As Cruzadas
D. Estevão Bettencourt, osb
Por “Cruzadas medievais” entendemos, as expedições
empreendidas pelos cristãos do Ocidente para libertar do domínio muçulmano o S.
Sepulcro de Cristo em Jerusalém. Têm início em fins do séc. XI (1095) e
terminam em 1291, quando os últimos bastiões dos cruzados no Mediterrâneo
oriental sucumbiram sob os ataques dos turcos. Recobrem, pois, os séculos XII e
XIII. Verdade é que houve expedições bélicas para libertar a Terra Santa ou o
Oriente da Europa ameaçado pelos turcos também nos séculos XIV e XV, como antes
de 1095 se falava de reconquistar a Espanha ocupada pelos árabes... Antes de
entrarmos no tema propriamente dito, importante observação deve ser feita, a
saber: não se pode entender um episódio do passado sem se reconstituírem
previamente o quadro geral respectivo e as categorias de pensamento dos atores
desse episódio. A propósito damos a palavra a Profª. Regine Pernoud no seu
livro “Les Croisades” (Paris 1960, p. 7): “É de notar quanto a historiografia
nos tempos modernos se tornou moralizante e quão poucos historiadores resistem
à tentação de se transformar em juizes e censores dos acontecimentos que eles
referem. Ora os julgamentos que os historiadores possam proferir sobre o
passado, arriscam´se muitas vezes a ser inadequados ou injustos, porque, sem
que o próprio estudioso tenha sempre consciência disto, ele julga segundo
critérios que datam da sua época, e não da época analisada. Especialmente
estranho é o fato de que esse moralismo histórico se tenha propagado
precisamente nos séculos XIX e XX, quando se registra admirável esforço em prol
da historiografia objetiva, imparcial configurada às ciências exatas, que
seguem métodos rigorosos. Os julgamentos dos historiadores acarretam o
inconveniente de introduzir um dos elementos mais subjetivos, ou seja, as
opiniões políticas ou religiosas abraçadas pelo estudioso... Essas sentenças
arbitrárias, simplistas demais para poder ser verídicas, não provém do fato de
que em geral o estudioso está mais apressado para julgar do que para
compreender?’ Conscientes do valor destas advertências, procuraremos, nas
páginas que se seguem, antes do mais compreender ´ o que não significa
legitimar indistintamente os fatos narrados.
Causas da “Viagem da Cruz”
O fundo de cena histórico
1 ´ O termo “Cruzada” mesmo nunca ocorre nos
documentos medievais; é vocábulo posterior, como também moderno é o vocábulo
corporação, utilizado de maneira um tanto inadequada quando se fala de
instituições medievais. Na Idade Média falava´se de “caminho de Jerusalém,
passagem, viagem, via da cruz, peregrinação”. É, pois, a partir deste
vocabulário que havemos de começar o estudo do que posteriormente foi chamado
“Cruzadas”. “Peregrinação” é uma das práticas mais ancoradas na Bíblia ou ´
ainda ´ na tradição judaica, na tradição cristã e na tradição muçulmana; ver
Deuteronômio 16,16; Lucas 2,41. Em particular, a peregrinação a Jerusalém e aos
lugares santos da Redenção do gênero humano foi sempre uma das expressões de fé
mais caras aos cristãos. No séc. IV após a era das perseguições, quando o
Cristianismo começou a usufruir de liberdade no Império Romano, vê´se a
lmperatriz Helena, mãe de Constantino, ir à Palestina para descobrir e
restaurar os testemunhos da vida, da morte e da ressurreição de Cristo, que
haviam sido sufocados pela ocupação romana a partir de 70 e, máxime, após 135
d.C. Pouco depois de Helena, mãe de Constantino, tem´se a figura de S. Jerônimo
(†421), que resolveu estudar a Bíblia na Terra Santa, estabelecendo´se na gruta
de Belém. Aos paucos, no país biblico foram´se constituindo numerosos mosteiros
de homens e mulheres, que queriam beneficiar´se do contato com os lugares
sagrados. Do séc. IV em diante, o movimento de peregrinações a Terra Santa não
cessou entre os cristãos: Jerusalém, Roma e Compostela eram os principais
pontos de atração da piedade. Têm´se mesmo ainda hoje numerosos “Itinerários”
de Terra Santa escritos em latim através dos séculos por cristãos de nomeada,
como o peregrino de Placência, Silvia, Etéria... Na ldade Média tão arraigado
era o hábito de peregrinar que até mesmo o servo da gleba (o homem estatico por
excelência, porque ligado ao campo, que ele não podia deixar e que ninguém
tinha o direito de Ihe tirar) gozava do direito de sair da sua terra para
realizar uma peregrinação, sem que ninguém se Ihe opusesse.
