Valor da concepção virginal de Jesus*
L'Osservatore
Romano, n.31, 03/08/1996, pag. 8(372)
No seu
desígnio salvífico Deus quis que o Filho unigênito nascesse de uma Virgem. Tal
decisão divina postula uma relação profunda entre a Virgindade de Maria e a
Encarnação do Verbo. "O olhar da fé pode descobrir, tendo em mente o
conjunto da Revelação, as razões misteriosas pelas quais Deus, no seu desígnio
salvífico quis que seu Filho nascesse de uma Virgem. Estas razões tocam tanto a
pessoa e a missão redentora de Cristo quanto o acolhimento desta missão por
Maria em favor de todos os homens" (Catecismo da Igreja Católica, n. 502). A concepção
virginal, excluindo uma paternidade humana, afirma que o único pai de Jesus é o
Pai celeste e que na geração temporal do Filho se reflete a geração eterna: o
Pai, que tinha gerado o Filho na eternidade, gera-O também no tempo como homem.
2. A
narração da Anunciação põe em relevo o estado de "Filho de Deus",
apôs a intervenção divina na concepção. "O Espírito Santo virá sobre ti e
a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o
Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus" (Lc. 1,35).
Aquele que nasce de Maria é já, em virtude da geração eterna, Filho de Deus; a
sua geração virginal, operada por intervenção do Altíssimo, manifesta que,
também na sua humanidade, Ele é o Filho de Deus. A revelação da geração eterna
na geração virginal é sugerida também pelas expressões contidas no Prólogo do
Evangelho de João, que põem em relação a manifestação do Deus invisível, por
obra do "unigênito que esta no seio do Pai" (1,18), com a sua vinda
na carne: "E o Verbo fez-Se Homem e habitou entre nós, e nós vimos a Sua
glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho único cheio de graça e de verdade"
(1,14). Narrando a geração de Jesus, Lucas e Mateus afirmam também o papel do
Espírito Santo. Este não é o pai do Menino: Jesus é Filho unicamente do eterno
Pai (cf. lc. 1,32.35) que, por meio do Espírito, opera no mundo e gera o Verbo
na natureza humana. Com efeito, na Anunciação o anjo chama ao Espírito
"força do Altíssimo" (Lc. 1,35), em sintonia com o Antigo
Testamento que o apresenta como a divina energia operante na existência humana,
tornando-a capaz de ações maravilhosas. Ao manifestar-se no grau supremo no mistério
da Encarnação, esta força, que na vida trinitária de Deus é Amor, tem a tarefa
de dar o Verbo Encarnado à humanidade.
3. O
Espírito Santo, em particular, é a Pessoa que comunica as riquezas divinas aos
homens e lhes participa a vida de Deus. Ele, que no mistério trinitário é a
unidade do Pai e do Filho, operando a geração virginal de Jesus, une a
humanidade a Deus. O mistério da Encarnação põe em evidência também a
incomparável grandeza da maternidade virginal de Maria: a concepção de Jesus é
fruto da sua generosa cooperação na ação do Espírito de Amor, fonte de toda a
fecundidade. No plano divino da salvação, a concepção virginal é, portanto,
anúncio da nova criação: por obra do Espírito Santo, em Maria é gerado Aquele
que será o homem novo. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, "Jesus
é concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, pois Ele é o
Novo Adão que inaugura a nova criação" (n. 504). No mistério dessa nova
criação resplandece o papel da maternidade virginal de Maria. Chamando a Cristo
"Primogênito da Virgem" (Adv. Haer. 3, 16, 4), Santo Ireneu
recorda que, depois de Jesus, muitos outros nascem da Virgem, no sentido que
recebem a vida nova de Cristo. "Jesus é o Filho Único de Maria. Mas a
maternidade espiritual de Maria estende-se a todos os homens que Ele veio
salvar: "Ela engendrou seu Filho, do qual Deus Se fez o Primogênito entre
uma multidão de irmãos"(Rom. 8,29), isto é, entre os fiéis, em cujo
nascimento e educação Ela coopera com amor materno" (LG, 63)"
(Catecismo da Igreja Católica, n. 501).
4. A
comunicação da vida nova é transmissão da filiação divina. Podemos aqui
recordar a perspectiva aberta por João no Prólogo do seu Evangelho: Aquele que
por Deus foi gerado dá aos crentes o poder de se tornarem Filhos de Deus (cf Jo.
1,11-12). A geração virginal consente a extensão da paternidade divina: os
homens tornam-se filhos adotivos de Deus, n’Aquele que é Filho da Virgem e do
Pai. A contemplação do mistério da geração virginal faz-nos então intuir que
Deus escolheu para o seu Filho uma Mãe Virgem, a fim de oferecer de modo mais
amplo à humanidade o seu amor de Pai.
L'Osservatore
Romano, n.31, 03/08/1996, pag. 8(372)
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
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