CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL

 

1999 - 2002

 

Edição aprovada

Na 37ª Assembléia Geral da CNBB

 

 

Itaici-SP, 14 a 23 de abril de 1999

 

 

APRESENTAÇÃO

 

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

 

Na vigília do grande Jubileu, que vai marcar o ingresso no Terceiro Milênio da era cristã, temos a alegria de lhes entregar as Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora para os anos de 1999 a 2002.

Desde 1975, o Episcopado Brasileiro renova, a cada quatro anos, suas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral. Em 1995, o nome das Diretrizes foi significativamente mudado para: Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. Elas reúnem orientações para a "nova evangelização" que a Igreja no Brasil foi elaborando, desde o Concílio Vaticano II, em comunhão com a Igreja no mundo inteiro e, particularmente na América Latina, levando em conta sua própria experiência pastoral e a realidade social.

As Diretrizes foram atualizadas, valorizando a riqueza dos últimos documentos pontifícios, especialmente as conclusões do Sínodo para a América, que o Papa propôs na Exortação Ecclesia in America, e levando em conta as mudanças sócio-culturais dos últimos anos a demandar novas respostas pastorais.

As Diretrizes enfatizam a prioridade da evangelização, que exige serviço e solidariedade, diálogo e cooperação ecumênica, anúncio e testemunho, comunhão com Deus e com os irmãos.

Convocamos novamente todo o povo cristão, especialmente leigas e leigos católicos, para serem protagonistas da "nova evangelização" e articularem melhor fé e vida, fé e história, fé e transformação social.

As Diretrizes constituem um guia bastante completo do evangelizador em cinco capítulos: o 1º conta a história do planejamento pastoral no Brasil, desde os anos '60 até hoje; o 2º expõe os fundamentos da evangelização; o 3º analisa a realidade brasileira; o 4º — o mais longo — propõe orientações práticas; o 5º ressalta as responsabilidades da Igreja local e dos evangelizadores. Tarefa das Igrejas locais será elaborar os planos diocesanos de ação pastoral à luz das Diretrizes para a complexa realidade das diferentes regiões brasileiras.

Nutrimos a certeza de que irmãs e irmãos nossos, a partir da sua experiência do encontro com o Cristo vivo, tornar-se-ão anunciadores do Evangelho num mundo que, mais ainda, precisa da luz da verdade a iluminar todo ser humano (cf. Jo 1,9).

Sobre todos e sobre cada um invocamos as bênçãos do Senhor Ressuscitado e a proteção da Mãe de Deus e nossa.

 

Os Bispos Católicos do Brasil

 

21 de abril de 1999

 

 

I PARTE

 

 

HORIZONTES DA EVANGELIZAÇÃO

 

 

1. O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in America, renova o convite, anteriormente feito na Tertio Millennio Adveniente, a todos os católicos e pessoas de boa vontade do continente para que voltem o seu olhar à pessoa de Jesus Cristo e preparem seus corações para o encontro com ele como caminho para a conversão, a comunhão, a solidariedade e a missão1, por ocasião dos 2000 anos da Encarnação do Filho de Deus2.

Na verdade, "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre"3. É o Senhor do tempo. Portanto, cada ano, cada dia e cada momento devem ser santificados e reconhecidos como tendo um valor infinito de graça. Mas o ano 2000 do nascimento de Cristo será diverso e maior: um GRANDE JUBILEU.

 

2. Jubileu é um ANO DE GRAÇA. Ano da manifestação mais plena da bondade de Deus para conosco. Um ano, por conseguinte, de júbilo, alegria, louvor, ação de graças. Um ano também para reconduzir nossa vida pessoal e social mais perto de Deus. Segundo a antiga tradição bíblica, o ano do jubileu é tempo de perdão: das dívidas para com Deus, nossos pecados; das dívidas para com os irmãos, a fim de que se restabeleçam a igualdade, a fraternidade e a solidariedade na família humana.

 

3. Para ser dignamente celebrado o Jubileu do ano 2000 exige dos cristãos:

nova tomada de consciência da missão que Cristo confiou à Igreja: a evangelização

nova experiência de conversão e penitência, pedindo perdão pelos pecados dos cristãos na sua história e nas injustiças do presente

nova busca de santidade, através da identificação com Cristo, a comunhão mais profunda com a Trindade, a prática das virtudes evangélicas.

 

4. Entre nós, a celebração dos 2000 anos do nascimento do Senhor Jesus coincide com outra significativa data histórica: os 500 anos da chegada dos primeiros evangelizadores à nossa terra.

Na fé em Jesus Cristo, olhamos o nosso passado e o nosso futuro.

O nosso passado está carregado de pecados: para com as culturas indígenas que a colonização destruiu; para com os africanos, que a escravidão arrancou violentamente da sua pátria e trouxe para um regime de exploração e de injustiça, cuja herança perdura até hoje. A eles e a Deus, pedimos perdão.

O nosso passado está carregado muito mais de graça. A pessoa do Senhor Bom Jesus, trazido ao povo pelos braços de sua Mãe, Maria Santíssima, alimentou a esperança e suscitou o amor misericordioso nos sofredores e humilhados. Também em nosso presente, continua sendo o Juiz da história, que reprova a humilhação de seus irmãos e irmãs e a todos convoca para edificar uma sociedade fraterna, prelúdio do Reino que Ele promete como coroação da história.

Olhando o futuro, "com serena confiança no Senhor da História, a Igreja prepara-se para cruzar o limiar do Terceiro Milênio sem preconceitos nem pusilanimidades, sem egoísmo, sem medo nem dúvidas, persuadida do serviço fundamental e primário que deve prestar como testemunho de fidelidade a Deus e aos homens e mulheres"4 do Brasil. É um apelo para fazer do País uma sociedade nova, justa e solidária.

 

5. Se o desafio é grande, maior é a graça de Deus com que contamos. A mensagem do Evangelho é a "força da salvação de todo o que crê"5. A Igreja no Brasil celebra o Jubileu, unida ao Papa, através do esforço evangelizador que juntos estamos empreendendo com estas novas "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil". Elas hão de nos levar não apenas a proclamar e celebrar, mas também a testemunhar e a viver sempre melhor o Evangelho do amor de Deus pela humanidade, Evangelho da vida para todos, Evangelho da dignidade da pessoa humana.

 

6. JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE:

Celebrando o jubileu do ano 2000

e os 500 anos da evangelização no Brasil,

como encontro com Jesus Cristo vivo,

que o Pai nos enviou na força do Espírito,

sob a proteção da Mãe de Deus e nossa,

queremos:

EVANGELIZAR

com renovado ardor missionário,

testemunhando Jesus Cristo,

em comunhão fraterna,

à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

para formar o povo de Deus

e participar da construção de uma

sociedade justa e solidária,

a serviço da vida e da esperança

nas diferentes culturas,

a caminho do Reino Definitivo.

 

7. EVANGELIZAR — Palavra-chave que resume toda a ação de Jesus6. Evangelizar é fazer chegar a Boa Nova a todos. E a Boa Nova, que Jesus anuncia, é o Reino de Deus e a salvação para toda a humanidade. Cristo realiza, em sua pessoa e em sua vida, o que os profetas preanunciaram: Cumpriu-se o tempo. "O Reino de Deus está no meio de vós"7.

 

8. "Evangelho" não é apenas anúncio da salvação: é toda a existência de Jesus, desde seu nascimento até sua morte e ressurreição gloriosa. Viver como Jesus há de ser também o projeto de todo cristão evangelizador.

 

9. Só evangeliza quem aceita e segue o caminho de Jesus: "Vem e segue-me" é o convite fundamental que o Senhor continua fazendo a todos os que querem participar da aventura do Reino8. Para ser verdadeiro evangelizador, é necessário, antes de tudo, deixar-se evangelizar, sendo ouvinte atento ao que Deus fala, a exemplo da Virgem Maria. É necessário acolher a Palavra "com a alegria do Espírito Santo"9 e aceitá-la "não como palavra humana, mas como "verdadeiramente é: Palavra de Deus que está produzindo efeito entre vós"10.

 

10.          Só uma Igreja missionária e evangelizadora experimenta a fecundidade e a alegria de quem realmente realiza sua vocação. Assumir permanentemente a missão evangelizadora é, para todas as comunidades e para cada cristão, a condição fundamental para preservar e reviver o clima pascal de "alegria no Espírito"11 que animou a Igreja em seu nascimento e a sustentou em todos os grandes momentos de sua história. Por isso, o Apóstolo Paulo podia afirmar com todo o vigor: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim. É, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se não evangelizar"!12.

 

11.          Evangelizar com renovado ardor missionário — O evangelizador deve comunicar o Evangelho com vibração, entusiasmo e alegria, na certeza de ser instrumento de Deus, sabendo que está cumprindo a missão recebida no Batismo. O mundo precisa de uma nova evangelização com a descoberta de novas formas e de novas possibilidades, para que a Palavra de Deus se torne fonte de inspiração para a vida das pessoas e para a construção da sociedade.

 

12.          O renovado ardor missionário exige que a pregação do Evangelho responda aos novos anseios do povo, no contexto de uma sociedade marcada por rápidas e profundas mudanças. Evangelizar é anunciar a Boa Nova como fonte de esperança no meio de tantos conflitos que surgem no coração do homem e na sociedade desigual, impedindo a realização do projeto de Deus. Evangelizar é suscitar a esperança de um novo milênio de justiça e paz.

 

13.          O renovado ardor missionário exige ainda dos evangelizadores nova disposição que leve a romper as acomodações e a rotina na ação missionária. Superando a mera atitude de espera, é preciso ir, com coragem evangélica, às pessoas, grupos e ambientes onde o nome de Jesus não foi ainda proclamado ou onde sua ressonância perdeu o vigor. Na força do Espírito Santo sobre nós derramado, somos chamados a superar todo medo e timidez com o testemunho explícito da fé no coração das realidades terrenas.

 

14.          Evangelizar testemunhando Jesus Cristo — Não basta falar de Deus. É necessário testemunhá-lo por uma vida de santidade encarnada em nossos dias. O testemunho de vida é a primeira e insubstituível forma de missão13. O homem contemporâneo escuta muito mais as testemunhas que os mestres. E se escuta os mestres, é porque são testemunhas14. Em nosso tempo, muitas são as testemunhas coerentes e perseverantes na fé e no amor a Cristo até mesmo com o sacrifício da própria vida15.

 

15.          Evangelizar em comunhão fraterna — Cristo mandou que todos se amassem como Ele amou16. A fraternidade nasce do Deus-Comunhão e do Deus que se faz Irmão, para que todos sejam um17. O testemunho cristão é essencialmente comunitário. Jesus envia seus discípulos "dois a dois"18 e Ele mesmo vive em comunhão com seus Apóstolos. A comunhão fraterna era o ideal das primeiras comunidades cristãs, que desejavam ser "um só coração e uma só alma". Fraternidade que não se expressava apenas na partilha dos bens materiais, mas também dos bens espirituais19. Caridade fraterna que se deve manifestar entre os próprios evangelizadores, e entre todos os que crêem no Cristo.

 

16.          A comunhão fraterna é fruto necessário da própria ação evangelizadora. A resposta ao anúncio só se completa com a adesão ao Reino, "nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros, que o Evangelho inaugura. Essa adesão não pode permanecer abstrata e desencarnada, mas se manifesta concretamente pela entrada visível numa comunidade de fiéis"20. A nova evangelização "tem por fim formar comunidades eclesiais maduras"21.

 

17.          A Igreja no Brasil procura concretizar essa fraternidade no espírito da experiência comunitária, reconstruindo na sua base aquele tecido de pequenas comunidades eclesiais, ligadas com profundos vínculos de fraternidade, sempre abertas, no meio social em que vivem, à solidariedade com o povo.

Viver a comunhão fraterna é também sentir-se solidário com toda a criação, que provém de um Deus-Comunhão, que deseja a promoção da vida e a busca da harmonia entre todos os seres criados.

 

18.          "A evangélica opção preferencial pelos pobres" é uma atitude de Jesus, que deve ser assumida pela Igreja. Cristo veio evangelizar a todos, mas teve como preferência específica: "evangelizar os pobres"22. "Os primeiros destinatários da missão são os pobres, sendo a sua evangelização sinal e prova, por excelência, da missão de Jesus"23.

 

19.          A opção pelos pobres pode e deve impulsionar a Igreja a descobrir, sempre de novo, a exigência radical do Evangelho, libertando-a da acomodação e do conformismo aos "esquemas deste mundo"24.

Jesus, ao aproximar-se dos marginalizados pela sociedade e das vítimas da exclusão e do desprezo, faz com que sintam e vivam uma experiência de libertação e uma partilha junto à mesma mesa25.

Entre o anúncio evangélico e a promoção humana, entre a caridade cristã e a solidariedade, há uma estreita e profunda conexão, como mostra o ensino social da Igreja.

 

20.          Evangelizar PARA FORMAR O POVO DE DEUS E PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA.

FORMAR O POVO DE DEUS — Desde o Antigo Testamento, Deus quis formar um povo, que lhe fosse fiel e preparasse a chegada do Messias. Com ele estabeleceu uma aliança e lhe deu meios e mensageiros: "Para que sejam o meu povo e eu seja o seu Deus"26. O Povo de Deus continua e se aperfeiçoa na comunidade de salvação que é a Igreja, novo Povo de Deus, comunidade congregada daqueles que crêem em Cristo27. Formar o Povo de Deus é também construir a comunidade para viver em comunhão e participação. A grande comunidade eclesial expressa sua vida em comunidades concretas através da comunhão na fé, vivida, celebrada e testemunhada. A nova evangelização busca criar novas comunidades e exige profunda revisão nas estruturas comunitárias.

 

21.          PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA é realizar o projeto de Deus na solidariedade e na busca do bem comum. A justiça exige que se dêem condições de viver com dignidade e com oportunidades iguais; e a solidariedade descobre as necessidades e os problemas dos outros, particularmente dos mais empobrecidos.

 

22.          A sociedade concreta em que vivemos, em nosso País e em grande parte do mundo, está marcada pelas desigualdades, egoísmo e injustiças. Por isso, "a evangelização comporta uma mensagem sobremaneira vigorosa, em nossos dias, sobre a Libertação"28. Para a Igreja, o amor ao ser humano se concretiza na promoção da justiça. "A solidariedade ajuda-nos a ver o outro — pessoa, povo ou nação — não como um instrumento qualquer de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar, quando já não serve; mas, sim, como um nosso semelhante"29.

 

23.          A SERVIÇO DA VIDA E DA ESPERANÇA NAS DIFERENTES CULTURAS — A edificação de uma sociedade justa e solidária depende de uma nova "cultura", de novos valores que inspirem a vida humana. Infelizmente, a cultura contemporânea, sob certos aspectos, pode ser denominada uma "cultura de morte" pelas múltiplas formas de sacrifício da vida humana aos ídolos da riqueza, do poder e do prazer. A vida hoje vem sendo desprezada e até eliminada, pelas mais variadas formas de destruição, desde a concepção até seu fim natural. O Deus da vida exige o respeito e a promoção da vida em todas as suas formas e estágios.

 

24.          Diante de tantos sinais de morte, o evangelizador não pode perder a esperança. Esperança não é apenas uma virtude humana, mas dom do Deus da vida. Num mundo dominado pelo temor e desespero, deve-se proclamar a esperança pascal. Cristo ressuscitado, vencedor da morte, é a certeza de vitória e de total libertação. "Sem esmorecer continuemos a afirmar a nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa"30. A esperança em Cristo é também compromisso para enfrentar as situações de pecado, existentes no mundo e na sociedade.

 

25.          O anseio por uma sociedade mais justa, o ressurgimento das culturas oprimidas, a valorização dos direitos fundamentais da pessoa humana, a solidariedade entre os povos, o clamor contra as mais variadas formas de injustiça, a sensibilidade pelas situações de miséria e de fome, o interesse pela ecologia: são aspirações do homem de hoje e alguns sinais dos tempos em que vivemos e que representam sementes de esperança.

 

26.          A Igreja tem consciência de que sua missão exige respeito pelas diferentes culturas. A cultura deve ser considerada como "o bem comum de cada povo ou grupo étnico, a expressão de sua dignidade, liberdade e criatividade, o testemunho do seu percurso histórico"31. Evangelizar as culturas não é deformá-las ou destruí-las, mas propiciar seu pleno desabrochar à luz do Evangelho. A Igreja sente necessidade de redobrar seus esforços na defesa dos direitos dos povos indígenas, dos negros, das minorias étnicas e no respeito pelas variadas tradições culturais.

 

27.          A evangelização exige a inculturação da fé e o respeito pelos valores próprios de cada grupo humano. Nesse sentido, a religiosidade popular é um caminho privilegiado de evangelização e nela os pobres manifestam seu potencial evangelizador32.

 

28.          A caminho do Reino Definitivo, os cristãos são reconfortados pela certeza da esperança na difícil luta pela libertação integral da pessoa humana e pela construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna. O cristão tem consciência de seu compromisso na edificação da cidade terrena, mas sempre com os olhos voltados para a Jerusalém celeste, para o triunfo final de Deus, quando todas as coisas lhe serão submetidas e quando Deus será "tudo em todos"33. É o desfecho glorioso da História da salvação, com a vitória absoluta e definitiva de Deus.

 

II PARTE

 

 

OS CAMINHOS DA EVANGELIZAÇÃO

 

 

 

CAPÍTULO I

 

O PLANEJAMENTO PASTORAL NA IGREJA DO BRASIL

 

 

Sumário

 

O Concílio Vaticano II: uma nova autoconsciência da Igreja.

A renovação conciliar no Brasil:

precedida por Movimentos renovadores, como Ação Católica, Movimentos Sociais, MMM, CNBB, CRB, Plano de Emergência

concretizada pelo PPC (Plano de Pastoral de Conjunto, 1966-70)

estimulada pelo intercâmbio com as Igrejas da América Latina (Rio de Janeiro, 1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979; Santo Domingo, 1992) e os Sínodos dos Bispos

prolongada nas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, no compromisso com a defesa dos direitos humanos, nas novas pastorais específicas, no apoio aos Movimentos populares

retomada nas Diretrizes Pastorais de 1979-1982, na atuação da Igreja na década de '80 e no processo de redemocratização, enquanto novas mudanças sociais e culturais abrem a década de '90 e exigem uma nova proposta evangelizadora, formulada nas Diretrizes de 1991-1994 e ampliada pelas Diretrizes de 1995-1998, que, com a Tertio Millennio Adveniente, inspiraram o Projeto Rumo ao Novo Milênio.

A história do planejamento pastoral no Brasil manifesta sua importância como pedagogia, a serviço de metas permanentes como a unidade de fé e vida, a inculturação do Evangelho e a transformação social.

 

29.          O Concílio Vaticano II significou um novo Pentecostes para a vida da Igreja, um sopro do Espírito que se difundiu para além dos quadros intra-eclesiais e dos ambientes religiosos. Ao repensar a missão da Igreja e a sua relação com o mundo, gerou uma nova autoconsciência da Igreja e uma eclesiologia de amplas perspectivas para o trabalho pastoral. Lembramos aqui as principais características:

a) a superação da concepção de Igreja "sociedade perfeita", repartindo o espaço com a sociedade civil, em direção a uma concepção de Igreja comunidade, inserida no mundo, a serviço do Reino

b) a superação da oposição entre Igrejas da cristandade e Igrejas das missões, pelo reencontro da consciência de uma Igreja toda e sempre missionária

c) a consciência mais clara de que a Igreja não é só a hierarquia, mas todo o Povo de Deus, ressaltando o papel dos leigos e a co-responsabilidade de todos, pastores e fiéis, na ação pastoral e na missão evangelizadora, sem deixar de reconhecer e valorizar a vocação específica missionária "ad gentes"

d) a redescoberta da Igreja Particular ou Local, como realização viva e característica da Igreja Universal, em comunhão com as demais e com a sede primacial de Pedro

e )           a mudança para uma pastoral mais atenta à necessidade de uma nova linguagem catequético-litúrgica e para uma evangelização das massas afastadas da vida eclesial

f)  a valorização do mundo e das realidades terrestres e o reconhecimento de sua justa autonomia

g) a abertura ao ecumenismo e ao diálogo com as religiões e as culturas. Essas novas atitudes reconhecem a possibilidade de aprender algo do mundo moderno34, mesmo dos adversários. Por isso, levam a admitir que os membros da Igreja nem sempre foram isentos de culpas ou de erros35.

 

30.          A caminhada da Igreja Católica no Brasil, nas últimas décadas, segue de perto as pegadas da renovação conciliar. Na verdade, as novas perspectivas pastorais abertas pelo Concílio encontraram entre nós uma Igreja que já vivia um surto renovador claramente perceptível. Herdeira de uma rica tradição de mais de quatro séculos de evangelização, cristalizada antes de tudo na fé simples do povo, a Igreja no Brasil foi fortemente enriquecida por Movimentos renovadores nas décadas que precederam o Concílio. Eles não só facilitaram a recepção do Concílio como possibilitaram as contribuições de Bispos brasileiros para a reflexão conciliar. Entre eles é preciso ressaltar os Movimentos Litúrgico e Bíblico, a Ação Católica e os Movimentos Familiares, a abertura para as questões sociais e as iniciativas de renovação da Vida Religiosa e do Ministério Presbiteral.

 

31.          A Ação Católica, principalmente em sua fase especializada, caracterizada por forte espírito missionário, foi uma valiosa experiência de presença organizada do testemunho cristão nos vários campos da sociedade, sobretudo no mundo operário, estudantil e agrário. A sua metodologia característica do "ver-julgar-agir" perpassa a pastoral até os dias atuais. Igualmente o seu pioneirismo na formação de lideranças deu frutos que ainda hoje são identificáveis em diversos campos da vida nacional.

 

32.          No campo social, os anos '50 assistiram a uma mudança qualitativa da presença da Igreja. No mundo rural e operário, a Igreja evoluiu de uma atuação marcadamente assistencial, para uma presença conscientizadora e fortalecedora das reivindicações sociais. A sociedade brasileira começava a viver as grandes transformações sócio-econômicas que provocaram maior consciência da real situação do povo, especialmente do mundo rural. São dessa época o Movimento de Educação de Base, os Círculos Operários, as Semanas Ruralistas e a expansão do sindicalismo rural. Muitas lideranças de projeção nacional foram formadas neste período.

 

33.          De menor duração e atuando mais dentro das estruturas eclesiais, o Movimento por um Mundo Melhor empolgou sobretudo aos Bispos, presbíteros, religiosos e religiosas, na busca de novos caminhos para uma Igreja que, vivendo o mistério do Corpo Místico de Cristo, testemunhasse a fraternidade evangélica e novo zelo missionário.

Devem, também, ser lembrados os numerosos movimentos apostólicos de leigos que desde o ano de 1945, vieram se difundindo amplamente como novas expressões da vitalidade da Igreja no Brasil.

 

34.          Dois grandes organismos eclesiais nasceram antes do Concílio e contribuíram amplamente para a sua aplicação. O surgimento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desde 1952, inaugurou nova e promissora fase de vida na Igreja do Brasil. A CNBB nasceu no contexto de uma Igreja despertada por novos movimentos e, sobretudo, pelas organizações nacionais dos leigos da Ação Católica, que postulavam uma articulação dos pastores. Não por acaso, o Assistente Nacional da Ação Católica foi o organizador da Conferência Episcopal. Outro organismo, estimulado pelo primeiro, foi a Conferência dos Religiosos do Brasil, cuja criação, em 1954, fortaleceu a formação e a atualização dos religiosos e religiosas e a sua inserção na vida e missão da Igreja.

 

35.          A Conferência Nacional dos Bispos encontrou no planejamento pastoral o instrumento para animar e articular a ação pastoral em nível nacional e regional a partir das Igrejas locais, garantindo, ao mesmo tempo, a presença da Igreja numa sociedade em profundo processo de transformação. A experiência do planejamento pastoral teve início com o Plano de Emergência (1962), urgido pelo Papa João XXIII. Bastante simples em sua organização, ele se propunha quatro metas ambiciosas: a renovação da paróquia, do ministério presbiteral, da escola católica, e a promoção da ação da Igreja no campo sócio-econômico. O Plano de Emergência, às vésperas do Concílio, teve o significado pedagógico de reconhecimento oficial do "novo" e de treinamento para a corresponsabilidade que as propostas do Concílio iriam exigir.

 

36.          Entretanto, foi o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) para 1966-1970 que possibilitou a aplicação articulada de toda a riqueza do Concílio, por parte da Igreja no Brasil. O seu objetivo, aliás, era expressamente: "criar meios e condições para que a Igreja no Brasil se ajuste, o mais rápida e plenamente possível, à imagem de Igreja do Vaticano II". Para isso, ele definiu orientações expressas, principalmente em um Objetivo Geral e seis Objetivos Específicos que geravam, dinamicamente, seis Linhas de Trabalho.

 

37.          O Objetivo Geral era: "Levar todos os homens à comunhão de vida com o Pai e entre si, por Cristo, no dom do Espírito Santo, pela mediação visível da Igreja". As seis Linhas de Trabalho eram promover:

1 uma sempre maior unidade visível no seio da Igreja Católica

2 a ação missionária

3 a ação catequética, o aprofundamento doutrinal e a reflexão teológica

4 a ação litúrgica

5 a ação ecumênica

6 a melhor inserção do Povo de Deus como fermento na construção de um mundo segundo os desígnios de Deus.

 

38.          O Objetivo Geral deixava perceber, claramente, a concepção conciliar da Igreja como mistério de comunhão trinitário. As Linhas de Trabalho explicitam os grandes documentos do Concílio: Lumen Gentium (L. 1), Ad Gentes (L. 2), Dei Verbum (L. 3), Sacrosanctum Concilium (L. 4), Unitatis Redintegratio e Nostra Aetate (L. 5), Gaudium et Spes (L. 6).

 

39.          A dinâmica da renovação conciliar levou a Igreja Católica no Brasil a alargar a sua abertura para as outras Igrejas Particulares na América Latina. Avivaram-se a consciência dos laços culturais e dos problemas sociais comuns, bem como a necessidade da busca de caminhos pastorais para uma evangelização encarnada. Os grandes acontecimentos eclesiais, em nível continental (Rio de Janeiro e fundação do CELAM, 1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979; e Santo Domingo, 1992), revelam urgências desafiantes para a prática pastoral e vão criando uma mística evangelizadora latino-americana.

 

40.          Estes acontecimentos latino-americanos, os sucessivos Sínodos dos Bispos e os documentos pontifícios vão levando a missão da Igreja a ser entendida mais claramente como evangelização, serviço do Evangelho, tendo como centro Jesus Cristo e seu Reino. Neste sentido, destacam-se o Sínodo de 1974 e a subseqüente Exortação Apostólica de Paulo VI Evangelii Nuntiandi e, mais recentemente, a encíclica de João Paulo II, Redemptoris Missio, sobre a atividade missionária da Igreja.

 

41.          A prática eclesial, animada pelos acontecimentos e documentos acima lembrados, despertou para a consciência das várias dimensões constitutivas ou integrantes da evangelização e dos seus desafios. Eles, por sua vez, vão encontrando resposta na prática evangelizadora e nos vários níveis da ação pastoral.

 

42.          As orientações do PPC, prorrogadas em 1970 e atualizadas no final de 1975, iluminaram, por quinze anos, o amplo projeto de renovação da Igreja em busca de uma Pastoral Orgânica ou de Conjunto. A partir de 1970, adotou-se uma metodologia de planejamento mais flexível. Buscou-se a unidade em nível nacional através das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil (1975), deixando-se a definição de planos para os Regionais e as Dioceses, apoiados por planos bienais dos organismos nacionais. Sob o impulso recente do Concílio, a Igreja viveu esse período em clima de grande alegria e esperança. A Assembléia de Medellín (1968), partindo da análise estrutural da realidade latino-americana, abriu caminhos para aplicação mais concreta das exigências conciliares na situação de injustiça vivida pelos povos do continente. Ao mesmo tempo, o Sínodo de 1971 sobre "A Justiça no Mundo", enfatizava o empenho pela justiça e pela libertação integral da pessoa humana como dimensão constitutiva da evangelização.

 

43.          Vivendo os tempos difíceis e sofridos da ditadura militar, a Igreja assumiu compromisso sempre mais claro e conseqüente com a defesa dos direitos humanos, sobretudo dos mais pobres e oprimidos: camponeses, operários e estudantes. O testemunho de solidariedade com os oprimidos foi selado pela perseguição e o sangue de agentes de pastoral e estimulou os pronunciamentos de algumas Igrejas locais ou regionais, em documentos tais como Testemunho de Paz (Sul 1, S. Paulo, 1972), Eu ouvi os clamores do povo (Nordeste, 1973), Marginalização de um povo — Grito das Igrejas (Centro-Oeste, 1973). A Assembléia Geral, reunida em Brasília em 1970, apesar das pressões oficiais, denunciou a prática da tortura e, em 1977, publicou o documento Exigências Cristãs da Ordem Política, de singular importância histórica para a sociedade brasileira.

 

44.          Data também desse período a consolidação de novas iniciativas pastorais. Surgem pastorais específicas em áreas particularmente desafiantes e conflitivas, como o CIMI (Conselho Indigenista Missionário, 1972) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra, 1975), cuja atuação persiste e se atualiza até hoje. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) vinham crescendo desde os inícios da década de '60. A eclesiologia que as impulsiona valoriza elementos significativos do Concílio Vaticano II: a comunidade, a diversificação dos ministérios, a consciência missionária, a sensibilidade para com os apelos da realidade. Elas se revelam agora como grande "esperança da Igreja"36. Promovem o 1º Encontro Intereclesial em Vitória do Espírito Santo (1975), seguido de tantos outros. Comunidades Religiosas descobrem novos apelos missionários e se inserem nos meios populares.

 

45.          A ação da Igreja era claramente favorável às reivindicações de liberdade associativa e melhoria de vida dos Movimentos populares e sindicais. Não obstante as constantes tensões intra-eclesiais, a Igreja no Brasil conheceu um período de raro reconhecimento por parte da sociedade civil, sobretudo de certos setores (universidades, imprensa, profissionais liberais) tradicionalmente menos propensos a olhá-la com simpatia.

 

46.          Na segunda metade dos anos '70, a Igreja no Brasil recebeu notável impulso do Sínodo sobre a Evangelização do mundo contemporâneo37, e da preparação e realização da Conferência de Puebla (1979), para a qual, aliás, colaborou de maneira significativa.

 

47.          Com a preocupação de reintegrar o laicato e organizá-lo com expressão e representatividade nacional, a CNBB incentivou a criação do Conselho Nacional de Leigos.

 

48.          No início dos anos '70, consegue-se também reverter a crise que atingiu a muitos presbíteros e reduziu o número das vocações ao ministério presbiteral. Por volta de 1982, o número dos seminaristas maiores já supera o dos anos mais favoráveis do período pré-conciliar. Logo após, o número de ordenações cresce, expressivamente, permitindo que o número de presbíteros por habitante volte a aumentar após 1990. Por outro lado, sobrecarregados de trabalhos pastorais, os padres partilham as suas tarefas com ministros leigos e redobram as formas de intercâmbio e colaboração, promovendo também os Encontros Nacionais de Presbíteros.

 

49.          As Diretrizes do período 1979/82 expressam bem esse momento histórico. Conservadas para o quadriênio de 1983/86 e, novamente, para o de 1987/90, elas foram recebendo esclarecimentos e matizes a cada novo período, mas mantiveram a sua fisionomia original. Durante mais de um decênio, iluminaram o trabalho pastoral da Igreja no Brasil, organizado ao redor de amplo projeto de "evangelização libertadora". Em sua última formulação, enunciavam assim o seu objetivo geral:

 

"Evangelizar

o povo brasileiro em processo de transformação social, econômica, política e cultural,

a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem,

à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

pela libertação integral do homem,

numa crescente participação e comunhão,

visando formar o povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e fraterna,

sinal do Reino definitivo".

