48º CONGRESSO EUCARÍSTICO

CARTA ENCÍCLICA DO PAPA  PIO XII

COMMUNIUM INTERPRETES DOLORUM

 

PARA PEDIR ORAÇÕES PÚBLICAS PARA A

PAZ ENTRE OS POVOS

 

 

 

Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos,

e a todos os Ordinários que estão em comunhão com a Sé Apostólica.

1. Intérpretes das dores comuns, das quais quase todos os povos há longo tempo estão amargamente oprimidos, nada entendemos descuidar que objetive manter – ou de algum modo abrandar –, a imensidão das misérias tendo em vista apressar o fim do terrível conflito. Mas bem sabemos que as reservas humanas são insufïcientes para remediar essas desventuras; bem sabemos que a sagacidade humana, especialmente quando cegada pelo ódio e pela revanche, dificilmente atinge a uma justa e equitativa composição e a uma fraterna concórdia. É necessário, portanto, elevar freqüentes orações ao Pai das luzes e da misericórdia (cf. Tg 1,17; 2Cor 1,3). Somente ele pode, em tão grave perturbação e agitação de espírito, tornar ciente a todos que já são muitas as ruínas e desmedido o acúmulo de desgraças, excessivas as lágrimas, bem como o sangue derramado. De modo que as exigências divinas e humanas impõem que cesse o mais rápido possível esse espantoso flagelo.

2. Por isso, o avizinhar-se do mês de maio, consagrado de modo particular à virgem Mãe de Deus, como já ocorreu nos anos passados, assim agora desejamos exortar todos novamente – especialmente as crianças e os inocentes adolescentes – para que implorem ao divino Redentor, por intercessão de sua Mãe santíssima, que os povos que se encontram em discórdia, lutas e toda espécie de desgraça possam libertar-se do luto e de todas as longas angústias. Por serem os pecados por nós cometidos diante de Deus (cf. Br 6,1) que nos mantêm distantes dele e nos jogam miseravelmente na ruína, não basta, como de resto é notório a todos vós, veneráveis irmãos, elevar ao céu assíduas orações; não basta acorrer em grande número aos altares da Virgem santíssima para depor ofertas, flores e súplicas; mas é necessário também renovar os costumes em público e privadamente, de modo a pôr aquelas sólidas bases sobre as quais se apóia o edifício da vida doméstica e civil, edifício não em desarmonia e ultrapassado, mas homogêneo e duradouro. Recordem, portanto, todos e traduzam na vida prática as admoestações dos profetas: "Retornai a mim, diz o Senhor dos exércitos, e eu retornarei a vós..." (Zc 1,3); e, ao mesmo tempo, reflitam sobre aquelas palavras do grande bispo de Hipona: "Mude o coração e será mudada também a ação. Arranque a cobiça e semeie a caridade".(1)"Desejas a paz? Seja justo e terás a paz, pois a justiça e a paz se abraçam (Sl 84,11). Se não amas a justiça, não terás a paz. Afinal, a justiça e a paz se amam e estão entre elas de tal modo unidas, que se atuas com justiça, encontrarás a paz que abraça a justiça... Se, portanto, queres chegar à paz, opera de modo justo; foge do mal e segue o bem. Isso quer dizer amar a justiça, e quando tiveres deixado o mal e feito o bem, procura a paz e segue-a".(2

3. Se todos os fiéis estiverem animados e dispostos, não há dúvida que suas orações chegarão ao trono do altíssimo e obterão do Senhor aplacado o conforto e os dons de que tanto, no presente, temos necessidade.

4. Bem sabeis de quais dons, ajuda e conforto temos necessidade neste angustioso momento. Em primeiro lugar, porém, há necessidade de pedir a Deus que as mentes e os corações dos homens sejam iluminados e renovados pelos ensinamentos da doutrina cristã, dos quais pode vir a salvação privada e pública, para que essa devastadora luta de povos e de continentes cesse de encrudelecer-se, e os cidadãos de todas as classes, reconjugados pelo vínculo da amizade, saindo do enorme acúmulo de ruínas se unam para reconstruir, sob a insígnia da justiça e da caridade, o edifício humano. Deve-se, por outro lado, pedir ao Redentor divino e a sua santíssima Mãe, em espírito de oração e penitência, que seja verdadeira e sincera a paz que dará um fim a essa guerra funesta e sangrenta.

5. Não é, no entanto, fácil, em meio a tanto desarranjo de coisas, enquanto a disposição de muitos ainda permanece agitada de sentimentos de vingança, alcançar uma paz que seja igualmente moderada pela eqüidade e pela justiça, que satisfaça com fraterna caridade as aspirações de todos os povos e elimine os germens latentes das discórdias e das rivalidades. Conseqüentemente de modo especial são esses que têm necessidade das luzes celestes, cabendo-lhes o gravíssimo encargo de resolver tal problema, de cujo juízo depende a sorte não apenas de sua nação, mas também de toda a humanidade e das futuras gerações. Por esse motivo pedimos que todos dirijam a Deus fervorosas e intensas orações e, particularmente, as crianças durante o mês de maio implorem da Mãe da divina Sabedoria a assistência sobrenatural àqueles cuja sentença deverá decidir a causa de todos os povos. Considerem estes, refletindo atentamente diante de Deus, que tudo o que ultrapassasse os limites da justiça e da eqüidade, certamente, cedo ou tarde, voltaria com enorme dano para os vencidos e vencedores, pois aí estaria escondida a semente de novas guerras.

6. Desejamos também que todos os que responderem de boa vontade a esta nossa exortação não esqueçam a triste condição daqueles que, ou fugitivos ou exilados há muito tempo, aguardam com ânsia reencontrar o aconchego do próprio lar, ou relegados nos campos de concentração esperam, após a guerra, a justa liberdade, ou, enfim, jazem enfermos nos hospitais. A esses infelizes e a todos os outros, para os quais o presente conflito foi causa de angústias e dores, queira conceder a benigna Virgem Mãe de Deus a celeste consolação, e despertar a força daquela paciência cristã, através da qual também os sofrimentos mais agudos tornam-se toleráveis e colaboram para o mérito da felicidade eterna.

Será zelo vosso, veneráveis irmãos, comunicar essa nossa paternal exortação com o voto aos féis confiados aos vossos cuidados; aos quais - e principalmente a vós todos e a cada um - concedemos, sob os auspícios dos dons celestes e penhor de nossa benevolência, a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 15 de abril, domingo do Bom Pastor, do ano de 1945, VII do nosso ponti ficado.

 

PIO PP. XII


Notas

(1) S. Agostinho, Serm. de Script., 72, 4; PL 38, 468.

(2) S. Agostinho, In Ps. 84, 12; PL 37,1078. Existe versão em português, publicada pela Paulus: "Comentário aos Salmos" (vol. II).

 

 

 


Fonte:  Vaticano – Santa Sé

Page: http://www.vatican.va