma
certa forma de solidão é elemento necessário para a formação permanente. Jesus,
sabia retirar´se por vezes, para orar sozinho (cf. Mt 14, 23). A capacidade de
aguentar uma boa solidão é condição indispensável para o cuidado da vida
interior. Trata´se de uma solidão habitada pela presença do Senhor, que, na luz
do Espírito Santo, nos põe em contacto com o Pai. Neste sentido, a procura do
silêncio e de espaços e tempos de ´deserto´ é necessária à formação permanente,
quer no campo intelectual, quer no campo espiritual e pastoral. Neste sentido
ainda, pode´se afirmar que não é capaz de verdadeira e fraterna comunhão, quem
não sabe viver bem a própria solidão.
75. A formação permanente
destina´se a fazer crescer no sacerdote a consciência da sua participação na
missão salvífica da Igreja. Na Igreja ´missão´, a formação permanente dele
entra não só como sua condição necessária, mas também como meio indispensável
para manter constantemente vivo o sentido da missão e para lhe garantir uma
realização fiel e generosa. Com tal formação, o presbítero é ajudado a tomar
plena consciência, por um lado, da gravidade, mas também da graça esplêndida de
uma obrigação que não pode deixá´lo tranquilo ´ como Paulo, deve poder afirmar:
´Para mim, evangelizar não é um título de glória, mas um dever. Ai de mim se
não prego o Evangelho!´ (1 Cor 9,16) ´e, por outro lado, de um pedido
insistente, explícito ou implícito, dos homens,aos quais Deus incansavelmente
chama à salvação.
Só uma adequada formação
permanente consegue manter o sacerdote naquilo que é essencial e decisivo para
o seu ministério, ou seja, na fidelidade, como escreve o apóstolo Paulo: ´Ora,
o que se requer dos administradores (dos mistérios de Deus) é que sejam fiéis´
(1 Cor 4, 2). O padre deve ser fiel, não obstante as mais diversas dificuldades
encontradas, nas condições mais incómodas ou de compreensível cansaço, com
todas as energias de que dispõe, e até ao fim da vida. O testemunho de Paulo
deve servir de exemplo e de estímulo para cada sacerdote. ´Da nossa parte ´
escreve aos cristãos de Corinto ´ não damos em nada qualquer motivo de escândalo
para que o nosso ministério não seja censurado. Em todas as coisas, procuramos
acreditar´nos como ministros de Deus, com muita paciência nas tribulações, nas
necessidades, nas angústias, nos açoites, nos cárceres, nas sedições, nos
trabalhos, nas vigílias, nos jejuns; pela castidade, pela ciência, pela
paciência, pela bondade, pelo Espírito Santo, por uma caridade não fingida,
pela palavra da verdade, pelo poder de Deus; com as armas da justiça, as da mão
direita e as da esquerda; na honra e na desonra, na boa e na má fama;
considerados como impostores, ainda que sinceros; como desconhecidos, ainda que
bem conhecidos; como agonizantes, embora estejamos com vida; como condenados,
ainda que livres da morte; considerados tristes, mas sempre alegres; pobres, ainda
que tenhamos enriquecido a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo´ (2 Cor
6, 3´10).
Em todas as idades e
condições de vida
76. A formação
permanente, precisamente porque é ´permanente´, deve acompanhar os sacerdotes
sempre, ou seja, em todos os períodos e condições da sua vida, assim como nos
diversos níveis de responsabilidade eclesial: evidentemente, com as
possibilidades e características ligadas às várias idades, condições de vida e
tarefas confiadas.
A formação permanente é
um dever, antes de mais, para os jovens sacerdotes: deve ter uma tal frequência
e sistematização de encontros que, enquanto prolonga a seriedade e a solidez da
formação recebida no Seminário, introduza progressivamente os jovens na
compreensão e na vivência das singulares riquezas do ´dom´ de Deus ´ o
sacerdócio ´ e na expressão das suas potencialidades e atitudes ministeriais,
graças também a uma inserção cada vez mais convicta e responsável no
presbitério, e, portanto, na comunhão e na corresponsabilidade com todos os irmãos
no sacerdócio.