 

50.          Do PPC, as Diretrizes conservaram as seis linhas, concebidas sempre mais como dimensões constitutivas da evangelização. A opção pelos pobres foi amadurecendo em seu sentido evangélico e em suas conseqüências. A luta pela justiça marcou, fortemente, a ação pastoral, como é visível nos sucessivos temas das Campanhas da Fraternidade. O empenho pela inculturação do Evangelho e a busca de mais profunda ligação entre "fé e vida" encontraram fecunda expressão na Assembléia Geral de 1983 com a publicação do documento "Catequese Renovada", que recebeu a maior divulgação entre os documentos da CNBB.

 

51.          A Igreja participou, ativamente, do processo de redemocratização do País, valorizando a participação e apoiando as emendas populares à nova Constituição. Dois documentos importantes marcaram a presença da Igreja no ciclo do processo constituinte: Por uma nova Ordem constitucional (1986) e Exigências éticas da Ordem democrática (1989). No período pós-Puebla, as pastorais sociais tiveram grande incremento em todos os campos. As tensões intra-eclesiais igualmente cresceram, seja devido à própria proposta de evangelização libertadora numa sociedade profundamente marcada pelas injustiças, seja por uma compreensão deformada dessa proposta. As instruções romanas sobre a Teologia da Libertação (1984 e 1986), a Carta aos agentes de pastoral e às comunidades da Assembléia Geral de 1985 e a Carta pessoal do Papa à CNBB, de 1986, balizaram os rumos da ação pastoral. Todavia, novos horizontes e desafios começavam a surgir para a Igreja no Brasil.

 

52.          No final da década de '80, cresce na Igreja a consciência de que a situação da sociedade é profundamente diversa daquela da época pós-conciliar. A missão evangelizadora se dá numa sociedade pluralista, secularizada, estruturada sobre os valores da modernidade. O crescente pluralismo religioso se torna objeto de estudos, com a colaboração de outras Instituições reunidas no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). A Igreja Católica, que por seu compromisso com os pobres se abrira aos valores das culturas oprimidas, defronta-se cada vez mais com os desafios da evangelização da cultura moderna. O pluralismo cultural, vivido dentro mesmo da Igreja, exige respostas pastorais diversificadas. A consciência disso levou a Assembléia Geral de 1988 a publicar o documento Igreja, Comunhão e Missão. O documento, aprofundando o mistério da comunhão eclesial, reforça a identidade das comunidades católicas e as estimula a uma nova e mais vigorosa atuação missionária.

 

53.          Um dos sinais dessa consciência foi o novo impulso dado à organização do laicato, com a preparação e realização do Sínodo sobre os Leigos (1987) e a conseqüente recepção da Exortação Christifideles Laici (1989). A valorização dos "sujeitos da evangelização", suscitados e formados dentro dos vários grupos culturais e situações sociais características, reforça a responsabilidade missionária da comunidade eclesial, abrindo-se para a missão "além-fronteiras", junto de outros povos e Países.

 

54.          As Diretrizes Pastorais dos anos '90, cuja primeira formulação foi feita para o período 1991/1994, acolheram esses aspectos novos e os reelaboraram de maneira orgânica, dentro de nova proposta evangelizadora, conforme bem expressa o seu Objetivo Geral:

 

"Evangelizar,

com renovado ardor missionário,

testemunhando Jesus Cristo,

em comunhão fraterna,

à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

para formar o Povo de Deus e

participar da construção de uma sociedade justa e solidária,

a serviço da vida e da esperança

nas diferentes culturas,

a caminho do Reino definitivo".

 

55.          O quadro histórico da definição das Diretrizes em 1991 foi marcado por acontecimentos que contribuíram para enriquecê-las. A criação da "Assembléia Nacional dos Organismos do Povo de Deus" (1991) possibilitou participação mais efetiva de representantes de todos os segmentos da comunidade eclesial na elaboração das novas Diretrizes. A encíclica missionária Redemptoris missio (1990) e a sua insistência na "nova evangelização" e, a seguir, a preparação de Santo Domingo (1992) com a temática da evangelização e cultura, por ocasião dos 500 anos de evangelização do continente americano, ofereceram novos conteúdos e acentuações. O apelo a uma nova evangelização foi acolhido pela Igreja no Brasil, sobretudo como oportunidade para uma retomada do ardor missionário, com ênfase na centralidade de Jesus Cristo e um desafio a se posicionar frente à modernidade. Na sociedade brasileira ela é sentida, dramaticamente, nas formas de vida urbana transferidas, também, às populações rurais pelos meios de comunicação de massa. A rapidez e o radicalismo das mudanças culturais permitem que formas avançadas e modernas de vida convivam com outras tradicionais.

 

56.          As Diretrizes de 1991/1994 abordaram a questão da modernidade a partir de três aspectos principais: o individualismo; o pluralismo cultural e religioso; as contradições sociais e suas causas estruturais. Novos acentos pastorais correspondentes são propostos: valorização da pessoa e da experiência subjetiva; vivência comunitária e diversificação das formas de expressão eclesial; presença mais significativa da Igreja na sociedade. Essa mesma sociedade, no penoso caminho da democratização, defronta-se com uma crise ética de proporções sempre mais vastas. A Igreja procurou iluminar os caminhos de solução com os documentos sobre Educação (1992) e Ética, pessoa e sociedade (1993), bem como com as Semanas Sociais Nacionais, realizadas dentro de nova e envolvente metodologia. O quadriênio assistiu ao aprofundamento e redefinição da Igreja frente aos Meios de Comunicação Social, na esteira da Campanha da Fraternidade sobre o tema (1989). O ano de 1994, proclamado Ano Missionário, recebeu da Assembléia Geral um valioso subsídio sobre Desafios e Protagonistas da Missão, num esforço de concretização do sentido eminentemente missionário das Diretrizes.

 

57.          No final de 1994, um levantamento, realizado pela CNBB junto a Dioceses, províncias religiosas e institutos eclesiásticos, confirmou uma notável influência das Diretrizes Gerais de 1991-1994 sobre os planos pastorais e o desejo de que as Diretrizes encontrassem continuidade no período 1995-1998. A ênfase dos planos diocesanos, no período passado, recaiu especialmente sobre as dimensões comunitário-participativa e bíblico-catequética e sobre a exigência da formação, o que pode ser interpretado como sinal da necessidade de preparação mais adequada para os novos desafios da evangelização.

 

58.          As Diretrizes de 1995 a 1998, já no horizonte do Jubileu do ano 2000 e dos 500 anos do início da evangelização no Brasil, apontavam pistas para uma sociedade nova, justa, solidária e não excludente. Olhando para o passado, elas sinalizavam a necessidade de conversão e penitência e mostravam também, à luz da fé, uma história marcada pela graça. Apontavam assim para o desafio de tornar a mensagem do Evangelho força de salvação, vida e dignidade para todas e cada uma das pessoas. Em 1995 foi mantido o objetivo formulado em 1991 ("Evangelizar com renovado ardor..."), precedido por uma nova introdução:

 

"JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE:

Em preparação ao seu Jubileu do ano 2000,

na força do Espírito Santo que o Pai nos enviou,

sob a proteção da mãe de Deus e nossa,

queremos..."

 

59.          Nesse período, foi aprovado pela 34ª Assembléia Geral da CNBB o Projeto de evangelização Rumo ao Novo Milênio. Ele nasceu de um encontro fecundo entre o apelo do Papa em sua Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, aprovadas em 1995, e o COMLA V. O Projeto se tornou a primeira ampla experiência de orientações e subsídios comuns para todas as dioceses do Brasil, visando expressar, numa ação orgânica e continuada, as próprias Diretrizes no campo do serviço, do diálogo, do anúncio missionário e do testemunho da comunhão eclesial, alimentado pela Palavra de Deus e pela Sagrada Liturgia. Os anos de 1997, 1998 e 1999 foram pensados como uma mobilização de todos os fiéis a serviço do anúncio do Evangelho e na preparação do grande Jubileu, que no Brasil celebramos junto com a memória dos 500 anos da evangelização.

 

60.          No final deste milênio e para os primeiros anos do novo, prossegue a mesma tarefa evangelizadora, num contexto de rápidas e profundas mudanças. A atualização das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora exige o aprofundamento dos objetivos do Projeto Rumo ao Novo Milênio, mas também a atualização dos programas de ação, sobretudo, o encontro vivo com Cristo que nos torna seus missionários. Isso implica:

avaliar a ação evangelizadora em todos os níveis

acolher os novos documentos do Magistério, especialmente a Exortação do Papa João Paulo II à Igreja na América38

assumir com renovada consciência o sentido do Jubileu do ano 2000 e dos 500 anos do início da evangelização no Brasil

concretizar em todos os níveis — nacional, regional, diocesano e paroquial — novos programas de evangelização e de formação de evangelizadores

criar estruturas adequadas à evangelização no mundo urbano

buscar o diálogo e a cooperação ecumênicos com as Igrejas cristãs e o diálogo inter-religioso com as religiões não-cristãs39.

 

61.          A missão continua. Como os hebreus chegando à Terra Prometida, após 40 anos de travessia, descobriram novos obstáculos e se espantaram face ao que lhes pareceu um desafio gigantesco40, assim, nós estamos diante de um mundo em mudança sempre mais rápida, que parece questionar ainda mais radicalmente a comunidade cristã e todas as formas de solidariedade da sociedade. Os novos questionamentos nos impõem duas atitudes diversas, mas necessárias e complementares:

reavivar a memória da missão evangelizadora que nos foi confiada, recordar e assumir com novo ardor a vocação própria da Igreja: a evangelização

considerar com realismo as mudanças que estão ocorrendo, para nelas discernir os "sinais dos tempos" e os apelos de Deus, que nos chama a criar novas expressões e a buscar novos caminhos na missão de encarnar o Evangelho nas novas realidades culturais e sociais.

É o que vamos fazer nos capítulos II (A evangelização) e III (As mudanças da sociedade brasileira), para discernir com maior clareza as diretrizes da nossa ação (capítulo IV) e as nossas responsabilidades próprias e intransferíveis como evangelizadores (capítulo V ).

 

62.          A história do planejamento pastoral aqui lembrada, ajudar-nos-á a compreender melhor a situação atual e a reconhecer preciosas indicações para a nossa ação futura. A primeira delas diz respeito à importância do planejamento pastoral seja em nível nacional, através das Diretrizes e dos Planos Bienais (treze) que seguiram ao PPC, seja em nível regional e diocesano, com inúmeros planos e iniciativas. A experiência do planejamento pastoral ensina que ele deve ser assumido mais como pedagogia do que como técnica. Mais rico do que os simples planos é o processo de planejamento, que possibilita o envolvimento das pessoas e a sua sustentação numa dinâmica de compromisso. A visão global, garantida pelas Diretrizes, supera o risco da redução da pastoral a aspectos parciais ou meramente conjunturais. A articulação ao redor de metas objetivas garante a integração contra a fragmentação pastoral. O planejamento tem-se revelado, enfim, como um eficaz instrumento de participação de grupos e comunidades no serviço do Reino de Deus. O êxito mais pleno é alcançado quando o planejamento se traduz numa mística de serviço ao Evangelho e de identificação com a missão da Igreja como continuação da missão de Jesus Cristo.

 

63.          A segunda indicação a ressaltar é a presença, na caminhada pastoral, de algumas constantes que marcaram o período pós-conciliar e que serão referências relevantes também para os próximos anos. Entre elas destaca-se uma metodologia pastoral que, na forma do "Ver-Julgar-Agir" ou de outra maneira, sempre procura ligar fé e vida, reflexão teológica e análise da realidade, ideal evangélico e consideração realista das condições humanas. Essa perspectiva metodológica foi e continuará se enriquecendo, na medida em que perceber melhor as diferenças entre as culturas, apreciando os valores de cada uma e aprofundando a inculturação do Evangelho. Tal perspectiva conduziu, ainda antes, à procura da solidariedade dos evangelizadores com o povo e à opção preferencial pelos pobres, numa atitude dinâmica de busca da transformação da sociedade desigual e injusta. Nessa busca construtiva de uma sociedade mais justa e fraterna, a serviço da vida e da esperança, o Povo de Deus é o sujeito da evangelização e da sua própria libertação. Assim a Igreja continua a missão de Cristo, enviado para "evangelizar os pobres", abrir os olhos e os ouvidos, libertar os oprimidos41. Convém, enfim, ressaltar que os Planos e Diretrizes das últimas décadas visaram a eficácia pastoral, desenvolvendo nas Igrejas Particulares e entre elas a comunhão e a participação, a colegialidade e a corresponsabilidade.

 

 

CAPÍTULO II

 

EVANGELIZAÇÃO HOJE

 

 

Sumário

 

Necessidade de aprofundar a teologia da evangelização.

 

1. Que é evangelizar?

A evangelização deve ser repensada em cada nova época

A evangelização é continuar a missão de Jesus, o que exige que a Igreja seja discípula, viva o evangelho, imitando o próprio agir de Jesus, e esteja atenta aos apelos do mundo, indo ao encontro das situações humanas.

 

2. A ação salvífica de Deus no mundo

Deus quer a salvação de todos

Deus age pelo Espírito, dentro e fora das fronteiras visíveis da Igreja, em sintonia com a ação do Filho, o Verbo Encarnado, pois o Espírito de Deus é o Espírito presente na vida e na ação de Jesus.

 

3. Caminhos da evangelização

O evangelizador procura os caminhos da evangelização na docilidade ao Espírito, tendo por critério a inserção no ambiente humano ou "contextualização", num aprendizado constante, que exige

a) Inculturação: processo global e complexo, que tem analogia com a Encarnação e comunica a fé

b) Consciência das exigências intrínsecas da evangelização, fundamentalmente: serviço, diálogo, anúncio e vivência comunitária da fé

c) Disposição de promover uma nova evangelização num novo contexto de pluralismo e secularismo.

 

4. Sujeitos da evangelização

A missão deve ser assumida por todos, não apenas por alguns

A responsabilidade de animar a missão cabe principalmente à Igreja Particular

Aos leigos cabe o novo papel de protagonistas da missão

A missão exige também renovação das estruturas e unidade na diversidade.

 

5. Espiritualidade

A missão exige não apenas novas estruturas, mas nova inspiração e espiritualidade

A espiritualidade missionária une docilidade ao Espírito, uso dos instrumentos disponíveis e valorização dos carismas pessoais e comunitários.

 

64.          A Igreja no Brasil, nos últimos decênios, deu grandes passos na renovação de suas estruturas e no planejamento pastoral, mas não pode contentar-se com os resultados alcançados. Novos contextos desafiam-na a ser fiel ao mandato de Cristo. Impelida pela Palavra de Deus e pelos acontecimentos, ela deve buscar respostas novas às novas exigências da evangelização no atual processo de transformação da sociedade brasileira.

 

65.          Para ser fiel à vontade de Cristo, é fundamental que ela atualize a compreensão de si mesma, e de sua consciência missionária, reconhecendo que ela não existe para si mesma, mas para a missão como "graça e vocação própria, a sua mais profunda identidade"42. E sua missão é evangelizar, como "dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos"43.

 

66.          As exigências da evangelização hoje a impul- sionam a:

1) aprofundar o sentido da evangelização como anúncio atual e libertador do Reino

2) alargar a compreensão da salvação para além de seus próprios limites visíveis, como salvação para todos44

3) discernir os caminhos da missão da Igreja em continuidade com a missão evangelizadora de Jesus

4) envolver nessa missão não apenas grupos especializados de cristãos, mas todos os batizados, organizados em suas Igrejas locais, para que com novo ardor se coloquem a serviço do Reino

5) buscar uma autêntica espiritualidade cristã.

 

1. Que é evangelizar?

 

67.          Em cada tempo e lugar, provocada pelo Evangelho, a comunidade cristã colocou-se frente a esta pergunta: que é para nós evangelizar? A resposta a essa questão foi sempre vivida como sinal de sua fidelidade a Cristo. De fato, a Igreja só se realiza como comunidade viva no seguimento do seu Mestre, pela realização da missão evangelizadora. Como o Apóstolo, ela exclama: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!"45. Ela mesma se edifica como Igreja de Deus quando coloca no centro de suas preocupações não a si mesma, mas o Reino que ela anuncia como libertação de todos e cada um dos seres humanos para que vivam a plena comunhão com Deus e entre si46.

 

68.          A urgência da evangelização hoje, por um lado, vem ao encontro desse mandato claro e evidente para a consciência dos discípulos de Jesus. Por outro, depara-se, mais que em outras épocas, com a complexidade dos novos contextos em que a Palavra viva deve ressoar. Esses novos desafios nos ajudam a superar visões parciais da evangelização e a compreendê-la em sua "realidade rica, complexa e dinâmica", integrando todos os seus elementos essenciais47 de modo que ela implique não apenas o anúncio do Evangelho por palavras, mas também a vida e ação da Igreja; que envolva não apenas gestos sacramentais, dentro da comunidade viva que celebra o mistério do amor de Deus em Cristo, mas também a promoção da justiça e da libertação; que se apresente não apenas como caminho que vai da comunidade cristã para o mundo, mas também como acontecimento do mundo, dentro do qual Deus continua sua obra salvífica, para a vida da Igreja.

 

69.          No espírito dos Jubileus bíblicos — e o Papa o acentua fortemente — cabe-nos pedir perdão pelas falhas da história passada e presente, para assim dispor-nos para uma evangelização sempre mais autêntica48.

 

70.          Evangelizar consiste essencialmente no anúncio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, como "Boa-Nova" do Reino e sinal do amor salvífico e libertador de Deus para com o mundo, presença vitoriosa de sua graça sobre o pecado e a morte49. O Reino de Deus chega à sua plena realização no acontecimento único e irrepetível de Jesus de Nazaré, professado como Cristo, Filho de Deus vivo50. Assim sempre o entendeu a comunidade cristã. Ou seja: o Reino chega em sua vida e ação; em sua morte e ressurreição. "Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados"51.

 

71.          A importância de Jesus Cristo para a história humana foi expressa pelo Papa na recente Carta Apostólica Fides et Ratio: "A encarnação do Filho de Deus permite ver realizada uma síntese definitiva que a mente humana, por si mesma, nem sequer poderia imaginar: o Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento, Deus assume o rosto do homem. Deste modo, a verdade expressa na revelação de Cristo deixou de estar circunscrita a um restrito âmbito territorial e cultural, abrindo-se a todo o homem e mulher que a queira acolher como palavra definitivamente válida para dar sentido à existência. Agora todos têm acesso ao Pai, em Cristo; de fato, com sua morte e ressurreição, Ele concedeu-nos a vida divina que o primeiro Adão tinha rejeitado (cf. Rm 5, 12-15). Com esta revelação, é oferecida ao homem a verdade última a respeito da própria vida e do destino da história"52.

 

72.          A evangelização pode também ser descrita como a missão que nasce do encontro com Cristo, vivo e presente no meio de nós53, e que consiste em anunciá-lo como "o Salvador de todos os homens e do homem todo"54. O próprio encontro com o Cristo vivo gera a consciência do chamado missionário da Igreja e de todos os seus membros55. A comunhão com o Senhor Ressuscitado impulsiona a cada cristão e a cada Igreja Particular a descobrir melhor a exigência da comunhão com o irmão e da solidariedade com todas as pessoas, sem exclusão. Através da experiência do "encontro com Jesus Cristo vivo", as Igrejas Particulares e cada um dos seus membros descobrem o "caminho da conversão, comunhão e solidariedade"56, metas da evangelização.

 

73.          Pela evangelização a Igreja realiza hoje a missão de Jesus. A vocação própria da Igreja consiste em percorrer o mesmo caminho de Jesus, com humildade e confiança, a fim de comunicar aos homens a salvação, plenamente manifestada no Filho, morto e ressuscitado. Neste sentido, evangelizar para a Igreja nada mais é do que fazer o que Jesus fez: por palavras e ações expressar o amor misericordioso e compassivo para com todos, em especial os pequenos, os pobres, os mais necessitados e esquecidos de nossa sociedade injusta e excludente. Nessa atitude fundamental de seguir a Jesus, a comunidade eclesial, no entanto, deve prestar atenção à sua condição de peregrina na história. À diferença de Cristo, que não conheceu pecado, ela, "reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação"57.

 

74.          O anúncio da Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho, mediante a fé. A conversão é dom de Deus, que exige uma aceitação total, radical e sem limites. Ao mesmo tempo, porém, determina um processo dinâmico e permanente que se prolonga por toda a existência, uma passagem contínua da "vida segundo a carne" à "vida segundo o Espírito"58.

 

75.          Em vista disso, a mais fundamental atitude da comunidade cristã é a de tornar-se discípula, aprendendo a ser fiel e deixando-se constantemente evangelizar, por um lado, pela Palavra da vida que ela acolhe com fé e reparte aos seus filhos com amor de mãe; por outro, pelos próprios acontecimentos da história humana, nos quais Deus continua a dar-se a conhecer como salvação para todos. Só uma comunidade evangelizada é capaz de tornar-se evangelizadora59.

 

76.          A ação evangelizadora da Igreja inspira-se no Bom Pastor, o primeiro e mais fiel evangelizador. Ele é, na verdade, o Evangelho vivo do Pai, porque nele a própria palavra se faz Evangelho em ação. Nele não há distância e muito menos separação entre palavra e ação. O agir libertador de Jesus vem constantemente confirmado e explicitado pela sua pregação. E sua palavra adquire vigor profético nos seus gestos que mostram a presença do Reino de Deus60. Por isso mesmo, o modo mais completo e perfeito de evangelizar é o testemunho da fé na vida. Em outras palavras, os discípulos de Jesus, em qualquer tempo e lugar, devem realizar o Evangelho com sua própria vida61, de tal forma que neles se reconheça que Deus continua sua obra de salvação no mundo. A presença da Igreja no mundo, expressa em sinais e gestos proféticos, indica a vitória do Reino de Deus sobre as potências do mal, como se realizou em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado.

 

77.          No mesmo sentido, seguindo a Jesus, a Igreja não pode dissociar a dimensão humana, histórica e social de sua ação no mundo, da dimensão divina, que lhe vem de sua origem, no mistério da Trindade. A obra de Deus, inaugurada em Jesus de Nazaré, não é diferente daquela que se realiza na Igreja, pois nela age e se faz presente hoje, na força do Espírito, o mesmo Senhor Ressuscitado. O que, pois, se realizou no tempo de Jesus, como sinal do amor de Deus, promoção da justiça e da libertação62, a Igreja é chamada a realizar. É o mesmo Cristo que opera, com pleno vigor, na Igreja hoje. Por isso a Igreja não pode, sob pena de trair a missão de Jesus, separar a salvação da promoção da justiça e da libertação.

 

78.          A Igreja realiza sua missão evangelizadora no vasto campo do mundo. O grande desafio missionário da Igreja no mundo de hoje está em abrir-se ao vasto campo da missão para além de suas fronteiras63. Fiel ao Espírito, ela descobre que, apesar do pecado, o mundo continua sendo criatura boa de Deus e amada por ele. Nele, Deus continua sua obra criadora e salvadora, antes mesmo de ser por nós reconhecido como Senhor e Salvador. Abrindo-se à história humana, a Igreja aprende "a descobrir e a reconhecer os sinais da presença de Cristo e da ação do Espírito"64.

 

79.          Ser fiel ao plano de Deus significa para a Igreja ir ao encontro do ser humano em sua situação, procurando encarnar o Evangelho nas culturas, a partir de sua identidade evangélica. Esse dinamismo da encarnação faz a Igreja ser evangelizadora no seu ser e agir, no que ela diz e faz, continuando a missão de Jesus até o fim dos tempos.

 

2. A ação salvífica de Deus no mundo

 

80.          "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade"65. E se o quer, deve ser de maneira adequada à situação de cada ser humano. Por isso mesmo, a ação salvífica de Deus precede a Igreja e sua missão. Desde a criação do mundo e do homem, Deus, em sua infinita sabedoria, percorre os caminhos de sua criatura e lhe promete sua salvação. Mais: para que pudéssemos conhecê-lo e amá-lo, Ele se deu a conhecer a si mesmo e a seu plano salvífico, em "acontecimentos e palavras". Estes revelam o sentido profundo do mistério de comunhão que Deus quer viver com todos em Cristo66. Cabe, pois, à comunidade eclesial, estar atenta ao agir de Deus no mundo e aos "sinais dos tempos".

 

81.          Deus age no mundo pelo Espírito. Cremos que "o Espírito manifesta-se particularmente na Igreja e em seus membros, mas sua presença e ação são universais, sem limites de espaço ou de tempo"67. É ele que faz germinar as "sementes do Verbo" não apenas nos indivíduos, mas também nas sociedades e na história dos povos, em suas culturas e religiões, fazendo-as maturar em Cristo68. É esse mesmo Espírito Santo que predispõe os acontecimentos e prepara os corações dos homens em direção a Cristo69.

 

82.          Esse é o mesmo Espírito "que agiu na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus e atua na Igreja". Ele não pode, pois, ser dissociado da presença e da ação do Filho de Deus, como se fosse uma alternativa. Na verdade, "tudo o que o Espírito opera no coração dos homens e na história dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica". Por isso, a "ação universal do Espírito não pode ser separada da obra peculiar que ele desenvolve no Corpo de Cristo, que é a Igreja"70.

 

83.          O Espírito preparou a história humana para o Evangelho. Na plenitude dos tempos, a encarnação do Filho de Deus iniciou a manifestação definitiva do Reino. O Jubileu do ano 2000 nos oferece oportunidade única de apreciar o sentido plenificador, cósmico, da encarnação e do nascimento de Jesus Cristo, bem como da centralidade da sua presença na história71. Jesus Cristo assume nossa história no seio de um povo e de uma cultura. Vive conscientemente a experiência do agir salvífico de Deus no mundo e o expressa em sua pessoa, em seu ministério pelo Reino e, de forma radical e suprema, na sua entrega na cruz. No poder do mesmo Espírito é que a obra evangelizadora da Igreja continua a missão de Jesus. Presente na inauguração dos tempos messiânicos, ele manifesta a Igreja aos povos em Pentecostes, para que da dispersão se forme um só povo sobre o fundamento que é Cristo.

 

84.          Edificada sobre esse fundamento, que é Cristo, e sobre os Apóstolos, testemunhas da Ressurreição, a Igreja se estrutura nos diferentes contextos históricos, na variedade multiforme dos tempos e dos povos, como "sacramento", ou seja, "sinal e instrumento" de comunhão profunda dos homens com Deus e entre si. Ele deseja, dessa forma, iluminar "com a claridade de Cristo que resplandece em sua face"72 o caminho dos povos e das culturas.

 

3. Caminhos da evangelização

 

85.          A evangelização, como obra da Igreja no mundo, só se compreende no horizonte do mistério da comunhão trinitária. Ela se explica pela missão do Filho e do Espírito como sinal do amor de Deus Pai para conosco. Ela tem como protagonista o próprio Espírito, enviado pelo Pai e pelo Filho como expressão do supremo interesse de Deus por nós. O evangelizador humano, pois, é sujeito de um agir divino no mundo, colocando a serviço do plano de Deus suas potencialidades humanas, seus talentos. Ele não é o centro da ação evangelizadora, mas simples operário de Cristo e administrador dos mistérios de Deus73. Ele é chamado a realizar essa missão sublime em perfeita obediência e docilidade ao Espírito.

 

86.          Enquanto Jesus de Nazaré atuou dentro de um povo concreto, num tempo determinado, na singularidade de sua pessoa e de seu ministério, o Espírito do Senhor Ressuscitado se faz presente e operante em todo tempo e lugar, na diversidade de contextos e situações humanas. Desse modo, ele vai moldando os tempos e a história para o Reino em Cristo. Sendo assim, o critério fundamental da evangelização é a aproximação às situações concretas, aos contextos de todos e de cada um dos seres humanos, ou seja: a contextualização da evangelização.

 

87.          Esse processo exige um aprendizado constante a fim de se descobrir em cada situação a pessoa humana "como primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento de sua missão"74. Para tanto não são suficientes as técnicas de aproximação ao destinatário do Evangelho. É preciso, acima de tudo, uma atitude de espírito, evangelicamente respaldada pela experiência de fé pessoal, no seguimento de Jesus Cristo, e uma abertura aos outros, pela qual o evangelizador se coloca como servidor de Deus, servindo aos outros, em especial, aos mais necessitados.

 

a) Inculturação75

 

88.          O processo de penetração do Evangelho no quotidiano de um povo, de tal forma que ele possa expressar sua experiência de fé em sua própria cultura, é chamado de inculturação. Ela não é uma etapa prévia da evangelização, mas uma dimensão que a acompanha permanentemente, pois o Evangelho transcende toda cultura e a questiona. "Jesus Cristo é, com efeito, a medida de toda a cultura e de toda obra humana"76.

 

89.          A inculturação é, na verdade, um processo globalizante e complexo, que "integra tanto a mensagem cristã como a reflexão e a práxis da Igreja"77, conduzido pelo Espírito, como um imperativo do seguimento de Jesus78. Por ele, "a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e, simultaneamente, introduz os povos, com suas culturas, na sua própria comunidade, transmitindo-lhes seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro"79. Por esse processo as comunidades eclesiais, em formação, "poderão exprimir, progressivamente, a própria experiência cristã, em modos e formas originais, em consonância com as próprias tradições culturais"80.

 

90.          A inculturação, na verdade, deve ser compreendida em analogia com a encarnação81. Na encarnação, o Filho de Deus vem desde o Pai e se insere na história humana, partilhando da sua fragilidade, marcada pelo sofrimento, pelo pecado e pela morte, assumindo-a para redimi-la. Na inculturação, o evangelizador parte do Evangelho assimilado em sua própria cultura. A comunicação do Evangelho se dá no interior de um diálogo intercultural entre o evangelizador e o sujeito histórico da cultura. Acolhendo a fé, ele se torna também sujeito da evangelização inculturada. Esse diálogo enriquece tanto o evangelizador quanto o evangelizado, num intercâmbio e numa interação enriquecedora. Por outro lado, a cultura que acolhe o Evangelho é redimida e purificada, num processo pascal de morte para seus aspectos negativos, provenientes do pecado. Desse processo surge uma cultura renovada pelo sopro de Pentecostes para uma nova e mais plena forma de realização humana82.

No intercâmbio, o que se transmite fundamentalmente é a fé. Não é uma idéia abstrata, mas a certeza de que Deus está presente e atua em cada cultura.

 

 

b) Exigências intrínsecas da evangelização

 

91.          Impulsionada pelo Concílio Vaticano II e pela experiência dos anos que se lhe seguiram, a Igreja se defronta mais lucidamente com novas situações e novos desafios para a evangelização. Ela toma consciência, de um lado, das exigências intrínsecas da evangelização; de outro, da unidade profunda que deve presidir a todo o processo de evangelização inculturada83.

 

92.          A primeira exigência da evangelização é, pois, o serviço, como testemunho do amor gratuito de Deus para com cada pessoa humana. Por ele se reconhece a dignidade fundamental do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. Pelo serviço ao mundo, a Igreja se solidariza com as aspirações e esperanças da humanidade, levada pela "fome e sede de justiça", a colocar-se a serviço da causa dos direitos e da promoção da pessoa humana, especialmente dos mais pobres, em vista de uma sociedade justa e solidária.

 

93.          A segunda exigência consiste em abrir-se ao diálogo, não como mera tática de conquista ou como jogo de interesses, mas como reconhecimento do real valor do outro como pessoa humana, querida e amada por Deus84. O diálogo supõe reconhecer o outro como diferente de nós mesmos, como interlocutor, sujeito de valores que pertencem desde já ao Reino. O diálogo é exigido "pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito operou em cada homem"85. Assim, o reconhecimento da presença operante do Espírito de Deus nos fiéis de outras religiões constitui o fundamento teológico do diálogo inter-religioso.

 

94.          O diálogo supõe maturidade na fé, pela qual, abrindo-se ao diferente a partir da própria identidade, o fiel possa oferecer ao interlocutor o testemunho de vida coerente com o Evangelho. Nesse contexto, diálogo e missão não se excluem. Antes, exigem-se mutuamente, de tal forma que o diálogo deve ser considerado como constitutivo da própria missão. De fato, o evangelizador se encontra com pessoas humanas, ricas de experiência cultural e religiosa.

