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COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL MEMÓRIA E RECONCILIAÇÃO:
A IGREJA E AS CULPAS DO PASSADO Cardeal J. Ratzinger Rev. Christopher Begg, Mons. Bruno
Forte (presidente), Rev. Sebastian Karotemprel S.D.B., Mons. Roland
Minnerath, Rev. Thomas Norris, Rev. Rafael Salazar Cardenas M.Sp.S. e Mons.
Anton Strukelj |
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Siglas AAS Acta Apostolicae Sedis CIC Catecismo da Igreja Católica CTI Comissão Teológica
Internacional DH
Dignitatis humanae GS
Gaudium et spes LG
Lumen gentium NA Nostra aetate RP Reconciliatio et paenitentia TMA Tertio millennio adveniente UR Unitatis redintegratio NOTA PRELIMINAR O estudo do tema "A igreja e
as culpas do passado" foi proposto à Comissão Teológica
Internacional pelo seu Presidente, Cardeal J. Ratzinger, tendo em vista a
celebração do Jubileu do ano 2000. Para preparar este estudo foi constituída
uma subcomissão composta pelo Rev. Christopher Begg, Mons. Bruno Forte
(presidente), Rev. Sebastian Karotemprel S.D.B., Mons. Roland Minnerath,
Rev. Thomas Norris, Rev. Rafael Salazar Cardenas M.Sp.S. e Mons. Anton
Strukelj. As discussões gerais sobre este tema desenrolaram-se em inúmeros
encontros da subcomissão e durante as sessões plenárias da mesma Comissão
Teológica Internacional, que tiveram lugar em Roma em 1998 e 1999. O
presente texto foi aprovado sob forma specifica com voto por escrito da
Comissão, e, em seguida, apresentado ao seu presidente, Cardeal J.
Ratzinger, Perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que deu a sua
aprovação para publicação. INTRODUÇÃO A bula de proclamação do Ano
Santo de 2000, Incarnationis mysterium (29 de Novembro de 1998),
aponta entre os sinais "que oportunamente podem servir para viver com
maior intensidade a insigne graça do jubileu", a purificação da
memória. Esta consiste no processo destinado a libertar a consciência
pessoal e colectiva de todas as formas de ressentimento ou violência que a
herança de culpas do passado pode haver deixado, mediante uma renovada
avaliação histórica e teológica dos acontecimentos implicados que
conduza - se for esse o resultado - ao correspondente reconhecimento de
culpa e contribua para um real caminho de reconciliação. Semelhante
processo pode incidir de modo significativo no presente, justamente porque
as culpas passadas fazem frequentemente sentir ainda o peso das suas consequências
e permanecem como outras tantas tentações também hoje. Enquanto tal, a purificação da
memória requer "um acto de coragem e humildade para reconhecer as
faltas cometidas por quantos tiveram e têm o nome de cristãos", e
funda-se na convicção de que "por causa daquele vínculo que nos une
uns aos outros no corpo místico, todos nós, não tendo embora
responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus
- o único que conhece os corações -, carregamos o peso dos erros e culpas
dos que nos precederam". João Paulo II acrescenta: "Como sucessor
de Pedro, peço que neste ano de misericórdia a Igreja, fortalecida pela
santidade que recebe do seu Senhor, se ajoelhe diante de Deus e implore o
perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos." (1) Para
confirmar que "os cristãos são convidados a assumir, perante Deus e
os homens ofendidos pelos seus comportamentos, as faltas que
cometeram", o Papa conclui: "Façam-no sem nada pedir em troca,
animados apenas pelo 'amor de Deus [que] foi derramado em nossos corações'
(Rm 5,5)." (2) Os pedidos de perdão feitos pelo
Bispo de Roma neste espírito de autenticidade e gratuidade, suscitaram
diversas reacções: a incondicional confiança que o Papa demonstrou ter no
poder da Verdade encontrou acolhimento geralmente favorável, dentro e fora
da comunidade eclesial. Não poucos sublinharam a acrescida credibilidade
das declarações eclesiais em consequência deste comportamento. Não
faltaram, porém, algumas reservas, expressão sobretudo da apreensão
ligada a particulares contextos históricos e culturais, em que a mera
admissão de faltas cometidas pelos filhos da Igreja poderia assumir o
significado de uma cedência perante as acusações de quem lhe é
preconceituosamente hostil. Entre consenso e apreensão, adverte-se para a
necessidade de uma reflexão que esclareça as razões, condições e exacta
configuração dos pedidos de perdão relativos às culpas do passado. Desta
necessidade entendeu encarregar-se a Comissão Teológica Internacional, na
qual estão representadas diferentes culturas e sensibilidades no interior
da única fé católica, elaborando o presente texto. Nele é oferecida uma
reflexão teológica acerca das condições de possibilidade dos actos de
"purificação da memória", ligados ao reconhecimento das culpas
do passado. As questões a que se procura
responder são: Porquê efectuar tais actos? Quais os seus sujeitos
adequados? Qual o seu objecto e como é ele determinado, conjugando
correctamente juízo histórico e juízo teológico? Quais são os destinatários?
Quais as implicações morais? E quais os possíveis efeitos na vida da
Igreja e na sociedade? O objectivo do texto não é, portanto, levar a exame
casos históricos particulares, mas clarificar os pressupostos que tornam
fundado o arrependimento relativo a culpas passadas. O haver precisado, desde o início,
o género de reflexão aqui apresentada clarifica também aquilo a que nos
referimos quando se fala da Igreja: não se trata nem só da instituição
histórica, nem apenas da comunhão espiritual dos corações iluminados
pela fé. Por Igreja entender-se-á sempre a comunidade dos baptizados,
inseparavelmente visível e operante na história sob a direcção dos
pastores, e unificada na profundidade do seu mistério pela acção do Espírito
vivificante; aquela Igreja que - segundo as palavras do concílio Vaticano
II - "por uma não fraca analogia é comparada ao mistério do Verbo
incarnado. Pois, assim como a natureza assumida serve ao Verbo divino de
instrumento vivo de salvação, a Ele indissoluvelmente unido, de modo
semelhante a estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a
vivifica, para o crescimento do corpo (cf. Ef 4,16)" (LG 8). Esta
Igreja - que abraça os seus filhos do passado, assim como os do presente,
numa real e profunda comunhão - é a única Mãe na Graça que carrega em
si o peso das culpas também passadas para purificar a memória e viver a
renovação do coração e da vida segundo a vontade do Senhor.Pode fazê-lo
porquanto Jesus Cristo - de que é o Corpo misticamente prolongado na história
- assumiu em si, de uma vez por todas, os pecados do mundo. A estrutura do texto reflecte as
questões colocadas: faz primeiramente uma breve revisitação histórica do
tema (cap. I), para poder indagar, depois, os fundamentos bíblicos (cap.
II) e aprofundar as condições teológicas dos pedidos de perdão (cap.
III). A precisa conjugação de juízo histórico e juízo teológico é
elemento decisivo para chegar a asserções correctas e válidas, que dêem
adequadamente conta dos tempos, dos lugares e dos contextos em que se situam
os actos considerados (cap. IV). Às implicações morais (cap. V),
pastorais e missionárias (cap. VI) destes actos de arrependimento relativos
às culpas do passado, são dedicadas as considerações finais, que têm
naturalmente um valor específico para a Igreja católica. Mas a consciência
de que a exigência de reconhecer as culpas próprias tem razão de ser para
todos os povos e para todas as religiões, faz-nos desejar que as reflexões
propostas ajudem todos a avançar pelo caminho da verdade, do diálogo
fraterno e da reconciliação. Para concluir esta introdução, não
será inútil mencionar de novo a finalidade última de todo o possível
acto de "purificação da memória" levado a cabo pelos crentes,
pois também ele inspirou o trabalho da Comissão: trata-se da glorificação
de Deus, porque viver na obediência à Verdade divina e às suas exigências
leva a confessar, juntamente com as nossas culpas, a misericórdia e justiça
eternas do Senhor. A confessio peccati - sustentada e iluminada pela fé na
Verdade que liberta e salva (confessio fidei) - torna-se confessio
laudis dirigida a Deus, na presença de quem apenas é possível reconhecer
as culpas do passado assim como as do presente, para nos deixarmos
reconciliar n'Ele e com Ele em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, e
tornarmo-nos capazes de oferecer o perdão a quantos tivermos ofendido. Esta
oferta de perdão surge particularmente significativa se pensarmos em tantas
perseguições sofridas pelos cristãos ao longo da história. Nesta
perspectiva, os actos realizados e pedidos pelo Papa, em relação às
culpas do passado, apresentam valor exemplar e profético, quer para as
religiões quer para os governos e as nações, para além da Igreja católica
que poderá, desse modo, ser ajudada a viver de maneira mais eficaz o grande
Jubileu da incarnação como acontecimento de graça e de reconciliação
para todos. 1. O PROBLEMA: ONTEM E HOJE 1.1. Antes do Vaticano II O Jubileu foi sempre vivido na
Igreja como um tempo de alegria pela salvação dada em Cristo e como ocasião
privilegiada de penitência e reconciliação pelos pecados presentes na
vida do povo de Deus. Desde a sua primeira celebração, com Bonifácio
VIII, no ano de 1300, a peregrinação penitencial ao túmulo dos Apóstolos
Pedro e Paulo está associada à concessão de uma indulgência excepcional
para obter, com o perdão sacramental, a remissão total ou parcial das
penas temporais devidas aos pecados.(3) Neste contexto, quer o perdão
sacramental quer a remissão das penas revestem-se de carácter pessoal. Ao
longo do "ano do perdão e da graça",(4) a Igreja dispensa de
modo particular o tesouro de graças que Cristo constituiu em seu favor.(5)
Em nenhum dos jubileus celebrados até hoje, porém, houve uma tomada de
consciência das eventuais culpas do passado da Igreja, nem da necessidade
de pedir perdão a Deus por comportamentos do passado próximo ou remoto. Deste modo não se encontram, em
toda a história da Igreja, precedentes de pedidos de perdão relativos a
culpas do passado, que tenham sido formulados pelo Magistério. Os concílios
e os decretos papais sancionavam, é certo, os abusos de que fossem dados
como culpados clérigos ou leigos, e não eram poucos os pastores que se
esforçavam sinceramente por os corrigir. Foram, porém, raríssimas as
ocasiões em que as autoridades eclesiais - papas, bispos ou concílios -
reconheceram abertamente as culpas ou os abusos de que fossem culpados eles
próprios. Um exemplo célebre é dado pelo papa reformador Adriano VI que
reconhecia publicamente numa mensagem à Dieta de Nuremberga, em 25 de
Novembro de 1522, "as abominações, os abusos […] e a prevaricações"
de que era culpada a "corte romana" do seu tempo, "doença
[…] profundamente radicada e propagada" que se estendia "da cabeça
aos membros".(6) Adriano VI lamentava as culpas contemporâneas,
precisamente as dos seu imediato predecessor, Leão X, e da sua cúria, sem,
no entanto, lhe associar um pedido de perdão. Será necessário esperar por Paulo
VI para ver um Papa exprimir um pedido de perdão dirigido quer a Deus quer
a um grupo de contemporâneos. No discurso de abertura da 2ª sessão do
Concílio, o Papa "pede perdão a Deus […] e aos irmãos
separados" do Oriente que se sentirem ofendidos "por nós"
(Igreja católica), e declara-se pronto, da sua parte, a perdoar as ofensas
recebidas. Na perspectiva de Paulo VI o pedido e a oferta de perdão diziam
unicamente respeito ao pecado da divisão entre cristãos e pressupunham
reciprocidade. 1.2. Ensinamento do Concílio O Vaticano II coloca-se na mesma
perspectiva de Paulo VI. Pelos erros cometidos contra a unidade - afirmam os
Padres conciliares - "pedimos perdão a Deus e aos irmãos separados,
assim como também perdoamos àqueles que nos ofenderam" (UR 7). Para
além dos erros contra a unidade, o Concílio assinala outros episódios
negativos do passado, nos quais os cristãos tiveram responsabilidade. Desse
modo, "deplora certas atitudes de espírito que não faltaram mesmo
entre os cristãos", que puderam fazer pensar numa oposição entre ciência
e fé (GS 36). Considera, igualmente, que "na génese do ateísmo",
os cristãos podem ter tido "uma certa reponsabilidade", na medida
em que com a sua negligência "antes esconderam do que revelaram o autêntico
rosto de Deus e da religião" (GS 19). Além disso, o Concílio
"deplora" as perseguições e manifestações de anti-semitismo
levadas a cabo "seja em que tempo for e seja por quem for" (NA 4).
Contudo, o Concílio não associa um pedido de perdão aos factos citados. Do ponto de vista teológico, o
Vaticano II distingue entre a indefectível fidelidade da Igreja e as
fraquezas dos seus membros, clérigos ou leigos, ontem como hoje (GS 43 §6),
e, portanto, entre ela, Esposa de Cristo "sem mancha nem ruga […]
santa e imaculada" (cf. Ef 5,27), e os seus filhos, pecadores
redimidos, chamados à permanente metanoia, à renovação no Espírito
Santo. "A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio,
simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita
continuamente a penitência e a renovação" (LG 8).(7) O Concílio elaborou, ainda, alguns
critérios de discernimento relativamente à culpabilidade ou à
responsabilidade dos vivos pelos erros passados. De facto, mencionou, em
dois contextos diferentes, a não imputabilidade aos contemporâneos dos
erros cometidos no passado por membros da sua comunidade religiosa: - "Tudo quanto foi perpretado
na paixão (de Cristo), não pode ser imputado indistintamente a todos os
judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo." (NA 4) - "Comunidades não pequenas
separaram-se da plena comunhão da Igreja católica, algumas não sem culpa
dos homens de um e outro lado. Aqueles, porém, que agora nascem em tais
comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do
pecado da separação, e a Igreja católica abraça-os com fraterna reverência
e amor." (UR 3) Ao primeiro Ano Santo celebrado
depois do Concílio, em 1975, Paulo VI deu como tema "renovação e
reconciliação",(8) precisando, na exortação apostólica Paterna
cum benevolentia, que a reconciliação deveria, antes de mais,
realizar-se entre os fiéis da Igreja católica.(9) Tal como, nas suas
origens, o Ano Santo permanecia ocasião de conversão e reconciliação dos
pecadores com Deus mediante a economia sacramental da Igreja. 1.3. Os pedidos de perdão de João
Paulo II João Paulo II não apenas renova o
pesar pelas "dolorosas memórias" que marcam a história das divisões
entre cristãos, como haviam feito Paulo VI e o concílio Vaticano II,(10)
mas estende também o pedido de perdão a uma multitude de factos históricos
nos quais a Igreja enquanto instituição ou grupos particulares de cristãos
estiveram implicados a diferentes títulos.(11) Na carta apostólica Tertio
millenio adveniente (cf. TMA 33-36), o Papa alegra-se que o Jubileu do
Ano 2000 seja ocasião para uma purificação da memória da Igreja de
"todas as formas de contratestemunho e de escândalo" que
aconteceram ao longo do milénio passado (cf. TMA 33). A Igreja é convidada a
"assumir com maior consciência o peso do pecado dos seus filhos".