Se se pode compreender um
certo sentido de ´saciedade´ que se apodera dos jovens padres mal saídos do
Seminário, frente a novas ocasiões de estudo e de encontro, deve todavia
rejeitar´se como absolutamente falsa e perigosa a idéia de que a formação
presbiteral se conclui no termo da presença no Seminário.
Participando nos
encontros de formação permanente, os jovens sacerdotes poderão oferecer uma
recíproca ajuda com a troca de experiências e de reflexões sobre a tradução
concreta daquele ideal presbiteral e ministerial que assimilaram nos anos de
Seminário. Ao mesmo tempo, a sua participação activa nos encontros formativos
do presbitério poderá servir de exemplo e de estímulo aos outros sacerdotes
mais avançados em idade, testemunhando assim o próprio amor a todo o
presbitério e a própria paixão pela Igreja particular necessitada de padres bem
formados.
Para acompanhar os jovens
sacerdotes nesta primeira e delicada fase da sua vida e do seu ministério, é
hoje muito oportuno, senão mesmo necessário, criar propositadamente uma
estrutura de apoio,com guias e mestres apropriados, na qual possam encontrar,
de modo orgânico e continuado, as ajudas necessárias para bem iniciar o seu
serviço sacerdotal. Por ocasião dos encontros periódicos, suficientemente
longos e frequentes, possivelmente orientados em ambiente comunitário e regime
interno, ser´lhes´ão garantidos momentos preciosos de repouso, de oração, de
reflexão e de intercâmbio fraterno. Assim, logo desde o início, será mais fácil
para eles dar uma orientação evangelicamente equilibrada à sua vida
presbiteral. E se cada uma das Igrejas particulares, por si, não puder oferecer
este serviço aos seus jovens sacerdotes, será oportuno que se unam entre si as
Igrejas vizinhas e, em conjunto, invistam recursos e elaborem programas
adaptados.
77. A formação permanente
constitui também um dever para os presbíteros de meia idade. Na verdade, são
múltiplos os riscos que podem correr, precisamente em razão da idade, como, por
exemplo, um activismo exagerado e uma certa rotina no exercício do ministério.
Assim, o sacerdote é tentado a presumir de si, como se a sua já comprovada
experiência pessoal não precisasse mais de confrontar´se com nada nem com
ninguém. Frequentemente o sacerdote ´adulto´ sofre de uma espécie de cansaço
interior perigoso, sinal de uma desilusão resignada diante das dificuldades e
dos insucessos. A resposta a esta situação é dada pela formação permanente, por
uma contínua e equilibrada revisão de si mesmo e do próprio agir, pela procura
constante de motivações e de instrumentos para a sua missão: deste modo, o
sacerdote manterá o espírito vigilante e pronto para os perenes mas sempre
novos apelos de salvação que cada um põe ao padre, ´homem de Deus´.
A formação permanente
deve interessar também aqueles presbíteros que, pela idade avançada, são
designados como idosos, e que em algumas Igrejas constituem a parte mais
numerosa do presbitério. Este deve reservar´lhes gratidão pelos fiéis serviços
que prestaram a Cristo e à Igreja e solidariedade concreta pela sua condição.
Para eles, a formação permanente não comportará tanto obrigações de estudo, de
actualização e de debate cultural, mas sobretudo a confirmação serena e
animadora do papel que ainda são chamados a desempenhar no presbitério: não só
para o prosseguimento, embora de formas diversas, do ministério pastoral, mas
também pela possibilidade que têm, graças à sua experiência de vida e de
apostolado, de se tornarem eles mesmos válidos mestres e formadores de outros
sacerdotes.