 

95.          A terceira exigência é o anúncio explícito de Jesus Cristo e de seu Evangelho. "A Igreja não pode esquivar-se ao mandato explícito de Cristo, não pode privar os homens da "Boa-Nova" de que Deus os ama e salva"86. O centro e o ápice do dinamismo evangelizador da comunidade eclesial há de ser sempre "uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus"87. Deve-se notar que o anúncio é um acontecimento salvífico em que ouvintes já despertados para a esperança do Reino, são chamados a participar na comunhão visível com a Igreja.

 

96.          A quarta exigência situa-se na vivência comunitária da fé eclesial, de tal modo que as comunidades cristãs sejam "sinal da presença divina no mundo"88. A comunidade cultiva sua ligação profunda com o mistério de Deus em Cristo, pela fé vivida no quotidiano de suas tarefas humanas; alimenta a fé na celebração da Palavra e dos sacramentos; e se fortalece, dessa forma, para o serviço ao mundo, articulando dons, carismas e ministérios para a plena realização da sua missão evangelizadora. Assim a comunidade eclesial torna-se, pela Palavra de Deus, pela celebração da Sagrada Liturgia e pelo serviço às pessoas, especialmente aos pobres, lugar privilegiado de encontro com Cristo89.

 

97.          A comunidade cristã promove a educação pessoal e comunitária, progressiva e contínua, orgânica e sistemática do cristão na fé, na esperança e na caridade, pela constante interação entre Palavra de Deus, as formulações da fé cristã e as situações da vida. Ela interliga, dessa forma, a experiência da fé com o crescimento da vivência eclesial, nos níveis pessoal, comunitário e social.

 

98.          Como comunidade sacerdotal, organicamente estruturada pelos sacramentos, celebra os mistérios da fé. Colocando no seu centro a memória do Mistério pascal de Cristo e dos cristãos, que revela o amor do Pai para conosco e nos comunica o seu Espírito, a liturgia é fonte de comunhão com a Trindade e nos envia à missão para proclamar o mistério de Cristo até que ele volte90.

 

99.          Por fim, a Igreja alimenta constantemente a consciência de que a unidade com Deus em Cristo, fundamento e alicerce da vida eclesial, há de ser vivida como comunhão entre irmãos na fé, entre comunidades vivas e apostólicas, entre Igrejas Particulares que buscam alimentar constantemente a corresponsabilidade de todos os batizados no anúncio do Evangelho. Essa comunhão profunda se expressa nos diversos níveis de articulação eclesial, desde a colegialidade episcopal afetiva e efetiva para os Bispos, à partilha de corresponsabilidade colegial no presbitério por parte dos presbíteros, aos diáconos em comunhão com as Igrejas Particulares e às mais diferenciadas comunidades eclesiais, grupos apostólicos ou movimentos eclesiais inseridos em seus variados contextos.

 

100.        Essa unidade vivida na Igreja Católica não dispensa o esforço de buscar, com perseverança e confiança na graça de Deus, a comunhão com outras Igrejas e comunidades eclesiais91. Inspirada pelo documento conciliar Unitatis Redintegratio, a Igreja sabe que "esta unidade consiste na profissão de uma só fé, na celebração comum do culto divino, na concórdia fraterna da família de Deus". E mais, que tal unidade "exige uma plena comunhão visível de todos os cristãos, sem sacrificar a rica diversidade de espiritualidade, de disciplina, de ritos litúrgicos e de elaboração da verdade revelada que se desenvolveram entre os cristãos, na medida em que essa diversidade se mantenha fiel à tradição apostólica"92.

 

101.        A evangelização, como bem ressaltou a Evangelii Nuntiandi, é uma realidade "rica, complexa e dinâmica", da qual nenhuma definição parcial chega a dar razão93. A descrição que aqui fizemos da evangelização poderia ser completada, a partir de outros pontos de vista. Vamos concluir citando mais uma exigência da evangelização, que textos do Magistério apontam como a primeira94, mas que podemos considerar como um aspecto que se expressa através de todos os que já mencionamos: serviço, diálogo, anúncio, vivência comunitária. Queremos falar do testemunho de vida. Ele é insubstituível95, pois não poderia convencer os outros quem não vive a própria fé. Ele é eficaz, como já lembrava São Pedro, "para que, se alguns não obedecem à Palavra, venham a ser conquistados, sem palavras, pelo comportamento"96.

 

 

c) Uma nova evangelização

 

102.        No limiar do terceiro milênio do cristianismo, o papa João Paulo II convida-nos para "um novo programa que, no seu conjunto, pode definir-se como 'nova evangelização' "97. Há tempos ele observara que, além dos destinatários específicos da missão "ad gentes" e daqueles fiéis e comunidades que realmente "são fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente"98, "especialmente nos Países de antiga tradição cristã, mas também nas Igrejas mais jovens, (há) grupos inteiros de batizados que perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do seu Evangelho"99. Já o Concílio Vaticano II acenava a situações que requerem de novo a "ação missionária" da Igreja100.

 

103.        Na verdade, estamos diante de tempos novos que "apresentam problemas e dificuldades mais graves em relação àqueles descritos pelo Concílio na Constituição Pastoral Gaudium et Spes"101, tais como o indiferentismo religioso, o ateísmo, o secularismo102, o consumismo103, o fenômeno de novos movimentos religiosos que se espalham como resposta a aspirações e necessidades religiosas que não podem facilmente extinguir-se104. Tudo isso revela profunda crise de fé no mundo atual.

 

104.        Estamos diante de novos contextos, num mundo plural tanto do ponto de vista cultural quanto religioso. Esse mundo de fenômenos sociais e áreas culturais novos ou modernos areópagos desafia hoje o impulso missionário da Igreja e lhe apresenta novas prioridades para a evangelização. A comunidade eclesial, provocada pelo Espírito, não deve temer essas novas dificuldades, mas reconhecer nelas novas chances para a obra evangelizadora, renovando seu ardor, seus métodos e suas expressões, e empenhando "com força particular a ação dos fiéis leigos".

 

105.        No contexto da sociedade brasileira, à luz dos nossos 500 anos, uma nova evangelização exige superar os limites históricos do nosso cristianismo, por um empenho mais profundo na articulação entre fé e vida; pela superação do "mais devastador e humilhante flagelo" da miséria extrema105 a que são submetidos milhões de brasileiros, atingidos por diversas formas de exclusão social, étnica e cultural, através da promoção da justiça e da libertação integral; pela renovação da experiência viva da fé através de uma evangelização inculturada106, visando refazer o tecido cristão das comunidades eclesiais.

 

106.        A evangelização nesses novos contextos exige, além da renovação das atuais estruturas pastorais e a criação de novas que correspondam às exigências de uma nova evangelização, novo ardor, novos métodos, novas expressões e, sobretudo, uma espiritualidade que torne a Igreja cada vez mais missionária.

 

107.        "A nova evangelização visa, em novos contextos, recriar a experiência cristã para uma nova síntese entre fé e vida, fé e história, no quotidiano de uma comunidade ou de um povo: primeiro, como experiência pessoal de Deus em Jesus Cristo, refazendo a unidade entre a dimensão contemplativa e orante e o quotidiano da vida, unidade enfraquecida ou mesmo perdida no contexto do mundo secular; segundo, como processo para refazer o tecido cristão das comunidades eclesiais, formando assim comunidades maduras, alimentadas pela escuta da Palavra de Deus e a celebração da Liturgia; terceiro, como impulso às comunidades cristãs para saírem de suas próprias fronteiras para um novo compromisso com a missão da Igreja no mundo."107

 

4. Sujeitos da Evangelização

 

108.        A tarefa da evangelização hoje pede uma nova resposta à pergunta sobre os portadores da missão evangelizadora da Igreja. Quem deve assumir na Igreja a tarefa da evangelização? Tradicionalmente tal tarefa foi levada adiante, em grande parte, por pessoas e grupos que cultivavam e viviam sua vocação missionária em situações de fronteira. Assim, a primeira evangelização do continente latino-americano teve generosos protagonistas membros de Ordens religiosas ou do clero108. Hoje, a renovação da consciência eclesial e da responsabilidade missionária do povo de Deus, que se expressa exemplarmente nas orientações do Concílio Vaticano II, amplia os sujeitos eclesiais da missão, passando da missão de alguns para a missão de todos. O desafio para a Igreja hoje está justamente em despertar cada batizado e cada comunidade eclesial para essa responsabilidade primeira e intransferível.

 

109.        A principal responsabilidade da renovação missionária de toda a Igreja está na Igreja Particular (que geralmente é a Diocese). Ela é o principal sujeito histórico da missão evangelizadora, como Igreja encarnada num espaço humano concreto, atenta às "sementes do Verbo" presentes na realidade humana, nas culturas e na busca religiosa do povo no qual ela se insere como fermento evangélico. Pela sua proximidade à realidade humana, cabe-lhe a tarefa da inculturação da fé109.

 

110.        A consciência missionária da Igreja Particular aprofunda-se por uma nova compreensão da missão como comunhão entre Igrejas, em substituição a uma visão de submissão e dependência entre Igrejas que "enviam missionários" e Igrejas em formação, que "acolhem missionários". Tanto umas como outras, num caminho de dupla direção, se enriquecem e se edificam como Igreja de Cristo no dar e no receber110.

 

111.        Na Igreja Particular todos são constituídos sujeitos da missão pela graça do Batismo e da Crisma. Tornar cada batizado sujeito ativo da missão constitui realmente a meta da ação pastoral e tarefa indispensável para fazer frente aos novos contextos da missão evangelizadora. No entanto, na Igreja sempre há quem é chamado à evangelização "ad gentes", enviado aos povos que ainda não receberam a pregação do Evangelho ou às Igrejas ainda carentes de ajuda.

 

112.        A primeira evangelização deu-se num momento cultural diverso do de hoje. Então, a religiosidade e a religião estavam no centro da sociedade e das culturas. Havia uma certa conaturalidade entre Evangelho e as culturas, impregnadas pela busca religiosa dos povos. O drama da nossa época, na Palavra de Paulo VI, revela uma "ruptura entre o Evangelho e a cultura"111. Para fazer frente a tal situação, o projeto da nova evangelização convoca os fiéis leigos para assumirem o papel de protagonistas, impregnando com o fermento novo do Evangelho as realidades terrestres em que estão inseridos no trato quotidiano com a economia, a política e a cultura. Com ele devem modificar "os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação"112.

 

113.        Situar o mundo como horizonte concreto da missão, e os cristãos leigos como atores da missão evangelizadora, exige levar adiante o projeto de renovação da Igreja, fazendo com que suas estruturas respondam às exigências do mundo de hoje. A Igreja não pode, pois, ficar voltada sobre si mesma ou sobre alguns de seus membros, mas deve, com olhar firme na meta, o Reino, voltar-se para o mundo, em atitude de serviço, envolvendo todos os seus membros, conforme seus dons e capacidades.

 

 

5. Espiritualidade

 

114.        A missão evangelizadora exige não só estruturas adequadas, mas também que os sujeitos sejam alimentados por uma espiritualidade missionária conforme a própria vocação, os dons, carismas e ministérios recebidos do Espírito para a realização do Reino. Técnicas e instrumentos são importantes, mas não substituem a "ação discreta" do Espírito Santo que faz arder o coração do seguidor de Jesus e o coloca no caminho dos irmãos para expressar sua experiência113. Fazem parte da própria missão evangelizadora a alimentação interior que sustenta a eficácia de seu agir, a fidelidade ao Evangelho e a autenticidade do testemunho.

 

115.        A ação evangelizadora e pastoral, como serviço da missão e obediência ao Espírito, exige do evangelizador cuidar da própria competência. Exige sábia aplicação dos instrumentos modernos, com critérios evangélicos. Mas nada substitui a experiência do Deus vivo no encontro com Cristo vivo, alimentando-se constantemente pela escuta da Palavra de Deus tanto no livro da Escritura quanto no livro da vida; pela participação na Eucaristia e demais celebrações; pela oração generosa e aberta a Deus e à sua presença na realidade humana; pelo abandono ao Espírito que precede a ação do evangelizador, assiste-o, quotidianamente, confortando-o nas dificuldades e mesmo nos fracassos; enfim, pela doação de si mesmo no serviço aos demais.

 

116.        Seguir a Cristo no mundo de hoje, complexo e fragmentado, comporta superar certo tipo de espiritualidade negativista e passiva. Uma espiritualidade cristã para o novo milênio exige um processo de esvaziamento de si mesmo114, que estimule aqueles dinamismos pessoais e sociais pelos quais sejamos capazes, por graça divina, de superar o individualismo e a fragmentação: a abertura aos outros, reconhecidos em sua dignidade inalienável, sujeitos de valores; a atitude de diálogo, entrando numa dinâmica de interação ou intercâmbio na busca dos sinais de Deus nos caminhos de mulheres e homens hoje; a solidariedade pela qual se renova o tecido da sociedade humana, a partir da família e nas diversas comunidades humanas, pela vivência do amor e da fraternidade.

117.        Num mundo saturado por propaganda e informações de toda espécie, percorrido por discursos e apelos religiosos variados e, no mais das vezes, contraditórios; num mundo cansado de tantos mestres, o evangelizador hoje deve ser, antes de mais nada, testemunha mais do que mestre. Será "pelo testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo", que ele há de evangelizá-lo115.

 

CAPÍTULO III

 

NOVOS DESAFIOS DA REALIDADE

 

 

Sumário:

 

Diante das mudanças profundas e rápidas que caracterizam a sociedade de hoje, o evangelizador não deve cair na incerteza ou no imediatismo, mas se esforçar para compreender os novos desafios.

 

1. Mudanças sócio-econômicas recentes

A inserção do Brasil na economia "globalizada" e suas conseqüências: dívida externa; crise da moeda; novos desafios.

A realidade brasileira nos anos 90: população; redução da natalidade; migrações; urbanização; crescimento das cidades médias; concentração da renda; aumento do trabalho feminino e de menores; economia informal; pobreza; índice de desenvolvimento humano; educação; crime e violência.

2. Causas das mudanças e perspectivas

Novo contexto internacional; enfraquecimento do Estado e dos partidos; obstáculos à participação; aumento da violência; exclusão; desemprego.

Por uma retomada do primado da política sobre a economia.

3. Mudanças culturais

Características do processo de modernização; tecnologia e consumismo; crise atual da modernidade ou pós-modernidade; pluralismo cultural; individualismo.

Resistências culturais e avanço da modernidade nas grandes cidades e entre os jovens.

4. Crise ética

Crise da ética pública e subjetivismo ético na vida privada.

As conseqüências negativas do relativismo ético e a necessidade de conciliar liberdade e verdade.

5. Pluralismo religioso

A religiosidade continua fortemente presente na cultura brasileira, mas se acentua o pluralismo das crenças.

Um quadro da situação: o número dos católicos; a diferenciação interna do catolicismo; as outras religiões; as grandes cidades; as diferenças regionais.

Uma análise qualitativa aponta três tendências: 1) a religião "invisível" (sem práticas externas), intimista e individualista; 2) a religião sectária, fundamentalista e rigidamente enquadrada; 3) a permanência nas igrejas tradicionais, mas em forma "renovada"

Novas tendências sob o impacto da mídia.

Um quadro complexo — sócio-cultural e religioso — desafia a evangelização.

 

118.        É objetivo desse capítulo salientar os traços e as tendências da nossa sociedade, que mais diretamente questionam a nossa responsabilidade pastoral. Temos consciência de que se trata de uma situação complexa no presente e incerta quanto ao futuro.

 

119.        Diante disso, há cristãos e agentes de pastoral que assumem atitudes passivas e resignadas, olhando com ceticismo para uma realidade que não conseguem compreender. Outros refugiam-se numa atitude imediatista, lutando por valores em que acreditam, mas a partir de uma visão simplificada da sociedade, sem cuidar de compreender sua diversidade e de se abrir ao diálogo com outros grupos. Há também cristãos que, movidos pela fé, buscam a transformação da sociedade, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja. Para isso, envolvem-se na luta pela justiça social, para que se realize um novo modelo de sociedade fraterna e solidária, segundo o projeto de Deus.

 

120.        A posição correta do cristão é aquela que une o esforço de compreensão racional dos acontecimentos com a firme esperança no Senhor da história e na presença já atuante do Reino de Deus. Trata-se, portanto, de uma atitude de vigilância constante, de atenção à emergência do que é novo, sem confiar excessivamente em esquemas de interpretação da realidade social que freqüentemente falham quando pretendem prever o curso da história. A atitude cristã é, necessariamente, empenho perseverante pela transformação da sociedade rumo à realização dos autênticos valores humanos e invocação constante — como na oração de Jesus — da vinda do Reino.116

 

1. Mudanças sócio-econômicas recentes

 

121.        Nos últimos quatro anos, o Brasil se inseriu mais efetivamente na economia "globalizada", ou seja, no mercado internacional, que no momento atual não é regulado por uma ordem jurídica adequada. A "desregulamentação" do mercado é justificada pela ideologia do neoliberalismo117. Dessa inserção, o Brasil percebeu mais vivamente as conseqüências, positivas e negativas, como notou o Santo Padre no Sínodo dos Bispos para a América: "A tendência à globalização é característica do mundo contemporâneo... Trata-se de um processo gerado pela maior comunicação existente entre as diversas partes do mundo, na prática levando à superação das distâncias, com evidentes efeitos nos mais distintos campos. As repercussões, do ponto de vista ético, podem ser positivas ou negativas. Existe, certamente, uma globalização econômica que traz em si algumas conseqüências positivas, tais como o fenômeno da eficiência e o aumento da produção e que, com o crescimento das relações entre os diversos Países no âmbito econômico, pode reforçar o processo da unidade dos povos e prestar um melhor serviço à família humana. Porém, se a globalização for dirigida pelas puras leis do mercado, aplicadas conforme a conveniência dos mais poderosos, as conseqüências só podem ser negativas. Tais são, por exemplo, a atribuição de um valor absoluto à economia, o desemprego, a diminuição e a deterioração de alguns serviços públicos, a destruição do ambiente da natureza, o aumento das diferenças entre ricos e pobres, a concorrência injusta que põe as nações pobres numa situação de inferioridade sempre mais acentuada."118

 

122.        Nos anos 1994-1996, o Brasil reduziu a inflação e atraiu capitais estrangeiros; por outro lado, cresceu a dívida externa, hoje superior aos 200 bilhões de dólares119, e com a elevação dos juros aumentou a dívida interna120. A sobrevalorização do real facilitou as importações, contribuindo para eliminar a inflação, mas dificultou as exportações, gerando déficit na balança comercial e a redução de atividade na indústria. Este último fato, junto com as inovações tecnológicas, contribuiu para o aumento do desemprego. As crises das economias asiáticas em 1997 e da economia russa em 1998 geraram uma fuga dos capitais internacionais dos mercados emergentes e também do Brasil, cuja moeda foi levada a grave desvalorização, em condições desfavoráveis, no início de 1999. Esta desvalorização pode anular muitos dos progressos obtidos. Além disso, traz previsões de recessão na economia e aumento do desemprego121.

 

123.        A crise não deve ser enfrentada pela sociedade brasileira com pessimismo. Pelo contrário, a esperança de dias melhores e de uma sociedade mais justa deve impulsionar a todos na busca de uma retomada do desenvolvimento econômico, que produza reais progressos no plano da justiça social e distribuição da renda. A retomada desse caminho exige ampla discussão dos rumos a serem dados, das políticas a serem adotadas, das medidas mais adequadas ao crescimento do País. A tal discussão, a Igreja no Brasil não pretende dar contribuição técnica, mas quer contribuir com princípios éticos, reafirmando a primazia da pessoa humana sobre a economia, e fazendo da esperança cristã uma força que sustenta o povo na sua luta cotidiana122.

 

124.        Temos consciência da complexidade dos problemas e das dificuldades em achar soluções. Por isso lembramos aqui brevemente alguns itens daquilo que está em debate:

como superar a crescente dependência do País de financiamentos internacionais? como evitar que o pagamento da dívida externa sufoque as possibilidades de investimento do País?

como concretizar a poupança interna e, mais ainda, um estilo de vida sóbrio, nas classes sociais que expandiram desmedidamente o consumo? como desenvolver o mercado interno, controlando mais eficazmente o fluxo das exportações e importações, visando à preservação do interesse nacional, dentro da economia mundial "globalizada"?

como orientar uma política contra o desemprego e subemprego, seja fortalecendo as pequenas empresas; seja com investimentos nas áreas econômicas que podem gerar maior número de empregos; seja prevendo maior proteção dos trabalhadores que são empregados precária e ilegalmente; seja multiplicando as oportunidades de formação e reciclagem para trabalhadores demitidos por alguns setores da economia, seja aumentando o subsídio aos desempregados que, de fato, não conseguem a reinserção no mundo do trabalho?

como concretizar as políticas sociais (saúde, educação, seguridade...), de tal forma que garantam a todos pelo menos os serviços indispensáveis e gerem, por sua vez, novos empregos, inclusive através da criação das infra-estruturas (distribuição de água e esgoto, construção de escolas e habitações populares, transportes, etc.) necessárias ao desenvolvimento social e humano do País123?

 

 

REALIDADE BRASILEIRA NOS ANOS 90

 

A perspectiva global da economia brasileira no final dos anos ´90 não deve fazer esquecer as numerosas e, às vezes, profundas alterações que se deram no interior da nossa sociedade ao longo da última década.

 

POPULAÇÃO

 

A população aumentou de 147 milhões de habitantes (censo de 1991) para 157 079 573 (contagem do IBGE de 1º de agosto de 1996) e para 162,5 milhões (estimativa para o início de 1999). A taxa anual de crescimento da população foi de cerca de 3% de 1950 a 1970 e de 2,5% entre 1970 e 1980, caiu para 1,9% de 1980 a 1991 e está agora abaixo de 1,4%124.

Uma das conseqüências da redução da natalidade, combinada com o aumento da expectativa de vida125, é a modificação da "pirâmide" da idade da população: diminui o número das crianças e cresce o número dos idosos, que são cerca de 13,5 milhões em 1997 (8,7% da população); isso também diminui a pressão da demanda por serviços à infância, mas exige com urgência atenção e serviços para a terceira idade.

 

NATALIDADE

 

A diminuição da natalidade está ligada a uma queda violenta da taxa de fecundidade, que passou da média de 4,4 filhos por mulher em 1980 para 2,7 filhos em 1991 e 2,4 em 1997 (pesquisas recentes entre os jovens confirmam que a grande maioria dos novos casais quer apenas dois filhos).

A queda da fecundidade está relacionada com a situação econômica (a renda média do brasileiro era, em 1991, inferior à de 1980) e com o uso de anticoncepcionais.

Segundo pesquisa do IBGE de 1986, 22% das mulheres entre 15 e 54 anos usavam métodos anticoncepcionais; 15,8% estavam esterilizadas e 61,2% não usavam anticoncepcionais — 1% não informou; em 1996, a pesquisa do IBGE a domicílio (PNAD) encontrava, nas mulheres entre 15 e 49 anos que vivem em união, 40,1% de esterilizadas e 76,7% que usavam algum método anticoncepcional (aí incluída a esterilização). Portanto, em dez anos, o número das mulheres esterilizadas aumentou cerca de 150% e o número das mulheres que usam algum método anticoncepcional aumentou um pouco mais de 100%.

 

URBANIZAÇÃO

 

A população urbana passou de 67,6% (1980) para 75,5% (1991) e 78,4% (1996), enquanto a população rural diminuiu, seja em números relativos (de 32,4% em 1980 para 21,6% em 1996), seja em números absolutos (de cerca de 38,5 milhões para 34 milhões, no mesmo período). Também continuam intensos os movimentos migratórios: milhões de trabalhadores deslocam-se, em busca de sobrevivência, para as safras agrícolas, para as grandes obras, para os serviços em geral.

Entre 1980 e 1991, o aumento maior da população deu-se nos municípios entre 100 000 e 500 000 habitantes (+ 30,4%), enquanto cresceu menos a população nos municípios com menos de 100 000 habitantes (+ 22,3%) e, principalmente, nos municípios com mais de 500 000 habitantes —  (+ 18%), o que é confirmado pelo pequeno crescimento das grandes capitais (Rio de Janeiro, Recife, S. Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília...), embora as regiões metropolitanas tenham tido um aumento levemente superior à média global, graças ao crescimento dos municípios ao redor do centro metropolitano.

 

ECONOMIA

 

À diferença dos anos '70 e mesmo do período 1945-70, a economia brasileira pára de crescer rapidamente, entrando numa fase de estagnação e crise nos anos '80; o resultado é que os brasileiros, em 1991, são — em média — mais pobres que em 1980; a renda per capita é cerca de 5% inferior à de dez anos antes; a situação não é pior por diversos motivos, como a queda da natalidade, o aumento do número das pessoas que trabalham, a expansão da "economia informal", etc.; nos anos '90, alternam-se períodos de estagnação e períodos de crescimento; o IBGE calcula que o PIB (produto interno bruto), no final de 1998, tenha crescido 20,72% respeito a 1990; considerando-se que, no mesmo período, a população cresceu cerca de 12%, o aumento da renda "per capita" (ou seja, por pessoa) se reduz a 7,8%; como já vimos, o ano de 1998 foi de declínio da renda "per capita", declínio que deve se acentuar em 1999. Assim a renda média dos brasileiros no final de 1999 será praticamente a mesma de 1980.

 

DISTRIBUIÇÃO DA RENDA

 

Na realidade, na década de '80, se o nível médio dos rendimentos caiu um pouco, a situação melhorou para os ricos e piorou para os pobres, contribuindo para tornar a distribuição de renda no Brasil uma das mais perversas no mundo; o IBGE calcula que 1% dos brasileiros mais ricos em 1990 detinha 13,9% da renda nacional (contra 12,1% em 1981), enquanto os 50% mais pobres só dispunham de 12,1% (contra 14,5% em 1981); isto significa que a renda média por pessoa era de 2 885 dólares em 1990, mas o 1% mais rico tinha uma renda anual de 40 100 dólares e os 50% mais pobres, uma renda anual inferior a 700 dólares (ou 58 dólares por mês); na década de '90, a estabilização da moeda e a eliminação da inflação nos anos 1994-1997 parecem ter beneficiado os mais pobres e ter contribuído para uma melhoria do "índice de desenvolvimento humano", como registrava a pesquisa da ONU126. Mas são justamente essas conquistas que estão ameaçadas pelos últimos acontecimentos (desvalorização, recessão, desemprego...).

 

TRABALHO FEMININO E INFANTIL

 

O empobrecimento exerce uma pressão que faz aumentar, nas famílias pobres ou de classe média-baixa, o número das pessoas que trabalham. Aumenta especialmente a mão-de-obra feminina: entre as mulheres, a porcentagem das que trabalham fora de casa passou de 32,9% para 39,2% na década de '80; em 1997, o número tinha subido para 47,2%127. O número de crianças e adolescentes que trabalham não aumenta em termos relativos (também pelo envelhecimento da população), mas é muito expressivo, um dos mais altos da América Latina, com quase 3 milhões de crianças de 10 a 14 anos e 4,4 milhões de adolescentes, de 15 a 17 anos, trabalhando em 1990; até 1997, o trabalho infantil diminuiu, mas ainda assim envolvia 2,6 milhões de crianças entre 10 e 14 anos128.

 

SALÁRIOS E ECONOMIA INFORMAL

 

Outra mudança importante na economia diz respeito à redução do emprego no setor primário (agricultura) e secundário (indústria) e à expansão da população empregada no setor terciário (comércio, serviços...), que em 1996 absorvia 55,6% da população ativa. Essa mudança é acompanhada também por modificações no perfil do trabalho: os salários perdem parte de seu valor; aumenta o número dos trabalhadores sem carteira assinada129 e com remuneração baixa (sobretudo mulheres e jovens); aumenta o número dos trabalhadores autônomos, especialmente na chamada "economia informal" (quase duplica o número dos ocupados no comércio ambulante!).

 

POBREZA

 

Apesar desse esforço da grande maioria dos trabalhadores de garantir um rendimento mínimo para sobreviver, a pobreza — medida em termos de rendimentos — é extremamente grande; dos 29,5 milhões de pobres de 1980 (24,8% da população) se passa aos 39,2 milhões de 1990 (27% da população) [dados do IBGE, que considera pobre aquele que tem rendimento inferior a 1/4 do salário mínimo vigente]; a pobreza se concentra especialmente na área rural (onde atinge mais de 50% da população) e nas áreas metropolitanas, onde são evidentes as diferenças regionais: em 1990, Belém, Fortaleza e Recife têm mais de 40% de pobres em sua população; no Sudeste a situação é pouco consoladora: Rio de Janeiro: 32,2% de pobres; Belo Horizonte, 29,6%; São Paulo, cerca de 22%; no Sul, a situação é melhor: em Porto Alegre, os pobres são 20,9% da população; em Curitiba, 12,2%.

 

ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

 

As diferenças regionais são muito grandes também se considerarmos o IDH (índice de desenvolvimento humano) da ONU, composto com base em indicadores de renda, saúde e educação. O índice de 1995, um dos mais favoráveis dos últimos anos, alcançou 0,809 para o Brasil. Entre os Estados, o índice mais alto é o de 0,869 no Rio Grande do Sul (seguido imediatamente pelo Distrito Federal e São Paulo); os índices mais fracos são 0,534 para o Piauí, 0,538 para Alagoas, 0,547 para o Maranhão e 0,557 para a Paraíba130. A evolução das diferenças regionais, contudo, aponta, ao menos para o período 1970-1991, uma diminuição das distâncias: enquanto, em 1970, a diferença entre o Nordeste (IDH = 0,306, que é hoje o índice dos Países mais pobres do mundo) e o Sudeste (IDH = 0,570) era superior a 86%, em 1991 a diferença entre o Nordeste (IDH = 0,517) e o Sul (IDH = 0,777) ou o Sudeste (IDH = 0,775) era de cerca de 50%131.

A situação do Brasil e dos Estados se modificou para melhor sobretudo entre 1970 e 1980, quando o IDH (índice de desenvolvimento humano) brasileiro passou de 0,462 para 0,685 com um aumento de 48,2%; entre 1980 e 1991, não houve progresso em termos de renda (que caiu 0,5%), mas melhoraram sensivelmente os índices relativos à saúde (+ 20,1%) e à educação (+ 11,8%) e o IDH passou de 0,685 para 0,742 (aumento de 8,3%); finalmente, entre 1991 e 1995, o IDH subiu de 0,742 para 0,809 (+ 9,2%), puxado pelo índices de educação (+ 24%) e de saúde (+ 8,1%), enquanto o índice de renda ficava estável, igual ao de 1991132.

 

SERVIÇOS ESSENCIAIS

 

As melhorias estão ligadas à difusão de serviços essenciais: no período 1981-1996, o abastecimento de água tratada alcança 74,2%; a instalação sanitária com rede de esgoto passa de 38% para 63,6% dos domicílios; a coleta de lixo passa de 65,8% para 87,4%. Tudo isso — mais um intenso trabalho de assistência materno-infantil no qual se distinguiu a Pastoral da Criança — trouxe uma expressiva diminuição da mortalidade infantil (de 75 por mil para 37,5 por mil, em média) e um aumento da expectativa de vida. Mas as diferenças regionais e por classe social são muito altas133.

 

EDUCAÇÃO

 

A situação da educação melhora em alguns aspectos: entre 1981 e 1990, temos menos analfabetismo (que cai de 22,3% para 17,8% na população de 10 anos ou mais); aumenta o número das pessoas com 8 ou mais anos de estudos (de 18,3% para 25%); duplica a freqüência ao pré-escolar; aumenta a taxa de escolarização entre os 7 e os 9 anos (de 70% para 85%) e na faixa de 10-14 anos (de 78,7% para 84,2%); em 1996, a escolarização alcança 93% das crianças entre 7 e 14 anos; o analfabetismo nas pessoas de 15 anos ou mais cai para 14,7%; mas a escolaridade média da população é de apenas 5,4 anos e 66% do eleitorado brasileiro não concluiu o 1º grau.