Ela "reconhece sempre como próprios os filhos pecadores" e
incita-os a "purificarem-se, pelo arrependimento, de erros,
infidelidades, incoerências, retardamentos" (TMA 33). A
responsabilidade dos cristãos nos males do nosso tempo é, de igual modo,
evocada (cf. TMA 36), embora o acento seja colocado particularmente na
solidariedade da Igreja de hoje com os erros passados, alguns dos quais são
explicitamente mencionados, como a divisão entre os cristãos (cf. TMA 34),
ou "os métodos de violência e intolerância" utilizados no
passado para evangelizar (cf. TMA 35). O próprio João Paulo II estimula
o aprofundamento teológico acerca do peso dos erros do passado e sobre o
eventual pedido de perdão aos contemporâneos(12) quando, na exortação Reconciliatio
et paenitentia, afirma que no sacramento da penitência "o pecador
se encontra só perante Deus com a sua culpa, o seu arrependimento e a sua
confiança. Ninguém se pode arrepender em seu lugar ou pedir perdão em seu
nome" (n. 31). O pecado é, pois, sempre pessoal, mesmo se fere toda a
Igreja que, representada pelo sacerdote ministro da penitência, é
mediadora sacramental da graça que reconcilia com Deus. Também as situações
de "pecado social" - que se verificam no interior das comunidades
humanas quando a justiça, a liberdade e a paz são lesadas - "são
sempre fruto, acumulação e concentração de pecados pessoais". No
momento em que a responsabilidade moral se diluísse em causas anónimas, não
se poderia falar de pecado social senão por analogia (cf. RP 16). Daí
resulta que a imputabilidade de uma culpa não possa ser estendida para lá
do grupo de pessoas que nela consentiram voluntariamente, mediante acções
ou omissões, ou por negligência. 1.4. Questões que se colocam A Igreja é uma sociedade viva que
atravessa os séculos. A sua memória não é apenas constituída pela tradição
que remonta aos Apóstolos, normativa para a sua fé e a sua própria vida,
mas é também rica na variedade de experiências históricas, positivas ou
negativas, que ela viveu. O passado da Igreja estrutura em larga medida o
seu presente. A tradição doutrinal, litúrgica, canónica, ascética
alimenta a vida própria da comunidade crente, oferecendo-lhe um incomparável
mostruário de modelos a imitar. Ao longo de toda a peregrinação terrena,
no entanto, o grão bom permanece sempre misturado com o joio, a santidade
está lado a lado com a infidelidade e o pecado (cf. Mt 13,24-30.36-43).(13)
E é assim que a recordação dos escândalos do passado pode criar obstáculos
ao testemunho da Igreja de hoje, e o reconhecimento dos erros cometidos
pelos filhos da Igreja de ontem pode favorecer a renovação e reconciliação
no presente. A dificuldade que se apresenta é a
de definir os erros passados, devido, antes de mais, ao juízo histórico
que isso exige, porque naquilo que aconteceu é sempre distinta a
responsabilidade ou a culpa que se pode atribuir aos membros da Igreja
enquanto crentes, daquilo que é relativo à sociedade dos séculos chamados
"de cristandade" ou às estruturas de poder nas quais o temporal e
o espiritual estavam então intimamente entrelaçados. Uma hermenêutica
histórica é, portanto, tanto mais necessária para fazer uma adequada
distinção entre a acção da Igreja enquanto comunidade de fé e a da
sociedade, nas épocas de osmose entre ambas. Os passos dados por João Paulo II
para pedir perdão pelos erros do passado foram entendidos em inúmeros
ambientes, eclesiais e não, como sinais de vitalidade e autenticidade da
Igreja, assim como para reforçar a sua credibilidade. É justo, aliás, que
a Igreja contribua para modificar imagens de si falsas e inaceitáveis,
particularmente em domínios em que, por ignorância ou má-fé, alguns
sectores de opinião se comprazem em identificá-la com o obscurantismo ou a
intolerância. Os pedidos de perdão formulados pelo Papa também suscitaram
um estímulo positivo no âmbito eclesial e para lá dele. Chefes de Estado
ou de governo, sociedades privadas e públicas, comunidades religiosas pedem
actualmente perdão por episódios ou períodos históricos assinalados por
injustiças. Esta prática é tudo menos retórica, tanto que alguns hesitam
em dar-lhe acolhimento, calculando os custos consequentes - entre outros no
plano judicial - a um reconhecimento de solidariedade com erros passados.
Também deste ponto de vista, é urgente, pois, um rigoroso discernimento. Não faltam, todavia, fiéis
desconcertados, porquanto a sua fidelidade à Igreja parece ficar abalada.
Alguns interrogam-se como transmitir o amor da Igreja às jovens gerações
se essa mesma Igreja é acusada de crimes e pecados. Outros observam que o
reconhecimento dos erros é no mais das vezes unilateral e é explorado
pelos detractores da Igreja, satisfeitos por a verem confirmar preconceitos
que têm a seu respeito. Outros, ainda, chamam a atenção para o perigo de
se culpabilizarem arbitrariamente as actuais gerações de crentes por
faltas a que não deram a sua anuência de modo nenhum, embora se declarem
prontos a assumir a sua responsabilidade na medida em que grupos humanos se
sintam ainda hoje tocados pelas consequências de injustiças cometidas
pelos seus predecessores noutros tempos. Alguns, também, julgam que a
Igreja poderá purificar a sua memória a respeito dos actos ambíguos nos
quais esteve implicada no passado, simplesmente tomando parte no trabalho crítico
sobre a memória desenvolvido na nossa sociedade. Desse modo, ela poderia
afirmar que partilha com os seus contemporâneos a recusa daquilo que a
consciência moral actual reprova, sem se propor como única culpada e
responsável dos males do passado, e procurando, ao mesmo tempo, o diálogo
no recíproco entendimento com quantos se sintam ainda hoje feridos por
actos passados imputáveis aos filhos da Igreja. Por fim, deve esperar-se
que alguns grupos possam reclamar um pedido de perdão nos seus confrontos,
ou por analogia com outros ou porque julgam ter sofrido injustiças. Em todo
o caso, a purificação da memória não poderá de modo algum significar
que a Igreja renuncie a proclamar a verdade revelada que lhe foi confiada,
quer no campo da fé quer no da moral. Apresentam-se, assim, diversas
interrogações: pode-se investir a consciência actual de uma
"culpa" associada a fenómenos históricos irrepetíveis, como as
cruzadas ou a inquisição? Não é mesmo demasiado fácil julgar os
protagonistas do passado com a consciência actual (como faziam os escribas
e fariseus, segundo Mt 23,29-32), como se a consciência moral não
estivesse situada no tempo? E, por outro lado, pode porventura negar-se que
o juízo ético está sempre em jogo, pelo simples facto de que a verdade de
Deus e suas exigências morais têm valor permanente? Qualquer que seja a
atitude a adoptar, ela deverá ter em conta estas questões, e procurar
respostas que sejam fundadas na revelação e na sua transmissão viva na fé
da Igreja. A questão prioritária é, assim, a de esclarecer em que medida
os pedidos de perdão pelos erros do passado, sobretudo se dirigidos a
grupos humanos de hoje, se situam no horizonte bíblico e teológico da
reconciliação com Deus e com o próximo. 2. ASPECTOS BÍBLICOS É possível desenvolver de vários
modos uma pesquisa sobre o reconhecimento que Israel faz das suas faltas no
Antigo Testamento e acerca do tema da confissão das culpas tal como se
apresenta nas tradições do Novo Testamento.(14) A natureza teológica da
reflexão aqui conduzida leva a privilegiar uma aproximação de género
prevalentemente temático, partindo da seguinte questão: que penhor oferece
o testemunho da Sagrada Escritura ao convite que João Paulo II faz à
Igreja para confessar os erros do passado? 2.1. Antigo Testamento Confissões de pecados associadas a
pedidos de perdão encontram-se em toda a Bíblia, tanto nas narrativas do
Antigo Testamento, como nos Salmos, nos Profetas e nos Evangelhos, assim
como - mais esporadicamente - na literatura sapiencial e nas cartas do Novo
Testamento. Dada a abundância e difusão destes testemunhos, coloca-se a
questão de saber como seleccionar e catalogar um conjunto de textos
significativos. Pode-se interrogar a esse respeito os textos bíblicos
relativos à confissão dos pecados: quem confessa o quê (e que tipo de
erro) a quem? Colocar deste modo a questão ajuda a distinguir duas
categorias principais de "textos de confissão", cada um dos quais
compreendendo diversas subcategorias: a) textos de confissão de pecados
individuais e b) textos de confissão de pecados de todo o povo (e dos seus
antepassados). Em relação à recente prática eclesial que determina a
nossa pesquisa é conveniente restringir a análise à segunda categoria. Nela podem-se identificar diversas
possibilidades, conforme quem faz a confissão dos pecados do povo e quem é
associado pelo menos à culpa colectiva, prescindindo da presença da consciência
de uma responsabilidade pessoal (amadurecida apenas progressivamente: cf. Ez
14,12-23; 18,1-32; 33,10-20). Na base destes critérios podem distinguir-se
os seguintes casos, aliás com uma certa fluidez: - Uma primeira série de textos
representa o povo inteiro (por vezes personificado num simples
"Eu") que, num particular momento da sua história, confessa ou
alude aos seus pecados contra Deus sem qualquer referência (explícita) aos
erros das gerações precedentes.(15) - Um outro grupo de textos coloca a
confissão - dirigida a Deus - dos pecados actuais do povo nos lábios de um
ou mais chefes (religiosos) que possam pelo menos ser incluídos
explicitamente no povo pecador para quem pregam.(16) - Um terceiro grupo de textos
apresenta o povo ou um dos seus chefes no acto de evocar os pecados dos
antepassados, sem contudo mencionar os da geração presente.(17) - Mais frequentemente, as confissões
que mencionam os erros dos antepassados associam-nos expressamente aos
pecados da geração presente.(18) Dos testemunhos recolhidos resulta
que, em todos os casos em que são mencionados os "pecados dos
pais", a confissão é unicamente dirigida a Deus e os pecados
confessados pelo povo ou ao povo são os cometidos directamente contra Ele,
mais do que os cometidos (também) contra outros seres humanos (só em Nm
21,7 se faz referência a alguém humano lesado, Moisés).(19) Surge a questão
por que razão os escritores bíblicos não sentiram necessidade de pedidos
de perdão dirigidos a interlocutores presentes a respeito de erros
cometidos pelos pais, apesar do seu forte sentido de solidariedade entre
gerações no bem e no mal (pense-se na noção de "personalidade
corporativa"). Poder-se-iam avançar várias hipóteses em resposta a
esta questão. Há, antes de mais, o difuso teocentrismo da Bíblia, que dá
a precedência ao reconhecimento quer individual quer nacional dos pecados
cometidos contra Deus. Demais, actos de violência perpretados por Israel
contra outros povos, que pareceriam exigir um pedido de perdão àqueles
mesmos povos ou aos seus descendentes, são entendidos como execução de
directivas divinas a respeito deles, como p. ex. Js 2-11 e Dt 7,2 (o extermínio
dos cananeus), ou 1Sam 15 e Dt 25,19 (a destruição dos amalecitas). Em
tais casos, o mandato divino implicado parece excluir qualquer possibilidade
de pedido de perdão a fazer.(20) As experiências de maus tratos sofridas
por Israel, por parte de outros povos, e a animosidade assim suscitada
poderiam também ter militado contra a ideia de pedir perdão a esses povos
pelos males por eles trazidos.(21) De qualquer modo, permanece
relevante, no testemunho bíblico, o sentido da solidariedade
intergeracional no pecado (e na graça), que se exprime na confissão diante
Deus dos "pecados dos antepassados", tanto que João Paulo II pôde
afirmar, citando a extraordinária oração de Azarias: " 'Bendito e
louvado sejas, Senhor, Deus dos nossos pais […] pecámos, prevaricámos,
afastámo-nos de Ti; em tudo temos procedido mal; e não observámos os teus
mandamentos. (Dn 3,26.29).' Assim rezavam os hebreus depois do exílio (cf.
também Bar 2,11-13), carregando o peso dos erros cometidos por seus pais. A
Igreja imita o seu exemplo e pede perdão pelos pecados igualmente históricos
de seus filhos."(22) 2.2. Novo Testamento Um tema fundamental, relacionado
com a ideia de culpa e largamente presente no Novo Testamento, é a da
absoluta santidade de Deus. O Deus de Jesus é o Deus de Israel (cf. Jo
4,22), invocado como "Pai santo" (Jo 17,11), chamado "o
Santo" em 1Jo 2,20 (cf. Ap 6,10). A tripla proclamação de Deus como
"santo" de Is 6,3 regressa em Ap 4,8, enquanto 1Pd 1,16 insiste no
facto de que os cristãos devem ser santos "pois está escrito: Sede
santos, porque Eu sou santo' " (cf. Lv 11,44-45; 19,2). Tudo isto
reflecte a noção veterotestamentária da absoluta santidade de Deus.