2 ´ No séc. VII a expansão árabe fez perecer as
numerosas comunidades cristãs esparsas pela Síria, a Palestina, o Egito, o
norte da Africa. Jerusalém em 638 foi ocupada e, em parte, transformada em
cidade Árabe muçulmana. As condições dos cristãos.que lá viviam ou que lá iam
ter a fim de visitar os lugares santos, tornaram´se difíceis, embora oscilantes
segundo as épocas; a tensão do ambiente foi as vezes abrandada por acordos,
como, por exemplo, os de Carlos Magno († 814) com o califa Haroun al´Rachid;
esses pactos, porém, nem sempre foram respeitados, como no caso do califa
Hakim, fundador da religião drusa, que em 1009 mandou destruir a basílica do
S.Sepulcro em Jerusalém e durante dez anos moveu perseguição a cristãos e
judeus. Pouco depois, ou seja, a partir de 1055, os Turcos seleucidas entraram
no próximo Oriente. Em 1071, Jerusalém caia em suas mãos. Os cristãos, em
conseqüência, sofreram opressão. Os peregrinos que voltavam da Terra Santa,
narravam no Ocidente a ingrata situação em que se achavam os irmãos e os
santuários na Terra Santa de Cristo. As condições de peregrinação eram
extremamente penosas. Os relatos falam de peregrinos colocados no cárcere, seqüestrados
em troca de dinheiro, torturados, durante a viagem para a Terra Santa. Uma das
crônicas mais impressionantes era a da peregrinação de Bünther, bispo de
Bamberga (Alemanha), que, com milhares de companheiros, a pequena distância de
Jerusalém, sofreu duro ataque dos beduínos da região durante três dias.
Certamente muitos episódios e casos particulares circulavam de boca em boca na
Europa a respeito do que ocorria em Jerusalém e nos arredores; tais episódios
constituiam o teor do que o cristão podia conhecer a respeito da Terra Santa.
Dessas informações temos um espécimen ainda hoje numa crônica de Guilherme de
Tiro, historiador do século XII: “Aconteceu, por permissão de Nosso Senhor e
para provação do povo, que um homem desleal e cruél se tornou senhor e califa
do Egito. Tinha por nome Hakim e quis ultrapassar toda a malícia e a crueldade
que tinham estado em seus ancestrais. Ele foi tal que os homens da sua lei o
tinham também na conta de eivado de orgulho, de furor e de deslealdade. Entre
outras deslealdades, mandou abater santa igreja do sepulcro de Jesus Cristo,
que fora construída anteriormente por ordem de Constantino Imperador, pelo
patriarca de jerusalém chamado Máximo e que fora refeita por Modesto, outro
patriarca do tempo de Heráclio.53 Então começou a situação de nossa gente a ser
muito mais dura e dolorosa do que fora, pois grande luta lhes entrara no
coração por causa da lgreja da Ressurreição de Nosso Senhor, que eles viam
assim destruída .Doutra parte eram dolorosamente sobrecarregados de impostos e
tarefas, contra os costumes e os privilégios que eles haviam recebido dos
príncipes incrédulos. Até mesmo o que jamais lhes fora imposto, chegou a ser
lhes proibido: a celebração das suas festas. No dia que soubessem ser a maior
festa dos cristãos, eles (os drusos) os obrigavam a trabalhar mais sob o jugo e
a força; proibiam´lhes (aos cristãos) sair das portas de suas casas, em que
eles eram encerrados para que não pudessem celebrar festa alguma. Em suas casas
mesmas não gozavam de paz nem segurança, pois se atiravam sobre elas grandes
pedras e pelas janelas lançavam excrementos, lama e toda espécie de lixo. Se
acontecesse que alguns cristãos dissesse uma só palavra capaz de desagradar a
esses incrédulos, logo, como se tivesse cometido um morticínio,era arrastado à
prisão e Ihe cortavam o pé ou a mão, ou podiam todos os seus bens ser
confiscados pelo califa ...Muitas vezes, os incrédulos tomavam os filhos e as
filhas dos cristãos em suas casas e com eles faziam o que queriam;ora mediante
adulação os incrédulos constrangiam muitos jovens a renegar a fé...Os bons
cristãos esforçavam´se por sustentar tanto mais firmemente a sua fé quanto mais