 

CRIME E VIOLÊNCIA

 

Um indicador particularmente grave, que revela o esgarçamento do tecido social, é o aumento da violência e da criminalidade. De 1980 a 1996, a taxa de assassinatos dobrou no Brasil, passando de 13 para 25 por ano em cada 100 mil habitantes134. Mais impressionante é o fato de que esse índice sobe a 44,8 em cada 100 mil jovens entre 15 e 29 anos de idade e, na mesma faixa etária, chega a 215 mortes no Estado do Rio de Janeiro e a 134 no Estado de São Paulo. Estamos aqui evidentemente diante de um daqueles "pecados sociais que clamam ao céu", resultado do comércio de droga, tráfico de armas, corrupção, desigualdade social...135.

 

 

2. Causas das mudanças e perspectivas

 

125.        A situação brasileira nos anos '90 é determinada — ainda mais do que nos anos '80 — pela globalização da economia. Como vimos, uma conjuntura internacional favorável, entre 1994 e 1996, permitiu aos Brasil obter empréstimos externos. Mas a situação se inverteu e crises econômicas de vários Países, em 1997 e 1998, precederam a atual crise brasileira. Em todos esses casos, além das fraquezas internas de cada País, teve peso decisivo o comportamento especulativo do capital internacional, que busca ganhos fáceis através da desvalorização da moeda de Países emergentes ou que foge apressadamente dos lugares onde prevê queda dos lucros ou moratória nos pagamentos.

 

126.        A política adotada trouxe para o Brasil maior dependência do exterior — seja em relação a organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, G-7...), seja em relação a investidores privados — e também uma série de injunções na política interna, às vezes gravíssimas, como o extraordinário aumento dos juros, para atrair e remunerar o capital externo, a privatização, às vezes apressada, de empresas estatais, a restrição dos investimentos na área social etc. Trouxe também a sobrevalorização do real, invertendo o resultado da balança comercial. A eliminação da inflação interna custou o aumento das dívidas. Confirmou-se, assim, o fenômeno de enfraquecimento da autoridade do Estado nacional136, que não afeta apenas o Brasil, e a necessidade de estabelecer novas regras e nova ordem jurídica internacional para regular a economia mundial e o uso dos capitais137. Hoje, nesta economia "globalizada", o capital tem livre trânsito e fronteiras abertas para investir onde quiser, enquanto os trabalhadores encontram obstáculos de toda ordem para se deslocarem de uma região para outra e barreiras intransponíveis para cruzar as fronteiras do País.

 

127.        Nas atuais condições da economia mundial, a defesa do Estado nacional e a promoção do bem comum do povo parecem aconselhar não a adoção de formas rígidas de protecionismo, mas preferentemente alianças com Estados vizinhos e ampliação dos mercados, como por exemplo está se procurando fazer através do Mercosul.

 

128.        Outra conseqüência do domínio da economia sobre a vida social é o esvaziamento da participação política. Cresce no povo a convicção de que as grandes decisões estão nas mãos de poucos, especialmente dos que possuem muito dinheiro138 e cresce paralelamente o sentimento de que os políticos não são promotores eficazes do bem comum, mas instrumentos passivos da vontade de grandes empresas ou de interesses corporativos. Mais concretamente, o povo observa e sofre na carne os vícios de uma sociedade profundamente desigual: vê remunerações altíssimas para os dirigentes, tanto nas empresas privadas quanto nas instituições públicas, enquanto luta para sobreviver com um salário mingüado; vê a freqüente impunidade dos sonegadores e dos grandes criminosos, enquanto o cárcere recebe — em condições aviltantes e cruéis — os pobres; suspeita de freqüentes casos de corrupção além do que a mídia divulga, mas que a sociedade não consegue punir ou extirpar. Todas essas frustrações geram um perigoso clima de desconfiança para com as instituições democráticas, que, ao contrário, devem ser reforçadas e ampliadas.

 

129.        A participação política é dificultada também pela fragmentação da sociedade civil de um lado, e pela complexidade da administração pública ou pela ineficiência do Estado em muitas áreas. Infelizmente, o quadro atual não é muito diferente daquele de alguns anos atrás. Assim o que se tem visto, no Brasil, é que, ao lado de avanços democráticos, continua pesando sobre a vida pública a intervenção de grupos economicamente fortes, com interesses corporativos e restritos, que usam intensamente os meios de comunicação social de massa para influenciar a opinião pública, aproveitando-se da crise de credibilidade do sistema político tradicional. O cidadão, nestas circunstâncias, tende a virar mero espectador, enquanto os meios de comunicação apresentam sempre mais a vida pública de forma sensacionalista e espetacular, esvaziando ou escondendo as questões de real interesse geral.

 

130.        O empobrecimento das massas, o crescimento do crime organizado e do tráfico de drogas, o enfraquecimento do Estado, a persistência e até o revigoramento de uma cultura autoritária que despreza os direitos do fraco e o esgarçamento dos antigos vínculos comunitários têm gerado um assustador aumento da violência e da criminalidade, cujas vítimas são, antes de tudo, os jovens do proletariado urbano, mas também — em grande medida, principalmente nos casos de violência doméstica — as crianças e as mulheres. Testemunho disso são, nas cidades, os numerosos "meninos de rua" e a formação de "gangues" de adolescentes.139

 

131.        O resultado mais perverso de todas essas causas da crise social da atualidade é o fenômeno da exclusão (sobre o qual se debruçou a Campanha da Fraternidade de 1995 da Igreja no Brasil). A exclusão significa que o atual sistema econômico-político, que até há pouco era criticado pela exploração das massas de trabalhadores, tende agora a rejeitá-las, porque desnecessárias como mão-de-obra e desinteressantes como consumidores de baixa renda. Antes, chega a vê-las como perigosas para a sociedade e a considerá-las como criminosas em potencial, após tê-las marginalizado.

 

132.        Cabe relembrar o tema da Campanha da Fraternidade de 1999, "A Fraternidade e os Desempregados". Visa despertar uma atitude positiva para superar aquele que se configura como o problema social central das sociedades industriais avançadas, agora e nos próximos anos. No caso brasileiro, o problema se põe de forma aguda. Mas não faltam caminhos de solução. Segundo os diversos critérios de avaliação, o índice de desemprego aproxima-se de 10% da população (segundo IBGE), ou de 20% (segundo o DIEESE), sem ignorar os altíssimos índices de subemprego, empregos precários e de breve duração. As medidas a serem tomadas são numerosas: desde a política econômica social do Governo Federal, incluindo a Reforma Agrária, até a ação voluntária do povo que busca formas concretas de solidariedade aos desempregados e de geração de renda. Parece essencial sublinhar a importância, também para o futuro, da educação e formação profissional, sem as quais tornar-se-á sempre mais difícil a inserção no mercado de trabalho. Analistas mais críticos prevêem uma constante presença do desemprego, nos próximos anos, em decorrência de tecnologias industriais menos necessitadas de mão de obra e de políticas econômicas que valorizam o capital mais que o trabalho. Essa perspectiva deve incentivar ainda mais a busca e a implementação de políticas que ofereçam novas alternativas no combate ao desemprego.

 

133.        As perspectivas para o futuro próximo dependem principalmente das decisões políticas a serem tomadas. Somente uma enérgica retomada do primado da política — e, portanto, da ética na política: do bem comum, da democratização, do interesse público — sobre a economia e os interesses privados ou particulares poderá inverter as atuais tendências de uma sociedade que, abandonada à lei do mais forte, só pode caminhar para um aprofundamento das desigualdades, o acirramento dos conflitos, a difusão do arbítrio e da violência. Esta mudança não é possível sem uma transformação ética e cultural. Mas, antes de aprofundar essas perspectivas, é preciso completar nossa análise.

 

 

3. Mudanças culturais

 

134.        O processo de mudança cultural, que deu origem à "modernidade", dura há quatro ou cinco séculos nas sociedades ocidentais. Interessa-nos aqui colher seus traços característicos e sua influência atual na sociedade brasileira. A modernidade define-se, antes de tudo, por um processo de diferenciação da sociedade, que perde a unidade orgânica que a caracterizava no período pré-moderno, interligando profundamente cultura, religião, economia, política e vida quotidiana. Resultado dessa diferenciação, evidente nas últimas décadas, é a tendência dos "subsistemas" econômico e político a tornarem-se autônomos, auto-referenciais, sem vinculação com a ética e a religião (neste sentido a sociedade moderna é "secularizada"). Outra conseqüência é que a cultura, entendida aqui como o "mundo vital", onde as pessoas e os grupos formulam seus comportamentos e sua visão da realidade, passa a ser separada nitidamente do "sistema" econômico e político, o que abre espaço a um conflito entre cultura (vida) e sistema (organização da sociedade). Acrescente-se que, na sua formulação ideológica, esse conflito foi pensado por muitos como oposição entre uma conduta dominada pela tradição e uma conduta "moderna", dominada pela razão crítica e pela contínua experimentação do novo.

 

135.        Na modernidade, a tecnologia ocupa um lugar central e sempre mais decisivo. As sociedades tradicionais também dispunham de tecnologias, criadas a serviço da própria sociedade, para satisfazer suas necessidades. Na sociedade moderna, sobretudo nos últimos anos, assistimos a uma inversão paradoxal: não é mais a tecnologia que está a serviço de um projeto humano, mas ela determina os rumos da sociedade, põe as pessoas humanas ao seu serviço, cria novas necessidades. O resultado é contraditório: de um lado, a tecnologia trouxe indubitáveis vantagens à humanidade. "Tornou a vida mais fácil, mais limpa e mais longa". Por outro lado, o mau uso da tecnologia aumentou a desigualdade social e as discriminações, oferecendo a alguns mais do que necessitam e negando a muitos o mínimo necessário, condenando precocemente à morte milhões de seres humanos140. Um recente Relatório da ONU sobre o desenvolvimento (1994) atesta progressos relevantes: a extrema pobreza atinge ainda 32% da população mundial (contra 70% em 1960), enquanto um nível de vida satisfatório foi alcançado por cerca de 60% da população (contra 25% em 1960). Mas a distância entre pobres e ricos duplicou e 1 bilhão de pessoas gozam de uma renda 60 (sessenta) vezes superior à renda do bilhão de pessoas mais pobres. Junto com a desigualdade cresceram as guerras, a violência, o consumo de drogas, o crime organizado.

 

136.        A influência da tecnologia manifesta-se crescentemente também nos âmbitos mais característicos e pessoais da vida humana, como o nascimento e a morte. Um recente documento ecumênico assim a descreve: "Nos últimos trinta anos, por exemplo, as inovações técnicas e científicas transformaram radicalmente as condições concretas em que os seres humanos nascem e morrem no "mundo ocidental". O progresso da medicina, mais do que qualquer ideologia filosófica, influiu em nossa maneira de ver o início e o fim da vida humana. Antigamente, a procriação e o nascimento de uma criança dependiam sobretudo da "sorte", de modo que os pais depositavam sua confiança na Divina Providência. Hoje, a crescente capacidade de controle do nascimento permite que se "planeje" a criança. Muito antes do parto, têm-se imagens que mostram se a criança é um menino ou uma menina. Além disso, o nascimento ocorre no ambiente médico, longe do lar familiar. Do mesmo modo, no outro extremo da vida, sociedade alguma conheceu tanta longevidade, tal proporção de pessoas idosas. Sociedade alguma afastou a tal ponto a morte do ambiente familiar: cerca de 70% das pessoas do mundo ocidental morrem num hospital, num ambiente técnico e médico".141 Mesmo se tais fatos ainda não atingiram igualmente todas as regiões do Brasil, podemos prever seu avanço e vale também para nós a conclusão do documento: "Transformações de tal envergadura exigem de nós que encaremos ativamente os desafios e aprendamos, enquanto comunidade cristã, a responder a eles em nossa pregação, em nossa liturgia e em nosso serviço".

 

137.        O domínio da natureza pela tecnologia tem oferecido aos seres humanos a possibilidade de planejar e limitar os nascimentos ou apressar a morte. Quando hoje se enfraquecem o sentido de Deus e a visão da vida como dom, chega-se por parte de muitos a praticar abortos e a pedir a legalização da eutanásia, práticas que o magistério da Igreja condena com vigor142.

 

138.        Talvez a maior influência da tecnologia e da nova organização econômica da sociedade, que a tecnologia favoreceu, manifeste-se no fenômeno do consumismo. O consumismo não é apenas um excesso de consumo de bens materiais ou imateriais, muitas vezes totalmente desnecessários e dispensáveis. Consumismo é também uma mentalidade que nasce no seio de uma civilização dominada pela técnica, torna-se seu motor e penetra no íntimo da vida de muitos indivíduos e no costume coletivo. O consumismo hodierno não se limita a buscar o prazer na sensação física do consumo, mas estimula o psiquismo humano através da imaginação e da emoção. Procura forjar as pessoas de tal maneira que se deixem seduzir por uma procura insaciável do novo, do sonho, do desejo, acima daquilo que já foi experimentado. O consumismo alimenta — pela realidade e pela ilusão — uma procura, nunca saciada, de um prazer e de uma felicidade que estão sempre além do alcançado. O êxito dessa procura sem fim do prazer não é, evidentemente, a maturação da pessoa, mas sua alienação ou escravização pelo desejo. Este mecanismo é particularmente evidente e destrutivo no consumo das drogas, fenômeno gravíssimo nos países americanos, alimentado por um comércio criminoso.143 Outra conseqüência, denunciada especialmente pelos ecologistas144, é o uso exagerado e voraz dos recursos naturais, levando ao seu esgotamento ou destruição.

 

139.        Nos últimos anos, no Ocidente e no Brasil, cresceu a consciência da crise da modernidade. Ela se revelou, antes de tudo, na falência das promessas modernas de "liberdade e igualdade" ou de "progresso" em favor de todos, promessas que — nos anos '60 — tomaram a forma do "mito do desenvolvimento", prevendo rápido acesso de todos os povos aos níveis de bem-estar e consumo dos países "desenvolvidos". Já no final dos anos '60, a teoria do desenvolvimento foi criticada radicalmente na América Latina pela teoria da "dependência", que acabava propondo corte nítido das relações econômicas com o Primeiro Mundo e libertação dos laços de dependência. No início dos anos '70, difundiu-se a crítica ecológica dos limites do crescimento, apontando a inviabilidade da extensão do nível de consumo dos Países ricos ao mundo inteiro, o que traria o rápido esgotamento dos recursos naturais, e propondo em troca o desenvolvimento "auto-sustentável", que não prejudicaria as gerações futuras.

140.        Há um consenso bastante generalizado quanto à crise da modernidade. Mas há divergências profundas em sua interpretação e nas propostas de superação. Começou-se a falar em pós-modernidade, mas com vários sentidos: esgotamento e superação da modernidade; exasperação dos aspectos negativos da modernidade; primeiros sinais de uma nova época, que realizaria os sonhos ideais da modernidade (liberando-a dos "efeitos perversos" que a acompanharam até agora) ou que começaria uma sociedade diferente.

 

141.        O consenso estende-se ao diagnóstico dos traços característicos da modernidade e de suas tendências atuais. Parece claro que a separação sistema/cultura facilitou a diversificação desta última e a expansão do pluralismo cultural. O fenômeno é evidente também em sociedades modernas, até há pouco tidas por culturalmente homogêneas e que agora assistem ao ressurgimento de antigos particularismos étnicos, regionais, lingüísticos, etc., ao renascimento de nacionalismos e racismos, ou à fragmentação do universo cultural numa multiplicidade de "novas tribos". O Brasil (e outros Países semelhantes), que historicamente nasceu da convergência forçada de etnias, culturas e religiões diversas (índios, africanos, portugueses e outros imigrantes, inclusive do Extremo Oriente), ainda mais vai revelando um mosaico extremamente variado e apenas precariamente unificado de tradições ou núcleos culturais diferentes.

 

142.        Típica da modernidade é a tendência, estruturalmente ligada ao seu dinamismo econômico e político, para o individualismo. Ele não resulta apenas do enfraquecimento dos laços comunitários e de solidariedade da sociedade tradicional, mas é um valor proclamado e justificado pelos autores modernos, desde o século XVIII, época do Iluminismo. Hoje, em medida crescente, é assimilado pelas massas e condiciona o comportamento da maioria. A mudança cultural traz também uma valorização da subjetividade, da livre escolha pessoal, da liberdade e da consciência dos direitos fundamentais, decisivos para uma autêntica promoção humana. O outro lado dessa tendência seria o subjetivismo exacerbado, que leva ao narcisismo do indivíduo demasiadamente preocupado consigo mesmo, e que exalta o consumismo materialista como grande objetivo de vida, empobrecendo as relações pessoais e sociais. No limite extremo desse horizonte cultural encontramos "uma espécie de atitude prometeica do homem que se ilude de poder apropriar-se da vida e da morte para decidir sobre elas, quando na realidade acaba derrotado e esmagado por uma morte irremediavelmente fechada a qualquer perspectiva de sentido e a qualquer esperança"145.

 

143.        À difusão do individualismo não são estranhos os grandes meios de comunicação social, particularmente a televisão. Ela gera um número crescente de espectadores e consumidores de imagens, que dedicam sempre menos tempo à vida social e comunitária, mesmo dentro de casa. Os espectadores estão expostos a maciços fenômenos de manipulação política, como se viu no Brasil e em outros Países, sobretudo onde os meios de comunicação estão concentrados nas mãos de pouquíssimos e faltam condições para a democratização da informação. A televisão e a informatização da comunicação contribuem também para estimular a difusão e o consumo dos mesmos bens materiais e culturais nos diferentes Países, criando as condições para uma cultura global de massa, sem fronteiras, que abafa as culturas locais ou regionais.

 

144.        Recentemente, no clima cultural que alguns classificam de "pós-modernidade", o ritmo das mudanças e o caráter efêmero das contínuas novidades tornaram-se exasperados. O fenômeno é facilitado pelo novo poder dos meios de informação, que permitem a comunicação instantânea com qualquer parte do mundo e induzem a decisões imediatas e emocionais, não refletidas e amadurecidas. Em conseqüência, as pessoas — especialmente as novas gerações — são induzidas a considerar provisórias e passageiras todas as atitudes e encontram dificuldade em aceitar um compromisso estável e definitivo, inclusive no matrimônio, na vida consagrada e sacerdotal.

 

145.        As reações a essas tendências variam, antes de tudo, segundo a condição sócio-cultural de indivíduos e comunidades. A resistência à modernidade, sem deixar de assimilar seus avanços técnicos, é mais forte onde melhor se conservam as raízes da cultura tradicional e onde é possível exercer, com espírito crítico, um discernimento. Apesar do seu extraordinário poder, os modernos meios de comunicação de massa conseguem transmitir apenas parcialmente a mentalidade "moderna", alterando concepções e costumes a respeito de família, relacionamento, valores materiais e espirituais, política, religião... A cultura popular evolui, mas nem por isso desaparece ou se submete passivamente à nova cultura de massa.146

 

146.        As resistências à modernidade são menores nas grandes cidades e no meio da juventude. Entre os jovens convivem elementos aparentemente contraditórios, como: o cultivo de relações amorosas passageiras e a valorização da família, o refluxo sobre si mesmos e a busca de grupos de referência, como rapp, funk, gangues etc. A comunidade eclesial ainda atrai um número significativo de jovens e a prova disso são os milhares de grupos que formam a Pastoral da Juventude, os movimentos, as escolas e os centros educacionais católicos. Há muitos sinais de vida surgindo no meio dos jovens, apesar de poucos estarem engajados e preocupados com as grandes questões do país.

 

147.        As reações às tendências dominantes da cultura atual variam, também, segundo a forma de pensamento ou a ideologia de seus críticos. Há um consenso bastante generalizado sobre a necessidade de nova postura ética e cultural, que conduza não apenas à crítica dos valores da modernidade, mas também à transformação das estruturas econômicas e políticas (do "sistema").

 

 

4. Crise ética

 

148.        A evolução da sociedade moderna tem trazido também uma grave crise ética, da qual a opinião pública tomou consciência, ao menos parcialmente, nos últimos anos, sobretudo com relação à ética pública147. Aqui basta retomar o resultado desse processo histórico e ressaltar os desafios que ele apresenta à ação da Igreja nesse final de século.

149.        O pluralismo ético, tese característica dos pós-modernos, não é somente um fato inevitável, mas um valor e uma garantia das liberdades individuais e das diferenças culturais. Um pluralismo ético "de fato" já era reconhecido, desde o século XVIII e, sobretudo, após o desenvolvimento dos conhecimentos antropológicos no século XIX. Consistia em tomar consciência de que as diversas etnias, civilizações e culturas se inspiravam em valores ou princípios éticos diferentes. Prevalece a convicção da modernidade de que a razão humana, considerada única e universal pelo pensamento iluminista, poderia reconduzir a ética a princípios igualmente universais e aceitáveis por todos.

 

150.        A pós-modernidade, ao contrário, suspeita dessa razão universal, à qual atribui pretensões totalitárias, historicamente responsáveis pelo esmagamento ou tentativa de eliminação das diferenças e das minorias e, em última análise, da liberdade individual. Teoriza, ao invés, as vantagens práticas do pluralismo ético, enquanto ele reconhece igual valor a todas as formas concretas e particulares de "ethos", assumidas por indivíduos ou grupos. Além disso, considera inviável a superação teórica das diferenças éticas, pois não haveria ética universal capaz de unificá-las.148

 

151.        A afirmação de que "nenhuma proposição universal é válida" é, em si mesma, contraditória, pois nega validade universal à própria afirmação. Assim não se pode afirmar a impossibilidade de uma ética universal, embora ainda não se possa dizer — neste momento do debate — qual ela é. Mas reconhecemos que existem esforços nesse campo, como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na defesa da democracia como valor e nas buscas de consenso em questões de proteção do meio ambiente. Esta contradição intrínseca da afirmação de um pluralismo ético absoluto torna-se ainda mais clara no plano prático. Admitindo que todas as concepções éticas sejam igualmente válidas e que não exista uma ética universal, as democracias modernas encontram-se diante de um impasse. Não podendo reduzir todos os problemas da convivência social a questões meramente técnicas, racionalmente solúveis, nem podendo apelar para uma concepção ética partilhada por todos, acabam recorrendo ao voto da maioria. Assim fazendo, questões eminentemente éticas (como, por exemplo, as leis sobre o aborto, a assistência a doentes e pobres, a acolhida a imigrantes e estrangeiros...) são resolvidas pelo voto149. Isso significa que a opinião da maioria desconsidera ou sacrifica a concepção ética e os direitos das pessoas. "Amplos setores da opinião pública justificam alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual"150. A "defesa das diferenças" acaba se transformando simplesmente na afirmação da vontade do mais forte.

 

152.        Essa tendência é hoje dominante nas sociedades "desenvolvidas" e se choca com o ensinamento da Igreja, inspirado na busca de uma liberdade que não sacrifique a verdade, mas sobre ela se fundamente151. Em outras palavras, a Igreja reconhece uma ética universal, com fundamento ontológico, embora admitindo que o discernimento da norma universal nos casos particulares — na historicidade da existência — possa apresentar sérias dificuldades. A Igreja tem consciência de um particular dever de defesa do valor da pessoa humana porque "pela sua encarnação, Cristo, o Filho de Deus, uniu-se, de certo modo, a cada homem"152. O Papa João Paulo II não hesita em afirmar: "O Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho"153.

 

153.        Os desafios, que a crise ética atual põe à Igreja, podem reduzir-se fundamentalmente a dois:

contribuir para que a sociedade democrática reconheça a necessidade de um fundamento ético comum, além da mera vontade subjetiva dos indivíduos154

contribuir para a educação da consciência moral dos cidadãos nas condições específicas da sociedade brasileira, o que exige a superação de um "ethos" tradicional marcado pelo autoritarismo e particularismo, bem como evitar as armadilhas do individualismo moderno na busca de uma ética da solidariedade e do reconhecimento da dignidade de cada pessoa humana155.

 

 

5. Pluralismo religioso

 

154.        Junto com o pluralismo cultural e ético, a sociedade brasileira é hoje marcada pelo pluralismo religioso. Este pluralismo acentuou-se nos últimos anos, tanto no plano quantitativo quanto na variedade das formas. As pesquisas mais recentes parecem confirmar que permanece, no povo brasileiro, uma religiosidade de fundo. Bem poucos são os brasileiros que se declaram ateus ou afirmam não acreditar em nada. A Igreja aparece entre as instituições mais dignas de confiança, ao lado da Escola, da Universidade e da Imprensa escrita.156 Mas o modo de entender e viver a religião é muito diferenciado, como indicam os dados reunidos no quadro abaixo.

 

O NÚMERO DOS CATÓLICOS

 

A porcentagem dos que se declaram católicos tem diminuído nos últimos 30 anos. O Censo de 1970 contava 91,77% de católicos; o de 1980, 88,95%; o de 1991, 83,0%. As pesquisas de opinião, realizadas em amostras de população adulta (geralmente dos 18 anos para acima) registram porcentagens ainda mais baixas. Por exemplo, a pesquisa da Datafolha de agosto/setembro de 1994, que sondou as preferências eleitorais de quase — 21 000 eleitores, encontrou uma porcentagem de 74,9% de católicos, 20,1% de outras religiões e 4,9% sem religião nenhuma.157

 

A DIFERENCIAÇÃO INTERNA

DO CATOLICISMO

 

Uma novidade dessa pesquisa é que ela procurou medir também a diversidade interna do catolicismo. Assim os católicos incluiriam 1,8% dos eleitores (ou seja, quase dois milhões de pessoas) ligados às CEBs, 3,8% dos eleitores (ou quase 4 milhões de pessoas) ligados à RCC (Renovação Carismática Católica) e 7,9% dos eleitores (ou quase 8 milhões de pessoas) ligados a outros movimentos católicos (de jovens, de casais etc.). Os outros católicos (61,4% da população) não estão ligados a nenhum movimento específico e são classificados como "tradicionais". As diferenças nas intenções de voto dos diversos grupos confirmam, ao menos no plano ideológico e político, a diferenciação interna dos católicos.

 

AS OUTRAS RELIGIÕES

 

Entre os que declaram pertencer a outras religiões, 3,4% dos eleitores são protestantes "históricos" ou tradicionais; 9,9% são protestantes pentecostais; 3,5% são espíritas kardecistas; 1,3% se dizem ligados a cultos afro-brasileiros; e 2% pertencem a outras religiões como islamismo, judaísmo, budismo, Seicho-no-iê, Perfeita Liberdade etc..

 

AS GRANDES CIDADES

 

O pluralismo é maior nas grandes cidades, onde a porcentagem de católicos é a mais baixa; por exemplo: Rio de Janeiro, 59,3%; São Paulo, 65,2%; Salvador, 65,3%. Os católicos são proporcionalmente menos numerosos nas Capitais e Regiões metropolitanas; estão próximos da média geral nas cidades grandes e médias do interior; são proporcionalmente mais numerosos que as outras religiões nas cidades pequenas. Os números apontam, portanto, para os católicos, o desafio da pastoral das grandes cidades.158 Mas também as outras religiões têm uma distribuição geográfica não uniforme. Em geral, todas elas são relativamente mais numerosas nas Capitais e Regiões metropolitanas do que no interior. Muito fraca é a presença de espíritas e kardecistas nas cidades pequenas. Os pentecostais estão mais presentes nas cidades pequenas do que nas médias e grandes do interior.

 

AS DIFERENÇAS REGIONAIS

 

Há diferenças notáveis também entre Estados e Regiões. A Região mais católica do Brasil é o Nordeste (80,4% de católicos entre os eleitores), seguida pela Região Sul (78,4%). Mais fraca é a presença católica no Sudeste (71.4%) e nas Regiões Norte e Centro-Oeste (71,2%). Nestas últimas há a maior concentração de pentecostais (14,6%, enquanto a média nacional é 9,9%). Os protestantes históricos (no caso, principalmente luteranos) são mais numerosos no Rio Grande do Sul (7,4% da população com direito a voto). Os espíritas kardecistas (média nacional: 3,5%) são mais freqüentes nas Cidades de São Paulo (8%) e Rio de Janeiro (7,5%). O candomblé é mais numeroso em Salvador (mesmo assim apenas 2,1% se declaram ligados a essa religião). Os cultos afro-brasileiros em geral estão mais presentes na cidade do Rio de Janeiro (4,9%), que também é o lugar onde maior número (11,1%) se declara sem religião.

 

155.        A simples indicação da pertença a uma ou outra religião, como no quadro acima, permite apontar uma visão geral da configuração religiosa do País. É sabido, por exemplo, que há muitos brasileiros com dupla pertença religiosa ou que transitam com facilidade de uma religião a outra, ou ainda constróem sua própria visão religiosa com elementos de diversas procedências. Além do mais, a pesquisa citada não considera a maior ou menor assiduidade à prática religiosa. É importante, por isso, procurar fazer uma análise qualitativa do fenômeno.

 

156.        Um primeiro fenômeno a ser assinalado, ligado à tendência moderna para o individualismo, é o elevado número de brasileiros que reduzem a religião a uma convicção interior, pessoal, a uma religião "invisível", que abandona totalmente ou em parte as práticas comunitárias. As pesquisas recentes indicam, nas grandes cidades, que 8 a 10% das pessoas — principalmente homens abaixo dos 50 anos — declaram-se desligados de qualquer religião. Além disso, há uma porcentagem elevada de católicos (cerca de 2/3) que raramente ou nunca praticam uma religião. É este, certamente, o maior desafio para a ação evangelizadora da Igreja.

 

157.        Entre os que aderem a outras Igrejas cristãs ou a outras religiões, a prática religiosa é alta. Entre elas, porém, há pessoas que freqüentam, não raro, mais de uma religião ou trocam de igreja com relativa facilidade, ou ainda misturam elementos e práticas de religiões diferentes.159 Entre os próprios católicos, embora em medida menor, há alguma tendência a confundir crenças e práticas de outros cultos (por exemplo, muitos acreditam na reencarnação, sem ter clara consciência das implicações espíritas dessa doutrina).

 

158.        As causas da situação atual encontram-se, de um lado, no impacto da modernidade, com o processo de desagregação e desenraizamento da cultura tradicional, uma acelerada urbanização, contínuas migrações, atividade missionária de igrejas e seitas etc. Por outro lado encontra-se a história do catolicismo brasileiro, em grande parte constituído por devoções aos santos, transmitidas de geração em geração no ambiente rural e nas famílias, mas pouco assistido pastoralmente por um clero escasso e mal distribuído. Isso trouxe como conseqüência a falta de uma iniciação cristã e de ligação estável e consciente do povo com os sacramentos e com a instituição eclesial.

 

159.        Compreende-se, assim, porque muitos católicos não receberam claramente o primeiro anúncio de Jesus Cristo, nem passaram pelo processo de crescimento e amadurecimento pessoal da fé, através de uma verdadeira experiência catequética. Não é, então, de se estranhar que esses católicos não sintam uma vinculação atual com a Igreja e sejam atraídos por outras religiões, agora que mudaram as condições culturais, em especial pela acelerada urbanização.

 

160.        Outro fato, que ajuda a compreender os dados e as pesquisas, é a coincidência da renovação conciliar com a aceleração do processo de modernização de nossa sociedade. Um terço dos católicos declaram participar regular ou assiduamente da vida da Igreja. Neles podemos reconhecer o contingente de leigos mais conscientes, que assumiram a renovação conciliar. A grande porcentagem dos que estão desligados de qualquer prática religiosa católica coincide com o expressivo número dos que têm enfraquecido os laços religiosos tradicionais. Não se identificam mais com suas devoções antigas, nem aderiram à nova orientação da Igreja.

 

161.        A renovação pastoral recente tem contribuído para melhorar notavelmente a prática religiosa e o apostolado social dos católicos mais ligados às comunidades eclesiais e aos novos movimentos, desde a Ação Católica até os mais recentes. A maioria dos católicos, porém, ainda não participa da vida da Igreja, nem é alcançada pela ação evangelizadora. Após quase 500 anos de evangelização, o Brasil ainda é um país de missão. O clero é relativamente escasso (1 padre para cerca de 7.500 católicos ). Apesar dos recentes progressos, a evangelização precisa da multiplicação das vocações sacerdotais e religiosas e da atuação dos leigos.