Contudo, para a fé cristã, a santidade divina entrou na história na
pessoa de Jesus de Nazaré: a noção veterotestamentária não foi
abandonada, mas é desenvolvida no sentido de que a santidade de Deus se
torna presente na santidade do Filho incarnado (cf. Mc 1,24; Lc 1,35; 4,34;
Jo 6,69; Act 3,14; 4,27.30; Ap 3,7); e a santidade do Filho é dada a
participar aos "seus" (cf. Jo 17,16-19), tornados filhos no Filho
(cf. Gl 4,4-6; Rm 8,14-17). Não pode, porém, haver qualquer aspiração à
filiação divina em Jesus enquanto não houver amor ao próximo (cf. Mc
12,29-31; Mt 22,37-38; Lc 10,27-28). Este motivo, decisivo no
ensinamento de Jesus, torna-se o "mandamento novo" no Evangelho de
João: os discípulos deverão amar como Ele amou (cf. Jo 13,34-35;
15,12.17), isto é, perfeitamente, "até ao fim" (Jo 13,1). O
cristão é chamado a amar e a perdoar segundo uma medida que transcende
toda a medida humana de justiça, e produz uma reciprocidade entre os seres
humanos, que reflecte a que existe entre Jesus e o Pai (cf. Jo 13,34s;
15.1-11; 17,21-26). Nesta perspectiva, é dado grande relevo ao tema da
reconciliação e do perdão das ofensas. Aos seus discípulos, Jesus pede
que estejam sempre prontos a perdoar quantos os ofenderam, assim como o próprio
Deus oferece sempre o Seu perdão: "Perdoa-nos as nossas ofensas, como
nós perdoamos aos que nos ofenderam." (Mt 6,12.15) Quem está em posição
de perdoar ao próximo mostra ter compreendido a necessidade que
pessoalmente tem do perdão de Deus. O discípulo é convidado a perdoar
"até setenta vezes sete" quem o ofende, mesmo que este não tenha
pedido perdão (cf. Mt 18, 21-22). Jesus insiste na atitude exigida à
pessoa ofendida nos confrontos com os seus ofensores: ela é chamada a dar o
primeiro passo, anulando a ofensa mediante o perdão oferecido "de coração"
(cf. Mt 18,35; Mc 11,25), consciente de ser ela mesma pecadora diante de
Deus que nunca recusa o perdão pedido com sinceridade. Em Mt 5, 23-24,
Jesus pede ao ofensor que vá "reconciliar-se com o irmão que tenha
alguma coisa contra ele" antes de apresentar a sua oferta sobre o
altar: não agrada a Deus o acto de culto de quem não queira primeiro
reparar o dano causado ao próprio próximo. Aquilo que conta é transformar
o próprio coração e mostrar de modo adequado que se quer realmente a
reconciliação. De qualquer modo, o pecador, na consciência de que os seus
pecados ferem ao mesmo tempo a sua relação com Deus e com o seu próximo
(cf. Lc 15,21), pode esperar apenas o perdão de Deus, porque só Deus é
sempre misericordioso e pronto a apagar os pecados. É este também o
significado do sacrifício de Cristo que, de uma vez por todas, nos
purificou dos nossos pecados (cf. Hb 9,22; 10,18). Desta maneira, o ofensor
e o ofendido são reconciliados por Deus na Sua misericórdia que a todos
acolhe e perdoa. Neste quadro, que poderia ser
ampliado mediante a análise das cartas de Paulo e das epístolas católicas,
não há qualquer indício de que a Igreja das origens tenha voltado a sua
atenção para os pecados passados para pedir perdão. Isso pode ser
explicado pela forte consciência da novidade cristã, que projecta a
comunidade mais para o futuro que para o passado. Encontra-se, contudo, uma
mais ampla e subtil insistência que domina o Novo Testamento: nos
Evangelhos e nas cartas, a ambivalência própria da esperança cristã é
amplamente reconhecida. Para Paulo, p. ex., a comunidade cristã é um povo
escatológico que vive já a "nova criação" (cf. 2Co 5,17; Gl
6.15), mas esta experiência, tornada possível pela morte e ressurreição
de Jesus (cf. Rm 3,21-26; 5,6-11; 8,1-11; 1Co 15,54-57), não nos liberta da
inclinação para o pecado, presente no mundo por causa da queda de Adão.
Como resultado da intervenção de Deus nela, e através da morte e
ressurreição de Jesus, são agora dois os cenários possíveis: a história
de Adão e a de Cristo. Elas decorrem lado a lado, e o crente deve contar
com a morte e ressurreição do Senhor Jesus (cf., p. ex., Rm 6,1-11; Gl
3,27-28; Cl 3,10; 2Co 5,14-15) para ser parte da história em que
"superabunda a graça" (cf. Rm 5,12-21). Uma semelhante releitura teológica
do acontecimento pascal de Cristo mostra como a Igreja nascente tinha uma
aguda consciência das possíveis faltas dos baptizados. Poder-se-ia dizer
que o inteiro corpus paulinum chama os crentes a um reconhecimento pleno da
sua dignidade, mas na viva consciência da fragilidade da sua condição
humana: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei,
pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão." (Gl
5,1) Um motivo análogo pode encontrar-se nas narrativas dos Evangelhos.
Emerge incisivamente em Marcos, onde as faltas dos discípulos de Jesus são
um dos temas dominantes da narrativa (cf. Mc 4,40-41; 6,36-37, 51-52;
8,14-21, 31-33; 9,5-6, 32-41; 10,32-45; 14,10-11, 17-21, 27-31, 50; 16,8). Não há, todavia, nenhum explícito
chamamento endereçado aos primeiros cristãos para confessarem os erros do
passado, embora seja sem dúvida muito significativo o reconhecimento da
realidade do pecado e do mal também entre o povo chamado à existência
escatológica própria da condição cristã (pense-se apenas nas repreensões
contidas nas cartas às sete Igrejas do Apocalipse). Segundo a petição que
se encontra na oração do Senhor, este povo invoca: "Perdoa-nos os
nossos pecados, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam." (Lc
11,4; cf. Mt 6,12) Em suma, os primeiros cristãos mostram estar bem
conscientes de poder agir de maneira que não corresponda à vocação
recebida, não vivendo o baptismo da morte e ressurreição de Jesus em que
foram baptizados. 2.3. Jubileu bíblico Um significativo antecedente bíblico
da reconciliação ligada à superação de situações passadas é
representado pela celebração do Jubileu, tal como está regulada no livro
do Levítico (cap. 25). Numa estrutura social composta por tribos, clãs e
famílias, inevitavelmente se criavam situações de desordem quando indivíduos
ou famílias em condições difíceis tinham de "resgatar-se" a si
mesmas das próprias dificuldades, entregando a posse das terras ou casa, ou
de servos ou filhos, àqueles que se encontravam em melhores condições que
as suas. Semelhante sistema tinha como efeito que alguns israelitas acabavam
por sofrer intoleráveis situações de dívidas, pobreza e escravidão,
naquela mesma terra que lhes havia sido dada por Deus, em proveito de outros
filhos de Israel. Tudo isto podia levar a que, por períodos mais ou menos
longos de tempo, um território ou um clã caísse nas mãos de poucos
ricos, enquanto o resto das famílias do clã acabava por se encontrar numa
dada forma de dívida ou de servidão, como a de viver em total dependência
dos mais abastados. A legislação de Lv 25 constitui
uma tentativa de inverter tudo isto (de tal modo que se pode duvidar que
alguma vez tenha sido plenamente posta em prática!). Convocava a celebração
do Jubileu, de 50 em 50 anos, a fim de preservar o tecido social do povo de
Deus e restituir a independência mesmo à mais pequena família do país.
É decisiva para Lv 25 a regular repetição da confissão de fé de Israel
no Deus que libertou o Seu povo mediante o Êxodo: "Eu sou o Senhor,
vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egipto, para vos dar a de Canaã, a
fim de ser o vosso Deus." (Lv 25,38; cf. vv. 42, 45) A celebração do
Jubileu era uma implícita admissão de culpa e uma tentativa de
restabelecer uma ordem justa. Todo o sistema que alienasse um qualquer
israelita, outrora escravo mas agora libertado pelo braço poderoso de Deus,
vinha de facto desmentir a acção salvífica divina no Êxodo e através
dele. A libertação das vítimas e dos
que sofrem torna-se parte do mais amplo programa dos profetas. O Dêutero-Isaías,
nos Cânticos do Servo sofredor (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12),
desenvolve estas alusões à prática do Jubileu com os temas do resgate e
da liberdade, do regresso e da redenção. Is 58 é um ataque contra a
observância ritual que não olhe à justiça social, é uma exigência de
libertação dos oprimidos (Is 58,6), centrada especificamente nas obrigações
de parentesco (v. 7). Mais claramente, Is 61 utiliza as imagens do Jubileu
para fazer o retrato do Ungido como arauto de Deus enviado para
"evangelizar" os pobres, proclamar a liberdade aos prisioneiros e
anunciar o ano da graça do Senhor. De modo significativo, é justamente
este texto, com uma alusão a Is 58,6, que Jesus usa para apresentar a missão
da sua vida e do seu ministério em Lc 4,17-21. Conclusão Do que foi dito, pode-se concluir
que o apelo dirigido por João Paulo II à Igreja para que marque o ano
jubilar com uma admissão de culpa por todos os sofrimentos e ofensas pelos
quais os seus filhos foram responsáveis no passado (cf. TMA 33-36), assim
como a prática a ela associada, não tem uma correspondência unívoca no
testemunho bíblico. Contudo, ele está fundado em quanto a Sagrada
Escritura afirma a respeito da santidade de Deus, da solidariedade
intergeracional do Seu povo e do reconhecimento do seu ser pecador. O apelo
do Papa, além disso, apreende correctamente o espírito do Jubileu bíblico,
que pede sejam cumpridos actos com vista a restabelecer a ordem do originário
desígnio de Deus sobre a criação. Isso exige que a proclamação do
"hoje" do Jubileu, iniciada por Jesus (cf. Lc 4,21), seja
prosseguida na celebração jubilar da Sua Igreja. Esta singular experiência
de graça, além do mais, leva o inteiro povo de Deus, como cada um dos
baptizados, a tomar ainda maior consciência do mandato recebido do Senhor,
de estarmos sempre prontos a perdoar as ofensas recebidas. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA "Assim, quando o segundo milénio
já se encaminha para o seu termo, é justo que a Igreja assuma com maior
consciência o peso do pecado dos seus filhos, recordando todas aquelas
circunstâncias em que, no arco da história, eles se afastaram do espírito
de Cristo e do seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em vez do testemunho de
uma vida inspirada nos valores da fé, o espectáculo de modos de pensar e
agir que eram verdadeiras formas de antitestemunho e de escândalo.
Embora sendo santa pela sua incorporação em Cristo, a Igreja não se cansa
de fazer penitência: ela reconhece sempre como próprios, diante de
Deus e dos homens, os filhos pecadores." (TMA 33) Estas palavras
de João Paulo II sublinham como a Igreja é tocada pelo pecado dos seus
filhos: santa, enquanto tornada tal pelo Pai mediante o sacrifício do Filho
e o dom do Espírito, ela é de certo modo também pecadora, porquanto
assume realmente em si o pecado daqueles que ela própria gerou no baptismo,
tal como Jesus Cristo assumiu o pecado do mundo (cf. Rm 8,3; 2Co 5,21; Gl
3,13; 1Pd 2,24).(23) Pertence, aliás, à mais profunda autoconsciência
eclesial existindo no tempo, a convicção de que a Igreja não é só uma
comunidade de eleitos mas tem no seu seio os justos e os pecadores do
presente, assim como os do passado, na unidade do mistério que a constitui.