eram maltratados. Seria longo contar todos os vexames e as desgraças em que o
povo de Nosso Senhor se encontrava então. Eu vos contarei um episódio, para que
mediante esse possais compreender muitos outros. Um dos incrédulos, malicioso e
desleal, que odiava cruelmente os cristãos, procurava certa vez um meio de os
fazer morrer. Viu que a cidade inteira (Jerusalém) tinha grande honra e
reverência pelo Templo que fora refeito54... Diante do Templo há uma praça que
se chama a esplanada do Templo, que eles (os muçulmanos) guardavam e mantinham
limpa, como os cristãos mantém limpas as suas igrejas e os seus altares. Esse
incrédulo desleal tomou de noite, sem que alguém o visse, um cão morto, pútrido
e fétido, e colocou´o nessa esplanada, diante do Templo. De manhã, quando os
homens da cidade foram ao Templo para orar, encontraram esse cão. Fez´se então
um grande grito, rumor e clamor por toda a cidade, a ponto que só se falava do
ocorrido. Reuniram´se e não tiveram dúvida em dizer que os cristãos haviam
feito isto. Todos concordaram em passar ao fio da espada todos os cristãos; já
estavam mesmo desembainhadas as espadas que a todos deviam cortar a cabeça.
Entre os cristãos havia um jovem de coração generoso e de grande piedade. Falou
ao povo e disse: ‘Meus senhores, verdade é que não tenho culpa alguma no que
aconteceu, como aliás nenhum de nós a tem; isto, eu o dou por certo. Mas será
extremamente doloroso se morrerdes todos assim e se todo o Cristianismo se
extinguir nesta terra. Por isto pensei em vos libertar a todos com o auxílio de
Nosso Senhor. Apenas vos peço duas coisas pelo amor de Deus: que oreis por
minha alma em vossas preces e que tomeis sob os vossos cuidados e reverência a
minha pobre família. Pois eu assumirei a causa sobre mim e direi que fui eu que
fiz aquilo de que acusam a todos nós!’ Os que lamentavam morrer, tiveram grande
alegria então e prometeram ao jovem fazer orações e honrar os seus familiares
de tal modo que estes, no domingo de Ramos, trouxessem sempre a oliveira, que
significa o Cristo, e a colocassem em Jerusalém. ´ O jovem, portanto, foi ao
encontro dos injustos e disse que os outros cristãos não tinham culpa alguma no
ocorrido e que ele era o autor da façanha. Quando os incrédulos ouviram isto,
puseram em liberdade todos os outros, e somente ele teve a cabeça talhada. “
Faça´se o desconto devido possivelmente ao estilo panegirista do cronista... É
certo, porém, que ainda no séc. XII havia em Jerusalém uma família encarregada
de fornecer aos fiéis as palmas para o domingo de Ramos, em memória (diziam) da
dedicação desse antepassado generoso, que se teria sacrificado em prol da
comunidade.
Concepções e características medievais
1 ´ Note´se agora que os relatos corcernentes aos
vexames da Terra Santa ecoavam nos ouvidos de sociedade e povos caracterizados
por dois traços profundamente marcantes:
a) Eram populações nas quais todos os indivíduos
(com raras exceções, que confirmavam a regra) tinham ´ ou ao menos julgavam ter
´ e professavam a fé cristã. Essa fé não procedia de uma autoridade exterior
(do Papa ou do Imperador), mas era uma convicção profundamente ancorada no
coração de todos. Os valores da fé eram, para esses homens, o que fazia que a
vida valesse a pena de ser vivida. O calendário da vida pública, as catedrais
românicas e góticas, os nomes de acidentes geográficos e instituições, além de
numerosos outros dados, atestam. o profundo impacto que a mensagem da fé
causava sobre os povos medievais, ritmando as minúcias da vida cotidiana. Não
há dúvida, a fé dos medievais era muito propensa a demonstrações exuberantes,
como também a dar crédito a visões, aparições, feitos extraordinários, sinais
retumbantes de Deus... Ao lado das grandes Universidades de Paris, Oxford,
Bolonha, Nápoles, havia também muita simploriedade e infantilidade na piedade
cristã. Mas inegavelmente tudo que se ligasse com a fé, revestia´se de grande
significado para os medievais.