 

162.        O contexto da modernidade, gerador de mudanças e, portanto, de provisoriedade e incerteza, produz reações diversas. Alguns rejeitam a modernidade e apegam-se exclusivamente ao passado. Muitos conservam a crença na doutrina católica tradicional, mesmo quando não praticam o culto ou dão à Igreja apenas uma "adesão parcial", recusando seus ritos, sua disciplina e sobretudo suas normas éticas. Quase todos buscam alguma forma de segurança.

 

163.        Essa busca pode levar a pessoa a renovar a sua adesão à Igreja católica, ou à religião tradicional da sua família. É o caso da maioria. Porém, como vimos, muitos católicos, sobretudo nos últimos 30 anos, procuraram outras religiões. A procura acontece em duas direções opostas: a do fundamentalismo e a do subjetivismo. No primeiro caso, o fiel acredita que as Igrejas tradicionais não conservaram a fé em sua pureza e busca uma comunidade que julga ter redescoberto as origens ou os fundamentos do cristianismo. Nela se faz uma leitura literal da Bíblia e nunca se discute a interpretação dada pelo líder, mestre ou pastor. No segundo caso, o fiel — também inseguro diante do pluralismo das religiões e suas divergências — busca segurança dentro de si mesmo, na sua experiência pessoal, que eleva a critério de juízo da religião. Essa orientação, como já assinalamos, combina bem com a tendência moderna ao individualismo e ao abandono das práticas comunitárias.160 Nessa mesma perspectiva, de uma religião de si mesmo, está situado o movimento chamado "Nova Era", que rejeita a tradição cristã — identificando-a como a era de violência e de guerra dos últimos 2.000 anos — e busca encontrar a Deus no interior da pessoa e na harmonia desta com o cosmo.

 

164.        A força do subjetivismo é hoje tão avassaladora que penetra também nas comunidades (ou "seitas" ou "novos movimentos religiosos") que pretendem ser fundamentalistas e totalmente coesas. Essas comunidades, formadas por pessoas que a elas aderiram sobretudo nos últimos 10-20 anos, não são comunidades tradicionais, ligadas pelos vínculos da família, da vizinhança ou da mesma cultura. São comunidades reunidas ao redor de um líder carismático, que se apresenta como intérprete da verdadeira religião e que consegue o assentimento e apoio de um grupo de fiéis, que precisam sentir-se satisfeitos em suas aspirações religiosas e afetivamente acolhidos. Esse tipo de comunidade — que alguns sociólogos definem como "emocional" — mantém-se e cresce na medida em que atende às expectativas subjetivas dos fiéis. No seio do neopentecostalismo, onde prosperam esses grupos, é evidente a penetração do subjetivismo e o abandono da doutrina e da disciplina do pentecostalismo tradicional.

 

165.        A necessidade de segurança e a busca de certezas estão presentes também no catolicismo, especialmente nos últimos anos. O subjetivismo aumenta o número dos que interpretam a seu modo a tradição católica, seja aceitando seus dogmas como referência, mas abandonando a participação no culto, seja misturando-a com elementos de outras religiões, seja descartando parte dos seus conteúdos161. O fundamentalismo e a procura de movimentos carismáticos atraem atualmente muitos fiéis, cuja subjetividade é valorizada e, ao mesmo tempo, inserida em um contexto que oferece guias seguros, na pessoa de líderes espirituais, portadores de novas expressões da espiritualidade católica.

 

166.        Nos anos recentes, o quadro religioso foi modificado pelo surgimento de "Igrejas eletrônicas"162 e pela freqüente presença na TV de líderes e programas religiosos de grande popularidade. Os programas dirigidos às grandes massas tendem a apelar aos sentimentos religiosos elementares, comuns a todos, e geralmente não insistem nos aspectos doutrinais, para não afastar o público de outras confissões. Eles despertam ou mantêm vivo o sentimento religioso em muitas pessoas que vivem à margem da Igreja Católica ou de outras Igrejas cristãs. Na opinião de alguns críticos, porém, os mass-media tendem a espetacularizar e a banalizar a religião, nivelando-a com entretenimentos televisivos de todo tipo. Diluem nos espectadores a consciência da necessária conversão pessoal, da participação efetiva na vida eclesial e do comportamento inspirado pelo Evangelho. De qualquer forma, o uso dos Meios de Comunicação Social merece maior atenção e deve ser avaliado cuidadosamente no seu impacto pastoral163.

 

167.        Terminamos esboçando, com base na sugestão de um estudioso164, um quadro de conjunto, procurando cruzar os dados sócio-culturais com as atitudes propriamente religiosas. Podemos distinguir cinco situações ou faixas de população:

uma faixa considerável de pessoas, marcadas por um contexto desumano ou subumano, vítimas da iníqua estrutura social. Entre elas vigora uma religiosidade conflitante, ambígua e confusa. E há aí um déficit incalculável de real evangelização, apesar de tentativas inegáveis e até heróicas de pessoas e de organismos pastorais

uma faixa de pessoas ou grupos de fundo cristão-católico, estático e fixista. Para eles, em boa parte situados nas classes médias, a fé católica constitui um componente sócio-cultural, parte de sua tradição e se expressa em termos de obrigações formais e sacramentalização ocasional, sobretudo nos ritos de passagem. Esta faixa é também primordialmente a geradora ou conservadora da situação estrutural de injustiça

uma faixa ampla de profunda religiosidade católico-popular e, em geral, sincrética. As pessoas têm forte vivência religiosa, mas sem suficiente esclarecimento ou educação da fé. Articulam, porém, fé e vida, em termos de legitimação e compreensão religiosa da vida, ainda que nem sempre tenham consistência ética. Esta faixa retrata ainda o perfil da maioria da população brasileira

uma faixa modernizante de pessoas e grupos de inspiração claramente não-religiosa, em plano individual, social ou cultural. É um conjunto de segmentos culturalmente secularizados, sob influência direta da cultura pós-moderna. Situam-se aqui os atores do mundo do espetáculo, do entretenimento, da publicidade e da cultura de massas, trabalhada sobretudo pela mídia

uma faixa de cristãos-católicos esclarecidos, com boa fundamentação bíblico-teológica da fé e clara vinculação à vida. Essa faixa não é muito numerosa, mas significativa no Brasil de hoje, tanto nas camadas populares, como em certos segmentos da classe média, embora encontre dificuldades para integrar o serviço da fé e a promoção da justiça, a abertura e o empenho consciente na sociedade com um mundo religiosamente privatizado e pluralista.

 

168.        O quadro da situação religiosa é hoje particularmente complexo e diversificado. Apresenta-se com múltiplos desafios à ação evangelizadora e pastoral da Igreja. Exige que esta ação, para ser eficaz, também se diversifique e se adapte às diversas situações a que se dirige, sem perder com isso sua unidade fundamental de inspiração e uma articulação adequada. A isso visam as diretrizes pastorais, que agora, com a graça de Deus, vamos procurar discernir e explicitar.

 

CAPÍTULO IV

 

ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA A AÇÃO EVANGELIZADORA E PASTORAL

 

 

Sumário

 

A evangelização é uma realidade complexa, que inclui exigências irrenunciáveis. Desde o Novo Testamento destacam-se serviço (diakonia), diálogo, anúncio (kérygma), testemunho (martyria) da comunhão eclesial (koinonia)

No processo da evangelização, essas exigências podem representar etapas, mas na comunidade eclesial madura e vital, devem estar todas presentes e integradas.

 

Por uma evangelização inculturada

A evangelização, nos seus diversos aspectos, tem como critério geral a inculturação

Na América Latina, hoje, a evangelização é desafiada a inculturar-se: 1) nas culturas indígenas, afro-americanas e mestiças; 2) na cultura moderna e urbana

Particularmente desafiantes são o conflito entre tradição e modernidade e o discernimento crítico dos valores e limites da modernidade

A inculturação é um longo processo, que tem por sujeito o povo que acolhe o Evangelho em sua cultura e exige dos evangelizadores uma atitude de solidariedade, mas também de discernimento ou crítica.

 

1. Serviço e participação na transformação da sociedade pelo bem dos pobres

Os cristãos são solidários com a sociedade humana e empenhados na luta pela justiça e a libertação integral, a partir da evangélica opção preferencial pelos pobres

Dois desafios urgentes no Brasil, hoje:

a) Na luta contra a pobreza e o desemprego, unir ao socorro imediato e urgente a busca de reformas das estruturas geradoras de exclusão

b) Na proposta da ética pública, dialogar com os diversos setores da sociedade e formar a consciência moral dos católicos, com ênfase na responsabilidade social.

 

2. Diálogo com as culturas e outras religiões

O diálogo com as outras religiões nasce da certeza de que o Espírito Santo opera também nelas e nas diversas culturas humanas

Importância peculiar do ecumenismo entre as Igrejas cristãs

Compromisso da Igreja no Brasil com a defesa e promoção das culturas indígenas e afro-brasileiras

Urgência do diálogo com a cultura moderna e os setores da nossa sociedade que a representam

Necessidade, para a Igreja católica, de investir no estudo e na promoção do diálogo inter-religioso e ecumênico e de acentuar a dimensão ecumênica na catequese e pedagogia pastoral.

 

3. Anúncio do Evangelho

O anúncio de Jesus Cristo é o centro ou vértice da evangelização

O anúncio é missão de todos os cristãos, mas deve ser feito no contexto de um diálogo com a cultura dos destinatários do anúncio

O desafio que o mundo de hoje põe ao anúncio do Evangelho é enorme: no Brasil, há uma maioria de católicos não-praticantes, pessoas que não aderem publicamente a nenhuma religião, não-cristãos... no mundo, especialmente na Ásia e na África, há inúmeros não-cristãos...

Orientações para a evangelização dos católicos não-praticantes, com especial atenção à pastoral urbana e aos jovens; para a evangelização dos indiferentes ou sem religião, com atenção às questões éticas e à comunicação social; para o empenho na missão "além-fronteiras" e na cooperação com as regiões mais carentes no Brasil.

 

4. Testemunho da comunhão eclesial

A evangelização gera a fé e constrói, no fiel, um itinerário de amadurecimento do "homem novo" em Cristo

A evangelização, suscitando a fé nas pessoas, cria a comunhão entre elas e entre as várias comunidades cristãs

Na atualidade, é extremamente importante oferecer a jovens e adultos um itinerário de crescimento na fé e uma catequese articulada com a vida cristã, considerando que família e sociedade pouco contribuem para a educação da fé

Essa tarefa exige comunidades eclesiais acolhedoras, que valorizem as pessoas e as ajudem a integrar fé e vida

Exigências decorrentes: reconhecer todo cristão como sujeito; favorecer o acolhimento e a participação; estimular o encontro com a Palavra de Deus e a celebração vital dos sacramentos; valorizar as diversas dimensões da pessoa humana e da família, acompanhando e orientando a experiência espiritual, o empenho na sociedade, a educação, as associações de fiéis; dinamizar a paróquia como rede de comunidades, favorecendo a participação e o diálogo de CEBs e movimentos eclesiais, na busca da comunhão fraterna.

 

169.        As orientações pastorais deste capítulo têm como base a experiência pastoral da Igreja no Brasil (cap. I), a teologia da evangelização desenvolvida no âmbito de toda a Igreja (cap. II ) e as recentes mudanças sócio-culturais (cap. III ). Elas foram organizadas ao redor de cinco itens: o primeiro, a inculturação, representa o critério geral da ação evangelizadora, como mostra o documento de Santo Domingo165; os outros quatro itens — serviço, diálogo, anúncio e testemunho da comunhão — são exigências ou aspectos distintos, mas complementares da própria ação evangelizadora e pastoral.

 

170.        A escolha dessas quatro exigências, embora não sendo a única possível, certamente tem fundamento no próprio Novo Testamento. Nele emergem como aspectos constitutivos da evangelização o serviço (diakonia), que a Igreja presta ao mundo e, especialmente, aos pobres166; o diálogo, que ela mantém com os fiéis de outras religiões167; o anúncio (kérygma) da morte salvífica e da ressurreição de Cristo168; o testemunho (martyria) da comunhão fraterna (koinonia), em que os primeiros cristãos repartem o pão e a palavra, os bens materiais e os bens espirituais169.

 

171.        Documentos do Magistério, como aquele do Secretariado para os não-crentes de 10.6.1984, retomando uma intuição da Evangelii Nuntiandi170, descrevem a missão da Igreja ou evangelização como uma realidade complexa, que inclui vários elementos. "A missão apresenta-se, na consciência da Igreja, como uma realidade unitária, mas complexa e articulada. Podem ser indicados os seus elementos principais. A missão é constituída já pela simples presença e pelo testemunho vivo da vida cristã171, mesmo se se deve reconhecer que 'levamos este tesouro em vasos de argila'172, e por isso a distinção entre o modo como o cristão aparece, existencialmente, e aquilo que afirma ser, nunca desaparece. Há, depois, o empenho concreto ao serviço dos homens as atividades de promoção social e a luta contra a pobreza e as estruturas que a provocam. Há a vida litúrgica, a oração e a contemplação, testemunhos eloqüentes de uma relação viva e libertadora dos membros da Igreja entre si, com o mundo e com o Deus vivo e verdadeiro, que nos chama ao seu Reino e à sua glória173. Há o diálogo, no qual os cristãos encontram os que seguem outras tradições religiosas para caminhar juntos na busca da verdade e colaborar em ações de interesse comum. Há o anúncio e a catequese, quando se proclama a boa notícia do Evangelho e se aprofundam as conseqüências para a vida e a cultura. Tudo isto integra o conceito de missão"174.

 

172. Os diversos aspectos da evangelização podem ser vistos como etapas, quando se considera idealmente a aproximação de uma cultura ou de um grupo não evangelizado. Nesse caso, o evangelizador começa pela presença e presta serviços de promoção humana; gradativamente pode encaminhar o diálogo religioso e, a partir daí, anuncia explicitamente o Evangelho, até criar condições plenas de vivência e comunhão cristã. Em nossa realidade, na maioria das vezes, toda a comunidade cristã é chamada a viver conjuntamente os diversos aspectos da missão da Igreja. Confirma-o, inclusive, a recente pesquisa sobre as comunidades católicas, onde mais de 40.000 respostas atestam que raramente as comunidades desenvolvem um só aspecto da existência cristã: ou são comunidades vivas, que unem a celebração à oração, à reflexão à luz da Palavra, o compromisso do serviço aos irmãos na promoção social e na conscientização política e o empenho missionário — ou são — algumas vezes — comunidades que definham na passividade e na acomodação. Outras vezes, como a experiência do Projeto Rumo ao Novo Milênio confirma, uma ou outra das exigências intrínsecas da evangelização pode tornar-se prioritária por imposição da própria realidade. Em outros casos verificou-se que o anúncio e o diálogo eram aspectos deficitários da ação evangelizadora da Igreja, mas eles se desenvolveram mais nos últimos anos, segundo a recente pesquisa realizada junto às dioceses e organismos pastorais. De qualquer forma, o evangelizador — mesmo que empenhado especialmente numa das tarefas da evangelização — não deixará de se manter em comunhão profunda com a Palavra, a Liturgia e a vida fraterna da comunidade cristã, se não quiser tornar-se — mais cedo ou mais tarde — o ramo seco que perdeu a seiva vital que provém do tronco175.

 

173.        No planejamento pastoral, desde o PPC de 1966-1970176, foram adotadas seis linhas de ação, depois pensadas mais exatamente como dimensões. Elas correspondem fundamentalmente às exigências intrínsecas da evangelização agora descritas:

o serviço se concretiza especialmente na dimensão sócio-transformadora (linha 6)

o diálogo se concretiza na dimensão ecumênica e do diálogo religioso (linha 5)

o anúncio se concretiza na dimensão missionária (linha 2)

o testemunho da comunhão se concretiza na dimensão comunitário-participativa (linha 1), que se alimenta nas fontes da Palavra (dimensão bíblico-catequética — linha 3) e da liturgia (dimensão litúrgica — linha 4).

 

A nossa apresentação das exigências da evangelização acentua o aspecto missionário da vida da Igreja e por isso foi assumida nestas Diretrizes. A implementação do Projeto Rumo ao Novo Milênio tem comprovado que, na maioria das Dioceses e Regionais, a articulação entre as seis dimensões e as quatro exigências não têm causado problemas de continuidade pastoral. A organização pastoral, segundo as seis linhas ou dimensões, tem caráter mais prático e deve ser mantida onde continua funcional.

 

 

Por uma evangelização inculturada

 

174.        Nos últimos anos, cresce sempre mais a consciência de que não há ação evangelizadora neutra, desvinculada da cultura, e que a compreensão desse fenômeno é imperativo para um empreendimento autenticamente evangelizador. "...tanto os evangelizadores como os evangelizados devem compreender que nenhum deles age num vazio cultural. Os evangelizadores cometerão injustiça perante os povos e culturas, se importarem ideologias políticas, econômicas ou sociais juntamente com o Evangelho".177 E na Exortação Apostólica "Ecclesia in América", o Papa João Paulo II insiste que "é necessário inculturar a pregação, de forma que o Evangelho seja anunciado na linguagem e na cultura de quantos o ouvem".178

 

175.        A evangelização sempre realizou-se dentro de um processo de inculturação, por vezes, conflitivo. Mas o termo "inculturação" só nos anos '60 foi usado pela missiologia e entrou pela primeira vez num documento pontifício, Catechesi Tradendae (1979), onde designa o processo de inserção da Igreja na cultura de um povo, o que "significa a íntima transformação dos valores culturais autênticos, pela sua integração no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas"179. Inculturação é um termo eminentemente teológico e quer distinguir o processo do encontro da Igreja ou fé cristã com diferentes culturas daqueles processos que a antropologia designa como adaptação, aculturação, etc180

 

 

Desafios atuais

 

176.        Atualmente, na América Latina e no Brasil, a evangelização é desafiada a tornar-se "inculturada", principalmente por dois processos que estão em ato, distinta mas simultaneamente: 1) o encontro do Evangelho com as culturas indígenas, afro-americanas e mestiças181; 2) o encontro com a cultura moderna particularmente no meio urbano182.

 

177.        Tomar consciência desses desafios implica:

admitir a necessidade de que a evangelização das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças parta do acolhimento de seus valores humanos e das "sementes do Verbo" nelas presentes183, contrariamente às atitudes de desprezo e opressão praticadas muitas vezes no passado e pelas quais se pede perdão184

procurar, portanto, aproximar-se dessas realidades culturais em atitude de escuta, simpatia e compreensão, para também crescer "no conhecimento crítico" dessas culturas, "para apreciá-las à luz do Evangelho"185

reconhecer as características específicas e inéditas das culturas moderna e pós-moderna de origem ocidental, que — diferentemente das outras culturas — não têm a religião como eixo central e estão marcadas por forte pluralismo até à fragmentação, e por tendências secularistas186.

 

178.        Na situação que acabamos de evocar, dois problemas destacam-se como mais urgentes para a evangelização:

o conflito entre tradição e modernidade

o discernimento cristão dos valores da modernidade.

 

179.        O conflito entre tradição e modernidade não desafia apenas a fé cristã e a evangelização. É um problema atual para todas as culturas. A modernidade constituiu-se a partir da pretensão de rejeitar a tradição. Ela pretendeu submeter tudo ao exame crítico da razão e à experimentação. Por isso, a modernidade tende para um dinamismo e uma mudança incessantes. Questiona suas próprias conquistas e busca continuamente inovações. No plano ético, valoriza a liberdade individual e incentiva o indivíduo a buscar os critérios do seu comportamento a partir de si mesmo, da sua razão e liberdade, assumindo uma atitude autônoma e crítica face aos valores tradicionais.

 

180.        A Igreja, diante da modernidade, representada pelo iluminismo e pelo liberalismo, assumiu no século XIX uma atitude predominantemente defensiva, reafirmando seus conceitos de verdade, de Revelação e de Tradição187. Todavia, diante dos totalitarismos do século XX, a Igreja se empenhou sempre mais na defesa da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana. O Concílio Vaticano II, com a declaração Dignitatis Humanae (1965), reconheceu que o regime moderno das liberdades civis é o mais conveniente também em matéria de liberdade religiosa. Isso significa que a pessoa não pode ser forçada na escolha da sua religião; por outro lado, ela conserva a obrigação moral de buscar a verdade.

 

181.        A recente evolução da mentalidade moderna reabriu o debate, também dentro da Igreja, sobre valores e limites da modernidade. Esta tende hoje para um subjetivismo absoluto, que caminha para a negação de qualquer verdade e valor universal e para o niilismo e a "morte do homem". Em reação a este radicalismo, alguns cristãos optam pelo fundamentalismo e a rejeição total da modernidade. O Magistério da Igreja, em particular o Papa João Paulo II, estimula os católicos a um discernimento188. Trata-se de reafirmar o valor incomparável da pessoa e da vida humana, mas sem cair na armadilha do subjetivismo e da negação da verdade, que acabariam destruindo exatamente aquela liberdade que o homem moderno deseja gozar.

 

182.        Neste contexto, a tradição religiosa não é mais transmitida com tranqüilidade e segurança pelas famílias e, muito menos, pela sociedade. Por isso, a fé deve ser comunicada por um trabalho consciente de iniciação e educação cristã. A nossa sociedade tornou-se "terra de missão", onde a evangelização inculturada é exigência fundamental para a Igreja.

 

 

Exigências práticas

 

183.        As exigências práticas da inculturação da fé são aqui indicadas em linhas gerais. Serão concretizadas mais amplamente nos itens seguintes, tratando da inculturação no serviço, no diálogo, no anúncio, na liturgia e catequese.

 

184.        A primeira exigência da inculturação é pensá-la como processo de longa duração189, o que implica prever de antemão uma caminhada com diversas etapas, sem a pretensão de alcançar imediatamente as metas que indicam o rumo do processo.

 

185.        A segunda exigência é reconhecer que sujeito da inculturação não é o Evangelho (abstratamente considerado), nem o missionário ou o evangelizador, mas o povo ou a comunidade que se abre ao Evangelho, acolhendo-o e se deixando por ele transformar. Isto, evidentemente, não exclui um papel inicial ou intermediário do evangelizador ou missionário, mas subordinado ao crescimento na fé e discernimento cristão da própria comunidade. Tampouco exclui a ação do Espírito, que prepara pessoas e comunidades para o encontro com o Evangelho.

 

186.        A terceira exigência, como atitude inicial e básica da comunidade buscando a inculturação do Evangelho, é uma atitude de abertura à graça do Evangelho a partir dos valores da sua própria cultura: atitude de escuta e de acolhida, como a do discípulo, que está em busca da verdade sem preconceitos e sem antecipar conclusões.

 

187.        A quarta exigência implica que, na medida em que uma comunidade cristã avança na inculturação do Evangelho, mantenha firmes tanto a atitude de solidariedade com a cultura em que está inserida quanto a atitude de crítica ou discernimento à luz do Evangelho, que ilumina, purifica, transforma toda cultura, pois a todas elas transcende. A experiência missionária e a da história mesmo recente do cristianismo assinalam acentuações diversas, ora da solidariedade, ora da crítica, em razão das circunstâncias concretas ou dos "sinais dos tempos".

 

 

1. Serviço e participação na transformação da sociedade pelo bem dos pobres

 

1.1 — Fundamentação

 

188.        O Novo Testamento afirma claramente que os primeiros cristãos sentiram-se chamados por Deus a prestar um serviço (diakonia) aos pobres, dentro e fora da comunidade eclesial190. O ideal, inspirado pelo Antigo Testamento, é que não haja necessitados entre eles191. Mesmo quando se recomenda uma atenção prioritária aos "irmãos na fé", não falta o apelo a "fazer o bem a todos"192. E se, dentro das circunstâncias da época, houve pouca participação política dos cristãos, eles não faltaram às suas obrigações civis e não deixaram de rezar pelos governantes, mesmo os perseguidores193. Nisto os primeiros cristãos têm consciência de seguir o exemplo de Jesus, enviado para evangelizar os pobres194 e, Ele mesmo, exemplo de pobreza voluntária195.

 

189.        A solidariedade com todos os seres humanos é, para os cristãos de hoje, cidadãos de uma sociedade muito mais complexa que a do tempo de Jesus, uma exigência igualmente irrenunciável, intrínseca à própria fé no Deus, Pai de todos. É o que afirma o Concílio Vaticano II na abertura da Gaudium et Spes: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo"196. Por outro lado, o Concílio afirma — juntamente com a exigência da solidariedade — o respeito da justa autonomia das realidades terrestres ou temporais197.

 

190.        A evolução do Magistério eclesiástico, nos anos seguintes, trouxe novas acentuações, que complementam as teses do Concílio. Já o Sínodo dos Bispos de 1971 afirma que "a ação pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem claramente como dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, isto é, da missão da Igreja para a redenção do gênero humano e a libertação de toda opressão"198. A Evangelii Nuntiandi199 do Papa Paulo VI, à luz do Sínodo de 1974, retoma a tese e explicita seus fundamentos. Mostra os laços de ordem antropológica, teológica e evangélica que unem evangelização e promoção humana (ou libertação, ou desenvolvimento integral). Outros esclarecimentos foram dados pelas Instruções Libertatis nuntius (1984) e Libertatis conscientia (1986). No mesmo período, o Episcopado brasileiro explicitou as conseqüências da ética social cristã para a sociedade e apontava desde as Exigências cristãs da Ordem Política (1977) até os princípios Por uma nova Ordem Constitucional (1986) e as Exigências éticas da Ordem democrática (1989). O documento de Santo Domingo não hesitou em definir a promoção humana "como dimensão privilegiada da nova evangelização".200 Recentemente, o Papa, ao referir-se ao fenômeno da globalização, ampliou o compromisso da Igreja com a promoção do bem comum e com a solidariedade, conclamando toda a Igreja da América a não só "criar uma autêntica cultura globalizada da solidariedade, mas também a colaborar com todos os meios legítimos para a redução dos efeitos negativos da globalização, tais como o domínio dos mais poderosos sobre os mais fracos, especialmente no campo econômico, e a perda dos valores das culturas locais a favor de uma mal entendida homogeneização". E, afirmando a atualidade da Doutrina Social da Igreja, sublinha que com ela, "a Igreja oferece uma válida contribuição para a problemática que a atual economia globalizada apresenta. Sua visão moral nessa matéria apoia-se sobre os três alicerces fundamentais da dignidade humana, da solidariedade e da subsidiariedade"201.

 

191.        Junto com a reflexão sobre a responsabilidade da Igreja na promoção do desenvolvimento "do homem todo e de todo homem"202, avançou também a consciência da evangélica opção preferencial pelos pobres. Ela encontra uma primeira expressão no n. 8 de Lumen Gentium, é explicitada nas Conferências do Episcopado latino-americano de Medellín (1968) e Puebla (1979), confirmada em Santo Domingo (1992)203 e assumida pela Igreja no Brasil204. A opção pelos pobres se revela como tendo dupla motivação e finalidade: 1) ela é condição necessária e irrenunciável do caráter evangélico da ação da Igreja, ou seja, de sua fidelidade a Cristo que "se fez pobre... para nos enriquecer com sua pobreza"205; 2) ela é condição necessária para discernir criticamente entre as políticas sociais, que se pretendem ao serviço de todos, mas freqüentemente beneficiam apenas os mais fortes e descuidam dos últimos e dos excluídos, os "preferidos de Deus".

 

192.        Essa perspectiva está presente na Exortação Pós-Sinodal Ecclesia in America quando o Papa João Paulo II diz: "Essa constante dedicação aos pobres e excluídos da sociedade se reflete no Magistério social da Igreja, que não se cansa de convidar a comunidade cristã a comprometer-se a superar toda forma de exploração e de opressão. Trata-se, de fato, não só de aliviar as necessidades mais graves e urgentes mediante ações individuais ou esporádicas, mas de pôr em evidência as raízes do mal, sugerindo iniciativas que dêem às estruturas sociais, políticas e econômicas uma configuração mais justa e solidária"206. Assim, o Santo Padre reitera o dever da Igreja em relação aos pobres, afirmando que o mesmo decorre da sua fidelidade à Palavra de Deus: "É necessário intensificar e estender quanto já se vem fazendo neste campo, com o fim de alcançar o maior número de pobres. A Sagrada Escritura lembra que Deus escuta o grito dos pobres (cf. Sl 34 [33], 7) e a Igreja deve permanecer atenta ao grito dos mais necessitados. Escutando a sua voz, ela deve viver com os pobres e participar dos seus sofrimentos. [...] Com seu estilo de vida, suas prioridades, suas palavras e suas ações, ela deve dar testemunho de que permanece em comunhão e solidariedade com eles"207. "O serviço aos pobres, para que seja evangélico e evangelizador, deve ser um reflexo fiel da atitude de Jesus, que veio 'para anunciar aos pobres a Boa Nova' (Lc 4, 18). Se realizado com esse espírito, torna-se uma manifestação do amor infinito de Deus por todos os homens e um modo significativo de transmitir a esperança de salvação que Cristo trouxe ao mundo, e que resplandece de modo particular quando é comunicada aos abandonados ou rejeitados pela sociedade"208.

 

 

1.2 — Urgências

 

193.        As urgências do desenvolvimento e da promoção humana no plano mundial têm sido objeto de análises pertinentes e apelos dramáticos da parte dos últimos Papas209. As urgências da promoção humana em nosso País têm sido objeto de cuidado do Episcopado brasileiro e das pastorais sociais, desde os primeiros movimentos de renovação pastoral.210

 

194.        À luz da análise da atual situação sócio-econômica e ético-política211, parece-nos que os serviços mais urgentes que as comunidades cristãs podem prestar à sociedade brasileira são o empenho na luta contra a pobreza, o desemprego e a exclusão212 e a contribuição para a criação de um novo sentido de responsabilidade na ética pública.

 

 

1.3 — Indicações práticas

 

195.        Os documentos citados contêm orientações práticas que se estendem às numerosas áreas em que atuam nossas pastorais sociais: o cuidado com as crianças e as gestantes, a assistência aos menores abandonados, a defesa dos direitos de índios e posseiros, o apoio a movimentos sociais e sindicais, a pastoral da saúde e as obras educacionais, os cuidados específicos a doentes, idosos, drogados, aidéticos, vítimas da prostituição etc. A tarefa do serviço ou diakonia, contudo, não deve ficar restrita às pastorais sociais ou a grupos especializados, mas deve ser assumida por toda a comunidade eclesial — CEB, paróquia, Diocese, movimentos... — como sinal privilegiado do seguimento daquele que veio para servir e não para ser servido213. Uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos é um contra-testemunho, e celebra indignamente a liturgia214.

 

196.        Os católicos devem contribuir também para o melhor conhecimento da realidade social e de seu dinamismo. Recentemente a Santa Sé criou a Pontifícia Academia de Ciências Sociais e encorajou a realização de Semanas Sociais em diversos Países.

 

197.        O empenho da Igreja pela promoção humana e pela justiça social exige também um amplo e decidido esforço para educar os católicos ao conhecimento da Doutrina Social da Igreja, para que penetre nas consciências como decorrência ética impreterível da própria fé cristã. É lamentável que a ética social cristã apareça a muitos, mesmo entre o clero, apenas como opção facultativa ou generoso empenho de poucos. Ela deve ocupar lugar de destaque em nossos programas de formação e na própria pregação inspirada pelo Evangelho215.

 

198.        Convém que, sem adiar o socorro imediato e urgente às situações de maior carência (fome, doenças...), as iniciativas das pastorais sociais se voltem para o combate às causas dessas carências, promovendo — em parceria com outras organizações da sociedade civil e autoridades públicas — a criação de empregos, a multiplicação das oportunidades de educação, a assistência sanitária, a melhoria das condições de higiene e saneamento etc. O empenho consciente nesse trabalho social levará a questionar e lutar por transformar as estruturas e as decisões políticas que influem sobre essas situações e o absolutismo da economia de mercado, que se sobrepõe às outras dimensões da vida humana e gera a exclusão daqueles que não são economicamente úteis.