De facto, na graça como na ferida do pecado, os baptizados de hoje estão
próximos e solidários dos de ontem. Por isso se pode dizer que a Igreja -
una no tempo e no espaço em Cristo e no Espírito - é verdadeiramente
"santa e simultaneamente sempre necessitada de purificação" (LG
8). Deste paradoxo - característico do mistério eclesial - nasce a
interrogação sobre como se conciliam os dois aspectos: por um lado, a
afirmação de fé na santidade da Igreja e, por outro, a sua contínua
necessidade de penitência e purificação. 3.1. Mistério da Igreja "A Igreja está na história
mas, ao mesmo tempo, transcende-a. Apenas 'com os olhos da fé' se pode
divisar na sua realidade visível uma realidade contemporaneamente
espiritual, portadora da vida divina." (CIC 770) O conjunto dos
aspectos visíveis e históricos relaciona-se com o dom divino, do mesmo
modo que no Verbo de Deus incarnado a humanidade assumida é sinal e
instrumento do agir da Pessoa divina do Filho: as duas dimensões do ser
eclesial formam "uma única realidade complexa, formada pelo duplo
elemento humano e divino" (LG 8), numa comunhão que participa da vida
trinitária e faz com que os baptizados se sintam unidos entre si, mesmo na
diversidade dos tempos e dos lugares da história. Por força desta comunhão,
a Igreja apresenta-se como sujeito absolutamente único do acontecimento
humano, de modo a poder assumir os dons, os méritos e as culpas dos seus
filhos actuais como dos de ontem. A não fraca analogia com o mistério
do Verbo incarnado implica, todavia, também uma fundamental diferença:
"Enquanto Cristo, 'santo, inocente, imaculado' (Hb 7,26), não conheceu
o pecado (cf. 2Co 5,21) mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Hb
2,17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente
santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência
e a renovação." (LG 8; cf. UR 3 e 6) A ausência de pecado no Verbo
incarnado não pode ser atribuída ao Seu Corpo eclesial, no interior do
qual, ao contrário, cada um - partícipe da graça dada por Deus - nem por
isso deixa de ter necessidade de vigilância e incessante purificação e de
estar solidário com a fraqueza dos outros: "Todos os membros da
Igreja, incluindo os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores (cf. 1Jo
1,8-10). Em todos, até ao fim dos tempos, a cizânia do pecado se encontra
ainda misturada com o grão bom do Evangelho (cf. Mt 13,24-30). A Igreja reúne,
portanto, pecadores atingidos pela salvação de Cristo, mas sempre em vias
de santificação."(CIC 827) Já Paulo VI havia solenemente
afirmado que "a Igreja é santa, embora incluindo no seu seio
pecadores, já que ela não possui outra vida senão a da graça […] Por
isso, a Igreja sofre e faz penitência por tais pecados, dos quais, aliás,
ela tem o poder de curar os seus filhos com o sangue de Cristo e o dom do
Espírito Santo".(24) A Igreja é, em suma, no seu "mistério",
encontro de santidade e de fraqueza, continuamente redimida e sempre de novo
necessitada da força da redenção. Como ensina a liturgia, verdadeira lex
credendi, o fiel particular e o povo dos santos rogam a Deus que o Seu olhar
se dirija à fé da Sua Igreja e não aos pecados dos indivíduos que são a
negação desta fé vivida: Ne respicias peccata nostra, sed fidem
Ecclesiae Tuae! Na unidade do mistério eclesial através do tempo e do
espaço, é possível agora considerar o aspecto da santidade, a necessidade
de arrependimento e reforma, e a sua articulação no agir da Igreja Mãe. 3.2. Santidade da Igreja A Igreja é santa porque,
santificada por Cristo que a obteve entregando-se à morte por ela, é
mantida na santidade pelo Espírito Santo que a penetra incessantemente:
"Nós cremos que a Igreja é indefectivelmente santa. Com efeito,
Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito 'o único Santo', amou
a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Hb
5,25-26), e uniu-a a si como seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito
Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja são chamados à
santidade." (LG 39) Neste sentido, desde as origens os membros da
Igreja são chamados os "santos" (cf. Act 9,13; 1Co 6,1s; 16,1).
Pode-se distinguir, contudo, a santidade da Igreja da santidade na Igreja.
A primeira - fundada na missão do Filho e do Espírito - garante a
continuidade da missão do povo de Deus até ao fim dos tempos e estimula e
ajuda os crentes a perseguir a santidade subjectiva e pessoal. Na vocação
que cada um recebe está, ao invés, radicada a forma de santidade que lhe
foi dada e que dele se exige, enquanto pleno cumprimento da própria vocação
e missão. A santidade pessoal é em todo o caso projectada para Deus e para
os outros e, por isso, tem um carácter essencialmente social: é santidade
"na Igreja", orientada ao bem de todos. À santidade da Igreja deve,
assim, corresponder a santidade na Igreja: "Os seguidores de
Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por
merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo
Baptismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina
e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que com o
auxílio divino conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade
recebida." (LG 40) O baptizado é chamado a tornar-se, em toda a sua
existência, aquele em que se transformou por força da consagração
baptismal: e isso não acontece sem o assentimento da sua liberdade e a
ajuda da Graça que vem de Deus. Quando isso acontece, a humanidade nova
segundo Deus deixa-se reconhecer na história: ninguém se torna tão
plenamente ele mesmo quanto o santo que acolhe o plano divino e, com a ajuda
da graça, conforma todo o seu próprio ser ao projecto do Altíssimo! Neste
sentido, os santos como luzes suscitadas pelo Senhor no meio da sua Igreja
para a iluminar, são profecia para o mundo inteiro. 3.3. Necessidade de contínua
renovação Sem ofuscar esta santidade, deve
reconhecer-se que, devido à presença do pecado, existe a necessidade de
contínua renovação e constante conversão no povo de Deus: a Igreja na
terra está "aureolada de uma santidade verdadeira" embora
"imperfeita" (LG 48). Observa St. Agostinho contra os pelagianos:
"A Igreja no seu conjunto afirma: Perdoai-nos os nossos pecados! Ela,
portanto, tem manchas e rugas. Mas, mediante a confissão as rugas são
removidas, mediante a confissão as manchas são lavadas. A Igreja está em
oração para ser purificada pela confissão, e enquanto os homens viverem
na terra isto será assim."(25) E S. Tomás de Aquino precisa que a
plenitude da santidade pertence ao tempo escatológico, enquanto a Igreja
peregrinante não se deve enganar a si mesma afirmando ser sem pecado:
"Que a Igreja seja gloriosa, sem mácula nem ruga, é o objectivo final
para o qual tendemos em virtude da paixão de Cristo. Isto apenas existirá,
no entanto, na pátria eterna, e não já na peregrinação; aqui […]
enganar-nos-íamos se disséssemos não ter qualquer pecado."(26) De
facto, "embora revestidos da veste baptismal, não cessamos de pecar,
de nos afastarmos de Deus. Ora, com o pedido 'perdoai-nos os nossos
pecados', regressamos a Ele, como o filho pródigo (cf. Lc 15,11-32), e
reconhecemo-nos pecadores diante d'Ele, como o publicano (cf. Lc 18,13). O
nosso pedido inicia-se com a nossa 'confissão', com a qual confessamos a um
tempo a nossa miséria e a Sua misericórdia" (CIC 2839). Por isso, é a Igreja inteira que,
mediante a confissão dos pecados dos seus filhos, confessa a sua fé em
Deus e celebra a sua infinita bondade e capacidade de perdão: graças ao vínculo
estabelecido pelo Espírito Santo, a comunhão que existe entre todos os
baptizados no tempo e no espaço é tal, que nela cada um é ele mesmo, mas
ao mesmo tempo está condicionado pelos outros e exerce neles uma influência
no intercâmbio vital dos bens espirituais. Deste modo, a santidade de uns
influencia o crescimento no bem de outros, mas também o pecado deixa de ter
apenas relevância exclusivamente individual, pois pesa e opõe resistência
ao caminho da salvação de todos e, nesse sentido, toca verdadeiramente a
Igreja na sua totalidade, por meio da variedade dos tempos e dos lugares.
Esta convicção leva os Padres da Igreja a afirmações claras como esta de
St. Ambrósio: "Estamos bem atentos a que a nossa queda não se torne
uma ferida da Igreja."(27) Esta, sendo santa pela sua incorporação em
Cristo, não se cansa de fazer penitência; e reconhece sempre como seus,
perante Deus e os homens, os filhos pecadores" (TMA 33), os de hoje e
os de ontem. 3.4. Maternidade da Igreja A certeza de que a Igreja pode
carregar o peso do pecado dos seus filhos por força da solidariedade
existente entre eles no tempo e no espaço, graças à sua incorporação em
Cristo e à obra do Espírito Santo, é expressa de modo particularmente
eficaz pela ideia de "Igreja Mãe" (Mater ecclesia), que "na
concepção protopatrística é o conceito central de todo o anseio cristão":(28)
a Igreja - afirma o Vaticano II -, "pela fiel recepção da Palavra de
Deus, torna-se ela própria mãe pois que pela pregação e o baptismo gera,
para vida nova e imortal, os filhos concebidos por acção do Espírito
Santo e nascidos de Deus" (LG 64). À vastíssima tradição de que
estas ideias são eco, dá voz, p. ex., St. Agostinho com as seguintes
palavras: "Esta mãe santa digna de veneração, a Igreja, é igual a
Maria: ela dá à luz e é virgem, dela vós nascestes e ela gera Cristo,
pois vós sois os membros de Cristo."(29) S. Cipriano de Cartago afirma
claramente: "Não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja como mãe."(30)
E Paulino de Nola canta, deste modo, a maternidade da Igreja: "Como mãe
recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos no seio e dá-os à
luz."(31) Segundo esta perspectiva, a Igreja
realiza-se continuamente no intercâmbio e na comunicação do Espírito,
dos crentes uns aos outros, como ambiente gerador de fé e santidade na
comunhão fraterna, na unanimidade orante, na participação solidária da
Cruz, no testemunho comum. Por força desta comunicação vital cada
baptizado pode ser considerado, ao mesmo tempo, filho da Igreja, enquanto
gerado nela para a vida divina, e Igreja Mãe, enquanto coopera com a sua fé
e caridade a gerar novos filhos para Deus: é tanto mais Igreja Mãe quanto
maior for a sua santidade, e mais ardente o esforço de comunicar aos outros
o dom recebido. Por outro lado, não deixa de ser filho da Igreja o
baptizado que, devido ao pecado, se separe dela pelo coração; ele poderá
sempre de novo aceder às fontes da graça e remover o peso que a sua culpa
faz carregar à inteira comunidade da Igreja Mãe. Esta, por sua vez, como
verdadeira mãe, não poderá deixar de ser ferida pelo pecado dos seus
filhos de hoje como dos de ontem, continuando sempre a amá-los, a ponto de
carregar, em todos os tempos, o peso produzido pelos seus pecados: enquanto
tal, a Igreja aparece ao Pai como Mãe das dores, não só por causa das
perseguições de fora, mas sobretudo pelas traições, as quedas, os
atrasos e as corrupções dos seus filhos. A santidade e o pecado na
Igreja reflectem-se, assim, nos seus efeitos sobre toda a Igreja, mesmo se
é convicção da fé que a santidade é mais forte que o pecado enquanto
fruto da graça divina; disso são prova luminosa as figuras dos santos,
reconhecidos como modelo e ajuda para todos! Entre a graça e o pecado não
existe paralelismo, nem uma espécie de simetria ou de relação dialéctica;
a influência do mal não poderá nunca vencer a força da graça e a
irradiação do bem, mesmo o mais escondido! Neste sentido, a Igreja
reconhece-se existencialmente santa nos seus santos; mas, ao mesmo tempo que
se regozija desta santidade e dela sente o benefício, não deixa de se
confessar pecadora, não como sujeito do pecado mas enquanto assume com
solidariedade materna o peso das culpas dos seus filhos, para cooperar na
sua superação pela via da penitência e da novidade de vida. Por isso, a
Igreja santa sente o dever "de lastimar profundamente as fraquezas de
tantos filhos seus que lhe deturparam o rosto, impedindo-a de reflectir
plenamente a imagem do seu Senhor crucificado, testemunha insuperável de
amor paciente e de humilde mansidão" (TMA 35). Isto pode ser feito de modo
particular por quem, pelo seu carisma e ministério, exprima da forma mais
densa a comunhão do povo de Deus: em nome das Igrejas locais poderão dar
voz a eventuais confissões de culpa e pedidos de perdão os respectivos
pastores; em nome de toda a Igreja, una no tempo e no espaço, poderá
pronunciar-se aquele que exerce o ministério universal de unidade, o Bispo
da Igreja "que preside no amor",(32) o Papa. Eis porque é
particularmente significativo que tenha vindo dele próprio o convite a que
"a Igreja tome a seu cargo, com a mais viva consciência, o pecado dos
seus filhos" e reconheça a necessidade de "emenda, invocando com
força o perdão de Cristo" (TMA 34). 4. JUÍZO HISTÓRICO E JUÍZO TEOLÓGICO A determinação das culpas do
passado que devemos reconhecer implica, antes de mais, um correcto juízo
histórico que esteja também na base da avaliação teológica. Deve-se
perguntar: Que aconteceu realmente? Que foi propriamente dito e feito? Só
quando for dada resposta adequada a estas questões, fruto de rigoroso juízo
histórico, se poderá também perguntar se o que aconteceu, o que foi
afirmado ou feito, pode ser interpretado como estando conforme ou não ao
Evangelho e, caso não esteja, se os filhos da Igreja que agiram desse modo,
poderiam ter-se dado conta disso a partir do contexto em que agiam. Apenas
quando se chega à certeza moral de que quanto foi feito contra o Evangelho
por alguns filhos da Igreja e em seu nome, poderia ter sido compreendido por
eles como tal e evitado, pode ter significado para a Igreja de hoje
reconhecer os erros do passado. A relação entre "juízo histórico"
e "juízo teológico" é, portanto, tão complexa quanto necessária
e determinante. Por isso, deve ser posta em prática sem erros de uma e
outra parte; é necessário evitar quer uma apologética que queira tudo
justificar, quer uma indevida culpabilização fundada na atribuição de
responsabilidade historicamente insustentável. João Paulo II, referindo-se
à avaliação histórico-teológica da acção da Inquisição, afirmou:
"O magistério eclesial não pode certamente propor-se levar a cabo um
acto de natureza ética, como é o pedido de perdão, sem primeiro estar
rigorosamente informado acerca da situação daquele tempo. Mas também não
pode apoiar-se nas imagens do passado veiculadas pela opinião pública,
pois estão frequentemente sobrecarregadas de uma emotividade passional que
impede a diagnose serena e objectiva […] Por isso, o primeiro passo
consiste em interrogar os historiadores, aos quais não é pedido um juízo
de natureza ética - que ultrapassaria o âmbito das suas competências -,
mas, antes, que ajudem à reconstrução o mais rigorosa possível dos
acontecimentos, costumes e mentalidade de então, à luz do contexto histórico
da época."(33) 4.1. Interpretação da história Quais são as condições de uma
correcta interpretação do passado, na perspectiva do saber histórico?
Para as determinar, deve-se ter presente a complexidade da relação que
existe entre o sujeito que interpreta e o passado objecto de interpretação;(34)
em primeiro lugar, sublinhe-se o recíproco alheamento entre eles.