b) A sociedade na Idade Média estava toda
impregnada do espírito e da realidade dos cavaleiros. Efetivamente, a
espiritualidade germãnica, França, celta, goda levou a civilização medieval o
ideal do cavaleiro. Este aspirava a servir a Deus na bravura destemida,
magnânima, e até mesmo na guerra (caso julgasse que a honra de Deus exigia a
intervenção da espada). A espiritualidade do cavaleiro retratada nas canções e
trovas da Idade Média era apta a suscitar façanhas heróicas em nome da fé. Mais
deve´se lembrar que na ldade Média também os monges desenvolveram papel
importante, professando, porém, uma espiritualidade assaz diversa da do
cavaleiro. Enquanto o cavaleiro procurava intensificar suas atividades no
mundo, aspirando assim a unir´se a Deus e chegar à vida eterna, o monge se
separava do mundo secular para penetrar diretamente em Deus e na contemplação.
Enquanto o cavaleiro aplicava os instrumentos da sua profissão, isto é, as
armas, para servir ao seu Senhor, o monge, professando pobreza e silêncio,
recusava o recurso a tais expedientes. Ora os medievais haviam de conseguir
fazer a síntese desses dois tipos de ideal cristão ´ o do cavaleiro e o do
monge ´, criando no século XII as chamadas “Ordens Militares”. Nestas o
cavaleiro se consagrava a Deus para O servir com destemor e gaIhardia num
quadro de pobreza, castidade e obediência.
Referindo´se aos Templários, dizia S. Bernardo (†
1153):
“Não sei se os devo chamar monges ou cavaleiros;
talvez seja necessário dar´lhes um e outro nome, pois eles unem, à brandura do
monge a coragem do cavaleiro” (De laude nova emilidae(IV8).
2 ´ É, portanto, nas populações medievais,
caracterizadas por tais traços, que ecoaram os relatos, de estilo simples e
pungente, dos peregrinos da Terra Santa, no séc. XI. Compreende´se que tenham
desencadeado reação espontânea e decidida da parte dos seus ouvintes. Somente o
entusiasmo e o vigor comunicados pela fé (e que só a fé pode comunicar)
explicam tal resposta: multidões se abalaram, prontificando´se a partir para
terras longínquas, desconhecidas, sujeitas a surpresas e ciladas, sem
reabastecimento seguro, sem guias peritos, sem planos de viagem muito
definidos, mas conscientes (ao menos nos primeiros tempos) de que Deus o
queria; “Deus lo volt”, eis o brado que em Clermont, no ano de 1095,
impressionou os primeiros expedicionários e impulsionou a tantos outros que
lhes seguiram o exemplo. Cosiam uma cruz de pano vermelho ao ombro direito;
donde as expressões que se tornaram técnicas: “assumir a cruz” e “fazer a cruzada”.
O ímpeto inicial teve suas repercussões durante os dois séculos de duração do
movimento de Cruzadas. Aliás, os medievais dedicavam grande devoção ao Santo
Sepulcro do Senhor, que os cronistas Ihes apresentavam sujeito a vexames. Era
tido como o maior santuário do mundo cristão, como o centro do universo,
segundo os sermões e os noticiários da época. É somente a partir de tais
concepções, muito vivas e significativas para os medievais, que se podem
entender as Cruzadas. Nenhum tipo de guerra moderna, nem mesmo a chamada
“guerra santa” (jihad) dos muçulmanos, pode servir de ponto de referência para
se entenderem a inspiração e a força, motriz dos cruzados. É mister, porém,
reconhecer que as idéias religiosas dos primeiros expedicionários foram sendo,
aos poucos, no decorrer de dois séculos, solapadas, de sorte que a imagem do
cavaleiro que em seu fervor tomava sobre si a cruz para ir libertar o
S.Sepulcro do Senhor, se foi modificando. É essa imagem posterior que muitas
vezes predomina em certos tratados sobre as Cruzadas.