Também os padres que,
pelas fadigas ou doença, se encontram numa condição de debilidade física ou de
cansaço moral, podem ser ajudados por uma formação permanente que os estimule a
prosseguir de modo sereno e forte o seu serviço à Igreja, a não isolar´se da comunidade
nem do presbitério, a reduzir a actividade externa para dedicar´se aos actos de
relação pastoral e de espiritualidade pessoal capazes de sustentar as
motivações e a alegria do seu sacerdócio. A formação permanente ajuda´los´á, em
particular, a manter viva aquela convicção que eles próprios inculcaram nos
fiéis, isto é, a de continuaram a ser membros activos na edificação da Igreja,
especialmente em razão da sua união a Jesus Cristo sofredor e a tantos outros
irmãos e irmãs que na Igreja tomam parte na paixão do Senhor, revivendo a
experiência espiritual de Paulo, que dizia: ´Alegro´me nos sofrimentos
suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos
sofrimentos de Cristo, em favor do Seu Corpo, que é a Igreja´ (Col 1, 24)
[229].
Os responsáveis da
formação permanente
78. As condições, em que
muitas vezes e em tantos lugares se processa actualmente o ministério dos
presbíteros, não facilitam um empenhamento sério na formação: a multiplicação
de tarefas e serviços, a complexidade da vida humana em geral e a das
comunidades cristãs em particular, o activismo e a ânsia típica de tantas áreas
da nossa sociedade privam frequentemente sacerdotes do tempo e das energias
indispensáveis para ´cuidar de si mesmos´ (cf. 1 Tim 4, 16).
Isto deve fazer crescer
em todos a responsabilidade, para que as dificuldades sejam superadas, ou
melhor, se tornem um desafio para elaborar e realizar uma formação permanente
que responda de modo adequado à grandeza do dom de Deus e à gravidade dos
pedidos e exigências do nosso tempo.
Os responsáveis dessa
formação permanente devem procurar´se na Igreja ´comunhão´. Neste sentido, é
toda a Igreja particular que, sob a orientação do Bispo, é investida da
responsabilidade de estimular e cuidar, de vários modos, a formação permanente
dos sacerdotes. Estes não existem para si mesmos, mas para o Povo de Deus: por
isso, a formação permanente, enquanto assegura a maturidade humana, espiritual,
intelectual e pastoral dos padres, resulta num bem de que é destinatário o Povo
de Deus. De resto, o próprio exercício do ministério pastoral leva a um
contínuo e fecundo intercâmbio recíproco entre a vida de fé dos presbíteros e a
dos fiéis. Precisamente a partilha de vida entre o presbítero e a comunidade,
se sapientemente conduzida e utilizada, constitui um contributo fundamental
para a formação permanente, não redutível, porém, a qualquer episódio ou
iniciativa isolada, mas alargada a todo o ministério e vida do sacerdote.
De facto, a experiência
cristã das pessoas simples e humildes, os ímpetos espirituais das pessoas
enamoradas de Deus, as aplicações corajosas da fé à vida por parte dos cristãos
empenhados nas várias responsabilidades sociais e civis são acolhidas pelo
presbítero que, enquanto as ilumina com o seu serviço sacerdotal, tira delas um
precioso alimento espiritual. Até as dúvidas, as crises e os atrasos frente às
mais variadas condições pessoais e sociais, as tentações de recusa ou de
desespero no momento da dor, da doença, da morte: enfim, todas as
circunstâncias difíceis que os homens encontram no seu caminho da fé são
fraternalmente vividas e sinceramente sofridas pelo coração do presbítero que,
ao procurar as respostas para os outros, é continuamente estimulado a
encontrá´las, antes de mais, para si mesmo.