 

199.        Nossa participação na transformação social e no serviço aos pobres seja feita em colaboração com outras instituições da sociedade civil e em parceria com instituições públicas, em todos os níveis, começando a nível local. O trabalho social deve promover a organização dos movimentos sociais ou populares, visando a que os oprimidos e excluídos tornem-se sujeitos da sua própria libertação e da edificação de novas formas de solidariedade.

 

200.        Num mundo de reestruturação produtiva e de aceleradas mudanças, há que estar atento à grande rotatividade de migrantes em busca de trabalho e moradia. As estruturas pastorais devem adaptar-se aos que vivem na mobilidade forçada e não se enquadram nos limites e esquemas territoriais de paróquias e Dioceses. Igualmente merecem atenção os novos migrantes estrangeiros, em busca de sobrevivência, sobretudo latino-americanos sem documentação, que se encontram em situação de não cidadania e discriminação. Em relação a eles, "há de haver uma atitude hospitaleira e acolhedora, que os estimule a se inserir na vida eclesial, ressalvadas sempre sua liberdade e a peculiar identidade cultural. Para tanto, é muito vantajosa a colaboração entre as dioceses de onde eles provêm e aquelas em que são acolhidos"216.

 

201.        O empenho em formar uma consciência moral e uma prática social de inspiração cristã leva a Igreja a incentivar o diálogo e a reflexão de teólogos, cientistas e profissionais acerca dos novos problemas de ordem ética, que o avanço das ciências suscita em vários campos do saber e do agir humanos. Sejam lembradas, a título de exemplo, as novas responsabilidades na defesa da vida, na preservação do meio ambiente, na manipulação do patrimônio genético, no tratamento das doenças, na proteção dos direitos à informação e à privacidade etc. Especial atenção seja dada à recente Encíclica do Papa João Paulo II, Evangelium Vitae, que traça diretrizes para anunciar, celebrar e servir o "Evangelho da Vida", visando contribuir para uma nova cultura da vida humana217.

 

202.        Finalmente, todos procurem fortalecer e estender a ativa participação na cidadania, nos diversos níveis da vida social, de modo que o exercício da democracia se torne efetivo através do exercício de direitos e deveres para com a sociedade por parte de todos, pois "não há democracia autêntica e estável sem justiça social"218.

 

 

2. Diálogo com as culturas e as outras religiões

 

2.1 — Fundamentação

 

203.        O Concílio Vaticano II considera as diversas religiões dos povos ordenadas ao único Povo de Deus219 e declara nada rejeitar "do que há de verdadeiro e santo nessas religiões"220. A encíclica Redemptoris Missio, bem como o documento Diálogo e Anúncio reconhecem que o Espírito Santo age sem limites de tempo ou espaço, fazendo germinar as sementes do Verbo nas religiões e nos esforços humanos à procura da verdade e do bem221. Por isso — continua a Encíclica — as relações da Igreja com as religiões baseiam-se numa dupla consideração: "respeito pelo homem na sua busca de respostas às questões mais profundas da vida, e respeito pela ação do Espírito nesse mesmo homem"222.

 

204.        A Igreja vê nessa ação o mesmo Espírito que prepara o anúncio do Evangelho e o reconhecimento de Cristo e da Igreja. Em Pentecostes, o Espírito se dirige a todos os povos, em suas línguas e culturas223. Assim se revela que o mistério de Cristo preexiste à encarnação do Verbo224, a qual por sua vez "manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação"225.

 

205.        A Igreja crê, portanto, na importância do diálogo entre as religiões e, mais amplamente, entre as culturas, das quais a religião é muitas vezes a alma226. Trata-se de um diálogo a respeito da salvação, que prolonga o diálogo com que o próprio Deus "ofereceu e continua a oferecer a salvação à humanidade"227. No diálogo inter-religioso não se procuram apenas a compreensão mútua e relações amistosas. "Mediante o diálogo, os cristãos e os outros são convidados a aprofundar o seu empenho religioso e a responder, com crescente sinceridade, ao apelo pessoal de Deus e ao dom gratuito que Ele faz de si mesmo..."228. Em outras palavras, o diálogo é apelo para uma conversão mais profunda de todos para Deus229.

 

206.        O diálogo inter-religioso não deve ser instrumentalizado a outras finalidades. Ele é legítimo e necessário na missão evangelizadora da Igreja230. Ele contribuirá, normalmente, para criar condições favoráveis para que o cristão possa dar testemunho da sua fé e anunciar Cristo Salvador de toda a humanidade231.

 

207.        O diálogo em si mesmo possui seu valor. Pode ser praticado de diversas formas: a partir da vida, na cooperação em obras comuns de serviço, através do intercâmbio da experiência religiosa ou espiritual ou mesmo no diálogo teológico dos peritos232. O mais importante é reconhecer e praticar as disposições que tornam o diálogo autêntico e proveitoso: equilíbrio, que une abertura e realismo; convicção, que permite expressar com sinceridade e integridade a própria fé; busca do aprofundamento da verdade, inclusive da compreensão mais completa da própria fé; disposição para acolher com gratidão os dons de Deus e os frutos do próprio diálogo233. Dessa forma, o diálogo contribuirá, não para dar impressão de relativismo religioso nem para pôr em dúvida a identidade católica, mas para torná-la mais consciente e firme, mais rica e madura.

 

208.        Premissa e fundamento do diálogo é o reconhecimento da liberdade religiosa, assim como é formulada pelo Concílio Vaticano II234 e o Magistério pontifício235. Ela não é um subjetivismo sem limites, mas a condição mais conveniente à dignidade da pessoa humana na procura da verdade, procura que faz parte dos direitos e obrigações de todo ser humano.

 

209.        O diálogo com os cristãos de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais — o "ecumenismo" em sentido estrito — merece uma atenção especial pela comunhão em Cristo que nos une, embora imperfeita em certos aspectos236. Fundamentos e orientações do ecumenismo cristão, além de encontrar sua expressão básica no decreto conciliar Unitatis Redintegratio, são hoje formulados e atualizados no Diretório para o Ecumenismo da Igreja Católica.

 

 

2.2 — Urgências

 

210.        No contexto brasileiro e latino-americano, é urgente, antes de tudo, assegurar a subsistência das diversas culturas indígenas, discernindo nelas os verdadeiros valores, nos quais a Igreja reconhece a presença de "sementes do Verbo". A Igreja, com seus pastores e fiéis, particularmente através de dedicados e corajosos missionários, empenha-se para que as comunidades indígenas tenham seus direitos reconhecidos, suas terras demarcadas e protegidas, suas culturas preservadas dentro do dinamismo que lhes é próprio237.

 

211.        Igualmente a Igreja empenha-se para que as tradições culturais e religiosas afro-brasileiras e afro-americanas sejam respeitadas, valorizadas e apoiadas, na busca da sua continuidade e da seu desenvolvimento, abrindo caminho para uma maior aproximação com o catolicismo238. Além de contribuir para combater toda forma de discriminação social e racismo, a Igreja sente obrigação de rever suas atitudes pastorais e valorizar pastoralmente a tradição afro-americana, por muito tempo descuidada ou negada239.

 

212.        Não menos urgente é, para a Igreja, o diálogo com as formas culturais da modernidade, na sua complexidade e diversificação. Deve-se prestar especial atenção pastoral àqueles grupos humanos ou setores da sociedade que mais intensamente são influenciados pela modernização e àqueles grupos que exercem influência privilegiada na formação da opinião pública, nas mudanças de comportamento, na proposta de novos sentidos e valores. A modernidade cria espaço para esses grupos, que geralmente se beneficiam dos avanços técnicos e da expansão do consumo, caindo, porém, freqüentemente no individualismo egoísta e amoral. Mas ela marginaliza as massas e gera "novos pobres", inclusive entre as classes médias menos favorecidas pela modernização. Tudo isso repercute não só em nível de promoção humana240, mas também no plano do diálogo religioso e cultural. Nesse plano, a modernidade trouxe a valorização do indivíduo e da subjetividade, a exigência de igualdade fundamental de todos os seres humanos, a busca de autenticidade e qualidade no relacionamento intersubjetivo. Esses valores podem questionar expressões religiosas tradicionais e devem estimular a busca de novas expressões da vida cristã, que reconhece o valor central e incomparável da pessoa humana241 .

 

213.        No diálogo religioso, exigem maior atenção o diálogo ecumênico e a cooperação com as outras Igrejas cristãs. É preciso incentivar e alimentar o espírito de diálogo ecumênico em todos os católicos, pois ele é uma dimensão constitutiva e irrenunciável da missão: "que eles sejam um para que o mundo creia!"242. Faz parte dos objetivos atuais e urgentes do movimento ecumênico oferecer aos nossos fiéis e aos irmãos de outras Igrejas, elementos para que possam distinguir o trigo e o joio, a adesão convicta e o fanatismo cego, o zelo missionário e a exploração interesseira das emoções do povo, a busca perseverante da vontade de Cristo e o autoritarismo sectário e sem escrúpulos. Impressionam-nos o vigor e a clareza com que o Papa, na carta Tertio Millennio Adveniente, acentua a necessidade de aprofundar e pôr em prática o ecumenismo e o diálogo inter-religioso243.

 

 

2.3 — Indicações práticas

 

214.        Em nível regional e nacional, procure-se discernir atentamente quais são, entre as urgências enumeradas acima, aquelas que os afetam mais diretamente e devem tornar-se prioridades da ação pastoral. Sejam promovidas iniciativas adequadas, destinando-lhes os recursos humanos e materiais necessários.

 

215.        Mesmo onde o diálogo não parece imediatamente possível, promovam-se centros permanentes ou atividades conjunturais com uma dupla finalidade:

a) ter em conta a influência das novas tendências religiosas ou de tradições não-cristãs sobre o próprio povo católico, contribuindo para o discernimento dos valores, a crítica dos elementos incompatíveis com a fé e a elaboração de respostas autenticamente cristãs aos novos questionamentos e à nova sensibilidade

b) encaminhar estudos aprofundados das novas tendências culturais, bem como das tradições características do lugar.

 

216.        A ação pastoral e catequética da Igreja Católica deve assumir conscientemente uma dimensão ecumênica. Isso significa valorizar, na justa medida, tanto os bens da tradição cristã comum quanto apreciar a contribuição específica à espiritualidade e à prática cristãs que cada Igreja traz, tendo o cuidado de expor integralmente a doutrina católica, mas de forma que resulte mais facilmente compreensível pelos irmãos separados244. Promovam-se também, oportunamente, momentos de oração comum e de diálogo245, em particular a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, entre Ascensão e Pentecostes246.

 

217.        Os católicos demonstrem sempre sincero respeito pela liberdade religiosa e pelas convicções dos outros em matéria de religião e costumes. Recordem a palavra do Concílio Vaticano II: "Se há de reconhecer ao homem a liberdade em sumo grau e não se há de restringi-la a não ser quando e quanto for necessário"247. Lembrem também a palavra do Papa: "A Igreja, reafirmando constantemente a dignidade transcendente da pessoa, tem por método o respeito à liberdade"248.

 

218.        Diante de atitudes sectárias e proselitistas, os pastores advirtam serena e firmemente os fiéis, evitando polêmicas estéreis, quando não contraproducentes. "A Igreja também não fecha os olhos ao perigo do fanatismo ou fundamentalismo daqueles que, em nome de uma ideologia que se pretende científica ou religiosa, defendem poder impor aos outros homens a sua concepção da verdade e do bem"249. O recente Diretório para o Ecumenismo pede que, onde esse trabalho ecumênico "encontrar oposições ou impedimentos por atitudes sectárias, os católicos sejam pacientes e perseverantes". Eles devem atuar "com honestidade, prudência e conhecimento dos fatos. Essa forma de proceder, gradual e cautelosa, sem iludir as dificuldades, é também uma garantia para não sucumbir à tentação do indiferentismo e proselitismo, o que seria ruína do verdadeiro espírito ecumênico"250.

 

219.        O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em recente publicação, acentua a pertinência do ecumenismo "na promoção de valores e ações positivas na sociedade humana". Enumera uma série de atividades onde essa ação conjunta já é possível: "desarmamento e promoção da paz, o socorro de urgência a refugiados, a vítimas de catástrofes naturais, trabalhar para alimentar os famintos, criar estruturas de ensino para analfabetos, organizar programas de reabilitação para drogados, salvar jovens, homens e mulheres da prostituição. Podemos trabalhar juntos para acabar com a discriminação racial e sexual, trabalhar pelos direitos e pela dignidade das mulheres, combater ativamente a legislação permissiva (quanto ao aborto e à eutanásia), promover o desenvolvimento urbano e rural e de moradia para os pobres, denunciar as violações ao meio ambiente e o uso irresponsável dos recursos naturais, renováveis e não renováveis". E conclui: "Por que fazemos separados o que podemos fazer juntos?251.

 

220.        Referindo-se aos elementos de comunhão com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais, o Santo Padre sugere: "Os cristãos católicos, pastores e fiéis, promovam o encontro dos cristãos das diferentes confissões na colaboração, em nome do Evangelho, para responder ao grito dos pobres, com a promoção da justiça, a oração em comum pela unidade e a participação na Palavra de Deus e na experiência da fé em Cristo vivo"252. Estimulem-se também, quando for oportuno e conveniente, as reuniões de peritos das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais para facilitar o diálogo ecumênico. O ecumenismo precisa ser objeto de reflexão e comunicação de experiências entre as distintas Conferências Episcopais católicas do Continente.

 

221. Base para a formação católica ao ecumenismo são os oportunos subsídios fornecidos pelo Diretório para o Ecumenismo253, pelo CONIC e pelo setor de ecumenismo da CNBB254. É imprescindível um estudo sério da Encíclica Ut Unum Sint do Papa João Paulo II e dos textos publicados pelos Pontifícios Conselhos para a Promoção da Unidade dos Cristãos e do Diálogo Inter-Religioso.255 A boa formação é a primeira condição para que os católicos possam dar contribuição proveitosa ao diálogo com os irmãos das outras igrejas.

 

3. Anúncio do Evangelho

 

3.1 Fundamentação

 

222.        "A tarefa fundamental para a qual Cristo envia seus discípulos é o anúncio da Boa Nova, isto é, a evangelização (cf. Mc 16,15-18). Segue-se daí que evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, sua mais profunda identidade"256. A evangelização, para ser autêntica, precisa partir do encontro pessoal com Jesus Cristo, pois é Ele — sua vida, seu projeto, sua pessoa — o centro da missão. Esse encontro se dá no estudo e meditação da Sagrada Escritura, na vivência da dimensão celebrativa e nas "pessoas, especialmente os pobres com os quais Cristo se identifica". A Escritura, a Eucaristia e as pessoas constituem, assim, os lugares por excelência, do encontro com Cristo na história257.

 

223.        Esse encontro, relatado inúmeras vezes na Sagrada Escritura, vem acompanhado da conversão daquele que se abriu a essa singular experiência. Conversão que se traduz em gestos concretos: recompõe a comunhão perdida e desperta para a solidariedade humana. Assim aconteceu com os discípulos de Emaús, com Zaqueu, com a Samaritana e tantos outros. Quem se encontra com o Cristo, transforma-se e "o primeiro impulso dessa transformação é comunicar aos outros a riqueza descoberta no encontro"258. Descobre que "é preciso anunciar Cristo com alegria e fortaleza, mas sobretudo com o testemunho da própria vida"259.

 

224.        "A evangelização há de conter também sempre — ao mesmo tempo como base, centro e vértice do seu dinamismo — uma proclamação clara de que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus"260. O Apóstolo Paulo ressalta a necessidade do anúncio ou da proclamação (kérygma) para que se possa tornar explícita a fé em Cristo: "Como hão de invocar Aquele em quem não acreditam ? E como hão de acreditar naquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes pregar? (...) A fé vem da pregação, e a pregação pela palavra de Cristo"261. Sobre a importância do anúncio insistem os documentos mais recentes262.

 

225.        Aqui é relevante destacar dois aspectos do anúncio ou querigma. O primeiro é que ele é claramente uma missão apostólica263. Mas essa missão — como se vê pelo Novo Testamento e a história do cristianismo — não se restringe aos Doze e a seus sucessores, embora eles tenham um especial encargo de garantir a autenticidade do anúncio e de promover a unidade na atuação da Igreja. A missão evangelizadora é confiada a todos os discípulos de Cristo e dela participam, de direito, todos os fiéis264.

 

226.        O segundo aspecto a ser ressaltado é que o querigma ou anúncio da salvação em Jesus Cristo não se faz através de fórmulas repetidas, mas em diálogo com a compreensão e as expectativas dos destinatários da mensagem. Por isso, diálogo e anúncio são aspectos complementares da evangelização265. Muitas vezes o diálogo ajudará a formular o anúncio da maneira mais adequada às circunstâncias e à ação do Espírito266.

 

227.        Um exemplo claro de anúncio, atento às condições dos ouvintes, encontra-se em Atos dos Apóstolos. Basta comparar os discursos de Paulo aos judeus267, aos camponeses da Licaônia268 e aos intelectuais de Atenas269. A conseqüência da procura de um querigma inculturado, ou de um anúncio de Jesus atento às aspirações e inquietações das pessoas humanas, é que também no anúncio — como, depois, na catequese que o aprofunda — deve valer o método da interação entre Palavra e situação do ouvinte, como o documento "Catequese Renovada" já mostrou270.

 

228.        Mesmo que muitas vezes a obstinação pessoal ou o peso de uma tradição cultural e religiosa diferente criem obstáculos radicais ao anúncio, isso não dispensa nenhum cristão do esforço sério de anunciar a salvação em Cristo e de testemunhar a fé com a vida.

 

 

3.2 — Urgências

 

229.        Tendo em vista os que precisam ouvir o anúncio de Cristo na sociedade brasileira de hoje, marcada pelo pluralismo religioso271, apontamos três situações de urgência:

a dos católicos não-praticantes, que receberam o batismo, mas cujo contato com a vida e a palavra da Igreja é tão pouco freqüente que eles precisam de uma "nova evangelização" (isto não exclui que haja, entre os que não freqüentam os sacramentos e as reuniões eclesiais, pessoas muito próximas de Deus e muito generosas na prática do amor fraterno); situam-se aqui também largas faixas de população flutuante, que, devido aos freqüentes deslocamentos geográficos, encontram sérias dificuldades de ter uma evangelização mais continuada, inclusive receber os sacramentos da iniciação cristã e o do matrimônio, e participar da comunidade; e ainda os católicos que, vivendo em nova união matrimonial sem o sacramento, encontram dificuldades para participar da comunidade e da Eucaristia

a dos cidadãos que se declaram sem religião e cuja vida pessoal e social parece fortemente influenciada pelo secularismo ou pelo indiferentismo religioso

a dos não-cristãos de algumas regiões brasileiras (como certas comunidades indígenas e comunidades vindas de outros continentes, como orientais etc.), para com os quais nossa Igreja tem uma dívida em relação à evangelização, mesmo que possa apenas "dar da própria pobreza"272.

 

230.        Em geral, diante do dinamismo das mudanças da cultura atual273, o anúncio da salvação em Cristo — a boa nova do Evangelho — precisa ser repetido permanentemente e renovado em sua formulação, pois mudam a sensibilidade e a perspectiva com as quais é recebido. Ele, contudo, não será muito eficaz se não for precedido pelo diálogo e pelo esforço de compreender a evolução das mentalidades e se não for acompanhado pelo testemunho de vida dos cristãos.

 

231.        Os ouvintes, que o nosso anúncio deve atrair, constituem massa imensa de pessoas. Os católicos não-praticantes são, ao menos, 50% da população adulta. Os cidadãos "sem religião" são relativamente poucos (10% nas grandes cidades, menos de 5% no conjunto da população adulta), mas pertencem muitas vezes a setores influentes da sociedade. Face a esses imensos desafios, é preciso mobilizar muito mais recursos humanos e materiais a serviço da evangelização, revendo seriamente a tendência de concentrar quase todos os esforços nos cuidados pastorais do "rebanho" que já está no redil.

 

232.        A evangelização dos ambientes dos dirigentes da sociedade tem se tornado cada vez mais urgente, sobretudo face ao seu crescente secularismo. Nessa tarefa, "os pastores poderão contar com o apoio daqueles que — felizmente, são ainda numerosos — permanecem fiéis aos valores cristãos"274. Com eles, "os pastores enfrentarão a difícil tarefa de evangelização desses setores da sociedade com renovado fervor e uma metodologia atualizada, dirigir-se-ão aos dirigentes, homens e mulheres, para levar-lhes o anúncio de Cristo, insistindo principalmente na formação das consciências, por meio da Doutrina Social da Igreja. Essa formação constituirá o melhor antídoto contra os inúmeros casos de incoerência e, em certos casos, de corrupção existente na estrutura socio-política"275. Uma interpretação unilateral da opção pelos pobres não deve levar a descuidar da evangelização dos dirigentes da sociedade276.

 

 

3.3 — Indicações práticas

 

3.3.1 — Com relação aos católicos não-praticantes ou pouco assíduos

 

233.        Os católicos não-praticantes constituem o maior desafio missionário que a Igreja no Brasil enfrenta, ao menos do ponto de vista quantitativo277. Eles conservam com as comunidades eclesiais dois laços pastoralmente relevantes: 1º - a herança do catolicismo popular, especialmente através da devoção a Maria Santíssima e aos santos; 2º - a procura dos sacramentos nos momentos decisivos da vida: nascimento, primeira Eucaristia e Crisma dos filhos; Matrimônio; doença grave e morte. As orientações pastorais que se impõem nessa situação são:

a atenção e o cuidado para com as práticas de religiosidade popular, que podem estabelecer ou reforçar os vínculos entre os católicos não-praticantes e a comunidade eclesial

um renovado esforço para promover ou fortalecer aquelas manifestações religiosas de massa que atraem, ao menos ocasionalmente, grandes parcelas da população

um tratamento diferenciado e, quanto possível, personalizado para com os não-praticantes, quando procuram os sacramentos

uma revisão séria e atenta das críticas e motivações que afastam os católicos da prática eclesial

Privilegiar a pastoral do contato pessoal, as visitas às famílias — particularmente às que estiverem em situações de sofrimento ou alegria, como doenças, falecimentos, nascimento, aniversário etc. — e a acolhida aos migrantes

uma reforma de estruturas e práticas pastorais inadequadas ao contexto urbano e alheias à mentalidade moderna.

 

234.        Especial destaque merece a pastoral urbana, com a criação de estruturas eclesiais novas que, sem desconhecer a validade da paróquia renovada, permitam que se enfrente a problemática apresentada pelas enormes concentrações humanas de hoje278. As divisões entre as paróquias devem ser flexibilizadas, colocando o bem do povo acima de uma concepção territorial estreita e inadequada à realidade da cidade grande. Equipes pastorais podem servir mais eficazmente áreas urbanas compostas por várias comunidades.

 

235.        Na cidade encontram-se em gestação as novas formas da cultura. Daí a necessidade de se buscar caminhos, na experiência e na imaginação, para a pastoral urbana. Por um lado, é preciso multiplicar e diversificar, segundo as especificidades do meio urbano, dentro de interesses e necessidades grupais, comunidades eclesiais que suscitem, eduquem e apoiem a experiência da fé a partir da Palavra, da Eucaristia, da comunhão fraterna e do empenho no serviço dos irmãos. Por outro lado, é preciso criar ou desenvolver polos ou centros de evangelização, que atendam à mobilidade da população urbana, que ofereçam oportunidades múltiplas de contato com a mensagem evangélica e a experiência eclesial, que possam tecer uma rede de contatos com aqueles cidadãos que dificilmente conseguem ligar-se de forma permanente com uma comunidade estável.

 

236.        Atenção especial merecem os jovens, seja em consideração da sua situação social e religiosa279, seja em consideração da opção preferencial assumida pela Igreja latino-americana em Puebla280 e retomada com ênfase em Santo Domingo281. Os jovens "são um grande desafio para o futuro da Igreja"282. Eles não são apenas destinatários da evangelização, mas dela devem tornar-se sempre mais sujeitos ativos, "protagonistas da evangelização e artífices da renovação social"283. A Pastoral da Juventude, portanto, deve estar entre as principais preocupações dos pastores e das comunidades.284

 

237.        Por ser muito diversificada, a situação dos jovens exige respostas adaptadas às necessidades concretas e aos meios específicos285. A título de exemplo, indicamos algumas ações que a Igreja deve privilegiar ou reforçar:

atuação junto aos menores abandonados e às situações de miséria, visando oferecer a crianças e adolescentes — junto com os serviços públicos, muitas vezes precários — oportunidades de educação e cuidados com a saúde, especialmente através da prevenção de doenças

atuação pastoral, propiciando oportunidades de conscientização e de ação aos grupos de jovens mais abertos aos valores cristãos e mais dispostos a um empenho coletivo para a transformação da sociedade; essa atuação visará a ajudar, também, no crescimento humano-afetivo e, sobretudo, tornar esses jovens evangelizadores, protagonistas da evangelização

atuação evangelizadora e missionária voltada para a juventude urbana, especialmente para os jovens mais influenciados pela cultura do individualismo e mais isolados, menos apoiados pela família ou a escola, mais afastados dos padrões morais e religiosos tradicionais.

 

238.        Essas ações demandam uma preparação específica e a busca de novas metodologias pedagógicas. Os presbíteros e outros agentes de pastoral precisam de ajuda para superar a distância entre as gerações. A nova geração tem outras perguntas, outras linguagens. As escolas católicas, também, devem renovar seu trabalho educacional para oferecer chances de educação autêntica e socialmente aberta a uma juventude marcada, especialmente nas classes médias, por uma visão utilitarista e individualista da vida e da profissão. São necessários recursos financeiros para essa tarefa pastoral.

 

239.        As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e o Projeto Rumo ao Novo Milênio, profundamente marcados pela centralidade da evangelização, conseguiram despertar na grande maioria das dioceses brasileiras novo impulso missionário através, sobretudo, das Missões Populares e da multiplicação de ações evangelizadoras realizadas pelos leigos. Constata-se, nesse empreendimento, conhecido como Santas Missões Populares, uma expressão significativa da ministerialidade laical.

 

3.3.2 — Com relação às pessoas indiferentes ou sem religião

 

240.        Entre as pessoas que se mostram indiferentes ou se declaram sem religião, não encontramos — a não ser excepcionalmente — contatos com a pregação e a prática sacramental católica. As pessoas são atingidas pela "presença pública" da Igreja, tanto a que se manifesta através de pronunciamentos ou ações no campo social, como a que consegue comunicar algo de sua fé através dos meios de comunicação de massa ou outras manifestações públicas. Há aqui uma conexão relevante entre o "serviço" que a Igreja presta à sociedade e o "anúncio" do Evangelho.

 

241.        Está aberto, também, o caminho do testemunho pessoal (e, mais raramente, comunitário) dos leigos cristãos, que se encontram continuamente com colegas de trabalho, vizinhos ou amigos, cuja atitude religiosa está mais ou menos próxima do indiferentismo. Será que o comportamento desses cristãos leva os indiferentes a lhes perguntar "as razões da esperança" que está neles?286 Poderão "dar testemunho de como a fé cristã, mais ou menos conscientemente ouvida e invocada por todos, seja a única resposta plenamente válida para os problemas e as esperanças que a vida põe a cada homem e a cada sociedade"? "Será isso possível se os fiéis leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana atividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra inspiração e força para se realizar em plenitude"287.

 

242.        Outro caminho aberto passa pelo diálogo sobre as grandes questões de ética, levantadas por uma sociedade que precisa sempre mais urgentemente escolher entre a insensatez de um egoísmo desenfreado e a racionalidade de uma ordem social construída sobre valores universais ou, em última instância, sobre o reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana, criada e amada por Deus como filha, e sobre a preservação do meio ambiente, condição de vida dos seres humanos.

 

243.        Os meios de comunicação de massa são dominados, na grande maioria, por interesses econômicos e por uma mentalidade "secularista". A Igreja mantém, com seus fiéis, uma boa comunicação em nível interpessoal. Goza também de grande estima na opinião pública. Mas a presença da Igreja nos meios de comunicação ainda é insuficiente, apesar dos notáveis progressos conseguidos nos últimos anos, e o tratamento que deles recebe é ambíguo. É necessário continuar na busca de soluções realistas e eficazes. Devemos interrogar-nos sobre nossa própria linguagem, que conserva traços de uma cultura em grande parte alheia à modernidade e que está sobrecarregada de elementos secundários, relevantes em outras épocas, mas cujo acúmulo hoje arrisca fazer perder de vista o essencial e dificultar a comunicação.

 

244.        Outro questionamento inevitável origina-se da reivindicação moderna da liberdade de informação, da democratização do acesso aos meios de comunicação, da formação da consciência crítica, da exigência de veracidade e transparência. É desejável que haja uma presença católica mais coordenada e eficaz nos grandes meios de comunicação. No Brasil, a presença de instituições religiosas é forte no campo das editoras e do rádio. Em áreas onde a presença é mais fraca, é preciso criatividade para desenvolver atividades compatíveis com a escassez de recursos financeiros (programas televisivos específicos, agência de notícias etc.). Além disso, o desenvolvimento tecnológico facilita a cooperação (criação de redes) e a multiplicação de pequenas iniciativas locais, onde Dioceses, paróquias, congregações ou movimentos podem produzir informativos, subsídios didáticos e catequéticos, especialmente vídeos, atividades alternativas de formação da consciência crítica, visando aperfeiçoar gradativamente a tecnologia, a pedagogia e o conteúdo evangelizador. As Igrejas Particulares precisam investir na formação de comunicadores de inspiração cristã, com boa preparação profissional e pastoral, e na própria ação pastoral junto aos comunicadores em geral.

 

3.3.3 — Com relação à missão "além-fronteiras" ou em áreas carentes

 

245.        Durante séculos, a Igreja no Brasil dependeu fortemente da atividade missionária "além-fronteiras" das Igrejas das nações européias e, recentemente, da América do Norte. Hoje firma-se sempre mais a consciência de que a situação está mudada. As Igrejas de antiga cristandade vêem diminuir sua capacidade de enviar missionários. De outro lado, "finalmente chegou para a América Latina a hora de intensificar a ajuda mútua entre Igrejas particulares e de se abrir para além de suas próprias fronteiras, "ad gentes".... É verdade que também nós precisamos de missionários; devemos dar, porém, de nossa pobreza"288. Diante de inúmeros irmãos e irmãs que ainda desconhecem a riqueza do Evangelho, "seria um erro deixar de promover a atividade evangelizadora fora do continente sob o pretexto de que ainda há muito a fazer na América, ou à espera de se chegar primeiro a uma situação, fundamentalmente utópica, de plena realização da Igreja na América"289. "Uma Igreja local não pode esperar atingir a plena maturidade eclesial e, só então, começar a preocupar-se com a Missão para além de seu território. A maturidade eclesial é conseqüência e não apenas condição de abertura missionária. Estaria condenando-se à esterilidade a Igreja que deixasse atrofiado seu espírito missionário, sob a alegação de que ainda não foram plenamente atendidas todas as necessidades locais"290.

 

246.        Mantendo-se aberta ao mundo, a Igreja no Brasil olha para a América Latina e a África como áreas geográficas prioritárias da sua Missão "além-fronteiras". A América Latina, por razões compreensíveis de vizinhança e destino comum, tornadas mais claras ainda dentro de um novo desenho geopolítico dos blocos de nações; a África, pela raiz comum da população negra, e como pagamento da dívida contraída por séculos de escravidão; dentro da África, os países de língua portuguesa têm merecido maior atenção. Um outro desafio é apresentado pela maciça migração de latino-americanos e brasileiros para os Estados Unidos (cerca de 30 milhões).

 

247.        O programa missionário "além-fronteiras" da Igreja no Brasil já está em pleno andamento com cerca de mil missionários trabalhando fora do País. A imensa maioria é constituída de religiosas, mas há, também, um bom número de presbíteros, alguns diocesanos, e uma pequena, mas significativa, presença de leigos. Convém enfatizar que os leigos precisam assumir um papel mais ativo também no campo da missão "ad gentes".