As Cruzadas em resenha Foi o Papa Urbano II quem,
no Concílio de Clermont (França) em 1095, lançou o programa de expedições
destinadas a reconquistar o S. Sepulcro em Jerusalém. O ambiente, como vimos,
estava assaz motivado para receber tal apelo. Conseqüentemente, o brado de
Urbano II suscitou entusiasmo delirante; muitos pregadores puseram´se a
percorrer a Europa, incitando os homens a cerrar fileiras. Grande multidão de
ouvintes, de origem social diversa, assumiu então a cruz, emblema da campanha.
Os expedicionários, provenientes da França, da Inglaterra, da Itália, eram
dotados de benefícios espirituais pelo Papa; a quem ousasse violar ou roubar as
suas propriedades durante a respectiva ausência, tocaria a pena de excomunhão.
Em resposta imediata ao apelo e sem esperar a organização de exércitos
devidamente constituídos (coisa que levaria tempo), grande número de simples
fiéis pôs´se logo em marcha para o Oriente sem o equipamento necessário. Essa
Cruzada Popular, chefiada por Pedro o Eremita e Gualtero “sem Haveres”
(Gauthier sans Avoir), fracassou, pois os seus membros ou pereceram na estrada
ou foram exterminados pelos turcos.
1a Cruzada: Em fins de 1096, quatro exércitos de
senhores feudais chegavam a Constantinopla:
1) os lorenos e alemães, com Balduíno de Hainaut e
Godofredo de Bouillon;
2) os franceses do norte, sob o conde de Vermandois
e o duque de Normandia;
3) os provençais, com o conde de Tolosa e o legado
Ademar de Monteil;
4) os normandos da ltália, com Boemundo de Taranto
e Tancredo. Nenhum rei os acompanhava, nem esses exércitos cuidaram de
instituir um Chefe geral para todos. O lmperador bizantino Aléxis Comnene, em
Constantinopla, esperava servir´se desses guerreiros para reconquistar parte da
Ásia Menor, que fora arrebatada pelos turcos. A cidade de Nicéia perto de
Constantinopla foi então realmente reconquistada, mas, em vez de ser atribuída
aos ocidentais, voltou a ser domínio do lmperador bizantino. Este fato frustrou
os latinos e concorreu para que doravante latinos e bizantinos concebessem
desconfiança mútua! ´ Após dois anos e meio de lutas e sofrimentos atrozes, os
cruzados, tendo vencido o exército de Solimão em Doriléia, havendo tomado
Edessa (1097) e Antioquia (1098), chegaram finalmente a Jerusalém e dela se
apoderaram (1099). Essa sangrenta expedição, que custara a vida a cerca de
meio´milhão de homens, terminou com a fundação de quatro centros latinos: o
reino de Jerusalém, o principado de Antioquia, os condados de Edessa e de
Trípolis, aos quais foram atribuídos governantes latinos. As grandes cidades da
costa palestinense foram ocupadas por navegantes e comerciantes ocidentais. Os
peregrinos recomeçaram a afluir à Terra Santa. Para protegê´los e defendê´los,
foram criadas as Ordens de Cavaleiros Militares (Hospitalários, Templários,
etc.). Como se compreende, os territórios latinos no Oriente eram
constantemente ameaçados e só podiam subsistir com o auxílio de reforços vindos
do Ocidente. É o que explica uma série de expedições, ora mais, ora menos vultosas,
colocadas entre as grandes Cruzadas. Somente estas, em número de oito, serão
aqui recenseadas.
2a Cruzada: Os turcos tendo reconquistado e
destruído Edessa, preparou´se nova Cruzada, que partiu do Ocidente em 1147.
Exortados por S. Bernardo, o rei de França, Luís VII, e o da Germânia, Conrado
III, tomaram a cruz sobre si e fundiram suas tropas num só exército. Mas não
conseguiram tomar nem mesmo Damasco, e regressaram sem êxito em 1149.
3a Cruzada: O sultão Saladino apoderou´se de
Jerusalém em 1187. Respondendo então a um apelo do Papa Urbano III, Filipe
Augusto da França, Frederico Barbaroxa da Alemanha, e Ricardo Coração de Leão,
da Inglaterra, apresentaram´se para partir. Os alemães, tendo seguido por
terra, chegaram até a Ásia Menor; mas a morte de Frederico, afogado nas águas
do rio Cydnus (Cilícia), provocou a dispersão do seu exército (1190). Os reis
da França e da Inglaterra dirigiram´se por mar a S. João de Acre, que
conseguiram ocupar (julho de 1191). Embora lutassem juntos, os dois monarcas
nutriam desconfiança mútua. Filipe Augusto, tendo caído doente, voltou à
Europa, e, apesar da palavra dada, pôs´se a tramar com João sem Terra a invasão
dos domínios do rei da lnglaterra. Ricardo viu´se assim compelido a voltar
(1192). Naquela época, os cristãos já não possuiam senão o litoral, desde Tiro
até Jafa, com S. João de Acre como capital, além do principado de Antioquia,
assaz reduzido. Todavia Ricardo Coração de Leão havia conquistado Chipre, que
se tornou um reino latino próspero.