Assim todo o Povo de
Deus, na diversidade dos seus membros, pode e deve oferecer uma preciosa ajuda
à formação permanente dos seus sacerdotes. Neste sentido, deve deixar´lhes
espaços de tempo para o estudo e para a oração, pedir´lhes aquilo para que
foram enviados por Cristo enada mais, oferecer colaboração nos vários âmbitos
da missão pastoral, especialmente no que diz respeito à promoção humana e ao
serviço da caridade, assegurar relações cordiais e fraternas com eles,
facilitar´lhes a consciência de que não são ´donos da fé´ mas ´colaboradores da
alegria´ de todos os fiéis (cf. 2 Cor 1, 24).
A responsabilidade
formadora da Igreja particular pelos sacerdotes concretiza´se e especifica´se
em relação aos diferentes membros que a compõem, a começar pelo próprio presbítero.
79. Num certo sentido, é
precisamente cada sacerdote individualmente, o primeiro responsável na Igreja
pela formação permanente: na realidade, sobre cada padre recai o dever,
radicado no sacramento da Ordem, de ser fiel ao dom de Deus e ao dinamismo de
conversão quotidiana que vem desse mesmo dom. Os regulamentos ou as normas da
autoridade eclesiástica, ou mesmo o exemplo dos outros sacerdotes, não bastam
para tornar apetecível a formação permanente, se cada um não estiver
pessoalmente convencido da sua necessidade e determinado a valorizar´lhe as
ocasiões, os tempos, as formas. A formação permanente mantém a ´juventude´ do
espírito, que ninguém pode impor de fora, mas que cada um deve encontrar
continuamente dentro de si mesmo. Só quem conserva sempre vivo o desejo de
aprender e de crescer possui esta ´juventude´.
Fundamental é a
responsabilidade do Bispo e, com ele, do presbitério. A daquele funda´se sobre
o facto de os presbíteros receberem através dele o sacerdócio e partilharem com
ele a solicitude pastoral pelo Povo de Deus. Ele é responsável por aquela
formação permanente destinada a fazer com que todos os seus sacerdotes sejam
generosamente fiéis ao dom e ao ministério recebido, tal como o Povo de Deus o
quer e tem o ´direito´ de ter. Esta responsabilidade leva o Bispo, em comunhão
com o presbitério, a delinear um projecto e a estabelecer uma programação capaz
de configurar a formação permanente não como algo de episódico mas como uma
proposta sistemática de conteúdos, que se desenrola por etapas e se reveste de
modalidades precisas. Ele assumirá a sua responsabilidade não só assegurando ao
seu presbitério lugares e momentos de formação permanente, mas também estando
presente em pessoa e participando de modo convicto e cordial. Por vezes será oportuno,
ou até necessário, que os bispos de várias dioceses vizinhas ou de uma região
eclesiástica se ponham de acordo e unam as suas forças para poder oferecer
iniciativas mais qualificadas e verdadeiramente estimulantes para a formação
permanente, tais como Cursos de actualização bíblica, teológica e pastoral,
Semanas de estudos, Ciclos de conferências, momentos de reflexão e de análise
sobre o itinerário pastoral do presbitério e da comunidade eclesial.
O Bispo, para dar
cumprimento a esta sua responsabilidade, solicite também o contributo das
Faculdades e dos Institutos teológicos e pastorais, dos Seminários, dos
organismos ou federações que reúnem pessoas ´ sacerdotes, religiosos e fiéis
leigos ´ empenhadas na formação presbiteral.
No âmbito da Igreja
particular, um lugar significativo é reservado às famílias: a elas, de facto,
na sua dimensão de ´igrejas domésticas´, faz referência concreta a vida das
comunidades eclesiais animadas e guiadas pelos sacerdotes. É de realçar
particularmente o papel da família de origem. Esta, em união e comunhão de
desígnios, pode oferecer à missão do filho um contributo específico importante.
Cumprindo o plano providencial que a quis berço do gérmen vocacional e
indispensável ajuda para o seu desenvolvimento, a família do sacerdote, no mais
absoluto respeito por este filho que escolheu doar´se a Deus e ao próximo, deve
permanecer sempre como uma fiel e encorajante testemunha da sua missão,
acompanhando´a e partilhando´a com dedicação e respeito.
