CARTA ENCÍCLICA DO
PAPA PIO XII
COMMUNIUM INTERPRETES DOLORUM
PARA PEDIR ORAÇÕES PÚBLICAS PARA A
PAZ ENTRE OS POVOS
Aos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos e Bispos,
e a todos os Ordinários que
estão em comunhão com a Sé Apostólica.
1. Intérpretes das dores comuns,
das quais quase todos os povos há longo tempo estão amargamente oprimidos, nada
entendemos descuidar que objetive manter – ou de algum modo abrandar –, a
imensidão das misérias tendo em vista apressar o fim do terrível conflito. Mas
bem sabemos que as reservas humanas são insufïcientes para remediar essas
desventuras; bem sabemos que a sagacidade humana, especialmente quando cegada
pelo ódio e pela revanche, dificilmente atinge a uma justa e equitativa
composição e a uma fraterna concórdia. É necessário, portanto, elevar
freqüentes orações ao Pai das luzes e da misericórdia (cf. Tg 1,17; 2Cor 1,3).
Somente ele pode, em tão grave perturbação e agitação de espírito, tornar
ciente a todos que já são muitas as ruínas e desmedido o acúmulo de desgraças,
excessivas as lágrimas, bem como o sangue derramado. De modo que as exigências
divinas e humanas impõem que cesse o mais rápido possível esse espantoso
flagelo.
2. Por isso, o avizinhar-se do mês
de maio, consagrado de modo particular à virgem Mãe de Deus, como já ocorreu
nos anos passados, assim agora desejamos exortar todos novamente –
especialmente as crianças e os inocentes adolescentes – para que implorem ao
divino Redentor, por intercessão de sua Mãe santíssima, que os povos que se
encontram em discórdia, lutas e toda espécie de desgraça possam libertar-se do
luto e de todas as longas angústias. Por serem os pecados por nós cometidos
diante de Deus (cf. Br 6,1) que nos mantêm distantes dele e nos jogam
miseravelmente na ruína, não basta, como de resto é notório a todos vós,
veneráveis irmãos, elevar ao céu assíduas orações; não basta acorrer em grande
número aos altares da Virgem santíssima para depor ofertas, flores e súplicas;
mas é necessário também renovar os costumes em público e privadamente, de modo
a pôr aquelas sólidas bases sobre as quais se apóia o edifício da vida
doméstica e civil, edifício não em desarmonia e ultrapassado, mas homogêneo e
duradouro. Recordem, portanto, todos e traduzam na vida prática as admoestações
dos profetas: "Retornai a mim, diz o Senhor dos exércitos, e eu retornarei
a vós..." (Zc 1,3); e, ao mesmo tempo, reflitam sobre aquelas palavras do
grande bispo de Hipona: "Mude o coração e será mudada também a ação.
Arranque a cobiça e semeie a caridade".(1)"Desejas
a paz? Seja justo e terás a paz, pois a justiça e a paz se abraçam (Sl 84,11).
Se não amas a justiça, não terás a paz. Afinal, a justiça e a paz se amam e
estão entre elas de tal modo unidas, que se atuas com justiça, encontrarás a
paz que abraça a justiça... Se, portanto, queres chegar à paz, opera de modo
justo; foge do mal e segue o bem. Isso quer dizer amar a justiça, e quando
tiveres deixado o mal e feito o bem, procura a paz e segue-a".(2)
3. Se todos os fiéis estiverem
animados e dispostos, não há dúvida que suas orações chegarão ao trono do
altíssimo e obterão do Senhor aplacado o conforto e os dons de que tanto, no
presente, temos necessidade.
4. Bem sabeis de quais dons, ajuda
e conforto temos necessidade neste angustioso momento. Em primeiro lugar,
porém, há necessidade de pedir a Deus que as mentes e os corações dos homens
sejam iluminados e renovados pelos ensinamentos da doutrina cristã, dos quais
pode vir a salvação privada e pública, para que essa devastadora luta de povos
e de continentes cesse de encrudelecer-se, e os cidadãos de todas as classes,
reconjugados pelo vínculo da amizade, saindo do enorme acúmulo de ruínas se
unam para reconstruir, sob a insígnia da justiça e da caridade, o edifício
humano. Deve-se, por outro lado, pedir ao Redentor divino e a sua santíssima
Mãe, em espírito de oração e penitência, que seja verdadeira e sincera a paz
que dará um fim a essa guerra funesta e sangrenta.
5. Não é, no entanto, fácil, em
meio a tanto desarranjo de coisas, enquanto a disposição de muitos ainda
permanece agitada de sentimentos de vingança, alcançar uma paz que seja
igualmente moderada pela eqüidade e pela justiça, que satisfaça com fraterna
caridade as aspirações de todos os povos e elimine os germens latentes das
discórdias e das rivalidades. Conseqüentemente de modo especial são esses que
têm necessidade das luzes celestes, cabendo-lhes o gravíssimo encargo de
resolver tal problema, de cujo juízo depende a sorte não apenas de sua nação,
mas também de toda a humanidade e das futuras gerações. Por esse motivo pedimos
que todos dirijam a Deus fervorosas e intensas orações e, particularmente, as
crianças durante o mês de maio implorem da Mãe da divina Sabedoria a
assistência sobrenatural àqueles cuja sentença deverá decidir a causa de todos
os povos. Considerem estes, refletindo atentamente diante de Deus, que tudo o
que ultrapassasse os limites da justiça e da eqüidade, certamente, cedo ou
tarde, voltaria com enorme dano para os vencidos e vencedores, pois aí estaria
escondida a semente de novas guerras.
6. Desejamos também que todos os
que responderem de boa vontade a esta nossa exortação não esqueçam a triste
condição daqueles que, ou fugitivos ou exilados há muito tempo, aguardam com
ânsia reencontrar o aconchego do próprio lar, ou relegados nos campos de
concentração esperam, após a guerra, a justa liberdade, ou, enfim, jazem
enfermos nos hospitais. A esses infelizes e a todos os outros, para os quais o
presente conflito foi causa de angústias e dores, queira conceder a benigna
Virgem Mãe de Deus a celeste consolação, e despertar a força daquela paciência
cristã, através da qual também os sofrimentos mais agudos tornam-se toleráveis
e colaboram para o mérito da felicidade eterna.
Será zelo vosso, veneráveis
irmãos, comunicar essa nossa paternal exortação com o voto aos féis confiados
aos vossos cuidados; aos quais - e principalmente a vós todos e a cada um -
concedemos, sob os auspícios dos dons celestes e penhor de nossa benevolência,
a bênção apostólica.
Dado em Roma, junto a São
Pedro, no dia 15 de abril, domingo do Bom Pastor, do ano de 1945, VII do nosso
ponti ficado.
PIO PP. XII
Notas
(1)
S. Agostinho, Serm. de Script., 72, 4; PL 38, 468.
(2)
S. Agostinho, In Ps. 84, 12; PL 37,1078. Existe versão em
português, publicada pela Paulus: "Comentário aos Salmos"
(vol. II).
Fonte: Vaticano – Santa Sé
Page: http://www.vatican.va