 

248.        Um novo impulso para o trabalho missionário da Igreja no Brasil exige esforços de animação missionária em três direções. A primeira é o aprofundamento da consciência da vocação e responsabilidade missionária nas Igrejas particulares, em todas as paróquias, comunidades eclesiais e organizações de leigos. A segunda área diz respeito ao próprio perfil dos missionários. É necessário um intenso trabalho nos presbitérios e nos seminários para ajudar os presbíteros diocesanos a descobrirem a Missão "além-fronteiras" como um caminho também próprio e particularmente rico, de realização de sua vocação de evangelizadores. Nos Seminários cultive-se o espírito missionário, dando o devido destaque ao ensino da Missiologia. Inicie-se trabalho semelhante junto aos leigos e suas organizações. A terceira é a da criação de novas formas de cooperação, diálogo e intercâmbio entre a nossa Igreja e as Igrejas de outros continentes. O envio missionário complementa-se pela criação de organizações específicas de apoio e de diálogo inter-religioso e intereclesial em torno de iniciativas e assuntos de interesse comum.

 

249.        A Missão "além-fronteiras", pela complexidade de sua própria natureza e execução, exige uma formação cuidadosa de seus agentes e uma organização capaz de garantir a continuidade. As iniciativas missionárias devem fazer parte de um programa orgânico, coordenado com o apoio dos organismos da CNBB, da CRB e das Pontifícias Obras Missionárias. É desejável que se dêem novos passos para concretizar um Centro Missionário Nacional, para estudos e formação permanente, e um Instituto Brasileiro de Missões "além-fronteiras"291.

 

250.        A Igreja do Norte do País, mais precisamente a Amazônia, equivalente aos Regionais da CNBB Norte I e Norte II, abrange 3.581.189 quilômetros quadrados, quase a metade, 42,07%, do território nacional. "Diante de tão ingente desafio, os bispos da Amazônia têm contribuído com a comunhão eclesial através de inúmeras riquezas de sua caminhada. Ao mesmo tempo, reiteram constantemente seu apelo aos outros Regionais para que atendam ao grito de socorro à Igreja da Amazônia pelos seus desafios pastorais, pela sua extensão e importância no cenário mundial"292.

 

251.        É necessário, porém, reconhecer que essa situação evoluiu positivamente nas últimas décadas. A Igreja no Brasil, através da CNBB e de iniciativas de Igrejas particulares e Institutos de Vida Consagrada, marcou uma progressiva presença na problemática pastoral da Amazônia. A questão indígena foi assumida com força em nível nacional, e vários apoios missionários foram prestados, sobretudo às regiões de novas fronteiras de ocupação. Merece, também, especial destaque o esforço e dedicação de missionários e missionárias de outros Países, e sua presença religiosa, social, educacional e humana na evangelização e defesa dos povos indígenas e de seus direitos.

 

252.        Outra iniciativa, historicamente importante no despertar das Igrejas do Brasil para a Amazônia, as Regiões do Oeste e o Nordeste, foi o programa "Igrejas-Irmãs". Foi sobretudo aí que o programa encontrou, desde o início, maior motivação e expansão. O programa "Igrejas-Irmãs" vive, atualmente, uma fase de revitalização, sobretudo através dos regionais. Tem aumentado a solidariedade na missão293. Essa nova fase de empenho missionário é, certamente, importante e decisiva para favorecer o amadurecimento e a originalidade das Igrejas locais e suscitar projetos concretos de solidariedade e reciprocidade.

 

253.        No mesmo espírito, porém fora do programa propriamente dito, encontram-se várias iniciativas de serviço missionário por parte de Igrejas de outras Regiões, com fins pastorais específicos. Prioritário é o serviço da formação de presbíteros e outros ministros autóctones.

 

 

4. Testemunho da comunhão eclesial

 

4.1 — Fundamentação

 

254.        Quando a palavra do Evangelho, anunciada pelos Apóstolos e seus sucessores e discípulos até hoje, é acolhida por uma pessoa, o Espírito Santo suscita a fé e vai progressivamente modificando sua vida e atitudes, fazendo brotar — na medida da resposta ao dom de Deus — as virtudes cristãs e os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, fidelidade, brandura, temperança..294. Paulo, que não subestima as virtudes "humanas", aquelas que também os pagãos apreciam295, vê a perfeição cristã na imitação de Cristo, melhor, na identificação com Ele296. A primeira recomendação da exortação prática que conclui a maior carta de Paulo é: "Eu vos exorto, irmãos, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual"297. O cristão torna-se, assim, participante do tríplice ministério de Cristo, pelo qual Ele ofereceu sua própria vida298.

 

255.        No plano das pessoas, a finalidade da ação evangelizadora e pastoral consiste em transformar o homem velho em homem novo; fazer do batizado em Cristo, homem ou mulher, judeu ou pagão, o santo que desde já experimenta a comunhão com Deus299. "A finalidade da evangelização é (...) esta mudança interior: e se fosse necessário traduzir em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando (..) procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios"300.

 

256.        Suscitando os fiéis em Cristo e levando-os à comunhão com Ele e entre si, a ação evangelizadora e pastoral constrói a Igreja ou, melhor, faz com que a Igreja aconteça. Pelo dom de Deus, no Espírito e pela Palavra, reúnem-se fiéis e pastores para louvar o Senhor, celebrar a Eucaristia, meditar o ensinamento dos Apóstolos, partilhar seus bens materiais e espirituais301. Em todas as comunidades reunidas pelo Espírito e pelo Evangelho ao redor dos sucessores dos Apóstolos, "embora muitas vezes pequenas e pobres"302, Cristo está realmente presente303. Está presente o Deus Uno e Trino — comunhão do Pai, do Filho e do Espírito — de onde provem sua origem a comunhão eclesial304.

 

257.        Com fundamento na Palavra e na Liturgia, cume e fonte de sua ação, a Igreja organiza e mantém sua pedagogia da iniciação cristã, sua catequese, suas celebrações, sua vida comunitária e articula as diversas comunidades para que estejam solidariamente a serviço do Evangelho e ofereçam aos cristãos a experiência inicial do Reino.

 

258.        A variedade dos dons concedidos à Igreja, os sacramentos de Cristo, os diversos ministérios e vocações, que sustentam a Igreja na sua caminhada para a plena realização do Reino, são descritos com riqueza e profundidade na constituição conciliar Lumen Gentium. Ela permanece como referência fundamental de nossa visão da Igreja. O mesmo Concílio quis renovar e ilustrar a compreensão das fontes da vida eclesial, dedicando à Palavra de Deus e à Liturgia as constituições Dei Verbum e Sacrosanctum Concilium. Constituem os marcos que apontam a direção da Igreja que devemos continuamente construir para que possa ser "sinal da salvação" e da "unidade do gênero humano"305, apontando o destino de todos em Cristo.

 

259.        A variedade de dons e a diversidade de ministérios podem originar tensões na comunidade eclesial306. Ao longo da história do cristianismo, ela conheceu dolorosas lacerações que contradizem abertamente a vontade de Cristo e são escândalo para o mundo, "algumas vezes não sem culpa de pessoas de um ou de outro lado"307. Igrejas e comunidades eclesiais, que não estão em plena comunhão com a Igreja católica não foram privadas do seu significado e valor dentro do mistério de salvação. O batismo une em fraterna comunhão de graça todos os cristãos. Os católicos devem corresponder com solidariedade aos esforços empreendidos para superar as divisões herdadas do passado e construir de novo, entre os cristãos, uma comunhão de amor cada vez mais profunda e plena.

 

260.        O testemunho da comunhão eclesial possui também uma dimensão missionária e evangelizadora, como recorda a oração de Jesus: "Para que todos sejam um ... a fim de que o mundo creia"308. A evangelização inicia quando um cristão ou um grupo de cristãos manifesta — através de sua compreensão e acolhimento, em sua comunhão de vida com os irmãos e em sua solidariedade com todos — a sua fé e a sua esperança em algo que não se vê309. Esse testemunho é manifestado pela comunidade cristã reunida para partilhar a sua fé, celebrar o louvor do Senhor e viver a caridade; assim aparecerá como lugar da adoração do verdadeiro Deus. Até o incrédulo pode reconhecer: "Deus está realmente no meio de vós!"310.

 

261.        Como afirma o Papa João Paulo II, "no final do segundo milênio, a Igreja tornou-se novamente Igreja dos Mártires". "É um testemunho que não se pode esquecer". "Impõe-se que as Igrejas locais tudo façam para não deixar perecer a memória daqueles que sofreram o martírio". A Igreja se empobrece quando não sabe cultivar a memória daqueles que deram a vida por assumirem com radicalidade a Palavra de Deus. A dimensão martirial da Igreja deve, cada vez mais, estar atenta ao seu caráter ecumênico. Na obra da evangelização, "o ecumenismo dos santos, dos mártires, é talvez o mais persuasivo". Enfim, faz-se necessário estar atento aos inúmeros mártires da grande causa de Deus, muitas vezes desconhecidos.311

 

 

4.2 — Urgências

 

262.        A primeira urgência da atuação da Igreja em ordem à fé dos fiéis é oferecer-lhes a real possibilidade de descobrir e percorrer o roteiro da iniciação cristã — a experiência do seguimento de Cristo — adequada à idade e maturidade pessoal. A urgência tornou-se maior para boa parte das novas gerações, porque em nossa sociedade muitas famílias não sabem ou não querem propiciar a educação na fé. No contexto atual de pluralismo religioso e de confusão das informações, é extremamente importante que a Igreja ofereça algo semelhante ao antigo catecumenato para a educação na fé e a experiência do seguimento de Cristo. Promovam-se formas renovadas de catequese, articuladas com a vida, inculturadas no presente, não reduzidas à mera transmissão de noções formuladas em linguagem pouco significativa. Essas formas devem ser procuradas, aperfeiçoadas e difundidas hoje. A catequese, como a definiu o Santo Padre, "é uma dimensão essencial da nova evangelização. "A catequese é um itinerário de formação na fé, na esperança e na caridade, que forma a mente e toca o coração, levando a pessoa a abraçar Cristo de modo pleno e completo. Introduz o crente mais plenamente na experiência da vida cristã, que inclui a celebração litúrgica do mistério da redenção e o serviço cristão aos outros"312.

 

263.        Na mesma perspectiva, é urgente vivificar e atualizar as diversas formas de celebração litúrgica e de comunicação da Palavra aos adultos, buscando formulações adequadas à rápida evolução das mentalidades e da cultura. É preciso cuidar da autenticidade e qualidade pastoral das celebrações dos sacramentos, evitando que a preocupação com a quantidade leve à pressa e ao ritualismo minimalista. Critérios da qualidade são a fidelidade objetiva à Palavra de Deus e à tradição eclesial, a atenção à participação subjetiva dos fiéis, visando ao enriquecimento da experiência religiosa de cada um, e a consciência do compromisso missionário.

 

264. Outro desafio é estabelecer uma efetiva unidade de fé e vida na vivência cristã dos fiéis313. Causas históricas complexas têm enfraquecido esta conexão, reduzindo muitas vezes a prática religiosa a formalismos e devocionismos, enquanto o comportamento ético afasta-se e torna-se incompatível com o espírito cristão.

 

265.        A mesma urgência pode ser formulada positivamente como necessidade de harmonizar e articular a dimensão pessoal e a dimensão social da existência cristã. Ou ainda, unir e fortalecer mutuamente a prática da oração, com sua dimensão contemplativa, e a prática da ação, com sua dimensão coletiva e histórica.

 

266.        Condição para tornar acessíveis a educação na fé e a vivência cristã é a existência de comunidades eclesiais "com rosto humano", cuja dimensão e espírito permitam a acolhida e a valorização de cada pessoa, segundo sua idade e necessidades espirituais. Essa prática, no pluralismo hodierno, implica em diversificação das comunidades (e associações, movimentos ou pastorais) a fim de estabelecer uma melhor correspondência entre estruturas eclesiais e situações sócio-culturais.

 

 

4.3 — Indicações práticas

 

267.        A cada cristão reconheça-se a condição de sujeito, no sentido pleno do termo, abrindo espaço para a experiência subjetiva e pessoal da fé, valorizando o sacerdócio comum dos fiéis e o consenso na fé de todo o povo de Deus.

 

268.        A experiência religioso-cristã realiza-se através do encontro com a Palavra de Deus, com os Sacramentos e com a comunhão eclesial, com a Tradição e o Magistério da Igreja, não através de uma experiência meramente subjetiva.

 

269.        A vocação, os dons e carismas pessoais sejam colocados a serviço da comunidade eclesial e de sua edificação, fazendo-se da participação ativa uma forma de realização cristã da pessoa.

 

270.        A pastoral da reconciliação deve encontrar amplo espaço na vida da Igreja. A reconciliação das pessoas consigo mesmas, com o próximo e com Deus realiza-se de forma dinâmica e transformadora no sacramento da Penitência. Recordamos os ensinamentos do novo Catecismo da Igreja Católica: "Quem está consciente de um pecado grave deve receber o sacramento da reconciliação antes de receber a comunhão"314. Pois, recorda o mesmo Catecismo, "a confissão individual e integral dos pecados, seguida de absolvição, continua sendo o único modo ordinário pelo qual os fiéis reconciliam-se com Deus e com a Igreja"315.

 

271.        Importância especial seja dada ao acolhimento às pessoas. Para isso, recomendam-se algumas práticas: "ministério da acolhida", visitas às famílias que chegam; visitas domiciliares nos momentos marcados pela alegria ou pela tristeza; postura acolhedora, alegre e disponível, por parte do presbítero e demais agentes de pastoral.

 

272.        A atitude de amizade e de acolhimento acentua a valorização da pessoa. Imita-se assim o gesto de Cristo acolhendo Zaqueu que, por sua vez, o recebe alegremente em sua casa. Ou a atitude de Jesus ao acolher as crianças ou, ainda, o gesto de Filipe e André que acolhem alguns gentios desejosos de ver o Cristo e os apresentam ao Mestre316.

 

273.        A acolhida poderá traduzir-se também em formas sistemáticas e organizadas: aconselhamento, com a colaboração de pessoas especificamente preparadas; revalorização do sacramento da reconciliação; disposição para o diálogo e a direção espiritual. Dê-se especial atenção ao acolhimento das pessoas que procuram ocasionalmente um sacramento, apesar de serem católicos pouco assíduos ou não-praticantes. Os chamados "cursos de preparação" (ao batismo das crianças e ao casamento) assumam a forma de encontros o mais possível personalizados, adequados às pessoas que os freqüentam, e podem ser substituídos, especialmente no caso da preparação ao batismo, por visitas às casas dos pais. Em qualquer caso, quem procura a comunidade eclesial sinta que é recebido com cordialidade e fraternidade cristã. E a comunidade lembre-se de que não pode apenas aguardar quem a procura, mas deve ir ao encontro do outro com espírito evangélico e coração aberto. Não se criem exigências, além das normas diocesanas, como condição para receber os sacramentos.

 

274.        A pessoa merece ser acolhida na comunidade, com abertura e sensibilidade para os diversos aspectos e dimensões de sua identidade e existência. A comunidade, respeitando o princípio da liberdade cristã, ajude seus membros a não cair em atitudes unilaterais, como o intelectualismo, o intimismo, a excessiva importância dada à experiência emocional, a busca desmedida do "maravilhoso" e a fuga do compromisso com a transformação social.

 

275.        Ao acolhimento segue-se o acompanhamento. Após o primeiro anúncio, haja continuidade de contatos para envolver a pessoa na vida da comunidade eclesial. Procure-se o apoio e envolvimento da família, especialmente em relação à educação cristã das crianças. A família é a primeira e fundamental estrutura a favor da "ecologia humana", no seio da qual o ser humano recebe as primeiras e determinantes noções acerca da verdade e do bem, aprende o que significa amar e ser amado e, conseqüentemente, o que significa, em concreto, ser uma pessoa.

 

276.        Na experiência que a pessoa faz da comunidade cristã, predomine o primado da experiência espiritual, no sentido forte de uma autêntica experiência de Deus, emocionalmente envolvente, levando à conversão pessoal, a uma vivência de fé e a uma mística profundas, nas quais a liberdade humana se abre à comunicação de Deus, em Cristo. A experiência espiritual cristã da alteridade encontra no Outro sua origem e fundamento. Cada um de nós é chamado à vida e amado primeiro para entrar em aliança e comunhão com Deus e os irmãos.

 

277.        Na catequese, busque-se a necessária conexão entre a experiência pessoal e comunitária e a doutrina; entre a experiência de vida e a formulação da fé; entre a vivência atual e o dado da tradição, à luz da Palavra de Deus317. Promova-se uma catequese mais atraente e diferenciada, respeitando os níveis de engajamento cristão das pessoas e procurando levá-las pedagogicamente à inserção na comunidade eclesial e na vida litúrgica. Não se retarde o início da catequese infantil, pois, desde cedo, a criança está exposta a muitas influências, especialmente dos meios de comunicação. O recente Catecismo da Igreja Católica será referência doutrinal segura na formação inicial e permanente de todo batizado e de todo agente de pastoral.

 

278.        Nas celebrações litúrgicas, articulem-se melhor a tradição da Igreja e a experiência atual dos fiéis, valorizando as pessoas e sua vivência. É preciso redescobrir o aspecto simbólico da liturgia, enfatizar o sentido do mistério e recuperar as dimensões de festa, alegria e esperança e a riqueza da espiritualidade do Ano Litúrgico. As celebrações sejam menos apressadas e menos intelectualizadas, proporcionando maiores momentos de silêncio, interiorização e contemplação. Valorizem-se os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança318. Promova-se maior aproximação entre as celebrações litúrgicas e o universo simbólico das comunidades, através de uma legítima criatividade, adaptação e inculturação. A busca de uma simbologia mais adequada ao meio urbano deve ser hoje uma preocupação prioritária da pastoral litúrgica. Promova-se a constituição de Equipes de Liturgia e a formação para o desempenho da presidência e demais ministérios e serviços da celebração.

 

279.        Respeite-se a liberdade do cristão na escolha das formas específicas de seu empenho na sociedade. Essa liberdade, porém, não seja abandonada a si mesma. No contexto da sociedade moderna e no meio urbano, criou-se uma dicotomia entre a fé e a vida, entre a esfera da religião e as esferas da ciência, da política, da economia e das atividades profissionais. É, portanto, necessário e urgente um esforço para descobrir modelos de vida cristã na sociedade moderna e estimular uma melhor integração entre fé e vida.

 

280.        Uma das maiores expressões da valorização da pessoa por parte da Igreja é certamente o empenho com que ela tem promovido a educação, seja no âmbito familiar, seja na escola ou por outros meios. Através da educação, o indivíduo torna-se pessoa e amplia as dimensões de seu ser e de seu agir. É preciso, portanto, continuar e multiplicar as atividades educativas da Igreja, através das escolas católicas ou pelo empenho em levar a presença cristã às escolas públicas, dando-lhes nova qualidade e maior eficácia evangélica.

 

281.        Cuide-se de uma pastoral da educação que não seja restrita ao Ensino Religioso ou à formação doutrinária dos professores, mas que trate do mundo da educação e de seus desafios e ajude os educadores a vivenciar a mística desse trabalho que envolve o direito dos filhos de Deus às melhores condições para o seu desenvolvimento integral. Nesse processo, dê-se especial acompanhamento aos que atendem aos educandos mais carentes.

 

282.        Num mundo tão fragmentado, será muitas vezes ao redor da preocupação com a educação dos filhos que paróquias, comunidades, movimentos e instituições católicas de ensino poderão reunir os pais e envolver ativamente jovens e adultos num trabalho de evangelização, concretizando variadas formas de pastoral familiar. Na família evangelizada, pais e filhos tornam-se evangelizadores319. Hoje, com o preceito constitucional, instituindo a pré-escola, deve-se atender ao despertar precoce da criança para o sentido dos valores no relacionamento com os outros. Não falte nessa fase da infância o despertar para a presença de Deus, que ama a cada um com ternura.

 

283.        Nas Igrejas particulares e especialmente no meio urbano, reconheça-se a possibilidade de diversas formas de vida comunitária, integração e associação dos fiéis, sem querer impor um único modelo de comunidade eclesial. No contexto urbano, o fiel é exposto a um número muito grande de solicitações e tem relações com diversos meios profissionais, culturais e residenciais. Nesse contexto, a pastoral não pode ser uniforme ou ligada exclusivamente a um único centro de agregação. Ela torna-se, necessariamente, uma rede de relações com diversos aspectos da experiência cristã e vários níveis da organização eclesial. Por isso a organização pastoral, especialmente na grande cidade, deverá prever a articulação e a complementação entre os diversos tipos de comunidades, movimentos e formas ocasionais ou provisórias de participação dos fiéis na vida da Igreja. É urgente promover a formação de comunidades eclesiais inseridas nos ambientes culturais e profissionais.

 

284.        A paróquia busque adequar-se às mudanças de nosso tempo. Nos dias de hoje, de maneira especial, ela é "chamada a ser acolhedora e solidária, lugar da iniciação cristã, da educação e da celebração da fé, aberta à variedade de carismas, serviços e ministérios, organizada comunitária e responsavelmente, capaz de comprometer os movimentos de apostolado já atuantes, atenta às distintas culturas dos habitantes e aberta aos projetos pastorais e supraparoquiais e às realidades circunstantes". Tem-se revelado eficaz meio de renovação articular a paróquia como "comunidade de comunidades e movimentos". O importante é perceber que ela não é principalmente uma estrutura, um território, um edifício, mas é sobretudo família de Deus e comunidade dos fiéis. Pela sua identidade teológica, enquanto comunidade eucarística, a paróquia constitui uma referência fundamental para todos os fiéis e suas comunidades menores, movimentos e pastorais. Na Eucaristia, encontra-se a raiz viva de sua edificação e o vínculo sacramental de sua comunhão com toda a Igreja.320

 

285.        Nos anos recentes, especialmente diante das grandes paróquias urbanas, caracterizadas por uma baixa prática religiosa e o anonimato dos fiéis, reivindica-se a transformação da paróquia em comunidades de dimensões humanas, possibilitando relações pessoais fraternas. Seja, pois, estimulada tal prática, com a ajuda de novos ministérios confiados aos leigos, e seja incentivada também a formação de comunidades não territoriais, ligadas por interesses culturais ou laços pessoais e espirituais, especialmente nas grandes cidades. Tais comunidades fraternas permaneçam unidas entre si por uma rede de contatos e intercâmbios e recebam o apoio das estruturas mais amplas, paroquiais ou setoriais, segundo o princípio de subsidiariedade, para realizar atividades de aprofundamento e para manter viva a comunhão com a Igreja em seus diversos níveis.

 

286.        Os fiéis leigos podem e devem contribuir grandemente para o crescimento de uma autêntica comunhão eclesial, no seio de suas paróquias, e para o despertar do impulso missionário em ordem aos não crentes e, mesmo, aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a prática da vida cristã.

 

287.        Especial atenção pastoral seja dirigida às populações ou categorias que, por motivo de trabalho, de turismo ou outros, têm grande mobilidade e raramente podem ser atendidas pelas estruturas pastorais dos locais de residência. É necessário prever um acompanhamento tempestivo, ágil e que use de locais e horários adequados às diversas situações.

 

288.        As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) representam uma rica experiência eclesial, seja pela participação do laicato, seja pela criatividade pastoral, seja pelo empenho na transformação social. Elas são "força de evangelização". Entre os desafios das CEBs, hoje, destacam-se:

trabalhar mais com as massas e não se fechar em pequenos grupos

acolher melhor a religiosidade popular e respeitar mais seu universo simbólico, evitando o perigo de um excessivo racionalismo, principalmente por parte dos agentes de pastoral mais intelectualizados

abrir-se criticamente aos novos desafios da cultura urbana, do pluralismo cultural e religioso, da televisão

empenhar-se para que a experiência das CEBs consolide-se e continue acompanhando as mudanças da sociedade

manter uma relação dinâmica entre fé e vida, dando grande atenção à espiritualidade e à inculturação

encorajar a formação de grupos permanentes de reflexão (Círculos Bíblicos ou outros), para fortalecer a fé e dinamizar a atuação

continuar o intercâmbio entre as próprias CEBs e buscar permanentemente a comunhão com o conjunto da Igreja.

 

289.        Os movimentos eclesiais, trazendo a contribuição de seu próprio carisma, integrem-se nas Igrejas particulares, assumindo a evangélica opção preferencial pelos pobres. Valorizem a fé como experiência pessoal, sem esquecer a dimensão comunitária e social. Cuidem da formação de seus membros, pondo sua organização moderna a serviço da evangelização. Procurem seguir as orientações traçadas pelo Papa João Paulo II, tendo em conta que "Os aspectos institucional e carismático são como que co-essenciais à constituição da Igreja e concorram, ainda que de modo diverso, para a sua vida, a sua renovação e a santificação do Povo de Deus. E desta providencial redescoberta da dimensão carismática da Igreja foi que, antes e depois do Concílio, se consolidou uma singular linha de desenvolvimento dos movimentos eclesiais e das novas comunidades"321.

 

290.        Todos, pastores e fiéis, têm a obrigação de favorecer e de alimentar constantemente os vínculos e as relações fraternas de estima, cordialidade e colaboração entre as várias formas agregativas de leigos. Só assim, a riqueza dos dons e dos carismas que o Senhor nos dá pode oferecer sua contribuição fecunda e ordenada para a edificação da casa comum.

 

291.        É necessário valorizar e articular os mecanismos de comunhão e participação em todos os níveis e melhorar a comunicação interna na Igreja para criar um clima de co-responsabilidade. O ideal é uma Igreja em que a busca da comunhão e do diálogo respeita e valoriza a diversidade de dons e vocações de cada pessoa e de cada comunidade. Esses dons e carismas, tanto os mais simples quanto os extraordinários, distribuídos pelo Espírito "a cada um como lhe apraz"322, devem ser acolhidos com alegria e gratidão, por serem úteis para a renovação da Igreja, a nova evangelização e as necessidades do mundo atual323. Compete especialmente à hierarquia o discernimento e a aplicação pastoral dos carismas. Nesse dinamismo de comunhão, cada pessoa e cada grupo eclesial, sem nada perder de sua identidade, disponha-se a partilhar seus dons com os outros e a "caminhar juntos", na direção que o Senhor aponta. Sobre as modalidades concretas da articulação pastoral, o capítulo V oferecerá indicações mais completas.

 

CAPÍTULO V

 

OS EVANGELIZADORES

 

 

Sumário

 

Todos os batizados são evangelizadores

O que as Diretrizes propõem aos evangelizadores?

Cada evangelizador deve questionar-se, à luz das Diretrizes, e rever suas prioridades, sua inserção na Igreja Particular, seu papel específico, a formação de que precisa, sua articulação com o conjunto.

 

1. As responsabilidades da Igreja Particular

A Igreja Particular é o lugar de comunhão e articulação das tarefas e dos agentes da evangelização

Deve promover a reflexão participada, a elaboração de um projeto comum, pesquisa e avaliações, planos de pastoral, organismos permanentes de participação

Deve cuidar da espiritualidade, da formação e da articulação entre todos os agentes.

 

a) Formação

A formação possibilita capacidade de "dar conta da própria esperança", conhecimento adequado da realidade, capacidade de comunicar, realizar e avaliar.

b) Articulação

É uma necessidade, particularmente sentida hoje, num contexto de especialização e fragmentação

A evangelização constitui seu eixo unificador

Envolve especialmente as exigências ou dimensões da evangelização

    Tem por princípios: a variedade-complementaridade das vocações, a autonomia, a subsidiariedade e a participação responsável

 

2. Exigências específicas

a) Leigos

São protagonistas da evangelização inculturada no mundo de hoje

Necessitam da consciência de serem sujeitos da evangelização, de formação adequada e de espiritualidade profunda

Têm diversas vocações e campos de atuação, dentro da missão comum

Os leigos precisam de organismos permanentes de participação, justa autonomia.

 

b) Vida Consagrada

Evangeliza pela sua própria existência e entrega radical ao seguimento de Cristo

Na ação pastoral assume um papel pioneiro de renovação

Deve aprofundar sua disponibilidade missionária em ligação com a Igreja Particular e seu empenho na formação de leigos.

c) Ministério ordenado

É o elo visível de ligação entre as diversas categorias do povo de Deus

Tem papel decisivo para impulsionar a Igreja local para a evangelização

Espera-se dele um especial esforço no desempenho de sua missão e na animação da comunidade evangelizadora

Deve estar prioritariamente ao serviço do "sacerdócio comum" dos fiéis

Para isso, precisa de formação permanente e de profunda espiritualidade, numa perspectiva missionária.

 

3. Espiritualidade dos Evangelizadores

Exigência de uma espiritualidade capaz de dar conta da esperança do evangelizador, de uma mística que o torne capaz de entregar a vida pela causa do Reino

Para isso, o evangelizador deverá cultivar os fundamentos da espiritualidade cristã e desenvolver especialmente as características de uma espiritualidade da nossa época.

 

Conclusão

 

 

292.        Jesus Cristo continua sua missão evangelizadora pela força do Espírito Santo, o "agente principal da Evangelização"324, que suscita e inspira a ação da Igreja. A Igreja universal é o sujeito por excelência da missão. Todo o povo santo de Deus é por Cristo "assumido como instrumento de redenção de todos e enviado ao mundo inteiro"325. A ação do Povo de Deus manifesta-se e concretiza-se em cada Igreja Particular, onde atuam, de forma diferenciada e corresponsável, leigos e leigas, ministros ordenados, consagradas e consagrados.

 

293.        Todos os batizados, seguidores de Jesus evangelizador, são chamados a tornarem-se, por sua vez, evangelizadores. Por graça e ação do Espírito Santo, "Cristo a uns concedeu ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo"326. No entanto, "evangelizar não é, para quem quer que seja, um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial", a ser exercido em "união com a missão da Igreja e em nome da mesma"327.

 

294.        A Igreja do Brasil, consciente de sua missão evangelizadora (cap. II), considerando as atuais mudanças da sociedade (cap. III), procurou formular novas Diretrizes para sua ação pastoral (cap. IV). O que as Diretrizes exigem dos evangelizadores? O quinto e último capítulo quer responder a essa questão.

 

295.        Cada evangelizador coloque a si mesmo essa questão, buscando conformar sua vida e sua ação aos apelos do Espírito. Cada evangelizador pergunte-se à luz dos novos desafios e das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil:

quais são as novas prioridades que devo assumir?

quais, conseqüentemente, as tarefas menos urgentes ou relevantes, que posso deixar?

onde a Igreja local quer que eu invista minha generosidade e minha competência?

qual é o papel específico que me cabe como leigo ou leiga, consagrado ou consagrada, agente de pastoral, diácono, presbítero, bispo?

qual é a formação ou a atualização de que preciso para desempenhar minha missão com a dedicação e competência que os outros esperam?

como articular melhor meu esforço pessoal com o dos meus irmãos, colegas, companheiros, com minha comunidade, congregação, Diocese?

 

 

1. As responsabilidades da Igreja Particular

 

296.        A Igreja, toda ela missionária, encarna-se de fato na Igreja Particular e nela concretiza a sua ação evangelizadora. É nela que a evangelização entra na história de um lugar, de um povo e de uma cultura. Por sua vez, a Igreja Particular, nascida da missão evangelizadora, torna-se missionária e educa os batizados a tornarem-se evangelizadores, seja de seus irmãos mais próximos, seja no serviço da missão "além-fronteiras", de outros povos ou culturas. Nela a diversidade de vocações, carismas e ministérios coloca-se a serviço da evangelização. Na prática, isso significa que ela deve converter-se num lugar de Comunhão e Participação dos agentes e das tarefas pastorais, para conseguir a união na diversidade e promover a realização de um projeto comum. A serviço desse projeto, ela oferecerá aos evangelizadores condições de formação atualizada, de articulação das responsabilidades e tarefas, de desenvolvimento de uma espiritualidade ou mística da evangelização.

a) Formação

 

297.        A formação dos evangelizadores, hoje tão solicitada, tem como centro e fonte de dinamismo o mistério de Cristo e exige principalmente:

a) capacidade de "dar conta da própria esperança". Por isso é necessária uma formação específica quanto aos conteúdos fundamentais da fé e da moral católicas, que ajude a compreender e a explicitar melhor a vivência do mistério cristão, que fez surgir a vocação do evangelizador. Referência privilegiada dessa formação será o novo Catecismo da Igreja Católica

b) conhecimento adequado da realidade, sem aceitar o puro empirismo e nem as falsas certezas. Seria útil que cada evangelizador ou comunidade conhecesse de maneira concreta pessoas e grupos aos quais se dirige: que inquietações sentem; que instâncias congregam as pessoas e influenciam suas vidas; como encarnam os valores evangélicos (gratuidade, solidariedade, fé, perdão, partilha, entrega da vida, ...); como expressam sua experiência religiosa...

c) capacidade de comunicar, tanto em nível pessoal como através dos meios, sempre mais numerosos, que a cultura atual põe a disposição dos evangelizadores

d) capacidade de avaliar e mudar, para poder medir os efeitos da ação evangelizadora e reorientar os rumos, quando oportuno.