Momentos, formas e meios
da formação permanente
80. Se cada momento pode
ser um ´tempo favorável´ (cf. 2 Cor 6, 2), no qual o Espírito Santo
directamente conduz o sacerdote a um crescimento na oração, no estudo e na
consciência das próprias responsabilidades pastorais, há, todavia, momentos
´previlegiados´, mesmo se mais comunitários e pré´estabelecidos.
São de recordar aqui,
antes de mais, os encontros do Bispo com o seu presbitério, sejam eles
litúrgicos (em particular a concelebração da Missa Crismal de Quinta´feira
Santa), pastorais ou culturais, em ordem a um confronto sobre a actividade
pastoral ou ao estudo de determinados problemas teológicos.
Estão, depois, os
encontros de espiritualidade sacerdotal, tais como os retiros, os dias de
recolecção e de espiritualidade, etc. Constituem ocasião para um crescimento
espiritual e pastoral, para uma oração mais prolongada e calma, para um
regresso às raízes do seu ser padre, para reencontrar vigor de motivações para
a fidelidade e o impulso pastoral.
Importantes são também os
encontros de estudo e de reflexão comum: impedem o empobrecimento cultural e a
fixação em posições cómodas mesmo no campo pastoral, fruto de preguiça mental;
asseguram uma síntese mais madura entre os diversos elementos da vida
espiritual, cultural e apostólica; abrem a mente e o coração aos novos desafios
da história e aos novos apelos que o Espírito Santo dirige à Igreja.
81. Múltiplas são as
ajudas e os meios de que a formação permanente se pode servir para se tornar
cada vez mais uma preciosa experiência vital para o clero. De entre eles,
recordamos as diferentes formas de vida comum entre os sacerdotes, sempre
presentes, ainda que em modalidades e intensidades diferentes, na história da
Igreja: ´Hoje não se pode deixar de recomendá´las, sobretudo entre aqueles que
vivem ou estão empenhados pastoralmente no mesmo lugar. Além de favorecer a
vida e a acção pastoral, esta vida comum do clero oferece a todos, presbíteros
e leigos, um exemplo luminoso de caridade e de unidade´ [230].
Outra ajuda pode ser dada
pelas associações sacerdotais, em particular pelos institutos seculares
sacerdotais, que apresentam como nota específica a diocesaneidade, por força da
qual os sacerdotes se unem mais estreitamente ao Bispo, e constituem ´um estado
de consagração no qual os sacerdotes, mediante votos ou outros laços sagrados,
são chamados a incarnar na vida os conselhos evangélicos´ [231].Todas as formas
de ´fraternidade sacerdotal´ aprovadas pela Igreja são úteis tanto para a vida
espiritualcomo para a vida apostólica e pastoral.
Também a prática da
direcção espiritual contribui muito para favorecer a formação permanente dos
sacerdotes. É um meio clássico, que nada perdeu do seu precioso valor, não só
para assegurar a formação espiritual mas ainda para promover e sustentar uma
contínua fidelidade e generosidade no exercício do ministério sacerdotal. Como
então escrevia o futuro Papa Paulo VI, ´a direcção espiritual tem uma função
belíssima e pode dizer´se indispensável para a educação moral e espiritual da
juventude que queira interpretar e seguir com absoluta lealdade a vocação da
própria vida, seja ela qual for, e conserva sempre uma importância benéfica
para todas as idades da vida, quando à luz e à caridade de um conselho piedoso
e prudente se pede a comprovação da própria rectidão e o conforto para o
cumprimento generoso dos próprios deveres. É meio pedagógico muito delicado,
mas de grandíssimo valor; é arte pedagógica e psicológica de grande
responsabilidade para quem a exercita; é exercício espiritual de humildade e de
confiança para quem a recebe´ [232].
CONCLUSÃO
82. ´Dar´vos´ei pastores
segundo o meu coração´ (Jer 3, 15).