4a Cruzada: O Papa lnocêncio III (1198´1216)
aspirava ardentemente à libertação de Jerusalém. Suscitou nova expedição, a
qual, porém, se afastou da sua orientação, sob a influência de Filipe da
Suábia, de Veneza e dos gregos. Os cruzados empreenderam a conquista de Constantinopla
(!), que eles saquearam, fazendo da mesma a capital de um Império latino. Esse
lmpério, que compreendia a península dos Balcãs, durou até 1261, quando Miguel
o Paleólogo retomou Constantinopla.
5a Cruzada: Entre 1219 e 1221, alemães e húngaros
assumiram a cruz. Dirigiram´se para o Egito; mas a cheia do Nilo, que os
cristãos não previam, obrigou´os a retirar´se.
6a Cruzada: É também chamada “peregrinação sem fé”
(1228´1229). Excomungado pelo Papa, Frederico II resolveu empreender uma
Cruzada, não tanto para libertar o S. Sepulcro, quanto para unir em sua pessoa
os títulos de Imperador da Alemanha e rei de Jerusalém; amigo da ciência e da
cultura árabes, Frederico II aparentava amizade com os Árabes, de sorte que
obteve do sultão do Egito, por dez anos, o domínio sobre Jerusalém, Belém e
Nazaré. Terminado esse prazo, Jerusalém recaiu nas mãos dos Árabes.
7a e 8a Cruzadas: São Luís IX, rei da França,
resolveu reconquistar a Cidade Santa. Em 1248, atacou o sultão Eyoub, não na
Síria, mas no Egito. Como em 1221, também dessa vez os cristãos tomaram
Damieta, mas cairam diante de Mansourah. Foram todos encarcerados, só
conseguindo a liberdade mediante enorme preço de resgate. Em 1270, S. Luís
renovou seus esforços, conseguindo a muito custo constituir um exército para
empreender nova expedição. O irmão do rei, Carlos de Anjou, persuadiu´o de ir
primeiramente a Túnis; diante desta cidade, o monarca, acometido de peste, veio
a falecer aos 25 de agosto de 1270. Após estes fatos, a pressão dos exércitos turcos
se intensificou, visando aos últimos redutos cristãos da Asia. Em 1291, estes
sucumbiram, encerrando´se assim a era das Cruzadas propriamente ditas. Ainda, a
título de ilustração, mencionamos as Cruzadas das crianças, pois são
significativas do espírito da época. Em 1212, um jovem pastor, chamado Estêvão,
dizendo´se enviado por Deus, convocou as crianças da França para empreenderem
uma Cruzada. O exército de 30.000 jovens que assim se formou, embarcou em
Marselha. Dois condutores de frota haviam se comprometido a transportá´los ao
Oriente gratuitamente; todavia venderam´nos aos mercadores de escravos no
Egito. A maioria dos participantes pereceu; um pequeno número recuperou mais
tarde a liberdade. Na mesma época, a Alemanha foi teatro de episódio semelhante.
Vinte mil jovens, dirigidos por certo Alexandre, tão imperito quanto os seus
seguidores, atravessaram os Alpes para embarcar em Gênova. Todavia, frustrados,
dispersaram´se sem êxito algum. Depois desta visão panorâmica do que foram
concretamente as Cruzadas, importa agora procurar compreender os fatores que
provocaram o seu estranho desenrolar. Cruzadas: idealismo ou decadência?
Os motivos de duvidar Quem leva em conta a história
das Cruzadas, à primeira vista é levado a dizer que constituiram um fracasso ou
até mesmo um contra´testemunho dos cristãos. Têm´se catalogado vários capítulos
de censura aos cruzados: ambição, traição, vileza de costumes... É interessante
notar que não somente historiadores modernos denunciam falhas tais, mas também
pregadores e cronistas medievais. Com efeito, no decorrer dos séculos XII e
XIII, perguntavam por que Deus havia permitido a derrota deste ou daquele
exército de seus servidores ou por que consentira na perda da Cidade Santa
Jerusalém. ´ Em resposta, julgavam que o pecado devia ser a causa de tais
insucessos; em conseqüência, apontavam uma série de faltas morais dos cruzados.