Acontecimentos ou palavras do passado são, antes de mais,
"passados"; como tal não são totalmente redutíveis às actuais
instâncias, mas têm uma espessura e complexidade objectivas que impedem
que deles se possa dispor de maneira apenas funcional aos interesses do
presente. Desse modo, é necessário aproximar-nos deles mediante uma
pesquisa histórico-crítica que vise utilizar todas as informações acessíveis,
tendo em vista a reconstrução do ambiente, dos modos de pensar, dos
condicionamentos e do processo vital em que aqueles acontecimentos e aquelas
palavras estão inseridos, para assim verificar os conteúdos e desafios que
- justamente na sua diversidade - eles propõem ao nosso presente. Em segundo lugar, entre quem
interpreta e o que é interpretado deve reconhecer-se uma certa pertença
comum, sem a qual nenhum laço e nenhuma comunicação poderia subsistir
entre passado e presente. Este laço comunicativo funda-se no facto de que
todo o ser humano de ontem e de hoje se situa num complexo de relações
históricas, e precisa, para o viver, da mediação linguística, sempre
historicamente determinada. Todos pertencemos à história! Manifestar a
compertença entre o intérprete e o objecto de interpretação - que deve
ser alcançado através das múltiplas formas como o passado deixou
testemunho (textos, monumentos, tradições, etc.) - significa avaliar a
correcção das possíveis correspondências e das eventuais dificuldades de
comunicação com o presente, resultantes da própria inteligência das
palavras ou dos acontecimentos passados; isso exige ter em conta as
interrogações que motivam a investigação, e sua incidência nas
respostas obtidas, o contexto vital em que se actua, e a comunidade
interpretante cuja linguagem se fala e à qual se pretende falar. Para este
fim, é necessário tornar o mais possível reflectida e consciente a pré-compreensão
que, de facto, faz sempre parte de toda a interpretação, para medir e
temperar a sua real incidência no processo interpretativo. Por fim, entre quem interpreta e o
passado objecto de interpretação dá-se, por um esforço cognoscitivo e de
avaliação, uma osmose ("fusão de horizontes"), na qual
consiste justamente o acto de compreensão. Nela se exprime aquela que se
julga ser a inteligência correcta dos acontecimentos ou das palavras do
passado; o que equivale a apreender o significado que podem ter para o intérprete
e o seu mundo. Graças a este encontro de mundos vitais, a compreensão do
passado traduz-se na sua aplicação ao presente; o passado é tomado na
potencialidade que manifesta, no estímulo que oferece para modificar o
presente. A memória torna-se capaz de suscitar um novo futuro. Alcança-se a osmose fecunda com o
passado por meio do entrelaçamento de algumas operações hermenêuticas
fundamentais, correspondentes aos momentos indicados pelo alheamento, pela
compertença e pela verdadeira e recta compreensão. Em relação a um
"texto" do passado - entendido em geral como testemunho escrito,
oral, monumental ou figurativo -, estas operações podem ser expressas do
seguinte modo: "1) Perceber o texto, 2) ajuizar da correcção da própria
inteligência do texto e 3) exprimir aquela que se julga ser a inteligência
correcta do texto."(35) Compreender o testemunho do passado significa
alcançá-lo o mais possível na sua objectividade, mediante todas as fontes
de que é possível dispor; ajuizar da correcção da própria interpretação,
quer dizer verificar com honestidade e rigor em que medida ela pode ter sido
orientada ou de algum modo condicionada pela pré-compreensão e possíveis
preconceitos do intérprete; exprimir a interpretação a que se chegou
equivale a tornar os outros participantes no diálogo entretecido com o
passado, quer para verificar a sua relevância quer para se expor ao
confronto com outras eventuais interpretações. 4.2. Investigação histórica e
avaliação teológica Se estas operações estão
presentes em todo o acto hermenêutico, elas não podem também faltar na
interpretação em que juízo histórico e juízo teológico se venham a
integrar. Isso exige, primeiramente, que neste tipo de interpretação se
preste a máxima atenção aos elementos de diferenciação e alheamento
entre presente e passado. Em particular, quando se pretende ajuizar de possíveis
culpas do passado, deve ter-se presente que são diversos os tempos históricos,
diversos os tempos sociológicos e culturais do agir eclesial, pelo que
paradigmas e juízos próprios de uma sociedade e de uma época poderão ser
erroneamente aplicados na avaliação de outras fases da história, gerando
não poucos equívocos; diversas são as pessoas, as instituições e as
suas respectivas competências; diversas as formas de pensar e diversos os
condicionamentos. Deste modo, são precisadas as responsabilidades pelos
acontecimentos e pelas palavras ditas, tendo em conta que o facto de um
pedido de perdão da Igreja compromete o mesmo sujeito teológico - a Igreja
- na multiplicidade de modos e graus em que os indivíduos representam a
comunidade eclesial, e na diversidade de situações históricas e geográficas,
frequentemente muito diferentes entre si. Toda a generalização deve ser
evitada. Todas as eventuais declarações actuais devem ser situadas e devem
ser produzidas pelos sujeitos mais propriamente vocacionados para o fazer
(Igreja universal, episcopados nacionais, Igrejas particulares, etc.). Em segundo lugar, a correlação de
juízo histórico e juízo teológico deve ter em conta o facto de que, para
a interpretação da fé, o laço entre passado e presente não é
apenas motivado pelo interesse actual e pela comum pertença de cada ser
humano à história e suas mediações expressivas, mas se funda também na
acção unificadora do Espírito de Deus e na identidade permanente do princípio
constitutivo da comunhão dos crentes, que é a revelação. A Igreja - por
força da comunhão nela produzida pelo Espírito de Cristo no tempo e no
espaço - não pode deixar de reconhecer-se no seu princípio sobrenatural,
presente e operante em todos os tempos, enquanto sujeito de certa forma único,
chamado a responder ao dom de Deus em modos e situações diversas através
das escolhas dos seus filhos, mesmo com todas as carências que possam tê-las
caracterizado. A comunhão no único Espírito Santo funda também
diacronicamente uma comunhão dos "santos", por força da qual os
baptizados de hoje se sentem unidos aos baptizados de ontem, e, tal como
beneficiam dos seus méritos e se alimentam do seu testemunho de santidade,
sentem-se também no dever de assumir o eventual peso presente das suas
culpas, depois de haver sido feito atento discernimento histórico e teológico. Devido a este fundamento objectivo
e transcendente da comunhão do povo de Deus nas suas múltiplas situações
históricas, a interpretação crente reconhece ao passado da Igreja um
significado para o presente muito peculiar: o encontro com ele, efectivado
no acto da interpretação, pode revelar-se carregado de particulares valências
para o presente, rico de uma eficácia "performativa" nem sempre
previamente calculável. Naturalmente, a forte unidade do horizonte hermenêutico
e do sujeito eclesial interpretante expõe mais facilmente o olhar teológico
ao risco de ceder a leituras apologéticas ou instrumentais; é aqui que o
exercício hermenêutico dedicado a entender acontecimentos e palavras do
passado e a medir a correcção da sua interpretação para o presente é
tanto mais necessário. Com esse fim, a leitura crente servir-se-á de todos
os possíveis contributos oferecidos pelas ciências históricas e pelos métodos
interpretativos. O exercício da hermenêutica histórica não deverá, porém,
impedir a avaliação da fé de interpelar os textos segundo a peculiaridade
que a caracteriza e, portanto, fazendo interagir presente e passado na
consciência da fundamental unidade do sujeito eclesial neles implicado.
Isto põe-nos de sobreaviso contra todo o historicismo que relativize o peso
das culpas passadas e que considere que a história tudo justifica. Como
observa João Paulo II, "um correcto juízo histórico não pode
prescindir da atenta consideração dos condicionalismos culturais da época
[…] Mas a consideração das circunstâncias atenuantes não exonera a
Igreja do dever de lastimar profundamente as fraquezas de tantos filhos
seus." (TMA 35) A Igreja, em suma, "não teme a verdade que emerge
da história, e está pronta a reconhecer os erros onde eles se verificaram,
sobretudo quando se trata do respeito devido às pessoas e às comunidades.
Está disposta a desconfiar das sentenças generalizadas de absolvição ou
condenação relativas às várias épocas históricas. Confia a investigação
do passado à paciente e honesta reconstrução científica, liberta de
preconceitos de tipo confessional ou ideológico, quer no que diz respeito
às acusações que lhe são feitas quer às injustiças por ela
suportadas."(36) Os exemplos apresentados no capítulo seguinte poderão
dar-nos disso uma demonstração concreta. 5. DISCERNIMENTO ÉTICO Para que a Igreja realize um
apropriado exame de consciência histórico na presença de Deus, com vista
à própria renovação interior e ao crescimento na graça e na santidade,
é necessário que ela saiba reconhecer as "formas de contratestemunho
e escândalo" que se apresentam na sua história, em particular durante
este milénio. Não é possível cumprir tal tarefa sem estar consciente da
sua relevância moral e espiritual. Isso exige a definição de alguns
termos chave, além da formulação de algumas precisões necessárias no
plano ético. 5.1. Alguns critérios éticos No plano moral, o pedido de perdão
pressupõe sempre uma admissão de responsabilidade, precisamente da
responsabilidade relativa a um erro cometido contra outros. A responsabilidade
moral normalmente refere-se à relação entre a acção e a pessoa que
a realiza; estabelece a pertença de um acto, a sua atribuição a
determinada pessoa ou a mais pessoas. A responsabilidade pode ser objectiva
ou subjectiva: a primeira refere-se ao valor moral do acto em si mesmo
enquanto bom ou mau e, portanto, à imputabilidade da acção; a segunda diz
respeito à efectiva percepção por parte da consciência individual da
bondade ou malícia do acto realizado. A responsabilidade subjectiva cessa
com a morte de quem realizou o acto, isto é, não se transmite por geração;
por isso, os descendentes não herdam a responsbilidade (subjectiva) dos
actos dos seus antepassados. Neste sentido, pedir perdão pressupõe
uma contemporaneidade entre aqueles que são ofendidos por uma acção e
aqueles que a realizaram. A única responsabilidade capaz de continuar na
história só pode ser a de tipo objectivo, à qual se pode sempre
livremente aderir pelo menos subjectivamente. Assim, o mal que foi feito
frequentemente sobrevive a quem o praticou, através das consequências dos
comportamentos que podem tornar-se um fardo pesado na consciência e memória
dos descendentes. Neste contexto, pode-se falar de
uma solidariedade que une o passado e o presente numa relação de
reciprocidade. Em determinadas situações, o peso que sobrecarrega a consciência
pode ser de tal modo pesado que constitua uma espécie de memória moral e
religiosa do mal provocado, que, por sua natureza, é uma memória
colectiva. Ela testemunha de modo eloquente a solidariedade existente
entre aqueles que fizeram o mal no passado e os seus herdeiros no presente.
É então que se torna possível falar de responsabilidade comum
objectiva. Do peso de uma tal responsabilidade libertamo-nos, antes de
mais, implorando o perdão de Deus pelos erros do passado e, depois, quando
for o caso, através da "purificação da memória", culminando no
perdão recíproco dos pecados e ofensas no presente. Purificar a memória significa
eliminar da consciência pessoal e colectiva todas as formas de
ressentimento ou violência que a herança do passado aí tenha deixado, na
base de um novo e rigoroso juízo histórico-teológico que funde um
consequente e renovado comportamento moral. Isso acontece todas as vezes que
se atribui a actos históricos passados uma diferente qualidade, comportando
uma sua nova e diversa incidência no presente com vista ao crescimento da
reconciliação, na verdade, na justiça e na caridade entre os seres
humanos e, em particular, entre a Igreja e as diversas comunidades
religiosas, culturais ou civis com que tem relações. Modelos emblemáticos
desta incidência que um posterior juízo interpretativo autorizado pode ter
na inteira vida da Igreja, são a recepção dos concílios ou actos como a
abolição de recíprocos anátemas, o que exprime uma nova qualificação
da história passada de modo a produzir uma diversa caracterização das
relações vividas no presente. A memória das divisões e contraposições
é purificada e substituída por uma memória reconciliada, a que todos na
Igreja são convidados a abrir-se e a adequar-se. A combinação de juízo histórico
e juízo teológico no processo de interpretação do passado salda-se aqui
pelas repercussões éticas que pode ter no presente e que implicam alguns
princípios, correspondentes, no plano moral à fundação hermenêutica da
relação entre juízo histórico e juízo teológico. São os seguintes: a. O princípio de consciência.
A consciência, quer enquanto "juízo moral" quer enquanto
"imperativo moral", constitui a avaliação última de um acto em
relação à sua bondade ou malícia perante Deus. Com efeito, só Deus
conhece o valor moral de cada acto humano, mesmo se a Igreja, como Jesus,
pode e deve classificar, julgar e por vezes condenar alguns tipos de acções
(cf. Mt 18,15-18). b. O princípio de historicidade.
Justamente na medida em que cada acto humano pertence a quem o pratica, toda
a consciência individual e toda a sociedade escolhe e age no interior de um
determinado horizonte de tempo e espaço. Para compreender verdadeiramente
os actos humanos ou as dinâmicas a eles associadas, devemos, por isso,
entrar no mundo daqueles que os realizaram, pois só assim poderemos chegar
a conhecer as suas motivações e os seus princípios morais. Esta afirmação
é feita sem prejuízo da solidariedade que liga os membros de uma
comunidade específica no decurso do tempo. c. O princípio de mudança de
"paradigma". Enquanto antes do Iluminismo existia uma espécie
de osmose entre Igreja e Estado, entre fé e cultura, moralidade e lei, a
partir do sec. XVIII esta relação foi consideravelmente alterada. O
resultado foi a transição de uma sociedade sacral para uma sociedade
pluralista ou, como aconteceu em alguns casos, para uma sociedade secular.