Ainda hoje esta promessa
de Deus está viva e operante na Igreja: esta sente´se, em todos os tempos,
feliz destinatária destas palavras proféticas; vê a sua realização quotidiana
em tantas partes da terra, melhor, em tantos corações humanos, sobretudo de
jovens. E deseja que, frente às graves e urgentes necessidades próprias e do
mundo, às portas do terceiro milénio, esta divina promessa se cumpra de um modo
novo, mais amplo, intenso, eficaz: como uma extraordinária efusão do Espírito
do Pentecostes.
A promessa do Senhor
suscita no coração da Igreja a oração, a súplica ardente e confiante no amor do
Pai de que, tal como mandou Jesus o Bom Pastor, os Apóstolos, os seus
sucessores e uma multidão inumerável de presbíteros, assim continue a
manifestar aos homens de hoje a sua fidelidade e a sua bondade.
E a Igreja está pronta a
responder a esta graça. Sente que o dom de Deus exige uma resposta coral e generosa:
todo o Povo de Deus deve incansavelmente rezar e trabalhar pelas vocações
sacerdotais; os candidatos ao sacerdócio devem preparar´se com grande seriedade
para acolher e viver o dom divino, conscientes de que a Igreja e o mundo têm
absoluta necessidade deles; devem enamorar´se de Cristo Bom Pastor, modelar
sobre o Seu o coração deles, estar prontos para a ir pelas estradas do mundo
como sua imagem para proclamar a todos Cristo Caminho, Verdade e Vida.
Um apelo particular
dirijo às famílias: que os pais, e especialmente as mães, sejam generosos em
dar ao Senhor os seus filhos, chamados ao sacerdócio, e colaborem com alegria
no seu itinerário vocacional, conscientes de que, deste modo, tornam maior e
mais profunda a sua fecundidade cristã e eclesial e podem experimentar, em
certa medida, a bem´aventurança de Maria, a Virgem Mãe: ´Bendita és tu entre as
mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre´ (Lc 1, 42).
E aos jovens de hoje
digo: sede mais dóceis à voz do Espírito, deixai ressoar no profundo do coração
as grandes esperanças da Igreja e da humanidade, não tenhais medo de abrir o
vosso espírito ao chamamento de Cristo, senti sobre vós o olhar amoroso de
Jesus e respondei com entusiasmo à proposta de um seguimento radical.
A Igreja corresponde à graça
mediante o compromisso que os sacerdotes assumem de realizar aquela formação
requerida pela dignidade e pela responsabilidade que lhes foram conferidas,
através do sacramento da Ordem. Todos eles são chamados a conscienzializarem´se
da singular urgência da sua formação na hora presente: a nova evangelização tem
necessidade de evangelizadores novos, e estes são os presbíteros que se
esforçam por viver o seu sacerdócio como caminho específico para a santidade.
A promessa de Deus é a de
assegurar à Igreja não quaisquer pastores, mas pastores ´segundo o seu
coração´. O ´coração´ de Deus revelou´se´nos plenamente no Coração de Cristo
Bom Pastor. E o Coração de Jesus continua hoje a ter compaixão das multidões e
a dar´lhes o pão da verdade e o pão do amor e da vida (cf. Mc 6, 30´44), e quer
palpitar noutros corações ´ o dos sacerdotes: ´Dai´lhes vós mesmos de comer´
(Mc 6, 37). As pessoas têm necessidade de sair do anonimato e do medo, precisa
de ser conhecida e chamada pelo nome, de caminhar segura nas estradas da vida,
de ser encontrada se se perder, de ser amada, de receber a salvação como
supremo dom do amor de Deus: é isto, precisamente, o que faz Jesus, o Bom
Pastor; Ele e os presbíteros com ELe.