Entre outras instâncias, o Concílio de Lião I em 1245 também fez advertências a
procedimentos indignos dos cruzados; cf. Mansi, Conciliorum amplissima
collectio XXIII, p. 628. A vista destes dados, dir´se´á que as Cruzadas
representam um ponto negro da história medieval. Quem assim julgasse em bloco,
seria unilateral ou mesmo injusto.
Quadro geral: apreciação Não se pode deixar de
sublinhar em primeiro lugar o que de positivo as Cruzadas representam.
Abstração feita de pessoas e episódios particulares, as Cruzadas têm sua
inspiração fundamental na fé dos homens da Idade Média, no seu amor aos valores
sagrados e no seu espírito cavaleiresco, corajoso e magnânimo. A fé e o amor
dos cristãos, na Idade Média, recorreram às armas para se exprimir
concretamente... Hoje muitos cristãos hesitariam diante de tal expressão;
seriam até propensos a condená´la. Atualmente os homens têm meios de confrontar
suas divergências mediante reuniões, assembléias, concordatas; por isto
rejeitam (ao menos em teoria...) as soluções violentas (na prática, porém, não
faltam as guerras também em nossos dias, suscitadas pelos mais diversos
motivos). Contudo na ldade Média as distâncias geográficas, culturais,
filosóficas constituiam barreiras quase intransponíveis, que dificultavam aos
homens a aproximação física e a superação de suas divergências; julgavam em
muitos casos ter que recorrer às armas para preservar seus valores e garantir o
bem comum. Assumir as armas em tais circunstâncias era tido como louvável;
fugir delas mereceria censura. Verdade é que o movimento das Cruzadas não
conseguiu devolver aos cristãos, de maneira duradoura, a posse da cidade de
Jerusalém e da Terra Santa em geral. Todavia ele se prolongou por dois séculos,
a custa de ingentes sacrifícios, que revelam notável espírito de heroísmo.
Sucessiva e tenazmente, as gerações de cristãos despertaram as suas energias
para recomeçar a grande façanha que outros não haviam conseguido realizar
plenamente. Assim deixaram eles à posteridade o testemunho de sua fé. Não se
poderiam silenciar outrossim os benefícios acarretados pelas Cruzadas no plano
cultural e científico. O contato entre latinos, gregos (bizantinos) e árabes
ocasionou incremento para a matemática, a medicina, a indústria, o comércio e
outros ramos das atividades humanas; desenvolveu a navegação e modificou as
condições econômicas da sociedade feudal. Em suma, preparou o grande surto das
artes e das ciências ditas “exatas” nos séculos XV/XVI.
Fatores negativos O entusiasmo que desencadeou as
Cruzadas era mais idealistas do que realista; os seus arautos não mediam a
amplidão dos encargos e problemas que a execução concreta do programa devia
acarretar. É o que explica que os cruzados, após haver obtido os seus primeiros
resultados, tenham experimentado sucessivos reveses. Estes se devem a fatores
vários, que podem ser assim enunciados:
1) A amplidão da tarefa empreendida pelos cruzados
exigiu, com o passar do tempo, o recurso a subsídios novos e necessariamente
heterogêneos, a saber: — Os cavaleiros e outros cristãos que entusiasticamente
se ofereciam para assumir a cruz, já não bastavam para o objetivo. Foi preciso
recrutar soldados mercenários, que pugnariam não tanto por ideal cristão, mas,
sim, por interesses pessoais, às vezes mesquinhos. Muitos desses mercenários
eram antigos criminosos detentos, a quem se dava a liberdade à condição de que
fossem lutar no Oriente. Ora compreende´se que tais soldados, vendo´se livres,
facilmente voltavam aos maus hábitos e prejudicavam o conjunto da tropa. Assim
foi sendo cada vez mais diluída a imagem do cavaleiro que galhardamente partia
para a Terra Santa às próprias custas, porque amava o Senhor Jesus. — As despesas
com os soldados mercenários e seus equipamentos eram ingentes, exigindo dos
responsáveis que procurassem angariar quantias de dinheiro jamais suficientes.