Os modelos de pensamento e acção, os chamados "paradigmas" de
actuação e avaliação mudaram. Semelhante transição tem um impacto
directo sobre os juízos morais, mesmo se esta influência não justifica,
de modo algum, uma ideia relativista dos princípios morais ou da natureza
da própria moralidade. O inteiro processo de purificação
da memória, porém, enquanto exige a correcta combinação de avaliação
histórica e olhar teológico, é vivido por parte dos filhos da Igreja não
só com o rigor que dê conta precisamente dos critérios e princípios
morais, mas também na contínua invocação da assistência do Espírito
Santo, para que não se caia no ressentimento ou na autoflagelação mas, ao
contrário, se chegue à confissão do Deus cuja "misericórdia se
estende de geração em geração" (Lc 1,50), que quer a vida e não a
morte, o perdão e não a condenação, o amor e não o temor. Saliente-se
aqui o carácter de exemplaridade que a honesta admissão dos erros
passados pode exercer sobre a mentalidade na Igreja e na sociedade civil,
solicitando um renovado empenho de obediência à Verdade, e de consequente
respeito pela dignidade e os direitos dos outros, sobretudo os mais fracos.
Neste sentido, os inúmeros pedidos de perdão formulados por João Paulo II
constituem um exemplo, que põe em evidência um bem e estimula à imitação,
chamando os indivíduos e os povos a um exame de consciência honesto e
frutuoso tendo em vista os caminhos da reconciliação. À luz destes esclarecimentos no
plano ético, pode-se agora aprofundar alguns exemplos - entre os
mencionados pela carta apostólica Tertio millennio adveniente (cf.
34-36) - de situações nas quais o comportamento dos filhos da Igreja
parece ter contrariado, de maneira relevante, o Evangelho de Jesus Cristo. 5.2. A divisão dos cristãos A unidade é a lei da vida do Deus
trinitário, revelada ao mundo por seu Filho (cf. Jo 17,21) que, pelo poder
do Espírito Santo, amando até ao fim (Jo 13,1) faz participar esta vida
aos seus. Esta unidade deverá ser a fonte e a forma da comunhão de vida da
humanidade com o Deus trino. Se os cristãos viverem nesta lei de amor recíproco,
para serem um, "assim como o Pai e o Filho são um", daí resultará
que o "mundo acreditará que o Filho foi enviado pelo Pai" (Jo
17,21), e "todos saberão que eles são seus discípulos" (Jo
13,35). Infelizmente assim não aconteceu em particular no milénio que
chega ao fim, no qual surgiram grandes divisões entre os cristãos, em
aberta contradição com a vontade explícita de Cristo, como se Ele próprio
estivesse dividido (cf. 1Co 1,13). O concílio Vaticano II ajuíza sobre
este facto do seguinte modo: "Esta divisão contradiz abertamente a
vontade de Cristo e é escândalo para o mundo, como também prejudica a
santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura." (UR 1) As principais cisões que durante
este milénio "ferem a túnica inconsútil de Cristo" (UR 13)37 são
o cisma entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente no início do milénio e,
no Ocidente - quatro séculos depois -, a laceração causada pelos
acontecimentos "comummente conhecidos com o nome de Reforma" (UR
13). É verdade que "estas diversas divisões diferem muito entre si, não
apenas em razão da origem, lugar e tempo, mas principalmente pela natureza
e gravidade das questões relativas à fé e à estrutura da Igreja"
(UR 13). No cisma do sec. XI, factores culturais e históricos desempenharam
papel importante, ao passo que o aspecto doutrinal dizia respeito à
autoridade da Igreja e ao Bispo de Roma, assunto que naquele momento não
havia alcançado a clareza com que se apresenta hoje graças ao
desenvolvimento doutrinal deste milénio. Com a Reforma, ao contrário,
outros domínios da revelação e da doutrina foram objecto de controvérsia. O caminho aberto para superar estas
diferenças é o do diálogo doutrinal, encorajado pelo amor recíproco.
Comum a ambas as dilacerações parece ter sido a falta de amor
sobrenatural, de ágape. A partir do momento em que esta caridade é
o mandamento supremo do Evangelho, sem o qual tudo o resto é apenas
"bronze que soa ou címbalo que retine" (1Co 13,1), uma tal falta
é tomada em toda a sua seriedade diante do Ressuscitado, Senhor da Igreja e
da história. Devido ao reconhecimento desta falta, o Papa Paulo VI pediu
perdão a Deus e aos "irmãos separados" que se sentissem
ofendidos "por nós" (Igreja católica).(38) Em 1965, no clima criado pelo Concílio
Vaticano II, o Patriarca Atenágoras, no seu diálogo com Paulo VI,
salientou o tema da restauração (apokatástasis) do amor recíproco,
essencial após uma história tão carregada de contradições, de mútua
desconfiança e de antagonismos.(39) O que estava em jogo era um passado
ainda influente através da memória: os acontecimentos de 1965 (que
culminaram a 7 de Dezembro de 1965, com a abolição dos anátemas de 1054
entre Oriente e Ocidente) representam uma confissão da culpa contida na
anterior exclusão recíproca, de modo a purificar a memória e a partir daí
gerar uma nova. O fundamento desta nova memória só pode ser o amor
recíproco ou, melhor, o renovado empenho em vivê-lo. É este o mandamento ante
omnia (1Pd 4,8) para a Igreja, quer no Oriente quer no Ocidente. De tal
modo a memória liberta da escravidão do passado e convida católicos e
ortodoxos, assim como católicos e protestantes, a serem os arquitectos de
um futuro mais conforme ao mandamento novo. O testemunho dado a esta nova
memória pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras é, neste sentido,
exemplar. Relativamente ao caminho em direcção
à unidade dos cristãos, pode resultar particularmente relevante a tentação
de se ser guiado, ou até deteminado, por factores culturais,
condicionalismos históricos ou preconceitos, que alimentam a separação e
desconfiança recíproca entre cristãos, ainda que nada tenham a ver com
matérias de fé. Os filhos da Igreja devem examinar a sua consciência com
seriedade, para verem se estão activamente empenhados em obedecer ao
imperativo da unidade e se vivem a "conversão interior",
"pois o desejo de unidade nasce e amadurece a partir da renovação da
mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade"
(UR 7). No tempo passado entre a conclusão do Concílio e hoje, a resistência
oposta à sua mensagem entristeceu certamente o Espírito de Deus (cf. Ef
4,30). Na medida em que alguns católicos se comprazem em permanecer
associados às divisões do passado, nada fazendo para remover os obstáculos
que impedem a unidade, dever-se-ia justamente falar de solidariedade no
pecado da divisão (1Co 1,10-16). Neste contexto, podem ser atendidas as
palavras do Decreto sobre o Ecumenismo: "Pedimos humildemente
perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como também nós perdoamos àqueles
que nos ofenderam." (UR 7) 5.3. Uso da violência ao serviço
da verdade Ao contratestemunho da divisão
entre os cristãos é necessário acrescentar o das várias ocasiões em
que, ao longo deste milénio, foram empregues meios duvidosos para atingir
fins justos, que são quer a pregação do Evangelho quer a defesa da
unidade da fé: "Outro capítulo doloroso sobre o qual os filhos da
Igreja não podem deixar de reflectir, com espírito aberto ao
arrependimento, é a condescendência manifestada, especialmente nalguns séculos,
perante métodos de intolerância ou até mesmo de violência no
serviço à verdade." (TMA 35) Referem-se aqui as formas de evangelização
que utilizaram instrumentos impróprios para anunciar a verdade revelada, ou
que não operaram um adequado discernimento evangélico dos valores
culturais dos povos, ou não respeitaram a consciência das pessoas a quem a
fé era apresentada, além das formas de violência exercidas na repressão
e correcção dos erros. Análoga atenção é reservada às
possíveis omissões das quais os filhos da Igreja se tornaram responsáveis
nas mais diversas situações da história, respeitando à denúncia de
injustiças e violências: "Há, depois, o falhado discernimento de não
poucos cristãos a respeito de situações de violação dos direitos
humanos fundamentais. O pedido de perdão é válido por tudo quanto foi
omitido ou calado, por fraqueza ou errada avaliação, pelo que foi feito ou
dito de modo indeciso ou pouco idóneo."(40) Como sempre, é decisivo
estabelecer, mediante a investigação histórico-crítica, a verdade histórica.
Estabelecidos os factos, será necessário avaliar o seu valor espiritual e
moral, como também o seu significado objectivo. Só assim será possível
evitar toda a espécie de memória mítica e aceder a uma justa memória crítica,
capaz - à luz da fé - de produzir frutos de conversão e renovação:
"Desses momentos dolorosos do passado deriva uma lição para o futuro,
que deve induzir todo o cristão a manter-se bem firme sobre aquela regra áurea
ditada pelo Concílio: 'A verdade não se impõe de outro modo senão pela
sua própria força que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave
e forte' (DH 1)." (TMA 35) 5.4. Cristãos e judeus Um dos domínios que exige
particular exame de consciência é a relação entre cristãos e
judeus.(41) A relação da Igreja com o povo hebraico é diferente da que
tem com todas as outras religiões. (42) Contudo, "a história das relações
entre judeus e cristãos é uma história tormentosa […] Com efeito, o
balanço destas relações durante os dois milénios tem sido
predominantemente negativo".(43) A hostilidade ou a desconfiança de inúmeros
cristãos para com os hebreus ao longo dos tempos é um facto histórico
doloroso e causa de profundo pesar para os cristãos conscientes do facto de
"que Jesus era um descendente de David; que do povo hebraico nasceram a
Virgem Maria e os Apóstolos; que a Igreja é sustentada pelas raízes
daquela boa oliveira em que foram enxertados os ramos da oliveira brava dos
gentios (cf. Rm 11,17-24); que os judeus são nossos caros e amados irmãos
e que, em certo sentido, são verdadeiramente os "nossos irmãos mais
velhos".(44) A Shoah foi certamente resultado de
uma ideologia pagã, como era o nazismo, animada de um cruel anti-semitismo,
a qual não só desprezava a fé mas também negava a própria dignidade
humana do povo hebraico. Contudo, "deve-se perguntar se a perseguição
do nazismo nos confrontos com os judeus não foi facilitada por preconceitos
antijudaicos presentes nas mentes e corações de alguns cristãos […]
Ofereceram os cristãos toda a assistência possível aos perseguidos e, em
particular, aos judeus?" (45) Sem dúvida que foram muitos os cristãos
que arriscaram a vida para salvar e assistir os judeus seus conhecidos.
Parece, porém, igualmente verdade que "ao lado destes corajosos homens
e mulheres, a resistência espiritual e a acção concreta de outros cristãos
não foi aquela que se poderia esperar de discípulos de Cristo".(46)
Este facto constitui um apelo à consciência de todos os cristãos, hoje,
exigindo "um acto de arrependimento (teshuva)",(47) e
tornando-se um estímulo a que redobrem os seus esforços para serem
"transformados, adquirindo uma nova mentalidade" (Rm 12,2) e para
manterem uma "memória moral e religiosa" da ferida infligida aos
judeus. Nesta área, o muito que já foi feito poderá ser consolidado e
aprofundado. 5.5. A nossa responsabilidade pelos
males de hoje "A época actual, a par de
muitas luzes, apresenta também muitas sombras." (TMA 36) Entre estas,
pode-se assinalar em primeiro plano o fenómeno da negação de Deus nas
suas múltiplas formas. O que fere particularmente é ser esta negação, em
especial nos seus aspectos mais teóricos, um processo surgido no mundo
ocidental. Relacionado com o eclipse de Deus encontra-se, em seguida, uma série
de fenómenos negativos, como a indiferença religiosa, a difusa ausência
do sentido transcendente da vida humana, um clima de secularismo e
relativismo ético, a negação do direito à vida da criança não nascida,
que chega a ser sancionado nas legislações em favor do aborto, e uma
grande indiferença perante o grito dos pobres em vastos sectores da família
humana. A inquietante questão que se
coloca é em que medida os crentes serão eles mesmos responsáveis por
estas formas de ateísmo, teórico e prático. A Gaudium et spes
responde com palavras cuidadosamente escolhidas: "Os próprios crentes,
muitas vezes, têm responsabilidade neste ponto. Com efeito, o ateísmo
considerado no seu conjunto não é um fenómeno originário, antes resulta
de várias causas, entre as quais se conta também a reacção crítica
contra as religiões e, nalguns países, principalmente contra a religião
cristã. Pelo que os crentes podem ter tido parte não pequena na génese
deste ateísmo." (19) A partir do momento em que o rosto
autêntico de Deus foi revelado em Jesus Cristo, aos cristãos é oferecida
a graça incomensurável de conhecer este Rosto: mas têm, igualmente, a responsabilidade
de viverem de modo a manifestar aos outros o verdadeiro Rosto do Deus vivo.