E agora, no final desta
Exortação, dirijo o olhar à multidão de aspirantes ao sacerdócio, de
seminaristas e de sacerdotes que, em todas as partes do mundo, mesmo nas
condições mais difíceis e por vezes dramáticas, e sempre no alegre esforço de
fidelidade ao Senhor e de incansável serviço ao seu rebanho, oferecem quotidianamente
a própria vida pelo crescimento da fé, da esperança e da caridade, nos corações
e na história dos homens e das mulheres do nosso tempo.
Vós, caríssimos
sacerdotes, fazei´lo porque o próprio Senhor, com a força do seu Espírito, vos
chamou para levar, nos vasos de barro da vossa vida simples, o tesouro
inestimável do seu amor de Bom Pastor.
Em comunhão com os Padres
sinodais e em nome de todos os Bispos do mundo e da inteira comunidade eclesial
exprimo´vos todo o reconhecimento que a vossa fidelidade e o vosso serviço
merecem [233].
E enquanto desejo a todos
vós a graça de renovardes cada dia o dom de Deus recebido pela imposição das
mãos (cf. 2 Tim 1, 6), de sentirdes o conforto da profunda amizade que vos liga
a Jesus e vos une uns aos outros, de experimentardes a alegria do crescimento
do rebanho de Deus num amor sempre maior a Ele e a cada homem, de cultivardes a
persuasão tranquilizadora de que Aquele que iniciou em vós esta boa obra a
completará até ao dia de Cristo Jesus (cf. Fil 1, 6), com todos e cada um de
vós me dirijo em oração a Maria, mãe e educadora do nosso sacerdócio.
Cada aspecto da formação
sacerdotal pode ser referido a Maria como à pessoa humana que correspondeu,
mais do que qualquer outra, à vocação de Deus, que se fez serva e discípula da
Palavra até conceber no seu coração e na sua carne o Verbo feito homem para
dá´Lo à humanidade, que foi chamada à educação do único e eterno Sacerdote que
se fez dócil e submisso à sua autoridade materna. Com o seu exemplo e a sua intercessão,
a Virgem Santíssima continua a estar atenta ao desenvolvimento das vocações e
da vida sacerdotal na Igreja.
Por isso, nós sacerdotes
somos chamados a crescer numa sólida e terna devoção à Virgem Maria,
testemunhando´a pela imitação das suas virtudes e com a oração frequente.
Maria,
Mãe de Jesus Cristo e Mãe
dos sacerdotes
recebei este preito que
nós Vos tributamos
para celebrar a vossa
maternidade
e contemplar junto de Vós
o Sacerdócio
do vosso Filho e dos
vossos filhos,
ó Santa Genetriz de Deus.
Mãe de Cristo,
ao Messias Sacerdote
destes o corpo de carne
para a unção do Espírito
Santo
a salvação dos pobres e
contritos de coração,
guardai no vosso Coração
e na Igreja os sacerdotes,
ó Mãe do Salvador.
Mãe da fé,
acompanhastes ao templo o
Filho do Homem,
cumprimento das promessas
feitas aos nossos Pais,
entregai ao Pai para Sua
glória
os sacerdotes do Filho
Vosso,
ó Arca da Aliança.
Mãe da Igreja,
entre os discípulos no
Cenáculo,
suplicastes o Espírito
para o Povo novo e os
seus Pastores,
alcançai para a ordem dos
presbíteros
a plenitude dos dons,
ó Rainha dos Apóstolos.
Mãe de Jesus Cristo,
estivestes com Ele nos
inícios da Sua vida e da Sua missão,
Mestre O procurastes
entre a multidão,
assististe´l´O levantado
da terra,
consumado para o sacrifício
único eterno,
e tivestes perto João,
Vosso filho,
acolhei desde o princípio
os chamados,
protegei o seu
crescimento,
acompanhai na vida e no
ministério
os Vossos filhos,
ó Mãe dos sacerdotes.
Amen!
Dado em Roma, junto de S.
Pedro, a 25 de Março, Solenidade da Anunciação do Senhor, do ano 1992, décimo
quarto do meu Pontificado.
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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