SOBRE A PESSOA DE JESUS CRISTO
Concílio
Ecumênico de Calcedônia (451):
“
Na linha dos Santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo
Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em
humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de
uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade,
consubstancial a nós segundo a humanidade, ‘semelhante a nós em tudo, com
exceção do pecado’ (Hb 4, 15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo
a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para a nossa salvação, nascido
da Virgem Maria, Mãe de Deus, segundo a humanidade.
São Leão Magno (400-461)
- a Flaviano:
Da
Carta a Flaviano, patriarca de Constantinopla; redigida em 449 por S. Leão,
Papa, onde expôs a doutrina cristológica das duas naturezas em Cristo, numa
única pessoa divina. Esta bela e importante Carta lida no Concílio de
Calcedônia (451), contra a heresia monofisista de Êutiques e Dióscoro, os quais
negavam que em Cristo houvesse as duas naturezas, humana e divina; mas apenas a
divina. A Carta de Leão Magno foi aclamada pelos Padres concilares com essas
palavras: “Pedro falou pela boca de Leão”. E a questão finda.
“Leão,
bispo, ao dileto irmão Flaviano, bispo de Constantinopla....
Cristo
entregou-se totalmente pela redenção do homem que fora seduzido, a fim de
vencer a morte e destroçar por sua própria virtude o diabo que possuia o
império da morte. Não poderíamos vencer o pecado e o autor da morte a não ser
que assumisse a nossa natureza e a fizesse sua, aquele a quem o pecado não pôde
contaminar, nem a morte reter.
Visto
que foi concebido por virtude do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, esta o
deu à luz conservando intacta a virgindade, como sem detrimento da virgindade o concebera.
O
Espírito Santo deu fecundidade à Virgem, no entanto, a constituição do corpo
originou-se do corpo (virginal).
Para
obter o débito de nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à passível.
Assim, como remédio conveniente à nossa cura, um só e mesmo mediador entre Deus e o homem, o homem Cristo Jesus, de um
lado podia morrer, e doutro lado, não o podia.
Nasceu
o verdadeiro Deus com a íntegra e perfeita natureza de um verdadeiro homem,
todo o que é seu, todo inteiro no que é nosso. Por “nosso” entendemos aquilo
que o Criador fez em nós no início e que assumiu para ser reparado.
Não
havia no Salvador vestígio algum daquilo que que o sedudor infligiu e que o
homem enganado admitiu. Tenha participado, embora, da fraqueza humana, não foi
partícipe dos nossos defeitos. No princípio assumiu a condição de servo, mas
não a mancha do pecado; exaltou o humano, sem subtrair coisa alguma do divino.
O
aniquilamento qual o invisível se fez visível e o Criador e Senhor de todas as
coisas quis ser um dos mortais, era compassiva,
condescendência não deficiência de poder.
Quem
na natureza de Deus criou o homem, fez-se homem na condição de servo. Cada uma
das duas naturezas conservou sem alteração de suas propriedades. Como a
natureza de Deus não eliminou a natureza de servo, assim a natureza de servo
não diminuiu a natureza de Deus.
Gloriava-se
o diabo de ter sido o homem, por sua fraude, seduzido e privado dos dons
divinos, despojado do dote da imortalidade e submetido à dura sentença de
morte. Encontrava assim o demônio uma espécie de consolo dos próprios males na
companhia do homem prevaricador.
Também
Deus, exigindo justa prestação de contas, trocara a sentença do homem que ele
havia criado em estado tão honroso. Foi, então, necessário, caríssimos, na
execução de um plano oculto, que o Deus imutável, cuja vontade não pode ser
privada de benignidade, completasse a primeira disposição de sua piedade para
conosco com um mistério ainda mais escondido e o homem, instigado à culpa pela
astúcia da iniquidade diabólica, contra o desígnio de Deus não perecesse.
Desce,
portanto, do reino celeste às intímas regiões deste mundo Jesus Cristo, Filho
de Deus, sem se afastar da glória paterna, gerado em ordem nova, em novo
nascimento. Nova ordem, porque invisível no que lhe é próprio, fez-se visível
no que é nosso; incompreensível quis ser apreendido; sendo antes do tempo,
começou a existir no tempo. O Senhor do universo assumiu a condição de servo,
velando a imensidade de sua majestade. Dignou-se o Deus impassível tornar-se
homem passível e o imortal submeter-se à lei da morte.
Vem
à luz por novo nascimento, porque a virgindade inviolada, que ignorava a
concupiscência, ministrou-lhe a matéria corporal.
Recebeu
o Senhor de sua mãe a natureza, mas isenta de culpa. A natureza humana de nosso
Senhor Jesus Cristo, nascido do seio da Virgem, não difere da nossa por ter
tido ele admirável natividade.
Sendo
verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem. Nesta unidade não há mentira, pois
mutuamente se coadunam humildade humana e grandeza divina.