São chamados a difundir no mundo a verdade que "Deus é amor (ágape)"
(1Jo 4,8.16). Porque Deus é amor, Ele é Trindade de Pessoas, cuja vida
consiste na recíproca comunicação infinita no amor. Deste modo se
conseguirá que a vida melhore, pois os cristãos difundem que a verdade do
Deus amor é o amor recíproco: "Por isto é que todos conhecerão que
sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros." (Jo 13,35) E
isto até ao ponto de se poder dizer que muitas vezes os cristãos
"pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições
falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa,
moral e social, antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus
e da religião" (GS 19). Sublinhe-se, por fim, que mencionar
estas culpas dos cristãos do passado não é apenas confessá-las a Cristo
Salvador, mas também louvar o Senhor da história pelo Seu amor
misericordioso. Os cristãos, de facto, não crêem apenas na existência do
pecado, mas também e sobretudo no "perdão dos pecados". Além
disso, mencionar estas culpas quer dizer também afirmar a nossa
solidariedade com aqueles que no bem e no mal nos precederam na via da
verdade, oferecer no presente um forte motivo de conversão às exigências
do Evangelho, e proporcionar o necessário prelúdio ao pedido de perdão a
Deus que abre caminho à recíproca reconciliação. 6. PERSPECTIVAS PASTORAIS E MISSIONÁRIAS À luz das considerações feitas,
é possível agora perguntar: quais as finalidades pastorais que levam a
Igreja a assumir o peso das culpas, cometidas no passado pelos seus filhos
em seu nome, e a reconhecê-las como tais? Quais as implicações desta
atitude na vida do povo de Deus? E quais as suas ressonâncias em relação
à missão da Igreja e ao seu diálogo com as diversas culturas e religiões? 6.1. Finalidades pastorais Entre as múltiplas finalidades
pastorais do reconhecimento dos erros do passado, podem salientar-se as
seguintes: - em primeiro lugar, estes actos
tendem à purificação da memória que, como foi dito, é o processo
de renovada avaliação do passado, capaz de uma não desprezível incidência
no presente, pois os pecados passados fazem, com frequência, ainda sentir o
seu peso e permanecem também hoje como outras tantas tentações. Sobretudo
se amadurecida no diálogo e na paciente procura da reciprocidade com quem
se possa sentir ofendido por acontecimentos ou palavras do passado, a remoção
da memória pessoal e colectiva de todas as causas de possível
ressentimento pelo mal sofrido e de toda a influência negativa daquele
facto, pode contribuir para fazer crescer a comunidade eclesial em
santidade, pela via da reconciliação e da paz na obediência à Verdade. "Reconhecer as fraquezas de
ontem - sublinha o Papa - é acto de lealdade e coragem que ajuda a reforçar
a nossa fé, tornando-nos atentos e prontos para enfrentar as tentações e
dificuldades de hoje." (TMA 33) É exactamente com tal fim que a memória
da culpa deve abranger todas as possíveis faltas cometidas, mesmo se apenas
algumas são hoje mais frequentemente mencionadas. De qualquer modo, nunca
se pode esquecer também o preço pago por tantos cristãos pela sua
fidelidade ao Evangelho e ao serviço do próximo na caridade.(48) - Uma segunda finalidade pastoral,
estreitamente ligada à anterior, pode ser reconhecida na promoção da
perene reforma do povo de Deus: "se, em vista das circunstâncias
das coisas e dos tempos houve deficiências, quer na moral, quer na
disciplina eclesiástica, quer também no modo de enunciar a doutrina - modo
que deve cuidadosamente distinguir-se do próprio depósito da fé - tudo
seja recta e devidamente restaurado no momento oportuno" (UR 6).(49)
Todos os baptizados são chamados a "examinar a sua fidelidade à
vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, empreender
com vigor a obra de renovação e reforma" (UR 4: opus renovationis nec
non reformationis). O critério da verdadeira reforma e da autêntica renovação
só pode ser a fidelidade à vontade de Deus respeitante ao Seu povo,(50)
que supõe um esforço sincero por libertar-se de tudo o que afasta dela,
quer se trate de culpas presentes quer diga respeito a heranças do passado. - Uma ulterior finalidade pode ser
vista no testemunho que, desse modo, a Igreja dá do Deus da misericórdia
e da Sua Verdade que liberta e salva, a partir da experiência que d'Ele fez
e faz na história; e no serviço que, desse modo, presta nos
confrontos da humanidade para contribuir à superação dos males presentes.
João Paulo II afirma que "um sério exame de consciência foi desejado
por numerosos cardeais e bispos, principalmente sobre a Igreja de hoje.
No limiar do novo milénio, os cristãos devem pôr-se humildemente diante
do Senhor, interrogando-se sobre as responsabilidades que lhes cabem também
nos males do nosso tempo" (TMA 36), e para contribuir, por consequência,
ao seu superamento na obediência ao esplendor da Verdade salvífica. 6.2. Implicações eclesiais Que implicações tem um acto
eclesial de pedido de perdão na vida da própria Igreja? Emergem vários
aspectos: - Impõe-se, antes de mais, ter em
conta os processos diversificados de recepção dos actos de
arrependimento eclesial, pois esses variam consoante os contextos
religiosos, culturais, políticos, sociais, pessoais, etc.. A esta luz
tome-se em consideração que acontecimentos ou palavras ligados a uma história
contextualizada não têm necessariamente alcance universal e, vice-versa,
que actos condicionados por determinada perspectiva teológica e pastoral
trouxeram consequências de grande peso na difusão do Evangelho (pense-se,
p. ex., nos vários modelos históricos da teologia da missão). Além
disso, tenha-se em conta a relação entre benefícios espirituais e possíveis
custos de semelhantes actos, considerando-se também as acentuações
indevidas que os media podem dar a alguns aspectos das declarações
eclesiais; tenha-se sempre presente o conselho do apóstolo Paulo de
acolher, considerar e apoiar com prudência e amor os "fracos na fé"
(cf. Rm 14,1). Em particular, impõe-se prestar atenção à história, à
identidade e aos contextos das Igrejas orientais e das Igrejas que actuam em
continentes ou países em que a presença cristã é largamente minoritária. - É necessário precisar o sujeito
adequado chamado a pronunciar-se em relação a culpas passadas, quer se
trate de pastores locais, pessoal ou colegialmente considerados, quer se
trate do Pastor universal, o Bispo de Roma. Nesta perspectiva é oportuno
ter em conta - no reconhecimento das culpas passadas e dos agentes actuais
que melhor poderão tomar isso a seu cargo - a distinção entre Magistério
e autoridade na Igreja. Nem todo o acto de autoridade tem valor de Magistério,
pelo que um comportamento contrário ao Evangelho da parte de uma ou mais
pessoas revestidas de autoridade não implica de per si um envolvimento do
carisma magisterial, confirmado pelo Senhor aos pastores da Igreja, e não
requer por consequência nenhum acto magisterial de reparação. - Sublinhe-se que o destinatário
de todo o possível pedido de perdão é Deus e que eventuais destinatários
humanos, sobretudo se colectivos, dentro ou fora da comunidade eclesial,
devem ser determinados com oportuno discernimento histórico e teológico,
quer para se realizarem convenientes actos de reparação quer para se lhes
testemunhar a boa vontade e o amor à verdade dos filhos da Igreja. Isto será
feito tanto melhor quanto mais diálogo houver e reciprocidade entre as
partes em causa num eventual caminho de reconciliação, ligado ao
reconhecimento das culpas e arrependimento por elas, sem ignorar que a
reciprocidade - por vezes impossível por causa das convicções religiosas
do interlocutor - não pode ser, todavia, considerada condição indispensável
e que a gratuidade do amor se exprime frequentemente numa iniciativa
unilateral. - Os eventuais gestos de reparação
estão associados ao reconhecimento de uma responsabilidade que perdura no
tempo, e poderão tanto ter um carácter simbólico-profético como um valor
de efectiva reconciliação (p. ex., entre os cristãos divididos). Também
na definição destes actos é desejável uma procura comum com os eventuais
destinatários, ouvindo os legítimos pedidos que eles possam apresentar. - No plano pedagógico é
oportuno evitar a perpetuação de imagens negativas do outro, assim como
activar processos de autoculpabilização indevida; enfatizando que o
carregar o fardo das culpas passadas é, para quem crê, um modo de
participação no mistério de Cristo crucificado e ressuscitado que
carregou as culpas de todos. Esta perspectiva pascal revela-se
particularmente apta a produzir frutos de libertação, reconciliação e
alegria para todos aqueles que, com fé viva, estão implicados no pedido de
perdão, seja como sujeitos seja como destinatários. 6.3. Implicações no plano do diálogo
e da missão São diversas as implicações
previsíveis no plano do diálogo e da missão, em consequência de um
reconhecimento eclesial de culpas passadas: - No plano missionário
deve-se, antes de mais, evitar que actos semelhantes contribuam para inibir
o impulso da evangelização mediante o exacerbar dos aspectos negativos. Do
mesmo modo, deve-se tomar em consideração o facto de que estes mesmos
actos poderão fazer crescer a credibilidade da mensagem, se nascerem da
obediência à verdade e tenderem a dar efectivos frutos de reconciliação.
Em particular, os missionários ad gentes terão o cuidado de contextualizar
a proposta destes temas em relação à efectiva capacidade da sua recepção
nos ambientes em que trabalham (assim, p. ex., aspectos da história da
Igreja na Europa poderão ser pouco significativos para muitos povos não
europeus). - No plano ecuménico, a
finalidade de eventuais actos de eclesiais de arrependimento só pode ser a
unidade querida pelo Senhor. Nesta perspectiva é tanto mais desejável que
eles se efectuem na reciprocidade, mesmo que por vezes gestos proféticos
possam reclamar uma iniciativa unilateral e absolutamente gratuita. - No plano inter-religioso
é oportuno salientar como, para os crentes em Cristo, o reconhecimento das
culpas passadas por parte da Igreja está conforme às exigências da
fidelidade ao Evangelho e, portanto, constitui um luminoso testemunho da sua
fé na verdade e na misericórdia do Deus revelado por Jesus. Deve evitar-se
que actos semelhantes sejam tomados equivocamente como confirmação de
eventuais preconceitos nos confrontos do cristianismo. Seria, além disso,
desejável que estes actos de arrependimento estimulassem também os fiéis
de outras religiões a reconhecerem as culpas do seu próprio passado. Tal
como a história da humanidade está cheia de violências, genocídios,
violações dos direitos humanos e dos povos, exploração dos mais fracos e
divinização dos poderosos, assim também a das várias religiões está
coberta de intolerância, superstição, conivência com poderes injustos e
negação da dignidade e liberdade das consciências. Os cristãos não
foram excepção, e estão conscientes de como todos são pecadores perante
Deus! - No diálogo com as culturas
deve-se, antes de mais, ter presente a complexidade e pluralidade das
mentalidades com que se dialoga a respeito da ideia de arrependimento e perdão.
Em todo o caso, o facto de a Igreja assumir as culpas do passado é
esclarecido à luz da mensagem evangélica e, em particular, da apresentação
do Senhor crucificado, revelação da misericórdia e fonte de perdão, para
além da peculiar natureza da comunhão eclesial, una no tempo e no espaço.
Onde haja uma cultura de todo alheia à ideia de um pedido de perdão, devem
ser oportunamente apresentadas as razões teológicas e espirituais que
motivam este acto a partir da mensagem cristã, tendo em conta o seu carácter
crítico-profético. Sempre que se tenha de fazer face a uma preconceituosa
indiferença para com a palavra da fé, tome-se em consideração o duplo
efeito possível destes actos de arrependimento eclesial que se, por um
lado, podem confirmar preconceitos negativos ou atitudes de desprezo e
hostilidade, por outro, participam da misteriosa atracção característica
do "Deus crucificado".(51) Além disso, considere-se o facto de
que no actual contexto cultural, sobretudo no Ocidente, o convite à
purificação da memória envolve num comum empenhamento crentes e não
crentes. Este empreendimento comum constitui já testemunho positivo de
docilidade à verdade. - Em relação à sociedade
civil, por fim, tenha-se em conta a diferença que existe entre a
Igreja, mistério de graça, e uma qualquer sociedade temporal; mas não
deve ser menos sublinhado o carácter de exemplaridade que o pedido eclesial
de perdão pode apresentar e o consequente estímulo que pode oferecer a se
efectuarem análogos passos de purificação da memória e reconciliação
nas mais diversas situações em que poderá ser reconhecida a sua urgência.
Afirma João Paulo II: "O pedido de perdão […] diz respeito, em
primeiro lugar, à vida da Igreja, à sua missão de anúncio da salvação,
ao seu testemunho de Cristo, ao seu empenhamento pela unidade, numa palavra,
à coerência que deve marcar a existência cristã. Mas, a luz e a força
do Evangelho de que a Igreja vive, têm a capacidade de iluminar e
sustentar, como por superabundância, as escolhas e acções da sociedade
civil, no pleno respeito da sua autonomia […] No limiar do terceiro milénio,
é legítimo esperar que os responsáveis políticos e os povos, sobretudo
aqueles envolvidos em conflitos dramáticos, alimentados pelo ódio e pela
lembrança de feridas frequentemente antigas, se deixem guiar pelo espírito
de perdão e reconciliação de que a Igreja dá testemunho, e se esforcem
por resolver as oposições mediante um diálogo leal e aberto."(52) CONCLUSÃO A concluir a reflexão feita, é
oportuno salientar, uma vez mais, como em todas as formas de arrependimento
pelas culpas do passado e em cada um dos gestos a ele ligados, a Igreja se
dirige antes de tudo a Deus, querendo glorificá-l'O e à Sua misericórdia.
Justamente desse modo ela sabe celebrar também a dignidade da pessoa
humana, chamada à plenitude da vida na aliança fiel com o Deus vivo:
"A glória de Deus é o homem vivo; a vida do homem é a visão de
Deus."(53) Agindo assim, a Igreja dá testemunho também da sua confiança
no poder da Verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). O seu "pedido
de perdão não deve ser entendido como ostentação de dissimulada
humildade, nem como negação da sua história bimilenária, claramente rica
de méritos nas áreas da caridade, cultura e santidade. Ela responde, ao
contrário, à irrenunciável exigência de verdade a qual, a par dos
aspectos positivos, reconhece os limites e as fraquezas humanas das várias
gerações de discípulos de Cristo".(54) E a Verdade reconhecida é
fonte de reconciliação e de paz, pois, como afirma o mesmo Papa, "o
amor da verdade, procurada com humildade, é um dos grandes valores capazes
de reunir os homens de hoje através das várias culturas".(55) Também
pela sua responsabilidade para com a Verdade, a Igreja "não pode
transpor o limiar do novo milénio sem incitar os seus filhos à purificação,
pelo arrependimento, dos erros, infidelidades, incoerências, atrasos.
Reconhecer as quedas de ontem é acto de lealdade e coragem" (TMA 33).
O que abre para todos um novo amanhã. Siglas AAS Acta Apostolicae Sedis CIC Catecismo da Igreja Católica CTI Comissão Teológica
Internacional DH
Dignitatis humanae GS
Gaudium et spes LG
Lumen gentium NA Nostra aetate RP Reconciliatio et paenitentia TMA Tertio millennio adveniente UR Unitatis redintegratio Notas 1. Incarnationis mysterium
11. 2. Ibid. Já em várias
intervenções e, em particular, no n. 33 da carta apostólica Tertio
millennio adveniente (TMA), o Papa havia indicado à Igreja o caminho a
seguir para purificar a própria memória relativamente às culpas do
passado e para dar o exemplo de arrependimento aos indivíduos e às
sociedades civis. 3. Cf. Extravagantes communes,
lib. V, tit. IX, c. 1 (A. Friedberg, Corpus iuris canonici, t. II, c.