Ora onde entra dinheiro, facilmente é excitada a cobiça do ser humano com suas
paixões, qua levam a abusos e desatinos. infelizmente não se tem documentação
precisa sobre o montante das despesas exigidas por uma expedição de cruzados.
Desejar´se´ia saber quanto cada soldado em média percebia, quanto os reis davam
do seu erário e quanto o Papa empenhava nas sucessivas Cruzadas. Existem, sem
dúvida, notícias a respeito. Todavia os diversos dados supõem épocas diversas,
as quantias são expressas em moedas heterogêneas, as notícias são parceladas,
de sorte que é difícil ter idéias claras do conjunto. Apenas as duas Cruzadas
de S. Luís IX têm certa contabilidade escrita em livros; sabe´se, pois, que o
total das despesas de campanha de 1247 a 1256 comportou 1.537.570 libras de
Tours. Mesmo assim há dúvidas: outra documentação refere que somente nos anos de
1250 a 1253 a Cruzada consumiu 1.053.476 libras de Tours! — De modo particular,
criou problemas o transporte das tropas para o Oriente. O meio mais indicado a
preferido eram as embarcações, que atravessavam o Mediterrâneo. Ora até a
quinta Cruzada os expedicionários não possuiam frota própria. Justamente a
quarta Cruzada foi desviada para Constantinopla, porque, não tendo naves
próprias, foi obrigada a valer´se das de Veneza, que procuraram servir aos seus
interesses comerciais, e não aos dos cruzados. Tardiamente, sob Frederico II e
Luis IX, os cruzados recorreram a equipamento marítimo próprio. Anteriormente,
porém, tinham que utilizar os navios das cidades comerciantes de ltália ou de
França (Veneza, Gênova, Pisa, Marselha ...), que, em troca, exigiam para si
direitos e privilégios nos portos da Palestina. — O vulto crescente das
Cruzadas exigiu que a direção das mesmas fosse confiada a reis, príncipes e
grandes senhores de terras, pois estes poderiam, mais facilmente do que os
cavaleiros, organizar e sustentar exércitos de mercenários. Ora os reis a
grandes senhores nem sempre se entendiam entre si; objetivos políticos e
nacionalistas facilmente afrouxavam ou solapavam alianças previamente
contraídas (levem´se em conta a primeira e a terceira Cruzadas). ´ Notório é o
caso de Frederico II da Alemanha, orientalista e diletante.
2) Também se apontam falhas morais no procedimento
dos cruzados: rapina, abuso de mulheres e outros males, que já os pregadores e
o Concílio de Lião I censuravam... O historiador sincero há de reconhecer tais
erros. Todavia não se deveria fazer dessas faIhas a nota característica ou uma
das notas características das Cruzadas. Elas ocorreram com os cruzados como
geralmente ocorrem nas expedições militares. Todo soldado é sujeito a procurar
suas “compensações” depois de haver sofrido os rigores de fome, da sede, do
frio e de severa disciplina durante a respectiva campanha. Não poucos cruzados
chegavam finalmente à costa da Palestina doentes, vítimas de febres, e
facilmente aceitavam ser tratados em clima de moleza, bem estar e gozo. ´ Nem
por isto tais “compensações” são legítimas. Numerosos outros episódios se
poderiam ainda propor para analisar e comentar as Cruzadas. Em síntese, porém,
parece que os principais traços das mesmas e do respectivo fundo de cena foram
indicados nestas páginas. Em suma, pois: recolocadas no seu contexto medieval,
as Cruzadas não são mancha negra; mas, ao contrário, atestam (naturalmente
segundo as categorias a possibilidades da época) a unidade e a homogeneidade
dos povos da Alta Idade Média, que encontraram na sua fé ´ valor que eles não
discutiam ´ o estímulo e o dinamismo para realizar façanhas heróicas, ao mesmo
tempo marcadas pela virilidade, pela poesia e pelas limitações humanas...!
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
Conheça os livros do prof. Felipe Aquino e documentos da Igreja EDITORA CLÉOFAS,Caixa Postal 100 - CEP: 12600-970, Lorena-SP, (0xx12)552-6566
Home Page: www.cleofas.com.br
Email : cleofas@cleofas.com.br
----------------------------------------------------------------
Copyright 2002 - Paróquia do Divino Espírito Santo - Maceió/AL