 

298.        Além disso, é preciso que a formação dos evangelizadores satisfaça às exigências específicas de cada categoria do Povo de Deus.

 

299.        Com relação aos conteúdos e métodos da formação específica, será preciso distinguir grupos diferentes segundo as situações pessoais, a participação na Igreja, a função na sociedade. Para isso, a Igreja Particular procurará: contar com a orientação de especialistas experientes; valer-se dos meios humanos adequados, inclusive daqueles oferecidos pelas ciências sociais; criar adequados organismos de estudo e pesquisa; realizar maiores investimentos, inclusive financeiros, na formação de lideranças; retomar, com novo vigor, a formação nos movimentos de juventude.

 

300.        Um programa de formação sistemática, tendo por objetivo o revigoramento da fé e do testemunho de todos os fiéis católicos, foi promovido, conforme orientações da Assembléia dos Bispos, com base nas sugestões do Papa João Paulo II, para a preparação do Jubileu do ano 2000. Ele deverá ter continuidade, após os Jubileu do ano 2000, em novos programas, que levem em conta as experiências bem sucedidas, particularmente no campo bíblico-catequético e litúrgico.

 

 

b) Articulação

 

301.        A articulação é uma necessidade hoje muito sentida, diante da tendência à segmentação, especialização e fragmentação, que atingem tanto a sociedade e a cultura em geral quanto a evangelização e a pastoral. A articulação não visa criar relações de subordinação de certas atividades a outras ou uniformidade na ação, mas a estabelecer uma efetiva comunicação entre os interlocutores, que permita o intercâmbio de informações e, eventualmente, através do diálogo, a elaboração de um consenso. Respeita a pluralidade, mas evita o isolamento. Cria o que, na linguagem atual, é chamado de "rede". Do ponto de vista prático, evita falhas desnecessárias: visão estreita das responsabilidades da missão; acúmulo de trabalhos em poucos agentes; repetição e desperdício por um lado e tarefas não atendidas por outro; preocupação com o imediato em prejuízo do importante... Do ponto de vista teológico e eclesial, a articulação é, também, um testemunho de comunhão e participação.

 

302.        A missão evangelizadora é o objetivo de toda a ação eclesial e, portanto, seu eixo unificador. Organismos e agregações, conforme seus próprios dons e carismas, têm na missão um critério essencial para a programação, execução e avaliação das suas atividades. Esse é, também, o critério de articulação entre os diversos evangelizadores e organismos que os congregam. Um aspecto especial da articulação refere-se às exigências e dimensões da evangelização: elas devem ser entendidas e realizadas como um conjunto e não como atividades isoladas.

 

303.        Seguindo as Diretrizes328 anteriores, reafirmamos como úteis para a articulação os seguintes princípios:

a) o da variedade-complementaridade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades, como num corpo vivo, onde se realiza a "comunhão orgânica" entre seus membros329

b) o da autonomia, que garante a cada um dos membros do corpo eclesial o direito a cultivar a própria identidade e o próprio carisma, evitando o nivelamento

c) o da subsidiariedade, que atribui às pessoas e às comunidades intermédias a maior autonomia possível, em tudo o que elas podem fazer, sem recurso a níveis superiores a não ser quando necessário. A aplicação desse princípio exige a descentralização da organização e, em muitos casos, uma redistribuição de tarefas e responsabilidades

d) o da participação responsável, que pretende envolver o maior número possível de interessados na reflexão, decisão, execução e avaliação. Ao mesmo tempo, a participação exige uma definição clara das competências e responsabilidades.

 

304.        Com vista a uma efetiva articulação, sugerem-se algumas ações concretas, em nível de Diocese, setor ou paróquia:

a) realizar reflexões em comum com os agentes

b) apontar os rumos específicos para a evangelização na realidade concreta

c) estabelecer temas e prioridades de interesses comum

d) avaliar a caminhada, promovendo pesquisas sobre a realidade local, fazendo a crítica, atualização e adaptação necessárias

e) realizar Assembléias ou Sínodos diocesanos, que suscitem um processo amplo de avaliação e planejamento

f)  elaborar Planos de Pastoral, que orientem a tarefa comum e facilitem a avaliação

g) criar mecanismos de participação, onde os leigos, e entre eles mulheres e jovens, tenham possibilidade de apresentar, conhecer, estudar e refletir os problemas da evangelização e exercer a sua iniciativa

h) estabelecer Conselhos ou Comissões permanentes e realizar Assembléias periódicas para garantir a continuidade da ação pastoral e da vida comunitária

i)  buscar os meios adequados para a formação necessária e a sustentação de uma espiritualidade missionária

j)  garantir a necessária renovação dos ministérios.

 

305.        Promova-se, em particular, a formação de Conselhos Diocesanos de Leigos e sua articulação com os Conselhos regionais e nacional "em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de encontro, diálogo e serviço, que contribuam para o fortalecimento da unidade, da espiritualidade, da organização do laicato"330. A Igrejas Particulares cuidem para que as organizações de leigos "não esgotem seus esforços apenas no cuidado de sua própria formação e espiritualidade, mas se voltem para o vasto campo do mundo dos afastados, dos católicos não-praticantes, dos excluídos da sociedade, abrindo seu coração à caridade e, mesmo, abrindo novos campos de promoção humana e de missão no mundo"331.

 

306.        A Igreja Particular promova momentos ou eventos em que se expressem mais visivelmente a comunhão e o compromisso com a evangelização de todos, e todos possam reconhecer melhor os dons de cada um.

 

307.        A Igreja Particular alimenta a comunhão eclesial, articulando-se com as demais Igrejas do Regional, com a Igreja no Brasil e no mundo, procurando permanentemente reforçar os vínculos de comunhão e contribuir, segundo seus recursos, mesmo com sacrifícios generosos, para a missão universal e a ajuda a Igrejas-Irmãs particularmente carentes.

 

308.        Na Igreja Particular compete ao Bispo a responsabilidade principal pela articulação da tarefa evangelizadora. Antes de tudo, ele, pessoalmente, seja testemunha do espírito evangélico e da tradição apostólica, pois é elo de comunhão e sinal de unidade da sua Igreja diocesana. Assuma, com zelo, a tarefa de incentivar e coordenar a ação evangelizadora, a ser realizada com a participação de toda a comunidade eclesial, com suas forças vivas e os diversos carismas que lhe foram concedidos. O Bispo dedique particular empenho à animação do seu presbitério, que lhe está estritamente associado no governo da Diocese332, sem deixar de exortar todos os seus fiéis à ação apostólica e missionária333.

 

 

2. Exigências específicas

 

a) Leigos

 

309.        "A doutrina do Concílio Vaticano II sobre a unidade da Igreja, como Povo de Deus reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, destaca que são comuns à dignidade de todos os batizados a imitação e o seguimento de Cristo, a comunhão recíproca e o mandato missionário"334. É necessário, portanto, que os fiéis leigos conscientizem-se de sua dignidade de batizados e de evangelizadores. Por seu lado, os Pastores tenham profunda estima "pelo testemunho e pela ação evangelizadora dos leigos que, inseridos no Povo de Deus com espiritualidade de comunhão, conduzem os irmãos ao encontro com Jesus Cristo vivo. A renovação da Igreja na América não será possível sem a presença ativa dos leigos. Por isso, compete-lhes, em grande parte, a responsabilidade do futuro da Igreja"335.

 

310.        "Duplo é o âmbito em que se realiza a vocação dos fiéis leigos. O primeiro, e mais condizente com o seu estado laical, é o das realidades temporais, que são chamados a ordenar conforme a vontade de Deus. De fato, com seu peculiar modo de agir, levam o Evangelho para dentro das estruturas do mundo e, "agindo em toda parte santamente, consagram a Deus o próprio mundo"336. Graças aos fiéis leigos, "a presença e a missão da Igreja no mundo realiza-se, de modo especial, na variedade dos carismas e ministérios que possui o laicato. A secularidade é a nota característica e própria do leigo e da sua espiritualidade, que o leva a agir nos vários âmbitos da vida familiar, social, profissional, cultural e política, em vista de sua evangelização. Num Continente em que convivem a competição e a agressividade, o consumo desenfreado e a corrupção, os leigos são chamados a encarnar valores profundamente evangélicos como a misericórdia, o perdão, a honestidade, a transparência de coração e a paciência em situações difíceis. Dos leigos espera-se uma grande força criadora, em gestos e obras que manifestem uma vida coerente com o Evangelho"337.

 

311.        Com o Santo Padre e com o Sínodo para a América, destacamos a necessidade de formar homens e mulheres para atuarem na vida pública, visando o bem comum e o desempenho de cargos de dirigentes na sociedade. Eles podem encontrar o caminho de sua santificação no exercício da política. Eles devem conhecer mais profundamente a Doutrina Social da Igreja e testemunhar os princípios éticos e os valores morais cristãos338.

 

312.        Um segundo âmbito no qual muitos fiéis leigos são chamados a trabalhar, é aquele que se poderia definir "intra-eclesial". São muitos os leigos na América que nutrem a legítima aspiração de contribuir com seus talentos e carismas "na construção da comunidade eclesial, como delegados da Palavra, catequistas, visitadores de enfermos ou de encarcerados, animadores de grupos etc." O Papa, na recente Exortação Ecclesia in America, recorda o desejo dos Bispos de reconhecer "algumas destas tarefas como ministérios laicais, baseados nos sacramentos do Batismo e da Confirmação, ressalvada porém a especificidade própria dos ministérios do Sacramento da Ordem"339 . É o que procuramos fazer na 36ª e 37ª Assembléias Gerais da CNBB, dentro das orientações estabelecidas pelo Concílio Vaticano II e pelo Santo Padre, num documento que oferecemos a leigos e leigas e a todos na Igreja, para que seja acolhido, meditado e torne-se inspirador de novas e mais generosas formas de ação340.

 

313.        Em tudo isso — missão dos leigos no mundo e ministérios eclesiais — foi nossa preocupação manter firmemente unidos os dois aspectos da variedade das vocações e da unidade da missão. Pois não há uma vocação leiga única. Os dons e carismas do Espírito e a diversidade de situações que a realidade apresenta criam também uma grande diversidade de apelos e respostas. Poderíamos distinguir quatro campos nos quais se desenvolvem as vocações leigas: o amplo campo do serviço de transformação da sociedade, da assistência aos pobres, da promoção social e dos direitos humanos, da justiça e da política; o campo do diálogo religioso e da colaboração com pessoas de outras religiões ou credos; o campo do anúncio missionário de Jesus Cristo, tanto entre os que não o conhecem quanto entre os que o esqueceram ou nunca o conheceram suficientemente; e o campo dos ministérios e serviços para a construção e sustentação da vida da comunidade cristã. Nas diversas vocações, porém, deve transparecer claramente a única missão evangelizadora341.

 

314.        Especial menção merece a tarefa evangelizadora das mulheres e dos jovens. De fato, exercem responsabilidades significativas a serviço da evangelização, como catequese, educação, animação de comunidades, associações de bairro, entidades estudantis, sindicatos, política, ecumenismo, defesa da ecologia e cultura. Apreciamos os avanços acontecidos e insistimos na necessidade de continuar esse processo para que a ação evangelizadora seja mais plenamente evangélica. Santo Domingo propõe que "a opção preferencial pelos jovens" aconteça "não só de modo afetivo, mas também efetivamente"342, e que se aceitem e valorizem as mulheres na comunidade eclesial "não só pelo que elas fazem, mas sobretudo pelo que elas são"343. Em nossas comunidades dedique-se atenção especial aos jovens, à Pastoral da Juventude, às Pastorais Específicas da Juventude e à Pastoral da Mulher.

 

315.        Prestemos, ainda, atenção particular a um fato que o Papa João Paulo II reconheceu recentemente como "um dos frutos mais significativos daquela primavera da Igreja já prenunciada pelo Concílio Vaticano II"344. Trata-se dos Movimentos Eclesiais, que o Papa descreve como "novas formas de vida comunitária, que são expressão de uma multiforme variedade de carismas, métodos educativos, modalidades e finalidades apostólicas" e que se caracterizam como "uma realidade eclesial de participação prevalentemente laical, um itinerário de fé e de testemunho cristão que funda seu próprio método pedagógico sobre um carisma preciso, dado à pessoa do fundador em circunstâncias e modos determinados"345. Esses movimentos, cujos fundadores são muitas vezes leigos ou leigas, e onde há uma integração efetiva de leigos, religiosos e ministros ordenados, realizam sua missão não se distanciando, mas se inserindo na pastoral de conjunto da Igreja local. Pois não há missão sem comunhão e a missão tem, como sujeito principal, a Igreja Particular346. Por outro lado, os Movimentos podem enriquecer a Igreja Particular de novos carismas e, especialmente, de uma nova capacidade de estar presente no coração da sociedade e de evangelizar.

 

316.        A ação evangelizadora dos leigos implica no aprofundamento de sua identidade e missão específica, através de uma adequada formação, assim como na sua articulação e organização em Conselhos. Entre os critérios da formação, o Papa destaca: "Formar leigos significa favorecer-lhes a aquisição de verdadeira competência e habilitação no campo em que devem atuar; mas significa, sobretudo, educá-los na fé e no conhecimento da doutrina da Igreja naquele campo"347.

 

317.        Concretamente, é oportuno que a formação dos leigos:

a) seja programada e sistemática, não apenas ocasional

b) ligue o aspecto antropológico e o teológico, não sendo apenas uma reprodução empobrecida da teologia dos seminários

c) seja integrada e tenha como ponto de partida os problemas e perguntas dos leigos, oferecendo-lhes respostas para uma presença cristã no mundo

d) seja orientada predominantemente para a atuação nas transformações sociais, onde o testemunho dos leigos é especialmente qualificado

e) desenvolva especialmente a capacidade de comunicação e diálogo, aprimorando o relacionamento humano

f)  seja diversificada e, nos seus métodos, tempos e conteúdos, seja adaptada à diversidade de situações e tarefas dos cristãos leigos. Especial atenção merece a formação dos cristãos que atuam no campo da vida pública e política.

 

318.        É preciso ajudar os leigos na busca de uma espiritualidade autenticamente evangélica e missionária, que supere o mero devocionismo, para sustentá-los em sua atuação humana e cristã na família, no trabalho, na sociedade, na vida quotidiana e nas diversas formas de apostolado e evangelização. A espiritualidade dos leigos alimenta-se nas fontes de toda espiritualidade cristã: a Palavra, a Liturgia, a Comunhão eclesial. Mas ela procura especialmente a união da fé e da vida. Os leigos encontram-se num lugar central no diálogo entre Deus e o mundo. Daí que a união com Deus, a oração, a vivência comunitária e o compromisso no mundo — como serviço, diálogo e anúncio — revestem-se para os leigos de um acento especial.

 

 

b) Vida consagrada

 

319.        A Vida Consagrada, em suas diversas formas, tanto apostólica como contemplativa e monástica, já é evangelizadora pela sua própria existência, pois vive radicalmente a experiência cristã e testemunha a entrega total no seguimento de Cristo. Por sua disponibilidade ao serviço do Evangelho, ela tem também condições de assumir um papel pioneiro na renovação pastoral, buscando iniciativas inovadoras. Dela espera-se, hoje, um empenho especial na linha da evangelização inculturada.

 

320.        Além das tarefas tradicionais nas áreas da educação, saúde e obras de caridade, nos últimos anos a Vida Consagrada descobriu novos campos para a tarefa pastoral, novas maneiras de viver em comunidades inseridas e de animação das comunidades eclesiais de base e das pastorais específicas. Nesse processo, a Vida Consagrada tem-se renovado também por dentro, aprofundando sua consagração a Deus na vivência dos conselhos evangélicos. Esse é, sem dúvida, o melhor serviço que ela presta ao Povo de Deus. Com efeito, sua "força pastoral" lhe vem sobretudo do fato de ser expressão do seguimento de Cristo no meio do Povo de Deus e sinal de esperança para ele348.

 

321.        Outras exigências para a Vida Consagrada decorrem das novas situações e diretrizes pastorais:

incentivar a disponibilidade para a missão "além-fronteiras" e em campos de "fronteira" (intelectuais, universidade, comunicação, ação social...)

empenhar-se na formação dos leigos e ministros, contribuindo assim para responder a um dos pedidos mais freqüentes e urgentes das Igrejas locais

aprofundar a ligação com a Igreja Particular e suas opções pastorais, pois esta é o lugar onde adquirem concretude histórica os carismas específicos. O Papa João Paulo II disse aos Superiores Gerais349: "A vossa vocação à Igreja Universal realiza-se dentro das estruturas da Igreja local... A unidade com a Igreja universal, através da Igreja local: eis o vosso caminho".

 

322.        A Vida Consagrada e os Institutos religiosos são chamados à renovação reclamada pelas mudanças da sociedade e pelas exigências da nova evangelização. A serviço dessa renovação, a Vida Religiosa, além das iniciativas específicas dos respectivos Institutos, conta com o vasto serviço da Conferência dos Religiosos do Brasil e com inúmeras iniciativas intercongregacionais de formação inicial e de formação permanente350.

 

 

c) Ministério ordenado

 

323.        Compete ao ministério ordenado unir as diversas categorias do Povo de Deus, na Igreja Particular. "Sua vocação requer que ele seja sinal de unidade".351 Pela sua autoridade e função peculiar, instituídas por Cristo, o ministério ordenado é decisivo para imprimir elã missionário à Igreja Particular. Mal exercido pode — eventualmente — prejudicar seu dinamismo missionário. Por isso, nesse momento, a Igreja no Brasil espera dos ministros ordenados um esforço muito especial em aprimorar o exercício do seu ministério.

 

324.        Exigências desse aprimoramento são:

a caridade pastoral

É preciso intensificar a vivência da "caridade pastoral", que assume — como núcleo da identidade ministerial e da própria vida — a missão evangelizadora e o cuidado pastoral por todos e cada um dos irmãos, e que anima a entrega pessoal e o serviço da comunidade.

 

325.        Quanto à espiritualidade presbiteral, além das orientações fundamentais da Pastores Dabo Vobis352 e do Diretório para o Ministério e a Vida do Presbítero353, levem-se em conta as acentuações necessárias no contexto brasileiro atual, nacional e local. A encarnação do presbítero na vida do povo e a solidariedade com suas causas são exigências fundamentais de uma espiritualidade baseada na "identificação com Cristo Pastor e Servo de seus irmãos"354.

O múnus de pastor não se reduz ao cuidado individual dos fiéis, mas abarca, como tarefa própria, a formação de uma autêntica comunidade cristã, que tem por raiz e centro a celebração da Eucaristia, impulso para as obras de caridade e auxílio mútuo, para a ação missionária e para as várias formas de testemunho cristão355. É o que reafirma a recente Exortação do Papa após o Sínodo para a América: "(A) paróquia renovada requer uma figura de pastor que, sobretudo, cultive uma profunda experiência de Cristo vivo, com espírito missionário, coração paterno, que seja animador da vida espiritual e evangelizador, capaz de promover a renovação"356.

 

326.        a colegialidade e a corresponsabilidade pastoral

O Presbitério constitui o ambiente propício para a vivência fraterna, a periodização e distribuição das tarefas pastorais e o cuidado pelo irmão.

 

327.        O ministério ordenado necessita recuperar sua vivência colegial. O Concílio Vaticano II redescobriu a natureza comunitária do ministério ordenado. Essa "comunhão ministerial" deve ser vivenciada, afetiva e efetivamente em todos os graus do ministério: na colegialidade episcopal e na corresponsabilidade presbiteral no interior de cada Igreja Particular. A forma individualista do exercício do ministério ordenado, além de ser uma traição à sua própria essência, é um dos principais entraves à realização de uma Igreja toda ela responsável pela missão.

 

328.        O presbítero é, antes de tudo, membro de um presbitério e somente em comunhão com ele pode exercer sua tarefa específica. Ao presbitério como um todo, presidido pelo Bispo, e não aos presbíteros separadamente, é confiado o pastoreio da Igreja Particular. Isso não isenta ninguém de sua responsabilidade pessoal. A ação pastoral do presbitério deve ser vivida como expressão de solidariedade fraterna, na qual todos se sentem corresponsáveis pela tarefa comum e, ainda mais, pela vida e ministério de cada um dos irmãos presbíteros. "O ministério ordenado tem uma radical 'forma comunitária' e pode ser assumido apenas como 'obra coletiva'"357.

 

329.        qualidade do ministério e autenticidade do testemunho

Na atual conjuntura, procure o presbítero, antes de tudo, a qualidade do seu ministério e a autenticidade do seu testemunho, e sinta-se corresponsável pela qualidade do serviço pastoral e do testemunho do presbitério como um todo.

 

330.        Para conseguir essas metas, o presbítero deve seriamente rever as prioridades de seu ministério, evitando a sobrecarga com tarefas burocráticas ou secundárias, descentralizando os serviços que podem ser confiados a outros agentes de pastoral.

 

331.        O ministério ordenado está a serviço do "sacerdócio comum" dos fiéis358. Tarefa básica do ministério pastoral é contribuir para a edificação da comunidade cristã, toda ela missionária, onde os fiéis leigos possam alcançar a maturidade cristã359 e tenham liberdade de ação e de iniciativa360.

 

332.        Por isso suas prioridades são:

a formação dos leigos, com vista à sua atuação como protagonistas da evangelização

a animação da espiritualidade dos mesmos, que tem suas fontes na Palavra de Deus e na liturgia da Igreja

a garantia da autenticidade e apostolicidade da vida e ação dos cristãos.

 

333.        Uma melhor distribuição das tarefas do ministério presbiteral realiza-se em dois níveis:

1) dentro do próprio presbitério, procurando que os presbíteros, na medida do possível, além ou em lugar da responsabilidade por uma paróquia ou conjunto de comunidades, assumam tarefas especializadas a serviço de outros colegas ou de toda a Diocese, valorizando dons pessoais ou carismas de cada um

2) dentro da própria comunidade ou paróquia, entregando com confiança a agentes de pastoral ou ministros leigos as tarefas que lhes convêm e que não são exclusivas do ministério presbiteral, e respeitando a iniciativa e a justa autonomia de todos os que se entregarem ao serviço do Evangelho. Será oportuno promover um intenso e constante diálogo entre padres e leigos, para enriquecimento mútuo da espiritualidade e da capacidade de trabalhar pastoralmente. Em certos casos, poderá ser oportuno constituir equipes integradas de padres, leigos e outros agentes de pastoral.

 

334.        abertura e interesse para um processo de formação continuada ou permanente

A formação permanente é um processo que acompanha o presbítero em toda a sua existência; os próprios presbíteros sejam sujeitos desse processo que deve: contemplar as dimensões humana, afetiva, espiritual, teológica e pastoral; respeitar a diversidade cultural; favorecer o desenvolvimento dos carismas pessoais a serviço da missão; garantir uma qualificação especializada segundo os vários campos da pastoral, em especial a pastoral urbana; contar com investimentos específicos por parte das Dioceses e Institutos Religiosos; envolver os Seminários Maiores e os Institutos de Teologia em sua execução361.

 

335.        Os diáconos permanentes, nas Dioceses onde exercem o seu ministério, contribuem de maneira significativa para a tarefa da evangelização. Há que reconhecer o amplo campo de seu serviço, a geração de uma "cultura de solidariedade, fundamentada no testemunho de comunhão e caridade"362. Para o melhor desempenho dessa tarefa, a Igreja espera que cresça seu número e que eles se empenhem cada vez mais na evangelização. Precisam, também eles, como todos os ministros ordenados, aprofundar a vivência da espiritualidade cristã, fortalecer seu compromisso evangelizador, aprimorar sua formação teológica e pastoral, e viver seu compromisso com o serviço à comunidade. É necessário grande empenho de Bispos e presbíteros para a articulação dos diáconos permanentes com o presbitério363.

 

 

3. Espiritualidade dos Evangelizadores

 

336.        A exigência maior para cada evangelizador é de viver uma espiritualidade sólida e capaz de dar conta da própria esperança364. Só uma espiritualidade firme pode dar sustentação ao testemunho cristão, especialmente se levarmos em conta que a cultura atual aprecia a religiosidade e os valores espirituais, mas numa perspectiva fortemente individualista e subjetivista, e tende a atribuir o mesmo valor às várias opções religiosas.

 

337.        Do evangelizador exige-se uma profunda mística cristã e missionária, que tenha força para envolvê-lo totalmente, ajudando-o a renovar as expressões do anúncio, o ardor evangélico e a busca de novos métodos. Mística que o auxilie a sintetizar as coisas do coração e da razão, tornando-o capaz de entregar a vida toda pela causa do Reino, a exemplo de Jesus, como prova maior de seu amor ao Pai e a seus irmãos. Mística que lhe dê coragem e audácia para exercer sua insubstituível missão de profeta e homem de Deus hoje.

 

338.        O evangelizador, portanto, viverá e cultivará a espiritualidade autenticamente cristã, que tem seus fundamentos na Palavra de Deus e na Eucaristia, nas celebrações dos mistérios de Deus, na vida comunitária e no serviço ao mundo. Alguns aspectos são particularmente relevantes:

 

339.        Deixar-se conduzir pelo Espírito, capaz de transformar tímidos discípulos em testemunhas corajosos, atentos aos "sinais" da presença do Reino em ação365. A docilidade ao Espírito exige do evangelizador contínua revisão de vida, para que suas atitudes correspondam aos apelos que lhe chegam da realidade.

 

340.        Viver em íntima comunhão com Cristo366. Enviado para evangelizar, o Filho de Deus despoja-se de si mesmo, renuncia a projetos humanos e dedica-se totalmente ao projeto do Pai. A comunhão com Cristo, diariamente cultivada, exige hoje do evangelizador um processo contínuo de conversão para assumir, com generosidade e alegria, o projeto de uma evangelização inculturada. Esse processo exige-lhe renúncia a projetos particulares, colocando sua realização pessoal na doação de si pela causa do Reino.

 

341.        Abrir-se a uma profunda sensibilidade com a maneira de ser do nosso povo, em sua fé, de modo especial, em sua piedade mariana. Para o evangelizador, a Virgem Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, a mais perfeita discípula, é o modelo de todos os discípulos e evangelizadores. É exemplo, por seu testemunho de oração, de escuta da Palavra de Deus, de pronta e fiel disponibilidade ao serviço do Reino até à cruz. Ela nos precede na peregrinação da fé e no caminho da glória, até que nos encontremos definitivamente com o seu Filho. Por isso é a Estrela da primeira e da nova evangelização367.

 

342.        Pautar-se por uma profunda caridade apostólica. Percorrer o caminho de Jesus como evangelizador hoje leva-nos a descobri-lo como servo de todos368, numa atitude de abertura e de diálogo369, anunciando a Boa-Nova do Reino370, vivendo em íntima comunhão com o Pai e com os discípulos371, com eles celebrando a ação de graças e de louvor ao Pai372. Essa caridade apostólica é "feita de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos problemas da gente"373.

 

343.        Abraçar uma atitude missionária que, vencendo o comodismo e o medo, anuncia explicitamente Jesus Cristo e seu Reino. Esse anúncio explícito insere-se no meio da vida das pessoas e dos grupos e leva muito em conta as culturas. O esforço para realizar a inculturação é sinal de um amor semelhante ao que levou o Filho de Deus a se encarnar e assumir a nossa história.

 

344.        Cultivar uma atitude de fortaleza e perseverança diante das perplexidades, adversidades e conflitos. Essa atitude é fruto da esperança a que somos chamados, e está fundada nas promessas do Senhor e não em nossos projetos. Não pode ser confundida com fundamentalismo, fanatismo ou teimosia.

 

345.        Desenvolver uma atitude de criatividade e coragem para propor novos caminhos. Há valores e brechas na mentalidade moderna que favorecem as propostas evangélicas. É preciso descobrir as aberturas do coração humano e seus anseios como, por exemplo, daqueles que estão à procura de solidariedade, de paz, de novas relações com a natureza, de defesa dos direitos humanos, das minorias, da mulher...

 

346.        Abrir-se para uma atitude de acolhida do outro, em especial de quem pertence a tradições religiosas e culturais diferentes. A acolhida refere-se especialmente às suas experiências espirituais mais profundas. Essa atitude está alicerçada num espírito de tolerância e respeito e realiza-se mediante o diálogo aberto, que valoriza a experiência do outro e o ajuda na sua busca, sem julgar nem condenar nem impor.

 

347.        Assumir uma atitude de misericórdia, daquela misericórdia do próprio Deus, que encontrou a sua expressão mais alta nas atitudes de Jesus para com pobres, aflitos e pecadores, para com todos os crucificados dessa terra, que o evangelizador amará como os preferidos de Deus e ajudará a tornar-se eles mesmos evangelizadores, a partir de sua experiência do sofrimento e da paixão de Cristo.

 

348.        Participar generosa e alegremente na vida e na missão da comunidade, sinal e germe do Reino, vencendo os perigos do individualismo e do fechamento em grupos restritos. Testemunho particularmente válido hoje é a comunidade solidária e alegre, imagem e início da comunhão com a Trindade Santa. A comunhão eclesial requer também o reconhecimento da legítima pluralidade das formas de organização e de espiritualidade dos fiéis374.

 

349.        Em resumo, o evangelizador de hoje deve ser um santo, cheio de ardor missionário375; seu zelo "brote de uma verdadeira santidade de vida, alimentada pela oração e, sobretudo, pelo amor à Eucaristia"376. Assim, imitar-se-ão tantos exemplos de fidelidade do passado e alongar-se-á o martirológio, segundo a sugestão do Papa377.

 

 

CONCLUSÃO

 

 

350.        As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora são uma resposta da Igreja, no Brasil, aos desafios de sua missão, que é EVANGELIZAR.

 

351.        Mais que as anteriores, estas Diretrizes foram pensadas e formuladas fazendo da EVANGELIZAÇÃO a prioridade real e o eixo central da ação da Igreja, procurando assim atender aos apelos missionários da Redemptoris Missio, da IV Conferência Geral do Episcopado Latino Americano em Santo Domingo, dos Congressos missionários latino-americanos e do Sínodo para a América. A própria ação pastoral, entendida como cuidado das comunidades cristãs já sólidas e maduras378, foi orientada para a formação de evangelizadores e, de certo modo, subordinada à missão de anunciar o Evangelho e de testemunhá-lo diante daqueles que não estão vitalmente inseridos na comunidade eclesial.

 

352.        A NOVA EVANGELIZAÇÃO, como sabemos, precisa ser nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão379. A complexidade e a mobilidade da sociedade atual impõem-nos esforço redobrado de compreensão das aspirações dos homens e mulheres de hoje e um empenho generoso e firme no anúncio da boa nova evangélica. Essa preocupação anima nossas Diretrizes e apresenta-se a nós como um grande desafio.

 

353.        Temos certeza de que poderemos responder a esse desafio, unindo ao empenho generoso e à lucidez do olhar, a disposição de procurar a colaboração de todos, especialmente dos que buscam conosco os valores da verdade, da liberdade e da justiça. Confiamos principalmente na docilidade ao ESPÍRITO, PROTAGONISTA DA EVANGELIZAÇÃO, ao qual renovamos o nosso pedido, pela intercessão de Maria, Mãe da Igreja, do dom do discernimento, para que nossos planos humanos não se afastem do coração de Deus e realizem sua vontade de vida plena para todos.

 

 

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br