Como
Deus não se altera por tal misericórdia, o homem não desaparece, absorvido pela
dignidade divina. Age cada uma das naturezas em consonância com a outra, quando
a ação é peculiar a uma delas. O Verbo opera o que lhe é próprio, e a carne
executa o que lhe compete. Uma resplandece pelos milagres, enquanto a outra é
sujeita aos opróbrios. Como não se aparta o Verbo da igualdade da glória
paterna, a carne não perde a natureza do gênero humano. Um e o mesmo, convém
repeti-lo, é verdadeiramente Filho de Deus e filho do homem.
Deus,
porque no princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era
Deus (Jo 1,1). Homem, porque o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1,14).
O
nascimento carnal é manifestação da natureza humana; o parto da Virgem, indício
do poder divino.
A
humilhação do presépio denota a infância do menino (Lc2,7); as vozes dos anjos
declaram a grandeza do Altíssimo (Lc 2, 13).
Quando
procurou o batismo de João, seu precursor, (Mt 13,3), para ser patente que o
véu da carne encobria a divindade, veio do céu a voz do Pai que dizia: Este é o
meu Filho amado, no qual ponho as minhas complacências (Mt 3, 17).
Ter
fome, ter sede, estar cansado e dormir evidentemente é humano. Mas, saciar com cinco
pães cinco mil homens (Jo 6, 12) e dar à samaritana a água viva (Jo 4, 10), que
não deixa mais ter sede quem a beber, andar sobre as ondas do mar a pé enxuto
(Mt 14,25) e acalmar o furor dos vagalhões, falando imperiosamente à tempestade
(Lc 8, 24) é indubitavelmente divino. Omitindo muitos fatos, digamos apenas:
não é próprio de uma só e mesma natureza chorar por comiseração o amigo morto
(Jo 11,35) e após a remoção da pedra do sepulcro de um defunto de quatro dias,
despertá-lo redivivo, somente emitindo uma ordem; ou pender do lenho e
transformar o dia em noite, fazendo tremer todos os elementos; ou ser
transpassado pelos cravos e abrir as portas do paraíso ao ladrão por causa de
sua fé (Lc 23, 43).
Do
mesmo modo não provém da mesma natureza dizer: “Eu e o Pai somos uma só coisa”
(Jo 10,30) e afirmar: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28). Embora seja nosso
Senhor Jesus Cristo uma só Pessoa, Deus e homem, difere contudo a proveniência
para as duas naturezas do opróbrio comum a ambas e da glória comum. Pelo que
recebeu de nós, a humanidade, ele é menor do
que o Pai; do Pai lhe vem a igualdade com o Pai, a divindade.
Por
causa dessa unidade de Pessoa em duas naturezas lemos ter o filho do homem
descido do céu, quando o Filho de Deus, da Virgem da qual nasceu, assumiu um
corpo. E novamente diz-se que o Filho de Deus foi crucificado e sepultado, ao
sofrer tudo isso, não na própria divindade, pela qual o Unigênito é co-eterno e
consubstancial ao Pai, mas na fraqueza da natureza humana.
Igual
perigo seria crer que o Senhor Jesus Cristo é Deus só sem ser humano, ou apenas
homem e não Deus.
Qual
a finalidade do prazo de quarenta dias após a ressurreição do Senhor, a não ser
libertar da integridade de nossa fé qualquer obscuridade? Conversou com seus
discípulos, esteve na mesma casa e comeu com eles (At1,4). Permitiu que o
tocassem com diligência e curiosidade os que estavam ansiosos pela dúvida.
Entrava com as portas fechadas onde estavam os discípulos; com seu sopro
comunicava-lhes o Espírito Santo (Jo 20,22) e dando as luzes do entendimento
revela-lhes a Sagrada Escritura ... Assim, reconheceriam os discípulos que nele
as propriedades da natureza divina e humana permaneciam intactas, e saberíamos
nós que Verbo e carne não se identificam e que o único Filho de Deus é Verbo e
carne.
Não
desconfies ser homem com um corpo igual ao nosso quem ele sabe ter sido passível, porque a negação da verdadeira
carne é igualmente negação da paixão corpórea. Se adere à fé cristã, e não
desvia o ouvido da pregação do Evangelho, contemple qual foi a natureza que
pendeu do lenho da cruz, transpassada pelos cravos, e tendo sido aberto o lado
crucificado pela lança do soldado, entenda de onde brotou sangue e água, para
que a Igreja de Deus fosse refeita pelo lavacro e o cálice.
Êutiques
respondeu a vosso interrogatório: “Confesso que nosso Senhor tinha duas
naturezas antes da união; depois desta, confesso ter apenas uma natureza”.
São Gregório de Nissa (†394)
“Deus
[o Filho] não impediu a morte de separar a alma do corpo, segundo a ordem
necessária à natureza, mas os reuniu novamente um ao outro pela Ressurreição, a
fim de ser Ele mesmo na sua Pessoa o ponto de encontro da morte e da vida
sustando Nele a decomposição da natureza, produzida pela morte, e tornando-se
Ele mesmo princípio de reunião para as partes separadas. “(Or. Cathec. 16).
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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