1304). 4. Cf. CLEMENTE XIV, Carta
Salutis nostrae (30 de Abril de 1774), § 2. 5. Neste sentido vai a definição
de indulgência que Clemente VI dá ao instituir, em 1343, a periodicidade
do jubileu de 50 em 50 anos. Clemente VI vê no jubileu eclesial "o
cumprimento espiritual" do "jubileu de remissão e júbilo"
do Antigo Testamento (Lv 25). 6. "Cada um de vós deve
examinar em que é que caiu e examinar-se a si mesmo mais rigorosamente de
quanto o será por Deus no dia da Sua cólera", in: Deutsche
Reichstagsakten, n. série, III 390-399, Gotha 1893. 7. Cf. UR 6: "A Igreja
peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua reforma de que ela própria,
enquanto instituição humana e terrena, tem permanente necessidade." 8. Cf. PAULO VI, carta apostólica Apostolorum
limina (23 de Maio de 1974), in: Enchiridion Vaticanum 5, 305. 9. PAULO VI, exortação Paterna
cum benevolentia (8 de Dezembro de 1974), in: Enchiridion Vaticanum 5,
526-553. 10. Cf. encíclica Ut unum sint
(25 de Maio de 1995) n. 88: "Por aquilo de que somos responsáveis,
imploro perdão." 11. P. ex., o Papa "pede perdão,
em nome de todos os católicos, pelos males causados aos não-católicos ao
longo da história" junto dos morávios (cf. canonização de Jan
Sarkander, na República Checa, em 21 de Maio de 1995). Desejou cumprir um
"acto de expiação" e pedir perdão aos índios da América
Latina e aos africanos deportados como escravos (Mensagem aos índios da
América, S. Domingo, 13 de Outubro 1992; Discurso na audiência
geral de 21 de Outubro de 1992). Dez anos antes havia já pedido perdão aos
africanos pelo tráfico de negros (Discurso em Yaoundé, 13 de Agosto
de 1985). 12. Este último aspecto é
aflorado na TMA apenas no n. 33, quando se diz que a Igreja reconhece como
seus os próprios filhos pecadores "perante Deus e perante os
homens". 13. St. AGOSTINHO, De civitate
Dei I 35: CCL 47,33; XI 1: CCL 48,321; XIX 26: CCL 48,696. 14. Sobre diversos métodos de
leitura da Sagrada Escritura, cf. o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA,
A interpretação da Bíblia na Igreja, trad. port. do Secretariado
Geral do Episcopado, Lisboa: Rei dos Livros 1994. 15. Podem reconduzir-se a esta série,
p. ex.: Dt 1,41 (a geração do deserto reconhece ter pecado, recusando avançar
para entrar na terra prometida); Jz 10,10.12 (no tempo dos juízes, o povo
por duas vezes disse "pecámos" contra o Senhor, referindo-se a
terem servido os ídolos); 1Sm 7,6 (o povo do tempo de Samuel afirma:
"Pecámos contra o Senhor!"); Nm 21,7 (este texto distingue-se
porque aqui o povo da geração moisaica admite que, ao lamentar-se da
alimentação, se tornou culpado de "pecado" porque falou contra o
Senhor e também contra o seu guia humano, Moisés); 1Sm 12,19 (os
israelitas do tempo de Samuel reconhecem que - pedindo para terem um rei -
juntaram este a "todos os seus pecados"); Esd 10,13 (o povo
reconhece perante Esdras ter grandemente "pecado nesta matéria"
[casando com mulheres estrangeiras]); Sl 65,2-2; 90,8; 103,10 (107,
10-11.17; Is 59, 9-15; 64, 5-9; Jer 8, 14; 14,7; Lam 1,14,18a.22
("Eu" = personificação de Jerusalém); 3, 42 (4, 13); Bar 4,
12-13 (Sião evoca as culpas dos seus filhos que levaram à sua ruína); Ez
33,10; Miq 7,9 ("Eu").18-19. 16. P. ex.: Ex 9,27 (o faraó diz a
Moisés e a Aarão: "Desta vez pequei; o Senhor é o justo, e eu e o
meu povo somos os culpados"); 34,9 (Moisés diz: "Perdoa a nossa
iniquidade e os nossos pecados"); Lv 16,21 (o Sumo Sacerdote confessa
os pecados sobre a cabeça do "bode expiatório" no dia da expiação);
Ex 32,11-13 (cf. Dt 9,26-29: Moisés); 32,31 (Moisés); 1Rs 8,33ss (cf. 2Cro
6,22ss: Salomão reza para que Deus perdoe eventuais futuros pecados do
povo); 2Cro 28,13 (os chefes dos israelitas afirmam: "A nossa culpa é
já grande"); Esd 10,2 (Checarias diz a Esdras: " Pecámos contra
o nosso Deus, tomando por esposas mulheres estrangeiras"); Ne 1,5-11
(Neemias confessa os pecados cometidos pelo povo de Israel, por si mesmo e
pela casa de seu pai); Est 4,17 (Ester confessa: "E agora porque pecámos
na Tua presença, entregaste-nos nas mãos dos nossos inimigos, por termos
adorado os seus deuses"); 2Mac 7,18.32 (os mártires judeus afirmam que
sofrem por causa dos "nossos pecados" contra Deus). 17. Entre os exemplos deste tipo de
confissões nacionais, remete-se para 2Rs 22,13 (cf. 2Cro 34,21: Josias teme
a cólera do Senhor "porque os nossos pais não observaram a palavra do
Senhor nem cumpriram tudo o que está escrito neste livro"); 2Cro
29,6-7 (Ezequias afirma: "Os nossos pais foram infiéis"); Sl 78,
8ss (um "Eu" assume os pecados das gerações passadas, a partir
do Êxodo). Cf. o ditado popular citado em Jer 31,29 e Ez 18,2: "Os
pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que ficaram
embotados."). 18. É o caso de textos como os
seguintes: Lv 26,40 (os exilados são chamados a "confessar a sua
iniquidade e a iniquidade de seus pais"); Esd 9,5b-15 (oração
penitencial de Esdras, v. 7: "Desde o tempo de nossos pais até ao dia
de hoje, temos sido gravemente culpados"; cf. Ne 9,6-37); Tb 3,1-5 (na
sua oração, Tobite invoca: "Não me castigues por causa dos meus
pecados e dos meus erros, nem pelos dos meus pais" [v. 3], e prossegue
com a constatação: "não observámos os teus mandamentos" [v.
5]); Sl 79,8-9 (esta lamentação colectiva implora a Deus "não
recordes contra nós as faltas dos nossos antepassados […] salva-nos e
perdoa os nossos pecados"); Sl 106,6 ("pecámos como os nossos
pais"); Jer 3,25 ("… pecámos contra o Senhor nosso Deus […] nós
e nossos pais"); Jer 14,19-22 ("conhecemos a nossa culpa e a
iniquidade de nossos pais", v. 20); Lam 5 ("Pecaram os nossos
pais, mas já morreram", v. 7; "desgraçados de nós porque pecámos",
v. 16b); Bar 1,15-3,18 ("ofendemos o Senhor" [1,17; cf. 1,19.21;
2,5.24]; "não recordar a iniquidade dos nossos pais" [3,5; cf.
2,33; 3,4.7]; Dn 3,26-45 (a oração de Azarias: "é por efeito dum juízo
equitativo que nos infligiste tudo isto, por causa dos nossos pecados",
v. 28); Dn 9,4-19 ("pois é por causa dos nossos crimes e dos pecados
de nossos pais que Jerusalém […] está exposta aos insultos […]",
v. 16). 19. Incluem falta de confiança em
Deus (assim, p. ex., Dt 1,41; Nm 14,10), idolatria (Jz 10,10-15), pedido
para se ter um rei humano (1Sm 12,9), casamentos com mulheres estrangeiras,
em oposição à lei divina (Esd 9-10). Em Is 59,13b, o povo diz: "Não
temos falado senão de opressão e revolta, urdimos dentro de nós palavras
mentirosas." 20. Cf. o caso análogo do repúdio
das mulheres estrangeiras por parte dos judeus, narrado em Esd 9-10, com
todas as consequências negativas que teve sobre as mulheres implicadas. A
questão de um pedido de perdão dirigido a elas (e/ou aos seus
descendentes) não se coloca propriamente, dado que o repúdio é
apresentado como uma exigência da lei divina (cf. Dt 7,3) em todos estes
capítulos. 21. Recorde-se, a este propósito,
o caso das relações sempre tensas entre Israel e Edom. Este povo - apesar
da sua condição de "irmão" de Israel - participou na queda de
Jerusalém levada a cabo pelos babilónios e regozijou-se com ela (cf. p.
ex., Abd 10-14). Israel, ultrajado por esta traição, não sentiu qualquer
necessidade de pedir perdão pelo morticínio de prisioneiros edomitas
indefesos, perpetrado pelo rei Amacias, segundo 2Cro 25,12. 22. JOÃO PAULO II, Discorso
del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4. 23. Pense-se no motivo - presente
em autores cristãos de diferentes épocas - de censura à Igreja pelas suas
culpas, de que é exemplo entre os mais representativos o Liber asceticus
de Máximo Confessor: PL 90, 912-956. 24.
PAULO VI, Credo del popolo di Dio (30 Giugno 1968), n. 19, in:
Enchiridion Vaticanum 3, 264s. 25. St. AGOSTINHO, Sermo
181,5,7: PL 38, 982. 26. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa
Theologica III q.8 a.3 ad 2. 27. St. AMBRÓSIO, De
virginitate 8,48: PL 16, 278D: "Caveamus igitur, ne lapsus noster
vulnus Ecclesiae fiat." Da "ferida" infligida à Igreja pelo
pecado dos seus filhos, fala também LG 11. 28. K. DELAHAYE, La comunità,
madre dei credenti, Cassano M. (Bari) 1974, 110. Cf., também, H.
RAHNER, Mater Ecclesia. Inni di lode alla Chiesa
tratti dal primo millennio della letteratura cristiana, Milano 1972. 29. St. AGOSTINHO, Sermo
25,8: PL 46, 938: "Mater ista sancta, honorata, Mariae similis, et
parit et Virgo est. Ex illa nati estis et Christum parit: nam membra Christi
estis." 30. S. CIPRIANO, De Ecclesiae
catholicae unitate 6: CCL 3, 253: "Habere iam non potest Deum
patrem qui ecclesiam non habet matrem." O mesmo S. Cipriano afirmava
noutro texto: "Ut habere quis possit Deum patrem, habeat ante ecclesiam
matrem" (Epist. 74,7: CCL 3C, 572). E St. Agostinho: "Tenete ergo,
carissimi, tenete omnes unanimiter Deum patrem, et matrem Ecclesiam" (In
Ps 88, Sermo 2,14: CCL 39, 1244). 31. PAOLINO DI NOLA, Carmen
25, 171-172: CSEL 30, 243: "Inde manet mater aeterni semine verbi /
concipiens populos et pariter pariens." 32. St. INÁCIO DE ANTIOQUIA, Ad
Romanos, Proem.: SCh 10,124 (Th. Camelot, Paris 21958). 33. Discurso aos
participantes no Simpósio Internacional do estudo sobre a Inquisição,
promovido pela Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do
Jubileu, n. 4, 31 de Outubro de 1998. 34. Para o que segue cf. H.-G.
GADAMER, Verdade e Método, Petrópolis 1998. 35. B. LONERGAN, Il metodo in
teologia, Brescia 1975, 173. 36. JOÃO PAULO II, Discorso
del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4. 37. A TMA 34 afirma que "mais
ainda do que no primeiro milénio, a comunhão eclesial conheceu dolorosas
lacerações". 38. Cf. Discorso di apertura
dalla Seconda Sessione del Concilio, del 29 Settembre 1964, in: Enchiridion
Vaticanum 1 [106], n. 176. 39. Cf. a documentação do diálogo
da caridade entre a Santa Sé e o Patriarcado ecuménico de Constantinopla,
in: Tómos Agápes: Vatican - Phanar (1958-1970), Roma-Istambul 1971.
40. JOÃO PAULO II, Discorso
del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4. 41. O argumento é tratado de modo
rigoroso na declaração Nostra aetate, do Vaticano II. 42. Cf. JOÃO PAULO II, Discorso
alla Sinagoga di Roma, 13 Aprile 1986, 4 in: AAS 78 (1986) 1120. 43. Este é o juízo do recente
documento da Comissão para as relações religiosas com o judaísmo, Noi
ricordiamo: una riflessione sulla Shoah, Roma (16 Marzo 1998) 3. 44. Ibid.
7. 45. Ibid.
5. 46. Ibid.
6. 47. Ibid. 5. 48 Basta pensar no sinal do martírio:
cf. TMA 37. 49. É o mesmo texto que afirma que
"a Igreja peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua reforma (ad
hanc perennem reformationem) de que ela mesma, enquanto instituição
humana e terrena, tem sempre necessidade". 50. Cf. UR 6: "Toda a renovação
da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação."
51. A fórmula - particularmente
forte - é de St. AGOSTINHO, De Trinitate I 13,28: CCL 50,69,13; Epist.
169,2: CSEL 44,617; Sermo 341A, 1: Misc. Agost. 314,22. 52. Discurso aos participantes no
Simpósio Internacional do estudo sobre a Inquisição, promovido pela
Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do Jubileu, n. 5, 31 de
Outubro de 1998. 53. "Gloria Dei vivens homo:
vita autem hominis visio Dei", St. IRENEU DE LYON, Adversus haereses
IV 20, 7: SCh 100, t. II, 648. 54. JOÃO PAULO II, Discorso
del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4. 55. Discorso al Centro Europeo per la ricerca nucleare, Ginevra (15 Giugno 1982), in: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, V 2 Vaticano 1982, 2321. |
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